A Reforma e a Contra-Reforma Religiosa

“Durante a Idade Média, os povos europeus cristãos reconheciam a Igreja Católica como a única autoridade espiritual existente, não havendo salvação da alma fora dela. A Igreja vinha concentrando, ao longo dos anos, um imenso poder não apenas espiritual, mas também material e político. Seus altos mandatários, o papa, os cardeais e os bispos estavam mais preocupados em exercer esse poder, em aumentar os seus domínios e sua influência, do que oferecer conforto espiritual às populações. (...) Os papas viviam em constante conflito com os imperadores, todos procurando obter cada vez mais poder político e econômico. Os príncipes, por seu lado, buscavam retirar da Igreja o controle das imensas extensões de terras e outros bens. (...) Na Europa do século XVI, era generalizada a necessidade de se encontrar algum apoio firme num mundo que parecia estar se desfazendo, que muitos afirmavam estar perto do fim. Durante algum tempo, a venda de indulgências promovida pela Igreja acalmou essa situação. No entanto, isso se revelou uma prática por demais vergonhosa. A Igreja Católica foi ficando cada vez mais desacreditada. Além da venda de indulgências, comercializava-se qualquer objeto como um suposto valor religioso. É nesse quadro, num Império Alemão descentralizado, dominado por muitos príncipes e com grande parte de seu território pertencente à Igreja, que surge um movimento de caráter religioso e político conhecido como Reforma. Martinho Lutero, membro da Igreja Católica de Roma, inconformado com o vil comércio das coisas espirituais e angustiado com a salvação da própria alma, acende o estopim de um conflito dividindo a unidade cristã que prevaleceu por toda a Idade Média.”
VEIGA, Luiz Maria. A reforma protestante .2.ed.São Paulo : Ática, 1991.p.01-02.

O conjunto de transformações políticas, econômicas e socioculturais que passaram a ocorrer no final da Idade Média e início da Idade Moderna, representam uma época de transição de um período com características bem definidas, para um outro ainda em formação. Já tivemos a oportunidade de estudar grande parte desses assuntos. Vamos agora procurar compreender a questão religiosa, conhecida como Reforma e Contra-Reforma religiosa, que ocorreu no final do século XV e início do século XVI. “(...) A expressão Reforma da Igreja designa uma série de acontecimentos que romperam a unidade da Igreja Católica e dão origem a novas religiões (luteranismo, anglicanismo, calvinismo...). Por Contra-Reforma, entendemos o conjunto de medidas que a Igreja Católica tomou para tentar deter esse processo de rompimento, modificando em parte seus dogmas e sua estrutura interna.”
SEFFNER, Fernando. Da Reforma à Contra-Reforma : o cristianismo em crise. 3. ed. São Paulo : Atual, 1983. p. 03.

Causas da Reforma
O texto introdutório nos apresentou uma síntese das causas que levaram às reformas religiosas, contudo as questões apresentadas pelo autor estão mais centralizadas nas questões políticas e econômicas; entretanto, não estavam restritas a elas, vejamos: ► Políticas – Conflitos entre papas e monarcas em torno de questões relacionadas ao controle do poder político. Muitos monarcas procuravam fazer uso da religião para se tornarem fortes polticamente. Os papas, por sua vez, afirmavam que a Igreja, além de deter o poder espiritual, possuía a autoridade sobre o temporal (político). Segundo eles, os reis só poderiam governar com a autorização e o acordo dos papas. 1

. com o dinheiro arrecadado dos cristãos do norte da Europa. a Igreja era maior proprietária de terras na Europa Ocidental. assim como o envolvimento da Igreja em constantes guerras e crimes. tomando conhecimento direto dos ensinamentos do cristianismo e reconhecendo as contradições praticadas pela Igreja da época. jóias. Como a Igreja condenava a usura (cobrança de juros) e o lucro obtido acima do valor real das mercadorias. a partir da formação das monarquias nacionais. vivendo com concubinas e filhos. Contudo. além de espinhos da cruz de Cristo. A sua intervenção era tida pela população como um entrave ao desenvolvimento econômico. os quais enriqueciam cada vez mais o clero. colocou a população contra o domínio e a influência excessiva da Igreja nos assuntos internos de seus estados. a Igreja Católica gozava da isenção de impostos sobre seus bens. ed. pois a Igreja mantinha uma estrutura política baseada nos antigos moldes feudais (aqueles que combatem. pedaços do Santo Sudário ou o manto da Virgem Maria. a vender cargos eclesiásticos em larga escala. São Paulo : Atual. A venda de relíquias (objetos tidos como sagrados e milagrosos) e de indulgências (perdão concedido pelo papa aos pecados cometidos. ► Morais e religiosas – O dinheiro recolhido pela Igreja em forma de dízimo (o correspondente a um décimo da renda de cada cristão) era usado para sustentar a igreja paroquial. e de muitos padres e monges que mantinham uma vida paralela à religiosa. Os reis e nobres viam na Reforma a possibilidade de tomar posse desses bens. A vida desregrada do alto clero desperdiçava vultosas somas para manter a opulência e o luxo que os cercavam. a partir do Renascimento. por sua vez.. como Alexandre VI que teve amantes e filhos. o número de impostos aumentou e tinha por finalidade reunir fundos para a construção da igreja de São Pedro em Roma. detinha uma enorme concentração de bens. ► Causas científicas e o espírito crítico dos humanistas – O aperfeiçoamento da imprensa. a Igreja passou. tornaram-se práticas correntes durante longa data. igrejas. 3. Além do mais. patrocinando as artes na Itália. aqueles que rezam e aqueles que trabalham). Papas como Júlio II e Leão X tornaram-se grande mecenas. realizado por Gutenberg. A sua tradução para outros idiomas deu a possibilidade para que muitos cristãos ou não-cristãos pudessem ter a oportunidade de interpretá-la pessoalmente. 1993.” SEFFNER. pois passou a representar uma importante fonte de renda para a instituição. 2 . favoreceu a difusão das obras escritas. mediante o pagamento). p. metais preciosos. inúmeras penas do Espírito Santo e inclusive um ovo exibido pelo arcebispo de Mogúncia. conventos. além do dízimo. abadias. “O comércio e a veneração de artigos religiosos atingiu tal vulto que alguns críticos da Igreja denunciavam o fato de que nada menos de cinco tíbias do jumento montado por Jesus quando entrou em Jerusalém eram exibidas em diferentes lugares. Da Reforma à Contra-Reforma : o cristianismo em crise. entre elas a Bíblia. Fernando. Com a mesma finalidade. migalhas do pão que Jesus partiu na última ceia. A vida escandalosa de certos papas. ► Econômicas – Detentora de um enorme império econômico. sem contar as doze cabeças de João Batista. 20. prática que se tornou corrente. ela criava obstáculos para as atividades comerciais e bancárias praticadas pela burguesia mercantil.O desenvolvimento de uma consciência nacional. pois boa parte do dinheiro arrecadado pela Igreja estava sendo destinado à manutenção dessas famílias e de concubinas. A burguesia. ainda. não era vista com bons olhos pelos cristãos. via na Reforma uma oportunidade de não mais pagar impostos à Igreja Católica. entre outras riquezas.

pois ele estava dividido em pequenos territórios e cidades. Civilização Ocidental. A Reforma na Alemanha No século XVI. Wycliffe censurou os tributos cobrados pela Igreja e o poder dos papas sobre os reis e governantes. O papa Leão X firmou um acordo com o banqueiro Függer. por esse motivo.Os pensadores humanistas. portanto. A Igreja ensinava que certas pessoas vão diretamente para o céu ou para o inferno. d. passaram a criticar a Igreja no intuito de fazê-la reencontrar os verdadeiros princípios do cristianismo. governados por príncipes locais que deviam lealdade ao imperador. pois. Jan Huss foi influenciado pelas idéias de Wycliffe e traduziu a Bíblia para o idioma tcheco. poderiam reduzir o poder e a influência do Papa e do imperador sobre os seus domínios. Precursores da Reforma Muito antes da Reforma Protestante ter ocorrido na Alemanha. entre outros. p. Os movimentos pré-reformistas na Inglaterra e na Boêmia prepararam o caminho para o êxito da Reforma Protestante na Alemanha. agrárias e semifeudais e 1/3 das terras alemãs pertenciam à Igreja Católica. Condenou. Uma história Concisa. em 1517. Sua execução provocou sangrentas guerras religiosas em seu país. Criticavam-na apenas com o objetivo de moralizar os seus costumes. s. As indulgências reduziam esse tempo e eram concedidas pela Igreja aos que oravam. as pessoas se preocupavam com o tempo que poderiam ter de passar no purgatório. também. excomungado pelo papa Alexandre V e morto na fogueira como herege. inclusive doações de dinheiro à Igreja. 296. nem tampouco incentivar a criação de novas religiões. Thomas Morus. enquanto outras têm a sua entrada no céu retardada por um período passado no purgatório. e não pela mediação da Igreja. a posse das riquezas mantidas pelo clero. A economia e a estrutura social eram atrasadas. sendo. membros da própria Igreja já haviam tentado. Naturalmente. os quais faziam parte do Sacro Império Romano-Germânico. à prática que tinha a Igreja de vender indulgências. Rabelais. compareciam à missa e por obras pias. a Alemanha era uma unidade política formada por pequenos estados independentes. pois davam a impressão de que as pessoas estavam literalmente comprando a sua entrada no céu. “O ponto de partida da Reforma foi o ataque feito por Lutero. a cobrança das indulgências. dessa forma. como Erasmo de Rotterdam. assim como a enorme carga de impostos aos quais estavam submetidos. Os príncipes locais ambicionavam tomar posse das propriedades da Igreja. Não pretendiam. o imperador sagrado pelo Papa. Assim como o seu precursor. São Paulo : Martins Fontes. Para ele. governado por Carlos V de Habsburgo. O comércio de cargos eclesiásticos e a venda de indulgências realizados pela Igreja funcionaram como estopim para a Reforma na Alemanha. Durante a Baixa Idade Média (século XIV e XV). 3 . Os fundos iriam para a construção da nova Basílica de São Pedro em Roma. Estas últimas eram as mais controversas. na Boêmia (atual República Tcheca). houve duas tentativas de reformas religiosas por parte de dois teólogos dissidentes: John Wycliffe (1329-1384). romper com ela. autorizando-o a fazer a arrecadação proveniente das vendas das indulgências mediante uma comissão de 1/3 do tal arrecadado. o culto dos santos e das relíquias. sensibilizar a cúpula católica da necessidade de uma reestruturação interna. o cristão conseguiria a sua salvação.” “PERRY. na Inglaterra. esse período de espera é necessário para os que haviam pecado muito nessa vida. sem obter êxito. atacou a Igreja por ser detentora de riquezas e poder. a única e legítima fonte para o cristão era a Bíblia (foi responsável por sua tradução para a língua inglesa) e afirmava que somente por meio da fé. A unidade política desse império era bastante frágil. e Jan Huss (1369-1415). Marvin.

o papa Leão X lançou uma Bula condenatória contra Lutero forçando a sua retrata Cão. Entre os sacramentos da Igreja. Mesmo antes de entrar para o convento. 4 . não é por meio de suas ações ou pela compra de indulgências que o cristão será salvo. ele que havia seguido as orientações da Igreja Católica. resposta para suas angústias pessoais. Em 1520. sobre a liberdade cristã e a necessidade de reconduzir o mundo cristão à simplicidade da vida cristã dos primeiros apóstolos. ao qual julgava estarem condenados todos os cristãos. passou a opor-se aos seus ensinamentos. enfim. tornou-se professor de teologia. Mediante a incansável leitura da Bíblia. mas. passou a defender a tese que ficou conhecida como “A doutrina da salvação pela fé. estudando o pensamento de Santo Agostinho. O celibato do clero e a vida monástica deveriam ser extinto. Lutero afixou na porta da igreja do castelo de Wittenberg noventa e cinco teses em que fazia duras críticas à venda das indulgências e ao sistema clerical dominante. apenas o batismo e a comunhão são estritamente necessários ao cristão. Prontamente a Igreja o excomungou e passou a persegui-lo como herege. essa Bula condenatória enviada pelo Papa. Os bens pertencentes à Igreja deveriam ser transferidos aos governantes. Lutero já se debatia com o sentimento do pecado. Lutero queimou. Rapidamente obteve o apoio de grande parte dos príncipes. Somente por intermédio da leitura da Bíblia. pois só eles possuíam a supremacia da autoridade civil sobre qualquer outra autoridade. pela compra de indulgências e outras práticas religiosas que o cristão poderia alcançar a salvação da alma. Afirmava que não era por meio de jejum. Portanto. pela fé em Jesus Cristo. Por meio de suas teses. o qual era intermediário entre os homens e Deus. Ainda que monge. o casamento dos clérigos e medidas severas contra o luxo excessivo. não via a possibilidade de alcançar a salvação de sua alma nem mesmo pelo intermédio da Igreja. a saber: ► ► ► ► ► A salvação se obtém por meio da fé e não pela intermediação da Igreja. Propõe a livre interpretação da Bíblia. pois ela é uma graça concedida aos homens por Deus. pois esses também lutavam contra a tirania da Igreja. Contando com esse apoio. Lutero passou a defender a criação de uma igreja nacional independente de Roma. nobres e magistrados. cabendo a eles a defesa da fé e também a sua divulgação. não havendo mais necessidade de se manter a hierarquia eclesiástica. em praça pública. Propunha o fim das ordens religiosas. ele deu início à Reforma Protestante. Admirava os escritos e as idéias de Jan Huss. além de criticar a Igreja Católica.” – somente a fé em Deus torna possível a salvação do cristão. O sacerdócio é universal. Após ter passado alguns anos no mosteiro. apontava os princípios básicos daquela que viria a ser a nova religião de grande parte da população da Alemanha. A partir desse momento. pois só ela contém os princípios da fé. sim.Martinho Lutero (1483-1546) Lutero era um monge da ordem católica dos agostinianos. A repercussão das idéias de Lutero foi enorme. Em 1517. que levam o cristão à salvação. Lutero encontrou. pois. o cristão conseguirá encontrar o significado da fé e de sua vida na terra.

liderados pelo sacerdote luterano. sucessivamente. revoltaram-se em 1524 contra a exploração da Igreja e dos príncipes. a qual além de condenar o clero e a Igreja Católica. Perseguido juntamente com outros reformistas. a Dieta de Worms. foi definitivamente excomungado pela Igreja Católica. Ali se estabeleceu que cada príncipe poderia optar em suas terras pela religião que melhor lhe conviesse. Lutero. rompendo com a doutrina católica e promovendo a reestruturação das novas doutrinas religiosas. Perseguido. Esses príncipes protestaram contra as manobras políticas do imperador e se retiraram da assembléia. católica (ao sul). outro líder religioso Ulrich Zwingli. Nesse país. No início Calvino foi o seguidor das idéias de Lutero. assim. não obtiveram êxito. A Reforma em outros países da Europa França e Suíça A medida que o luteranismo ganhava força e se espalhava entre outros países da Europa. condenou a revolta dos camponeses. fez a primeira tradução da Bíblia latina para o alemão. foi decapitado e. redigiu uma síntese de sua doutrina – Instituição da Religião Cristã. Noruega. Com isso. Calvino reconhecia a autoridade da Bíblia e. Como Lutero. contudo. aliado aos interesses da burguesia. assumindo conotações políticas e socioeconômicas. ao contrário. multiplicando-se. Zwingli lutou até a morte. passaram a ser conhecidos como “protestantes” (termo que se estendeu depois a outras seitas reformadas não luteranas). uma nova assembléia foi convocada pelo imperador – a Dieta de Speyer – procurando desta vez impor o catolicismo aos príncipes luteranos e afastar Lutero do Sacro Império. Thomas Münzer. com ele. a Alemanha ficou dividida em duas facções: uma. a França já havia tentado em várias ocasiões promover reformas religiosas. Os príncipes tomaram posse das terras da Igreja. pois o catolicismo naquele Estado era bastante forte e tinha apoio da monarquia. pregando sua própria doutrina de reforma. com a presença de todos os governantes locais. A Reforma Protestante e as idéias de Lutero chegaram a outros países. Thomas Münzer. Durante o seu exílio. imperador do Sacro Império Romano-Germânico. com predominância protestante (ao norte) e outra. Em 1521. refugiou-se na Suíça. distanciou-se deste mais tarde. a partir desse episódio. 5 . identificados por ele como inimigos de Cristo. aumentavam as discordâncias entre os postulados defendidos por Lutero. no intuito de julgar o “herege”. Lutero. com o tempo. escreveu ainda panfletos e cartas criticando a Igreja. entretanto. Em 1529. Suécia. como Dinamarca. opunha-se aos príncipes. Thomas Münzer. O seu líder. Durante o tempo em que passo refugiado na Saxônia. as interpretações. pressionado pela Igreja. grande número de revoltosos foram massacrados por um forte exército de cavaleiros organizado pelos príncipes locais. recebeu o apoio do príncipe da Saxônia que o acolheu em seu castelo. não foi punido. é que a questão foi finalmente resolvida. os quais foram. Jean Calvino (1509-1564) foi um dos teólogos franceses que aderiram ao movimento reformista luterano. Somente a partir de 1555. acrescentou a elas idéias mais radicais. Durante a sua permanência na Suíça. convocou uma assembléia. suas pregações abriram caminho para a chegada do calvinismo ao país. que recebia a proteção dos príncipes. com a Paz de Augsburgo. os camponeses. ricos e poderosos.Carlos V. discípulo de Lutero. que contava com o apoio de grande parte dos príncipes e boa parte dos camponeses alemães. já defendia maior liberdade do que aquela oferecida por Lutero. a Reforma religiosa por ele pretendida escapou de seu controle. Elas. Antes de receber forte influência luterana.

o anglicanismo foi definitivamente incorporado como religião oficial da Inglaterra. que encontraram nela um alento às suas convicções no que diz respeito à valorização do trabalho. e tudo vê. Contudo. a ele cabe predestinar quem vai ser destinado à salvação e quem vai ser destinado à condenação”. portanto. quando Elizabeth I (1558-1663) assumiu o poder. o Parlamento inglês aprovou o Ato de Supremacia. A princípio.. as reformas.. o rei inglês foi excomungado pelo Papa. a monarquia inglesa ambicionava tomar posse das terras e das riquezas da Igreja e diminuir sua influência sobre a população. estabelecia-se definitivamente o controle do rei sobre a nova religião. a Igreja Anglicana. proibiam-se jogos. Aboliu de sua igreja as imagens de santos. para se casar com Ana Bolena. Por essa afronta à Igreja Católica. no norte dos Países Baixos (Holanda). Com a negativa do Papa. unindo-se a Ana Bolena. penitência e outras práticas defendidas pelo catolicismo. A doutrina de Calvino foi criticada por muitos humanistas que condenavam a idéia de um Deus tirano e vingativo. na França. manteve a estrutura hierárquica do catolicismo e elementos doutrinários do calvinismo. e onde a burguesia lutava pelo poder.) Um homem que não quer trabalhar não deve comer. a questão que se colocava era de saber quem era predestinado à salvação ou à condenação. posteriormente. o qual reconhecia o rei como chefe supremo da Igreja na Inglaterra. instituindo tão somente a leitura da Bíblia. A partir daquele momento.o pobre é suspeito de preguiça. a doutrina calvinista teve ampla difusão nos lugares em que o capitalismo se desenvolvia rapidamente. Na Escócia. com a sua esposa. a salvação da alma de cada cristão depende da vontade de Deus. porém. “Deus tudo sabe. Como Elizabeth estava mais preocupada com as questões políticas do que com as religiosas. Henrique VIII (1509-1547) foi quem liderou o movimento reformista nesse país. a hierarquia e a doutrina da nova Igreja Anglicana não sofreram grandes alterações em relação à Igreja Católica. Em 1534.igualmente. o qual conquistou também boa parte da população na Inglaterra. o ritual das missas. o culto foi simplificado e liberou-se o casamento aos padres. valores nem sempre aceitos pela Igreja Católica. o rei aproveitou a situação para romper com a Igreja Católica. Durante o reinado de Henrique VIII. tendo. teatros e uso de jóias. Os únicos sacramentos por ele reconhecidos foram o batismo e a comunhão. a base do pensamento de Calvino. contudo amplamente aceita entre os burgueses. inspirada na doutrina de Calvino. Calvino afirmava que cabia ao homem. os calvinistas ficaram conhecidos como huguenotes. ou seja. o rei anulou o seu próprio casamento. o rei se mostrou contrário à Reforma Luterana. fundando. bailes. da poupança e do acúmulo de capital. Durante o reinado de Maria Tudor (1553-1558). Diante desse postulado. foi organizada a Igreja Presbiteriana. sendo assim. houve uma tentativa de retorno ao catolicismo.. Henrique VIII pretendia também anular seu casamento com Catarina de Aragão. o que constitui uma injúria a Deus. 6 . Em represália. contudo. Inglaterra Ao contrário dos movimentos iniciados por Lutero e Calvino.” A teoria da predestinação era.. por meio de seu trabalho. Por isso. afirmava que a fé é um dom de Deus. organizou-se o movimento dos puritanos. a Reforma na Inglaterra assumiu um caráter mais político e econômico do que propriamente religioso. então. contra a Igreja e os senhores feudais. por isso. o que criava um problema com a questão sucessória em seu reino. recebido do Papa o título de defensor da fé católica. coube aos seus sucessores promoverem. demonstrar que era um eleito por Deus – a prosperidade econômica individual era considerada por ele um dos sinais dessa predestinação. alegando a impossibilidade de ter um filho homem. tem o seu destino traçado desde o nascimento. Confiscou os bens da Igreja Católica e vendeu-os aos nobres e aos burgueses. no intuito de agradar às várias facções religiosas do país. o homem é predestinado. “O trabalhador é o que mais se assemelha a Deus(. as normas comportamentais estabelecidas para seus seguidores foram bastante austeras e radicais. sustentava a convicção de que a salvação é obtida somente pela fé e não pelas obras de caridade.

perante os novos tempos. Formados a partir de uma sólida base cultura. o resultado foi frustrante. Entre as regras internas adotadas por essa congregação. Os jesuítas tornaram-se os principais defensores da fé católica contra a investida dos protestantes na Europa. que combatiam pela glória de Deus. Por meio da organização de missões ou reduções no sul do continente americano (Argentina. 7 . Japão e ameríndios do recém-descoberto continente americano. eram pregadores de grande eloqüência e persuasão e exímios catequizadores. As boas obras são tão necessárias para a salvação quanto a fé. O Concílio foi convocado pelo papa Paulo II em 1545. fundaram inúmeros colégios dentro dos moldes dos valores cristãos (como. o colégio que deu origem à cidade de São Paulo). Para os que esperavam uma “modernização” da Igreja. A proposta de reforma interna da Igreja. e tinha por objetivo principal redefinir a doutrina da fé católica. entre elas a Companhia de Jesus (jesuítas). combater as heresias e lutar para restabelecer o catolicismo nas áreas perdidas para os protestantes. sem a participação decisiva dos padres jesuítas. A Companhia de Jesus foi fundada por Inácio de Loiola em 1543. A ordem combinava a tradicional disciplina monástica com especial dedicação ao ensino da teologia e à pregação dos evangelhos.A Contra-Reforma . às imagens e às relíquias sagradas. Eles foram responsáveis pela retomada do catolicismo nas áreas onde a Igreja Católica havia perdido espaço para os protestantes. confessores e conselheiros espirituais de ministros e reis. entre outras coisas. África. tornou-se inadiável diante dos abalos promovidos pelos movimentos reformistas no norte da Europa. apenas para ratificar a doutrina tradicional e reforçar a autoridade do Papa. de pobreza e obediência irrestrita ao Papa. Muitos historiadores afirmam que a Reforma Católica nunca teria sido bem-sucedida. algumas medidas foram adotadas para conter o avanço das novas religiões e buscar a moralização da instituição. O dinamismo e a determinação dos jesuítas fizeram-se sentir. destacam-se os votos de castidade. Consideravam-se “Soldados de Cristo”. Coube a ela. do qual participaram ativamente e tornaram-se principais articuladores das decisões tomadas pela Igreja. dentro da tradição e dos ensinamentos da Igreja. buscaram converter esses povos à fé cristã. por exemplo. Novas ordens religiosas foram criadas. em grande parte. Paraguai e o sul do Brasil). no sul da Alemanha e em outros países.A Reforma da Igreja Católica A Contra-Reforma foi a reação adotada pela Igreja Católica para conter o avanço do protestantismo na Europa. Com seu trabalho missionário. Em todos os lugares onde se fixaram. foram catequizar os povos na Índia. a qual exerceu um papel de vital importância para a Igreja Católica. As fontes de fé são a Bíblia e as tradições cristãs do culto à Virgem Maria. no Concílio de Trento (1546-1563). aplicados no ensino universitários e no trabalho missionário. também. pois o que ficou definido durante a concílio serviu. aos santos. A Bíblia deve ser interpretada a partir das orientações do clero. Eis algumas das medidas: ► ► ► ► Condenação das Reformas Protestantes. Antes mesmo de se promover uma reforma mais ampla. como na Polônia. anteriormente rejeitada pelos papas.

Fortaleceram-se os tribunais inquisitórios para julgamento de hereges. África e Ásia. principais causas da Reforma Protestante. ao investir na evangelização das novas populações das colônias recém-formadas pelos espanhóis e portugueses. Manutenção do celibato para os religiosos. Proibiu-se o acúmulo de cargos eclesiásticos e a venda de indulgências. As medidas tomadas pela Contra-Reforma não foram suficientes para eliminar o avanço e o surgimento de novas religiões decorrentes da Reforma Protestante. Em contrapartida. no além-mar: América. O casamento dos cristãos é indissolúvel. No intuito de reprimir os “abusos” cometidos pelos reformadores protestantes. O latim permanece como língua oficial dos cultos religiosos.► ► ► ► ► Os dogmas da Igreja Católica são irrevogáveis. 8 . a Igreja conseguiu compensar a perda dos fiéis na Europa. o concílio aprovou também medidas repressivas e coercitivas: ► ► Foi o criado o Index. por serem contrários à doutrina católica. relação dos livros proibidos aos fiéis.