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Atos dos Apóstolos

Atos dos Apóstolos

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A primeira edição da Bíblia King James foi publicada em Londres, em 1611 (temos uma réplica da página de apresentação original desta edição de 1611 no início do NTKJA), é justamente essa a edição sobre a qual estamos baseando o estilo: clássico, reverente e majestoso da nossa tradução em português. William Shakespeare foi o grande mentor da língua inglesa nessa época e influenciou sobremaneira o estilo da redação, o qual prevalece até nossos dias, ainda que, claro, com as devidas adaptações da linguagem que - de longe - se parece com a usada no Reino Unido do séc. XVII... Acesse http://www.bibliakingjames.com.br/.
A primeira edição da Bíblia King James foi publicada em Londres, em 1611 (temos uma réplica da página de apresentação original desta edição de 1611 no início do NTKJA), é justamente essa a edição sobre a qual estamos baseando o estilo: clássico, reverente e majestoso da nossa tradução em português. William Shakespeare foi o grande mentor da língua inglesa nessa época e influenciou sobremaneira o estilo da redação, o qual prevalece até nossos dias, ainda que, claro, com as devidas adaptações da linguagem que - de longe - se parece com a usada no Reino Unido do séc. XVII... Acesse http://www.bibliakingjames.com.br/.

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INTRODUÇÃO AOS

ATOS DOS APÓSTOLOS
Autoria Hoje em dia, mesmo entre os mais críticos do meio acadêmico, já é bem aceita a idéia de que o evangelho de Lucas e o livro dos Atos dos Apóstolos têm um mesmo autor. O autor do livro de Atos inicia sua obra citando um “primeiro livro”, o que é considerado pelos estudiosos como uma indicação sobre a primeira parte do mesmo documento histórico, preparado objetivamente para um destinatário específico chamado “Teófilo”. Fica claro, ao examinarmos o próprio contexto da obra, que o uso sistemático dos pronomes “nós” e “nos” se referem à estreita amizade que havia entre o autor de Atos e o apóstolo Paulo (At 16.10-17; 20.5 – 21.18; 27.1 – 28.16). Outros textos nos garantem que Lucas era médico (Cl 4.14; Fl 24; At 1.3; 3.7; 9.18,33; 13.11; 28.1-10). Lucas, da mesma forma que Paulo, atendeu ao chamado missionário para proclamar o Evangelho aos macedônios, foi responsável pela obra de discipulado e edificação da igreja de Filipos por cerca de seis anos e, mais tarde, acompanhou as lutas e a grande obra de evangelização realizada por Paulo em Roma. Durante o período de prisão domiciliar do apóstolo, escreveu o livro de Atos. O mais antigo testemunho externo sobre Lucas, como autor de Atos, aparece no Cânon Muratório, por volta do ano 170 d.C. Nesse documento está claro o registro de que Lucas foi autor tanto do terceiro evangelho quanto da obra “Atos de todos os apóstolos”. No ano 325 d.C., Eusébio, um dos chamados “pais da igreja”, publica sua obra “História Eclesiástica” na qual reafirma categoricamente a autoria lucana desses livros. Propósitos Os grandes historiadores da Antigüidade tinham o hábito de iniciar o segundo volume de suas obras com uma sinopse da primeira e, logo em seguida, uma visão geral sobre o conteúdo abordado na segunda. Lucas, portanto, resumiu em At 1.1-3 seu primeiro livro; o tema do segundo é apresentado por meio de uma citação do próprio Senhor Jesus: “...recebereis poder quando o Espírito Santo descer sobre vós, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra!” (At 1.8). O livro histórico de Atos dos Apóstolos nos permite acesso ao melhor e mais eloqüente registro sobre a expansão da Igreja de Jesus Cristo e da religião cristã, desde o dia da descida do Espírito Santo, no dia de Pentecoste (o qüinquagésimo dia após o sábado da semana da Páscoa, portanto o primeiro dia da semana – Lv 23.15,16). A tradicional celebração judaica chamada “Festa das Semanas”, ou “Festa dos Primeiros Frutos”, é também conhecida como “Pentecostes” (Dt 16.10; Êx 23.16). O livro narra a saga da Igreja até a chegada de Paulo à capital do mundo da época: Roma. Neste sentido, Atos é um longo documentário sobre as obras que Jesus Cristo, o Messias e Filho de Deus, começou a realizar na Terra e, mais tarde, continuou através do Seu Espírito, agindo na vida dos seus discípulos em todas as partes do mundo. O mesmo Espírito Santo, que habitou a vida de Lucas, Paulo, Pedro, Estevão e todos os demais servos do Senhor, habita o ser de cada crente sincero em nossos dias, e assim será até a volta gloriosa de Jesus, o Rei dos reis (1Tm 6.14,15). Data da primeira publicação A maioria dos mais reconhecidos estudiosos acredita que o livro de Atos foi escrito durante o período do primeiro aprisionamento do apóstolo Paulo; com este relato Lucas encerra sua narrativa histórica. Portanto, por volta do ano 63 d.C., o autor não faz qualquer revelação ou previsão quanto a um segundo mandato de prisão nem sobre o martírio de Paulo. Se Lucas tivesse conhecimento do tão aguardado resultado do julgamento de Paulo, por que não o registrou ao final de Atos? (At 28.30). A idéia prevalecente é que Lucas já havia narrado tudo o que sabia e lhe fora possível coletar de fatos até àquela data. Apesar de os argumentos baseados no silêncio não serem irrefutáveis, é relevante o fato de o livro não conter nenhuma alusão aos importantes fatos posteriores ao fim dos dois anos de prisão de

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Paulo em Roma, como o grande e terrível incêndio da capital do Império Romano e a conseqüente perseguição aos cristãos (64 d.C.), o martírio de Pedro; e logo em seguida da prisão de Paulo, por volta de 67 d.C., a profanação e destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., profetizada por Jesus Cristo quase 40 anos antes do ocorrido (Mt 24.2). Esboço geral de Atos 1. Os discípulos esperam a chegada do Espírito Santo (1.1-26) 2. O Espírito Santo vem para habitar e vivificar o crente (2.1-47) A. Fonte de poder para o cristão (2.1-13) B. Testemunho do poder do Espírito aos dispersos (2.14-47) 3. Nasce e se expande a Igreja de Jesus Cristo (3.1 – 12.25) 4. Primeiro em Jerusalém (3.1- 7.60) A. A cura do aleijado e as conseqüências deste ato (3.1-26) B. Os apóstolos Pedro e João testemunham ao Sinédrio (4.1-22) C. A vida de oração e fraternidade dos cristãos (4.23-37) D. Logo surgem as primeiras decepções (5.1-16) E. As primeiras reclamações e murmurações (6.1-7) F. Chegam também as tribulações externas (6.8 – 7.60) 5. Samaria também é alcançada pelo Pentecostes (8.1-25) 6. E até os confins da terra chega o poder do Espírito (8.26-40) 7. A conversão de Saulo de Roma em Paulo de Jesus (9.1-31) 8. Pedro promove o Pentecostes por toda a Judéia (9.32 – 11.18) A. Nas cidades estratégicas de Lida e Jope (9.32-43) B. Cesaréia (10.1-48) C. Conseqüências (11.1-18) D. Antioquia e aos confins da terra (11.19 – 12.25) E. Herodes dispersa os cristãos de Jerusalém (12.1-25) 9. A primeira viagem missionária de Paulo (13.1 – 14.28) A. Chipre (13.1-12) B. Antioquia da Psídia (13.13-52) C. Icônio (14.1-7) D. Listra, Derbe e retorno à Antioquia da Síria (14.8-28) 10. O primeiro concílio em Jerusalém (15.1-29) 11. A segunda viagem missionária de Paulo (15.30 – 18.22) A. De Antioquia a Trôade (15.36 – 16.10) B. De Trôade a Atenas (16.11 – 17.15) C. Em Atenas (17.16-34) D. Em Corinto, e o retorno (18.1-22) 12. A terceira viagem missionária de Paulo (18.23 – 21.16) A. O Pentecostes chega para os cristãos em Éfeso (18.23 – 19.41) B. Paulo ministra na Macedônia, Acaia, e retorna (20.1 – 21.16) 13. A viagem de Paulo a Roma (21.17 – 28.15) A. Em Jerusalém (21.17 – 23.35) B. Em Cesaréia (24.1 – 26.32) C. Diante do governador Félix (24.1-27) D. Diante do rei Agripa (25.23 – 26.32) E. Paulo é mandado para Roma (27.1 – 28.15) F. Paulo algemado, mas livre para pregar até o fim (28.16-31)

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ATOS DOS APÓSTOLOS
Prefácio Em meu primeiro livro, caro Teófilo, escrevi a respeito de tudo o que Jesus começou a realizar e a ensinar,1 2 até o dia em que foi elevado aos céus, logo após haver entregue seus mandamentos, por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que havia escolhido. 3 Depois do seu martírio, Jesus apresentou-se a eles e deu-lhes muitas provas incontestáveis da sua ressurreição. Aparecendo-lhes por um período de quarenta dias seguidos e ensinando-lhes acerca do Reino de Deus.2 4 Certa ocasião, enquanto ceava com eles, ordenou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que aguardassem a promessa do Pai, a qual, salientou Ele: “De mim ouvistes!3 5 Porquanto João, de fato, batizou com água, entretanto dentro de poucos dias vós sereis batizados com o Espírito Santo”.4

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consultaram: “Senhor, será este o tempo em que restaurarás o Reino a Israel?”. 7 Ele lhes afirmou: “Não vos compete saber as épocas ou as datas que o Pai estabeleceu por sua exclusiva autoridade. 8 Contudo, recebereis poder quando o Espírito Santo descer sobre vós, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra!”.5 9 Tendo dito estas palavras, foi Jesus elevado às alturas enquanto eles o contemplavam, até que uma nuvem o encobriu da vista deles. 10 E aconteceu que estando eles com os olhos fixos no céu, enquanto Ele subia, surgiram junto deles dois homens vestidos de branco, 11 que lhes comunicaram: “Homens galileus, por que estais contemplando as alturas? Esse Jesus, que dentre vós foi elevado ao céu, retornará do mesmo modo como o viste subir”.6 A escolha do apóstolo Matias 12 Então, eles voltaram para Jerusalém,

A ascensão de Jesus Cristo 6 Então, os que se haviam reunido lhe

1 Lucas narrou seu Evangelho e o livro de Atos sob os auspícios de Teófilo. A ascensão de Jesus ocorreu 40 dias após a ressurreição. Jesus viveu e pregou sob a direção do Espírito Santo do Pai (Jo 14.10). As declarações posteriores esclarecem que as realizações dos apóstolos foram, igualmente, orientadas pelo Espírito Santo (vv. 4,5,8; Lc 24.49; Jo 20.22), cuja obra e o poder de capacitar os cristãos fiéis, ainda hoje, são especialmente focalizados por Lucas (v. 8; Lc 2.4,17; 4.8,31; 5.3; 6.3,5; 7.55; 8.16; 9.17,31; 10.44; 13.2,4; 15.28; 16.6; 19.2,6). 2 As provas da vida e obra de Jesus, o Cristo, são indiscutíveis, pois não são especulativas ou teóricas, mas históricas e autenticadas. Sem a realidade da morte e da ressurreição de Jesus não há cristianismo. O Reino de Deus não se refere apenas a um lugar ou território, mas à soberania de Cristo (8.12; 28.23,31). 3 O sentido da palavra grega transliterada sunalizomenos tem a ver com uma expressão clássica do idioma, que significa: “reunir-se”; que pode ser derivada de “als”, dando origem a expressão “comer sal” ou “cear em grupo”. A vinda do Espírito Santo foi uma promessa de Deus (Jl 2.28-32; Jo 7.39; 14.16,26; 15.26,27; 16.12,13). 4 Enquanto o batismo de João (“com” ou “em” água) selava o arrependimento e preparava o coração das pessoas (especialmente dos judeus) para receberem Jesus e Seu Reino, o batismo com (ou em) o Espírito Santo, que aconteceu dez dias mais tarde, no Dia de Pentecostes (2.1-4), sela o crente de todas as raças e nações, no Corpo de Cristo, que é o sentido amplo de Igreja (1Co 12.13; Gl 3.27,28). 5 Essa passagem é uma espécie do esboço geral do livro de Atos: Jerusalém é evangelizada (1.12 – 7.60). Toda a Judéia e Samaria ouvem as Boas Novas (8.1-40). E o Evangelho avança sem parar por terras gentias até Roma (9.1 – 28.31). E até os “confins da terra”; chegando ao Novo Mundo (Américas) e a todas as partes do planeta, como acontece em nossos dias. 6 Todos os apóstolos eram galileus (menos Judas Iscariotes, que já estava morto). Os anjos (homens vestidos de branco, como em Lc 24.4) afirmaram que Jesus voltará da mesma forma pela qual subiu ao céu: com um corpo ressurreto e em meio às nuvens de glória (em hebraico: shekinah – a Presença de Deus – Êx 13.22; Dn 7.13; Mc 14.62; Mt 24.30).

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vindo do monte chamado das Oliveiras, que fica próximo a Jerusalém, à distância de cerca de um quilômetro.7 13 Assim que chegaram, subiram a um grande aposento onde se hospedavam. Estavam presentes: Pedro e João, Tiago e André, Felipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus; Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas, filho de Tiago.8 14 Todos estes, perseveravam unânimes em oração, juntamente com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele.9 15 Naqueles dias, sendo o número de pessoas ali reunidas cerca de cento e vinte, Pedro se levantou no meio dos irmãos e declarou: 16 “Irmãos, era necessário que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo predisse por meio da boca de Davi, acerca de Judas, que serviu de guia aos que prenderam Jesus. 17 Ele foi contado como um dos nossos e teve parte neste ministério”. 18 Com o pagamento que recebeu pelo seu pecado, Judas comprou um campo. Ali caiu de cabeça, seu corpo partiu-se ao meio, e as suas vísceras todas se derramaram. 19 Todos em Jerusalém ficaram sabendo desse fato; de maneira que, na própria

língua deles, essas terras passaram a se chamar Aceldama, que significa: Campo de Sangue.10 20 “Porquanto”, continuou Pedro, “está escrito no Livro de Salmos:11 ‘Fique deserto o seu lugar, e não haja ninguém que nele habite’; e ainda: ‘Que outro ocupe o seu lugar’”. 21 Sendo assim, é preciso que escolhamos um dos homens que estiveram conosco durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, 22 desde o batismo de João até o dia em que Jesus foi elevado dentre nós ao céu. É fundamental que um deles seja conosco testemunha de sua ressurreição.12 23 Então, propuseram dois nomes: José, chamado Barsabás, também conhecido como Justo, e Matias.13 24 E, orando, afirmaram: “Tu, Senhor, que conheces o coração de todas as pessoas, mostra-nos qual destes dois homens tens escolhido 25 para assumir a vaga neste ministério e apostolado, do qual Judas se desviou, indo para o lugar que lhe era devido”. 26 Em seguida, lançaram sortes quanto a eles e a sorte caiu sobre Matias; assim, ele foi acrescentado aos onze apóstolos.

7 O jardim das Oliveiras (Olival) era, literalmente, a maior distância de caminhada permitida num sábado, conforme os preceitos rabínicos (Êx 16.29; Nm 35.5; Js 3.4). Local da terrível agonia de Jesus (Lc 22.39); é o mesmo da grande exaltação, do triunfo sobre a morte e do Glorioso Retorno do Senhor (Zc 14.4). 8 No segundo andar de uma grande casa que pertencia à mãe de Marcos (12.12), e onde se refugiaram temporariamente os Onze com suas esposas (1Co 9.5) e outros discípulos e discípulas (Mt 27.55; Lc 8.2,3; 24.22), havia uma grande sala (cenáculo), na qual Jesus celebrou a última Ceia com seus amados apóstolos (Mc 14.15). 9 Esta é a última vez que Maria, a mãe do Senhor, é mencionada nas Escrituras. Mulher virtuosa, humilde, sofrida, mas cheia de graça (Lc 1.26-38,42); guardou tudo em seu coração e preferiu a discrição absoluta em perseverante oração com os demais discípulos, até o fim. A conversão de Tiago, irmão de Jesus e autor da epístola, que traz seu nome e faz parte do cânon do NT, é relatada em 1Co 15.7. 10 Esse é um momento histórico-cultural interessante. O aramaico (língua falada pelos jovens judeus) já havia substituído o tradicional hebraico na Palestina daquela época. 11 Pedro recorre a duas passagens das Escrituras (Sl 69.25 e Sl 109.8) para explicar que Judas havia deixado uma vaga no grupo apostólico que precisava ser preenchida. Pedro usa a palavra “episcopado”, que, em grego, descreve a função pastoral. 12 A qualificação humana para o apostolado era ter conhecimento íntimo da vida terrestre de Jesus Cristo e ser testemunha ocular de Sua ressurreição. A qualidade divina era ser escolhido pelo Espírito de Deus. Aqui, conforme a tradição judaica, se deu por meio de sorteio (1Cr 26.13-16; Ne 11.1; Pv 16.33; Jn 1.7). Entretanto, essa é a última vez que o lançamento de sortes é mencionado na Bíblia. 13 Barsabás significa, em hebraico, “filho do Sábado”, e era irmão de Judas, profeta judeu-cristão da igreja primitiva em Jerusalém e que foi enviado a Antioquia juntamente com Silas (15.22,32). O nome grego (helenístico) de José era “Justo”. Quanto a Matias, seu nome é uma contração do nome hebraico Matatias, o macabeu.

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A chegada do Espírito Santo E ao completar-se o dia de Pentecoste, estavam todos reunidos num só lugar.1 2 De repente, veio do céu um barulho, semelhante a um vento soprando muito forte, e esse som tomou conta de toda a Casa onde estavam assentados. 3 Então, todos viram distribuídas entre eles línguas de fogo, e pousou uma sobre cada um deles.2 4 E todas as pessoas ali reunidas ficaram cheias do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, de acordo com o poder que o próprio Espírito lhes concedia que falassem.3 5 Ora, estavam morando em Jerusalém, judeus, tementes a Deus, vindos de todas as partes do mundo. 6 Ao ouvirem aquele estrondo, ajuntouse um grande número de pessoas; e ficaram maravilhados, pois cada um ouvia falar em sua própria língua. 7 Perplexos e admirados comentavam uns com os outros: “Porventura, não são galileus todos esses que estão falando? 8 Como, então, cada um de nós os ouve

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falar em nossa própria língua materna? 9 Nós que somos partos, medos e elamitas; habitantes da Mesopotâmia, Judéia e Capadócia, do Ponto e da província da Ásia, 10 Frígia e Panfília, Egito e das partes da Líbia próximas a Cirene, e romanos que estão morando aqui, tanto judeus como convertidos ao judaísmo; 11 cretenses e árabes, todos nós os ouvimos discursar sobre as grandes realizações de Deus em nossa própria língua!”.4 12 E todos estavam absolutamente assustados e confusos, perguntando uns aos outros: “O que significa tudo isto?”. 13 Entretanto, outros, para ridicularizálos, exclamavam: “Esses estão cheios de vinho novo!”.5 A ministração de Pedro 14 E aconteceu que, colocando-se em pé, juntamente com os Onze, Pedro tomou a palavra e, em alta voz, pregou à multidão reunida: “Homens judeus e todos os que habitais em Jerusalém, permitais que vos esclareça o que se passa! Dai, pois, atenção às minhas palavras.

1 O qüinquagésimo dia após o sábado da semana da Páscoa, e, portanto, domingo, era considerado o Dia de Pentecoste (Lv 23.15,16). Pentecostes é o nome que se dava à Festa das Semanas, também chamada Festa da Colheita ou, ainda, Festa dos Primeiros Frutos (Dt 16.10). Nessa passagem, apóstolos e discípulos estavam no Templo, também chamado de “a Casa” (7.47), pois é sabido que os apóstolos reuniam-se constantemente no Templo, orando, ministrando e louvando ao Senhor (Lc 24.53). 2 O vento impetuoso e estrepitante é símbolo do Espírito de Deus: poderoso, soberano e absolutamente livre (Ez 37.9,14; Jo 3.8). A expressão “línguas” é uma metáfora usada para explicar aquela situação inusitada, chamada de experiência extática, ou seja, de grande êxtase. Haja vista, que por milagre, uma multidão de pessoas, de nações, culturas e línguas totalmente diferentes umas das outras, puderam ouvir a Palavra de Deus, em sua própria língua materna, por meio da pregação dos apóstolos. O “fogo” é um outro símbolo metafórico da presença divina (Êx 3.2), também freqüentemente associado ao Juízo (Mt 3.2; Lc 3.16 e 1Ts 5.19). 3 A Igreja de Cristo estava em formação. Unida e esperançosa quanto à volta do Senhor, passou pelo batismo do Espírito, conforme a promessa de Jesus (1.5), e dedicou-se à oração, comunhão e evangelização segundo as Escrituras. O Pentecostes significa para a Igreja: 1) A presença e ação do Espírito Santo habitando (tabernaculando) a alma do crente (Jo 14.17), e não apenas influenciando os aspectos religiosos e exteriores (Jz 6.34; 15.14; Ez 36.26); 2) O Espírito passa a ter presença contínua ao invés de eventual como foi no AT; 3) O Espírito veio para habitar toda a Igreja, não apenas alguns indivíduos especialmente selecionados para determinadas obras e ministérios como no AT (1Co 3.16; 12.12,13); 4) Ter coragem para confrontar esse mundo caído, com amor e sem medo (v.14); ganhar almas para o Reino de Cristo (v.41) e operar milagres, sinais e maravilhas, de acordo com a vontade e instrução do Espírito (v.43). Sendo assim, há apenas um batismo da Igreja (o Corpo vivo de Cristo) e de cada indivíduo, membro da Igreja; mas repetidas plenitudes para a adoração, o serviço cristão (Ef 5.18) e o exercício dos dons do Espírito (1Co 12.7-11). O dom de línguas (em grego transliterado: heterais glõssais, que significa “línguas diversas”) foi um milagre que se deu no âmbito da expressão dos apóstolos e da audição das pessoas de várias línguas e dialetos naquele dia e local (1Co 14.23). Estas línguas “estrangeiras” anteciparam a chegada do Evangelho em toda nação, povo, raça, tribo e língua, unindo o mundo todo em torno do Senhor Jesus, num flagrante contraste com o julgamento em Babel (Gn 11.7-9). 4 Houve quatro classes de judeus da Dispersão: 1) Orientais ou babilônicos (região onde hoje se situa o Iraque). 2) Sírios; 3) Egípcios; 4) Romanos, que a exemplo do apóstolo Paulo, eram cidadãos do império, embora não originários de Roma, assim como a província romana da Ásia, citada no v.9, é a atual região da Turquia. 5 Algumas versões trazem simplesmente a expressão “estão embriagados!”. Entretanto, o texto original grego (aqui traduzido literalmente) enfatiza que os zombadores estavam acusando jocosamente os apóstolos de terem apressadamente se embebedado com os primeiros vinhos da colheita que se dava no mês de agosto e que produzia um “vinho doce”, ainda em processo de fermentação.

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15 Estes homens não estão embriagados, como pensais. Até porque são apenas nove horas da manhã.6 16 Muito diferente disto. O que está ocorrendo foi predito pelo profeta Joel: 17 ‘Nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre todos os povos, os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os jovens terão visões, os velhos terão sonhos.7 18 Sobre os meus servos e as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e eles profetizarão. 19 Mostrarei maravilhas em cima, no céu, e sinais embaixo, na terra: sangue, fogo e nuvens de fumaça. 20 O sol se tornará em trevas e a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso Dia do Senhor. 21 E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo!’. 22 Israelitas, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, homem aprovado por Deus diante de vós por meio de milagres, feitos portentosos e muitos sinais, que Deus por meio dele realizou entre vós, como vós mesmos bem sabeis, 23 este homem vos foi entregue por propósito determinado e pré-conhecimento de Deus; mas vós, com a cooperação de homens perversos, o assassinaram, pregando-o numa cruz. 24 Contudo, Deus o ressuscitou dos mortos, rompendo os laços da morte, porque era impossível que a morte o retivesse.

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25 A respeito dele afirmou Davi: ‘Eu sem-

pre via o Senhor diante de mim. Porque está à minha direita. 26 Por esse motivo, o meu coração está alegre e a minha língua exulta; o meu corpo também repousará em esperança, 27 porque tu não me abandonarás no sepulcro, nem permitirás que o teu Santo sofra decomposição.8 28 Tu me fizeste conhecer os caminhos da vida e me encherás de alegria na tua presença’. 29 Caros irmãos, concedei-me a licença de falar-vos com toda franqueza que o patriarca Davi morreu e foi sepultado, e o seu túmulo está entre nós até o dia de hoje.9 30 Todavia, ele era profeta e sabia que Deus lhe prometera sob juramento que colocaria um dos seus descendentes em seu trono. 31 Antevendo isso, profetizou sobre a ressurreição do Cristo, que não foi abandonado no sepulcro e cujo corpo não sofreu decomposição. 32 Deus ressuscitou este Jesus, e todos nós somos testemunhas deste fato. 33 Exaltado à direita de Deus, Ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e derramou o que vós agora vedes e ouvis. 34 Porquanto, Davi não foi elevado aos céus, mas ele mesmo declarou: ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita 35 até que Eu ponha os teus inimigos como estrado para os teus pés’.10

6 Os judeus costumavam tomar o desjejum às dez horas da manhã e no sábado, ao meio dia. Ainda mais num dia de festa religiosa como o Pentecoste, nenhum judeu se atreveria a quebrar o jejum às nove horas da manhã (literalmente em grego: “a terceira hora do dia”). 7 Pedro cita e interpreta a passagem profética de Joel 2.28-32 como uma referência específica aos dias da nova aliança (Jr 31.33,34; Ez 36.26,27; 39.29) e inaugura a “cidade messiânica”. Pedro adverte também sobre os acontecimentos apocalípticos que serão os grandes sinais do iminente e glorioso retorno de Jesus Cristo e do Juízo final (Is 2.2; Os 3.5; Mq 4.1; 1Tm 4.1; 2Tm 3.1; Hb 1.1; 1Pe 1.20; 1Jo 2.18). 8 Algumas versões traduzem a palavra grega hades (que se origina da expressão hebraica: sheol) por “morte, profundezas, ou ainda, inferno”. Entretanto, o Comitê de Tradução da Bíblia King James decidiu usar aqui seu sentido mais literal: “sepulcro” (túmulo). Davi refere-se, em última análise, ao fato de o corpo de Jesus, o Messias, não ter experimentado “deteriorização” alguma (v.31). 9 O túmulo de Davi podia ser visto em Jerusalém e ainda continha seus restos mortais. Mas em relação a Jesus Cristo, ninguém podia apontar para um sepulcro onde seu corpo estivesse depositado. As palavras de Davi no Sl 16.8-11 aplicam-se mais completamente, e de forma profética, ao próprio Senhor Jesus. A expressão hebraica “Messias” corresponde à palavra “Cristo”, em grego, e ambas significam “Ungido”. 10 Na expressão “O Senhor disse ao meu Senhor” (Sl 110.1), o primeiro “Senhor” traduz a palavra hebraica Yahweh (o nome sagrado e impronunciável de Deus), e o segundo Ãdõn (Senhor). Sendo assim, o Senhor (Deus) disse ao meu Senhor (o Filho de Davi, o Messias). De acordo com Pedro, Davi dirigiu-se ao seu descendente com o mais elevado respeito, pois Davi, por meio da inspiração do Espírito Santo, reconhecia a absoluta divindade desse descendente (Mt 22.41-45). Porquanto, além da sua

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36 Sendo assim, que todo o povo de Israel tenha absoluta certeza disto: Este Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Messias!”.11

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41 Assim, todos quantos aceitaram a sua palavra foram batizados; e naquele mesmo dia juntaram-se a eles cerca de três mil pessoas.

Os primeiros cristãos 37 Ao ouvirem tais palavras, ficaram agoniados em seu coração, e desejaram saber de Pedro e dos outros apóstolos: “Caros irmãos! O que devemos fazer?”. 38 Orientou-lhes Pedro: “Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em o nome de Jesus Cristo para o perdão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo.12 39 Porquanto a promessa pertence a vós, a vossos filhos e a todos os que estão distantes. Enfim, para todos quantos o Senhor, nosso Deus, chamar!”. 40 E com muitas outras palavras dava seu testemunho pessoal e os encorajava, proclamando: “Sede salvos desta geração que perece!”.

Como viviam os novos cristãos 42 Eles perseveravam no ensino dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.13 43 E na alma de cada pessoa havia pleno temor, e muitos feitos extraordinários e sinais maravilhosos eram realizados pelos apóstolos.14 44 Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. 45 Vendiam suas propriedades e bens, e dividiam o produto entre todos, segundo a necessidade de cada um.15 46 Diariamente, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração,16

ressurreição da morte (vv. 31,32), também seria exaltado à direita de Deus, com todas as honras de Filho e Rei (vv. 33-35). E sua excelsa presença estava ali revelada na pessoa do Espírito Santo, que chegara conforme prometido (v.33; Jo 7.39; 14.16,26; 16.7 de acordo com Sl 68.18). 11 Esta afirmação corajosa de Pedro constitui-se no mais antigo Credo da Igreja de Jesus Cristo (Rm 10.9; 1Co 12.3; Fp 2.11). 12 A mensagem de João Batista, o grande precursor do Reino, é reenfatizada por Pedro e será a marca das principais mensagens evangelísticas dos apóstolos para o recebimento de perdão e o novo nascimento (Mc 1.4; Lc 3.3). O mesmo destaque foi dado pelo próprio Jesus (Mc 1.5; Lc 13.3; Lc 24.47). Da mesma forma, o batismo era importante para João, Jesus e na Igreja primitiva sob direção dos apóstolos, pois esta ordenança sempre esteve associada à fé, à aceitação da Palavra, ao arrependimento e à busca de uma vida de adoração a Deus (Mt 28,19; At 8.12; 18.8). O ato do batismo em si não é capaz de perdoar o pecado original ou qualquer outro. O perdão total e definitivo dos nossos pecados ocorre por meio da graça de Deus que converte o coração humano e faz germinar a fé cristã (Rm 6.3,4). Depois do sacrifício de Jesus, duas dádivas são concedidas aos que crêem: o perdão dos pecados (22.16) e o Espírito Santo. A promessa do Espírito Santo de habitar no interior do ser humano é um presente e selo (marca divina) de Deus, garantido a todos os cristãos sinceros, indistintamente de suas posições teológicas ou doutrinárias (8.9-11; 1Co 12.13). No v.39, Pedro refere-se aos que estão longe, os gentios, e aos filhos dos judeus presentes, às futuras gerações judaicas (Ef 2.13). 13 O ensino ou doutrina dos apóstolos incluía tudo o que o próprio Jesus ensinara (Mt 28.20), sendo o mais importante o Evangelho, o qual se firmava em sua vida e obra, morte e ressurreição (v.23,24; 3.15; 4.10; 1Co 15.1-4). A ministração dos apóstolos era incomparável por ser inspirada por Deus e estar revestida de toda autoridade a eles outorgada pelo próprio Senhor Jesus (2Co 13.10; 1Ts 4.2). Em nossos dias, esse mesmo ensino dos apóstolos está à nossa disposição nas páginas das Escrituras Sagradas, especialmente do NT. O livro de Atos ressalta a importância da oração diária na vida dos cristãos, tanto em particular quanto em público (1.14; 3.1; 6.4; 10.4,31; 12.5; 16.13,16). 14 O temor (estado de adoração contínua) que existia no coração dos crentes daquela época era uma mistura de pavor, êxtase e perplexidade diante da presença majestosa de Deus, operando milagres, prodígios e sinais maravilhosos entre a multidão dos que iam sendo convertidos pelo Espírito Santo e acrescentados à Igreja. 15 A união e o amor com que os convertidos viviam a vida cristã era um testemunho poderoso em Jerusalém e em muitas outras partes. Além das diversas operações de milagres e curas realizadas pelos apóstolos todos os dias, a Igreja não permitia que a ninguém faltasse o necessário para viver. As colaborações eram voluntárias e generosas, regadas com muita oração, manifestações de louvor e satisfação. A alegria deve ser o estado de ânimo do crente, não apenas uma euforia eventual e passageira, como é próprio dos que não depositam sua fé e a própria vida aos cuidados do Senhor (16.34). A união e o compartilhar da Igreja são frutos do Espírito Santo. Muitos filósofos e pensadores, ao longo dos séculos, idealizaram comunidades e nações inteiras, cujos povos socializariam seus recursos humanos e materiais. Contudo, não obtiveram sucesso. Sem a plenitude do Espírito Santo, o homem tende ao pecado e ao engano (erro). 16 Judeus e gentios convertidos pelo Espírito a Jesus Cristo começavam a formar e desenvolver a Igreja primitiva. Os cultos

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47 louvando a Deus por tudo e sendo estimados por todo o povo. E, assim, a cada dia o Senhor juntava à comunidade as pessoas que iam sendo salvas.

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A cura de um aleijado Certa ocasião, Pedro e João estavam subindo ao templo na hora da oração, isto é, às três horas da tarde.1 2 E aconteceu que um homem, aleijado de nascença, estava sendo carregado para um dos portões do templo, chamado Portão Formoso. Todos os dias o colocavam ali para pedir esmolas aos que entravam no templo.2 3 Quando viu que Pedro e João iam entrar no templo, pediu que lhe dessem um donativo. 4 Fixando nele o olhar, Pedro, em companhia de João, disse: “Olha para nós!”. 5 E o homem olhou para eles com atenção, na expectativa de receber deles alguma ajuda. 6 Então, afirmou-lhe Pedro: “Não possuo prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em o Nome de Jesus Cristo, o Nazareno, ergue-te e anda!”. 7 E, segurando-o pela mão direita, ajudou-o a levantar-se e, naquele mesmo instante, os pés e tornozelos do homem ficaram firmes. 8 E de um salto pôs-se em pé e começou

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a andar. Logo em seguida, entrou com eles no pátio do templo, andando, saltando e louvando a Deus.3 9 Quando todo o povo o viu andando e adorando a Deus, 10 reconheceu que era ele, aquele mesmo homem que estivera prostrado junto ao Portão Formoso do templo; e ficaram plenos de temor e perplexidade com o que lhe acontecera. A severa pregação de Pedro Apegando-se o mendigo a Pedro e João, todo o povo correu maravilhado para junto deles, num lugar chamado Pórtico de Salomão.4 12 Ao perceber isso, Pedro exclamou ao povo: “Varões de Israel, por que vos admirais a respeito disso? Por que estais olhando para nós, como se tivéssemos feito este homem andar por nosso próprio poder ou santidade? 13 O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus dos nossos antepassados, glorificou a seu Servo Jesus, a quem vós entregastes para ser morto e, diante de Pilatos, o rejeitastes, quando este havia decidido soltá-lo.5 14 Todavia, vós negastes publicamente o Santo e Justo, e pedistes que um assassino fosse libertado. 15 Vós matastes o Autor da vida, a quem
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que reuniam os crentes em Jerusalém se realizavam diariamente no Templo (Lc 24.53). Entretanto, a Ceia em memória ao Senhor Jesus, que na época coincidia com uma refeição de confraternização, era realizada nas casas dos cristãos em meio a uma celebração chamada “Agapẽ” (Festa do amor fraternal), na qual os irmãos exerciam a “comunhão” (em grego: koinonia), que tinha um sentido muito maior do que apenas aquecer a amizade: expressava a própria “vida de Cristo”, de uns para com os outros, com suas vitórias e desafios, alegrias e tristezas. A “koinonia” solidificava a intimidade espiritual dos crentes com o próprio Jesus (por meio do Espírito Santo) e entre si. Capítulo 3 1 Pedro, João e Tiago (irmão de João) naturalmente passaram a liderar o grupo dos apóstolos e discípulos por causa da íntima comunhão que tiveram com Jesus (Mc 9.2; 13.3; 14.33; Lc 22.8; Gl 2.9). O judaísmo antigo obedecia a três horários fixos de oração: no meio da manhã (terceira hora, ou nove horas); a hora em que se oferecia o sacrifício vespertino (hora nona, ou quinze horas) e ao pôr-do-sol. 2 Esse portão, também chamado de “Porta Formosa” ou “Portão de Nicanor”, era todo revestido de bronze fino (coríntio) e principal acesso para o átrio do templo, oferecendo passagem entre o pátio dos gentios e o das mulheres. 3 Do pátio exterior entraram no pátio das mulheres (onde ficavam as caixas coletoras de ofertas – Mc 12.41-44), e depois passaram para o pátio de Israel. Desde o pátio exterior, foram atravessados nove portões até os pátios interiores. 4 O Pórtico de Salomão ficava ao longo do lado interno do muro que cercava o pátio exterior, com fileiras de altas colunas de pedra de nove metros de altura e um teto todo trabalhado em cedro maciço (Jo 10.23). 5 Em sua soberana vontade de glorificar seu Filho Jesus, Deus não se limita, no exercício de seu poder, às virtudes ou capacidades humanas. Pedro fez questão de proclamar sua condição de servo e render glória a Deus. Relembrou as profecias que anunciavam a vinda do Servo Sofredor (Is 52.13-53.12 com Mt 12.18; At 4.27,30). Pedro aproveita o momento de atenção e fala de irmão para irmão com seus compatriotas. Corajosamente, lhes revela a gravidade do erro cometido. Eles negaram

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Deus ressuscitou dentre os mortos. E nós somos testemunhas deste fato.6 16 Pela fé em o Nome de Jesus, o Nome curou este homem que aqui vedes e bem o conheceis; sim, a fé que vem por meio de Jesus deu a este, agora, saúde perfeita, como todos podem observar. 17 Contudo, irmãos, eu sei que o que vós e vossos líderes fizeram com Jesus foi sem o perfeito conhecimento do que estavam praticando. 18 Entretanto, foi desta forma que Deus cumpriu o que tinha predito por todos os profetas, anunciando que o seu Cristo haveria de sofrer.7 19 Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos para que assim sejam apagados os vossos pecados, 20 de modo que da presença do Senhor venham tempos de refrigério, e Ele envie o Cristo, que já vos foi previamente designado: Jesus. 21 É necessário que Jesus permaneça no céu até que chegue o tempo em que

Deus restaurará todas as coisas, conforme já decretou há muito tempo, por intermédio dos seus santos profetas.8 22 Porquanto declarou Moisés: ‘O Senhor Deus levantará dentre vossos irmãos um profeta como eu; a Ele ouvireis em tudo que vos ordenar.9 23 E acontecerá que toda pessoa que não ouvir esse profeta será exterminada dentre o povo’. 24 Em verdade, todos os profetas, de Samuel em diante, um por um, pregaram e predisseram estes dias.10 25 E vós sois os herdeiros dos profetas e da aliança que Deus estabeleceu com vossos antepassados. Ele declarou a Abraão: ‘Por meio da sua descendência, todos os povos da terra serão abençoados’. 26 Sendo assim, tendo Deus ressuscitado o seu Servo, enviou-o primeiramente para vós, a fim de abençoá-los, convertendo cada um de vós das vossas vidas pecaminosas”.11

o Senhor votando por sua condenação, desprezaram-no e se recusaram a reconhecê-lo como o Messias, mesmo diante do poder dos ensinos de Jesus, dos seus sinais miraculosos e de sua vida absolutamente consagrada ao Pai. O próprio procurador romano, Pilatos, não viu motivo para condená-lo e tentou soltá-lo, mas os judeus ensandecidos exigiram a crucificação de Jesus (Jo 19.12). 6 Os apóstolos foram testemunhas oculares da vida santa e poderosa do Filho de Deus e da sua injusta condenação e morte. A maioria dos discursos em Atos repete esse tema: “vós matastes Jesus. Deus o ressuscitou dentre os mortos” (At 2.23,24; 4.10; 5.30-32; 10.39-41; 13.28,29 de acordo com 1Co 15.1-4). Pedro enfatiza que Jesus é inculpável (Santo e Justo) em relação a Deus e aos homens. 7 A expressão “seu Cristo” também significa “seu Ungido ou seu Messias”, numa clara referência ao Sl 2.2 (conforme At 4.25,26). Era indispensável que os judeus se rendessem às evidências quanto à necessidade dos sofrimentos expiatórios do Messias, claramente preditos ao longo de todas as Escrituras Sagradas (Is 53.7,8 com At 8.32,33; Sl 22.1 com Mt 27.46 e 1Pe 1.11 com Lc 24.26,27). Entretanto, até nossos dias, a cruz de Jesus continua sendo escândalo para os judeus (1Co 1.23). 8 O arrependimento verdadeiro é a radical mudança de idéia e de vontade proveniente de um profundo sentimento de reconhecimento e tristeza pelos erros cometidos, motivando total transformação no caráter e estilo de vida (comportamento). Em conseqüência do arrependimento (repúdio ao pecado e a tudo que é errado) e da consagração ao Senhor (obediência a Deus pela fé em Jesus), todos os pecados são destruídos, cancelados e anulados em seus efeitos (Rm 8.18-25; 12.1-2). A total restauração da humanidade e de toda a terra ocorrerá com a segunda vinda de Cristo, quando as grandes bênçãos prometidas, e ainda não plenamente usufruídas, serão derramadas sobre todo o povo de Deus. Por isso, devemos orar e trabalhar pela conversão dos judeus e evangelização do mundo. E, assim, apressarmos o glorioso retorno do Senhor (2Pe 3.12; Rm 11.25). 9 Jesus Cristo é o cumprimento das profecias feitas no tocante a Moisés, Davi e Abraão. O Messias seria um profeta semelhante a Moisés. Previsto nas pregações de Samuel a respeito de Davi, o Ungido, traria bênçãos sobre todos os povos da terra, de acordo com as promessas feitas a Abraão (vv. 25,26). Os primeiros sermões de Pedro em Atos revelam que Jesus é o sucessor de Davi e Moisés, cumprindo as profecias do AT desde Abraão. 10 O profeta Samuel ungiu a Davi para ser rei e declarou que seu reino seria estabelecido (1Sm 16.13; conforme 12.14; 15.28; 28.17). A palavra de Natã, em última análise, é uma profecia messiânica (2Sm 7.12-16; At 13.22,23,34; Hb 1.5). 11 A palavra grega traduzida no v.22 por “levantará” é a mesma aqui traduzida por “ressuscitado”, o que reforça a idéia de Deus haver providenciado nosso Redentor; e nem mesmo todos os pecados da humanidade e a morte poderiam detê-lo. Ao contrário, na ressurreição de Cristo, o Senhor cumpre as profecias entregues aos pais (13.32-34). Em Jesus ressurreto, aquela bênção prometida a Abraão, e dirigida a todas as nações (Gn 12.3), alcança seu pleno cumprimento.

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10 tomai conhecimento, vós todos e todo o povo de Israel, de que, em o Nome de Jesus Cristo, o nazareno, aquele a quem vós crucificastes, porém a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, sim, por intermédio desse Nome é que este homem está aqui, diante de vós, plenamente curado! 11 Este Jesus é ‘a pedra que foi rejeitada por vós, os construtores, a qual foi posta como pedra angular’.3 12 E, portanto, não há salvação em nenhum outro ente, pois, em todo universo não há nenhum outro Nome dado aos seres humanos pelo qual devamos ser salvos!”. 13 Observando a coragem de Pedro e de João, e tendo notado que eram homens simples e iletrados, ficaram perplexos e reconheceram que eles haviam convivido com Jesus.4 14 Além disso, como podiam constatar diante de seus olhos a presença daquele homem, em pé, que fora curado, nada podiam alegar contra eles. 15 E, por isso, ordenaram que se retirassem do Sinédrio e começaram a discutir entre si, 16 argumentando: “Que faremos a estes homens? Pois todos os habitantes de Jerusalém sabem que por meio deles foi realizado um sinal miraculoso comprovado, o qual não temos como negar. 17 Todavia, para que isso não se divulgue

Pedro e João levados ao Sinédrio Enquanto Pedro e João estavam falando ao povo, chegaram os sacerdotes, o capitão dos guardas do templo e os saduceus.1 2 Eles estavam muito perturbados porque os apóstolos estavam ensinando o povo e proclamando em Jesus a ressurreição dos mortos.2 3 Então, prenderam Pedro e João e os lançaram ao cárcere até o dia seguinte, pois já estava anoitecendo. 4 Entretanto, muitos dos que tinham ouvido a pregação aceitaram a Palavra, chegando o número dos homens que creram próximo de cinco mil. 5 No dia seguinte, reuniram-se em Jerusalém as autoridades, os líderes religiosos e os mestres da lei. 6 Estavam reunidos Anás, o sumo sacerdote, bem como Caifás, João, Alexandre e todos os que eram da família do sumo sacerdote. 7 Ordenaram que Pedro e João fossem trazidos à presença deles e começaram a interrogá-los: “Com que poder ou em nome de quem fizestes isso?”. 8 Então Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes declarou: “Autoridades e líderes do povo! 9 Visto que hoje somos questionados em relação a um ato de caridade praticado a favor de um homem doente e sobre o modo como foi curado,

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1 Esses são sacerdotes que estavam servindo naquela semana no recinto do templo (Lc 1.23). O capitão (em grego sãgãn) era membro de uma das famílias sacerdotais de destaque, e segundo oficial no poder político e religioso dos judeus depois do sumo sacerdote (Lc 22.4,52; At 5.24,26). Os saduceus faziam parte de uma seita da elite religiosa judaica, seus membros provinham da linhagem sacerdotal, eram cultos, ricos e governavam o templo. Não acreditavam na ressurreição dos mortos nem na vinda de um Messias pessoal e Libertador, mas pregavam que Israel já vivia a época messiânica e cabia a eles instruírem os mestres da lei para ensinarem o povo a edificar e preservar esse chamado “estado ideal”. O sumo sacerdote, um entre os demais sacerdotes (Mt 3.7; 22.23-33; Mc 12.18; Lc 20.27; At 5.17; 23.6-8), era escolhido para presidir o Sinédrio (Supremo Tribunal Judaico). 2 Os saduceus haviam tomado a liderança no plano para condenar e crucificar a Jesus (Jo 11.49,50) com a esperança de que, eliminando o líder, aquela “nova seita judaica” que se esboçava viesse a desvanecer-se doutrinariamente e perdesse seus adeptos. Precisamente os saduceus, que não acreditavam na ressurreição (23.6-8), têm agora que lidar com o Espírito do líder ressurreto dos cristãos e com o dinamismo, alegria, poder e carisma dos seus seguidores. 3 Os primeiros cristãos enfatizavam em suas pregações e ensinos o cumprimento das profecias do AT sobre a vida e obra redentora de Jesus Cristo, o Messias (Mt 21.42; 1Pe 2.7), de acordo com Rm 9.33; Is 28.16, o próprio Jesus havia citado Sl 118.22. E sua ressurreição estabeleceu o novo Templo “construído sem mãos” (Jo 2.19; Mc 14.58) que é a habitação de Deus: o coração do indivíduo salvo e a reunião dos crentes, que é a Igreja, o Corpo de Cristo (Ef 2.20). 4 Em comparação com os saduceus e os teólogos da época, Pedro e João eram literalmente “analfabetos” (como está nos originais em grego agrammatos) e “leigos” (da mesma forma em grego idiotai). Entretanto, o Espírito Santo os capacitou de tal maneira, que a coragem, eloqüência, poder e sabedoria de suas palavras fizeram os líderes judaicos deduzirem que aqueles homens haviam estudado e convivido com Jesus (Mc 1.22; 3.14).

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ainda mais entre o povo, vamos intimidá-los, exigindo que a ninguém mais falem sobre este Nome”. 18 Então, convocando-os novamente, ordenaram-lhes que não falassem, tampouco ensinassem em o Nome de Jesus. 19 Contudo, Pedro e João propuseramlhes: “Julgai vós mesmos se é justo diante de Deus obedecer a vós mais do que a Deus. 20 Pois não podemos deixar de falar de tudo quanto vimos e ouvimos!”. 21 E, os ameaçando ainda mais, os deixaram ir, pois não conseguiram encontrar motivo algum para castigá-los e o povo estava extasiado, louvando a Deus pelo que acontecera; 22 pois o homem em quem se operara aquela cura milagrosa tinha mais de quarenta anos. Como os primeiros cristãos oravam 23 Assim que foram soltos, Pedro e João buscaram a companhia dos seus amigos e contaram tudo o que os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos lhes haviam dito. 24 Ao ouvirem esse relato, os irmãos unânimes elevaram a voz a Deus e exclamaram: “Ó Todo-Poderoso Senhor, Tu que fizeste o céu e a terra, o mar e tudo o que neles existe; 25 que, pelo Espírito Santo, por boca de nosso pai Davi, teu servo, declaraste: ‘Por que os gentios se enfurecem, e os povos conspiram em vão? 26 Os reis da terra se levantam, e os go-

vernantes se ajuntam em oposição ao Senhor e contra o seu Ungido’. 27 De fato, Herodes e Pôncio Pilatos reuniram-se com as nações pagãs e os povos de Israel nesta cidade, para conspirar contra o seu Santo Servo Jesus, a quem ungiste.5 28 Realizaram tudo o que, em teu poder e sabedoria, já havia predeterminado que aconteceria.6 29 Agora, pois, ó Senhor, considera as ameaças deles e capacita os teus servos para proclamarem a tua Palavra com toda a intrepidez. 30 Estende a tua mão para curar e realizar sinais e maravilhas por meio do Nome do teu Santo Servo Jesus!”. 31 E assim que terminaram de orar, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram plenos do Espírito Santo e, com toda a coragem saíram anunciando a Palavra de Deus.7 A vida da Igreja de Cristo 32 E da multidão dos que creram, um só era o sentimento e a maneira de pensar. Ninguém considerava exclusivamente seu os bens que possuía, mas todos compartilhavam tudo entre si. 33 Com grande poder os apóstolos continuavam a pregar, testemunhando da ressurreição do Senhor, e maravilhosa graça estava sobre todos eles.8 34 Não havia uma só pessoa necessitada entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda 35 e o depositavam aos pés dos apóstolos,

5 O “Ungido” (em grego: Christos, que é a tradução da palavra hebraica: Mãshïah, Messias). Na oração, os companheiros de Pedro e João, referem-se ao batismo de Jesus quando Deus declarou: “meu filho amado” (Mt 3.17). Herodes Antipas (tetrarca da Galiléia e Peréia) e Pôncio Pilatos (procurador romano na Judéia) são os reis e autoridades (príncipes) mencionados na profecia do Sl 2.1,2 (de acordo com Lc 23.1-24). Santo Servo é novamente uma alusão às profecias de Isaías (Is 52.13 – 53.12). 6 A expressão “predeterminado” (conforme o original grego: prowvrisen) foi somente usada por Paulo e Pedro (1Pe 1.2,20: 2.4-6). O plano de Deus, contemplado e traçado antes da fundação do mundo (Ef 1.4; Ap 13.8), considera em seu contexto amplo as boas e más ações da humanidade sem, contudo, diminuir qualquer responsabilidade pelos atos de cada indivíduo sobre a terra. Deus não força o ser humano a agir de uma forma ou outra. Entretanto, o Senhor vê a história do universo como um todo atemporal, sem os limites de tempos e épocas (passado, presente e futuro) e, portanto, tem o poder de usar os homens, com seus progressos e tragédias, bem como as ações do Diabo, em prol da salvação final e eterna da humanidade, particularmente de todos aqueles que depositarem fé sincera e absoluta em seu Filho Jesus, o Messias Salvador (Jo 1.12-13). 7 A exemplo do que ocorreu no AT, Deus fez tremer o lugar onde seus servos estavam reunidos em oração, como um sinal da sua presença e aprovação (Êx 19.18; Is 6.4). Foi uma maneira através da qual o Senhor renovou nos apóstolos e discípulos, que estavam iniciando a Igreja de Cristo, a experiência do dia do Pentecoste (ou semana do Pentecostes). É o Espírito Santo quem nos capacita com força espiritual, generosidade, coragem (intrepidez), determinação, sabedoria e santidade para testemunharmos da salvação que há – somente – em Jesus (8.13,33). 8 A expressão grega original: dunamis significa “poder” e também “milagre” (2.22). Em 2.47, a Igreja (o povo de Deus) recebeu

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que por sua vez, o repartiam conforme a necessidade de cada um. A oferta de José Barnabé 36 Então José, um levita natural de Chipre, a quem os apóstolos deram o sobrenome de Barnabé, que significa “filho da consolação”, 37 sendo proprietário de um campo, vendendo-o, trouxe o dinheiro da venda e o colocou junto aos pés dos apóstolos.9 A oferta de Ananias e Safira Entrementes, um certo homem chamado Ananias, com sua esposa Safira, também vendeu uma propriedade. 2 Mas ele reteve parte do dinheiro da venda para si, tendo conhecimento disso também sua esposa. Ele levou a parte restante e a depositou aos pés dos apóstolos.1 3 Então, indagou-lhe Pedro: “Ananias, por que permitistes que Satanás encheste o teu coração, induzindo-te a mentir ao Espírito Santo para que ficasses com parte do valor do terreno? 4 Mantendo-o contigo, porventura não

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continuaria teu? E vendido, não estaria todo o dinheiro em teu poder? Como pudestes permitir que tais idéias dominassem tua vontade?2 5 Ao ouvir esta admoestação, Ananias caiu morto. Então, grande temor tomou conta de todos os que souberam do que havia acontecido. 6 E, alguns jovens tomaram a iniciativa de cobri-lo, carregaram-no para fora e o sepultaram. 7 Cerca de três horas mais tarde entrou sua esposa, sem saber o que havia se passado. 8 E Pedro a questionou: “Dize-me, vendestes por este preço aquelas terras? Ela confirmou: “Sim, por este preço!”. 9 Então Pedro a repreendeu: “Por que vós entrastes em acordo para tentar o Espírito do Senhor? Eis que estão aí à porta os pés dos que sepultaram o teu marido, e eles a levarão também”. 10 Naquele mesmo instante, ela caiu morta aos pés de Pedro. Então, aqueles jovens entraram e, encontrando-a morta, levaram-na e a sepultaram ao lado de seu marido.

“graça” (no original em grego charin) que significa: “favor, simpatia, apreciação”, da parte do povo. Neste trecho, a “graça” vem de Deus e se constitui na fonte da generosidade e do serviço cristão (2Co 8.1,9). 9 José Barnabé (em grego: “filho de paraklẽsis” – “aquele que exorta, anima, consola”) era primo de João Marcos de Jerusalém (Cl 4.10) e originário de uma família sacerdotal (levita) judaico-cipriota que vivia e possuía propriedades na ilha de Chipre (um país localizado na parte leste do mar Mediterrâneo). Desde os tempos dos macabeus muitos judeus se estabeleceram em Chipre. Esta é a maneira como Lucas apresenta aquele que virá a ser um dos melhores amigos e conselheiros de Paulo: um homem cheio do Espírito e de bondade (9.27; 11.22,25; 13.1-4; 15.37,39). Capítulo 5 1 A palavra “reteve” é a mesma expressão que aparece na tradução grega do AT (Septuaginta) quando narra o pecado de Acã (Js 7.1-25). A mesma avareza, associada à hipocrisia (desejo de manter uma falsa imagem de santidade), gerou mentira, afastamento de Deus e destruição. Veja os exemplos de Nadabe e Abiú (Lv 10.2) e Uzá (2Sm 6.7). Ananias e Safira foram os primeiros exemplos de “falta de sinceridade no serviço cristão” ocorridos nos primórdios da Igreja de Jesus Cristo. Essa terrível experiência demonstrou à Igreja em formação que “de Deus não se zomba” (Gl 6.7). Um grande contraste em relação ao bom exemplo de José Barnabé (4.36). 2 O sentido geral da frase no original revela uma contínua atividade de Satanás, tentando sistematicamente, e por diversos modos, persuadir o ser humano a cair em pecado. A palavra hebraica: sãtãn (Satanás) significa “adversário” e, por isso, foi traduzida para o grego por diabolos. Em Jó 1.6 e Zc 3.1 e nos versos seguintes destas passagens, a palavra sãtãn corresponde ao nome próprio de um anjo mal, cuja principal atividade é acusar os seres humanos diante de Deus e requerer destruição sobre as nações. Essa pessoa absolutamente maligna domina o reino das trevas, possui filhos e anjos caídos a seu serviço; que diuturnamente fazem oposição a Deus (Trindade), seu Reino, anjos e filhos (Mt 12.26; 25.41; 1Jo 3.10). Ainda que Satanás conheça todas as fraquezas humanas e freqüentemente nos sugira maneiras de expressá-las em pecado, os cristãos contam com a poderosa presença de Deus em suas almas, na pessoa do Espírito Santo, e podem – pela fé – rejeitar todos os ardis e sugestões do Inimigo, vencendo as tentações. Os textos de 4.36,37 – 5.1,4 deixam claro que as ofertas e donativos eram atos voluntários, segundo a generosidade de cada um. Os apóstolos não haviam pedido nada, foi o Espírito Santo quem moveu cada pessoa a contribuir conforme a alegria do coração (2Co 9.7). Ananias e Safira não pecaram por ficar com parte do dinheiro da venda de sua propriedade, mas sim por haverem mentido ao Espírito Santo (Deus) e suporem arrogantemente que é possível ao ser humano pensar ou realizar qualquer coisa fora do pleno conhecimento do Senhor. A ofensa contra a Igreja, habitada pelo Espírito, é insulto e pecado contra o próprio Deus (9.5).

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11 E grande temor se apoderou de toda a igreja e de todos os que ouviram falar sobre esses acontecimentos.3

ATOS 5

Os sinais dos apóstolos 12 Muitos sinais e maravilhas eram realizados entre o povo pelas mãos dos apóstolos. E todos os que creram costumavam reunir-se, em comunhão, junto ao Pórtico de Salomão. 13 Todavia, ninguém de fora tinha coragem de juntar-se a eles, ainda que o povo os tivesse em grande estima.4 14 Em número cada vez maior, homens e mulheres criam no Senhor e eram acrescentados à comunidade, 15 a ponto de os doentes serem levados para as ruas e colocados em leitos e macas para que, quando Pedro passasse, ao menos sua sombra se projetasse sobre alguns deles. 16 Da mesma forma, das cidades ao redor, vinha muita gente a Jerusalém, trazen-do doentes e pessoas atormentadas por espíritos demoníacos, e todos eram libertos.5 Os apóstolos são presos e libertos 17 Então, o sumo sacerdote e todos os seus correligionários, membros do partido dos saduceus, foram tomados de grande inveja.6 18 E, por isso, mandaram prender os

apóstolos, jogando-os numa prisão pública. 19 Todavia, durante a noite um anjo do Senhor abriu as portas do cárcere, conduziu-os para fora e 20 instruiu-lhes: “Ide, apresentai-vos no templo e anunciai às multidões todas as palavras da Salvação!”.7 21 Assim, ao raiar do dia, eles entraram no pátio do templo, como haviam sido orientados, e começaram a pregar ao povo. De outro lado, chegando o sumo sacerdote e os seus companheiros, imediatamente convocaram o Sinédrio, ou seja, toda a assembléia dos principais líderes de Israel, e mandaram buscar os apóstolos na prisão.8 22 Entretanto, ao chegarem à prisão, os guardas não os encontraram ali. Então voltaram e comunicaram: 23 “Encontramos o cárcere fechado com toda a segurança e as sentinelas nos seus postos junto às portas; mas, abrindo-as, a ninguém encontramos lá dentro!”. 24 Diante desse relato, o capitão da guarda do templo e os chefes dos sacerdotes ficaram atônitos, imaginando o que poderia ter acontecido com os apóstolos. 25 Nesse momento, chegou alguém com a notícia: “Eis que os homens que recolhestes à prisão, estão no pátio do templo, ensinando ao povo!”.

3 Essa conseqüência drástica em relação ao pecado foi necessária, especialmente no momento em que a Igreja, como Corpo de Cristo, começava a dar seus primeiros passos. Era fundamental que todos soubessem que o Espírito Santo é a própria pessoa do Senhor habitando o corpo do crente, não um tipo de energia qualquer, e não pode ser logrado. Além disso, a Igreja de Jesus Cristo não é uma empresa comercial, tampouco um negócio onde a hipocrisia, fraude ou corrupção possa ser aceita. A disciplina na Igreja, em grande parte, depende da ação corretiva de Deus (1Co 11.30-32; Hb 12.5-11; 1Jo 5.16,17). O poder disciplinador do Pai está em harmonia com sua capacidade de curar, ressuscitar e dar a vida eterna a seus filhos sinceros (Jo 1.12-13). Essa é a primeira vez que a palavra “igreja” ocorre no livro de Atos. A expressão: ekklẽsia, nos originais em grego, era empregada para designar as assembléias religiosas e políticas dos judeus, e os apóstolos passaram a usar a mesma expressão para convocar a reunião dos primeiros cristãos (8.1; 11.22; 13.1; 19.32,40). 4 Lucas usa a expressão “ninguém de fora” para registrar que depois do fim vergonhoso e trágico de Ananias e sua mulher, nenhuma pessoa filiou-se à comunidade cristã daqueles dias sem avaliar a sinceridade e a responsabilidade de tal compromisso com Deus. O v.14 demonstra, entretanto, que muitos “corações convertidos” juntavam-se à Igreja todos os dias (1.14; 8.3,12; 9.2; 13.50; 16.1,13,14; 17.4,12,34; 18.2; 21.5). Essa é a primeira vez em que Lucas faz menção específica a uma quantidade de mulheres convertidas que se tornaram membros da Igreja (v. 14). 5 Cumpre-se a segunda etapa da profecia de Jesus Cristo sobre a propagação do Evangelho: “em toda Judéia” (1.8). 6 Caifás era sumo sacerdote oficial e reconhecido por Roma. Contudo, os judeus consideravam Anás, o sogro de Caifás, o verdadeiro sumo sacerdote, pois esse cargo era vitalício (4.1-6). 7 A expressão aramaica hayye significa “salvação” ou “vida” (13.26). 8 O Supremo tribunal dos judeus era composto de 71 homens (às vezes mais). Sentavam-se num semicírculo, tendo às suas costas três fileiras de seguidores e aprendizes conhecidos como “discípulos dos sábios”. E, na frente, em pé ficavam os escrivães do tribunal. Sinédrio e Senado são termos equivalentes (Mt 26.59-68).

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35 E prosseguiu dizendo: “Caros israelitas, considerai com toda cautela o que estais para decidir fazer a estes homens. 36 Porquanto, há algum tempo surgiu Teudas, pregando ser alguém, e aproximadamente quatrocentos homens se juntaram a ele. Todavia, ele foi morto e todos os seus seguidores se dispersaram e acabaram em nada. 37 Depois dele, na época do recenseamento, apareceu Judas, o galileu, que liderou um grupo revolucionário. Ele, da mesma forma foi morto, e todos os seus companheiros se espalharam.12 38 Contudo, neste caso, vos advirto: afastaivos destes homens e deixai-os seguir em paz. Pois, se a obra ou o propósito deles for de origem meramente humana, perecerá. 39 Se, todavia, proceder de Deus não conseguireis jamais impedi-los, pois vos achareis em guerra contra Deus!”. 40 E as palavras de Gamaliel convenceram a eles. Então, mandaram trazer os apóstolos e ordenaram que fossem açoitados. Depois, exigiram-lhes que não mais falassem no Nome de Jesus e os deixaram sair em liberdade. 41 Os apóstolos se retiraram do Sinédrio, contentes por haverem sido considerados dignos de serem humilhados por causa do Nome.13 42 E, todos os dias no templo, bem como de casa em casa, não deixavam de pregar e ensinar que Jesus Cristo é o Messias.

Então, o capitão foi com os guardas e os trouxe outra vez, porém sem violência, pois temiam ser apedrejados pela multidão. 27 E, depois de trazê-los, os apresentaram ao Sinédrio. E o sumo sacerdote os interrogou: 28 “Não vos ordenamos expressamente que não pregásseis nesse Nome? Contudo, enchestes Jerusalém dessa vossa doutrina e quereis lançar sobre nós a culpa pelo sangue desse homem?”. 29 Ao que Pedro e os demais apóstolos afirmaram: “É necessário que primeiro obedeçamos a Deus, depois às autoridades humanas. 30 O Deus de nossos antepassados ressuscitou a Jesus, a quem vós assassinastes, crucificando-o num madeiro. 31 Deus, no entanto, o exaltou, elevandoo à sua direita, como Príncipe e Salvador, a fim de dar a Israel arrependimento e perdão de pecados.9 32 Ora, nós somos testemunhas destes fatos, bem como o Espírito Santo, que Deus concedeu aos que são obedientes a Ele!”.10
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O sabedoria de Gamaliel 33 Ao ouvir estas palavras, eles muito se enfureceram e queriam matá-los. 34 Então, certo fariseu chamado Gamaliel, doutor da lei, respeitado por todas as pessoas, levantou-se no Sinédrio e pediu que aqueles homens fossem retirados por um momento.11

9 A palavra “príncipe” (em grego archegon) pode ser também traduzida como “Autor” (3.15). A palavra hebraica “levantou”, assim como as expressões: “Salvador” ou “Libertador” são as mesmas que aparecem em Js 3.9. O arrependimento é a condição imposta pelo Príncipe (Autor) e salvação (remissão) é o galardão maior por Ele concedido aos cristãos sinceros. 10 O testemunho dos apóstolos era dirigido e confirmado pelo Espírito Santo, que convence o mundo mediante a Palavra e é concedido a todos que correspondem ao amor e convite de Deus com a obediência que vêm pela fé (Rm 1.5). Em meio aos muitos prodígios, maravilhas e conversões, cumpriu-se a promessa de Cristo (Jo 16.7-14). 11 Gamaliel pertencia a um partido popular judaico que dava ênfase à absoluta obediência da Lei como o caminho da Salvação. Embora fariseu, representava a renomada escola de Hilel, que favorecia uma interpretação mais liberal e humanizante da Lei. Uma das doutrinas características dos fariseus é que “Deus está acima de tudo e não precisa do auxílio de ninguém para cumprir seus desígnios. O que é de Deus se estabelecerá, o que não é jamais se firmará”. Gamaliel era respeitado por sua devoção a Deus, sabedoria e erudição. Foi mestre de Saulo que viria a se tornar o apóstolo Paulo (22.3). 12 Quando a Judéia foi reduzida à província romana, no ano 6 d.C., Quirino, procurador imperial na Síria, promoveu um recenseamento com o fim de calcular a soma do tributo a que a nova província estava obrigada a recolher para Roma. Foi quando Judas, cidadão de Gamala e outros revolucionários, considerando isso um prelúdio de escravidão e uma desonra a Deus, o único e verdadeiro Rei de Israel, desfraldou a bandeira da revolta. Esta foi esmagada, porém o partido dos Zelotes conservou-lhe vivo os ideais (1.13; Mt 10.4). 13 Os apóstolos receberam a punição judaica de “quarenta açoites menos um” (2Co 11.24). Entretanto, consideraram tudo isso como o cumprimento da “bem-aventurança” de padecer por amor a Jesus Cristo e pela proclamação do Evangelho (Mt 5.10-12; Lc 6.22,23).

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A escolha de sete diáconos Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número de discípulos, houve uma queixa entre eles. Os judeus helenistas protestaram contra os judeus de fala hebraico-aramaica, porque suas viúvas não estavam sendo atendidas na distribuição diária de alimentos.1 2 Então, os Doze reuniram todos os discípulos e propuseram: “Não é sensato negligenciarmos o ministério da Palavra de Deus, a fim de servir às mesas.2 3 Portanto, irmãos, escolhei dentre vós Sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste ministério.3 4 Quanto a nós, nos devotaremos à oração e ao ministério da Palavra. 5 Tal proposta agradou a todos. Então, escolheram Estevão, homem cheio de

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fé e do Espírito Santo, além de Filipe, Prócoro, Nicanor, Timom, Pármenas e Nicolau, um convertido ao judaísmo, proveniente de Antioquia. 6 Apresentaram-nos diante dos apóstolos, os quais oraram e lhes impuseram as mãos.4 7 E a Palavra de Deus era divulgada, de modo que se multiplicava grandemente o número dos discípulos em Jerusalém; inclusive, muitos sacerdotes obedeciam a fé.5 Estevão é levado ao Sinédrio 8 Estevão, homem cheio de graça e do poder de Deus, realizava prodígios e sinais milagrosos entre as multidões.6 9 Entretanto, levantaram-se alguns que pertenciam à chamada sinagoga dos Libertos, dos judeus de Cirene e de Alexandria, assim como das províncias

1 Há um intervalo de tempo considerável e impreciso entre o final do cap.5 e este momento no qual, devido ao gigantismo da Igreja que continuava crescendo sem parar (5.14), problemas administrativos estavam ocorrendo, tanto dentro (6.1-7) quanto fora da comunidade (6.8 – 7.60). Nesta altura dos acontecimentos, a Igreja era formada integralmente por judeus convertidos à doutrina de Jesus Cristo e batizados com o Espírito Santo. Contudo, havia dois grupos bem distintos de judeus que conviviam dentro da comunidade dos crentes: 1) Os judeus helenistas (essa é a primeira vez que esse termo é usado na literatura grega) ou de fala grega, pois pertenciam a uma geração nascida em países fora da Palestina, cujos conceitos e hábitos eram mais gregos que hebreus. 2) Os judeus hebreus pertenciam à geração nascida na Palestina e que falava o aramaico, uma língua derivada do hebraico e muito popular entre os mais jovens. Eles aprendiam a ler a Bíblia hebraica e procuravam manter as tradições e cultura judaicas. Entretanto, o zelo missionário partiu dos crentes helenistas menos tradicionais e mais comunicativos, pois falavam grego, que era a língua franca em todo o Império Romano. As viúvas, tradicionalmente protegidas pela Lei, ficaram sob os cuidados da Igreja (4.35; 11.28,29; 1Tm 5.3-16). 2 O vocábulo grego original: diakonein (diáconos) significa “servidores” ou “ministros”, e foi usado por Lucas para descrever o trabalho de “servir às mesas”, ou seja, zelar e prover às viúvas o sustento de cada dia (Fp 1.1; 1Tm 3.6). Nesse momento da Igreja, os apóstolos estavam sobrecarregados, pois eram responsáveis por toda a ministração da Palavra, curas e outros milagres; e ainda cuidavam da arrecadação de ofertas, distribuição dos recursos entre as famílias da comunidade, ajuda às viúvas, órfãos e demais necessitados. 3 A Igreja distingüiu homens cheios do Espírito Santo (v.5), e os Doze (como eram chamados pela Igreja) comissionaram os Sete (21.8), escolhidos democraticamente pelos crentes (v.6). Desta maneira, foram nomeados para realizar seu “serviço cristão” (ministério). Curiosamente, todos têm nomes gregos, mas somente Estevão e Filipe são citados novamente por Lucas (6.8 – 7.60; 8.5-40; 21.8,9). E havia um prosélito (um gentio convertido ao judaísmo) que era de Antioquia, cidade para a qual o Evangelho seria levado dentro em breve, e se tornaria a “sede” da primeira grande campanha missionária de evangelização aos gentios. 4 A imposição de mãos tem uma simbologia e um significado muito amplo e profundo. No AT era usada para outorgar bênçãos (Gn 48.13-20); para transferir a culpa do pecador para o sacrifício oferecido (Lv 1.4); e para comissionar uma pessoa a uma nova responsabilidade ou desafio (Nm 27.23). No período do NT, as mãos eram colocadas sobre as pessoas que eram agraciadas com curas e livramentos (28.8; Mc 1.41), na invocação de bênçãos (Mc 10.16), na ordenação ou comissionamento (6.6; 13.3; 1Tm 5.22), bem como na outorga de dons espirituais (8.17; 19.6; 1Tm 4.14; 2Tm 1.6). 5 Esse é mais um dos relatórios sobre o crescimento da Igreja apresentados por Lucas durante o livro de Atos (1.15; 2.41; 4.4; 5.14; 6.7; 9.31; 12.24; 16.5; 19.20; 28.31). Lucas ainda enfatiza a conversão de sacerdotes que, apesar do seu compromisso vitalício com os serviços relativos ao cumprimento das ordenanças da antiga aliança, compreenderam o ensino dos apóstolos quanto ao sacrifício vicário de Jesus Cristo, o qual tornou desnecessário qualquer outro tipo de sacrifício (Hb 8.13; 10.1-4, 11-14). Além disso, movidos pelo Espírito Santo, passaram a obedecer de bom grado, aos princípios do Evangelho da Graça (Rm 1.5; Ef 2.8-10; Tg 2.14-26). Zacarias foi um exemplo, na época de Cristo, de sacerdote convertido a Jesus (Lc 1.5-6). 6 Até esse momento Lucas narrou exclusivamente os apóstolos realizando milagres e maravilhas (2.43; 3.4-8; 5.12). A partir de agora, porém, após a imposição de mãos dos apóstolos, Estevão – pleno do Espírito e de fé – passa a ministrar sinais e prodígios entre o povo. Mais adiante, veremos Filipe também operando milagres para a glória de Jesus Cristo e salvação dos crentes (8.6).

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da Cilícia e da Ásia. E, estes homens começaram a discutir com Estevão;7 10 contudo, não podiam resistir a sabedoria e ao Espírito com que ele argumentava. 11 Sendo assim, subornaram alguns outros homens para o caluniarem: “Nós o temos ouvido proferir palavras ultrajantes contra Moisés e contra Deus!”. 12 Com isso, conseguiram incitar o povo, os líderes religiosos e os mestres da lei. E, prendendo Estevão, conduziram-no à presença do Sinédrio. 13 Ali apresentaram falsas testemunhas que alegavam: “Este homem não pára de proferir blasfêmias contra este santo lugar e contra a lei.8 14 Porquanto nós o temos ouvido proclamar que esse Jesus de Nazaré destruirá este lugar e mudará as tradições que Moisés nos legou!”.9 15 Então, todos os que estavam assentados no Sinédrio, ao fixarem seus olhos em Estevão, viram que seu rosto parecia como o rosto de um anjo.10 O depoimento de Estevão Então, o sumo sacerdote interpelou a Estevão: “Porventura são verdadeiras estas acusações contra ti?”.

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disso, declarou Estevão: “Caros irmãos e pais, ouvi-me com atenção! O Deus da glória apareceu a Abraão, nosso pai, estando ele ainda na Mesopotâmia, antes de morar em Harã, e lhe ordenou:1 3 ‘Sai da tua terra e da comunidade dos teus parentes e vai para a terra que Eu te mostrarei’. 4 Então, ele saiu da terra dos caldeus e se estabeleceu em Harã. Após a morte de seu pai, Deus o trouxe para esta terra em que vós agora habitais. 5 Nela, Deus não lhe deu nenhuma herança, nem ao menos o espaço de um pé. Todavia, prometeu que lhe daria a terra como herança, e mesmo depois dele à sua descendência, quando ele ainda não tinha nenhum filho. 6 E Deus lhe falou desta forma: ‘Teus descendentes serão peregrinos numa terra estrangeira e serão escravizados e maltratados por mais de quatrocentos anos.2 7 Contudo, Eu punirei a nação a quem servireis como escravos e, depois disso, saireis livres dali e me adorareis neste lugar’. 8 E assim, concedeu a Abraão a aliança da circuncisão. Por esse motivo, Abraão gerou a Isaque e o circuncidou oito dias

2 Diante

7 Os membros da sinagoga de “Libertos” eram descendentes dos judeus levados cativos para Roma pelo imperador Pompeu (63 a.C.) e que logo foram libertos, junto com outros judeus das regiões mencionadas nessa passagem bíblica. 8 O templo era o lugar mais sagrado do mundo e centro do universo para os judeus por ser a habitação de Deus. A Lei oferecia como único caminho para a salvação a obediência absoluta à Lei e aos sacrifícios no Templo. Evidentemente, que qualquer insinuação contrária à Lei ou à reverência devida a Deus era considerada como blasfêmia (ultraje) e punida com a morte. Contudo, a própria Lei previa um julgamento justo mediante várias testemunhas. Porém, os acusadores de Estevão usaram os mesmos artifícios que já se haviam provado eficientes contra Jesus: falsos depoimentos, calúnias e incitação popular (Mc 14.5664). Os mesmos argumentos seriam usados contra Paulo e muitos mártires da Igreja (21.28). 9 Estevão, como os demais “servos” do Senhor, estava anunciando que a fé cristã não se conservaria dentro dos estreitos e legalistas limites do judaísmo (Mc 7.18,19; Mt 23.25,26; Lc 11.39-41), e antecipa a nova e universal teologia, que seria sistematizada por Paulo mais tarde. 10 A aparência radiante, poderosa e angelical de Estevão indica um fenômeno físico-espiritual de transfiguração na presença de um acompanhante sobrenatural (2Co 3.18 de acordo com Êx 34.29 e Mt 17.2). Capítulo 7 1 O primeiro chamado de Abraão ocorreu na cidade de Ur (Gn 15.7; Ne 9.7). Em Harã, houve uma renovação desta convocação missionária (Jr 15.19-21). Estevão não estava preocupado em salvar-se a si mesmo, mas sim, tentou abrir o entendimento e o coração dos líderes judeus para os erros que vinham cometendo ao rejeitar o chamamento de Deus e, por fim, seu próprio Filho, o Messias. Estevão não se preocupa em responder diretamente às acusações feitas em 6.11-14. Em sua defesa apresenta uma visão teológica universal do Evangelho: 1) Deus não limita seus encontros com a humanidade às congregações, (tabernáculos) nem ao Templo. Por isso, chamou Abraão, José, Moisés e outros profetas. Além disso, as primeiras grandes revelações de Deus aconteceram em terras gentias: Ur, Harã, Egito, Sinai. 2) Israel sempre foi insensível à voz de Deus e, em sua rebeldia extrema, rejeitou os profetas do Senhor, finalmente crucificando o próprio Filho de Deus – Jesus, o Justo (52). 2 Israel peregrinou pelo deserto por 430 anos (Êx 12.40,41 e Gl 3.17). O povo de Deus não deve se apegar a sua casa, país ou cultura. Somos cidadãos do Reino dos céus (Hb 11.8; 16).

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após o seu nascimento. Mais tarde, Isaque gerou Jacó, e este os doze patriarcas.3 9 Os patriarcas dominados por forte inveja de José, venderam-no como escravo para o Egito. Apesar de tudo, Deus estava com ele 10 e o livrou de todas as suas tribulações, dando a José graça e sabedoria diante do faraó, rei do Egito e de todo o seu palácio.4 11 Mais tarde, sobreveio um tempo de fome em todo o Egito e em Canaã, o que trouxe grande sofrimento, e os nossos antepassados não encontravam o que comer. 12 Porém, tendo ouvido que no Egito havia trigo, Jacó enviou nossos antepassados para lá pela primeira vez. 13 E, na segunda viagem deles, José se revelou a seus irmãos, e a sua família foi conhecida pelo faraó.5 14 E aconteceu que José mandou chamar a seu pai Jacó e a todos os seus parentes: setenta e cinco pessoas.6 15 Assim, pois, desceu Jacó até o Egito e ali morreu ele e também nossos pais.7 16 Seus corpos foram trasladados de volta a Siquém e depositados no túmulo que

Abraão ali comprara por certo preço em prata, dos filhos de Hamor. 17 Ao se aproximar o tempo em que Deus cumpriria sua promessa a Abraão, nosso povo cresceu em número e multiplicouse no Egito. 18 Então, outro rei, que não conhecia a história de José, passou a governar o Egito. 19 Ele agiu de forma traiçoeira contra nosso povo e oprimiu os nossos antepassados, a ponto de obrigá-los a abandonar seus próprios recém-nascidos, a fim de que não sobrevivessem. 20 E foi naquela época que nasceu Moisés, que era um menino extraordinário aos olhos de Deus. Por três meses, ele foi criado na casa de seu pai. 21 Entretanto, quando teve de ser abandonado, a filha do faraó o tomou e o criou como seu próprio filho. 22 E assim, Moisés foi educado em toda a sabedoria dos egípcios e tornou-se um homem poderoso em palavras e obras.8 23 Quando completou quarenta anos, Moisés decidiu visitar seus irmãos israelitas.9 24 Ao presenciar um deles sendo maltra-

3 As condições necessárias para a religião de Israel já haviam sido cumpridas muito tempo antes da construção do Templo e dos costumes e rituais religiosos começarem a ser guardados pelos judeus da época de Estevão (Gn 35.23-26). 4 Estevão faz uma analogia entre a atitude de rejeição que os próprios patriarcas tiveram para com seu irmão José e a forma cruel e injusta com que os judeus de sua época trataram o Messias prometido (seu irmão de carne, Rm 9.5). Sem usar o nome de Jesus uma vez sequer, Estevão anuncia o Senhor por meio de tipos e figuras, destacando as pessoas de José e Moisés (2043). Deus concedeu a José a capacidade sobrenatural para interpretar sonhos. Este é o sentido da palavra “sabedoria”, neste contexto, no original hebraico (Gn 39.21). 5 José e Moisés foram exemplos de profetas que visitaram “seus irmãos” pela segunda vez (23, 30). Jesus nos prometeu que virá pela segunda vez e, nessa época, será reconhecido pelos judeus (Zc 12.10). 6 Estevão usou de grande precisão em seu relato histórico-teológico da vida de Israel. Embora a própria Bíblia Hebraica use o número arredondado 70 (Gn 46.27; Êx 1.5; Dt 10.22), a tradução do AT para o grego (conhecida como Septuaginta) acrescenta em Gn 46.20 o nome de um filho de Manassés, de dois filhos de Efraim e de um neto de cada um deles, completando exatamente o número mencionado por Estevão: 75. 7 Jacó foi sepultado em Hebrom (Gn 49.29). José foi sepultado em Siquém (Js 24.32). Estevão usa de poucas palavras e de uma retórica aguda para encaixar os dois acontecimentos numa só referência, assim como já havia feito em relação às duas chamadas de Abraão. Estevão faz questão de marcar o fato de Jacó e os doze patriarcas não terem sido realmente sepultados no Egito, mas sim, em Canaã. Isso pode parecer estranho aos leitores atuais, mais foi algo bem compreendido pelos ouvintes da época (Gn 23.27,18; 25.9-11; 33.19; 35.29; 50.13; Js 24.32). 8 Mais uma vez, sem mencionar a Cristo, o discurso de Estevão revela claramente que Jesus, como Moisés, era “poderoso em palavras e obras” (Lc 24.19). Ambos vieram como libertadores pacíficos (Ef 2.17). Entretanto, assim como os judeus escravizados da época de Moisés não compreenderam a missão de Moisés, nem o aceitaram, da mesma forma, aqueles judeus, ouvintes de Estevão e escravizados pelo pecado, não estavam percebendo que a salvação total e definitiva havia chegado na pessoa do Rei Jesus, o Messias. Esse raciocínio de Estevão vale também para os nossos dias. 9 Moisés tinha 80 anos de idade quando foi enviado para profetizar diante do Faraó e exigir a libertação do povo de Israel (Êx 7.7) e 120 quando morreu (Dt 34.7). As palavras de Estevão estão de acordo com a tradição judaica, segundo a qual Moisés teria deixado o Egito pela primeira vez aos 40 anos de idade. Fica aqui um estímulo ao início de novas empreitadas ministeriais e missionárias em idade madura (a partir dos 50 anos).

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tado por um egípcio, saiu em defesa da vítima e vingou-se, matando o egípcio. 25 Moisés pensou que seus irmãos entenderiam que Deus o estava dirigindo para libertá-los, mas eles não o compreenderam. 26 No dia seguinte, Moisés dirigiu-se a dois israelitas que estavam brigando, e tentou reconduzi-los à paz, argumentando: ‘Homens! Vós sois irmãos; por que agridem um ao outro?’. 27 Todavia, o homem que maltratava o outro empurrou Moisés e exclamou: ‘Quem te constituiu autoridade e juiz sobre nós? 28 Acaso queres assassinar-me, como fizeste ontem com aquele egípcio?’. 29 Ao ouvir estas palavras, Moisés fugiu para Midiã, onde ficou vivendo como estrangeiro e foi pai de dois filhos.10 30 Então se passaram mais quarenta anos, quando apareceu a Moisés um anjo no deserto, próximo ao monte Sinai, em meio às labaredas de um espinheiro que queimava.11 31 Ao contemplar aquela cena ficou perplexo. E ao aproximar-se para observar melhor, ouviu a voz do Senhor: 32 ‘Eu Sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó’. Moisés ficou trêmulo de medo e não ousava erguer seu olhar. 33 Então, o Senhor lhe ordenou: ‘Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa.12 34 Tenho visto com atenção a aflição do

meu povo no Egito, ouvi os seus clamores e desci para livrá-lo. Agora, portanto, vem, e Eu te enviarei ao Egito’. 35 Este é o mesmo Moisés a quem eles haviam rejeitado com estas palavras: ‘Quem te constituiu autoridade e juiz?’, Deus o enviou como líder e libertador, pela mão do anjo que lhe apareceu no espinheiro. 36 Foi este que o conduziu para fora, realizando feitos portentosos e sinais maravilhosos no Egito, no mar Vermelho e no deserto por um período de quarenta anos. 37 Este é o Moisés que disse aos israelitas: ‘Deus vos levantará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim’. 38 Moisés esteve na congregação no deserto, com o anjo que lhe falava no monte Sinai, e com os nossos antepassados, e recebeu palavras vivas, a fim de nos serem transmitidas.13 39 Todavia, nossos antepassados se recusaram a obedecer a Moisés; antes, o rejeitaram e, em seus corações, retrocederam ao Egito, 40 clamando a Arão: ‘Faze-nos deuses que nos conduzam, pois quanto a este Moisés que nos tirou do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu!’.14 41 E, naquela época, eles produziram um ídolo em forma de bezerro. Ofereceramlhe sacrifícios e realizaram uma grande celebração em homenagem ao que suas mãos tinham produzido.

10 Rejeitado por seu povo e temendo a perseguição dos egípcios, Moisés se refugia nas terras de Midiã (Êx 2.15), que ocupava os dois lados do golfo de Ácaba, onde nasceram seus dois filhos: Gérson e Eliézer (Êx 2.22; 18.3,4; 1Cr 23.15). 11 Mais quarenta anos haviam se passado quando Moisés, aos 80 anos de idade, foi chamado pelo Senhor no monte Sinai, também conhecido como monte Horebe (Êx 2.11-23; 3.1-2; 7.7), e apresentou-se perante o faraó como profeta do Altíssimo Deus (Dt 18.15). Segundo a interpretação judaica da época de Estevão, a Lei fora dada a Moisés por intermediação angelical. Ocorre que esse arauto foi o próprio “Anjo do Senhor” (5.19). Ou seja, o próprio Deus falou com Moisés (Êx 3.2; Gl 3.19; Hb 2.2), como fica claro nos versos 31 e 32. 12 Até hoje, no Oriente Médio, não se pisa sobre solo sagrado a não ser descalço, em sinal de respeito e despojamento diante do Eterno. 13 A expressão grega original ekklesia tem o sentido de “congregação” e “igreja”. No contexto hebraico de Dt 18.16, aplica-se ao povo de Israel congregado (reunido) para receber a Lei. Isso significa que a Igreja do AT dependia de Moisés, profeta de Deus (1Co 10.2). A Igreja do NT depende de Jesus Cristo, o Espírito de Deus (Hb 2.10-12) que a conduz ao verdadeiro shalom (descanso, paz). A obediência a Deus (Lei) é o caminho da vida (Dt 4.1; Lv 18.5 conforme Gl 3.12). Por causa da Queda, a fraqueza humana (Rm 8.3) fez com que a Lei de Deus se transformasse em documento de condenação e morte (Rm 3.10-12; 7.10). No NT, o Evangelho (Jesus – o Logos, a Palavra, de Deus – Jo 1.1; 1Jo 1.1-2) é a própria “palavra da vida” (Fp 2.16; 1Pe 1.23 de acordo com At 5.20). 14 Enquanto Moisés estava ausente do acampamento, na presença de Deus no monte Sinai, recebendo a Lei, o povo deixou sua fé se esfriar, e caindo em desânimo voltou à idolatria na qual vivia no Egito. Juntaram-se para construir um bezerro de ouro, rejeitando explicitamente a Deus e a seu profeta (Êx 32.1).

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42 Por isso, Deus se afastou deles e deixou que se entregassem ao culto dos astros, exatamente como foi escrito no Livro dos Profetas: ‘Foi a mim que oferecestes sacrifícios e ofertas durante os quarenta anos no deserto, ó Casa de Israel?15 43 Ao invés disso, erguestes o tabernáculo de Moloque e a estrela do seu deus Renfã, ídolos que fizestes para adorá-los. Por essa razão, Eu vos mandarei para o exílio, para além da Babilônia!’. 44 Contudo, o tabernáculo da aliança estava entre os nossos antepassados no deserto, que fora construído conforme a ordem de Deus a Moisés e de acordo com o modelo que ele tinha visto. 45 Tendo-o recebido, nossos antepassados o levaram sob a direção de Josué, quando tomaram posse da terra das nações que Deus expulsou de diante deles. E esse tabernáculo permaneceu nesta terra até a época de Davi,16 46 que recebeu graça da parte de Deus e rogou que lhe fosse concedido edificar uma habitação para o Deus de Jacó. 47 Apesar disso, foi Salomão quem lhe construiu a Casa. 48 Todavia, o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos humanas. Como revela o profeta: 49 ‘O céu é o meu trono, e a terra o es-

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trado dos meus pés. Que espécie de casa podereis me construir, diz o Senhor, ou ainda, onde seria o lugar do meu repouso? 50 Ora, não foram as minhas mãos que criaram todas estas coisas?’. 51 Homens duros de entendimento e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo. Da mesma forma como agiram vossos pais, assim vós fazeis também.17 52 Que profeta vossos antepassados não perseguiram? Assassinaram até mesmo os que anteriormente anunciaram a chegada do Justo, do qual agora vos tornastes traidores e homicidas. 53 Vós, que recebestes a Lei por ministração de anjos, porém não a obedecestes!”.18 A execução sumária de Estevão 54 Ao ouvir tais palavras, grandemente se lhes enfureceu o coração e rilhavam os dentes contra Estevão. 55 Contudo, Estevão, cheio do Espírito Santo, ergueu seus olhos em direção ao céu e contemplou a glória de Deus, e Jesus em pé, à direita de Deus,19 56 e exclamou: ‘Eis que vejo os céus abertos e o Filho do homem em pé, à direita de Deus!’.20 57 Então, eles taparam os ouvidos e, aos

15 No original grego a expressão: paredõken, é usada também por Paulo, em três ocasiões, indicando que Deus permitiu que os pecadores seguissem o curso normal de suas escolhas e pagassem o preço de suas decisões insensatas (Rm 1.18-24). Algumas versões usaram a forma “culto da milícia celestial” para referir-se ao “culto dos astros” (astrologia supersticiosa). Na Bíblia Hebraica, os Doze profetas menores formam um só livro. 16 Estevão foi acusado de blasfemar contra o “Lugar Santo” (6.11-14) e, por isso, encerra seu depoimento com uma explanação sobre o tabernáculo (santuário) e o Templo. Foi o tabernáculo o “Lugar” de adoração estabelecido por Deus (Hb 8.1-5). O Templo foi a resposta a um pedido de Davi, todavia construído por seu filho Salomão e tolerado por Deus. Isaías afirmou que nem o universo pode conter a Deus; como o poderia uma simples criação humana? É possível que deuses falsos tenham suas casas entre os homens, mas o Altíssimo é onipresente: Ele está em toda parte, nada pode contê-lo, e habita o coração do crente por amor à humanidade (Mc 14.58; At 17.24). 17 Embora os judeus fossem fisicamente circuncidados, agiam como os pagãos incircuncisos que estavam no meio da multidão. Mantinham sua “cerviz endurecida”. Uma expressão hebraica muito usada no AT e tem a ver com o “enrijecimento proposital e obstinado do pescoço”. Uma metáfora com base na teimosia do gado ao seguir seu instinto selvagem em detrimento de um melhor caminho indicado pelo condutor do rebanho (Êx 33.5; Lv 26.41; Dt 10.16; Jr 4.4; 6.10). 18 “Justo” foi um dos primeiros títulos atribuídos a Jesus por seus amigos e seguidores (3.14; 22.14); mais tarde Tiago, o meioirmão de Jesus, passaria a ser chamado assim pelo povo. Estevão, é claro, acusou os judeus de traidores, pois não tendo autoridade para tirar a vida de Jesus, insistiram e persuadiram os romanos para que o crucificassem, traindo o seu próprio Messias. 19 Eis aqui um texto clássico sobre a ação da Trindade sustentando o cristão fiel: 1) O Espírito Santo o enche com paz e verdadeiro amor (v.60; Gl 5.22); 2) A glória de Deus se manifesta evidente, trazendo firmeza e esperança assertiva (Jo 17.5,24; 1Pe 1.5-8); 3) Jesus Cristo, o Messias, é exaltado. E, “em pé”, assim como o Pai de muitos filhos pródigos, abre os braços e os céus para os crentes (Mc 14.62). 20 Raramente outra pessoa (além do próprio Senhor) referia-se a Jesus como “o Filho do homem” (Mt 25.31; Mc 2.10; 8.31). Esse era um dos títulos do Messias profetizado no AT (Dn 7.13-14; Ap 1.13).

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berros, atiraram-se todos juntos contra ele. 58 E arrastando-o para fora da cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram suas roupas aos pés de um jovem chamado Saulo.21 59 Assim, enquanto apedrejavam Estevão, este declarava em oração: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito!”. 60 Então caiu de joelhos e clamou em alta voz: “Senhor, não lhes atribuas este pecado!”. E, tendo dito estas palavras, adormeceu.22

invadindo casa após casa, arrastando homens e mulheres para jogá-los ao cárcere. A Igreja prega para todos 4 Enquanto isso, os que haviam sido dispersos pregavam a Palavra por onde quer que fossem.2 5 Indo Filipe para uma cidade de Samaria, ali lhes anunciava a Cristo.3 6 Assim que o povo ouviu a Filipe, e viu os sinais e maravilhas que ele realizava, deu unânime e absoluta atenção ao que ele ensinava. 7 Porquanto os espíritos imundos abandonavam a muitos, aos berros, e um grande número de paralíticos e aleijados eram curados. 8 E, por este motivo, grande alegria sobreveio àquela cidade. Um mago em busca de poder 9 Havia um homem chamado Simão que, há algum tempo, vinha praticando feitiçaria na cidade. E isso impressionava toda a população de Samaria. Ele se dizia poderoso e notável, 10 e todas as pessoas, das mais simples às mais ricas, davam-lhe grande crédi-

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E Saulo estava aprovando o assassinato de Estevão.

Saulo persegue a Igreja (At 26.9-11) Daquele dia em diante, estabeleceu-se grande perseguição contra a Igreja em Jerusalém. Todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e de Samaria.1 2 Alguns homens piedosos sepultaram Estevão e derramaram seus corações em pranto por seu martírio. 3 Saulo, por sua vez, devastava a Igreja,

21 A palavra de Estevão, ao invés de gerar arrependimento, produziu mais ira e indignação, pois os argumentos foram os mesmos que levaram Jesus à cruz. É lamentável como a humanidade repete seus erros mais terríveis e vai esgotando a longanimidade divina. A expressão no original grego, aqui traduzida por “atiraram-se”, tem o sentido de “linchamento sumário”. As “testemunhas”, isto é, as primeiras pessoas que acusaram Estevão de blasfemo tiveram a “honra” de arremessar as primeiras pedras contra ele, e depositaram suas roupas aos pés do supervisor da execução: Saulo (22.20), membro do Sinédrio e que mais tarde seria convertido pelo próprio Jesus, do qual se tornaria servo e pelo qual morreria em condições semelhantes a Estevão. 22 Estevão morreu seguindo o exemplo do seu mestre Jesus (1Pe 2.21-24) e teve o privilégio de nos legar a descrição sumarizada do mais almejado momento na vida de um cristão: o seu encontro com o Senhor no céu (v 55,56). Diante do sofrimento da morte e da glória que vislumbrava, Estevão buscou forças para suplicar a Deus pela salvação de muitos daqueles que ali estavam (como Saulo, por exemplo), cujas mentes e corações estavam completamente embotados para a Verdade e o Reino, mas que careciam de mais uma oportunidade a fim de que não perdessem a glória eterna que Estevão já podia contemplar enquanto sua vida na terra se esvaía. Outro exemplo de Cristo (Lc 23.34). Capítulo 8 1 A Igreja passou a exercer seu ministério de forma subversiva e subterrânea, fugindo da injusta e implacável perseguição das autoridades judaicas e romanas. Por isso, a presença dos apóstolos em Jerusalém foi um marco de resistência e ânimo aos dispersos e discípulos que eram sumariamente encarcerados. Neste momento da história, a maior perseguição era movida contra os crentes helênicos (de origem grega), que como Estevão tiveram uma visão mais ampla do universalismo do Evangelho que viria a substituir as tradições superadas do Judaísmo. 2 A Igreja estava em explosão. Inúmeros discípulos e testemunhas do Evangelho iam por todos os lugares, pregando as Boas Novas: Jesus (11.19-20). 3 A cidade de Samaria, antiga capital da região de Samaria, teve seu nome alterado para Sebaste, ou em grego: Neápolis (atual Nabius). Justino Mártir, um dos pais da igreja primitiva, afirma que Simão, o Mago, era natural de uma cidade chamada Gita, na Samaria. Filipe, um dos Sete de Jerusalém (6.5) e que fora também disperso, recebeu o dom de evangelizar (21.8) e, cheio do Espírito, pregava a Jesus, o Cristo (o Messias). Uma ótima preparação do coração dos samaritanos havia sido feita pelo próprio Senhor (Jo 4) e multidões atenderam ao chamamento de Filipe. Os samaritanos e saduceus aceitavam apenas os livros de Moisés como as Sagradas Escrituras.

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to e exclamavam: “Este homem exerce um poder divino, chamado o Grande Poder!”.4 11 E muitos o seguiam, pois vinham sendo iludidos por ele há bastante tempo por meio de suas artes mágicas. 12 Contudo, quando Filipe lhes pregou as Boas Novas do Reino de Deus e do Nome de Jesus Cristo, creram nele, e foram batizados, tanto homens quanto mulheres. 13 O próprio Simão, da mesma forma, creu e foi batizado, e acompanhava com curiosidade a Filipe por toda parte, contemplando perplexo os grandes sinais e maravilhas que eram realizados.5 Pedro repreende o falso crente 14 Então, os apóstolos de Jerusalém, ouvindo que o povo de Samaria havia acolhido a Palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João.6 15 Estes, assim que desceram até eles, oraram para que recebessem o Espírito Santo, 16 porquanto o Espírito ainda não havia sido derramado sobre nenhum deles; tinham apenas sido batizados em o Nome do Senhor Jesus.7 17 Sendo assim, à medida em que Pedro e

João lhes impunham as mãos, recebiam estes o Espírito Santo. 18 Observando Simão que o Espírito era concedido por meio da imposição das mãos dos apóstolos, ofereceu-lhes dinheiro, 19 propondo: “Dai-me também a mim este poder, para que a quem eu impuser as mãos, ganhe o Espírito Santo!”. 20 Diante disto, replicou-lhe Pedro: “Que o teu dinheiro siga contigo para tua perdição, pois intentaste comprar, por meio dele, o dom gratuito de Deus! 21 Tu não tens parceria nem porção neste ministério, porque o teu coração não é honesto perante Deus. 22 Arrepende-te, portanto, dessa tua malignidade e ora ao Senhor; é possível que te seja perdoada a intenção do teu coração; 23 pois vejo que estás cheio de amargura e atado pelos laços do pecado”.8 24 Entretanto, Simão lhes respondeu: “Orai vós por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes sobrevenha a mim”. 25 E, havendo testemunhado e proclamado a Palavra do Senhor, Pedro e João regressaram a Jerusalém, pregando

4 Nos antigos escritos dos pais da Igreja (líderes e pensadores cristãos dos primeiros séculos), o bruxo (mago, feiticeiro) Simão é apresentado como grande inimigo do Cristianismo e criador da doutrina herege gnóstica chamada “simoniana” que perdurou até o século III. Simão alegava ser o principal representante de Deus na terra. 5 Simão identificou-se com o poder demonstrado por Filipe, e creu apenas intelectualmente na pregação do Evangelho. Ele queria o poder de Deus e não o Deus do poder. Infelizmente, esse é um engano que vem ocorrendo até nossos dias. A maior e mais difícil demonstração de conversão da alma de uma pessoa está na sua humilde e permanente obediência à Palavra. Pedro percebe que Simão não havia permitido ainda que o Evangelho transformasse seu coração, e o exorta a buscar o perdão do Senhor. Todos os crentes devem almejar viver em santidade, mas ao errar (Fl 3.14) devem arrepender-se sinceramente (1Jo 2.12), voltando imediatamente ao Caminho (Jesus). 6 A Igreja em Jerusalém assumiu a responsabilidade de cuidar das novas congregações que surgiam a todo momento em várias partes. Samaria completa a terceira onda na prometida expansão geográfica do Evangelho com destino aos confins da terra (1.8; 5.16). João, filho de Zebedeu, amigo querido de Jesus, autor do evangelho que traz seu nome, e de três cartas canônicas às igrejas e do livro de Apocalipse, aparece aqui pela última vez no livro de Atos (Gl 2.9). É interessante notar o amadurecimento espiritual daquele que quis mandar fogo do céu sobre os samaritanos, mas que agora invoca sobre eles o Espírito Santo (Lc 9.54). 7 Em Atos, o recebimento do Espírito Santo tem como evidência inicial a manifestação de algum dom do Espírito. Todos os que pertencem a Cristo recebem o dom do Espírito Santo (Rm 8.9). Entretanto, o Espírito não havia ainda se manifestado aos cristãos de Samaria, e, por isso, esse evento passou a ser conhecido como o “Pentecostes de Samaria” (10.44). É interessante notar que a expressão grega transliterada: eis to onoma, e que significa: “em nome”, era uma maneira de formalizar um documento de transferência de propriedade ou de recursos financeiros para “o nome” ou o domínio de alguém (Cl 1.13). 8 O estado de amargura apontado por Pedro em relação a Simão é uma expressão que tem origem no AT (Dt 29.18 e citado em Hb 12.15). Nesse contexto, refere-se a um tipo de má influência que, uma pessoa envolvida em pecado passa a exercer sobre todo o povo. Pedro não está dizendo que Simão cometeu um pecado imperdoável (Mt 12.32), mas sim que carecia de profundo quebrantamento na presença do Senhor para apropriar-se do perdão divino. Infelizmente, a falta de humildade de Simão, o Mago, era nítida (v.24).

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34 Então, o eunuco indagou a Filipe: “Por favor, peço-te que me esclareças sobre quem o profeta está falando? De si mesmo ou fala de algum outro?”. 35 E, Filipe, tomando a palavra e iniciando por aquela mesma passagem das Escrituras, pregou-lhe o Evangelho: Jesus. 36 Prosseguindo pela estrada, chegaram a um lugar onde havia água, e foi quando o eunuco observou: “Eis aqui água! Que me impede de ser batizado?”. 37 Ao que Filipe orientou-lhe: “Tu podes, se crês de todo o teu coração”. Em seguida, declarou-lhe o eunuco: “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus!”.11 38 Assim, deu ordem para que parassem a carruagem. Então, Filipe e o eunuco desceram à água, e Filipe o batizou. 39 Quando estavam saindo da água, o Espírito do Senhor, de repente, arrebatou a Filipe. O eunuco não o viu mais, contudo, pleno de alegria, seguiu o seu caminho. 40 Entretanto, Filipe apareceu em Azoto e, indo para Cesaréia, pregava o Evangelho em todas as cidades pelas quais passava.12

o Evangelho em muitos povoados samaritanos. Filipe é enviado em missão 26 Então, um anjo do Senhor falou a Filipe e lhe ordenou: “Apronta-te, e vai em direção ao sul, pelo caminho deserto que desce de Jerusalém a Gaza”. 27 Ao que ele se levantou e partiu. No caminho encontrou um eunuco etíope, alto oficial, administrador de todos os tesouros de Candace, rainha dos etíopes. Esse homem viera a Jerusalém para adorar a Deus e,9 28 retornando para casa, sentado em sua carruagem, ia lendo o livro do profeta Isaías. 29 E aconteceu que o Espírito disse a Filipe: “Aproxima-te e acompanha essa carruagem. 30 Então Filipe correu para a carruagem, ouviu o homem lendo o profeta Isaías e lhe perguntou: “Compreendes o que estás lendo?”. 31 Ao que ele replicou: “Como poderei compreender, a não ser que alguém me explique? E pediu a Filipe que subisse e se sentasse ao seu lado.10 32 O eunuco estava lendo esta passagem da Escritura: “Ele foi levado como ovelha para o matadouro, e como cordeiro mudo diante do seu tosquiador, assim Ele não abriu a sua boca. 33 Em sua humilhação, a justiça lhe foi negada. Quem poderá contar a respeito dos descendentes dele, uma vez que sua vida na terra foi tirada”.

Saulo é convertido por Jesus (At 22.1-11; 26.9-18) Entrementes, Saulo ainda respirava ameaças de morte contra os discípulos do Senhor. Dirigindo-se ao sumo sacerdote, 2 pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, de maneira que, eventu-almente encontrando ali, homens ou mulheres que pertencessem ao Caminho,

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9 Gaza foi uma das cinco grandes capitais dos filisteus. Entretanto, a frase “pelo caminho deserto” indica a velha cidade, destruída por Alexandre Janeu em 93 a.C., e que ficava a 80 km de Jerusalém. A Etiópia correspondia, nessa época, à região da Núbia, desde o alto do Nilo (da catarata de Assuã) até Cartum. A rainha mãe etíope recebia o título de “Candace”, e era responsável pelos deveres seculares do monarca reinante (considerado demasiado sagrado para exercer esses serviços). Era comum usar eunucos, como homens de confiança e oficiais, nos governos orientais. Irineu, um dos pais da igreja primitiva (180 a.C.), relata em seus escritos que esse eunuco se tornou dedicado missionário cristão entre os etíopes. Ler em voz alta era uma forma de mostrar reverência ao texto sagrado na antigüidade. 10 Várias passagens proféticas, como Is 52.13 a 53.12, são praticamente incompreensíveis para todos aqueles que desconhecem a história de Jesus Cristo. Ao longo dos séculos, os judeus gradativamente foram se afastando da interpretação messiânica original e atribuindo a antiga figura do Messias ao próprio povo de Israel, tanto no sofrimento quanto em sua futura exaltação. 11 Esse versículo não consta de vários manuscritos gregos. Entretanto, aparece em alguns originais como uma nota litúrgica rabínica desde os tempos da igreja primitiva. E, por isso, consta das edições da Bíblia King James desde 1611. 12 Azoto era conhecida como Asdode, uma das cinco cidades da Filístia (1Sm 5.1). Situava-se a cerca de 30km de Gaza e a 100km de Cesaréia. O relato de Lucas deixa Filipe, nesse momento, na grande cidade portuária de Cesaréia, onde reaparece 20 anos mais tarde (21.8), exercendo seu dom de evangelista e cooperando com a liderança apostólica da Igreja. Todas as vezes que Lucas usa a expressão: “cheio de júbilo” ou “pleno de alegria”, refere-se a um estado de plenitude espiritual produzido pela presença abundante do Espírito Santo. É a alegria da salvação (16.34; Mc 10.22).

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estivesse autorizado a conduzi-los presos a Jerusalém.1 3 Entretanto, durante sua viagem, quando se aproximava de Damasco, subitamente uma intensa luz, vinda do céu, resplandeceu ao seu redor. 4 Então, ele caiu por terra e ouviu uma voz que lhe afirmava: “Saul, Saul, por que me persegues?”. 5 Ao que ele inquiriu: “Quem és, Senhor?”. E Ele disse: “Eu Sou Jesus, a quem tu persegues; 6 contudo, levanta-te e entra na cidade, pois lá alguém te revelará o que deves realizar. 7 Os homens que acompanhavam Saulo na viagem caíram emudecidos; podiam ouvir a voz, mas a ninguém viam. 8 Saulo ergueu-se do chão e, abrindo os olhos, não conseguia ver coisa alguma; então, guiado pela mão, foi conduzido até Damasco. 9 Por três dias esteve cego, durante os quais não comeu, nem mesmo bebeu.2 O Senhor envia Ananias a Saulo (At 22.12-16) 10 E havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor o chamou

em uma visão: “Ananias!”. Diante do que, prontamente respondeu: “Eis-me aqui, Senhor!”. 11 Então, o Senhor lhe disse: “Apronta-te, e vai à rua que se chama Direita; e, procura na casa de Judas por um homem de Tarso chamado Saulo. Eis que ele está em oração neste momento,3 12 e acaba de ter também uma visão na qual um homem chamado Ananias se aproxima e lhe impõem as mãos, para que volte a enxergar”. 13 Todavia, Ananias replicou: “Senhor, tenho ouvido vários testemunhos sobre este homem, quantos males tem causado aos teus santos em Jerusalém; 14 e ele chegou aqui com toda a autoridade dos chefes dos sacerdotes para prender todos que invocam o teu Nome”.4 15 Porém, o Senhor ordenou-lhe: “Vai, pois ele é para mim um instrumento escolhido, a fim de levar o meu Nome diante de gentios e seus reis, e perante o povo de Israel.5 16 Revelarei a ele tudo quanto lhe será necessário sofrer por causa do meu Nome”.6 17 Então, Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as mãos, declarando: “Irmão Saulo, o Senhor Jesus que lhe

1 Um dos títulos de Jesus era “o Caminho” (Jo 14.6). Com o passar do tempo, as pessoas do povo foram se referindo aos discípulos e seguidores de Jesus como “os do Caminho”. Essa expressão tornou-se um termo técnico, usado para denominar o cristianismo. Foi o nome primitivo da religião cristã (16.17; 18.25,26; 19.9,23; 22.4; 24.14,22; 2Pe 2.2). 2 Saulo (em aramaico: shã’ül, Saul, que significa: “pedido de Deus”) surge para a história diante da morte do diácono Estevão (nome grego que significa: “coroa”), executado sumariamente por apedrejamento (7.58). Somente os romanos praticavam a crucificação dos condenados à morte. Saulo ouviu o discurso de Estevão e supervisionou sua condenação e linchamento, como de costume (22.4; 26.10). Nascido na cidade grega de Tarso (judeu fariseu e cidadão romano) , estudou com o mais importante mestre da época, Gamaliel (22.3; Fl 3.4-14). A conversão de Saulo é o mais importante fato histórico, desde o Pentecostes até nossos dias. Essa luz, vinda do céu, ocorreu por volta do meio-dia (26.13). Saulo sabe que é uma voz divina que ouve em sua língua natal: o aramaico, mas quer saber com quem fala da parte do Senhor. Pela tradição rabínica, possivelmente um anjo estivesse lhe trazendo uma mensagem de Deus. Entretanto, ele ouve a voz de Jesus que lhe questiona a razão para tanto ódio e perseguição. Jesus deixa claro que todo aquele que atentar contra a Igreja e seus discípulos, contra Ele próprio estará se indispondo. 3 Ananias (22.12) era um nome bastante comum e derivado da forma hebraica Hananiah, que quer dizer: “O Senhor demonstra sua graça” (Dn 1.6). A rua Direita existe até hoje em Damasco, sendo uma longa e reta avenida que corta toda a cidade de leste a oeste. Difere muito das demais ruas e avenidas da cidade que, em sua maioria, são sinuosas. Tarso, a cidade natal de Saulo, era um grande centro universitário e capital da Cilícia. 4 Uma forma respeitosa e carinhosa de se referir aos discípulos de Cristo (o Justo – 7.52) era chamá-los de “santos” (escolhidos, separados para Deus), pois, uma vez batizados com o Espírito Santo, todos os crentes passam a ser “santos”: povo exclusivo de Deus (1Pe 2.9). 5 A expressão grega aqui traduzida por “instrumento” também pode ser interpretada como “vaso”. Neste sentido, podemos observar a ação de Deus, escolhendo “vasos” (pessoas) para consagrá-los ao seu serviço (2Tm 2.20-21); capacitados para agirem em o Nome de Jesus (1Co 11.1); vazios de si mesmos e do poder do pecado, mas cheios do Espírito Santo (17; Gl 2.20). 6 Saulo que presenciou a morte e o sofrimento de tantos cristãos, sem compreender a loucura daquele suposto fanatismo, agora se tornará o judeu, crente em Jesus Cristo, mais brilhante e dedicado da história da Igreja. Seu sofrimento será um testemunho de amor ao Senhor e luta pela salvação da humanidade (Cl 1.24; 2Co 11.23). Falará aos reis gentios como Agripa (26.1) e o poderoso César em Roma (25.11-12; 28.19).

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apareceu no caminho por onde vinhas, enviou-me a ti para que tornes a ver e fiques pleno do Espírito Santo!”.7 18 Imediatamente lhe caíram dos olhos algo parecido com umas escamas, e ele passou a ver de novo. Em seguida, levantando-se, foi batizado. 19 E, depois de alimentar-se, ganhou novas forças e passou vários dias na companhia dos discípulos em Damasco. Saulo começa a evangelizar 20 Logo após, Saulo começou a pregar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus.8 21 Todos quantos o ouviam ficavam atônitos e indagavam: “Ora, não é este o homem que, em Jerusalém, buscava destruir aqueles que invocavam o Nome? E não é ele mesmo que tinha vindo aqui com a finalidade de detê-los e levá-los à presença dos principais sacerdotes?”. 22 Apesar disso, Saulo se fortalecia cada vez mais e deixava perplexos os judeus que viviam em Damasco, ao comprovar que Jesus era mesmo o Messias. 23 Então, havendo passado muito tempo, os judeus se reuniram e decidiram matá-lo.9 24 Entretanto, as informações sobre a cilada que estava sendo tramada chegou aos seus ouvidos. Dia e noite os judeus espreitavam às portas da cidade, na expectativa de assassiná-lo. 25 Porém, os discípulos de Saulo o condu-

ziram na calada da noite e o ajudaram a descer dentro de um cesto, através de uma fissura que havia na muralha da cidade. Barnabé fica ao lado de Saulo 26 Assim que chegou a Jerusalém, procurou reunir-se aos discípulos de lá, contudo, todos estavam assustados e com medo dele, pois não conseguiam acreditar que Saulo fosse um verdadeiro discípulo.10 27 Mas Barnabé, tomando-o consigo, o levou aos apóstolos e lhes narrou como, no caminho, Saulo vira o Senhor, que lhe falara, e como em Damasco ele havia pregado em o Nome de Jesus com poder e coragem. 28 E, assim, Saulo permaneceu com eles, e caminhava com liberdade em Jerusalém, proclamando com toda ousadia o Nome do Senhor. 29 Pregava e argumentava com os judeus de fala grega, contudo, estes procuravam um meio para tirar-lhe a vida. 30 Havendo, porém, essas informações chegado ao conhecimento dos irmãos, conduziram-no até Cesaréia e o enviaram para Tarso. 31 Assim, a igreja passava por um tempo de paz em toda a Judéia, Galiléia e Samaria, sendo edificada e vivendo no temor do Senhor. E, por meio da coragem proporcionada pelo Espírito Santo, a igreja crescia dia a dia em número.11

7 Jesus buscou pessoalmente a Saulo para nomeá-lo seu servo e apóstolo (em grego: apostellõ). E sobre este fato, Paulo firmou toda sua vida de ministério apostólico, pois fora comissionado diretamente por Jesus Cristo (1Co 9.1; 15.8). 8 Saulo, devido a sua cultura rabínica, adotou o costume de Jesus de visitar as sinagogas e aceitar os convites normalmente feitos aos mestres visitantes para pregar (13.5; 14.1; 17.1-10; 18.4-19; 19.8). A mensagem de Paulo falava diretamente ao coração dos gentios e refletia sua experiência e convicção pessoal, que passara a ter após seu maravilhoso encontro com Cristo na estrada de Damasco. É interessante notar as ênfases doutrinárias de Paulo, quanto a Jesus ser o Filho Unigênito de Deus e o Messias prometido; e de Pedro, quanto à sua proclamação de que Cristo é o Senhor. 9 A expressão no original grego é literalmente “quando se completaram dias consideráveis”. Entretanto, o próprio apóstolo Paulo nos informa que após sua conversão e restabelecimento físico, retirou-se para o deserto da Arábia (na vizinhança de Damasco) por quase três anos, onde se dedicou ao estudo, oração e ao seu desenvolvimento espiritual. 10 A fama de Saulo era tão horrível que os discípulos em Jerusalém temiam que ele apenas estivesse se fazendo passar por crente a fim de capturar o maior número de fiéis possível. Todos os apóstolos estavam ausentes naquele momento, menos Pedro e Tiago, o irmão de Jesus Cristo. Apesar de Tiago não ser oficialmente um dos Doze, tinha uma posição de autoridade espiritual plenamente reconhecida em Jerusalém e comparável a de um apóstolo. 11 Essa é a primeira vez que a palavra grega “igreja” aparece no singular, significando a totalidade do Corpo de Cristo (Gl 1.22; 1Ts 2.14). A igreja ideal é edificada no amor e na Palavra (Rm 15.1-14); vive motivada e impulsionada pelo Espírito Santo (a palavra “encorajamento” vem do original grego paraklesis, que quer dizer: “animar, exortar em amor indicando o melhor caminho”). O Espírito Santo, além de nosso Advogado (guia e defensor) é nosso principal encorajador (Jo 14.16-26). Uma igreja assim sente-se motivada a evangelizar (comunicar as Boas Novas aos semelhantes) e, portanto, cresce multiplicando-se em número (8.4).

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Pedro ora por curas e prodígios 32 Aconteceu que, viajando Pedro por toda parte, chegou também aos santos que habitavam em Lida. 33 Ali encontrou um homem paralítico que se chamava Enéias, e que estava prostrado numa cama fazia oito anos. 34 Então, Pedro lhe afirmou: “Enéias, Jesus, o Cristo, cura a ti. Levanta-te e arruma a tua cama”. E ele se levantou no mesmo instante. 35 E viram-no todos os que moravam em Lida e Sarona, os quais se converteram ao Senhor. 36 Entrementes, havia em Jope uma discípula chamada Tabita, que em grego significa Dorcas; que se dedicava ao ministério de boas obras e ajuda financeira aos pobres. 37 E aconteceu que naqueles dias ela ficou muito doente e morreu. Seu corpo foi banhado e colocado em um quarto, no andar superior da casa.12 38 Como a cidade de Lida ficava próxima de Jade, quando os discípulos ficaram sabendo que Pedro estava ali, logo enviaram-lhe dois homens com o seguinte pedido: “Não te demores em vir até nós!”. 39 Então, levantando-se Pedro partiu

com eles. Assim que chegou, levaram-no ao aposento do andar de cima da casa. Todas as viúvas o rodearam, chorando e mostrando-lhe os vestidos e outras roupas que Dorcas havia feito para elas enquanto estava viva. 40 Pedro pediu que todos deixassem o quarto; em seguida, ajoelhou-se e orou. Dirigindo-se à mulher morta, ordenoulhe: “Tabita, levanta-te!”. Ela abriu os olhos e, vendo a Pedro,13 sentou-se. 41 A seguir, ele lhe deu a mão e ajudou-a a colocar-se em pé. Então, chamando os santos, principalmente as viúvas, apresentou-a viva. 42 Este fato se tornou conhecido por toda a cidade de Jope, e foram muitos os que passaram a crer no Senhor. 43 Pedro ficou muitos dias em Jope, hospedado na casa de um curtidor de peles chamado Simão.14 A visão do centurião crente Havia em Cesaréia um homem chamado Cornélio, centurião do regimento militar conhecido como italiano.1 2 Esse homem era piedoso e temente a Deus, assim como toda a sua família. Ele era generoso em ajudas financeiras aos

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12 Judeus e gregos tinham o costume de banhar os corpos em preparação (purificação) para o sepultamento. Em Jerusalém, o corpo deveria ser sepultado no mesmo dia que a pessoa morresse; mas, fora dos muros da cidade, permitia-se um período de até três dias para o sepultamento. Entretanto, o corpo deveria ser colocado num quarto ou andar superior da casa. Os discípulos esperaram com fé pela chegada de Pedro. 13 Pedro havia estado presente nas ocasiões em que os evangelhos registram Jesus ressuscitando pessoas (Mt 9.15; Lc 7.1117; Jo 11.1-44). Ele cumpre sua comissão de Mt 10.38 e, assim como Elias e Eliseu no AT (1Rs 17.17-24; 2Rs 4.8-37), Pedro ora ao Senhor e então ordena que Dorcas volte à vida. Diante dessa demonstração de que Jesus, por meio do Seu Espírito, continuava a viver e a operar em seus discípulos, muitas pessoas de toda aquela região creram (Jo 11.41,42; 12.9-11). Jope situava-se cerca de 60km de Jerusalém, sendo um grande porto marítimo da Judéia. Hoje é chamada de Yafo, uma importante comunidade residencial de Tel Aviv. Lida ficava a cerca de 20km de Jope. 14 Um curtidor de couro trabalhava no tratamento das peles dos animais mortos e, por isso, segundo a tradição judaica, tornava-se impuro e era desprezado pelo povo em geral. Ao aceitar a hospedagem de Simão, o curtidor, Pedro demonstra uma forte disposição de rejeitar o antigo preconceito religioso judaico. Mais tarde, sua visão será ainda mais ampliada por Jesus, que o enviará como missionário aos gentios. Capítulo 10 1 Cesaréia ficava cerca de 50km ao norte de Jope. O centurião era um oficial romano que comandava uma unidade militar composta de 100 homens (Lc 7.2). Uma legião romana (cerca de seis mil soldados) era dividida em dez regimentos ou cortes, cada grupo adotava um nome. Esse era chamado de “Italiano” (assim como o que aparece em 27.1 se chamava “Imperial”). Cada centurião tinha comando sobre a sexta parte de um regimento e, em geral, tinham boa formação (Lc 7.5). Nota-se a importância dada à conversão deste primeiro gentio (veja os capítulos 10,11 e 15.7-14). Essa é uma época em que as tradições milenares judaicas se misturam aos novos conceitos cristãos. Muitos pregavam que os pagãos convertidos a Jesus deviam se tornar membros irrepreensíveis na Igreja e guardar a Lei. E os judeus convertidos deviam aceitar os gentios e com eles ter plena comunhão.

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pobres e buscava continuamente a Deus em oração.2 3 Certo dia, por volta das três horas da tarde, ele recebeu uma visão. De forma clara, viu um anjo de Deus que se aproximando dele o chamou pelo nome: “Cornélio!”. 3 4 Estarrecido e com os olhos fitos no anjo, indagou: “Que é, Senhor?”. Ao que o anjo lhe comunica: “Tuas orações e esmolas aos necessitados subiram como oferta memorial à presença de Deus.4 5 Agora, envia alguns homens a Jope e manda chamar Simão, também conhecido pelo segundo nome, Pedro. 6 Ele está hospedado com Simão, o curtidor de couro, cuja casa fica à beira-mar. 7 Assim que o anjo que lhe falava se retirou, chamou dois dos seus servos e um soldado piedoso dentre todos que estavam a seu serviço e, 8 compartilhando com eles tudo quanto havia se passado, os enviou a Jope. A visão do apóstolo Pedro 9 No dia seguinte, por volta do meiodia, Pedro subiu ao terraço da casa para orar. Enquanto isso, os homens vinham

pelo caminho e já estavam próximos de Jope.5 10 Então, sentindo muita fome, desejou comer; entretanto, enquanto a refeição estava sendo preparada, de repente sobreveio-lhe um estado de completo êxtase.6 11 Então, viu o céu aberto e algo parecido com um grande lençol que vinha descendo em direção à terra, amarrado pelas quatro pontas, 12 contendo toda espécie de quadrúpedes, bem como de animais que rastejam sobre a terra e aves do céu.7 13 E, em seguida, uma voz lhe ordenou: “Levanta-te, Pedro! Sacrifica e come”.8 14 Porém, Pedro replicou: “De maneira alguma, Senhor! Porquanto jamais comi alguma coisa profana ou impura”. 15 Contudo, a voz insistiu pela segunda vez: “Não consideres impuro o que Deus purificou!”.9 16 Este diálogo ocorreu por três vezes, e logo em seguida o lençol foi elevado novamente para o céu. 17 Enquanto Pedro, perplexo, meditava sobre o significado da visão que acabara de ter, eis que aqueles homens enviados

2 Cornélio era um gentio monoteísta e que participava do culto na sinagoga, guardava o sábado e os ritos quanto à alimentação. Ele tinha todas as qualificações de um prosélito, menos a circuncisão e o batismo, cerimônias indispensáveis no testemunho de conversão ao judaísmo. O texto no original sugere que Cornélio orava pedindo a Deus por uma revelação quanto ao verdadeiro Caminho que deveria seguir, pois seu coração generoso ainda clamava pelo preenchimento do Espírito. A missão do anjo foi unir rapidamente Cornélio e Pedro (8.26; 9.10). 3 A expressão literal “hora nona” corresponde às três horas da tarde (um dos horários de oração com incenso dos judeus) e demonstra o quanto Cornélio procurava cumprir as práticas religiosas judaicas (3.1). Na visão de Cornélio, apesar do susto natural, não ocorreu qualquer espécie de êxtase, apenas a transmissão de um recado de Deus, enquanto aquele orava (v.30; 9.11). 4 Deus compara as orações de um coração fiel, sincero e generoso à porção da oferta dos manjares que era queimada diante da Sua presença no AT, chamada: “memorial”. As orações de Cornélio assemelhavam-se aos sacrifícios dos judeus piedosos esperando pelo Messias (Lv 2.2-16). 5 Eram comuns nas casas palestinas os telhados planos, em laje, com escadarias externas. O terraço superior (eirado) era usado como lugar apropriado para momentos de reflexão, devoção e, em outras oportunidades, para reuniões sociais a céu aberto. 6 A expressão nos originais gregos, aqui traduzida por “êxtase”, revela que Deus produziu na mente de Pedro um estado especial de consciência, por meio da qual poderia ver e ouvir perfeitamente a mensagem que o Senhor lhe desejava transmitir. Não foi uma alucinação, nem tampouco imaginação, fruto de qualquer vertigem. A expressão “céu aberto” indica uma concreta revelação divina (Lc 3.21). O meio-dia corresponde à forma literal: “hora sexta”. 7 A expressão: “toda espécie de quadrúpedes” significa: toda a criação, incluindo os animais puros e impuros (Lv 11), assim como na tríplice divisão do mundo animal aparece em Gn 6.20. 8 A expressão original grega: thuseis significa mais que o simples ato de matar um animal para comer, seu sentido amplo e correto é: “oferecer em sacrifício”. Essa é uma indicação clara de Deus para que Pedro (e todos os judeus) deixem de lado todas as barreiras religiosas quanto ao estabelecimento de uma plena comunhão de mesa com os gentios de todas as nações (Gl 2.12-21). 9 Jesus já havia preparado o caminho para que as ordenanças quanto aos alimentos religiosamente puros e impuros fossem superadas por outros valores mais importantes do Reino (Mt 15.11; 1Tm 4.3-5). Pedro, como nós, parece sempre necessitar ouvir algumas repetições da parte do Senhor.

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por Cornélio, havendo especulado por Simão, chegaram à porta de sua casa. 18 Então, chamando, indagaram se ali estava hospedado Simão, também chamado Pedro. 19 Pedro ainda refletia sobre a visão, quando o Espírito lhe ordenou: “Simão, eis que estão à porta três homens que te procuram; 20 prepara-te, portanto, desce e não tenhas receio de ir com eles, pois Eu os enviei a ti!”. 21 Pedro desceu e declarou aos homens: “Aqui me tendes, sou o homem a quem procurais. Qual é o motivo da vossa vinda?”. 22 Então, os homens lhe comunicaram: “Eis que viemos da parte do centurião Cornélio, homem justo e temente a Deus, e que tem bom testemunho perante todo o povo judeu. Um santo anjo lhe ordenou que o mandasse chamar-te a sua casa, a fimdequeelepossaouviroquetensalhedizer”. Jesus é Senhor de todos os povos 23 Diante disto, Pedro os convidou a entrar e os hospedou.10 No dia seguinte, aprontou-se e partiu com eles; também alguns irmãos dos que habitavam em Jope seguiram em sua companhia. 24 Um dia depois, chegaram a Cesaréia. E Cornélio os esperava, havendo reunido seus parentes e amigos mais chegados. 25 Aconteceu que, quando Pedro ia caminhando para dentro da casa, Cornélio saiu ao seu encontro e, prostrando-se a seus pés, o reverenciou. 26 Pedro, no entanto, imediatamente o

fez aprumar-se ponderando-lhe: “Levanta-te, pois sou tão humano como tu és”. 27 Então, conversando com ele, Pedro entrou na casa e encontrou ali reunidas muitas pessoas 28 e lhes explicou: “Vós bem sabeis que é contra a nossa Lei um judeu associar-se a qualquer gentio, nem mesmo por uma breve visita. Contudo, Deus revelou-me que a nenhuma pessoa devo considerar impura ou imunda.11 29 Por essa razão, assim que fui procurado, vim sem qualquer objeção. Agora, pois, vos indago: “Por qual motivo me mandastes chamar?”. 30 Ao que Cornélio lhe declarou: “Faz hoje quatro dias que eu estava em jejum, orando em minha casa, por volta desta hora, às três horas da tarde. Subitamente, apresentou-se diante de mim um homem com roupas resplandecentes12 31 e ordenou-me: ‘Cornélio, Deus ouviu tua oração e lembrou-se de tuas ajudas aos pobres. 32 Portanto, manda buscar em Jope a Simão, também chamado Pedro. Ele está hospedado na casa de Simão, o curtidor de couro, que mora próximo ao mar’. 33 Então, sem demora, mandei chamarte, e fizeste bem em vir. Agora, pois, estamos todos aqui na presença de Deus, com o propósito de ouvir tudo quanto o Senhor te ordenou dizer-nos”. 34 Diante disto, Pedro começou a compartilhar: “Agora sim, percebo verdadeiramente que Deus não trata as pessoas com qualquer tipo de parcialidade, 35 antes, porém, de todas as nacionali-

10 Ao convidá-los a entrar e oferecer-lhes alojamento, Pedro está, humildemente, dando o primeiro passo em direção à aceitação dos gentios. Pois, pelas antigas leis judaicas, um judeu jamais poderia receber um gentio sob o mesmo teto. O Espírito confirmou o significado surpreendente (para um judeu tradicional), mas evidente, da visão. Deus aboliu em Cristo qualquer distinção entre judeus e gentios (Gl 3.28). Seis crentes judeus foram com Pedro na expectativa de participar de algum evento importante (10.45; 11.12). 11 Pedro compreendeu que sua visão tinha um sentido mais profundo e abrangente do que apenas declarar a distinção entre uma carne pura e boa para o consumo de uma imprópria; reconheceu que o grande obstáculo que por séculos separou os judeus dos demais povos da terra, em Cristo, havia sido vencido (Ef 2.11-22). O fundamento do evangelho universal foi a base dos ideais democráticos e abolicionistas (nenhum homem deve ser escravo de outro, por nenhuma razão). 12 Os judeus contavam parte de um dia como um inteiro. Portanto, foram quatro dias: o dia em que o anjo apareceu a Cornélio, o dia que os mensageiros chegaram à casa onde estava Pedro, o dia em que a comitiva parte com Pedro de Jope e, o quarto dia, em que chegam à casa de Cornélio. Alguns originais antigos e fiés em grego trazem a expressão “jejuando” ao lado do vocábulo “orando” (como em Mt 9.15).

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42 E foi Ele mesmo que nos mandou pregar a todas as pessoas e testemunhar que foi a Ele que Deus constituiu Juiz dos vivos e dos mortos.17 43 Todos os profetas testemunham sobre Ele, afirmando que qualquer pessoa que nele crê recebe o perdão de todos os pecados, mediante o seu Nome”. 44 E aconteceu que enquanto Pedro ainda pronunciava estas palavras, o Espírito Santo desceu de repente sobre todos os que ouviam a mensagem. 45 Aqueles crentes judeus que vieram com Pedro ficaram admirados de que o dom do Espírito Santo estivesse sendo derramado inclusive sobre os gentios,18 46 porquanto, os ouviam se expressando em línguas estranhas e exaltando a Deus. Diante disso, exclamou Pedro: 47 “Será possível que alguém ainda recuse água e impeça que estes sejam batizados? Eles, assim como nós, receberam o mesmo Espírito Santo!”.19 48 Em seguida, mandou que fossem batizados em o Nome de Jesus Cristo. Então, suplicaram a Pedro que permanecesse com eles por alguns dias.

dades, recebe todo aquele que o teme e pratica a justiça. 36 Esta é a Palavra que Deus mandou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por intermédio de Jesus Cristo. Este, portanto, é o Senhor de todos.13 37 Essa Palavra, vós muito bem conheceis, foi proclamada por toda a Judéia, começando pela Galiléia, depois do batismo pregado por João,14 38 e se refere a Jesus de Nazaré, de como Deus o ungiu com o Espírito Santo e poder, e como ele caminhou por toda a parte realizando o bem e salvando todos os oprimidos pelo Diabo, porquanto Deus era com Ele. 39 E nós somos testemunhas de tudo o que Ele realizou na terra dos judeus, bem como em Jerusalém, onde o assassinaram, suspendendo-o num madeiro.15 40 Deus, entretanto, o ressuscitou ao terceiro dia e lhe concedeu que fosse visto, 41 não por toda a população, mas por testemunhas que previamente escolhera para este propósito, por nós que comemos e bebemos com Ele depois que ressuscitou dos mortos.16

13 A primeira mensagem dirigida aos gentios revela que Deus não é como um rei que dispensa favores aos seus favoritos. Essa frase no grego é uma tradução do hebraico e se refere a um juiz parcial e interesseiro. Pedro não prega a salvação por méritos ou obras, mas a aceitação de Deus, oferecida graciosa e misericordiosamente a todos os seres humanos de todas as nacionalidades. Nem raça ou rito religioso salvam. Somente o dom gratuito de Deus, que se revela a quem o busca com sinceridade (17.27). Cristo não é somente o Messias nacional de Israel, mas o Rei do Universo. Só por meio de Jesus Cristo pode haver paz entre Deus e os seres humanos (Is 52.17) e entre judeus e gentios (Ef 2.17). 14 Cesaréia ficava cerca de 35km de Nazaré. Portanto, era muito natural que as notícias sobre a vida e o ministério de Cristo por toda a Galiléia houvessem chegado ao conhecimento do povo de Cesaréia, especialmente aos novos convertidos (judeus e gentios). Pedro começa sua exposição bíblica, do mesmo modo que o esboço de Marcos, com o batismo realizado pelo profeta João Batista e segue até a ressurreição de Jesus Cristo. Esse é um fato extremamente importante, uma vez que os pais da Igreja primitiva consideravam Marcos como grande amigo, intérprete e escriba de Pedro. 15 O vocábulo “madeiro”, nos originais em grego: xulon, que significa: “mastro feito de árvore” ou “estaca de madeira”, é uma expressão característica de Pedro (5.30 e 1Pe 2.24). 16 As pessoas que tiveram o privilégio de comer e beber com Jesus após sua morte e ressurreição, foram testemunhas oculares das evidências inconfundíveis da sua ressurreição física (Lc 24.42-43; Jo 21.12-15; Ap 3.20). 17 Pedro refere-se à comissão dada aos apóstolos e a todo crente em Jesus (Lc 24.47-48; At 1.8). Jesus é o Juiz de vivos e mortos (1Pe 4.5-6). 18 A expressão literal usada para descrever o advento do Espírito naquele momento foi: “caiu o Espírito”, cujo sentido está na velocidade e amplitude do fenômeno, que num instante tomou por completo a cada um dos indivíduos presentes. Esse fato ficou conhecido como o Pentecostes dos gentios (mesmo antes do batismo), confirmando assim a inclusão daqueles crentes na Igreja, sem a necessidade de passar pelos ritos de conversão ao judaísmo. 19 Os primeiros cristãos judeus tinham grande dificuldade em aceitar que os gentios convertidos a Jesus tivessem os mesmos direitos e participação nas bênçãos da redenção. Todavia, os gentios haviam recebido o mesmo dom (11.17) dos crentes judeus. Os crentes gentios foram agraciados com a mesma visitação poderosa do Espírito de Deus e falaram em línguas, exatamente como seus irmãos judeus no Dia de Pentecostes. Essa era uma evidência inquestionável de que o Reino estava pronto a receber judeus e gentios. Portanto, o batismo – como marca e símbolo da união do crente com Cristo e Seu Corpo (a Igreja) – não pode, de maneira alguma, ser jamais negado a todo aquele que, arrependido dos seus pecados, desejar unir-se a Jesus e viver eternamente em Seu Reino (Rm 6.3-5; 1Co 12.13).

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11 Naquele momento, os três homens que foram enviados por Cornélio chegaram em frente à casa onde eu estava hospedado. 12 E o Espírito revelou-me que não hesitasse em acompanhá-los. Estes seis irmãos também foram comigo, e entramos na casa daquele homem. 13 Ele nos contou como um anjo lhe aparecera em pé, no recinto de sua casa, e lhe ordenara: ‘Envia homens a Jope e manda buscar Simão, também chamado Pedro. 14 Ele te transmitirá uma mensagem por meio da qual serás salvo, tu e toda a tua casa’.3 15 Assim que comecei a pregar, o Espírito, num instante, sobreveio a eles da mesma maneira como veio sobre nós no princípio. 16 E naquele momento lembrei-me do que o Senhor me havia dito: ‘João, de fato, batizou em água, no entanto, vós sereis batizados com o Espírito Santo!”. 17 Portanto, se Deus lhes concedeu o mesmo Dom que dera igualmente a nós, ao crermos no Senhor Jesus Cristo, quem era eu, para pensar em contrariar a Deus?”.4 18 Diante do que fôra exposto, ninguém apresentou qualquer outra objeção e passaram a glorificar a Deus, exclamando: “Sendo assim, Deus concedeu até

Pedro esclarece a Igreja E aconteceu que os demais apóstolos e irmãos que estavam na Judéia ouviram falar que os gentios também haviam recebido a Palavra de Deus.1 2 Assim, quando Pedro subiu a Jerusalém, os que eram do partido dos crentes circuncisos o criticaram argumentando:2 3 “Entraste na casa de homens incircuncisos e ainda comeste com eles!”. 4 Então, Pedro começou a fazer-lhes um relato claro e ordenado de como tudo havia ocorrido: 5 “Eu estava em oração na cidade de Jope, e, num súbito êxtase, tive uma visão: algo parecido com um grande lençol descia, baixado do céu, preso pelas quatro pontas até chegar bem perto de mim. 6 Olhei para dentro dele e observei que havia ali quadrúpedes da terra, animais selvagens, répteis e aves do céu. 7 Em seguida, ouvi uma voz que me ordenava: ‘Levanta-te Pedro! Sacrifica e come’. 8 Ao que eu imediatamente repliquei: De modo nenhum Senhor! Pois jamais entrou em minha boca algo profano ou imundo. 9 Porém, a voz falou do céu pela segunda vez: ‘Não consideres impuro o que Deus purificou!’. 10 Isto aconteceu por três vezes seguidas, e tudo tornou a recolher-se ao céu.

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1 A repetição, em sua essência, da narrativa da conversão de Cornélio demonstra a importância que o assunto da admissão dos não judeus (gentios) à plena comunhão da Igreja teve para Lucas e seus contemporâneos. Às vezes, a expressão “irmãos” é usada em alusão aos que possuíam ascendência judaica em comum (2.29; 7.2). Contudo, nos contextos cristãos a mesma expressão tem o sentido de “unidos em Cristo” (6.3; 10.23). Em questões mais complicadas ou polêmicas, os apóstolos preferiam não tomar decisões isoladas. Embora a vontade divina oferecesse orientação clara e segura, e os apóstolos muito bem a interpretavam e encorajavam sua contínua busca diante de Deus, o conselho e aprovação de toda a Igreja – como Corpo de Cristo – já era uma atitude de sabedoria praticada por muitos deles (6.5; 11.1,22; 15.4 de acordo com 15.22). 2 Não demorou para que se formasse na Igreja primitiva grupos que defendiam politicamente certos pontos de vista. Os crentes judaicos (circuncisos) que se opuseram à aceitação de gentios incircuncisos na Igreja, se constituíram no partido da circuncisão ou judaizantes. Eles pregavam a manutenção da obediência completa e irrestrita a Lei, o cumprimento do ritual da circuncisão, da guarda do sábado e dos alimentos puros, assim como da exclusividade dos judeus na comunhão da mesa (15.1-5; 21.20; Gl 2.4,12). 3 A expressão “tu e toda a tua casa” não se refere apenas à família, mas de igual modo aos escravos, empregados e a todas as pessoas que estivessem sob a autoridade e proteção de Cornélio (Gn 6.18). 4 Pedro e seis judeus crentes formaram as sete testemunhas que, especialmente para os judaizantes, era o número necessário para garantir a veracidade de um relatório daquela natureza e importância (Ap 5.1). Os judeus interpretavam o advento do Espírito Santo como uma bênção exclusiva para o povo de Israel. Pedro, inspirado pelo Espírito Santo, teve seu próprio preconceito quebrado e sua visão do Reino ampliada. Por isso, com propriedade, colocou diante dos irmãos, especialmente do partido da circuncisão, que ele não se via com autoridade para opor-se a uma ordem expressa de Deus. Qualquer impedimento à livre participação dos crentes gentios na vida da Igreja, doravante, seria considerada como uma resistência à vontade soberana do Altíssimo (Gl 5.1-4).

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mesmo aos gentios o arrependimento para a vida!”.5 Os crentes são chamados cristãos 19 Então, os que haviam sido dispersos por causa da perseguição, desencadeada com a execução de Estevão, se espalharam até a Fenícia, Chipre e Antioquia, não divulgando a mensagem a ninguém além dos judeus. 20 Alguns deles, entretanto, eram de Chipre e de Cirene, e que chegaram até Antioquia, pregaram também aos gregos, apresentando-lhes o Evangelho do Senhor Jesus.6 21 A mão do Senhor estava com eles, e muitos creram e se converteram ao Senhor. 22 Assim que a notícia desse fato chegou ao conhecimento da igreja em Jerusalém, eles decidiram enviar Barnabé à Antioquia. 23 Tendo ele chegado e, vendo a graça de Deus, alegrou-se e encorajava a todos, para que permanecessem fiéis ao Senhor, com firmeza de coração. 24 Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. E uma multidão

considerável de pessoas foi acrescentada ao Senhor. 25 E aconteceu que Barnabé decidiu viajar para Tarso, a fim de encontrar-se com Saulo 26 e, assim que o achou, levou-o consigo para Antioquia. Então, durante um ano completo, Barnabé e Saulo se reuniram com aquela igreja e ensinaram a muita gente. Em Antioquia, os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos.7 Profecia: fome em todo Império Naqueles dias desceram alguns profetas de Jerusalém para Antioquia. 28 Um deles, chamado Ágabo, levantouse e pelo Espírito predisse que uma grande fome assolaria a todo mundo romano, o que de fato veio a ocorrer nos dias do reinado de Cláudio.8 29 Então, os discípulos, cada um segundo as suas possibilidades, resolveram providenciar ajuda para os irmãos que viviam na Judéia.9 30 E assim o fizeram, enviando suas ofertas aos presbíteros pelas mãos de Barnabé e Saulo.10
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5 Os judaizantes ficaram sem argumento e se renderam intelectualmente à defesa de Pedro. Entretanto, emocionalmente ainda não estavam plenamente convencidos, o que acarretaria sérios problemas futuros (At 15; Gl 2). 6 Antioquia era a terceira cidade mais importante do Império Romano na época (depois de Roma e Alexandria). Situava-se cerca de 25km distante do litoral, no canto nordeste do Mediterrâneo. Aqui surgiu a primeira igreja constituída, em sua maioria, por gentios convertidos. De Antioquia partiram as três grandes viagens missionárias de Paulo (13.1-4; 15.40; 18.23). Barnabé era de Chipre (4.36), Lúcio de Cirene (13.1) e os filhos de Simão, bem conhecidos na Igreja primitiva (Mc 15.21; Rm 16.15). É interessante notar que os fundadores das igrejas de Roma e Antioquia eram leigos. Jesus Cristo passa a ser apresentado aos gentios como Senhor (em grego: kurios), pois o Messias e seu ministério estão mais relacionados a Israel e seu povo (2.36; 5.42; 8.5; 9.22). 7 A igreja adotava o princípio de enviar líderes “cheios do Espírito” (Estevão, Barnabé) para ensinar e encorajar os novos grupos de crentes (igrejas) que iam espontaneamente se formando em vários lugares (4.36; 6.5; 8.14; 9.27). A origem do título: “cristãos” para os crentes e seguidores de Jesus Cristo é nebulosa. Entretanto, quer tenha sido formulado pelos inimigos do Evangelho como uma expressão de crítica, ou fruto da criação popular, o fato é que o termo, nos manuscritos gregos mais antigos e fiéis significa: “aqueles que pertencem a Cristo”. 8 Os profetas do AT e NT eram carismáticos e comunicavam a Palavra pelo poder do Espírito Santo (1Pe 1.10-12). Nas listas dos líderes da Igreja geralmente ocupam o segundo lugar, logo após aqueles que foram agraciados com o dom apostólico (1Co 12.28-29; Ef 4.11), com quem formam a base da liderança espiritual para servir à Igreja (Ef 2.20-21). A expressão: “todo mundo”, como aparece em algumas versões, se refere a “todo o mundo dominado pelo Império Romano na época”. O imperador Cláudio, governou Roma durante os anos 41 e 48 d.C. A história registra um terrível período de fome que se abateu sobre todo o Império, principalmente no ano 46 d.C. Ágabo predisse também a prisão de Paulo (21.10). Em Atos, os profetas não apenas pré-anunciam eventos importantes (v.27; 21.9-10), como também se ocupam do ensino e encorajamento do povo mediante a Palavra (15.32). 9 Na Igreja primitiva, era comum os membros mais ricos cooperarem com ofertas mais generosas, ainda que voluntárias (1Co 16.1). A decisão espontânea e unânime de ajudar os crentes necessitados da Judéia demonstra o verdadeiro sentido do amor e da unidade da Igreja. 10 Aqui aparece a primeira referência aos presbíteros da Igreja (literalmente no original grego: “anciãos”). Esse era um termo geral para os líderes das igrejas locais que formavam uma espécie de colegiado para liderança dos crentes, e que podia incluir irmãos de vários dons: profetas, mestres, pastores (14.23; 20.28; Tt 1.5; 1Pe 5.2). Em Gl 2.1-2, somos informados de que essa “visita” de Saulo e Barnabé contou com a presença de Tito e foi realizada “em obediência a uma revelação”.

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Um anjo liberta Pedro da prisão Naquela mesma ocasião, o rei Herodes mandou prender alguns que pertenciam à igreja, com o objetivo de maltratá-los,1 2 e matou a Tiago, irmão de João, por execução ao fio da espada.2 3 Observando que essa atitude agradava aos judeus, prosseguiu, ordenando também a prisão de Pedro, durante a festa dos pães sem fermento.3 4 Tendo-o prendido, mandou que fosse jogado ao cárcere e determinou que fosse vigiado por quatro escoltas com quatro soldados cada uma. Herodes tinha a intenção de apresentá-lo em julgamento público logo após a Páscoa.4 5 Assim, Pedro estava detido no cárcere, mas a igreja orava fervorosamente a Deus a favor dele.5 6 E aconteceu que, na noite anterior ao dia em que Herodes pretendia submetêlo a julgamento, Pedro estava dormindo entre dois soldados, com algemas presas a duas correntes, e as sentinelas guardavam o cárcere diante da porta.6 7 Subitamente, surgiu um anjo do Senhor e Sua luz resplandeceu na prisão. Então, o anjo tocou o lado de Pedro e

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o fez acordar, ordenando: “Levanta-te, depressa!”. E, em seguida, as algemas caíram dos punhos de Pedro. 8 E o anjo continuou a orientá-lo: “Veste a tua roupa e calça as sandálias”. E Pedro assim o fez. Disse-lhe ainda o anjo: “Põe a tua capa e segue-me!”. 9 Ao sair, Pedro o seguiu, mesmo sem saber se o que estava acontecendo por meio do anjo era, de fato, real, pois lhe parecia fruto de uma visão. 10 Todavia, passaram a primeira e a segunda sentinela e chegaram ao portão de ferro que dava acesso à cidade. Este se abriu por si mesmo para eles, e passaram. Tendo saído, caminharam ao longo de uma rua e, de repente, o anjo se afastou dele. 11 Foi quando Pedro caiu em si e disse: “Agora entendo, sem qualquer sombra de dúvida, que o Senhor enviou seu anjo e me libertou das mãos de Herodes e de tudo o que o povo judeu tramava contra mim”. 12 Depois de assim refletir, colocou-se a caminho da casa de Maria, mãe de João, também chamado Marcos, onde muitas pessoas estavam reunidas em oração.7 13 Eis que Pedro chega e bate à porta do

1 Herodes Agripa I era filho de Aristóbulo, sobrinho de Herodes Antipas (que mandou decapitar João Batista e interrogou a Jesus). Foi neto de Herodes o Grande (Mt 2; Mt 14.3-12; Lc 23.8-12). Quando Antipas foi exilado, Agripa recebeu a tetrarquia (jurisdição) dele, bem como as de Filipe e Lisânias (Lc 3.1). Agripa foi educado em Roma; era amigo do terrível imperador Calígula e apoiou a nomeação de Cláudio ao trono, que lhe retribuiu, em 41 d.C., com o acréscimo das regiões da Judéia e Samaria ao reino que lhe havia sido concedido por Calígula. Conquistou a subserviência de muitos judeus (25.13). 2 Tiago e o apóstolo João eram os dois filhos de Zebedeu, primos e discípulos de Jesus (Mt 4.21; Mc 10.35-39). Como o Senhor lhes havia profetizado, ambos beberam o cálice que lhes estava proposto (Mt 20.20-28). Tiago foi decapitado cerca de dez anos após a ressurreição do Senhor. 3 A festa dos pães asmos (sem fermento) começava com as celebrações da Páscoa e durava oito dias. Neste momento histórico, Pedro era o mais destacado líder espiritual da Igreja, o que levou muitos a pensar erroneamente que fosse uma espécie de sucessor imediato de Jesus. O próprio Pedro jamais aceitou tal tipo de insinuação (10.24-26). Com o passar do tempo, ele mesmo reconheceria a superioridade de Paulo (2Pe 3.15-16). 4 Os romanos dividiam a noite em quatro vigílias. Por isso, destacaram um grupo de quatro soldados para ficar acordados, vigiando a Pedro, em cada turno. 5 Diante de obstáculos aparentemente intransponíveis, a oração é o mais poderoso canal de comunicação com Deus, que sempre proverá uma solução. A expressão original grega: ektenõs significa “fervorosamente, ardentemente”, e foi usada por Pedro em 1Pe 1.22 e 4.8 para descrever o verdadeiro amor cristão, que deveria ser a principal marca da igreja de Jesus Cristo em todo o mundo. 6 Pedro estava preso numa das torres da fortaleza de Antonia, que se situava na região noroeste do Templo. Curiosamente, o mesmo lugar onde, anos mais tarde, o apóstolo Paulo seria encarcerado (21.34 – 23.30). A luz que brilhou na prisão de Pedro foi a glória do Senhor (Lc 2.9). 7 Maria era mãe de João Marcos (autor do segundo evangelho), tia de Barnabé (Cl 4.10) e proprietária de uma grande casa, onde Jesus realizou a última ceia com seus apóstolos (Mc 14.13-15; At 1.13). Agora, o cenáculo (uma espécie de grande sala de jantar) era o local preferido para as reuniões de oração, compartilhar e ensino na Igreja em formação (4.31). É interessante notar que os líderes da Igreja estavam ausentes neste evento (v.17).

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alpendre, e uma serva chamada Rode veio atender. 14 Assim que reconheceu a voz de Pedro, tomada de grande alegria, ela correu de volta, sem abrir a porta, e exclamou: “É Pedro! Ele está lá fora, à porta!”. 15 Todavia, eles lhe replicaram: “Estás fora de si!”. Mas, diante da forte insistência da mulher em afirmar que era Pedro, ponderaram-lhe: “Ora, é possível que tenhais visto o anjo dele”.8 16 Entretanto, Pedro continuou batendo e, quando, enfim, abriram a porta e o viram, ficaram atônitos. 17 Ele, por sua vez, fazendo-lhes sinais com a mão para que se calassem, explicou-lhes como o Senhor o havia libertado do cárcere, e pediu-lhes: “Anunciai isso a Tiago e aos demais irmãos”. E, saindo, retirou-se para outro lugar.9 18 Assim que o dia raiou, houve enorme tumulto entre os soldados quanto ao que teria ocorrido a Pedro. 19 Ordenando uma busca completa e não o encontrando, Herodes submeteu todos os guardas a severo interrogatório e, por fim, os mandou executar. Passados esses acontecimentos, foi Herodes da Judéia para Cesaréia e permaneceu ali durante algum tempo. Herodes morre após aclamação 20 Herodes estava tomado de ira contra o povo de Tiro e Sidom; todavia,

eles haviam promovido uma reunião e buscavam uma maneira de serem recebidos em audiência por ele. Havendo conquistado o apoio de Blasto, homem de confiança do rei, pediram paz, pois dependiam das terras do rei para obter o alimento de suas famílias. 21 Assim, no dia marcado, Herodes, vestindo trajes majestosos, assentou-se no seu trono e proclamou um discurso ao povo. 22 Então, a multidão começou a gritar: “Eis que é um deus e não um simples mortal que nos fala!”. 23 Mas, considerando que Herodes não ofereceu glória a Deus, no mesmo instante um anjo do Senhor o feriu, e ele morreu comido de vermes.10 24 Entretanto, a Palavra de Deus continuava a espalhar-se por toda a parte, multiplicando-se.11 25 E, havendo concluído sua missão, Barnabé e Saulo voltaram de Jerusalém, levando consigo João, também conhecido por seu segundo nome, Marcos.12 A primeira viagem missionária Na Igreja em Antioquia havia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, conhecido por seu segundo nome, Niger, Lúcio de Cirene, Manaém que era irmão de criação de Herodes, o governador, e Saulo.1 2 Enquanto serviam, adoravam e jejua-

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8 Os judeus preservavam a crença milenar de que as pessoas são assistidas por seus anjos guardiões. O próprio Jesus lembrou que, especialmente as crianças e aqueles que não podem cuidar de si mesmos, recebem essa graça de Deus (Mt 18.10; Hb 1.14). Entre o povo se dizia que, algumas vezes e por certo motivo, um anjo podia assumir a aparência física do seu protegido. 9 Pedro refere-se aqui a Tiago, filho de José e Maria, e, portanto, irmão do Senhor Jesus. Escolhido como moderador da Igreja em Jerusalém, após o Pentecostes, e autor da carta que traz seu nome (Gl 1.1; 1.19; 2.11), seus ensinos se assemelham em muito ao estilo de Jesus. Uma comparação entre sua epístola e o Sermão do Monte, por exemplo, revela mais de doze claros paralelismos. Em 108 versículos encontramos 54 mandamentos. Pedro não foi para Roma até o ano 55 d.C. (Gl 2.1; At 15.2). 10 Era comum naqueles tempos que o povo, inclusive alguns judeus (por intimidação ou adulação), atribuíssem divindade a um rei, especialmente aos imperadores romanos. O historiador judeu Flávio Josefo registrou em sua obra Antiguidades os detalhes horríveis da morte que sobreveio a Herodes no ano 44 d.C. Deus zela pela glória que somente a Ele pertence e castiga severamente o homem arrogante e presunçoso. 11 Esse é o terceiro relatório resumido do avanço extraordinário da Igreja. Mais três ainda serão registrados em Atos (6.7; 9.31; 16.5; 19.20; 28.31). 12 João Marcos, agora adulto, era aquele jovem que fugiu assustado na noite em que Jesus foi preso (Mc 14.51-52) e, que depois, mais maduro, serviu como missionário na primeira parte da viagem de Saulo e Barnabé (15.38-39); foi discípulo e grande companheiro de ministério de Pedro, e deixou para a Igreja seu relato do Evangelho. Capítulo 13 1 O dom de profeta capacitava homens de Deus – tanto no AT como no NT - para a exposição clara e corajosa da Palavra, com o objetivo de levar as pessoas ao arrependimento sincero e, portanto, de volta à comunhão com Deus. Freqüentemente,

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vam ao Senhor, o Espírito Santo lhes ordenou: “Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a missão a qual os tenho chamado”.2 3 Diante disso, depois que jejuaram e oraram, lhes impuseram as mãos e os enviaram.3 Saulo notabiliza-se como Paulo 4 Dirigidos, portanto, pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre.4 5 Chegando em Salamina, proclamaram a Palavra de Deus nas sinagogas judaicas. João Marcos os seguia para auxiliá-los.5 6 Depois de atravessarem toda a ilha até Pafos, encontraram um judeu, chamado Bar-Jesus, que praticava feitiçaria e era falso profeta. 7 Ele assessorava o procônsul Sérgio Pau-

lo, homem de grande inteligência. Este, mandou chamar Barnabé e Saulo, pois desejava conhecer a Palavra de Deus. 8 No entanto, Elimas, o mago - pois é assim que se traduz o nome dele - opunhase a eles, tentando desviar o procônsul da fé. 9 Contudo, Saulo, que traduzido é Paulo, cheio do Espírito Santo, olhando atentamente para Elimas o repreendeu dizendo:6 10 “Tu estás cheio de toda mentira e malignidade. Filho do Diabo, inimigo de tudo o que é justo. Quando cessarás de perverter os retos caminhos do Senhor?7 11 Para que saibas que a mão do Senhor é contra ti, ficarás cego a partir de agora, e não verás a luz do sol por algum tempo”. E, no mesmo instante, Elimas sentiu como se um nevoeiro o encobrisse e seus

recebiam o poder divino para prever o futuro e realizar sinais e maravilhas. Apesar de raramente honrados por todos, eram temidos e invejados (Dt 18.18-20; 2Pe 1.21; At 2.17-18; 1Co 14.29-32; Ef 3.5). Os mestres recebiam especial capacidade divina para o ensino e a instrução do povo, em teologia bíblica e nos princípios de vida cristã (11.26; 15.35; 18.11; 20.20; 28.31; 1Co 12.28-29; Ef 4.11). Barnabé foi o primeiro missionário cristão a ser enviado pela Igreja de Jerusalém à Antioquia. Sua missão foi levar donativos e encorajamento espiritual (11.22; 12.25). Simeão Niger tinha antecedentes judaicos, mas era conhecido por um segundo nome latino: “Niger” (em latim: “negro”), devido à cor negra de sua pele. Lúcio (outro nome latino), como alguns outros pregadores, vinha de Cirene, capital da Líbia (6.9; 11.20). Manaém, em hebraico: “Menahem” (que significa: “consolador”), foi irmão de criação de Herodes Antipas e, portanto, conhecia os pensamentos e motivações desse ardiloso e tresloucado monarca judeu a serviço do Império Romano (Mc 6.14-28; Lc 3.19; 13.31; 23.7). 2 O texto informa que a primeira viagem missionária foi fruto da vontade expressa do Espírito Santo. Enquanto os líderes da Igreja em Antioquia “serviam” (essa expressão no original grego é: leitourgeõ, que significa, em seu sentido lato, mais do que simplesmente “liturgia”, e, sim, qualquer obra humana realizada em Nome do Senhor), comunicou-lhes o Espírito, por meio dos profetas, que separassem os mais dedicados e melhor preparados homens de Deus para uma missão que o próprio Senhor havia planejado para que seus servos executassem. Em algumas igrejas e organizações para-eclesiásticas, hoje em dia, parece que os irmãos planejam ações ministeriais para que o Senhor as execute. 3 A imposição de mãos era um ato cerimonial que indicava o compromisso espiritual e material da Igreja para com a vida dos missionários comissionados e enviados ao campo. Essa designação (comissionamento) era precedida de jejuns e orações (14.23-26 de acordo com Lc 2.37). 4 Chipre, cidade natal de Barnabé. Grande ilha ao sul da Turquia. Na época, rica na prospecção e exploração comercial do cobre. No AT era conhecida como Quitim. 5 Os missionários obedeceram ao mandato messiânico e ofereceram o Evangelho, primeiramente aos judeus (Rm 1.16). João Marcos foi como “auxiliar” (no original grego: hupereten que significa: “ministros da Palavra”, como aparece em Lc 1.2). Esses “auxiliares” eram professores (catequistas), autorizados pelos líderes da Igreja, que, como Marcos, foram testemunhas oculares dos acontecimentos históricos da vida de Jesus Cristo. 6 O nome Saulo vem da expressão hebraica: shã’ül que significa “pedido a Deus”. Era costume se usar um nome recebido na infância (no caso Saul, de ascendência judaica) e outro atribuído na fase adulta por algum motivo especial. Como Saulo também era cidadão romano, passou a ser chamado de Paulo, um nome latino de origem grega, cujo significado é: “de baixa estatura” ou “pequeno”. A partir de agora, em Atos, Saulo será chamado por seu segundo nome (ou sobrenome) Paulo, especialmente por causa da sua atitude, cheia do Espírito, corajosa e persuasiva, na evangelização do oficial romano e governador de Chipre, Sérgio Paulo. Essas características, bem como a visão e dedicação em pregar o Evangelho para os gentios em todo mundo, marcaram a vida e o ministério de Paulo até sua morte. 7 Paulo usa um dos significados do nome de Elimas (que em hebraico pode ser traduzido como “sábio, mago ou feiticeiro”) para fazer um jogo de palavras com o mesmo nome em aramaico “Bar-Jesus” (“Bar” quer dizer “filho de” e “Jesus”, que significa: “Jeová Salva”, o mesmo nome de Cristo), para enfatizar que ele era a personificação da mentira. Pois que se fazendo passar por “sábio” e “filho de Jesus” era, na verdade, “filho do Diabo” e, portanto, um enganador.

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olhos ficaram em trevas. Então, tateando, rogou a quem o pudesse guiar pela mão. 12 O procônsul, observando o que havia acontecido, creu, profundamente impressionado com a doutrina do Senhor. Paulo prega Jesus na sinagoga 13 De Pafos, Paulo e seus companheiros navegaram para Perge, que fica na Panfília. Então, João Marcos os deixou ali e regressou a Jerusalém.8 14 Eles, no entanto, seguiram para além de Perge e chegaram a Antioquia da Psídia. No dia de sábado, entraram na sinagoga e se assentaram. 15 Logo após a leitura da Lei e dos Profetas, os administradores da sinagoga mandaram que se lhes fosse feito o seguinte convite: “Irmãos, se tendes em vós alguma palavra de encorajamento para nosso povo, dizei-a”.9 16 Então, Paulo, colocando-se em pé, fez sinal com a mão, solicitando a aten-ção dos presentes, e declarou: “Caros israelitas e vós, gentios, que igualmente temeis a Deus, ouvi! 17 O Deus deste povo de Israel escolheu nossos antepassados e honrou sua gente durante o tempo em que, como estrangeiros, caminharam pela terra do Egito, de onde os libertou com braço poderoso. 18 O Senhor zelou por eles com paciência, no deserto, durante cerca de quarenta anos. 19 Ele destruiu sete nações em Canaã e

entregou a terra em que habitavam como herança ao seu povo. 20 Isso tudo levou aproximadamente quatrocentos e cinqüenta anos, quando então, lhes deu juízes até a época do profeta Samuel. 21 Mas o povo lhe rogou por um rei, e Deus lhes concedeu Saul, filho de Quis, da tribo de Benjamim, que reinou pelo espaço de quarenta anos. 22 Depois que tirou o reinado de Saul, deu-lhes Davi como rei, sobre quem testemunhou: ‘Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, ele fará tudo conforme a minha vontade’.10 23 E, da descendência desse homem, Deus levantou para Israel o Salvador Jesus, assim como prometera.11 24 Antes, porém, da chegada de Jesus, primeiramente veio João, pregando um batismo de arrependimento para todo o povo de Israel. 25 Quando estava por concluir seu ministério, proclamou João: ‘Quem pensais vós ser eu? Não sou eu o Messias. Entretanto, eis que vem após mim aquele cujas sandálias eu não sou digno sequer de desatá-las dos seus pés’. 26 Irmãos, descendentes de Abraão e vós não-judeus que temeis a Deus, a nós foi enviada esta mensagem de salvação. 27 Pois, as pessoas que habitam em Jerusalém e seus governantes não reconheceram a Jesus, contudo, ao executá-lo, cumpriram as palavras dos profetas, que são lidas todos os dias de sábado.

8 Perge ficava na costa sul da região que atualmente pertence a Turquia, onde havia alta incidência de malária. Para alguns estudiosos ligados ao Comitê Internacional de Tradução da KJ, esse foi o “espinho na carne de Paulo” (2Co 12.7). Uma região mais saudável, na época, encontrava-se em Antioquia da Psídia, localizada cerca de mil metros acima do nível do mar. A razão pela qual Marcos deixou a companhia dos missionários e decidiu voltar à Igreja em Jerusalém jamais ficou clara, mas desagradou a Paulo (15.37-39). 9 O culto (serviço) religioso em uma sinagoga se dividia em algumas partes fundamentais: O Shema, uma espécie de convocação solene do povo à adoração do Senhor (Dt 6.4); oração pelo líder; leitura de partes selecionadas do Pentateuco (no shabbãth – sábado – lia-se também partes dos Profetas); sermão por um membro idôneo da congregação (Lc 4.16) e/ou mestre (rabino) visitante. Os administradores ou chefes das sinagogas eram responsáveis pela escolha e convite aos leitores e pregadores; planejamento e organização dos cultos e outros serviços religiosos; manutenção da ordem e reverência. 10 Coincidentemente, o pregador também se chamava Saul e era da tribo de Benjamim (Fp 3.5). Como Davi foi incapaz de cumprir toda a vontade de Deus, o texto refere-se imediatamente à sua descendência: Jesus (Jo 17.4). Paulo enfatiza que Davi é o grande vulto do AT (1Sm 13.14), que antecipa a vinda do Senhor Jesus, o único Rei capaz de oferecer ao seu povo (todos os seres humanos), a herança prometida do Reino de Deus (Gl 5.21; Cl 1.13). 11 Ao invés de “trouxe”, como em algumas versões, os melhores originais trazem a palavra “levantou” ao descrever a intervenção de Deus na ressurreição de Jesus (3.26), pois, foi ao ressuscitar dos mortos que Jesus Cristo consumou sua obra como Salvador de todas as raças, povos e tribos (Jz 3.19); cumprindo a Promessa (23,32,34 de acordo com Is 11.1-16 e Gl 3.15-29).

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37 Mas aquele a quem Deus ressuscitou não foi afligido pela decomposição.14 38 Sendo assim, meus irmãos, ficai cientes de que mediante Jesus vos é anunciado o perdão dos pecados. 39 E, por intermédio de Jesus, todo aquele que crê é justificado de todas as faltas de que antes não pudestes ser justificados pela Lei de Moisés.15 40 Acautelai-vos, pois, para que não vos sobrevenha o que foi anunciado pelos profetas: 41‘Vede, ó escarnecedores, ficai atônitos e morrei; porquanto Eu realizarei, em vossos dias, obra de tamanha grandiosidade, que jamais vos seria possível crer se alguém apenas vos contasse’.

não encontrando motivo legal para condená-lo à sentença de morte, rogaram a Pilatos que o mandasse crucificar.12 29 E, depois de terem cumprido tudo o que a respeito dele estava escrito, tirando-o do madeiro, depositaram-no em um sepulcro. 30 No entanto, Deus o ressuscitou dentre os mortos; 31 e, durante muitos dias, Ele foi visto por aqueles que tinham ido em sua companhia da Galiléia para Jerusalém. Essas pessoas agora são suas testemunhas diante do povo. 32 Nós vos anunciamos as Boas Novas da promessa confiada a nossos antepassados, 33 as quais Deus cumpriu para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, assim como está escrito no segundo Salmo: ‘Tu és meu Filho, Eu hoje te gerei’.13 34 O fato de que Deus ressuscitou a Jesus dos mortos, para que seu corpo jamais experimentasse a decomposição, foi declarado desta forma: ‘Eu cumprirei a vosso favor as santas e fiéis bênçãos de Davi’. 35 Porquanto, em outro Salmo, está explícito: ‘Não permitirás que o teu Santo sofra decomposição”. 36 Porque Davi, depois de servir a sua própria geração pela vontade de Deus, adormeceu, foi sepultado com os seus antepassados, e seu corpo se decompôs.

28 Mesmo

Paulo é convidado a pregar mais 42 E, quando Paulo e Barnabé estavam saindo da sinagoga, o povo os convidou a ensinar mais a respeito desse assunto no sábado seguinte. 43 Depois que a congregação foi despedida, muitos dos judeus e dos gentios devotos convertidos ao judaísmo seguiram a Paulo e Barnabé. Estes conversaram com eles, recomendando-lhes que seguissem perseverando na graça de Deus.16 Paulo decide ensinar os gentios 44 No sábado seguinte, quase toda a população da cidade se reuniu para ouvir a Palavra de Deus.

12 Lucas faz questão de deixar bem claro a inocência de Jesus e dos apóstolos perante a Lei de Deus e dos homens, a fim de mostrar aos poderes constituídos do Estado e autoridades legais que o cristianismo não traz qualquer ameaça à ordem jurídica das nações. 13 Paulo faz referência à palavra profética de Davi no Salmo 2.7-9 (conforme Pedro e João em At 4.25). A mesma voz de Deus, que ocorre em Lc 3.22, confirma o fato vital de que Jesus Cristo é o Filho de Deus (Rm 1.4). 14 Pedro e Paulo têm um discurso afinado e concordam teologicamente sobre os principais aspectos da fé cristã. A síntese da história do evangelho nos vv. 24-31 é muito parecida com a mensagem de Pedro em 10.36-43; e o ritual do batismo é interpretado como o sinal externo do arrependimento interno de cada pessoa que aceita o Salvador e Senhor Jesus. Paulo, como Pedro em 2.25-31, afirma que a profecia da preservação da decomposição (corrupção do corpo) não se referia a Davi (Is 55.3; Sl 16.10), mas unicamente a Cristo que fora ressuscitado. Estes dois sinais: crucificação e ressurreição não faziam parte dos ensinos e profecias em relação ao livramento messiânico que os judeus tanto aguardavam. 15 A ressurreição de Jesus confirmou a plena aceitação de Deus ao sacrifício ofertado pelo Senhor na cruz (2.38; 5.31; Rm 4.25). A justificação associa dois aspectos básicos: o perdão dos pecados (claro neste texto) e a dádiva da justiça (em Rm 3.21-22). O elemento-chave da pregação de Paulo é: a salvação se recebe exclusivamente pela fé (essa é a síntese das cartas aos Romanos e Gálatas, ambas da autoria de Paulo). Nos versos seguintes, Paulo adverte quanto aos resultados da incredulidade (Hc 1.5). 16 Os não-judeus que se convertiam ao Judaísmo, também chamados de “prosélitos” e que se submetiam à circuncisão (batismo judaico), obedeciam à Lei e às doutrinas da sinagoga, eram considerados “piedosos” (devotos). Neste contexto, no original, a palavra “Graça” significa “Evangelho” (vs. 38 e 39). Ou seja, perseverar em seguir os ensinos de Jesus.

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45 Entretanto, quando os judeus observaram a multidão ficaram tomados de inveja e, de forma desrespeitosa e ultrajante, contradiziam o que Paulo pregava. 46 Então Paulo e Barnabé, tomando a palavra com toda coragem, lhes afirmaram: “Importava que a vós outros, em primeiro lugar, fosse pregada a Palavra de Deus; porém, considerando que a rejeitais e a vós próprios vos julgais indignos de receber a vida eterna, eis que agora nos dirigimos aos gentios. 47 Porquanto dessa maneira o Senhor nos ordenou: ‘Eu te constitui como luz para os gentios, a fim de que tu leves a Salvação até os confins da terra’.17 48 Ao ouvirem essa declaração, os gentios se alegraram sobremaneira e glorificavam a Palavra do Senhor. E todos quantos haviam sido escolhidos para a vida eterna creram de coração.18 49 Assim, a Palavra do Senhor era divulgada por toda aquela região. 50 Porém, os judeus persuadiram as mulheres piedosas e de alta posição social, assim como os principais líderes da cidade, e desfecharam uma perseguição contra Paulo e Barnabé, até os expulsarem do seu território.

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51 Estes, contudo, sacudindo contra eles o pó dos seus pés, partiram para Icônio.19 52 Os discípulos, no entanto, viviam plenos de alegria e do Espírito Santo.20

Judeus e gentios crêem em Jesus Em Icônio, Paulo e Barnabé, como costumavam fazer, foram juntos à sinagoga dos judeus. Ali pregaram de tal maneira que numerosa multidão de judeus e gentios veio a crer. 2 Mas os judeus que preferiram continuar descrentes instigaram os gentios e lhes irritaram os ânimos contra os irmãos. 3 Paulo e Barnabé passaram muito tempo ali, pregando corajosamente acerca do Senhor, que confirmava a Palavra da sua graça, concedendo que, por meio das mãos deles, fossem realizados sinais miraculosos e prodígios.1 4 Mas houve grande divisão entre o povo da cidade: uns ficaram do lado dos judeus e outros, dos apóstolos. 5 Formou-se, então, uma conspiração de gentios e judeus com seus líderes, a fim de desmoralizá-los e apedrejá-los.2 6 Ao tomarem conhecimento dessa trama, eles fugiram para as cidades licaônicas de Listra e Derbe, e suas vizinhanças, 7 e ali seguiram pregando o Evangelho.

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17 Jesus é nosso grande exemplo missionário, o Servo de Jeová (Is 49.6). Como missionários de Deus devemos entregar nossas vidas para que sejam queimadas como velas que iluminam o caminho dos povos. 18 A tradução deste texto corresponde, de forma literal, aos melhores e mais antigos originais. A eleição ou predestinação à salvação não opera independentemente da fé humana, que deve ser voluntariamente exercida, para todos os efeitos (39, 46; Ef 2.8-9). 19 O ato de sacudir o pó dos pés era uma demonstração de que todo esforço havia sido empreendido para que aquela casa ou povo recebesse com satisfação a Salvação e o Reino de Deus. Ao mesmo tempo, era uma manifestação de repúdio, diante de Deus, contra aqueles que haviam rejeitado a Palavra de Deus e causado algum constrangimento ou sofrimento aos servos do Senhor (Lc 9.5). A cidade de Icônio, hoje Konya, era uma importante encruzilhada, sendo grande centro agrícola da planície da província da Galácia. Antioquia, Listra e Derbe localizavam-se ao sul desta província, e mais tarde seriam também contempladas com a conhecida epístola (canônica) de Paulo aos Gálatas. 20 O sentido da palavra “alegria” no original grego tem a ver com um estado de plena satisfação, mesmo em meio às circunstâncias adversas. Isso ocorre pela esperança certa (fé) de que Deus está agindo; e no controle de tudo e de todos. Não é apenas um estilo sorridente, inconseqüente e descontraído de ser, mas fruto de um profundo sentimento de paz interior, que demonstra a plena ação do Espírito Santo (Gl 5.22), encorajando-nos a cada dia, até a volta do Senhor. Capítulo 14 1 Paulo e Barnabé venceram a primeira onda de perseguição. Quase sempre a estratégia satânica de desmoralizar a reputação dos servos de Deus dá mais resultado prático e inicial do que refutar aberta e diretamente a Palavra. Tanto a incredulidade quanto a desobediência (vocábulo derivado da expressão original grega opeithesantes – “incrédulos”) cooperam eficazmente para a rejeição da Verdade (o Evangelho). Sinais e maravilhas seguiam os apóstolos com o propósito de confirmar a veracidade da pregação cristã e a total aprovação de Deus. 2 A blasfêmia (ultrajar o Nome de Deus ou seus mandamentos) era um pecado punido sumariamente com a pena capital de morte por apedrejamento. Os judeus não usavam a crucificação, pois a julgavam excessivamente cruel.

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Um paralítico é curado por sua fé 8 Em Listra vivia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que passava os dias sentado e jamais havia conseguido andar. 9 Ele estava ouvindo Paulo pregar. Quando, fixando seus olhos nele, e percebendo que o homem tinha fé para ser curado,3 10 Paulo ordenou-lhe em voz alta: “Apruma-te direito sobre teus pés!”. O homem então, deu um salto e começou a andar. 11 Diante do que Paulo realizara, a multidão começou a gritar: “Os deuses desceram até nós em forma de seres humanos!”. 12 E assim, a Barnabé deram o nome de Zeus, e a Paulo chamaram Hermes, pois era ele quem falava com poder.4 13 O sacerdote de Zeus, cujo templo fora construído na entrada da cidade, trouxe bois e coroas de flores à porta da cidade, porque ele e a população desejavam oferecer-lhes sacrifícios. 14 Quando os apóstolos Barnabé e Paulo ouviram isso, rasgaram as suas roupas e correram para o meio da multidão, exclamando:5 15 “Homens! Por que fazeis isto? Pois nós também somos humanos, de natureza semelhante a vossa. E vos temos anunciado o Evangelho para que vos afasteis dessas práticas inúteis e vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe.6 16 Em tempos passados Ele permitiu que

todas as nações andassem segundo seus próprios caminhos7 17 no entanto, Deus não ficou sem dar testemunho sobre sua própria pessoa, pois demonstrou sua bondade, enviando-vos do céu as chuvas, e as estações das colheitas, cada uma a seu tempo, concedendo-vos sustento com fartura e enchendo-vos o coração de alegria!”. 18 Mesmo com essas explicações, ainda foi difícil evitar que as multidões lhes homenageassem por meio de sacrifícios. Paulo é linchado e atirado fora 19 Chegaram, porém, alguns judeus de Antioquia e de Icônio e, tendo persuadido as multidões, apedrejaram Paulo e o arrastaram para fora da cidade, supondo que estivesse morto.8 20 Contudo, quando os discípulos se reuniram em volta de Paulo, este se levantou e voltou à cidade. No dia seguinte, partiu Paulo com Barnabé para Derbe. O retorno dos missionários 21 E, havendo pregado as Boas Novas naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, Icônio e Antioquia, 22 renovando o ânimo dos discípulos e os encorajando a perseverar na fé, ensinando: “É necessário que em meio a muitas aflições ingressemos no Reino de Deus!”. 23 Então Paulo e Barnabé lhes constituíram presbíteros em cada igreja; e, tendo orado e jejuado, eles os consagraram

Hermes (Mercúrio) era filho de Zeus e porta-voz dos deuses do Olimpo (habitação das divindades pagãs na mitologia grega). As pessoas identificaram na pessoa de Paulo a figura de Hermes: o mensageiro dos deuses, e em Barnabé a imagem de Zeus. 5 Na cultura oriental, e, particularmente na judaica, rasgar as vestes era um sinal de profunda aflição ou indignação contra um ato ou palavra de blasfêmia (Gn 37.29-34; Mc 14.63). 6 Esta foi a primeira vez que as Boas Novas (o Evangelho) foram apresentadas a povos completamente pagãos. O apelo à revelação natural de Deus (a criação do céu, mar, terra e seus habitantes) se baseia no fato de Deus ser o único grande e primeiro Criador e, portanto, o Deus vivo que abençoa com sua misericórdia toda a humanidade (1Ts 1.9-10; Gl 4.9; At 15.19; 26.18). A expressão: “práticas inúteis” (ou vãs) deriva de uma forma usada no AT para descrever falsos deuses (1Sm 12.21). 7 Deus deixou de castigar os pecados dos gentios (pagãos) devido a seu desconhecimento da Verdade (17.30). Entretanto, Paulo ensinará mais tarde que Deus, na verdade, abandona os pagãos teimosos e impenitentes às suas próprias filosofias e práticas mundanas, pois desprezam a verdadeira Luz, que é Jesus (Rm 1.18). 8 Apenas Paulo foi apedrejado, por ser considerado aquele que falava em o Nome do Senhor (2Co 11.25). A inconstância dos Gálatas tem sua origem aqui (Gl 1.6), onde produziram em Paulo suas primeiras “marcas de Cristo” (Gl 6.17). Em 2Tm 3.11, Paulo relembra esta tribulação vencida.

3 A expressão grega original sőthenai é a mesma palavra para “ser curado” e “ser salvo” (Mc 2.9-12). 4 Zeus (Júpiter, na mitologia romana), era o grande deus do panteão grego, e chefiava todos os demais deuses helênicos.

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aos cuidados do Senhor, em quem haviam crido.9 24 Atravessando a Pisídia, chegaram à Panfília. 25 E, tendo pregado a Palavra em Perge, desceram para Atália. 26 Dali navegaram para Antioquia, onde tinham sido colocados sob a proteção da graça de Deus a fim de desempenharem a missão que agora haviam concluído. 27 Assim que chegaram ali, reuniram a Igreja e relataram tudo o que Deus havia realizado por intermédio deles e como abrira a porta da fé aos gentios. 28 E permaneceram ali com os discípulos por longo tempo.10 A questão sobre guardar a Lei Alguns homens, que haviam descido da Judéia, passaram a ensinar aos irmãos: “Se não vos circuncidardes conforme a tradição instituída por Moisés, de forma alguma podeis ser salvos!”.1 2 Por este motivo, Paulo e Barnabé tiveram uma acirrada divergência com eles. E os irmãos decidiram que Paulo e Barnabé, juntamente com outros, deveriam subir até Jerusalém e tratar dessa questão com os apóstolos e com os presbíteros. 3 A Igreja os enviou e, quando estavam atravessando a Fenícia e Samaria, com-

partilharam como havia acontecido a conversão dos gentios, notícias essas que alegraram sobremaneira o coração de todos os irmãos. 4 Tendo eles chegado a Jerusalém, foram muito bem recebidos pela Igreja, pelos apóstolos e por todos os presbíteros, a quem relataram tudo o que Deus havia realizado por intermédio deles. 5 Entretanto, alguns do grupo religioso dos fariseus, que tinham crido, levantaram-se protestando: “É necessário circuncidá-los e ordenar-lhes expressamente que observem toda a Lei de Moisés!”. O Concílio de Jerusalém 6 Diante disso, os apóstolos e os presbíteros se reuniram para deliberar sobre a questão imposta.2 7 Depois de um grande debate, Pedro tomou a palavra e ponderou-lhes: “Irmãos, vós sabeis que desde há muito, Deus me escolheu dentre vós para que, por meu intermédio, ouvissem os gentios a Palavra do Evangelho e cressem.3 8 E Deus, que conhece os corações, testemunhou em benefício deles, concedendo-lhes o Espírito Santo, da mesma forma como o deu a nós; 9 e não fez qualquer distinção entre os

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9 A organização das primeiras igrejas seguiu o modelo das antigas sinagogas, porém com a nova unção do Espírito Santo. Paulo e Barnabé, como apóstolos de Jesus, selecionaram, estabeleceram e capacitaram para o ministério (discipularam) aqueles que eram escolhidos pelo Espírito Santo para a obra de liderança espiritual dos crentes. Por isso, foram chamados “bispos”, “presbíteros” (literalmente: “supervisores” em 20.28), ou ainda, “guias espirituais” como aparece em Hb 13.17. Esses servos do Senhor e da Igreja lideravam congregações que se reuniam em casas. 10 Um princípio antigo do serviço missionário era prestar relatório à Igreja sobre o desenvolvimento e o cumprimento da missão proposta. Paulo e Barnabé ficaram com os irmãos por mais de um ano. Deus havia aberto a porta do seu Reino para que os gentios de todas as nações pudessem crer e serem salvos (11.18). Capítulo 15 1 Levantou-se um grupo de judeus-cristãos, entre os fariseus convertidos na igreja em Jerusalém (v.5), que insistia em convencer os gentios (não-judeus) a seguirem a Lei segundo os judaizantes (legalistas) ou “zelosos da lei de Moisés”, como eram conhecidos na época (21.20). Uma das principais demonstrações dessa obediência era a circuncisão, ritual jamais aprovado pelos apóstolos para os cristãos de qualquer etnia ou nacionalidade (Gl 2.11-16). 2 A passagem de 4 a 22 nos revela uma seqüência de reuniões para apresentação de relatórios e deliberações eclesiásticas: reunião de boas-vindas e exposição de relatórios (4,5); reunião do concílio da igreja, composto de apóstolos, presbíteros e demais membros responsáveis pelos ministérios da igreja (12,23); reunião geral dos líderes espirituais com toda a assembléia da igreja (12-22). 3 Pedro, que havia retrocedido doutrinariamente, deixando-se influenciar pelos judaizantes e, por isso, merecendo justa admoestação de Paulo (Gl 2.11-14), agora, em Jerusalém proclama sua mais profunda convicção e fé inabalável (10.28,29): Deus concede a todos os gentios que aceitam a Cristo, o seu Espírito Santo, como prova irrefutável de conversão ao Senhor (10.44,47; 11.17,18).

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gentios e nós outros, purificando o coração deles pela fé.4 10 Agora, pois, por que quereis tentar a Deus, colocando sobre as costas dos discípulos uma carga que nem nossos antepassados nem nós mesmos conseguimos suportar?5 11 De modo algum! Cremos que somos salvos pela graça do Senhor Jesus, exatamente do mesmo modo que os gentios também”. A palavra de sabedoria de Tiago 12 Então, toda a assembléia ficou em silêncio, enquanto ouvia Barnabé e Paulo relatando todos os sinais miraculosos e prodígios que, por meio deles, Deus realizara entre os gentios.6 13 Quando acabaram de compartilhar, Tiago pediu a palavra e arrazoou-lhes: “Irmãos, ouvi-me: 14 Simão narrou como primeiramente Deus foi ao encontro dos gentios para edificar dentre eles um povo consagrado ao seu Nome.7 15 E, com isso, estão de pleno acordo as palavras dos profetas como está escrito: 16 ‘Depois disso voltarei, e reconstruirei a

tenda de Davi, que está caída; reedificarei as suas ruínas, e tornarei a levantá-la; 17 para que o restante das pessoas busque ao Senhor, sim, todos os gentios, sobre os quais é invocado o meu Nome, 18 diz o Senhor que faz essas realizações desde os tempos antigos’.8 19 Portanto, julgo que não se deve constranger aqueles que dentre os gentios se convertem a Deus, 20 todavia, escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da imoralidade, da carne de animais sufocados e do sangue. 21 Porque desde os tempos antigos, Moisés é pregado em todas as cidades, bem como é lido nas sinagogas em todos os dias de sábado”.9 O Concílio chega a uma decisão 22 Então, os apóstolos e os presbíteros, com toda a Igreja, decidiram escolher alguns dentre eles e enviá-los para Antioquia com Paulo e Barnabé. Escolheram Judas, chamado Barsabás, e Silas, dois líderes entre os irmãos.10 23 E, por intermédio deles, mandaram a seguinte carta: “Os apóstolos e os irmãos

4 Com seu estilo peculiar, Pedro declara a verdadeira doutrina da justificação em Cristo por meio da fé (11), a qual é plenamente confirmada por Paulo e os demais apóstolos (Rm 5.1; Gl 2.15-20; 2Co 1.24; 2Co 5.7; Cl 2.6; Ef 3.17; 1Jo 5.14). 5 Uma tendência recorrente dos líderes espirituais judeus era atribuir pesadas responsabilidades religiosas aos seus seguidores em nome da Lei de Moisés (Rm 7; Gl 5.1 de acordo com Mt 11.28-30). Depois do sacrifício expiatório de Cristo, seria uma ofensa grave a Deus exigir rituais como a circuncisão e a submissão legalista às Leis e às diversas interpretações e aplicações pregadas pelos fariseus. Este tipo de atitude seria como impor rituais e obrigações não solicitadas por Deus, bem como desconfiar (o que é uma maneira de se faltar com a fé) do relacionamento espiritual e da direção do Senhor para com seus filhos (Rm 3.9,24; Ef 2.8). 6 A assembléia geral que havia continuado seus debates, enquanto aguardava o concílio dos apóstolos e presbíteros que se reunira em particular, agora estabelece profundo silêncio com respeito ao compartilhar de Barnabé e Paulo (Barnabé é citado aqui, antes de Paulo, devido à sua importância na igreja de Jerusalém na época; o NT passa a citar Paulo e Barnabé, especialmente depois dos dramáticos eventos ocorridos na ilha de Chipre – 13.7-42). 7 Tiago, o irmão de Jesus Cristo, refere-se a Pedro por seu nome hebraico (Simão ou Pedro). Os argumentos de Tiago enfatizam que a Igreja de Cristo, o Messias (o Nome), constituída de judeus e gentios de todo o mundo, agora é “povo de Deus”, privilégio atribuído anteriormente apenas a Israel e sua descendência. Os cristãos são plenos beneficiários da Nova Aliança (Hb 8.8-13 de acordo com Jo 10.16 e 1Pe 2.9,10). 8 Tiago cita especificamente o profeta Amós (Am 9.11,12). 9 Tiago observa que cristãos e judeus devem buscar uma convivência fraterna e solidária diante dos princípios da Palavra de Deus. Havia certas práticas que aos gentios não causavam escândalo, mas para os judeus eram profundamente inaceitáveis e abomináveis. O conselho do apóstolo era que os gentios observassem a intenção divina (espírito da Lei) contida nos mandamentos do AT (Gn 9.4; Lv 17.10-13; 18.6-18). Aqui vemos, uma vez mais, o amor e a preocupação dos apóstolos com a evangelização dos judeus (1Co 9.20). 10 A igreja reunida escolhe dois servos operosos para a missão que o Senhor lhes estava propondo. Judas, chamado Barsabás (que em hebraico significa: filho do sábado), irmão de José Barsabás (1.23). Silas era líder espiritual da Igreja em Jerusalém, profeta, cidadão romano, cujo nome em latim era Silvano (32; 16.37), e amanuense de Paulo e Pedro nas cartas em que seu nome é citado (1Ts 1.1; 2Ts 1.1; 2Co 1.19; 1Pe 5.12).

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33 Havendo, porém, dedicado algum tempo ali, foram despedidos pelos irmãos com a bênção da paz, a fim de que retornassem aos que os haviam enviado, 34 porém Silas, achou melhor ficar ali. 35 Paulo e Barnabé também permaneceram em Antioquia, onde, com muitos outros irmãos, pregavam e ensinavam a Palavra do Senhor.

presbíteros, aos irmãos dentre os gentios que estão em Antioquia, na Síria e na Cilícia, saudações. 24 Desde que soubemos que alguns saíram de entre nós, sem nossa permissão, e vos têm constrangido por meio de suas palavras, confundindo-vos a mente, 25 pareceu-nos bem, havendo chegado a um consenso, selecionar alguns homens e enviá-los com os nossos amados Barnabé e Paulo, 26 homens que têm colocado suas vidas em risco pelo Nome de nosso Senhor Jesus Cristo. 27 Portanto, estamos enviando Judas e Silas para confirmarem com suas palavras o que vos estamos escrevendo. 28 Porque pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destes preceitos necessários:11 29 Que vos abstenhais de alimentos sacrificados aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual. Fareis muito bem se vos guardardes desses procedimentos, pois desejamos que tudo de bom vos aconteça”. A decisão é recebida com alegria 30 E, tendo-se despedido, desceram à Antioquia, onde reuniram a Igreja e entregaram a carta. 31 Os irmãos a leram e muito se alegraram com sua encorajadora mensagem. 32 Judas e Silas, que eram profetas, exortaram e fortaleceram os irmãos com muitos ensinamentos.

Barnabé e Paulo se separam 36 Passados alguns dias, Paulo propôs a Barnabé: “Voltemos, agora, para visitar os irmãos por todas as cidades nas quais pregamos a Palavra do Senhor, a fim de observarmos como estão vivendo”. 37 E Barnabé queria que João, também chamado Marcos, os acompanhassem. 38 Paulo, entretanto, não conseguia ver razão para levar consigo aquele que desde a Panfília havia decidido se afastar deles e não os acompanhara até o fim da missão.12 39 Por esse motivo, tiveram um desentendimento tão exacerbado que decidiram se separar. Barnabé partiu, levando consigo Marcos e navegaram para Chipre. 40 Paulo, no entanto, preferiu a companhia de Silas, partiu entregue aos cuidados do Senhor pelos irmãos. 41 E, assim, passou pela Síria e Cilícia, encorajando as igrejas.13 Timóteo segue Paulo e Silas Paulo chegou também a Derbe e Listra. E vivia ali um discípulo cha-

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11 A autoridade absoluta nas decisões dos cristãos é outorgada ao Espírito Santo; entretanto, é importante notar que houve entre os crentes franca e fraterna exposição de idéias que culminaram em harmoniosa concordância e decisão final, com apoio dos apóstolos, presbíteros e demais irmãos em Cristo (22,23). 12 Marcos preferiu seguir sua visão pessoal naquele momento, separando-se de Paulo em Perge e não seguindo viagem até Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe (13.13). Depois dessa passagem, Barnabé (nascido na ilha de Chipre – 4.36) e Marcos não aparecem mais neste livro. Entretanto, em 1Co 9.6, o apóstolo Paulo faz questão de citar Barnabé como exemplo de um servo do Senhor que não viu obstáculo em ter que trabalhar secularmente para poder levar o Evangelho ao povo, embora tenha, juntamente com Pedro, sido fragilizado em sua doutrina cristã, em certa ocasião em Antioquia (Gl 2.11-13). Marcos e Barnabé cooperaram no ministério com Pedro (1Pe 5.13). Paulo jamais se esqueceu de Marcos e da sua sinceridade e zelo pelo Evangelho, tanto que, em sua primeira prisão, o apóstolo fez questão de inclui-lo em seu grupo apostólico (Cl 4.10; Fm 24), e perto da morte, Paulo registra sua profunda admiração por Marcos ao pedir que fosse passar com ele seus últimos dias (2Tm 4.11). 13 Depois de cumprir a missão de entregar a carta proveniente de Jerusalém, Silas e Judas Barsabás retornam a Antioquia para dar continuidade ao ministério junto àquela igreja local. Síria e Cilícia eram duas igrejas plantadas por causa da visão que o Espírito Santo concedera a Paulo e à igreja de Antioquia durante os dez anos que o apóstolo ministrou em Tarso. Estas igrejas também precisavam ser informadas sobre os importantes resultados do concílio (15.23; Gl 1.21).

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9 Durante a noite, Paulo teve uma visão; nela, um homem da Macedônia, em pé, rogava-lhe: “Passa à Macedônia e ajudanos!”. 10 Imediatamente, após ter recebido a visão, preparamo-nos para partir rumo a Macedônia, concluindo que Deus nos havia chamado para pregar o Evangelho aos macedônios.5

mado Timóteo, filho de uma judia cristã, sendo seu pai grego.1 2 Os irmãos de Listra e Icônio davam bom testemunho dele. 3 Então, Paulo se interessou em que ele o acompanhasse em sua missão; para tanto, o circuncidou por causa dos judeus que viviam naquela região. Pois era do conhecimento de todos que seu pai era grego.2 4 À medida em que passavam pelas cidades, transmitiam as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros em Jerusalém, a fim de que passassem a ser obedecidas. 5 Assim, as igrejas eram edificadas na fé e cresciam em número, dia após dia. Paulo é chamado à Macedônia 6 E, viajando por toda a região da Frígia e da Galácia, Paulo e seus companheiros de ministério foram impedidos pelo Espírito Santo de pregar a Palavra na província da Ásia.3 7 Quando avizinharam-se da região da Mísia, procuraram subir até Bitínia, mas também o Espírito de Jesus não lhes permitiu.4 8 Então, contornando a Mísia, desceram para Trôade.

A conversão de Lídia e sua casa 11 Navegando de Trôade, seguimos em linha reta até Samotrácia, e no dia seguinte para Neápolis. 12 De lá rumamos para Filipos, que é a cidade mais importante desse distrito da Macedônia e colônia romana. Nessa cidade ficamos vários dias. 13 No dia de sábado, saímos da cidade para a beira do rio, onde imaginávamos encontrar um bom lugar para orar. Assentamo-nos e começamos a conversar com algumas mulheres que ali também estavam reunidas.6 14 Uma das mulheres que nos ouviam era temente a Deus e chamava-se Lídia, vendedora de tecido de púrpura, da cidade de Tiatira. E aconteceu que o Senhor lhe abriu o coração para acolher a mensagem pregada por Paulo.7

1 Essa é a segunda viagem missionária de Paulo, ocorrida por volta do ano 50 d.C. Paulo prosseguiu por terra, em direção ao norte, atravessando os chamados “portões da Síria”, chegou a Cilícia e ao sul da Galácia. Considerando que Paulo se refere a Timóteo como a um jovem em 1Tm 4.12, este deve ser adolescente nessa ocasião. Tudo indica que sua mãe, Eunice, era uma mulher judia e cristã piedosa (2Tm 1.5), embora seu pai não fosse convertido nem ao judaísmo, nem ao cristianismo. 2 Paulo agiu com sabedoria ao circuncidar Timóteo. Com isso, facilitou sua obra entre os judeus. No caso de Tito (Gl 2.3), agiu novamente com sabedoria, evitando uma circuncisão que era exigida como pré-requisito para a salvação. 3 O Espírito Santo foi o orientador estratégico dos primeiros avanços missionários e, freqüentemente, comunicava-se com os discípulos através das mensagens transmitidas pelos profetas do Senhor. Bitínia não ficou sem evangelização; logo o Espírito Santo mandaria Pedro para lá (1Pe 1.1), conforme nos informa uma carta de Plínio (um dos pais da Igreja) escrita por volta do ano 110 d.C. Paulo retornou para Éfeso de onde irradiou o Evangelho para toda a Ásia, que já fora menor, mas que agora era importante província romana e incluía os distritos helenísticos da Mísia, Lídia, Caria e partes da Frígia (18.24 – 19.40). 4 A frase “Espírito de Jesus” raramente aparece nos originais gregos. Evidencia a relação do Espírito como agente de Cristo (Jo 16.13-14; 1Pe 1.11; 2Co 3.17), assim como “Espírito Santo” era uma expressão usada, em certas ocasiões, de modo intercambiável com “Deus” (5.3,4), aqui foi usada com “Jesus” por se tratar do “Espírito de Deus”. 5 A Macedônia passou a ser província romana em 148 a.C. A partir deste versículo o autor do texto (Lucas) muda a regência verbal da terceira para a primeira pessoa, indicando que havia se juntado à equipe missionária em Trôade. Lucas encerra sua inclusão na narrativa no verso 17 e a retoma em 20.5. 6 Havia menos de dez chefes (cabeças) de famílias judaicas em Filipos; o número mínimo de pessoas, requerido pelas leis dos judeus, para a fundação de uma sinagoga. Por isso, os judeus que ali habitavam procuravam realizar suas reuniões de oração à beira do rio Gangites. Era um costume rabínico orar e meditar ao ar livre, longe do alvoroço dos centros das cidades, próximo de águas correntes. 7 Lídia era uma mulher empreendedora. Seu nome significa, literalmente, “uma mulher de Lídia”, seu lugar de origem. Lídia era um distrito grego, onde se localizava a importante cidade de Tiatira (província romana da Ásia; que ficava a cerca de 30

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15 Depois de batizada, bem como os de sua casa, ela nos convidou, rogando: “Se julgais que eu sou crente no Senhor, entrai e permanecei em minha casa”. E assim, nos convenceu.

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Paulo liberta jovem do demônio 16 E aconteceu que, indo nós para o lugar de oração, nos saiu ao encontro uma jovem escrava que estava tomada por um espírito que a usava para prognosticar eventos futuros. Dessa forma, ela arrecadava muito dinheiro para seus senhores, por meio de advinhações.8 17 Seguindo a Paulo e a nós, vinha essa moça gritando diante de todos: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos anunciam o caminho da salvação!”. 18 E ela insistiu em agir assim por vários dias. Finalmente, Paulo irritou-se com aquela atitude e dirigindo-se ao espírito o repreendeu, exclamando: “Ordeno a ti em Nome de Jesus Cristo, retira-te dela!”. E ele, naquele mesmo instante, saiu.9 Romanos prendem Paulo e Silas 19 Percebendo que a sua esperança de lucro havia se esgotado, os proprietários da escrava agarraram Paulo e Silas e os arrastaram para a praça principal, diante das autoridades. 20 E, apresentando-os aos magistrados locais, os acusaram afirmando: “Estes homens, sendo judeus, perturbam a nossa cidade, 21 pregando costumes que a nós, ro-

manos, não é lícito acatar e tampouco praticar!”.10 22 Então, uma multidão unânime os atacou, e os magistrados, rasgando-lhes as roupas, ordenaram que fossem açoitados com varas. 23 Depois de tê-los espancado muito, os jogaram na prisão, recomendando ao carcereiro que os vigiasse com toda atenção. 24 Havendo recebido tais ordens expressas, ele os lançou no cárcere interior e lhes prendeu os pés no tronco. A conversão do carcereiro 25 Por volta da meia-noite, Paulo e Silas estavam orando e entoando hinos de louvor a Deus, enquanto os demais presos os ouviam. 26 De repente, aconteceu um terremoto tão violento que os alicerces da prisão foram abalados. No mesmo momento, todas as portas se abriram, e as correntes que prendiam a todos se soltaram. 27 O carcereiro despertou do sono e, vendo abertas as portas do cárcere, desembainhou sua espada a fim de se matar, pois concluíra que os presos todos houvessem escapado.11 28 No entanto, Paulo gritou: “Não te faças isso! Eis que estamos todos aqui!”, 29 Então, o carcereiro pediu luz, correu para dentro e, trêmulo, atirou-se aos pés de Paulo e Silas. 30 Em seguida, conduzindo-os para fora, rogou-lhes: “Senhores, o que preciso fazer para ser salvo?”. 31 Eles, prontamente lhe afirmaram: “Crê

km de Pérgamo), famosa por suas oficinas de tecelagem e tintura (Ap 1.11; 2.18), especialmente pela anilina púrpura real que produziam (carmesim). Lídia ouviu a mensagem de Paulo e abriu seu coração para Jesus (o Evangelho). No NT, a decisão de fé não é independente da operação precedente do Espírito Santo, que prepara o coração das pessoas para acolherem as Boas Novas da salvação (Lc 24.45). 8 Para os gregos, uma pessoa que tinha a capacidade de antever ou adivinhar o futuro era alguém possuído pelo deus Píton, uma serpente mítica adorada pelos habitantes de Delfos e associada ao oráculo délfico. No entanto, Paulo simplesmente o tratou como um espírito demoníaco e o expulsou. A expressão “pitonisa” significa: “sacerdotisa do deus Apolo”, ou apenas: “necromante”. Uma característica dessas pessoas era falar sem mover os lábios normalmente, como se a voz lhes saísse do estômago, por isso, eram também chamados de “ventríloquos”. 9 O Nome de Jesus é autoridade universal e suficiente sobre todos os espíritos malignos (Lc 8.28; Mt 28.18). 10 Qualquer culto ou prática religiosa tinha que receber permissão formal de Roma. Mesmo assim, nenhuma religião tinha autorização para fazer prosélitos entre os romanos. O judaísmo tinha reconhecimento legal, mas o cristianismo (ainda) não. 11 Pelas leis romanas, se um preso fugisse – fosse qual fosse o motivo – a vida do guarda responsável era sumariamente exigida no lugar (12.19). Tirar a própria vida era o meio de evitar o horror dos castigos e a humilhação.

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38 E os soldados levaram essa reivindicação aos magistrados, os quais, ao saber que Paulo e Silas eram romanos, ficaram apavorados. 39 Então, foram ter com eles e lhes suplicaram desculpas e, conduzindo-os para fora da prisão, rogaram que se retirassem da cidade. 40 Assim que deixaram a prisão, foram à casa de Lídia, onde se encontraram com os irmãos e os encorajaram. Depois, seguiram viagem.

no Senhor Jesus, e assim serás salvo, tu e os de tua casa!”.12 32 E lhe ministraram a Palavra de Deus, bem como a todos de sua casa. 33 Naquela mesma hora da noite, tomando-os consigo, lavou-lhes os ferimentos; e logo foi batizado, ele e todas as pessoas de sua casa.13 34 Então, insistiu para que subissem à sua casa, onde lhes preparou mesa farta; e, com todos os seus, expressava grande júbilo, por haverem crido em Deus. Paulo exige justiça ao cidadão 35 Logo que amanheceu, os magistrados mandaram oficiais de justiça ao carcereiro com a seguinte ordem: “Põe aqueles homens em liberdade”. 36 Então, o carcereiro informou a Paulo: “Os magistrados despacharam ordens para que sejais soltos”. 37 No entanto, Paulo lhe afirmou: “Sendo nós cidadãos romanos, açoitaram-nos diante do povo sem processo condenatório formal e nos atiraram ao cárcere. Agora, porém, querem que saiamos sem que ninguém nos veja? De modo algum! Que eles venham, e pessoalmente nos proclame livres de condenação”.14

Paulo anuncia Jesus, o Messias E, tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga judaica.1 2 Como fazia habitualmente, Paulo foi à sinagoga e por três sábados argumentou com aquele grupo de pessoas com base nas Escrituras,2 3 explicando e comprovando que se fez necessário que o Cristo padecesse e ressuscitasse dentre os mortos. E proclamava: “Este Jesus que vos anuncio é o Messias!”. 4 Assim, alguns dos judeus foram convencidos e se uniram a Paulo e Silas, bem como uma multidão de gregos obedien-

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12 No NT, a única forma de uma pessoa ser salva é crendo no Senhor (4.12; 10.43; 13.39). A própria palavra “salvação” em hebraico é: yeshü‘â (de onde deriva o nome Jesus – Lc 19.9). Há uma bênção (oportunidade) reservada para todas as pessoas que convivem com um verdadeiro crente. A avó e a mãe de Timóteo se tornaram testemunhos vivos de Cristo para Timóteo (2Tm 1.5) que, por intermédio delas, conheceu as Escrituras (2Tm 3.15). Lídia foi influenciada pela oração e companhia santa e tornouse crente fiel ao Senhor (14,15). O carcereiro, presenciando a manifestação poderosa do Espírito Santo nas pessoas de Paulo e Silas, rendeu-se ao Senhor e testemunhou a alegria da salvação (33,34). Não há base bíblica para sustentar a idéia de que crianças possam ser salvas por meio da fé de seus pais. É certo, contudo, que todas as crianças pertencem ao Senhor e estão sob seus cuidados paternos (Mc 10.14-16). 13 As pessoas da casa do carcereiro (seus parentes, amigos e empregados) não foram salvas simplesmente por causa da fé do carcereiro. Após ouvirem atentamente as explicações de Paulo e Silas sobre o Evangelho, manifestaram plena aceitação, pela fé íntima e individual que cada pessoa da casa depositou em Jesus. Por isso, foram batizadas e estavam cheias do Espírito Santo. E expressavam um tipo especial de satisfação e contentamento: a alegria espiritual, que encoraja e faz o crente superar todas as dificuldades da vida com esperança certa (confiança) no Senhor. 14 Paulo sabiamente exige uma retratação pública dos magistrados. Com essa atitude conquistava o direito (especialmente romano) para o reconhecimento da cidadania dos cristãos. De agora em diante, todos teriam mais cuidado no trato e no respeito para com os crentes de Filipos. Essa notícia se espalharia por todo império de Roma (embora as perseguições jamais deixassem de oprimir a verdadeira Igreja do Senhor). Capítulo 17 1 Ainda hoje é possível observar vestígios do que foi a grande via Egnácia, estrada que atravessava toda a região da atual Grécia do norte (de leste a oeste), passando por Filipos e Apolônia. Viajando cerca de 48 km por dia, uma pessoa podia chegar a cada uma das cidades em um dia. Tessalônica distava cerca de 160 km de Filipos e era a capital da província da Macedônia, com mais de 200 mil habitantes, incluindo uma colônia de judeus. Paulo tinha o costume de fazer suas viagens em comitiva (grupo de companheiros de missão) e seguiam a cavalo. 2 Embora algumas versões informem que Paulo passou “três semanas” em Tessalônica, a melhor tradução dos originais é: “três sábados”. As indicações em 1Ts 2.1-9 evidenciam que Paulo dedicou vários meses do seu ministério nessa cidade.

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tes a Deus e diversas senhoras da alta sociedade local.3 5 Porém, os líderes judeus sentiram forte inveja e reuniram alguns homens perversos dentre os desocupados e, agitando a população, iniciaram um tumulto na cidade. Invadiram a casa de Jasom, em busca de Paulo e Silas, com o objetivo de arrastá-los para o centro do ajuntamento da multidão.4 6 Todavia, não os encontrando, agarraram Jasom e alguns outros irmãos e os entregaram aos governantes da cidade, exclamando: “Estes que têm causado alvoroço em todo o mundo, agora chegaram também aqui.5 7 E Jasom os hospedou em sua casa. Todos eles estão agindo contra os decretos de César, proclamando que existe um outro rei, chamado Jesus!”. 8 Ao ouvir tal denúncia, toda a multidão e os governantes da cidade ficaram apreensivos. 9 Apesar disso, libertaram Jasom e os demais irmãos, após o pagamento da fiança estipulada.6 Os bereanos estudavam a Palavra 10 Então, logo ao cair da noite, os irmãos enviaram Paulo e Silas para Beréia. Chegando ali, dirigiram-se à sinagoga local. 11 Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, porquanto, receberam a mensagem com vívido interesse, e dedicaram-se ao estudo diário das Escri-

turas, com o propósito de avaliar se tudo correspondia à verdade. 12 Dessa forma, muitos dentre os judeus creram, bem como um grande número de mulheres gregas da alta sociedade, e não poucos homens gregos. 13 No entanto, quando os líderes judeus de Tessalônica tomaram conhecimento que Paulo estava ensinando a Palavra de Deus em Beréia, rumaram imediatamente para lá, agitando e instigando a população. 14 Rapidamente, os irmãos enviaram Paulo para o litoral, mas Silas e Timóteo permaneceram em Beréia. 15 Os irmãos que acompanhavam Paulo o conduziram até Atenas, partindo depois com orientações para que Silas e Timóteo se reunissem com ele, assim que fosse possível. Paulo prega Jesus em Atenas 16 Enquanto Paulo esperava por seus companheiros em Atenas, ficou profundamente indignado ao perceber que a cidade tinha ídolos por toda parte. 17 E sobre esse tema dissertava na sinagoga entre os judeus e os gentios obedientes a Deus, bem como na praça principal, diariamente, a todos aqueles que ali estivessem. 18 Então, alguns filósofos epicureus e estóicos começaram a argumentar com ele. Alguns indagavam: “O que deseja comunicar esse tagarela?”. Outros comentavam: “Parece ser um anunciador

3 Alguns judeus seguiram a Paulo como mestre (rabino), convencidos de que Jesus era realmente o Messias prometido. Um desses judeus foi Aristarco (20.4; Cl 4.10) que tornou-se amigo e discípulo de Paulo. A expressão: “gregos piedosos” ou “homens piedosos”, como aparece em algumas versões, pode ser melhor traduzida por: “gregos obedientes a Deus”, considerando que eram gentios (pagãos) convertidos ao judaísmo (prosélitos). Entretanto, 1Ts 1.9-10 indica que a maioria das conversões a Cristo ocorreu dentre os pagãos. Tessalônica foi a primeira cidade onde o Evangelho foi aceito por pessoas de alta classe social. 4 A expressão grega original: agoriõn, traduzida por algumas versões como “malandragem”, pode ser melhor traduzida por “homens perversos e desocupados”. Jasom tinha ligações de parentesco com Paulo e o hospedou em sua casa (Rm 16.21). 5 O termo grego politarches, é uma expressão rara e desconhecido do vocabulário grego até as grandes descobertas arqueológicas do século 19 (um bloco de pedra maciça, onde essa inscrição pode ser observada, e que fazia parte de um arco que passava por sobre a via Egnácia, hoje encontra-se sob a guarda do Museu Britânico, em Londres). Esses achados serviram também para confirmar a originalidade e a fidelidade histórica dos escritos de Lucas. Apesar de algumas versões traduzirem esse vocábulo por: “autoridades”, a tradução mais esclarecedora e coerente com as responsabilidades daqueles oficiais é: “governantes da cidade”. 6 A “fiança” era uma garantia de bens e, em algumas circunstâncias, da própria vida, de que uma determinada pessoa, sob responsabilidade do “fiador”, cumpriria as leis e não causaria qualquer distúrbio aos cidadãos locais. Nesses casos, por precaução, era comum pedir ao “afiançado” para deixar a cidade e não mais regressar (Mc 15.15; 1Ts 2.18; 1Ts 2.13,13; 3.3).

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de deuses estranhos”, pois Paulo lhes pregava as Boas Novas de Jesus e a ressurreição.7 19 Por essa razão, o levaram a uma reunião no Areópago, onde lhe questionaram: “Podes revelar-nos que nova doutrina é essa sobre a qual dissertas? 20 Pois estás nos apresentando pensamentos estranhos, e desejamos compreender o significado de tais idéias”.8 21 Porquanto os cidadãos de Atenas, assim como todos os estrangeiros que ali viviam não se preocupavam com outro assunto senão falar e procurar saber as últimas novidades. 22 Sendo assim, Paulo levantou-se no meio da reunião do Areópago e discursou: “Caros atenienses! Percebo que sob todos os aspectos sois muitíssimo religiosos, 23 pois, caminhando pela cidade, observei

cautelosamente seus objetos de adoração e encontrei até um altar com a seguinte inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, pois é exatamente este a quem cultuais em vossa ignorância, que eu passo a vos apresentar.9 24 O Deus que criou o Universo e tudo o que nele existe é o Senhor dos céus e da terra, e não habita em santuários produzidos por mãos humanas. 25 Ele também não é servido pelas mãos dos homens, como se precisasse de algo, porquanto Ele mesmo concede a todos a vida, o fôlego e supre todas as nossas demais necessidades. 26 De um só homem fez Deus todas as raças humanas, a fim de que povoassem a terra, havendo determinado previamente as épocas e os lugares exatos onde deveriam habitar.10 27 Deus assim procedeu para que a hu-

7 Os epicureus eram filósofos e seguidores de Epicuro (341 – 270 a.C.), famoso pensador grego, criador da tese sobre a “ética do prazer”. Um sistema de valores que, originalmente, indicavam o caminho para uma vida de paz e satisfação por meio da busca do bem e da extirpação de certos sentimentos, considerados menores e momentâneos: paixões, dores, invejas, iras, temores. Na época de Paulo, entretanto, os ensinos de Epicuro haviam sido adulterados e seus adeptos pregavam que o “prazer”, em todas as suas possibilidades, determinava o sentido da vida. Os estóicos, por sua vez, eram discípulos de Zeno (340 – 265 a.C.), outro importante pensador grego, criador da filosofia da “vida natural”, em que a vida deve conformar-se à lógica (razão – logos) da natureza. Eram, portanto, panteístas (doutrina segundo a qual Deus é a soma de tudo o que existe na natureza). Ao se referirem a Paulo como “tagarela”, usaram uma expressão que no original grego se refere literalmente a atitude rápida e voraz com que “uma ave bica sementes”. Era comum usar essa metáfora para comparar pessoas que apenas repetiam partes dos discursos filosóficos que normalmente ocorriam nas praças com a atitude do “papagaio”, uma ave que apenas consegue repetir palavras sem refletir sobre seus significados. Ao sugerirem que Paulo estava tentando apresentar novos “deuses”, entenderam que “Jesus” e “Ressurreição” (em grego: anaistasis, palavra do gênero feminino) seriam um casal de “deuses”. 8 Em tempos passados, Atenas foi governada por juízes (sábios filósofos) que costumavam se reunir em praça pública para julgar as causas dos cidadãos, legislar e discutir política (cujo sentido original é: a arte de governar a serviço do povo a cidade e o Estado). Essas reuniões eram chamadas de concílios e ocorriam no alto da colina de Ares (deus do trovão e da guerra na mitologia grega por ter sido o primeiro deus a ser julgado num tribunal). A esse local, os gregos chamavam de Areópago, e os romanos de monte de Marte. Entretanto, nos tempos de Paulo, o Concílio do Areópago tinha autoridade apenas nas questões morais e religiosas, e se reunia no Pórtico Real que ficava imediatamente a oeste da acrópole (santuário grego) e no canto noroeste da Ágora (praça principal da cidade). 9 Alguns historiadores antigos escreveram que era possível encontrar em Atenas, nessa época, mais esculturas em louvor a deuses mitológicos do que em toda a Grécia. Pausânio estimava que houvesse mais de 30.000 dessas imagens espalhadas pela cidade. Petrônio afirmou, ironicamente, que em Atenas era mais fácil encontrar-se com um deus do que com outro ser humano. Os atenienses criam num ser divino poderoso, temperamental, mas, impessoal. Paulo não afirma que o “DEUS DESCONHECIDO” é essa divindade. Ao contrário, Paulo usa com sabedoria e gentileza uma expressão grega que significa literalmente: “em ignorância”, para comunicar que Jesus era o Deus a quem os atenienses tinham o mais profundo desejo de adorar, mas ainda não o conheciam e, por isso, precisavam prestar atenção às suas palavras. 10 Paulo responde às principais correntes de pensamento da época. Aos estóicos panteístas, ele afirma que Deus é pessoal, e foi a pessoa de Deus quem criou o Universo (“cosmo”, no original grego). Depois declara aos epicureus que a partir de uma única e primeira família (“Adão”, palavra que significa “homem” em hebraico, assim como “Eva” quer dizer “humanidade, mulher”), Deus criou todas as famílias da terra (atenienses, gregos, bárbaros, judeus, gentios). Os atenienses criam que a humanidade havia brotado da terra (não estavam longe da verdade, mas, ainda assim, perdidos). Deus não apenas foi responsável pelo “bigbang” da criação, mas deu atenção aos detalhes, planejou o tempo exato em que as nações teriam seus momentos de glória e queda. Determinou áreas geográficas precisas, onde cada povo deveria viver e multiplicar-se. A terra e a humanidade não ficaram ao acaso, como pregavam os epicureus.

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manidade o buscasse e provavelmente, como que tateando, o pudesse encontrar, ainda que, de fato, não esteja distante de cada um de nós:11 28 ‘Pois nele vivemos, nos movimentamos e existimos’, como declararam alguns de vossos poetas: ‘Porquanto dele também somos descendentes’. 29 Portanto, considerando que somos geração de Deus, não devemos acreditar que a Divindade possa ser semelhante a uma imagem de ouro, prata ou pedra, esculpida pela arte e idealização humana. 30 Em épocas passadas, Deus não levou em conta essa falta de sabedoria, mas agora ordena que todas as pessoas, em todos os lugares, cheguem ao arrependimento. 31 Porque determinou um dia em que julgará o mundo com o rigor de sua justiça, por meio do homem que para isso estabeleceu. E, quanto a isso, Ele deu provas a todos, ao ressuscitá-lo dentre os mortos!”.12 Uns debocham, outros crêem 32 Entretanto, alguns deles, assim que

ouviram falar sobre a ressurreição dos mortos, começaram a dizer zombarias, e outros, ainda, exclamavam: “Sobre esse assunto te daremos ouvidos numa outra oportunidade”. 33 Depois dessas palavras, Paulo se retirou do meio deles. 34 Aconteceu, porém, que alguns homens se juntaram a Paulo e creram. Entre eles estava Dionísio, membro do conselho do Areópago, e uma mulher chamada Dâmaris, e com eles algumas outras pessoas.13 Paulo faz tendas e prega Jesus Logo depois desses acontecimentos, Paulo deixou Atenas e rumou para Corinto.1 2 Chegando ali, encontrou um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, que tinha acabado de chegar da Itália juntamente com sua esposa Priscila, pois Cláudio havia baixado um decreto intimando que todos os judeus se retirassem de Roma. Paulo, então, foi visitá-los.2 3 E, percebendo que tinham a mesma profissão, Paulo passou a morar e tra-

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11 O Espírito Santo usa a erudição de Paulo que passa a citar alguns grandes intelectuais (poetas) gregos. Epimênides, que viveu por volta do ano 600 a.C. falou sobre o poder de Deus em sua obra Cretica: “nele vivemos, nos movemos e existimos”. O poeta Arato (315 – 240 a.C.), que afirmou em Fenômenos: “somos descendentes de Deus”. E, no hino de Cleanto (331 – 233 a.C.) em homenagem a Zeus (“Deus”, em grego): “somos todos da sua descendência”. Paulo, em outras oportunidades, voltaria a mencionar pensadores gregos (1Co 15.33; Tt 1.12). 12 Paulo faz questão de afirmar que Jesus é o Filho do Homem, título messiânico com o qual o próprio Senhor gostava de se apresentar (Dn 7.13; Mt 25.31-46; At 10.42). 13 Essa e outras experiências semelhantes vividas por Paulo, os demais discípulos, e pelo próprio Senhor Jesus, nos devem servir de consolo e motivação. Pregar o Evangelho – desde os primeiros anos da Igreja – tem sido motivo de zombaria e escândalo para muitos. Entretanto, há sempre alguém ou alguns, que recebem o milagre da conversão em seus corações, são selados com o Espírito Santo e promovidos a cidadãos do Reino para todo o sempre. Os gregos acreditavam na imortalidade da alma, mas – como muitos ainda hoje – não conseguiam crer na ressurreição de um corpo humano (novamente, tão próximos da verdade e tão perdidos). Segundo alguns respeitáveis historiadores, Dionísio veio a ser constituído bispo de Atenas. Dâmaris, cuja cultura era respeitada pelo próprio Tribunal do Areópago, se tornou discípula operosa de Cristo e muito colaborou para o desenvolvimento da Igreja e a propagação do Evangelho. Capítulo 18 1 Corinto era capital da província de Acaia, centro comercial e de transporte marítimo. Grande cidade cosmopolita, onde imperavam os valores monetários e econômicos, muito semelhante às grandes cidades dos nossos dias quanto aos baixos critérios morais. 2 Ponto era o nome da região que ficava a nordeste da Ásia Menor. Uma das províncias de Roma, ao lado do mar Negro, entre a Bitínia e a Armênia. O casal Áquila e Priscila (diminutivo de Prisca) eram crentes e trabalhavam com artesanato em couro e confecção de cabanas (tendas). De acordo com os registros de Suetônio, o imperador romano Cláudio (41 –54 a.C.) mandou expulsar todos os judeus de Roma, pois estavam “transtornando a cidade por causa de Cristo”. Um erro ortográfico cometido no nome do Senhor (Cresto), dificultou durante algum tempo a interpretação desses documentos históricos. Áquila e Priscila possivelmente haviam entregado suas vidas a Jesus em Roma, faziam parte daqueles que estavam “tumultuando a cidade com a pregação do Evangelho” e também tinham sido enquadrados pelo decreto de Cláudio.

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balhar com eles, pois eram fabricantes de tendas.3 4 Assim, todos os sábados ele argumentava na sinagoga, e convencia tanto a judeus quanto a gregos. Paulo dá tempo integral ao ensino 5 Depois que Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo começou a consagrar todo o seu tempo ao ensino da Palavra, explicando aos judeus que Jesus é o Messias.4 6 Contudo, como estes se opuseram e proferiram insultos graves, Paulo sacudiu a roupa e os sentenciou: “Caia sobre as vossas próprias cabeças toda a responsabilidade de vossas faltas”. Eu estou inocente quanto ao meu dever, e de agora em diante vou dedicar-me aos gentios. 7 Então, saindo da sinagoga, Paulo dirigiu-se à casa de Tício Justo, homem que obedecia a Deus e que morava ao lado da sinagoga.5 8 Crispo, administrador da sinagoga, creu no Senhor, ele e toda a sua casa; e

da multidão dos coríntios que o ouviam, muitos criam e eram batizados.6 9 Numa certa noite, o Senhor falou com Paulo por meio de uma visão, dizendo: “Não tenhas medo! Continua pregando e não te cales.7 10 Pois Eu estou contigo, e nenhuma pessoa ousará fazer-te mal ou ferir-te, porquanto tenho muita gente nesta cidade”. 11 Assim, Paulo permaneceu ali durante um ano e seis meses, ensinando a Palavra de Deus ao povo. Gálio não vê crime em Paulo 12 Quando, porém, Gálio era procônsul da Acaia, os judeus se levantaram unânimes contra Paulo, e o conduziram ao tribunal,8 13 protestando: “Este persuade os homens a adorar a Deus de uma forma contrária à lei!”9 14 No momento em que Paulo daria início à sua defesa, Gálio os admoestou: “Se, em realidade, houvesse, ó judeus, alguma afronta grave ou crime, certamente e com razão eu os ouviria.

3 Paulo adotou a postura ética de algumas escolas rabínicas que preferiam não lucrar financeiramente por conta do ensino das Escrituras e dos aconselhamentos bíblicos. Além disso, Paulo havia sido treinado em técnicas de artesanato, especialmente em couro e tecido (um ramo muito lucrativo na época). Era comum os pais judeus, mesmo que não fossem pobres, oferecerem algum treinamento técnico artesanal aos seus filhos, ainda que os mesmos desejassem seguir o rabinado. Esse é um ótimo exemplo a ser observado em nossos dias. 4 É provável que as ofertas enviadas por crentes macedônios aliviaram a necessidade de Paulo se ocupar várias horas na confecção de artesanatos e tendas e pudesse dedicar-se à realização do seu chamado e ideal: pregar o Evangelho ao maior número de pessoas em todo o mundo (2Co 11.7-8). 5 Esse Tício (nome romano comum) não é o Tito de 2Co 2.13; 7.13-14 e 8.16-23. No original, o primeiro é “Titius”, e o segundo é “Titus”. É possível, sim, que Tício Justo seja o Gaio de Rm 16.23. A expressão: “homem que obedecia a Deus” ou “temente a Deus” refere-se sempre a “gentios incircuncisos” que freqüentavam a sinagoga e procuravam seguir todo o rigor da Lei (assim como foram Tício Justo e o próprio Tito). 6 Crispo foi um dos poucos crentes que Paulo pessoalmente batizou (1Co 1.14). É importante observar que o tempo dos verbos no original grego denota que a “conversão” é um processo que se dá dia após dia na vida do cristão sincero. A regeneração (o momento em que o crente arrependido se entrega de corpo e alma aos cuidados de Jesus), sim, é um ato instantâneo de Deus, mas a conversão (santificação ou separação para adoração e serviço ao Senhor) é um trabalho que o Espírito Santo realiza na vida de cada crente, individualmente e de maneira particular, durante toda a sua vida na terra, até a fase final da Salvação que é a glorificação do crente nos céus com Cristo. 7 Paulo já havia passado pela experiência de se encontrar com o Senhor ressurreto (9.4-6; 1Co 15.8) quando de sua conversão, e também viu Jesus no Templo de Jerusalém, em meio a um êxtase espiritual (22.17-18). O Senhor mostrou seu cuidado especial para com Paulo por meio das várias vezes que apareceu para preveni-lo quanto a momentos de grandes crises. Aqui e em 23.11, porém, Jesus aparece para encorajá-lo. 8 Gálio foi o irmão mais velho de Sênega, grande filósofo, estadista romano e mentor de Nero. Descobertas arqueológicas em Delfos confirmam o mandato de Gálio, no ano 51 d.C., como procônsul da Acaia. Esse fato contribui para a datação da segunda viagem missionária de Paulo a Corinto, no inverno de 50 d.C., e a autoria das epístolas aos tessalonicenses. 9 Os líderes judeus estavam acusando Paulo de renunciar ao judaísmo – religião considerada “dentro da lei” pelos romanos – e de criar uma seita herética, e, portanto, “ilícita”. A expressão “contrária à lei” é ambígüa, podendo se referir tanto à Lei de Moisés quanto à lei de Roma. Contudo, Gálio, considerado por todos como homem público de excepcional cultura, justiça e ponderação, notou a sutileza e os verdadeiros interesses da acusação e julgou que as questões de natureza teológica entre os judeus não diziam respeito a Roma.

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15 Entretanto, visto que se trata de uma questão de palavras e nomes de sua própria lei, ora resolvei isso vós mesmos; pois não quero me dispor a ser juiz desses assuntos!” 16 E ordenou que fossem expulsos do tribunal. 17 Então, todos se voltaram contra Sóstenes, administrador da sinagoga e o espancaram em frente ao tribunal. Contudo, Gálio não expressou qualquer perturbação diante desse episódio.10

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“Se Deus quiser, voltarei para vós outros”. E, embarcando, partiu de Éfeso. 22 Assim que chegou a Cesaréia, subiu até a Igreja para saudá-la e depois desceu para Antioquia.13 23 Havendo passado algum tempo em Antioquia, Paulo partiu dali e viajou por toda a região da Galácia e da Frígia, encorajando todos os discípulos. Paulo em sua terceira missão 24 Enquanto isso, chegou a Éfeso um judeu, natural de Alexandria, chamado Apolo, homem eloqüente e que acumulava grande experiência nas Escrituras.14 25 Fora instruído no Caminho do Senhor e com notável fervor pregava e ensinava com exatidão a respeito de Jesus, ainda que tivesse apenas o conhecimento do batismo de João. 26 Apolo, portanto, começou a pregar com ousadia na sinagoga. E assim que Priscila e Áquila o ouviram, convidaram-no para uma visita à casa deles e lhe explicaram com acerto e clareza o Caminho de Deus.15 27 Então, desejando ele viajar para a Acaia, os irmãos o animaram e escreveram aos

Paulo conclui sua segunda missão 18 Paulo ficou em Corinto por vários dias; por fim, despedindo-se dos irmãos, navegou para Síria, levando em sua companhia Priscila e Áquila. Porém, antes de embarcar, raspou a cabeça em Cencréia, por causa de um voto que havia feito.11 19 Chegaram então a Éfeso, onde Paulo deixou Priscila e Áquila. Ele, no entanto, depois de entrar na sinagoga local, começou a pregar para os judeus.12 20 Estes rogaram que permanecesse por mais algum tempo, todavia, ele não aquiesceu. 21 Mas, ao despedir-se deles, ponderou:

10 Os motivos que levaram aquelas pessoas a agredirem Sóstenes são obscuros. Entretanto, há forte indicação que esse foi o segundo administrador (chefe) de sinagoga em Corinto a converter-se ao cristianismo em resposta aos apelos de Paulo (1Co 1.1). Gálio, por se tratar de assunto religioso dos judeus, manteve sua decisão de não envolvimento. 11 Diferentemente do costume da época, Priscila é citada em primeiro lugar devido a sua personalidade e atuação de destaque. Áquila e sua esposa Priscila serviram ao Senhor como discípulos evangelizadores, e muito cooperaram com Paulo (Rm 16.3; 2Tm 4.19). Paulo havia feito um voto nazireu e temporário (Nm 6.1-21). Um voto habitualmente firmado por judeus devotos, pelo menos durante 30 dias, como ação de graças pelo livramento de perigos graves. Cortar todo o cabelo bem rente ao couro cabeludo marcava o final do período do voto. Cencréia era o porto oriental de Corinto, onde se estabeleceu uma igreja local (Rm 16.1). 12 Éfeso era o maior centro comercial, político e religioso na Ásia Menor, capital da Ásia provincial e administradora do grandioso templo da deusa romana Diana (Ártemis, em grego). Paulo deixou, estrategicamente, o casal de amigos e companheiros de ministério, em Éfeso, e rumou para uma viagem de vários meses até Jerusalém. Áquila e Priscila realizaram um grande trabalho de evangelização e permaneceram na cidade até o ano 55 d.C. Depois partiram para Roma, e organizaram uma igreja na própria casa onde moravam, e novamente se encontraram com Paulo no início do ano 57 d.C., quando o apóstolo escreveu sua epístola aos Romanos (Rm 16.3,5). 13 Certamente, Paulo dirigiu-se rapidamente, à igreja de Jerusalém e lá não permaneceu por muito tempo. A igreja ficava no alto da cidade, cerca de 760 metros acima do nível do mar, por isso era costume dizer “subir à igreja”. 14 Alexandria (no Egito) era, depois da própria Roma, a mais importante cidade do Império Romano. Um grande centro urbano, rico e culturalmente poderoso, abrigava numerosa população de judeus, sendo que a maioria já havia incorporado a filosofia grega ao seu modo de pensar, e estava fazendo uma leitura totalmente alegorizada do AT. 15 Apolo era um fervoroso pregador alexandrino, mas, como quase toda a população, envolvido pelo forte pensamento helenístico que dominava aquela região e chegou a influenciar os próprios dominadores romanos. Apolo era como certas pessoas que fazem muito com o pouco que recebem. Ele tinha apenas alguns conhecimentos básicos sobre a pessoa e a obra de Jesus, mas pregava com autoridade e poder do Espírito Santo. Todavia, ainda aguardava a chegada do Messias e seu batismo baseava-se somente no arrependimento e mudança radical de comportamento, não na fé sobre a obra redentora – completa, consumada e definitiva – do Senhor Jesus, o Messias. Por isso, Áquila e Priscila o convidaram para um estudo bíblico mais detalhado em casa e puderam lhe esclarecer melhor.

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5 E, compreendendo isso, eles foram batizados no Nome do Senhor Jesus.3 6 Quando Paulo lhes impôs as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo e começaram a falar em línguas e a profetizar. 7 Eram ao todo cerca de doze homens.4

discípulos solicitando que o recebessem. Quando chegou, ele auxiliou muito aos que pela graça haviam crido, 28 porquanto refutava veementemente os judeus em debates públicos, provando, por meio das Escrituras, que o Messias é Jesus.16 Paulo prega o batismo em Cristo E aconteceu que, enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo atravessou as regiões altas, e chegando a Éfeso, encontrou ali alguns discípulos1 2 e lhes indagou: “Recebestes o Espírito Santo na época em que crestes?” Ao que eles replicaram: “De forma alguma, nem sequer soubemos que existe o Espírito Santo!”. 3 Diante disso, Paulo questionou: “Ora, em que tipo de batismo fostes batizados, então?” E eles declararam: “No batismo de João”.2 4 Então Paulo lhes explicou: “O batismo realizado por João foi um batismo de arrependimento. Ele ordenava ao povo que cresse naquele que viria depois dele, ou seja, em Jesus!”

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Paulo ensina e faz maravilhas 8 Assim, durante três meses, Paulo freqüentou a sinagoga, onde pregava com ousadia e poder, dissertando com eloqüência e convencendo a muitos sobre o Reino de Deus.5 9 Todavia, alguns deles demonstraram que seus corações estavam petrificados e descrentes, e passaram a falar mal do Caminho para toda a comunidade. Paulo, então, afastou-se deles, e tomando consigo os discípulos, começou a ensinar diariamente na escola de Tirano.6 10 E assim procedeu por dois anos, de forma que todos os habitantes da Ásia pudessem ouvir a Palavra do Senhor, tanto judeus como gregos.7 11 Deus fazia milagres maravilhosos por meio das mãos de Paulo,

16 Uma vez consciente de toda a revelação bíblica sobre o Senhor Jesus, o Messias (Cristo, em grego), Apolo manifesta a visão missionária, no que é incentivado e apoiado pelos irmãos que o enviam para as igrejas da província romana da Acaia, cuja capital era a grande e cosmopolita Corinto, onde a Graça do Senhor moveu o coração de muitos e Apolo colheu muito do que plantara Paulo. Capítulo 19 1 Apolo ficou conhecido em Éfeso (18.24) durante o tempo em que Paulo esteve ausente; mudou-se para Corinto antes de Paulo retornar para Éfeso. Mais tarde, entretanto, voltou a Éfeso numa ocasião em que Paulo cumpria sua missão na cidade (1Co 16.12). 2 Esses discípulos eram seguidores de Jesus, de acordo com a orientação doutrinária de João Batista (como Apolo, antes que Áquila e Priscila o ajudassem a compreender o cumprimento das profecias em Jesus, o Messias – 18.25-26). 3 O batismo de João era um ritual preparatório, confirmando o arrependimento pelo afastamento de Deus e conseqüente adoção de um estilo de vida pecaminoso (Lc 3.8), era também uma demonstração pública de necessidade do Evangelho e prontidão para a vinda de Cristo. O batismo afirmava a história redentora de Jesus, o Messias (Mt 3.11-15; Mc 1.4). 4 A mesma experiência que os discípulos tiveram no Pentecostes (2.4-11) e que os gentios foram contemplados em Cesaréia (10.46). 5 Paulo dispensa aos efésios bem mais tempo do que os três sábados dedicados aos tessalonicenses (17.2). Entretanto, segue a mesma ordem de prioridade quanto à exposição das Boas Novas: primeiro ao judeu, depois aos gregos (e outros gentios), e revela que a esperança judaica em relação ao Reino de Deus se cumpre plenamente na Igreja do Senhor Jesus (1.3; Cl 1.13). A expressão original grega, aqui traduzida, por “ousadia”, tem a ver com o sentimento de poder sobrenatural que as pessoas percebiam emanar de Paulo, e não devido a sua fluência verbal, cultura ou retórica. 6 O “Caminho” foi um dos primeiros títulos da igreja primitiva (judeus e gentios que se convertiam a Jesus eram batizados e passavam a se reunir com freqüência para adorar ao Senhor, estudar, encorajar e cooperar uns com os outros). O “Caminho” era uma referência à vida cristã (unindo teologia bíblica à prática diária), numa dependência absoluta de Jesus, por meio do Espírito Santo que passava habitar a pessoa de cada crente, e, por isso, começaram a ser chamados de “cristãos” (18.24 com Jo 14.6). A separação do ambiente da sinagoga deu origem à “igreja local”, que por cerca de um ano abrigou os convertidos (18.19). Tirano era um filósofo grego que havia fundado uma escola para oferecer ao público suas preleções. Um antigo manuscrito grego, conhecido como “Código D” acrescenta que as aulas de Paulo iam das 11 às 16 horas, todos os dias. Certamente, toda essa fundamentação teológica, ministrada ao longo de dois anos, permitiu à Igreja de Éfeso compreender a profundidade da obra de Paulo, em especial sua Epístola aos Efésios, anos mais tarde. 7 O objetivo da escola de Paulo foi preparar evangelizadores, discipuladores (como ele), pastores e líderes para a Igreja. Dois anos e três meses (v.8) foi o período mais longo que Lucas permaneceu em uma só localidade com o propósito missionário.

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12 de tal maneira, que até lenços e aventais que Paulo usava eram levados e colocados sobre os doentes. Estes eram curados de todas as suas enfermidades, assim como espíritos malignos eram expelidos deles.8 13 E alguns judeus, que peregrinavam praticando exorcismo, tentaram invocar o Nome do Senhor Jesus sobre os tomados por espíritos malignos, mandando: “Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega!”. 14 Os que assim procediam eram os sete filhos de um judeu chamado Ceva, um dos chefes dos sacerdotes dos judeus. 15 Certo dia, um daqueles espíritos demoníacos lhes respondeu: “Jesus, eu conheço, Paulo, sei quem é; no entanto, vós, quem sois?” 16 Então o endemoninhado avançou sobre eles, os dominou e os agrediu com tamanha violência, que, desnudos e feridos, fugiram daquela casa. 17 Assim que esse acontecimento se tornou conhecido de todos os judeus e gregos que habitavam em Éfeso, toda a população foi tomada de grande temor, e o Nome do Senhor Jesus era engrandecido. 18 Muitos dos que creram, assim que chegavam, começavam a confessar e a declarar em público suas más obras praticadas. 19 Da mesma forma, muitos dos que ha-

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viam se dedicado ao ocultismo, reunindo seus livros de magia, os queimaram diante de toda a comunidade reunida. Calculados os seus preços, chegou-se à estimativa de que o valor total equivalia a cinqüenta mil moedas de prata. 20 E assim, a Palavra do Senhor era grandemente propagada e prevalecia poderosamente. Paulo envia Timóteo e Erasto 21 Passados esses acontecimentos, Paulo decidiu, no seu espírito, ir para Jerusalém, passando pela Macedônia e pela Acaia, e projetava: “Depois de haver estado ali, é necessário igualmente que eu veja Roma”. 22 E, enviando à Macedônia dois dos seus cooperadores, Timóteo e Erasto, ficou por mais algum tempo na província da Ásia.9 Tumulto na assembléia do povo 23 Naquele tempo aconteceu grande alvoroço por causa do Caminho. 24 Um ourives chamado Demétrio, que confeccionava miniaturas de prata do templo de Diana e proporcionava grandes lucros aos artífices, 25 promoveu uma reunião destes com os demais trabalhadores dessa profissão e lhes declarou: “Senhores! Sabeis que deste ofício vem o nosso enriquecimento.10

Parte da estratégia missionária internacional de Paulo tinha a ver com sua prioridade em evangelizar os grandes centros urbanos, comerciais e culturais de sua época. Os vários grupos cristãos que iam surgindo nas grandes cidades, imediatamente cuidavam de levar o Evangelho para os interiores, zonas rurais e regiões adjacentes. As igrejas de Colossos, Hierápolis e Laodicéia, fundadas por Epafras, amigo e cooperador de Paulo, são um notável exemplo do valor do investimento no discipulado e ensino da Palavra. 8 Sempre que necessário o Senhor concederá poderes extraordinários aos seus servos para que vençam completamente os ataques e influências demoníacas muitas vezes travestidos de oráculos, princípios filosóficos, culturais ou religiosos (ocultismo, espiritismo, magias e esoterismos em geral). 9 Erasto havia sido administrador da cidade de Corinto por algum tempo (Rm 16.23). Após seu mandato, deixou a cidade e retornou tempos mais tarde (2Tm 4.20). Nesse momento, está de passagem por Corinto vindo da Macedônia, com Timóteo. Lucas não narra as dificuldades mencionadas em 1Co 15.32; 2Co 1.8, tampouco, os problemas enfrentados pela Igreja em Corinto (1Co 4.17-21; 16.10). 10 As profissões se reuniam em associações de classes, e Demétrio era o responsável pela direção da corporação dos artífices de miniaturas e esculturas de imagens religiosas. Ártemis era o nome grego da deusa romana Diana, que era adorada pelos povos da Ásia Menor sob domínio do Império Romano e tida como “deusa-mãe da fertilidade” e, por isso, servida por inúmeras prostitutas no templo. Os Efésios eram por demais espiritualistas e esotéricos. Acreditavam que Zeus (deus-chefe do panteão grego) havia enviado Ártemis à Terra na forma de um meteorito o qual originou uma de suas primeiras representações esculturais. O templo de Diana foi considerado uma das sete maravilhas do mundo e era chamado de “a glória dos efésios”. Tinha 130 m de comprimento e 67 m de largura, com 127 grandes colunas de puro mármore branco, cada uma delas com 19 m de altura. No santuário ficava exposta uma imagem, com muitos seios, cuja matéria prima supostamente “veio do céu”.

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26 E estais observando e ouvindo que não apenas em Éfeso, como também em quase toda a província da Ásia, esse indivíduo Paulo, tem persuadido e alterado o modo de viver de muitas pessoas, afirmando que deuses feitos por mãos humanas não têm poder divino! 27 Ao continuar isso, corremos o risco de ver não apenas nossa arte perder o prestígio que ostenta diante de todos, como também de o templo de a grande deusa Diana cair em descrédito. E mais, de a própria deusa, hoje adorada em toda a província da Ásia e em todo o mundo, ser destituída de sua majestade divina”. 28 Assim que ouviram isso, foram tomados de grande ira e começaram a exclamar: “Grande é a Diana dos efésios!” 29 Rapidamente, toda a cidade foi envolvida por absoluto alvoroço. O povo correu alucinado para o teatro, arrastando os companheiros de ministério de Paulo, os macedônios Gaio e Aristarco. 30 Então, Paulo quis apresentar-se à multidão, mas os discípulos o contiveram. 31 Também alguns dos oficiais religiosos romanos, amigos de Paulo, chegaram a mandar-lhe um recado expresso, rogandolhe que não se arriscasse a ir ao teatro.11 32 A assembléia estava em total confusão. Uns gritavam de uma forma; outros, protestavam de outra. E a maior parte

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das pessoas, nem sabia ao certo porque estavam concentradas ali.12 33 Um grupo saído da multidão julgou que Alexandre fora o causador daquele tumulto, quando os judeus o impeliram para que fosse à frente. Ele, por sua vez, fazia sinal com as mãos, solicitando silêncio ao povo, para que pudesse expressar sua defesa pública. 34 Todavia, assim que perceberam que ele era judeu, todos, a uma só voz, exclamaram durante quase duas horas sem parar: “Grande é a Diana dos efésios!” 35 Então, o secretário geral da cidade acalmou a multidão e ponderou-lhes: “Caros cidadãos efésios! Quem, porventura, desconhece que a cidade de Éfeso é guardiã do templo da grande Ártemis e da sua imagem que caiu de Zeus?”13 36 Portanto, considerando que estes acontecimentos são inegáveis, convém que vos aquieteis e nada façais irrefletidamente. 37 Porque estes homens, que aqui trouxestes, não são ladrões de templos, nem tampouco blasfemaram contra nossa deusa.14 38 Assim, se Demétrio e os artífices que o acompanham têm alguma queixa contra alguém, os tribunais estão abertos, e há procônsules para isso. Eles que apresentem suas denúncias ali. 39 Contudo, caso haja qualquer outro pleito, este deverá ser decidido em assembléia regular, conforme a lei.

11 Alguns dos homens mais ricos e influentes da província eram escolhidos anualmente para organizar e promover o culto ao imperador (uma divindade para os romanos). Tornavam-se, portanto, sacerdotes, reuniam-se em concílio e eram chamados, em grego, de Asiarchon (“asiarcas” como aparece em algumas versões). 12 Os gregos tinham o costume de resolver todos os assuntos da cidade em reuniões comunitárias e democráticas (através do voto direto de cada cidadão). Nessas reuniões, eram ouvidas todas as idéias sobre determinado assunto a ser considerado e a proposta mais votada vencia o pleito. Essas reuniões passaram a ser conhecidas pelo termo secular grego ekklesia (igreja). Com o passar do tempo, os convertidos (cristãos) passaram também a promover freqüentes reuniões legislativas e deliberativas, convidando seus membros para irem à ekklesia. Na Igreja de Cristo, entretanto, deve prevalecer a vontade de Deus, especialmente a revelada em Sua Palavra (Êx 32.1; Pv 11.14; Mc 12.37). 13 O principal oficial executivo da assembléia uma espécie de secretário maior da prefeitura da cidade, era também o intermediário legal entre o povo de Éfeso e Roma. Algumas versões trazem a expressão: “escrivão da cidade”, certamente devido à sua função de registrar e publicar as decisões dos cidadãos tomadas nas assembléias. Sabiamente, preservou a serenidade e apontou o perigo das atitudes ilegais e injustas. Éfeso havia recebido o título de “cidade guardiã do templo de Diana” e, por isso, gozava de certa autonomia e outros privilégios políticos e econômicos. 14 Algumas versões preservam a expressão literal grega: “sacrílegos” (roubadores de templos) que, nesse caso, não é necessária e dificulta o entendimento imediato do texto. Éfeso era a capital do Império Romano na província da Ásia e, por isso, sede do procônsul. As “assembléias” ordinárias eram realizadas normalmente três vezes por semana, deixando uma semana do mês para a realização das assembléias extraordinárias. A proclamação da Verdade, por si só, faz o trabalho de desmascarar as falsas doutrinas e exaltar a Palavra de Deus. Ao pregar a verdade, eles não podiam ser considerados “blasfemos”.

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40 Porquanto, da forma como estamos procedendo, corremos o perigo de sermos acusados de perturbar a ordem pública, tendo em vista o tumulto ocorrido hoje. E, neste caso, não nos haveria motivo razoável que pudéssemos alegar para justificar tamanha movimentação do povo”. 41 E, tendo dito isso, desfez a assembléia.

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cinco dias, nos encontramos com eles no porto de Trôade, onde ficamos por mais sete dias. Paulo ressuscita o jovem Êutico 7 No primeiro dia da semana nos reunimos com a finalidade de partir o pão, e Paulo pregou ao povo. Planejando seguir viagem no dia seguinte, continuou falando até a meia-noite.4 8 Havia muitas tochas iluminando a grande sala, no piso superior, onde estávamos reunidos. 9 Certo jovem chamado Êutico, que estava sentado numa das janelas, adormeceu profundamente durante o longo sermão de Paulo. Vencido pelo sono, caiu do terceiro andar. Quando tentaram erguê-lo, já estava morto. 10 Contudo, descendo Paulo, debruçouse sobre o rapaz e o abraçou, declarando: “Não vos alarmeis, pois sua alma vive!”5 11 Em seguida, subindo novamente, partiu o pão e comeu. Depois, continuou a pregar até o alvorecer, quando saiu para continuar sua jornada. 12 Então conduziram vivo o rapaz e sentiram-se extremamente confortados. Paulo decide ir a pé até Assôs 13 Nós, entretanto, nos dirigimos ao navio

Paulo volta à Macedônia e Grécia Passado aquele alvoroço, Paulo mandou chamar os discípulos, e havendo-os encorajado, despediu-se e partiu para a região da Macedônia. 2 Viajou por toda a região, animando os irmãos com muitas exortações e, finalmente, chegou à Grécia,1 3 onde permaneceu por três meses. Quando estava pronto para embarcar para Síria, os judeus moveram uma conspiração contra ele; por isso, decidiu retornar pela Macedônia,2 4 no que foi acompanhado por Sópatro, filho de Pirro, de Beréia; Aristarco e Secundo, de Tessalônica; Gaio, de Derbe; e Timóteo, além de Tíquico e Trófimo, da província da Ásia. 5 Esses irmãos, porém, foram adiante e nos esperaram em Trôade.3 6 E nós, depois dos dias dos Pães sem Fermento, navegamos de Filipos e, em

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1 Paulo tinha o objetivo de partir de Éfeso para levar o Evangelho ao povo de Trôade, a caminho da Macedônia, onde reencontraria-se com Tito, a fim de avaliarem o crescimento espiritual da Igreja em Corinto (2Co 2.12,13). Nessa altura (por volta do ano 55 d.C.), Paulo escreveria sua segunda carta aos coríntios e seguiria evangelizando até Ilírico, grande região montanhosa a leste do mar Adriático, espalhando-se desde o nordeste italiano e as tribos celtas da época, ao norte, até à Macedônia ao sul (Rm 15.19). Essa última viagem de Paulo tinha como propósito levantar uma grande oferta para socorrer os crentes de Jerusalém que estavam passando por muitas necessidades (24.17; 1Co 16.1-4). 2 Paulo permaneceu em Acaia, capital da Grécia, durante o inverno, pois os navios não costumavam navegar nesse período. Paulo aproveitou o tempo para escrever sua Epístola aos Romanos. Como os judeus estavam tramando sua morte, e a valiosa oferta que transportava para os crentes da Judéia atraia a atenção de salteadores, Paulo decidiu não embarcar e seguir um caminho por terra, desviando-se de possível emboscada no porto de Cencréia. 3 Algumas igrejas enviaram homens de Deus como seus representantes para acompanhar Paulo nessa jornada (2Co 8.23). Lucas se uniu ao grupo em Filipos (6; 16.10). Sópatro é o mesmo Sosípatro de Rm 16.21. Aristarco (19.29), cujo nome significa “segundo”, assim como Tércio (Rm 16.22) quer dizer “terceiro”. Gaio de Derbe – Galácia romana (19.29). Timóteo, representando um grupo de igrejas, pois vinha de Listra, mas havia realizado notável ministério em outros grupos cristãos (1Co 16.10,11; Fp 2.1923). Tíquico, fiel auxiliar de Paulo, especialmente em relação às igrejas da Ásia (Ef 6.21,22; Cl 4.7-9; 2Tm 4.12; Tt 3.12). Trófimo, efésio e gentio crente (21.29; 2Tm 4.20). 4 Lucas costuma empregar o método grego de contar o tempo e as horas do dia quando narra fatos ocorridos em ambientes helênicos. Paulo, embora guardasse as principais festas judaicas, celebrava dominicalmente o culto cristão com o memorial do partir o pão (a Ceia do Senhor) instituído por Jesus (Lc 22.19; 2.42). 5 No grande salão (cenáculo) havia muitas candeias (literalmente em grego: “tochas”), queimando óleo. A fumaça que produziam contribuiu para o profundo sono do jovem Êutico, que foi ressuscitado por Paulo, assim como Dorcas (Tabita) o fora por Pedro (9.40; 14.8; 1Rs 17.21). O menino – sem dúvida – estava morto, mas não para sempre, nem muito menos para o poder de Deus.

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20 Sabeis igualmente, que jamais deixei de vos pregar nada que fosse proveitoso, mas vos ensinei tudo em público e de casa em casa. 21 Testemunhei, tanto a judeus como a gregos, que eles necessitam converter-se a Deus sob total arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus. 22 Agora, pois, compelido pelo Espírito Santo, estou seguindo para Jerusalém, desconhecendo o que ali me sucederá.11 23 Sei, no entanto, que em todas as cidades o Espírito Santo me previne que prisões e sofrimentos estão preparados para mim. 24 Contudo, nem por um momento considero a minha vida como valioso tesouro para mim mesmo, contanto que possa completar a missão e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do Evangelho da graça de Deus. 25 Estou consciente de que, desde agora, nenhum de vós, entre os quais passei ensinando sobre o Reino, vereis outra vez o meu rosto.12 26 Portanto, hoje vos proclamo que estou inocente do sangue de todos. 27 Porque jamais deixei de vos ensinar toda a vontade de Deus.13

e embarcamos para Assôs, onde receberíamos Paulo a bordo. Pois assim ele havia determinado, tendo preferido ir a pé.6 14 Quando nos alcançou em Assôs, o recebemos a bordo e seguimos viagem até Mitilene.7 15 No dia seguinte, navegamos dali e chegamos em frente de Quio. No outro dia, cruzamos para Samos e, um dia depois, chegamos a Mileto.8 16 Porquanto, Paulo havia decidido não aportar em Éfeso, para não se demorar na província da Ásia, pois tinha muita pressa de chegar a Jerusalém, se possível, antes do dia de Pentecoste. Paulo exorta os presbíteros 17 De Mileto Paulo pediu para que fossem chamados os presbíteros da Igreja de Éfeso.9 18 Assim que se reuniram, Paulo lhes declarou: “Vós bem sabeis como foi que me comportei entre vós durante todo o tempo em que vivi convosco, desde o primeiro dia em que cheguei à província da Ásia.10 19 Servi ao Senhor com toda a humildade e com lágrimas, sendo impiedosamente provado pelas ciladas dos judeus.

6 Assôs ficava numa península oposta a Trôade e distava aproximadamente 30 km por terra. A distância por mar, margeando o litoral, era de cerca de 65 km. Dessa forma, Paulo não gastou muito mais tempo que o navio que navegou em redor da península. 7 Após o primeiro dia de viagem, foram acolhidos no porto de Mitilene que ficava no litoral sudeste da ilha de Lesbos. 8 Passaram a segunda noite na ilha de Quio, que se localizava próximo ao litoral oeste da Ásia Menor. Cruzando a entrada da baía que leva a Éfeso, aportaram no terceiro dia em Samos, uma das ilhas mais importantes do mar Egeu. Mileto era o porto de destino do navio em que Paulo estava, e ficava cerca de 50 km ao sul de Éfeso. Para chegar a Éfeso, teria que desembarcar e pegar outro navio. Paulo considerou os riscos e preferiu rumar direto para Mileto, onde promoveria uma reunião com os líderes da Igreja em Éfeso. 9 A importância da liderança espiritual dos presbíteros é enfatizada em todo o ministério e escritos de Paulo. Entregou aos presbíteros da Igreja em Jerusalém a oferta generosa da Igreja que estava em Antioquia (11.30). Nomeou presbíteros em sua primeira viagem missionária (14.23). Escreveu aos que exerciam esse ministério em Filipos (Fp 1.1), também chamados de “bispos”. Solicitou que os presbíteros de Éfeso viessem ao seu encontro em Mileto para uma reunião solene, e alguns anos mais tarde foi dirigido pelo Espírito Santo a escrever orientações sobre as qualificações especiais desses líderes cristãos (1Tm 3; Tt 1). 10 O livro de Atos apresenta três grandes discursos de Paulo. O primeiro, dedicado aos judeus (cap.13); o segundo destinado aos pagãos, gentios não crentes (cap.17); o terceiro, uma mensagem Pastoral de testemunho, orientação e encorajamento aos líderes espirituais da Igreja do Senhor Jesus. 11 A expressão grega traduzida por algumas versões como: “constrangido”, e aqui pelo vocábulo “compelido”, vem da forma original e literal: “acorrentado e puxado pelo Espírito” (conforme 16.6). 12 A viagem com destino a Jerusalém faz parte do final da carreira ministerial de Paulo, embora seus escritos continuem sendo usados pelo Espírito Santo para instruir e encorajar os discípulos de Jesus todos os dias. Testemunhar o Evangelho da graça é uma expressão que equivale a pregar o “Reino de Deus”. Paulo teve uma última oportunidade de visitar a Igreja em Éfeso após a sua primeira prisão, mas, certamente, não se encontrou mais com todos seus antigos amigos e discípulos (1Tm 1.3). 13 Mesmo na Igreja em Éfeso havia pessoas falsas, maldosas e ardilosas, cuja intenção era minar a integridade de Paulo (e dos presbíteros), com a finalidade de tirar algum proveito próprio. O cristianismo puro e verdadeiro não tem segredos ou doutrinas ocultas como o gnosticismo e outras seitas heréticas que até nossos dias procuram iludir os incautos e aqueles que apenas buscam um “deus de resultados” para serem servidos, e não a Deus para adorá-Lo.

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28 Concluindo, tende cuidado de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos estabeleceu como epíscopos para pastoreardes a Igreja de Deus, que Ele comprou com o sangue do seu Filho Unigênito.14 29 Eu sei que, logo após minha partida, lobos ferozes se infiltrarão por entre a vossa comunidade e não terão piedade do rebanho. 30 E ainda mais, dentre vós mesmos surgirão homens que torcerão a verdade, com o propósito de conquistar os discípulos para si.15 31 Por isso, vigiai! Lembrai-vos de que, durante três anos, noite e dia, não parei de prevenir a cada um de vós, com lágrimas, quanto a isso. 32 Agora, pois, eu vos dedico aos cuidados especiais de Deus e à Palavra da sua graça, que tem o poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados.16 33 De ninguém cobicei prata, nem ouro nem roupas. 34 Vós mesmos sois testemunhas que

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estas mãos trabalharam para suprir minhas necessidades e as de meus companheiros.17 35 Por meio de todas as minhas realizações, tenho-vos mostrado que, mediante tra-balho árduo, devemos cooperar com os necessitados, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus: ‘É mais bemaventurado dar do que receber’”.18 Paulo se despede orando com todos Havendo concluído essas declarações, ajoelhou-se com todos eles e orou. 37 Então, abateu-se sobre todos profundo sentimento de tristeza, e abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam. 38 O que mais sensibilizou a todos foi a revelação de que nunca mais veriam o seu rosto. E, assim, o acompanharam até o navio.
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Paulo ruma para Jerusalém Então, após nos apartarmos deles, embarcamos e navegamos diretamente para Cós. No dia seguinte, chegamos a Rodes, e dali a Pátara.1

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14 Os “presbíteros” também eram conhecidos como “bispos” (do original grego: episcopoi, e que significa: “supervisores” ou “guardiões” espirituais). Dessa forma, os “bispos-presbíteros” devem “pastorear” o povo de Deus como “mestres” (Ef 4.11). São estabelecidos pelo Espírito Santo e respeitados pela Igreja (1.24; 13.1,2; 1Co 12.18,28). O verbo “comprou” é análogo ao substantivo registrado em 1Pe 2.9: “povo de propriedade exclusiva de Deus”. Algumas versões trazem a frase: “...pastoreardes a igreja do Senhor, que ele comprou com o seu próprio sangue”. Apesar de não estar errada, a forma mais próxima do significado original deve levar em consideração a frase idiomática hebraica (subjacente ao texto grego) que se refere ao “Único Filho” ou “ao Amado”. 15 Falsos ensinadores logo ameaçaram as comunidades cristãs em toda a Ásia com suas doutrinas gnósticas, ainda hoje infiltradas em diversas seitas heréticas, sempre cultuando o conhecimento, o esoterismo e a cultura em detrimento do sacrifício vicário de Cristo (a carta aos Colossenses trata em profundidade desse assunto, assim como 1a, 2a e 3a de João e Ap 2,3). Por isso, o trabalho do pastor inclui: vigiar (1Pe 5.8); exortar e admoestar (1Ts 5.12); pregar e ensinar as Escrituras com vistas a edificar o Corpo de Cristo (1Tm 4.6). 16 O ministério que Paulo recebera do Senhor (24) agora é integralmente transferido para os pastores (bispos, presbíteros ou líderes cristãos) que, ao submeterem-se ao senhorio de Cristo, ocupam uma posição de “santidade” (literalmente: separação do profano para servir ao sagrado), ainda que continuem a ser “seres humanos propensos a falhas, fraquezas e pecados” (26.18; 1Co 1.2; 1Jo 1.9). 17 Paulo dedicou-se, em determinado momento, também ao trabalho secular com o objetivo de suprir as suas necessidades pessoais e a de alguns de seus companheiros de ministério. Isso ocorreu em Tessalônica (1Ts 2.9) e em Corinto (At 18.3). 18 Os grandes mestres da igreja primitiva (mais tarde chamados de Pais da Igreja) usavam dizer: “Lembrando as palavras do Senhor...”, antes de fazerem uma citação de Jesus. Paulo, curiosamente, recorda um conhecido dito de Jesus (baseado em Lc 6.37-38), mas que não se encontra registrado nos Evangelhos e corroboram a afirmação de João sobre as muitas realizações de Jesus que não foram registradas nas Escrituras (Jo 21.24-25). Jesus e Paulo viveram a realidade – às últimas conseqüências – desse ditado do Senhor e nos legaram seus exemplos. Capítulo 21 1 Ventos favoráveis os levaram rapidamente até um porto seguro na ilha de Cós, onde passaram a noite. Rodes é a grande ilha que se prolonga em direção a Creta e fica no meio da principal rota marítima entre o mar Egeu e os portos da Fenícia. No século III a.C, devido ao grande desenvolvimento econômico e cultural de Rodes, foi erguida na entrada do porto da principal cidade da ilha, também chamada Rodes, uma enorme estátua de bronze, de autoria do escultor Cares de Lindos em homenagem ao deus Sol. Foi considerada como uma das sete maravilhas do mundo antigo e ficou conhecida como “Colosso de Rodes”. Entretanto, no ano 226 a.C., um terremoto a destruiu completamente. Em Pátara, litoral sul da Lícia, Paulo baldeou de navios, deixando o que seguia pela costa da Ásia Menor e embarcando em outro, direto para Tiro e à Fenícia.

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2 Encontrando um navio que seguia para a Fenícia, embarcamos e partimos. 3 Ao avistarmos Chipre e seguirmos em direção ao sul, navegamos para a Síria. Desembarcamos em Tiro, onde nosso navio deveria ser descarregado. 4 Havendo encontrado os discípulos locais, ficamos com eles sete dias. E eles, pelo Espírito, recomendavam a Paulo que não seguisse para Jerusalém.2 5 Todavia, quando se encerrou nosso tempo naquele local, partimos e demos continuidade à nossa viagem. Todos os discípulos, com suas esposas e filhos, nos acompanharam até fora da cidade, e ali na praia nos ajoelhamos e oramos. 6 Então, nos despedimos uns dos outros, embarcamos, e eles retornaram para suas casas. 7 Concluída a nossa viagem, de Tiro chegamos a Ptolemaida; e depois de saudar a todos os irmãos, passamos o dia com eles. 8 Partindo no dia seguinte, fomos para Cesaréia; ali chegamos e fomos recebidos na casa de Felipe, o evangelista, que era um dos sete. 9 Ele tinha quatro filhas virgens que profetizavam.3 10 Demorando-nos ali por muitos dias, desceu da Judéia um profeta chamado Ágabo. 11

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Ele chegou com o propósito de falar conosco, e assim que nos encontrou, tomou o cinto de Paulo e, amarrando os seus próprios pés e mãos, profetizou: “Assim diz o Espírito Santo: ‘Desta maneira os judeus em Jerusalém amarrarão o homem a quem pertence esse cinto e o entregarão nas mãos dos gentios!’”4 12 Assim que ouvimos tal revelação, nós e todo o povo local suplicamos a Paulo que não subisse para Jerusalém. 13 Então Paulo declarou: “Por que fazeis isso? Não choreis, pois assim fazendo, partis meu coração! Eis que estou pronto não apenas para ser amarrado, mas também a morrer em Jerusalém pelo Nome do Senhor Jesus!” 14 Assim, como não nos foi possível demovê-lo, aquiescemos e exclamamos: “Faça-se, pois, a vontade do Senhor!”5 15 Havendo passado aqueles dias, preparamos as cavalgaduras e subimos rumo a Jerusalém.6 16 E alguns dos discípulos de Cesaréia nos acompanharam e nos conduziram à casa de Mnasom, que era natural de Chipre, um dos primeiros discípulos, com quem iríamos nos hospedar.7 A entrada de Paulo em Jerusalém 17 Havendo nós chegado a Jerusalém,

2 O Espírito revelou aos irmãos na fé de Paulo as provações que o aguardavam em Jerusalém e, por isso, eles lhe rogavam que mudasse seus planos de viagem. Paulo, contudo, sentia-se “compelido pelo Espírito” a seguir rumo ao seu destino, assim como ocorreu com o próprio Jesus (Mt 20.17-19; Mc 10.32-34; Lc 18.31-34). 3 Cesaréia, capital da Judéia romana, era considerada “a capital dos gentios”. Felipe dedicou-se por cerca de 25 anos à obra de evangelização e discipulado da população dessa cidade. Paulo lhe confere o título de “evangelista” (Ef 4.11; 2Tm 4.5). As filhas de Felipe tinham o dom de profecia e serviam ao Senhor de forma especial (1Co 11.5; 12.8-10; Lc 2.36 conforme Êx 15.20; Jz 4.4; 2Rs 22.14; Ne 6.14). 4 Ágabo usa um recurso dramático (mímica) comum a muitos profetas do AT. Esse é o mesmo profeta que havia estado em Antioquia profetizando a fome iminente em Jerusalém, cerca de 15 anos antes (11.27-29). O Espírito Santo prediz que Paulo sofrerá muitas aflições em Jerusalém, mas não o proíbe de seguir seu caminho. 5 Os crentes expressam o sentimento humano de querer preservar a vida de Paulo, pois o amavam muito. Entretanto, assim como Jesus, Paulo não temia por sua vida, mas desejava cumprir a vontade de Deus (Lc 22.42; Fl 1.19). A expressão original grega, aqui traduzida por: “partis meu coração”, e em outras versões como: “quebrantando-me o coração”, tem sua origem etimológica no ato das lavadeiras baterem as roupas nas pedras do rio para amolecerem a sujeira e, então, poder removê-la com mais facilidade. Contudo, diante da convicção de Paulo, seus amigos e irmãos em Cristo resolveram cobri-lo com orações diante do Senhor. 6 Em vários e fiéis manuscritos gregos, há a indicação clara de que essa comitiva, liderada por Paulo, seguiu a cavalo até Jerusalém. 7 Mnasom era um dos primeiros discípulos de Cristo. Homem de posses e grande generosidade. Acolheu em sua casa cerca de nove pessoas que compunham essa equipe missionária de Paulo.

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25 Entretanto, quanto aos gentios que se converteram, já lhes escrevemos a nossa determinação para que se abstenham de comer qualquer alimento oferecido aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e de todo tipo de imoralidade sensual”. 26 Diante disso, no dia seguinte, Paulo levou consigo aqueles homens e passou com eles pelos rituais de purificação. Em seguida, foi ao templo para declarar o prazo do cumprimento dos dias da purificação e da oferta que seria consagrada individualmente em favor deles.

vieram os irmãos e nos receberam com grande alegria.8 18 No dia seguinte, Paulo seguiu em nossa companhia para encontrar-se com Tiago; e todos os presbíteros estavam reunidos.9 19 Então Paulo os saudou e passou a relatar-lhes em detalhes o que Deus havia realizado entre os gentios por intermédio do seu ministério. 20 Ouvindo isso, eles glorificaram a Deus e declaram-lhe: “Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus têm crido e todos são zelosos da Lei! 21 Porém, eles têm sido informados a teu respeito, de que ensinas todos os judeus que estão entre os gentios a se afastarem de Moisés, pregando que não circuncidem seus filhos nem tampouco andem segundo as tradições e costumes. 22 Que faremos, portanto? Certamente todos saberão que chegaste. 23 Faze, pois, o que te vamos orientar. Estão conosco quatro homens que fizeram um voto. 24 Participa com esses homens dos rituais de purificação e paga as despesas deles, para que rapem a cabeça. Dessa forma, todos observarão que é falso o que ouviram a teu respeito, e que, em verdade, tu mesmo continuas andando sob absoluta obediência à Lei.10

Paulo é agredido e preso 27 Contudo, quando os sete dias estavam quase terminando, alguns judeus da província da Ásia, observando Paulo no templo, incitaram toda a multidão e o agarraram,11 28 esbravejando: “Homens de Israel, ajudai! Este é o homem que por toda parte prega a todos contra o nosso povo, contra a Lei e contra este lugar. Além de tudo, introduziu gregos no templo e profanou este santo lugar!”12 29 Diziam isso, pois o haviam visto na cidade, com Trófimo, o efésio, e presumiram que Paulo o havia trazido ao templo. 30 Por esse motivo, toda a cidade se alvo-

8 Paulo consegue chegar um ou dois dias antes da celebração do Pentecostes. Os irmãos necessitados de Jerusalém manifestam toda a sua alegria pelo amor e coragem de Paulo e pela oferta trazida em segurança pelo grupo missionário. 9 Tiago é o irmão de Jesus Cristo e autor da Epístola Sagrada que leva seu nome. Foi grande e admirado líder cristão em Jerusalém (Gl 1.19; 2.9); apesar de não ser formalmente um dos Doze, era chamado e respeitado como “apóstolo”. Os demais apóstolos, nesse momento histórico, estavam espalhados por diversas regiões, dedicando-se ao trabalho missionário (evangelização e discipulado). 10 Os quatro cristãos judeus estavam sujeitos às ordenanças estabelecidas àqueles que faziam o voto temporário de nazireado e ficaram impuros antes de se esgotar o tempo regulamentar de guarda do voto, provavelmente por terem tocado ou comido algo impuro (Nm 6.2-12). Esse voto não era obrigatório para nenhum cristão, quer judeu ou gentio. Os rituais incluíam o sacrifício de ofertas, e Paulo deveria dispor-se a pagar pelos oito pombos e quatro cordeiros requeridos dos quatro homens (Nm 6.9-12). Paulo fez tudo para ganhar os judeus, mas jamais sacrificou qualquer princípio cristão em função da obediência às ordenanças e regulamentos da Lei de Moisés (18.18; 1Co 9.20,21; 16.3; Gl 2.3). 11 Os sete dias se referem ao tempo exigido pela Lei para a purificação, rapar a cabeça diante do altar pelo pecado e anunciar aos sacerdotes que tudo fora realizado conforme as ordenanças e ritos tradicionais. 12 A entrada de qualquer pessoa não judia (gentio) nos limites do átrio de Israel era expressamente proibida, e sua violação sujeita à pena de morte. Entre o pátio externo (espaço destinado aos gentios de todas as nações) e o pátio interno havia uma barreira (Ef 2.14) e colunas com fortes advertências em grego e latim. Inscrições claras, nesse sentido, foram encontradas em blocos de pedra remanescentes do templo e preservados ainda hoje em alguns dos principais museus do mundo. Paulo, entretanto, não levou nenhum não judeu para o recinto interno do templo. Apenas foi visto na cidade conversando com um grego chamado Trófimo. Mesmo que Paulo o tivesse levado às dependências restritas do templo, a multidão deveria punir Trófimo e não Paulo, assim dizia a lei. Fica aqui uma advertência quanto aos julgamentos precipitados e injustos.

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roçou, e houve grande ajuntamento de pessoas. Então, agredindo Paulo, arrastaram-no para fora do templo e, em seguida, as portas do templo foram fechadas. Paulo é salvo da fúria do povo 31 Enquanto estavam tentando matálo, chegou ao comandante das tropas romanas a informação de que toda a cidade de Jerusalém estava sob grande tumulto. 32 Então, no mesmo instante, reuniu alguns de seus soldados e oficiais e correu até o centro da multidão alvoroçada. Quando viram o comandante com seus soldados, pararam de espancar a Paulo. 33 Assim que chegou, o comandante mandou prender a Paulo e ordenou que ele fosse algemado a duas correntes. Depois interrogou quem era ele e o que havia feito. 34 E do meio da multidão uns gritavam de uma maneira e outros de outra. Sem conseguir deduzir a verdade por causa do alvoroço, ordenou que Paulo fosse levado para a fortaleza. 35 Ao chegar às escadas, a violência da multidão era tão feroz que Paulo precisou ser carregado pelos soldados.13 36 E a multidão que os seguiam não parava de gritar: “Mata-o!” Paulo fala da sua missão em Cristo 37 Pouco antes de ser levado para dentro

da fortaleza, Paulo solicitou ao comandante: “Tenho permissão para te dirigir a palavra?” Então, o comandante lhe indagou: “Falas a língua grega? 38 Não és, porventura, o egípcio que há algum tempo deu início a uma revolução e levou para o deserto quatro mil terroristas armados?”14 39 Ao que Paulo declarou: “Sou judeu, cidadão de Tarso, cidade de grande importância na Cilícia. Peço-te que me consintas falar ao povo. 40 O comandante lhe deu permissão. Então Paulo, colocou-se em pé na escada e fez sinal à multidão. Quando todas as pessoas se aquietaram, Paulo começou a lhes falar em aramaico:15 O discurso de defesa de Paulo “Irmãos e pais! Dai ouvidos à minha defesa, que neste momento apresento diante de vós”. 2 E, assim que ouviram que lhes falava em aramaico, guardaram o mais atento silêncio.1 3 Então Paulo declarou: “Sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criado nesta cidade. Fui educado rigorosamente na Lei de nossos antepassados, aos pés de Gamaliel, sendo tão zeloso por Deus, assim como estais sendo vós neste dia.2 4 Persegui os seguidores do Caminho até a morte, algemando tanto homens quanto mulheres e jogando-os no cárcere,

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13 Havia dois lances de escadas que permitiam o acesso do pátio externo dos gentios à fortaleza de Antonia, cuja torre dava vista para a área do templo. O comandante (em grego chiliarca – comando de um regimento de mil soldados), se chamava Cláudio Lísias (23.26). Paulo teve cada um de seus pulsos acorrentados a um soldado ao seu lado. 14 Flávio Josefo narra que houve um falso profeta egípcio que reuniu no monte das Oliveiras quatro mil “sicários” (expressão em latim que significa: “terroristas armados” ou “homens do punhal”) e “profetizou” que as muralhas de Jerusalém cairiam diante deles. Quando tal evento não aconteceu, ele os convenceu a refugiarem-se nas cavernas do deserto. O governador romano Félix matou cerca de 400 deles, mas o chefe escapou. 15 Algumas versões informam que Paulo falou em “língua hebraica”, entretanto, a geração de Paulo – como a de Jesus – não falava mais o antigo hebraico e sim uma espécie de dialeto ou novo idioma, chamado “aramaico” e falado entre os judeus da Palestina da época. Capítulo 22 1 Se Paulo tivesse falado na língua hebraica tradicional o povo não compreenderia claramente suas palavras nem lhe daria total atenção inicial, pois os judeus dessa época e região não mais falavam fluentemente a língua original de seus antepassados. Há vários séculos, o aramaico, um cognato do antigo hebraico, havia se estabelecido entre os povos palestinos. 2 Paulo havia nascido em Tarso, cidade grega dominada pelo império romano na época, o que o tornava oficialmente cidadão romano. Tarso ficava próxima à foz do rio Cidno e do profundo desfiladeiro chamado “Portas da Cilícia”. Era um grande centro cultural (com uma vigorosa universidade) e comercial (ponto de cruzamento de importantes estradas). Quando Paulo atingiu

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5 como bem pode testemunhar o sumo sacerdote, assim como todo o conselho dos anciãos. Visto que deles recebi cartas requisitando a cooperação dos irmãos, e segui para Damasco, com a finalidade de deter e trazer algemados para Jerusalém os que ali estivessem para serem severamente punidos. 6 Entretanto, por volta do meio-dia, enquanto me aproximava de Damasco, de repente, uma fulgurante luz vinda do céu reluziu ao meu redor. 7 Caí por terra e ouvi uma voz que me indagava: ‘Saul, Saul, por que me persegues?’ 8 Diante disso, perguntei: Quem és tu, Senhor? Ao que Ele me afirmou: ‘Eu Sou Jesus, o nazareno, a quem persegues!’ 9 E aqueles homens que me acompanhavam também viram o brilho da luz, mas não compreenderam a voz daquele que falava comigo. 10 Então inquiri: Senhor, que devo fazer? E o Senhor me ordenou: ‘Levanta-te e segue para Damasco, onde te será comunicado tudo o que necessitas fazer’. 11 Tendo ficado cego devido ao intenso resplendor daquela luz, cheguei a Damasco guiado pela mão dos meus companheiros de viagem. 12 Um homem piedoso segundo a Lei, chamado Ananias, e muito respeitado por todos os judeus que ali moravam, 13 veio ao meu encontro e, colocando-se de pé ao meu lado, determinou: ‘Irmão Saulo, recupera a tua visão!’ 14 Em seguida ele me revelou: ‘O Deus dos nossos antepassados te escolheu para

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conheceres sua vontade, veres o Justo e ouvires a Palavra da sua própria boca. 15 Pois serás sua testemunha, perante todas as pessoas, dos sinais que tens visto e ouvido.3 16 E, agora, o que mais esperas? Levantate, sê batizado e lava os teus pecados, invocando o Nome do Senhor’.4 17 Quando retornei a Jerusalém, estando eu a orar no templo, caí em êxtase e 18 vi o Senhor que me ordenava: ‘Apressa-te e sai logo de Jerusalém, porquanto não receberão o teu testemunho acerca da minha pessoa!’ 19 Ao que eu indaguei: Mas Senhor, todos eles sabem que eu fui o responsável pela detenção e encarceramento dos que criam em Ti e os açoitava de sinagoga em sinagoga. 20 E mais, quando foi derramado o sangue de Estevão, tua testemunha, eu lá estava pessoalmente observando tudo, dando minha aprovação e tomando conta das capas dos que o matavam. 21 Contudo, o Senhor me ordenou: ‘Vai, porque Eu te enviarei para longe, aos gentios!’5 Paulo, judeu e cidadão romano 22 A multidão acompanhava o discurso de Paulo até o momento em que ele disse isso. Então, todos ergueram a voz e começaram a esbravejar: “Tira da face da terra esse tal homem, pois ele não merece viver!”. 23 Enquanto gritavam, tiravam as capas e jogavam poeira para o ar, 24 o comandante mandou que Paulo fosse conduzido para o interior da fortaleza, ordenando imediato interrogatório

a idade escolar foi levado para Jerusalém para que fosse educado pelo mais reconhecido mestre do judaísmo do seu tempo, Gamaliel, neto do grande Hilel. A expressão “aos pés” tem a ver com o fato de o discípulo (aluno) aprender sentado no chão, enquanto seu mestre o ensinava sentado sobre uma espécie de travesseiro ou pequeno banco de madeira recoberto com peles de cabras, o que colocava o professor num plano mais elevado e comunicava a idéia de respeito mútuo. Paulo sutilmente explica ao povo que ele também agiu erradamente por ignorar a Verdade (Jo 8.32; 14.6). 3 A experiência de ter visto Jesus Cristo ressurreto marcou decisivamente a vida e a base teológica de Paulo (26.16; 1Co 9.1). 4 O batismo é sempre o sinal externo do milagre da Graça de Deus operado no interior de cada pessoa humana. Embora a realidade da conversão esteja estreitamente ligada à ação simbólica, o ritual externo, isoladamente, não tem o poder de produzir a graça interior e, portanto, a salvação eterna (2.38; Tt 3.5; 1Pe 3.21; Rm 2.28-29; 6.3-4; Fp 3.4-9). 5 Foi desta forma que Paulo se tornou “apóstolo”. Uma vez que a expressão original em grego: apostellõ significa “enviar”, o próprio Senhor o enviou para comunicar sua graça ao mundo. Entretanto, os judeus não podiam aceitar que outras raças e povos tivessem acesso ao Reino de Deus sem grandes sacrifícios e demonstrações externas de fé, como a circuncisão e a obediência absoluta à Lei e suas derivações rabínicas.

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sob chicotadas, a fim de que pudessem apurar a razão de tamanha insatisfação do povo contra ele.6 25 Enquanto o amarravam para dar início aos açoites, Paulo perguntou ao centurião que ali estava: “A lei vos permite flagelar um cidadão romano, sem que este tenha sido condenado?” 26 Assim que ouviu isso, o centurião correu até o comandante e o preveniu: “O que estás fazendo? Esse homem é cidadão romano!”. 27 Então, o comandante veio até Paulo e o questionou: “Dize-me, tu és cidadão romano? Ao que ele lhe afirmou: “Sou!”. 28 Replicou-lhe o comandante: “Eu precisei pagar uma grande soma em dinheiro para adquirir o direito de ser cidadão”. Retrucou-lhe Paulo: “Pois é, eu, no entanto, o tenho por direito de nascimento”. 29 Diante disso, no mesmo instante, se afastaram de Paulo aqueles que o iriam interrogar por meio de açoites. O próprio comandante ficou temeroso, ao saber que havia amarrado com correias a um cidadão romano. 30 No dia seguinte, desejando compreender qual era, de fato, a acusação dos judeus libertou Paulo e mandou que se reunissem os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio. Então, convocando Paulo, apresentou-o diante deles. Paulo tumultua o Sinédrio Paulo, olhando atentamente para o Sinédrio, declarou: “Caros com-

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patriotas, até o dia de hoje tenho cumprido meu dever perante Deus com toda a boa consciência!”. 2 Entretanto, o sumo sacerdote Ananias deu ordens aos que estavam mais próximos de Paulo para que lhe esbofeteassem na boca. 3 Diante disso, Paulo lhe afirmou: “Deus te ferirá, parede caiada! Pois tu estás aí sentado para julgar-me segundo a lei, e contra a lei mandas que eu seja agredido?”1 4 Os que estavam ao redor, exclamaram: “Como ousas insultar o sumo sacerdote de Deus?” 5 Então Paulo replicou: “Eu não sabia, irmãos, que esse homem é o sumo sacerdote; afinal está escrito: ‘Não falarás mal de uma autoridade do teu povo’. 6 Contudo, sabendo Paulo que uma parte do Sinédrio se compunha de saduceus e outra de fariseus, bradou diante de todos: “Irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus. Eis que estou sendo julgado por causa da minha esperança na ressurreição dos mortos!”2 7 Ao proferir essas palavras, estabeleceuse uma violenta polêmica entre os fariseus e os saduceus e a assembléia ficou dividida. 8 Porquanto, os saduceus afirmam que não existe ressurreição nem anjos nem espíritos. Os fariseus, porém, acreditam em tudo isso. 9 Houve, então, muita discussão e gritaria. Alguns dos mestres da lei que eram fariseus se levantaram e começaram a esbravejar: “Não encontramos neste

6 A palavra grega para “açoite” era mastixin; e, em latim flagellum. Os romanos costumavam “açoitar” ou “flagelar” os suspeitos de crimes e acusados, escravos ou estrangeiros, a fim de arrancar-lhes a verdade. Contudo, sob hipótese alguma, poderiam agir dessa mesma maneira contra um cidadão romano (ainda que esse houvesse comprado ou ganho por mérito sua cidadania). O “açoite” era uma espécie de chicote de tiras de couro, com pedaços de osso e metal fixados nas extremidades, o que aumentava em muito seu poder de dilacerar o corpo de suas vítimas. Esse foi um dos instrumentos usados na tortura do Senhor antes da crucificação (Mt 27.27-31; Mc 15.16-20). Capítulo 23 1 Ananias era filho de Nebedeu e exerceu as funções de sumo sacerdote de 47-59 d.C. Ficou conhecido na história por sua crueldade e violência. A condenação profética de Paulo cumpriu-se no ano 66 d.C., quando Ananias foi assassinado brutalmente pelo seu próprio povo (sicários) por dar apoio a Roma. Paulo revela em seu discurso que o cristianismo tem suas raízes doutrinárias no judaísmo verdadeiro e puro. Porquanto a fé cristã é o cumprimento da esperança messiânica defendida pelos antigos e fiéis fariseus. Paulo usa uma expressão de Jesus (Mt 23.27; Ez 13.10-12) para denunciar a falsidade da liderança religiosa que imperava no Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus). 2 O Sinédrio era dirigido por dois grandes partidos político-religiosos: os saduceus, grupo minoritário, mas de grande influência, pois abrigava a elite econômica e cultural dos judeus. Eles não acreditavam na existência dos anjos ou de espíritos, tampouco

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16 Porém, o sobrinho de Paulo, filho de sua irmã, ficou sabendo dessa trama, dirigiu-se à fortaleza e contou tudo a Paulo 17 que, chamando um dos centuriões, rogou-lhe: “Leva este rapaz ao comandante, porque tem algo importante a comunicar-lhe”. 18 Tomando-o, pois, conduziu-o ao comandante e lhe declarou: “O prisioneiro Paulo me chamou e pediu que trouxesse à tua presença este moço, que tem algo importante a revelar-te”. 19 Então, o comandante tomou o jovem pela mão e, levando-o à parte, indagoulhe: “O que tens para dizer-me?”. 20 Ao que ele revelou: “Os judeus combinaram solicitar-te que amanhã ordenes a Paulo descer ao Sinédrio, fingindo ter de investigar com maior precisão o caso dele. 21 Não te deixes persuadir por eles, porquanto há mais de quarenta deles à espreita contra Paulo; eles juraram sob pena de maldição não comer nem beber até que tirem a vida dele. Agora, pois, estão prontos apenas aguardando a tua palavra de consentimento”. 22 Então, o comandante mandou o rapaz sair, ordenando-lhe que a ninguém contasse que lhe havia revelado aquilo. 23 Em seguida, chamando dois centuriões, determinou-lhes: “Preparai um destacamento de duzentos soldados, setenta cavaleiros e duzentos lanceiros a fim de rumarem para Cesaréia, ainda esta noite às nove horas.5

homem mal algum! Quem pode garantir que não foi mesmo um espírito ou anjo que falou com ele?”. 10 Diante disso, a discussão se tornou tão acirrada que o comandante teve receio que Paulo fosse estraçalhado pela multidão enfurecida. Então, ordenou que as tropas descessem e o tirassem à força do meio deles e o levassem para a fortaleza. Jesus aparece outra vez a Paulo 11 Na noite seguinte, o Senhor surgiu ao lado de Paulo e lhe afirmou: “Sê corajoso! Assim como deste testemunho da minha pessoa em Jerusalém, deverá de igual modo testemunhar em Roma”.3 Os judeus tramam matar Paulo
12 Na manhã seguinte, os judeus planeja-

ram uma cilada e juraram solenemente que não comeriam nem beberiam enquanto não tirassem a vida de Paulo. 13 Mais de quarenta homens faziam parte desta conspiração.4 14 Estes foram até os chefes dos sacerdotes e aos líderes dos judeus e rogaram: “Fizemos um juramento, sob pena de maldição, de não provarmos alimento algum até matarmos a Paulo. 15 Agora, portanto, juntamente com o Sinédrio, solicitai ao comandante que o mande descer diante de vós como se fôsseis investigar com mais exatidão sobre o seu caso. Assim, estaremos preparados para matá-lo antes que consiga chegar até aqui”.

na ressurreição (Mt 3.7; Mc 2.16; Lc 5.17). Os fariseus representavam o partido do povo e daqueles que buscavam obedecer à Lei e suas ordenanças em todos os sentidos (muitas vezes de forma exagerada e apenas exterior). Acreditavam na intervenção dos anjos, no Anjo do Senhor, nos espíritos e na ressurreição da alma para a vida eterna. Em 23.9, demonstram a tolerância de Gamaliel (5.33). 3 A expressão original grega, aqui traduzida por “ao lado”, transmite literalmente a idéia de que o Jesus ressurreto “apareceu em pé, logo acima de Paulo”. Nos principais momentos de crise, Paulo recebeu a companhia encorajadora da pessoa do Senhor ressurreto, garantindo-lhe que sua missão seria cumprida cabalmente, pois assim era a vontade de Deus (9.4; 16.9; 18.9; 22.18; 23.11; 27.23). 4 O juramento desses 40 assassinos (zelotes que mais tarde provocariam grande revolução contra Roma) pode ser visto como um símbolo vivo do anátema (maldição) assumido pela nação de Israel quanto à morte de Jesus Cristo (Mt 27.25). 5 As precauções especiais tomadas pelo tribunal revelam o clima de tumulto e revolta que se instalou na cidade por conta dos sucessivos julgamentos de Paulo. A expressão literal em grego, usada aqui para determinar as horas, é: “à hora terceira”, que corresponde “às nove horas da noite” no sistema horário ocidental.

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24 Providenciai também montarias para Paulo, e levai-o em segurança ao governador Félix”.6 25 E o comandante escreveu-lhe uma carta nestes termos:

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32 Todavia, assim que amanheceu, deixaram a cavalaria prosseguir com ele e voltaram para a fortaleza. 33 Quando a cavalaria chegou a Cesaréia, entregou a carta ao governador e apresentou-lhe Paulo. 34 O governador leu a carta e questionou de que província era ele. Ao saber que Paulo era da Cilícia, 35 ordenou: “Vou ouvir-te quando teus acusadores chegarem também”. E mandou que fosse mantido sob custódia no palácio de Herodes.10

A carta de Cláudio a Félix 26 “Cláudio Lísias, ao excelentíssimo governador Félix, saudações. 27 Este homem foi preso pelos judeus e estava a ponto de ser morto por eles quando intervi a seu favor com a tropa e o livrei, assim que soube que era um cidadão romano.7 28 Entretanto, desejando apurar o exato motivo da acusação, levei-o ao Sinédrio dos judeus. 29 Entendi que ele era acusado de questões concernentes às leis deles, mas que nada havia nele que justificasse a pena de morte ou mesmo de prisão.8 30 Quando fui informado de que havia uma conspiração para tirar a vida deste homem, logo o enviei a ti, intimando também seus acusadores que apresentassem o caso contra ele diante de ti”. 31 E, tomando Paulo, conforme lhes fora ordenado, os soldados o levaram durante a noite a Antipátride.9

Paulo é julgado por Félix Passados cinco dias, desceu a Cesaréia, o sumo sacerdote, Ananias, juntamente com alguns líderes dos judeus e um advogado chamado Tértulo, os quais apresentaram diante do governador seus protestos contra Paulo.1 2 Quando foi requerida a presença de Paulo, começou Tértulo a acusá-lo: “Excelentíssimo Félix! Havendo nós, por teu intermédio, desfrutado de um longo período de paz, bem como, por tua providência, reformas são continuamente implementadas nesta nação.

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6 Cláudio manda que alguns cavalos sejam preparados para a viagem de escolta de Paulo e seus companheiros de missão (Lucas, Aristarco). Félix foi o primeiro escravo liberto a chegar a ser governador de uma província romana. Mandar um acusado para um tribunal superior exigia uma carta de esclarecimento, conhecida em latim como “elogium”. 7 Cláudio Lísias age com a típica sutileza e astúcia da maioria das autoridades públicas, procura lançar a responsabilidade pelo tumulto na cidade e pela situação polêmica de Paulo sobre os judeus (veja Gálio em 18.14-15). Para fazer uma boa imagem perante o governador, ele modifica “ligeiramente” os fatos a seu favor. Afinal, o comandante Cláudio não ficou sabendo sobre a cidadania romana de Paulo a não ser quando já estava pronto para interrogá-lo por meio de torturas e açoites (21.38; 22.26). 8 Da mesma maneira como ocorreu no desenrolar do julgamento de Jesus Cristo diante de Pilatos (Lc 23.4-22), Paulo é reconhecido pelos próprios líderes romanos (pagãos) como inocente. 9 Herodes, o Grande, foi quem reconstruiu a cidade de Antipátride (nome do seu pai). Era um porto militar e localizava-se a 60 km de Jerusalém, entre as grandes cidades de Samaria e a Judéia, cuja sede do governo ficava na cidade de Cesaréia, cerca de 40 km de Antipátride. 10 Herodes, o Grande, havia também construído um palácio que lhe servia de residência enquanto estava em visita à província. Todavia, agora era usado como pretório romano, uma espécie de escritório para negócios oficiais do imperador e para hospedar seus procuradores. Havia pretórios erguidos em Roma (Fp 1.13), Éfeso, Jerusalém, Cesaréia e em várias partes do império (Jo 18.28). Capítulo 24 1 Ananias, o sumo sacerdote, após as palavras de advertência lançadas por Paulo contra sua pessoa no Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus, formado por 71 líderes religiosos e políticos) tornou-se um inimigo mortal do apóstolo Paulo (23.2; Êx 3.16; 2Sm 3.17; Jl 1.2; Mt 15.2). Por isso, se dispôs a viajar cerca de 100 km de Jerusalém até Cesaréia com o objetivo de colaborar pessoalmente na possível condenação de Paulo. Algumas versões traduziram literalmente a função de Tértulo, como “orador”. Entretanto, conforme a lei, era necessário que uma pessoa idônea, versada nas leis romanas e em retórica forense, assumisse a missão acusatória formal do processo contra um cidadão romano. Tértulo era um judeu helenístico familiarizado com os processos do tribunal de Roma.

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3 Em tudo e em toda parte nós reconhecemos teus benefícios com profunda gratidão, ó excelentíssimo Félix.2 4 Portanto, a fim de não tomar-te mais tempo, rogamos-te o favor de ouvir-nos por breve momento. 5 Concluímos que este homem é um perturbador, porquanto promove tumultos entre os judeus pelo mundo todo, sendo o principal líder da seita dos nazarenos.3 6 Ele tentou até mesmo profanar o templo, mas nós o prendemos, e era nosso desejo julgá-lo conforme os ditames da nossa lei. 7 Entretanto, o comandante Lísias interveio, e, usando de violência, o arrebatou de nossas mãos e ordenou que os queixosos viessem apresentar seus protestos diante de ti. 8 Assim, se tu mesmo o interrogares, poderás verificar a verdade a respeito de todas estas acusações que estamos fazendo contra ele!” 9 Em seguida, os líderes judeus confirmaram a acusação, testemunhando que tais afirmações eram, de fato, verídicas.

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11 Bem podes verificar com facilidade que

Paulo expõe sua defesa 10 Então, Paulo, tendo atendido ao si-nal do governador para que falasse, exclamou: “Sei que há muitos anos tens sido juiz sobre esta nação e por essa razão, sinto-me motivado a falar em minha própria defesa.4

não faz mais de doze dias desde que subi de Jerusalém para adorar a Deus. 12 Aqueles que me protestam não me acharam conversando com ninguém no templo, nem tumultuando o povo nas sinagogas ou em qualquer outro lugar da cidade! 13 Nem ao menos tem como te provar as acusações que nesse momento estão levantando contra mim diante de ti. 14 Contudo, confesso-te que sirvo sim ao Deus de nossos pais como discípulo do Caminho, a que denominam seita. Creio em tudo o que está de acordo com a Lei e no que está escrito nos Profetas, 15 depositando em Deus a mesma esperança desses homens; de que haverá ressurreição, tanto de justos como de injustos.5 16 Por esse motivo, busco sempre manter minha consciência limpa na presença de Deus e dos homens.6 17 Depois de vários anos ausente de Jerusalém, voltei trazendo ajuda financeira doada ao meu povo, bem como para apresentar ofertas a Deus. 18 Enquanto assim procedia, já cerimonialmente purificado, encontraram-me no templo, no entanto, sem envolver-me em qualquer incitamento público ou tumulto.7

2 Nos altos escalões do poder, desde a antigüidade, lisonja, bajulação e subserviência são atitudes desonestas empregadas por alguns para conquistar favor e benevolência. 3 O promotor de acusação tenta incriminar Paulo acusando-o de ser o principal líder de uma seita judaica. Já era comum chamar os cristãos de nazarenos, por causa da terra natal de Jesus. Assim, Tértulo aproveitou esse fato para transformar em duas acusações fatais contra Paulo: ser líder de uma ramificação religiosa ainda não aprovada por Roma, o que era frontalmente contra a lei. E, provocar tumultos, desordens públicas ou dissensões em várias das províncias romanas, o que era sumariamente interpretado como um ato de traição a César e, portanto, sujeito a pena capital. 4 Paulo atende ao regime protocolar, respeitoso e formal para sua defesa, entretanto não usa de adulações e falsas exaltações. Paulo cita fatos exatos e comprovados e apela à justiça. 5 Paulo demonstra que o cristianismo não seria uma seita do judaísmo, mas que Jesus veio completar a obra da salvação da humanidade, desde a antigüidade, anunciada e profetizada por todos os servos do Senhor. Neste sentido, seguir o Caminho da justiça e da verdade era dever de todo judeu, e Paulo não se excluía dessa condição, pois era judeu de nascimento e por fé em Deus e em Sua Palavra. Aguardava a ressurreição dos salvos e o Juízo, como todo bom judeu (o que deve ter acirrado a antiga polêmica entre saduceus e fariseus). Paulo aproveita para alertar que os injustos (não salvos, injustificáveis) também serão ressuscitados, todavia para a condenação final (Ap 20.5-12). 6 Paulo faz referência ao auto-exame de consciência diante de Deus, e que toda pessoa deve fazer periodicamente a fim de verificar se seus sentimentos e atitudes estão condizendo com a vontade soberana do Senhor ou são apenas reflexos do arbítrio egoísta e predatório do indivíduo humano e da sociedade em que vive (Rm 2.15; 9.1). 7 Paulo oferece um outro fato comprovado das suas reais intenções e ações. Ele havia trazido uma soma considerável em contribuições (esmolas) oferecidas pelas igrejas cristãs na Ásia e Europa, para ajudar o povo necessitado (em todos os sentidos) de Jerusalém, especialmente naqueles dias (1Co 16.1; 2Co 8.1; Rm 15.25; At 20.4). Além disso, Paulo tinha o apreciável hábito

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19 Contudo, há alguns outros líderes judeus da província da Ásia que deveriam estar aqui diante da tua presença para apresentar seus protestos, se tivessem alguma acusação contra mim.8 20 Ou, ao menos, aqueles que aqui se encontram, professem que crime encontraram em mim, quando compareci perante o Sinédrio, 21 a não ser com referência a essa única palavra que bradei, estando no meio deles: É por causa da ressurreição dos mortos que hoje estou sendo condenado por vós!”

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Félix e sua esposa ouvem Paulo 22 E aconteceu que Félix, tendo bom conhecimento do Caminho, adiou o julgamento da causa, determinando: “Quando o comandante Lísias chegar aqui, decidirei a vossa questão!”9 23 Em seguida, ordenou ao centurião que mantivesse Paulo sob custódia, mas que lhe desse certa liberdade e permitisse aos seus companheiros que o servissem. 24 Passados vários dias, Félix veio com Drusila, sua esposa que era judia, e orde-

nou que lhe trouxessem Paulo e o ouviu falar sobre a fé em Cristo Jesus. 25 Quando Paulo começou a pregar sobre a justiça, o domínio próprio e o juízo vindouro, Félix ficou apavorado e exclamou: “Basta, por agora! Podes retirar-te, em outra ocasião, mais conveniente, te mandarei chamar outra vez”.10 26 Ao mesmo tempo, esperava que Paulo lhe oferecesse algum suborno e, por isso, o convocava para freqüentes conversas.11 27 E, assim, passaram-se dois anos, quando Félix foi sucedido por Pórcio Festo; todavia, como desejava manter a simpatia dos judeus, Felix deixou Paulo encarcerado.12 Paulo é julgado por Festo Festo chegou à província e, depois de três dias, subiu de Cesaréia a Jerusalém.1 2 Os chefes dos sacerdotes e os mais eminentes líderes judeus compareceram diante dele e apresentaram-lhe as acusações contra Paulo. 3 Então, rogaram a Festo o favor de transferir Paulo para Jerusalém, em de-

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espiritual (não muito comum entre os líderes religiosos de nossos dias) de ajudar pessoalmente, e com seus próprios recursos financeiros, a muitos de seus companheiros de ministério (21.24). Paulo ainda, como judeu fariseu, observava as leis sobre purificação pessoal e doações (oferendas) a Deus no templo. 8 Os líderes judeus da Ásia, que amotinaram as multidões, deviam também prestar seus depoimentos, porquanto foram testemunhas oculares. 9 Félix era aquele tipo de pessoa muito comum em nossos dias: conhecia a história de Cristo, tinha medo da morte e do julgamento final, mas não queria saber de entregar sua vida para ser conduzida pelo Espírito de Deus. A esposa de Félix era judia, e já o havia informado sobre a Deus, os Profetas e o Caminho. Drusila foi a filha mais nova de Herodes I (12.1) e irmã de Agripa II (25.13) e de Berenice. A história registra que Drusila deixou Azizo, rei Emessa, aos 16 anos de idade, um ano após seu casamento, para se tornar a terceira esposa de Félix. O filho de Drusila, também chamado Agripa, morreu na erupção do monte Vesúvio em 79 d.C. 10 Paulo não perdia tempo nem jogava palavras ao vento. Sua objetividade e praticidade, orientadas pelo Espírito Santo, o levavam sempre e direto ao coração do indivíduo e às suas maiores necessidades. Paulo poderia ter clamado por sua libertação ou preparado uma mensagem suave e de bons presságios. Entretanto, Paulo falou – da parte do Senhor – sobre o que Félix e Drusila mais necessitavam: arrependimento e salvação. A reação foi semelhante a de Herodes Antipas diante de João (Mc 6.20). 11 Como a maioria das pessoas poderosas, Félix era um homem que nutria grande avareza. Seus convites para ouvir a Paulo tinham na realidade um interesse material. Félix soube da expressiva oferta financeira que Paulo havia entregado à igreja em Jerusalém e imaginou que poderia ter acesso a essa fonte vultuosa de recursos por meio de um possível suborno e, por isso, passou dois anos tentando a Paulo, porém, sem êxito. 12 A história registra que Félix foi chamado de volta a Roma no ano 60 d.C. para prestar contas por várias irregularidades observadas em seu governo, inclusive a maneira como lidou com os motins ocorridos entre judeus e sírios. Sabendo que em breve teria que enfrentar os judeus num tribunal romano, preferiu deixar Paulo na prisão, ainda que vencido o prazo limite de custódia de um cidadão romano sem julgamento, a fim de não provocar ainda mais a revolta dos judeus contra sua pessoa. Festo morreu dois anos após ter assumido o cargo. Agiu com honestidade e justiça muito superiores às de Félix, e às de seu sucessor Albino. Capítulo 25 1 Festo tinha pressa em chegar ao centro das decisões político-religiosas judaicas e, por isso, viajou cerca de 100 km de Cesaréia a Jerusalém em dois dias.

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9 Porém, Festo, desejando ser agradável aos judeus, inquiriu a Paulo: “Desejas tu subir a Jerusalém para ali ser julgado por mim a respeito dessas acusações?”. 10 Replicou-lhe Paulo: “Eis que estou diante do tribunal de César, onde convém seja eu julgado; nenhum crime pratiquei contra os judeus, como tu muito bem sabes. 11 Contudo, se fiz qualquer mal ou pratiquei algum crime que mereça a pena de morte, estou pronto para morrer. Mas, se não são verdadeiras as acusações que me afrontam esses homens, ninguém tem o direito de me entregar a eles. Portanto, apelo para César!”.6 12 Assim, depois de haver consultado seus conselheiros, Festo determinou: “Apelaste para César, para César irás!”.

trimento do direito de Paulo, pois estavam tramando matá-lo na estrada.2 4 Todavia, Festo respondeu: “Paulo está detido em Cesaréia, e eu mesmo brevemente partirei para lá. 5 Enviem comigo alguns dos seus líderes e apresentem ali os vossos protestos contra esse homem, se de fato ele cometeu algum crime”.3 6 Havendo passado entre eles cerca de oito a dez dias, desceu para Cesaréia e, no dia seguinte, convocou o tribunal e mandou que Paulo fosse trazido diante dele. 7 Assim que Paulo apareceu, os líderes judeus que haviam chegado de Jerusalém se aglomeraram ao seu redor, lançando sobre ele um grande número de ofensas e graves acusações, sobre as quais não tinham provas.4 8 Então, Paulo tomou a palavra em sua defesa: “Em verdade não tenho cometido pecado algum contra a Lei dos judeus, nem contra o templo ou tampouco contra César.5

Festo aconselha-se com Agripa 13 Passados alguns dias, chegaram a Cesaréia, o rei Agripa e Berenice em visita de boas-vindas a Festo.7 14 E, como ficaram na cidade por muitos

2 O mesmo grupo que fizera o voto de tirar a vida de Paulo (23.12) continuava trabalhando em sua cilada fatal contra o apóstolo do Senhor. 3 Algumas versões trazem a palavra “habilitados”, porém, o sentido mais claro e preciso da expressão no original refere-se às “pessoas em posição de poder”, portanto, “líderes”. 4 Paulo era judeu e cidadão romano por nascimento. Isso requeria todo um cuidado das autoridades das duas nações em relação a um justo julgamento. Por isso, Festo se apressa em convocar o tribunal com a presença de alguns líderes ilustres do Supremo Tribunal dos Judeus (Sinédrio). Novamente, como na primeira audiência, ficou claro que as acusações contra Paulo eram todas sem fundamento. Os adversários de Paulo não apresentaram nenhuma testemunha ou evidência. 5 Paulo respeitava a Lei e, como fariseu, muitas das ordenanças rabínicas (Rm 7.12; 8.3,4; 1Co 9.20). Ele não havia afrontado os costumes e as tradições que os judeus observavam em relação ao templo e, portanto, não havia levado Trófimo às áreas proibidas (21.28-29). Jesus já havia profetizado a destruição do templo, mas, nem Jesus nem seus discípulos seriam responsáveis por sua lastimável (e cada vez pior) condição (Lc 21.5,6). Mesmo que proclamando com veemência e insistência a chegada do Reino de Deus, Paulo não rivalizava contra a política de César (17.6,7). Ao contrário, pregava sobre o respeito aos deveres civis, à lei e à ordem (Rm 13.1-7), com contínuas orações pelos representantes e governantes dos cidadãos (1Tm 2.2). 6 Paulo não temia a morte, pois tinha certeza absoluta de sua vida eterna em Cristo. Seus planos eram mais ambiciosos do que ser absolvido ou preservar a própria vida na terra. Paulo almejava ver o cristianismo aceito legalmente por Roma como religião independente do judaísmo, para que a Igreja e os demais discípulos parassem de sofrer tantas perseguições violentas. Percebendo que Festo estava (politicamente) inclinado a dar preferência aos líderes judeus em detrimento à justiça, Paulo faz uso do direito romano de ser ouvido por César (ou um seu procurador em Roma) sobre seu caso. Então profere, em latim, sua petição: prouocatio ad Caesarem. Esse era um dos mais antigos e respeitados direitos do código legal de Roma e era concedido a todo cidadão romano desde 509 a.C. O imperador na época era Nero, que havia sucedido Cláudio em 54 d.C., e governou até 68 d.C. Seus primeiros anos, sob os conselhos e orientações filosóficas de Sêneca representam seu período mais sensato e profícuo. 7 Fazia parte da tradição que os reis locais fizessem uma visita de cortesia às autoridades romanas destacadas para assumir o cargo de representantes do imperador em cada província ocupada por Roma. Era de recíproca vantagem que convivessem em harmonia (por exemplo: Herodes Antipas e Pilatos em Lc 23.6-12). O rei Agripa II (o último dos Herodes), filho de Herodes Agripa I (At 12.1), rei da Galiléia e Peréia. De todos os Herodes, esse foi o mais justo. Berenice foi irmã de Drusila e Agripa II. Depois tornou-se amante de Tito, filho do imperador Vespasiano e responsável pela completa destruição de Jerusalém em 70 d.C. Era natural de Festo que pedisse ajuda a Agripa, pois, dentro do judaísmo, ele tinha o poder de nomear o sumo sacerdote.

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dias, Festo expôs ao rei o caso de Paulo, compartilhando: “Há aqui certo homem que Félix abandonou na prisão. 15 Quando estive em Jerusalém, os chefes dos sacerdotes e os líderes dos judeus protestaram graves acusações contra ele, reivindicando que fosse condenado. 16 Entretanto, eu lhes expliquei que não é costume dos romanos condenar ninguém sem que o acusado tenha diante de si os acusadores e possa exercer plenamente o seu direito à defesa. 17 Quando eles se reuniram aqui, no dia seguinte, sem perda de tempo, convoquei o tribunal e ordenei que o homem fosse apresentado. 18 No entanto, quando seus acusadores se levantaram para proceder às acusações, não apontaram nenhum dos crimes que eu imaginava. 19 Ao contrário, levantaram apenas algumas questões relativas à sua própria religião, sobre as quais discordavam dele; e quanto a um certo Jesus, já morto, o qual Paulo alega insistentemente que está vivo.8 20 Diante de tudo isso, fiquei sem saber como investigar corretamente a questão; por isso, indaguei se ele estaria disposto a ir a Jerusalém e ali ser julgado a respeito destas acusações. 21 Porém, apelando Paulo para que ficasse sob custódia até ser julgado pelo imperador, ordenei que permanecesse detido, aguardando o momento em que eu o pudesse enviar a César”.9 22 Então, o rei Agripa propôs a Festo: “Pois eu também gostaria de ouvir esse

homem”. Ao que Festo consentiu: “Amanhã o ouvirás”.10 Paulo diante de Agripa e sua corte No dia seguinte, Agripa e Berenice chegaram com grande pompa e entraram na sala de audiências juntamente com seus altos oficiais e os homens mais importantes da cidade. Então, por ordem de Festo, Paulo foi trazido. 24 Em seguida, Festo declarou: “Rei Agripa e vós todos que estais presentes conosco, vedes que aqui está o homem por causa de quem toda a comunidade dos judeus, tanto em Jerusalém como aqui, recorreu a mim, afirmando que ele não deve mais viver. 25 Eu, todavia, entendi que ele não havia praticado nada que mereça pena de morte. Mas, como ele apelou para o imperador, decidi enviá-lo a Roma. 26 No entanto, não tenho ainda nada definido quanto ao que escrever sobre ele ao nosso soberano. Por essa razão, eu o trouxe perante vós, especialmente diante de ti, ó rei Agripa, para que, depois de realizado esse interrogatório, eu tenha informações mais claras a prestar. 27 Porquanto, não me parece sensato enviar um preso sem antes notificar as acusações que pesam sobre ele”.
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Agripa ouve a defesa de Paulo Então, Agripa, dirigindo-se a Paulo, declarou: “É permitido que faças uso da palavra em tua defesa!”. Em seguida, Paulo fez um sinal com a mão e iniciou a apresentação de sua defesa:1

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8 A palavra “religião”, usada na explanação de Festo a Agripa, tem a conotação, nos originais gregos, de “superstição”. É a mesma expressão usada por Paulo no Areópago (17.22) ao se referir ao modo de crer dos atenienses. 9 A expressão usada por Festo, aqui traduzida por “imperador e César” foi “Augustus”, que em latim era o título de maior honra e poder atribuído aos imperadores romanos, palavra traduzida para o grego como “sebastos”, ou seja, “excelso”, “sublime”. 10 A vida e a pregação de Paulo eram tão extraordinárias que Agripa desejou ouvi-lo, assim como Antipas desejou ouvir a Jesus (Lc 9.9; 23.8). Por mais brutais que fossem, os romanos admiravam e respeitavam a coragem e a verdade como a imagem da divindade nos homens (Imago Dei). Capítulo 26 1 Festo outorgou ao rei Agripa a presidência dessa audiência em sinal de cortesia. Jesus, entretanto, já havia previsto que muitos de seus apóstolos e discípulos seriam levados à presença de governadores, reis e pessoas influentes para testemunharem da fé cristã (Mc 10.18). Paulo cumpre essa predição diante de Félix, Festo, Agripa e finalmente César (Nero). Lucas está presente nessa sessão, anotando detalhes para seus livros.

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2 “Ó rei Agripa, considero-me abençoado por poder estar hoje em tua presença a fim de verbalizar minha defesa contra todas as acusações dos líderes judeus, 3 especialmente porque és versado em todos os costumes e questões que há entre os judeus. Por este motivo, rogo-te que me ouças com paciência.2 4 É do pleno conhecimento de todos os judeus como tenho vivido desde criança, tanto em minha terra natal como em Jerusalém. 5 Eles me conhecem há muito tempo e podem testemunhar, se assim o desejarem, que como fariseu, vivi conforme os ditames da seita mais rigorosa de nossa religião. 6 Contudo, agora estou aqui para ser julgado por causa da esperança da promessa feita por Deus aos nossos antepassados.3 7 Esta é a promessa que as nossas doze tribos esperam que se cumpra, cultuando a Deus com todo fervor, dia e noite sem parar. É precisamente por essa esperança que estou sendo acusado pelos líderes judeus. 8 Por que se julga inacreditável, entre vós, que Deus ressuscite os mortos?4 9 Eu igualmente estava seguro de que deveria me opor ao Nome de Jesus, o Nazareno. 10 E foi exatamente assim que procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autoriza-

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ção dos chefes dos sacerdotes atirei muitos santos aos cárceres, e quando eram sentenciados à pena de morte eu sempre dava meu voto contra eles. 11 Várias vezes corri de sinagoga em sinagoga com o objetivo de castigá-los, e fazia de tudo para obrigá-los a blasfemar. Em minha fúria obstinada contra eles, atravessei terras estrangeiras para capturá-los.5 12 Em uma dessas viagens estava me dirigindo para Damasco, com autorização dos chefes dos sacerdotes e por eles próprios comissionado. 13 Entretanto, por volta do meio-dia, ó rei, estando eu a caminho, vi uma luz do céu, muito mais brilhante do que o sol, resplandecendo em torno de mim e dos que caminhavam comigo. 14 E, caindo todos nós por terra, ouvi uma voz que me falava em aramaico: ‘Saul, Saul, por que razão me persegues? Porquanto resistires ao aguilhão só te causará sofrimento!’ 15 Foi quando indaguei: ‘Quem és tu, Senhor?’ Ao que replicou o Senhor: ‘Sou Jesus, a quem tu estás perseguindo! 16 Agora, pois, levanta-te e apruma-te em pé. Foi para isso que te apareci: para te converter em servo e testemunha, tanto das maravilhas que viste de minha parte como daquelas que te manifestarei.6

2 Agripa, como rei judeu, tinha o poder de indicar e nomear os sumos sacerdotes, controlava as finanças e toda a administração geral do templo. Era consultado pelo império romano em tudo o que se referia a questões religiosas judaicas. Essa foi uma das razões pelas quais Festo tinha interesse em que Agripa fizesse uma avaliação do caso de Paulo, pois Roma não interferia e respeitava os cultos dos povos que dominava, desejando apenas a submissão política, econômica e a ordem social. Esse foi um dos motivos de os gregos terem influenciado tanto as artes e quanto o modo de pensar romano, pois ainda que dominados militarmente, tornaram-se os dominadores culturais de Roma. 3 Devido a sua inteligência e dedicação ao judaísmo, Paulo era conhecido desde a infância pelos líderes judeus, tendo observado fielmente todas as ordenanças dos fariseus até seu encontro com Jesus, que ampliou sua perspectiva quanto ao Reino de Deus (Gl 1.14). Agora, sua “esperança” incluía: uma visão completa do Rei e do Reino, o conhecimento do Messias e a certeza da vida eterna (a ressurreição em Cristo). 4 Paulo sabia que o rei Agripa, como a maioria dos líderes judeus, fazia parte do partido de elite dos saduceus. Os romanos, como Festo e as demais autoridades, também não acreditavam na ressurreição dos mortos e no juízo final. Paulo – ainda que correndo o risco de ofender a sensibilidade do rei e das autoridades – fala a verdade sobre o tema mais importante das nossas vidas: onde vamos passar a eternidade? 5 Após seu encontro com Jesus e conversão, Paulo dedicou-se ainda muito mais a cumprir a vontade do seu Senhor do que a satisfazer seus próprios desejos (2Co 3.5). Paulo é o maior exemplo de como uma pessoa perdida e iludida por um sistema de valores e idéias errôneas pode, ao receber a Luz de Cristo (o Espírito Santo), converter-se radicalmente dos seus maus caminhos e servir a Deus com poder, honra e glória espiritual até a morte (Jo 8.12; Cl 1,12,13; 1Pe 1.4). 6 Paulo cita um provérbio grego, muito conhecido na época, a respeito da resistência inútil dos bois durante o manejo: “assim agindo, o touro só consegue se ferir nas pontas afiadas dos aguilhões”. A seguir, vemos mais uma prova da ordenação de Paulo como apóstolo do Senhor. Paulo cita a mesma frase usada por Deus para a comissão do profeta Ezequiel (Ez 2.1). Paulo passa a

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17 Irei livrar-te deste povo e dos gentios para os quais te envio, 18 para lhes abrir os olhos e os converteres das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus, a fim de que recebam o perdão dos pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim’.7 19 Sendo assim, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial. 20 Preguei em primeiro lugar aos que estavam em Damasco, em seguida aos que estavam em Jerusalém e depois, em toda a Judéia e igualmente aos gentios, admoestando que se arrependessem e convertessem suas vidas para Deus, praticando obras que denotassem seu sincero arrependimento. 21 E foi por isso que, alguns líderes judeus me prenderam, estando eu no templo, e tentaram assassinar-me. 22 Todavia, tenho sido agraciado com a ajuda de Deus até o dia de hoje, e por essa razão, estou aqui e posso testemunhar tanto às pessoas simples como aos cultos e notáveis. Não estou dizendo nada além do que os profetas e Moisés nos advertiram que haveria de ocorrer.8

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23 Ou seja, como Cristo deveria sofrer, e como Ele seria o primeiro que, pela ressurreição dos mortos, anunciaria Luz a esse povo e, de igual modo, a todos os gentios”.9 24 Todavia, enquanto Paulo apresentava sua defesa, Festo interrompeu o discurso e exclamou irritado: “Estás louco, Paulo! As muitas letras te fazem delirar!”. 25 No entanto, Paulo argumentou: “Não estou enlouquecido, ó excelentíssimo Festo, muito diferente disto, estou declarando palavras verdadeiras e em pleno juízo!10 26 Porquanto o rei, perante a quem falo sinceramente, compreende bem esses assuntos. E, por isso, não acredito que nada do que falei vos tenha escapado ao conhecimento; posto que esses eventos não ocorreram em um canto, às escondidas. 27 Acreditais, ó rei Agripa, nos profetas? Sei que credes!”.11 28 Então, o rei Agripa ponderou: “Crês tu que em tão pouco tempo podes persuadir-me a converter-me em um cristão?”.12 29 Diante do que Paulo declarou: “Seja em pouco ou muito tempo, suplico a

ser ministro e testemunha do Deus vivo (1.8; Gl 1.16-17). Paulo é mandado estender a missão do Servo de Jeová, o Senhor Jesus (Is 42.7,16). Perseguir os cristãos é lutar contra Jesus, pois Cristo identifica-se com Seu Corpo (1Co 12.12; Cl 1.24). 7 A missão de Paulo e de todos os discípulos de Cristo é cooperar para que judeus e gentios (todos que não nasceram judeus) sejam convertidos de um sistema mundial caótico e que ruma inexoravelmente para um fim tenebroso, para a maravilhosa luz de Cristo. Essa é a figura de linguagem característica dos ensinos de Paulo (Rm 13.12; 2Co 4.6; Ef 5.8-14; Gl 1.13; 1Ts 5.5). A santificação (expressão dos originais hebraicos e que significa “separados para habitação do Senhor”) é uma “posição” à qual somos elevados por ocasião da conversão a Cristo; não é possível “santificar-se” apenas por boas obras. Esse é um dos méritos exclusivos do sangue (sacrifício vicário) de Jesus (20.32; 1Co 1.2). 8 As obras não podem salvar, mas revelam o caráter transformado (nascido de novo) pelo Espírito Santo. Os profetas e Moisés significam o AT (Lc 24.27-44). 9 A Bíblia conta vários casos de mortos que voltaram à vida. No próprio dia da crucificação de Jesus, os sepulcros se abriram e a população de Jerusalém viu muitos de seus mortos, ressurretos, caminhando para dentro da cidade (Mt 27.52,53). Todavia, todos eles, um dia morreram novamente. Jesus foi o primeiro a ressurgir com um corpo imortal (2Tm 1.10; 1Co 15.20). Esse é mais um exemplo de Jesus de que nós também, seus discípulos, ressurgiremos para viver eternamente com Ele. 10 A expressão original grega, aqui traduzida por “louco”, tinha na antigüidade e no contexto em que fora proferida por Festo o sentido de “delírios inspirados por espíritos misteriosos” (16.16; Mc 3.21; Jo 10.20). O governador acreditava que a erudição de Paulo e sua extrema dedicação ao estudo das Sagradas Escrituras o haviam conduzido a uma obsessão doentia (inclusive por repetir freqüentemente a visão e o encontro com Jesus que tivera) sobre os temas: profecias e ressurreição. 11 Paulo coloca o rei Agripa em uma encruzilhada teológica: se respondesse que sim, Paulo o pressionaria a aceitar Jesus como o cumprimento cabal das palavras dos profetas. Se, dissesse não, teria de se explicar aos muitos judeus devotos que criam na mensagem dos profetas como a própria Palavra de Deus. 12 O rei Agripa, como todo político ardiloso, só responde o que lhe interessa e, portanto, leva o assunto com certa ironia para o âmbito pessoal, sugerindo que, apesar da cultura e da boa argumentação de Paulo, seria necessário mais tempo e maior análise para que o rei pudesse ser convencido sobre a relevância do cristianismo.

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3 No dia seguinte, chegamos a Sidom, e Júlio, num gesto de bondade para com Paulo, consentiu-lhe que fosse visitar seus amigos e receber deles o suprimento de suas necessidades. 4 Partindo dali, fomos navegando próximo à costa norte de Chipre, porquanto os ventos eram contrários. 5 Havendo atravessado o mar aberto ao longo da Cilícia e Panfília, aportamos em Mirra, na Lícia. 6 Ali, o centurião encontrou um navio alexandrino que estava pronto a rumar para Itália e ordenou que embarcássemos nele.3 7 Navegamos lentamente por muitos dias, e foi em meio a muita dificuldade que chegamos a Cnido; não nos permitindo os ventos prosseguir mais adiante, navegamos ao sul de Creta, defronte de Salmona.4 8 E, enfrentando o mar e os ventos, costeamos a ilha até alcançar um lugar chamado Bons Portos, perto do qual ficava a cidade de Laséia. 9 Tendo perdido muito tempo, agora a navegação por aquelas águas tornara-se por demais perigosa. Eis que o Dia da

Deus que não somente tu, ó rei, mas todas as pessoas que hoje me ouvem se tornem como eu, todavia, livres dessas algemas!”.13 30 Então, o rei se levantou, e com ele o governador e Berenice, seguidos de todos que com eles estavam assentados. 31 E, retirando-se do salão, comentavam entre si: “Este homem não fez absolutamente nada que merecesse prisão, nem muito menos à pena de morte”. 32 E aconteceu que Agripa confessou a Festo: “Este homem bem poderia ser posto em liberdade, caso não tivesse apelado para César”.14 Paulo embarca para Roma Então, foi determinado que navegássemos para a Itália. Paulo e alguns outros presos foram entregues a um centurião chamado Júlio, que pertencia ao regimento imperial.1 2 Embarcamos num navio de Adrimítio, que estava prestes a navegar para alguns portos pela costa da província da Ásia, e saímos ao mar. Estava conosco Aristarco, um macedônio de Tessalônica.2

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13 Paulo não estava discursando com o principal objetivo de converter o rei, mas já que Agripa tocou no assunto, o servo do Senhor não hesitou. Em sua contestação ao rei, fica claro nos originais gregos que Paulo – deixando a reivindicação do seu direito em segundo plano – eleva uma sincera oração a Deus pela conversão do rei e de todas as autoridades ali presentes. Paulo revela: “com poucas ou muitas palavras, sob poucas ou muitas dificuldades”, a Palavra do Senhor será anunciada e bem-aventurados todos aqueles que a ouvirem e deixarem seus corações serem convertidos pelo Espírito Santo. 14 A história revela que muitos magistrados, aristocratas e autoridades (romanos e judeus) converteram-se ao Senhor devido aos testemunhos de Jesus, Paulo e outros discípulos, mas preferiram manter sua fé em segredo, enquanto buscavam crescer espiritualmente, para mais tarde revelarem-se plenamente e publicamente como seguidores de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus (Jo 12.42). Agripa, Berenice e muitas autoridades presentes acrescentaram suas valiosas opiniões à de Festo e Félix ao afirmarem categoricamente que Paulo não tinha qualquer culpa no processo movido contra ele pelos seus compatriotas e irmãos judeus (Lc 23.14,15). Capítulo 27 1 Uma vez mais, a narrativa de Lucas passa a se utilizar da primeira pessoa do plural (assim como em 16.10 e 21.18). Esse capítulo é um dos mais belos exemplos de narrativa descritiva do NT. A expressão “Corte Imperial”, como aparece em versões antigas, ou “regime imperial”, era a designação que Roma dava à legião especial que atendia diretamente às necessidades de César. 2 Adrimítio era um porto que se localizava no litoral oeste da província da Ásia, a sudeste de Trôade, a leste de Assôs. Pelo menos, dois irmãos em Cristo acompanhavam Paulo nessa difícil viagem: Lucas e Aristarco, um dos cristãos escolhidos para levar a contribuição aos crentes pobres de Jerusalém (20.4; Cl 4.10). 3 Alexandria era o principal porto de exportação de trigo para Roma. Navios egípcios, como esse, acomodavam facilmente 276 pessoas e cerca de 300 toneladas de carga (vv. 37-38). Nos finais de verão, os ventos costumam soprar do oeste tornando necessário prosseguir até a Ásia (Mira) antes de voltar para oeste. 4 De Mirra para Cnido, localizada na extremidade sudoeste da Ásia Menor, a distância era de aproximadamente 300 Km. Essa viagem levou cerca de 15 dias. Creta era uma ilha com cerca de 280 Km de extensão. O navio deveria ter rumado diretamente para a Grécia por mar aberto, mas foi forçado a desviar-se para o sul, buscando navegar para o oeste usando a ilha de Creta ao norte, como certa proteção contra as violentas tempestades (“ao sul de Creta”).

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16 Passando ao sul e bem próximos de uma ilhota chamada Clauda, foi com extremo esforço que içamos a bordo o bote salva-vidas.8 17 Conseguindo recolher o bote para dentro do navio, empregaram todos os recursos para reforçar a embarcação com cordas; e temendo que encalhasse nos bancos de areia de Sirte, baixaram as velas e largaram o navio à deriva.9 18 Contudo, no dia seguinte, sendo violentamente castigados pela tempestade, começamos a atirar ao mar a carga do navio. 19 Ao terceiro dia, em meio à tempestade, com as próprias mãos, lançaram fora a armação do navio.10 20 Nem sol, nem estrelas foram avistados por muitos dias. Aqueles ventos devastadores e o mar revolto abateram-se com ímpeto sobre nós a ponto de perdermos toda a esperança de sermos salvos. 21 E, após muito tempo sem comer, Paulo se pôs de pé no meio deles e admoestouos: “Senhores, devíeis ter dado ouvidos aos meus conselhos e não ter saído de Creta naqueles dias, pois dessa forma teriam evitado este dano e prejuízo.11 22 Entretanto, agora, exorto-vos a que tenhais bom ânimo, porquanto não se perderá vida alguma entre nós, mas somente o navio será destruído. 23 Pois ontem, durante a noite, apareceu-

Expiação já havia passado e, portanto, Paulo os advertiu:5 10 “Senhores, antevejo que essa viagem será desastrosa, com avarias e muito prejuízo, não apenas em relação à carga e ao navio, mas também para nossas próprias vidas!”. 11 Todavia, o centurião, em vez de dar ouvidos às palavras de Paulo, preferiu seguir as sugestões do piloto e do proprietário do navio. 12 Levando em consideração que o porto não era apropriado para passar o inverno, a maioria decidiu que deveríamos seguir navegando, com a esperança de alcançar Fenice e ali passar o inverno. Este era um porto de Creta, e que dava saída para sudoeste e noroeste.6 O anjo fala a Paulo na tempestade 13 Soprando brandamente o vento sul, e acreditando eles haverem conseguido alcançar o que almejavam, levantaram âncoras e foram costeando Creta bem próximo da ilha. 14 Todavia, pouco tempo depois, desencadeou-se contra a ilha uma espécie de furacão conhecido como vento Nordeste.7 15 E, sendo o navio lançado para fora de curso, e não podendo navegar contra o vento, nos rendemos à sua fúria; cessamos as tentativas de manobras e nos deixamos ser levados.

5 O Dia da Expiação (em hebraico Yom Kippur – Dia do Perdão), para os judeus, caía no final de setembro ou início de outubro. Os judeus projetavam o período seguro de navegação entre o Pentecostes (maio e junho) até a Festa dos Tabernáculos, cinco dias após o Dia da Expiação. Os romanos consideravam a navegação após o dia 15 de setembro perigosa e, após o dia 11 de novembro, suicida. 6 As decisões finais sobre a viagem cabiam ao centurião, devido a sua posição de oficial representante do imperador e por causa dos interesses de Roma, considerando que o comércio de trigo egípcio era um monopólio do governo romano nessa época. Fenice era uma cidade grande com um porto protegido contra as tempestades e, portanto, adequado para invernar. 7 O vento Nordeste ou Euroaquilão, como aparece em versões mais antigas, é um tufão com ventos violentos que sopram de leste-nordeste (o Euro-Aquilão) e que desviou o navio do seu curso planejado. 8 Clauda era uma ilha que ficava a cerca de 30 Km de Creta e serviu de abrigo para que os marinheiros pudessem se preparar melhor para enfrentar as tempestades à frente. Recolheram a bordo o bote salva-vidas, que normalmente navegava rebocado atrás do navio, pois, por causa da violência dos ventos e do mar, estava atrapalhando as manobras do navio e correndo o risco de colidir contra o casco do navio provocando sérias avariações. 9 Em casos de furacões, era costume atravessar cordas por baixo das grandes embarcações, a fim de evitar que todo o navio se despedaçasse. Sirte era uma longa extensão de bancos de areia movediça desolados, ao longo da África do Norte, nas proximidades do litoral da Tunísia e da costa norte da Líbia (Trípoli). Estavam longe desses bancos de areia, mas considerando a fúria dos ventos e do mar, esse era um risco bastante possível. 10 O mastreado, as pranchas e uma das velas principais com toda a sua estrutura foram arrancadas e amarradas para serem arrastadas atrás do navio, servindo de freio. 11 Naquela época, sem o sol, a lua e as estrelas, era impossível calcular a posição onde um navio se encontrava em alto mar e, muito menos, determinar uma rota a seguir. Apesar de não haverem dado ouvidos a Paulo no início da viagem, mesmo agora, em meio às dificuldades provocadas pela imprudência dos comandantes e tripulação, ele tinha boas novas para todos (vv.22-26).

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31 Então, Paulo declarou ao centurião e aos soldados: “Caso estes homens não permaneçam conosco a bordo, vós não podereis ser salvos!”.15 32 Diante disso, os soldados cortaram as cordas que prendiam o bote salva-vidas ao navio e o deixaram cair ao mar. 33 Logo aos primeiros sinais do alvorecer, Paulo insistia que todos voltassem a se alimentar, encorajando-os: “Hoje já é o décimo quarto dia que estais em vigília contínua e em absoluto jejum. 34 Eis que agora eu vos exorto a que comais algo, porquanto somente dessa maneira podereis sobreviver. Nenhum de vós perderá um só fio de cabelo!” 35 E, havendo dito isso, tomou pão e deu graças a Deus diante de todos. Em seguida, partiu o pão e começou a comer.16 36 Num momento, todos se reanimaram e também se alimentaram. 37 Estavam a bordo duzentas e setenta e seis pessoas. 38 Depois de haverem comido até ficarem plenamente satisfeitos, aliviaram ainda mais o peso do navio, lançando todo o trigo no mar.17 39 Quando se fez dia claro não reconheceram a terra, mas puderam avistar uma enseada, onde havia praia, e decidiram que o melhor seria tentar encalhar o navio ali. 40 Então, cortando as cordas que segura-

me um anjo do Deus a quem pertenço e a quem sirvo, e comunicou-me: 24 ‘Paulo, não temas! Eis que é imperativo que compareças diante de César, e, por isso, Deus, por sua graça, te concedeu a tua vida e a de todos os que estão navegando contigo’.12 25 Portanto, senhores, tende coragem! Pois confio em Deus que tudo se cumprirá conforme me foi anunciado. 26 Certamente, seremos arrastados para alguma ilha”. A palavra do anjo se cumpre 27 Chegou a décima quarta noite de agonia e continuávamos sendo impelidos pela tempestade no mar Adriático, quando, por volta da meia-noite, os marinheiros pressentiram que estávamos nos aproximando da terra.13 28 Então, lançando a sonda, concluíram que a profundidade era de trinta e sete metros; pouco tempo mais tarde, lançaram a sonda uma vez mais e verificaram vinte e sete metros.14 29 Temendo que fôssemos arremessados contra os rochedos, jogaram da popa quatro âncoras e começaram a rogar para que o amanhecer chegasse logo. 30 E aconteceu que alguns marinheiros, tentando escapar do navio, começaram a baixar o bote salva-vidas ao mar, a pretexto de lançar âncoras pela proa.

12 Paulo deriva sua fé dos seguintes fatos: Ele pertence a Deus por compra (1Co 6.20) e porque foi criado – como todo ser humano – para adorar a Deus (Rm 11.36). A expressão grega treuõ, aqui traduzida por “servir”, tem igualmente o sentido de “adorar por meio de atitudes” ou “cultuar”. Um anjo, como em outras ocasiões, fora destacado por Deus para lhe trazer uma palavra poderosa de encorajamento. Deus faz questão de lembrar a Paulo (e a nós) que todas as suas promessas se cumprirão a seu tempo. A presença de Paulo diante de César (ou de seus plenos procuradores em Roma) era “impreterível”, “inevitável”. Nada deteria o Senhor em seu intento. Durante os anos que se seguiram, muitos foram os oficiais de alto escalão do império romano que se converteram ao Senhor Jesus, especialmente devido ao testemunho e aos escritos de Paulo. A expressão original grega “por sua graça” pode ser traduzida literalmente como “dei -te como presente”. 13 Era a décima quarta noite desde que partiram de Bons Portos, estavam numa baía aberta para o mar e muito mal protegida, mas que socorria muitos náufragos. Dava-se o nome grego de Adriático (em grego Adria) ao mar que cobria as costas da Itália, Malta, Creta e Grécia. Nos tempos antigos, banhava a Sicília e Creta, bem mais ao sul. Hoje em dia, essa área marítima designada como mar Adriático ou Adriano está muito reduzida. O navio havia percorrido cerca de 800 Km de Clauda a Malta. Os experientes marinheiros ouviram a rebentação das ondas nas costas de Malta e, por isso, pressentiram a proximidade da terra. 14 Media-se a profundidade do mar descendo uma linha com um peso na ponta. As medidas encontradas, literalmente conforme o original grego, foram: “vinte braças” e “quinze braças”. Uma braça equivale a 1,84 metros. 15 Se o centurião tivesse permitido a fuga dos marinheiros, os passageiros não teriam conseguido levar o navio até à praia no dia seguinte. 16 Paulo demonstrou que a fé em Deus proporciona coragem para enfrentar as mais difíceis situações, cumprir a vontade do Senhor e chegar a bom termo. Os judeus piedosos (e os discípulos do Senhor Jesus) tinham o costume de orar antes de qualquer refeição, numa demonstração de reconhecimento à bondade e generosidade de Deus (Lc 9.16; 24.30; 1Tm 4.4,5). É notável o paralelo com a Ceia do Senhor. 17 Jogaram ao mar os últimos sacos de trigo, os quais haviam sido reservados para alimentação a bordo. Quanto mais leve

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vam as âncoras, abandonaram-nas no mar, desatando ao mesmo tempo as amarras que prendiam os lemes. Em seguida, alçando ao vento a vela que restara na proa, foram conduzidos em direção à praia.18 41 Entretanto, dando num lugar onde duas fortes correntes marítimas se encontravam, o navio encalhou em um banco de areia. A proa encravou-se e ficou imóvel, e a popa foi despedaçada pela força constante das ondas. 42 Então, os soldados resolveram matar os prisioneiros para impedir que alguns deles conseguissem fugir, atirando-se ao mar.19 43 Contudo, o centurião, desejando poupar a vida de Paulo, os impediu de executar a ação proposta. E ordenou aos que sabiam nadar que se lançassem em primeiro lugar ao mar e rumassem em direção à terra. 44 Os demais deveriam seguir os primeiros e salvar-se com a ajuda de tábuas ou destroços flutuantes do navio. E, assim, ninguém se perdeu e todos chegaram a salvo em terra firme.20 Paulo ministra curas em Malta Estando a salvos em terra, soubemos que a ilha se chamava Malta.1

Os habitantes da ilha demonstraram impressionante bondade para conosco. Prepararam uma fogueira e receberam bem a todos nós, pois estava chovendo e fazia bastante frio.2 3 Enquanto Paulo ajuntava um feixe de gravetos e os lançava ao fogo, uma víbora, espantada com o calor, agarrou-se à sua mão. 4 Assim que os habitantes da ilha viram aquela cobra presa na mão de Paulo, comentaram uns com os outros: “Com toda certeza esse homem é um assassino, pois, tendo sido salvo do mar revolto, a Justiça não lhe permitiu continuar vivendo!”.3 5 Contudo, Paulo sacudindo a cobra no fogo, não sofreu mal algum. 6 Eles, porém, acreditavam que Paulo começasse a inchar ou que caísse morto de um momento para outro, mas, havendo esperado por muito tempo e observado que nada de anormal lhe acontecia, mudaram de opinião e passaram a exclamar que ele era um deus.4
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Públio hospeda Paulo e os irmãos 7 Nos arredores daquele lugar havia uma grande propriedade que pertencia a Públio, o principal da ilha. Ele nos convidou

o navio, tanto mais próximo à praia poderia chegar. A expressão “aliviar o peso” vem dos antigos originais hebraicos do texto de Jn 1.5. 18 Os marinheiros tiveram que posicionar os lemes de modo que o navio seguisse direto para a praia. Os navios dessa época usavam dois lemes de direção em cada lado da popa, constituídos de dois grandes remos. 19 O navio, rumando em direção à praia em grande velocidade, colidiu contra um banco de areia da baía de S. Paulo (como hoje é conhecida), e encalhou. Os soldados logo pensaram em matar os presos, pois, de acordo com a lei romana, se um preso fugisse, a vida do guarda responsável deveria ser tomada em seu lugar. 20 Os centuriões normalmente tinham boa formação cultural e eram pessoas com elevado padrão ético, mesmo considerando o regime autoritário e brutal de Roma. Certamente, Júlio ficou com a palavra de Paulo no coração e, tendo visto a atitude daquele homem de Deus, durante todos os dias de aflição pelos quais passaram, preferiu confiar que: “nenhum de vós perderá um só fio de cabelo”; frase proverbial judaica, conhecida pelos romanos. Seu sentido não é literal, mas significava: “salvação da morte”. A palavra grega original sotherai tem o duplo sentido de “segurança” e “salvação”. Capítulo 28 1 Malta era conhecida pelos gregos e romanos por Melita. Pertencia à província romana na Sicília e ficava a cerca de 100 Km, ao sul dessa grande ilha. 2 Literalmente, os povos da ilha são chamados pelo autor da narrativa de “bárbaros”, como aparece em versões antigas. Entretanto, não tinha um sentido discriminatório, era apenas um costume grego denominar assim todos os povos que não falavam a língua grega. Eles não eram povos primitivos e selvagens como a expressão em português pode dar a entender. Eram descendentes dos fenícios. Um dos povos mais hábeis na navegação e construção de embarcações, mas que – assim como os gregos e judeus – haviam sido dominados pelo império romano. As chuvas e o frio eram incessantes no final do mês de outubro e início de novembro. 3 Justiça era o nome de uma deusa grega que personificava toda a justiça divina. Na mitologia grega seu nome era Dike. 4 Os habitantes da ilha sabiam que a mordida daquela cobra peçonhenta produzia morte quase instantânea. Lucas usa novamente um termo médico (inchaço), o qual só tem registro no NT, para descrever a possível reação inflamatória prognosticada pelo povo. Entretanto, mais uma vez, a Palavra do Senhor se cumpre fielmente (Lc 10.19) e nenhum mal sobreveio a Paulo. Os pagãos,

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14 Ali encontramos alguns irmãos, e fomos convidados a ficar com eles sete dias. Depois disso, partimos para Roma.9 15 Os irmãos daquela região haviam recebido notícias de que estávamos para chegar e vieram até a praça de Ápio e às Três Vendas para nos encontrar. Assim que os viu, Paulo deu graças a Deus e sentiu no seu interior grande encorajamento.10 16 Quando chegamos a Roma, Paulo recebeu permissão para morar por conta própria, porém, sob a vigilância e guarda de um soldado.11

a ficar em sua casa e, por três dias, generosamente nos recebeu e nos hospedou.5 8 Todavia, seu pai estava muito enfermo, acamado e sofrendo com febre e disenteria. Paulo, então, foi-lhe fazer uma visita e, logo depois de orar, impôs-lhe as mãos e o curou. 9 Havendo ocorrido esse fato, os outros doentes da ilha vieram também e saíram curados. 10 E eles nos prestaram muitas homenagens e honrarias e, quando estávamos prestes a embarcar, nos ofertaram todo o suprimento de que necessitávamos para a viagem. Paulo chega a Roma e é preso 11 Passados três meses, partimos em um navio de Alexandria que invernara na ilha, o qual tinha como marca a imagem dos deuses gêmeos Cástor e Pólux.6 12 E, chegando ao porto de Siracusa, permanecemos ali por três dias.7 13 De lá, costeando, chegamos a Régio. No dia seguinte, soprando o vento sul, prosseguimos e conseguimos chegar a Potéoli no segundo dia.8

Paulo proclama Jesus em Roma 17 Depois de três dias, Paulo convocou os principais dentre os líderes judeus. E, reunindo-se com eles, declarou-lhes: “Caros irmãos, muito embora eu nada tenha feito contra o nosso povo, nem tampouco contra as tradições e costumes de nossos pais, fui preso em Jerusalém e entregue aos líderes romanos.12 18 Eles, depois de me interrogarem, decidiram me libertar, porquanto eu não era

especialmente na antigüidade, tinham o hábito de atribuir divindade aos homens com muita facilidade, muito diferente do rigor teológico dos judeus. Os habitantes de Listra já haviam tentado endeusar Paulo e Barnabé (14.11-18). 5 Públio era um prenome romano (não sobrenome) e a maneira natural de como os habitantes da ilha tratavam o seu soberano. Lucas usou uma expressão rara, mas exata, para descrever o grau de autoridade máxima de Públio perante seu povo na ilha. A arqueologia confirmou, séculos mais tarde, que o título oficial do governador supremo de Malta era mesmo “Homem Principal”. 6 Devido ao inverno e às tempestades, tiveram que permanecer em Malta até o início da estação das navegações, o que ocorria no final do mês de fevereiro e início de março. Cástor e Pólux eram chamados de “filhos de Zeus (deus)”, em grego Dioscuroi, divindades que, segundo a crença pagã, protegiam os marinheiros contra as revoltas do mar e dos ventos. 7 Siracusa era a principal cidade siciliana, situava-se na costa oriental da ilha e mantinha um importante porto. 8 Régio era um porto que ficava na cidade de mesmo nome, no litoral da Itália, próximo à extremidade sudoeste e junto ao estreito que separa esse país da Sicília, defronte Messina. Potéoli é chamada atualmente de Puzzuoli, e fica cerca de 320 Km de Régio. Estava localizada na parte norte da baía de Nápoles, e era considerado o principal porto de Roma, ainda que dela distasse cerca de 120 Km. Sua população era cosmopolita e incluía romanos, judeus, árabes e cristãos. 9 Assim como em Trôade (20.6) e em Tiro (21.4), Paulo consegue passar com eles um ou dois fins de semana a fim de celebrar a Ceia do Senhor, e pregar a Palavra. O centurião certamente consentiu com esse pedido de Paulo. 10 Paulo escreveu sua carta à Igreja em Roma (livro canônico que se segue) cerca de três anos antes. Conhecidos e crentes discipulados por Paulo também chegaram à cidade antes dele (Rm 16). A Praça de Ápio era uma pequena cidade localizada cerca de 70 Km ao sul de Roma, e muito conhecida por sua falta de temor a Deus e impiedade. Três Vendas (ou Três Lojas), era outra pequena cidade, mas dada ao comércio, e ficava a uns 55 Km de Roma. Outros cristãos foram encontrar-se com Paulo ali. 11 Lucas foi dirigido por Deus para revelar ao mundo, de todas as épocas, o avanço do Evangelho, desde Jerusalém até os confins da terra, como havia prometido o Senhor Jesus (1.8). Roma foi o ponto de chegada, uma vez que era a sede do mundo na época e cidade onde viviam os representantes de muitas nacionalidades e raças de então. O Evangelho enfim chegara aos confins. E seguiria adiante, a partir da cidade de Roma. Como Paulo não havia cometido nenhum crime flagrante, a lei romana lhe permitiu aguardar seu julgamento em liberdade vigiada, podendo alugar uma casa, mas ficando sob a custódia de um soldado, que muitas vezes passava o dia acorrentado a ele (Ef 6.20; Fp 1.13-17; Cl 4.3-18; Fm 10-13). 12 O decreto do imperador Cláudio (18.2) já tinha perdido o valor, e os líderes judeus haviam retornado a Roma. Paulo inicia seu discurso enfatizando sua consideração pelos irmãos de sangue (ainda que também fosse cidadão romano). A mesma expressão que usava para com os “irmãos cristãos” estabelecidos pelo sangue vicário de Cristo (Rm 9.3). Paulo ainda buscava tenazmente levar a Salvação até os judeus.

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culpado de crime algum que merecesse a pena de morte. 19 Entretanto, havendo os líderes judeus levantado protesto, fui obrigado a apelar para César, certamente não por ter qualquer acusação contra minha própria nação.13 20 Por esse motivo vos convidei, para que os pudesse ver e conversar convosco. Porquanto, é pela esperança de Israel que estou preso a estas correntes!”. 21 Então, eles lhe replicaram: “Ora, não recebemos nenhuma carta da Judéia falando a teu respeito, nem ao menos veio até aqui irmão algum que relatasse ou se queixasse de qualquer mal contra ti. 22 Ainda assim, gostaríamos de ouvir de ti mesmo o que pensas, pois sabemos que, por todo esse mundo, fala-se contra essa seita.14 23 E, tendo eles marcado um dia, um grupo ainda maior de interessados foi à reunião com Paulo, em sua casa. Então, desde o início da manhã até o final da tarde, Paulo lhes deu todas as explicações e lhes testemunhou vivamente sobre o Reino de Deus, buscando convencê-los a respeito de Jesus, embasando seus argumentos na Lei de Moisés e nos Profetas.15 24 Ao final, alguns foram convencidos pelos fatos que demonstrara, todavia, outros preferiram não crer.

Então, começaram a discordar entre si mesmos e foram embora, logo após Paulo ter feito esta declaração final: “Bem que o Espírito Santo comunicou aos vossos pais por intermédio do profeta Isaías: 26 ‘Vai a este povo e dize-lhe: Ouvindo, ouvireis, e de maneira nenhuma entendereis; e vendo, vereis, mas de maneira nenhuma percebereis. 27 Porque o coração deste povo se tornou insensível e com os ouvidos ouviram, porém sem dar atenção, e fecharam os olhos; para que não vejam com os olhos, nem ouçam com os ouvidos, nem se convertam e Eu os cure!”.16 28 Sendo assim, quero que estejais perfeitamente cientes, que esta Salvação de Deus está sendo enviada aos gentios, e eles a ouvirão!”. 29 Então, logo depois de lhes admoestar dessa forma, os judeus se retiraram, debatendo acaloradamente entre si sobre o que ouviram. 30 Por dois anos completos, Paulo permaneceu na casa que havia alugado, e recebia a todos quantos o procuravam. 31 Pregava incansavelmente o Reino de Deus e ensinava a respeito do Senhor Jesus Cristo, com toda a liberdade, sem o mínimo impedimento.17
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pela liderança espiritual e teológica dos judeus. Os judeus de Roma estavam bem informados sobre as controvérsias em torno de Jesus ser ou não o Messias prometido. Entretanto, queriam ouvir do próprio Paulo, que como sempre, estava bem disposto a dar todas as explicações sobre o assunto. Paulo sabia que, mais cedo ou mais tarde, os líderes dos judeus em Jerusalém voltariam ao ataque, e ele queria aproveitar o tempo “livre” para evangelizar o maior número possível de judeus. 15 A expressão “Lei de Moisés e os Profetas” significa passar por todo o AT reconhecido pelos mais prestigiosos e antigos judeus como “livros canônicos” (inspirados por Deus) e, portanto, dignos de toda a confiança (Lc 24.27-44). Paulo emprega todo seu esforço e fé para corrigir um grave erro de interpretação da época. Os judeus sempre esperaram por um Messias “conquistador militar”, à semelhança do rei Davi. Entretanto, por meio das profecias do AT, Paulo procura expor claramente o perfil e a missão do Messias, como “conquistador de almas”. Paulo apresentava Jesus Cristo como o Salvador dos judeus e de todo o mundo (gentios) e Senhor de um Reino que jamais terá fim. 16 Esta citação de Is 6.9-10, foi usada por Jesus contra os judeus incrédulos (Mt 13.13 e paralelos em Rm 11.8; Jo 12.39-40). A rejeição de Cristo por parte do seu povo, Israel, confirma as profecias das Escrituras. Entretanto, cabe aos cristãos empregarem esforços missionários com vistas à evangelização de judeus e árabes, bem como de todos os povos até os confins da terra. 17 A tradição da Igreja registra que Paulo chegou a ser solto desse encarceramento. Paulo escreveu a várias igrejas com a expectativa de ser liberto a qualquer momento (Fp 2.24; Fm 22). Muitos detalhes registrados nas cartas pastorais revelam que Paulo teve uma oportunidade de voltar à Ásia Menor, a Creta e à Grécia. A segunda epístola a Timóteo, por exemplo, fala de um ministério de Paulo não historiado no livro de Atos. E, por fim, alguns escritos tradicionais e respeitáveis da Igreja, como as cartas de Clemente (cerca de 95 d.C.) e o cânon Muratoriano (cerca de 170 d.C.), narram Paulo em plena atividade ministerial, na Espanha antes de sua morte pelas mãos de Nero (cerca de 67 d.C.). Paulo continua sendo um testemunho vivo para todos, nós cristãos sinceros (2Tm 4.7).

13 Paulo deixa bem claro que não apelou para César com o objetivo de denunciar ou acusar os dirigentes da nação de Israel. 14 A palavra grega original para “seita” é hairesis e tem o sentido de “heresia”. No caso, doutrina contrária ao que foi estabelecido

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24/7/2007, 20:45:00

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