VALÊNCIO XAVIER

o MEZ

DA GRIPPE

E OUTROS LIVROS

-~COMPANHIA

DAS LETRAS

Copyright

© 1998 by Valêncio Xavier Projeto gráfico: Hélio de Almeida,

com base em indicações do autor Capa: Hélio de Almeida Preparação: Denise Pegorim Revisão: Eliana Antonioli Ana Maria Barbosa

Dados Internacionais de Caralogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Xavier, Valêncio O

mez da grippe e outros livros / Valêncio das Lerras, 1998.

Xavier.

-

São Paulo: Companhia Bibliografia. 85-7164-810-7

ISBN

1. Contos brasileiros I. Título.
98-3379 CDD-869.935

Índices para catálogo sistemático:
1. Contos: Século 20 : Literatura brasileira

2. Século 20 : Contos: Literatura brasileira

869.935 869.935

1998

Todos os direi tos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 72 04532-002 - São Paulo - SP Telefone: (011) 866-0801 Fax: (011) 866-0814 e-mail: coletras@mtecnetsp.com.br

ÍNDICE

o mez da grippe, 7
MacÍste no inferno, 81

o minotauro,
13 mistérios
+

137

O mistério da prostituta japonesa

& Mimi-Nashi-Oichi,

181

O mistério da porta aberta, 203

Nota bibliográfica, 323

OMEZ DAGRIPPE
novella

colorida com tanta naturalidade que a natureza não poderia ser. desde o instante da morte até a destruição total do indivíduo. nem mais expressiva. MARQUÊS DE SADE . Esta macabra execução é de cera.Vê-se um sepulcro cheio de cadáveres. sobre os quais se podem observar todos os diferentes estados da dissolução. nem mais verdadeira.

!~ll!1 ti.1918 Outubro QTTUBRO ==--~--=-..~S.::~~ I~ _~jSI!IQ9:~ -ti 27 121 lói l' 91~~llfl~ ~I 3.:~ti 6 Alguma coisa ..:!4~!. 20 I I~IIRi l():_~.IiHi00131i -113114:!2i~3.

Relatório do Sr. J WA. alguns patricios do Sr. os hospedes fluminenses não s6 padeceram da molestia.~~~t da.A paz está interrompidalo. que estavam com o mal incubado. que se disseminou com as populações com sigo o cidades.. Em Paranaguá.illN(. Trajano Reis director do Serviço Sanitario. De Antonina e Morretes seguiram para aquella cidade. o ! D. Barbosa.- O t·jX u Os jornal)" ua bru" se maui-. I.. com o mesmo fim dos do Rio. ta com um governo que con. como também a transmitiram aos patricios e á população. 10. ia effectuar-se o casamento de uma filha do syrio Barbosa. Um homem eu caminho sozinho nesta cidade sem gente as gentes estão nas casas < grippe 13 .. Folgaram juntos e cada um dos residentes em Antonina e rapidez entreMorretes trouxe das referidas gérmen do mal. Do Rio de Janeiro vieram assistir ás bodas alguns syrios.lTUN. I FO~~ tinúa a te de crimes ==== ====commeHer toda a sor. Dr.~ presidente Wilson não fra. por sua vez. I deE~ Em Paranaguá.':. n'aquella epocha.

No tiene casi que nada No passa.RIFIQUE M OLOUVRB RUA QIJINZE DE NoveMBRO.. cosa esquisita I De una . 43 5. gran espanoIada J eca Rabecão O COMMERCIO DO PARANÁ li OORTIIVAS • 14 OORTINADOS BRIZE-BIZES • IJRAI.w ESTORES OS SORTI MENTOS QUE APRESENTA VE.. - DIA 20 DOMINGO $ A Allemanha vae capitular A SEMANA RIMADA "La influenza espanoIa" Esso todo. Ia gran grita...'N..-----------------------------_ . CI". .

RICARDO NEGRÃO FILHO . ENQUANTO ENTENDER NECESSARIO Á BEM DA SAUDE PUBLICA E QUE OS ENTERROS DOS QUE FALLECERAM DE MOLESTIAS TRANSMISSÍVEIS SERÃO FEITOS SEM ACOMPANHAMENTO SENDO O CADA VER PROMPT AMENTE REMOVIDO PARA O NECROTERIO DO CEMITERIO MUNICIPAL. 22 DE OUTUBRO DE 1918 O SECRETARIO .DIA 22 TERÇA o DlRECTOR DO SERVIÇO SANITARIO MANDA AVISAR AS EMPREZAS FUNERARIAS QUE FICAM PROIBIDOS OS ENTERROS Á MÃO. mas eram bem poucos. cavalos de penacho. DONA LÚc1A . pano preto." 15 . era a pé. CORITIBA."E. A maioria a pé. Iam carregando o caixão e as gentes a pé acompanhando pela cidade inteira até o Cemitério Municipal. foi assim. Tinha os muito ricos que faziam enterro com carro.1976 por muito tempo.

COMMERCIO DO PARANÁ 16 . chegou ali Maria Esteves. A infeliz.. que pedia para ver o cadaver de seu noivo: pedido a que os guardas depois de muita relutancia resolveram acceder. noiva do assassinado.. lamentando a sua triste sorte.~=======~ II Positivamente a vida humana não vale um caracol . cahiu debulhada em lagrimas. ao ver o cadaver do noivo.UM CASO PUNGENTE Quando o povo se achava agglomerado em frente ao botequim. COMMERCIO DO PARANÁ ~=============" IIVida Social .

e:.iacs e a d('[i$ipncia do ma· teria.Tia. (IUC'b~ -tante concorreram para os resulta doa colhidos. 'JIt .l"a[ I.hes o in" em THEA'lRO MduzidUi·. _ "Diarlo" l . da 2. general Barbedo a esta cir· cumscripção Ul':<laçamml da.° B. &.sre. ga. feita por 80rte rooalhiu no.Q do ParanA.sa.vprnl).brlcl& nt>-do Rego Ba..me-n'al.'. &- Por todO<:! esses nlotiv06 apresen to minhas felicitaçõE"1iI aos sr8.. onBl<u.I. rim.. felicitar os srl!!.rio para que a instruc· 'tla neral comp-le:ta" a del'lejar na .:a.o.1 A influenza A Syrla e n s-. f(T. Lj 2."HONEl lI08 -.)lndo provas.]dido I. 'J)elJ.•.l'1.:1Ilu8~~~~O da~ PO:lu1açõe. M.ar€'s desla cU\lital.•._-.•.. tle inspeccílo dg ST.ül hnpt.ndante dt'Mta rogiíi. 15 de Yovtlmbro.:rnandes Jonsen Tavares. nl2'ral J. '---- NO PARAN. lho l!!obre alcooliemo." I~ ~~osen~."i.uiz B8Tl>edo. primento dos seus deveres e louvan AMER:'CA Cl do-os 'pela.•• . com. (' f':<talH'\{'ciIHcn.oe. que se encarregou do Com numero rel. ._. de T~ nca.C. ma".r.· eommal'ldan tchf"Qullri<e de. parecendo tn autorld.el!!que granrde fim -de .C' ser ter deixado de<Vlda conta. o a pa. der doA'UoT". ord~l" du dia ho .. todos empregados. vando na e çü'o vudes-.ra..!!fle Çao cine:ra&togt' CONTINUA NA 2. C'--"ro"t:"- U/.nfltruccão mi c3t1a um. pelo SI'. di l. miHtar ao.=""""'======================.• Theatrosi "'A'$~'_ THEA'i'RO· anima. carpacldade e disciplina lar clnen:""It·d& I e Que continuam~nte dão Ilobejas t-em. de 2.s das div<lrsas t exame .1tt!..sita-g {jUe' fl'7.'oroue-l Olava CO!'TI'ia a se-guinte parte que se refer~ 11 visitl..0 tenente Adria. que o PaI hontem u'n& c& Para. Olegario de Vasconcellos.n~ -f.. E. '\Se ~1 dOrf~!l Í1'ancezea Termin:W~l a In:-lpecC. h"je a.nall da 11"a. da Cir cumacrlpçi. Und ~. PAGINA --- •••• ••••-----'Andradtl - guintes Grs. do o gran Que 17 viço de Saude e Vetel'lna.do ~ que' deve ter notado o m'uito l.e •.o F.stifi..UC se gaJ10 di wppril tem esforçado 09 .'C" Jpgo.. 'exh.de.o Pin to da Silva.lle :p de 3... declamado Q _11:.m conferencias militares. ficou a.do._. delicada.1m ~·O l!oje ~ 9.f unidades para.'.fizcra. l!am~ f''''f'rci~. cir'cum6Cripcli. eervi(:o de con!erencl&!l 1I0bre h)'" giene.::===============DiJ'cctor: Generoso nor~l'~ DIARIO FOLHA DE MAIOR CIRCULAÇÃO A inspecção do sr. 'O'f!tcial Ant. e capitão Seba. {.q. I --.' COI'lIO.: 1.u hOn A designação desses ofriciaes que era.-elou o ass-eio. AUI ter sido a 1lI('J-hor 1l()S~lvf'1:t IllT\lJ"('S são rN'(>hida (1('1" mt'l'Imu ar.B<ldac:ção • OftlciJulo 'W. do 2.° H.IlOS.l.' ítuiçlo' é A Q. A. __ .. cumpro (l graRI-o wn I'rupo' tu deVe!' de Jlllul:('ar que me IHll'f'ce ques m de te ra conl!a.-te •.1 teresse sempre patente&-dono cum. a pense ta. !uneet-o.•ba.rnbem o sr. 12 de tubro re. . A..a: si'8tene !Annun{' a.' ~~ .• I_ :. e aspirante â. oMiciaes e '1..:. hontem·· Ct8&8 da.ado de seu.•• .! obseI"Vou. eetot'\.l'C&n~ PAlA'-C: O Ta \.8 "Protê&". i. lU "'ndlM"e\o teleg..!. oi!tt'icia. qus. Fora. SOllr -e Tripoli... A.•. com mandantes de unidades e dirE'e-torE's de e8ta~leêlmento!i mj.0 R.l..'ommnndunte (ll'sta l'l'giAi(._.O "'E1d.. major dr. capiotão JOü..litares.~ula. gcu(.onlo ANCS de Magalhites. gC'nt'n1."ptn1aacl( tod08 -lyt~. 'P~I~ "Chllro-. obteve C1-rmde Aprovoito ainda oppor>tunidade pars. g(' eS'[orç:C»! ~IO[' 'ÜilE'_ di:..')Il.Zlo pelo ar.. dr. O puseio militar no dia.hoY-. Devo citar t<l. lendo tudo 1'01' mim [l{'Om'llallh<ldo em to inforntR':1O de (das as v. para conveni-ent<· litar fo~e rni·nistrada m-ente e sem embar-aços.••• ~'J.. MazzR. belIl como aos o1iri-cille8e praças.e . E: ir"" o reBultullo dos ao sr.: tes.4 o que grande. do· 4.roo 84 tend -ciplina aqllella com das unido.: .cf. ~omma. !i1m ••As ·feduzl chefe Se-r .lta -de folffk.l O cOl.obom exito e. p"'ico le. do Corrttlo . (. TU&.rat'l. que 'Proouziu um beBo traba.no Saldanha.' ledico... Ch.l lll'C'~~.S. Que ã. Je baixadQ.lor mll5l é'ê O trL'1l!1mo tos milit. agradeçendoJ. M.ide ficado ~uti8felta.0 t&nen-te j<"a. Frail1ce a com.o...ee assieti.

SR. TRAJANO REIS DIRECTOR DO SERVIÇO SANITARIO DO ESTADO 22/10/1918 Entro na casa a porta sem chavear alguém que saiu para voltar e não mais voltou entrou para sair e não mais saiu Não sei porque entro entrei nesta casa onde nunca entrei Pássaro em água estranha Vagueio pela penumbra do corredor pela porta entreaberta vejo 18 .CONSELHO ACONSELHAMOS AOS HABITANTES DE CORITIBA QUE NÃO SE VISITEM. ATÉ QUE TERMINE A EPIDEMIA NO RIO DE JANEIRO. MESMO QUE NÃO HAJA MOLESTIA NAS CASAS QUE PRETENDEREM FREQUENTAR. DR. BEM COMO QUE NÃO CONCORRAM AOS LOGARES ONDE HOUVER AGGLOMERAÇÕES DE PESSOAS.

A propria gente da "Imprensa" O Lauro Lopes já disse: Quem quiser ser forte e "são" Beba limão com cachaça Sem abusar do "limão" ..DIA 23 QUARTA MUSAALEGRE Não há nada neste mundo Que mais possa aborrecer Do que cruel "que brade ira" Sem vintem pr'a dispender Esteve aqui a Olona Com Salvat ..uma sentença! Um conselho em cada esquina E a série de disparates Boas risadas propina . pensando no caso. Prá não adoecer Tomo o conselho do Lauro E deixo o barco correr DIÁRIO DA TARDE Manuel Salvat 19 ..o bello par E não pude uma só vez Os mesmos apreceiar-p! Não vos sei tambem dizer Porque houve tal vazante Si por andarem como eu Numa lizura berrante Ou si por cousa diversa: Por se meter na cachóla Do povo qualquer receio De companhia "hespanhola" fUCA VIOLA Pois que d'elln só se falla N'outra cousa não se pensa E anda tonta. Cada coro. atrapalhada.. Mas eu.

- O peeopd dos treeottds DIA 24 QUINTA --------------- NA BELGICA OS EXERCITOS ALLIADOS VAO LEVANDO DE VENCIDA OS ALLEMÃES NÃO MORREU NINGUEM Informa-nos o sr.. official do registro civi~ que hontem e hoje.. Benedicto Carrão. não DIÁRIO DA TARDE se registrou obito algum nesta capitaL 20 . elegante -..-~--_.~"" -s_.J~~. CINE TH[ATRAl PARAt~A..~'~."---COMP.Ilctor "1101'1111:111 GEORGE W ALSH ~ma na~ mai~ ij~lla~ronu~~õ~~ ~ --'--'--~c.--~~-~-"- -- ~-- ii ====::.(]eqtral HOJE • lIOJE gl'ltllIJO o A Creaçi\o ncontecÍmcnto ela Mmll.=. ------..Jla : CAMINHO extl'l\I)r(i1nuri'l DE BERLIM RIII('rf('IUlo: dI). n~ r~t __.~.--------ii .

COMO MEDIDAParaná) PREVENTN A CONTRA A INVASÃO DESSA EPIDEMIA. AFIM DE IMPEDIR A PROPAGAÇÃO DA "GRIPPE ESPANHOLA". ~oie sa· mat. BEM COMO DA CAPITAL FEDERAL. não nos visitará. não encontrará aqui ensachas. PRINCIPALMENTE Á NOITE.JOÃO ANTONIO XAVIER PREFEITO MUNICIPAL 21 . A peste! EUa não nos visitou ainda. 24 DE OUTUBRO DE 1918 (ASSIGNADO) . CURITYBA. se subir a serra pela linha ferrea ou pela estrada da Graciosa. (Sebastião Paraná . E. Parecia a cidade dos mortos." DONA LÚCIA - 1976 DECRETO N~ 132 O PREFEITO MUNICIPAL DA CAPITAL. TENDO EM VISTA QUE AS DIRECTORIAS DE SERVIÇOS SANITARIOS DA CAPITAL DE SÃO PAULO E DESTE ESTADO.«Ccmmerrio I do Parará» Em virtude doccido de terem a· al~uns possivel dos not sos não com operarfos a ultima nos foi hora.Commercio do RESOLVE. EPIDEMIA ORA REINANTE EM DIVERSAS CAPITAIS DO PAIZ. ria "Famílias inteiras. meio favoravel á sua propagação virulenta. fazrr de a que a edicção hisse com tod d de redacçãD. SUSPENDER O FUNCIONAMENTO DOS CINEMAS E OUTRAS CASAS DE DIVERSÕES DESTA CAPITAL. Não houve casa que não tivesse alguém doente. ACONSELHAM INSISTENTEMENTE QUE SE EVITE AGGLOMERAÇÃO.

que assim. por escripto. Ouvindo aquelle advogado palavras insultuosas á nossa Patria. indo. para exemplo. COMMERCIO DO PARANÁ 22 . O referido germanoplhilo foi recolhido ao xadrez . Napoleão Lopes effectuou hontem a prisão do germanophilo Roberto Thomaz que no "buffet" do Theatro Hauer teve palavras ofensivas às nossas instituições e ao governo da República determinadamente ao sr. se manifestava tão favoravel á Germania e tão hostil a nossa Republica..OUSADIA BOCHE O distinto advogado criminal sr. Chefe de policia. deu. presisente Wenceslau Braz. immediatamente á chefatura de policia. onde. deu essencia do seu acto.. á ordem do sr. dr. voz de prisão.aquelle subdito sueco. às 23 e 30 horas.

C::U~. SOLICITO A V. SE:: u. NeDhlUn 'recepta'àulc o MELHOR DESINFECTANTE genulno qU<I nôo tonba o nom~ . REFUSE:~ OS R~CJP!F. ONDE EXISTE AVULTADO NUMERO DE DETENTOS.t\SSE."LT~~~.:u~a WILLIAM ". CHEFE DE POLICIA AO DIRECTOR DE HYGIENE DO ESTADO DO PARANÁ. "SENDO NO MOMENTO ACTUAL DE GRANDE NECESSIDADE PARA A SAUDE PUBLICA.A.:. PORTÃO E DESTA REPARTIÇÃO. LINDOLPHO PESSOA."l cOlltêrn meia agua. tem nada que ver com qu. AS NECESSARIAS PROVIDENCIAS AFIM DE SER FEITA.Lricatte U<JO Esta t. parca seara de louros pelos OFFICIO DO DR. A HYGIENE QQUE SE DEVE MANTER NAS PRISOES DOS POSTOS CENTRAL. a da aliança por sobre o lençol branco branco braço nú.Jod"1 'deAi/lrect:}'Lte SEitI ESCRUPULOS TOR~AM I. DA GRACIOSA..!lTES D'FSTA r. A DESINFECÇÃO DAS REFERIDAS PRISOES. EXCA.10 f. INCHEI: "JSSAS PEARSON r. 23 . e IIt~n. EM 25 DE OUTUBRO DE 1.oIIMERC[A~iES LATAS. SAUDAÇOES.DIA 25 SEXTA o PAPA INTERCEDE PARA QUE A BELGICA NÃO SEJA DESTRUIDA PELOS ALLEMÃES Mãos grandes como de cavalo.tKuma. COM A POSSIVEL URGENCIA.918. A direita assentada sobre o lento respirar do seio rijo.. das lffillaçocs.\lIm J. A esquerda.dquer OU~j'·1 synOD)"m(i .

1976 DIA 26 SA'BADO DECRETO O SR. Não obstante. COMMERCIO DO PARANÁ "Fiquei. continuamos firmes em nossa attitude pela razão de n[o ter sido de "gripe espanhola" verificado ainda um só caso n'esta capital. fiquei dias caída na cama ardendo em febre. como num outro mundo. PRESIDENTE DO ESTADO DECRETA QUE SEJA CONSIDERADO DE FERIA O DIA DE HOJE. os casos de doença existentes. tratando-se de simples grippe. prostrada sem vontade. sim. 26 DE OUTUBRO DE 1. commentarios ironicos em torno da nossa attitude em relação á epidemia da "grippe espanhola". Mas em mim deu fraca.NÓS E A "INFLUENZA" A nossa edição de hontem saiu muito aquem da espectativa. aliás commum na estação que atravessamos. DR.918. obrigando-nos assim ao sacrificio de materia redactorial cuja inserção foi absolutamente impossivel. Esse facto suscitou hontem em certas rodas.0 ANNIVERSARIO DA ENTRADA DO BRASIL NA GUERRA ACTUAL. 24 . NAS REPPARTIÇÔES ESTADOAES EM COMMEMORAÇÃO AO 1. dizendo-se abertamente que a molestia invadira a nossa tenda para obrigar-nos á uma formal retratação. devido a uma interrupção inesperada do trabalho em consequencia de terem adoecido operários da secção de composição." DONA LÚCIA .

.. ninguém morre. .NA SERVIA NA BELGICA E NA FRANÇA OS ALLIADOS A VANCAM VITORIOSOS "A HESPANHOLA" De manhã abro as gazetas nenhuma nota .que bola! Limpo e relimpo as lunetas Nada. Foi p'ro xadrez. a Egreja Evangelica Presbyteriana da rua Comendador Araujo resolveu não realizar amanhã. DIÁRIO DA TARDE 25 .. a hespanhola. A policia nos socorre Toda noticia degola -Aqu~ de vez. .. peito.*.J ------------.I~ =.jl~H. pulmO~se garganta.. domingo..• . nada de hespanhola. os cultos de costume.~~~~~~.~. José da Gaita DT *l["õ@:~l@l~. ----- .. I Os olhos costurados pela febre loura linha a mesma que tece seus cabelos AMANHÃ NÃO HAVERÁ CULTO Attendendo aos conselhos da Inspectoria de Hygiene..

De molestia infecciosa houve apenas um obito. Havia o padre Miguel que ia nas casas levando follias de eucalipto.1976 VARIAS Phenomeno unico na vida coritibana accentuando o contraste de somente em epoca de epidemia ás portas do Estado e quando se pretende espalliar o panico isto se dar: ha trez dias que não é registrado um só obito numa população de 80 mil almas. Nestas condições. Mas não tinha remédio que servisse. Hontem. VALlOSISSIMA OPINIAoI GASTÃO FARIA . irrisorio seria que se as desinfectassem. no trecho entre as ruas Primeiro de Maio e Floriano Peixoto. na rua Marechal Deodoro. pondo ao sol um lodo podre e capaz de infeccionar o ambiente.Depois raciocinemos um pouco. Deus vendo a creolina penetrar no seu templo certamente se sentiria diminuido em meio da radiosidade de seu prestigio . estava sendo descoberta.. Fechemos os cinemas.. mas também abertas não continuem as egrejas. Durante a semana ultima de 14 a 20 do corrente. As egrejas são templos sumptuosos de Deus. com grande perigo para a saude publica." DONA LÚCIA . nasceram no districto desta Capital. COMMERCIO 26 DO PARANÁ . de febre typhoide. Pro pessoal da fábrica eles distribuíam garrafas com limonada. 39 pessoas e faleceram 19. uma parte da rede de exgottos.DT "Remédios não havia.

A influenza hespanhola e o amor seria uma tese psychologica magnifica para ser desenvolvida por um Paul Bourget de francaria que se atormentasse num eterno sonho de duquezas e condessas.NOTICIAS DO PAIZ O RIO COBERTO DE LUTO RIO.. COMMERCIO DO PARANÁ Cabelos de vassoura mais macios..~========:. pallidas e loiras. muito loiras e frias ...26 . meus dedos dizem Amarelos Ao levantar o branco lençol advinharei os outros pelos ? 27 .A peste de guerra aqui importada pelo "Demerara" e recebida gentilmente com o carinhoso titulo de "pucha-pucha! DIÁRIO DA TARDE DIA 27 DOMINGO ~ 1i (I .::====='" Vida Social II SUELTO .

preferimos ir sosinhas".. . . E foram . nós não somos criminosos e não ha lei que obrigue a falla portuguez". . Á essa offerta. Na Repartição Central . cantando hymnos patrioticos allemães e jogando chacotas aos brasileiros praticando outras tantas imprudencias que o atual estado de guerra em que nos achamos não permite . COMMERCIO DO PARANÁ VARIAS Em nossa edição de antehontem noticiamos a tentativa de suicídio de d. .. como sahio na noticia . . revoltou-se contra os guardas. Praza a Deus que assim se conserve Coritiba. barbeiro á praça Zacarias 22. . ... Havendo algumas mulheres dito que "não iam para casa sozinhas" . esposa do sr. Stanislau Urichi. . cheios de presumpção e agua benta ( ). . o escrivão daquelle posto offereceu guardas civis para acompanhal-as. explicando-nos ter sido desgostos por uma infermidade incuravel a causa daquelle acto de desespero. entenderam de em pleno seio da capital desrespeitar a nossa pátria. procurando offendel-os com palavras asperas quando era recolhido ao xadrez". Com o de hontem. ellas responderam: "Não precisamos ir com brasileiros. ha tres dias em que não se verifica um só obito nesta Capital (quadro urbano). nesta cidade. . .. . e não o receio da epidemia de grippe. . Esse estupido e atrevido subdito do kaiser.. Apenas no quarteirão das Merces se deram dois fallecimentos um por tuberculose e outro por lepra.A AUDACIA DO INIMIGO PRECISAMOS SER MAIS ENERGICOS AO MENOS EM NOSSO PAIZ É deveras para se lastimar o facto occorrido hontem á noite. . . . Uma cama de allemães audaciosos. . " O mais exaltado era o conhecido fanfarrão Frederico Rummert que em portuguez arrevesado gritava: "Não bode ser. . Hon tem visitou-nos esse sr. . COMMERCIO 28 DO PARANÁ . . . Anna Urichi. "Cantamos e havemos de cantar hymnos allemães porque não somos trahidores de nossa patria".

desinfecçí\o no in terior das ~"sa~.PRECISA-SE De uma mulher para viver com um bom homem solteiro. "É. Muito repouso.s. l)ois é a melhol plua u. AvttR_S facllmen te :t lH'opIIgac. folhas de eucalipto.1976 febre alta. Rua Saldanha Marinho n. a dor por dentro.Ao de quahluer EI)tdemia. o 168 (das 5 as 6 horas da tarde) CP familias ProcuI'{ds comprar Naphtuliun C)'eol. ficar deitado curtindo a DONA LÚCIA . Para queimar dentro de casa. ." 29 . eJl\ escaw{J. Com este metllodo pra tico e C('oUQlllico. queiman do-se uma p(~quena porçí\() sobre brl! Z(\8. o cansaço. Remédios não havia.

o preso João Baptista Alves dos Santos. . isso por desgostos intimos. 30 . . que se acha recluso no xadres do Posto Centra~ tentou contra a existência tomando uma forte dose de DIÁRIO DA TARDE creolina.DIA 28 SEGUNDA o KAISER VAI SER DEPOSTO A SITUAÇÃO NO RIO DECLINA LENTAMENTE A EPIDEMIA E OS CADAVERES JA SÃO SEPULTADOS . A PESTE RECRUDESCE A SOPA DOS POBRES buço parco louro encima lábios rubros do calor da febre ao levantar o branco lençol encontrarei outros pelos louros cercando rubros lábios NAS RUAS E NA POLICIA NO QUE DEU A "HYGIENE NAS PRISÕES" Hontem a tarde.

epid@mia nAo no& rla que todas pnssoas Que acto qU3ircrn cump' A-/ A COM MiSSÃO ) f duasSão S9baGtiA' SAo 8 e és missas. o teu refúgio é o ~en!Jor. e brrás ao ~ltíssimo te entregallte. Convite afim eftlija. I' ~tJf 1V.l . mall não se t!Jegará a ti.lrle confiarei ~orque qele te Iíbrará bo (aço bos caçabores e ba peste perniciolla. allas te acol!Jerá: a llua qele te cobrirá com suas jião teráll mêbo bo terror berbabe llerá teu ellcubo e broque!. i. o meu meus. na Cathedr31-':' I Lo ~ vidadzs a es~e rtcer. nem ba seta que bôa be bia. jflil cairão ao teu labo. em virtude de terem adoecido diversos funccionarios de suas officinas. do DIÁRIO DA TARDE 31 . penall e bebaixG be suas nocturno. e AmAnhA serAoil celebrad"slPn a . 90 ~~ltjflQ!') DIA 29 TER~A o "COMMERCIO" NÃO CIRCULOU Deixou de circular hoje o nosso apreciado collega mattutino "Commercio Paraná". ás Rcqu!I 8 112 hc ras. e bn ~ómente tlorque mil à tua bireita.I t\1. UIG~~ cancerosas M mirei bo ~en!Jor: qele é meu refúgio e min!Ja fortale?a. jiem ba pellte que bagueia nas trebas. a paga bos prcaborell com os teuS o(!Jos tontemplarás. 510li portanto" con. nem ba calamibabe que alISo(a ao meío·bia.o. ) ) 8066 I Rneumatismo.

pro resto da vida. Mesmo muito tempo depois da gripe encontrava-se gente que nunca mais recuperou a razão. COMO MEDIDA PREVENTIVA ESTÃO SUSPENSAS AS VISITAS AOS DOENTES INTERNADOS NO HOSPICIO NOSSA SENHORA DA LUZ. TODA E QUALQUER INFORMAÇÃO AO RESPEITO DOS MESMOS DEVERÁ SER DADA PELA EXMA. Não adiantava.1976 32 . 29 DE OUTUBRO DE 1. sempre cheio de lesmas. SRA.como pelo de pecego margeando os lábios rubros do amor ... pintados de cal. olhando com aqueles olhos. LEMOS No monte de venus parca loura penugem . CURITlBA. olhando. O louco comia pêra com lesma. IRMÃ SUPERIORA E PELOS MEDICOS DO ESTABELECIMENTO NAS HORAS HABITUAES DE VISITA. lugar úmido.brancos os pés.918 ODIRECTOR DR.fenda virgem para mfm advinhada por mim "Muita gente ficou com o juizo abalado. Por causa da febre forte dias e dias." DONA LÚCIA .No jardim do Hospício tinha umas pereiras. ficava horas mastigando fruta e bicho.

eCt~ n _ ••••••. com relação á epidemia. Vinham buscar os mortos. eu mesma costurei algumas. faltou até caixão.1976 pra servirpara outro:' 33 ...Isfflél(OS e 50 canbõfs I f\ Brlgicd Vde ter a séde do seu governu dentro dos territorios receul-libertados A GRIPPE Embora a censura policial tivesse varrido do noticiario da imprensa a rekltação dos fatos verificos. Depois era de qualquer jeito.DIA 30 QUARTA AS VICTORIAS DOS ALLIADOS SE MANIFESTAM POR TODA PARTE! ~~~"".~ ~ IA paz incondicionalmente iI Austria rende-se e quer Ia i I 95 êDglo·jjalianos avançam aíé~ do (íé\Ve e capturam I 12. antes de enterrar tiravam do caixão DONA LÚCIA . o nosso dever profissional nos força a sahir do mutismo em que nos encontravamos nesse sentido e vir dizer ao povo que todo esse preparativo que se faz não é apenas para evitar que o mal chegue até nos. mas sim para dar combate á enfermidade que já n?s atingiu. A b m 6EMia'Y9bW'(4 AiiS . DIÁRIO DA TARDE "Os primeiros mortos tinham mortalha..000 ai.

- . veio á rua 15 de Novembro. onde praticou uma necessidade phisiologica na porta da redacção do "Diario da Tarde" e em seguida veio escarrar na porta da nossa redação. COMMERCIO DO PARANÁ 34 -.ONDE IREMOS PARAR? A QUE PONTO CHEGA A INSOLENCIA DE UM BOCHE O allemão Rodolfo André Damn.

..-- "COMMEACIO Pl DO . Coritiba _. Quinta-feira. ~~ ~ --- ----~-----~----. •. . glorioso 8 A biHlda de rc'!'hncllto de tnusira do tã') cele brc quAo ZURVOS do exerdto francez 35 . DIÁRIO DA TARDE A FALTA DE CINEMAS TRANSFORMA CURITIBA EM UMA CIDADE DE MORTOS DT DIA 31 QUINTA ReJO DO OPRIEDADE DA SOCIEDADE ANONVM4 . PRESIDENTE DA REPUBLICA ESTARÁ COM A "MARIA IGNACIA"? Rio 30 .-. FRANÇA . que não desceu hontem às salas de recepção.Encontrasse ligeiramente enfermo o sr. 31 de Outubro de 1918 Visões da Guerra ~~ .o SR. Wenceslau Braz.

a não ser do medico assistente.ão basta passar um panno molhado em agua com creolina pelo soalho da casa do doente e desinfectar o seu escarro. Indo doente grave deve ser entregue a um enfermeiro ou enfermeira. toda a fadiga ou excessos physicos. QIDln!Q á desinfect. do doente. como nenhuma outra molestia infectuosa ou parasitaria. Só chamar o medico para os casos serios.loou:.. Eara lavar a bocca e gargarejar é excellente a agua com um pouco de tintura de iodo. Aconselhamos. e Negoci". não curam a grippe. ~ refeições leves e a horas certas e dormir tempo sufficente.1 CÚU edosas e c(('Unça. 36 . Não fazer visitas e evitar o contacto com os doentes de'~ porque o contagio é directo. sobretudo á noite. O espiritismo e as hervas. com febre. l.]lini8ter. Inmar um laxante cada 4 dias. que facilitam a infecção. ("(mIm a in/t'q:. So levantar-se quando não sentir mais nada. deve ir immediatamente para a .ldI1l1lI. evitam as complicações pulmonares gastro-intestinaes ou nervosas. pessoas Recommpudamos maior rigôr TUl def(>.a bocca. ou usar tampões de algodão com 'vaselina mentholada a 3%. de manhã e de noite. em seguida. O repouso ao leito. 5 gottas de oleo gomenolado a 5% nas narinas.li. AVISO: .. de individuo doente a individuo são. o regimen lacteo e essa medicação inicial. Dieta lactea.A homeopathia. fuitar. quando elles poderão prestar maiores serviços ápopulação. com tudo. aggravàndo a situação geral. O mais importante é a desinfecção da roupa de corpo e de cama. diariamente. pela ~ ~ é molestia muito séria quando descuidada.. que seriam contagionadas. Tomar 3 por dia. afim de trazer o tubo digestivo sempre desembaraçado Ellgir das agglomerações. para evitar a intervenção de pessoas da família ou extranhas.o da Justiça.30 centigrammos para uma capsula. nariz e gargarejar com agua salgada com agua salicylada a 1 por 200. o uso de bebi das alcoolicas. fuitar. que são muito graves. o seguinte: Tranqyilidade e confiança nas auctoridades sanitarias. afim de evitar que elles adoeçam pelo esfalfamento e venha a faltar no momento mais difficil. e instillar. fazer uso de purgante salino' ou de calomelanos e tomar aspirina e quinino á 0. também com creolina. fuitar.as causas de resfriamentos. ~não deve receber visitas.tiu.'tI.s Interiores Serviço ~e prophylaxia rural do Paraná Combate á grippe Conselhos á população paranaense É impossivel evitar a propagação da epidemia de grippe por não existir um preventivo seguro capa"" de evitar a infecção. Sentjndo dôres de cabeça e pelo corpo.

1918 Novembro o mez da grippe .

vendo hora a hora cahirem os nossos companheiros enfermos. Relatório do Sr. Até hoje. todas as classes sociaes. por assim dizer. Trajano Reis. reconhecendo que outra cousa não era sinão essa epidemia que já se estende por todo o Brasil. "Como saber quantos morreram? O governo não ia dizer o número verdadeiro dos mortos para não alarmar.. achando razão nas declarações de que em Coritiba não há epidemia. quasi sem homens para o trabalho. todas as casas. Dr. DIÁRIO DA TARDE Agora está m~o morrendo muita gente. em termos claros. ninguém sabe ao certo. continuamos ftrmes em nossa attitude pela razão. Começou o mez de Novembro com um obito por grippe. de ocultar a verdadeira situação. pois que.1976 Fina loura linha não de tecer mas louro novelo ninho para o pássaro asas da minha mão 39 . não nos era possivel descuidar da nossa propria vida. espalhou-se de modo aterrador." DONA LUCIA . não em entrelinhas nos manifestamos ante-hontem. no dia primeiro.DIA 1 SEXTA HO KAISER CAPUT_" Contra esse injustificado interesse das autoridades sanitarias. foi que.. director do Serviço Sanitário não obstante. o mal tomou proporções assustadoras. invadiu. Dahi em diante.

Nov.. viu a coifa da freira em cima da cama. Deve ter achado bonito. curto po•. cantando: 40 . Tristonha de amarguras e miseria. deixou a porta aberta.. Deixando o corpo á podridão do Nada. fornecem encommend •• no prazo mal.uta ' no •••• officin •• da C05tur. a directoria do Serviço Sanitario o fez sob condicção de funcionarem somente 3 vezes por semana. CP A freira. O louco entrou. colocou na cabeça e saiu daquele jeito pelos corredores: camisolão branco e coüa na cabeça.DIA 2 SA13ADO ~ I. dicCl J' . E assim vamos indo nessa estrada. mo• Iva' por preç A.. FERREIRA LEAL . 1918 PEQUENAS NOTAS Embora permitindo que os cinemas voltassem a funccionar. na lidadeira daqueles dias.

" DONA LÚCIA . com medo da gripe. Mas ir para onde? As outras cidades também estavam doentes. cOl!inhoir~ para acompanhar milil\ para ·fvra dl\ Yapita1. saía.io n. Quem podia..1975 41 .'l CcmmenfÍRdor de uma uma.DIA 3 DOMINGO Nas outras mulheres que conheci na cama preta mata cerrada escondendo o sulco muitas vezes arado Crreada Precisn-s'J com urgüllcio. faTrata-se Al'RlI. á r\. 51. "Muitas famílias saíram da cidade.

1976 42 . HERACLIDES DE ARAUJO Na homoeopathia está a salvação do genero humano. a segurança das sociedades. DIÁRIO DA TARDE . é dar prova de leviandade" pobre idéa do proprio juizo. Buxeta. com' nenhuma outra mo/estia infectuosa ou parasitaria. faltou madeira.4. continuamos ftrmes em nossa attitude pela razão . SATURNINO SOARES DE ME/RELES . que se não sondou com c escalpello do obseroador consciencioso.A homoeopathia. não é criticar. Kriste Eleisson Buxeta. o espiritismo e as hervas. Zombar de uma cousa de que se não tem conhecimento. não curam a grippe.Livro dos Espiritos O Altissimo creou da terra os medicamentos e o homem prudente não os desprezará.Capo 38 V. Ele mesmo fazia os caixões." DONA LÚCIA .~ saude das familias. não obstante. -ALLAN KARDEK .Conceitos sobre e doutrina homoeopathica. DIA 5 TER~A "Ali naquela casa morreram sete.DIA 4 SEGUNDA Kirie Eleisson. Allamão Allamão Te pego allamão AhhhhhAaaaaaah Ghhaaaaaaaaa A HOMOEOPATHIA TAMBÉM CURA A VISO .ECCLESIASTICO .. Buxeta. . No ftm. era o pai chegar de um enterro já tinha de levar outro ftlho para o cemitério. a garantia do médico conscencioso.. o complemento e a certeza de arte de curar .DR. DR.

DIA 6 QUARTA VIGOROSO ATAQUE BRITANICO MEDIDAS DA SOUTH Luctando com a falta de pessoal devido a epidemia reinante. suspender temporariamente o trafego de eletricos á noite em nossa Capital.. não se davam com a gente do bairro.6/11/1918 Ou então.1976 43 . Imagine os dois.. loira. a mulher alta. sofrendo sem assistência. Clara. CP . um num quarto. " DONA LÚCIA . Não recebiam muita visita. outro no outro. muito bonita. Passaram muitos dias até que uma vizinha lá entrou e encontrou os dois . ninguém notou. as de pouco pelo (negro) que conheci ofereciam lesmas escuras que mesmo penduradas da carne faziam parte "Morava um casal de alemães. isso. seu nome era Clara. resolveu a South Brazilian Railway. Os dois caíram com a gripe.

passa por ahi somente porque vae levar o chal. asas sinistras sibilantes.. de que qualquer coisa apavorante ocorre ao nosso derredor.. parece não ter vontade de deixar ninguém em paz . COMMERCIO DO PARANÃ 44 . · . o buzinar estridente da ambulancia é:. fora.~=======.. Assistencia Publica que.. Mas a sra. COMMERCIO DO PARANÁ As abas da coifa. o louco homici& ~============~ IIVida Social II .' feur ao almoço ? . . por exemplo.. um pobre enfermo a curtir 400 de febre e ouvir ::. Imagine-se.\'t · . d. corvo branco da morte. ás vezes. Hespanhola.6(11(1918 DIA 7 QUINTA A PAZ NÃO ESTÁ TÃO PRÓXIMA DIZ CLEMENCEAU Nada assemelhado a isso fenda estreita oferecida como lábios da febre pequeno regato de morna ácida água onde vibram mil peixes DEIXEMOS DISSO · ... em que nos achamos. é sabido que os subditos aliemães que infectam a nossa capital mantêm um "jornal" escripto á machina o qual escreve telegranunas que dizem receber por intermédio da Argentina. COMMERCIO DO PARANÁ . Ao ouvir o trombetear agudo do auto ambulancia tem-se a impressão doloras:. Esse "jornal boche" passa de mIo em mão" . no silencio sepulchral das ruas desertas.A "BLACK LIST" ALLEMÃ "Apesar do estado de guerra.

j_mUilmi!·_ZlB n t .j~. tendo a cidade 5e movimentado mUlto ác. eM OOMMERCIO --. a grippe..-- DO PAllANA .. 'I íido re PEL~ TELEGRÀPH~ w_IIlIIIiI IlIl_ ••••••••• . A hruma.""nhl'o .-----. prirn\3ihoras da noite.. 8 '•..iba.DIA 8 SEXTA A CESSAÇÃO DA GUERRA COM A ALLEMANHA FOI FIRMADA o REGOSIJO PELA 1ERMINAÇÁO DA GUERRA É ENORME FM TODAS AS CIDADES DO MUNDO --_. intensificou-se ainda mais a sensação popular.i~:: •• _ ••.".Caderno de um grippado . :-:'.em todas as frf1ntes dp.• assignado hontem O armisticio entre os alHados e a AJlemanba RIO..s de hoje foram cessadas as hoc. 1 do no. ''''. a~signado o isticio entre os paizes alliados c o imperio allemão.__ .lcç. 1918 .Telegramma recebido á ultima hord . 7 (Urgente)-. quando '.1i:1 1'111:11(0 tnl .~--Irltgrammas á disposiçilo 00>.acional. causou grande lção.COr". batalha._-----. a ~evoa.tili· . ás 11 horas..: d.rnar-:s affixaram outros despad10s teleglaphicos annun· do que ás 13 horc.101 I. onglllae~ ""s A" 1\ .--._ondres. máo gra. l!ssa noticia sen::. noticia que foi hoje.do a situação lamen:1 e doloro~a em que se ach~1o Rio. 8/11/18 45 JAIME BALLAO JUNIOR .

está pela simples suggestão attirando com toda a gente á cama.DIA 9 SA'BADO A "HESJ?AlliiQLK' Só se falia da epidemia. DIÁRIO DA TARDE DECRETO NO 133 O EXMO. de pilheria em pilheria. do que a grippe hespanhola o que está nos matando é o boato. amanhã concerto de banda de musica na Praça Tiradentes. CORONEL PREFEITO MUNICIPAL AUTORIZA O COMMERCIO DE SECCOS E MOLHADOS E PHARMACIAS A CONSERVAREM SEUS ESTABELECIMENTOS ABERTOS DURANTE OS DOMINGOS E DIAS FERIADOS. assoJOÃO ANTONIO XAVIER . e só não se fazem sepultamentos por que o official do Registro reclama. Acabemos com elle e terminará a grippe que de trocadilho em trocadilho.Prefeito Municipal 46 . SR. 9 DE NOVEMBRO DE 1918. pois. aggrava-se o estado dos enfermos nas esquinas. cream-se cifras de doentes. porque estando a população a braços com a epidemia não seria louvavel essa organização de diversões. primeiro porque a quasi totalidade dos musicos de nossa milicia baixou hospital atacado da epidemia reinante e. CP NÃO IlAVERÂ CONCERTO Ao contrario do que foi noticiado por um jorna~ não haverá. Peior. segundo. ENQUANTO PERMANECER A EPIDEMIA REINANTE. CURITYBA. Mata se gente nos cafés.

mas quase. MOLESTIAS DO PEITO Se a tosse vos persegue USAr O Xarope ~e 6rin~clia o MEDICO:-Então I Sente-se melhor? A DOENTE:Muito pouco. não. que não de OLlVfIRA JUNIOR ha remedio senlo appeIlar para o XAROPE DE GRINDELIA.1976 47 ..DIA 10 DOMINGO Estou de pé ao pé da cama o traço de sua fenda do amor fica horizontal em relação a mim. Tiveram que levar os dois para o hospital. como se os lábios fossem sua boca onde encosto meus lábios." DONA LÚCIA . não estavam mortos.. doutor. Estou vendo. UNICO QUE CURA " . Não.

DIA 11 SEGUNDA o KAISER O KRONPRINZ O ARMISTICIO ABDICOU E TAMBEM NÃO QUIZ FOI ASSIGNADO COM A COMPLETA CAPITULAÇÃO DA ALLEMANHA A REVOLUÇÃO ESTENDENDO-SE POR TODA ALLEMANHA Mesmo na imobilidade da febre suas coxas se entreabrem lentas como a pedir que eu penetre sua gruta com minha Ifngua de sangue em chamas 48 .

Aponta-se também como symptoma caracteristico da injluenza. esse som. que se produz principalmente quando o doente move com os olhos. a todo instante. um "peso doloroso nos olhos". redactor do "Diario da Tarde" Um facto que deve merecer a attenção de quem de direito é esse de estarem a dobrar finados.11. DIARIO DA TARDE .INFLUENZA pelo Dr. excitação e delirio. depoi~ de repetidos "arrepios" de frio. Nilo Cairo . a magua e a tristeza. os sinos da Igreja do Rosario. 49 . . Em geral os typos classicos da influenza começam por uma "febre" bastante forte. Agora que o numero de mortos augmentou os sinos ali dobram constantemente sempre que um enterro se aproxima. A prostação é algumas vezes tão profunda que pessoas bem robustas são obrigadas a se meter na cama. a apprehensão.11.. Outras vezes se observam symptomas nervosos. e muito frequentemente "dores" bastante intensas das "costas e das cadeiras'.. .1918 Kirie eleysson alIamão te cuspo escarro lesma em cima de ti alIamão alIamão cabeça de mamão alIamão mão peluda RECLAMAÇÕES Sr. violenta "dor de cabeça". em caminho do Cemiterio Municipal. espalhando. grande prostação /feral. 0 começo da molestia é ordinariamente brusco.

Vendo que tal facto constituia uma anormalidade o cidadão referido dirigiu-se á policia. &A.em i &A A AI 1 EMANHA. foi elle a uma empresa funeraria para encomendar o indispensavel caixão mortuario. . COMMERCIO DO PARANÁ 12/11/1918 50 .• Ç&Dha..fW. onde ouviu que "a policia não tem nada com isso". u.O u. NUo P. 12 da N Telegrammas.DIA 12 TER~A IOR CIRCULAÇÃO NO PARANÁ - Coritibs . IIÚIlÍAro Exteriores. - YARIAS AS BARBAS DO VISINHO É O caso que havendo fallecido domingo a esposa de um cidadão. terça feira. llUIS HUMILHANTES PAdai recebeu &elaçõel hnnt. AS CONDIÇOES IMPOSTAS AL DA CE8SAÇAO DA GUEB.! VENCEMOS Â COMMUNICAÇAO Á~ GUERRi\! o ex·Kaizer entre~a-sa ~ p OFl'ICI-. l~. para quando teria de ser transferido o enterramento.\)1 "'I']'. dr.Terça-fsira. I .. Pois bem: a empreza declarou-lhe que a sua encommenda só seria attendida hoje. ~rlSIOneIlO ~ U ('1.\-\[.AI RESOLUÇOES DO PELOS ALLlADOS SAO Ml GOVEBNO· lUO.

abstendo-se de dar noticias que pudessem levar terror á nossa população. . COMMÉRCIO DO PARANÁ A MORTANDADE CRESCE Hoje. t DIA 13 QUARTA ENFIM A PAZ! ASPIRAÇÃO DOS POVOS CULTOS 7. .AS VICTIMAS AVOLUMAM-SE 21 OBITOS SENDO 16 DE GRIPPE OS CINEMAS FECHARAM A CRIPPE TORNA-SE CONTAGIOSA SETE DIAS POR SEMANA DT Agora está mesmo morrendo muita gente. 22 obitos. 7 J Esta folha sempre se manteve numa attitude de calma solicitude ante os interesses publicos. sendo 16 causados pelo mal reinante DIÁRIO DA TARDE 51 . até rís duas horas da tarde foram registrados no Cartorio da Praça Tiradentes.

iVi>hIN&:!WCf••••••• FTlp.. de P. Eles quase não falavam com os vizinhos. o bico róseo dos seios.1976 DIA 14 QUINTA I ! ~~ItF~~'<i..~~- Ph'.amws:M' 'cocheiros na EmpreIza I t ••••• __ iFalce.:i~:" POii...f.:Za I Precisa-se de dois Funeraria. . O marido passava fora o dia inteiro.l . ....rq~ib~ia l~~!:~}illl Faço isso Somente depois é que meus lábios minhas mãos percorrerão." DONA LÚCIA .~!~'.. MORREM 24 PESSOAS JA POR DIA EM CORITIBA "Não sei bem no que o marido trabalhava. 52 I . os cabelos...a::w_ BAI~BEARIA I Riq~~.. precorreram outras partes de seu corpo: a boca ru bra febre. acho que era dono de alguma coisa."".

assim como os informes fornecidos por alguns medicas. direetor do Serviço Sanitario. mandei-os fabricar e. dr. alugar pelo preço pedido. nesta capital.DIA 15 SEXTA No dia em que não houve caixões para serem transportados os cadaveres. dando aos nossos leitores tão animadora noticia que irá restituir a calma e tranquilidade á nossa população. nos auctorizam a affirmar que a epidemia começou a declinar. quando faltaram que não para conduzir os os infelizes fallecidos. Trajano Reis. o movimento observado hontem nos postos de socorro e nas pharmacias. Coifa branca. sendo já muito limitado o numero de casos novos. a muleta é foice que ceifa mil milllões de cabeças. Anjo exterminador. COMMERCIO DO PARANÁ 53 . mandei-os Relatorio do Sr. para anirnaes ficassem insepultos carros funebres. Queremos ganhar as alviçaras. camisolão.

DIA 16 SA13ADO os olhos agora semicerrados. Muito branca. cuidando de alguma coisa. Loiro." DONA LOCIA . o cabelo bem comprido brilhando mesmo quando não tinha sol. novamente o bico dos seios agora também todo o seio branco talhado enche minha boca r SEIOS = Desenvol\ idos FOítificadGs Aformoseados 1 II = = i I "O que a gente via era a mulher.1976 54 . a parte interna das coxas. alta. no quintal.

'1' DIA 18 SEGUNDA a suave curva do ventre e meus dedos percorrem tremulos a copa de seus pentelhos. Ninguém lhe diz. ~:u.\ Dor circum~tancias ~l11pe· ~ IJI <. motivo de força m:ilor... ltes.'s~im pedimos pxc usas ao~ ri nosso~ :1!1J'lunciante~aca:.~ "CommercÍu .~. nas e publicando a materia nr. porém.irrpos llt ~.DIA 17 DOMINGO . Não se publica uma nota estatistica pela qual se veja que a marcha da molestia que nos infelicita está sendo acompanhada cuidadosamente. 55 . editorial e de collaboraçào : i .a paginas. inserindo todos os t1j \0 IitJsa~. ••• Rnnuncios nas L2' e" 3°a pam. suas mãos os dedos se erguendo com meu forte apertar.e:~nas 10 e 4.. 1.. t.!t formar a paginação do nos•. e DIÁRIO DA TARDE com esforços empregados para debela-lu._ ~O Paraná" 11:: 'al rto' ~) Por. Vt &' ..-.r- _ :. sugo seu pescoço: uma mancha vermelha que depois será roxa.. A EPIDEMIA DECLINA OU AUGMENT A? É o povo cuja sorte está em jogo a todo o momento interroga.forlllhçãot Que n s f')i .o ar::: prejudicados com essa tr2ns· d. i ado' fomos hoje obrigados a traIU' tr. prol ..rloll Ir:~ 11 u :::: tt.. novamente a fonte do amor. 50 jornal.Q.

Ela geme baixinho. não mais de febre agora de gôzo? Gózo e no auge do gôzo tento abraçar todo seu corpo que se me escapa e tenho nas mãos como um pássaro peixe 56 .DIA 19 TER~A M OS OBITOS DE HONTEM NÃO HA AUMENTO NEM DIMINUIÇÃO .

Apesar da censura da imprensa. estando a força policial de promptidão.DIA 20 QUARTA " A EPIDEMIA SO DECLINA PARA ASCIENCIA OFFICIAL Maldito pesadelo da mão peluda pulo 3 vezes O mar do mar para lá ficou AS TROPAS ALLIADAS CHEGAM AS MARGENS DO RHENO ABORTOU NO RIO UM MOVIMENTO GREVISTA SEDICIOSO o GOVERNO ESTÁ DISPOSTO A MANTER A ORDEM. tendo surprendido agitadores exactamente no momento de explodir o movimento. O governo está disposto a manter a ordem custe o que custar. CUSTE O QUE CUSTAR RIO 20 .lOSÃODECREANÇAS! 57 . DT EM 130BITOS. alguns jornaes noticiam que a policia descobriu um plano de gréve com caracter politico. Reina tranquilidade na cidade.

~!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!I.I!!!!~'"

,

Aviso fi
i [lMticipa Empreza
j

€mpreza Funeraría pires ~IiCia.

ao publico em geral Que, desde hoje em diante, attenderA a er.terro~, devido a seus p: 0Iprietf1rlos já cc acharem restabe:ecidos da ericr· midad~ Que os obn~ou a fecharem seu estabE"ieI cimento, estando :l,:tos para lltten~erem SI Qu{'lquC'r peS~()J que necessItar dos servIços da me~nl1 Coritiba, 20 de Novembro

I

J.

de 1918-

BBrreiros Pires & Cia.
DIA 21 QUINTA

iCommuRique·se.
t

aos pobres este aVIso :

I

o Dispensario 810 Vicente de Paulo, delicadamente, nos pede indiquemos aqui os pontos da cidade, onde distribue, o durante dia" o caldo Já preparadopau os i entermos pobres: . Praçi\ da Repubtica (CoUegio
I Praça Santos Andrade (Oolte: São José) gio Sion) Hua Jguass\\ n. 20õ (Colleglo Coração de Jesus) ; Rua Ractcliff n. 2 t 7 (bandas d' A~ua Verde). E para desejar que todes se tornem junto aos pobre~, pOrtavoz dessa communíct'çào:
58

i

DIA 22 SEXTA

" -----0

FUGlO NO DELlRlO DA FEBRE E NINGUt.,M O t.,'NCONTRA Noticiamos ha dros que o sr. Telemaco Jardim em um momento de crise neroosa occasionada pella grippe de que estava acommetido, fugiu de sua residencro á ma Carlos de Caroalho n.8, tendo a familro do enfermo solicitado os officios da policro para descobrir-lhe o paradeiro. Entretanto, dros já se passam e não obstante os esforços empregados pela Inspectorro de Agentes e por pessoas amigas, o desventurado moço não é encontrado. Concorre muito para interceptar as investigações o facto do pouco movimento da cidade, difficultando as informações que poderrom ser colhidas acerca do paradeiro do sr. Telemaco. A falta de qualquer noticro sobre o pobre moço, leva a crer que se trate de uma occurenCla maIS grave. A policia prossegue nas diligencros para deslin(ÚJro facto. DIÁRIO DA TARDE

~Vida Social ~
Que noitadas magnificas nos proporcionou a Companhia Salvat-Olona. .. E de saudade em saudade, como de abysmo em abysmo, chegamos até a tet saudade do tempo em que os cinemas abertos apresentavam a fita "Bigodinho vae á missa" ... COMMERCIO DO PARANÁ ou outra coisa egualmente profunda. . .
59

RBCLAMAÇÕESDOPOYO
Pedem-nos moradores da rua Alferes Poly que intercedamos da hygiene municipal que providencie sobre uma casa da rua Silva Jardim onde residem lavadeiras que cuidam das roupas de um hospital de grippados, estendendo-as pelas cercas. O escoamento da agua se faz pela valleta da rua, onde estagna, pondo em risco a saude dos mesmos moradores.
COMMERCIO DO PARANÁ

Um grito lancinante foi ouvido.

DIA 23 S~BADO

Mão peluda acuda acuda acuda cuda cuda cuda cuda cuda cuda mãe cuda mãe cuda mãe

Cuiàado

com a Hespanhola!
Use o poderoso antiputrido
Balsamo Santa He1ena

desinfectante analgesico, ini· migv do máu cheiro Empreg2 do em gargarejos, pora a conservação dos dentes, contra o mau hàlito e

!

Um

affecções da garganta

vidro
as

1$500

em todas

pharmaclas

Só o Balsamo 8t8. Helenll

-----------:
60

DIA 24 DOMINGO

POLICIAES

BAILES DE ARRELIA VISINHANÇA INCOMMODADA Hontem, na casa n.158 da rua Silva Jardim, teve logar um barulhento baile que, dado a agglomeração de mulheres da vida faci1 e de muitos desocupados, muito incommodou a visinhança, onde se acham pessoas atacadas de grippe. Segundo fomos informados o baile da arrelia foi promovido pelo cabo do 4~ Regimento, Manoel Candido de Almeida. Tarde da madrugada, quando a bachanal chegou ao auge, algumas pessoas pediram á patrulha de cavallaria para acabar com a encrenca.
COMMERCIO DO PARANÁ

Pancada tão forte que saiu uma espuma de sangue da boca. Ficou ali tempo, no chão de cimento, dezenas de bolhas de sangue pegajosas, levando tempo para ir estourando, uma a uma.

Quando de fadiga não puderam os coveiros abrir sepulturas, mandei gratificar a outros individuos para que as fizessem, de modo a evitar a decomposição dos cadaveres. Relatório do Sr. dr. Trajano Reis, director do Serviço Sanitario.

Nada mais me importa agora nem a mancha do gôzo em minha calça Nem o paletó cheguei a tirar O marido? tosse que ecoa por toda a casa saio pela porta sem chavear sem a volta da chave na fechadura saio sem me voltar ao menos
61

DIA 25 SEGUNDA

Telegrammas
As tropas francezas chegar~o_ a Vienna esta semana" Os - ---------------------------- americanos já invadiram as províncias rhenana~~~ lemãs - A conferencia da paz iniciará seus trabalhos ern ..Janeiro - Hinden~ burg cornmunicou ao governo allemão que o exercito gerrnanico não poderá combater nem um só exercito - A as· quadrra ingleza parrte papa Kiel.
DIA 26 TERÇA

o Conselheiro Rodrigues Alves vae assu..
111ir a

presidencia da Republica

Os holiandezes odeiam o Kaiser - O ge· ~eral d'Esperay chegou a Constanti-_ ncpla - O general Pers0ing será o subo stituto do president~_~ilson •.Os frac~ ~~ze§>estão nas rna'~gens __ __ ~_~~~~noJ numa extensão de 100 milhas - A irn---_._--------_._~_._._-~"---------------------_._prensa allernã pede intervenção dOS ~J-= ~,?_do~J?ara reorganisa~ política allemã
62

familia visitou-nos agradecendo a noticia que estampamos sobre o passamento de sua galantinha netta a pequena Diva. simplesmente pelo facto de ser seu pae allemão (pois sua mãe é brasileira) não tremulou dizer em frente á muitas patricias estas palavras fllhas de uma alma entoxicada pela "Ku1tur": "Eu preferia ser devorada pelos peixes a ser enterrada em território brasileiro" COMMERCIO DO PARANÁ Lá em cima se confere os pecados aqui em baixo ferro e sangue allamão mão mão mão peluda Lüaaahaaahhh AGRADECIMENTOS distincto cidadão. DT 63 -o . João Pereira ckt Fonseca.DIA 27 QUARTA o CHILE E O PERU EM EMMINENCIA DE GUERRA Há dias deu-se um caso que encolerizou quantos o presencearam. moradora a rua Riachuelo. sr. brasileira nata. Uma moça. no seu nome e no de sua exma.

64 . Um grito lancinante foi ouvido.DIA 28 QUINTA Um grito Iancinante foi ouvido. Um grito lancinante foi ouvido. continuamos fmnes em Não obstante. continuamos firmes Não obstante. Pedaço branco de miolo escorrendo pela parede. continuamos fmnes em nossa attitude Não obstante. Não. Como um verme. Não obstante. Não obstante. continuamos fmnes em nossa attitude pela razão .. como uma lesma. igual a um verm: descendo pela parede deixando uma baba de rastro. continuamos fmnes em nossa Não obstante. continuamos Não obstante.. continuamos fmnes em nossa attitude pela Não obstante.

implacavel. saindo o feretro da rua Carlos de Carvalho n. Dias atraz. no delirio da febre. O enterro da desventurada creança realizou-se hoje ás 15 horas. FECHAM-SE OSPOSTOS MEDICOS MAS OS NECESSITADOS DEVEM PROCURAR A REPARTIÇÃO DE HYGIENE Por achar-se quasi extincta a epidemia da grippe nesta capita~ a Directoria do Seroiço Sanitario determinou que fossem extinctos os postos medicos que o governo creara no quadro urbano e nos suburbios providencinndo tambem para que as pharmacins que estavam autorisadas a preparar receitas gratuitamente para os necessitados. quando atacado também do ma~ abandonou o lar e se foi deixar morrer. DT JOSEPHINA . a morte paira ainda sobre o lar infeliz e arrebata a gentil menina Josephina primogenita do malogrado cidadão. Telemaco Jardim.DIA 29 SEXTA o KAISER VAE ACABAR NO HOSPICIO . 8 para o Cemitério MunicipaL DIÁRIO DA TARDE 65 .a distincta familia Jardim vem sendo curelmente ferida pela impiedosa epidemia que tantas lagrimas tem ao nosso povo arrumado. abandonado e só à beira da Cascatinha de Santa Felicidade. e que contava apenas sete annos de idade. facto esse que o exaltou de tal forma que. não mais o façam. E.. noticiamos o fallecimento de um filho do sr.

De repente. saía a andar sozinha pelas ruas.. Nunca largava do veneno.. a mulher. mesmo quando estava normal. teve até um filho. seu corpo de loura plumagem Sem me voltar. alegre com o marido e o filho .COM HESPANHOLA O KAISER ESTA DIA 30 SKBADO De amanhã em diante será restabelecido o trafego dos bonds os quais circularão dE accordo com o antigo horario. dava assim como uma tristeza nela. Passava uns tempos boa. criança linda.1976 66 . nunca mais ficou com o juízo perfeito. " DONA LÚCIA . sempre com um vidrinho de veneno nas mãos. DI Mas sempre terei diante de mim a visão de eu abrindo a porta a casa vasia. silenciosa nestes dias da grippe ninguém me viu nem me verá "Ela. sem voltar diante de mim a cidade vazia..

918 DIA 1 DIA 2 DIA 3 DIA 4 DIA 5 DIA 6 DIA 7 DIA 8 DIA 9 DIA 10 DIA 11 DIA 12 DIA 13 DIA 14 DIA 15 DIA 16 DIA 17 DIA 18 DIA 19 DIA 20 DIA 21 DIA 22 DIA 23 DIA 24 DIA 25 DIA 26 DIA 27 DIA 28 DIA 29 DIA 30 FONTE: DIÁRIO DA TARDE 1 O 1 4 2 3 4 4 3 10 10 15 12 12 20 10 19 11 7 18 14 13 16 12 15 15 10 12 7 8 67 .OS 6BITOS DE GRIPPE NOVEMBRO DE 1.

ovrae-nos. Devin Jusus. immoror forte.de todo Deus. . anto Z t t5tA 5 t O I B livrae·me latorias: Po daras dirá osd5 Quando o vossa Cruzr chagas. peste • AI F R B GB tZt HF t z Por voss guintes logio der )ac h s s S e· o· e· t S u- P as o r a o JESUS E MARIA 68 .

1918 Dezembro A última ktra do alfabeto .

annunciando exihibiç6es novas depelliCp culas attrahentes.o============\1 \IVida Social II Os cinemas "in totun" abrirão amanhã. 71 .DIA 1 DOMINGO 'I)------CI .~::.

que infeliz e mendigos subjugado se ocultavam-se. Seria 6 de furioso da manhã. em meio de uma profusão de sangue. vivendo por isso solto pelas alamedas dos jardins do Hospicio. mas desde 5 armos que não tivera accessos de loucura. a faiscarem. Era esta o cosinheiro do estabelecimento. velhos demente foi ali reclusos pelos empregados até que após uma Paulo Kopff. tomado 1/2 horas accesso.. o louco. de 22 annos de idade. Baldado foi seu esforço. . No " Scena M6cahra H08~icio da Alie- na U08 um louco mata quatro suas Desenrolou-se hontem no Hospicio N.DIA 2 SEGUNDA . o louco desferia pancadas. Pandellis Rethis e lucta perigosa. naquella confusão que se estabeleceu. de uma destas se apoderou vibrando-lhe forte pancada no craneo. que tivera um dos e se achava exaltado pelae febre. que procurou defender-se com o braço. o o puzeram em camisa de força. da Luz uma scena terrificante que teve como protagonista um infeliz demente ali recluso. fora recolhido áquelle estabelecimento ha muito tempo. Numa aneia de matar.. Andava por ali abobado. Caido exanime o primeiro. Entretanto. pois qque recebendo pancada violenta. . caiu também sem vida. no solo. ao encontrar grippe reclusos que era aleijado usava molletas. recolhendo o a uma cella. DIÁRIO DA TARDE 72 - pos- .. S. irmãs de caridade fugiam. Manoel de Campos. o louco avançou sobre outra victima. jaziam cadaveres quatro pessoas. E naquelle aranzel. sempre com a tragica molleta já rubra e cheia de massa encephalica de suas victimas saiu em busca de outros. Em quantos que encontrava. sem que alguem pudesse um dia augurar a scena horrivel que elle foi causador hontem. olhos injectados de sangue.

Chama-se Manoel de Campos o autor da horrorosa scena de sangue. nem mesmo um simples presidente da republica: contentava-se com ser Governador do Estado . a enfermidade fez a sua entrada tambem no Hospicio. WUlI••••••• __ •• ••• lIlIlI U ma trage~ia no Hospicio da uHespanhola" Uma proeZa macabra Domingo foi nossa população cruelmente abalada com a noticia de que no Hospital de N. S. que naquel1a coisa entoada á guisa de canção está a mostrar o quanto a inconsciencia toma os irresponsaveis como que felizes immersos na noite negra da inconsciencia.. como o fazem todos os jornais verdadeiramente modernos. da Luz occorrera uma tectrita scena de sangue. sendo portanto um delirio mais democratico. Então as irmãs preparavam-se para ir celebrar o sacrifIcio da missa. - Apalermado. pois que o infeliz não se suppunha um rei ou imperador. a ver se haveria razão em acreditar-se que o descalabro se dera por qualquer imprudencia. outros a de grandezas. porém. ninguem suppunha que el1e viesse a ter um accesso de loucura furiosa. Tratado. podemos mais ou menos reconstruir a scena horrivel da seguinte forma: O CRIMINOSO E SEUS ANTECEDENTES. já nos chamou a attenção o cantar monotono de um doido. destacámos hontem um dos nossos companheiros para ir até aquel1e estabelecimento. A SCENA DE SANGUE Pela manhã a ronda foi fazer uma visita aos diversos departamentos da instituição. Foi recolhido ao asylo ha cerca de 5 annos. nada encontrando de anormal que chamasse a sua attenção. Ultimamente. achava-se el1e ultimamente em convalescença e sempre apalermado. w -=-w--••••. Manoel de Campos quando era interrogado por alguem relativamente á sua identidade.. jamais teve el1e occaSlao de manifestar indicios de loucura furiosa e quem o visitasse era até capaz de jurar que o desgraçado estava ali recolhido por excesso de zelo. sendo Manoel de Campos uma de suas victimas. Como todo o louco tem a sua mania.. Pelo que ouvimos.••••. com a invasão da peste hespanhola em nosso Estado. Chegados que fomos á mansão dos irresponsaveis. respondia que era "governador" do Estado. Teve el1e febre alta e todos os demais symptomas da terrivel enfermidade.DIA 3 TER~A U 2W1 • um ---. a fIm de colher impressões sobre a horrorosa tragedia e ao mesmo tempo syndicar das circunstancias do caso.••••. com todo o carinho pelas religiosas daquel1e estabelecimento. conta cerca de 32 armos de edade. No desejo de bem informar os nossos leitores. ou por relaxamento em tomar as necessarias precauções com os infelizes que habitam aquel1a casa sinistra. talvez tendo no co73 . da qual era protagonista um dos infelizes reclusos daquel1e estabelecimento. uns a mania de perseguição. em 1913.

hontem estando lá o delego ás mãos. COMMERCIO DO P ARAN Á sendo que a essas horas já o facto era sa- 74 . Ribeiro.bido de todos.Kosmiake. pois é natural que naquella casa Manoel Salathiel Domingues. Nicoláo Domenico e Miguel ponsaveis. por instincto to quatro pessoas e ferido uma.. felizmente não o matando porque não. mas ninguem deu a elle attenção ximam. Um grito lancinante foi mette contra os primeiros que lhe approouvido. poz-se o infeliz a correr em demanestes morreram logo quatro . recebendo os ferimentos no braço. Interrroferido por uma pancada desferida com gato. responde conservação.. Sedento de mais sangue o infeliz demen te arreestabelecimento. E todos estavam longe de ima. ginar que era o infeliz mendigo Paulo Subjugado. foi Manoel de Campos Bruquikoski que tombava mortalmente preso a uma camisola de força.Agora está mesmo morrendo muita gente: meu pae morreu sósinho e seguir. a sua resposta era mais ou menos toda ensanguentada e a moleta do mendilucida. Manoel tenta fugir e perseguigado dI. fere se lembrava do que fizera. conseguindo prostrar sem vida alguma. respondeu que a este. Mas. Quando lhe disseram que havia morBento tivera a boa idéa de. da do portão para se por em liberdade. correndo em sua perseguiração o desejo de levantar a Deus uma prece em favor dos infelizes recolhidos ao ção muitos doentes e empregados. que lhe perguntou si do pelo epileptico Bento dos Santos. levar o braço a cabeça. Com a tranca acto. A deu: . Francisco se ouçam frequentemente gritos dos irresBittencourt. J. foi Manoel de Campos sobre o seu uma tranca de madeira.

até que. Não resistiu a febre forte. alta.. um dia. tomou o veneno na rua. cabelo loiro bem comprido. Morreu na gripe.1976 75 .. Foi muito tempo depois. a hora 8. Morreu na gripe." DONA LÚCIA ." DONA LÚCIA . Muito branca. Por este acto de religião e caridade se confessa agradecido." . morreu. acharam ela já morta. acho que foi lá por 30. "Moça bonita.1976 M Missa a todas as pessoas que acompanharam agradece os restos mortaes atp á sua ultima morada de sua pranteada e inesquecivel esposa CLARA MARGARETH HEISLER Germano Heisler penhoradamente Aproveitando a opporrunidade convida seus parentes e pessoas de sua amirode para assistirem á missa que manda celebmr sexta-feira. solteira. na egreja da Ordem.

muito branca. mas nunca mais ficou certa da cabeça. mortallia branca."Não. Moça bonita. na egreja da Ordem. casou depois da gripe. Casou. na época ela não era casada. Por este acto de religiiio e caridade confessam-se agradecidos. "Não. bonita. teve fIlhos.1976 Missa GermanQ Heisler e filhos penhoradamente agradecem a todas as pessoas que acompanharam os restos mortaes até á sua ultima morada de sua pranteada e inesquecivel esposa e mãe CLARA MARGARETH HEISLER Aproveitando a opporrunidade convidam seus parentes e pessoas de sua amisade para assistirem a missa eu mandam celebrar sexta-feira a hora 8. Muito branca. Vi o corpo. solteira. mas ela morreu. Tinha períodos de lucidez. ela morreu na gripe. cabelo branco de tão loiro. O marido se salvou. loira.1976 76 . mas nunca mais ficou certa da cabeça." DONA LÚCIA . teve fIlhos." DONA LÚCIA .

.

261 NASCI..&4% PORCENTAGEM DE OBITOS RELATÓRIO DO SR DR.249 : 0.GRIPE 29 9 18 59 112 321 DEZ.J 00 OS MORTOS DA GRIPPE ANNO DE 1918 POPULAÇÃO DE CURITYBA E SUBURBIOS 67 7MENTOS 127 254 59 25 313734 1.. 71 CASA. DISTRICTOS POLONIA DOTABOÃO = 73.466 295 89 384 = 45.244 283 1.629 16 OBITOS240 31 1.248 TOTAL OBITOS POR 4 NOV.000 HABITANTES TOTAL GERAL DOENTES DE GRIPE 2.-. TRAJANO REIS DIRECfOR DO SERVIÇO SANITÁRIO CURYTIBA 1919 .

N1 FIM .

MACISTE NO INFERNO raconto .

Perdida em Paris . Sodoma e Gomorra .Noite de Amor. Vertigem de Luxo .. . Caminho da Perdição . Três Noites de D.. . ... Rouge e Pó de Arroz . Gigolô.. Bachanal . Os Mysterios de Hollywood.... Maciste no Inferno .. . juan Macho e Femea .

.

chronicas. taboletas nos bondes e nos automóveis. mulheres velludo em atitudes lascivas sobre leitos ou dentro de alcovas.. lettreiros. desejos. bastilhas de papelão. projectores. femeas que se entregam. meninas cobras deitadas sobre areias. D' artagnans de fancaria. templo. caretas. fremitos." . mãos que agarram. lábios que procuram."Columnas. annuncios luminosos. oscullos infinitos. apreciações. latagões de feira com estandarte e bandas de músicas. cavalleiros da Idade Média.. ancias. versos. corpos em crispações. commentarios. diálogos. quadrigas. lampadas. coxas nuas de girls macias. espasmos .

.

Maciste. um bello dia. um dos seus mais ardillosos subditos. com a missão de corromper a bella Graziella. onde vivia como um paladino do bem que. o heroe. Plutão em seu seu reino subterrâneo de treva e rancor invejou-o e para combatel-o mandou a Terra o demônio Barbadilha. o homem de vigor sem egual e coração generoso era tão estimado em sua aldeia natal. irmã de creação de Maciste .

G _____ .. ••..•~ • --~ <V ... ~ ~ ~ ./ . li! •• ~ . -6 ....• ..

ousada mente. trava renhida lucta com o demônio que o arrasta para o inferno .Negro como o inferno até acostumar a vista fico em pé as mãos na mureta de madeira que separa as fileiras de cadeiras da grande porta com cortinas de velludo que separa a salla de exibições da salla de espera Este vendo Grazie/la seduzida por um conquistador sem escrupulos percebe a intervenção de Barbadilha e.

.

mudo de idéia e entro na fileira da frente ameaço sentar numa cadeira vazia mas sento-me ao lado della É uma mulher .Com a luz que vem da tella busco com os olhos aquillo que quero e busco meu logar a mulher Até me assegurar que é uma mulher fico atraz da mureta de madeira as mãos segurando suas bordas Para que os outros espectadores não se apercebam das minhas intenções finjo entrar na fileira de traz com mais gente.

.

É uma mulher Fingindo attenção na tella com o rabo dos olhos olho com coragem viro um pouco. a cabeça para que ella não perceba que estou olhando a ella Nem tentei encostar meu braço no seu e ella olha a tella tremeluz . bem pouco.

Ora o mortal que chega ao inferno sem ter morrido, pode voltar ao mundo se ao fim de trez dias não tiver cedido à tentação de alguma beldade d'aquelle antro

É bella e macia, estou com meus braços
cruzados e as pontas dos meus dedos acariciam o fino tecido de sua blusa solta ella não solta os olhos da tella cintilante nem sente minha caricia na seda macia diferente do áspero velludo das vermelhas cortinas

É um fume marron nas cennas de inferno é
vermelho Um calor me sobe por todo meu corpo, frieza da seda
Ora, Proserpina, a esposa própria de Plutão tenta-o com encantos taes que Maciste ousa beijal-a: Estava decretada sua sentença às pennas etternaes

Ouso, empurro meus dedos tremulos e toco seu braço como se fosse sem querer Não sobre a cadeira ao lado meu chapeu esta assentado sobre meu sexo agora zona de calor EUa afasta seu braço Ouso, insisto eUa afasta seu braço vira-se e olha firme para mim meus olhos estão na teUa

quer a todo transe desthronar Plutão. ardiloso e revoltoso.e não encosta no seio pelo menos na parte lateral Olho a tella e nada vejo Poma macio dura vejo . Maciste poem sua força e destreza sem egual ao serviço de Plutão e consegue debellar a revolução e castigar o pérfido Barbadilha Acaricio o fino tecido e os dedos vão se aproximando vagarosamente Como os braços della estão bem postos para traz os dedos vão chegando a parte do lado de seu seio direito. para tanto architeta uma revolução no inferno. logar onde o tecido também é solto .Entrectanto Barbadilha. Somente por sua lealdade instinctiva.como nas mangas da blusa .

.

Então terminada a lucta, Plutão chama o heroe a sua ignobil presença e em lembrança aos seus serviços auctoriza-Ihe a voltar a Terra: Proserpina protesta contra isso, mas em vão. Maciste prepara-se para partir, mas Proserpina arma-lhe um laço, manda-o prender e torna a beija I-o, condemnando-o novamente à penna eterna Latagões com estandartes e bandas de músicas, coxas nuas de girls macias, meninas cobras deitadas sobre areias, mulheres velludos em attitudes lascivas, mãos que agarram tóco finalmente o lado de seus seios calor, lábios que procuram, femeas que se entregam, corpos em crispações, oscullos infinitos, desejos, ancias, fremitos, espasmos ... No espasmo do gôzo nem sinto suas unhas vermelhas fincarem-se em minha carne: "Que é isso? se o senhor não ficar quieto eu chamo o guarda!"

Levanto sem olhar saindo pelo outro lado das cadeiras Disfarço sair agora sem o filme acabar chamaria atenção; por isso dirijo-me ao banheiro Letreiros homens pintado num vidro que a luz vermelha alumia Uma pequena cortina vermelha antes da porta impede que abrindo a porta a meia luz do logar chegue na salla de projeção Evito olhar no espelho não há toalha limpo a mim e a calça como posso com o papel do programa que anuncia as próximas fitas Caminho da Perdição ... As Trez Noites de D. Juan ... Macho e Femea... Sodoma e Gomorra ...
Entrectanto, na Terra, o seductor de Graziella arrependido de seu acto, volta para junto d'ella e seu filho, que já tem então um anno e meio de edade. Na véspera do Natal,

. .Graziella faz esta adorável creança rezar por seu protector. entre seus amigos Não posso ficar neste logar muito tempo chamaria a attenção sobre minha pessoa A fita está acabando apresso-me com o chapeu cubro a mancha úmida de minha calça as gentes da salla de espera me olham sou . o pnmeuo a saIr . o impávido col/osso Maciste e dá-se o milagre: a prece infantil é ouvida e o Todo Poderoso liberta Maciste e este volta à Terra para gozar a ventura de um novo lar.

.

.Mesmo a luz mortiça das quatro horas da tarde me cega Já não escuto o piano quando todos começam a sair da sessão já estou escutando o barulho da cidade das casas das vozes dos automóveis dos ruidos Sou novamente parte da cidade e " nmguem me ve . .

.

E9 mINE9TAURE9 novela .

. tão sujo. nem sei como convenci aquela estátua de mulher a passar a noite comigo neste hotelzinho vagabundo. No escuro me levantei. nua. na cama do hotelzinho barato. ela dormia ao meu lado. Uma bela fêmea. Não que a mulher não me agradasse. Acordei. loira. O preço combinado. o que eu podia pagar. quieto vesti minhas roupas. sem fazer barulho deschaveei a porta e. abandonei o quarto no meio da noite. de mansinho. cabelão esparramado pelo lençol. ia me deixar sem nada até o fim do mês. saí para o corredor escuro. branca. tudo o que eu tinha no bolso.Para não pagar a mulher. Tenho pouco dinheiro.

a hora que obriga um homem casado a deixar sua parceira noturna dormindo. a insatisfação com a companhia escolhida. Nunca aconteceu isso. são motivos corriqueiros para se abandonar um quarto pago adiantadamente. . E não há razão nenhuma para se entrar sozinho naquele hotel de encontros. será alerta do pelo porteiro noturno sobre a real categoria do estabelecimento e dissuadido de entrar. É um hotel de encontros e ninguém o procura para se hospedar. o sono alcoólico que impede os prazeres do sexo. fatigado. alguém sair sozinho do hotel durante a noite é relativamente comum: a hora certa para chegar em casa.Sozinho? Nessa hora da madrugada ninguém entra sozinho naquele hotel. as questiúnculas por questões de dinheiro. Se por acaso algum desavisado procurar um quarto para. Ao contrário. os pequenos desentendimentos amorosos. dormir algumas horas.

quando nos cruzamos na noite. teria de pagá-Ia. ela não. as loiras não são boas de cama -. essa polacona que eu peguei.Excelente fêmea . Não era mulher para aquele ambiente. Acordei no meio da noite. Quando enfiei nela. estávamos meio bêbados. os dois. dormindo ela era coisa morta. foi logo beijando meu corpo: como era quente aquela boca com o meu sexo dentro. a gente tinha bebido demais. no bar. mas o sono não deixou. Me veio a preocupação de que se eu ficasse até de manhã. . e então ia ficar sem dinheiro até o final do mês. Geralmente as loiras são largas. geralmente. Também.e. Três vezes seguidas e eu e ela queríamos mais. a mesma coisa: quentura de um pote de mel. Foi tocar na pele e ela se arrepiou toda. pentelheira loira. nem sei o que ela viu em mim. aguadas. nada da potranca que eu cavalgara três vezes. Encostei a porta com cuidado e me atirei pelo corredor escuro. apertadinha.

Porra. diz que eu volto.E eu é que sei? .Você viu a Marilda? . Tchau. tesão. . Tem um cigarro? -Não.Tesão. . .Porra! Será que ela ainda vem? .Não pintou por aqui hoje. enfia teu cigarro no eu. Se a Marilda aparecer.Vê se me esquece. .Não enche o saco.. .

percebi que o corredor descambava para a direita. como seria normal quando se caminha na escuridão. eu ia com as mãos nas paredes e não para a frente. numa curva de noventa graus. Me choquei de frente com uma parede de alvenaria que fechava meu caminho. E continuei seguindo. a intervalos maiores.Porque me parecia que fora por esse lado que eu chegara. agora parede de material. Como não sentisse com a mão a parede do lado direito. a áspera madeira das portas de inúmeros quartinhos. Nas mãos abertas eu sentia as paredes de tábua e. o relevo das mata-juntas. . me atirei para o lado direito do estreito corredor escuro. Não enxergava nada. de intervalo a intervalo.

esta escadinha era ascendente. este mais curto. seus três degraus. arrastando os pés. Logo senti um vazio na mão esquerda. arrastando os pés. Continuei seguindo. Galguei. cuidadosamente. pois não sabia quantos degraus existiriam no escuro. Havia uma escada à esquerda.Quase que caio. Parei. com medo de encontrar pela frente outros degraus. O corredor principiava com uma escadinha. Ao contrário da outra. estendi a mão direita para a frente e senti outra parede bloqueando o corredor. Tropecei em imprevistos degraus. . encaminhando-o para a esquerda. formados no vazio a partir da direita até a parede contra a qual eu me chocara. Me virei e segui arrastando os pés. dei uma topada num degrau. Desci cuidadosamente. Com as mãos nas paredes eu sentia uma repetição do corredor anterior.

e falta numeração em muitos dos quartos. Apesar de muitas estarem riscadas ou com o esmalte partido. outras se acham penduradas. Algumas plaquetas estão pregadas tortas e mesmo de cabeça para baixo. ornadas com friso também azul. . esmaltadas de branco com os números em azul. Devem ter servido em estabelecimento de mais categoria antes de seu uso aqui. ou parafusos. Pequeno furo em cada uma das extremidades permite a passagem de pregos. formando uma delgada moldura.Para a numeração dos quartos deste hotelzinho utilizam-se plaquetas de metal de cerca de sete centímetros de comprimento. são plaquetas de boa qualidade. numa demonstração de serviço malfeito. presas somente por uma das pontas. para fixá-Ias nas portas dos quartos. São de formato oval.

Estendo as mãos para o alto e alcanço o forro baixo. pelo tato. e para economizar certamente o porteiro apagara todas as luzes. na esperança de encontrar uma lâmpada que. parecia ser de áspera madeira compensada.Talvez por economia. No meu tatear pelas paredes ainda não encontrara nenhum interruptor de luz. . neste novo corredor. Durante algum tempo continuei com as mãos pelo teto. continuei a caminhar. Alcançado o topo da escada. sensível em todos os quartos e corredores. Talvez nem existissem. neste hotelzinho barato o acender de uma lâmpada se faça atarrachando-a no bocal. Uma luz acesa me indicaria o caminho a seguir. cheia de abaulamentos. Qualquer coisa de abafadiço. Àquela hora tardia não se esperavam mais hóspedes. que. aumentava o cheiro de mofo. desrosqueada no bocal. estivesse provocando a escuridão.

E de novo? - Uma tremenda duma peça. .E o cara com ela? Acho que já vi antes. Olha. . . hoje joguei na dezena da vaca.Fraco. um pé-de-chinelo. seco na cabeça: 25.- E como é que tá? . .Boa mesmo? - Coisa fina. Uma loirona que eu nunca vi por aqUI.Em que quarto você pôs eles? . deve ser gata de alguma boate. . Viu o que deu: 24.No oito.

Erguendo as mãos. deve existir em um banheiro. A lâmpada ou havia sido retirada. a porta entreaberta de um banheiro malcheiroso. Empurrei a porta e entrei. E não encontrei o interruptor. Eu não tinha mais nada a fazer neste banheiro escuro. me arranho num prego onde se espetavam ásperos papéis cortados irregularmente. sem sombra de dúvida. Emanações de urina e fezes se juntam agora ao cheiro de mofo. A mão direita encontra um vazio.wc Este corredor me parece mais longo que os outros. encontro um bocal vazio fixado no teto baixo. ou nunca estivera lá. Procurei com as mãos o interruptor da lâmpada que. . com certeza pedaços de jornais velhos. Minhas mãos percorrem todas as paredes. então saÍ. bato no puxador da descarga. Um cubículo.

Não tenho o hábito de fumar. mal se viam os números do mostrador. A luzinha do meu relógio queimou há tempos e de nada adiantaria mesmo. por isso não carrego fósforos comigo. Um castiçal com uma vela acesa me seria mais útil nesta escuridão. . pois era muito fraquinha.

O rei Minos invade a Grécia e ataca Atenas. Teseu. cabeça de touro e comedor de carne humana. Ao saber das exigências do Minotauro. decidido a matar o monstro. o inextrincável Labirinto era formado de mil voltas com mil corredores arrevesados. toma o lugar de um dos rapazes escolhidos e segue para Creta. a rainha Parsifae. da ilha de Creta. .S/NC} UMA LENDA DA ANTIGA GRÉCIA. enorme construção de muitos corredores emaranhados. o Minotauro. Vivia o Minotauro no Labirinto. uma vez por ano. corpo de gente. Por ser perversa e tenebrosa. fortÍssimo. foi castigada pelos deuses tendo um filho monstruoso. tornando impossível para quem nele entrou achar o caminho de volta. mulher do rei Minos. intrincados. tortuosos. Impenetrável à luz. deveria entregar 7 moças virgens e 7 rapazes para serem sacrificados ao Minotauro. moço loiro. que se rende. sempre sedento de sangue humano. andava pela Grécia eliminando bandidos e ladrões. belo. A condição de paz imposta à cidade é que. enredados. inteligente.

Teseu encontra facilmente o caminho de volta seguindo o fio que desenrolara por quilômetros de escuros corredores. a bela princesa Ariadne. Teseu encosta o navio na ilha de Nacsos.Ao desembarcar. Ariadne espera ansiosa por seu amado. Sem perda de tempo. Na saída. que se apaixona perdidamente por ele. Teseu embarca com ela de volta à Grécia. a pretexto de cansaço pela luta com o Minotauro. Ariadne dá armas e um novelo de fio de ouro a Teseu. enorme com seu corpanzil de homem e caratonha de touro. Teseu abandona-a na ilha deserta e zarpa sozinho para a Grécia. o Minotauro ruge e baba de cobiça e gula. No meio da viagem. Vencido o monstro. após mil voltas Teseu chega ao lugar onde o espera o Minotauro. Entrando no Labirinto. Aproveitando o sono da bela Ariadne. para que ele encontre o caminho de volta no Labirinto. é visto pela filha mais nova do rei Minos. . Ao ver carne fresca. Teseu enfia-lhe a lança no coração e corta-lhe a cabeçorra com a espada. Deita-se para descansar e Ariadne adormece ao seu lado.

percebo depois de algum tempo que devo estar em outro corredor. .Perdido na escuridão. devo ter entrado por um desapercebido corredor que inicia bem defronte ao pequeno banheiro. Nauseado pelo mau cheiro. Como não bati em nenhuma parede. Sinto também uma corrente de ar frio vinda da escuridão à minha frente. quando saí do banheiro devo ter caminhado em linha reta e não para o lado.

Acha não. agacha-se e solta o segurado jato de urina. muita bebida. .A mulher acorda no meio da noite com vontade de urinar. Passa as mãos pela guarda da cama. percebe que está sozinha. sem sair da cama. Se levanta. esperando achar uma pêra de luz. Acostumada nesses ambientes. metálico ruído. tateando o chão com as mãos. Mesmo na escuridão sabe onde encontrar: pega o rolo de papel higiênico na mesinha-de-cabeceira e se enxuga. procura até encontrar uma bacia de metal. Ao voltar para a cama. puxa a bacia para perto de si.

servindo de repasto aos urubus. um capão de mato existente no prolongamento da antiga estrada Curitiba-Campo Largo. moradOl do distrito de Itaqui. torna-se necessária a realização da devida autópsia. em Campo Largo. nem qualqur documento que facilitasse sua identificação. o lavrador Casemiro Pietroski. com vistas a estabelece' a causa mortis. perfuração por projétil de arma de fogo. porém. Vasculhando cuidadosamente a região pouco habitada.e Curitiba. que lhr arrancaram diversos pedaços da carne já putrefata. distante vinte e cinco quilômetros de Curitiba. termina uns cinco quilômetros adiante do lugar do macabro achad e tem muito pouco movimento. A estradinha de tern. a polícia não encontrou as vestes da vítima. aparentando vinte e poucos anos. deparou-se com uma cena tétrica. encontrava-se caída de bruços.8DEMAlO BELA LOIRA DEVORADA POR URUBUS Na manhã de oito de maio. Uma mulher loira. Ao locê compareceu uma viatura da delegacia de Campo Largo que providenciou a remoção do corpo para o Instituto Médico Legal d. Assustado e enojado. atraído por nuvens de urubus sobrevoand. sendo de se supor que a bela loira tenha sido assassinada em outro local e ali jogada durante a noite . em meio ao mau cheiro reinante. Casemiro Pietroski procurou logo avisar a polícia. como o corpo da bela jovem loira se encontra bastante bicado pelos urubus. morta. dirigiu-se para o local e. Os primeiros exames realizados não evidenciam nenhum. nua.

A loira roncava. Nada. cercado de quartos dos dois lados do corredor sem nenhuma janela. . como se esperaria num hotelzinho de encontros. tosses noturnas. gente roncando. silêncio total. Eu não escutava nenhum barulho vindo dos quartos. peidos. Pela pouca espessura dos tabiques de madeira.Silêncio. pois nem os ruídos noturnos da cidade eu escutava. E eu devia estar bem no centro do hotelzinho. seria natural que se ouvissem barulhos: gemidos de amor.

Quatro vidros. um muro.Na minha frente. ao fundo. o oitão sem aberturas de um edifício alto. bem no centro. Não há nada para ver. o que parece ser uma das paredes do hotelzinho. uma baça luminosidade retangular. também quase encostado. Abaixo. bem perto. A noite lá fora está tão escura quanto aqui dentro. Do outro. Em frente. Minhas mãos tocam a plana lisura do vidro. Pequena. . a escuridão. um quebrado. De um lado. Pequena janela sem serventia. É uma pequena janela.

parecia um monte de roupa para lavar. Deve estar caçando.Parece que é. . . Deixei a porta aberta para ventilar: para saírem os maus eflúvios: não é assim que se diz? . o agente de polícia e Shamanta.Também. Ninguém desconfiou quando tiramos para pôr no carro.E a Shamanta lavou tudo direitinho. não é? .Mas você não alugou para ninguém. o patrão.Acho que.Ninguém comentou nada? -E quem? . embrulhado no acolchoado do jeito que estava.Será que alguém ficou sabendo? . ..Só quem ficou sabendo fomos nós (nós aí incluídos os dois interlocutores. . não deixou nenhum sinal. depois do acontecido. ficou com medo de passar a noite aqui. o travesti que cuida da limpeza dos quartos).Estou te dizendo que está quase vazio. a mulher do patrão. . .E a Shamanta até defumou o quarto todo: para acalmar o espírito da infeliz.Cadê a bichinha? .

uma pequena curva para cima.Tem gente aí? Dou uma tremenda duma topada com a canela no pé da cama. mãos para a frente. só o bocal vazio. Que se danem. . um pequeno pedaço reto. Cheiro de defumação nesse quarto. nem precisei baixar a maçaneta de ferro redondo. Somente depois de passada a dor forte me levanto da cama e procuro no ar uma lâmpada. não quero ficar rondando a noite toda. depois um pedaço reto maior. Como das outras vezes. este pendurado no teto pelo fio elétrico. Em algum quarto deve ter luz. onde pôr a mão. Há quanto tempo estou aqui? . Merda. Será que tem gente dentro? Parece que esse corredor não era tão comprido: será que não estou onde pensei que estava? Uma porta aberta. ou alguém me empresta um isqueiro.Pelo vidro quebrado entrava o vento frio. Tudo fechado. Que merda. Um fino ferro redondo. Vou entrando devagar. A porta estava aberta. provavelmente enferrujada. que não sinto agora. Então me veio a idéia de ir abrindo a porta de todos os quartos.

sem sair da cama. TSK . Limpou os dedos em outra parte do lençol e somente então. o esperma deve ter escorrido de dentro dela durante o sono. tateando o chão com as mãos. acostumada com esses ambientes. Depositado pelo homem não mais ao seu lado. no lençol. muita bebida. ela não se limpou. passa a mão pelo espaço vazio e sente. .ela faz com a boca.(ou não?) A mulher loira acorda durante a noite com vontade de urinar. Procura seu parceiro. um molhado gosmento. procura até encontrar uma bacia de metal.

. .Em que quarto mesmo você disse? -No oito.

Degraus de formato triangular como um pedaço de pizza vão se abrindo em leque para baixo. quando vi estava sem apoio. nenhum hóspede apareceu para ver o que acontecia. nenhuma porta se abriu. deixei de tatear as paredes.(ou 30-0) Rolei escada abaixo. justamente no lado onde os degraus são mais estreitos. Os degraus dessa escada em caracol giram partindo de um centro que é o canto direito do patamar formado pelo final do assoalho do corredor. Perdi o equilíbrio e rolei escada abaixo. Não me machuquei. . Braços cansados. dificilmente a gente consegue caminhar em linha reta. Eu andava quase encostado na parede direita e entrei na escada em caracol. foi mais o susto de cair girando num abismo escuro. O barulho da minha queda não provocou nenhuma resposta. tentando inutilmente me agarrar em algum ponto de apoio. Na escuridão.

Não olhei as horas quando acordei. subi escadas e continuo no mesmo lugar: na escuridão. No escuro caminho no espaço e não no tempo. de ter subido escadas. Desci escadas. um velho casarão no centro da cidade. Imagino que o hotel tenha três andares. . quando aqui cheguei com a loira me lembro. embaçadamente. Bêbado. Sei aonde pretendo chegar: na porta da rua. num espaço que não compreendo. meu relógio está com a luzinha queimada e eu não conseguiria ver os números agora.

entre as inúmeras portas do hotelzinho ele saberá qual abrir. pelos corredores do pequeno hotel. o caminho é menos cheio de meandros para chegar aonde quer. Declinou a escada ao lado da pequena portaria.Há um outro homem que se movimenta. Ele conhece o caminho. antes percorreu o longo corredor retilíneo do andar térreo e prefere subir pela estreita escada dos fundos. Conhece o chão onde pisa e sabe que. . Na hora certa. na escuridão. por ali.

Haverá outros quartos abertos. É uma grande janela. a vidraça abre para o lado de dentro e. Procurando uma luz. . ora de madeira. Vou falando: Tem alguém aí? Desvio a cama e vou passando as mãos pelas paredes. não consigo abrir a veneziana nunca aberta. Não me lembro se tinha janela no quarto da loira. ora de material. por mais força que eu faça. Saio do corredor escuro e entro no quarto escuro.A porta está aberta. encontro uma janela. Espio pelas frestas e nada mais vejo além da escuridão.

De madrugada. Tudo está fechado. Aquele zumbido continuado não é silêncio. bem baixinho. Acho que vem dos postes de luz. Aquele silêncio todo e se ouve um zumbido contínuo como um apito de navio. as gentes dormindo. não se escuta carro passando. . na cidade. mal se ouve. há uma hora em que parece que tudo pára.

talvez. fumando. ele acendeu o cigarro antes de subir a escada e se deixou ficar ali parado. acendeu um cigarro e se deixou ficar ali parado. no fim do corredor. no fim do corredor.Ele fuma. para não ter de reparti-lo com o porteiro. fumando. apenas por vontade de fumar. em pé. . talvez porque a maconha lhe aclare a mente sobre o que fazer ou. Antes de subir a escada. sozinho no escuro. Talvez por mesquinharia.

Se tivesse um fósforo. poria fogo nos jornais e me aqueceria. chamas. Na verdade. eu faria uma tocha. uma luz para me guiar. Se eu tivesse um fósforo e tivesse em mãos os jornais do banheiro. sinto frio. não faria isso. .Eu penso em fogo. Na verdade.

noticiou que o assassino (ou assassinos) havia posto fogo no cadáver para evitar a identificação. . o nome da localidade aparecia grafado errado: Itaigüi. de menor circulação.Outro jornal. sem nenhuma fotografia na primeira página. Na notícia.

Tesão..Se você não olha para a gente. . com um velho. se eu for olhar para a cara de cada puta que entra . . como sabe que ela não veio hoje? . .. Não tem mesmo um cigarro..É tanta gente que aparece por aqui.Já disse que não. estou louca de vontade de fumar. . Eu estava com o meu.Tá a fim de fazer hora comigo? Já disse que ela não veio e não me encha o saco. . Faz dias que não aparece.Tá gozando com a minha cara? Ainda ontem ela esteve aqui.A Marilda já veio? .Não. .

.Onde você andava? Só vejo a voz da loira e respondo: . .Fui no banheiro.Abro uma porta destrancada e vou entrando num quarto escuro.

o outro homem vê que o 27 está escancarado. zelosamente. . Quem deixou a porta aberta? Espia para dentro do quarto e. encosta a porta.

.. .Deixa de frescura e vem de uma vez. No escuro. . Molha a barra da minha calça. eu caminho na direção dela.Pra que que você quer fósforo? Venha deitar logo que eu estou com frio. O líquido gelado me entra por dentro dos sapatos. Não tem luz nessa porra.Você tem fósforo? .É que está escuro. em direção à cama. os meus pés. Piso na bacia de metal que entorna seu líquido em cima de mim.

A caixa tinha apenas três palitos. No escuro. O outro me guiou até o banheiro.A mulher loira também não sabia onde era a luz. Um custou a riscar e queimou meu dedo quando acendeu. mas tinha fósforos na bolsa. Com a desculpa de me enxugar. atirei fora num grito. . saio outra vez. com o nome do inferninho impresso em letras douradas: Le Labirinthe. me entregou uma caixa de fósforos de papelão. onde eu sabia que encontraria papel. preta.

perguntou por perguntar. Se deixou ficar ali. A outra mulher pouco se importa.. lentamente. dificilmente encontrará um freguês. O outro homem sobe. pela escada que leva ao corredor do banheiro. . bonitão? O passante não responde e continua seu caminho. perto da pequena porta de entrada do hotel. percebe uma luminosidade alaranjada movendo-se na escuridão. sem roncar. Sabe muito bem que. mais uma vez. porém num lugar onde não possa ser vista pelo porteiro. a notícia estampada no jornal do dia anterior.Está a fim de um programa. àquela hora. A mulher loira dorme. O porteiro noturno lê. Quando seus olhos chegam na altura do piso do corredor.

uma perna metida numa calça preta. O jornal se encontra bastante amassado e o fogo do terceiro palito de fósforo começa a queimá-Io pela margem. esfrego a barra da calça para secá-Ia. ao levantar me choco contra um corpo aflanelado grosso redondo que perde o equilíbrio e bate com estrondo na porta semi-aberta do banheiro. . luz no fim do corredor. em movimento vejo um sapato preto de cordão. . com outro pedaço de jornal.Em preto e branco a fotografia da mulher loira caída de bruços. uma canela sem meia. a escuridão. manchetes impressas em vermelho. um barulho seco no chão cimentado. novamente. No escuro. assustado.Qyhé bbohhar oohhô nnnohehll? Ao mesmo tempo que escuto a voz irada que não entendo. eu corro pelo corredor. onde cai. quando a outra escada termina. Estou acocorado junto ao foguinho e. Rápido. pela escada. O sapato esmaga o jornal incendiado e. por outra escada e vejo. mas as letras da reportagem estão em preto.

precisamente quando os ponteiros marcam cinco horas.Trrriiiimmm. . toca a campainha do relógio-despertador colocado na parte de dentro do pequeno balcão da pequena portaria. Ao mesmo tempo.

A mulher fica dormindo. . . procuro caminhar numa direção em que eu não possa mais ser visto pelo porteiro sentado atrás do pequeno balcão. e de que começa a amanhecer. caminhando por uma rua estreita ladeada de construções antigas. .Agora caminho mais devagar.Tá a fim de um programa. apesar da escuridão. apresso o passo e só então me dou conta de que estou ao ar livre. pequenos prédios com a mesma altura. saio pela porta aberta e. na rua. bonitão? Nada respondo. Aparentando naturalidade.

A outra mulher sente frio.A Marilda ainda não entrou? . entra e pergunta: . Depois de alguma hesitação. encaminha-se para a pequena portaria.

.

~ .o MIST[RIO & DA PROSTITUTA JAPON[SA MIMI-NASlILOIClII .

.

piso de tacos de madeira cinza muitas vezes lavado. dentro do já cubículo que é o pequeno quarto. que não se encontram e não alcançam o teto baixo. partindo da parede oposta à parede dos três degraus. nunca encerado. pintado de vermelhão. Essa parede não chega a se encontrar com o final da parede construída a partir do lado da porta de entrada do pequeno quarto. acompanhando os degraus. Traçando um cubículo. Essas duas paredes. O quarto já é pequeno e. o chão do banheiro minúsculo é cimentado. outra parede avança. uma escadinha de três degraus descendo para nele se entrar. Hotel de rendezvaus. A prostituta japonesa vai na minha frente. Diferente do piso do pequeno quarto.o quarto do hotelzinho barato. formam um cubículo sem portas. essa parede acompanha os três degraus e termina pouco adiante de onde eles terminam. Dentro do pequeno quarto. 185 . Um vão sem porta. Ocupam um pequeno espaço dentro do pequeno quarto do hotelzinho de rendez-vaus. partindo do lado da porta. formando um minúsculo banheiro. Conhece o caminho. construíram uma parede que não chega ao alto do teto baixo do pequeno quarto.

Pelas dimensões do pequeno quarto. uma negra sala sem portas.1 ponesa me conduziu pelo labirinto cheirando a mofo. Do outro lado da cama. Pequena janela basculante.' lha de ralo tecido sobre os vidros pintados e consigo a privacidade é pequeno quarto do hotel de rendez-vous. Eu não saberia reconstituir o caminho que nos conduziu da portaria do hotelzinho barato até este pequeno quarto. A cabeça no edredom tan . um longo corredor e5' treito. vejo diante L~::: mim.. O que facilita . talvez uma V2.a passagem é o vão sem porta. bém coberto com o mesmo tecido brilhante da mesma cor vermelh da colcha. Deitado na cama. que foi colocada no lado diante dos degraus. Foi ela a pL meira a entrar no pequeno quarto às escuras e a me alertar: 186 . outro negro corredor cortado em cru: por outro corredor sem luz.. a prostituta japonesa caminha adiante de miIr pelos caminhos escuros. sobra mesmo lugar para uma mesinha-de-cabeceira. A única janela do pequeno quarto fica no pequeno banheiro.' randa. com a chave na mão. Como é escura esta noite sem estrelas! Um corredor de paredes sem portas e a porta do pequeno quarto. não sobrou lugar para a outr. que abre um espaço defronte à metade dos pés da baixa cama de casal. Por portas fechadas. Muitas vezes trilhadora do labirinto. a janeL basculante com falhas na pintura. Não sei dizer para que: parte do hotelzinho barato dá esta janela basculante. depois à direita.: mesinha-de-cabeceira. exatamente frontal à abertura sem porta. através da abertura sem porta do pequeno banheiro.. só existe uma posição possível para a baixa cama de casal. a prostituta . Um olho pode estar à espreita. um pequeno pátio mal iluminado pela noite. 'c Seguindo sempre adiante. uma escadaria qUe sobe à esquerda. que deve ter sido levada para outro quarto de hotelzinho barato. cor vermelha: a cabeceira encostada na parede oposta ao pequeno banheiro.um pouco . vidros pintados com tinta branca fosca grossa. coberta pela colcha de tecido brilhante. Eu coloco a pequena e úmida to~. Nos dois lados da cama o espaço é um pouco maior.

sem chuveirinho. cor vermelha. em forma de pêra. cor de rosa~maravilha novamente no teto. preso ao fio que pende do teto sobre a baixa guarda da cama. Com a mangueirinha. Existe. cobrindo não sei quantas pinturas an~ teriores. sem espuma. a cor é verde~clara. Em pé. até meia altura. Pas~ sa sabão entre as coxas largas. eu estou deitado por cima da colcha de teci~ do brilhante. al~ cançar o teto de alvenaria. do pequeno quarto. são pintadas. manchada. e no sexo de pouca penu~ gem. O chuveiro elétrico fica no espaço do pequeno banheiro visível para mim. de cor de rosa~maravilha. Dirijo o meu olhar para a prostituta ja~ ponesa que se lava no pequeno banheiro sem porta. eu posso. se quiser. A prostituta ja~ ponesa se lava utilizando a mangueirinha do chuveiro elétrico. As paredes. ajuntadas. Dali ao teto.Mesmo na escuridão. Antes. Já sem roupa. Não sei se ela fala para mim ou para ela. suas mãos sabiam onde encontrar o comu~ tador de luz. Agora uma pouca luz amarelada. Mas não quero. fraca. avermelhada. sem forro. também. estendendo as mãos para o alto. dirige o jato d'água para retirar o sabão. apenas a baça luminosidade atraves~ sando os vidros pintados da janela basculante tomava o pequeno quar~ to. todas as paredes do pequeno quarto e do pequeno ba~ nheiro. uma pequena pia bem embaixo da janela basculante. Tinta fosca aguada. 187 .

que sinto enrijecer. pequeno traço de poucos pêlos. Meu dedo busca a greta ainda seca. estufado. silencioso o corpo ao meu lado. Por si. redonda achatada como em todas as mulheres orientais. cor vermelha. poma total. enquanto minha mão desce. O gozo me vem rápido. mas não. Com a mão esquerda. molhado pelos respingos do chuveiro. beijo. Nem moça. A prostituta japonesa já está deitada ao meu lado. Uns trinta. Primeiro acaricio. começo a afagar os poucos pêlos pretos macios do seu monte-de-vênus. Meu sexo encontra seu caminho sem que ela auxilie com a mão. não dela. Impossível de usar.E eu é que sei? Nunca estive antes neste hotel de rendez-vous. Então. foi meu. na cama. sem que ela o toque. mordisco sua orelha. encosto meu rosto no dela. o rolo de papel higiênico. ao lado da cama. Eu poderia beijar seu sexo. cor vermelha. Imóvel. Subo a mão até os seios. e meu travesseiro é o seu seio esquerdo. me parece imóvel somente na superfície visíveL Eu diria que por dentro dele existe toda uma mobilidade . acaricia novamente a parca penugem. acaricio o bico do seio. como uma fotografia. eu diria completamente imóveL Contudo. Difícil dizer a idade das mulheres orientais. Permaneceu. aperto. Ela não disse nem um gemido. Depois. talvez? Talvez. Não estou mais beijando o seio. Quando retiro o meu corpo. Cor de chá. meu sexo enrijece. na hora do gozo. Não fosse por um lento respirar. permanece 188 . Preso por um arame. Na parte que não posso ver do pequeno banheiro fica o vaso sanitário. é para deitar ao lado dela. Não beijo. não sinto mais o cheiro úmido da colcha de tecido brilhante. só com a ponta dos dedos. Mas permaneço ainda dentro de seu corpo. por cima da colcha de tecido brilhante. Não sei dizer. Por instantes. nem uma palavra. somente o úmido bico. Se houve algum gemido. sua pele lisa sem pêlos contrasta com a brancura do meu corpo peludo.tranqüila? Viro o corpo para o corpo nu da prostituta japonesa. Penetro-a. Deito sobre ela. sugo. Melhor apanhar o rolo que está em cima da mesinha-de-cabeceira. nem velha. Não sei o que ela sentiu.

. Agora ela lava o sexo com mais cuidado. Eu é quem falo: . pátios e terraços que levam de volta à portaria do hotelzinho barato. corredores. - Verdade? - (iÁ. suave montede-vênus de parca penugem. eu não sei dizer. Inquieto? . escadas. Seu coração bate rápido e descompassado. Depois de vestida. Mas teria mesmo gozado? Não deu nenhuma demonstração. pele lisa sem pêlos. Dirige a mangueirinha diretamente para a pequena fenda de pouca penugem. Eu diria que ela está completamente imóvel. Será que ela diz a verdade? Fico só olhando.c?J: Não demonstrou. a porta aberta. Coração batendo forte.Vamos embora? A luz do pequeno quarto fica acesa. 189 . pago a ela o preço combinado. seu coração está batendo tão esquisito. põe as notas dobradas na bolsa. Imóvel somente na superfície visível do corpo cor de chá. conhecedora dos caminhos. Levanto a cabeça e olho para ela.Nossa. ela olha não sei para onde.silenciosa e não sei para onde olha. A prostituta japonesa segue ria frente. é difícil dizer numa mulher orientaL Não conta o dinheiro. Reparo que ela não conta. Quanto tempo ficamos assim.

Nem dá para entender o que elas conversam e riem. de pouca conversa. Riem. quero possuí-la mais e mais vezes. risos. nem para o do lado.é um chinês? .. o .chinês . Estamos fora. a voz de uma encobrindo a da outra. barrigas e nádegas querendo romper o vestido justo. Eu quero ficar mais tempo com ela: . se demora na portaria discutindo com o chinês de óculos. Meio velhusca. um velho de camisa florida. Cabelos amarelos. Mas interrompo: -Vamos? 190 'i>t: UD ~:. Um bom freguês. qualquer coisa assim. As duas se conhecem. gozei rápido.kf(Q) Fica para outra vez . para conquistar um freguês? Para que eu volte outras vezes? Sou limpo. se tocam e falam rapidamente.de óculos da portaria nada responde. e não para o da frente. ela não deu demonstração de nada.Escuta. O freguês dela. A comissão por ela ter trazido um freguês para este hotel. síria. É dinheiro meu. na porta do hotelzinho barato. na rua em frente à porta de entrada do hotelzinho barato. pintados de amarelo. Será mesmo que ela sentiu prazer? Uma prostituta? Ou disse aquilo apenas para me agradar.Quer tomar alguma coisa? Vamos num barzinho aqui por perto? Antes da resposta.?'Lin. sai sozinha do hotel outra prostituta. Não é japonesa. Não é comum uma prostituta sentir prazer com um freguês. tipo havaiana. peitos. formas roliças. . Se for verdade que ela gozou. apenas entrega uma nota amassada à prostituta japonesa. devem ser muito amigas. parte do que paguei pelo pequeno quarto. não reclamei do quarto.. Tem mais jeito de turca. Algumas fingem.JJ"l =.

Será que ela gozou mesmo? Eu voltarei outras vezes. não para meu uso. pensando. Quero segui-Ias. Caminharei tantas vezes por esta mesma rua. Eu fico perto da porta do hotel. Algumas vezes fumarei haxixe. falando sozinho. mas elas já tomam um táxi que passa pela rua. A prostituta japonesa passa a mão no meu rosto. Nunca encontrarei uma resposta que me satisfaça. penso que não. mostrou-se sem proveito. Quantas vezes sentirei na boca o gosto oleoso do gim que vendem por aqui. Um gesto. este mesmo bairro de prostituição.. Muitas vezes dormi com outras prostitutas no mesmo pequeno quarto do hotelzinho barato. nervoso. Entra num táxi e some de vista. Ainda estendo minha mão aberta.. afobado à cata de um táxi. nem saberei se ela sentiu prazer comigo naquela noite escura. Afaga meu rosto. Às vezes. Uma vez comprei cocaína. mas sei que nunca mais verei a prostituta japonesa. Essa foi a última vez que . Parece querer ir embora logo deste lugar. conseguida. Já se afastam as duas. O freguês da outra prostituta sai agora do hotel. Entram rindo. Sai gesticulando. às vezes. penso que sim. três ou quatro vezes deitarei num catre e acenderei o cachimbo de ópio. 191 . mas para conseguir do traficante uma informação que. Penso em alcançá-Ias. como uma despedida. parado.Riem muito as duas.

MIMI-NASIII-OICIII .

Numa noi~ te de inverno... o monge sem orelhas... cego.. acompanhando os versos ao som do biwa. como vou te explicar? . "Hai..Meus nobres amos sabem de sua fama e ficariam muito honrados se o senhor fosse contar para eles a triste história da batalha de Dan-No-Ura.. . quan~ do o canto era triste.. Oichi meditava no jardim do mosteiro quando escuta uma voz dizer: "Ouvimos falar de seu talento como cantador de histórias . Di~ zem que à sua palavra e à sua música todos faziam silêncio e." 195 . pobrezinho.. ".." ". os olhos não seguravam as lágrimas. ficou famoso como contador de histórias que contava se acompanhando do biwa.contava histórias.O que é biwa? .- E você teve medo? .. esta noite. instrumento muito antigo .uma espécie de violão japonês..Oichi. . O jovem noviço. Oi~ chi.

O que eles enxergam é uma mancha esbranquiçada.Que batalha é essa? . Colocado no centro do salão. Passos pesados metálicos. . porque caminharam por várias salas enormes. batalhas 196 . no Japão havia entre os senhores feudais muitas lutas pelo poder. Ele era cego de nascença? Sim. Já reparou que o preto da televisão nunca é preto. é nuvem branca? Branco-cinza? . Na noite escura não sabia para onde estava sendo levado.Um palácio? . .Tudo fazia crer um rico palácio. Foi no século XII: no Ocidente aconteciam as cruzadas. Oichi imaginou que devia ser um lugar bem grande. oculta-te como puderes no meio das chamas). As famílias rivais. como os de um samurai vestindo sua armadura de guerra. . Eu li uma vez que os cegos não enxergam tudo preto. Taira e Minamoto.Das guerras do Japão medieval.Oichi ia seguindo os passos. banhos de sangue. Tomou seu biwa e seguiu os daquela voz desconhecida. Como na televisão. Minha mão. bem longe estavam do mosteiro. Época de guerra civil (conduz teu cavalo sobre o fio duma espada. começou a evocar com seu canto os tristes versos da batalha de Dan-No-Ura. Apesar do silêncio reinante. uma nuvem pousada no teu seio. redondo como a Lua. A luta entre os dois clãs durou quase duzentos anos. disputavam o poder. Oichi sentia que muita gente estava ali. Depois de muito caminhar.Nesta noite ninguém pode dormir: Lua cheia. Ouvia o assobio das sedas dos quimonos. Quando chegaram. passos - Oichi não pôde recusar o convite.

outras vezes os Minamo~ to venciam.Quem venceu. Exército dos Taira estandartes vermelhos como sangue. Quando per~ ceberam que o branco estandarte do inimigo tremulava nos mastros de seus próprios navios. a maior batalha naval que o Ja~ pão assistiu. muitas obrigações ele devia aos Taira.O choro. Os que não têm coragem de cometer suicídio são mortos pelos companheiros de armas. - E como foi a batalha? . a princípio . Os tombadilhos das embarcações tor~ 197 .quando viram o branco flutuando nos céus. levando seus barcos para o inimigo. A batalha seguia feroz. para não cair nas mãos do inimigo.Acende o meu cigarro. seu aliado. Exército dos Minamoto estandartes brancos como aço. a fumaça dos canhões.Os Taira tinham o maior número de navios.No estreito de Dan~No~Ura. Os Taira ainda mantinham a esperança de vitória. Nuvens. Às vezes os Taira dominavam. mais de mil navios em luta. .incontáveis. . mas um senhor feudal. bandeou~se para o lado dos Minamo~ to. . pensaram em nuvens. seus guerreiros se atiram nas águas. Pela vergonha da derrota. Shigeyoshi. quem perdeu? . Os comandantes se amarram nas âncoras de seus barcos e soltam as correntes. afundando com o peso das armaduras. O fogo. O coração vermelho de Shigeyoshi hesitava em se passar para os Minamo to. o assobio metálico das espadas nos combates das abordagens. veio a certeza da derrota. o canto fúnebre tomou conta dos navios dos Taira.

durante o tempo em que ele permanecer aqui.. a voz de uma velha aia: "De tua fama sabíamos. . O mesmo samurai que te trouxe aqui esta noite irá te 198 .Teu corpo é água onde me sustento. Oichi. . vovó? O Japão Pequeno Antoku.Não sobrou ninguém? Teu corpo nu Agora flutua no lençol transparente como água Sal. de sete anos. Meu amo pede que.Quando Oichi termina de contar os últimos versos. é pequeno como um grão de arroz e agora é um imenso vale de miséria Mais abaixo das ondas há outro país onde não existe a tristeza É para lá que te levo. os servos. Antoku-Tennô. por mais seis noites. Como teu corpo é bom.. venhas repetir o canto da batalha de Dan-No-Ura. a avó se atira no mar tinto de sangue e salgado de lágrimas.. todos em lágrimas.Tennô.Nem mesmo o menino imperador..Com o menino nos braços. . . Depois de muito silêncio. as velas dos navios explodem ao vento. da beleza de teu canto sequer podíamos suspeitar. A avó tomou-o nos braços e com ele se encaminhou para a amurada . . Aonde me levas.. só escuta o silêncio de lágrimas pressentidas. buscam a morte. os cortesãos.nam-se rubros de sangue. Os marinheiros. Sem ter quem as governe. Em todo o Japão não existe artista tão perfeito.

notando que Oichi não está em sua cela. Aterrorizados. no cemitério de Amidaji. Nunca . Envolvido em seu cantar. Já pela madrugada. esquecido de suas obrigações. pela manhã. sem sentir a neve que começava a cair. Na noite seguinte. pobre Oichi. encontrou os monges aflitos com sua ausência. Arrastado de volta ao templo. Bastante para vergar as folhas dos junquilhos .. Quando Oichi voltou ao templo. como espectadoras do canto triste. os monges vêem Oichi. as chamas espectrais dos fogos-fátuos. Exausto. manda que os monges o procurem. e novamente ele canta a batalha de Dan-No-Ura para a silenciosa platéia. Oichi não parece sentir a neve. O abade. que têm de arrancá-Io do lugar onde está. cantar exaltado a história da derrota dos Taira. mas ele respondeu com reticências e nada revelou sobre onde estivera. Oichi reclama: Como ousam interromper meu canto para tão nobres senhores?!". No cemitério de Amidaji estão sepultados os derrotados da batalha de DanNo-Ura.pegar. os monges escutam os acordes do biwa e a voz de Oichi. Primeira neve. que lhe revela a verdade: "Oichi. o mesmo samurai vem buscar Oichi. O abade o interrogou. Por sobre as outras tumbas. Oichi é levado à presença do abade. voltando para o templo. Uma longa noite de buscas. sentado diante da tumba em memória do pequeno imperador Antoku-Tennô. és livre para partir". dormiu o dia inteiro. nem ouvir os gritos dos monges. agora. sem que ninguém veja.. E. Sobre o sino do templo repousa e dorme a borboleta noturna. Mas meu amo viaja em segredo e ordena que não contes nada a ninguém. corres grande peri199 .

que o tornariam invisível aos demônios. Te enfeitiça~ ram. protegerei teu corpo com os textos de Buda. como um fan~ tasma. Escuridão de outono. não pode~ mos ficar no templo para te vigiar. Por duas noites. da escuridão da noite surge a voz profunda. tudo aparece e desaparece. despedaçarão teu corpo e tu passarás a penar por toda a eternidade. Os monges partiram. Os monges tiram a roupa de Oichi e. de ódio: "Oichi! Oichi!". é de ira. e esperou meditando sobre a vida e a morte. antes de ir. metálica. Esta noite. Passos pesados. Mas. Todo o corpo de Oichi foi coberto com as palavras de Buda. o abade escreve com pincel os sagrados textos do Prajna. Oichi sentou~se no pórtico do templo.go. Aproveitando~se de tua cegueira. Dos olhos cegos de Oichi correm lágrimas de medo. Sentindo~ se protegido. o biwa ao seu lado. temos de atender um serviço re~ ligioso na aldeia. eles te matarão. Não obtém resposta: "Oichi! Oi~ chi!". no corpo nu. levaste teu canto para os mortos e eles agora são donos de ti. só poderá haver a bem~aventurada paz quando se puder escapar da agonia da vida e da morte. A voz. Tudo é mutável. escravo dos demônios". os fantasmas dos mortos na ba~ talha de Dan~No~Ura lançaram encantamentos sobre ti. chamando: "Oichi! Oichi!". A mudez de Oichi como resposta. Esta estrada sem ninguém nela. O abade pros~ segue: "Precisamos quebrar o encantamento. agora.Paramita. que te farão invisível aos demônios". Ao final da sétima noite. o samurai-fantasma não encontra o que veio 200 .

Quando os monges voltaram.buscar: "Vejo um biwa abandonado e não encontro o trovador. Ao cobrir o corpo de Oichi com os textos sagrados. Tornou-se monge e viveu ain201 . Oichi reza para não gritar de dor e revelar sua presença. o abade esqueceu das orelhas. Foi medicado e se salvou. conforme o combinado. foi só o que o fantasma viu e carregou para o mundo dos mortos: duas orelhas. O sangue escorre. As mãos enluvadas de ferro do fantasma agarram as orelhas de Oichi e puxam ferozmente. mas vivo. Suas orelhas são arrancadas e o samurai-fantasma sai carregando-as. encontram Oichi se esvaindo em sangue. não está aqui. Muitas vezes chamei Oichi e ele não me respondeu. seus passos perdendo-se na noite em direção ao cemitério de Amidaji. Vejo somente suas orelhas e vou levá-Ias para provar ao meu amo que aqui estive cumprindo minha missão". ficou livre para sempre dos demônios.

e no entanto . medo não. o Sem Orelhas. Desde aquela noite.. mas me deu uma tristeza grande.E você teve medo? . o cantador cego ficou conhecido como Mimi~Nashi~Oi~ chi. era uma noite tão fria.. 202 . naquela noite chuvosa. Tristeza grande. Orvalho deste mundo orvalho deste mundo. lágrimas. o passado. Oichi. Eu era muito pequena quando minha avó con~ tou a história de Mimi~Nashi~Oichi. sem dúvida.Medo não tive. O tempo onde se acumularam os dias lentos . que acho que até chorei. Ah.Não. Medo eu não tive. tristeza. . Sim.da muitos anos para poder cantar em versos sua desventura.

) da p<.)rta aberta .13 mistéri<.)s + () mistéri<.

para quem foi Marlene e para Josely Vianna Baptista e Cláudio Lacerda .

Dito por um criminoso no programa do Algaci Túlio .Uma mentira minha vale por dez verdades tuas.

. . . . . . . .. . . . 265 Mistério mágico . . .. . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . .SUMÁRIO o mistério da porta aberta.. . . .. . . . . . . . . . . . . . 233 241 247 253 O mistério do gato preto e da gata gorda . . . 211 219 Mistério números Mercúrio mistério.. . . . .Um mistério Um mistério no trem-fantasma Mistério Sapho O amor entre as mulheres DELE 281 293 305 O mistério dos sinais da passagem de Curitiba pela cidade 317 .. . 259 O misterioso homem-macaco Como tudo começou . . . . . . . . . Sônia O mistério da Sonâmbula Mistério do menino morto Um mistério . 227 Os fantasmas do fundo de quintalO mistério teu. . . . .. . . . . . . . . . . . . . 273 A cadeira do diabo . .

() mistério da porta aberta .

nenhuma visão de perigo que nos possa causar medo. Outra hipótese: a porta se abre para um ambiente iluminado. Até certo ponto essa argumentação é válida. O que nos espera lá dentro? Sentiremos medo. ou mesmo pânico. pois a escuridão sempre nos sugere um mistério que precisa ser aclarado. simplesmente não entraremos.na verdade entreaberta. sempre conseguiremos ver o interior para o qual ela se abre. nos machucando. Nada podemos ver em seu interior. Sendo assim. Nem mesmo num recinto bastante conhecido ousamos penetrar sem antes apertar o comutador da luz. por menor que seja a abertura. uma porta entreaberta sempre será uma porta aberta. Através de uma porta aberta. fechada ela não está. Vi213 . porém sem muita consistência. as mesinhas de centro e podemos tropeçar nelas. No escuro desconhecido nunca sabemos onde se encontram as cadeiras. Se ali percebermos qualquer coisa estranha. Às vezes um mistério exasperadamente simples como a localização dos móveis. antes de criarmos a necessária coragem para entrar. Mas muito ou pouco aberta uma porta... Observe pelo tempo que julgar necessário a porta mostrada abaixo: Pode-se argumentar que uma porta aberta não apresenta mistério algum. Portanto. está aberta. Uma porta pode estar aberta para um recinto às escuras.. as poltronas.

Uma na parte de baixo da porta. imóvel. fechada. aparador. junto à lareira. A riqueza do mobiliário. Esta. e até mesmo tirar minha vida. A porta da rua fica exatamente defronte da porta das três velas. mais ou menos na altura da maçaneta. Barulho cadenciado como o soar de tambores. Eu estou sentado numa cadeira contemplando a porta aberta (entreaberta) para a escuridão. Barulhos. Como é noite e estou sozinho nesta casa. E se for mesmo um cão feroz. sem contudo aclarar a escuridão do local desconhecido para onde a porta se entreabre. mesa de centro. sangue e ossos. quadros representando paisagens. com a chama queimando normal para o alto. vigilante. Outra no meio. com sabe-se lá qual intenção. Atrás de mim outra porta que dá para a rua. animal conhecido por sua ferocidade . Bem ao fundo. é possível que seja alguém querendo me assaltar. com a chama levemente inclinada para a direita . poltronas. Vejo claramente as três velas. Na parte de cima. Sofás. sim.sível uma ampla sala muito bem mobiliada. tapetes pelo chão brilhante. a terceira vela. Não tenho inimigos? Nestes tempos de agora nunca se sabe do que as pessoas são capazes. a força desse 214 . Me assusto com barulhos fortes e continuados na porta da rua às minhas costas. Não tenho inimigos. e me faz medo. reproduzindo com fidelidade a imagem do animal. O barulho ritmado da folha da porta da rua chocando-se violentamente contra o caixilho me assusta. neste ponto do vestíbulo da casa. sinto uma forte corrente de ar circulando entre as duas portas. com sua chama derivando para a esquerda. e nos janelões. grandes vasos com plantas. a imobilidade pétrea do cão. Porém.em inglês bull-dogsignifica cão-touro. talvez não seja um cão de carne. uma pequena lareira de mármore. sem tempo de fugir? Temos medo. tudo nos leva a crer que se trata de um expensivo objeto decorativo. Como ele nos receberá quando entrarmos na sala? Avançará sobre nós e seremos estraçalhados por suas presas afiadas. em grandes molduras douradas. Por certo. nas paredes. assim como se alguém estivesse forçando a porta para invadir a casa. um buldogue. cortinas de veludo. perto da moldura. Entre as duas. Estou sentado a meio caminho e. apoiado em suas patas dianteiras se posta um enorme cão. uma distância de quatro a cinco metros. pronto para atacar o primeiro estranho que ouse penetrar na sala? É um mistério que precisaremos resolver se quisermos entrar sem riscos na sala aconchegada.adentrando. Talvez seja uma dessas estátuas de porcelana habilmente pintadas.

Porém não é isso o que acontece. aumenta para mim seu mistério. mas sempre para dentro. apagadas pela força do vento. dando a impressão de alguém tentando arrombá-Ia. Isso somente no mundo da fantasia. na vida imaginária.vento é que faz a porta da rua sacudir violentamente. outra para o alto. A vida real. a porta da rua está fechada à chave. Não comprendo. ela estivesse indicando a alguém indeciso qual o rumo a tomar. segue a regra estabelecida: as portas se abrem sempre para o lado de dentro. então. perco o medo. a chama de uma vela queima para cima. ou para facilitar o deslocamento dos atores e das câmeras. Não é normal. a colocação de portas obedece a um princípio imutável: as portas sempre se abrem para o lado de dentro! A porta de uma casa sempre se abre para seu interior. O forte sopro de ar vindo da porta das três velas me provoca calafrios. E tenho medo daquilo que não posso compreender. num convite para entrarmos. e também as venezianas do lado de fora. Todas deveriam estar queimando para o alto. Desfaz-se este mistério e perco o medo dos golpes. Quando não há vento. 215 . E não poderia haver correntes de ar neste vestíbulo. nunca para a rua. logicamente as chamas das três velas deveriam estar todas voltadas em minha direção ou.para os estranhos barulhos. contudo. Quando me apercebo disso. sempre. Observe novamente as três chamas: uma se volta para a esquerda. Para esconder o fundo. as vidraças dajanela estão fechadas. Se o sopro gelado oriundo da escuridão passa por mim para se chocar violento contra a porta da rua. aberta uma porta. outra para a direita. Apesar de ser difícil alguém se mostrar calmo com esse soar de atabaques. evitando a construção de novos cenários. Tenho medo de atravessar a porta das três velas e penetrar na escuridão. muitas vezes as portas dos cenários se abrem para fora.científica. Ou estivesse dando a ordem: entre! A exceção a essa regra universalmente estabelecida se encontra no cinema. e as cortinas no interior. no teatro e na televisão. Como também não é normal as três chamas tomarem direções diferentes. artes da representação. vinda da porta entreaberta. até . É como se. A de um quarto nunca se abre para o corredor. Desde tempos imemoriais. Mas e a porta das três velas? A descoberta de uma forte corrente de ar. tenho uma explicação racional .

Não sei. seria preciso ter a resposta da primeira. Sem dúvida nenhuma. O que sustém as três velas no ar? Certamente. isso não é segredo para ninguém. podemos até pensar em algum truque. Quem? Por quê? Para respondermos a primeira. teatros ou em qualquer casa de espetáculos. precisaríamos ter a resposta da segunda: por quê? Me assustar? Fazer alguma brama comigo? Induzir-me a participar involuntariamente de alguma cerimônia mágica? Etc. Escondida atrás da folha direita da porta. Não estamos. arame ou estilete deveriam estar camuflados com tinta fosca preta. nem eu nem você. Nem precisaria ter alguém segurando: um prego afixado na sambladura da porta serviria como haste. para não se tornarem visíveis e se confundirem com a escuridão. Como estão todas quase encostadas na folha direita da porta. A vela de baixo parece ser a única assentada. ou com os gases gerados pela combustão das velas. Porém uma observação mais atenta nos mostra que ela se eleva uns dois ou três dedos acima do chão. É de se notar que em circos. evita-se que janelas e portas se localizem em pontos que possam formar correntes de ar. Isso muito ajuda a dissimular a aparelhagem e os fios utilizados nos truques. Algum amigo faria essa burla de mau gosto comigo? Para me assustar. duas perguntas surgem. Um truque mágico pressupõe a existência de alguém capaz de imaginá-Io e executá-Io. etc. nenhuma lei física explica isso.um susto é capaz de matar quem sofra do coração. etc. A própria posição das velas flutuando no ar já é um mistério em si.? E para respondermos a segunda pergunta. familiarizados com os mistérios da física. É lógico que prego.a escuridão atrás da porta entreaberta . os números de mágica são apresentados sempre com uma cortina preta ou de cor escura ao fundo. Caso haja algum truque com as três velas. O mistério é como três correntes de ar vindas do mesmo lugar . um inimigo certamente arquitetaria algo semelhante . uma pessoa de mão firme sustentaria a haste dando-nos a ilusão de que a vela se mantém flutuando no ar. Imagino que um estilete de ferro ou arame grosso fixado no centro da vela funcionaria como haste. um estranho ligado a alguma seita ou religião aleivosa teria a ousadia de me enredar num maligno ritual 216 . o que afugentaria possíveis inquilinos. Algo relacionado com a pressão atmosférica.Quando se planeja a construção de uma casa. Talvez esse mistério das três chamas possa ser explicado por alguma lei física que eu e você desconhecemos.podem tomar três direções distintas.

assim como não sei dizer quando começou. como se usam agora nos velórios. Tubos metálicos sem pavio. persistente. Seja o que for. Mas quem e com qual intenção poderia estar oficiando um ritual mágico na escuridão por trás da porta entreaberta? E eu? Como posso exorcizar o desconhecido? O vento parou de repente. e você sabe. É como se o tempo não passasse. pintados de branco. A fumaça embriagante e fétida assim expelida força o transe místico dos celebrantes e apressa sua comunicação com os espíritos. Já estou aqui há algum tempo e o tamanho das velas mantém-se o mesmo. Sinto-o em torno de mim. me parece que o propósito maior é impedir ou retardar a minha passagem pela porta aberta (entreaberta). Por vezes. calor de decomposição. talvez. Velas queimando ajudam a medir o tempo pelo seu lento mas inexorável desgaste. Talvez da escuridão atrás da porta entreaberta se origine esse cheiro nauseante. Desnecessário olhar à minha volta para ver que a única coisa em combustão. enjoativo. Mas e se não forem? Não sinto cheiro de gás. contendo o gás que alimenta as chamas. como de ervas se queimando. Outra coisa me inquieta. Sei. me abraçando entre meu corpo e minhas roupas. um louco encontraria razões suficientes para invadir minha casa e armar este estranho altar. que continuam queimando em diferentes direções. nesta parte da casa. parece-me sentir um cheiro agridoce. mas isso não interfere na posição das chamas. porém. o pegajoso cheiro de ervas queimando? Durante o tempo que estou aqui não acendi nenhum cigarro. As chamas não consomem as velas. Sinto seu calor tomando conta desta peça da casa. Incenso.à luz de velas. Porém as três velas acesas à minha frente mantêm-se intactas. E se eu ousar? Conseguirei passar com vida pela porta das três velas? E o que encontrarei na escuridão lá dentro? Preciso de respostas para essas perguntas. são as três velas. As três velas são o bastante para provocar este odor característico de câmara mortuária. 217 . de velas se queimando. Pegajoso como o calor abafado que sentimos em ambientes fechados com velas acesas. Talvez haja uma explicação bem simples para isso: são velas artificiais. O vento parou de repente. Assim. nem eu nem ninguém ousaria entrar. Em sua mente doentia. Como explicar. Velas artificiais. Não posso afirmar quando. que em algumas cerimônias religiosas primitivas costumam queimar incenso e estranhas ervas. e o cheiro quente.

apertar as chamas. basbaque deslumbrado. Depois. Ninguém. Para isso. sem dar atenção às velas. os mesmos ambientes familiares dos quais faço parte. Muitas coisas posso fazer para resolver este mistério idiota. Sozinho tenho que aclarar este mistério. barraca de feira. tenda de culto ou coisa que o valha. truque. Com um pontapé posso abrir a porta entreaberta. à hora que eu chegasse e abrisse a porta da rua esta casa me acolhia. posso retomar a caneta e o papel. aleijado. No entanto aí está. De dia.Contudo. acender o isqueiro que trago no bolso e aclarar a escuridão. não estou num velório. Esta é a minha casa. Somente eu carrego a chave da casa. de volta à rua. com eles. Sem novidades. Não é uma casa de loucos. Se eu me levantar desta cadeira. Pode? Memória da infância. Ao abrir a porta e adentrar neste vestíbulo. de noite. na qual eu quis entrar e entrei. Posso. Sou o que sou. Esta é minha casa. já vi. Cuja chave trago sempre no bolso. arrombando-a. esse mistério. posso jazer como jazia quando menino: umedecer com a língua a ponta do polegar e do indicador e. E eu tenho de resolvê-Io. sempre a mesma. cheguei a dar três passos para trás. Tampouco me encontro num templo de cultos primitivos. apagando-as. Posso e devo. a casa que me acolhe sempre. e descrever para você aquilo que aconteceu. devo largar a caneta e o papel. 218 . sem mistérios. à minha espera. Abri a porta da rua sabendo o que ia encontrar. preciso me levantar desta cadeira imóvel. então. em nada pode me ajudar. E olhei bem para confirmar se eu estava na mesma rua. Tenho. quando eu me levantar desta cadeira e me encaminhar em direção da porta entreaberta das três velas. dentro da minha casa. sim. devo e vou fazer alguma coisa. ninguém poderia ter entrado e armado esse altar. Depois. do lado direito . Nem sou eu um alienado espectador. derrubando pelo chão as velas e tudo o mais que tiver. Para isso. Quando me deparei com a porta entreaberta das três velas. A mesma disposição das peças.gesto tantas vezes repetido. Devo deixar de me comunicar com você que. na mesma casa. Não foi o que aconteceu hoje. Ou. tomando vida somente com a minha chegada. Posso. a casa me recebeu como a um estranho. Você não pode me ajudar. Que sempre encontro ajuizada. Inanimada. os mesmos móveis. posso penetrar na escuridão e buscar o comutador da luz. broma ou seja lá o for esta invasão das três velas ardentes. Eu sou eu.

Mistério ~ numeros .

no Apocalipse. nem muito velha. uma mulher está abraçada à imagem em tamanho natural de Nossa Senhora das Dores. Amparada estou em vós. Umas olham para cima. Na cabeça tem como touca um pano branco que esconde a cor de seus cabelos. São Marcos e São as cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo os primeiros selos que o Cordeiro abriu no Apocalipse as sete cartas que. em tamanho natural. Reza a santa reza: Abraçada estou em vós. Umas entoam cantos alegres. agarra-se firme não só para não cair. Seriam dez ou doze pessoas diante do altar. respeito e procura de intimidade com Nossa Senhora das Dores. algumas entreabertos. Maria Santíssima. Beija repetidas vezes a face da imagem. abotoado. Nossa Senhora das Dores. de Nossa Senhora das Dores. outras mantêm os olhos fechados. em cima do altar. São João escreveu às sete igreas oito primeiras epístolas de São João Apóstolo os nove coros de anjos que para o céu subiram os dez mandamentos da Lei de Deus 5 são 6 são 7 são jas da Ásia 8 são 9 são 10 são 11 são as onze mil virgens que desfrutam a companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo 12 eu não contei direito mas me parece que eram umas doze pessoas que se postavam diante do altar de Nossa Senhora das Dores. outras para baixo. algumas olham para o lado. outras rezam tristes e algumas gemem e soluçam. que fica do lado direito. outras são homens e três ou quatro são crianças. Agarrada firme na imagem de Nossa Senhora das Dores. a mulher. Umas trazem os olhos abertos. É uma mulher nem muito moça. com gola. traja um vestido comprido de tecido grosseiro acinzentado. Nem todas estão olhando para a imagem que encima o altar. Umas são mulheres. como também para demonstrar toda a sua fé. abraça-a para não cair. Lá no alto. Corpo colado com o da santa.1 2 3 4 Lucas é o estábulo santo deJerusalém onde Jesus Cristo nasceu são as duas tábuas em que Moisés recebeu a lei que nos governa são os três cravos que cravaram Jesus Cristo na cruz são os quatro evangelhos: São João. São Mateus. e calça rústicas botinas de couro cru para homens. Usa grossas meias longas de lã cinza. que tivestes o vosso 221 . Sem soltar as mãos. pernas trançadas na parte inferior da imagem. Como as outras mulheres do campo nesta região do Paraná. logo que se entra na igreja. Virgem Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo.

a mim e à minha família. circunspectas. não me parece ser uma pessoa que está ali sendo velada. Perto dos primeiros bancos. invocações. aparadores de brilhante metal prateado. que. possam atentar em causarme mal. Em meu socorro vinde. É caixão de certo luxo. madeira escura envernizada. tal a quantidade de flores que cobrem seu corpo. homens e mulheres que sejam. veste o que parece ser uma espécie de uniforme. Nossa Senhora das Dores. Guardai-me de seus agentes.puro coração transpassado sete vezes por sete espadas. nigromancias. bruxedos. guardai-me das investidas de Satanás. no espaço em frente do altar-mar. parece um boneco. algumas pessoas. parece ter sido pessoa rica e influente. Chego mais perto e ergo a cabeça para ver melhor. A tampa de madeira entalhada está apoiada num dos cantos do cadafalso. visíveis ou invisíveis. pranteiam o falecido. se eleva um caixão de defunto apoiado sobre um estrado de madeira que não se vê. Imploro vossa proteção contra quaisquer maleJícios. Olhando bem. Apesar de não ser dessas coisas. protegei-me. em meus parentes ou em meus bens. em qualquer lugar. ó minha protetora Eu da cena me desinteressei e Em meu auxílio vinde. pois ninguém aqui parece se interessar pelo que sou e pelo que faço. não dá para perceber direito. que fica ladeado por quatro candelabros de prata e tem na cabeceira um grande crucifixo também de prata. uns sentados. Pela roupa o defunto era algum tipo de militar. ó Rainha dos Anjos vou caminhando em direção ao altar central Em minha defesa acorrei. Atravesso por uma fileira vazia e chego ao corredor central. encoberto que está por panos roxos. bruxos ou bruxas e adivinhos. Cabeça branca e redonda de pano branco. Sete dores mortificaram vosso corpo virgem e santo. Há bastante gente nos bancos. Sete vezes vos peço. Me aproximo curioso para olhar o morto. em minha pessoa. Apenas uma peru222 . Em torno do esquife. Em aflição vos peço: Vigiai minha casa. ó Esposa de Deus desta igreja bastante grande e suntuosa demais para uma cidadezinha do interior como esta. Nem precisava ter feito o sinal-da-cruz. outros ajoelhados e alguns em pé. em meio a panos roxos e tecidos rendados nas paredes internas do caixão. sem orelhas nem marcas de olhos e nariz. em sinal de respeito faço o sinalda-cruz e vou me encaminhando para o altar-mar. em qualquer hora do dia ou da noite. que. pelo aparato ao seu redor.

Duas luvas brancas. a menina-anjo. ninguém parece ter tomado conhecimento de minha pessoa. amparado por dois homens que suponho serem seus filhos. É de muito respeito a atitude das pessoas que...ca encanecida dá alguma aparência humana a essa cabeça. e calombos irregulares nas mãos revelam um mal executado enchimento com algodão. mais respeito . leva contigo esta minha doença.Este é um lugar sagrado! É uma menina de cabelo comprido e loiro. para que leve aos céus ou infernos seu câncer. pois uns dedos são mais grossos que os outros. quase inaudível. doença que me parece vai matá-lo logo logo. mundo das sombras. Saindo das mangas do uniforme. Batom vermelho 223 . Pode-se presumir que não seriam mãos que enchem as luvas. e seus filhos têm de arrastá-lo para que ele se deixe cair no banco mais próximo e ali repouse ofegante. este meu câncer que por dentro me corroe.Não se deve zombar daquilo que acontece em solo sagrado! Muito loira de olhos bem azuis. . em pé. Começo a achar tudo isso meio sem sentido e até engraçado. como que para recuperar o fôlego. um velho de cor cinza se aproxima do caixão. Uma espada aponta em minha direção.. duas luvas brancas pousadas no ventre do defunto. doentia. . Vagarosamente. Tenho vontade de rir. Leva contigo para que eu delefique livre e nunca mais volte a sofrer com ele ou com outra doença parecida. Depois de alguns instantes parado. . velam em torno do caixão. inicia uma oração: Já que estás partindo para outro mundo. O esforço para dizer essas poucas palavras foi muito para o velho. serragem ou outro material qualquer. um anjo aponta sua espada dourada contra mim. caminhando com muita dificuldade. Algumas rezam parecendo puxar um terço em voz baixa. túnica longa e branca que deixa à mostra apenas seus pequenos pés descalços.Está zombando de coisa séria! Ameaçador. Tem nas costas duas asas de papelão com penas brancas coladas. trespassados por um rosário de contas pretas. A espada que aponta para mim também deve ser de papelão recoberto com papel laminado dourado. o velho põe as mãos sobre as daquele que está no caixão e com voz rouquenha. dedos entrecruzados. Desde que entrei nesta igreja.Vivente . . que nem sei se é mesmo um defunto.. esse velho doente pedir a um defunto. sem retorno. já que estás indo embora para sempre.

Compenetrado. Deixa de apontar para mim. os róseos biquinhos de seus peitinhos.carregado nos lábios finos. como se fosse rezar uma missa imponente.mas existem coisas que não gostamos. longe de casa desde ontem nesta cidade. as unhas da mão que empunham a espada estão pintadas de vermelho vivo. Que ofendem ao Senhor Nosso Deus .. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário 224 . gotas de purpurina vermelha que rebrilham à luz bruxuleante das velas.. É um padre jovem.. As sobrancelhas e os cílios fortemente marcados de preto e sombra verde em torno dos olhos azuis cor do céu.Com sua licença. Sei onde ele quer chegar e poupo suas palavras: .. talvez para ver se estou mesmo indo embora. Há dias que estou sem mulher.. Sinto desejos por ela. não sei explicar bem por que mas a visão da menina-anjo me excita. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário A menina-anjo me segue. . Há dias que estou de viagem pelo interior. Pela porta da sacristia surge um padre e se encaminha para onde estou. E me afasto caminhando pelo tapete vermelho do corredor central em direção à porta de entrada.. não tenho companheira fixa. A túnica é de diáfano tecido acetinado e quase antevejo... . . A menina-anjo se desfaz de sua expressão séria e sorri. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário O canto do coro da igreja vem lá do alto. No rosto. padre. Como as dos seus pés. talvez pelo calor aqui dentro. Não sou casado e mesmo na capital. onde moro. a espada toma então outro rumo..Eu estava mesmo de saída. dirige-se a mim sem cuidados: -Aqui são todos bem-vindos . As portas da Casa de Deus têm de estar sempre abertas a todos .Em outra ocasião o senhor será bem-vindo aqui. na pequena elevação. Talvez seja por isso. conduzida pela mão do anjo movimenta-se lentamente em direção à sacristia. todo paramentado de veste litúrgica branca e dourada.

quando o único posto da cidade estará aberto e terei gasolina para seguir viagem. como se costuma dizer. tomo na estrada. vem ajeitando as calças. Ele surge da porta que dá para a área interna. modesta construção térrea de madeira. É um velho gordo sem dentes. Número nove.Tem importância não. preciso talvez é ter alguém com quem conversar. os mosquitos. arrasta uma perna. Não preciso esperar o dono. . Onde andará? Se quiser. todas as doze chaves dos doze quartos estão no quadro. um mendigo estende o chapéu para mim na escadaria da igreja. Com toda a certeza estava na privada. Posso pegar minha chave. que não está na portaria. Procuro no bolso uma moeda ou nota de menor valor para dar de esmola. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário na imagem de Nossa Senhora das É a menina-anjo quem fecha as pesadas portas de madeira escura às minhas costas.A essa hora ainda não temos café feito. Nem mesmo preciso pedir que ele me acorde um pouco antes das seis. ele é cego. parece não levar muito a sério o que diz: . .está sempre sorrindo .e jogo no chapéu do mendigo: além de aleijado das pernas.Posso pegar minha chave? E dá para o senhor me acordar amanhã às cinco e meia? O velho responde como se estivesse zombando de mim.A mulher continua pendurada Dores. . Acabo encontrando a nota fiscal de uma com pra que fiz na farmácia . . Sou o único hóspede. a sujeira. A mocinha só chega depois das seis.Uma esmolinha pelo amor de Deus! Apesar da noite escura cobrindo a praça deserta. 225 . na casinha de madeira no pátio interno. não mesmo.Deus lhe pague. Vem sorrindo . Com poucos passos chego na pensão onde me hospedo.N ovalgina para uma dor de cabeça que eu estava .como se fosse muito engraçado aliviar-se no meio da noite na privada escura e suja no meio do negro pátio. posso apanhar a chave do meu quarto pendurada no quadro. E a única da cidade. não preciso esperar o dono da pensão. Não vai ser preciso. no migué. Procuro pelo dono. . o calor e o abafamento do quarto não me deixarão dormir direito e estarei acordado bem antes das seis.

muito bonita. não está mais achando graça: . não sei não..Acho uma feiúra. em todos os lugares ao mesmo tempo.. sei lá.Então o senhor entrou na nossa igreja?! Quer saber duma coisa? Me olha fixo: . Mas também é onipresente. O velho perde o ar de gozação. desperdício de dinheiro numa construção daquelas: só para entronchar o cu dos padres. entrei porque não tinha outro lugar para ir. E ri sem dentes. Fica me olhando sério por algum tempo: .É.Porcaria duma igreja numa cidade que nem hospital tem.Deus . 226 . . se alguém fica doente tem que andar trinta quilômetros até achar um médico.. estive dando uma volta. Mas .Estou com a chave do quarto na mão.O senhor entrou na igreja? -É. nós sabemos.Também não. Vi a igreja grande que vocês têm aqui. o velho me pergunta: . acho que ninguém sabe.. satisfeito com a grossura que disse. e segue falando: . e o Diabo? Onde fica o tempo todo? Onde encontrar o Diabo? Demoro bastante para responder: .Esteve passeando pela nossa bela cidade? Diz isso como quem diz: Então andou vendo que bela porcaria que é este buraco? . Ainda com jeito de zombaria. Até mesmo aqui e agora nesta nossa conversa. . quieto sem dizer nada. Está em toda parte. Deus. é uno e indivisível. mas nem penso em arredar o pé dali.É. E o senhor sabe? .É. ele está aqui nos escutando.

Mercúrio . ". mlsterlo .

o metal o mais brilhante. eles prescreviam o famoso Bouillon d 'Or. ali no jardim do pensionato de verde relvado e árvores com ramagens verdes-cinza. verde por propagação e vermelho por reflexão sentiu vontade de ter nas mãos uma fina folha de ouro para ver se realmente ela tomaria a cor verde. que consistia em cozinhar uma moeda de 1 ducado de ouro juntamente com uma galinha velha. No livro. Para restaurar os doentes esgotados.Em setembro de 1879. Bélgica. passou por cima de informações bastante óbvias para ela. mas. irmã Eglantine. como já transmitira às suas alunas durante o transcorrer de longos anos de educadora Saudações. e mesmo para suas alunas Ordinariamente. simplesmente. recebeu o livro Pierre et Metaux. que sempre sejactaram de possuir o poder de criá-lo em seus laboratórios e com ele obter uma panacéia universal o assunto interessava sobremaneira à irmã Eglanti- ne. O ouro não é A RIQUEZA. Pacientemente. e preservativos contra a lepra. por segundos. A simples imersão do metal vermelho em brasa nas tisanas era o suficiente para transformá-las em fortificante peitoral. polvilhavam os alimentos dos enfermos com pó de ouro pequenas liberdades consentidas que irmã 229 . através dela. irmã Eglantine reencontrou conceitos que não só conhecia. ó Rei dos Metais. Com o ouro fabricavam amuletos para fazer voltar a alegria aos melancólicos. Ouro. o mais pesado e o mais imutável entre todos os metais. o ouro é um metal opaco e amarelo porém não pôde deixar de se admirar quando leu o que muita gente não sabe é que reduzido a lâminas extremamente delgadas o ouro torna-se transparente. um moderno tratado escrito pelo professor Arthur Mangin. E não se pode transferir a qualquer outro metal o honorável papel de representar. de medir e de simbolizar o VALOR irmã Eglantine bem compreendeu que o autor aqui se refe- ria somente ao valor econômico e não aos valores morais. químico renomado. em Bois L'Evêque. é UMA RIQUEZA. naquele início de outono. objeto de culto servil de uns e do desprezo suspeito de outros. ou um galo velho. Ou. Pensou no prazer que sentiria ao levantar entre os dedos a fina placa de ouro e. do Pensionnat des Religieuses du Sacré-Coeur de jésus. Liege. observar o esmaecido sol da tarde para sentir a transparência do metal e vê-lo enrubescer como um rubi e não é nada estranho que um metal tão precioso como o ouro tenha sido objeto de experiências as mais perseverantes por parte dos alquimistas. suspendeu a leitura e pensativa deitou os olhos no pátio deserto ao seu redor: certamente não era este um tema para levar ao conhecimento de suas alunas pour les médecins arabes e os adeptos na Idade Média. que. incontestavelmente. o ouro ou o SOL possuíam propriedades sobrenaturais.

bizarramente. escreveu em seu Soma da Perfeição do Magistério: "O mercúrio se encontra nas entranhas da terra. quase uma substância sobrenatural. A vela alumia o livro O mercúrio é o único metal que existe naturalmente em forma líquida e conserva esse estado mesmo a baixas temperaturas. deux. Eles o chamavam também. sempre impressionou vivamente a imaginação das pessoas e fez considerar o mercúrio como um metal privilegiado. com o cobre. pois que somente se solidifica a quarenta graus negativos. Os metais a que melhor adere são o chumbo. Fraldas confeccionadas com esgarcidos lençóis sem uso completam a esmola piedosa. de Bile do Dragão e Leite de Uma Vaca Negra bem doce. varrer lavar. cozinhar servir. Nesta hora de silêncio no pensionato. jovem noviça para todo o serviço no pensionato: preparar-se espiritualmente para o matrimônio com Jesus Cristo. A irmã despenseira lhe deixou a chocolateira esquentando sobre a adormecida chapa brilhante do grande fogão a lenha. costurar cerzir. muito dificilmente. que tomba ao fundo". Faz frio. Não adere às superfícies.todos produtos do pensionato. quando se vê o mercúrio tomar uma singular importância e desempenhar um papel extraordinário. lavar passar. Quanto ao ferro. Para eles o mercúrio era a Água Divina. Somente mais tarde fará as orações da noite O químico árabe Gerber (Yabar-Al-Koufi). o queijo de leite de cabra. esfregar arear. o chocolate ao leite esquenta e relaxa o corpo. Todos os metais nadam sobre o mercúrio. quatre et pourquoi pas cinq tablettes de sucre? Bem adoçado.Eglantine se acha no direito de tomar. trois. nas teorias místicas dos alquimistas. somada à sua alvura e ao seu brilho cintilante. sobre as quais flui livremente. toma chocolate com leite na cozinha deserta. exceto o ouro. às vezes. Esta singular propriedade. Ele se amalgama igualmente com a prata e. que viveu no século XVIII. o pão e os biscoitos . a escuma de todas as formas. É necessário enrolar o xale negro nas mãos brancas que seguram o livro. mãos fora das cobertas. o chocolate ao leite torna-se mais saboroso e aquece muito mais o corpo. Un. limpar polir. No cesto o patê. o estanho e o ouro. A pouca mobília torna a cela ainda mais fria. irmã Eglantine reina solitária na cozinha. Longa é a caminhada e irmã Eglantine aperta o passo. O cesto quem leva é Anne Marie. mesmo passada a hora de se recolher. 230 . Essas descrições são exatas e a química moderna nada mais fez do que complementá-Ias. depois de tantos anos servindo a Deus no Pensionnat des Religeuses du Sacré-Coeur deJésus: antes de dormir. irmã Eglantine prossegue a cativante leitura. Sobretudo na Idade Média. a este adere somente por um artifício que é o grande segredo da Arte. o princípio e a essência de todos os metais.

Nua. afinal? Lentamente. Agarra a freira pelo hábito. Arranca rasga suas vestes de religiosa. A cabana dos Philipot assenta-se em meio a árvores limpas. O cesto com oferendas servirá para mitigar a miséria do casal Philipot. de pé estático. sozinha? Talvez. Como para encobrir aquela visão. vigiar e repreender as alunas e. como para melhor se posicionar e ver Anne Marie. irmã Eglantine grita. Philipot estende a mão livre e toma uma faca de cima da mesa. domina-a. Sem largá-Ia. Philipot sai de trás da mesa e vem à frente. O mercúrio não parece existir em grande abundância na natureza os Philipot vivem isolados. camponês que não tem onde cair morto nós já o dissemos. Talvez tenha sido levada. às vezes. quase um apêndice da floresta ao lado. Contra a vontade dos pais. Talvez. Irmã Eglantine pega o cesto com Anne Marie e entram as duas na cabana escura. estátua de sombras. Talvez o bebê já tenha nascido. Talvez ela tenha ido dar à luz em outro lugar que não aquele. desamparada pelos parentes.plantar colher. desprotegida pelo marido sem trabalho. Formigamento. Mas o senhor não se interessa? Não se interessa em conhecer seu filho? E sua mulher. Como. asas a se agitarem na cabeça. irmã Eglantine posta-se na frente de Anne Marie. onde está ela. prestes a dar à luz. Não a faca: o que irmã Eglantine sente agora é a mão punho de Philipot revolvendo suas en231 . acompanhar irmã Eglantine em seus pequenos passeios e visitas de caridade. justifica a longa caminhada para a visita de caridade. reinado dos javalis. o mercúrio é dotado de um brilho cintilante e se parece bastante com a prata. Ajovem esposa Philipot. somente com a coifa. quase como um favor. à beira da floresta. A mesa alta impede a visão do resto de seu corpo. grita sem que nenhum som escape de sua garganta. mão. Germaine Garnier casou-se com o jovem Paul Philipot. o homem Philipot. Philipot agiliza os movimentos. dos lobos e das serpentes. Imoral! Imoral! Como se apenas esperasse ouvir essas palavras para agir. E não são dadas maiores explicações. se bem que tenha um leve reflexo azulado. Monsieur?! Trapos sujos cobrem-lhe o sexo. A porta está aberta mas as janelas permanecem fechadas com tábuas. substituída em seguida por um amortecimento suave. Nu da cintura para cima. até então oculta pelo negror da cabana e por irmã Eglantine. ouvir e rezar. puxa-a violentamente contra seu corpo. Não está a futura mamãe em casa? Não. O golpe dado no ventre é tão forte que penetram faca. numa cabana em partes afastadas das terras do barão de Montpellier. A dor rasgante da facada só é sentida por um segundo. punho e metade da metade do braço.

limpa com beijos. espera. No mês seguinte. o braço se deixa sair um pouco e já lhe penetra novamente o ventre. na Feira dos Livros Usados. Anne Marie prepara-se para o sacrifício. foi vendido um exemplar de Pierre et Metaux. sai em parte e volta . Philipot mantém-se de joelhos e.tranhas. deitada no chão.. situado na rua Emiliano Perneta 325. Branco filete líquido oleoso que não adere às bordas róseas da carne e penetra doce e ágil no interior do pequeno mistério da fenda escura. 232 . O mercúrio se liberta célere pelos vãos dos dedos. lenta e cuidadosamente despeja mercúrio na pequena fenda oferta. Desveste o hábito de noviça e. como prêmio de aplicação para as alunas que. Mesmo quando caem e rolam os dois pelo chão de pedra.. prolongado e rouquenho. Sente apenas o retorcer gosmoso entrar e sair da mão punho em seu ventre líquido: Aiiiiii. vou morrer! Quando Philipot retira a mão e o punho. o corpo nu. Bélgica. sebo de propriedade de Irajá Reis. A cada tentativa dela de se afastar. Posse silenciosa. Por que se preocupar com uma freira morta. tenham alcançado as melhores notas nas aulas de instrução religiosa dos cursos do Pensionnat des Religieuses du Sacré-Coeur de jésus. Philipot retira a moeda de ouro que cobre o sexo de Anne Marie e. irmã Eglantine está atenta e observa a cena. Onde ele arranjou tantas moedas de ouro? Ainda ajoelhado. Outra moeda sobre o bico róseo do seio esquerdo. Liege. por mérito próprio. Morta irmã Eglantine. com as mãos em concha. Em outubro de 1989. encadernado e em perfeito estado de conservação. Saindo do corpo da moça. retira mão e punho vivos de um corpo já morto. Philipot pouco se importa com os olhares da freira. pequena fenda agora selada com ouro. irmã Eglantine sugere à madre superiora a indicação do livro Pierre et Metaux. boca e barba o sangue do sexo impúbere loiro de Anne Marie. em Curitiba. outra mais sobre o direito. Apesar de morta. em Bois L'Évêque. Philipot cobre com um ducado de ouro o sexo profanado de Anne Marie. Deposita uma moeda sobre o lábio de sorriso curto e uma em cada pálpebra semicerrada da moça. longos cabelos loiros espalhados sobre a áspera superfície de pedras. olhos esgazeados? Há mais o que fazer. outubro de 1879. inclinando-se. ela nem sente o peso do corpo nu de Philipot sobre seu corpo nu. Sai em parte e volta. Do fundo da garganta de irmã Eglantine vem um suspiro silencioso.

()s fantasmas do fundo de quintal Um mistério .

ocos. Na noite fria há os que dormem protegidos pelo escudo do sono Sonham? Talvez. de onde não se vê a rua. das dores reumáticas. do medo. Não tem perigo dele pisar no canteiro e amassar os pés de alface. preparando suas maldades. Presas da insônia. de urina solta. o Velho não luta contra o esquecimento: apenas quer lembrar e não consegue se lembrar do que quer lembrar. da bronquite. homem! Revolto na cama. ninguém vê mas o Fantasma do Quintal está ali. Atravessam as noites acordados. Que tristeza! Milagre: o enorme lençol branco sobrevive no varal! Não se pode deixar roupa dependurada que os ladrões roubam tudo. Ainda está longe o dia. 235 . Ninguém pode se livrar do mal. da falta de ar. Os olhos sem imagens. Os cachorros se esquentam enrodilhados em seus sonhos.Ao longe o cantar abafado dos galos. as cebolinhas e os rabanetes: Que economia trazem para a casa! Sentado na cama em ângulo reto. Os telhados vão amanhecer branquinhos de geada. vítimas fáceis dos demônios do quintal dos fundos. do remorso. Há os que não. das tosses noturnas. abertos para o vazio do quarto escuro. olhos abertos no escuro fitando o nada. dos gases intestinais. atento. No limitado triângulo o Fantasma dos Quintais caminha pela calçadinha cimentada.

Mas vá falar disso para um homem apaixonado! Não sei. se con tin ua assim não sei o que será dele. Tanto ela tem feito para que ele passe essa fase ruim em que está e volte a ser o que era antes: um homem alegre. Ainda bem que não está ventando. Mais tarde . Botaram feitiço nele.ao acordar. trabalhador. Eu tenho rezado tanto pelo meu filhinho! O pior é que a Mãe não sabe por que ele está assim. o gato da Velha mija fedido na varandinha da casa nova. As galinhas vêm ciscar na horta alheia. Deve ser coisa de alguma mulher. os quintais do fundo se ligam com os quintais de outras casas. 236 . Pelo vão da cerca a ameixeira derrama seus melhores galhos para o lado do vizinho. Não adianta: ela não quer saber mais dele. Se soubesse talvez pudesse ajudar. Não há como se livrar disso. falsa ou verdadeira. Na interminável noite. Ele está se acabando.vocês vão ver . sempre há uma esperança. Cai num sonho nervoso. Inútil insistir. terá a imagem dela diante dos olhos para sempre.o Homem não pode se livrar da memória. É disso que o Fantasma do Quintal se aproveita Ainda está longe o dia e a geadajá começa a cobrir a grama. sem dormir sonha agitado com a Outra. Pela tessitura das cercas. a Mãe insone reza pelo filho. esperando a hora de levantar e fazer café. que largou dele para sempre. lá do quintal dela a Enxerida espiona tudo.

na morte será minha! Se a Mãe soubesse que o filho criado com tanto carinho quis tirar a vida de alguém. Na sua brancura o Fantasma entreabre um sorriso de dentes amarelos. Com passinhos macios. Ninguém nas ruas. protegida. as noites frias! Debaixo do lençol úmido a Mocinha dorme seu sono solitário. depois escorrega a mão até a gretazinha miúda pulsante. matou alguém. Ahhhh. ao longe passa o ruído de um automóvel tardio. A Outra dorme aninhada em seu novo namorado. Coitada. a Mocinha agora dorme tranqüila debaixo do lençol seco.que demônio! já está na cama agarrando a Mocinha por detrás. Sua mão gelada de fantasma acaricia o ventre liso dela. Pensar que o Homem pensou até em matar: Se ela não é minha não será de ninguém.a valeta vaza suas águas fétidas para o lado de cá. o tatu busca sua toca no terreno baldio sem cercas dentro da noite. Pé ante pé.. quentinha. Ela vai ser uma perdida na vida! Na sala o gato preto dorme em cima da televisão. vozes indesejadas atravessam as cercas de madeira. sem fazer barulho. Sem sair do quintal o Fantasma . uma criança ainda! Isso não se faz . O canalha! A madrugada vai alta. a sombra do Fantasma entra no quarto e observa o sonho da Mulher para ver se ela dorme calma sem saber das coisas que o marido aprontou.. Isso durante o dia: dentro da noite é esse o território dos fantasmas dos quintais. 237 . calorzinho tão bom! Suspiro prolongado e um ai. Os ladrões da noite não procuram casas com fantasmas no quintal. longe dali.

parecia um grande pedaço de fígado. 238 . Como pôde limpou a mão numa estopa. Dias e dias atrás do dinheiro e de um médico que aceitasse fazer o aborto. O Homem não tinha levado nada para cavucar. o grito apertado. Com seis meses já está vivo. pensou em fazer uma pequena cruz.que mortalha pode cobrir um bebê morto? Na noite escura só o Homem escuta o grito só para ele. rins pelas dobras prenunciando membros. textura lisa talhada. O rosto que ele agora tinha nos olhos. Não sabia rezar. Pela cor plúmbea.Horrível! O grito de alguém morrendo. quando precisava pedia para a Mãe. ao longe se vê a estrada de pouco movimento. dá pontapés na barriga da mãe. Se parecia com a mãe? A Outra se recuperava na clínica clandestina. Tirar agora é matar uma vida. O médico aceitou mas fez uma exigência: tirar eu tiro. Trouxe o feto embrulhado em plástico transparente. O fusca parado num terreno pantanoso. Olhando a barriguinha da Outra ninguém diria que estava de seis meses. choro prolongado de um bebê . O Homem cobriu de terra. um grito dele. Fez um buraco com a chave da roda e com as mãos sujas de lama preta. Na agonia da morte uma criança. orelhas e olhos. mas vocês é que vão ter de enterrar. Depois eu limpo direito. E desperta dentro de um pesadelo. A imagem é outra: o rosto esborrachado do bebê morto. dura gelatina. Não! Alguém vai desconfiar. olhos esbugalhados que não vêem mais a imagem da Outra. O filho dele. nariz.

a mulher volta ao sono. o Homem não está mais dentro do seu corpo. o cão recua ainda rosnando e depois se cala. Não vê que sou eu?! No escuro. como se não existente. Não sei se foi o medo. outros mundos. O rosto afundado no travesseiro. longo.Patinando na lama o fusca voltou para a estrada. Sultão! Guapeca vagabundo. latindo avança nele. pêlos eriçados. Do Homem sai um grito silencioso. se fosse um ladrão não acordava. com as lágrimas lava a lama preta das mãos e vai procurar outros quintais. Então percebe com horror: O Fantasma do Quintal sou eu! Passa a mão nos olhos. o Homem treme de medo. Dá três passos e o grande susto: o Cão Negro. O Homem abre a porta que dá para o quintal. desassinalado. Não de frio. Nos seus olhos a imagem da Outra se mistura com o rosto mongol do bebê. dentes arreganhados. O Homem não conseguia mais ficar deitado. nem os cães nos quintais. uma eternidade de medo antes de conseguir gritar: Passa. levanta com cuidado para não acordar a mulher. que dorme calma ao seu lado e tem um ligeiro despertar: aonde você vai? Mais uma mentira das muitas: vou no banheiro. nunca mais. E o amor. o frio da madrugada arrepia seus pêlos. Os cães do bairro respondem num enrodilhar de latidos. Ninguém vai ouvir seu grito. Tem agora toda a memória do mundo e o dia não vai nascer. no meio da noite. 239 . se enxerga parado no meio do quintal. para que serviu? Não poder dormir nunca mais.

EJle .. • • (EPISODIO N.' 2) o amigo· A SAUDE DA MULHER fará o mi· logre· é o grande remedio pora 0$ incommodo$ vidro hoje dos senhoras. .Mósinhal Para que recordar? felicidade Elle _ Santas meira de regresso ao teu lar. abençoarmos a SAUDE DA MU· que me restituiu 00 teu omor!. A SAUDE DA MULHER O GRANDE REMEDIO DAS DOENÇAS DE SENHORAS . ~. querido? Foz hoje um onno que brigá mos pelo ultimo vez . Levarós Vou Compro um com elJe o Ello . voando palavras! phormocial é pri- ElIa • Para lHER. . mesmo.Lembras-te. ()mlsterlo Sônia teu. COISAS DA VIDA ...

o que atesta ter ele rodado em estradas de terra. chega-se à praça da Matriz. estreitas e curtas. portanto. O que procura o Homem de Olhos Azuis àquela hora naquela ci243 . obrigam que o Homem de Olhos Azuis conduza o carro em baixa velocidade. oito e meia da noite anterior. O único sinal da viagem que acaba de fazer é a camada de pó pegajosa e leve que aderiu principalmente nas partes laterais e nos pára-lamas.o ESTADO GERAL DO CARRO Bom. entrando novamente pela avenida xv de Novembro. o que diminui ainda mais o barulho do motor. mas a Mulher tem uma mancha preta no branco do olho esquerdo. Um exame mais do que superficial mostra que o carro. como se diz. a pintura vermelha não está descascada. a lataria sem pontos de ferrugem e os pneus são novos. Traz. não perturbando. tem entre os vãos dos dedos do pé chumaços de algodão embebidos em Vodol. Longe de ser um defeito desagradável ao olhar. As regras apareceram por volta das oito. Como o carro é de modelo recente seu motor é silencioso. calçamento apenas no centro e em algumas avenidas periféricas. no centro. que também dorme. para controlar as frieiras que muito o afligem nesta época do ano. É uma cidade de tamanho médio. O marido. mais adiante. Mais certo dizer que perto das três e meia. E as ruas de traçado antigo. seguramente. dobrando à esquerda no largo do colégio das irmãs e. Por essa hora o carro entrou na cidade. improvisou uma toalha higiênica com um grande guardanapo branco de boa qualidade. Nenhum amassado na carroceria. A SAÚDE DA MULHER Seriam. lançado há dois anos pela fábrica. Seguindo a entrada sul em linha reta. esse sinal de nascença. mais para pequeno. e como a Mulher não tivesse modess em casa e se avexasse de mandar alguém buscar na farmácia do seu Benedito. dá um certo atrativo à beleza da Mulher. porque no sono ela mantém as pálpebras cerradas. o sono dos habitantes da cidade. vindo do Sul. No momento não podemos ver. ainda se encontra em bom estado. apesar de grande. um certo it aos olhos esverdeados dela. entre duas e quatro horas da madrugada.

mas geralmente funciona só até as oito. o Central. dissolvido num copo de água açucarada. Prossiga com o tratamento. no máximo. Não tem contra-indicações e não prejudica a amamentação. Ninguém pelas ruas para dar qualquer informação. E nenhum estabelecimento comercial funciona até essa hora. E não será fácil achar o único hotel da cidade. quase todas pinta244 .dade? Seja o que for. Precavida. ela tomou uma colher das de sopa do remédio. Por suas propriedades terapêuticas acentuadas. ou. A SAÚDE São ruas curtas que desembocam em outras ruas curtas e trazem a indagação: para que lado seguir agora? As casas. diminua a dose. nove e meia da noite. Não deve haver preocupação com isso porque está agindo beneficamente. pois já apagou a pequena lâmpada que alumiava sua pequena placa e fechou a porta de entrada. dependendo do dia fecha às nove. Foi comprado na farmácia do seu Benedito e guardado no armarinho de medicamentos até a chegada da menstruação. dificilmente encontrará. O que fecha mais tarde. A SAÚDE DA MULHER determina ligeiro abalo no organismo. às vezes. Ontem à noite. a Mulher tem sempre em casa um vidro de A Saúde da Mulher. Até a delegacia de polícia mantém a porta fechada e as luzes apagadas. Passou disso é preciso tocar a campainha para chamar o farmacêutico. remédio antigo mas de comprovada eficácia. DA MULHER contém substâncias de ação sedativa e antiespasmódica nas cólicas menstruais. logo que desceram as regras. a farmácia.

nos tempos em que a cidade florescia. como são as falas do sono. Ou talvez tenha. um cachorro late aqui. O Homem de Olhos Azuis no carro vermelho não tem sono. não pela calçada. talvez já se visse algum passante andando. Em seu sono agitado. e talvez pudesse localizar aquilo que veio procurar nesta cidade que não conhece. não estivesse dormindo roncando. Seja o que for. É claro que não se pode adivinhar que tipos de pesadelo o mal-estar traz a ela nesta madrugada nem quente nem fria. fazem-na gemer e revirar-se incessantemente na cama. a concentração e a excitação espantaram seu sono. as portas do quarto fechadas na velha casa abafada. Mesmo se o Marido.das de amarelo. Quase inaudível. Fosse daqui a uma hora. seja o que for que o Homem de Olhos Azuis esperava encontrar na madrugada desta cidade. as luzes dos faróis do carro vermelho atravessam por entre as frinchas das venezianas fechadas e relampejam no escuro do quarto abafado. Ela passa por suores frios e ondas de calor que. A iluminação pública é bastante ruim. Uma leve neblina envolve a cidade. foram construídas quase na mesma época. não terá sido achado. a Mulher pronuncia o nome de alguém. ao lado dela na cama. entre casas amarelas que se assemelham iguais. quando abre o único posto da cidade? E. Alguém que um compromisso ou um trabalho urgente tirou da cama mais cedo. 245 . outros respondem lá longe. mas por se manter atento em achar o caminho por ruas calçadas de paralelepípedos que parecem sempre as mesmas. depois de algum tempo param de latir e vão recomeçar mais tarde. mas apressado pelo meio da rua como todos os que caminham pela madrugada. sonho bom ou sonho mau. Tem o carro gasolina suficiente para continuar rodando pela cidade adormecida? Não poderá acontecer que. se não chegam a acordá-Ia. Às vezes. então. Se encontrasse alguém. não irá encontrar nesta hora em que todos dormem. teria dificuldade para identificar o nome que ela diz. seja o que estiver sonhando. pare por falta de combustível e tenha de esperar até as sete horas. sem encontrar saída. o Homem de Olhos Azuis pararia o carro e pediria informação. de repente. É agitado o sono da Mulher. A obscuridade vista pelos faróis do carro dá ao Homem de Olhos Azuis a impressão de estar sempre andando em círculos pelas mesmas ruas.

que dormia roncando ao lado dela. Que seus gritos acordaram o Marido. voltando do sono. seja lá o que for. Acelerou o carro vermelho. a Mulher despertou do seu agitado sono gritando o nome do Homem de Olhos Azuis. mesmo que seja inventado. seguiu os treze quilômetros pela estrada de terra até alcançar a rodovia asfaltada e pegou o caminho de casa. a Mulher e o Marido. finalmente. Tudo o que eu disser será verdade para você. o sangue menstrual continuará sendo expelido em grandes fluxos.Mesmo durante o sono. pois participei do início dos acontecimentos daquela madrugada. sujando o pano branco e marcando de vermelho os sedosos. do que tinha vindo procurar naquela cidadezinha pela madrugada. eu sou um observador privilegiado. o OBSERVADOR o PRIVILEGIADO que aconteceu depois? Em relação a você. E que o Marido. Por exemplo: eu posso escrever que o Homem de Olhos Azuis cansou de procurar e. descobre com pavor que a Mulher ainda guardava no coração o nome de outro homem. Por isso. longos e pretos pêlos púbicos da Mulher. você tomará como o acontecido. é melhor que eu me cale e deixe somente com você a tarefa de deduzir o que aconteceu depois com o Homem de Olhos Azuis. 246 . no momento em que ele partia. Porém. e tudo o que eu escrever aqui. Posso dizer também que. encontrou a saída da cidade. tenho eu o direito de indicar finais possíveis para os acontecimentos reais que comecei a contar? Por acaso sou um deus com o poder de determinar o destino das pessoas? A resposta é não. desistindo.

() mistério da Sonâmbula .

A velha mãe. caminhando. chegou defronte à grande porta envidraçada. foi por indecisão entre sair para tomar a fresca da noite ou voltar pelo corredor escuro e. o sofá e as três poltronas de veludo vermelho. apanhar o vidrinho de comprimidos para dormir. pois me parece difícil denominar os atos de uma pessoa em estado de sonambulismo. no armarinho de metal. podemos deduzir que se levantou porque não conseguia dormir e. lavar o rosto e se vestir. na enfermaria do hospital. é mais um deslizar suave. Se. a mesinha de centro e o pequeno móvel com assento que abriga o telefone. Seu caminhar. viaja em férias escolares. a cadeira de balanço com armação de palhinha. seguir até a copa. eu diria. eu não diria indecisa. conforme o combinado. no fundo do corredor. o embate com os móveis: a mesa ovalada com seis cadeiras. deveria também vigiar a propriedade durante a noite. E podemos mesmo afirmar que. Na parte de baixo. espera no centro da cidade que seu comparsa venha buscá-Io. em movimentos lentos flutuantes. encher o copo e. não está. supõe-se. vai até a porta envidraçada que liga o interior da casa com o varandão do jardim da frente. sem acender as luzes para não perturbar o sono das outras pessoas da casa. se ficou em frente à grande porta envidraçada. O marido dorme no quarto do casal um sono pesado. só então acender as luzes. caminhou pelo corredor até a sala. No jardim dos fundos. não se pode dizer se ela caminha de olhos fechados ou abertos ou de que maneira ela evita. Fica ali por alguns instantes. duros. que. Como ninguém da casa ainda a percebeu em seu sonho de sonâmbula. no meio da noite. limite entre a sala e o varandão. silenciosa. longe dali. e mesmo depois de se levantar. O irmão mais moço não se encontra na casa. O Ladrão ainda não invadiu a casa. A cozinheira aproveitou o dia de folga e dorme na casa da filha casada. E o velho jardineiro dorme sob o efeito de sedativos. a Sonâmbula caminha sem se chocar com os móveis da sala. ressona em seu quarto de portas fechadas a sete chaves. no bar onde fazem ponto. O motorista. Pela noite. após nova 249 . a empregada dorme em seu quartinho e continuará dormindo mesmo depois do despertador tocar as seis horas. alguém se levanta e. a mesma que se queixa de nunca conseguir dormir à noite. as dependências da criadagem masculina estão vazias. ligeiramente alcoolizado. para combater a insônia. no escuro. a cristaleira antiga que veio da fazenda. A irmã tem seu quarto longe da sala. A Sonâmbula.Nada de gestos arrebatados.

Porém o que sabemos nós das motivações de uma pessoa sonâmbula? A Sonâmbula toma uma decisão: vira-se.Acordei hoje e encontrei a cozinha toda bagunçada. Ficou com a parte mais fácil. Alguém andou fritando ovo e deixou tudo sujo. foi a senhora que fritou dois ovos ontem de noite? .Dona Rejane. podemos reconstituir facilmente os pensamentos e ações de quem não consegue dormir de noite. retorna pela sala entrando no corredor. seu companheiro ficou no carro vigiando. seu sem-vergonho?! Não foi desta vez. Muitas vezes na vida tivemos insônia e. senta-se e. Era isso o combinado: o Ladrão pulou sozinho o muro da casa. nem Rejane nem ninguém ficou sabendo que havia uma pessoa sonâmbula na casa. pegar não dois mas três comprimidos e tomá-Ios com água. na casa de tijolos aparentes. abre a porta de seu quarto. A Sonâmbula agora penteia os longos cabelos negros. o marido revira-se na cama.---------indecisão. o motorista sai de cima da nova empregada. com 250 . Debruçada na cama. chega até a borda da piscina e mija na água. Incomodado por alguma coisa em seu sono. Rê? Comendo escondida de noite? Por isso essa barriguinha? A Sonâmbula pensou logo na sua velha mãe. Antes. pronto a dar sinal caso notasse alguma coisa estranha. A três quadras dali. Na manhã seguinte. que idéia! . cheia de manias.Ficou louco. a nova empregada tudo vê e reclama quando ele volta: . O marido intervém: . é?! Então você já veio aqui antes.Eu não. contrapondo-se ao espelho. espiou a casa durante vários dias.O que é isso. desvendou a disposição dos quartos. alguém pode te ver! .Teus patrões dormem cedo. enquanto servia o café a cozinheira interrogou: . portanto. Pensou e calou-se. Cacilda.Nunca te viram. nu. Nunca me viram. abre a porta do quartinho e. indicou o que deveriam apanhar e ainda trouxe o carro roubado. a Sonâmbula fritou ovos na cozinha durante a noite. . retira da gaveta da penteadeira o estojo de maquiagem. começa a se pintar no escuro. A coisa ficou por isso mesmo. não sei se de olhos fechados ou abertos. prerrogativa de quem levantou o serviço. Há algum tempo atrás.

Vamos embora. De acordo com as instruções do companheiro.Deu pra pegar alguma coisa? a a a a 251 . sabe que o melhor será subir pelo varandão e arrombar a grande porta envidraçada. Ele vai morrer. por isso não consegue dormir. A cozinheira reza para que o genro arrume um emprego melhor. a Ladrão é moço. saiu bem alimentado com as comidas trazidas pela sogra da casa dos patrões. tadinho. será? Ladrão não se assusta com a estátua. no meio das árvores. no gramado. Está cada vez pior. A cozinheira incomoda-se com aranhas. homem trabalhador mas sem sorte. meteu a mão numa aranhona caranguejeira que estava na maçaneta.Que que é isso? Que sangue é esse? . preto mas bom homem. Para que a filha não seja tão luxenta. já sabe que não tem alarme na casa. companheiro se assusta com o Ladrão pulando o muro de volta: . desta vez. para seu serviço de vigilante noturno. o ar só sai.a tampinha do frasco passou perfume nos sovacos. muito decotada. balançando as pernas que não alcançam o chão seboso. e com a faca começa a forçá-Ia. coisa fina. Tenta rezar para ver se dorme. respiração gorgolejante. e tem a coragem de dois cigarrinhos fumados há pouco. Pensa na última vez que veio pousar na casa da filha. meu pai! Meu querido paizinho! Vira de lado e continua a dormir. quase gente. Para que o netinho sare logo daquelas grosseiras que tem no rosto. ágil. Tem o quê? Doze anos? Sentado na cama da enfermaria. Susto tão grande que precisou tomar água com açúcar para se acalmar. no jardim. quando vê do lado de dentro no escuro um vulto branco quase como a estátua dojardim. não entra. parece que nem consegue mais respirar. olha e pensa no velho jardineiro deitado na cama ao lado. Esta noite. . quando foi abrir a porta no escuro para ir na privada. A velha mãe acorda agoniada e suspira: Ai. A cozinheira deitada ao lado da filha e do netinho na única cama genro já saiu faz tempo da meia-água não consegue pegar no sono. Ladrão experimenta a grande porta envidraçada. de dia. É apenas um menino. atrás da orelha e nos seios livres soltos cobertos pela camisola transparente. a sangue pegajoso escorre pelas suas pernas abertas. não implique tanto com o marido.

Deu crepe. Em seu sonho. Te pegaram? -Nada. apagar ela. Ela me olhando quieta e aí levanta a camisola. uma morenaça de camisola transparente.Não me põe em fria. Mas aí na hora do gozo ela me dá o maior grito. olha a tua roupa. Me assustei. se oferecendo..Abre essa porra de carro de uma vez! . Juntei ela ali de pé mesmo. _ Não quero ter nada a ver com essa história.Me dá um cigarro. Eu ia pular em cima.Senta no jornal senão suja tudo. Água oleosa. tomando conta de tudo.. entrando e saindo sem nunca se largar de dentro.. No sonho. quente.Você matou alguém? Deixou a faca lá? _ Não dá para acreditar.. mesmo no escuro deu para perceber que estava sem calcinha. pulei fora e corri. . aí a porta abre e me aparece uma puta duma mulher. um grito que veio assim como lá de dentro: Aaaaiiii . . penetrando seu corpo adentro. . viva. Matou alguém? . Me dá um cigarro. quente. a Sonâmbula se vê deitada na banheira e sente a água morna. quentura esponjosa que vai pegando forma. . vambora! _ Tá cheio de sangue na cara. Com ela ali o roubo já estava perdido mesmo.Você não vai acreditar.. Sabe como anda a minha barra com os home. carnosa. .E o sangue? Onde você arranjou essa sangueira toda? 252 . a Sonâmbula geme alto: Aaaaiiii . Tô lá na porta que você falou.

Mistério do menino morto .

o pai eu não cheguei a ver quando estive no sítio fotografando -. logo depois do primeiro beijo. Coisas tão desimportantes quanto o sonolento vôo de uma mosca na sala de aula. Ele morreu. Quando vi aquele menino.Ele tinha só cinco aninhos..Quando alguém está se afogando vê passar. achei o que eu estava precisando: o instantâneo de uma criança dando de comer aos gansos.. Eu disse: . Era uma mulher bonita. bonito. Sem explicação. Não temos nenhuma fotografia dele ... Fui muito feliz nessa foto. Disse isso como quem diz ele está bem.Obrigada .. O loirinho carregando braçadas de grandes folhas de couve e a gansaria toda correndo atrás e grasnando. Eu continuava sem saber o que falar. o menino sorrindo mas meio assustado. loiro de olhinhos vivos bem azuis. Ela não: .. E não é só quem morre afogado. por isso mesmo queremos a foto. Passou nem um mês e a mãe dele vem me procurar . toda a sua vida. Eu não sabia o que dizer. rapidamente como num filme. cercado pelos gansos brancos de longos pescoços. Em poucas horas estava morto. imagens sempre revividas como o lento entreabrir dos ofegantes lábios úmidos da mulher amada ao dizer eu te amo..Foi três dias depois que o senhor esteve lá fotografando.Mas como? Ele . . quase maiores do que ele. bem nítida.. . 255 . Deu uma bela foto. tudo é lembrado. nunca sei nessas horas. A mulher ficou esperando que eu dissesse alguma coisa. de cores brilhantes: em primeiro plano. imagens de toda uma vida no instante mesmo da morte: não se esquece jamais e não importa mais. usava métodos próprios muito eficientes. Quem sabe o que pensa uma mãe? . ela queria uma foto: . Eram gansos. Foi de meningite. meio judiada mas ainda inteira. o avô dele tinha uma criação bem-sucedida.. da hora da saída do ventre materno ao indesejado instante final.Meus pêsames. deu assim de repente. imagens já nem pensadas mais ou nunca registradas pela memória. nunca pensamos em mandar tirar. dizem que nos segundos que antecedem a morte o mundo todo vê sua vida passar. Fotografei o menino quando ele ainda estava vivo.Deve ter ficado bem bonita.

responde o vendedor.na hora da morte? E será que tudo passou com o mesmo peso de tempo? A dor forte na nuca . para ele devia ser atrás do pescoço. a alegria assustada de dar comida aos gansos durou o mesmo tempo da imagem sem contornos. reflexos dourados do sol. Depois a mãe esticava bem o braço. a bolinha azul brilhando lá longe. Já iam carregando com ele para o cemitério. teve a mesma duração daquela manhã dourada? Quando ele. naquela manhã de verão. a mãe rodava nos dedos uma bolinha de vidro azul e encostava nos olhinhos do menino. aí passa um homem vendendo banana. Olha como ficou bonita: 816 357 492 Antes de mandar entregar. pergunta o preguiçoso Malazartes lá do caixão. No que ele estava pensando quando morreu? Será que é igual a gente grande? Será que também repassou a vida dele . é claro.vidinha curta . então ele via o mundo através do azul luminoso girante. Lembrou o menino daquela história do Pedra Malazartes que a mãe contou então? Aquela do Malazartes que de preguiça não comia nada e estava morrendo de fome. A parte da dor. "Está descascada?". eu ficava olhando a foto: coitado do guri.Fiz a ampliação e mandei. Na hora da morte o menino riu novamente dessa história? Na relembrança. da febre alta. aninhado na cama materna. "Não tá não". nem cobrei nada. e Malazartes ordena: "Então toca o enterro!". da emoção indefinÍvel da256 .palavra que talvez uma criança de cinco anos nem saiba dizer.

mas quero ver uma vez mais o gemido que escapou dos seus lábios entreabertos. eu dirigindo? Ou na longa dor da desagregação do corpo. o mesmo corpo. 257 . Como será? Vai acontecer rapidamente num desastre de carro. um espaço infinito no tempo da minha vida: como se fosse sempre assim e assim sempre será. perdida e nunca mais achada? Difícil dizer. o menino ficou sabendo onde é que foi parar a bolinha de borracha vermelha.apontava as estrelas. No relembrar. E que lembranças vou reter na minha hora? Talvez então me venham com clareza momentos passados desapercebidos da primeira vez que tive você nos meus braços. o prazer que você me dá? Você já existia quando eu nem conhecia você? Quando o menino via o mundo no alumbramento azul da bolinha de vidro nas mãos da mãe. Não que eu tenha esquecido cada instante. ouvir o cheiro doce que se espalha de seu prazer. sentir a cor do seu corpo colado no meu pela gosma do seu gozo. E você desaparecerá comigo para todo o sempre. acabamos de fazer amor. contava coisas da lua de São Jorge brilhante lá longe no negro céu azul do sonho? No repassar de sua vida. É este o sentido da minha vida. as imagens da minha vida desfilarem nos meus olhos. E será bom lembrar. quando a moça de cabelo preto quem era ela? . Nossos corpos colados.quela noite na varanda ao luar. comecei a pensar na minha própria morte. a podridão em vida. Nem água ele agüentava mais tomar. você diz todas as letras do meu nome (como se chamava o menino morto?) e eu sinto a extensão do prazer. Só saberei de fato quando. você já existia? Ou seria amarela e não azul? Não sei. na hora da minha morte. como a lenta agonia de meu pai? O câncer roendo pedaços dos lábios dele que iam soltando quando se passava algodão molhado para mitigar sua sede. Na morte o menino levou a memória junto. será que experimentarei outras vezes o prazer que tantas vezes sinto no seu corpo? Então o estar morrendo valerá a pena? Agora você está ao meu lado. Não pude evitar. como num filme.

() mistério do gato preto e da gata gorda .

já nasce com o destino traçado. Não que ela fosse peluda. espalhados. Os bicos róseos dos seios dela são rodeados de parcos pêlos pretos. Antes de vê-Ia nua eu imaginava que teria uma vasta pentelheira de pêlos compridos espalhados em várias direções. por exemplo . a outra foi uma namorada que tive quando garotão. uma francesinha. igual a qualquer outro animal. Disfarçados como eles só. Mais do que as dos homens. inventava mil pretextos. queria se entregar a mim .preto e amarelo. Porém. gatos não. Foi a segunda mulher que conheci com pêlos no peito. querem agrado mas fingem não querer. Ao contrário do homem. os gatos sabem ver o que se esconde no negror da noite. Coisas da raça. A primeira coisa que chama a atenção nela são os cabelos cortados bem curtinhos. fininhos. e eu brincava: "Parece um hominho". No cangote. gatos não. esparsos. escondia o que sentia.e como queria . firme. Gatos com pêlos de uma ou duas cores . Não era a palavra que mais saía de sua boca. Alguns animais têm pêlos ásperos. curtos. um rabinho como o de um gatinho. a Danielle. Cara branca redonda como a de uma gata. Mais do que os homens. com grandes olhos bem pretos. se os pêlos tiverem três cores só podem ser fêmeas. a luz estava apagada e eu pensei que eram do cobertor lanhudo . dizia mil coisas: ''Você é um louco!". Ela também era assim. Gatos costumam ser altivos por natureza. as coisas têm de ser do jeito que eles determinam.mas não dava o braço a torcer.tanto podem ser machos como fêmeas. pêlos macios. as pupilas dos gatos se dilatam no escuro. A noite é território dos gatos. mil desculpas.fazia bastante frio naquela noite. o gato. uma mecha mais comprida descendo um pouquinho pelo pescoço. Só gatas tem pêlos de três cores. como vi em outras mulheres. os negros olhos dela são redondos como olhos de gato. seus pêlos são bem macios. porém tinha pêlos bem pretos espalhados pelo corpo bem branco. Da primeira vez que os beijei. Vida sem surpresas. bem redondos. Debaixo das grossas sobrancelhas pretas. lisos. como que para ver no escuro. que chupei. 261 . Não é qualquer pessoa que consegue lidar com gatos. e correm todos na mesma direção. não se entregam fácil.Eu sou um homem.

se oferecendo para agrados. nossas gosmas se colavam. Na hora de beijá-Ia. Na coxa macia de pele branca. eu a chamava de gatona gorda. sensível. ficava a marca dos meus dentes bastante tempo. eu mordia as coxas dela no meio das pernas. estriados. entregue. Eu sentia um grande prazer em morder as coxas dela e vê-Ia renegar o gozo que fingia não sentir. Buço ralo que mesmo assim ela descoloria. Mulher que não se entrega. disse que fazia isso para ficar mais tempo com o meu cheiro no corpo. Minha gatona gorda. parecia que ela gozava muitas vezes o mesmo gozo. eu revirava seus pentelhos. quando meu sexo estava dentro dela e quando.Que nada! Era uma pequena moita de poucos pêlos curtos bem macios correndo em direção à sua fenda. ela fingia que não estava gostando. vaidosa que é. empurrava minha cabeça. Como gata no cio. não sou gorda e não sou tua! E de raiva enfiava fundo as unhas nas minhas costas. pela palma da mão. empurrava. A primeira parte do corpo dela que toquei foram os cabelos curtos bem pretos. depois amarela. irritado mas sem coragem de se libertar. primeiro roxa depois preta. no gozo. quando minha língua acariciava seu sexo. às vezes tirava sangue. Numa das poucas vezes que falou coisas carinhosas para mim. mas fingia raiva. Eu também mantinha o 262 . puxava de volta. Fingindo vingança. Na hora do gozo ela exalava um cheiro tão bom. quando sugava seus seios. puxava de volta. na cama. O único lugar onde você pode acariciar um gato no contrapelo é a barriga. e somente quando estão deitados de dorso. eu gostava de passar minha língua no pequeno buço que encimava seus rosados lábios carnudos. eu sei. disfarçada. perto do sexo. Ela ficava louca de raiva quando. e nada de carnes moles. Gatos não gostam que a gente revire o pêlo deles. cheiro de limão e suor quente. O gato fica sem ação. era rechonchuda. com os dentes. Aquilo doía de gozo. ela se vestia sem se lavar. Acariciei ao contrário do sentido em que eles corriam. Depois de fazer amor. Parecia estar gozando quando eu beijava sua boca. Só tem um jeito da gente dominar um gato: acariciar forte a espinha dele na região entre as omoplatas nas patas dianteiras. Eu não sou gata. Ela sentia grande prazer com isso. pêlos quentes. E era tão bom! Como acariciar um gato. Não era gorda. dengosos. gato preto. rija debaixo da pele branca como nunca vi igual. Com os dedos. O desejo me corria pela ponta dos dedos.

cheiro do gozo dela comigo. vêm como se fossem para outra direção. mas é um gemido arrastado com gosto de sangue que desce pela minha garganta. nem de falar coisas de amor. A morte toma conta de mim. Com as duas mãos empurrando a faca. Não sentirei mais o cheiro da mulher amada e não tenho querer. os pêlos das narinas cobertos de uma poeira esbranquiçada. Antes de você só tive o meu marido e com ele eu nunca senti nada". Soltei um grito fraco da dor rasgada que senti. e ela me amava. ela me apertou forte e disse: "Eu nunca tinha gozado antes. com uma orla enegrada. Quando se entregam. Gatos são animais estranhos. O sangue mancha a mim e a ela. Mas se deixam ficar e sonham sonhos bem quentinhos. A respiração abandona meus pulmões secos. Meu coração pára de bater. De dor abro a boca para engolir o ar. pode reparar. na cama. mas também não era de mentir. Meus lábios pendem. Levantou-se da cama e eu continuei deitado pensando no que ela tinha dito. Ela veio com uma faca e enfiou na minha barriga com toda a força que tinha. como se ali não estivessem ou não quisessem estar. Um dia. Sobre eles se cria como que uma tela viscosa. Desvencilhou-se dos meus braços e beijou meu sexo. 263 . depois de fazer amor. quebradiça. eu nada vejo. o calor do meu corpo se esvai para sempre. Imóvel. fica desagradável ao tato: mas quem vai querer me tocar? Pelo sangue escorrido. perdem o brilho. Você foi o primeiro homem que me fez gozar. ao lado da minha mulher dormindo. se fosse verdade eu amava aquela mulher. Eu não sabia o que pensar. Não consigo me mexer. manchas negras cobrem minha pele. não gostam de mostrar dependência. O sangue não circula mais nas minhas veias. De noite. a boca se abre e não se fechará mais. nem as mãos eu lavava. se instalam no nosso colo. Meu rosto toma a forma da morte: olhos cavos. estávamos abraçados. não nos olham nos olhos. elajoga o peso do corpo sobre mim e a faca penetra mais fundo. chegam de mansinho. Minha pele seca e toma a cor cinza. minha voz não se fará ouvir e eu nada escutarei. Não sinto mais a dor. à espera de quem venha fechá-Ios. abertos. As marcas do cadáver: meu nariz torna-se mais pontiagudo do que era. eu ainda sentia o cheiro do prazer da minha gata gorda. ela não era de fazer confidências.

Os músculos começam a enrijecer. Meu cérebro não pensa mais. o nada nada ada da a 264 . Pensa no nada. o que vaI dificultar quando forem vestir meu corpo.

.macaco Como tudo comecou • .() misterioso homem .

nisso até se parece com gente. Ao cão não incomodavam por causa do pêlo. que refrigério! Me sento num toco e vou tirando a garrafa do bornal. Não adiantava espantar as bichinhas. Se um errasse o salto. fechada. máscara preta cobrindo minha cara e fazendo aumentar o calor sentido. iam caminhando pelo galho pelado da peroba bem até a pontinha. e dali um de cada vez dava um salto. prestimoso que era. Coisa até interessante de se ver. bom veadeiro. musculosa. também não arredavam dali. Mais de uma vez tive de atorar cipó com o facão para beber a água de dentro dele e dar para o cão. também eu suava. camisa molhada grudada no corpo. um deles apanhava o companheiro no ar e. que não usava barba naquele tempo. de donde seguiam caminho. sombreada pelas copas de muitas árvores tapadoras. ou se o outro não o agarrasse em tempo. ele caía e ia se esborrachar no chão lá embaixo. mas em mim. tirando dele alimento para fazer seu mel azedo. Meu rosto preto daquelas abelhinhas miúdas. Já ia por volta das desoras e eu ainda não tinha caçado nada. a língua do Divino sempre de fora. braços levantados. também pendurado o bornal com os cartuchos dos dois calibres. me cobriam a cara sugando meu suor pegajoso. 267 . Não sou chegado a carne de macaco. quando ouço uns guinchos ardidos. pretas que nem mosca. Bicho danado de engenhoso. se não picavam. até o ipê. Era um bando de macacos que. Mata escura. acho muito seca. faziam a travessia de uma peroba para um ipê vizinho. balangando-o. mas como eu não tinha comido nada até aquela hora. De vez em quando puxava o facão da bainha presa na cinta para abrir caminho na mata densa. a garrafa com café adoçado e pão de milho para mim e o Divino.Eu ia sozinho cantando: Ta-tu Peba Tatu Pe-reba Ta-tu bola Tatu en-rola ~ i Eu ia sozinho mais o cão. Pendurado pelo rabo num galho mais alto do ipê. sabor azedo. Calorão da mata. de raro deixando entrever uma nesga de céu muito azul sem nuvens. o macaco. Segurava uma 28 de chumbo e nas costas uma Winchester 22. mas também de muita serventia para outras caças. lá no alto. Depois de muito andar chego numa clareira. tanta a sede de nós dois. atirava-o são e salvo num galhão grosso do ipê.

catei a Winchester e me levanteijá apontando para o alto. Divino nem reparou na cena, entretido que estava com o seu descanso. Cachorro é bicho mais preocupado com as coisas da terra, o que se passa lá em cima não lhe interessa, senão já estaria latindo feito um condenado. Já o macaco, lá no alto, sempre se preocupa com aquilo que se passa no chão. Quando apontei a arma quase todos já tinham passado, sobrava só um retardatário no galho da peroba. Aquele outro que estava pendurado pelo rabo no ipê, quando me viu, num átimo pulou para o meio das folhagens e sumiu da minha vista. Mirei então o retardatário, sem o companheiro que fugira não tinha como pular para o ipê. No comprido galho onde estava não tinha ramagem para se esconder, e o tempo era pouco para ele correr até um lugar mais coberto: eu atirava antes. O que fez ele quando se viu perdido? Se meteu a gritar e pular de desespero. Não morreu ali na hora porque não atirei logo, me distraí, rindo que estava de suas macaquices. Quando o bicho se tocou de que eu ia mesmo atirar, pegou das costas um macaquinho bem pequeninho e o levantou nos braços para me mostrar. Vi logo que era uma fêmea com sua cria recém-nascida. Gritou, se ajoelhou e se pôs a chorar - macaco é quase como gente -, uma mãe me pedindo para eu não matar seu filho. A gente faz muita maldade na vida, e na hora não percebe. Eu, ali, fiz uma que fui pagar bem caro depois, caro demais. Mas na ocasião não pensei em nada, e dei com o dedo no gatilho da Winchester, Bang. O que voou de pássaro com o barulho! Tiro certeiro: a macaca despencou lá de cima - queda demorada de tão alta - e veio se estatelar no chão da clareira. Só então o Divino se deu conta e correu latindo para a caça estendida, morta. Corri junto, queria ver. Cheguei antes, e foi bom porque salvei a presa que o cão ia comer. Coisas de mãe que só Deus explica: não é que mesmo morta a macaca deu um jeito de proteger a cria?! Ela caiu segurando o filho e, quando bateram no chão, o corpo dela amorteceu a queda. Morreu bem mortinha, mas salvou o filho. Quando percebi que o cão, nervoso, rosnando, ia abocanhar o filhote, dei um pontapé no focinho, Passa, Divino!, e protegi o bichinho com as minhas mãos. O cão perdeu o filho mas ganhou a mãe, e aí abriu a bocarra e, numa sentada, devorou o cadáver morto da macaca, só deixou pele peluda e osso grande, o resto mandou para as tripas e ainda ficou lambendo o sangue do chão.
268

tremia e chorava nas minhas mãos. Magrinho e miudinho, pensei, mas vai me servir de janta. Coloquei o bichinho dentro do bornal e com o calorzinho ele parou de tremer, aos poucos se acalmou, acho que até dormiu quieto, esquecido da morte da mãe. E eu peguei o caminho de casa. Na volta perdi o Divino. Caminhou uns tempos ao meu lado, normal, depois parou e devolveu tudo o que tinha comido, vômito verde, fedido. Aí passou a caminhar inquieto, parando a toda hora para se mijar, sem levantar a pata, que nem uma cadela. Todo nervoso, começou a latir e a correr em roda tentando morder o próprio rabo. De repente, deu uma guinada e disparou ganindo, e sumiu no mato. Chamei, chamei, mas ele não voltou; ainda pensei em correr atrás dele, mas a mata era muito fechada e desisti. Nessa hora o macaquinho pôs a cabecinha para fora do bornal e espiou, olhinhos bem abertos, a mim me pareceu que ele até estava dando risada. Percebi então que a queda não o tinha afetado. Chegado ao rancho, contei a caçada pra minha mulher e mostrei o macaquinho. Seu malvado, ela me repreendeu. Isso não é coisa de cristão fazer. Achou bonito o bichinho: Tadinho, deve estar com fome, o pequeno órfão!. E se tomou de dores pelo macaquinho. Foi tirar leite da cabra, e de um vidrinho com um chumaço de pano no gargalo aprontou uma mamadeira. O danadinho se achou! Era até bonito de ver aquele toquinho feioso, agarrado aos peitões da minha mulher, tomando seu leitinho adoçado com rapadura, chupando a mamadeira. E como mamava, o desgraçadinho! Não havia leite que chegasse. Não fosse, um dia depois, o cabritinho ter morrido de picada de cobra, não sei se a cabra ia ter leite suficiente para o sustento dos dois. Mamava tanto que dali a uns dias já estava forte e grandinho. Não sei se foi pelo leite de cabra, mais forte do que o leite da macaca sua mãe, ou se foi pelo fortume do açúcar de rapadura, só sei que lhe caiu quase todo o pêlo, deixando à vista sua pele enrugadinha, parda, mosqueada. E daí ficou ainda mais parecido com gente humana. Minha mulher andava com ele para cima e para baixo, se tomou de amores pelo bichinho. Não largava dele nem para cozinhar, enquanto segurava o danadinho com uma das mãos, mexia nas panelas com a outra. Para cuidar da criação e trabalhar na roça, levava o macaquinho atado nas costas. Ele bem que gostava, ficava o tempo todo agarrado à minha mulher, como se ela fosse a mãe dele, a falecida. Dormia na nossa cama, os dois abraçados como mãe e filho.
269

o macaquinho

Tinha um pintão enorme, cabeça de prego, e para esconder essa vergonha minha mulher até fez umas fraldas, que trocava sempre que molhadas. Era muito dengue para uma criaturinha da mata, mas eu não ligava. Nossa filha já andava com doze anos, viçosa, bonita, carregava as tristezas próprias da idade, vivia ensimesmada, já não era companhia para a mãe. Nosso filho, Pedro, naquele tempo andava buscando ganhar a vida na cidade e quase nunca vinha nos visitar. Mulher é bicho diferente, tem suas coisas, suas manias, e desde que não incomode os outros o melhor é deixar. O carinho dela pelo macaquinho não perturbava ninguém, nem a mim nem à nossa filha. Se isso trazia alegria para ela, se diminuía sua solitude naquele rancho perdido no meio do mato, por que se incomodar, se existem tantas outras coisas para a gente se preocupar nesta vida que Deus nos deu?
Não é mesmo?

Assim foi indo até aquela noite da tempestade. Foi logo depois da janta,já muito escuro começou um vento forte, assobiador, e despencou uma chuvarada forte como nunca se viu antes, um verdadeiro dilúvio. Um frio úmido começou tão de repente que tive que me enrolar no cobertor. Era um relâmpago atrás do outro. A mulher queimou as palmas bentas e rezava assustada para Santa Bárbara. A menina tinha pavor de raio, se abraçou a mim fechando os olhos contra o meu peito, e assim ficou. Só o macaquinho parecia não se incomodar com o temporal, dormia o sono dos justos bem grudadinho na minha mulher. Foi a noite do cão. O medo não deixava ninguém dormir, nem sei como as águas não levaram embora o meu rancho, as horas foram passando e nada da chuva querer diminuir. Até que se deu o acontecido: na madrugada, nós três ainda acordados, assustados, molhados até os ossos pela chuva que caía pelos buracos do teto, e não é que de repente o macaquinho acorda, abre os olhinhos, se levanta, caminhando vai até o fogão, risca um fósforo e acende a lamparina? Na hora até que a gente não estranhou esse seu ato. Afinal, macaco é bicho esperto, achamos que o que ele fez não tinha sido nada mais do que imitar um gesto que tantas vezes nos viu fazer. O de causar espanto era ver a chama da lamparina, que, naquela ventania toda, se mantinha reta, firme, bem luminosa. O macaquinho veio se chegando perto de nós trazendo a lamparina acesa, nos olhos, bem nos olhos, e falou com um vozelrao grosso: - Eu me chamo João da Silva! Cruz credo, Ave Maria, te esconjuro! Já vi muito animal inteligente,
270

mas nunca dantes nem eu, nem ninguém, viu bicho falar, ainda mais macaco. Foi um susto só: a menina começou a chorar de medo, o queixo da mulher caiu lá embaixo, os olhos arregalados, nem sei se de espanto ou terror. - Eu me chamo João da Silva! Dito isso, tirou o pinto para fora da fralda e, rindo de gargalhar, mijou quase ao pé da gente no chão de terra batida, mijou tão forte que abriu um buracão. No exato momento da mijada, caiu um raio tão forte, tão estrondoso que alumiou o mundo todo. Tão forte que a noite clareou como dia e derrubou o flamboyant que meu avô plantara na frente do rancho, queimando num fogo que nem a chuva conseguiu apagar, aquilo que talvez fosse a única beleza daquela terra. Eu me chamo João da Silva... foi assim que tudo começou. Foi nessa noite amaldiçoada que ele se revelou, que se fez homem aquele macaco amaldiçoado que em maldita hora eu fui trazer para dentro da minha casa. Esse macaco que fez o padre enlouquecer no dia do seu batizado. Que na escola onde foi aprender as primeiras letras atazanou tanto a professorinha que ela, coitada, abortou. Esse macaco que sempre tratei como filho e que abusou da inocência da minha filha, sua enteada, e fez mal para ela, matando minha mulher de desgosto. Que, com suas artimanhas diabólicas, fez meu filho Pedra pagar por ele, até hoje cumprindo pena na cadeia por um crime que o macaco cometeu. Que de tanto me judiar, me transformou no velho aleijado que hoje eu sou. Tanta sacanagem, tanta maldade, tanta coisa ruim esse João da Silva fez, e ainda faz em suas andanças pelo mundo, que se eu fosse contar levava a vida inteira e ainda não chegava ao fim. Não gosto nem de lembrar dos crimes hediondos que esse ser maligno cometeu. Mas, se você não tiver medo de ouvir e, para se precaver, quiser saber de toda a verdade sobre esse homem-macaco, um dia eu me armo de coragem e te conto tudo.

271

Mistério
~

maglco

.

damas. valetes . Somente algum tempo depois é que os espectadores começaram a bater palmas assombrados: Eu via um sete e ele se transformou num rei. do nada. vão surgindo outras cartas que ele vai atirando: noves. Cartas de todos os naipes. de surpresa e espanto e mesmo alguns risos nervosos. na frente dos meus olhos!. e atira-o em direção das mesas onde estão os espectadores sentados... três. O Mágico domina sua platéia e não lhe dá folga para pensar. reis. setes.Olhem fixamente esta carta! Viram bem? É um sete de paus! Correto? Errado! É um rei de ouros. Da ponta de seus dedos. num gesto rápido desvira o Rei de Ouros. Óóóós 275 . que tem seguro pelo polegar e o indicador.

algumas velhas. de onde as cartas surgem do nada. mais elegante que muitos dos espectadores em seus smokings.. personalidades do mundo das artes. outras ao lado dos amantes. Na obscuridade. o traçado do rosto. justa no corpo. toalhas de linho. rosto anguloso. O chão do pequeno palco e parte do salão onde estão as mesas se cobrem de cartas: setes. sem os sapatos de salto alto bem fino.. loiro natural. formando um pequeno bico no meio da testa. pele sem nódoas. fazem dela a mulher mais formosa no salão. abotoaduras de ouro maciço. As luzes de cena criam uma aura branca brilhante em torno da figura esguia do Mágico e ofuscam a vista dos espectadores enlevados. "Caravan" de Duke Ellington. embaixadores. Talvez. oficiais das três armas. Que idade terá ela?. damas de caridade.. algumas com luvas. coberta de jóias douradas como o ouro do seu cabelo comprido solto. Talvez se iguale em beleza às mulheres que a invejam. Figuras da sociedade. algumas cobertas de peles legítimas. surpresos. Cortina preta brilhante ao fundo do pequeno palco. bigodinho preto bemcuidado. nem tão formosa. Impecavelmente vestido em sua casaca preta brilhante. pernas longas.. industriais. peitilho engomado liso branco brilhante. a boca carnuda bem traçada coberta de batom vermelho. nem tão moça. debutantes. Enquanto as palmas ainda ecoam pelo número das cartas. a odalisca traz um grande aquário redondo e o coloca sobre a mesinha de 276 . três. membros do governo . de roupa comum. gravata-borboleta do mesmo cetim preto brilhante da lapela. talvez não seja tão alta. As brilhantes luzes do palco em seu corpo bem torneado quase despido na fantasia de odalisca. que assistem ao espetáculo nas mesas do salão. meias pretas de seda. fora das luzes brilhantes do palco. a maquiagem acentuada. todas em seus vestidos de noite decotados.o Mágico domina. O pianista tenta acelerar a música que toca. encantados. reis . cabelos pretos bem curtos esticados por brilhantina. esbelto. summers e uniformes de gala. algumas com chapéus. algumas ao lado dos parentes. Umas ao lado dos maridos. o rosto branco cortado em cima dos lábios por um bigodinho reto preto. para colocá-Ia no ritmo em que as cartas vão surgindo das mãos do Mágico: cravo branco na lapela de cetim da casaca preta brilhante. sapatos pretos de verniz brilhante. Algumas moças. olhos fixos na ponta dos seus dedos. algumas mulheres ousam desviar os olhos da ponta dos dedos do Mágico para se fixar na assistente vestida de odalisca. O palco em semicírculo é uma pequena elevação ao fundo do salão. a pergunta mais perguntada. o porte esbelto.

aproveitam para servir champanhe francês trazido em baldes de metal branco brilhante e. com medo de se molhar: o Mágico tem nas mãos apenas o pano preto decorado com estrelas e meias-luas prateadas. no centro do palco. litros de uísque escocês e sifões em garrafas bojudas de vidro opaco. Pela frente. garçons solícitos. Depois do susto. todos jogam o corpo para trás. o aquário desapareceu. lacrando-a com um cadeado dourado cuja chave guarda no bolso. com muito cuidado para não entornar a água do aquário coberto. em suas calças pretas paletós brancos gravatas-borboleta vermelhas. decorado com aplicações de meias-luas e estrelas de lantejoulas prateadas. Caminha lento para a platéia. O Mágico faz gestos ondulantes com sua vare ta fina preta. trançado com finos fios de metal prateado. enquanto o Mágico cobre o aquário com um pano preto brilhante. o Mágico abre a caixa puxando uma tampa presa por dobradiças na parte de cima. as palmas da platéia. com o Mandrake do gibi! 277 . Com o susto. O Filho do Presidente comenta com um rapaz que está ao seu lado: Já sei com quem ele se parece. e. caudas transparentes douradas. Na pequena pausa. fecha-a e passa em volta uma corrente de metal dourado. Ajuda a assistente a subir e a entrar agachada na caixa. para algumas mesas. ainda em meio às palmas a bela assistente loira vestida de odalisca traz sobre uma mesinha com rodas uma grande caixa dourada. intranqüilos na água agitada do grande aquário redondo. subitamente. entrega-a para a assistente e com as mãos suspende o aquário envolto com o pano preto. num gesto brusco atira a forma do aquário que tem nas mãos em direção aos espectadores. O Mágico não dá tempo para a platéia respirar. Depois. Três peixes dourados de longas barbatanas.longos pés de metal brilhante.

já estará morta rasgada por seis pontudas lâminas afiadas. e entre exclamações de admiração. olha horrorizado para sua mão manchada de sangue e. o Mágico mostra a sua mão também limpa. Percebendo a agitação. o Mágico vai para a frente da caixa dourada e. três. Toma a chave dourada do bolso.já vem suja de sangue vermelho pegajoso quente. sem saber o que fazer. a caixa está toda transpassada. joga para cima sete véus de tule de sete cores e corta-os ainda no ar. que estaria vazia não fosse um véu azul transparente caído no chão. O Mágico. a Modelo de Capa de Revista ouve e não entende a piada. não vê o sangue que começa a escorrer através do buraco aberto pela espada: é pelo burburinho da platéia assustada que ele percebe que alguma coisa saiu errada no truque. estrugem palmas que 278 . Alguns gestos circulares com a vare ta mágica. abre rápido o cadeado. Incapaz de esboçar qualquer reação. Antes. com elas. A platéia compreende tudo. e quando ele puxa o véu azul a admiração é geral: a mancha de sangue desapareceu como por encanto ante os olhos de todos. voltando ligeiro para o palco. o Mágico retorna rápido para a platéia e põe o véu azul sobre a mancha de sangue no peitilho da camisa do Filho do Presidente. de sua camisa. Nem o rapaz nem seus guarda-costas sabem como reagir. que se acha atrás da caixa dourada. toca com a mão direita no sangue. com cuidado e muita força. retira a corrente e abre a caixa dourada. A música parou. fazendo as pontas saírem do outro lado. assustado. Uma. mas como ele fez isso?. resto da fantasia da odalisca. que agora corre abundantemente. É o próprio Mágico quem resolve a situação. transpassa a caixa dourada onde está presa sua assistente. Se a assistente ainda está lá dentro. enfia as espadas na caixa. o Mágico choca-se com o Filho do Presidente. dirige-se com passos inseguros para a platéia. deixando impressa uma mão de sangue no peitilho branco. duas. A música recomeça. Quando a ponta da sétimla espada surge na frente da caixa dourada. o pianista também se levanta para ver o que está acontecendo.Ao lado do Filho do Presidente. foi apenas mais um truque. O Mágico agora segura sete espadas brilhantes e. quatro. Em seu andar cego. Alguns espectadores nervosos se levantam e procuram chegar mais perto do palco. impecavelmente gomado. para mostrar que as espadas estão bem afiadas. que agora está toda em pé. cinco. Sorrindo. seis. Chegou a vez da sétima espada. como um autômato.

tem que ser a do camarim onde a assistente está viva. para em seguida recolher-se aos bastidores. aspira cocaína. aquela que o levará aos braços da assistente. O comentário geral é sobre as habilidades do Mágico. qual das portas abrir. Outra. 2. entre eles o Filho do Presidente com a Modelo. qualquer uma das outras o conduzirá à prisão e à morte. Foi vista pela última vez quando entrou na caixa dourada e se pôs de cócoras. que entrará em cena logo mais. o preço que terá de pagar por não ter sabido usar com sabedoria seus poderes mágicos. sabe que tem que abrir uma única porta mas não sabe qual. é a do camarim onde o cantor francês. Não posso reveláIa porque fere a ética . todos do lado direito. sabe qual a porta certa? É uma mágica.3 e 3A. e somente uma pode ser aberta. quando aberta. Porém. Alguns pares se encaminham para dançar na pequena pista. O Mágico está parado no início do corredor. os garçons retomam o serviço trazendo bebidas. o conjunto musical assume rapidamente seu lugar no palco e começa a tocar música de dança. o Mágico hesita diante de qual porta abrir. todos com uma estrela dourada na porta e identificados pelos números 1. mostrará a assistente de roupão. No corredor. nunca ninguém havia visto truques tão assombrosos. onde há quatro camarins. comentarem a repercussão do show. e ele terá de prestar contas àjustiça pelo assassinato. esperando a volta do Mágico para. estendida num pequeno tapete azul. depois de um prolongado beijo. Uma delas se encontra chaveada. ninguém notou que a assistente vestida de odalisca não reapareceu para agradecer os aplausos. Finalmente. Aberta.o Mágico agradece curvando-se num gesto de humildade. abrindose a última porta encontra-se a assistente ainda vestida de odalisca. morta ensangüentada pelas catorze perfurações por onde entraram e saíram as pontas das setes espadas. à sua espera. Iguais são as portas com a estrela dourada.é vedado a um mágico revelar seus truques. Ele precisa saber. Outra fecha um camarim às escuras que não será usado esta noite. O Mágico dirige-se agora para o corredor no fundo do palco. diferenciadas apenas pelos números de 1 a 3A . Ele hesita. Os espectadores sentam-se novamente. E você. sua companheira de mesa. Qualquer uma das três outras que abrir e o truque não terá dado certo. com certeza. pois prejudicaria os colegas: que graça teria um truque que já se sabe como foi feito? 279 . enquanto o Mágico fechava a tampa.

a 2. Fiz questão de dar indicações para que você percebesse. 280 . eu passei a você todas as informações para abrir a porta certa: a 1. onde está a chave do segredo. escolha. claramente. abra. executei o truque bem devagar. você tem todas as condições de abrir a porta certa: pense.Ao executar a mágica destas páginas. Vamos. É um truque entre eu e você. De minha parte. com exagerado excesso de detalhes. bem à sua vista. a 3 ou a 3A. A da vida ou a da morte? Você tem que saber.

Um mistério .A cadeira do diaho .

em 1887? 283 . meio voltada para a platéia. espadas e punhais remontadas por um elmo. alambiques. se interessar por um mistério levantado pelo célebreAlexander Hermann (e. exorcismos e pentagramas desenhados. segundo alguns autores. papéis amarelecidos com encantamentos. alguém que vive nos dias de hoje. Mas como pode. num país preocupado com os terríveis problemas sociais pelos quais atravessamos. À esquerda. estofada de veludo vermelho. A cena representa um laboratório de alquimista. pelo não menos famoso Steward Chamberlain) em Portugal. na cidade do Porto. tratados de magia alquímica.Não vejo como isto possa interessar a você. Ao lado desse armário. provetas. À direita. uma panóplia com algumas armas brancas. pendurada na parede do fundo. retortas. filtros. esferas de vidro azul e outros utensílios mágicos. uma cadeira de espaldar com braços. um armário baixo de portas envidraçadas com muitos livros velhos encadernados.

para um angustiante problema de ordem pessoal que muito o aflige. de textos ligeiros. bordados a ouro. cerrada barba preta. rodeados por estrelas prateadas. O Alquimista. consegue ainda se concentrar e acompanhar longas orações que reportam feitos passados acontecidos com personagens inomináveis. que não encontrou até agora. Você não se inclui nesse caso. Homem de uns trinta anos. todos os planetas conhecidos até então. não é? 284 . abre a porta e faz o Visitante entrar. olhos pretos perscrutadores.Alguém bate à porta do gabinete. a cabeça calva coberta por comprida e cônica mitra. dos quais a história não guardou registro algum e que não têm interesse aparente para os dias atuais. àquele obscuro gabinete: a busca de uma resposta. vasta barba branca. o Visitante revela-lhe a causa que o traz ali. vestido com uma longa túnica azul cerúleo brilhante onde vemos. das que usavam os antigos sacerdotes caldeus. Não entendo como alguém acostumado comfrases curtas.

maliciosamente procura logo convencê-Io a descansar e assentar-se na cadeira estofada. o Alquimista. o Alquimista degola-o com uma aguçada espada que tomou da panóplia na parede.sabendo que o Visitante carrega nos bolsos uma grande quantidade de dinheiro. a fim de observar uma grandiosa e maravilhosa experiência científica que abrirá sua mente para a compreensão de arcanos herméticos que muito o ajudarão na solução dos problemas que o afligem. Tão logo o Visitante se acomoda na cadeira estofada. Estarão todos acostumados a escritores de vocabulário parco ou a jornais e revistas ilustradas com textos breves de palavras fáceis? Será difícil entender o significado de certas palavras usadas para descrever objetos de um mundo ao qual não se pertence? Uma ajuda: panóplias são aqueles escudos nos quais se colocam diferentes armas e com os quais se adornam as paredes. 285 .

contra o Alquimista. angustiada e revoltada.. líderes políticos. não sei como pode ainda se emocionar com uma sangrenta ocorrência entre um falso mago e seu ingênuo cliente. Nesse momento.Após a degolação. a voz irada da Cabeça Cortada roga pragas contra o criminoso Alquimista.. enquanto o ensangüentado corpo decapitado ainda perneia. É bom ressaltar que. antes de consumar o odioso crime. a toalha serviu para recolher o sangue derramado. 286 . o elmo. que também retirou da panóplia. homens de negócios.b Não sei como pode alguém. habituado a textos jornalísticos que exaltam personagens reais destes tempos de crise (povos em luta. o Alquimista toma a cabeça cortada e coloca-a em cima do armário baixo de portas envidraçadas e volta para revirar os bolsos e roubar o dinheiro do Visitante assassinado. . viseira cerrada. ) e acostumado a ver a imagem deles movendo-se nas telas da televisão ou fixada em fotos coloridas nos jornais e revistas de grande circulação. seu assassino e ladrão. chefes de Estado. a Cabeça Cortada põe-se a vociferar. artistas . cobriu a roupa do Visitante com uma grande toalha branca e colocou-lhe na cabeça um elmo medieval. acontecida há mais de um século num outro país. para marcar o lugar certo do corte e impedir a vítima de pressentir o golpe. De cima do armário. Na verdade. o Alquimista. sob o pretexto de protegê-Io das emanações dos produtos químicos utilizados na maravilhosa experiência que mostraria dali a instantes.

de súbito. o pano cai vagarosamente. quase sem forças. Ao ver a alegria feroz com que o assassino saboreia o êxito de sua criminosa aventura. a Cabeça Cortada. lábios roxos da morte.Alquimista arranca dos bolsos do ensangüentado decapitado notas e moedas de ouro. Enquanto isso. uma grande chama negra surge do chão. e. pele pálida graças à perda de sangue contrastando com a barba negra. numa estrondosa explosão de fumaça. ao som de sua estrepitosa gargalhada. abraçando-se ao Alquimista. Nela aparece um terrÍvel demônio com chifres. vestido com sua infernal roupa vermelha. exclama com voz rouquenha. 287 . de ódio: Que Satã te carregue para o mais negro dos infernos! o Nesse momento. some com ele pelo solo. vermelhos olhos abertos.

como ainda acrescentam às explicações respostas para os angustiantes problemas que afligem a humanidade. talvez espere que eu proceda de maneira semelhante aos autores de sua predileção. Não vou. editado em português por Lugand e Geneloux. de Gley. que não só explicam os acontecimentos com palavras claras. recomendar a leitura de A propos de Ia sugestion mentale. respectivamente em maio ejunho de 1884. Confesso que minhas capacidades não chegam aos pés desses autores. em 1888. Para o perfeito entendimento de A cadeira do Diabo. 288 . ambos editados pela Société de Biologie.Quem está acostumado a encontrar explicações científicas sobre o que leu. torna-se necessário: lº) Uma cadeira de espaldar cujas portas devem ser furadas da forma que se vê no desenho abaixo. segundo a dialética do pensamento dominante. de David de Castro.espero eu . ou Sur les mouvements musculaires inconscients en rapport les images. Pretendo. portanto. de Charles Richet.alguns problemas técnicos que expliquem os misteriosos fatos acontecidos entre o Alquimista e seu malfadado Visitante. por serem obras há muito esgotadas e. como se verá adiante. é claro. e nem mesmo A cadeira de Satã. resolver . de difícil aquisição nos dias de hoje. em poucas linhas. isto sim.

289 . A cadeira. a imitar o padrão do estofo geral. aCIma. a qual deve ser coberta por uma tênue tabuinha apenas suspensa pela extremidade superior e igualmente pintada à imitação do estofo. aparentemente. As costas da cadeira assim constituídas muito auxiliam o comparsa quando precisar ocultar a cabeça na cavidade. deve mostrar o aspecto do desenho 2º) Uma espada.Esta cadeira tem externamente as costas forradas de tecido elástico pintado.

a esquerda e a direita. em sua perfeição. semelhantes por natureza ou por artifício. e cujo gancho serve para engatar no bordo superior das costas da cadeira. 8º) Uma bela mulher alta de lindos cabelos cor de mel. para que ninguém veja a abertura e o gancho que tem atrás. caso se lhe traçasse uma linha reta ao meio de seu formoso corpo. tal como mostra o desenho. 6º) Dois homens parecidos (comparsas). 290 . Que tão exata seja que. e pele clara. seios bastos com bicos róseos. Este elmo deve ser sempre mostrado de frente. ralos pêlos púbicos num tão volumoso monte de Vênus que só se lhe possam acariciar com as duas mãos em concha.3º) Uma esponja embebida em tinta vermelha para simular sangue. olhos glaucos. boca carnuda. 9º) Um elmo aberto na parte de trás. 4º) Uma toalha branca grande. as duas partes. ancas anchas. 7º) Um terceiro homem para vestir a fantasia vermelha de diabo. fossem simétricas tanto que uma igual à outra seria. 5º) Pólvora seca. quando estiver ele enfiado na cabeça do visitante.

B c . em virtude da distância de quem o vê. ~ ···········__ ··--··r D ~ ~ 291 . ~-~ .•.~ ... desde o começo.) que as prateleiras contêm e da obscuridade reinante no gabinete do Alquimista. conforme planta reproduzida abaixo.. .....--/ •. O ângulo de espelhos reflete as prateleiras e os lados internos (K) do armário. esferas de metal etc. . retortas.... e não pode ser descoberto. um comparsa parecido com o visitante... pintados de negro de modo a manter ao olhar a ilusão de profundidade. dos muitos aparelhos (frascos... mas encerrando ao centro um ângulo de espelhos (g)../ A ....lOº) Um armário com portas envidraçadas (p) e aparência regular. que deixa na parte de trás (H) espaço folgado o suficiente para esconder.

encerrando o espetáculo. FIM E quanto ao sentido do que foi narrado. enfia a cabeça pelo alçapão apenas o Alquimista pousa o elmo ali. pelo alçapão do palco. Então.tal como o leitor já deve ter visto nas cerimônias de umbanda -. o Alquimista põe a mão esquerda na beira do elmo e aplica com a direita o golpe fatal. Batem à porta e entra o Visitante. ao "o que quer dizer isso?". e era uma vez o Visitante. cavernosamente lhe dirige. O Alquimista convence-o a se sentar na cadeira mecânica. É nesse instante que o comparsa que faz as vezes do Visitante se empurra contra o pano elástico da cadeira e enfia a cabeça pelo alçapão (cuja portinhola. imagina-se que a cabeça ainda está ali dentro. é de súbito horrorizado pelas ameaças que a cabeça. ZÁS!. enquanto o Visitante finge os estertores da morte. Escusado dizer que o segundo comparsa. que esguicha sobre a toalha como um jorro de sangue.Agora pratiquemos. e. o Alquimista está absorto em seus estudos necrológicos. As cortinas se fecham. tenho que deixar ao paciente leitor a tarefa de achar um sentido para a vida e a morte também dos personagens desta história. Em seguida. introduz-lhe na cabeça o elmo adrede preparado e estende a toalha sobre o corpo dele. o Alquimista atira a espada ensangüentada no chão e. Então. que talvez nem mesmo saiba o sentido do que escrevi. deixando-o visível apenas do pescoço (coberto pela toalha) para baixo: como o elmo está com a viseira cerrada. Eu. o Alquimista espreme a esponja. cerra a viseira e busca uma espada na panóplia de onde havia tirado o elmo. de cima do armário. Usando a mão esquerda. que já estava escondido dentro do armário. volta a ficar vertical). vai colocar o elmo em cima do armário. com gargalhadas sinistras. Quando sobe o pano. através da fumaça e das chamas provocadas pela explosão da pólvora seca . pelo seu peso. Junto ao cadáver decapitado. Em seguida. o terceiro comparsa fantasiado de demônio. o Alquimista. surge. exultando de contentamento com o dinheiro que roubou. à mensagem. É o fim de tudo. arrasta o Alquimista pelo mesmo alçapão. 292 . trêmulo.

.Um mistério no trem .f antasma .

ajovemJucélia Ramos. um dos grandes casos insolúveis de nossos arquivos policiais. de 16 anos de idade. até hoje. 19 de julho de 1969. a imprensa. 17 anos.o fato aconteceu na fria noite de sábado no Parque de Diversões Alvorada. o carrinho deixava o negro túnel trazendo apenas Astolfo Dagoda: sua companheira havia desaparecido misteriosamente durante o percurso."-' Retrato falado de Jucélia Ramos Voc~ conhece esta mo7a? 295 . . que realizou profundas investigações. seguindo exaustivamente todas as pistas levantadas. nem foi encontrada nenhuma explicação razoável para seu desaparecimento. embarcou no trem-fantasma em companhia de Astolfo Dagoda. particulares. Por volta das dez e quinze da noite. Além da polícia. na mesma noite em que o homem chegou na Lua.tiS. . ' ~'. constituindo o fato..4:'::_ . entidades estudiosas de fenômenos paranormais e segundo alguns o próprio Serviço de Informações do Exército estudaram o caso. não chegando a nenhuma conclusão . a quem conhecera naquela tarde no Passeio PÚblico. Jucélia Ramos nunca mais foi encontrada. . Quarenta e cinco segundos depois.

entra na escuridão das paredes de madeira pintadas de preto e logo já vira. onde faz uma inesperada curva de noventa graus e arranca gritos de susto dos passageiros. que fazem as vezes do trem e carregam dois passageiros cada. um boneco mecânico de cera toca uma sineta de bronze sinalizando a partida dos carrinhos de ferro.Desde os anos 50 que o Parque de Diversões Alvorada está montado no início da avenida João Gualberto. Sua fachada. Essas curvas são a graça do negócio. pois aumentam a sensação de desequilíbrio e velocidade. vão acionando as diversas figuras fantasmagóri296 . Do tamanho de um homem e vestido de ferroviário. em frente do Passeio PÚblico de Curitiba. imitando uma estação ferroviária. já fazendo uma nova curva e entrando em outro túnel na direção da parede da frente. lobisomens. múmias e outros monstros. Em seu trajeto. O trem-fantasma é uma construção retangular de vinte metros de frente por dez metros de fundo. ostenta grosseiras pinturas cujo colorido berrante representa cenas macabras: loiras semidespidas sendo atacadas por vampiros. Os carrinhos circulam num monotrilho preso ao chão. entrando veloz por um túnel reto em direção à parede do fundo. O trem parte.

sita na rua Atílio Bório 1313. seis e meia. por volta das quatro da tarde. que mesmo o barulho dos carrinhos correndo nos trilhos não consegue encobrir. ficando por instantes à vista do público antes de mergulhar novamente na escuridão. na Padaria Aurora. múmias e monstros de vários tipos. o que poria em risco a segurança dos passageiros. Os 45 segundos desta viagem confiável. na tarde de sábado. aciona a trava que o faz parar e liberta os passageiros. 297 . Na ocasião o depoente era auxiliar de panificação. bichinhos que lhe interessavam bastante. conquistar uma namorada. Conforme o depoimento de Astolfo Dagoda (inquérito nº 365/69 da SSP-PR). Vê se cai fora!". o "chefe do trem" solta apenas um carrinho de cada vez. nos fins de semana. porém cheia de sustos. umas pequenas luzes que iluminam essas cenas macabras. enforcados. bem na altura da cabeça dos passageiros. Num pequeno trecho do percurso o carrinho sai do túnel. nas quais aparecem bonecos de cera em forma de caveiras. ele entrara no Passeio Público com a finalidade de se distrair e. que estava sozinha. que vibram ao ver a expressão assustada dos passageiros e ao ouvir seus gritos. talvez. Ficara olhando os animais do Passeio. Uniformizado de chefe da estação. terminado o tr~eto. apenas um funcionário do parque se encarrega de todo o serviço: recolher os bilhetes. O trem-fantasma sempre atrai um grande número de curiosos. Mesmo nas horas de maior movimento. trava conhecimento com uma moça que lhe pareceu bonita e ajeitada. No túnel desta cena ficam suspensos no escuro vários fios de linha e aranhas de borracha. Isso traz a desagradável sensação de que estamos rompendo enormes teias com aranhas que se enroscam em nossos cabelos. Numa das paredes do fundo há uma teia com uma enorme e repulsiva aranha negra. detendo-se a maior parte do tempo junto da jaula dos macacos. por instantes. 19 de julho de 1969. Empurra o carrinho para dar o impulso inicial e. e fixar a barra de segurança que os impede de cair do veículo em movimento. colocar os passageiros no trem. nunca deixando mais de dois circulando no tr~eto. procurou afastá-lo: "Estou esperando meu namorado. Por volta das seis.cas e ligando. "padeirinho". A princípio a moça. dando a impressão de que o trem vai se espatifar contra eles. sempre serão uma das maiores atrações de um parque de diversões de qualidade.

fica tão engraçado a gente se ver deformado daquele jeito. Segundo Astolfo. falei: Não preciso subir tão alto. aos poucos ela foi cedendo à sua "boa conversa" e começaram a passear juntos pelo parque. tiraram uma foto num lambelambe do Passeio Público (atente para este detalhe). para os lábios dela. Entramos no palácio dos espelhos. Não. Falou ainda que os patrões delajá estavam com a televisão ligada. Jucélia Ramos. quando ela sentiu fome comeram um espetinho de um churrasqueiro que estava com o carrinho em frente ao Parque de Diversões Alvorada. ele pagou adiantado e ficaram de pegar as cópias meia hora depois. entretidos que estavam um com o outro. Astolfo Dagoda afirma que pagou para ela primeiro uma paçoquinha e depois uma maçã do amor. coração quente!". a Lua está comigo aqui. que ia mostrar tudo quando eles chegassem na Lua. não derrubei nenhum maço de cigarros.Atraído pelas maneiras dela. não fumo. Aí eu. Segundo ele: Foi nesse momento que senti que eu gostava dela. pois não trouxera agasalho. ela adorava música e disse estar vindo do auditório da TV Paraná. Atiramos no tiro ao alvo. Astolfo tirou seu pulôver azul-marinho e fez que ela o vestisse por cima do vestido branco de mangas curtas. Teve uma hora que reparei que tinha um cara 298 . para ver e ouvir o conjunto Os Vondas. Ela falou com tristeza dos astronautas que iam descer na Lua naquela noite: "Imagine se lá tiver uma neblina assim. onde fora assistir ao programa Ponto 6. Não sei nem quanto tempo ficamos no parque de diversões. Astolfo insistiu e. Conversaram então sobre vários assuntos. eles limam a mira das espingardinhas de ar comprimido e a gente não acerta uma. Astolfo Dagoda. noite escura. Ele lembra que a fumaça do braseiro se juntava com a neblina. Nem sinal da Lua. Escurecia rápido e havia esfriado bastante. eu segurei a mão dela e disse: Nossa! Como você está com a mão fria. naquele gelado". trabalhando para um família no rico bairro do Batel. Falei isso e ela me sorriu. e ela de mim. E tirou suas mãozinhas da minha. mas esqueceram. Abraçados. Ela falava sempre sem tirar os olhos dos meus e eu sempre olhando para a boca.Jude". de que gosta muito. agora. de um jeito tão bonito. Ela riu e me disse: "Mão fria. que ia forte naquela hora. não senhor. que ela trincou com seus dentes perfeitos bem branquinhos. principalmente quando eles tocam aquela música dos Beatles "Hey. segundo ele. Ela lhe disse chamar-se Jucélia. nébuIa. finos cobertos de batom bem vermelho. Depois que ela vestiu o pulôver. Primeiro afirmou ser estudante mas depois confessou ser doméstica.

desta vez acompanhado não só de Astolfo. Os depoimentos são todos muito desencontrados. Aí aconteceu . voltara a verificar o interior do trem-fantasma junto com o guarda299 . Angenor de Oliveira. Em vista da agitação e estranhando o desaparecimento. Angenor de Oliveira cortou a corrente elétrica e. Até ali eu não tinha tocado nela e achei que na escuridão do tremlantasma era a ocasião de sapecar um beijinho nela. Entretido que estava com as assombrações no escuro.ele pensou que era de medo pela viagem _ perguntou aflito pela moça que estava com ele. só veio a notar o desaparecimento dela quando o carrinho completou a viagem. é? O cara mixou e deu no pé. Constatou-se que se a moça tivesse caído ou pulado e tivesse escapado com vida do atropelamento. não acreditava que a moça tivesse pulado ou caído do carrinho em movimento. coisa que nunca acontecera desde que ali trabalhava. 20 centavos cada. alcunhado Caveirinha.. além do cadáver. Angenor de Oliveira. Porém se lembra muito bem que. Percorreram todo o trajeto. na ocasião encarregado do trem-fantasma. O que ele queria? Era bem maior que eu. O padeirinho Astolfo Dagoda insiste em afirmar que entrou no trem-fantasma junto comJucélia Ramos e que ela desapareceu na escuridão durante o trajeto. Angenor fez nova vistoria. olhando muito para nós. Muitos curiosos se aglomeraram no local. e entramos. quando travou o carrinho. não sabe explicar como. Não sei bem a hora. examinaram tudo e nada encontraram de anormal. com uma lanterna de mão. não poderia ter saído por nenhuma das paredes. Disse Angenor que. ela fatalmente teria sido atropelada pelo carrinho seguinte e haveria manchas de sangue pelo chão.nos seguindo. se tivesse saído por uma das bocas dos túneis. Ô meu? Tá invocando com a minha cara?! Tá me achando bonito. Astolfo muito pálido . Se isso tivesse acontecido. entrou nos túneis acompanhado de Astolfo Dagoda para ver se achavam a moça desaparecida. cara? Qual é a tua. Ele. depois fiquei sabendo que era lá pelas dez. que se encontravam intactas. que começa às dez e meia. Comprei as duas entradas. é claro. mas de outras pessoas alarmadas pelo mistério. pois tínhamos acertado de ir no baile da Estrela da Manhã. Novamente nada foi encontrado. resolvemos dar uma volta no tremlantasma para matar o tempo. ainda naquela noite. certamente teria sido vista. Foi ela quem me chamou a atenção. disse que havia algum movimento naquela hora e não põde precisar se Astolfo Dagoda entrou sozinho ou acompanhado. mas cheguei nele efalei: Que é..

quando o carrinho com o casal saiu para o claro. solteira. Afirmou ainda não acreditar em fantasmas e em almas do outro mundo. e.civil que viera atender a ocorrência. ela sumiu como se tivesse evaporado. parda. 300 . ela viu nitidamente o rapaz abraçado com a moça e que. mais uma vez. nada encontraram de anormal. de repente. doméstica. 20 anos. Já a depoente Cremilda Gomes. testemunhou que.

A imprensa já fazia grande estardalhaço sobre o desaparecimento da moça. quando os policiais já demonstravam impaciência. e o endereço por ela fornecido durante seu depoimento na Delegacia Central não foi localizado. e ela não deu na ocasião muita importância ao fato. O estranho comportamento de outra testemunha.o rapaz pernoitara encarcerado na Central. Foi encontrado um pedaço de tecido branco que. Karel Stephanovich. Retratista do Passeio Público. depois disse que lembrava e entrou na sua barraca para buscar as fotos que o casal esquecera de pegar. Irritado. nada acrescentou de importante. O comportamento de Karel Stephanovich foi contraditório: primeiro disse que não se lembrava de nada. dizendo que se enganara. trouxe mais contradições ao inquérito policial. no domingo à tarde Karel foi procurado pela polícia. Essa testemunha. voltou muito pálido. alegando que ia pagar a corrida ele entrou no táxi e partiu para não mais ser visto. encaminhou Astolfo Dagoda para apresentar queixa na Central. pois eram revelações sigilosas. Astolfo Dagoda gritou que ele estava mentindo e que escondia alguma coisa. segunda-feira à tarde. sub301 . quando na terça-feira a polícia técnica realizou exames no trem-fantasma. No entanto esse rapaz nem chegou a depor: enquanto os outros entravam na Delegacia Central. e logo o carrinho entrou de novo no túnel. segunda pela manhã Karel vendeu seu negócio a toque de caixa e saiu da cidade. pensou-se ser um rasgão do vestido da desaparecida. não mais se apresentou. mas que só falaria na presença do delegado. em vista da aglomeração de pessoas e da polêmica que o fato estava causando. Nada achou de anormal quando do exame do local.Que foi tudo tão rápido. que muita gente considera importante. até a chegada do delegado Miguel Zacarias no domingo pela manhã. mudando-se para lugar incerto e não sabido. que não tinha tirado nenhum retrato e que nada sabia da história. pois fora chamado somente depois do fato ter acontecido. que trazia Astolfo Dagoda . Contudo. Ao que consta. nunca mais retornou a Curitiba. a princípio. em serviço naquela noite no Parque de Diversões Alvorada. porém. Com ele foram as testemunhas Cremilda Gomes e um rapaz que não declarou o nome e disse saber tudo sobre o desaparecimento de jucélia. O guarda-civil nº 067. Demorou lá dentro e. Os policiais acalmaram o rapaz e intimaram o fotógrafo a prestar depoimento na Central. pensou que fizesse parte dos truques do trem-fantasma para atrair freguesia.

e estavam tão cobertos de poeira que qualquer anormalidade teria ali deixado marcas. apesar de estar preso e incomunicável. a polícia técnica levou os caixões para exame. levantou a hipótese de que jucélia teria descido do trem e se escondera num dos caixões de defunto que. Ou coisa pior: ele matarajucélia após violentá-Ia. Contudo. O padeirinho foi detido para interrogatórios e. mas em Curitiba corria o boato de que o desaparecimento de jucélia Ramos estaria ligado às atividades da guerrilha do MR-8 no Paraná. coisa de um louco para chamar atenção sobre sua insignificante figura. trouxe de São Paulo um grupo do Centro de Pesquisas Paranormais e Fenômenos Extraterrenos. Quase um mês depois do desaparecimento surge uma nova pista: Almério da Silva. de lhe aplicar choques elétricos para obrigá-Io a confessar.metido a exames de laboratório. constatou-se ser parte da atadura da múmia. jucélia teria ficado ali até as buscas terminarem e depois saíra tranqüilamente. Frei Albino lançou a teoria de que a jovem teria sido raptada por seres extraterrestres. chefiado pelo frei Albino Aresi. A coincidência do horário do desaparecimento de jucélia com o da descida dos astronautas na Lua comprovaria sua teoria. Imediatamente o delegado Miguel Za302 . exigindo portanto sua imediata libertação. acionados pela passagem do carrinho. Ficou constatado serem muito pequenos para acomodar outra pessoa além dos bonecos de cera. na época submetidos à rígida censura imposta pelos governos militares.jornal dos hoje extintos Diários Associados de Assis Chateaubriand. sem conseguir novas pistas. se abrem. consta que manteve essa versão dos fatos. e acusou a polícia de torturar o rapaz no pau-de-arara. O Diário do Paraná. que considerava ilegal. servente do Passeio Público. Como a hipótese parecesse plausível. encontrou no lago daquele logradouro um pulôver azul que seria o mesmo usado por jucélia naquele sábado trágico. O Diário do Paraná descobriu sua prisão. Esses boatos aumentaram com a prisão do chefe guerrilheiro cognominado O Bom Burguês e com o desbaratamento do MR-8 alguns dias depois em Apucarana. parapsicólogo de renome. deles se erguendo os bonecos ameaçadores. já o jornal O Estado do Paraná. achando tudo um embuste. do então governador Paulo Pimentel. a polícia começou a pressionar Astolfo Dagoda. crime sexual que ele procurara esconder inventando aquela história toda. Nada foi publicado nos jornais.

nem amigos ou conhecidos. provavelmente um crime sexual? A ação nefasta da guerrilha do MR-8. mas seu patrão. pedira a conta e deixara Curitiba para recomeçar a vida num lugar onde não fosse conhecido. muito assustado e aborrecido com sua prisão e "tortura" (entre aspas porque nada foi comprovado). ou como se sua existência nunca tivesse sido percebida pelos habitantes de Curitiba. afirmou que Astolfo. bastante atuante no Paraná naqueles tempos? A vingança de seres extraterrestres irritados com a chegada do homem na Lua? 303 . Por mais que se procurasse alguém que trouxesse alguma luz capaz de aclarar o desaparecimento. nunca mais foi encontrada. O jovem não foi encontrado. O que aconteceu naquela noite no trem-fantasma? O seqüestro de uma bela jovem para fins inconfessáveis. Hoje. Quanto aJucélia Ramos.carias procurou Astolfo Dagoda para que ele fizesse a identificação. ninguém apareceu: nem familiares. o padeiro Lidislau Pierko. permanece o mistério do desaparecimento deJucé1ia Ramos. passado tanto tempo. nem patrões. Era como se ela nunca tivesse existido.

num futuro que esperamos não esteja muito longe. a verdade apareça. armada sabe-se lá por quê? Ou tudo não passou de uma farsa hedionda do padeirinho? Perguntas até hoje sem resposta. A verdade sempre aparece.Seria o trem-fantasma um lugar assombrado e almas do outro mundo carregaramjucélia Ramos? Foi tudo uma trama da própria polícia. Talvez um dia. São muitas as teorias e certamente o leitor terá escolhido ou criado a sua. 304 .

Mistério Sapho () amor entre as mulheres .

após a morte do marido transferiu-se para Vitória do Espírito Santo. Presumivelmen te Crispim Carmoro faleceu em 1928. A Cinemateca do Uruguai tem em seus arquivos a maior coleção de filmes eróticos primitivos. com partes totalmente meladas. considerado o pai da linguagem cinematográfica. Faltam diversos trechos. Criffith. dirigi da por Leo Martem. seus familiares passaram as latas do filme para as minhas mãos. Não pudemos confirmar essa informação. realizado em 1899.3. que também dirigiria Messalina (30). até então considerados perdidos. que faria Vício e beleza (26) e produziria Depravação (23). necessitando urgentes trabalhos de restauro em laboratórios especializados. das oito que compunham o filme. de E. passando pelo curioso Le film du diable (17). apesar de alguns esforços iniciados principalmente após a criação da Cinemateca do Museu Cuido Viaro. e a bobina 5 está inteiramente empedrada.o cinema paranaense continua um insólito desconhecido. entre eles vários de D. Ali foram recuperados filmes. amigo de Crispim Carmoro. A cópia encontrada está em péssimo estado. Não deixou descendentes. dirigido por Vitor Ciacchi. de Annibal Requião.O amor entre as mulheres. como Dama ao banho. Kerrigan. que. seis anos após ter realizado o que parece ser seu único filme. Foi encontrada uma cópia 35 mm com apenas quatro bobinas. apesar do nome. aos 85 anos. C.O amor entre as mulheres é um filme erótico. e a de 26. onde teria parentes. até as várias versões de A carne. Para não falarmos do agora. e com a atriz que se escondia sob o pseudônimo de Miss Ray mostrando suas carnes. Contam-se nos dedos os estudos e pesquisas sobre o nosso cinema. de quem acabam de ser encontradas partes do filme Sapho . Arthur Rogge e João Batista CrofE. de Luiz de Barros. permitindo a confecção de novas cópias passíveis de serem projetadas. A esses vem se juntar agora Crispim Carmoro. é brasileiro. as de número 1.5 e 8. o cinema brasileiro tem vários exemplos de filmes eróticos ou pomôs: desde Lucíola (1916). definitivamente perdida. Consta que sua esposa. Somente com os serviços de restauração será possível a feitura de um novo negativo. se adotarmos outra nomenclatura. Pornográfico. Ali ficara sob a guarda de Rodolpho Hertoso. 307 . O que restou de Sapho foi encontrado num galinheiro em Almirante Tamandaré. a de 24. Josephina Bello Carmoro. dirigido por Antônio Tibiriçá. de Ceorge Melies. Crispim Carmoro teve portanto a quem puxar. no qual a atriz Antônia de Negri aparece nua. Sapho . W. em 1975. Desde os princípios do cinema são feitos filmes pornôs. Com a morte de Hertoso. da obra de José de Alencar.

fazia pinturas decorativas. Emiliano Perneta e outros poetas do movimento simbolista. Sabe-se que era amigo. Apareceu em Curitiba provavelmente logo após a Primeira Guerra Mundial (1914-8). de Annibal Requião. As letras estão desenhadas sobre um cartão-postal com vista fotográfica do Partenon de Atenas. nem quem o iniciou nos segredos da linguagem cinematográfica. Da mesma maneira que nenhuma das atrizes arriscou colocar seu nome nos créditos. Em seguida vem o título: 308 . Pelo tema e letreiros de Sapho. que buscavam inspiração na Grécia Antiga. ano em que acontecia em São Paulo a Semana de Arte Moderna? Sabemos pouco de Crispim Carmoro. que lhe cedeu ou alugou o equipamento para as filmagens de Sapho. ou pelo menos conhecido. mas talvez Sapho possa ter sido filmado por ele ou por algum dos fotógrafos atuantes em Curitiba. nem se era italiano ou descendente. as imagens de Sapho têm momentos de rara beleza.Mas quem foi esse homem e o que o levou a filmar um longa-metragem erótico na provinciana Curitiba de 78968 habitantes em 1922. O único nome que aparece na ficha técnica é o de Crispim Carmoro como realizador. O filme abre com um letreiro: PARTHENON FILMS . que preferiu não assinar o trabalho em virtude do tema ousado do filme. Além das decorações em gesso.CURITYBA 1922. Em algumas velhas residências curitibanas encontram-se paredes com suas pinturas. Aqui passou a exercer a profissão de estucador. É certo que não lhe faltavam gosto artístico e conhecimento de fotografia. Não se sabe se Crispim Carmoro tinha algum conhecimento técnico de cinema. é de se supor que mantivesse relações de amizade com Dario Vellozo. Através dessa arte tornou-se conhecido. não só das famílias tradicionais da cidade mas também de pintores como Alfredo Andersen. Lange de Morretes e Waldemar Curt Freysleben.

excitante e lascivo. claramente uma pintura filmada. Há um corte para um plano mais aproximado. Segue-se um longo texto explicativo dividido em duas partes. de semblante tristonho. Homens rudes e maus. JV1eu lugar é aqui. a Deusa do Amor. aparece uma vista de palácio grego. prepara o altar Aí começa propriamente a ação do filme.PELICULA CRISPIM CARMORO. sacerdotizas de Vénus. Lembrar que se trata de filme mudo. de farto sangue quente. Daí a necessidade de longos letreiros para desenvolver a açao: E sua complementação: Em seu resplandescente palácio na ilha de Lesbos. como que se dirigindo aos espectadores: o meu lugar não é em meio de vocês. Vemos meio de longe a atriz que interpreta Sapho pondo incenso num turíbulo sobre um alto tripé. Após esse longo texto introdutório. 309 . graciosas donzelas Entre gestos e corpos que me causam prazer. Sapho reune-se com suas amigas. de amor a gemer Entre rainhas como flor. para o doce sacrifício à Vénus. inicia grotescos movimentos de dança. em meio à fumaça. dum orgulho medonho. Sapho baixa a cabeça. Não é no meio de tanta insipidez. concorre para o enlace sensual dos corpos. Dum egoismo atroz. Sapho levanta os olhos em direção à câmera e se põe a falar (através de letreiros). na lassidão cálida de uma noite de verão. protegida pelo resplendente azul do jirmamento vago. quando o aroma de nardos. realizado por quem não dominava plenamente a linguagem do cinema. O AMOR ENTRE AS MULHERES. E ainda: UMA Todos esses créditos iniciais estão emoldurados com ornamentos em estilo grego. a bella sacerdotiza pagã. e outro letreiro: Sapho. termina de colocar incenso no turíbulo e.

À medida que se desenvolve a dança. sempre precedidas de um letreiro que as identifica pelo nome: Prokné . no seu seio Que frescura! Que olor! Que límpido gorjeio! 310 . Sapho invoca Venus ."bachantes".Deusa Pagã dos amantes E conclama suas bachantes Para os embates do amor.a favorita de Sapho. o corpo delinquente sem pudm. são mostradas as outras no filme só atuam mulheres .Em sua dansa.

Aglaura .virgem pura. Virgem de olhos glaucos e seios morenos! Hypolita . virgem bela como Vénus.musa pagã de basta cabeleira loura. olhos de engodo e boca sedutora! 311 . Corpo rijo.

rosto de mulher. odulante como o de uma serpente! 312 .angélica expressão de causas mansas.Euridice .escrava núbia de corpo ardente. Formas tentadoras. sorriso de creança! Fátima . Liso.

Almofadões. envoltas em véus e adornadas com bijuterias que simulam ser jóias de valor.entre as outras figurantes. A bobina número 3 apresenta várias de suas partes meladas e faltam alguns trechos. com a câmera estática focalizando Sapho e suas "bachantes" envoltas em véus. arqueia o busto e num repente Elétrica se lança aos golpes tentadores. cadeiras de madeira entalhada. O que vemos é a repetição constante de imagens. queria se deliciar com as imagens das mulheres semidespidas. 313 . Não há muita ação no filme. não encontrado. É de se supor que o segundo. prossiga com a apresentação das celebrantes em poses lascivas. não passa de um cortinado escondendo as paredes e um chão coberto por tapetes. Difundindo luxúria e provocando ardores Como se a carne houvera em convulsão. fremente. arremedam roupagens gregas ou orientais. se é que podemos chamá-Ias assim. olhando os fotogramas contra a luz. O cenário. seios à mostra. seminuas. em geral rolando pelo chão. Os trajes. Com sua imagem termina o primeiro rolo. colunatas e alguns vasos de gesso imitando urnas gregas completam a cenografia. representando o interior de um templo grego. Essa bobina inicia-se com um letreiro: Sapho empina o ventre. nem cenas de sexo explícito ou de nudez total.Esta última é a única negra que aparece no filme.o termo mais certo seria rebolando . As imagens que se seguem a esse letreiro são da atriz que personifica Sapho dançando . esforçando-se para fazer poses eróticas. Provavelmente foram cortados por alguém que. Tudo lembra os cenários de gosto duvidoso utilizados nos estúdios dos retratistas da época como fundo de suas fotografias.

Provavelmente seria a única imagem de nu frontal do filme.tintura de anilina usada para dar um tom de cor aos filmes da época. deve ter sido tirada por alguém sequioso de excitar-se com a visão do belo corpo da atriz que encarna Sapho. esta cena está entrecortada com imagens das "bachantes" sempre em poses lânguidas. Arrastam-se coleando em silvos de serpente. mas nua inteiramente nua! A imagem que se seguiria a este letreiro não está na cópia encontrada. As bachantes deliram em lúbricos jurores. Apesar de na época ser relativamente normal a exibição de filmes eróticos.Ei-la saracoteando. foi reencontrado somente em 1984: sabe-se lá em que mãos andou durante todos esses anos. Entre uivos do instinto a cupidez atua E uníssono se escapa um grito retumbante: . realizado em 1922. o corpo delinqüente Semi-velado ostenta às luzes multicores. Além de mostrar Sapho dançando. Devemos lembrar que o filme. nenhuma notícia da exibição de Sapho foi encontrada nos 314 .Dansa outra vez. Toda essa parte está tintada de vermelho pelo sistema de viragem .

reproduzem diante da câmera sempre imóvel a ação descrita no poema mostrado no letreiro. vemos as imagens de Sapho e Prokné enlaçadas se beijando. Prokné. Quero pousar meus lábios nos teus de framboeza E neles.a rolar pelos tapetes ou enrolando os corpos seminus nas cortinas. Somente no final do filme.quem seriam? . deitadas no chão de falsos tapetes persas.jornais curitibanos. a deusa de Lesbos. o pesquisador Jean-Claude Bernardet. Tremerão nossas carnes no mesmo espasmo presas E nos confundiremos entre carícias ledas! Após o poema. sequiosa em delírio de amor acesa. O restante da bobina 3 é uma monótona repetição das atrizes improvisadas . em seu Filmografia do cinema brasileiro. como a abelha liba o mel na rosa em fiar. Quero beijar. em julho de 1923. edição do governo do estado de São Paulo (1972). numa grandiosa mise-en-scene em oito partes". menciona um filme com o título de Sapho no Cine Royal de São Paulo. O mesmo número de partes do filme de Crispim Carmoro. E tal como começou. na parte oito. nem mesmo se é brasileiro. então a zona 315 . 1900-1935. Todo teu corpo de sensual calor! Prender-me nos divinos novelos. Contudo. O anúncio da exibição não diz a origem. Aranhol dos teus fiavas cabelos. Em seu lugar vemos o letreiro: fiM Assim termina SAPHO . Diz apenas: "Os escândalos de Sapho. o filme termina com um letreiro: Oh! Até que enfim em carícias felinas Teu busto gentil ligeiramente inclinas E te enrolas em mim e me mordes a boca! A imagem da mordida não é mostrada. acontece algo mais forte: Sapho e sua favorita. mas a respeito dele ainda ficam muitas questões: quem foram suas "estrelas"? Prostitutas da rua Ratcliff (hoje Desembargador Westphalen).O AMOR ENTRE AS MULHERES. e não faz referência à sua ficha técnica.

pudorosamente. não quis assinar? Quem financiou a empreitada e o que se propunham os produtores com o filme? Lucro fácil ou algum outro objetivo escuso? Por que não teve continuidade a carreira cinematogáfica de Crispim Carmoro? Talento e capacidade não lhe faltavam.do meretrício de Curitiba? Ou seriam mulheres da sociedade curitibana que aceitaram representar por dinheiro ou outra razão qualquer? Algum poeta curitibano escreveu o "enredo" e os poemas do filme e. 316 .

() mistério dos sinais da passagem dele pela cidade de Curitiha .

ao lado da caixa-d'água. O mesmo onde. Paulo Pimentel. onde o perverso assassino enfiara o grosso galho de árvore. também publicou as fotos na primeira página. Mais tarde descobriu-se que o assassino fora o engraxatejurandir Haus. Falo isso porque tal qual as imitações é uma peça inteiriça . o que provocou protestos generalizados. A Tribuna do Paraná. Olhando assim pode parecer que se trata de uma perfeita imitação em barro pintado. porém tendo o decoro de esconder com uma tarja preta o sexo da infeliz moça. no dia 29 de maio de 1986. com dez centímetros de grossura e cerca de trinta de comprimento desde a 319 . a prostituta Márcia de Tal. de 48 anos.como que expelida de uma única vez -. que mantinha sua cadeira instalada na praça Tiradentes. do dr. O local onde foram encontrados e fotografados é aquele grande terreno baldio no alto da rua xv. vulgo Careca. foi encontrada nua. O revoltante crime teve muita repercussão na época e a Folha de Curitiba publicou fotos do cadáver na primeira página. morta com uma estaca de madeira cravada na vagina. alcunhada de Polaca. de 21 anos presumíveis.Indiscutivelmente são sinais da passagem DELE. dessas vendidas pelos camelôs e usadas para pregar peças nos amigos.

na página dez. onde se lê: Segundaleira 2 de novembro de 1987 Ano XXXII nº 9. onde se afina como uma cauda onde foi cortada pela contração do ânus. E também que ELE se manteve de cócoras no mesmo lugar durante toda a defecação. com as costumeiras reclamações contra os serviços públicos. uma poça redonda já seca mostra o lugar onde o jato de mijo penetrou no chão.00. reportando com fotos em cores a sensacional vitória do Coritiba por 3 x 2 contra o São Paulo. todos com mais ou menos quinze por quinze centímetros. parte do título do jornal. as letras TRI. na Copa Brasil. À esquerda do bolo fecal. Do outro lado desse pedaço. e parte de um anúncio da Prefeitura Municipal de Curitiba intitulado Procura-se um fornecedor. mas também de não estragar partes que trouxessem reportagens interessantes para se ler. Nota-se que ELE teve a preocupação não só de escolher pedaços do jornal com bastante branco . a outro pedaço que ELE usou para se limpar é o recorte do anúncio da Gronau na página onze. Estão inteiras as notas da trágica morte do ancião atropelado por uma locomotiva.062/24 páginas Às segundas cz$ 15. do caso do miliciano que roubou uma moto e do padeiro assaltado na saída do bailão. três pedaços amassados e sujos da Tribuna do Paraná. Provavelmente. ELE leu esse jornal enquanto defecava e depois. nem da notícia ATIROU NA RAPOSA E ACERTOU NA FILHA.é sabido que a tinta de impressão provoca irritação no ânus -. limpou-se com os pedaços que rasgou. Impressas em vermelho. com a manchete O Gênio abre o jogo.ponta arredondada até a outra ponta no alto. A página policial também não foi mexida. a terceiro pedaço usado pega parte dos anúncios das Lojas HM na página nove e de Pedroso. nada foi rasgado da reportagem sobre o assalto da mansão milionária. mostrando ter saído de uma só vez. caso contrário apresentaria outra forma que não a de um rolo. na falta de papel higiênico. está uma parte da seção Cartas dos Leitores. Um deles é a parte da primeira página onde está a chamada para a entrevista com o ex-jogador de futebol Aladim. E também parte da foto da mansão do milionário assaltada no bairro das Mercês. Examinando-se a Tribuna do Paraná daquele dia. e mais o cabeçalho. a bolo encontra-se enrodilhado. que tem no verso parte do anúncio de página inteira do Carrefour Pinhais. 320 . A cerca de um palmo à frente. vê-se que foi deixado inteiro o caderno de esportes. a Rei dos Tapetes.

levou-a consigo para terminar a leitura. Tem. Pode parecer escusado. ou pelo menos não sofre de diarréia.Provavelmente. tanto física quanto espiritualmente. mas não 321 .ELE esteve defecando no terreno baldio. principalmente a céu aberto. chegamos a uma série de conclusões: ELE usa o corpo de um homem. Porém. ELE não fuma. mais aptos estaremos a saber como ELE é na realidade. essas são observações rápidas e superficiais. aparentemente jogados ao acaso. um caco ete: o de dobrar palitos de fósforos ao meio. ELE leu a Tribuna do Paraná enquanto defecava e. podendo-se argumentar que foi o único jornal encontrado na banca. isso sim. em seguida. Você mesmo deve ter analisado o que viu na foto e certamente teria outras ponderações a fazer. fosse o de uma mulher. apoiar um palito nos dedos indicador e médio para.a vagina fica mais perto do orifício anal do que fica o pênis. porém quanto mais dados tivermos sobre seu comportamento. como os três fósforos não estão queimados e tampouco se vêem tocos de cigarros. porém carrega fósforos e tem o sestro de.pois não acredito ter chegado a horas . quebrando-o ao meio sem contudo parti-Io. Muitas pessoas têm o costume de fumar enquanto defecam. formando um v sem estarem partidos em dois. No jornal prefere o "noticiário esportivo e o policial. Examinando a fotografia com os sinais que comprovam ter ELE estado em Curitiba no dia 2 de novembro de 1987.se bem que esta última afirmação seja discutível. e o intervalo entre um palito e outro. poderíamos determinar com precisão durante quantos minutos . pressioná-Io com o polegar. Soubéssemos nós o tempo que ELE leva para dobrar cada um. naquele dia de Finados. E exames mais acurados da passagem DELE nos darão informações cada vez mais preciosas. fosse ELE alto e pesado certamente suas pegadas seriam mais profundas. Do lado direito. pode-se concluir que ELE não fuma. depois. Daí o cuidado de estragar somente as partes desimportantes do jornal. e é leitor da Tribuna do Paraná . a marca da poça de urina estaria mais junto do bolo fecal . Durante o tempo que levou para defecar no terreno baldio dobrou três palitos. É terrível dizer. vêem-se três palitos de fósforos dobrados ao meio. ELE tem o hábito de ler enquanto defeca. Tem ELE o estômago em bom funcionamento. sem parti-Ios. porque isso ajuda a disfarçar o mau cheiro e a fumaça serve para espantar mosquitos. a intervalos regulares. Porém. ELE não é muito alto e pesa pouco: apesar do solo arenoso do terreno baldio ser bastante duro e ressecado. o que não acontece.

temos que nos debruçar atentos sobre cada sinal da passagem DELE sobre a Terra e estudá-Io incansavelmente.sabemos com qual semblante ELE se mostra ao mundo: se algum dia estivermos na frente DELE.de o conhecermos na plena complexidade do seu ser e da sua obra. Por esse motivo. Corruptio unius generatio est alterius PUTRE factio 322 . quando surge uma oportunidade como esta não podemos deixá-Ia escapar.que espero não esteja longe . não saberemos reconhecê-Io e certamente ELE não se revelará a nós. Somente agindo assim é que seremos capazes um dia .

Logos.". outubro de 1984. passa-se num apartamento em Curitiba e teve uma primeira versão publicada no nº 150 de Quem. Tóquio.. . "Orvalho deste mundo . Novella." e "Ah. 13 Mistérios + O mistério da porta aberta.. nº 116. A "Mão com poema de Desnos" foi desenhada por Cláudia Suemi Hamasaki.. japonesa o mistério da prostituta & Mimi-Nashi-Oichi. "Mistério Sapho .O amor entre as mulheres". "Mercúrio mistério". Mimi-Nashi-Oichi. o passado " são de Buson." e "Tudo é mutável. edição em língua portuguesa de Bukkyo Dendo Kyotai. Curitiba. o minotauro.. "Tocador de biwa" é um desenho anônimo japonês do século XIX.. A ação de O mistério da prostituta japonesa se passa em São Paulo. Raconto. agosto de 1983. 1986. Curitiba." é de Isa. 1985.. 323 .. 1983. Contos publicados na revista Quem: "Um mistério no trem-fantasma". "Primeira neve " e "Esta estrada .. Gráfica & Editora Módulo 3..." é de Robert Desnos e. Maciste no inferno. Fundação Cultural de Curitiba... em maio de 1986. agosto de 1984. 1981. A primeira versão desse conto foi publicada no nº 117 da revista Quem. novembro de 1984. no bairro da Liberdade. Curitiba. Novela. nº 118. foi traduzido por Valêncio Xavier." são de Bashô. O poema "Tanto sonhei contigo . em agosto de 1984. A escrita japonesa e a planta do quarto são de autoria de Sônia Yamanouchi. O segundo conto. Criar. como os haicais. de Curitiba." são trechos de A doutrina de Buda. "O mistério da porta aberta".. "Conduz teu cavalo . nº 94. 1982. "Sob o sino do templo . nº 113.NOTA BIBLIOGRÁFICA o mez da grippe. Os haicais "Nesta noite . Curitiba.

por Caro signore Feline. Valêncio Xavier Niculitcheff nasceu em São Paulo. Estudo.Um mistério". nº 152. Fundação Cultural de Curitiba. Segunda edição: Curitiba. nº 154. Fundação Cultural de Curitiba. 1989. Edições KM. entre outros vídeos.Um episódio da colônia Cecília e Os 11 de Curitiba. Panorama e Revista da USP. 1986. recebeu na IX Jornada Brasileira de Curta-Metragem o prêmio de melhor filme de ficção. É consultor de imagem em cinema e roteirista e diretor de TV. junho de 1986. Payol. de Curitiba. 7 de amor e violência. em 1933. Criar. 22 de julho de 1990. Meu 7º dia. todos nós. "O mistério da Sonâmbula". Realizou. OUTRAS OBRAS DO AUTOR Desembrulhando as balas Zéquinha. emjaneiro de 1984. 1994. 1964. publicou inúmeras narrativas em jornais e revistas (Nicolau. Segunda edição: Curitiba. 1975. entre outros). Curitiba. Crônicas com Poty. Curitiba. de nós. No jornal O Estado do Paraná foram publicados dois contos: "Mistério do menino morto". O pão negro . Quem. 324 . Antologia de contos com outros autores. Edições Ciências do Acidente. nº 160. Como cineasta. trilhas e traços. Novela-rebus. Curitiba."Mistério mágico". e "Os fantasmas do fundo de quintal . julho de 1986. Curitiba. 1986. Memória com Poty. Curitiba. 18 de junho de 1985. 1998. trilhos. Studio Krieger. Além dos livros mencionados. Biografia. "O misterioso homem-macaco Como tudo começou". Curitiba. A propósito dejignrinhas. São Paulo. Nutrimental. O conto "Mistério números" foi publicado no nº 334 da revista Panorama. agosto de 1986. 1973. e está radicado em Curitiba. Poty.

BSP LIV 11111111I1111111111 253734 .