VALÊNCIO XAVIER

o MEZ

DA GRIPPE

E OUTROS LIVROS

-~COMPANHIA

DAS LETRAS

Copyright

© 1998 by Valêncio Xavier Projeto gráfico: Hélio de Almeida,

com base em indicações do autor Capa: Hélio de Almeida Preparação: Denise Pegorim Revisão: Eliana Antonioli Ana Maria Barbosa

Dados Internacionais de Caralogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Xavier, Valêncio O

mez da grippe e outros livros / Valêncio das Lerras, 1998.

Xavier.

-

São Paulo: Companhia Bibliografia. 85-7164-810-7

ISBN

1. Contos brasileiros I. Título.
98-3379 CDD-869.935

Índices para catálogo sistemático:
1. Contos: Século 20 : Literatura brasileira

2. Século 20 : Contos: Literatura brasileira

869.935 869.935

1998

Todos os direi tos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 72 04532-002 - São Paulo - SP Telefone: (011) 866-0801 Fax: (011) 866-0814 e-mail: coletras@mtecnetsp.com.br

ÍNDICE

o mez da grippe, 7
MacÍste no inferno, 81

o minotauro,
13 mistérios
+

137

O mistério da prostituta japonesa

& Mimi-Nashi-Oichi,

181

O mistério da porta aberta, 203

Nota bibliográfica, 323

OMEZ DAGRIPPE
novella

sobre os quais se podem observar todos os diferentes estados da dissolução. Esta macabra execução é de cera. desde o instante da morte até a destruição total do indivíduo. colorida com tanta naturalidade que a natureza não poderia ser. nem mais verdadeira. nem mais expressiva.Vê-se um sepulcro cheio de cadáveres. MARQUÊS DE SADE .

20 I I~IIRi l():_~.::~~ I~ _~jSI!IQ9:~ -ti 27 121 lói l' 91~~llfl~ ~I 3.:!4~!..IiHi00131i -113114:!2i~3. !~ll!1 ti.1918 Outubro QTTUBRO ==--~--=-.:~ti 6 Alguma coisa .~S..

por sua vez. Barbosa.illN(. que estavam com o mal incubado.~ presidente Wilson não fra.lTUN.- O t·jX u Os jornal)" ua bru" se maui-. que se disseminou com as populações com sigo o cidades. Dr. ia effectuar-se o casamento de uma filha do syrio Barbosa. I deE~ Em Paranaguá. Folgaram juntos e cada um dos residentes em Antonina e rapidez entreMorretes trouxe das referidas gérmen do mal. com o mesmo fim dos do Rio. Do Rio de Janeiro vieram assistir ás bodas alguns syrios. I FO~~ tinúa a te de crimes ==== ====commeHer toda a sor. I.. como também a transmitiram aos patricios e á população.A paz está interrompidalo... 10.':. o ! D. os hospedes fluminenses não s6 padeceram da molestia.~~~t da. J WA. Um homem eu caminho sozinho nesta cidade sem gente as gentes estão nas casas < grippe 13 . alguns patricios do Sr. ta com um governo que con. n'aquella epocha. De Antonina e Morretes seguiram para aquella cidade. Relatório do Sr. Em Paranaguá. Trajano Reis director do Serviço Sanitario.

RIFIQUE M OLOUVRB RUA QIJINZE DE NoveMBRO. gran espanoIada J eca Rabecão O COMMERCIO DO PARANÁ li OORTIIVAS • 14 OORTINADOS BRIZE-BIZES • IJRAI. No tiene casi que nada No passa...-----------------------------_ .. cosa esquisita I De una .. CI". Ia gran grita.w ESTORES OS SORTI MENTOS QUE APRESENTA VE.'N. . 43 5.. - DIA 20 DOMINGO $ A Allemanha vae capitular A SEMANA RIMADA "La influenza espanoIa" Esso todo.

DIA 22 TERÇA o DlRECTOR DO SERVIÇO SANITARIO MANDA AVISAR AS EMPREZAS FUNERARIAS QUE FICAM PROIBIDOS OS ENTERROS Á MÃO."E. Tinha os muito ricos que faziam enterro com carro. foi assim." 15 . era a pé. DONA LÚc1A . CORITIBA. cavalos de penacho. 22 DE OUTUBRO DE 1918 O SECRETARIO . A maioria a pé. ENQUANTO ENTENDER NECESSARIO Á BEM DA SAUDE PUBLICA E QUE OS ENTERROS DOS QUE FALLECERAM DE MOLESTIAS TRANSMISSÍVEIS SERÃO FEITOS SEM ACOMPANHAMENTO SENDO O CADA VER PROMPT AMENTE REMOVIDO PARA O NECROTERIO DO CEMITERIO MUNICIPAL. mas eram bem poucos. pano preto. Iam carregando o caixão e as gentes a pé acompanhando pela cidade inteira até o Cemitério Municipal.1976 por muito tempo.RICARDO NEGRÃO FILHO .

A infeliz. lamentando a sua triste sorte. noiva do assassinado. que pedia para ver o cadaver de seu noivo: pedido a que os guardas depois de muita relutancia resolveram acceder.~=======~ II Positivamente a vida humana não vale um caracol . COMMERCIO DO PARANÁ ~=============" IIVida Social . cahiu debulhada em lagrimas. ao ver o cadaver do noivo.UM CASO PUNGENTE Quando o povo se achava agglomerado em frente ao botequim.. chegou ali Maria Esteves. COMMERCIO DO PARANÁ 16 ..

ma"..obom exito e.e ._.: tes.ar€'s desla cU\lital. hontem·· Ct8&8 da. i._.brlcl& nt>-do Rego Ba.o.lta -de folffk.. A..')Il.e:. obteve C1-rmde Aprovoito ainda oppor>tunidade pars.roo 84 tend -ciplina aqllella com das unido. lendo tudo 1'01' mim [l{'Om'llallh<ldo em to inforntR':1O de (das as v.' ~~ .litares.I.· eommal'ldan tchf"Qullri<e de.•.o F.. cir'cum6Cripcli.nfltruccão mi c3t1a um.ado de seu.l O cOl.•.q.. carpacldade e disciplina lar clnen:""It·d& I e Que continuam~nte dão Ilobejas t-em.' ítuiçlo' é A Q. o a pa.. I --.4 o que grande.f unidades para.s das div<lrsas t exame .hoY-.ide ficado ~uti8felta. MazzR..1 teresse sempre patente&-dono cum. e capitão Seba.:1Ilu8~~~~O da~ PO:lu1açõe.:rnandes Jonsen Tavares. f(T.sita-g {jUe' fl'7.. l!am~ f''''f'rci~.. SOllr -e Tripoli. Que ã. para conveni-ent<· litar fo~e rni·nistrada m-ente e sem embar-aços."i. qus. C'--"ro"t:"- U/. oMiciaes e '1."HONEl lI08 -. 12 de tubro re..o Pin to da Silva.'oroue-l Olava CO!'TI'ia a se-guinte parte que se refer~ 11 visitl. dr.l.]dido I.sre.0 tenente Adria. capiotão JOü.: .do ~ que' deve ter notado o m'uito l. E. e aspirante â. 15 de Yovtlmbro._.e •..'.1 A influenza A Syrla e n s-..o. major dr. agradeçendoJ. com.el!!que granrde fim -de . eervi(:o de con!erencl&!l 1I0bre h)'" giene.0 R. pelo SI'. ga.ra. Lj 2.)lndo provas. 'JIt . Und ~. rim. do 2. (' f':<talH'\{'ciIHcn. do Corrttlo ..•.."ptn1aacl( tod08 -lyt~.C. ficou a.u hOn A designação desses ofriciaes que era. que o PaI hontem u'n& c& Para..-elou o ass-eio..n~ -f.! obseI"Vou.l.!.l"a[ I.do..rat'l.uiz B8Tl>edo. di l. gC'nt'n1. da Cir cumacrlpçi.l lll'C'~~.1tt!. Frail1ce a com. que se encarregou do Com numero rel. ord~l" du dia ho . (.._-. Devo citar t<l. TU&.lor mll5l é'ê O trL'1l!1mo tos milit.-te •..ndante dt'Mta rogiíi.nall da 11"a.0 t&nen-te j<"a.1m ~·O l!oje ~ 9.sa. cumpro (l graRI-o wn I'rupo' tu deVe!' de Jlllul:('ar que me IHll'f'ce ques m de te ra conl!a. h"je a. 'J)elJ. M..8 "Protê&". A.de.rio para que a instruc· 'tla neral comp-le:ta" a del'lejar na . declamado Q _11:." I~ ~~osen~.::===============DiJ'cctor: Generoso nor~l'~ DIARIO FOLHA DE MAIOR CIRCULAÇÃO A inspecção do sr.O "'E1d..a: si'8tene !Annun{' a.:a. Ch. &.. belIl como aos o1iri-cille8e praças..rnbem o sr. oi!tt'icia.'C" Jpgo. lho l!!obre alcooliemo.m conferencias militares.' ledico. PAGINA --- •••• ••••-----'Andradtl - guintes Grs. do o gran Que 17 viço de Saude e Vetel'lna.no Saldanha. primento dos seus deveres e louvan AMER:'CA Cl do-os 'pela. do· 4. delicada.vprnl). eetot'\. 'exh. lU "'ndlM"e\o teleg.~ula.' COI'lIO.lle :p de 3.!!fle Çao cine:ra&togt' CONTINUA NA 2.° B. 'P~I~ "Chllro-. p"'ico le. tle inspeccílo dg ST.onlo ANCS de Magalhites. '\Se ~1 dOrf~!l Í1'ancezea Termin:W~l a In:-lpecC. {..l'1. com mandantes de unidades e dirE'e-torE's de e8ta~leêlmento!i mj. '---- NO PARAN..IlOS.UC se gaJ10 di wppril tem esforçado 09 .l'C&n~ PAlA'-C: O Ta \.me-n'al. a pense ta. g(' eS'[orç:C»! ~IO[' 'ÜilE'_ di:.iacs e a d('[i$ipncia do ma· teria.r. da 2. Fora. feita por 80rte rooalhiu no. general Barbedo a esta cir· cumscripção Ul':<laçamml da. Olegario de Vasconcellos. todos empregados.=""""'======================. O puseio militar no dia.S.:. onBl<u.hes o in" em THEA'lRO MduzidUi·. miHtar ao. felicitar os srl!!. A. vando na e çü'o vudes-.ül hnpt. AUI ter sido a 1lI('J-hor 1l()S~lvf'1:t IllT\lJ"('S são rN'(>hida (1('1" mt'l'Imu ar. 'O'f!tcial Ant. __ .'. de 2.. Je baixadQ.• Theatrosi "'A'$~'_ THEA'i'RO· anima..'ommnndunte (ll'sta l'l'giAi(. M. &- Por todO<:! esses nlotiv06 apresen to minhas felicitaçõE"1iI aos sr8.•• .•ba. parecendo tn autorld. (IUC'b~ -tante concorreram para os resulta doa colhidos. E: ir"" o reBultullo dos ao sr. nl2'ral J.° H. gcu(. ..Q do ParanA.oe. !i1m ••As ·feduzl chefe Se-r .•• .C' ser ter deixado de<Vlda conta.•.. .B<ldac:ção • OftlciJulo 'W.Zlo pelo ar. que 'Proouziu um beBo traba. de T~ nca.cf.: 1.• I_ :.ee assieti.Tia.••• ~'J.stifi. ~omma.fizcra. !uneet-o. der doA'UoT". _ "Diarlo" l .

DR.CONSELHO ACONSELHAMOS AOS HABITANTES DE CORITIBA QUE NÃO SE VISITEM. TRAJANO REIS DIRECTOR DO SERVIÇO SANITARIO DO ESTADO 22/10/1918 Entro na casa a porta sem chavear alguém que saiu para voltar e não mais voltou entrou para sair e não mais saiu Não sei porque entro entrei nesta casa onde nunca entrei Pássaro em água estranha Vagueio pela penumbra do corredor pela porta entreaberta vejo 18 . SR. ATÉ QUE TERMINE A EPIDEMIA NO RIO DE JANEIRO. MESMO QUE NÃO HAJA MOLESTIA NAS CASAS QUE PRETENDEREM FREQUENTAR. BEM COMO QUE NÃO CONCORRAM AOS LOGARES ONDE HOUVER AGGLOMERAÇÕES DE PESSOAS.

.DIA 23 QUARTA MUSAALEGRE Não há nada neste mundo Que mais possa aborrecer Do que cruel "que brade ira" Sem vintem pr'a dispender Esteve aqui a Olona Com Salvat . Prá não adoecer Tomo o conselho do Lauro E deixo o barco correr DIÁRIO DA TARDE Manuel Salvat 19 . atrapalhada.o bello par E não pude uma só vez Os mesmos apreceiar-p! Não vos sei tambem dizer Porque houve tal vazante Si por andarem como eu Numa lizura berrante Ou si por cousa diversa: Por se meter na cachóla Do povo qualquer receio De companhia "hespanhola" fUCA VIOLA Pois que d'elln só se falla N'outra cousa não se pensa E anda tonta.. pensando no caso. A propria gente da "Imprensa" O Lauro Lopes já disse: Quem quiser ser forte e "são" Beba limão com cachaça Sem abusar do "limão" . Mas eu..uma sentença! Um conselho em cada esquina E a série de disparates Boas risadas propina .. Cada coro.

Ilctor "1101'1111:111 GEORGE W ALSH ~ma na~ mai~ ij~lla~ronu~~õ~~ ~ --'--'--~c.- O peeopd dos treeottds DIA 24 QUINTA --------------- NA BELGICA OS EXERCITOS ALLIADOS VAO LEVANDO DE VENCIDA OS ALLEMÃES NÃO MORREU NINGUEM Informa-nos o sr..~.Jla : CAMINHO extl'l\I)r(i1nuri'l DE BERLIM RIII('rf('IUlo: dI). n~ r~t __.--~~-~-"- -- ~-- ii ====::..~'~. ------."---COMP.J~~.-~--_. CINE TH[ATRAl PARAt~A.--------ii . não DIÁRIO DA TARDE se registrou obito algum nesta capitaL 20 .=. Benedicto Carrão. official do registro civi~ que hontem e hoje. elegante -...~"" -s_..(]eqtral HOJE • lIOJE gl'ltllIJO o A Creaçi\o ncontecÍmcnto ela Mmll.

EPIDEMIA ORA REINANTE EM DIVERSAS CAPITAIS DO PAIZ. COMO MEDIDAParaná) PREVENTN A CONTRA A INVASÃO DESSA EPIDEMIA. ~oie sa· mat. CURITYBA. meio favoravel á sua propagação virulenta." DONA LÚCIA - 1976 DECRETO N~ 132 O PREFEITO MUNICIPAL DA CAPITAL. PRINCIPALMENTE Á NOITE.Commercio do RESOLVE.JOÃO ANTONIO XAVIER PREFEITO MUNICIPAL 21 . ACONSELHAM INSISTENTEMENTE QUE SE EVITE AGGLOMERAÇÃO. Parecia a cidade dos mortos.«Ccmmerrio I do Parará» Em virtude doccido de terem a· al~uns possivel dos not sos não com operarfos a ultima nos foi hora. AFIM DE IMPEDIR A PROPAGAÇÃO DA "GRIPPE ESPANHOLA". SUSPENDER O FUNCIONAMENTO DOS CINEMAS E OUTRAS CASAS DE DIVERSÕES DESTA CAPITAL. não encontrará aqui ensachas. (Sebastião Paraná . TENDO EM VISTA QUE AS DIRECTORIAS DE SERVIÇOS SANITARIOS DA CAPITAL DE SÃO PAULO E DESTE ESTADO. fazrr de a que a edicção hisse com tod d de redacçãD. não nos visitará. BEM COMO DA CAPITAL FEDERAL. A peste! EUa não nos visitou ainda. ria "Famílias inteiras. 24 DE OUTUBRO DE 1918 (ASSIGNADO) . Não houve casa que não tivesse alguém doente. E. se subir a serra pela linha ferrea ou pela estrada da Graciosa.

Napoleão Lopes effectuou hontem a prisão do germanophilo Roberto Thomaz que no "buffet" do Theatro Hauer teve palavras ofensivas às nossas instituições e ao governo da República determinadamente ao sr. onde. que assim.. presisente Wenceslau Braz. voz de prisão. para exemplo. às 23 e 30 horas.aquelle subdito sueco. Ouvindo aquelle advogado palavras insultuosas á nossa Patria. se manifestava tão favoravel á Germania e tão hostil a nossa Republica. deu. por escripto.. dr. Chefe de policia. deu essencia do seu acto.OUSADIA BOCHE O distinto advogado criminal sr. immediatamente á chefatura de policia. á ordem do sr. indo. COMMERCIO DO PARANÁ 22 . O referido germanoplhilo foi recolhido ao xadrez .

INCHEI: "JSSAS PEARSON r. DA GRACIOSA.Lricatte U<JO Esta t. "SENDO NO MOMENTO ACTUAL DE GRANDE NECESSIDADE PARA A SAUDE PUBLICA. tem nada que ver com qu. parca seara de louros pelos OFFICIO DO DR.:u~a WILLIAM ". 23 . ONDE EXISTE AVULTADO NUMERO DE DETENTOS.oIIMERC[A~iES LATAS. A direita assentada sobre o lento respirar do seio rijo. A DESINFECÇÃO DAS REFERIDAS PRISOES. PORTÃO E DESTA REPARTIÇÃO.:.tKuma. CHEFE DE POLICIA AO DIRECTOR DE HYGIENE DO ESTADO DO PARANÁ."l cOlltêrn meia agua. REFUSE:~ OS R~CJP!F. COM A POSSIVEL URGENCIA. LINDOLPHO PESSOA.t\SSE. a da aliança por sobre o lençol branco branco braço nú. das lffillaçocs.C::U~.. e IIt~n.\lIm J. SE:: u. SAUDAÇOES. AS NECESSARIAS PROVIDENCIAS AFIM DE SER FEITA. EXCA. SOLICITO A V. A esquerda.DIA 25 SEXTA o PAPA INTERCEDE PARA QUE A BELGICA NÃO SEJA DESTRUIDA PELOS ALLEMÃES Mãos grandes como de cavalo.. EM 25 DE OUTUBRO DE 1.10 f. NeDhlUn 'recepta'àulc o MELHOR DESINFECTANTE genulno qU<I nôo tonba o nom~ .A. A HYGIENE QQUE SE DEVE MANTER NAS PRISOES DOS POSTOS CENTRAL.dquer OU~j'·1 synOD)"m(i ."LT~~~.!lTES D'FSTA r.Jod"1 'deAi/lrect:}'Lte SEitI ESCRUPULOS TOR~AM I.918.

commentarios ironicos em torno da nossa attitude em relação á epidemia da "grippe espanhola". sim. Não obstante. fiquei dias caída na cama ardendo em febre. aliás commum na estação que atravessamos. como num outro mundo. devido a uma interrupção inesperada do trabalho em consequencia de terem adoecido operários da secção de composição. dizendo-se abertamente que a molestia invadira a nossa tenda para obrigar-nos á uma formal retratação. tratando-se de simples grippe. NAS REPPARTIÇÔES ESTADOAES EM COMMEMORAÇÃO AO 1. COMMERCIO DO PARANÁ "Fiquei. os casos de doença existentes.0 ANNIVERSARIO DA ENTRADA DO BRASIL NA GUERRA ACTUAL. 26 DE OUTUBRO DE 1. 24 ." DONA LÚCIA .1976 DIA 26 SA'BADO DECRETO O SR. PRESIDENTE DO ESTADO DECRETA QUE SEJA CONSIDERADO DE FERIA O DIA DE HOJE. Esse facto suscitou hontem em certas rodas. obrigando-nos assim ao sacrificio de materia redactorial cuja inserção foi absolutamente impossivel.NÓS E A "INFLUENZA" A nossa edição de hontem saiu muito aquem da espectativa. continuamos firmes em nossa attitude pela razão de n[o ter sido de "gripe espanhola" verificado ainda um só caso n'esta capital. DR. prostrada sem vontade. Mas em mim deu fraca.918.

~.I~ =. .NA SERVIA NA BELGICA E NA FRANÇA OS ALLIADOS A VANCAM VITORIOSOS "A HESPANHOLA" De manhã abro as gazetas nenhuma nota .~~~~~~... domingo. a hespanhola. José da Gaita DT *l["õ@:~l@l~.*.jl~H. peito.. A policia nos socorre Toda noticia degola -Aqu~ de vez. ninguém morre.. Foi p'ro xadrez. ----- ...• . pulmO~se garganta.. os cultos de costume. . I Os olhos costurados pela febre loura linha a mesma que tece seus cabelos AMANHÃ NÃO HAVERÁ CULTO Attendendo aos conselhos da Inspectoria de Hygiene. DIÁRIO DA TARDE 25 .J ------------.que bola! Limpo e relimpo as lunetas Nada.. a Egreja Evangelica Presbyteriana da rua Comendador Araujo resolveu não realizar amanhã. nada de hespanhola.

irrisorio seria que se as desinfectassem.1976 VARIAS Phenomeno unico na vida coritibana accentuando o contraste de somente em epoca de epidemia ás portas do Estado e quando se pretende espalliar o panico isto se dar: ha trez dias que não é registrado um só obito numa população de 80 mil almas. Mas não tinha remédio que servisse. nasceram no districto desta Capital. na rua Marechal Deodoro. Durante a semana ultima de 14 a 20 do corrente. de febre typhoide. mas também abertas não continuem as egrejas. Nestas condições.. no trecho entre as ruas Primeiro de Maio e Floriano Peixoto. com grande perigo para a saude publica.. Fechemos os cinemas. Hontem. De molestia infecciosa houve apenas um obito. 39 pessoas e faleceram 19. As egrejas são templos sumptuosos de Deus. Pro pessoal da fábrica eles distribuíam garrafas com limonada. Deus vendo a creolina penetrar no seu templo certamente se sentiria diminuido em meio da radiosidade de seu prestigio ." DONA LÚCIA .DT "Remédios não havia.Depois raciocinemos um pouco. VALlOSISSIMA OPINIAoI GASTÃO FARIA . estava sendo descoberta. uma parte da rede de exgottos. pondo ao sol um lodo podre e capaz de infeccionar o ambiente. Havia o padre Miguel que ia nas casas levando follias de eucalipto. COMMERCIO 26 DO PARANÁ .

A influenza hespanhola e o amor seria uma tese psychologica magnifica para ser desenvolvida por um Paul Bourget de francaria que se atormentasse num eterno sonho de duquezas e condessas.~========:. pallidas e loiras. meus dedos dizem Amarelos Ao levantar o branco lençol advinharei os outros pelos ? 27 ....26 .A peste de guerra aqui importada pelo "Demerara" e recebida gentilmente com o carinhoso titulo de "pucha-pucha! DIÁRIO DA TARDE DIA 27 DOMINGO ~ 1i (I . COMMERCIO DO PARANÁ Cabelos de vassoura mais macios. muito loiras e frias ..NOTICIAS DO PAIZ O RIO COBERTO DE LUTO RIO.::====='" Vida Social II SUELTO .

COMMERCIO DO PARANÁ VARIAS Em nossa edição de antehontem noticiamos a tentativa de suicídio de d. nesta cidade. cantando hymnos patrioticos allemães e jogando chacotas aos brasileiros praticando outras tantas imprudencias que o atual estado de guerra em que nos achamos não permite . . . Hon tem visitou-nos esse sr. . o escrivão daquelle posto offereceu guardas civis para acompanhal-as.. Na Repartição Central . . .. Anna Urichi. entenderam de em pleno seio da capital desrespeitar a nossa pátria. ha tres dias em que não se verifica um só obito nesta Capital (quadro urbano). Com o de hontem. "Cantamos e havemos de cantar hymnos allemães porque não somos trahidores de nossa patria". Stanislau Urichi. Esse estupido e atrevido subdito do kaiser. nós não somos criminosos e não ha lei que obrigue a falla portuguez". e não o receio da epidemia de grippe. . " O mais exaltado era o conhecido fanfarrão Frederico Rummert que em portuguez arrevesado gritava: "Não bode ser. .. COMMERCIO 28 DO PARANÁ . . . . barbeiro á praça Zacarias 22. preferimos ir sosinhas". esposa do sr. .. . Apenas no quarteirão das Merces se deram dois fallecimentos um por tuberculose e outro por lepra. cheios de presumpção e agua benta ( ). . Á essa offerta.A AUDACIA DO INIMIGO PRECISAMOS SER MAIS ENERGICOS AO MENOS EM NOSSO PAIZ É deveras para se lastimar o facto occorrido hontem á noite. . . explicando-nos ter sido desgostos por uma infermidade incuravel a causa daquelle acto de desespero. . como sahio na noticia . Praza a Deus que assim se conserve Coritiba.. . procurando offendel-os com palavras asperas quando era recolhido ao xadrez". E foram . ellas responderam: "Não precisamos ir com brasileiros. . . Uma cama de allemães audaciosos. Havendo algumas mulheres dito que "não iam para casa sozinhas" . .. . revoltou-se contra os guardas.

Com este metllodo pra tico e C('oUQlllico. eJl\ escaw{J. a dor por dentro. o 168 (das 5 as 6 horas da tarde) CP familias ProcuI'{ds comprar Naphtuliun C)'eol. .1976 febre alta. queiman do-se uma p(~quena porçí\() sobre brl! Z(\8. folhas de eucalipto. AvttR_S facllmen te :t lH'opIIgac." 29 . "É. Muito repouso.s. Para queimar dentro de casa.PRECISA-SE De uma mulher para viver com um bom homem solteiro. desinfecçí\o no in terior das ~"sa~.Ao de quahluer EI)tdemia. ficar deitado curtindo a DONA LÚCIA . Rua Saldanha Marinho n. Remédios não havia. l)ois é a melhol plua u. o cansaço.

DIA 28 SEGUNDA o KAISER VAI SER DEPOSTO A SITUAÇÃO NO RIO DECLINA LENTAMENTE A EPIDEMIA E OS CADAVERES JA SÃO SEPULTADOS . 30 . . A PESTE RECRUDESCE A SOPA DOS POBRES buço parco louro encima lábios rubros do calor da febre ao levantar o branco lençol encontrarei outros pelos louros cercando rubros lábios NAS RUAS E NA POLICIA NO QUE DEU A "HYGIENE NAS PRISÕES" Hontem a tarde. isso por desgostos intimos. . o preso João Baptista Alves dos Santos. que se acha recluso no xadres do Posto Centra~ tentou contra a existência tomando uma forte dose de DIÁRIO DA TARDE creolina.

ás Rcqu!I 8 112 hc ras. jflil cairão ao teu labo. epid@mia nAo no& rla que todas pnssoas Que acto qU3ircrn cump' A-/ A COM MiSSÃO ) f duasSão S9baGtiA' SAo 8 e és missas.o. e AmAnhA serAoil celebrad"slPn a . UIG~~ cancerosas M mirei bo ~en!Jor: qele é meu refúgio e min!Ja fortale?a.I t\1. a paga bos prcaborell com os teuS o(!Jos tontemplarás. jiem ba pellte que bagueia nas trebas. i. penall e bebaixG be suas nocturno. nem ba calamibabe que alISo(a ao meío·bia. nem ba seta que bôa be bia. na Cathedr31-':' I Lo ~ vidadzs a es~e rtcer. Convite afim eftlija.l . em virtude de terem adoecido diversos funccionarios de suas officinas. e brrás ao ~ltíssimo te entregallte. o teu refúgio é o ~en!Jor.lrle confiarei ~orque qele te Iíbrará bo (aço bos caçabores e ba peste perniciolla. ) ) 8066 I Rneumatismo. do DIÁRIO DA TARDE 31 . I' ~tJf 1V. e bn ~ómente tlorque mil à tua bireita. 90 ~~ltjflQ!') DIA 29 TER~A o "COMMERCIO" NÃO CIRCULOU Deixou de circular hoje o nosso apreciado collega mattutino "Commercio Paraná". mall não se t!Jegará a ti. 510li portanto" con. allas te acol!Jerá: a llua qele te cobrirá com suas jião teráll mêbo bo terror berbabe llerá teu ellcubo e broque!. o meu meus.

918 ODIRECTOR DR.como pelo de pecego margeando os lábios rubros do amor .fenda virgem para mfm advinhada por mim "Muita gente ficou com o juizo abalado. 29 DE OUTUBRO DE 1. ficava horas mastigando fruta e bicho. sempre cheio de lesmas. Mesmo muito tempo depois da gripe encontrava-se gente que nunca mais recuperou a razão. Não adiantava." DONA LÚCIA .1976 32 . pro resto da vida. LEMOS No monte de venus parca loura penugem . Por causa da febre forte dias e dias.brancos os pés. SRA.. TODA E QUALQUER INFORMAÇÃO AO RESPEITO DOS MESMOS DEVERÁ SER DADA PELA EXMA.No jardim do Hospício tinha umas pereiras.. lugar úmido. O louco comia pêra com lesma. CURITlBA. COMO MEDIDA PREVENTIVA ESTÃO SUSPENSAS AS VISITAS AOS DOENTES INTERNADOS NO HOSPICIO NOSSA SENHORA DA LUZ. olhando com aqueles olhos. IRMÃ SUPERIORA E PELOS MEDICOS DO ESTABELECIMENTO NAS HORAS HABITUAES DE VISITA. olhando. pintados de cal.

.. mas sim para dar combate á enfermidade que já n?s atingiu.DIA 30 QUARTA AS VICTORIAS DOS ALLIADOS SE MANIFESTAM POR TODA PARTE! ~~~"". A b m 6EMia'Y9bW'(4 AiiS . Vinham buscar os mortos. Depois era de qualquer jeito.eCt~ n _ ••••••.. antes de enterrar tiravam do caixão DONA LÚCIA .1976 pra servirpara outro:' 33 . eu mesma costurei algumas. com relação á epidemia.000 ai. DIÁRIO DA TARDE "Os primeiros mortos tinham mortalha.Isfflél(OS e 50 canbõfs I f\ Brlgicd Vde ter a séde do seu governu dentro dos territorios receul-libertados A GRIPPE Embora a censura policial tivesse varrido do noticiario da imprensa a rekltação dos fatos verificos. o nosso dever profissional nos força a sahir do mutismo em que nos encontravamos nesse sentido e vir dizer ao povo que todo esse preparativo que se faz não é apenas para evitar que o mal chegue até nos.~ ~ IA paz incondicionalmente iI Austria rende-se e quer Ia i I 95 êDglo·jjalianos avançam aíé~ do (íé\Ve e capturam I 12. faltou até caixão.

- . veio á rua 15 de Novembro. onde praticou uma necessidade phisiologica na porta da redacção do "Diario da Tarde" e em seguida veio escarrar na porta da nossa redação.ONDE IREMOS PARAR? A QUE PONTO CHEGA A INSOLENCIA DE UM BOCHE O allemão Rodolfo André Damn. COMMERCIO DO PARANÁ 34 -.

31 de Outubro de 1918 Visões da Guerra ~~ . Wenceslau Braz.-- "COMMEACIO Pl DO . ~~ ~ --- ----~-----~----.Encontrasse ligeiramente enfermo o sr.o SR. Quinta-feira.-. glorioso 8 A biHlda de rc'!'hncllto de tnusira do tã') cele brc quAo ZURVOS do exerdto francez 35 .. DIÁRIO DA TARDE A FALTA DE CINEMAS TRANSFORMA CURITIBA EM UMA CIDADE DE MORTOS DT DIA 31 QUINTA ReJO DO OPRIEDADE DA SOCIEDADE ANONVM4 .. . Coritiba _. •. FRANÇA . PRESIDENTE DA REPUBLICA ESTARÁ COM A "MARIA IGNACIA"? Rio 30 . que não desceu hontem às salas de recepção.

AVISO: . como nenhuma outra molestia infectuosa ou parasitaria. evitam as complicações pulmonares gastro-intestinaes ou nervosas. toda a fadiga ou excessos physicos. pessoas Recommpudamos maior rigôr TUl def(>. ou usar tampões de algodão com 'vaselina mentholada a 3%.ão basta passar um panno molhado em agua com creolina pelo soalho da casa do doente e desinfectar o seu escarro. com febre. quando elles poderão prestar maiores serviços ápopulação. para evitar a intervenção de pessoas da família ou extranhas. 36 . Eara lavar a bocca e gargarejar é excellente a agua com um pouco de tintura de iodo. Só chamar o medico para os casos serios. de individuo doente a individuo são. Indo doente grave deve ser entregue a um enfermeiro ou enfermeira. também com creolina.tiu.'tI. Aconselhamos. de manhã e de noite.ldI1l1lI.]lini8ter.loou:.. Tomar 3 por dia. e instillar. aggravàndo a situação geral. a não ser do medico assistente. 5 gottas de oleo gomenolado a 5% nas narinas. QIDln!Q á desinfect. fazer uso de purgante salino' ou de calomelanos e tomar aspirina e quinino á 0.. afim de evitar que elles adoeçam pelo esfalfamento e venha a faltar no momento mais difficil. afim de trazer o tubo digestivo sempre desembaraçado Ellgir das agglomerações. o uso de bebi das alcoolicas. Não fazer visitas e evitar o contacto com os doentes de'~ porque o contagio é directo. pela ~ ~ é molestia muito séria quando descuidada. ~não deve receber visitas. Inmar um laxante cada 4 dias. l. diariamente.o da Justiça. nariz e gargarejar com agua salgada com agua salicylada a 1 por 200.A homeopathia. Sentjndo dôres de cabeça e pelo corpo.as causas de resfriamentos. em seguida. Dieta lactea.li. que seriam contagionadas.. sobretudo á noite. ~ refeições leves e a horas certas e dormir tempo sufficente.1 CÚU edosas e c(('Unça. So levantar-se quando não sentir mais nada. não curam a grippe.a bocca. que são muito graves. fuitar. o regimen lacteo e essa medicação inicial. e Negoci". fuitar. O mais importante é a desinfecção da roupa de corpo e de cama. O espiritismo e as hervas. que facilitam a infecção.s Interiores Serviço ~e prophylaxia rural do Paraná Combate á grippe Conselhos á população paranaense É impossivel evitar a propagação da epidemia de grippe por não existir um preventivo seguro capa"" de evitar a infecção. ("(mIm a in/t'q:. com tudo. o seguinte: Tranqyilidade e confiança nas auctoridades sanitarias. O repouso ao leito. fuitar. deve ir immediatamente para a .30 centigrammos para uma capsula. do doente.

1918 Novembro o mez da grippe .

1976 Fina loura linha não de tecer mas louro novelo ninho para o pássaro asas da minha mão 39 . achando razão nas declarações de que em Coritiba não há epidemia. em termos claros. todas as casas. ninguém sabe ao certo. DIÁRIO DA TARDE Agora está m~o morrendo muita gente. não nos era possivel descuidar da nossa propria vida.. quasi sem homens para o trabalho. invadiu. Dr. Até hoje. por assim dizer. espalhou-se de modo aterrador. foi que. de ocultar a verdadeira situação. reconhecendo que outra cousa não era sinão essa epidemia que já se estende por todo o Brasil. pois que. "Como saber quantos morreram? O governo não ia dizer o número verdadeiro dos mortos para não alarmar.. Relatório do Sr. Começou o mez de Novembro com um obito por grippe. Dahi em diante. Trajano Reis. o mal tomou proporções assustadoras." DONA LUCIA . não em entrelinhas nos manifestamos ante-hontem. todas as classes sociaes. director do Serviço Sanitário não obstante. continuamos ftrmes em nossa attitude pela razão.DIA 1 SEXTA HO KAISER CAPUT_" Contra esse injustificado interesse das autoridades sanitarias. vendo hora a hora cahirem os nossos companheiros enfermos. no dia primeiro.

cantando: 40 .uta ' no •••• officin •• da C05tur.. E assim vamos indo nessa estrada. Tristonha de amarguras e miseria. curto po•. na lidadeira daqueles dias. viu a coifa da freira em cima da cama. Deixando o corpo á podridão do Nada. O louco entrou. deixou a porta aberta.Nov. CP A freira. FERREIRA LEAL . Deve ter achado bonito.. 1918 PEQUENAS NOTAS Embora permitindo que os cinemas voltassem a funccionar. colocou na cabeça e saiu daquele jeito pelos corredores: camisolão branco e coüa na cabeça. mo• Iva' por preç A. a directoria do Serviço Sanitario o fez sob condicção de funcionarem somente 3 vezes por semana. dicCl J' .DIA 2 SA13ADO ~ I. fornecem encommend •• no prazo mal..

io n.. com medo da gripe.1975 41 . á r\.DIA 3 DOMINGO Nas outras mulheres que conheci na cama preta mata cerrada escondendo o sulco muitas vezes arado Crreada Precisn-s'J com urgüllcio. "Muitas famílias saíram da cidade. 51." DONA LÚCIA . Quem podia. saía. cOl!inhoir~ para acompanhar milil\ para ·fvra dl\ Yapita1. Mas ir para onde? As outras cidades também estavam doentes.'l CcmmenfÍRdor de uma uma. faTrata-se Al'RlI.

Livro dos Espiritos O Altissimo creou da terra os medicamentos e o homem prudente não os desprezará. DR. Ele mesmo fazia os caixões. não curam a grippe. com' nenhuma outra mo/estia infectuosa ou parasitaria. Buxeta. DIÁRIO DA TARDE .. Zombar de uma cousa de que se não tem conhecimento. a segurança das sociedades. que se não sondou com c escalpello do obseroador consciencioso. faltou madeira. a garantia do médico conscencioso.4. era o pai chegar de um enterro já tinha de levar outro ftlho para o cemitério. .Conceitos sobre e doutrina homoeopathica.DIA 4 SEGUNDA Kirie Eleisson.Capo 38 V.1976 42 .~ saude das familias. Kriste Eleisson Buxeta. No ftm.ECCLESIASTICO . o espiritismo e as hervas." DONA LÚCIA . Allamão Allamão Te pego allamão AhhhhhAaaaaaah Ghhaaaaaaaaa A HOMOEOPATHIA TAMBÉM CURA A VISO . SATURNINO SOARES DE ME/RELES .DR. continuamos ftrmes em nossa attitude pela razão . o complemento e a certeza de arte de curar .. DIA 5 TER~A "Ali naquela casa morreram sete. -ALLAN KARDEK .A homoeopathia. Buxeta. é dar prova de leviandade" pobre idéa do proprio juizo. não obstante. HERACLIDES DE ARAUJO Na homoeopathia está a salvação do genero humano. não é criticar.

não se davam com a gente do bairro. CP . muito bonita. ninguém notou. outro no outro. resolveu a South Brazilian Railway.. um num quarto.1976 43 . loira. sofrendo sem assistência. " DONA LÚCIA . suspender temporariamente o trafego de eletricos á noite em nossa Capital. Não recebiam muita visita. Os dois caíram com a gripe. Passaram muitos dias até que uma vizinha lá entrou e encontrou os dois .. isso. Clara. as de pouco pelo (negro) que conheci ofereciam lesmas escuras que mesmo penduradas da carne faziam parte "Morava um casal de alemães. a mulher alta.DIA 6 QUARTA VIGOROSO ATAQUE BRITANICO MEDIDAS DA SOUTH Luctando com a falta de pessoal devido a epidemia reinante.6/11/1918 Ou então. Imagine os dois. seu nome era Clara.

~=======. o buzinar estridente da ambulancia é:. COMMERCIO DO PARANÁ As abas da coifa. corvo branco da morte.6(11(1918 DIA 7 QUINTA A PAZ NÃO ESTÁ TÃO PRÓXIMA DIZ CLEMENCEAU Nada assemelhado a isso fenda estreita oferecida como lábios da febre pequeno regato de morna ácida água onde vibram mil peixes DEIXEMOS DISSO · . COMMERCIO DO PARANÁ .. por exemplo. COMMERCIO DO PARANÃ 44 . Hespanhola. em que nos achamos. ás vezes. fora. no silencio sepulchral das ruas desertas. Ao ouvir o trombetear agudo do auto ambulancia tem-se a impressão doloras:. de que qualquer coisa apavorante ocorre ao nosso derredor. .. parece não ter vontade de deixar ninguém em paz . um pobre enfermo a curtir 400 de febre e ouvir ::.. Esse "jornal boche" passa de mIo em mão" . passa por ahi somente porque vae levar o chal. é sabido que os subditos aliemães que infectam a nossa capital mantêm um "jornal" escripto á machina o qual escreve telegranunas que dizem receber por intermédio da Argentina..\'t · .A "BLACK LIST" ALLEMÃ "Apesar do estado de guerra.. Mas a sra. o louco homici& ~============~ IIVida Social II . Imagine-se. asas sinistras sibilantes. d. · ...' feur ao almoço ? . Assistencia Publica que.

noticia que foi hoje.Telegramma recebido á ultima hord . batalha. a grippe.-- DO PAllANA .. intensificou-se ainda mais a sensação popular. 8/11/18 45 JAIME BALLAO JUNIOR ..". eM OOMMERCIO --. ás 11 horas. 1918 .-----.__ .--. onglllae~ ""s A" 1\ .tili· .i~:: •• _ ••. A hruma.: d. 'I íido re PEL~ TELEGRÀPH~ w_IIlIIIiI IlIl_ ••••••••• .""nhl'o ._ondres...101 I. 8 '•.• assignado hontem O armisticio entre os alHados e a AJlemanba RIO..~--Irltgrammas á disposiçilo 00>. 7 (Urgente)-. máo gra. l!ssa noticia sen::..do a situação lamen:1 e doloro~a em que se ach~1o Rio.j~. a ~evoa. a~signado o isticio entre os paizes alliados c o imperio allemão. prirn\3ihoras da noite. causou grande lção. tendo a cidade 5e movimentado mUlto ác.COr".acional._-----.rnar-:s affixaram outros despad10s teleglaphicos annun· do que ás 13 horc. 1 do no.em todas as frf1ntes dp.1i:1 1'111:11(0 tnl .Caderno de um grippado .s de hoje foram cessadas as hoc.DIA 8 SEXTA A CESSAÇÃO DA GUERRA COM A ALLEMANHA FOI FIRMADA o REGOSIJO PELA 1ERMINAÇÁO DA GUERRA É ENORME FM TODAS AS CIDADES DO MUNDO --_. ''''.j_mUilmi!·_ZlB n t . :-:'.lcç.iba. quando '.

cream-se cifras de doentes. CORONEL PREFEITO MUNICIPAL AUTORIZA O COMMERCIO DE SECCOS E MOLHADOS E PHARMACIAS A CONSERVAREM SEUS ESTABELECIMENTOS ABERTOS DURANTE OS DOMINGOS E DIAS FERIADOS. assoJOÃO ANTONIO XAVIER . Peior. e só não se fazem sepultamentos por que o official do Registro reclama. primeiro porque a quasi totalidade dos musicos de nossa milicia baixou hospital atacado da epidemia reinante e. CP NÃO IlAVERÂ CONCERTO Ao contrario do que foi noticiado por um jorna~ não haverá. Mata se gente nos cafés. porque estando a população a braços com a epidemia não seria louvavel essa organização de diversões. CURITYBA. SR.DIA 9 SA'BADO A "HESJ?AlliiQLK' Só se falia da epidemia. amanhã concerto de banda de musica na Praça Tiradentes. Acabemos com elle e terminará a grippe que de trocadilho em trocadilho. 9 DE NOVEMBRO DE 1918. de pilheria em pilheria.Prefeito Municipal 46 . do que a grippe hespanhola o que está nos matando é o boato. pois. aggrava-se o estado dos enfermos nas esquinas. ENQUANTO PERMANECER A EPIDEMIA REINANTE. DIÁRIO DA TARDE DECRETO NO 133 O EXMO. está pela simples suggestão attirando com toda a gente á cama. segundo.

1976 47 . mas quase. Não. que não de OLlVfIRA JUNIOR ha remedio senlo appeIlar para o XAROPE DE GRINDELIA.. não estavam mortos. UNICO QUE CURA " .. como se os lábios fossem sua boca onde encosto meus lábios. não. MOLESTIAS DO PEITO Se a tosse vos persegue USAr O Xarope ~e 6rin~clia o MEDICO:-Então I Sente-se melhor? A DOENTE:Muito pouco. Estou vendo.DIA 10 DOMINGO Estou de pé ao pé da cama o traço de sua fenda do amor fica horizontal em relação a mim. doutor. Tiveram que levar os dois para o hospital." DONA LÚCIA .

DIA 11 SEGUNDA o KAISER O KRONPRINZ O ARMISTICIO ABDICOU E TAMBEM NÃO QUIZ FOI ASSIGNADO COM A COMPLETA CAPITULAÇÃO DA ALLEMANHA A REVOLUÇÃO ESTENDENDO-SE POR TODA ALLEMANHA Mesmo na imobilidade da febre suas coxas se entreabrem lentas como a pedir que eu penetre sua gruta com minha Ifngua de sangue em chamas 48 .

redactor do "Diario da Tarde" Um facto que deve merecer a attenção de quem de direito é esse de estarem a dobrar finados. os sinos da Igreja do Rosario. Aponta-se também como symptoma caracteristico da injluenza. a apprehensão. A prostação é algumas vezes tão profunda que pessoas bem robustas são obrigadas a se meter na cama. 49 . Outras vezes se observam symptomas nervosos..11. Nilo Cairo .1918 Kirie eleysson alIamão te cuspo escarro lesma em cima de ti alIamão alIamão cabeça de mamão alIamão mão peluda RECLAMAÇÕES Sr.INFLUENZA pelo Dr.. um "peso doloroso nos olhos". 0 começo da molestia é ordinariamente brusco. que se produz principalmente quando o doente move com os olhos. a todo instante. espalhando. em caminho do Cemiterio Municipal. violenta "dor de cabeça". Em geral os typos classicos da influenza começam por uma "febre" bastante forte. . a magua e a tristeza. Agora que o numero de mortos augmentou os sinos ali dobram constantemente sempre que um enterro se aproxima.11. grande prostação /feral. depoi~ de repetidos "arrepios" de frio. . esse som. DIARIO DA TARDE . excitação e delirio. e muito frequentemente "dores" bastante intensas das "costas e das cadeiras'.

AS CONDIÇOES IMPOSTAS AL DA CE8SAÇAO DA GUEB.AI RESOLUÇOES DO PELOS ALLlADOS SAO Ml GOVEBNO· lUO. IIÚIlÍAro Exteriores.\)1 "'I']'.DIA 12 TER~A IOR CIRCULAÇÃO NO PARANÁ - Coritibs .. &A.em i &A A AI 1 EMANHA. l~. terça feira. .. - YARIAS AS BARBAS DO VISINHO É O caso que havendo fallecido domingo a esposa de um cidadão. onde ouviu que "a policia não tem nada com isso".fW.\-\[. I . Vendo que tal facto constituia uma anormalidade o cidadão referido dirigiu-se á policia.O u. llUIS HUMILHANTES PAdai recebeu &elaçõel hnnt. Pois bem: a empreza declarou-lhe que a sua encommenda só seria attendida hoje. COMMERCIO DO PARANÁ 12/11/1918 50 . foi elle a uma empresa funeraria para encomendar o indispensavel caixão mortuario. ~rlSIOneIlO ~ U ('1.• Ç&Dha. para quando teria de ser transferido o enterramento.! VENCEMOS Â COMMUNICAÇAO Á~ GUERRi\! o ex·Kaizer entre~a-sa ~ p OFl'ICI-. dr. u. 12 da N Telegrammas.Terça-fsira. NUo P.

até rís duas horas da tarde foram registrados no Cartorio da Praça Tiradentes. . abstendo-se de dar noticias que pudessem levar terror á nossa população.AS VICTIMAS AVOLUMAM-SE 21 OBITOS SENDO 16 DE GRIPPE OS CINEMAS FECHARAM A CRIPPE TORNA-SE CONTAGIOSA SETE DIAS POR SEMANA DT Agora está mesmo morrendo muita gente. COMMÉRCIO DO PARANÁ A MORTANDADE CRESCE Hoje. 22 obitos. . sendo 16 causados pelo mal reinante DIÁRIO DA TARDE 51 . 7 J Esta folha sempre se manteve numa attitude de calma solicitude ante os interesses publicos. t DIA 13 QUARTA ENFIM A PAZ! ASPIRAÇÃO DOS POVOS CULTOS 7.

1976 DIA 14 QUINTA I ! ~~ItF~~'<i. ..rq~ib~ia l~~!:~}illl Faço isso Somente depois é que meus lábios minhas mãos percorrerão.. precorreram outras partes de seu corpo: a boca ru bra febre.f.:i~:" POii... Eles quase não falavam com os vizinhos. . acho que era dono de alguma coisa..iVi>hIN&:!WCf••••••• FTlp.amws:M' 'cocheiros na EmpreIza I t ••••• __ iFalce.a::w_ BAI~BEARIA I Riq~~. o bico róseo dos seios.. O marido passava fora o dia inteiro. de P. MORREM 24 PESSOAS JA POR DIA EM CORITIBA "Não sei bem no que o marido trabalhava.~~- Ph'.~!~'.." DONA LÚCIA ... os cabelos. 52 I ..l .."".:Za I Precisa-se de dois Funeraria.

direetor do Serviço Sanitario. dr. Queremos ganhar as alviçaras. mandei-os fabricar e. sendo já muito limitado o numero de casos novos. camisolão. assim como os informes fornecidos por alguns medicas. alugar pelo preço pedido. Trajano Reis. nesta capital. mandei-os Relatorio do Sr. quando faltaram que não para conduzir os os infelizes fallecidos. Anjo exterminador. nos auctorizam a affirmar que a epidemia começou a declinar. o movimento observado hontem nos postos de socorro e nas pharmacias. para anirnaes ficassem insepultos carros funebres. dando aos nossos leitores tão animadora noticia que irá restituir a calma e tranquilidade á nossa população.DIA 15 SEXTA No dia em que não houve caixões para serem transportados os cadaveres. a muleta é foice que ceifa mil milllões de cabeças. COMMERCIO DO PARANÁ 53 . Coifa branca.

novamente o bico dos seios agora também todo o seio branco talhado enche minha boca r SEIOS = Desenvol\ idos FOítificadGs Aformoseados 1 II = = i I "O que a gente via era a mulher. Loiro. o cabelo bem comprido brilhando mesmo quando não tinha sol. a parte interna das coxas." DONA LOCIA . Muito branca.DIA 16 SA13ADO os olhos agora semicerrados. cuidando de alguma coisa. alta.1976 54 . no quintal.

's~im pedimos pxc usas ao~ ri nosso~ :1!1J'lunciante~aca:. novamente a fonte do amor. 50 jornal.. Vt &' .-. A EPIDEMIA DECLINA OU AUGMENT A? É o povo cuja sorte está em jogo a todo o momento interroga.a paginas.r- _ :.irrpos llt ~. 1. Não se publica uma nota estatistica pela qual se veja que a marcha da molestia que nos infelicita está sendo acompanhada cuidadosamente.forlllhçãot Que n s f')i .DIA 17 DOMINGO . porém. '1' DIA 18 SEGUNDA a suave curva do ventre e meus dedos percorrem tremulos a copa de seus pentelhos.rloll Ir:~ 11 u :::: tt.o ar::: prejudicados com essa tr2ns· d.Q.!t formar a paginação do nos•. ~:u._ ~O Paraná" 11:: 'al rto' ~) Por. 55 . t. i ado' fomos hoje obrigados a traIU' tr.~ "CommercÍu . ltes.. editorial e de collaboraçào : i . e DIÁRIO DA TARDE com esforços empregados para debela-lu..\ Dor circum~tancias ~l11pe· ~ IJI <. ••• Rnnuncios nas L2' e" 3°a pam. prol .. motivo de força m:ilor. Ninguém lhe diz. inserindo todos os t1j \0 IitJsa~....~. sugo seu pescoço: uma mancha vermelha que depois será roxa..e:~nas 10 e 4. nas e publicando a materia nr. suas mãos os dedos se erguendo com meu forte apertar.

não mais de febre agora de gôzo? Gózo e no auge do gôzo tento abraçar todo seu corpo que se me escapa e tenho nas mãos como um pássaro peixe 56 .DIA 19 TER~A M OS OBITOS DE HONTEM NÃO HA AUMENTO NEM DIMINUIÇÃO . Ela geme baixinho.

CUSTE O QUE CUSTAR RIO 20 . tendo surprendido agitadores exactamente no momento de explodir o movimento. O governo está disposto a manter a ordem custe o que custar.Apesar da censura da imprensa. alguns jornaes noticiam que a policia descobriu um plano de gréve com caracter politico.lOSÃODECREANÇAS! 57 . Reina tranquilidade na cidade.DIA 20 QUARTA " A EPIDEMIA SO DECLINA PARA ASCIENCIA OFFICIAL Maldito pesadelo da mão peluda pulo 3 vezes O mar do mar para lá ficou AS TROPAS ALLIADAS CHEGAM AS MARGENS DO RHENO ABORTOU NO RIO UM MOVIMENTO GREVISTA SEDICIOSO o GOVERNO ESTÁ DISPOSTO A MANTER A ORDEM. DT EM 130BITOS. estando a força policial de promptidão.

~!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!I.I!!!!~'"

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Aviso fi
i [lMticipa Empreza
j

€mpreza Funeraría pires ~IiCia.

ao publico em geral Que, desde hoje em diante, attenderA a er.terro~, devido a seus p: 0Iprietf1rlos já cc acharem restabe:ecidos da ericr· midad~ Que os obn~ou a fecharem seu estabE"ieI cimento, estando :l,:tos para lltten~erem SI Qu{'lquC'r peS~()J que necessItar dos servIços da me~nl1 Coritiba, 20 de Novembro

I

J.

de 1918-

BBrreiros Pires & Cia.
DIA 21 QUINTA

iCommuRique·se.
t

aos pobres este aVIso :

I

o Dispensario 810 Vicente de Paulo, delicadamente, nos pede indiquemos aqui os pontos da cidade, onde distribue, o durante dia" o caldo Já preparadopau os i entermos pobres: . Praçi\ da Repubtica (CoUegio
I Praça Santos Andrade (Oolte: São José) gio Sion) Hua Jguass\\ n. 20õ (Colleglo Coração de Jesus) ; Rua Ractcliff n. 2 t 7 (bandas d' A~ua Verde). E para desejar que todes se tornem junto aos pobre~, pOrtavoz dessa communíct'çào:
58

i

DIA 22 SEXTA

" -----0

FUGlO NO DELlRlO DA FEBRE E NINGUt.,M O t.,'NCONTRA Noticiamos ha dros que o sr. Telemaco Jardim em um momento de crise neroosa occasionada pella grippe de que estava acommetido, fugiu de sua residencro á ma Carlos de Caroalho n.8, tendo a familro do enfermo solicitado os officios da policro para descobrir-lhe o paradeiro. Entretanto, dros já se passam e não obstante os esforços empregados pela Inspectorro de Agentes e por pessoas amigas, o desventurado moço não é encontrado. Concorre muito para interceptar as investigações o facto do pouco movimento da cidade, difficultando as informações que poderrom ser colhidas acerca do paradeiro do sr. Telemaco. A falta de qualquer noticro sobre o pobre moço, leva a crer que se trate de uma occurenCla maIS grave. A policia prossegue nas diligencros para deslin(ÚJro facto. DIÁRIO DA TARDE

~Vida Social ~
Que noitadas magnificas nos proporcionou a Companhia Salvat-Olona. .. E de saudade em saudade, como de abysmo em abysmo, chegamos até a tet saudade do tempo em que os cinemas abertos apresentavam a fita "Bigodinho vae á missa" ... COMMERCIO DO PARANÁ ou outra coisa egualmente profunda. . .
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RBCLAMAÇÕESDOPOYO
Pedem-nos moradores da rua Alferes Poly que intercedamos da hygiene municipal que providencie sobre uma casa da rua Silva Jardim onde residem lavadeiras que cuidam das roupas de um hospital de grippados, estendendo-as pelas cercas. O escoamento da agua se faz pela valleta da rua, onde estagna, pondo em risco a saude dos mesmos moradores.
COMMERCIO DO PARANÁ

Um grito lancinante foi ouvido.

DIA 23 S~BADO

Mão peluda acuda acuda acuda cuda cuda cuda cuda cuda cuda mãe cuda mãe cuda mãe

Cuiàado

com a Hespanhola!
Use o poderoso antiputrido
Balsamo Santa He1ena

desinfectante analgesico, ini· migv do máu cheiro Empreg2 do em gargarejos, pora a conservação dos dentes, contra o mau hàlito e

!

Um

affecções da garganta

vidro
as

1$500

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pharmaclas

Só o Balsamo 8t8. Helenll

-----------:
60

DIA 24 DOMINGO

POLICIAES

BAILES DE ARRELIA VISINHANÇA INCOMMODADA Hontem, na casa n.158 da rua Silva Jardim, teve logar um barulhento baile que, dado a agglomeração de mulheres da vida faci1 e de muitos desocupados, muito incommodou a visinhança, onde se acham pessoas atacadas de grippe. Segundo fomos informados o baile da arrelia foi promovido pelo cabo do 4~ Regimento, Manoel Candido de Almeida. Tarde da madrugada, quando a bachanal chegou ao auge, algumas pessoas pediram á patrulha de cavallaria para acabar com a encrenca.
COMMERCIO DO PARANÁ

Pancada tão forte que saiu uma espuma de sangue da boca. Ficou ali tempo, no chão de cimento, dezenas de bolhas de sangue pegajosas, levando tempo para ir estourando, uma a uma.

Quando de fadiga não puderam os coveiros abrir sepulturas, mandei gratificar a outros individuos para que as fizessem, de modo a evitar a decomposição dos cadaveres. Relatório do Sr. dr. Trajano Reis, director do Serviço Sanitario.

Nada mais me importa agora nem a mancha do gôzo em minha calça Nem o paletó cheguei a tirar O marido? tosse que ecoa por toda a casa saio pela porta sem chavear sem a volta da chave na fechadura saio sem me voltar ao menos
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DIA 25 SEGUNDA

Telegrammas
As tropas francezas chegar~o_ a Vienna esta semana" Os - ---------------------------- americanos já invadiram as províncias rhenana~~~ lemãs - A conferencia da paz iniciará seus trabalhos ern ..Janeiro - Hinden~ burg cornmunicou ao governo allemão que o exercito gerrnanico não poderá combater nem um só exercito - A as· quadrra ingleza parrte papa Kiel.
DIA 26 TERÇA

o Conselheiro Rodrigues Alves vae assu..
111ir a

presidencia da Republica

Os holiandezes odeiam o Kaiser - O ge· ~eral d'Esperay chegou a Constanti-_ ncpla - O general Pers0ing será o subo stituto do president~_~ilson •.Os frac~ ~~ze§>estão nas rna'~gens __ __ ~_~~~~noJ numa extensão de 100 milhas - A irn---_._--------_._~_._._-~"---------------------_._prensa allernã pede intervenção dOS ~J-= ~,?_do~J?ara reorganisa~ política allemã
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no seu nome e no de sua exma.DIA 27 QUARTA o CHILE E O PERU EM EMMINENCIA DE GUERRA Há dias deu-se um caso que encolerizou quantos o presencearam. moradora a rua Riachuelo. brasileira nata. DT 63 -o . João Pereira ckt Fonseca. simplesmente pelo facto de ser seu pae allemão (pois sua mãe é brasileira) não tremulou dizer em frente á muitas patricias estas palavras fllhas de uma alma entoxicada pela "Ku1tur": "Eu preferia ser devorada pelos peixes a ser enterrada em território brasileiro" COMMERCIO DO PARANÁ Lá em cima se confere os pecados aqui em baixo ferro e sangue allamão mão mão mão peluda Lüaaahaaahhh AGRADECIMENTOS distincto cidadão. Uma moça. familia visitou-nos agradecendo a noticia que estampamos sobre o passamento de sua galantinha netta a pequena Diva. sr.

continuamos fmnes em Não obstante. continuamos fmnes em nossa Não obstante. Um grito lancinante foi ouvido.. Não.. Pedaço branco de miolo escorrendo pela parede. continuamos fmnes em nossa attitude Não obstante. Como um verme. continuamos Não obstante. continuamos firmes Não obstante. Um grito lancinante foi ouvido. igual a um verm: descendo pela parede deixando uma baba de rastro. 64 . Não obstante. Não obstante. como uma lesma.DIA 28 QUINTA Um grito Iancinante foi ouvido. continuamos fmnes em nossa attitude pela Não obstante. continuamos fmnes em nossa attitude pela razão .

quando atacado também do ma~ abandonou o lar e se foi deixar morrer. e que contava apenas sete annos de idade. DT JOSEPHINA .. a morte paira ainda sobre o lar infeliz e arrebata a gentil menina Josephina primogenita do malogrado cidadão.a distincta familia Jardim vem sendo curelmente ferida pela impiedosa epidemia que tantas lagrimas tem ao nosso povo arrumado. no delirio da febre. saindo o feretro da rua Carlos de Carvalho n. FECHAM-SE OSPOSTOS MEDICOS MAS OS NECESSITADOS DEVEM PROCURAR A REPARTIÇÃO DE HYGIENE Por achar-se quasi extincta a epidemia da grippe nesta capita~ a Directoria do Seroiço Sanitario determinou que fossem extinctos os postos medicos que o governo creara no quadro urbano e nos suburbios providencinndo tambem para que as pharmacins que estavam autorisadas a preparar receitas gratuitamente para os necessitados. noticiamos o fallecimento de um filho do sr. abandonado e só à beira da Cascatinha de Santa Felicidade. E. Telemaco Jardim. 8 para o Cemitério MunicipaL DIÁRIO DA TARDE 65 . O enterro da desventurada creança realizou-se hoje ás 15 horas. não mais o façam. implacavel. Dias atraz. facto esse que o exaltou de tal forma que.DIA 29 SEXTA o KAISER VAE ACABAR NO HOSPICIO .

saía a andar sozinha pelas ruas. silenciosa nestes dias da grippe ninguém me viu nem me verá "Ela.1976 66 . De repente. mesmo quando estava normal.. nunca mais ficou com o juízo perfeito.COM HESPANHOLA O KAISER ESTA DIA 30 SKBADO De amanhã em diante será restabelecido o trafego dos bonds os quais circularão dE accordo com o antigo horario. Nunca largava do veneno. sempre com um vidrinho de veneno nas mãos. " DONA LÚCIA . DI Mas sempre terei diante de mim a visão de eu abrindo a porta a casa vasia.. a mulher.. Passava uns tempos boa. teve até um filho. dava assim como uma tristeza nela. alegre com o marido e o filho . criança linda. seu corpo de loura plumagem Sem me voltar. sem voltar diante de mim a cidade vazia.

918 DIA 1 DIA 2 DIA 3 DIA 4 DIA 5 DIA 6 DIA 7 DIA 8 DIA 9 DIA 10 DIA 11 DIA 12 DIA 13 DIA 14 DIA 15 DIA 16 DIA 17 DIA 18 DIA 19 DIA 20 DIA 21 DIA 22 DIA 23 DIA 24 DIA 25 DIA 26 DIA 27 DIA 28 DIA 29 DIA 30 FONTE: DIÁRIO DA TARDE 1 O 1 4 2 3 4 4 3 10 10 15 12 12 20 10 19 11 7 18 14 13 16 12 15 15 10 12 7 8 67 .OS 6BITOS DE GRIPPE NOVEMBRO DE 1.

anto Z t t5tA 5 t O I B livrae·me latorias: Po daras dirá osd5 Quando o vossa Cruzr chagas.ovrae-nos. Devin Jusus. immoror forte. peste • AI F R B GB tZt HF t z Por voss guintes logio der )ac h s s S e· o· e· t S u- P as o r a o JESUS E MARIA 68 . .de todo Deus.

1918 Dezembro A última ktra do alfabeto .

annunciando exihibiç6es novas depelliCp culas attrahentes. 71 .o============\1 \IVida Social II Os cinemas "in totun" abrirão amanhã.DIA 1 DOMINGO 'I)------CI .~::.

que tivera um dos e se achava exaltado pelae febre. tomado 1/2 horas accesso.. recolhendo o a uma cella. pois qque recebendo pancada violenta. Em quantos que encontrava. No " Scena M6cahra H08~icio da Alie- na U08 um louco mata quatro suas Desenrolou-se hontem no Hospicio N. Era esta o cosinheiro do estabelecimento. sem que alguem pudesse um dia augurar a scena horrivel que elle foi causador hontem. Manoel de Campos. DIÁRIO DA TARDE 72 - pos- . irmãs de caridade fugiam. que procurou defender-se com o braço. fora recolhido áquelle estabelecimento ha muito tempo. naquella confusão que se estabeleceu. de uma destas se apoderou vibrando-lhe forte pancada no craneo. em meio de uma profusão de sangue. no solo. Entretanto. da Luz uma scena terrificante que teve como protagonista um infeliz demente ali recluso. o louco. caiu também sem vida.. mas desde 5 armos que não tivera accessos de loucura. olhos injectados de sangue. ao encontrar grippe reclusos que era aleijado usava molletas. a faiscarem. Seria 6 de furioso da manhã. sempre com a tragica molleta já rubra e cheia de massa encephalica de suas victimas saiu em busca de outros. jaziam cadaveres quatro pessoas. que infeliz e mendigos subjugado se ocultavam-se. vivendo por isso solto pelas alamedas dos jardins do Hospicio.. o o puzeram em camisa de força. Andava por ali abobado. S. Baldado foi seu esforço. E naquelle aranzel. . o louco desferia pancadas. de 22 annos de idade. Caido exanime o primeiro. . Numa aneia de matar. velhos demente foi ali reclusos pelos empregados até que após uma Paulo Kopff. o louco avançou sobre outra victima. Pandellis Rethis e lucta perigosa.DIA 2 SEGUNDA .

WUlI••••••• __ •• ••• lIlIlI U ma trage~ia no Hospicio da uHespanhola" Uma proeZa macabra Domingo foi nossa população cruelmente abalada com a noticia de que no Hospital de N. a enfermidade fez a sua entrada tambem no Hospicio. outros a de grandezas. Chegados que fomos á mansão dos irresponsaveis. que naquel1a coisa entoada á guisa de canção está a mostrar o quanto a inconsciencia toma os irresponsaveis como que felizes immersos na noite negra da inconsciencia. nada encontrando de anormal que chamasse a sua attenção. como o fazem todos os jornais verdadeiramente modernos. Então as irmãs preparavam-se para ir celebrar o sacrifIcio da missa. a ver se haveria razão em acreditar-se que o descalabro se dera por qualquer imprudencia.DIA 3 TER~A U 2W1 • um ---.. A SCENA DE SANGUE Pela manhã a ronda foi fazer uma visita aos diversos departamentos da instituição. com todo o carinho pelas religiosas daquel1e estabelecimento. Como todo o louco tem a sua mania. da Luz occorrera uma tectrita scena de sangue.••••. em 1913. pois que o infeliz não se suppunha um rei ou imperador. ninguem suppunha que el1e viesse a ter um accesso de loucura furiosa. respondia que era "governador" do Estado. da qual era protagonista um dos infelizes reclusos daquel1e estabelecimento. - Apalermado. porém. ou por relaxamento em tomar as necessarias precauções com os infelizes que habitam aquel1a casa sinistra. jamais teve el1e occaSlao de manifestar indicios de loucura furiosa e quem o visitasse era até capaz de jurar que o desgraçado estava ali recolhido por excesso de zelo. talvez tendo no co73 . No desejo de bem informar os nossos leitores. Manoel de Campos quando era interrogado por alguem relativamente á sua identidade. sendo portanto um delirio mais democratico. Foi recolhido ao asylo ha cerca de 5 annos. já nos chamou a attenção o cantar monotono de um doido.. uns a mania de perseguição. S. w -=-w--••••. destacámos hontem um dos nossos companheiros para ir até aquel1e estabelecimento. Teve el1e febre alta e todos os demais symptomas da terrivel enfermidade.••••. conta cerca de 32 armos de edade. sendo Manoel de Campos uma de suas victimas.. Chama-se Manoel de Campos o autor da horrorosa scena de sangue. Ultimamente. Pelo que ouvimos. a fIm de colher impressões sobre a horrorosa tragedia e ao mesmo tempo syndicar das circunstancias do caso. Tratado. podemos mais ou menos reconstruir a scena horrivel da seguinte forma: O CRIMINOSO E SEUS ANTECEDENTES. achava-se el1e ultimamente em convalescença e sempre apalermado. com a invasão da peste hespanhola em nosso Estado. nem mesmo um simples presidente da republica: contentava-se com ser Governador do Estado .

poz-se o infeliz a correr em demanestes morreram logo quatro . foi Manoel de Campos Bruquikoski que tombava mortalmente preso a uma camisola de força. respondeu que a este. felizmente não o matando porque não. recebendo os ferimentos no braço. Manoel tenta fugir e perseguigado dI. conseguindo prostrar sem vida alguma. da do portão para se por em liberdade. Interrroferido por uma pancada desferida com gato. por instincto to quatro pessoas e ferido uma. E todos estavam longe de ima. hontem estando lá o delego ás mãos. Francisco se ouçam frequentemente gritos dos irresBittencourt. Quando lhe disseram que havia morBento tivera a boa idéa de. mas ninguem deu a elle attenção ximam. ginar que era o infeliz mendigo Paulo Subjugado.. foi Manoel de Campos sobre o seu uma tranca de madeira. Um grito lancinante foi mette contra os primeiros que lhe approouvido. fere se lembrava do que fizera. Nicoláo Domenico e Miguel ponsaveis. que lhe perguntou si do pelo epileptico Bento dos Santos.Kosmiake..bido de todos. a sua resposta era mais ou menos toda ensanguentada e a moleta do mendilucida. Com a tranca acto. correndo em sua perseguiração o desejo de levantar a Deus uma prece em favor dos infelizes recolhidos ao ção muitos doentes e empregados.Agora está mesmo morrendo muita gente: meu pae morreu sósinho e seguir. responde conservação. Mas. J. pois é natural que naquella casa Manoel Salathiel Domingues. A deu: . levar o braço a cabeça. COMMERCIO DO P ARAN Á sendo que a essas horas já o facto era sa- 74 . Ribeiro. Sedento de mais sangue o infeliz demen te arreestabelecimento.

Morreu na gripe. acharam ela já morta.1976 75 . Foi muito tempo depois. solteira. acho que foi lá por 30. Por este acto de religião e caridade se confessa agradecido. um dia.. a hora 8. tomou o veneno na rua.. Não resistiu a febre forte. Muito branca." DONA LÚCIA . alta." . até que. "Moça bonita. morreu. na egreja da Ordem." DONA LÚCIA . Morreu na gripe. cabelo loiro bem comprido.1976 M Missa a todas as pessoas que acompanharam agradece os restos mortaes atp á sua ultima morada de sua pranteada e inesquecivel esposa CLARA MARGARETH HEISLER Germano Heisler penhoradamente Aproveitando a opporrunidade convida seus parentes e pessoas de sua amirode para assistirem á missa que manda celebmr sexta-feira.

Moça bonita. teve fIlhos. mortallia branca. Por este acto de religiiio e caridade confessam-se agradecidos. casou depois da gripe." DONA LÚCIA . muito branca. na egreja da Ordem."Não. solteira. Tinha períodos de lucidez. ela morreu na gripe.1976 76 .1976 Missa GermanQ Heisler e filhos penhoradamente agradecem a todas as pessoas que acompanharam os restos mortaes até á sua ultima morada de sua pranteada e inesquecivel esposa e mãe CLARA MARGARETH HEISLER Aproveitando a opporrunidade convidam seus parentes e pessoas de sua amisade para assistirem a missa eu mandam celebrar sexta-feira a hora 8. bonita. mas ela morreu. Casou. mas nunca mais ficou certa da cabeça. O marido se salvou. Muito branca. mas nunca mais ficou certa da cabeça. loira. cabelo branco de tão loiro. teve fIlhos." DONA LÚCIA . na época ela não era casada. "Não. Vi o corpo.

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249 : 0.629 16 OBITOS240 31 1..&4% PORCENTAGEM DE OBITOS RELATÓRIO DO SR DR.J 00 OS MORTOS DA GRIPPE ANNO DE 1918 POPULAÇÃO DE CURITYBA E SUBURBIOS 67 7MENTOS 127 254 59 25 313734 1.244 283 1. TRAJANO REIS DIRECfOR DO SERVIÇO SANITÁRIO CURYTIBA 1919 .248 TOTAL OBITOS POR 4 NOV.466 295 89 384 = 45. DISTRICTOS POLONIA DOTABOÃO = 73.000 HABITANTES TOTAL GERAL DOENTES DE GRIPE 2.. 71 CASA.-.GRIPE 29 9 18 59 112 321 DEZ.261 NASCI.

N1 FIM .

MACISTE NO INFERNO raconto .

.. Gigolô. Bachanal . Os Mysterios de Hollywood. Perdida em Paris . ... juan Macho e Femea .. ... . .Noite de Amor. Vertigem de Luxo .. Rouge e Pó de Arroz .. Sodoma e Gomorra . Maciste no Inferno . Caminho da Perdição . Três Noites de D.

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bastilhas de papelão. versos."Columnas. taboletas nos bondes e nos automóveis. D' artagnans de fancaria. desejos. quadrigas. fremitos. ancias. cavalleiros da Idade Média. lettreiros. commentarios. lábios que procuram. projectores.. corpos em crispações. caretas. annuncios luminosos. templo. apreciações. femeas que se entregam. latagões de feira com estandarte e bandas de músicas." . mulheres velludo em atitudes lascivas sobre leitos ou dentro de alcovas. meninas cobras deitadas sobre areias. diálogos. coxas nuas de girls macias. chronicas. lampadas. espasmos .. oscullos infinitos. mãos que agarram.

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o heroe. onde vivia como um paladino do bem que.Maciste. irmã de creação de Maciste . Plutão em seu seu reino subterrâneo de treva e rancor invejou-o e para combatel-o mandou a Terra o demônio Barbadilha. um bello dia. o homem de vigor sem egual e coração generoso era tão estimado em sua aldeia natal. um dos seus mais ardillosos subditos. com a missão de corromper a bella Graziella.

••... li! •• ~ ..• .G _____ . ~ ~ ~ ..... -6 ./ ..•~ • --~ <V .

trava renhida lucta com o demônio que o arrasta para o inferno .Negro como o inferno até acostumar a vista fico em pé as mãos na mureta de madeira que separa as fileiras de cadeiras da grande porta com cortinas de velludo que separa a salla de exibições da salla de espera Este vendo Grazie/la seduzida por um conquistador sem escrupulos percebe a intervenção de Barbadilha e. ousada mente.

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mudo de idéia e entro na fileira da frente ameaço sentar numa cadeira vazia mas sento-me ao lado della É uma mulher .Com a luz que vem da tella busco com os olhos aquillo que quero e busco meu logar a mulher Até me assegurar que é uma mulher fico atraz da mureta de madeira as mãos segurando suas bordas Para que os outros espectadores não se apercebam das minhas intenções finjo entrar na fileira de traz com mais gente.

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a cabeça para que ella não perceba que estou olhando a ella Nem tentei encostar meu braço no seu e ella olha a tella tremeluz .É uma mulher Fingindo attenção na tella com o rabo dos olhos olho com coragem viro um pouco. bem pouco.

Ora o mortal que chega ao inferno sem ter morrido, pode voltar ao mundo se ao fim de trez dias não tiver cedido à tentação de alguma beldade d'aquelle antro

É bella e macia, estou com meus braços
cruzados e as pontas dos meus dedos acariciam o fino tecido de sua blusa solta ella não solta os olhos da tella cintilante nem sente minha caricia na seda macia diferente do áspero velludo das vermelhas cortinas

É um fume marron nas cennas de inferno é
vermelho Um calor me sobe por todo meu corpo, frieza da seda
Ora, Proserpina, a esposa própria de Plutão tenta-o com encantos taes que Maciste ousa beijal-a: Estava decretada sua sentença às pennas etternaes

Ouso, empurro meus dedos tremulos e toco seu braço como se fosse sem querer Não sobre a cadeira ao lado meu chapeu esta assentado sobre meu sexo agora zona de calor EUa afasta seu braço Ouso, insisto eUa afasta seu braço vira-se e olha firme para mim meus olhos estão na teUa

e não encosta no seio pelo menos na parte lateral Olho a tella e nada vejo Poma macio dura vejo . ardiloso e revoltoso. quer a todo transe desthronar Plutão. Somente por sua lealdade instinctiva. logar onde o tecido também é solto .como nas mangas da blusa . Maciste poem sua força e destreza sem egual ao serviço de Plutão e consegue debellar a revolução e castigar o pérfido Barbadilha Acaricio o fino tecido e os dedos vão se aproximando vagarosamente Como os braços della estão bem postos para traz os dedos vão chegando a parte do lado de seu seio direito. para tanto architeta uma revolução no inferno.Entrectanto Barbadilha.

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Então terminada a lucta, Plutão chama o heroe a sua ignobil presença e em lembrança aos seus serviços auctoriza-Ihe a voltar a Terra: Proserpina protesta contra isso, mas em vão. Maciste prepara-se para partir, mas Proserpina arma-lhe um laço, manda-o prender e torna a beija I-o, condemnando-o novamente à penna eterna Latagões com estandartes e bandas de músicas, coxas nuas de girls macias, meninas cobras deitadas sobre areias, mulheres velludos em attitudes lascivas, mãos que agarram tóco finalmente o lado de seus seios calor, lábios que procuram, femeas que se entregam, corpos em crispações, oscullos infinitos, desejos, ancias, fremitos, espasmos ... No espasmo do gôzo nem sinto suas unhas vermelhas fincarem-se em minha carne: "Que é isso? se o senhor não ficar quieto eu chamo o guarda!"

Levanto sem olhar saindo pelo outro lado das cadeiras Disfarço sair agora sem o filme acabar chamaria atenção; por isso dirijo-me ao banheiro Letreiros homens pintado num vidro que a luz vermelha alumia Uma pequena cortina vermelha antes da porta impede que abrindo a porta a meia luz do logar chegue na salla de projeção Evito olhar no espelho não há toalha limpo a mim e a calça como posso com o papel do programa que anuncia as próximas fitas Caminho da Perdição ... As Trez Noites de D. Juan ... Macho e Femea... Sodoma e Gomorra ...
Entrectanto, na Terra, o seductor de Graziella arrependido de seu acto, volta para junto d'ella e seu filho, que já tem então um anno e meio de edade. Na véspera do Natal,

o pnmeuo a saIr .. o impávido col/osso Maciste e dá-se o milagre: a prece infantil é ouvida e o Todo Poderoso liberta Maciste e este volta à Terra para gozar a ventura de um novo lar.Graziella faz esta adorável creança rezar por seu protector. entre seus amigos Não posso ficar neste logar muito tempo chamaria a attenção sobre minha pessoa A fita está acabando apresso-me com o chapeu cubro a mancha úmida de minha calça as gentes da salla de espera me olham sou . .

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Mesmo a luz mortiça das quatro horas da tarde me cega Já não escuto o piano quando todos começam a sair da sessão já estou escutando o barulho da cidade das casas das vozes dos automóveis dos ruidos Sou novamente parte da cidade e " nmguem me ve .. .

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E9 mINE9TAURE9 novela .

tudo o que eu tinha no bolso. sem fazer barulho deschaveei a porta e. ela dormia ao meu lado. de mansinho. cabelão esparramado pelo lençol. O preço combinado. loira. na cama do hotelzinho barato. Uma bela fêmea. tão sujo. abandonei o quarto no meio da noite. Acordei. branca. No escuro me levantei. nua. Tenho pouco dinheiro.Para não pagar a mulher. . quieto vesti minhas roupas. o que eu podia pagar. saí para o corredor escuro. ia me deixar sem nada até o fim do mês. Não que a mulher não me agradasse. nem sei como convenci aquela estátua de mulher a passar a noite comigo neste hotelzinho vagabundo.

É um hotel de encontros e ninguém o procura para se hospedar. o sono alcoólico que impede os prazeres do sexo.Sozinho? Nessa hora da madrugada ninguém entra sozinho naquele hotel. . Ao contrário. dormir algumas horas. E não há razão nenhuma para se entrar sozinho naquele hotel de encontros. será alerta do pelo porteiro noturno sobre a real categoria do estabelecimento e dissuadido de entrar. são motivos corriqueiros para se abandonar um quarto pago adiantadamente. Se por acaso algum desavisado procurar um quarto para. fatigado. alguém sair sozinho do hotel durante a noite é relativamente comum: a hora certa para chegar em casa. a insatisfação com a companhia escolhida. as questiúnculas por questões de dinheiro. Nunca aconteceu isso. a hora que obriga um homem casado a deixar sua parceira noturna dormindo. os pequenos desentendimentos amorosos.

pentelheira loira. quando nos cruzamos na noite. Três vezes seguidas e eu e ela queríamos mais. a gente tinha bebido demais. Foi tocar na pele e ela se arrepiou toda. as loiras não são boas de cama -. a mesma coisa: quentura de um pote de mel. foi logo beijando meu corpo: como era quente aquela boca com o meu sexo dentro. . no bar. Acordei no meio da noite. ela não. Também. teria de pagá-Ia. nem sei o que ela viu em mim. aguadas.Excelente fêmea . Encostei a porta com cuidado e me atirei pelo corredor escuro. apertadinha. Geralmente as loiras são largas. dormindo ela era coisa morta. nada da potranca que eu cavalgara três vezes. mas o sono não deixou. Quando enfiei nela. os dois. Não era mulher para aquele ambiente. essa polacona que eu peguei. estávamos meio bêbados. e então ia ficar sem dinheiro até o final do mês. geralmente. Me veio a preocupação de que se eu ficasse até de manhã.e.

. diz que eu volto. .Vê se me esquece. tesão.Porra.Porra! Será que ela ainda vem? .Não pintou por aqui hoje. .. Tchau. Tem um cigarro? -Não.Não enche o saco. .Você viu a Marilda? . Se a Marilda aparecer.Tesão. .E eu é que sei? . enfia teu cigarro no eu.

Porque me parecia que fora por esse lado que eu chegara. o relevo das mata-juntas. Me choquei de frente com uma parede de alvenaria que fechava meu caminho. numa curva de noventa graus. percebi que o corredor descambava para a direita. me atirei para o lado direito do estreito corredor escuro. de intervalo a intervalo. Como não sentisse com a mão a parede do lado direito. como seria normal quando se caminha na escuridão. E continuei seguindo. eu ia com as mãos nas paredes e não para a frente. Nas mãos abertas eu sentia as paredes de tábua e. a áspera madeira das portas de inúmeros quartinhos. a intervalos maiores. Não enxergava nada. agora parede de material. .

Parei. Ao contrário da outra. formados no vazio a partir da direita até a parede contra a qual eu me chocara. esta escadinha era ascendente.Quase que caio. Continuei seguindo. arrastando os pés. Tropecei em imprevistos degraus. este mais curto. O corredor principiava com uma escadinha. dei uma topada num degrau. Com as mãos nas paredes eu sentia uma repetição do corredor anterior. Logo senti um vazio na mão esquerda. Me virei e segui arrastando os pés. seus três degraus. Desci cuidadosamente. cuidadosamente. Havia uma escada à esquerda. pois não sabia quantos degraus existiriam no escuro. estendi a mão direita para a frente e senti outra parede bloqueando o corredor. arrastando os pés. Galguei. com medo de encontrar pela frente outros degraus. encaminhando-o para a esquerda. .

São de formato oval. Apesar de muitas estarem riscadas ou com o esmalte partido. são plaquetas de boa qualidade. esmaltadas de branco com os números em azul. formando uma delgada moldura. ornadas com friso também azul. para fixá-Ias nas portas dos quartos. . presas somente por uma das pontas. Pequeno furo em cada uma das extremidades permite a passagem de pregos. ou parafusos. Algumas plaquetas estão pregadas tortas e mesmo de cabeça para baixo.Para a numeração dos quartos deste hotelzinho utilizam-se plaquetas de metal de cerca de sete centímetros de comprimento. e falta numeração em muitos dos quartos. Devem ter servido em estabelecimento de mais categoria antes de seu uso aqui. numa demonstração de serviço malfeito. outras se acham penduradas.

cheia de abaulamentos. sensível em todos os quartos e corredores. aumentava o cheiro de mofo. parecia ser de áspera madeira compensada. Uma luz acesa me indicaria o caminho a seguir. na esperança de encontrar uma lâmpada que. neste hotelzinho barato o acender de uma lâmpada se faça atarrachando-a no bocal. continuei a caminhar. Àquela hora tardia não se esperavam mais hóspedes. Qualquer coisa de abafadiço. neste novo corredor. Alcançado o topo da escada. e para economizar certamente o porteiro apagara todas as luzes. que. Talvez nem existissem. Durante algum tempo continuei com as mãos pelo teto.Talvez por economia. pelo tato. estivesse provocando a escuridão. No meu tatear pelas paredes ainda não encontrara nenhum interruptor de luz. . desrosqueada no bocal. Estendo as mãos para o alto e alcanço o forro baixo.

Viu o que deu: 24. .Boa mesmo? - Coisa fina.- E como é que tá? .Fraco. hoje joguei na dezena da vaca. .E de novo? - Uma tremenda duma peça. deve ser gata de alguma boate. . Uma loirona que eu nunca vi por aqUI. um pé-de-chinelo. seco na cabeça: 25. .Em que quarto você pôs eles? .No oito. . Olha.E o cara com ela? Acho que já vi antes.

ou nunca estivera lá. me arranho num prego onde se espetavam ásperos papéis cortados irregularmente. Procurei com as mãos o interruptor da lâmpada que. deve existir em um banheiro. Erguendo as mãos.wc Este corredor me parece mais longo que os outros. E não encontrei o interruptor. Minhas mãos percorrem todas as paredes. com certeza pedaços de jornais velhos. sem sombra de dúvida. Eu não tinha mais nada a fazer neste banheiro escuro. bato no puxador da descarga. Emanações de urina e fezes se juntam agora ao cheiro de mofo. Empurrei a porta e entrei. encontro um bocal vazio fixado no teto baixo. a porta entreaberta de um banheiro malcheiroso. A lâmpada ou havia sido retirada. . A mão direita encontra um vazio. Um cubículo. então saÍ.

Um castiçal com uma vela acesa me seria mais útil nesta escuridão. mal se viam os números do mostrador. por isso não carrego fósforos comigo. . pois era muito fraquinha. A luzinha do meu relógio queimou há tempos e de nada adiantaria mesmo.Não tenho o hábito de fumar.

intrincados. Vivia o Minotauro no Labirinto. fortÍssimo. Ao saber das exigências do Minotauro. sempre sedento de sangue humano. da ilha de Creta. tortuosos. que se rende. Impenetrável à luz. inteligente. decidido a matar o monstro. enredados. a rainha Parsifae. o inextrincável Labirinto era formado de mil voltas com mil corredores arrevesados. A condição de paz imposta à cidade é que. Teseu. Por ser perversa e tenebrosa. deveria entregar 7 moças virgens e 7 rapazes para serem sacrificados ao Minotauro. moço loiro.S/NC} UMA LENDA DA ANTIGA GRÉCIA. o Minotauro. . enorme construção de muitos corredores emaranhados. toma o lugar de um dos rapazes escolhidos e segue para Creta. uma vez por ano. cabeça de touro e comedor de carne humana. corpo de gente. tornando impossível para quem nele entrou achar o caminho de volta. andava pela Grécia eliminando bandidos e ladrões. O rei Minos invade a Grécia e ataca Atenas. belo. mulher do rei Minos. foi castigada pelos deuses tendo um filho monstruoso.

Teseu encosta o navio na ilha de Nacsos. a pretexto de cansaço pela luta com o Minotauro.Ao desembarcar. Teseu embarca com ela de volta à Grécia. Teseu abandona-a na ilha deserta e zarpa sozinho para a Grécia. Aproveitando o sono da bela Ariadne. Teseu encontra facilmente o caminho de volta seguindo o fio que desenrolara por quilômetros de escuros corredores. Ao ver carne fresca. Vencido o monstro. que se apaixona perdidamente por ele. Deita-se para descansar e Ariadne adormece ao seu lado. . Sem perda de tempo. o Minotauro ruge e baba de cobiça e gula. Ariadne espera ansiosa por seu amado. enorme com seu corpanzil de homem e caratonha de touro. Teseu enfia-lhe a lança no coração e corta-lhe a cabeçorra com a espada. após mil voltas Teseu chega ao lugar onde o espera o Minotauro. Ariadne dá armas e um novelo de fio de ouro a Teseu. a bela princesa Ariadne. No meio da viagem. Na saída. é visto pela filha mais nova do rei Minos. para que ele encontre o caminho de volta no Labirinto. Entrando no Labirinto.

Como não bati em nenhuma parede. Sinto também uma corrente de ar frio vinda da escuridão à minha frente. . devo ter entrado por um desapercebido corredor que inicia bem defronte ao pequeno banheiro. percebo depois de algum tempo que devo estar em outro corredor.Perdido na escuridão. quando saí do banheiro devo ter caminhado em linha reta e não para o lado. Nauseado pelo mau cheiro.

Ao voltar para a cama. procura até encontrar uma bacia de metal. muita bebida. Acostumada nesses ambientes. sem sair da cama. Mesmo na escuridão sabe onde encontrar: pega o rolo de papel higiênico na mesinha-de-cabeceira e se enxuga. puxa a bacia para perto de si.A mulher acorda no meio da noite com vontade de urinar. metálico ruído. esperando achar uma pêra de luz. tateando o chão com as mãos. agacha-se e solta o segurado jato de urina. Acha não. . Se levanta. Passa as mãos pela guarda da cama. percebe que está sozinha.

um capão de mato existente no prolongamento da antiga estrada Curitiba-Campo Largo. perfuração por projétil de arma de fogo. termina uns cinco quilômetros adiante do lugar do macabro achad e tem muito pouco movimento. que lhr arrancaram diversos pedaços da carne já putrefata. a polícia não encontrou as vestes da vítima. moradOl do distrito de Itaqui. Casemiro Pietroski procurou logo avisar a polícia. distante vinte e cinco quilômetros de Curitiba. Assustado e enojado. Os primeiros exames realizados não evidenciam nenhum. em meio ao mau cheiro reinante. servindo de repasto aos urubus. morta.8DEMAlO BELA LOIRA DEVORADA POR URUBUS Na manhã de oito de maio. Uma mulher loira. deparou-se com uma cena tétrica. em Campo Largo. com vistas a estabelece' a causa mortis. torna-se necessária a realização da devida autópsia. aparentando vinte e poucos anos.e Curitiba. sendo de se supor que a bela loira tenha sido assassinada em outro local e ali jogada durante a noite . o lavrador Casemiro Pietroski. A estradinha de tern. atraído por nuvens de urubus sobrevoand. nem qualqur documento que facilitasse sua identificação. nua. porém. Ao locê compareceu uma viatura da delegacia de Campo Largo que providenciou a remoção do corpo para o Instituto Médico Legal d. como o corpo da bela jovem loira se encontra bastante bicado pelos urubus. encontrava-se caída de bruços. Vasculhando cuidadosamente a região pouco habitada. dirigiu-se para o local e.

silêncio total.Silêncio. Eu não escutava nenhum barulho vindo dos quartos. gente roncando. Pela pouca espessura dos tabiques de madeira. peidos. A loira roncava. E eu devia estar bem no centro do hotelzinho. tosses noturnas. como se esperaria num hotelzinho de encontros. pois nem os ruídos noturnos da cidade eu escutava. Nada. cercado de quartos dos dois lados do corredor sem nenhuma janela. seria natural que se ouvissem barulhos: gemidos de amor. .

um muro. Não há nada para ver. bem no centro. Minhas mãos tocam a plana lisura do vidro. A noite lá fora está tão escura quanto aqui dentro. Do outro. o oitão sem aberturas de um edifício alto. bem perto. a escuridão. uma baça luminosidade retangular. De um lado. Pequena janela sem serventia.Na minha frente. . Em frente. Pequena. também quase encostado. É uma pequena janela. Quatro vidros. o que parece ser uma das paredes do hotelzinho. ao fundo. Abaixo. um quebrado.

parecia um monte de roupa para lavar. o travesti que cuida da limpeza dos quartos). embrulhado no acolchoado do jeito que estava. .Estou te dizendo que está quase vazio. . Deve estar caçando. . o patrão.Ninguém comentou nada? -E quem? . Ninguém desconfiou quando tiramos para pôr no carro.Será que alguém ficou sabendo? . depois do acontecido. a mulher do patrão.Só quem ficou sabendo fomos nós (nós aí incluídos os dois interlocutores.Acho que. . não deixou nenhum sinal. . . Deixei a porta aberta para ventilar: para saírem os maus eflúvios: não é assim que se diz? . não é? . ficou com medo de passar a noite aqui.E a Shamanta até defumou o quarto todo: para acalmar o espírito da infeliz..Mas você não alugou para ninguém.Parece que é.Também.Cadê a bichinha? .E a Shamanta lavou tudo direitinho. o agente de polícia e Shamanta.

Um fino ferro redondo. onde pôr a mão. só o bocal vazio. Que merda. Cheiro de defumação nesse quarto. Como das outras vezes. nem precisei baixar a maçaneta de ferro redondo. Então me veio a idéia de ir abrindo a porta de todos os quartos. não quero ficar rondando a noite toda. um pequeno pedaço reto. Tudo fechado. que não sinto agora. Somente depois de passada a dor forte me levanto da cama e procuro no ar uma lâmpada. Merda. Em algum quarto deve ter luz. Que se danem. mãos para a frente. Será que tem gente dentro? Parece que esse corredor não era tão comprido: será que não estou onde pensei que estava? Uma porta aberta. uma pequena curva para cima. este pendurado no teto pelo fio elétrico. depois um pedaço reto maior. . Há quanto tempo estou aqui? .Pelo vidro quebrado entrava o vento frio. A porta estava aberta. Vou entrando devagar. ou alguém me empresta um isqueiro.Tem gente aí? Dou uma tremenda duma topada com a canela no pé da cama. provavelmente enferrujada.

acostumada com esses ambientes. o esperma deve ter escorrido de dentro dela durante o sono. TSK . Limpou os dedos em outra parte do lençol e somente então. . tateando o chão com as mãos. ela não se limpou. passa a mão pelo espaço vazio e sente. procura até encontrar uma bacia de metal. Procura seu parceiro.(ou não?) A mulher loira acorda durante a noite com vontade de urinar. sem sair da cama. um molhado gosmento. no lençol.ela faz com a boca. Depositado pelo homem não mais ao seu lado. muita bebida.

.Em que quarto mesmo você disse? -No oito. .

justamente no lado onde os degraus são mais estreitos. foi mais o susto de cair girando num abismo escuro. nenhum hóspede apareceu para ver o que acontecia. Degraus de formato triangular como um pedaço de pizza vão se abrindo em leque para baixo. Não me machuquei. O barulho da minha queda não provocou nenhuma resposta. quando vi estava sem apoio. Eu andava quase encostado na parede direita e entrei na escada em caracol. dificilmente a gente consegue caminhar em linha reta. .(ou 30-0) Rolei escada abaixo. nenhuma porta se abriu. Perdi o equilíbrio e rolei escada abaixo. Os degraus dessa escada em caracol giram partindo de um centro que é o canto direito do patamar formado pelo final do assoalho do corredor. Braços cansados. deixei de tatear as paredes. Na escuridão. tentando inutilmente me agarrar em algum ponto de apoio.

quando aqui cheguei com a loira me lembro. meu relógio está com a luzinha queimada e eu não conseguiria ver os números agora. Bêbado. Sei aonde pretendo chegar: na porta da rua. um velho casarão no centro da cidade. embaçadamente. de ter subido escadas. No escuro caminho no espaço e não no tempo. Desci escadas.Não olhei as horas quando acordei. num espaço que não compreendo. . subi escadas e continuo no mesmo lugar: na escuridão. Imagino que o hotel tenha três andares.

Declinou a escada ao lado da pequena portaria. Conhece o chão onde pisa e sabe que. pelos corredores do pequeno hotel. o caminho é menos cheio de meandros para chegar aonde quer. Na hora certa. Ele conhece o caminho.Há um outro homem que se movimenta. na escuridão. entre as inúmeras portas do hotelzinho ele saberá qual abrir. antes percorreu o longo corredor retilíneo do andar térreo e prefere subir pela estreita escada dos fundos. . por ali.

Haverá outros quartos abertos. não consigo abrir a veneziana nunca aberta. encontro uma janela. a vidraça abre para o lado de dentro e. Saio do corredor escuro e entro no quarto escuro. Procurando uma luz. . ora de madeira. Não me lembro se tinha janela no quarto da loira. É uma grande janela. ora de material. Vou falando: Tem alguém aí? Desvio a cama e vou passando as mãos pelas paredes.A porta está aberta. Espio pelas frestas e nada mais vejo além da escuridão. por mais força que eu faça.

Aquele zumbido continuado não é silêncio. Acho que vem dos postes de luz. não se escuta carro passando. na cidade. as gentes dormindo. Aquele silêncio todo e se ouve um zumbido contínuo como um apito de navio.De madrugada. Tudo está fechado. . há uma hora em que parece que tudo pára. bem baixinho. mal se ouve.

fumando. acendeu um cigarro e se deixou ficar ali parado. sozinho no escuro. em pé. talvez. Antes de subir a escada. . para não ter de reparti-lo com o porteiro. ele acendeu o cigarro antes de subir a escada e se deixou ficar ali parado.Ele fuma. Talvez por mesquinharia. no fim do corredor. no fim do corredor. apenas por vontade de fumar. talvez porque a maconha lhe aclare a mente sobre o que fazer ou. fumando.

eu faria uma tocha. chamas.Eu penso em fogo. Na verdade. Na verdade. não faria isso. . sinto frio. uma luz para me guiar. poria fogo nos jornais e me aqueceria. Se eu tivesse um fósforo e tivesse em mãos os jornais do banheiro. Se tivesse um fósforo.

sem nenhuma fotografia na primeira página. o nome da localidade aparecia grafado errado: Itaigüi.Outro jornal. noticiou que o assassino (ou assassinos) havia posto fogo no cadáver para evitar a identificação. Na notícia. . de menor circulação.

A Marilda já veio? . se eu for olhar para a cara de cada puta que entra . . .Tá a fim de fazer hora comigo? Já disse que ela não veio e não me encha o saco.Se você não olha para a gente.. Eu estava com o meu. com um velho.É tanta gente que aparece por aqui. Não tem mesmo um cigarro.Tesão.Não. . estou louca de vontade de fumar. .Tá gozando com a minha cara? Ainda ontem ela esteve aqui... como sabe que ela não veio hoje? . . . Faz dias que não aparece.Já disse que não.

Abro uma porta destrancada e vou entrando num quarto escuro.Fui no banheiro. . .Onde você andava? Só vejo a voz da loira e respondo: .

encosta a porta. .o outro homem vê que o 27 está escancarado. zelosamente. Quem deixou a porta aberta? Espia para dentro do quarto e.

Piso na bacia de metal que entorna seu líquido em cima de mim. O líquido gelado me entra por dentro dos sapatos.Deixa de frescura e vem de uma vez. Molha a barra da minha calça. em direção à cama. Não tem luz nessa porra. os meus pés.Pra que que você quer fósforo? Venha deitar logo que eu estou com frio. .É que está escuro.. . No escuro. .Você tem fósforo? . eu caminho na direção dela.

A mulher loira também não sabia onde era a luz. O outro me guiou até o banheiro. No escuro. atirei fora num grito. mas tinha fósforos na bolsa. onde eu sabia que encontraria papel. . com o nome do inferninho impresso em letras douradas: Le Labirinthe. Um custou a riscar e queimou meu dedo quando acendeu. A caixa tinha apenas três palitos. preta. me entregou uma caixa de fósforos de papelão. saio outra vez. Com a desculpa de me enxugar.

porém num lugar onde não possa ser vista pelo porteiro.. . Se deixou ficar ali. percebe uma luminosidade alaranjada movendo-se na escuridão. A mulher loira dorme. perguntou por perguntar.Está a fim de um programa. Sabe muito bem que. àquela hora. Quando seus olhos chegam na altura do piso do corredor. O outro homem sobe. lentamente. perto da pequena porta de entrada do hotel. mais uma vez. pela escada que leva ao corredor do banheiro. a notícia estampada no jornal do dia anterior. O porteiro noturno lê. dificilmente encontrará um freguês. sem roncar. bonitão? O passante não responde e continua seu caminho. A outra mulher pouco se importa.

Em preto e branco a fotografia da mulher loira caída de bruços. Estou acocorado junto ao foguinho e. Rápido. luz no fim do corredor. um barulho seco no chão cimentado. uma canela sem meia. a escuridão. onde cai. esfrego a barra da calça para secá-Ia. assustado.Qyhé bbohhar oohhô nnnohehll? Ao mesmo tempo que escuto a voz irada que não entendo. . com outro pedaço de jornal. em movimento vejo um sapato preto de cordão. No escuro. uma perna metida numa calça preta. . por outra escada e vejo. ao levantar me choco contra um corpo aflanelado grosso redondo que perde o equilíbrio e bate com estrondo na porta semi-aberta do banheiro. pela escada. mas as letras da reportagem estão em preto. manchetes impressas em vermelho. novamente. quando a outra escada termina. O sapato esmaga o jornal incendiado e. O jornal se encontra bastante amassado e o fogo do terceiro palito de fósforo começa a queimá-Io pela margem. eu corro pelo corredor.

toca a campainha do relógio-despertador colocado na parte de dentro do pequeno balcão da pequena portaria. Ao mesmo tempo. . precisamente quando os ponteiros marcam cinco horas.Trrriiiimmm.

. pequenos prédios com a mesma altura. bonitão? Nada respondo. e de que começa a amanhecer. na rua.A mulher fica dormindo. . Aparentando naturalidade. apesar da escuridão.Agora caminho mais devagar.Tá a fim de um programa. saio pela porta aberta e. procuro caminhar numa direção em que eu não possa mais ser visto pelo porteiro sentado atrás do pequeno balcão. caminhando por uma rua estreita ladeada de construções antigas. . apresso o passo e só então me dou conta de que estou ao ar livre.

encaminha-se para a pequena portaria.A outra mulher sente frio. Depois de alguma hesitação.A Marilda ainda não entrou? . entra e pergunta: .

.

o MIST[RIO & DA PROSTITUTA JAPON[SA MIMI-NASlILOIClII .~ .

.

piso de tacos de madeira cinza muitas vezes lavado. partindo da parede oposta à parede dos três degraus. O quarto já é pequeno e. Essa parede não chega a se encontrar com o final da parede construída a partir do lado da porta de entrada do pequeno quarto. Um vão sem porta. Conhece o caminho. essa parede acompanha os três degraus e termina pouco adiante de onde eles terminam. Essas duas paredes. pintado de vermelhão. partindo do lado da porta. Traçando um cubículo. Ocupam um pequeno espaço dentro do pequeno quarto do hotelzinho de rendez-vaus. que não se encontram e não alcançam o teto baixo. o chão do banheiro minúsculo é cimentado. formam um cubículo sem portas. 185 . Diferente do piso do pequeno quarto. acompanhando os degraus. A prostituta japonesa vai na minha frente. Dentro do pequeno quarto. nunca encerado. outra parede avança. Hotel de rendezvaus. construíram uma parede que não chega ao alto do teto baixo do pequeno quarto.o quarto do hotelzinho barato. dentro do já cubículo que é o pequeno quarto. formando um minúsculo banheiro. uma escadinha de três degraus descendo para nele se entrar.

Eu coloco a pequena e úmida to~. talvez uma V2. vidros pintados com tinta branca fosca grossa. Um olho pode estar à espreita.: mesinha-de-cabeceira.um pouco .1 ponesa me conduziu pelo labirinto cheirando a mofo. com a chave na mão.. através da abertura sem porta do pequeno banheiro. sobra mesmo lugar para uma mesinha-de-cabeceira. Nos dois lados da cama o espaço é um pouco maior. só existe uma posição possível para a baixa cama de casal. 'c Seguindo sempre adiante. outro negro corredor cortado em cru: por outro corredor sem luz. depois à direita. Do outro lado da cama. Deitado na cama.. Muitas vezes trilhadora do labirinto.' randa. Como é escura esta noite sem estrelas! Um corredor de paredes sem portas e a porta do pequeno quarto.a passagem é o vão sem porta. que deve ter sido levada para outro quarto de hotelzinho barato. vejo diante L~::: mim. Por portas fechadas. Pequena janela basculante. a janeL basculante com falhas na pintura. Não sei dizer para que: parte do hotelzinho barato dá esta janela basculante. A cabeça no edredom tan . não sobrou lugar para a outr. cor vermelha: a cabeceira encostada na parede oposta ao pequeno banheiro. bém coberto com o mesmo tecido brilhante da mesma cor vermelh da colcha. Eu não saberia reconstituir o caminho que nos conduziu da portaria do hotelzinho barato até este pequeno quarto. que foi colocada no lado diante dos degraus. um pequeno pátio mal iluminado pela noite. um longo corredor e5' treito.Pelas dimensões do pequeno quarto. O que facilita . A única janela do pequeno quarto fica no pequeno banheiro. a prostituta .' lha de ralo tecido sobre os vidros pintados e consigo a privacidade é pequeno quarto do hotel de rendez-vous. que abre um espaço defronte à metade dos pés da baixa cama de casal. exatamente frontal à abertura sem porta. a prostituta japonesa caminha adiante de miIr pelos caminhos escuros. Foi ela a pL meira a entrar no pequeno quarto às escuras e a me alertar: 186 . uma negra sala sem portas.. coberta pela colcha de tecido brilhante. uma escadaria qUe sobe à esquerda.

de cor de rosa~maravilha. Existe. Tinta fosca aguada. Antes. cor vermelha. cor de rosa~maravilha novamente no teto. do pequeno quarto. Dali ao teto. sem forro. Com a mangueirinha. sem chuveirinho. al~ cançar o teto de alvenaria. e no sexo de pouca penu~ gem. A prostituta ja~ ponesa se lava utilizando a mangueirinha do chuveiro elétrico. Não sei se ela fala para mim ou para ela. As paredes. sem espuma. eu estou deitado por cima da colcha de teci~ do brilhante. também. avermelhada. Pas~ sa sabão entre as coxas largas. ajuntadas. fraca. eu posso. 187 . O chuveiro elétrico fica no espaço do pequeno banheiro visível para mim. preso ao fio que pende do teto sobre a baixa guarda da cama. todas as paredes do pequeno quarto e do pequeno ba~ nheiro. até meia altura. em forma de pêra. cobrindo não sei quantas pinturas an~ teriores. manchada. são pintadas. Mas não quero.Mesmo na escuridão. dirige o jato d'água para retirar o sabão. estendendo as mãos para o alto. Em pé. Dirijo o meu olhar para a prostituta ja~ ponesa que se lava no pequeno banheiro sem porta. a cor é verde~clara. suas mãos sabiam onde encontrar o comu~ tador de luz. se quiser. apenas a baça luminosidade atraves~ sando os vidros pintados da janela basculante tomava o pequeno quar~ to. Agora uma pouca luz amarelada. Já sem roupa. uma pequena pia bem embaixo da janela basculante.

Na parte que não posso ver do pequeno banheiro fica o vaso sanitário. Primeiro acaricio. acaricio o bico do seio. Cor de chá. ao lado da cama. Meu sexo encontra seu caminho sem que ela auxilie com a mão. sem que ela o toque. estufado. Eu poderia beijar seu sexo. Por instantes. Não estou mais beijando o seio. Melhor apanhar o rolo que está em cima da mesinha-de-cabeceira. Não fosse por um lento respirar. redonda achatada como em todas as mulheres orientais. acaricia novamente a parca penugem. mas não. Subo a mão até os seios. poma total.E eu é que sei? Nunca estive antes neste hotel de rendez-vous. silencioso o corpo ao meu lado. Permaneceu. Nem moça. eu diria completamente imóveL Contudo. Mas permaneço ainda dentro de seu corpo. pequeno traço de poucos pêlos. na cama. me parece imóvel somente na superfície visíveL Eu diria que por dentro dele existe toda uma mobilidade . molhado pelos respingos do chuveiro. como uma fotografia. só com a ponta dos dedos. talvez? Talvez. Depois. é para deitar ao lado dela. A prostituta japonesa já está deitada ao meu lado.tranqüila? Viro o corpo para o corpo nu da prostituta japonesa. Imóvel. não dela. enquanto minha mão desce. Se houve algum gemido. cor vermelha. foi meu. não sinto mais o cheiro úmido da colcha de tecido brilhante. Não sei dizer. por cima da colcha de tecido brilhante. Ela não disse nem um gemido. aperto. Com a mão esquerda. Não beijo. o rolo de papel higiênico. Impossível de usar. beijo. meu sexo enrijece. mordisco sua orelha. Deito sobre ela. nem velha. permanece 188 . Preso por um arame. Meu dedo busca a greta ainda seca. sugo. na hora do gozo. somente o úmido bico. Penetro-a. encosto meu rosto no dela. O gozo me vem rápido. nem uma palavra. cor vermelha. Quando retiro o meu corpo. Difícil dizer a idade das mulheres orientais. e meu travesseiro é o seu seio esquerdo. começo a afagar os poucos pêlos pretos macios do seu monte-de-vênus. Não sei o que ela sentiu. Uns trinta. que sinto enrijecer. Por si. Então. sua pele lisa sem pêlos contrasta com a brancura do meu corpo peludo.

corredores. Mas teria mesmo gozado? Não deu nenhuma demonstração. Levanto a cabeça e olho para ela. eu não sei dizer. a porta aberta. A prostituta japonesa segue ria frente. escadas. seu coração está batendo tão esquisito.Nossa. Seu coração bate rápido e descompassado.c?J: Não demonstrou. pele lisa sem pêlos. Eu diria que ela está completamente imóvel. Coração batendo forte. Agora ela lava o sexo com mais cuidado. Será que ela diz a verdade? Fico só olhando.Vamos embora? A luz do pequeno quarto fica acesa. conhecedora dos caminhos. Imóvel somente na superfície visível do corpo cor de chá. Eu é quem falo: . Dirige a mangueirinha diretamente para a pequena fenda de pouca penugem. ela olha não sei para onde. 189 . Quanto tempo ficamos assim. põe as notas dobradas na bolsa. Depois de vestida.. suave montede-vênus de parca penugem. Inquieto? . é difícil dizer numa mulher orientaL Não conta o dinheiro. - Verdade? - (iÁ. pátios e terraços que levam de volta à portaria do hotelzinho barato. pago a ela o preço combinado. Reparo que ela não conta.silenciosa e não sei para onde olha.

A comissão por ela ter trazido um freguês para este hotel. . qualquer coisa assim. na porta do hotelzinho barato. Se for verdade que ela gozou. Mas interrompo: -Vamos? 190 'i>t: UD ~:.JJ"l =. tipo havaiana. Meio velhusca. se demora na portaria discutindo com o chinês de óculos.?'Lin. ela não deu demonstração de nada. a voz de uma encobrindo a da outra.chinês . pintados de amarelo. na rua em frente à porta de entrada do hotelzinho barato.. Nem dá para entender o que elas conversam e riem. Será mesmo que ela sentiu prazer? Uma prostituta? Ou disse aquilo apenas para me agradar. formas roliças. gozei rápido. nem para o do lado. para conquistar um freguês? Para que eu volte outras vezes? Sou limpo. apenas entrega uma nota amassada à prostituta japonesa. barrigas e nádegas querendo romper o vestido justo.é um chinês? .Escuta. se tocam e falam rapidamente. Estamos fora. Não é japonesa.Quer tomar alguma coisa? Vamos num barzinho aqui por perto? Antes da resposta.. não reclamei do quarto. devem ser muito amigas. Tem mais jeito de turca. parte do que paguei pelo pequeno quarto. Cabelos amarelos.de óculos da portaria nada responde. Eu quero ficar mais tempo com ela: . Não é comum uma prostituta sentir prazer com um freguês. As duas se conhecem. risos. Riem. peitos. um velho de camisa florida. sai sozinha do hotel outra prostituta. de pouca conversa. e não para o da frente. Algumas fingem. O freguês dela. Um bom freguês. síria. o . quero possuí-la mais e mais vezes.kf(Q) Fica para outra vez . É dinheiro meu.

mas sei que nunca mais verei a prostituta japonesa. mas para conseguir do traficante uma informação que. Nunca encontrarei uma resposta que me satisfaça. O freguês da outra prostituta sai agora do hotel.. Sai gesticulando. Quantas vezes sentirei na boca o gosto oleoso do gim que vendem por aqui. Algumas vezes fumarei haxixe. nem saberei se ela sentiu prazer comigo naquela noite escura. Quero segui-Ias. Às vezes. Eu fico perto da porta do hotel. Muitas vezes dormi com outras prostitutas no mesmo pequeno quarto do hotelzinho barato. parado. Essa foi a última vez que . pensando. Já se afastam as duas. A prostituta japonesa passa a mão no meu rosto. penso que sim. 191 . às vezes. conseguida. Penso em alcançá-Ias. Caminharei tantas vezes por esta mesma rua. Ainda estendo minha mão aberta. falando sozinho. Entra num táxi e some de vista.. nervoso. três ou quatro vezes deitarei num catre e acenderei o cachimbo de ópio. afobado à cata de um táxi. Afaga meu rosto. não para meu uso. como uma despedida. Uma vez comprei cocaína. Um gesto. Parece querer ir embora logo deste lugar. Será que ela gozou mesmo? Eu voltarei outras vezes. mas elas já tomam um táxi que passa pela rua. penso que não. Entram rindo.Riem muito as duas. mostrou-se sem proveito. este mesmo bairro de prostituição.

MIMI-NASIII-OICIII .

o monge sem orelhas. ficou famoso como contador de histórias que contava se acompanhando do biwa. Oichi meditava no jardim do mosteiro quando escuta uma voz dizer: "Ouvimos falar de seu talento como cantador de histórias . os olhos não seguravam as lágrimas." 195 ..contava histórias.. ".. quan~ do o canto era triste. "Hai.Meus nobres amos sabem de sua fama e ficariam muito honrados se o senhor fosse contar para eles a triste história da batalha de Dan-No-Ura. esta noite.uma espécie de violão japonês.. instrumento muito antigo . .- E você teve medo? ... Numa noi~ te de inverno.O que é biwa? . Di~ zem que à sua palavra e à sua música todos faziam silêncio e... acompanhando os versos ao som do biwa. pobrezinho.. . como vou te explicar? . O jovem noviço.Oichi. cego. Oi~ chi..." "..

Passos pesados metálicos. batalhas 196 .Nesta noite ninguém pode dormir: Lua cheia. Ouvia o assobio das sedas dos quimonos. é nuvem branca? Branco-cinza? . redondo como a Lua. Ele era cego de nascença? Sim. bem longe estavam do mosteiro.O que eles enxergam é uma mancha esbranquiçada. . Oichi imaginou que devia ser um lugar bem grande. .Das guerras do Japão medieval.Oichi ia seguindo os passos. porque caminharam por várias salas enormes. começou a evocar com seu canto os tristes versos da batalha de Dan-No-Ura. Como na televisão. Foi no século XII: no Ocidente aconteciam as cruzadas. Eu li uma vez que os cegos não enxergam tudo preto. Oichi sentia que muita gente estava ali. Apesar do silêncio reinante. As famílias rivais. Depois de muito caminhar. banhos de sangue.Tudo fazia crer um rico palácio. Quando chegaram.Um palácio? . disputavam o poder. uma nuvem pousada no teu seio. no Japão havia entre os senhores feudais muitas lutas pelo poder. Colocado no centro do salão. Minha mão. como os de um samurai vestindo sua armadura de guerra. oculta-te como puderes no meio das chamas). Época de guerra civil (conduz teu cavalo sobre o fio duma espada. Tomou seu biwa e seguiu os daquela voz desconhecida.Que batalha é essa? . Taira e Minamoto. Já reparou que o preto da televisão nunca é preto. Na noite escura não sabia para onde estava sendo levado. . passos - Oichi não pôde recusar o convite. A luta entre os dois clãs durou quase duzentos anos.

Quem venceu. a maior batalha naval que o Ja~ pão assistiu. Os comandantes se amarram nas âncoras de seus barcos e soltam as correntes. o assobio metálico das espadas nos combates das abordagens. . O fogo.incontáveis.Os Taira tinham o maior número de navios. muitas obrigações ele devia aos Taira. Quando per~ ceberam que o branco estandarte do inimigo tremulava nos mastros de seus próprios navios. O coração vermelho de Shigeyoshi hesitava em se passar para os Minamo to. pensaram em nuvens. Os Taira ainda mantinham a esperança de vitória. a princípio .quando viram o branco flutuando nos céus. a fumaça dos canhões. Nuvens. Exército dos Minamoto estandartes brancos como aço. levando seus barcos para o inimigo. Os que não têm coragem de cometer suicídio são mortos pelos companheiros de armas. Às vezes os Taira dominavam. - E como foi a batalha? .O choro. . seu aliado. para não cair nas mãos do inimigo. mas um senhor feudal. bandeou~se para o lado dos Minamo~ to. mais de mil navios em luta. outras vezes os Minamo~ to venciam. Exército dos Taira estandartes vermelhos como sangue. Os tombadilhos das embarcações tor~ 197 . . o canto fúnebre tomou conta dos navios dos Taira.Acende o meu cigarro. Pela vergonha da derrota. Shigeyoshi. A batalha seguia feroz. seus guerreiros se atiram nas águas. quem perdeu? . veio a certeza da derrota.No estreito de Dan~No~Ura. afundando com o peso das armaduras.

Teu corpo é água onde me sustento.Quando Oichi termina de contar os últimos versos. é pequeno como um grão de arroz e agora é um imenso vale de miséria Mais abaixo das ondas há outro país onde não existe a tristeza É para lá que te levo.Tennô. a voz de uma velha aia: "De tua fama sabíamos. .Não sobrou ninguém? Teu corpo nu Agora flutua no lençol transparente como água Sal. vovó? O Japão Pequeno Antoku. os cortesãos. .. só escuta o silêncio de lágrimas pressentidas. . . Em todo o Japão não existe artista tão perfeito. de sete anos. O mesmo samurai que te trouxe aqui esta noite irá te 198 . Aonde me levas. . a avó se atira no mar tinto de sangue e salgado de lágrimas.. Sem ter quem as governe.nam-se rubros de sangue. venhas repetir o canto da batalha de Dan-No-Ura. Depois de muito silêncio. A avó tomou-o nos braços e com ele se encaminhou para a amurada .. da beleza de teu canto sequer podíamos suspeitar. buscam a morte. por mais seis noites. todos em lágrimas. Oichi.Com o menino nos braços. Meu amo pede que... Os marinheiros. Antoku-Tennô. durante o tempo em que ele permanecer aqui. as velas dos navios explodem ao vento.Nem mesmo o menino imperador. Como teu corpo é bom. os servos.

como espectadoras do canto triste. dormiu o dia inteiro. voltando para o templo. No cemitério de Amidaji estão sepultados os derrotados da batalha de DanNo-Ura. sem sentir a neve que começava a cair. Envolvido em seu cantar. nem ouvir os gritos dos monges. Mas meu amo viaja em segredo e ordena que não contes nada a ninguém. os monges vêem Oichi. manda que os monges o procurem. que têm de arrancá-Io do lugar onde está. Exausto. pela manhã. agora. Arrastado de volta ao templo.. Sobre o sino do templo repousa e dorme a borboleta noturna. Quando Oichi voltou ao templo. E. Uma longa noite de buscas. Aterrorizados. Já pela madrugada. as chamas espectrais dos fogos-fátuos. esquecido de suas obrigações. Nunca . Na noite seguinte. sentado diante da tumba em memória do pequeno imperador Antoku-Tennô. corres grande peri199 . sem que ninguém veja. O abade o interrogou. encontrou os monges aflitos com sua ausência. Oichi não parece sentir a neve. e novamente ele canta a batalha de Dan-No-Ura para a silenciosa platéia. notando que Oichi não está em sua cela. no cemitério de Amidaji. Por sobre as outras tumbas. mas ele respondeu com reticências e nada revelou sobre onde estivera.. pobre Oichi. que lhe revela a verdade: "Oichi. és livre para partir".pegar. O abade. Oichi é levado à presença do abade. o mesmo samurai vem buscar Oichi. Bastante para vergar as folhas dos junquilhos . os monges escutam os acordes do biwa e a voz de Oichi. Primeira neve. cantar exaltado a história da derrota dos Taira. Oichi reclama: Como ousam interromper meu canto para tão nobres senhores?!".

levaste teu canto para os mortos e eles agora são donos de ti. Ao final da sétima noite. o samurai-fantasma não encontra o que veio 200 . que te farão invisível aos demônios". protegerei teu corpo com os textos de Buda. despedaçarão teu corpo e tu passarás a penar por toda a eternidade. Dos olhos cegos de Oichi correm lágrimas de medo. antes de ir. Sentindo~ se protegido. da escuridão da noite surge a voz profunda. metálica. Te enfeitiça~ ram. no corpo nu. Esta noite. Todo o corpo de Oichi foi coberto com as palavras de Buda. como um fan~ tasma. Escuridão de outono. eles te matarão. o biwa ao seu lado. Os monges partiram.go. não pode~ mos ficar no templo para te vigiar. Esta estrada sem ninguém nela. o abade escreve com pincel os sagrados textos do Prajna.Paramita. Passos pesados. e esperou meditando sobre a vida e a morte. é de ira. Oichi sentou~se no pórtico do templo. A mudez de Oichi como resposta. Por duas noites. que o tornariam invisível aos demônios. Os monges tiram a roupa de Oichi e. Tudo é mutável. A voz. agora. Aproveitando~se de tua cegueira. os fantasmas dos mortos na ba~ talha de Dan~No~Ura lançaram encantamentos sobre ti. de ódio: "Oichi! Oichi!". O abade pros~ segue: "Precisamos quebrar o encantamento. Não obtém resposta: "Oichi! Oi~ chi!". chamando: "Oichi! Oichi!". Mas. escravo dos demônios". só poderá haver a bem~aventurada paz quando se puder escapar da agonia da vida e da morte. tudo aparece e desaparece. temos de atender um serviço re~ ligioso na aldeia.

seus passos perdendo-se na noite em direção ao cemitério de Amidaji. encontram Oichi se esvaindo em sangue. As mãos enluvadas de ferro do fantasma agarram as orelhas de Oichi e puxam ferozmente. Oichi reza para não gritar de dor e revelar sua presença. Ao cobrir o corpo de Oichi com os textos sagrados. ficou livre para sempre dos demônios. Muitas vezes chamei Oichi e ele não me respondeu.buscar: "Vejo um biwa abandonado e não encontro o trovador. Vejo somente suas orelhas e vou levá-Ias para provar ao meu amo que aqui estive cumprindo minha missão". Foi medicado e se salvou. Tornou-se monge e viveu ain201 . o abade esqueceu das orelhas. Suas orelhas são arrancadas e o samurai-fantasma sai carregando-as. foi só o que o fantasma viu e carregou para o mundo dos mortos: duas orelhas. mas vivo. conforme o combinado. Quando os monges voltaram. O sangue escorre. não está aqui.

Não. Orvalho deste mundo orvalho deste mundo.Medo não tive. medo não. 202 . naquela noite chuvosa. o cantador cego ficou conhecido como Mimi~Nashi~Oi~ chi.. Ah.. Tristeza grande. Medo eu não tive. o passado. tristeza. Sim. mas me deu uma tristeza grande. O tempo onde se acumularam os dias lentos . Eu era muito pequena quando minha avó con~ tou a história de Mimi~Nashi~Oichi. e no entanto . sem dúvida. que acho que até chorei.da muitos anos para poder cantar em versos sua desventura. era uma noite tão fria. o Sem Orelhas. Desde aquela noite.E você teve medo? . . Oichi. lágrimas.

)rta aberta .)s + () mistéri<.13 mistéri<.) da p<.

para quem foi Marlene e para Josely Vianna Baptista e Cláudio Lacerda .

Uma mentira minha vale por dez verdades tuas. Dito por um criminoso no programa do Algaci Túlio .

. . . . . . . . .. . . .. . . . 259 O misterioso homem-macaco Como tudo começou . . .SUMÁRIO o mistério da porta aberta. . 265 Mistério mágico . .. . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .Um mistério Um mistério no trem-fantasma Mistério Sapho O amor entre as mulheres DELE 281 293 305 O mistério dos sinais da passagem de Curitiba pela cidade 317 . . . . . . . . . . 233 241 247 253 O mistério do gato preto e da gata gorda . . . . . . 211 219 Mistério números Mercúrio mistério.. .. . . . .. . . . . Sônia O mistério da Sonâmbula Mistério do menino morto Um mistério . . . . . . . . 273 A cadeira do diabo .. 227 Os fantasmas do fundo de quintalO mistério teu. . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .

() mistério da porta aberta .

Portanto. antes de criarmos a necessária coragem para entrar.na verdade entreaberta.. No escuro desconhecido nunca sabemos onde se encontram as cadeiras. porém sem muita consistência. por menor que seja a abertura. Até certo ponto essa argumentação é válida. Às vezes um mistério exasperadamente simples como a localização dos móveis. Nada podemos ver em seu interior. fechada ela não está. ou mesmo pânico. as poltronas. Outra hipótese: a porta se abre para um ambiente iluminado. Através de uma porta aberta. O que nos espera lá dentro? Sentiremos medo. as mesinhas de centro e podemos tropeçar nelas. Sendo assim. Nem mesmo num recinto bastante conhecido ousamos penetrar sem antes apertar o comutador da luz. Uma porta pode estar aberta para um recinto às escuras. uma porta entreaberta sempre será uma porta aberta.. está aberta. Se ali percebermos qualquer coisa estranha. Observe pelo tempo que julgar necessário a porta mostrada abaixo: Pode-se argumentar que uma porta aberta não apresenta mistério algum.. pois a escuridão sempre nos sugere um mistério que precisa ser aclarado. simplesmente não entraremos. nos machucando. sempre conseguiremos ver o interior para o qual ela se abre. nenhuma visão de perigo que nos possa causar medo. Mas muito ou pouco aberta uma porta. Vi213 .

sim.em inglês bull-dogsignifica cão-touro. imóvel. Entre as duas. tudo nos leva a crer que se trata de um expensivo objeto decorativo.adentrando. Talvez seja uma dessas estátuas de porcelana habilmente pintadas. Estou sentado a meio caminho e. sem tempo de fugir? Temos medo. Uma na parte de baixo da porta. uma pequena lareira de mármore. tapetes pelo chão brilhante. grandes vasos com plantas. poltronas. nas paredes. Esta. quadros representando paisagens. e nos janelões. cortinas de veludo. Sofás. apoiado em suas patas dianteiras se posta um enorme cão. reproduzindo com fidelidade a imagem do animal. Outra no meio. fechada. Como ele nos receberá quando entrarmos na sala? Avançará sobre nós e seremos estraçalhados por suas presas afiadas. com a chama levemente inclinada para a direita . Eu estou sentado numa cadeira contemplando a porta aberta (entreaberta) para a escuridão. neste ponto do vestíbulo da casa. animal conhecido por sua ferocidade . um buldogue.sível uma ampla sala muito bem mobiliada. Não tenho inimigos. e me faz medo. perto da moldura. Vejo claramente as três velas. sem contudo aclarar a escuridão do local desconhecido para onde a porta se entreabre. Atrás de mim outra porta que dá para a rua. a terceira vela. junto à lareira. sangue e ossos. mais ou menos na altura da maçaneta. A porta da rua fica exatamente defronte da porta das três velas. é possível que seja alguém querendo me assaltar. com sabe-se lá qual intenção. a força desse 214 . Na parte de cima. com sua chama derivando para a esquerda. uma distância de quatro a cinco metros. pronto para atacar o primeiro estranho que ouse penetrar na sala? É um mistério que precisaremos resolver se quisermos entrar sem riscos na sala aconchegada. assim como se alguém estivesse forçando a porta para invadir a casa. Não tenho inimigos? Nestes tempos de agora nunca se sabe do que as pessoas são capazes. vigilante. sinto uma forte corrente de ar circulando entre as duas portas. Me assusto com barulhos fortes e continuados na porta da rua às minhas costas. Por certo. Porém. mesa de centro. Bem ao fundo. aparador. talvez não seja um cão de carne. e até mesmo tirar minha vida. Como é noite e estou sozinho nesta casa. Barulho cadenciado como o soar de tambores. Barulhos. com a chama queimando normal para o alto. E se for mesmo um cão feroz. O barulho ritmado da folha da porta da rua chocando-se violentamente contra o caixilho me assusta. em grandes molduras douradas. a imobilidade pétrea do cão. A riqueza do mobiliário.

Apesar de ser difícil alguém se mostrar calmo com esse soar de atabaques. apagadas pela força do vento. Mas e a porta das três velas? A descoberta de uma forte corrente de ar. E tenho medo daquilo que não posso compreender. Tenho medo de atravessar a porta das três velas e penetrar na escuridão. Como também não é normal as três chamas tomarem direções diferentes. Porém não é isso o que acontece. Não comprendo. as vidraças dajanela estão fechadas. ela estivesse indicando a alguém indeciso qual o rumo a tomar. Observe novamente as três chamas: uma se volta para a esquerda. segue a regra estabelecida: as portas se abrem sempre para o lado de dentro. mas sempre para dentro. até . a porta da rua está fechada à chave. nunca para a rua.para os estranhos barulhos. logicamente as chamas das três velas deveriam estar todas voltadas em minha direção ou. contudo. O forte sopro de ar vindo da porta das três velas me provoca calafrios. muitas vezes as portas dos cenários se abrem para fora. Para esconder o fundo. evitando a construção de novos cenários. dando a impressão de alguém tentando arrombá-Ia. ou para facilitar o deslocamento dos atores e das câmeras. aberta uma porta. a colocação de portas obedece a um princípio imutável: as portas sempre se abrem para o lado de dentro! A porta de uma casa sempre se abre para seu interior. num convite para entrarmos. A de um quarto nunca se abre para o corredor. outra para o alto. Desde tempos imemoriais. Se o sopro gelado oriundo da escuridão passa por mim para se chocar violento contra a porta da rua.vento é que faz a porta da rua sacudir violentamente. e também as venezianas do lado de fora. a chama de uma vela queima para cima. Não é normal. no teatro e na televisão. Quando não há vento. vinda da porta entreaberta. então. perco o medo. Quando me apercebo disso. aumenta para mim seu mistério. 215 . A vida real. artes da representação. É como se. Isso somente no mundo da fantasia. Todas deveriam estar queimando para o alto.científica. Desfaz-se este mistério e perco o medo dos golpes. Ou estivesse dando a ordem: entre! A exceção a essa regra universalmente estabelecida se encontra no cinema. tenho uma explicação racional . na vida imaginária. outra para a direita. sempre. e as cortinas no interior. E não poderia haver correntes de ar neste vestíbulo.

Não sei.a escuridão atrás da porta entreaberta . É lógico que prego. para não se tornarem visíveis e se confundirem com a escuridão. A vela de baixo parece ser a única assentada. seria preciso ter a resposta da primeira. nem eu nem você. teatros ou em qualquer casa de espetáculos. Imagino que um estilete de ferro ou arame grosso fixado no centro da vela funcionaria como haste.um susto é capaz de matar quem sofra do coração.Quando se planeja a construção de uma casa. nenhuma lei física explica isso. etc. o que afugentaria possíveis inquilinos. Não estamos. O que sustém as três velas no ar? Certamente. Quem? Por quê? Para respondermos a primeira. Nem precisaria ter alguém segurando: um prego afixado na sambladura da porta serviria como haste. Caso haja algum truque com as três velas. arame ou estilete deveriam estar camuflados com tinta fosca preta. um inimigo certamente arquitetaria algo semelhante .? E para respondermos a segunda pergunta. os números de mágica são apresentados sempre com uma cortina preta ou de cor escura ao fundo. A própria posição das velas flutuando no ar já é um mistério em si. evita-se que janelas e portas se localizem em pontos que possam formar correntes de ar. Escondida atrás da folha direita da porta. Porém uma observação mais atenta nos mostra que ela se eleva uns dois ou três dedos acima do chão. precisaríamos ter a resposta da segunda: por quê? Me assustar? Fazer alguma brama comigo? Induzir-me a participar involuntariamente de alguma cerimônia mágica? Etc. Talvez esse mistério das três chamas possa ser explicado por alguma lei física que eu e você desconhecemos. uma pessoa de mão firme sustentaria a haste dando-nos a ilusão de que a vela se mantém flutuando no ar. Algo relacionado com a pressão atmosférica. O mistério é como três correntes de ar vindas do mesmo lugar . duas perguntas surgem. Como estão todas quase encostadas na folha direita da porta. Um truque mágico pressupõe a existência de alguém capaz de imaginá-Io e executá-Io. Sem dúvida nenhuma. podemos até pensar em algum truque.podem tomar três direções distintas. isso não é segredo para ninguém. É de se notar que em circos. um estranho ligado a alguma seita ou religião aleivosa teria a ousadia de me enredar num maligno ritual 216 . etc. ou com os gases gerados pela combustão das velas. Isso muito ajuda a dissimular a aparelhagem e os fios utilizados nos truques. familiarizados com os mistérios da física. Algum amigo faria essa burla de mau gosto comigo? Para me assustar.

As três velas são o bastante para provocar este odor característico de câmara mortuária. um louco encontraria razões suficientes para invadir minha casa e armar este estranho altar. Talvez haja uma explicação bem simples para isso: são velas artificiais. Velas queimando ajudam a medir o tempo pelo seu lento mas inexorável desgaste. Não posso afirmar quando. Outra coisa me inquieta. de velas se queimando. enjoativo. persistente. Já estou aqui há algum tempo e o tamanho das velas mantém-se o mesmo. Tubos metálicos sem pavio. parece-me sentir um cheiro agridoce. mas isso não interfere na posição das chamas. O vento parou de repente. Sei. Velas artificiais. pintados de branco. nem eu nem ninguém ousaria entrar. porém. Sinto seu calor tomando conta desta peça da casa. Por vezes. Talvez da escuridão atrás da porta entreaberta se origine esse cheiro nauseante. Incenso. Pegajoso como o calor abafado que sentimos em ambientes fechados com velas acesas. Seja o que for. que em algumas cerimônias religiosas primitivas costumam queimar incenso e estranhas ervas. As chamas não consomem as velas. calor de decomposição. nesta parte da casa. Assim. Sinto-o em torno de mim. É como se o tempo não passasse. A fumaça embriagante e fétida assim expelida força o transe místico dos celebrantes e apressa sua comunicação com os espíritos. talvez. Porém as três velas acesas à minha frente mantêm-se intactas. como se usam agora nos velórios.à luz de velas. assim como não sei dizer quando começou. Desnecessário olhar à minha volta para ver que a única coisa em combustão. me parece que o propósito maior é impedir ou retardar a minha passagem pela porta aberta (entreaberta). contendo o gás que alimenta as chamas. Como explicar. e o cheiro quente. 217 . e você sabe. Mas e se não forem? Não sinto cheiro de gás. são as três velas. Em sua mente doentia. o pegajoso cheiro de ervas queimando? Durante o tempo que estou aqui não acendi nenhum cigarro. como de ervas se queimando. E se eu ousar? Conseguirei passar com vida pela porta das três velas? E o que encontrarei na escuridão lá dentro? Preciso de respostas para essas perguntas. Mas quem e com qual intenção poderia estar oficiando um ritual mágico na escuridão por trás da porta entreaberta? E eu? Como posso exorcizar o desconhecido? O vento parou de repente. que continuam queimando em diferentes direções. me abraçando entre meu corpo e minhas roupas.

devo largar a caneta e o papel. arrombando-a. de volta à rua. Depois. Se eu me levantar desta cadeira. Sozinho tenho que aclarar este mistério. Ao abrir a porta e adentrar neste vestíbulo. Pode? Memória da infância. Ou. acender o isqueiro que trago no bolso e aclarar a escuridão. posso jazer como jazia quando menino: umedecer com a língua a ponta do polegar e do indicador e. com eles. E eu tenho de resolvê-Io. basbaque deslumbrado. derrubando pelo chão as velas e tudo o mais que tiver. em nada pode me ajudar. Tampouco me encontro num templo de cultos primitivos. Nem sou eu um alienado espectador. tomando vida somente com a minha chegada. não estou num velório. do lado direito . Esta é minha casa. os mesmos móveis. Cuja chave trago sempre no bolso.Contudo. tenda de culto ou coisa que o valha. apertar as chamas. Não foi o que aconteceu hoje. devo e vou fazer alguma coisa. Para isso. No entanto aí está. sem mistérios. já vi. os mesmos ambientes familiares dos quais faço parte. de noite. sim. 218 . Devo deixar de me comunicar com você que. Ninguém. e descrever para você aquilo que aconteceu. Abri a porta da rua sabendo o que ia encontrar. A mesma disposição das peças. à hora que eu chegasse e abrisse a porta da rua esta casa me acolhia. esse mistério. Não é uma casa de loucos. E olhei bem para confirmar se eu estava na mesma rua. Inanimada. sempre a mesma. preciso me levantar desta cadeira imóvel. Posso. Depois. Tenho. a casa que me acolhe sempre. então. na qual eu quis entrar e entrei. Esta é a minha casa. De dia. Para isso. aleijado. a casa me recebeu como a um estranho. Somente eu carrego a chave da casa. Muitas coisas posso fazer para resolver este mistério idiota. Posso. barraca de feira. truque.gesto tantas vezes repetido. posso penetrar na escuridão e buscar o comutador da luz. sem dar atenção às velas. apagando-as. posso retomar a caneta e o papel. Sou o que sou. Sem novidades. Posso e devo. Você não pode me ajudar. Que sempre encontro ajuizada. cheguei a dar três passos para trás. Quando me deparei com a porta entreaberta das três velas. Com um pontapé posso abrir a porta entreaberta. à minha espera. broma ou seja lá o for esta invasão das três velas ardentes. dentro da minha casa. Eu sou eu. quando eu me levantar desta cadeira e me encaminhar em direção da porta entreaberta das três velas. ninguém poderia ter entrado e armado esse altar. na mesma casa.

Mistério ~ numeros .

algumas entreabertos. Na cabeça tem como touca um pano branco que esconde a cor de seus cabelos. São Marcos e São as cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo os primeiros selos que o Cordeiro abriu no Apocalipse as sete cartas que. respeito e procura de intimidade com Nossa Senhora das Dores. como também para demonstrar toda a sua fé. Usa grossas meias longas de lã cinza. Agarrada firme na imagem de Nossa Senhora das Dores. outras mantêm os olhos fechados. a mulher. Lá no alto. Amparada estou em vós. traja um vestido comprido de tecido grosseiro acinzentado. Umas entoam cantos alegres. Reza a santa reza: Abraçada estou em vós. e calça rústicas botinas de couro cru para homens. Como as outras mulheres do campo nesta região do Paraná. Seriam dez ou doze pessoas diante do altar. outras são homens e três ou quatro são crianças. outras para baixo. Nossa Senhora das Dores. Umas trazem os olhos abertos.1 2 3 4 Lucas é o estábulo santo deJerusalém onde Jesus Cristo nasceu são as duas tábuas em que Moisés recebeu a lei que nos governa são os três cravos que cravaram Jesus Cristo na cruz são os quatro evangelhos: São João. em cima do altar. algumas olham para o lado. São Mateus. em tamanho natural. Virgem Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo. Corpo colado com o da santa. É uma mulher nem muito moça. uma mulher está abraçada à imagem em tamanho natural de Nossa Senhora das Dores. outras rezam tristes e algumas gemem e soluçam. que fica do lado direito. Nem todas estão olhando para a imagem que encima o altar. São João escreveu às sete igreas oito primeiras epístolas de São João Apóstolo os nove coros de anjos que para o céu subiram os dez mandamentos da Lei de Deus 5 são 6 são 7 são jas da Ásia 8 são 9 são 10 são 11 são as onze mil virgens que desfrutam a companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo 12 eu não contei direito mas me parece que eram umas doze pessoas que se postavam diante do altar de Nossa Senhora das Dores. logo que se entra na igreja. que tivestes o vosso 221 . abotoado. Umas são mulheres. Maria Santíssima. agarra-se firme não só para não cair. abraça-a para não cair. pernas trançadas na parte inferior da imagem. Beija repetidas vezes a face da imagem. no Apocalipse. Sem soltar as mãos. de Nossa Senhora das Dores. com gola. nem muito velha. Umas olham para cima.

pois ninguém aqui parece se interessar pelo que sou e pelo que faço. possam atentar em causarme mal. Pela roupa o defunto era algum tipo de militar. ó minha protetora Eu da cena me desinteressei e Em meu auxílio vinde. homens e mulheres que sejam. Há bastante gente nos bancos. bruxedos. que fica ladeado por quatro candelabros de prata e tem na cabeceira um grande crucifixo também de prata. parece um boneco. nigromancias. protegei-me. a mim e à minha família. Atravesso por uma fileira vazia e chego ao corredor central. ó Esposa de Deus desta igreja bastante grande e suntuosa demais para uma cidadezinha do interior como esta. veste o que parece ser uma espécie de uniforme. madeira escura envernizada. Em aflição vos peço: Vigiai minha casa. se eleva um caixão de defunto apoiado sobre um estrado de madeira que não se vê. não me parece ser uma pessoa que está ali sendo velada. algumas pessoas. circunspectas. Em meu socorro vinde. Em torno do esquife. Nem precisava ter feito o sinal-da-cruz. pelo aparato ao seu redor. Chego mais perto e ergo a cabeça para ver melhor. pranteiam o falecido. em meio a panos roxos e tecidos rendados nas paredes internas do caixão. A tampa de madeira entalhada está apoiada num dos cantos do cadafalso. parece ter sido pessoa rica e influente. no espaço em frente do altar-mar. visíveis ou invisíveis. Apenas uma peru222 . em meus parentes ou em meus bens. em sinal de respeito faço o sinalda-cruz e vou me encaminhando para o altar-mar. uns sentados. Olhando bem. invocações. Cabeça branca e redonda de pano branco. em minha pessoa. não dá para perceber direito. que. ó Rainha dos Anjos vou caminhando em direção ao altar central Em minha defesa acorrei. em qualquer lugar. Perto dos primeiros bancos. É caixão de certo luxo. aparadores de brilhante metal prateado. guardai-me das investidas de Satanás. Apesar de não ser dessas coisas. bruxos ou bruxas e adivinhos. que. sem orelhas nem marcas de olhos e nariz. tal a quantidade de flores que cobrem seu corpo. Sete vezes vos peço. Nossa Senhora das Dores. outros ajoelhados e alguns em pé. em qualquer hora do dia ou da noite. Sete dores mortificaram vosso corpo virgem e santo. encoberto que está por panos roxos. Guardai-me de seus agentes. Me aproximo curioso para olhar o morto.puro coração transpassado sete vezes por sete espadas. Imploro vossa proteção contra quaisquer maleJícios.

. já que estás indo embora para sempre. mundo das sombras. o velho põe as mãos sobre as daquele que está no caixão e com voz rouquenha. Duas luvas brancas. dedos entrecruzados.Vivente . Vagarosamente. leva contigo esta minha doença. e calombos irregulares nas mãos revelam um mal executado enchimento com algodão. Batom vermelho 223 . a menina-anjo. para que leve aos céus ou infernos seu câncer. Uma espada aponta em minha direção. quase inaudível.. doença que me parece vai matá-lo logo logo. Pode-se presumir que não seriam mãos que enchem as luvas. A espada que aponta para mim também deve ser de papelão recoberto com papel laminado dourado.Está zombando de coisa séria! Ameaçador. É de muito respeito a atitude das pessoas que. pois uns dedos são mais grossos que os outros. . velam em torno do caixão. O esforço para dizer essas poucas palavras foi muito para o velho. serragem ou outro material qualquer. Tem nas costas duas asas de papelão com penas brancas coladas...ca encanecida dá alguma aparência humana a essa cabeça. ninguém parece ter tomado conhecimento de minha pessoa. Saindo das mangas do uniforme. um velho de cor cinza se aproxima do caixão. Depois de alguns instantes parado. Leva contigo para que eu delefique livre e nunca mais volte a sofrer com ele ou com outra doença parecida. este meu câncer que por dentro me corroe. . duas luvas brancas pousadas no ventre do defunto. esse velho doente pedir a um defunto. doentia.Não se deve zombar daquilo que acontece em solo sagrado! Muito loira de olhos bem azuis. túnica longa e branca que deixa à mostra apenas seus pequenos pés descalços. um anjo aponta sua espada dourada contra mim.Este é um lugar sagrado! É uma menina de cabelo comprido e loiro. e seus filhos têm de arrastá-lo para que ele se deixe cair no banco mais próximo e ali repouse ofegante. . Tenho vontade de rir. . trespassados por um rosário de contas pretas. que nem sei se é mesmo um defunto. em pé. Começo a achar tudo isso meio sem sentido e até engraçado. caminhando com muita dificuldade. inicia uma oração: Já que estás partindo para outro mundo. sem retorno. amparado por dois homens que suponho serem seus filhos. mais respeito . Algumas rezam parecendo puxar um terço em voz baixa. como que para recuperar o fôlego. Desde que entrei nesta igreja.

. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário A menina-anjo me segue.. conduzida pela mão do anjo movimenta-se lentamente em direção à sacristia. . No rosto. as unhas da mão que empunham a espada estão pintadas de vermelho vivo. como se fosse rezar uma missa imponente. Que ofendem ao Senhor Nosso Deus .. todo paramentado de veste litúrgica branca e dourada. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário O canto do coro da igreja vem lá do alto. Pela porta da sacristia surge um padre e se encaminha para onde estou. na pequena elevação. Compenetrado.... gotas de purpurina vermelha que rebrilham à luz bruxuleante das velas. Não sou casado e mesmo na capital. onde moro. Talvez seja por isso. . Sei onde ele quer chegar e poupo suas palavras: . E me afasto caminhando pelo tapete vermelho do corredor central em direção à porta de entrada..Eu estava mesmo de saída. dirige-se a mim sem cuidados: -Aqui são todos bem-vindos .. longe de casa desde ontem nesta cidade. Como as dos seus pés. Há dias que estou sem mulher. As sobrancelhas e os cílios fortemente marcados de preto e sombra verde em torno dos olhos azuis cor do céu. não sei explicar bem por que mas a visão da menina-anjo me excita. É um padre jovem. padre. Deixa de apontar para mim. não tenho companheira fixa.Com sua licença. talvez para ver se estou mesmo indo embora.. A túnica é de diáfano tecido acetinado e quase antevejo. talvez pelo calor aqui dentro.Em outra ocasião o senhor será bem-vindo aqui. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário 224 .mas existem coisas que não gostamos. As portas da Casa de Deus têm de estar sempre abertas a todos . Sinto desejos por ela. os róseos biquinhos de seus peitinhos. . a espada toma então outro rumo. Há dias que estou de viagem pelo interior. A menina-anjo se desfaz de sua expressão séria e sorri.carregado nos lábios finos.

.A essa hora ainda não temos café feito.Deus lhe pague. Não preciso esperar o dono. não preciso esperar o dono da pensão. Com poucos passos chego na pensão onde me hospedo. Acabo encontrando a nota fiscal de uma com pra que fiz na farmácia .Tem importância não. Sou o único hóspede. não mesmo. preciso talvez é ter alguém com quem conversar. que não está na portaria. como se costuma dizer. todas as doze chaves dos doze quartos estão no quadro. Procuro no bolso uma moeda ou nota de menor valor para dar de esmola.N ovalgina para uma dor de cabeça que eu estava . Ele surge da porta que dá para a área interna. E a única da cidade. na casinha de madeira no pátio interno.como se fosse muito engraçado aliviar-se no meio da noite na privada escura e suja no meio do negro pátio. Com toda a certeza estava na privada. Onde andará? Se quiser. 225 . arrasta uma perna. . um mendigo estende o chapéu para mim na escadaria da igreja. A mocinha só chega depois das seis. quando o único posto da cidade estará aberto e terei gasolina para seguir viagem. Não vai ser preciso. parece não levar muito a sério o que diz: . vem ajeitando as calças. É um velho gordo sem dentes. Vem sorrindo . o calor e o abafamento do quarto não me deixarão dormir direito e estarei acordado bem antes das seis. a sujeira. . tomo na estrada. Procuro pelo dono.Posso pegar minha chave? E dá para o senhor me acordar amanhã às cinco e meia? O velho responde como se estivesse zombando de mim. Nem mesmo preciso pedir que ele me acorde um pouco antes das seis.está sempre sorrindo .e jogo no chapéu do mendigo: além de aleijado das pernas. . . Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário na imagem de Nossa Senhora das É a menina-anjo quem fecha as pesadas portas de madeira escura às minhas costas.A mulher continua pendurada Dores. Número nove. Posso pegar minha chave. no migué. os mosquitos. posso apanhar a chave do meu quarto pendurada no quadro. modesta construção térrea de madeira.Uma esmolinha pelo amor de Deus! Apesar da noite escura cobrindo a praça deserta. ele é cego.

Esteve passeando pela nossa bela cidade? Diz isso como quem diz: Então andou vendo que bela porcaria que é este buraco? . desperdício de dinheiro numa construção daquelas: só para entronchar o cu dos padres.Então o senhor entrou na nossa igreja?! Quer saber duma coisa? Me olha fixo: . 226 . muito bonita. nós sabemos.Acho uma feiúra.. satisfeito com a grossura que disse. ele está aqui nos escutando. Está em toda parte. Ainda com jeito de zombaria. sei lá. . estive dando uma volta. E o senhor sabe? . não está mais achando graça: . se alguém fica doente tem que andar trinta quilômetros até achar um médico. o velho me pergunta: . . Até mesmo aqui e agora nesta nossa conversa. é uno e indivisível. em todos os lugares ao mesmo tempo. não sei não.Também não.. Deus.Porcaria duma igreja numa cidade que nem hospital tem. Mas ..É. O velho perde o ar de gozação. mas nem penso em arredar o pé dali.O senhor entrou na igreja? -É. Fica me olhando sério por algum tempo: . E ri sem dentes. e o Diabo? Onde fica o tempo todo? Onde encontrar o Diabo? Demoro bastante para responder: . Vi a igreja grande que vocês têm aqui.É. entrei porque não tinha outro lugar para ir.. e segue falando: . Mas também é onipresente.É. acho que ninguém sabe. quieto sem dizer nada.Estou com a chave do quarto na mão.Deus .

". mlsterlo .Mercúrio .

Para restaurar os doentes esgotados. é UMA RIQUEZA. objeto de culto servil de uns e do desprezo suspeito de outros. ou um galo velho. verde por propagação e vermelho por reflexão sentiu vontade de ter nas mãos uma fina folha de ouro para ver se realmente ela tomaria a cor verde. No livro. Com o ouro fabricavam amuletos para fazer voltar a alegria aos melancólicos. e mesmo para suas alunas Ordinariamente. por segundos. químico renomado. que sempre sejactaram de possuir o poder de criá-lo em seus laboratórios e com ele obter uma panacéia universal o assunto interessava sobremaneira à irmã Eglanti- ne. do Pensionnat des Religieuses du Sacré-Coeur de jésus. mas. o ouro é um metal opaco e amarelo porém não pôde deixar de se admirar quando leu o que muita gente não sabe é que reduzido a lâminas extremamente delgadas o ouro torna-se transparente. Bélgica. O ouro não é A RIQUEZA. o ouro ou o SOL possuíam propriedades sobrenaturais.Em setembro de 1879. que consistia em cozinhar uma moeda de 1 ducado de ouro juntamente com uma galinha velha. Ou. de medir e de simbolizar o VALOR irmã Eglantine bem compreendeu que o autor aqui se refe- ria somente ao valor econômico e não aos valores morais. incontestavelmente. recebeu o livro Pierre et Metaux. observar o esmaecido sol da tarde para sentir a transparência do metal e vê-lo enrubescer como um rubi e não é nada estranho que um metal tão precioso como o ouro tenha sido objeto de experiências as mais perseverantes por parte dos alquimistas. irmã Eglantine. ó Rei dos Metais. simplesmente. eles prescreviam o famoso Bouillon d 'Or. Liege. E não se pode transferir a qualquer outro metal o honorável papel de representar. um moderno tratado escrito pelo professor Arthur Mangin. suspendeu a leitura e pensativa deitou os olhos no pátio deserto ao seu redor: certamente não era este um tema para levar ao conhecimento de suas alunas pour les médecins arabes e os adeptos na Idade Média. que. Pacientemente. ali no jardim do pensionato de verde relvado e árvores com ramagens verdes-cinza. como já transmitira às suas alunas durante o transcorrer de longos anos de educadora Saudações. passou por cima de informações bastante óbvias para ela. o metal o mais brilhante. irmã Eglantine reencontrou conceitos que não só conhecia. através dela. A simples imersão do metal vermelho em brasa nas tisanas era o suficiente para transformá-las em fortificante peitoral. Pensou no prazer que sentiria ao levantar entre os dedos a fina placa de ouro e. e preservativos contra a lepra. Ouro. polvilhavam os alimentos dos enfermos com pó de ouro pequenas liberdades consentidas que irmã 229 . naquele início de outono. em Bois L'Evêque. o mais pesado e o mais imutável entre todos os metais.

que tomba ao fundo". o princípio e a essência de todos os metais. nas teorias místicas dos alquimistas. Sobretudo na Idade Média. depois de tantos anos servindo a Deus no Pensionnat des Religeuses du Sacré-Coeur deJésus: antes de dormir. limpar polir. bizarramente. a este adere somente por um artifício que é o grande segredo da Arte.todos produtos do pensionato. escreveu em seu Soma da Perfeição do Magistério: "O mercúrio se encontra nas entranhas da terra. o chocolate ao leite torna-se mais saboroso e aquece muito mais o corpo. o queijo de leite de cabra. Essas descrições são exatas e a química moderna nada mais fez do que complementá-Ias. irmã Eglantine reina solitária na cozinha. jovem noviça para todo o serviço no pensionato: preparar-se espiritualmente para o matrimônio com Jesus Cristo. lavar passar. mãos fora das cobertas. Fraldas confeccionadas com esgarcidos lençóis sem uso completam a esmola piedosa. costurar cerzir. A irmã despenseira lhe deixou a chocolateira esquentando sobre a adormecida chapa brilhante do grande fogão a lenha. Os metais a que melhor adere são o chumbo. A vela alumia o livro O mercúrio é o único metal que existe naturalmente em forma líquida e conserva esse estado mesmo a baixas temperaturas. Faz frio. sobre as quais flui livremente. Nesta hora de silêncio no pensionato. Todos os metais nadam sobre o mercúrio. 230 . o chocolate ao leite esquenta e relaxa o corpo. No cesto o patê. quase uma substância sobrenatural. cozinhar servir. exceto o ouro. Un. sempre impressionou vivamente a imaginação das pessoas e fez considerar o mercúrio como um metal privilegiado. Longa é a caminhada e irmã Eglantine aperta o passo. de Bile do Dragão e Leite de Uma Vaca Negra bem doce. com o cobre. O cesto quem leva é Anne Marie. pois que somente se solidifica a quarenta graus negativos. mesmo passada a hora de se recolher. Quanto ao ferro. Não adere às superfícies. A pouca mobília torna a cela ainda mais fria. Eles o chamavam também. Ele se amalgama igualmente com a prata e. o pão e os biscoitos .Eglantine se acha no direito de tomar. toma chocolate com leite na cozinha deserta. às vezes. varrer lavar. Para eles o mercúrio era a Água Divina. que viveu no século XVIII. quatre et pourquoi pas cinq tablettes de sucre? Bem adoçado. deux. trois. esfregar arear. a escuma de todas as formas. Esta singular propriedade. irmã Eglantine prossegue a cativante leitura. somada à sua alvura e ao seu brilho cintilante. quando se vê o mercúrio tomar uma singular importância e desempenhar um papel extraordinário. muito dificilmente. Somente mais tarde fará as orações da noite O químico árabe Gerber (Yabar-Al-Koufi). É necessário enrolar o xale negro nas mãos brancas que seguram o livro. o estanho e o ouro.

dos lobos e das serpentes. A dor rasgante da facada só é sentida por um segundo. domina-a. de pé estático. mão. acompanhar irmã Eglantine em seus pequenos passeios e visitas de caridade. grita sem que nenhum som escape de sua garganta. O mercúrio não parece existir em grande abundância na natureza os Philipot vivem isolados. asas a se agitarem na cabeça. Talvez o bebê já tenha nascido. onde está ela. Imoral! Imoral! Como se apenas esperasse ouvir essas palavras para agir. substituída em seguida por um amortecimento suave. Formigamento. o mercúrio é dotado de um brilho cintilante e se parece bastante com a prata. quase um apêndice da floresta ao lado. A cabana dos Philipot assenta-se em meio a árvores limpas. até então oculta pelo negror da cabana e por irmã Eglantine. às vezes. Como. desamparada pelos parentes.plantar colher. E não são dadas maiores explicações. O cesto com oferendas servirá para mitigar a miséria do casal Philipot. punho e metade da metade do braço. Talvez. se bem que tenha um leve reflexo azulado. Monsieur?! Trapos sujos cobrem-lhe o sexo. Nu da cintura para cima. ouvir e rezar. A mesa alta impede a visão do resto de seu corpo. numa cabana em partes afastadas das terras do barão de Montpellier. Arranca rasga suas vestes de religiosa. como para melhor se posicionar e ver Anne Marie. sozinha? Talvez. Talvez tenha sido levada. Contra a vontade dos pais. prestes a dar à luz. desprotegida pelo marido sem trabalho. Germaine Garnier casou-se com o jovem Paul Philipot. O golpe dado no ventre é tão forte que penetram faca. Philipot sai de trás da mesa e vem à frente. vigiar e repreender as alunas e. Philipot agiliza os movimentos. Como para encobrir aquela visão. Agarra a freira pelo hábito. camponês que não tem onde cair morto nós já o dissemos. Não está a futura mamãe em casa? Não. Ajovem esposa Philipot. Não a faca: o que irmã Eglantine sente agora é a mão punho de Philipot revolvendo suas en231 . estátua de sombras. irmã Eglantine grita. Talvez ela tenha ido dar à luz em outro lugar que não aquele. reinado dos javalis. Philipot estende a mão livre e toma uma faca de cima da mesa. Nua. Mas o senhor não se interessa? Não se interessa em conhecer seu filho? E sua mulher. justifica a longa caminhada para a visita de caridade. puxa-a violentamente contra seu corpo. irmã Eglantine posta-se na frente de Anne Marie. quase como um favor. Irmã Eglantine pega o cesto com Anne Marie e entram as duas na cabana escura. Sem largá-Ia. A porta está aberta mas as janelas permanecem fechadas com tábuas. somente com a coifa. afinal? Lentamente. à beira da floresta. o homem Philipot.

Branco filete líquido oleoso que não adere às bordas róseas da carne e penetra doce e ágil no interior do pequeno mistério da fenda escura. na Feira dos Livros Usados. situado na rua Emiliano Perneta 325. Liege. olhos esgazeados? Há mais o que fazer. inclinando-se. Em outubro de 1989. Morta irmã Eglantine. longos cabelos loiros espalhados sobre a áspera superfície de pedras. vou morrer! Quando Philipot retira a mão e o punho. Do fundo da garganta de irmã Eglantine vem um suspiro silencioso. pequena fenda agora selada com ouro. ela nem sente o peso do corpo nu de Philipot sobre seu corpo nu. foi vendido um exemplar de Pierre et Metaux. o braço se deixa sair um pouco e já lhe penetra novamente o ventre. Onde ele arranjou tantas moedas de ouro? Ainda ajoelhado. irmã Eglantine sugere à madre superiora a indicação do livro Pierre et Metaux. No mês seguinte. limpa com beijos. como prêmio de aplicação para as alunas que.. outubro de 1879. outra mais sobre o direito. Mesmo quando caem e rolam os dois pelo chão de pedra. Posse silenciosa. tenham alcançado as melhores notas nas aulas de instrução religiosa dos cursos do Pensionnat des Religieuses du Sacré-Coeur de jésus. prolongado e rouquenho. encadernado e em perfeito estado de conservação. Bélgica. 232 . Philipot mantém-se de joelhos e. A cada tentativa dela de se afastar. Philipot pouco se importa com os olhares da freira. o corpo nu. irmã Eglantine está atenta e observa a cena. Deposita uma moeda sobre o lábio de sorriso curto e uma em cada pálpebra semicerrada da moça. sebo de propriedade de Irajá Reis. Sai em parte e volta. sai em parte e volta . Philipot retira a moeda de ouro que cobre o sexo de Anne Marie e. por mérito próprio. Desveste o hábito de noviça e.. Por que se preocupar com uma freira morta.tranhas. boca e barba o sangue do sexo impúbere loiro de Anne Marie. lenta e cuidadosamente despeja mercúrio na pequena fenda oferta. espera. Apesar de morta. O mercúrio se liberta célere pelos vãos dos dedos. Outra moeda sobre o bico róseo do seio esquerdo. Sente apenas o retorcer gosmoso entrar e sair da mão punho em seu ventre líquido: Aiiiiii. deitada no chão. retira mão e punho vivos de um corpo já morto. em Bois L'Évêque. em Curitiba. Anne Marie prepara-se para o sacrifício. com as mãos em concha. Saindo do corpo da moça. Philipot cobre com um ducado de ouro o sexo profanado de Anne Marie.

()s fantasmas do fundo de quintal Um mistério .

Os cachorros se esquentam enrodilhados em seus sonhos. de onde não se vê a rua. do remorso. atento. Ninguém pode se livrar do mal. homem! Revolto na cama. preparando suas maldades. Os telhados vão amanhecer branquinhos de geada. abertos para o vazio do quarto escuro. da bronquite. 235 . da falta de ar. das tosses noturnas. Ainda está longe o dia. Os olhos sem imagens. do medo. Presas da insônia.Ao longe o cantar abafado dos galos. as cebolinhas e os rabanetes: Que economia trazem para a casa! Sentado na cama em ângulo reto. o Velho não luta contra o esquecimento: apenas quer lembrar e não consegue se lembrar do que quer lembrar. olhos abertos no escuro fitando o nada. Na noite fria há os que dormem protegidos pelo escudo do sono Sonham? Talvez. No limitado triângulo o Fantasma dos Quintais caminha pela calçadinha cimentada. das dores reumáticas. Que tristeza! Milagre: o enorme lençol branco sobrevive no varal! Não se pode deixar roupa dependurada que os ladrões roubam tudo. Não tem perigo dele pisar no canteiro e amassar os pés de alface. Atravessam as noites acordados. Há os que não. de urina solta. vítimas fáceis dos demônios do quintal dos fundos. ocos. dos gases intestinais. ninguém vê mas o Fantasma do Quintal está ali.

o gato da Velha mija fedido na varandinha da casa nova. As galinhas vêm ciscar na horta alheia. Eu tenho rezado tanto pelo meu filhinho! O pior é que a Mãe não sabe por que ele está assim. Não adianta: ela não quer saber mais dele. Pela tessitura das cercas. 236 . Deve ser coisa de alguma mulher.ao acordar. Se soubesse talvez pudesse ajudar. os quintais do fundo se ligam com os quintais de outras casas. trabalhador. Inútil insistir. que largou dele para sempre. Pelo vão da cerca a ameixeira derrama seus melhores galhos para o lado do vizinho. esperando a hora de levantar e fazer café. sem dormir sonha agitado com a Outra. É disso que o Fantasma do Quintal se aproveita Ainda está longe o dia e a geadajá começa a cobrir a grama. a Mãe insone reza pelo filho. terá a imagem dela diante dos olhos para sempre. sempre há uma esperança. lá do quintal dela a Enxerida espiona tudo.vocês vão ver . Ainda bem que não está ventando.o Homem não pode se livrar da memória. Na interminável noite. falsa ou verdadeira. Botaram feitiço nele. Não há como se livrar disso. Ele está se acabando. Tanto ela tem feito para que ele passe essa fase ruim em que está e volte a ser o que era antes: um homem alegre. se con tin ua assim não sei o que será dele. Mas vá falar disso para um homem apaixonado! Não sei. Mais tarde . Cai num sonho nervoso.

Coitada. uma criança ainda! Isso não se faz .a valeta vaza suas águas fétidas para o lado de cá. vozes indesejadas atravessam as cercas de madeira. a sombra do Fantasma entra no quarto e observa o sonho da Mulher para ver se ela dorme calma sem saber das coisas que o marido aprontou. Os ladrões da noite não procuram casas com fantasmas no quintal.. a Mocinha agora dorme tranqüila debaixo do lençol seco. ao longe passa o ruído de um automóvel tardio. calorzinho tão bom! Suspiro prolongado e um ai. 237 . Pé ante pé. Com passinhos macios. matou alguém. Pensar que o Homem pensou até em matar: Se ela não é minha não será de ninguém. longe dali. Ahhhh. sem fazer barulho. Sua mão gelada de fantasma acaricia o ventre liso dela. Na sua brancura o Fantasma entreabre um sorriso de dentes amarelos. as noites frias! Debaixo do lençol úmido a Mocinha dorme seu sono solitário. Isso durante o dia: dentro da noite é esse o território dos fantasmas dos quintais.. Sem sair do quintal o Fantasma . na morte será minha! Se a Mãe soubesse que o filho criado com tanto carinho quis tirar a vida de alguém. quentinha.que demônio! já está na cama agarrando a Mocinha por detrás. O canalha! A madrugada vai alta. Ela vai ser uma perdida na vida! Na sala o gato preto dorme em cima da televisão. protegida. depois escorrega a mão até a gretazinha miúda pulsante. o tatu busca sua toca no terreno baldio sem cercas dentro da noite. A Outra dorme aninhada em seu novo namorado. Ninguém nas ruas.

O médico aceitou mas fez uma exigência: tirar eu tiro. nariz.Horrível! O grito de alguém morrendo. E desperta dentro de um pesadelo. Depois eu limpo direito. Trouxe o feto embrulhado em plástico transparente. Fez um buraco com a chave da roda e com as mãos sujas de lama preta. Pela cor plúmbea. pensou em fazer uma pequena cruz. Tirar agora é matar uma vida. O fusca parado num terreno pantanoso. olhos esbugalhados que não vêem mais a imagem da Outra. A imagem é outra: o rosto esborrachado do bebê morto. choro prolongado de um bebê . O rosto que ele agora tinha nos olhos. ao longe se vê a estrada de pouco movimento. Se parecia com a mãe? A Outra se recuperava na clínica clandestina. dura gelatina. um grito dele. mas vocês é que vão ter de enterrar. Na agonia da morte uma criança. O Homem não tinha levado nada para cavucar. o grito apertado. O Homem cobriu de terra. Não! Alguém vai desconfiar.que mortalha pode cobrir um bebê morto? Na noite escura só o Homem escuta o grito só para ele. orelhas e olhos. dá pontapés na barriga da mãe. Como pôde limpou a mão numa estopa. 238 . Olhando a barriguinha da Outra ninguém diria que estava de seis meses. O filho dele. Com seis meses já está vivo. Dias e dias atrás do dinheiro e de um médico que aceitasse fazer o aborto. textura lisa talhada. parecia um grande pedaço de fígado. quando precisava pedia para a Mãe. rins pelas dobras prenunciando membros. Não sabia rezar.

O Homem abre a porta que dá para o quintal. Dá três passos e o grande susto: o Cão Negro. nunca mais. dentes arreganhados. longo. Não sei se foi o medo. para que serviu? Não poder dormir nunca mais. como se não existente. Sultão! Guapeca vagabundo. Tem agora toda a memória do mundo e o dia não vai nascer. se fosse um ladrão não acordava. que dorme calma ao seu lado e tem um ligeiro despertar: aonde você vai? Mais uma mentira das muitas: vou no banheiro. com as lágrimas lava a lama preta das mãos e vai procurar outros quintais. o cão recua ainda rosnando e depois se cala. latindo avança nele. Nos seus olhos a imagem da Outra se mistura com o rosto mongol do bebê. uma eternidade de medo antes de conseguir gritar: Passa. o frio da madrugada arrepia seus pêlos.Patinando na lama o fusca voltou para a estrada. o Homem treme de medo. se enxerga parado no meio do quintal. outros mundos. desassinalado. nem os cães nos quintais. pêlos eriçados. Ninguém vai ouvir seu grito. O Homem não conseguia mais ficar deitado. 239 . o Homem não está mais dentro do seu corpo. Não vê que sou eu?! No escuro. Não de frio. E o amor. Os cães do bairro respondem num enrodilhar de latidos. Então percebe com horror: O Fantasma do Quintal sou eu! Passa a mão nos olhos. O rosto afundado no travesseiro. levanta com cuidado para não acordar a mulher. Do Homem sai um grito silencioso. no meio da noite. a mulher volta ao sono.

()mlsterlo Sônia teu.Lembras-te. . COISAS DA VIDA . ~. . Levarós Vou Compro um com elJe o Ello . voando palavras! phormocial é pri- ElIa • Para lHER.. EJle . querido? Foz hoje um onno que brigá mos pelo ultimo vez . A SAUDE DA MULHER O GRANDE REMEDIO DAS DOENÇAS DE SENHORAS . abençoarmos a SAUDE DA MU· que me restituiu 00 teu omor!.' 2) o amigo· A SAUDE DA MULHER fará o mi· logre· é o grande remedio pora 0$ incommodo$ vidro hoje dos senhoras.Mósinhal Para que recordar? felicidade Elle _ Santas meira de regresso ao teu lar.. mesmo. • • (EPISODIO N..

seguramente. como se diz. chega-se à praça da Matriz. apesar de grande. ainda se encontra em bom estado. portanto. oito e meia da noite anterior. Traz. O que procura o Homem de Olhos Azuis àquela hora naquela ci243 . As regras apareceram por volta das oito. vindo do Sul. entrando novamente pela avenida xv de Novembro. calçamento apenas no centro e em algumas avenidas periféricas. Nenhum amassado na carroceria. No momento não podemos ver.o ESTADO GERAL DO CARRO Bom. O marido. A SAÚDE DA MULHER Seriam. no centro. entre duas e quatro horas da madrugada. Um exame mais do que superficial mostra que o carro. a lataria sem pontos de ferrugem e os pneus são novos. e como a Mulher não tivesse modess em casa e se avexasse de mandar alguém buscar na farmácia do seu Benedito. a pintura vermelha não está descascada. O único sinal da viagem que acaba de fazer é a camada de pó pegajosa e leve que aderiu principalmente nas partes laterais e nos pára-lamas. dobrando à esquerda no largo do colégio das irmãs e. o sono dos habitantes da cidade. o que atesta ter ele rodado em estradas de terra. porque no sono ela mantém as pálpebras cerradas. não perturbando. que também dorme. Por essa hora o carro entrou na cidade. esse sinal de nascença. mais para pequeno. Como o carro é de modelo recente seu motor é silencioso. mais adiante. Seguindo a entrada sul em linha reta. estreitas e curtas. para controlar as frieiras que muito o afligem nesta época do ano. obrigam que o Homem de Olhos Azuis conduza o carro em baixa velocidade. dá um certo atrativo à beleza da Mulher. mas a Mulher tem uma mancha preta no branco do olho esquerdo. É uma cidade de tamanho médio. improvisou uma toalha higiênica com um grande guardanapo branco de boa qualidade. o que diminui ainda mais o barulho do motor. lançado há dois anos pela fábrica. E as ruas de traçado antigo. Mais certo dizer que perto das três e meia. Longe de ser um defeito desagradável ao olhar. um certo it aos olhos esverdeados dela. tem entre os vãos dos dedos do pé chumaços de algodão embebidos em Vodol.

Prossiga com o tratamento. remédio antigo mas de comprovada eficácia. Ontem à noite. dissolvido num copo de água açucarada. Ninguém pelas ruas para dar qualquer informação. no máximo. dificilmente encontrará. pois já apagou a pequena lâmpada que alumiava sua pequena placa e fechou a porta de entrada. A SAÚDE São ruas curtas que desembocam em outras ruas curtas e trazem a indagação: para que lado seguir agora? As casas. mas geralmente funciona só até as oito. diminua a dose. logo que desceram as regras. Não deve haver preocupação com isso porque está agindo beneficamente. Por suas propriedades terapêuticas acentuadas. ela tomou uma colher das de sopa do remédio. dependendo do dia fecha às nove. E nenhum estabelecimento comercial funciona até essa hora. a farmácia. quase todas pinta244 . A SAÚDE DA MULHER determina ligeiro abalo no organismo. nove e meia da noite. Precavida. Passou disso é preciso tocar a campainha para chamar o farmacêutico. Não tem contra-indicações e não prejudica a amamentação. O que fecha mais tarde. Foi comprado na farmácia do seu Benedito e guardado no armarinho de medicamentos até a chegada da menstruação. Até a delegacia de polícia mantém a porta fechada e as luzes apagadas. ou. E não será fácil achar o único hotel da cidade. às vezes. DA MULHER contém substâncias de ação sedativa e antiespasmódica nas cólicas menstruais. o Central. a Mulher tem sempre em casa um vidro de A Saúde da Mulher.dade? Seja o que for.

sem encontrar saída. A iluminação pública é bastante ruim. não estivesse dormindo roncando. pare por falta de combustível e tenha de esperar até as sete horas. Ela passa por suores frios e ondas de calor que. a Mulher pronuncia o nome de alguém. e talvez pudesse localizar aquilo que veio procurar nesta cidade que não conhece. nos tempos em que a cidade florescia. Fosse daqui a uma hora. talvez já se visse algum passante andando. a concentração e a excitação espantaram seu sono. Às vezes. mas apressado pelo meio da rua como todos os que caminham pela madrugada. Quase inaudível. não terá sido achado. como são as falas do sono. Mesmo se o Marido. É agitado o sono da Mulher. O Homem de Olhos Azuis no carro vermelho não tem sono. Em seu sono agitado. as luzes dos faróis do carro vermelho atravessam por entre as frinchas das venezianas fechadas e relampejam no escuro do quarto abafado. não pela calçada. as portas do quarto fechadas na velha casa abafada.das de amarelo. ao lado dela na cama. fazem-na gemer e revirar-se incessantemente na cama. seja o que estiver sonhando. 245 . o Homem de Olhos Azuis pararia o carro e pediria informação. um cachorro late aqui. Tem o carro gasolina suficiente para continuar rodando pela cidade adormecida? Não poderá acontecer que. então. se não chegam a acordá-Ia. outros respondem lá longe. não irá encontrar nesta hora em que todos dormem. Uma leve neblina envolve a cidade. entre casas amarelas que se assemelham iguais. de repente. sonho bom ou sonho mau. mas por se manter atento em achar o caminho por ruas calçadas de paralelepípedos que parecem sempre as mesmas. Alguém que um compromisso ou um trabalho urgente tirou da cama mais cedo. Seja o que for. depois de algum tempo param de latir e vão recomeçar mais tarde. Ou talvez tenha. É claro que não se pode adivinhar que tipos de pesadelo o mal-estar traz a ela nesta madrugada nem quente nem fria. A obscuridade vista pelos faróis do carro dá ao Homem de Olhos Azuis a impressão de estar sempre andando em círculos pelas mesmas ruas. Se encontrasse alguém. seja o que for que o Homem de Olhos Azuis esperava encontrar na madrugada desta cidade. teria dificuldade para identificar o nome que ela diz. foram construídas quase na mesma época. quando abre o único posto da cidade? E.

Porém. que dormia roncando ao lado dela. e tudo o que eu escrever aqui. Que seus gritos acordaram o Marido. E que o Marido. descobre com pavor que a Mulher ainda guardava no coração o nome de outro homem. Acelerou o carro vermelho. seja lá o que for.Mesmo durante o sono. tenho eu o direito de indicar finais possíveis para os acontecimentos reais que comecei a contar? Por acaso sou um deus com o poder de determinar o destino das pessoas? A resposta é não. Posso dizer também que. desistindo. sujando o pano branco e marcando de vermelho os sedosos. a Mulher despertou do seu agitado sono gritando o nome do Homem de Olhos Azuis. voltando do sono. Tudo o que eu disser será verdade para você. no momento em que ele partia. Por exemplo: eu posso escrever que o Homem de Olhos Azuis cansou de procurar e. longos e pretos pêlos púbicos da Mulher. Por isso. o OBSERVADOR o PRIVILEGIADO que aconteceu depois? Em relação a você. a Mulher e o Marido. do que tinha vindo procurar naquela cidadezinha pela madrugada. mesmo que seja inventado. seguiu os treze quilômetros pela estrada de terra até alcançar a rodovia asfaltada e pegou o caminho de casa. você tomará como o acontecido. é melhor que eu me cale e deixe somente com você a tarefa de deduzir o que aconteceu depois com o Homem de Olhos Azuis. encontrou a saída da cidade. pois participei do início dos acontecimentos daquela madrugada. o sangue menstrual continuará sendo expelido em grandes fluxos. 246 . finalmente. eu sou um observador privilegiado.

() mistério da Sonâmbula .

lavar o rosto e se vestir. pois me parece difícil denominar os atos de uma pessoa em estado de sonambulismo. O irmão mais moço não se encontra na casa. Seu caminhar. a Sonâmbula caminha sem se chocar com os móveis da sala. caminhando. supõe-se. duros. a cadeira de balanço com armação de palhinha. A cozinheira aproveitou o dia de folga e dorme na casa da filha casada. Na parte de baixo. E o velho jardineiro dorme sob o efeito de sedativos. no fundo do corredor. ressona em seu quarto de portas fechadas a sete chaves. Se. só então acender as luzes. não se pode dizer se ela caminha de olhos fechados ou abertos ou de que maneira ela evita. O Ladrão ainda não invadiu a casa. no escuro. apanhar o vidrinho de comprimidos para dormir. eu não diria indecisa. encher o copo e. após nova 249 . silenciosa. O motorista. em movimentos lentos flutuantes. na enfermaria do hospital. se ficou em frente à grande porta envidraçada. No jardim dos fundos. as dependências da criadagem masculina estão vazias. no meio da noite. podemos deduzir que se levantou porque não conseguia dormir e. foi por indecisão entre sair para tomar a fresca da noite ou voltar pelo corredor escuro e. para combater a insônia. A irmã tem seu quarto longe da sala. a mesma que se queixa de nunca conseguir dormir à noite. Pela noite. A velha mãe. no bar onde fazem ponto. que. a empregada dorme em seu quartinho e continuará dormindo mesmo depois do despertador tocar as seis horas. o sofá e as três poltronas de veludo vermelho. sem acender as luzes para não perturbar o sono das outras pessoas da casa. não está. ligeiramente alcoolizado. vai até a porta envidraçada que liga o interior da casa com o varandão do jardim da frente. Como ninguém da casa ainda a percebeu em seu sonho de sonâmbula. e mesmo depois de se levantar. é mais um deslizar suave. limite entre a sala e o varandão. a mesinha de centro e o pequeno móvel com assento que abriga o telefone. alguém se levanta e. E podemos mesmo afirmar que. O marido dorme no quarto do casal um sono pesado. longe dali. a cristaleira antiga que veio da fazenda. eu diria. no armarinho de metal.Nada de gestos arrebatados. viaja em férias escolares. o embate com os móveis: a mesa ovalada com seis cadeiras. espera no centro da cidade que seu comparsa venha buscá-Io. A Sonâmbula. conforme o combinado. Fica ali por alguns instantes. chegou defronte à grande porta envidraçada. deveria também vigiar a propriedade durante a noite. caminhou pelo corredor até a sala. seguir até a copa.

Era isso o combinado: o Ladrão pulou sozinho o muro da casa. espiou a casa durante vários dias. é?! Então você já veio aqui antes. foi a senhora que fritou dois ovos ontem de noite? . alguém pode te ver! . retorna pela sala entrando no corredor. Incomodado por alguma coisa em seu sono.Eu não.Acordei hoje e encontrei a cozinha toda bagunçada. Debruçada na cama. A três quadras dali. Alguém andou fritando ovo e deixou tudo sujo. A Sonâmbula agora penteia os longos cabelos negros. pegar não dois mas três comprimidos e tomá-Ios com água. podemos reconstituir facilmente os pensamentos e ações de quem não consegue dormir de noite. enquanto servia o café a cozinheira interrogou: . chega até a borda da piscina e mija na água.---------indecisão. Nunca me viram.Dona Rejane. nu. o marido revira-se na cama. Antes. abre a porta de seu quarto. portanto. que idéia! . indicou o que deveriam apanhar e ainda trouxe o carro roubado. seu sem-vergonho?! Não foi desta vez. senta-se e. na casa de tijolos aparentes. nem Rejane nem ninguém ficou sabendo que havia uma pessoa sonâmbula na casa. Rê? Comendo escondida de noite? Por isso essa barriguinha? A Sonâmbula pensou logo na sua velha mãe. Há algum tempo atrás. Cacilda. Na manhã seguinte. abre a porta do quartinho e. Ficou com a parte mais fácil. O marido intervém: . prerrogativa de quem levantou o serviço. Pensou e calou-se. o motorista sai de cima da nova empregada. a nova empregada tudo vê e reclama quando ele volta: . a Sonâmbula fritou ovos na cozinha durante a noite. cheia de manias. com 250 . . contrapondo-se ao espelho.Nunca te viram. não sei se de olhos fechados ou abertos. seu companheiro ficou no carro vigiando.O que é isso. Muitas vezes na vida tivemos insônia e.Ficou louco. pronto a dar sinal caso notasse alguma coisa estranha. Porém o que sabemos nós das motivações de uma pessoa sonâmbula? A Sonâmbula toma uma decisão: vira-se. A coisa ficou por isso mesmo.Teus patrões dormem cedo. começa a se pintar no escuro. desvendou a disposição dos quartos. retira da gaveta da penteadeira o estojo de maquiagem.

quando vê do lado de dentro no escuro um vulto branco quase como a estátua dojardim. quase gente.Deu pra pegar alguma coisa? a a a a 251 . sabe que o melhor será subir pelo varandão e arrombar a grande porta envidraçada. Ladrão experimenta a grande porta envidraçada. preto mas bom homem. Está cada vez pior. Tem o quê? Doze anos? Sentado na cama da enfermaria. É apenas um menino. já sabe que não tem alarme na casa. será? Ladrão não se assusta com a estátua. Ele vai morrer. homem trabalhador mas sem sorte. De acordo com as instruções do companheiro. e tem a coragem de dois cigarrinhos fumados há pouco. saiu bem alimentado com as comidas trazidas pela sogra da casa dos patrões. no jardim. para seu serviço de vigilante noturno. por isso não consegue dormir.Vamos embora. desta vez. o ar só sai. parece que nem consegue mais respirar. tadinho. coisa fina. companheiro se assusta com o Ladrão pulando o muro de volta: . não implique tanto com o marido. Tenta rezar para ver se dorme. Susto tão grande que precisou tomar água com açúcar para se acalmar. atrás da orelha e nos seios livres soltos cobertos pela camisola transparente. no gramado. no meio das árvores. de dia. a sangue pegajoso escorre pelas suas pernas abertas. . quando foi abrir a porta no escuro para ir na privada.a tampinha do frasco passou perfume nos sovacos. meteu a mão numa aranhona caranguejeira que estava na maçaneta. ágil.Que que é isso? Que sangue é esse? . respiração gorgolejante. A velha mãe acorda agoniada e suspira: Ai. e com a faca começa a forçá-Ia. Esta noite. A cozinheira deitada ao lado da filha e do netinho na única cama genro já saiu faz tempo da meia-água não consegue pegar no sono. balançando as pernas que não alcançam o chão seboso. Para que o netinho sare logo daquelas grosseiras que tem no rosto. A cozinheira incomoda-se com aranhas. A cozinheira reza para que o genro arrume um emprego melhor. a Ladrão é moço. meu pai! Meu querido paizinho! Vira de lado e continua a dormir. muito decotada. olha e pensa no velho jardineiro deitado na cama ao lado. Pensa na última vez que veio pousar na casa da filha. não entra. Para que a filha não seja tão luxenta.

Me dá um cigarro. mesmo no escuro deu para perceber que estava sem calcinha. Juntei ela ali de pé mesmo. Te pegaram? -Nada. . Tô lá na porta que você falou. .Você não vai acreditar. a Sonâmbula geme alto: Aaaaiiii . um grito que veio assim como lá de dentro: Aaaaiiii .E o sangue? Onde você arranjou essa sangueira toda? 252 . apagar ela. Água oleosa..Deu crepe.Abre essa porra de carro de uma vez! . _ Não quero ter nada a ver com essa história. . Me dá um cigarro.. vambora! _ Tá cheio de sangue na cara. quente. olha a tua roupa.. pulei fora e corri. Matou alguém? .Você matou alguém? Deixou a faca lá? _ Não dá para acreditar. Mas aí na hora do gozo ela me dá o maior grito. aí a porta abre e me aparece uma puta duma mulher. quente. carnosa. uma morenaça de camisola transparente. Ela me olhando quieta e aí levanta a camisola. entrando e saindo sem nunca se largar de dentro. se oferecendo. viva. penetrando seu corpo adentro. No sonho... . Me assustei. a Sonâmbula se vê deitada na banheira e sente a água morna. tomando conta de tudo. Sabe como anda a minha barra com os home.Não me põe em fria. quentura esponjosa que vai pegando forma. Eu ia pular em cima.Senta no jornal senão suja tudo. . Em seu sonho. Com ela ali o roubo já estava perdido mesmo.

Mistério do menino morto .

255 . o menino sorrindo mas meio assustado. deu assim de repente. Quem sabe o que pensa uma mãe? . imagens de toda uma vida no instante mesmo da morte: não se esquece jamais e não importa mais. achei o que eu estava precisando: o instantâneo de uma criança dando de comer aos gansos. Ela não: .. ela queria uma foto: . nunca sei nessas horas. dizem que nos segundos que antecedem a morte o mundo todo vê sua vida passar.o pai eu não cheguei a ver quando estive no sítio fotografando -. Era uma mulher bonita. Coisas tão desimportantes quanto o sonolento vôo de uma mosca na sala de aula. O loirinho carregando braçadas de grandes folhas de couve e a gansaria toda correndo atrás e grasnando. Passou nem um mês e a mãe dele vem me procurar . cercado pelos gansos brancos de longos pescoços. Fotografei o menino quando ele ainda estava vivo.Obrigada . Quando vi aquele menino. Deu uma bela foto. toda a sua vida.Foi três dias depois que o senhor esteve lá fotografando. o avô dele tinha uma criação bem-sucedida..Ele tinha só cinco aninhos. .Mas como? Ele . Foi de meningite. .Meus pêsames. Eram gansos. bonito..Quando alguém está se afogando vê passar. quase maiores do que ele. por isso mesmo queremos a foto. imagens já nem pensadas mais ou nunca registradas pela memória. de cores brilhantes: em primeiro plano..Deve ter ficado bem bonita. da hora da saída do ventre materno ao indesejado instante final. A mulher ficou esperando que eu dissesse alguma coisa.. Fui muito feliz nessa foto.. E não é só quem morre afogado. nunca pensamos em mandar tirar. rapidamente como num filme.. logo depois do primeiro beijo. Sem explicação. loiro de olhinhos vivos bem azuis. Disse isso como quem diz ele está bem. Não temos nenhuma fotografia dele . Eu continuava sem saber o que falar. bem nítida. Em poucas horas estava morto. Eu não sabia o que dizer. imagens sempre revividas como o lento entreabrir dos ofegantes lábios úmidos da mulher amada ao dizer eu te amo. tudo é lembrado. meio judiada mas ainda inteira.. usava métodos próprios muito eficientes. Eu disse: . Ele morreu..

Lembrou o menino daquela história do Pedra Malazartes que a mãe contou então? Aquela do Malazartes que de preguiça não comia nada e estava morrendo de fome. aí passa um homem vendendo banana. da emoção indefinÍvel da256 . Na hora da morte o menino riu novamente dessa história? Na relembrança. a alegria assustada de dar comida aos gansos durou o mesmo tempo da imagem sem contornos.Fiz a ampliação e mandei. A parte da dor. Olha como ficou bonita: 816 357 492 Antes de mandar entregar. reflexos dourados do sol. naquela manhã de verão. a bolinha azul brilhando lá longe. eu ficava olhando a foto: coitado do guri. nem cobrei nada. é claro. Depois a mãe esticava bem o braço. a mãe rodava nos dedos uma bolinha de vidro azul e encostava nos olhinhos do menino. "Está descascada?". teve a mesma duração daquela manhã dourada? Quando ele. para ele devia ser atrás do pescoço. da febre alta.palavra que talvez uma criança de cinco anos nem saiba dizer. Já iam carregando com ele para o cemitério. "Não tá não".vidinha curta . aninhado na cama materna. então ele via o mundo através do azul luminoso girante. No que ele estava pensando quando morreu? Será que é igual a gente grande? Será que também repassou a vida dele .na hora da morte? E será que tudo passou com o mesmo peso de tempo? A dor forte na nuca . responde o vendedor. e Malazartes ordena: "Então toca o enterro!". pergunta o preguiçoso Malazartes lá do caixão.

comecei a pensar na minha própria morte. você diz todas as letras do meu nome (como se chamava o menino morto?) e eu sinto a extensão do prazer. 257 . É este o sentido da minha vida. perdida e nunca mais achada? Difícil dizer. mas quero ver uma vez mais o gemido que escapou dos seus lábios entreabertos. E será bom lembrar. E você desaparecerá comigo para todo o sempre. o mesmo corpo. como num filme. será que experimentarei outras vezes o prazer que tantas vezes sinto no seu corpo? Então o estar morrendo valerá a pena? Agora você está ao meu lado. você já existia? Ou seria amarela e não azul? Não sei. como a lenta agonia de meu pai? O câncer roendo pedaços dos lábios dele que iam soltando quando se passava algodão molhado para mitigar sua sede. Nossos corpos colados. Só saberei de fato quando. quando a moça de cabelo preto quem era ela? . Não pude evitar. um espaço infinito no tempo da minha vida: como se fosse sempre assim e assim sempre será. Na morte o menino levou a memória junto. na hora da minha morte. eu dirigindo? Ou na longa dor da desagregação do corpo. contava coisas da lua de São Jorge brilhante lá longe no negro céu azul do sonho? No repassar de sua vida. Não que eu tenha esquecido cada instante. a podridão em vida. Como será? Vai acontecer rapidamente num desastre de carro. E que lembranças vou reter na minha hora? Talvez então me venham com clareza momentos passados desapercebidos da primeira vez que tive você nos meus braços. as imagens da minha vida desfilarem nos meus olhos. acabamos de fazer amor. ouvir o cheiro doce que se espalha de seu prazer. o prazer que você me dá? Você já existia quando eu nem conhecia você? Quando o menino via o mundo no alumbramento azul da bolinha de vidro nas mãos da mãe. sentir a cor do seu corpo colado no meu pela gosma do seu gozo.quela noite na varanda ao luar. Nem água ele agüentava mais tomar. No relembrar. o menino ficou sabendo onde é que foi parar a bolinha de borracha vermelha.apontava as estrelas.

() mistério do gato preto e da gata gorda .

Porém. Mais do que os homens. Os bicos róseos dos seios dela são rodeados de parcos pêlos pretos. fininhos. bem redondos. Só gatas tem pêlos de três cores. pêlos macios. Foi a segunda mulher que conheci com pêlos no peito. escondia o que sentia. Da primeira vez que os beijei.Eu sou um homem. No cangote. Mais do que as dos homens. as pupilas dos gatos se dilatam no escuro.já nasce com o destino traçado. com grandes olhos bem pretos. como vi em outras mulheres. e eu brincava: "Parece um hominho". querem agrado mas fingem não querer. os gatos sabem ver o que se esconde no negror da noite. queria se entregar a mim . não se entregam fácil. Não era a palavra que mais saía de sua boca. Disfarçados como eles só. gatos não. curtos. a Danielle. gatos não. uma francesinha. dizia mil coisas: ''Você é um louco!". porém tinha pêlos bem pretos espalhados pelo corpo bem branco.e como queria . Gatos costumam ser altivos por natureza. Antes de vê-Ia nua eu imaginava que teria uma vasta pentelheira de pêlos compridos espalhados em várias direções. Não que ela fosse peluda. seus pêlos são bem macios. um rabinho como o de um gatinho.tanto podem ser machos como fêmeas. por exemplo . lisos. os negros olhos dela são redondos como olhos de gato. Coisas da raça. Gatos com pêlos de uma ou duas cores . A noite é território dos gatos. igual a qualquer outro animal. e correm todos na mesma direção. espalhados. esparsos. a outra foi uma namorada que tive quando garotão.preto e amarelo. como que para ver no escuro. Cara branca redonda como a de uma gata. que chupei. se os pêlos tiverem três cores só podem ser fêmeas. Debaixo das grossas sobrancelhas pretas. Não é qualquer pessoa que consegue lidar com gatos. uma mecha mais comprida descendo um pouquinho pelo pescoço. A primeira coisa que chama a atenção nela são os cabelos cortados bem curtinhos. inventava mil pretextos. as coisas têm de ser do jeito que eles determinam. 261 . firme. Ao contrário do homem.mas não dava o braço a torcer. a luz estava apagada e eu pensei que eram do cobertor lanhudo . Ela também era assim. mil desculpas. Vida sem surpresas. o gato.fazia bastante frio naquela noite. Alguns animais têm pêlos ásperos.

empurrava minha cabeça. disse que fazia isso para ficar mais tempo com o meu cheiro no corpo. às vezes tirava sangue. mas fingia raiva. no gozo. eu mordia as coxas dela no meio das pernas. O único lugar onde você pode acariciar um gato no contrapelo é a barriga. nossas gosmas se colavam. com os dentes. puxava de volta. Na coxa macia de pele branca. Depois de fazer amor. Mulher que não se entrega. E era tão bom! Como acariciar um gato. não sou gorda e não sou tua! E de raiva enfiava fundo as unhas nas minhas costas. e nada de carnes moles. ela fingia que não estava gostando. Aquilo doía de gozo. Na hora do gozo ela exalava um cheiro tão bom. A primeira parte do corpo dela que toquei foram os cabelos curtos bem pretos. Ela ficava louca de raiva quando. O desejo me corria pela ponta dos dedos. Eu sentia um grande prazer em morder as coxas dela e vê-Ia renegar o gozo que fingia não sentir. Como gata no cio. e somente quando estão deitados de dorso. quando minha língua acariciava seu sexo. se oferecendo para agrados. dengosos. rija debaixo da pele branca como nunca vi igual. Gatos não gostam que a gente revire o pêlo deles. estriados. vaidosa que é. disfarçada. entregue. ficava a marca dos meus dentes bastante tempo. perto do sexo. Só tem um jeito da gente dominar um gato: acariciar forte a espinha dele na região entre as omoplatas nas patas dianteiras. na cama. gato preto. cheiro de limão e suor quente. Acariciei ao contrário do sentido em que eles corriam. ela se vestia sem se lavar. eu a chamava de gatona gorda. O gato fica sem ação. Eu também mantinha o 262 . pela palma da mão. quando meu sexo estava dentro dela e quando. eu revirava seus pentelhos. era rechonchuda. Numa das poucas vezes que falou coisas carinhosas para mim. pêlos quentes. primeiro roxa depois preta. depois amarela. Na hora de beijá-Ia. Não era gorda. parecia que ela gozava muitas vezes o mesmo gozo. Eu não sou gata. sensível. Parecia estar gozando quando eu beijava sua boca. Com os dedos. irritado mas sem coragem de se libertar.Que nada! Era uma pequena moita de poucos pêlos curtos bem macios correndo em direção à sua fenda. empurrava. eu gostava de passar minha língua no pequeno buço que encimava seus rosados lábios carnudos. eu sei. puxava de volta. Minha gatona gorda. Buço ralo que mesmo assim ela descoloria. Fingindo vingança. Ela sentia grande prazer com isso. quando sugava seus seios.

Com as duas mãos empurrando a faca. Meu rosto toma a forma da morte: olhos cavos. O sangue mancha a mim e a ela. eu nada vejo. elajoga o peso do corpo sobre mim e a faca penetra mais fundo. Meu coração pára de bater. manchas negras cobrem minha pele. Imóvel. à espera de quem venha fechá-Ios. De noite. vêm como se fossem para outra direção. o calor do meu corpo se esvai para sempre. Um dia.cheiro do gozo dela comigo. eu ainda sentia o cheiro do prazer da minha gata gorda. As marcas do cadáver: meu nariz torna-se mais pontiagudo do que era. Antes de você só tive o meu marido e com ele eu nunca senti nada". não nos olham nos olhos. fica desagradável ao tato: mas quem vai querer me tocar? Pelo sangue escorrido. Eu não sabia o que pensar. Não consigo me mexer. não gostam de mostrar dependência. 263 . Minha pele seca e toma a cor cinza. nem as mãos eu lavava. com uma orla enegrada. e ela me amava. abertos. depois de fazer amor. Meus lábios pendem. minha voz não se fará ouvir e eu nada escutarei. mas também não era de mentir. perdem o brilho. Não sinto mais a dor. os pêlos das narinas cobertos de uma poeira esbranquiçada. Levantou-se da cama e eu continuei deitado pensando no que ela tinha dito. Gatos são animais estranhos. A respiração abandona meus pulmões secos. nem de falar coisas de amor. se fosse verdade eu amava aquela mulher. mas é um gemido arrastado com gosto de sangue que desce pela minha garganta. ao lado da minha mulher dormindo. Sobre eles se cria como que uma tela viscosa. pode reparar. a boca se abre e não se fechará mais. Ela veio com uma faca e enfiou na minha barriga com toda a força que tinha. A morte toma conta de mim. quebradiça. Você foi o primeiro homem que me fez gozar. ela não era de fazer confidências. Soltei um grito fraco da dor rasgada que senti. chegam de mansinho. O sangue não circula mais nas minhas veias. Não sentirei mais o cheiro da mulher amada e não tenho querer. se instalam no nosso colo. Quando se entregam. ela me apertou forte e disse: "Eu nunca tinha gozado antes. Mas se deixam ficar e sonham sonhos bem quentinhos. na cama. estávamos abraçados. como se ali não estivessem ou não quisessem estar. De dor abro a boca para engolir o ar. Desvencilhou-se dos meus braços e beijou meu sexo.

o que vaI dificultar quando forem vestir meu corpo.Os músculos começam a enrijecer. o nada nada ada da a 264 . Pensa no nada. Meu cérebro não pensa mais.

macaco Como tudo comecou • .() misterioso homem ..

nisso até se parece com gente. mas também de muita serventia para outras caças. braços levantados. sombreada pelas copas de muitas árvores tapadoras. de donde seguiam caminho. até o ipê. Ao cão não incomodavam por causa do pêlo. mas como eu não tinha comido nada até aquela hora.Eu ia sozinho cantando: Ta-tu Peba Tatu Pe-reba Ta-tu bola Tatu en-rola ~ i Eu ia sozinho mais o cão. Não adiantava espantar as bichinhas. mas em mim. Calorão da mata. tirando dele alimento para fazer seu mel azedo. me cobriam a cara sugando meu suor pegajoso. Se um errasse o salto. um deles apanhava o companheiro no ar e. que refrigério! Me sento num toco e vou tirando a garrafa do bornal. quando ouço uns guinchos ardidos. Mais de uma vez tive de atorar cipó com o facão para beber a água de dentro dele e dar para o cão. ou se o outro não o agarrasse em tempo. Mata escura. atirava-o são e salvo num galhão grosso do ipê. sabor azedo. Era um bando de macacos que. camisa molhada grudada no corpo. Segurava uma 28 de chumbo e nas costas uma Winchester 22. bom veadeiro. e dali um de cada vez dava um salto. Não sou chegado a carne de macaco. se não picavam. Meu rosto preto daquelas abelhinhas miúdas. também não arredavam dali. 267 . a garrafa com café adoçado e pão de milho para mim e o Divino. balangando-o. acho muito seca. máscara preta cobrindo minha cara e fazendo aumentar o calor sentido. também pendurado o bornal com os cartuchos dos dois calibres. ele caía e ia se esborrachar no chão lá embaixo. o macaco. tanta a sede de nós dois. de raro deixando entrever uma nesga de céu muito azul sem nuvens. a língua do Divino sempre de fora. lá no alto. iam caminhando pelo galho pelado da peroba bem até a pontinha. De vez em quando puxava o facão da bainha presa na cinta para abrir caminho na mata densa. também eu suava. prestimoso que era. musculosa. Coisa até interessante de se ver. Bicho danado de engenhoso. fechada. Já ia por volta das desoras e eu ainda não tinha caçado nada. Pendurado pelo rabo num galho mais alto do ipê. faziam a travessia de uma peroba para um ipê vizinho. pretas que nem mosca. Depois de muito andar chego numa clareira. que não usava barba naquele tempo.

catei a Winchester e me levanteijá apontando para o alto. Divino nem reparou na cena, entretido que estava com o seu descanso. Cachorro é bicho mais preocupado com as coisas da terra, o que se passa lá em cima não lhe interessa, senão já estaria latindo feito um condenado. Já o macaco, lá no alto, sempre se preocupa com aquilo que se passa no chão. Quando apontei a arma quase todos já tinham passado, sobrava só um retardatário no galho da peroba. Aquele outro que estava pendurado pelo rabo no ipê, quando me viu, num átimo pulou para o meio das folhagens e sumiu da minha vista. Mirei então o retardatário, sem o companheiro que fugira não tinha como pular para o ipê. No comprido galho onde estava não tinha ramagem para se esconder, e o tempo era pouco para ele correr até um lugar mais coberto: eu atirava antes. O que fez ele quando se viu perdido? Se meteu a gritar e pular de desespero. Não morreu ali na hora porque não atirei logo, me distraí, rindo que estava de suas macaquices. Quando o bicho se tocou de que eu ia mesmo atirar, pegou das costas um macaquinho bem pequeninho e o levantou nos braços para me mostrar. Vi logo que era uma fêmea com sua cria recém-nascida. Gritou, se ajoelhou e se pôs a chorar - macaco é quase como gente -, uma mãe me pedindo para eu não matar seu filho. A gente faz muita maldade na vida, e na hora não percebe. Eu, ali, fiz uma que fui pagar bem caro depois, caro demais. Mas na ocasião não pensei em nada, e dei com o dedo no gatilho da Winchester, Bang. O que voou de pássaro com o barulho! Tiro certeiro: a macaca despencou lá de cima - queda demorada de tão alta - e veio se estatelar no chão da clareira. Só então o Divino se deu conta e correu latindo para a caça estendida, morta. Corri junto, queria ver. Cheguei antes, e foi bom porque salvei a presa que o cão ia comer. Coisas de mãe que só Deus explica: não é que mesmo morta a macaca deu um jeito de proteger a cria?! Ela caiu segurando o filho e, quando bateram no chão, o corpo dela amorteceu a queda. Morreu bem mortinha, mas salvou o filho. Quando percebi que o cão, nervoso, rosnando, ia abocanhar o filhote, dei um pontapé no focinho, Passa, Divino!, e protegi o bichinho com as minhas mãos. O cão perdeu o filho mas ganhou a mãe, e aí abriu a bocarra e, numa sentada, devorou o cadáver morto da macaca, só deixou pele peluda e osso grande, o resto mandou para as tripas e ainda ficou lambendo o sangue do chão.
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tremia e chorava nas minhas mãos. Magrinho e miudinho, pensei, mas vai me servir de janta. Coloquei o bichinho dentro do bornal e com o calorzinho ele parou de tremer, aos poucos se acalmou, acho que até dormiu quieto, esquecido da morte da mãe. E eu peguei o caminho de casa. Na volta perdi o Divino. Caminhou uns tempos ao meu lado, normal, depois parou e devolveu tudo o que tinha comido, vômito verde, fedido. Aí passou a caminhar inquieto, parando a toda hora para se mijar, sem levantar a pata, que nem uma cadela. Todo nervoso, começou a latir e a correr em roda tentando morder o próprio rabo. De repente, deu uma guinada e disparou ganindo, e sumiu no mato. Chamei, chamei, mas ele não voltou; ainda pensei em correr atrás dele, mas a mata era muito fechada e desisti. Nessa hora o macaquinho pôs a cabecinha para fora do bornal e espiou, olhinhos bem abertos, a mim me pareceu que ele até estava dando risada. Percebi então que a queda não o tinha afetado. Chegado ao rancho, contei a caçada pra minha mulher e mostrei o macaquinho. Seu malvado, ela me repreendeu. Isso não é coisa de cristão fazer. Achou bonito o bichinho: Tadinho, deve estar com fome, o pequeno órfão!. E se tomou de dores pelo macaquinho. Foi tirar leite da cabra, e de um vidrinho com um chumaço de pano no gargalo aprontou uma mamadeira. O danadinho se achou! Era até bonito de ver aquele toquinho feioso, agarrado aos peitões da minha mulher, tomando seu leitinho adoçado com rapadura, chupando a mamadeira. E como mamava, o desgraçadinho! Não havia leite que chegasse. Não fosse, um dia depois, o cabritinho ter morrido de picada de cobra, não sei se a cabra ia ter leite suficiente para o sustento dos dois. Mamava tanto que dali a uns dias já estava forte e grandinho. Não sei se foi pelo leite de cabra, mais forte do que o leite da macaca sua mãe, ou se foi pelo fortume do açúcar de rapadura, só sei que lhe caiu quase todo o pêlo, deixando à vista sua pele enrugadinha, parda, mosqueada. E daí ficou ainda mais parecido com gente humana. Minha mulher andava com ele para cima e para baixo, se tomou de amores pelo bichinho. Não largava dele nem para cozinhar, enquanto segurava o danadinho com uma das mãos, mexia nas panelas com a outra. Para cuidar da criação e trabalhar na roça, levava o macaquinho atado nas costas. Ele bem que gostava, ficava o tempo todo agarrado à minha mulher, como se ela fosse a mãe dele, a falecida. Dormia na nossa cama, os dois abraçados como mãe e filho.
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o macaquinho

Tinha um pintão enorme, cabeça de prego, e para esconder essa vergonha minha mulher até fez umas fraldas, que trocava sempre que molhadas. Era muito dengue para uma criaturinha da mata, mas eu não ligava. Nossa filha já andava com doze anos, viçosa, bonita, carregava as tristezas próprias da idade, vivia ensimesmada, já não era companhia para a mãe. Nosso filho, Pedro, naquele tempo andava buscando ganhar a vida na cidade e quase nunca vinha nos visitar. Mulher é bicho diferente, tem suas coisas, suas manias, e desde que não incomode os outros o melhor é deixar. O carinho dela pelo macaquinho não perturbava ninguém, nem a mim nem à nossa filha. Se isso trazia alegria para ela, se diminuía sua solitude naquele rancho perdido no meio do mato, por que se incomodar, se existem tantas outras coisas para a gente se preocupar nesta vida que Deus nos deu?
Não é mesmo?

Assim foi indo até aquela noite da tempestade. Foi logo depois da janta,já muito escuro começou um vento forte, assobiador, e despencou uma chuvarada forte como nunca se viu antes, um verdadeiro dilúvio. Um frio úmido começou tão de repente que tive que me enrolar no cobertor. Era um relâmpago atrás do outro. A mulher queimou as palmas bentas e rezava assustada para Santa Bárbara. A menina tinha pavor de raio, se abraçou a mim fechando os olhos contra o meu peito, e assim ficou. Só o macaquinho parecia não se incomodar com o temporal, dormia o sono dos justos bem grudadinho na minha mulher. Foi a noite do cão. O medo não deixava ninguém dormir, nem sei como as águas não levaram embora o meu rancho, as horas foram passando e nada da chuva querer diminuir. Até que se deu o acontecido: na madrugada, nós três ainda acordados, assustados, molhados até os ossos pela chuva que caía pelos buracos do teto, e não é que de repente o macaquinho acorda, abre os olhinhos, se levanta, caminhando vai até o fogão, risca um fósforo e acende a lamparina? Na hora até que a gente não estranhou esse seu ato. Afinal, macaco é bicho esperto, achamos que o que ele fez não tinha sido nada mais do que imitar um gesto que tantas vezes nos viu fazer. O de causar espanto era ver a chama da lamparina, que, naquela ventania toda, se mantinha reta, firme, bem luminosa. O macaquinho veio se chegando perto de nós trazendo a lamparina acesa, nos olhos, bem nos olhos, e falou com um vozelrao grosso: - Eu me chamo João da Silva! Cruz credo, Ave Maria, te esconjuro! Já vi muito animal inteligente,
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mas nunca dantes nem eu, nem ninguém, viu bicho falar, ainda mais macaco. Foi um susto só: a menina começou a chorar de medo, o queixo da mulher caiu lá embaixo, os olhos arregalados, nem sei se de espanto ou terror. - Eu me chamo João da Silva! Dito isso, tirou o pinto para fora da fralda e, rindo de gargalhar, mijou quase ao pé da gente no chão de terra batida, mijou tão forte que abriu um buracão. No exato momento da mijada, caiu um raio tão forte, tão estrondoso que alumiou o mundo todo. Tão forte que a noite clareou como dia e derrubou o flamboyant que meu avô plantara na frente do rancho, queimando num fogo que nem a chuva conseguiu apagar, aquilo que talvez fosse a única beleza daquela terra. Eu me chamo João da Silva... foi assim que tudo começou. Foi nessa noite amaldiçoada que ele se revelou, que se fez homem aquele macaco amaldiçoado que em maldita hora eu fui trazer para dentro da minha casa. Esse macaco que fez o padre enlouquecer no dia do seu batizado. Que na escola onde foi aprender as primeiras letras atazanou tanto a professorinha que ela, coitada, abortou. Esse macaco que sempre tratei como filho e que abusou da inocência da minha filha, sua enteada, e fez mal para ela, matando minha mulher de desgosto. Que, com suas artimanhas diabólicas, fez meu filho Pedra pagar por ele, até hoje cumprindo pena na cadeia por um crime que o macaco cometeu. Que de tanto me judiar, me transformou no velho aleijado que hoje eu sou. Tanta sacanagem, tanta maldade, tanta coisa ruim esse João da Silva fez, e ainda faz em suas andanças pelo mundo, que se eu fosse contar levava a vida inteira e ainda não chegava ao fim. Não gosto nem de lembrar dos crimes hediondos que esse ser maligno cometeu. Mas, se você não tiver medo de ouvir e, para se precaver, quiser saber de toda a verdade sobre esse homem-macaco, um dia eu me armo de coragem e te conto tudo.

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Mistério
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maglco

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valetes . damas. O Mágico domina sua platéia e não lhe dá folga para pensar.. e atira-o em direção das mesas onde estão os espectadores sentados. num gesto rápido desvira o Rei de Ouros. vão surgindo outras cartas que ele vai atirando: noves. reis. setes. Óóóós 275 ..Olhem fixamente esta carta! Viram bem? É um sete de paus! Correto? Errado! É um rei de ouros. Somente algum tempo depois é que os espectadores começaram a bater palmas assombrados: Eu via um sete e ele se transformou num rei. três. Da ponta de seus dedos. que tem seguro pelo polegar e o indicador. na frente dos meus olhos!. Cartas de todos os naipes. de surpresa e espanto e mesmo alguns risos nervosos. do nada.

coberta de jóias douradas como o ouro do seu cabelo comprido solto. encantados. algumas com luvas. o rosto branco cortado em cima dos lábios por um bigodinho reto preto. talvez não seja tão alta. Na obscuridade. Cortina preta brilhante ao fundo do pequeno palco. industriais. oficiais das três armas. Enquanto as palmas ainda ecoam pelo número das cartas. a maquiagem acentuada. Impecavelmente vestido em sua casaca preta brilhante. Figuras da sociedade. a boca carnuda bem traçada coberta de batom vermelho. de onde as cartas surgem do nada. a odalisca traz um grande aquário redondo e o coloca sobre a mesinha de 276 . o traçado do rosto.. algumas velhas. gravata-borboleta do mesmo cetim preto brilhante da lapela. bigodinho preto bemcuidado. abotoaduras de ouro maciço. Algumas moças. todas em seus vestidos de noite decotados. damas de caridade. de roupa comum. summers e uniformes de gala. peitilho engomado liso branco brilhante. nem tão moça... loiro natural. Que idade terá ela?. fora das luzes brilhantes do palco. membros do governo . pernas longas. embaixadores.. olhos fixos na ponta dos seus dedos. meias pretas de seda. reis . O palco em semicírculo é uma pequena elevação ao fundo do salão. algumas cobertas de peles legítimas. toalhas de linho. sem os sapatos de salto alto bem fino. Talvez. Umas ao lado dos maridos. personalidades do mundo das artes. formando um pequeno bico no meio da testa. outras ao lado dos amantes. nem tão formosa. algumas com chapéus. para colocá-Ia no ritmo em que as cartas vão surgindo das mãos do Mágico: cravo branco na lapela de cetim da casaca preta brilhante. "Caravan" de Duke Ellington. As luzes de cena criam uma aura branca brilhante em torno da figura esguia do Mágico e ofuscam a vista dos espectadores enlevados. O pianista tenta acelerar a música que toca. mais elegante que muitos dos espectadores em seus smokings. debutantes. o porte esbelto. algumas ao lado dos parentes. Talvez se iguale em beleza às mulheres que a invejam. algumas mulheres ousam desviar os olhos da ponta dos dedos do Mágico para se fixar na assistente vestida de odalisca. fazem dela a mulher mais formosa no salão. As brilhantes luzes do palco em seu corpo bem torneado quase despido na fantasia de odalisca. sapatos pretos de verniz brilhante. a pergunta mais perguntada.o Mágico domina. O chão do pequeno palco e parte do salão onde estão as mesas se cobrem de cartas: setes. surpresos. esbelto. que assistem ao espetáculo nas mesas do salão. três. justa no corpo. pele sem nódoas. cabelos pretos bem curtos esticados por brilhantina. rosto anguloso.

as palmas da platéia. Ajuda a assistente a subir e a entrar agachada na caixa. para algumas mesas. o Mágico abre a caixa puxando uma tampa presa por dobradiças na parte de cima. com muito cuidado para não entornar a água do aquário coberto. Caminha lento para a platéia. litros de uísque escocês e sifões em garrafas bojudas de vidro opaco. Três peixes dourados de longas barbatanas. em suas calças pretas paletós brancos gravatas-borboleta vermelhas. garçons solícitos. num gesto brusco atira a forma do aquário que tem nas mãos em direção aos espectadores. fecha-a e passa em volta uma corrente de metal dourado. com medo de se molhar: o Mágico tem nas mãos apenas o pano preto decorado com estrelas e meias-luas prateadas. O Filho do Presidente comenta com um rapaz que está ao seu lado: Já sei com quem ele se parece. e. subitamente. O Mágico faz gestos ondulantes com sua vare ta fina preta. com o Mandrake do gibi! 277 . Na pequena pausa. enquanto o Mágico cobre o aquário com um pano preto brilhante. O Mágico não dá tempo para a platéia respirar. lacrando-a com um cadeado dourado cuja chave guarda no bolso. trançado com finos fios de metal prateado. Depois do susto. decorado com aplicações de meias-luas e estrelas de lantejoulas prateadas. o aquário desapareceu. aproveitam para servir champanhe francês trazido em baldes de metal branco brilhante e. entrega-a para a assistente e com as mãos suspende o aquário envolto com o pano preto. Depois. Pela frente. caudas transparentes douradas. no centro do palco.longos pés de metal brilhante. todos jogam o corpo para trás. ainda em meio às palmas a bela assistente loira vestida de odalisca traz sobre uma mesinha com rodas uma grande caixa dourada. Com o susto. intranqüilos na água agitada do grande aquário redondo.

retira a corrente e abre a caixa dourada. Antes. O Mágico agora segura sete espadas brilhantes e. Quando a ponta da sétimla espada surge na frente da caixa dourada. que se acha atrás da caixa dourada. três. Alguns gestos circulares com a vare ta mágica. o Mágico retorna rápido para a platéia e põe o véu azul sobre a mancha de sangue no peitilho da camisa do Filho do Presidente. estrugem palmas que 278 . e quando ele puxa o véu azul a admiração é geral: a mancha de sangue desapareceu como por encanto ante os olhos de todos. É o próprio Mágico quem resolve a situação. Incapaz de esboçar qualquer reação. dirige-se com passos inseguros para a platéia. Chegou a vez da sétima espada. Sorrindo. resto da fantasia da odalisca. e entre exclamações de admiração. o Mágico vai para a frente da caixa dourada e. impecavelmente gomado.já vem suja de sangue vermelho pegajoso quente. quatro. Se a assistente ainda está lá dentro. como um autômato. Percebendo a agitação. mas como ele fez isso?. já estará morta rasgada por seis pontudas lâminas afiadas.Ao lado do Filho do Presidente. que estaria vazia não fosse um véu azul transparente caído no chão. com elas. Alguns espectadores nervosos se levantam e procuram chegar mais perto do palco. não vê o sangue que começa a escorrer através do buraco aberto pela espada: é pelo burburinho da platéia assustada que ele percebe que alguma coisa saiu errada no truque. o Mágico choca-se com o Filho do Presidente. Uma. fazendo as pontas saírem do outro lado. A música parou. a Modelo de Capa de Revista ouve e não entende a piada. duas. toca com a mão direita no sangue. Nem o rapaz nem seus guarda-costas sabem como reagir. assustado. cinco. para mostrar que as espadas estão bem afiadas. Em seu andar cego. O Mágico. enfia as espadas na caixa. joga para cima sete véus de tule de sete cores e corta-os ainda no ar. deixando impressa uma mão de sangue no peitilho branco. Toma a chave dourada do bolso. A platéia compreende tudo. que agora corre abundantemente. o pianista também se levanta para ver o que está acontecendo. que agora está toda em pé. voltando ligeiro para o palco. A música recomeça. olha horrorizado para sua mão manchada de sangue e. o Mágico mostra a sua mão também limpa. abre rápido o cadeado. sem saber o que fazer. a caixa está toda transpassada. com cuidado e muita força. transpassa a caixa dourada onde está presa sua assistente. seis. foi apenas mais um truque. de sua camisa.

onde há quatro camarins. Não posso reveláIa porque fere a ética . abrindose a última porta encontra-se a assistente ainda vestida de odalisca.o Mágico agradece curvando-se num gesto de humildade. Alguns pares se encaminham para dançar na pequena pista. Ele hesita. 2. aquela que o levará aos braços da assistente. quando aberta. qual das portas abrir. que entrará em cena logo mais. comentarem a repercussão do show. mostrará a assistente de roupão. ninguém notou que a assistente vestida de odalisca não reapareceu para agradecer os aplausos. com certeza. Outra. é a do camarim onde o cantor francês. nunca ninguém havia visto truques tão assombrosos. Finalmente. aspira cocaína. entre eles o Filho do Presidente com a Modelo. enquanto o Mágico fechava a tampa. O Mágico está parado no início do corredor. pois prejudicaria os colegas: que graça teria um truque que já se sabe como foi feito? 279 . todos com uma estrela dourada na porta e identificados pelos números 1. e ele terá de prestar contas àjustiça pelo assassinato. depois de um prolongado beijo. e somente uma pode ser aberta. Porém. todos do lado direito. Uma delas se encontra chaveada. qualquer uma das outras o conduzirá à prisão e à morte. O Mágico dirige-se agora para o corredor no fundo do palco. esperando a volta do Mágico para. E você. sabe que tem que abrir uma única porta mas não sabe qual. os garçons retomam o serviço trazendo bebidas. Qualquer uma das três outras que abrir e o truque não terá dado certo. sua companheira de mesa. à sua espera.é vedado a um mágico revelar seus truques. No corredor. Aberta. sabe qual a porta certa? É uma mágica. Ele precisa saber. Outra fecha um camarim às escuras que não será usado esta noite. Foi vista pela última vez quando entrou na caixa dourada e se pôs de cócoras. diferenciadas apenas pelos números de 1 a 3A . Os espectadores sentam-se novamente. o Mágico hesita diante de qual porta abrir. estendida num pequeno tapete azul. o preço que terá de pagar por não ter sabido usar com sabedoria seus poderes mágicos. O comentário geral é sobre as habilidades do Mágico. para em seguida recolher-se aos bastidores.3 e 3A. tem que ser a do camarim onde a assistente está viva. Iguais são as portas com a estrela dourada. morta ensangüentada pelas catorze perfurações por onde entraram e saíram as pontas das setes espadas. o conjunto musical assume rapidamente seu lugar no palco e começa a tocar música de dança.

a 2. com exagerado excesso de detalhes.Ao executar a mágica destas páginas. 280 . Fiz questão de dar indicações para que você percebesse. a 3 ou a 3A. claramente. bem à sua vista. você tem todas as condições de abrir a porta certa: pense. onde está a chave do segredo. eu passei a você todas as informações para abrir a porta certa: a 1. É um truque entre eu e você. Vamos. De minha parte. escolha. A da vida ou a da morte? Você tem que saber. abra. executei o truque bem devagar.

Um mistério .A cadeira do diaho .

À direita. exorcismos e pentagramas desenhados. estofada de veludo vermelho. num país preocupado com os terríveis problemas sociais pelos quais atravessamos. filtros. papéis amarelecidos com encantamentos. Ao lado desse armário. uma panóplia com algumas armas brancas. se interessar por um mistério levantado pelo célebreAlexander Hermann (e.Não vejo como isto possa interessar a você. espadas e punhais remontadas por um elmo. segundo alguns autores. tratados de magia alquímica. uma cadeira de espaldar com braços. provetas. A cena representa um laboratório de alquimista. alguém que vive nos dias de hoje. meio voltada para a platéia. alambiques. pendurada na parede do fundo. À esquerda. esferas de vidro azul e outros utensílios mágicos. na cidade do Porto. Mas como pode. um armário baixo de portas envidraçadas com muitos livros velhos encadernados. retortas. em 1887? 283 . pelo não menos famoso Steward Chamberlain) em Portugal.

vasta barba branca. vestido com uma longa túnica azul cerúleo brilhante onde vemos. de textos ligeiros. que não encontrou até agora. a cabeça calva coberta por comprida e cônica mitra. cerrada barba preta. todos os planetas conhecidos até então. para um angustiante problema de ordem pessoal que muito o aflige. rodeados por estrelas prateadas. Você não se inclui nesse caso.Alguém bate à porta do gabinete. dos quais a história não guardou registro algum e que não têm interesse aparente para os dias atuais. o Visitante revela-lhe a causa que o traz ali. àquele obscuro gabinete: a busca de uma resposta. Homem de uns trinta anos. Não entendo como alguém acostumado comfrases curtas. olhos pretos perscrutadores. bordados a ouro. O Alquimista. das que usavam os antigos sacerdotes caldeus. não é? 284 . abre a porta e faz o Visitante entrar. consegue ainda se concentrar e acompanhar longas orações que reportam feitos passados acontecidos com personagens inomináveis.

o Alquimista. 285 . Estarão todos acostumados a escritores de vocabulário parco ou a jornais e revistas ilustradas com textos breves de palavras fáceis? Será difícil entender o significado de certas palavras usadas para descrever objetos de um mundo ao qual não se pertence? Uma ajuda: panóplias são aqueles escudos nos quais se colocam diferentes armas e com os quais se adornam as paredes. a fim de observar uma grandiosa e maravilhosa experiência científica que abrirá sua mente para a compreensão de arcanos herméticos que muito o ajudarão na solução dos problemas que o afligem. Tão logo o Visitante se acomoda na cadeira estofada. o Alquimista degola-o com uma aguçada espada que tomou da panóplia na parede.sabendo que o Visitante carrega nos bolsos uma grande quantidade de dinheiro. maliciosamente procura logo convencê-Io a descansar e assentar-se na cadeira estofada.

É bom ressaltar que. cobriu a roupa do Visitante com uma grande toalha branca e colocou-lhe na cabeça um elmo medieval. habituado a textos jornalísticos que exaltam personagens reais destes tempos de crise (povos em luta. o Alquimista toma a cabeça cortada e coloca-a em cima do armário baixo de portas envidraçadas e volta para revirar os bolsos e roubar o dinheiro do Visitante assassinado. a Cabeça Cortada põe-se a vociferar. .. De cima do armário. viseira cerrada. contra o Alquimista. homens de negócios. ) e acostumado a ver a imagem deles movendo-se nas telas da televisão ou fixada em fotos coloridas nos jornais e revistas de grande circulação. sob o pretexto de protegê-Io das emanações dos produtos químicos utilizados na maravilhosa experiência que mostraria dali a instantes. 286 . o elmo. seu assassino e ladrão.Após a degolação. chefes de Estado. que também retirou da panóplia. Nesse momento. o Alquimista. antes de consumar o odioso crime. não sei como pode ainda se emocionar com uma sangrenta ocorrência entre um falso mago e seu ingênuo cliente. acontecida há mais de um século num outro país. a voz irada da Cabeça Cortada roga pragas contra o criminoso Alquimista. angustiada e revoltada. enquanto o ensangüentado corpo decapitado ainda perneia. Na verdade. líderes políticos. a toalha serviu para recolher o sangue derramado.b Não sei como pode alguém. para marcar o lugar certo do corte e impedir a vítima de pressentir o golpe.. artistas .

de ódio: Que Satã te carregue para o mais negro dos infernos! o Nesse momento. quase sem forças. vermelhos olhos abertos. e. o pano cai vagarosamente. de súbito. lábios roxos da morte. uma grande chama negra surge do chão. vestido com sua infernal roupa vermelha. exclama com voz rouquenha. pele pálida graças à perda de sangue contrastando com a barba negra. abraçando-se ao Alquimista. Nela aparece um terrÍvel demônio com chifres. a Cabeça Cortada. Enquanto isso. Ao ver a alegria feroz com que o assassino saboreia o êxito de sua criminosa aventura. numa estrondosa explosão de fumaça. 287 .Alquimista arranca dos bolsos do ensangüentado decapitado notas e moedas de ouro. some com ele pelo solo. ao som de sua estrepitosa gargalhada.

em poucas linhas. portanto. e nem mesmo A cadeira de Satã. segundo a dialética do pensamento dominante.Quem está acostumado a encontrar explicações científicas sobre o que leu. de David de Castro. de difícil aquisição nos dias de hoje.alguns problemas técnicos que expliquem os misteriosos fatos acontecidos entre o Alquimista e seu malfadado Visitante. como se verá adiante. respectivamente em maio ejunho de 1884. Pretendo. torna-se necessário: lº) Uma cadeira de espaldar cujas portas devem ser furadas da forma que se vê no desenho abaixo.espero eu . por serem obras há muito esgotadas e. de Charles Richet. de Gley. editado em português por Lugand e Geneloux. em 1888. ambos editados pela Société de Biologie. talvez espere que eu proceda de maneira semelhante aos autores de sua predileção. isto sim. 288 . Para o perfeito entendimento de A cadeira do Diabo. que não só explicam os acontecimentos com palavras claras. Confesso que minhas capacidades não chegam aos pés desses autores. ou Sur les mouvements musculaires inconscients en rapport les images. é claro. Não vou. resolver . recomendar a leitura de A propos de Ia sugestion mentale. como ainda acrescentam às explicações respostas para os angustiantes problemas que afligem a humanidade.

a imitar o padrão do estofo geral. 289 . a qual deve ser coberta por uma tênue tabuinha apenas suspensa pela extremidade superior e igualmente pintada à imitação do estofo. As costas da cadeira assim constituídas muito auxiliam o comparsa quando precisar ocultar a cabeça na cavidade. A cadeira. aparentemente. deve mostrar o aspecto do desenho 2º) Uma espada. aCIma.Esta cadeira tem externamente as costas forradas de tecido elástico pintado.

7º) Um terceiro homem para vestir a fantasia vermelha de diabo. e cujo gancho serve para engatar no bordo superior das costas da cadeira. caso se lhe traçasse uma linha reta ao meio de seu formoso corpo. seios bastos com bicos róseos. semelhantes por natureza ou por artifício. 5º) Pólvora seca.3º) Uma esponja embebida em tinta vermelha para simular sangue. 4º) Uma toalha branca grande. 8º) Uma bela mulher alta de lindos cabelos cor de mel. as duas partes. a esquerda e a direita. quando estiver ele enfiado na cabeça do visitante. boca carnuda. ralos pêlos púbicos num tão volumoso monte de Vênus que só se lhe possam acariciar com as duas mãos em concha. fossem simétricas tanto que uma igual à outra seria. olhos glaucos. e pele clara. em sua perfeição. 290 . ancas anchas. Que tão exata seja que. tal como mostra o desenho. 6º) Dois homens parecidos (comparsas). 9º) Um elmo aberto na parte de trás. Este elmo deve ser sempre mostrado de frente. para que ninguém veja a abertura e o gancho que tem atrás.

. que deixa na parte de trás (H) espaço folgado o suficiente para esconder.... pintados de negro de modo a manter ao olhar a ilusão de profundidade.. desde o começo.. e não pode ser descoberto. dos muitos aparelhos (frascos. em virtude da distância de quem o vê....~ ... . ~-~ ..--/ •. retortas./ A .. conforme planta reproduzida abaixo.•. esferas de metal etc. B c ..... ~ ···········__ ··--··r D ~ ~ 291 .lOº) Um armário com portas envidraçadas (p) e aparência regular..) que as prateleiras contêm e da obscuridade reinante no gabinete do Alquimista. O ângulo de espelhos reflete as prateleiras e os lados internos (K) do armário. um comparsa parecido com o visitante. mas encerrando ao centro um ângulo de espelhos (g)..

que esguicha sobre a toalha como um jorro de sangue. FIM E quanto ao sentido do que foi narrado. pelo alçapão do palco. o terceiro comparsa fantasiado de demônio. Quando sobe o pano. o Alquimista põe a mão esquerda na beira do elmo e aplica com a direita o golpe fatal. Escusado dizer que o segundo comparsa. arrasta o Alquimista pelo mesmo alçapão. introduz-lhe na cabeça o elmo adrede preparado e estende a toalha sobre o corpo dele. que talvez nem mesmo saiba o sentido do que escrevi.tal como o leitor já deve ter visto nas cerimônias de umbanda -. enquanto o Visitante finge os estertores da morte. o Alquimista. Usando a mão esquerda. exultando de contentamento com o dinheiro que roubou. encerrando o espetáculo. com gargalhadas sinistras. de cima do armário. surge. o Alquimista atira a espada ensangüentada no chão e. através da fumaça e das chamas provocadas pela explosão da pólvora seca . Junto ao cadáver decapitado. o Alquimista está absorto em seus estudos necrológicos. É o fim de tudo. Batem à porta e entra o Visitante. ZÁS!. enfia a cabeça pelo alçapão apenas o Alquimista pousa o elmo ali. volta a ficar vertical). deixando-o visível apenas do pescoço (coberto pela toalha) para baixo: como o elmo está com a viseira cerrada. Então. cerra a viseira e busca uma espada na panóplia de onde havia tirado o elmo.Agora pratiquemos. As cortinas se fecham. Então. é de súbito horrorizado pelas ameaças que a cabeça. o Alquimista espreme a esponja. que já estava escondido dentro do armário. à mensagem. cavernosamente lhe dirige. vai colocar o elmo em cima do armário. e. imagina-se que a cabeça ainda está ali dentro. 292 . Eu. Em seguida. trêmulo. O Alquimista convence-o a se sentar na cadeira mecânica. Em seguida. pelo seu peso. e era uma vez o Visitante. tenho que deixar ao paciente leitor a tarefa de achar um sentido para a vida e a morte também dos personagens desta história. É nesse instante que o comparsa que faz as vezes do Visitante se empurra contra o pano elástico da cadeira e enfia a cabeça pelo alçapão (cuja portinhola. ao "o que quer dizer isso?".

f antasma ..Um mistério no trem .

até hoje.o fato aconteceu na fria noite de sábado no Parque de Diversões Alvorada.. embarcou no trem-fantasma em companhia de Astolfo Dagoda. ajovemJucélia Ramos. Além da polícia. particulares. constituindo o fato. não chegando a nenhuma conclusão . o carrinho deixava o negro túnel trazendo apenas Astolfo Dagoda: sua companheira havia desaparecido misteriosamente durante o percurso. um dos grandes casos insolúveis de nossos arquivos policiais. . a quem conhecera naquela tarde no Passeio PÚblico. nem foi encontrada nenhuma explicação razoável para seu desaparecimento."-' Retrato falado de Jucélia Ramos Voc~ conhece esta mo7a? 295 . 19 de julho de 1969. Jucélia Ramos nunca mais foi encontrada. ' ~'. a imprensa. entidades estudiosas de fenômenos paranormais e segundo alguns o próprio Serviço de Informações do Exército estudaram o caso. na mesma noite em que o homem chegou na Lua. que realizou profundas investigações. . Por volta das dez e quinze da noite. seguindo exaustivamente todas as pistas levantadas. .4:'::_ .tiS. de 16 anos de idade. 17 anos. Quarenta e cinco segundos depois.

em frente do Passeio PÚblico de Curitiba. pois aumentam a sensação de desequilíbrio e velocidade. O trem parte. ostenta grosseiras pinturas cujo colorido berrante representa cenas macabras: loiras semidespidas sendo atacadas por vampiros. Em seu trajeto. que fazem as vezes do trem e carregam dois passageiros cada. Do tamanho de um homem e vestido de ferroviário. já fazendo uma nova curva e entrando em outro túnel na direção da parede da frente. entra na escuridão das paredes de madeira pintadas de preto e logo já vira. imitando uma estação ferroviária. lobisomens. onde faz uma inesperada curva de noventa graus e arranca gritos de susto dos passageiros. Os carrinhos circulam num monotrilho preso ao chão.Desde os anos 50 que o Parque de Diversões Alvorada está montado no início da avenida João Gualberto. um boneco mecânico de cera toca uma sineta de bronze sinalizando a partida dos carrinhos de ferro. entrando veloz por um túnel reto em direção à parede do fundo. múmias e outros monstros. vão acionando as diversas figuras fantasmagóri296 . O trem-fantasma é uma construção retangular de vinte metros de frente por dez metros de fundo. Essas curvas são a graça do negócio. Sua fachada.

bichinhos que lhe interessavam bastante. colocar os passageiros no trem. sita na rua Atílio Bório 1313. que vibram ao ver a expressão assustada dos passageiros e ao ouvir seus gritos. Vê se cai fora!". porém cheia de sustos. o "chefe do trem" solta apenas um carrinho de cada vez. bem na altura da cabeça dos passageiros. por volta das quatro da tarde. 297 . nunca deixando mais de dois circulando no tr~eto. A princípio a moça. que estava sozinha. nos fins de semana. detendo-se a maior parte do tempo junto da jaula dos macacos. ele entrara no Passeio Público com a finalidade de se distrair e. 19 de julho de 1969. terminado o tr~eto. múmias e monstros de vários tipos. conquistar uma namorada. Ficara olhando os animais do Passeio. umas pequenas luzes que iluminam essas cenas macabras. nas quais aparecem bonecos de cera em forma de caveiras. Isso traz a desagradável sensação de que estamos rompendo enormes teias com aranhas que se enroscam em nossos cabelos. trava conhecimento com uma moça que lhe pareceu bonita e ajeitada. Os 45 segundos desta viagem confiável. sempre serão uma das maiores atrações de um parque de diversões de qualidade. Uniformizado de chefe da estação. seis e meia. que mesmo o barulho dos carrinhos correndo nos trilhos não consegue encobrir. apenas um funcionário do parque se encarrega de todo o serviço: recolher os bilhetes.cas e ligando. na Padaria Aurora. e fixar a barra de segurança que os impede de cair do veículo em movimento. O trem-fantasma sempre atrai um grande número de curiosos. procurou afastá-lo: "Estou esperando meu namorado. Empurra o carrinho para dar o impulso inicial e. Conforme o depoimento de Astolfo Dagoda (inquérito nº 365/69 da SSP-PR). "padeirinho". Na ocasião o depoente era auxiliar de panificação. o que poria em risco a segurança dos passageiros. No túnel desta cena ficam suspensos no escuro vários fios de linha e aranhas de borracha. enforcados. Num pequeno trecho do percurso o carrinho sai do túnel. Por volta das seis. na tarde de sábado. por instantes. Mesmo nas horas de maior movimento. Numa das paredes do fundo há uma teia com uma enorme e repulsiva aranha negra. ficando por instantes à vista do público antes de mergulhar novamente na escuridão. talvez. dando a impressão de que o trem vai se espatifar contra eles. aciona a trava que o faz parar e liberta os passageiros.

que ela trincou com seus dentes perfeitos bem branquinhos. naquele gelado". Falei isso e ela me sorriu. eles limam a mira das espingardinhas de ar comprimido e a gente não acerta uma.Atraído pelas maneiras dela. de que gosta muito. não derrubei nenhum maço de cigarros. falei: Não preciso subir tão alto. segundo ele. a Lua está comigo aqui. Segundo ele: Foi nesse momento que senti que eu gostava dela. Conversaram então sobre vários assuntos. Nem sinal da Lua. Ela falava sempre sem tirar os olhos dos meus e eu sempre olhando para a boca. Depois que ela vestiu o pulôver. eu segurei a mão dela e disse: Nossa! Como você está com a mão fria. Primeiro afirmou ser estudante mas depois confessou ser doméstica. ela adorava música e disse estar vindo do auditório da TV Paraná. agora. Astolfo tirou seu pulôver azul-marinho e fez que ela o vestisse por cima do vestido branco de mangas curtas. Segundo Astolfo. Astolfo Dagoda afirma que pagou para ela primeiro uma paçoquinha e depois uma maçã do amor. Ela lhe disse chamar-se Jucélia. não senhor. Ele lembra que a fumaça do braseiro se juntava com a neblina. Aí eu. coração quente!". principalmente quando eles tocam aquela música dos Beatles "Hey. trabalhando para um família no rico bairro do Batel. Falou ainda que os patrões delajá estavam com a televisão ligada. e ela de mim. Astolfo insistiu e. quando ela sentiu fome comeram um espetinho de um churrasqueiro que estava com o carrinho em frente ao Parque de Diversões Alvorada. E tirou suas mãozinhas da minha. Escurecia rápido e havia esfriado bastante. noite escura. Ela riu e me disse: "Mão fria. Teve uma hora que reparei que tinha um cara 298 . nébuIa. Abraçados. para os lábios dela. Jucélia Ramos. Ela falou com tristeza dos astronautas que iam descer na Lua naquela noite: "Imagine se lá tiver uma neblina assim. Não.Jude". aos poucos ela foi cedendo à sua "boa conversa" e começaram a passear juntos pelo parque. mas esqueceram. não fumo. entretidos que estavam um com o outro. ele pagou adiantado e ficaram de pegar as cópias meia hora depois. pois não trouxera agasalho. onde fora assistir ao programa Ponto 6. que ia forte naquela hora. tiraram uma foto num lambelambe do Passeio Público (atente para este detalhe). Entramos no palácio dos espelhos. Atiramos no tiro ao alvo. que ia mostrar tudo quando eles chegassem na Lua. de um jeito tão bonito. Não sei nem quanto tempo ficamos no parque de diversões. para ver e ouvir o conjunto Os Vondas. finos cobertos de batom bem vermelho. Astolfo Dagoda. fica tão engraçado a gente se ver deformado daquele jeito.

só veio a notar o desaparecimento dela quando o carrinho completou a viagem. entrou nos túneis acompanhado de Astolfo Dagoda para ver se achavam a moça desaparecida.. Novamente nada foi encontrado. não acreditava que a moça tivesse pulado ou caído do carrinho em movimento. Ô meu? Tá invocando com a minha cara?! Tá me achando bonito. Angenor fez nova vistoria. resolvemos dar uma volta no tremlantasma para matar o tempo. e entramos. pois tínhamos acertado de ir no baile da Estrela da Manhã. Os depoimentos são todos muito desencontrados. voltara a verificar o interior do trem-fantasma junto com o guarda299 . 20 centavos cada. Muitos curiosos se aglomeraram no local. disse que havia algum movimento naquela hora e não põde precisar se Astolfo Dagoda entrou sozinho ou acompanhado. na ocasião encarregado do trem-fantasma. Constatou-se que se a moça tivesse caído ou pulado e tivesse escapado com vida do atropelamento. Angenor de Oliveira cortou a corrente elétrica e. ela fatalmente teria sido atropelada pelo carrinho seguinte e haveria manchas de sangue pelo chão. Ele. examinaram tudo e nada encontraram de anormal. O padeirinho Astolfo Dagoda insiste em afirmar que entrou no trem-fantasma junto comJucélia Ramos e que ela desapareceu na escuridão durante o trajeto. olhando muito para nós. se tivesse saído por uma das bocas dos túneis. Astolfo muito pálido . desta vez acompanhado não só de Astolfo. Entretido que estava com as assombrações no escuro.. mas de outras pessoas alarmadas pelo mistério. cara? Qual é a tua. quando travou o carrinho. certamente teria sido vista. coisa que nunca acontecera desde que ali trabalhava. não sabe explicar como. mas cheguei nele efalei: Que é. Percorreram todo o trajeto. Aí aconteceu . Angenor de Oliveira. Se isso tivesse acontecido. com uma lanterna de mão. além do cadáver. alcunhado Caveirinha. é? O cara mixou e deu no pé. depois fiquei sabendo que era lá pelas dez. Disse Angenor que. Não sei bem a hora. é claro. ainda naquela noite. que começa às dez e meia. Até ali eu não tinha tocado nela e achei que na escuridão do tremlantasma era a ocasião de sapecar um beijinho nela. Em vista da agitação e estranhando o desaparecimento. Angenor de Oliveira. O que ele queria? Era bem maior que eu.nos seguindo. que se encontravam intactas. Porém se lembra muito bem que.ele pensou que era de medo pela viagem _ perguntou aflito pela moça que estava com ele. Comprei as duas entradas. Foi ela quem me chamou a atenção. não poderia ter saído por nenhuma das paredes.

mais uma vez. 300 . e. nada encontraram de anormal. ela sumiu como se tivesse evaporado.civil que viera atender a ocorrência. ela viu nitidamente o rapaz abraçado com a moça e que. Já a depoente Cremilda Gomes. parda. 20 anos. doméstica. solteira. Afirmou ainda não acreditar em fantasmas e em almas do outro mundo. de repente. testemunhou que. quando o carrinho com o casal saiu para o claro.

Essa testemunha. no domingo à tarde Karel foi procurado pela polícia. trouxe mais contradições ao inquérito policial. Com ele foram as testemunhas Cremilda Gomes e um rapaz que não declarou o nome e disse saber tudo sobre o desaparecimento de jucélia. Os policiais acalmaram o rapaz e intimaram o fotógrafo a prestar depoimento na Central. nunca mais retornou a Curitiba. A imprensa já fazia grande estardalhaço sobre o desaparecimento da moça. Astolfo Dagoda gritou que ele estava mentindo e que escondia alguma coisa. pois fora chamado somente depois do fato ter acontecido. O comportamento de Karel Stephanovich foi contraditório: primeiro disse que não se lembrava de nada. e logo o carrinho entrou de novo no túnel. Contudo. Foi encontrado um pedaço de tecido branco que. e o endereço por ela fornecido durante seu depoimento na Delegacia Central não foi localizado. No entanto esse rapaz nem chegou a depor: enquanto os outros entravam na Delegacia Central. mas que só falaria na presença do delegado. em serviço naquela noite no Parque de Diversões Alvorada. nada acrescentou de importante. que trazia Astolfo Dagoda . a princípio. quando na terça-feira a polícia técnica realizou exames no trem-fantasma. Ao que consta. Irritado. segunda-feira à tarde.Que foi tudo tão rápido. Retratista do Passeio Público. Nada achou de anormal quando do exame do local. O guarda-civil nº 067. mudando-se para lugar incerto e não sabido. O estranho comportamento de outra testemunha. depois disse que lembrava e entrou na sua barraca para buscar as fotos que o casal esquecera de pegar. até a chegada do delegado Miguel Zacarias no domingo pela manhã. alegando que ia pagar a corrida ele entrou no táxi e partiu para não mais ser visto. segunda pela manhã Karel vendeu seu negócio a toque de caixa e saiu da cidade. pensou-se ser um rasgão do vestido da desaparecida. e ela não deu na ocasião muita importância ao fato.o rapaz pernoitara encarcerado na Central. pensou que fizesse parte dos truques do trem-fantasma para atrair freguesia. que não tinha tirado nenhum retrato e que nada sabia da história. pois eram revelações sigilosas. Demorou lá dentro e. não mais se apresentou. porém. sub301 . Karel Stephanovich. encaminhou Astolfo Dagoda para apresentar queixa na Central. quando os policiais já demonstravam impaciência. que muita gente considera importante. dizendo que se enganara. em vista da aglomeração de pessoas e da polêmica que o fato estava causando. voltou muito pálido.

na época submetidos à rígida censura imposta pelos governos militares. servente do Passeio Público. se abrem. a polícia começou a pressionar Astolfo Dagoda. constatou-se ser parte da atadura da múmia. O Diário do Paraná. Nada foi publicado nos jornais. já o jornal O Estado do Paraná. mas em Curitiba corria o boato de que o desaparecimento de jucélia Ramos estaria ligado às atividades da guerrilha do MR-8 no Paraná. Contudo. levantou a hipótese de que jucélia teria descido do trem e se escondera num dos caixões de defunto que. A coincidência do horário do desaparecimento de jucélia com o da descida dos astronautas na Lua comprovaria sua teoria. apesar de estar preso e incomunicável. Frei Albino lançou a teoria de que a jovem teria sido raptada por seres extraterrestres. exigindo portanto sua imediata libertação. consta que manteve essa versão dos fatos. que considerava ilegal. achando tudo um embuste. e estavam tão cobertos de poeira que qualquer anormalidade teria ali deixado marcas. a polícia técnica levou os caixões para exame. coisa de um louco para chamar atenção sobre sua insignificante figura. sem conseguir novas pistas. encontrou no lago daquele logradouro um pulôver azul que seria o mesmo usado por jucélia naquele sábado trágico. Esses boatos aumentaram com a prisão do chefe guerrilheiro cognominado O Bom Burguês e com o desbaratamento do MR-8 alguns dias depois em Apucarana. O Diário do Paraná descobriu sua prisão. parapsicólogo de renome. e acusou a polícia de torturar o rapaz no pau-de-arara. Quase um mês depois do desaparecimento surge uma nova pista: Almério da Silva. do então governador Paulo Pimentel. Como a hipótese parecesse plausível.metido a exames de laboratório. Ou coisa pior: ele matarajucélia após violentá-Ia.jornal dos hoje extintos Diários Associados de Assis Chateaubriand. jucélia teria ficado ali até as buscas terminarem e depois saíra tranqüilamente. Ficou constatado serem muito pequenos para acomodar outra pessoa além dos bonecos de cera. acionados pela passagem do carrinho. Imediatamente o delegado Miguel Za302 . O padeirinho foi detido para interrogatórios e. de lhe aplicar choques elétricos para obrigá-Io a confessar. chefiado pelo frei Albino Aresi. deles se erguendo os bonecos ameaçadores. crime sexual que ele procurara esconder inventando aquela história toda. trouxe de São Paulo um grupo do Centro de Pesquisas Paranormais e Fenômenos Extraterrenos.

muito assustado e aborrecido com sua prisão e "tortura" (entre aspas porque nada foi comprovado). mas seu patrão. o padeiro Lidislau Pierko. provavelmente um crime sexual? A ação nefasta da guerrilha do MR-8. O que aconteceu naquela noite no trem-fantasma? O seqüestro de uma bela jovem para fins inconfessáveis. pedira a conta e deixara Curitiba para recomeçar a vida num lugar onde não fosse conhecido. permanece o mistério do desaparecimento deJucé1ia Ramos. O jovem não foi encontrado. bastante atuante no Paraná naqueles tempos? A vingança de seres extraterrestres irritados com a chegada do homem na Lua? 303 . passado tanto tempo. nunca mais foi encontrada. ou como se sua existência nunca tivesse sido percebida pelos habitantes de Curitiba. Era como se ela nunca tivesse existido. ninguém apareceu: nem familiares. Quanto aJucélia Ramos. nem patrões. nem amigos ou conhecidos. Por mais que se procurasse alguém que trouxesse alguma luz capaz de aclarar o desaparecimento. Hoje.carias procurou Astolfo Dagoda para que ele fizesse a identificação. afirmou que Astolfo.

armada sabe-se lá por quê? Ou tudo não passou de uma farsa hedionda do padeirinho? Perguntas até hoje sem resposta. a verdade apareça. num futuro que esperamos não esteja muito longe. Talvez um dia. 304 . São muitas as teorias e certamente o leitor terá escolhido ou criado a sua.Seria o trem-fantasma um lugar assombrado e almas do outro mundo carregaramjucélia Ramos? Foi tudo uma trama da própria polícia. A verdade sempre aparece.

Mistério Sapho () amor entre as mulheres .

de Luiz de Barros. definitivamente perdida. e a bobina 5 está inteiramente empedrada. Consta que sua esposa. realizado em 1899. A cópia encontrada está em péssimo estado. Arthur Rogge e João Batista CrofE. dirigi da por Leo Martem. aos 85 anos. com partes totalmente meladas. amigo de Crispim Carmoro. Pornográfico.3. W. das oito que compunham o filme. em 1975. de Ceorge Melies. necessitando urgentes trabalhos de restauro em laboratórios especializados. e a de 26.O amor entre as mulheres é um filme erótico. Ali foram recuperados filmes. Para não falarmos do agora. O que restou de Sapho foi encontrado num galinheiro em Almirante Tamandaré. Josephina Bello Carmoro. de quem acabam de ser encontradas partes do filme Sapho . permitindo a confecção de novas cópias passíveis de serem projetadas. dirigido por Antônio Tibiriçá. que. até então considerados perdidos. e com a atriz que se escondia sob o pseudônimo de Miss Ray mostrando suas carnes. Foi encontrada uma cópia 35 mm com apenas quatro bobinas. onde teria parentes. seus familiares passaram as latas do filme para as minhas mãos. entre eles vários de D. Criffith. no qual a atriz Antônia de Negri aparece nua.o cinema paranaense continua um insólito desconhecido. 307 . Contam-se nos dedos os estudos e pesquisas sobre o nosso cinema.O amor entre as mulheres. Desde os princípios do cinema são feitos filmes pornôs. Crispim Carmoro teve portanto a quem puxar. apesar de alguns esforços iniciados principalmente após a criação da Cinemateca do Museu Cuido Viaro. se adotarmos outra nomenclatura. seis anos após ter realizado o que parece ser seu único filme. Sapho . passando pelo curioso Le film du diable (17).5 e 8. é brasileiro. apesar do nome. que também dirigiria Messalina (30). C. Ali ficara sob a guarda de Rodolpho Hertoso. considerado o pai da linguagem cinematográfica. após a morte do marido transferiu-se para Vitória do Espírito Santo. o cinema brasileiro tem vários exemplos de filmes eróticos ou pomôs: desde Lucíola (1916). até as várias versões de A carne. as de número 1. a de 24. de E. Somente com os serviços de restauração será possível a feitura de um novo negativo. que faria Vício e beleza (26) e produziria Depravação (23). A Cinemateca do Uruguai tem em seus arquivos a maior coleção de filmes eróticos primitivos. Não deixou descendentes. da obra de José de Alencar. Faltam diversos trechos. Kerrigan. Com a morte de Hertoso. dirigido por Vitor Ciacchi. Presumivelmen te Crispim Carmoro faleceu em 1928. de Annibal Requião. Não pudemos confirmar essa informação. A esses vem se juntar agora Crispim Carmoro. como Dama ao banho.

mas talvez Sapho possa ter sido filmado por ele ou por algum dos fotógrafos atuantes em Curitiba. Não se sabe se Crispim Carmoro tinha algum conhecimento técnico de cinema. O único nome que aparece na ficha técnica é o de Crispim Carmoro como realizador.Mas quem foi esse homem e o que o levou a filmar um longa-metragem erótico na provinciana Curitiba de 78968 habitantes em 1922. Da mesma maneira que nenhuma das atrizes arriscou colocar seu nome nos créditos. Lange de Morretes e Waldemar Curt Freysleben. Sabe-se que era amigo. Aqui passou a exercer a profissão de estucador. que preferiu não assinar o trabalho em virtude do tema ousado do filme. fazia pinturas decorativas. é de se supor que mantivesse relações de amizade com Dario Vellozo. O filme abre com um letreiro: PARTHENON FILMS . que lhe cedeu ou alugou o equipamento para as filmagens de Sapho.CURITYBA 1922. Em algumas velhas residências curitibanas encontram-se paredes com suas pinturas. que buscavam inspiração na Grécia Antiga. de Annibal Requião. Emiliano Perneta e outros poetas do movimento simbolista. ou pelo menos conhecido. Apareceu em Curitiba provavelmente logo após a Primeira Guerra Mundial (1914-8). Através dessa arte tornou-se conhecido. Em seguida vem o título: 308 . nem se era italiano ou descendente. É certo que não lhe faltavam gosto artístico e conhecimento de fotografia. As letras estão desenhadas sobre um cartão-postal com vista fotográfica do Partenon de Atenas. as imagens de Sapho têm momentos de rara beleza. Pelo tema e letreiros de Sapho. não só das famílias tradicionais da cidade mas também de pintores como Alfredo Andersen. nem quem o iniciou nos segredos da linguagem cinematográfica. ano em que acontecia em São Paulo a Semana de Arte Moderna? Sabemos pouco de Crispim Carmoro. Além das decorações em gesso.

E ainda: UMA Todos esses créditos iniciais estão emoldurados com ornamentos em estilo grego. termina de colocar incenso no turíbulo e. protegida pelo resplendente azul do jirmamento vago. O AMOR ENTRE AS MULHERES. em meio à fumaça. Daí a necessidade de longos letreiros para desenvolver a açao: E sua complementação: Em seu resplandescente palácio na ilha de Lesbos. aparece uma vista de palácio grego. Sapho reune-se com suas amigas. prepara o altar Aí começa propriamente a ação do filme. a Deusa do Amor.PELICULA CRISPIM CARMORO. dum orgulho medonho. Sapho levanta os olhos em direção à câmera e se põe a falar (através de letreiros). concorre para o enlace sensual dos corpos. quando o aroma de nardos. JV1eu lugar é aqui. inicia grotescos movimentos de dança. Há um corte para um plano mais aproximado. como que se dirigindo aos espectadores: o meu lugar não é em meio de vocês. realizado por quem não dominava plenamente a linguagem do cinema. a bella sacerdotiza pagã. Homens rudes e maus. claramente uma pintura filmada. Dum egoismo atroz. Após esse longo texto introdutório. Vemos meio de longe a atriz que interpreta Sapho pondo incenso num turíbulo sobre um alto tripé. para o doce sacrifício à Vénus. Sapho baixa a cabeça. Lembrar que se trata de filme mudo. 309 . de farto sangue quente. na lassidão cálida de uma noite de verão. Segue-se um longo texto explicativo dividido em duas partes. sacerdotizas de Vénus. graciosas donzelas Entre gestos e corpos que me causam prazer. Não é no meio de tanta insipidez. excitante e lascivo. de semblante tristonho. e outro letreiro: Sapho. de amor a gemer Entre rainhas como flor.

À medida que se desenvolve a dança."bachantes". no seu seio Que frescura! Que olor! Que límpido gorjeio! 310 .Deusa Pagã dos amantes E conclama suas bachantes Para os embates do amor. sempre precedidas de um letreiro que as identifica pelo nome: Prokné .Em sua dansa.a favorita de Sapho. são mostradas as outras no filme só atuam mulheres . o corpo delinquente sem pudm. Sapho invoca Venus .

Virgem de olhos glaucos e seios morenos! Hypolita . Corpo rijo.Aglaura . virgem bela como Vénus.musa pagã de basta cabeleira loura. olhos de engodo e boca sedutora! 311 .virgem pura.

Formas tentadoras. odulante como o de uma serpente! 312 . rosto de mulher. sorriso de creança! Fátima .angélica expressão de causas mansas.Euridice . Liso.escrava núbia de corpo ardente.

não passa de um cortinado escondendo as paredes e um chão coberto por tapetes. prossiga com a apresentação das celebrantes em poses lascivas.o termo mais certo seria rebolando . Provavelmente foram cortados por alguém que. representando o interior de um templo grego. envoltas em véus e adornadas com bijuterias que simulam ser jóias de valor. esforçando-se para fazer poses eróticas. arremedam roupagens gregas ou orientais. se é que podemos chamá-Ias assim.entre as outras figurantes. fremente. não encontrado. É de se supor que o segundo. As imagens que se seguem a esse letreiro são da atriz que personifica Sapho dançando . A bobina número 3 apresenta várias de suas partes meladas e faltam alguns trechos. cadeiras de madeira entalhada. Não há muita ação no filme. 313 . nem cenas de sexo explícito ou de nudez total. seminuas. olhando os fotogramas contra a luz. colunatas e alguns vasos de gesso imitando urnas gregas completam a cenografia. Essa bobina inicia-se com um letreiro: Sapho empina o ventre. O que vemos é a repetição constante de imagens. arqueia o busto e num repente Elétrica se lança aos golpes tentadores. com a câmera estática focalizando Sapho e suas "bachantes" envoltas em véus. Tudo lembra os cenários de gosto duvidoso utilizados nos estúdios dos retratistas da época como fundo de suas fotografias. queria se deliciar com as imagens das mulheres semidespidas. O cenário. Os trajes.Esta última é a única negra que aparece no filme. seios à mostra. Almofadões. Com sua imagem termina o primeiro rolo. em geral rolando pelo chão. Difundindo luxúria e provocando ardores Como se a carne houvera em convulsão.

Ei-la saracoteando. nenhuma notícia da exibição de Sapho foi encontrada nos 314 . Arrastam-se coleando em silvos de serpente. Toda essa parte está tintada de vermelho pelo sistema de viragem . mas nua inteiramente nua! A imagem que se seguiria a este letreiro não está na cópia encontrada. foi reencontrado somente em 1984: sabe-se lá em que mãos andou durante todos esses anos. realizado em 1922. o corpo delinqüente Semi-velado ostenta às luzes multicores. deve ter sido tirada por alguém sequioso de excitar-se com a visão do belo corpo da atriz que encarna Sapho. Apesar de na época ser relativamente normal a exibição de filmes eróticos. esta cena está entrecortada com imagens das "bachantes" sempre em poses lânguidas. Devemos lembrar que o filme. Entre uivos do instinto a cupidez atua E uníssono se escapa um grito retumbante: . Além de mostrar Sapho dançando. As bachantes deliram em lúbricos jurores.tintura de anilina usada para dar um tom de cor aos filmes da época.Dansa outra vez. Provavelmente seria a única imagem de nu frontal do filme.

em seu Filmografia do cinema brasileiro. o pesquisador Jean-Claude Bernardet. o filme termina com um letreiro: Oh! Até que enfim em carícias felinas Teu busto gentil ligeiramente inclinas E te enrolas em mim e me mordes a boca! A imagem da mordida não é mostrada. O anúncio da exibição não diz a origem. acontece algo mais forte: Sapho e sua favorita. Somente no final do filme. 1900-1935. Tremerão nossas carnes no mesmo espasmo presas E nos confundiremos entre carícias ledas! Após o poema. mas a respeito dele ainda ficam muitas questões: quem foram suas "estrelas"? Prostitutas da rua Ratcliff (hoje Desembargador Westphalen). Contudo. numa grandiosa mise-en-scene em oito partes". reproduzem diante da câmera sempre imóvel a ação descrita no poema mostrado no letreiro. como a abelha liba o mel na rosa em fiar. a deusa de Lesbos. E tal como começou. então a zona 315 .jornais curitibanos.a rolar pelos tapetes ou enrolando os corpos seminus nas cortinas. vemos as imagens de Sapho e Prokné enlaçadas se beijando. Em seu lugar vemos o letreiro: fiM Assim termina SAPHO . O mesmo número de partes do filme de Crispim Carmoro. deitadas no chão de falsos tapetes persas. Quero beijar. Todo teu corpo de sensual calor! Prender-me nos divinos novelos. Quero pousar meus lábios nos teus de framboeza E neles.quem seriam? . Prokné. em julho de 1923. na parte oito. edição do governo do estado de São Paulo (1972). sequiosa em delírio de amor acesa. menciona um filme com o título de Sapho no Cine Royal de São Paulo. O restante da bobina 3 é uma monótona repetição das atrizes improvisadas . nem mesmo se é brasileiro. Diz apenas: "Os escândalos de Sapho.O AMOR ENTRE AS MULHERES. Aranhol dos teus fiavas cabelos. e não faz referência à sua ficha técnica.

pudorosamente. 316 .do meretrício de Curitiba? Ou seriam mulheres da sociedade curitibana que aceitaram representar por dinheiro ou outra razão qualquer? Algum poeta curitibano escreveu o "enredo" e os poemas do filme e. não quis assinar? Quem financiou a empreitada e o que se propunham os produtores com o filme? Lucro fácil ou algum outro objetivo escuso? Por que não teve continuidade a carreira cinematogáfica de Crispim Carmoro? Talento e capacidade não lhe faltavam.

() mistério dos sinais da passagem dele pela cidade de Curitiha .

dessas vendidas pelos camelôs e usadas para pregar peças nos amigos. O revoltante crime teve muita repercussão na época e a Folha de Curitiba publicou fotos do cadáver na primeira página. vulgo Careca. foi encontrada nua. O local onde foram encontrados e fotografados é aquele grande terreno baldio no alto da rua xv. no dia 29 de maio de 1986. também publicou as fotos na primeira página. a prostituta Márcia de Tal. do dr. ao lado da caixa-d'água. com dez centímetros de grossura e cerca de trinta de comprimento desde a 319 . que mantinha sua cadeira instalada na praça Tiradentes. morta com uma estaca de madeira cravada na vagina. de 21 anos presumíveis. o que provocou protestos generalizados. onde o perverso assassino enfiara o grosso galho de árvore. alcunhada de Polaca. O mesmo onde. porém tendo o decoro de esconder com uma tarja preta o sexo da infeliz moça. A Tribuna do Paraná. Falo isso porque tal qual as imitações é uma peça inteiriça . Olhando assim pode parecer que se trata de uma perfeita imitação em barro pintado. Paulo Pimentel.Indiscutivelmente são sinais da passagem DELE. Mais tarde descobriu-se que o assassino fora o engraxatejurandir Haus.como que expelida de uma única vez -. de 48 anos.

mas também de não estragar partes que trouxessem reportagens interessantes para se ler. limpou-se com os pedaços que rasgou. todos com mais ou menos quinze por quinze centímetros. mostrando ter saído de uma só vez. parte do título do jornal. com as costumeiras reclamações contra os serviços públicos. onde se lê: Segundaleira 2 de novembro de 1987 Ano XXXII nº 9. reportando com fotos em cores a sensacional vitória do Coritiba por 3 x 2 contra o São Paulo. e mais o cabeçalho. À esquerda do bolo fecal. Um deles é a parte da primeira página onde está a chamada para a entrevista com o ex-jogador de futebol Aladim. na Copa Brasil. onde se afina como uma cauda onde foi cortada pela contração do ânus. Do outro lado desse pedaço. a Rei dos Tapetes. Estão inteiras as notas da trágica morte do ancião atropelado por uma locomotiva. nada foi rasgado da reportagem sobre o assalto da mansão milionária. a outro pedaço que ELE usou para se limpar é o recorte do anúncio da Gronau na página onze. E também que ELE se manteve de cócoras no mesmo lugar durante toda a defecação. na falta de papel higiênico. Impressas em vermelho.062/24 páginas Às segundas cz$ 15.ponta arredondada até a outra ponta no alto. uma poça redonda já seca mostra o lugar onde o jato de mijo penetrou no chão. 320 . vê-se que foi deixado inteiro o caderno de esportes. Provavelmente. na página dez. três pedaços amassados e sujos da Tribuna do Paraná. que tem no verso parte do anúncio de página inteira do Carrefour Pinhais. caso contrário apresentaria outra forma que não a de um rolo.00.é sabido que a tinta de impressão provoca irritação no ânus -. do caso do miliciano que roubou uma moto e do padeiro assaltado na saída do bailão. a terceiro pedaço usado pega parte dos anúncios das Lojas HM na página nove e de Pedroso. E também parte da foto da mansão do milionário assaltada no bairro das Mercês. e parte de um anúncio da Prefeitura Municipal de Curitiba intitulado Procura-se um fornecedor. Examinando-se a Tribuna do Paraná daquele dia. com a manchete O Gênio abre o jogo. Nota-se que ELE teve a preocupação não só de escolher pedaços do jornal com bastante branco . a bolo encontra-se enrodilhado. nem da notícia ATIROU NA RAPOSA E ACERTOU NA FILHA. A página policial também não foi mexida. ELE leu esse jornal enquanto defecava e depois. está uma parte da seção Cartas dos Leitores. as letras TRI. A cerca de um palmo à frente.

como os três fósforos não estão queimados e tampouco se vêem tocos de cigarros. apoiar um palito nos dedos indicador e médio para. aparentemente jogados ao acaso. Tem. Você mesmo deve ter analisado o que viu na foto e certamente teria outras ponderações a fazer.se bem que esta última afirmação seja discutível. ELE não fuma. E exames mais acurados da passagem DELE nos darão informações cada vez mais preciosas. fosse o de uma mulher. e é leitor da Tribuna do Paraná . No jornal prefere o "noticiário esportivo e o policial. sem parti-Ios. quebrando-o ao meio sem contudo parti-Io. pode-se concluir que ELE não fuma. e o intervalo entre um palito e outro. tanto física quanto espiritualmente. Porém. Tem ELE o estômago em bom funcionamento. Durante o tempo que levou para defecar no terreno baldio dobrou três palitos. Porém.ELE esteve defecando no terreno baldio. fosse ELE alto e pesado certamente suas pegadas seriam mais profundas. porém carrega fósforos e tem o sestro de. Soubéssemos nós o tempo que ELE leva para dobrar cada um. vêem-se três palitos de fósforos dobrados ao meio.a vagina fica mais perto do orifício anal do que fica o pênis. porém quanto mais dados tivermos sobre seu comportamento.Provavelmente. Pode parecer escusado. principalmente a céu aberto. ELE leu a Tribuna do Paraná enquanto defecava e.pois não acredito ter chegado a horas . mais aptos estaremos a saber como ELE é na realidade. formando um v sem estarem partidos em dois. a marca da poça de urina estaria mais junto do bolo fecal . Muitas pessoas têm o costume de fumar enquanto defecam. Examinando a fotografia com os sinais que comprovam ter ELE estado em Curitiba no dia 2 de novembro de 1987. naquele dia de Finados. mas não 321 . depois. Daí o cuidado de estragar somente as partes desimportantes do jornal. poderíamos determinar com precisão durante quantos minutos . um caco ete: o de dobrar palitos de fósforos ao meio. porque isso ajuda a disfarçar o mau cheiro e a fumaça serve para espantar mosquitos. ou pelo menos não sofre de diarréia. Do lado direito. pressioná-Io com o polegar. isso sim. levou-a consigo para terminar a leitura. chegamos a uma série de conclusões: ELE usa o corpo de um homem. É terrível dizer. podendo-se argumentar que foi o único jornal encontrado na banca. o que não acontece. ELE tem o hábito de ler enquanto defeca. essas são observações rápidas e superficiais. a intervalos regulares. ELE não é muito alto e pesa pouco: apesar do solo arenoso do terreno baldio ser bastante duro e ressecado. em seguida.

que espero não esteja longe . Corruptio unius generatio est alterius PUTRE factio 322 . não saberemos reconhecê-Io e certamente ELE não se revelará a nós. temos que nos debruçar atentos sobre cada sinal da passagem DELE sobre a Terra e estudá-Io incansavelmente. Por esse motivo. Somente agindo assim é que seremos capazes um dia . quando surge uma oportunidade como esta não podemos deixá-Ia escapar.de o conhecermos na plena complexidade do seu ser e da sua obra.sabemos com qual semblante ELE se mostra ao mundo: se algum dia estivermos na frente DELE.

de Curitiba. A primeira versão desse conto foi publicada no nº 117 da revista Quem. "Sob o sino do templo . A ação de O mistério da prostituta japonesa se passa em São Paulo. Curitiba." são trechos de A doutrina de Buda.. "O mistério da porta aberta". Contos publicados na revista Quem: "Um mistério no trem-fantasma". agosto de 1984."." é de Robert Desnos e. 1985. "Mercúrio mistério". nº 116. foi traduzido por Valêncio Xavier.. A "Mão com poema de Desnos" foi desenhada por Cláudia Suemi Hamasaki. Logos. O segundo conto.. 1983. "Orvalho deste mundo . 1982. . Gráfica & Editora Módulo 3. novembro de 1984. nº 94. 1986. edição em língua portuguesa de Bukkyo Dendo Kyotai. o minotauro. agosto de 1983. Raconto. Curitiba. Curitiba.. nº 118.. 1981. Curitiba.. 13 Mistérios + O mistério da porta aberta. em maio de 1986." e "Tudo é mutável. Maciste no inferno. Criar.. passa-se num apartamento em Curitiba e teve uma primeira versão publicada no nº 150 de Quem.O amor entre as mulheres".. 323 .NOTA BIBLIOGRÁFICA o mez da grippe. Mimi-Nashi-Oichi. O poema "Tanto sonhei contigo .. outubro de 1984. como os haicais." são de Bashô. "Primeira neve " e "Esta estrada . Novela. o passado " são de Buson." é de Isa. "Tocador de biwa" é um desenho anônimo japonês do século XIX. Fundação Cultural de Curitiba. Os haicais "Nesta noite . nº 113. "Conduz teu cavalo . em agosto de 1984. A escrita japonesa e a planta do quarto são de autoria de Sônia Yamanouchi.. japonesa o mistério da prostituta & Mimi-Nashi-Oichi... Tóquio. Novella. "Mistério Sapho .. no bairro da Liberdade." e "Ah.

e "Os fantasmas do fundo de quintal . entre outros). Curitiba. É consultor de imagem em cinema e roteirista e diretor de TV. todos nós. Curitiba. OUTRAS OBRAS DO AUTOR Desembrulhando as balas Zéquinha. O pão negro . julho de 1986. Nutrimental. Memória com Poty. O conto "Mistério números" foi publicado no nº 334 da revista Panorama. Como cineasta. 1973. Criar. de nós. A propósito dejignrinhas. junho de 1986. trilhos. 1986. Quem. de Curitiba. nº 152. Meu 7º dia.Um episódio da colônia Cecília e Os 11 de Curitiba. Payol. entre outros vídeos. Edições KM. 1964. em 1933. 1994."Mistério mágico". e está radicado em Curitiba. Fundação Cultural de Curitiba. Estudo.Um mistério". 324 . recebeu na IX Jornada Brasileira de Curta-Metragem o prêmio de melhor filme de ficção. Curitiba. Crônicas com Poty. Segunda edição: Curitiba. Novela-rebus. trilhas e traços. Studio Krieger. Curitiba. Edições Ciências do Acidente. Poty. Fundação Cultural de Curitiba. Valêncio Xavier Niculitcheff nasceu em São Paulo. São Paulo. "O misterioso homem-macaco Como tudo começou". Antologia de contos com outros autores. 1998. 1975. Curitiba. nº 160. por Caro signore Feline. Panorama e Revista da USP. 1986. publicou inúmeras narrativas em jornais e revistas (Nicolau. nº 154. 22 de julho de 1990. 7 de amor e violência. Realizou. "O mistério da Sonâmbula". Segunda edição: Curitiba. Curitiba. emjaneiro de 1984. Biografia. No jornal O Estado do Paraná foram publicados dois contos: "Mistério do menino morto". 1989. agosto de 1986. 18 de junho de 1985. Além dos livros mencionados.

BSP LIV 11111111I1111111111 253734 .

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