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os compadres

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Published by: Lena Salvação Barreto on Apr 25, 2010
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“Os Compadres” Versão adaptada da história de Adolfo Coelho publicada em 1879 Há muito, muito tempo viveram dois homens

que eram compadres. Um chamava-se Egídio e era muito, muito rico. Já o outro era muito, muito pobre e chamava-se Anacleto. Num certo dia de Inverno, mas solarengo, o compadre rico foi visitar o compadre pobre e, logo que entrou em casa deste, perguntou: - Olá compadre Anacleto a comadre está em casa? Queria falar-lhe acerca da apanha dos míscaros deste ano… - Mas não há problema. Eu encontro já uma maneira de a chamar – disse o compadre pobre, pois tinha uma boa partida para lhe pregar. - Vou mandar-lhe um coelhinho cá dos meus. Quando ela o vir, vai saber que é o sinal para voltar para casa. - E os cães? Se o vêem, comem-no! – Exclamou o compadre rico, muito espantado com aquela solução absolutamente invulgar. - Não se preocupe compadre Egídio. O coelho vai voltar inteirinho, sem uma única arranhadela. Na verdade, o compadre pobre tinha dois coelhos iguais. Soltou um e o outro ficou bem guardado. E, além disso, a mulher dele estava escondida atrás da porta a escutar a conversa… Pouco depois, entra a comadre com um coelho ao colo. Sem acreditar naquilo que os seus olhos viam, o compadre Egídio perguntou: - Como é que o compadre Anacleto conseguiu de fazer isto? - Sabe como é, treino-o todos os dias e tenho tido muita paciência. - Compadre Anacleto venda-me esse coelho. Com os problemas que eu tenho para chamar os meus criados… Peça o dinheiro que quiser! - Sabe, se eu lho der vou sentir muita pena, muitas saudades do bichinho. - Já lhe disse, homem. Peça o dinheiro que quiser! E assim foi. O compadre rico pagou uma fortuna pelo animal, mas levou-o para casa. No dia seguinte, soltou o coelho para ir chamar um dos seus criados, mas nem um nem o outro apareceram. Muito aborrecido, resolveu ir a casa do compadre Anacleto para lhe pedir explicações. Mas ele já o esperava e já tinha preparado mais uma partida… Logo que entrou, o compadre rico viu uma panela sobre o fogão, com água a ferver, mas sem lume para a aquecer. Ao ver aquilo, esqueceu-se logo do que queria reclamar e já muito interessado naquele fenómeno disse: - Ó compadre Anacleto, venda-me essa panela. - Não posso, faz-me muita falta cá em casa. Sabe, a minha mulher passava muito tempo a fazer o comer, mas agora, deixa tudo temperado e quando volta está tudo feito, mesmo sem lume. É um descanso. - Pago o que me pedir, porque lá em cada tenho pouca lenha e é uma trabalheira para a arranjar. - Se tanto insiste… Mas só pode levá-la se me der todo o dinheiro que tem lá em sua casa. Sem pensar duas vezes, o compadre rico concordou e, com esta troca, o que era rico ficou mais pobre e o que era pobre ficou rico. Desejoso de experimentar a panela, logo que entrou em casa disse à mulher para temperar a comida e ir à horta buscar uma alface fresquinha, porque quando voltasse, o almoço estaria pronto num piscar de olhos. Sem perceber o que se estava a passar ela assim o fez, mas quando voltou ainda estava tudo cru. Furioso por ter sido enganado mais uma vez, compadre outrora rico, correu para a casa do compadre outrora pobre.

O compadre Anacleto era esperto, ainda por cima tinha ficado rico e já estava entretido a preparar mais uma partida: encheu um saco com sangue, escondeu-o debaixo da saia da mulher e, logo que viu o compadre com cara de poucos amigos a chegar, fingiu que estavam a discutir e que matara a mulher. - Então compadre Anacleto, matou a sua mulher? - Não, nada disso compadre Egídio! Eu agora toco este pífaro e ela fica viva outra vez. Pipripii pipiripii… E assim foi, a mulher num ápice levantou-se e foi passar a ferro. - Ó compadre Anacleto, venda-me esse pífaro. Assim, já posso discutir à vontade com a minha mulher. - Não vendo, porque assim posso discutir as vezes que quiser e tudo acaba bem. Depois me muito insistir, o compadre Egídio conseguiu de levar o pífaro para casa. Mal chegou a casa provocou uma discussão com a mulher, matou-a e tocou o pífaro para ela voltar a viver. Mas ela não se levantou, nem se mexeu… Ao perceber o que tinha feito e sentindo-se enganado mais uma vez, correu para casa do compadre Anacleto. - Ó compadre, desta vez tenho de o matar. - Então como é que me vai matar compadre Egídio? - Vou mete-lo dentro de uma saca e lançá-lo ao mar. E assim foi. Quando o compadre Egídio chegou à beira de um penhasco, pousou a saca com o compadre Anacleto lá dentro e foi procurar uma pedra para que o compadre fosse ao fundo mais depressa. Entretanto, passou por ali um pastor que estranhou ver uma saca abandonada naquele lugar ermo. Tocou-lhe a medo e, ao ver que tinha alguma coisa que se mexia, perguntou: - Que é isto? Quem está aqui? - Isto foi uma brincadeira de um amigo. Pode desatar o nó da saca para eu sair e apanhar ar fresco? Disse o compadre Anacleto. Logo que se apanhou cá fora, negociou com o pastor a compra de todo o rebanho. Escolheu a ovelha mais pesada, amordaçou-a, colocou-a dentro da saca e foi-se embora com o rebanho de ovelhas. Quando o compadre Egídio chegou, atou a pedra à saca e atirou-a ao mar sem dizer uma única palavra. No dia seguinte, já com um pouco de remorsos, o compadre Egídio foi visitar a suposta viúva do seu compadre para saber se ela precisava de alguma coisa, mas deu de caras com o compadre Anacleto. - Então está vivo? Mas, eu atirei-o ao mar e você aparece outra vez? - Ó compadre Egídio, eu até lhe quero agradecer. Lá no mar é que se consegue de governar a vida. Até já comprei este rebanho. Tonto e avarento como era, voltou a acreditar e disse com determinação: - Verdade? Então amanhã, é você que me vai atirar ao mar. Conforme combinado, de manhã bem cedo, o compadre Anacleto atirou o compadre Egídio ao mar e foi-se embora sem sequer olhar para trás. Por ter sido tonto e invejoso, o compadre que era rico ficou sem casa, sem dinheiro, sem mulher e sem a vida! Jorge Duque

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