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XAVIER, Valêncio - O Mez da grippe e outros livros

XAVIER, Valêncio - O Mez da grippe e outros livros

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VALÊNCIO XAVIER

o MEZ

DA GRIPPE

E OUTROS LIVROS

-~COMPANHIA

DAS LETRAS

Copyright

© 1998 by Valêncio Xavier Projeto gráfico: Hélio de Almeida,

com base em indicações do autor Capa: Hélio de Almeida Preparação: Denise Pegorim Revisão: Eliana Antonioli Ana Maria Barbosa

Dados Internacionais de Caralogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Xavier, Valêncio O

mez da grippe e outros livros / Valêncio das Lerras, 1998.

Xavier.

-

São Paulo: Companhia Bibliografia. 85-7164-810-7

ISBN

1. Contos brasileiros I. Título.
98-3379 CDD-869.935

Índices para catálogo sistemático:
1. Contos: Século 20 : Literatura brasileira

2. Século 20 : Contos: Literatura brasileira

869.935 869.935

1998

Todos os direi tos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 72 04532-002 - São Paulo - SP Telefone: (011) 866-0801 Fax: (011) 866-0814 e-mail: coletras@mtecnetsp.com.br

ÍNDICE

o mez da grippe, 7
MacÍste no inferno, 81

o minotauro,
13 mistérios
+

137

O mistério da prostituta japonesa

& Mimi-Nashi-Oichi,

181

O mistério da porta aberta, 203

Nota bibliográfica, 323

OMEZ DAGRIPPE
novella

Esta macabra execução é de cera. desde o instante da morte até a destruição total do indivíduo.Vê-se um sepulcro cheio de cadáveres. sobre os quais se podem observar todos os diferentes estados da dissolução. colorida com tanta naturalidade que a natureza não poderia ser. MARQUÊS DE SADE . nem mais verdadeira. nem mais expressiva.

:!4~!.1918 Outubro QTTUBRO ==--~--=-..~S.IiHi00131i -113114:!2i~3. !~ll!1 ti. 20 I I~IIRi l():_~..:~ti 6 Alguma coisa .::~~ I~ _~jSI!IQ9:~ -ti 27 121 lói l' 91~~llfl~ ~I 3.

como também a transmitiram aos patricios e á população. com o mesmo fim dos do Rio. o ! D.. os hospedes fluminenses não s6 padeceram da molestia.. De Antonina e Morretes seguiram para aquella cidade.~~~t da.~ presidente Wilson não fra. I deE~ Em Paranaguá. ta com um governo que con. Relatório do Sr. Trajano Reis director do Serviço Sanitario. Um homem eu caminho sozinho nesta cidade sem gente as gentes estão nas casas < grippe 13 . ia effectuar-se o casamento de uma filha do syrio Barbosa. Folgaram juntos e cada um dos residentes em Antonina e rapidez entreMorretes trouxe das referidas gérmen do mal. alguns patricios do Sr. J WA. Dr. que se disseminou com as populações com sigo o cidades.- O t·jX u Os jornal)" ua bru" se maui-. I. por sua vez. n'aquella epocha.':. Em Paranaguá.. que estavam com o mal incubado.lTUN. Barbosa. Do Rio de Janeiro vieram assistir ás bodas alguns syrios. 10. I FO~~ tinúa a te de crimes ==== ====commeHer toda a sor.A paz está interrompidalo.illN(.

. - DIA 20 DOMINGO $ A Allemanha vae capitular A SEMANA RIMADA "La influenza espanoIa" Esso todo.w ESTORES OS SORTI MENTOS QUE APRESENTA VE. No tiene casi que nada No passa.RIFIQUE M OLOUVRB RUA QIJINZE DE NoveMBRO.. 43 5. Ia gran grita. CI"..-----------------------------_ . cosa esquisita I De una .. .'N. gran espanoIada J eca Rabecão O COMMERCIO DO PARANÁ li OORTIIVAS • 14 OORTINADOS BRIZE-BIZES • IJRAI..

DONA LÚc1A ."E. pano preto.RICARDO NEGRÃO FILHO .DIA 22 TERÇA o DlRECTOR DO SERVIÇO SANITARIO MANDA AVISAR AS EMPREZAS FUNERARIAS QUE FICAM PROIBIDOS OS ENTERROS Á MÃO. A maioria a pé. cavalos de penacho. ENQUANTO ENTENDER NECESSARIO Á BEM DA SAUDE PUBLICA E QUE OS ENTERROS DOS QUE FALLECERAM DE MOLESTIAS TRANSMISSÍVEIS SERÃO FEITOS SEM ACOMPANHAMENTO SENDO O CADA VER PROMPT AMENTE REMOVIDO PARA O NECROTERIO DO CEMITERIO MUNICIPAL. foi assim. era a pé. CORITIBA. Iam carregando o caixão e as gentes a pé acompanhando pela cidade inteira até o Cemitério Municipal. Tinha os muito ricos que faziam enterro com carro.1976 por muito tempo. mas eram bem poucos." 15 . 22 DE OUTUBRO DE 1918 O SECRETARIO .

. que pedia para ver o cadaver de seu noivo: pedido a que os guardas depois de muita relutancia resolveram acceder. A infeliz. cahiu debulhada em lagrimas. ao ver o cadaver do noivo. COMMERCIO DO PARANÁ 16 . noiva do assassinado. lamentando a sua triste sorte.. COMMERCIO DO PARANÁ ~=============" IIVida Social . chegou ali Maria Esteves.UM CASO PUNGENTE Quando o povo se achava agglomerado em frente ao botequim.~=======~ II Positivamente a vida humana não vale um caracol .

. ficou a.1 teresse sempre patente&-dono cum..sre.onlo ANCS de Magalhites. ga.ado de seu.1tt!.. _ "Diarlo" l ."i.. do o gran Que 17 viço de Saude e Vetel'lna. O puseio militar no dia.. g(' eS'[orç:C»! ~IO[' 'ÜilE'_ di:.rio para que a instruc· 'tla neral comp-le:ta" a del'lejar na . (.nall da 11"a.e •.)lndo provas. hontem·· Ct8&8 da.° B.nfltruccão mi c3t1a um.' ledico. general Barbedo a esta cir· cumscripção Ul':<laçamml da. MazzR.do ~ que' deve ter notado o m'uito l..a: si'8tene !Annun{' a. E: ir"" o reBultullo dos ao sr.. h"je a. ~omma..• I_ :.•• . miHtar ao.e:. que o PaI hontem u'n& c& Para. . Fora.fizcra. Je baixadQ. oi!tt'icia. carpacldade e disciplina lar clnen:""It·d& I e Que continuam~nte dão Ilobejas t-em.•.. lU "'ndlM"e\o teleg. !i1m ••As ·feduzl chefe Se-r . .ee assieti. ma".l._. &.. com mandantes de unidades e dirE'e-torE's de e8ta~leêlmento!i mj.UC se gaJ10 di wppril tem esforçado 09 .1m ~·O l!oje ~ 9.! obseI"Vou.8 "Protê&". eetot'\.]dido I. PAGINA --- •••• ••••-----'Andradtl - guintes Grs.ra.brlcl& nt>-do Rego Ba.C.sita-g {jUe' fl'7.!. tle inspeccílo dg ST. de T~ nca.O "'E1d. '\Se ~1 dOrf~!l Í1'ancezea Termin:W~l a In:-lpecC.:1Ilu8~~~~O da~ PO:lu1açõe.lta -de folffk.: 1. &- Por todO<:! esses nlotiv06 apresen to minhas felicitaçõE"1iI aos sr8.!!fle Çao cine:ra&togt' CONTINUA NA 2.Q do ParanA. Und ~.IlOS.1 A influenza A Syrla e n s-.' ~~ . dr. parecendo tn autorld.•• .do.f unidades para.el!!que granrde fim -de . ord~l" du dia ho .hes o in" em THEA'lRO MduzidUi·. e capitão Seba. delicada.o.S. 12 de tubro re.s das div<lrsas t exame . agradeçendoJ. Devo citar t<l..l'1.')Il.:a.4 o que grande. da 2._.l O cOl.roo 84 tend -ciplina aqllella com das unido. A."HONEl lI08 -. A. 'P~I~ "Chllro-. i. para conveni-ent<· litar fo~e rni·nistrada m-ente e sem embar-aços. Olegario de Vasconcellos. Ch._-.rnbem o sr. 'exh.:.. der doA'UoT".vprnl).0 tenente Adria. rim.-te •... vando na e çü'o vudes-. cumpro (l graRI-o wn I'rupo' tu deVe!' de Jlllul:('ar que me IHll'f'ce ques m de te ra conl!a.ül hnpt. gC'nt'n1. felicitar os srl!!.q.•ba.e .••• ~'J. gcu(. oMiciaes e '1. 'JIt .uiz B8Tl>edo.: tes.lle :p de 3. obteve C1-rmde Aprovoito ainda oppor>tunidade pars. C'--"ro"t:"- U/.-elou o ass-eio. eervi(:o de con!erencl&!l 1I0bre h)'" giene. e aspirante â. todos empregados. M.· eommal'ldan tchf"Qullri<e de.Zlo pelo ar..cf.ndante dt'Mta rogiíi. A.=""""'======================.m conferencias militares. Frail1ce a com..::===============DiJ'cctor: Generoso nor~l'~ DIARIO FOLHA DE MAIOR CIRCULAÇÃO A inspecção do sr.u hOn A designação desses ofriciaes que era.'ommnndunte (ll'sta l'l'giAi(. do Corrttlo .o F. feita por 80rte rooalhiu no.•. M.'oroue-l Olava CO!'TI'ia a se-guinte parte que se refer~ 11 visitl. qus.C' ser ter deixado de<Vlda conta._.lor mll5l é'ê O trL'1l!1mo tos milit.0 t&nen-te j<"a.ide ficado ~uti8felta. nl2'ral J. o a pa. !uneet-o.'C" Jpgo.rat'l.o. lho l!!obre alcooliemo. p"'ico le. major dr. que se encarregou do Com numero rel. I --. de 2.l'C&n~ PAlA'-C: O Ta \. da Cir cumacrlpçi.• Theatrosi "'A'$~'_ THEA'i'RO· anima. AUI ter sido a 1lI('J-hor 1l()S~lvf'1:t IllT\lJ"('S são rN'(>hida (1('1" mt'l'Imu ar. __ .~ula.. 15 de Yovtlmbro." I~ ~~osen~. cir'cum6Cripcli..stifi..I. 'J)elJ.de.l.'.iacs e a d('[i$ipncia do ma· teria.'.•. (' f':<talH'\{'ciIHcn. l!am~ f''''f'rci~. di l."ptn1aacl( tod08 -lyt~.litares.' ítuiçlo' é A Q. pelo SI'. com.me-n'al. primento dos seus deveres e louvan AMER:'CA Cl do-os 'pela.. Que ã.l"a[ I.Tia. 'O'f!tcial Ant.o Pin to da Silva.° H..sa.no Saldanha.hoY-.. SOllr -e Tripoli. a pense ta. que 'Proouziu um beBo traba. declamado Q _11:. Lj 2.0 R.. f(T. do 2. lendo tudo 1'01' mim [l{'Om'llallh<ldo em to inforntR':1O de (das as v. onBl<u.:rnandes Jonsen Tavares.: .. belIl como aos o1iri-cille8e praças. (IUC'b~ -tante concorreram para os resulta doa colhidos.oe.ar€'s desla cU\lital. TU&.obom exito e...l lll'C'~~. {.n~ -f..B<ldac:ção • OftlciJulo 'W.•.' COI'lIO... '---- NO PARAN.r. do· 4. capiotão JOü. E.

MESMO QUE NÃO HAJA MOLESTIA NAS CASAS QUE PRETENDEREM FREQUENTAR. SR. DR. TRAJANO REIS DIRECTOR DO SERVIÇO SANITARIO DO ESTADO 22/10/1918 Entro na casa a porta sem chavear alguém que saiu para voltar e não mais voltou entrou para sair e não mais saiu Não sei porque entro entrei nesta casa onde nunca entrei Pássaro em água estranha Vagueio pela penumbra do corredor pela porta entreaberta vejo 18 . ATÉ QUE TERMINE A EPIDEMIA NO RIO DE JANEIRO.CONSELHO ACONSELHAMOS AOS HABITANTES DE CORITIBA QUE NÃO SE VISITEM. BEM COMO QUE NÃO CONCORRAM AOS LOGARES ONDE HOUVER AGGLOMERAÇÕES DE PESSOAS.

atrapalhada..DIA 23 QUARTA MUSAALEGRE Não há nada neste mundo Que mais possa aborrecer Do que cruel "que brade ira" Sem vintem pr'a dispender Esteve aqui a Olona Com Salvat . pensando no caso..uma sentença! Um conselho em cada esquina E a série de disparates Boas risadas propina .. A propria gente da "Imprensa" O Lauro Lopes já disse: Quem quiser ser forte e "são" Beba limão com cachaça Sem abusar do "limão" . Prá não adoecer Tomo o conselho do Lauro E deixo o barco correr DIÁRIO DA TARDE Manuel Salvat 19 .o bello par E não pude uma só vez Os mesmos apreceiar-p! Não vos sei tambem dizer Porque houve tal vazante Si por andarem como eu Numa lizura berrante Ou si por cousa diversa: Por se meter na cachóla Do povo qualquer receio De companhia "hespanhola" fUCA VIOLA Pois que d'elln só se falla N'outra cousa não se pensa E anda tonta. Mas eu. Cada coro..

official do registro civi~ que hontem e hoje..--~~-~-"- -- ~-- ii ====::.~"" -s_.-~--_.--------ii . ------. não DIÁRIO DA TARDE se registrou obito algum nesta capitaL 20 . n~ r~t __.~.. elegante -.Ilctor "1101'1111:111 GEORGE W ALSH ~ma na~ mai~ ij~lla~ronu~~õ~~ ~ --'--'--~c.."---COMP.Jla : CAMINHO extl'l\I)r(i1nuri'l DE BERLIM RIII('rf('IUlo: dI).(]eqtral HOJE • lIOJE gl'ltllIJO o A Creaçi\o ncontecÍmcnto ela Mmll.- O peeopd dos treeottds DIA 24 QUINTA --------------- NA BELGICA OS EXERCITOS ALLIADOS VAO LEVANDO DE VENCIDA OS ALLEMÃES NÃO MORREU NINGUEM Informa-nos o sr.~'~. Benedicto Carrão...J~~. CINE TH[ATRAl PARAt~A.=.

não nos visitará. não encontrará aqui ensachas. EPIDEMIA ORA REINANTE EM DIVERSAS CAPITAIS DO PAIZ. SUSPENDER O FUNCIONAMENTO DOS CINEMAS E OUTRAS CASAS DE DIVERSÕES DESTA CAPITAL. E.Commercio do RESOLVE. fazrr de a que a edicção hisse com tod d de redacçãD. se subir a serra pela linha ferrea ou pela estrada da Graciosa. ACONSELHAM INSISTENTEMENTE QUE SE EVITE AGGLOMERAÇÃO. Não houve casa que não tivesse alguém doente. meio favoravel á sua propagação virulenta. BEM COMO DA CAPITAL FEDERAL. CURITYBA. PRINCIPALMENTE Á NOITE.JOÃO ANTONIO XAVIER PREFEITO MUNICIPAL 21 . COMO MEDIDAParaná) PREVENTN A CONTRA A INVASÃO DESSA EPIDEMIA. A peste! EUa não nos visitou ainda. ~oie sa· mat. 24 DE OUTUBRO DE 1918 (ASSIGNADO) . TENDO EM VISTA QUE AS DIRECTORIAS DE SERVIÇOS SANITARIOS DA CAPITAL DE SÃO PAULO E DESTE ESTADO. AFIM DE IMPEDIR A PROPAGAÇÃO DA "GRIPPE ESPANHOLA". ria "Famílias inteiras." DONA LÚCIA - 1976 DECRETO N~ 132 O PREFEITO MUNICIPAL DA CAPITAL. (Sebastião Paraná .«Ccmmerrio I do Parará» Em virtude doccido de terem a· al~uns possivel dos not sos não com operarfos a ultima nos foi hora. Parecia a cidade dos mortos.

que assim. para exemplo. Chefe de policia. COMMERCIO DO PARANÁ 22 .. presisente Wenceslau Braz. dr. voz de prisão. indo.OUSADIA BOCHE O distinto advogado criminal sr.aquelle subdito sueco. á ordem do sr. immediatamente á chefatura de policia. deu essencia do seu acto. às 23 e 30 horas. se manifestava tão favoravel á Germania e tão hostil a nossa Republica. Ouvindo aquelle advogado palavras insultuosas á nossa Patria. deu. por escripto. O referido germanoplhilo foi recolhido ao xadrez .. onde. Napoleão Lopes effectuou hontem a prisão do germanophilo Roberto Thomaz que no "buffet" do Theatro Hauer teve palavras ofensivas às nossas instituições e ao governo da República determinadamente ao sr.

DIA 25 SEXTA o PAPA INTERCEDE PARA QUE A BELGICA NÃO SEJA DESTRUIDA PELOS ALLEMÃES Mãos grandes como de cavalo."l cOlltêrn meia agua. SOLICITO A V..10 f.!lTES D'FSTA r."LT~~~. A direita assentada sobre o lento respirar do seio rijo.A.tKuma. CHEFE DE POLICIA AO DIRECTOR DE HYGIENE DO ESTADO DO PARANÁ. DA GRACIOSA. AS NECESSARIAS PROVIDENCIAS AFIM DE SER FEITA. e IIt~n. parca seara de louros pelos OFFICIO DO DR. A DESINFECÇÃO DAS REFERIDAS PRISOES. REFUSE:~ OS R~CJP!F. A esquerda. tem nada que ver com qu. a da aliança por sobre o lençol branco branco braço nú.dquer OU~j'·1 synOD)"m(i . PORTÃO E DESTA REPARTIÇÃO. NeDhlUn 'recepta'àulc o MELHOR DESINFECTANTE genulno qU<I nôo tonba o nom~ ..918.Lricatte U<JO Esta t.:u~a WILLIAM ". SAUDAÇOES. 23 .\lIm J. LINDOLPHO PESSOA. INCHEI: "JSSAS PEARSON r.Jod"1 'deAi/lrect:}'Lte SEitI ESCRUPULOS TOR~AM I. COM A POSSIVEL URGENCIA. ONDE EXISTE AVULTADO NUMERO DE DETENTOS. SE:: u.t\SSE.oIIMERC[A~iES LATAS. "SENDO NO MOMENTO ACTUAL DE GRANDE NECESSIDADE PARA A SAUDE PUBLICA. das lffillaçocs. EXCA. EM 25 DE OUTUBRO DE 1.:. A HYGIENE QQUE SE DEVE MANTER NAS PRISOES DOS POSTOS CENTRAL.C::U~.

26 DE OUTUBRO DE 1. PRESIDENTE DO ESTADO DECRETA QUE SEJA CONSIDERADO DE FERIA O DIA DE HOJE. aliás commum na estação que atravessamos. COMMERCIO DO PARANÁ "Fiquei. os casos de doença existentes. obrigando-nos assim ao sacrificio de materia redactorial cuja inserção foi absolutamente impossivel. 24 . como num outro mundo." DONA LÚCIA .918. sim. NAS REPPARTIÇÔES ESTADOAES EM COMMEMORAÇÃO AO 1. Mas em mim deu fraca. dizendo-se abertamente que a molestia invadira a nossa tenda para obrigar-nos á uma formal retratação. Não obstante. DR.NÓS E A "INFLUENZA" A nossa edição de hontem saiu muito aquem da espectativa. devido a uma interrupção inesperada do trabalho em consequencia de terem adoecido operários da secção de composição.0 ANNIVERSARIO DA ENTRADA DO BRASIL NA GUERRA ACTUAL. fiquei dias caída na cama ardendo em febre. prostrada sem vontade. commentarios ironicos em torno da nossa attitude em relação á epidemia da "grippe espanhola".1976 DIA 26 SA'BADO DECRETO O SR. tratando-se de simples grippe. Esse facto suscitou hontem em certas rodas. continuamos firmes em nossa attitude pela razão de n[o ter sido de "gripe espanhola" verificado ainda um só caso n'esta capital.

os cultos de costume.jl~H. a hespanhola. DIÁRIO DA TARDE 25 . José da Gaita DT *l["õ@:~l@l~..que bola! Limpo e relimpo as lunetas Nada.. I Os olhos costurados pela febre loura linha a mesma que tece seus cabelos AMANHÃ NÃO HAVERÁ CULTO Attendendo aos conselhos da Inspectoria de Hygiene.• ...NA SERVIA NA BELGICA E NA FRANÇA OS ALLIADOS A VANCAM VITORIOSOS "A HESPANHOLA" De manhã abro as gazetas nenhuma nota ..*.~~~~~~.. ----- ..~. a Egreja Evangelica Presbyteriana da rua Comendador Araujo resolveu não realizar amanhã. domingo. Foi p'ro xadrez. nada de hespanhola. . peito. pulmO~se garganta. ninguém morre. .J ------------. A policia nos socorre Toda noticia degola -Aqu~ de vez.I~ =..

com grande perigo para a saude publica.. no trecho entre as ruas Primeiro de Maio e Floriano Peixoto.. de febre typhoide. VALlOSISSIMA OPINIAoI GASTÃO FARIA . Deus vendo a creolina penetrar no seu templo certamente se sentiria diminuido em meio da radiosidade de seu prestigio .1976 VARIAS Phenomeno unico na vida coritibana accentuando o contraste de somente em epoca de epidemia ás portas do Estado e quando se pretende espalliar o panico isto se dar: ha trez dias que não é registrado um só obito numa população de 80 mil almas.DT "Remédios não havia. Fechemos os cinemas. 39 pessoas e faleceram 19. uma parte da rede de exgottos. Hontem. Durante a semana ultima de 14 a 20 do corrente. estava sendo descoberta. nasceram no districto desta Capital. Pro pessoal da fábrica eles distribuíam garrafas com limonada.Depois raciocinemos um pouco. Havia o padre Miguel que ia nas casas levando follias de eucalipto. De molestia infecciosa houve apenas um obito. na rua Marechal Deodoro. Mas não tinha remédio que servisse. pondo ao sol um lodo podre e capaz de infeccionar o ambiente. irrisorio seria que se as desinfectassem. mas também abertas não continuem as egrejas." DONA LÚCIA . COMMERCIO 26 DO PARANÁ . Nestas condições. As egrejas são templos sumptuosos de Deus.

.. COMMERCIO DO PARANÁ Cabelos de vassoura mais macios. pallidas e loiras. meus dedos dizem Amarelos Ao levantar o branco lençol advinharei os outros pelos ? 27 . A influenza hespanhola e o amor seria uma tese psychologica magnifica para ser desenvolvida por um Paul Bourget de francaria que se atormentasse num eterno sonho de duquezas e condessas. muito loiras e frias .A peste de guerra aqui importada pelo "Demerara" e recebida gentilmente com o carinhoso titulo de "pucha-pucha! DIÁRIO DA TARDE DIA 27 DOMINGO ~ 1i (I ..::====='" Vida Social II SUELTO .26 .NOTICIAS DO PAIZ O RIO COBERTO DE LUTO RIO..~========:.

. entenderam de em pleno seio da capital desrespeitar a nossa pátria. .. COMMERCIO DO PARANÁ VARIAS Em nossa edição de antehontem noticiamos a tentativa de suicídio de d. e não o receio da epidemia de grippe. Apenas no quarteirão das Merces se deram dois fallecimentos um por tuberculose e outro por lepra. Hon tem visitou-nos esse sr. . . . Uma cama de allemães audaciosos. . esposa do sr. . . . preferimos ir sosinhas". . E foram . .A AUDACIA DO INIMIGO PRECISAMOS SER MAIS ENERGICOS AO MENOS EM NOSSO PAIZ É deveras para se lastimar o facto occorrido hontem á noite. Stanislau Urichi. . Esse estupido e atrevido subdito do kaiser. ha tres dias em que não se verifica um só obito nesta Capital (quadro urbano). explicando-nos ter sido desgostos por uma infermidade incuravel a causa daquelle acto de desespero.. .. "Cantamos e havemos de cantar hymnos allemães porque não somos trahidores de nossa patria".. o escrivão daquelle posto offereceu guardas civis para acompanhal-as. revoltou-se contra os guardas. Havendo algumas mulheres dito que "não iam para casa sozinhas" . Na Repartição Central . . barbeiro á praça Zacarias 22. . . Á essa offerta. . " O mais exaltado era o conhecido fanfarrão Frederico Rummert que em portuguez arrevesado gritava: "Não bode ser. nós não somos criminosos e não ha lei que obrigue a falla portuguez". cheios de presumpção e agua benta ( ). procurando offendel-os com palavras asperas quando era recolhido ao xadrez".. . . Com o de hontem. . cantando hymnos patrioticos allemães e jogando chacotas aos brasileiros praticando outras tantas imprudencias que o atual estado de guerra em que nos achamos não permite . como sahio na noticia . . Anna Urichi. Praza a Deus que assim se conserve Coritiba. . ellas responderam: "Não precisamos ir com brasileiros. COMMERCIO 28 DO PARANÁ . nesta cidade.

folhas de eucalipto.Ao de quahluer EI)tdemia. . Para queimar dentro de casa. desinfecçí\o no in terior das ~"sa~.PRECISA-SE De uma mulher para viver com um bom homem solteiro. queiman do-se uma p(~quena porçí\() sobre brl! Z(\8. l)ois é a melhol plua u.1976 febre alta. o cansaço. Com este metllodo pra tico e C('oUQlllico. eJl\ escaw{J. "É. a dor por dentro. Muito repouso. Remédios não havia. ficar deitado curtindo a DONA LÚCIA . Rua Saldanha Marinho n." 29 . AvttR_S facllmen te :t lH'opIIgac.s. o 168 (das 5 as 6 horas da tarde) CP familias ProcuI'{ds comprar Naphtuliun C)'eol.

30 .DIA 28 SEGUNDA o KAISER VAI SER DEPOSTO A SITUAÇÃO NO RIO DECLINA LENTAMENTE A EPIDEMIA E OS CADAVERES JA SÃO SEPULTADOS . isso por desgostos intimos. o preso João Baptista Alves dos Santos. que se acha recluso no xadres do Posto Centra~ tentou contra a existência tomando uma forte dose de DIÁRIO DA TARDE creolina. A PESTE RECRUDESCE A SOPA DOS POBRES buço parco louro encima lábios rubros do calor da febre ao levantar o branco lençol encontrarei outros pelos louros cercando rubros lábios NAS RUAS E NA POLICIA NO QUE DEU A "HYGIENE NAS PRISÕES" Hontem a tarde. . .

e AmAnhA serAoil celebrad"slPn a . 510li portanto" con. penall e bebaixG be suas nocturno. I' ~tJf 1V. ) ) 8066 I Rneumatismo. epid@mia nAo no& rla que todas pnssoas Que acto qU3ircrn cump' A-/ A COM MiSSÃO ) f duasSão S9baGtiA' SAo 8 e és missas. o meu meus. o teu refúgio é o ~en!Jor.o. em virtude de terem adoecido diversos funccionarios de suas officinas.l . mall não se t!Jegará a ti. jflil cairão ao teu labo. i. e bn ~ómente tlorque mil à tua bireita. jiem ba pellte que bagueia nas trebas. a paga bos prcaborell com os teuS o(!Jos tontemplarás. ás Rcqu!I 8 112 hc ras. allas te acol!Jerá: a llua qele te cobrirá com suas jião teráll mêbo bo terror berbabe llerá teu ellcubo e broque!. Convite afim eftlija.lrle confiarei ~orque qele te Iíbrará bo (aço bos caçabores e ba peste perniciolla. na Cathedr31-':' I Lo ~ vidadzs a es~e rtcer. nem ba seta que bôa be bia. nem ba calamibabe que alISo(a ao meío·bia.I t\1. 90 ~~ltjflQ!') DIA 29 TER~A o "COMMERCIO" NÃO CIRCULOU Deixou de circular hoje o nosso apreciado collega mattutino "Commercio Paraná". e brrás ao ~ltíssimo te entregallte. do DIÁRIO DA TARDE 31 . UIG~~ cancerosas M mirei bo ~en!Jor: qele é meu refúgio e min!Ja fortale?a.

.fenda virgem para mfm advinhada por mim "Muita gente ficou com o juizo abalado. O louco comia pêra com lesma. CURITlBA." DONA LÚCIA . pintados de cal. pro resto da vida.918 ODIRECTOR DR. IRMÃ SUPERIORA E PELOS MEDICOS DO ESTABELECIMENTO NAS HORAS HABITUAES DE VISITA. sempre cheio de lesmas.. LEMOS No monte de venus parca loura penugem .brancos os pés. ficava horas mastigando fruta e bicho.No jardim do Hospício tinha umas pereiras.como pelo de pecego margeando os lábios rubros do amor . Não adiantava.1976 32 . SRA. Mesmo muito tempo depois da gripe encontrava-se gente que nunca mais recuperou a razão. Por causa da febre forte dias e dias. COMO MEDIDA PREVENTIVA ESTÃO SUSPENSAS AS VISITAS AOS DOENTES INTERNADOS NO HOSPICIO NOSSA SENHORA DA LUZ. olhando com aqueles olhos. 29 DE OUTUBRO DE 1. lugar úmido. TODA E QUALQUER INFORMAÇÃO AO RESPEITO DOS MESMOS DEVERÁ SER DADA PELA EXMA. olhando.

o nosso dever profissional nos força a sahir do mutismo em que nos encontravamos nesse sentido e vir dizer ao povo que todo esse preparativo que se faz não é apenas para evitar que o mal chegue até nos.. faltou até caixão. Depois era de qualquer jeito. mas sim para dar combate á enfermidade que já n?s atingiu.000 ai.. antes de enterrar tiravam do caixão DONA LÚCIA .eCt~ n _ ••••••. Vinham buscar os mortos.Isfflél(OS e 50 canbõfs I f\ Brlgicd Vde ter a séde do seu governu dentro dos territorios receul-libertados A GRIPPE Embora a censura policial tivesse varrido do noticiario da imprensa a rekltação dos fatos verificos. eu mesma costurei algumas.1976 pra servirpara outro:' 33 . A b m 6EMia'Y9bW'(4 AiiS ..DIA 30 QUARTA AS VICTORIAS DOS ALLIADOS SE MANIFESTAM POR TODA PARTE! ~~~"". DIÁRIO DA TARDE "Os primeiros mortos tinham mortalha. com relação á epidemia.~ ~ IA paz incondicionalmente iI Austria rende-se e quer Ia i I 95 êDglo·jjalianos avançam aíé~ do (íé\Ve e capturam I 12.

onde praticou uma necessidade phisiologica na porta da redacção do "Diario da Tarde" e em seguida veio escarrar na porta da nossa redação.ONDE IREMOS PARAR? A QUE PONTO CHEGA A INSOLENCIA DE UM BOCHE O allemão Rodolfo André Damn. COMMERCIO DO PARANÁ 34 -.- . veio á rua 15 de Novembro.

PRESIDENTE DA REPUBLICA ESTARÁ COM A "MARIA IGNACIA"? Rio 30 . Coritiba _.Encontrasse ligeiramente enfermo o sr. Quinta-feira. . FRANÇA . Wenceslau Braz. glorioso 8 A biHlda de rc'!'hncllto de tnusira do tã') cele brc quAo ZURVOS do exerdto francez 35 . ~~ ~ --- ----~-----~----..-.o SR.. •. 31 de Outubro de 1918 Visões da Guerra ~~ . que não desceu hontem às salas de recepção.-- "COMMEACIO Pl DO . DIÁRIO DA TARDE A FALTA DE CINEMAS TRANSFORMA CURITIBA EM UMA CIDADE DE MORTOS DT DIA 31 QUINTA ReJO DO OPRIEDADE DA SOCIEDADE ANONVM4 .

com tudo. fuitar. que são muito graves. de manhã e de noite. Sentjndo dôres de cabeça e pelo corpo. com febre. pela ~ ~ é molestia muito séria quando descuidada.30 centigrammos para uma capsula. pessoas Recommpudamos maior rigôr TUl def(>.]lini8ter. aggravàndo a situação geral. e Negoci".. AVISO: .ldI1l1lI. o uso de bebi das alcoolicas. Eara lavar a bocca e gargarejar é excellente a agua com um pouco de tintura de iodo. o seguinte: Tranqyilidade e confiança nas auctoridades sanitarias. também com creolina. afim de trazer o tubo digestivo sempre desembaraçado Ellgir das agglomerações. deve ir immediatamente para a . ou usar tampões de algodão com 'vaselina mentholada a 3%.A homeopathia. a não ser do medico assistente. não curam a grippe. do doente. Inmar um laxante cada 4 dias. em seguida. Dieta lactea. quando elles poderão prestar maiores serviços ápopulação. como nenhuma outra molestia infectuosa ou parasitaria.li. Não fazer visitas e evitar o contacto com os doentes de'~ porque o contagio é directo.s Interiores Serviço ~e prophylaxia rural do Paraná Combate á grippe Conselhos á população paranaense É impossivel evitar a propagação da epidemia de grippe por não existir um preventivo seguro capa"" de evitar a infecção. O mais importante é a desinfecção da roupa de corpo e de cama. fuitar. fuitar. So levantar-se quando não sentir mais nada.a bocca. 5 gottas de oleo gomenolado a 5% nas narinas. O espiritismo e as hervas. afim de evitar que elles adoeçam pelo esfalfamento e venha a faltar no momento mais difficil.. ~ refeições leves e a horas certas e dormir tempo sufficente. l. Só chamar o medico para os casos serios. Indo doente grave deve ser entregue a um enfermeiro ou enfermeira.. que seriam contagionadas.'tI.o da Justiça. evitam as complicações pulmonares gastro-intestinaes ou nervosas.1 CÚU edosas e c(('Unça. ~não deve receber visitas. o regimen lacteo e essa medicação inicial. O repouso ao leito. nariz e gargarejar com agua salgada com agua salicylada a 1 por 200. sobretudo á noite. toda a fadiga ou excessos physicos. que facilitam a infecção. ("(mIm a in/t'q:. fazer uso de purgante salino' ou de calomelanos e tomar aspirina e quinino á 0.ão basta passar um panno molhado em agua com creolina pelo soalho da casa do doente e desinfectar o seu escarro. de individuo doente a individuo são. e instillar.tiu. Aconselhamos.as causas de resfriamentos.loou:. diariamente. Tomar 3 por dia. QIDln!Q á desinfect. para evitar a intervenção de pessoas da família ou extranhas. 36 .

1918 Novembro o mez da grippe .

não nos era possivel descuidar da nossa propria vida. invadiu." DONA LUCIA . director do Serviço Sanitário não obstante. foi que. espalhou-se de modo aterrador. Começou o mez de Novembro com um obito por grippe. "Como saber quantos morreram? O governo não ia dizer o número verdadeiro dos mortos para não alarmar. todas as classes sociaes. por assim dizer. vendo hora a hora cahirem os nossos companheiros enfermos. o mal tomou proporções assustadoras.. Dahi em diante. reconhecendo que outra cousa não era sinão essa epidemia que já se estende por todo o Brasil.DIA 1 SEXTA HO KAISER CAPUT_" Contra esse injustificado interesse das autoridades sanitarias.1976 Fina loura linha não de tecer mas louro novelo ninho para o pássaro asas da minha mão 39 . ninguém sabe ao certo. Relatório do Sr. todas as casas. pois que. continuamos ftrmes em nossa attitude pela razão. DIÁRIO DA TARDE Agora está m~o morrendo muita gente. Dr. no dia primeiro. de ocultar a verdadeira situação. não em entrelinhas nos manifestamos ante-hontem. quasi sem homens para o trabalho. Até hoje. Trajano Reis. em termos claros.. achando razão nas declarações de que em Coritiba não há epidemia.

Deve ter achado bonito. FERREIRA LEAL . dicCl J' . CP A freira...DIA 2 SA13ADO ~ I. Deixando o corpo á podridão do Nada. mo• Iva' por preç A. cantando: 40 . viu a coifa da freira em cima da cama. Tristonha de amarguras e miseria. a directoria do Serviço Sanitario o fez sob condicção de funcionarem somente 3 vezes por semana. na lidadeira daqueles dias. colocou na cabeça e saiu daquele jeito pelos corredores: camisolão branco e coüa na cabeça. E assim vamos indo nessa estrada. O louco entrou.Nov.uta ' no •••• officin •• da C05tur. deixou a porta aberta. fornecem encommend •• no prazo mal. 1918 PEQUENAS NOTAS Embora permitindo que os cinemas voltassem a funccionar.. curto po•.

" DONA LÚCIA . cOl!inhoir~ para acompanhar milil\ para ·fvra dl\ Yapita1. Quem podia. Mas ir para onde? As outras cidades também estavam doentes. com medo da gripe.1975 41 .'l CcmmenfÍRdor de uma uma. á r\..io n. "Muitas famílias saíram da cidade. faTrata-se Al'RlI.DIA 3 DOMINGO Nas outras mulheres que conheci na cama preta mata cerrada escondendo o sulco muitas vezes arado Crreada Precisn-s'J com urgüllcio. 51. saía.

-ALLAN KARDEK . o complemento e a certeza de arte de curar . é dar prova de leviandade" pobre idéa do proprio juizo.Livro dos Espiritos O Altissimo creou da terra os medicamentos e o homem prudente não os desprezará.DR. faltou madeira." DONA LÚCIA .1976 42 . não é criticar.4. com' nenhuma outra mo/estia infectuosa ou parasitaria.~ saude das familias.ECCLESIASTICO . SATURNINO SOARES DE ME/RELES . continuamos ftrmes em nossa attitude pela razão .Conceitos sobre e doutrina homoeopathica. Kriste Eleisson Buxeta. HERACLIDES DE ARAUJO Na homoeopathia está a salvação do genero humano. DIA 5 TER~A "Ali naquela casa morreram sete. não obstante. Buxeta. DR.A homoeopathia.. DIÁRIO DA TARDE . que se não sondou com c escalpello do obseroador consciencioso. a garantia do médico conscencioso. a segurança das sociedades. era o pai chegar de um enterro já tinha de levar outro ftlho para o cemitério.DIA 4 SEGUNDA Kirie Eleisson. não curam a grippe. o espiritismo e as hervas. Buxeta.. . Zombar de uma cousa de que se não tem conhecimento. Ele mesmo fazia os caixões.Capo 38 V. No ftm. Allamão Allamão Te pego allamão AhhhhhAaaaaaah Ghhaaaaaaaaa A HOMOEOPATHIA TAMBÉM CURA A VISO .

DIA 6 QUARTA VIGOROSO ATAQUE BRITANICO MEDIDAS DA SOUTH Luctando com a falta de pessoal devido a epidemia reinante. Não recebiam muita visita. resolveu a South Brazilian Railway. CP . Os dois caíram com a gripe.1976 43 . loira... outro no outro. Clara. Passaram muitos dias até que uma vizinha lá entrou e encontrou os dois . muito bonita. ninguém notou. suspender temporariamente o trafego de eletricos á noite em nossa Capital. não se davam com a gente do bairro. seu nome era Clara. as de pouco pelo (negro) que conheci ofereciam lesmas escuras que mesmo penduradas da carne faziam parte "Morava um casal de alemães. a mulher alta. isso. Imagine os dois.6/11/1918 Ou então. um num quarto. " DONA LÚCIA . sofrendo sem assistência.

A "BLACK LIST" ALLEMÃ "Apesar do estado de guerra.. Assistencia Publica que. é sabido que os subditos aliemães que infectam a nossa capital mantêm um "jornal" escripto á machina o qual escreve telegranunas que dizem receber por intermédio da Argentina. em que nos achamos. ás vezes. o buzinar estridente da ambulancia é:. . de que qualquer coisa apavorante ocorre ao nosso derredor.. asas sinistras sibilantes. um pobre enfermo a curtir 400 de febre e ouvir ::. por exemplo. COMMERCIO DO PARANÁ As abas da coifa.6(11(1918 DIA 7 QUINTA A PAZ NÃO ESTÁ TÃO PRÓXIMA DIZ CLEMENCEAU Nada assemelhado a isso fenda estreita oferecida como lábios da febre pequeno regato de morna ácida água onde vibram mil peixes DEIXEMOS DISSO · . Hespanhola. no silencio sepulchral das ruas desertas. · . passa por ahi somente porque vae levar o chal..~=======.. parece não ter vontade de deixar ninguém em paz . Mas a sra. fora. d. Imagine-se.\'t · ..' feur ao almoço ? . COMMERCIO DO PARANÃ 44 . o louco homici& ~============~ IIVida Social II .. Ao ouvir o trombetear agudo do auto ambulancia tem-se a impressão doloras:.. corvo branco da morte. COMMERCIO DO PARANÁ . Esse "jornal boche" passa de mIo em mão" .

tendo a cidade 5e movimentado mUlto ác.acional. noticia que foi hoje. 8/11/18 45 JAIME BALLAO JUNIOR ._ondres.rnar-:s affixaram outros despad10s teleglaphicos annun· do que ás 13 horc.em todas as frf1ntes dp. 'I íido re PEL~ TELEGRÀPH~ w_IIlIIIiI IlIl_ ••••••••• .j~.COr".: d. a grippe.~--Irltgrammas á disposiçilo 00>..Caderno de um grippado .• assignado hontem O armisticio entre os alHados e a AJlemanba RIO. :-:'.i~:: •• _ ••. l!ssa noticia sen::.. máo gra. 1918 .lcç.iba. 7 (Urgente)-. ás 11 horas. onglllae~ ""s A" 1\ . A hruma. a~signado o isticio entre os paizes alliados c o imperio allemão.. prirn\3ihoras da noite.tili· . quando '. a ~evoa.""nhl'o ..-- DO PAllANA .._-----.-----.101 I.". eM OOMMERCIO --.Telegramma recebido á ultima hord .do a situação lamen:1 e doloro~a em que se ach~1o Rio.__ . 8 '•.1i:1 1'111:11(0 tnl . 1 do no.j_mUilmi!·_ZlB n t . intensificou-se ainda mais a sensação popular.s de hoje foram cessadas as hoc. ''''.--..DIA 8 SEXTA A CESSAÇÃO DA GUERRA COM A ALLEMANHA FOI FIRMADA o REGOSIJO PELA 1ERMINAÇÁO DA GUERRA É ENORME FM TODAS AS CIDADES DO MUNDO --_. batalha. causou grande lção.

DIA 9 SA'BADO A "HESJ?AlliiQLK' Só se falia da epidemia. ENQUANTO PERMANECER A EPIDEMIA REINANTE. amanhã concerto de banda de musica na Praça Tiradentes. CP NÃO IlAVERÂ CONCERTO Ao contrario do que foi noticiado por um jorna~ não haverá. Peior. segundo. 9 DE NOVEMBRO DE 1918. CURITYBA. Acabemos com elle e terminará a grippe que de trocadilho em trocadilho. Mata se gente nos cafés. aggrava-se o estado dos enfermos nas esquinas. CORONEL PREFEITO MUNICIPAL AUTORIZA O COMMERCIO DE SECCOS E MOLHADOS E PHARMACIAS A CONSERVAREM SEUS ESTABELECIMENTOS ABERTOS DURANTE OS DOMINGOS E DIAS FERIADOS. primeiro porque a quasi totalidade dos musicos de nossa milicia baixou hospital atacado da epidemia reinante e. DIÁRIO DA TARDE DECRETO NO 133 O EXMO. do que a grippe hespanhola o que está nos matando é o boato. porque estando a população a braços com a epidemia não seria louvavel essa organização de diversões. está pela simples suggestão attirando com toda a gente á cama. cream-se cifras de doentes. SR.Prefeito Municipal 46 . assoJOÃO ANTONIO XAVIER . e só não se fazem sepultamentos por que o official do Registro reclama. de pilheria em pilheria. pois.

." DONA LÚCIA . Não. MOLESTIAS DO PEITO Se a tosse vos persegue USAr O Xarope ~e 6rin~clia o MEDICO:-Então I Sente-se melhor? A DOENTE:Muito pouco. não. Estou vendo. como se os lábios fossem sua boca onde encosto meus lábios. Tiveram que levar os dois para o hospital. doutor.. que não de OLlVfIRA JUNIOR ha remedio senlo appeIlar para o XAROPE DE GRINDELIA.DIA 10 DOMINGO Estou de pé ao pé da cama o traço de sua fenda do amor fica horizontal em relação a mim. não estavam mortos. UNICO QUE CURA " .1976 47 . mas quase.

DIA 11 SEGUNDA o KAISER O KRONPRINZ O ARMISTICIO ABDICOU E TAMBEM NÃO QUIZ FOI ASSIGNADO COM A COMPLETA CAPITULAÇÃO DA ALLEMANHA A REVOLUÇÃO ESTENDENDO-SE POR TODA ALLEMANHA Mesmo na imobilidade da febre suas coxas se entreabrem lentas como a pedir que eu penetre sua gruta com minha Ifngua de sangue em chamas 48 .

. um "peso doloroso nos olhos". Agora que o numero de mortos augmentou os sinos ali dobram constantemente sempre que um enterro se aproxima. em caminho do Cemiterio Municipal. os sinos da Igreja do Rosario. Nilo Cairo . e muito frequentemente "dores" bastante intensas das "costas e das cadeiras'. a apprehensão. Outras vezes se observam symptomas nervosos. grande prostação /feral. violenta "dor de cabeça". . Aponta-se também como symptoma caracteristico da injluenza.INFLUENZA pelo Dr. 0 começo da molestia é ordinariamente brusco.. 49 . que se produz principalmente quando o doente move com os olhos. a todo instante. excitação e delirio.11. a magua e a tristeza.1918 Kirie eleysson alIamão te cuspo escarro lesma em cima de ti alIamão alIamão cabeça de mamão alIamão mão peluda RECLAMAÇÕES Sr. DIARIO DA TARDE . redactor do "Diario da Tarde" Um facto que deve merecer a attenção de quem de direito é esse de estarem a dobrar finados.11. . esse som. espalhando. depoi~ de repetidos "arrepios" de frio. Em geral os typos classicos da influenza começam por uma "febre" bastante forte. A prostação é algumas vezes tão profunda que pessoas bem robustas são obrigadas a se meter na cama.

IIÚIlÍAro Exteriores. 12 da N Telegrammas.\-\[. .DIA 12 TER~A IOR CIRCULAÇÃO NO PARANÁ - Coritibs . NUo P.Terça-fsira. terça feira. onde ouviu que "a policia não tem nada com isso".em i &A A AI 1 EMANHA. foi elle a uma empresa funeraria para encomendar o indispensavel caixão mortuario.AI RESOLUÇOES DO PELOS ALLlADOS SAO Ml GOVEBNO· lUO.. llUIS HUMILHANTES PAdai recebeu &elaçõel hnnt. l~. - YARIAS AS BARBAS DO VISINHO É O caso que havendo fallecido domingo a esposa de um cidadão.! VENCEMOS Â COMMUNICAÇAO Á~ GUERRi\! o ex·Kaizer entre~a-sa ~ p OFl'ICI-. ~rlSIOneIlO ~ U ('1.O u.• Ç&Dha. para quando teria de ser transferido o enterramento. Pois bem: a empreza declarou-lhe que a sua encommenda só seria attendida hoje. u. COMMERCIO DO PARANÁ 12/11/1918 50 . AS CONDIÇOES IMPOSTAS AL DA CE8SAÇAO DA GUEB. &A. I . Vendo que tal facto constituia uma anormalidade o cidadão referido dirigiu-se á policia..\)1 "'I']'. dr.fW.

7 J Esta folha sempre se manteve numa attitude de calma solicitude ante os interesses publicos. sendo 16 causados pelo mal reinante DIÁRIO DA TARDE 51 . abstendo-se de dar noticias que pudessem levar terror á nossa população. COMMÉRCIO DO PARANÁ A MORTANDADE CRESCE Hoje. 22 obitos. . t DIA 13 QUARTA ENFIM A PAZ! ASPIRAÇÃO DOS POVOS CULTOS 7. . até rís duas horas da tarde foram registrados no Cartorio da Praça Tiradentes.AS VICTIMAS AVOLUMAM-SE 21 OBITOS SENDO 16 DE GRIPPE OS CINEMAS FECHARAM A CRIPPE TORNA-SE CONTAGIOSA SETE DIAS POR SEMANA DT Agora está mesmo morrendo muita gente.

. 52 I ..a::w_ BAI~BEARIA I Riq~~. precorreram outras partes de seu corpo: a boca ru bra febre.. MORREM 24 PESSOAS JA POR DIA EM CORITIBA "Não sei bem no que o marido trabalhava.:i~:" POii. acho que era dono de alguma coisa..f. ..:Za I Precisa-se de dois Funeraria. . Eles quase não falavam com os vizinhos.." DONA LÚCIA .. os cabelos....rq~ib~ia l~~!:~}illl Faço isso Somente depois é que meus lábios minhas mãos percorrerão.~!~'.amws:M' 'cocheiros na EmpreIza I t ••••• __ iFalce.iVi>hIN&:!WCf••••••• FTlp.""..l .1976 DIA 14 QUINTA I ! ~~ItF~~'<i.~~- Ph'. de P. O marido passava fora o dia inteiro. o bico róseo dos seios.

para anirnaes ficassem insepultos carros funebres. o movimento observado hontem nos postos de socorro e nas pharmacias. nesta capital. Anjo exterminador. dr. mandei-os Relatorio do Sr. dando aos nossos leitores tão animadora noticia que irá restituir a calma e tranquilidade á nossa população. sendo já muito limitado o numero de casos novos. Trajano Reis. direetor do Serviço Sanitario. mandei-os fabricar e. COMMERCIO DO PARANÁ 53 . camisolão. Coifa branca.DIA 15 SEXTA No dia em que não houve caixões para serem transportados os cadaveres. quando faltaram que não para conduzir os os infelizes fallecidos. Queremos ganhar as alviçaras. a muleta é foice que ceifa mil milllões de cabeças. assim como os informes fornecidos por alguns medicas. nos auctorizam a affirmar que a epidemia começou a declinar. alugar pelo preço pedido.

no quintal.1976 54 . novamente o bico dos seios agora também todo o seio branco talhado enche minha boca r SEIOS = Desenvol\ idos FOítificadGs Aformoseados 1 II = = i I "O que a gente via era a mulher. Muito branca. alta. a parte interna das coxas.DIA 16 SA13ADO os olhos agora semicerrados. o cabelo bem comprido brilhando mesmo quando não tinha sol. Loiro. cuidando de alguma coisa." DONA LOCIA .

. Vt &' . sugo seu pescoço: uma mancha vermelha que depois será roxa. ••• Rnnuncios nas L2' e" 3°a pam. Não se publica uma nota estatistica pela qual se veja que a marcha da molestia que nos infelicita está sendo acompanhada cuidadosamente. inserindo todos os t1j \0 IitJsa~.'s~im pedimos pxc usas ao~ ri nosso~ :1!1J'lunciante~aca:.o ar::: prejudicados com essa tr2ns· d.irrpos llt ~..DIA 17 DOMINGO ._ ~O Paraná" 11:: 'al rto' ~) Por.\ Dor circum~tancias ~l11pe· ~ IJI <. t. 50 jornal.. 55 . suas mãos os dedos se erguendo com meu forte apertar. porém.r- _ :. ~:u.a paginas. prol . '1' DIA 18 SEGUNDA a suave curva do ventre e meus dedos percorrem tremulos a copa de seus pentelhos. motivo de força m:ilor. A EPIDEMIA DECLINA OU AUGMENT A? É o povo cuja sorte está em jogo a todo o momento interroga.forlllhçãot Que n s f')i . e DIÁRIO DA TARDE com esforços empregados para debela-lu. ltes.. 1...~ "CommercÍu .!t formar a paginação do nos•.Q.-. editorial e de collaboraçào : i .rloll Ir:~ 11 u :::: tt. nas e publicando a materia nr.~...e:~nas 10 e 4. i ado' fomos hoje obrigados a traIU' tr. novamente a fonte do amor. Ninguém lhe diz.

não mais de febre agora de gôzo? Gózo e no auge do gôzo tento abraçar todo seu corpo que se me escapa e tenho nas mãos como um pássaro peixe 56 .DIA 19 TER~A M OS OBITOS DE HONTEM NÃO HA AUMENTO NEM DIMINUIÇÃO . Ela geme baixinho.

DIA 20 QUARTA " A EPIDEMIA SO DECLINA PARA ASCIENCIA OFFICIAL Maldito pesadelo da mão peluda pulo 3 vezes O mar do mar para lá ficou AS TROPAS ALLIADAS CHEGAM AS MARGENS DO RHENO ABORTOU NO RIO UM MOVIMENTO GREVISTA SEDICIOSO o GOVERNO ESTÁ DISPOSTO A MANTER A ORDEM. estando a força policial de promptidão. tendo surprendido agitadores exactamente no momento de explodir o movimento. Reina tranquilidade na cidade.Apesar da censura da imprensa. O governo está disposto a manter a ordem custe o que custar.lOSÃODECREANÇAS! 57 . alguns jornaes noticiam que a policia descobriu um plano de gréve com caracter politico. CUSTE O QUE CUSTAR RIO 20 . DT EM 130BITOS.

~!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!I.I!!!!~'"

,

Aviso fi
i [lMticipa Empreza
j

€mpreza Funeraría pires ~IiCia.

ao publico em geral Que, desde hoje em diante, attenderA a er.terro~, devido a seus p: 0Iprietf1rlos já cc acharem restabe:ecidos da ericr· midad~ Que os obn~ou a fecharem seu estabE"ieI cimento, estando :l,:tos para lltten~erem SI Qu{'lquC'r peS~()J que necessItar dos servIços da me~nl1 Coritiba, 20 de Novembro

I

J.

de 1918-

BBrreiros Pires & Cia.
DIA 21 QUINTA

iCommuRique·se.
t

aos pobres este aVIso :

I

o Dispensario 810 Vicente de Paulo, delicadamente, nos pede indiquemos aqui os pontos da cidade, onde distribue, o durante dia" o caldo Já preparadopau os i entermos pobres: . Praçi\ da Repubtica (CoUegio
I Praça Santos Andrade (Oolte: São José) gio Sion) Hua Jguass\\ n. 20õ (Colleglo Coração de Jesus) ; Rua Ractcliff n. 2 t 7 (bandas d' A~ua Verde). E para desejar que todes se tornem junto aos pobre~, pOrtavoz dessa communíct'çào:
58

i

DIA 22 SEXTA

" -----0

FUGlO NO DELlRlO DA FEBRE E NINGUt.,M O t.,'NCONTRA Noticiamos ha dros que o sr. Telemaco Jardim em um momento de crise neroosa occasionada pella grippe de que estava acommetido, fugiu de sua residencro á ma Carlos de Caroalho n.8, tendo a familro do enfermo solicitado os officios da policro para descobrir-lhe o paradeiro. Entretanto, dros já se passam e não obstante os esforços empregados pela Inspectorro de Agentes e por pessoas amigas, o desventurado moço não é encontrado. Concorre muito para interceptar as investigações o facto do pouco movimento da cidade, difficultando as informações que poderrom ser colhidas acerca do paradeiro do sr. Telemaco. A falta de qualquer noticro sobre o pobre moço, leva a crer que se trate de uma occurenCla maIS grave. A policia prossegue nas diligencros para deslin(ÚJro facto. DIÁRIO DA TARDE

~Vida Social ~
Que noitadas magnificas nos proporcionou a Companhia Salvat-Olona. .. E de saudade em saudade, como de abysmo em abysmo, chegamos até a tet saudade do tempo em que os cinemas abertos apresentavam a fita "Bigodinho vae á missa" ... COMMERCIO DO PARANÁ ou outra coisa egualmente profunda. . .
59

RBCLAMAÇÕESDOPOYO
Pedem-nos moradores da rua Alferes Poly que intercedamos da hygiene municipal que providencie sobre uma casa da rua Silva Jardim onde residem lavadeiras que cuidam das roupas de um hospital de grippados, estendendo-as pelas cercas. O escoamento da agua se faz pela valleta da rua, onde estagna, pondo em risco a saude dos mesmos moradores.
COMMERCIO DO PARANÁ

Um grito lancinante foi ouvido.

DIA 23 S~BADO

Mão peluda acuda acuda acuda cuda cuda cuda cuda cuda cuda mãe cuda mãe cuda mãe

Cuiàado

com a Hespanhola!
Use o poderoso antiputrido
Balsamo Santa He1ena

desinfectante analgesico, ini· migv do máu cheiro Empreg2 do em gargarejos, pora a conservação dos dentes, contra o mau hàlito e

!

Um

affecções da garganta

vidro
as

1$500

em todas

pharmaclas

Só o Balsamo 8t8. Helenll

-----------:
60

DIA 24 DOMINGO

POLICIAES

BAILES DE ARRELIA VISINHANÇA INCOMMODADA Hontem, na casa n.158 da rua Silva Jardim, teve logar um barulhento baile que, dado a agglomeração de mulheres da vida faci1 e de muitos desocupados, muito incommodou a visinhança, onde se acham pessoas atacadas de grippe. Segundo fomos informados o baile da arrelia foi promovido pelo cabo do 4~ Regimento, Manoel Candido de Almeida. Tarde da madrugada, quando a bachanal chegou ao auge, algumas pessoas pediram á patrulha de cavallaria para acabar com a encrenca.
COMMERCIO DO PARANÁ

Pancada tão forte que saiu uma espuma de sangue da boca. Ficou ali tempo, no chão de cimento, dezenas de bolhas de sangue pegajosas, levando tempo para ir estourando, uma a uma.

Quando de fadiga não puderam os coveiros abrir sepulturas, mandei gratificar a outros individuos para que as fizessem, de modo a evitar a decomposição dos cadaveres. Relatório do Sr. dr. Trajano Reis, director do Serviço Sanitario.

Nada mais me importa agora nem a mancha do gôzo em minha calça Nem o paletó cheguei a tirar O marido? tosse que ecoa por toda a casa saio pela porta sem chavear sem a volta da chave na fechadura saio sem me voltar ao menos
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DIA 25 SEGUNDA

Telegrammas
As tropas francezas chegar~o_ a Vienna esta semana" Os - ---------------------------- americanos já invadiram as províncias rhenana~~~ lemãs - A conferencia da paz iniciará seus trabalhos ern ..Janeiro - Hinden~ burg cornmunicou ao governo allemão que o exercito gerrnanico não poderá combater nem um só exercito - A as· quadrra ingleza parrte papa Kiel.
DIA 26 TERÇA

o Conselheiro Rodrigues Alves vae assu..
111ir a

presidencia da Republica

Os holiandezes odeiam o Kaiser - O ge· ~eral d'Esperay chegou a Constanti-_ ncpla - O general Pers0ing será o subo stituto do president~_~ilson •.Os frac~ ~~ze§>estão nas rna'~gens __ __ ~_~~~~noJ numa extensão de 100 milhas - A irn---_._--------_._~_._._-~"---------------------_._prensa allernã pede intervenção dOS ~J-= ~,?_do~J?ara reorganisa~ política allemã
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moradora a rua Riachuelo. DT 63 -o . brasileira nata. sr. Uma moça. João Pereira ckt Fonseca. familia visitou-nos agradecendo a noticia que estampamos sobre o passamento de sua galantinha netta a pequena Diva.DIA 27 QUARTA o CHILE E O PERU EM EMMINENCIA DE GUERRA Há dias deu-se um caso que encolerizou quantos o presencearam. no seu nome e no de sua exma. simplesmente pelo facto de ser seu pae allemão (pois sua mãe é brasileira) não tremulou dizer em frente á muitas patricias estas palavras fllhas de uma alma entoxicada pela "Ku1tur": "Eu preferia ser devorada pelos peixes a ser enterrada em território brasileiro" COMMERCIO DO PARANÁ Lá em cima se confere os pecados aqui em baixo ferro e sangue allamão mão mão mão peluda Lüaaahaaahhh AGRADECIMENTOS distincto cidadão.

continuamos fmnes em nossa attitude pela razão .DIA 28 QUINTA Um grito Iancinante foi ouvido. Não obstante. continuamos fmnes em nossa attitude Não obstante. como uma lesma. continuamos firmes Não obstante. continuamos fmnes em nossa attitude pela Não obstante. continuamos fmnes em nossa Não obstante. 64 .. Não obstante. continuamos Não obstante. Pedaço branco de miolo escorrendo pela parede. Um grito lancinante foi ouvido. Não. igual a um verm: descendo pela parede deixando uma baba de rastro.. continuamos fmnes em Não obstante. Um grito lancinante foi ouvido. Como um verme.

abandonado e só à beira da Cascatinha de Santa Felicidade. e que contava apenas sete annos de idade..a distincta familia Jardim vem sendo curelmente ferida pela impiedosa epidemia que tantas lagrimas tem ao nosso povo arrumado. 8 para o Cemitério MunicipaL DIÁRIO DA TARDE 65 . Dias atraz. noticiamos o fallecimento de um filho do sr. quando atacado também do ma~ abandonou o lar e se foi deixar morrer. não mais o façam. a morte paira ainda sobre o lar infeliz e arrebata a gentil menina Josephina primogenita do malogrado cidadão.DIA 29 SEXTA o KAISER VAE ACABAR NO HOSPICIO . implacavel. Telemaco Jardim. saindo o feretro da rua Carlos de Carvalho n. DT JOSEPHINA . E. O enterro da desventurada creança realizou-se hoje ás 15 horas. no delirio da febre. facto esse que o exaltou de tal forma que. FECHAM-SE OSPOSTOS MEDICOS MAS OS NECESSITADOS DEVEM PROCURAR A REPARTIÇÃO DE HYGIENE Por achar-se quasi extincta a epidemia da grippe nesta capita~ a Directoria do Seroiço Sanitario determinou que fossem extinctos os postos medicos que o governo creara no quadro urbano e nos suburbios providencinndo tambem para que as pharmacins que estavam autorisadas a preparar receitas gratuitamente para os necessitados.

seu corpo de loura plumagem Sem me voltar. Passava uns tempos boa. a mulher. sem voltar diante de mim a cidade vazia.COM HESPANHOLA O KAISER ESTA DIA 30 SKBADO De amanhã em diante será restabelecido o trafego dos bonds os quais circularão dE accordo com o antigo horario. nunca mais ficou com o juízo perfeito. alegre com o marido e o filho .. criança linda. teve até um filho. silenciosa nestes dias da grippe ninguém me viu nem me verá "Ela. " DONA LÚCIA .1976 66 . De repente. sempre com um vidrinho de veneno nas mãos.. Nunca largava do veneno. saía a andar sozinha pelas ruas. mesmo quando estava normal.. dava assim como uma tristeza nela. DI Mas sempre terei diante de mim a visão de eu abrindo a porta a casa vasia.

918 DIA 1 DIA 2 DIA 3 DIA 4 DIA 5 DIA 6 DIA 7 DIA 8 DIA 9 DIA 10 DIA 11 DIA 12 DIA 13 DIA 14 DIA 15 DIA 16 DIA 17 DIA 18 DIA 19 DIA 20 DIA 21 DIA 22 DIA 23 DIA 24 DIA 25 DIA 26 DIA 27 DIA 28 DIA 29 DIA 30 FONTE: DIÁRIO DA TARDE 1 O 1 4 2 3 4 4 3 10 10 15 12 12 20 10 19 11 7 18 14 13 16 12 15 15 10 12 7 8 67 .OS 6BITOS DE GRIPPE NOVEMBRO DE 1.

peste • AI F R B GB tZt HF t z Por voss guintes logio der )ac h s s S e· o· e· t S u- P as o r a o JESUS E MARIA 68 . immoror forte. anto Z t t5tA 5 t O I B livrae·me latorias: Po daras dirá osd5 Quando o vossa Cruzr chagas. . Devin Jusus.de todo Deus.ovrae-nos.

1918 Dezembro A última ktra do alfabeto .

annunciando exihibiç6es novas depelliCp culas attrahentes.DIA 1 DOMINGO 'I)------CI .~::.o============\1 \IVida Social II Os cinemas "in totun" abrirão amanhã. 71 .

jaziam cadaveres quatro pessoas. o louco. de uma destas se apoderou vibrando-lhe forte pancada no craneo. Manoel de Campos. que tivera um dos e se achava exaltado pelae febre. Caido exanime o primeiro. Era esta o cosinheiro do estabelecimento. Baldado foi seu esforço.. velhos demente foi ali reclusos pelos empregados até que após uma Paulo Kopff. DIÁRIO DA TARDE 72 - pos- . ao encontrar grippe reclusos que era aleijado usava molletas.. S. pois qque recebendo pancada violenta. sem que alguem pudesse um dia augurar a scena horrivel que elle foi causador hontem. naquella confusão que se estabeleceu. de 22 annos de idade. o louco avançou sobre outra victima. da Luz uma scena terrificante que teve como protagonista um infeliz demente ali recluso.DIA 2 SEGUNDA . fora recolhido áquelle estabelecimento ha muito tempo. olhos injectados de sangue. . o louco desferia pancadas. mas desde 5 armos que não tivera accessos de loucura. sempre com a tragica molleta já rubra e cheia de massa encephalica de suas victimas saiu em busca de outros. que infeliz e mendigos subjugado se ocultavam-se. . a faiscarem. Andava por ali abobado. Em quantos que encontrava. no solo. Seria 6 de furioso da manhã. Entretanto. No " Scena M6cahra H08~icio da Alie- na U08 um louco mata quatro suas Desenrolou-se hontem no Hospicio N.. que procurou defender-se com o braço. Numa aneia de matar. vivendo por isso solto pelas alamedas dos jardins do Hospicio. em meio de uma profusão de sangue. tomado 1/2 horas accesso. Pandellis Rethis e lucta perigosa. o o puzeram em camisa de força. irmãs de caridade fugiam. caiu também sem vida. E naquelle aranzel. recolhendo o a uma cella.

ou por relaxamento em tomar as necessarias precauções com os infelizes que habitam aquel1a casa sinistra. em 1913. Foi recolhido ao asylo ha cerca de 5 annos. destacámos hontem um dos nossos companheiros para ir até aquel1e estabelecimento. Pelo que ouvimos. pois que o infeliz não se suppunha um rei ou imperador. Tratado. Teve el1e febre alta e todos os demais symptomas da terrivel enfermidade.DIA 3 TER~A U 2W1 • um ---. talvez tendo no co73 . que naquel1a coisa entoada á guisa de canção está a mostrar o quanto a inconsciencia toma os irresponsaveis como que felizes immersos na noite negra da inconsciencia.••••. da Luz occorrera uma tectrita scena de sangue. conta cerca de 32 armos de edade. - Apalermado. Então as irmãs preparavam-se para ir celebrar o sacrifIcio da missa. sendo portanto um delirio mais democratico.. sendo Manoel de Campos uma de suas victimas. Chama-se Manoel de Campos o autor da horrorosa scena de sangue. com a invasão da peste hespanhola em nosso Estado. podemos mais ou menos reconstruir a scena horrivel da seguinte forma: O CRIMINOSO E SEUS ANTECEDENTES. jamais teve el1e occaSlao de manifestar indicios de loucura furiosa e quem o visitasse era até capaz de jurar que o desgraçado estava ali recolhido por excesso de zelo. a enfermidade fez a sua entrada tambem no Hospicio. da qual era protagonista um dos infelizes reclusos daquel1e estabelecimento. com todo o carinho pelas religiosas daquel1e estabelecimento. nem mesmo um simples presidente da republica: contentava-se com ser Governador do Estado . uns a mania de perseguição. já nos chamou a attenção o cantar monotono de um doido. w -=-w--••••. S. a ver se haveria razão em acreditar-se que o descalabro se dera por qualquer imprudencia. ninguem suppunha que el1e viesse a ter um accesso de loucura furiosa. Chegados que fomos á mansão dos irresponsaveis. como o fazem todos os jornais verdadeiramente modernos.. A SCENA DE SANGUE Pela manhã a ronda foi fazer uma visita aos diversos departamentos da instituição.. a fIm de colher impressões sobre a horrorosa tragedia e ao mesmo tempo syndicar das circunstancias do caso.••••. respondia que era "governador" do Estado. Como todo o louco tem a sua mania. outros a de grandezas. achava-se el1e ultimamente em convalescença e sempre apalermado. No desejo de bem informar os nossos leitores. nada encontrando de anormal que chamasse a sua attenção. WUlI••••••• __ •• ••• lIlIlI U ma trage~ia no Hospicio da uHespanhola" Uma proeZa macabra Domingo foi nossa população cruelmente abalada com a noticia de que no Hospital de N. Ultimamente. Manoel de Campos quando era interrogado por alguem relativamente á sua identidade. porém.

por instincto to quatro pessoas e ferido uma. foi Manoel de Campos Bruquikoski que tombava mortalmente preso a uma camisola de força. foi Manoel de Campos sobre o seu uma tranca de madeira. felizmente não o matando porque não. Com a tranca acto. recebendo os ferimentos no braço. ginar que era o infeliz mendigo Paulo Subjugado. Manoel tenta fugir e perseguigado dI. E todos estavam longe de ima.. Sedento de mais sangue o infeliz demen te arreestabelecimento.Agora está mesmo morrendo muita gente: meu pae morreu sósinho e seguir. COMMERCIO DO P ARAN Á sendo que a essas horas já o facto era sa- 74 .. fere se lembrava do que fizera.Kosmiake. a sua resposta era mais ou menos toda ensanguentada e a moleta do mendilucida. correndo em sua perseguiração o desejo de levantar a Deus uma prece em favor dos infelizes recolhidos ao ção muitos doentes e empregados.bido de todos. Interrroferido por uma pancada desferida com gato. J. mas ninguem deu a elle attenção ximam. Ribeiro. hontem estando lá o delego ás mãos. responde conservação. respondeu que a este. pois é natural que naquella casa Manoel Salathiel Domingues. levar o braço a cabeça. da do portão para se por em liberdade. Nicoláo Domenico e Miguel ponsaveis. Mas. Quando lhe disseram que havia morBento tivera a boa idéa de. Francisco se ouçam frequentemente gritos dos irresBittencourt. que lhe perguntou si do pelo epileptico Bento dos Santos. Um grito lancinante foi mette contra os primeiros que lhe approouvido. A deu: . conseguindo prostrar sem vida alguma. poz-se o infeliz a correr em demanestes morreram logo quatro .

acho que foi lá por 30. Morreu na gripe.. alta." DONA LÚCIA .." . cabelo loiro bem comprido. morreu. solteira. Muito branca.1976 75 . um dia. até que. acharam ela já morta." DONA LÚCIA . na egreja da Ordem. Morreu na gripe. Por este acto de religião e caridade se confessa agradecido. tomou o veneno na rua. "Moça bonita. Não resistiu a febre forte.1976 M Missa a todas as pessoas que acompanharam agradece os restos mortaes atp á sua ultima morada de sua pranteada e inesquecivel esposa CLARA MARGARETH HEISLER Germano Heisler penhoradamente Aproveitando a opporrunidade convida seus parentes e pessoas de sua amirode para assistirem á missa que manda celebmr sexta-feira. Foi muito tempo depois. a hora 8.

solteira. muito branca. "Não. mas ela morreu. Moça bonita. loira." DONA LÚCIA . teve fIlhos. Por este acto de religiiio e caridade confessam-se agradecidos. ela morreu na gripe."Não. O marido se salvou.1976 Missa GermanQ Heisler e filhos penhoradamente agradecem a todas as pessoas que acompanharam os restos mortaes até á sua ultima morada de sua pranteada e inesquecivel esposa e mãe CLARA MARGARETH HEISLER Aproveitando a opporrunidade convidam seus parentes e pessoas de sua amisade para assistirem a missa eu mandam celebrar sexta-feira a hora 8. na egreja da Ordem.1976 76 ." DONA LÚCIA . mas nunca mais ficou certa da cabeça. Vi o corpo. Casou. teve fIlhos. mortallia branca. Muito branca. Tinha períodos de lucidez. na época ela não era casada. cabelo branco de tão loiro. bonita. mas nunca mais ficou certa da cabeça. casou depois da gripe.

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000 HABITANTES TOTAL GERAL DOENTES DE GRIPE 2.GRIPE 29 9 18 59 112 321 DEZ.249 : 0.248 TOTAL OBITOS POR 4 NOV.J 00 OS MORTOS DA GRIPPE ANNO DE 1918 POPULAÇÃO DE CURITYBA E SUBURBIOS 67 7MENTOS 127 254 59 25 313734 1.629 16 OBITOS240 31 1.&4% PORCENTAGEM DE OBITOS RELATÓRIO DO SR DR..244 283 1. TRAJANO REIS DIRECfOR DO SERVIÇO SANITÁRIO CURYTIBA 1919 . 71 CASA.466 295 89 384 = 45.. DISTRICTOS POLONIA DOTABOÃO = 73.261 NASCI.-.

N1 FIM .

MACISTE NO INFERNO raconto .

Os Mysterios de Hollywood..Noite de Amor. .. Perdida em Paris .. . Sodoma e Gomorra . Rouge e Pó de Arroz . Vertigem de Luxo . Bachanal .. juan Macho e Femea . Caminho da Perdição . Gigolô. . .. Maciste no Inferno . Três Noites de D.....

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diálogos. femeas que se entregam.. bastilhas de papelão. chronicas. apreciações. espasmos . commentarios. taboletas nos bondes e nos automóveis. oscullos infinitos. quadrigas. mãos que agarram. templo. corpos em crispações."Columnas." . coxas nuas de girls macias. desejos. lettreiros. cavalleiros da Idade Média. versos. lábios que procuram.. ancias. annuncios luminosos. projectores. caretas. D' artagnans de fancaria. latagões de feira com estandarte e bandas de músicas. meninas cobras deitadas sobre areias. fremitos. mulheres velludo em atitudes lascivas sobre leitos ou dentro de alcovas. lampadas.

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onde vivia como um paladino do bem que. um dos seus mais ardillosos subditos. o homem de vigor sem egual e coração generoso era tão estimado em sua aldeia natal. o heroe. irmã de creação de Maciste . com a missão de corromper a bella Graziella.Maciste. Plutão em seu seu reino subterrâneo de treva e rancor invejou-o e para combatel-o mandou a Terra o demônio Barbadilha. um bello dia.

.. ••. -6 .... ~ ~ ~ . li! •• ~ ....•~ • --~ <V ./ .• .G _____ .

ousada mente. trava renhida lucta com o demônio que o arrasta para o inferno .Negro como o inferno até acostumar a vista fico em pé as mãos na mureta de madeira que separa as fileiras de cadeiras da grande porta com cortinas de velludo que separa a salla de exibições da salla de espera Este vendo Grazie/la seduzida por um conquistador sem escrupulos percebe a intervenção de Barbadilha e.

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mudo de idéia e entro na fileira da frente ameaço sentar numa cadeira vazia mas sento-me ao lado della É uma mulher .Com a luz que vem da tella busco com os olhos aquillo que quero e busco meu logar a mulher Até me assegurar que é uma mulher fico atraz da mureta de madeira as mãos segurando suas bordas Para que os outros espectadores não se apercebam das minhas intenções finjo entrar na fileira de traz com mais gente.

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a cabeça para que ella não perceba que estou olhando a ella Nem tentei encostar meu braço no seu e ella olha a tella tremeluz . bem pouco.É uma mulher Fingindo attenção na tella com o rabo dos olhos olho com coragem viro um pouco.

Ora o mortal que chega ao inferno sem ter morrido, pode voltar ao mundo se ao fim de trez dias não tiver cedido à tentação de alguma beldade d'aquelle antro

É bella e macia, estou com meus braços
cruzados e as pontas dos meus dedos acariciam o fino tecido de sua blusa solta ella não solta os olhos da tella cintilante nem sente minha caricia na seda macia diferente do áspero velludo das vermelhas cortinas

É um fume marron nas cennas de inferno é
vermelho Um calor me sobe por todo meu corpo, frieza da seda
Ora, Proserpina, a esposa própria de Plutão tenta-o com encantos taes que Maciste ousa beijal-a: Estava decretada sua sentença às pennas etternaes

Ouso, empurro meus dedos tremulos e toco seu braço como se fosse sem querer Não sobre a cadeira ao lado meu chapeu esta assentado sobre meu sexo agora zona de calor EUa afasta seu braço Ouso, insisto eUa afasta seu braço vira-se e olha firme para mim meus olhos estão na teUa

ardiloso e revoltoso. quer a todo transe desthronar Plutão.e não encosta no seio pelo menos na parte lateral Olho a tella e nada vejo Poma macio dura vejo . para tanto architeta uma revolução no inferno. Somente por sua lealdade instinctiva. Maciste poem sua força e destreza sem egual ao serviço de Plutão e consegue debellar a revolução e castigar o pérfido Barbadilha Acaricio o fino tecido e os dedos vão se aproximando vagarosamente Como os braços della estão bem postos para traz os dedos vão chegando a parte do lado de seu seio direito.Entrectanto Barbadilha. logar onde o tecido também é solto .como nas mangas da blusa .

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Então terminada a lucta, Plutão chama o heroe a sua ignobil presença e em lembrança aos seus serviços auctoriza-Ihe a voltar a Terra: Proserpina protesta contra isso, mas em vão. Maciste prepara-se para partir, mas Proserpina arma-lhe um laço, manda-o prender e torna a beija I-o, condemnando-o novamente à penna eterna Latagões com estandartes e bandas de músicas, coxas nuas de girls macias, meninas cobras deitadas sobre areias, mulheres velludos em attitudes lascivas, mãos que agarram tóco finalmente o lado de seus seios calor, lábios que procuram, femeas que se entregam, corpos em crispações, oscullos infinitos, desejos, ancias, fremitos, espasmos ... No espasmo do gôzo nem sinto suas unhas vermelhas fincarem-se em minha carne: "Que é isso? se o senhor não ficar quieto eu chamo o guarda!"

Levanto sem olhar saindo pelo outro lado das cadeiras Disfarço sair agora sem o filme acabar chamaria atenção; por isso dirijo-me ao banheiro Letreiros homens pintado num vidro que a luz vermelha alumia Uma pequena cortina vermelha antes da porta impede que abrindo a porta a meia luz do logar chegue na salla de projeção Evito olhar no espelho não há toalha limpo a mim e a calça como posso com o papel do programa que anuncia as próximas fitas Caminho da Perdição ... As Trez Noites de D. Juan ... Macho e Femea... Sodoma e Gomorra ...
Entrectanto, na Terra, o seductor de Graziella arrependido de seu acto, volta para junto d'ella e seu filho, que já tem então um anno e meio de edade. Na véspera do Natal,

o pnmeuo a saIr . entre seus amigos Não posso ficar neste logar muito tempo chamaria a attenção sobre minha pessoa A fita está acabando apresso-me com o chapeu cubro a mancha úmida de minha calça as gentes da salla de espera me olham sou . .Graziella faz esta adorável creança rezar por seu protector. o impávido col/osso Maciste e dá-se o milagre: a prece infantil é ouvida e o Todo Poderoso liberta Maciste e este volta à Terra para gozar a ventura de um novo lar..

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.Mesmo a luz mortiça das quatro horas da tarde me cega Já não escuto o piano quando todos começam a sair da sessão já estou escutando o barulho da cidade das casas das vozes dos automóveis dos ruidos Sou novamente parte da cidade e " nmguem me ve ..

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E9 mINE9TAURE9 novela .

No escuro me levantei. nem sei como convenci aquela estátua de mulher a passar a noite comigo neste hotelzinho vagabundo. tudo o que eu tinha no bolso. O preço combinado. loira. Acordei. ia me deixar sem nada até o fim do mês.Para não pagar a mulher. . quieto vesti minhas roupas. sem fazer barulho deschaveei a porta e. branca. na cama do hotelzinho barato. saí para o corredor escuro. o que eu podia pagar. nua. tão sujo. Não que a mulher não me agradasse. Tenho pouco dinheiro. ela dormia ao meu lado. cabelão esparramado pelo lençol. abandonei o quarto no meio da noite. Uma bela fêmea. de mansinho.

E não há razão nenhuma para se entrar sozinho naquele hotel de encontros. Nunca aconteceu isso. É um hotel de encontros e ninguém o procura para se hospedar. Se por acaso algum desavisado procurar um quarto para. Ao contrário. os pequenos desentendimentos amorosos. alguém sair sozinho do hotel durante a noite é relativamente comum: a hora certa para chegar em casa. a insatisfação com a companhia escolhida. dormir algumas horas. são motivos corriqueiros para se abandonar um quarto pago adiantadamente. as questiúnculas por questões de dinheiro. o sono alcoólico que impede os prazeres do sexo. fatigado. a hora que obriga um homem casado a deixar sua parceira noturna dormindo. .Sozinho? Nessa hora da madrugada ninguém entra sozinho naquele hotel. será alerta do pelo porteiro noturno sobre a real categoria do estabelecimento e dissuadido de entrar.

a gente tinha bebido demais. quando nos cruzamos na noite. nem sei o que ela viu em mim. ela não. no bar. os dois.Excelente fêmea . Também. pentelheira loira. aguadas. geralmente. e então ia ficar sem dinheiro até o final do mês. as loiras não são boas de cama -. nada da potranca que eu cavalgara três vezes. Geralmente as loiras são largas. apertadinha. Não era mulher para aquele ambiente. Encostei a porta com cuidado e me atirei pelo corredor escuro. teria de pagá-Ia. foi logo beijando meu corpo: como era quente aquela boca com o meu sexo dentro.e. Foi tocar na pele e ela se arrepiou toda. estávamos meio bêbados. Três vezes seguidas e eu e ela queríamos mais. Acordei no meio da noite. dormindo ela era coisa morta. Me veio a preocupação de que se eu ficasse até de manhã. essa polacona que eu peguei. . Quando enfiei nela. a mesma coisa: quentura de um pote de mel. mas o sono não deixou.

.Não pintou por aqui hoje.Não enche o saco. . tesão. Tem um cigarro? -Não. .Você viu a Marilda? . . Se a Marilda aparecer.Porra! Será que ela ainda vem? .E eu é que sei? . enfia teu cigarro no eu. diz que eu volto.Porra. Tchau. .Vê se me esquece.Tesão..

o relevo das mata-juntas. Não enxergava nada. numa curva de noventa graus. agora parede de material. percebi que o corredor descambava para a direita. de intervalo a intervalo.Porque me parecia que fora por esse lado que eu chegara. . a áspera madeira das portas de inúmeros quartinhos. Me choquei de frente com uma parede de alvenaria que fechava meu caminho. a intervalos maiores. como seria normal quando se caminha na escuridão. Como não sentisse com a mão a parede do lado direito. Nas mãos abertas eu sentia as paredes de tábua e. me atirei para o lado direito do estreito corredor escuro. E continuei seguindo. eu ia com as mãos nas paredes e não para a frente.

Com as mãos nas paredes eu sentia uma repetição do corredor anterior. este mais curto. arrastando os pés. Parei. Logo senti um vazio na mão esquerda. Galguei. Tropecei em imprevistos degraus. Havia uma escada à esquerda. estendi a mão direita para a frente e senti outra parede bloqueando o corredor.Quase que caio. . com medo de encontrar pela frente outros degraus. Desci cuidadosamente. encaminhando-o para a esquerda. Me virei e segui arrastando os pés. Ao contrário da outra. arrastando os pés. esta escadinha era ascendente. formados no vazio a partir da direita até a parede contra a qual eu me chocara. Continuei seguindo. O corredor principiava com uma escadinha. seus três degraus. dei uma topada num degrau. cuidadosamente. pois não sabia quantos degraus existiriam no escuro.

Algumas plaquetas estão pregadas tortas e mesmo de cabeça para baixo. ou parafusos. Devem ter servido em estabelecimento de mais categoria antes de seu uso aqui. outras se acham penduradas. São de formato oval. para fixá-Ias nas portas dos quartos. esmaltadas de branco com os números em azul. e falta numeração em muitos dos quartos. ornadas com friso também azul. são plaquetas de boa qualidade. .Para a numeração dos quartos deste hotelzinho utilizam-se plaquetas de metal de cerca de sete centímetros de comprimento. Pequeno furo em cada uma das extremidades permite a passagem de pregos. presas somente por uma das pontas. formando uma delgada moldura. Apesar de muitas estarem riscadas ou com o esmalte partido. numa demonstração de serviço malfeito.

na esperança de encontrar uma lâmpada que. aumentava o cheiro de mofo. neste novo corredor. continuei a caminhar. Durante algum tempo continuei com as mãos pelo teto. neste hotelzinho barato o acender de uma lâmpada se faça atarrachando-a no bocal. . Qualquer coisa de abafadiço. No meu tatear pelas paredes ainda não encontrara nenhum interruptor de luz. Uma luz acesa me indicaria o caminho a seguir. estivesse provocando a escuridão. Àquela hora tardia não se esperavam mais hóspedes. sensível em todos os quartos e corredores. Estendo as mãos para o alto e alcanço o forro baixo. Alcançado o topo da escada. cheia de abaulamentos. Talvez nem existissem. parecia ser de áspera madeira compensada.Talvez por economia. que. desrosqueada no bocal. e para economizar certamente o porteiro apagara todas as luzes. pelo tato.

Uma loirona que eu nunca vi por aqUI. .- E como é que tá? .Fraco. Viu o que deu: 24. .Boa mesmo? - Coisa fina.E de novo? - Uma tremenda duma peça.No oito. hoje joguei na dezena da vaca. . seco na cabeça: 25.Em que quarto você pôs eles? . deve ser gata de alguma boate. . um pé-de-chinelo. . Olha.E o cara com ela? Acho que já vi antes.

Eu não tinha mais nada a fazer neste banheiro escuro. Um cubículo. Empurrei a porta e entrei. A mão direita encontra um vazio. . então saÍ. Erguendo as mãos. E não encontrei o interruptor. Emanações de urina e fezes se juntam agora ao cheiro de mofo. me arranho num prego onde se espetavam ásperos papéis cortados irregularmente. deve existir em um banheiro. sem sombra de dúvida. A lâmpada ou havia sido retirada. Procurei com as mãos o interruptor da lâmpada que. a porta entreaberta de um banheiro malcheiroso. bato no puxador da descarga. com certeza pedaços de jornais velhos. encontro um bocal vazio fixado no teto baixo. ou nunca estivera lá.wc Este corredor me parece mais longo que os outros. Minhas mãos percorrem todas as paredes.

pois era muito fraquinha. mal se viam os números do mostrador. A luzinha do meu relógio queimou há tempos e de nada adiantaria mesmo. . por isso não carrego fósforos comigo.Não tenho o hábito de fumar. Um castiçal com uma vela acesa me seria mais útil nesta escuridão.

Vivia o Minotauro no Labirinto. inteligente. moço loiro. enredados. fortÍssimo. a rainha Parsifae. sempre sedento de sangue humano. decidido a matar o monstro. tornando impossível para quem nele entrou achar o caminho de volta. Impenetrável à luz. Por ser perversa e tenebrosa. . da ilha de Creta. toma o lugar de um dos rapazes escolhidos e segue para Creta. tortuosos. o Minotauro. corpo de gente. A condição de paz imposta à cidade é que. o inextrincável Labirinto era formado de mil voltas com mil corredores arrevesados. O rei Minos invade a Grécia e ataca Atenas. cabeça de touro e comedor de carne humana. que se rende. enorme construção de muitos corredores emaranhados. mulher do rei Minos. intrincados. Ao saber das exigências do Minotauro. foi castigada pelos deuses tendo um filho monstruoso. belo. andava pela Grécia eliminando bandidos e ladrões. deveria entregar 7 moças virgens e 7 rapazes para serem sacrificados ao Minotauro. uma vez por ano. Teseu.S/NC} UMA LENDA DA ANTIGA GRÉCIA.

é visto pela filha mais nova do rei Minos. Teseu encosta o navio na ilha de Nacsos. Teseu abandona-a na ilha deserta e zarpa sozinho para a Grécia. após mil voltas Teseu chega ao lugar onde o espera o Minotauro. Teseu embarca com ela de volta à Grécia. Ao ver carne fresca. Teseu enfia-lhe a lança no coração e corta-lhe a cabeçorra com a espada. Vencido o monstro. Teseu encontra facilmente o caminho de volta seguindo o fio que desenrolara por quilômetros de escuros corredores. que se apaixona perdidamente por ele. Entrando no Labirinto. o Minotauro ruge e baba de cobiça e gula. Ariadne dá armas e um novelo de fio de ouro a Teseu. a pretexto de cansaço pela luta com o Minotauro. No meio da viagem. para que ele encontre o caminho de volta no Labirinto. Aproveitando o sono da bela Ariadne. . Sem perda de tempo. Na saída.Ao desembarcar. Deita-se para descansar e Ariadne adormece ao seu lado. enorme com seu corpanzil de homem e caratonha de touro. Ariadne espera ansiosa por seu amado. a bela princesa Ariadne.

devo ter entrado por um desapercebido corredor que inicia bem defronte ao pequeno banheiro. . Nauseado pelo mau cheiro. percebo depois de algum tempo que devo estar em outro corredor. Sinto também uma corrente de ar frio vinda da escuridão à minha frente. quando saí do banheiro devo ter caminhado em linha reta e não para o lado. Como não bati em nenhuma parede.Perdido na escuridão.

sem sair da cama. metálico ruído. Acha não. percebe que está sozinha. Mesmo na escuridão sabe onde encontrar: pega o rolo de papel higiênico na mesinha-de-cabeceira e se enxuga. agacha-se e solta o segurado jato de urina. esperando achar uma pêra de luz. Se levanta. muita bebida.A mulher acorda no meio da noite com vontade de urinar. Passa as mãos pela guarda da cama. Ao voltar para a cama. . Acostumada nesses ambientes. procura até encontrar uma bacia de metal. puxa a bacia para perto de si. tateando o chão com as mãos.

que lhr arrancaram diversos pedaços da carne já putrefata. distante vinte e cinco quilômetros de Curitiba. um capão de mato existente no prolongamento da antiga estrada Curitiba-Campo Largo. servindo de repasto aos urubus. atraído por nuvens de urubus sobrevoand. a polícia não encontrou as vestes da vítima. como o corpo da bela jovem loira se encontra bastante bicado pelos urubus. Assustado e enojado. torna-se necessária a realização da devida autópsia. Casemiro Pietroski procurou logo avisar a polícia. Vasculhando cuidadosamente a região pouco habitada. A estradinha de tern.e Curitiba. Ao locê compareceu uma viatura da delegacia de Campo Largo que providenciou a remoção do corpo para o Instituto Médico Legal d. aparentando vinte e poucos anos. perfuração por projétil de arma de fogo. termina uns cinco quilômetros adiante do lugar do macabro achad e tem muito pouco movimento. deparou-se com uma cena tétrica.8DEMAlO BELA LOIRA DEVORADA POR URUBUS Na manhã de oito de maio. Os primeiros exames realizados não evidenciam nenhum. Uma mulher loira. sendo de se supor que a bela loira tenha sido assassinada em outro local e ali jogada durante a noite . o lavrador Casemiro Pietroski. nua. dirigiu-se para o local e. nem qualqur documento que facilitasse sua identificação. em Campo Largo. com vistas a estabelece' a causa mortis. porém. encontrava-se caída de bruços. morta. moradOl do distrito de Itaqui. em meio ao mau cheiro reinante.

Pela pouca espessura dos tabiques de madeira. peidos. como se esperaria num hotelzinho de encontros. seria natural que se ouvissem barulhos: gemidos de amor. Nada. gente roncando. . cercado de quartos dos dois lados do corredor sem nenhuma janela. E eu devia estar bem no centro do hotelzinho. tosses noturnas.Silêncio. A loira roncava. Eu não escutava nenhum barulho vindo dos quartos. pois nem os ruídos noturnos da cidade eu escutava. silêncio total.

bem perto. também quase encostado. Pequena. Não há nada para ver. Em frente. De um lado. . Minhas mãos tocam a plana lisura do vidro. A noite lá fora está tão escura quanto aqui dentro. bem no centro. ao fundo. a escuridão. É uma pequena janela. o oitão sem aberturas de um edifício alto. Do outro. Pequena janela sem serventia. Abaixo.Na minha frente. um muro. um quebrado. Quatro vidros. o que parece ser uma das paredes do hotelzinho. uma baça luminosidade retangular.

. a mulher do patrão. embrulhado no acolchoado do jeito que estava.Cadê a bichinha? . ficou com medo de passar a noite aqui.Também.Acho que.E a Shamanta até defumou o quarto todo: para acalmar o espírito da infeliz.Ninguém comentou nada? -E quem? . o patrão.Mas você não alugou para ninguém. Deve estar caçando. . Deixei a porta aberta para ventilar: para saírem os maus eflúvios: não é assim que se diz? . Ninguém desconfiou quando tiramos para pôr no carro. . parecia um monte de roupa para lavar.Parece que é.E a Shamanta lavou tudo direitinho. não deixou nenhum sinal. o travesti que cuida da limpeza dos quartos). . depois do acontecido. . . não é? .Só quem ficou sabendo fomos nós (nós aí incluídos os dois interlocutores.Será que alguém ficou sabendo? .Estou te dizendo que está quase vazio. . o agente de polícia e Shamanta.

Vou entrando devagar. Que merda. Cheiro de defumação nesse quarto.Pelo vidro quebrado entrava o vento frio. Como das outras vezes. nem precisei baixar a maçaneta de ferro redondo. mãos para a frente. .Tem gente aí? Dou uma tremenda duma topada com a canela no pé da cama. A porta estava aberta. um pequeno pedaço reto. Somente depois de passada a dor forte me levanto da cama e procuro no ar uma lâmpada. uma pequena curva para cima. Que se danem. depois um pedaço reto maior. onde pôr a mão. Então me veio a idéia de ir abrindo a porta de todos os quartos. provavelmente enferrujada. não quero ficar rondando a noite toda. Um fino ferro redondo. Merda. este pendurado no teto pelo fio elétrico. só o bocal vazio. Há quanto tempo estou aqui? . que não sinto agora. Em algum quarto deve ter luz. Tudo fechado. Será que tem gente dentro? Parece que esse corredor não era tão comprido: será que não estou onde pensei que estava? Uma porta aberta. ou alguém me empresta um isqueiro.

TSK . muita bebida. um molhado gosmento. . sem sair da cama. procura até encontrar uma bacia de metal. no lençol.(ou não?) A mulher loira acorda durante a noite com vontade de urinar.ela faz com a boca. o esperma deve ter escorrido de dentro dela durante o sono. acostumada com esses ambientes. tateando o chão com as mãos. Procura seu parceiro. passa a mão pelo espaço vazio e sente. Depositado pelo homem não mais ao seu lado. Limpou os dedos em outra parte do lençol e somente então. ela não se limpou.

..Em que quarto mesmo você disse? -No oito.

tentando inutilmente me agarrar em algum ponto de apoio. Os degraus dessa escada em caracol giram partindo de um centro que é o canto direito do patamar formado pelo final do assoalho do corredor. Perdi o equilíbrio e rolei escada abaixo. nenhum hóspede apareceu para ver o que acontecia. Na escuridão. Braços cansados. Não me machuquei. . dificilmente a gente consegue caminhar em linha reta. O barulho da minha queda não provocou nenhuma resposta. justamente no lado onde os degraus são mais estreitos. nenhuma porta se abriu. Degraus de formato triangular como um pedaço de pizza vão se abrindo em leque para baixo. foi mais o susto de cair girando num abismo escuro. deixei de tatear as paredes.(ou 30-0) Rolei escada abaixo. Eu andava quase encostado na parede direita e entrei na escada em caracol. quando vi estava sem apoio.

um velho casarão no centro da cidade. quando aqui cheguei com a loira me lembro. Imagino que o hotel tenha três andares. de ter subido escadas. Bêbado. meu relógio está com a luzinha queimada e eu não conseguiria ver os números agora. num espaço que não compreendo. Desci escadas. Sei aonde pretendo chegar: na porta da rua. subi escadas e continuo no mesmo lugar: na escuridão.Não olhei as horas quando acordei. . No escuro caminho no espaço e não no tempo. embaçadamente.

Há um outro homem que se movimenta. Conhece o chão onde pisa e sabe que. Na hora certa. o caminho é menos cheio de meandros para chegar aonde quer. antes percorreu o longo corredor retilíneo do andar térreo e prefere subir pela estreita escada dos fundos. na escuridão. Ele conhece o caminho. entre as inúmeras portas do hotelzinho ele saberá qual abrir. . pelos corredores do pequeno hotel. Declinou a escada ao lado da pequena portaria. por ali.

encontro uma janela.A porta está aberta. Vou falando: Tem alguém aí? Desvio a cama e vou passando as mãos pelas paredes. Haverá outros quartos abertos. a vidraça abre para o lado de dentro e. É uma grande janela. Espio pelas frestas e nada mais vejo além da escuridão. não consigo abrir a veneziana nunca aberta. Saio do corredor escuro e entro no quarto escuro. . por mais força que eu faça. ora de material. Não me lembro se tinha janela no quarto da loira. ora de madeira. Procurando uma luz.

. Aquele silêncio todo e se ouve um zumbido contínuo como um apito de navio. as gentes dormindo. Acho que vem dos postes de luz. bem baixinho.De madrugada. há uma hora em que parece que tudo pára. não se escuta carro passando. Tudo está fechado. na cidade. mal se ouve. Aquele zumbido continuado não é silêncio.

no fim do corredor. Talvez por mesquinharia. fumando. ele acendeu o cigarro antes de subir a escada e se deixou ficar ali parado. Antes de subir a escada.Ele fuma. para não ter de reparti-lo com o porteiro. no fim do corredor. sozinho no escuro. . apenas por vontade de fumar. fumando. acendeu um cigarro e se deixou ficar ali parado. talvez porque a maconha lhe aclare a mente sobre o que fazer ou. talvez. em pé.

Se tivesse um fósforo. Na verdade. .Eu penso em fogo. sinto frio. poria fogo nos jornais e me aqueceria. chamas. eu faria uma tocha. Se eu tivesse um fósforo e tivesse em mãos os jornais do banheiro. Na verdade. uma luz para me guiar. não faria isso.

noticiou que o assassino (ou assassinos) havia posto fogo no cadáver para evitar a identificação. sem nenhuma fotografia na primeira página. Na notícia. de menor circulação. o nome da localidade aparecia grafado errado: Itaigüi.Outro jornal. .

Tá gozando com a minha cara? Ainda ontem ela esteve aqui. com um velho. estou louca de vontade de fumar. .Se você não olha para a gente.É tanta gente que aparece por aqui. como sabe que ela não veio hoje? .Não. .Tesão. ..Tá a fim de fazer hora comigo? Já disse que ela não veio e não me encha o saco.A Marilda já veio? . Eu estava com o meu. .. .Já disse que não. Não tem mesmo um cigarro. se eu for olhar para a cara de cada puta que entra .. Faz dias que não aparece. .

Abro uma porta destrancada e vou entrando num quarto escuro. . .Onde você andava? Só vejo a voz da loira e respondo: .Fui no banheiro.

. encosta a porta. Quem deixou a porta aberta? Espia para dentro do quarto e. zelosamente.o outro homem vê que o 27 está escancarado.

. eu caminho na direção dela.Deixa de frescura e vem de uma vez.Você tem fósforo? ..É que está escuro. Molha a barra da minha calça. Piso na bacia de metal que entorna seu líquido em cima de mim. . os meus pés.Pra que que você quer fósforo? Venha deitar logo que eu estou com frio. em direção à cama. Não tem luz nessa porra. No escuro. . O líquido gelado me entra por dentro dos sapatos.

mas tinha fósforos na bolsa. atirei fora num grito. preta. saio outra vez. Um custou a riscar e queimou meu dedo quando acendeu. com o nome do inferninho impresso em letras douradas: Le Labirinthe. A caixa tinha apenas três palitos. O outro me guiou até o banheiro. onde eu sabia que encontraria papel. . No escuro.A mulher loira também não sabia onde era a luz. Com a desculpa de me enxugar. me entregou uma caixa de fósforos de papelão.

percebe uma luminosidade alaranjada movendo-se na escuridão. sem roncar.. lentamente. O porteiro noturno lê. mais uma vez. O outro homem sobe. Quando seus olhos chegam na altura do piso do corredor. Sabe muito bem que. A outra mulher pouco se importa. bonitão? O passante não responde e continua seu caminho. pela escada que leva ao corredor do banheiro.Está a fim de um programa. Se deixou ficar ali. perguntou por perguntar. porém num lugar onde não possa ser vista pelo porteiro. perto da pequena porta de entrada do hotel. a notícia estampada no jornal do dia anterior. dificilmente encontrará um freguês. A mulher loira dorme. àquela hora. .

em movimento vejo um sapato preto de cordão. novamente. um barulho seco no chão cimentado. eu corro pelo corredor. . Rápido. esfrego a barra da calça para secá-Ia. manchetes impressas em vermelho. Estou acocorado junto ao foguinho e. a escuridão. quando a outra escada termina. . O jornal se encontra bastante amassado e o fogo do terceiro palito de fósforo começa a queimá-Io pela margem. onde cai. No escuro. O sapato esmaga o jornal incendiado e. mas as letras da reportagem estão em preto.Em preto e branco a fotografia da mulher loira caída de bruços. por outra escada e vejo. uma canela sem meia. luz no fim do corredor.Qyhé bbohhar oohhô nnnohehll? Ao mesmo tempo que escuto a voz irada que não entendo. com outro pedaço de jornal. uma perna metida numa calça preta. ao levantar me choco contra um corpo aflanelado grosso redondo que perde o equilíbrio e bate com estrondo na porta semi-aberta do banheiro. assustado. pela escada.

. Ao mesmo tempo. toca a campainha do relógio-despertador colocado na parte de dentro do pequeno balcão da pequena portaria. precisamente quando os ponteiros marcam cinco horas.Trrriiiimmm.

apresso o passo e só então me dou conta de que estou ao ar livre. . saio pela porta aberta e. procuro caminhar numa direção em que eu não possa mais ser visto pelo porteiro sentado atrás do pequeno balcão. .Agora caminho mais devagar. na rua. apesar da escuridão. bonitão? Nada respondo. pequenos prédios com a mesma altura. caminhando por uma rua estreita ladeada de construções antigas. Aparentando naturalidade. .A mulher fica dormindo. e de que começa a amanhecer.Tá a fim de um programa.

encaminha-se para a pequena portaria.A Marilda ainda não entrou? .A outra mulher sente frio. entra e pergunta: . Depois de alguma hesitação.

.

o MIST[RIO & DA PROSTITUTA JAPON[SA MIMI-NASlILOIClII .~ .

.

piso de tacos de madeira cinza muitas vezes lavado. formando um minúsculo banheiro. formam um cubículo sem portas. uma escadinha de três degraus descendo para nele se entrar. Diferente do piso do pequeno quarto. O quarto já é pequeno e. Conhece o caminho. dentro do já cubículo que é o pequeno quarto. construíram uma parede que não chega ao alto do teto baixo do pequeno quarto. que não se encontram e não alcançam o teto baixo. A prostituta japonesa vai na minha frente. Essa parede não chega a se encontrar com o final da parede construída a partir do lado da porta de entrada do pequeno quarto. Traçando um cubículo. acompanhando os degraus. Essas duas paredes. Dentro do pequeno quarto. partindo da parede oposta à parede dos três degraus. Um vão sem porta.o quarto do hotelzinho barato. nunca encerado. o chão do banheiro minúsculo é cimentado. essa parede acompanha os três degraus e termina pouco adiante de onde eles terminam. outra parede avança. partindo do lado da porta. pintado de vermelhão. Ocupam um pequeno espaço dentro do pequeno quarto do hotelzinho de rendez-vaus. Hotel de rendezvaus. 185 .

a prostituta . com a chave na mão. Como é escura esta noite sem estrelas! Um corredor de paredes sem portas e a porta do pequeno quarto. a prostituta japonesa caminha adiante de miIr pelos caminhos escuros.: mesinha-de-cabeceira. não sobrou lugar para a outr.. Pequena janela basculante.a passagem é o vão sem porta. A única janela do pequeno quarto fica no pequeno banheiro. vidros pintados com tinta branca fosca grossa.1 ponesa me conduziu pelo labirinto cheirando a mofo. um longo corredor e5' treito. Deitado na cama. uma escadaria qUe sobe à esquerda. Foi ela a pL meira a entrar no pequeno quarto às escuras e a me alertar: 186 . Muitas vezes trilhadora do labirinto. que abre um espaço defronte à metade dos pés da baixa cama de casal. vejo diante L~::: mim. Por portas fechadas. sobra mesmo lugar para uma mesinha-de-cabeceira. talvez uma V2.' lha de ralo tecido sobre os vidros pintados e consigo a privacidade é pequeno quarto do hotel de rendez-vous. 'c Seguindo sempre adiante. uma negra sala sem portas.um pouco .' randa.. Um olho pode estar à espreita. O que facilita . Eu coloco a pequena e úmida to~. Eu não saberia reconstituir o caminho que nos conduziu da portaria do hotelzinho barato até este pequeno quarto. que deve ter sido levada para outro quarto de hotelzinho barato. através da abertura sem porta do pequeno banheiro. depois à direita. só existe uma posição possível para a baixa cama de casal.. Do outro lado da cama. a janeL basculante com falhas na pintura. A cabeça no edredom tan . cor vermelha: a cabeceira encostada na parede oposta ao pequeno banheiro. bém coberto com o mesmo tecido brilhante da mesma cor vermelh da colcha. que foi colocada no lado diante dos degraus. Não sei dizer para que: parte do hotelzinho barato dá esta janela basculante.Pelas dimensões do pequeno quarto. exatamente frontal à abertura sem porta. um pequeno pátio mal iluminado pela noite. Nos dois lados da cama o espaço é um pouco maior. outro negro corredor cortado em cru: por outro corredor sem luz. coberta pela colcha de tecido brilhante.

Existe. sem espuma. A prostituta ja~ ponesa se lava utilizando a mangueirinha do chuveiro elétrico. todas as paredes do pequeno quarto e do pequeno ba~ nheiro. apenas a baça luminosidade atraves~ sando os vidros pintados da janela basculante tomava o pequeno quar~ to. eu posso. a cor é verde~clara. Não sei se ela fala para mim ou para ela. As paredes. são pintadas. Tinta fosca aguada. Dirijo o meu olhar para a prostituta ja~ ponesa que se lava no pequeno banheiro sem porta. suas mãos sabiam onde encontrar o comu~ tador de luz. Agora uma pouca luz amarelada. avermelhada. ajuntadas. até meia altura. Pas~ sa sabão entre as coxas largas. cor de rosa~maravilha novamente no teto. Mas não quero. 187 . também. fraca. dirige o jato d'água para retirar o sabão. de cor de rosa~maravilha. O chuveiro elétrico fica no espaço do pequeno banheiro visível para mim. cor vermelha. em forma de pêra. manchada. Em pé. Com a mangueirinha. e no sexo de pouca penu~ gem. do pequeno quarto. sem chuveirinho. preso ao fio que pende do teto sobre a baixa guarda da cama. eu estou deitado por cima da colcha de teci~ do brilhante. Dali ao teto. Já sem roupa. estendendo as mãos para o alto. sem forro. cobrindo não sei quantas pinturas an~ teriores. al~ cançar o teto de alvenaria. uma pequena pia bem embaixo da janela basculante. se quiser.Mesmo na escuridão. Antes.

Imóvel. aperto. Não beijo. como uma fotografia. Preso por um arame. sua pele lisa sem pêlos contrasta com a brancura do meu corpo peludo. Por instantes.tranqüila? Viro o corpo para o corpo nu da prostituta japonesa.E eu é que sei? Nunca estive antes neste hotel de rendez-vous. Nem moça. Permaneceu. Na parte que não posso ver do pequeno banheiro fica o vaso sanitário. Subo a mão até os seios. sugo. Cor de chá. cor vermelha. ao lado da cama. mas não. Ela não disse nem um gemido. Não sei dizer. permanece 188 . nem uma palavra. estufado. sem que ela o toque. Melhor apanhar o rolo que está em cima da mesinha-de-cabeceira. Meu sexo encontra seu caminho sem que ela auxilie com a mão. poma total. me parece imóvel somente na superfície visíveL Eu diria que por dentro dele existe toda uma mobilidade . nem velha. Não sei o que ela sentiu. só com a ponta dos dedos. Quando retiro o meu corpo. silencioso o corpo ao meu lado. não dela. A prostituta japonesa já está deitada ao meu lado. Então. eu diria completamente imóveL Contudo. que sinto enrijecer. enquanto minha mão desce. somente o úmido bico. Deito sobre ela. acaricio o bico do seio. não sinto mais o cheiro úmido da colcha de tecido brilhante. molhado pelos respingos do chuveiro. talvez? Talvez. Eu poderia beijar seu sexo. na cama. Meu dedo busca a greta ainda seca. Depois. Impossível de usar. mordisco sua orelha. O gozo me vem rápido. Uns trinta. Por si. Primeiro acaricio. na hora do gozo. Não estou mais beijando o seio. acaricia novamente a parca penugem. Mas permaneço ainda dentro de seu corpo. foi meu. começo a afagar os poucos pêlos pretos macios do seu monte-de-vênus. Difícil dizer a idade das mulheres orientais. Não fosse por um lento respirar. Penetro-a. cor vermelha. meu sexo enrijece. por cima da colcha de tecido brilhante. redonda achatada como em todas as mulheres orientais. e meu travesseiro é o seu seio esquerdo. beijo. o rolo de papel higiênico. Se houve algum gemido. pequeno traço de poucos pêlos. Com a mão esquerda. encosto meu rosto no dela. é para deitar ao lado dela.

Eu é quem falo: . Reparo que ela não conta.Vamos embora? A luz do pequeno quarto fica acesa.. escadas. conhecedora dos caminhos. Depois de vestida. Seu coração bate rápido e descompassado. pele lisa sem pêlos. a porta aberta. Será que ela diz a verdade? Fico só olhando.c?J: Não demonstrou. suave montede-vênus de parca penugem. Quanto tempo ficamos assim. seu coração está batendo tão esquisito. Inquieto? .silenciosa e não sei para onde olha. ela olha não sei para onde. corredores. Mas teria mesmo gozado? Não deu nenhuma demonstração. eu não sei dizer. é difícil dizer numa mulher orientaL Não conta o dinheiro. Eu diria que ela está completamente imóvel. põe as notas dobradas na bolsa. Coração batendo forte. Imóvel somente na superfície visível do corpo cor de chá. A prostituta japonesa segue ria frente. pátios e terraços que levam de volta à portaria do hotelzinho barato. 189 . Levanto a cabeça e olho para ela. Dirige a mangueirinha diretamente para a pequena fenda de pouca penugem. pago a ela o preço combinado. Agora ela lava o sexo com mais cuidado. - Verdade? - (iÁ.Nossa.

é um chinês? . Tem mais jeito de turca. Não é comum uma prostituta sentir prazer com um freguês. gozei rápido. se demora na portaria discutindo com o chinês de óculos. a voz de uma encobrindo a da outra. Eu quero ficar mais tempo com ela: . parte do que paguei pelo pequeno quarto. nem para o do lado. sai sozinha do hotel outra prostituta. É dinheiro meu. peitos. qualquer coisa assim. Estamos fora. não reclamei do quarto. Cabelos amarelos. Meio velhusca. As duas se conhecem.. Um bom freguês. e não para o da frente.Quer tomar alguma coisa? Vamos num barzinho aqui por perto? Antes da resposta.chinês . Não é japonesa. pintados de amarelo. formas roliças. na rua em frente à porta de entrada do hotelzinho barato.Escuta. tipo havaiana. devem ser muito amigas. o . Nem dá para entender o que elas conversam e riem. . um velho de camisa florida. Se for verdade que ela gozou. barrigas e nádegas querendo romper o vestido justo.?'Lin. risos. síria. ela não deu demonstração de nada.JJ"l =. Riem. Algumas fingem. Será mesmo que ela sentiu prazer? Uma prostituta? Ou disse aquilo apenas para me agradar. para conquistar um freguês? Para que eu volte outras vezes? Sou limpo. na porta do hotelzinho barato. O freguês dela. apenas entrega uma nota amassada à prostituta japonesa. A comissão por ela ter trazido um freguês para este hotel.. Mas interrompo: -Vamos? 190 'i>t: UD ~:. de pouca conversa. se tocam e falam rapidamente.de óculos da portaria nada responde. quero possuí-la mais e mais vezes.kf(Q) Fica para outra vez .

Riem muito as duas. Eu fico perto da porta do hotel. Caminharei tantas vezes por esta mesma rua. três ou quatro vezes deitarei num catre e acenderei o cachimbo de ópio. mas elas já tomam um táxi que passa pela rua. Um gesto. Quantas vezes sentirei na boca o gosto oleoso do gim que vendem por aqui. Já se afastam as duas. mostrou-se sem proveito. Às vezes. Será que ela gozou mesmo? Eu voltarei outras vezes. como uma despedida. nervoso. conseguida. A prostituta japonesa passa a mão no meu rosto. não para meu uso. penso que não. afobado à cata de um táxi. Muitas vezes dormi com outras prostitutas no mesmo pequeno quarto do hotelzinho barato. 191 . Ainda estendo minha mão aberta. Entra num táxi e some de vista. falando sozinho. Entram rindo. parado. mas sei que nunca mais verei a prostituta japonesa. Sai gesticulando. penso que sim. Penso em alcançá-Ias. mas para conseguir do traficante uma informação que. Uma vez comprei cocaína. este mesmo bairro de prostituição. Nunca encontrarei uma resposta que me satisfaça. às vezes. nem saberei se ela sentiu prazer comigo naquela noite escura... Parece querer ir embora logo deste lugar. O freguês da outra prostituta sai agora do hotel. Quero segui-Ias. pensando. Afaga meu rosto. Algumas vezes fumarei haxixe. Essa foi a última vez que .

MIMI-NASIII-OICIII .

O que é biwa? ... Oi~ chi..- E você teve medo? . . cego. Oichi meditava no jardim do mosteiro quando escuta uma voz dizer: "Ouvimos falar de seu talento como cantador de histórias .. "Hai. os olhos não seguravam as lágrimas. quan~ do o canto era triste. como vou te explicar? . instrumento muito antigo .Oichi.." ".uma espécie de violão japonês. ". esta noite.. O jovem noviço.Meus nobres amos sabem de sua fama e ficariam muito honrados se o senhor fosse contar para eles a triste história da batalha de Dan-No-Ura.. pobrezinho. ficou famoso como contador de histórias que contava se acompanhando do biwa. acompanhando os versos ao som do biwa.." 195 . .. Di~ zem que à sua palavra e à sua música todos faziam silêncio e. Numa noi~ te de inverno..contava histórias. o monge sem orelhas...

As famílias rivais. Eu li uma vez que os cegos não enxergam tudo preto. batalhas 196 . Apesar do silêncio reinante. Como na televisão. Na noite escura não sabia para onde estava sendo levado.Das guerras do Japão medieval. banhos de sangue. . uma nuvem pousada no teu seio. oculta-te como puderes no meio das chamas). Tomou seu biwa e seguiu os daquela voz desconhecida. Quando chegaram. começou a evocar com seu canto os tristes versos da batalha de Dan-No-Ura. Colocado no centro do salão.Um palácio? . A luta entre os dois clãs durou quase duzentos anos. disputavam o poder. Oichi sentia que muita gente estava ali. redondo como a Lua. Passos pesados metálicos. Já reparou que o preto da televisão nunca é preto. porque caminharam por várias salas enormes.Tudo fazia crer um rico palácio. passos - Oichi não pôde recusar o convite.O que eles enxergam é uma mancha esbranquiçada.Oichi ia seguindo os passos. . Depois de muito caminhar. no Japão havia entre os senhores feudais muitas lutas pelo poder. Minha mão. Ouvia o assobio das sedas dos quimonos. Oichi imaginou que devia ser um lugar bem grande. Foi no século XII: no Ocidente aconteciam as cruzadas. bem longe estavam do mosteiro.Que batalha é essa? . como os de um samurai vestindo sua armadura de guerra. é nuvem branca? Branco-cinza? . Ele era cego de nascença? Sim. Taira e Minamoto. .Nesta noite ninguém pode dormir: Lua cheia. Época de guerra civil (conduz teu cavalo sobre o fio duma espada.

Quando per~ ceberam que o branco estandarte do inimigo tremulava nos mastros de seus próprios navios.quando viram o branco flutuando nos céus. A batalha seguia feroz. muitas obrigações ele devia aos Taira. Exército dos Minamoto estandartes brancos como aço. . para não cair nas mãos do inimigo. o canto fúnebre tomou conta dos navios dos Taira. a maior batalha naval que o Ja~ pão assistiu. Shigeyoshi.Os Taira tinham o maior número de navios. quem perdeu? . Nuvens. pensaram em nuvens. O coração vermelho de Shigeyoshi hesitava em se passar para os Minamo to. seus guerreiros se atiram nas águas. mais de mil navios em luta. Os que não têm coragem de cometer suicídio são mortos pelos companheiros de armas. . bandeou~se para o lado dos Minamo~ to. Pela vergonha da derrota.No estreito de Dan~No~Ura. seu aliado.O choro. - E como foi a batalha? . o assobio metálico das espadas nos combates das abordagens. Exército dos Taira estandartes vermelhos como sangue.Acende o meu cigarro.incontáveis. Os comandantes se amarram nas âncoras de seus barcos e soltam as correntes.Quem venceu. veio a certeza da derrota. a fumaça dos canhões. afundando com o peso das armaduras. levando seus barcos para o inimigo. Às vezes os Taira dominavam. a princípio . mas um senhor feudal. Os tombadilhos das embarcações tor~ 197 . . O fogo. Os Taira ainda mantinham a esperança de vitória. outras vezes os Minamo~ to venciam.

. Os marinheiros. a avó se atira no mar tinto de sangue e salgado de lágrimas.Tennô.Teu corpo é água onde me sustento. buscam a morte. . é pequeno como um grão de arroz e agora é um imenso vale de miséria Mais abaixo das ondas há outro país onde não existe a tristeza É para lá que te levo.. a voz de uma velha aia: "De tua fama sabíamos..Quando Oichi termina de contar os últimos versos.Não sobrou ninguém? Teu corpo nu Agora flutua no lençol transparente como água Sal. Aonde me levas.. Antoku-Tennô. as velas dos navios explodem ao vento.nam-se rubros de sangue. . só escuta o silêncio de lágrimas pressentidas. Oichi. os servos. todos em lágrimas. Em todo o Japão não existe artista tão perfeito. A avó tomou-o nos braços e com ele se encaminhou para a amurada . durante o tempo em que ele permanecer aqui. Sem ter quem as governe. O mesmo samurai que te trouxe aqui esta noite irá te 198 . Meu amo pede que. vovó? O Japão Pequeno Antoku. Depois de muito silêncio. da beleza de teu canto sequer podíamos suspeitar. . de sete anos.Com o menino nos braços.. os cortesãos. .Nem mesmo o menino imperador. por mais seis noites. venhas repetir o canto da batalha de Dan-No-Ura. Como teu corpo é bom..

sem sentir a neve que começava a cair. és livre para partir". notando que Oichi não está em sua cela. Já pela madrugada. o mesmo samurai vem buscar Oichi. voltando para o templo. corres grande peri199 . dormiu o dia inteiro. que têm de arrancá-Io do lugar onde está. Nunca . sem que ninguém veja. e novamente ele canta a batalha de Dan-No-Ura para a silenciosa platéia. Arrastado de volta ao templo. Primeira neve. Oichi é levado à presença do abade. pela manhã. os monges vêem Oichi. agora. Oichi não parece sentir a neve. esquecido de suas obrigações. pobre Oichi. Quando Oichi voltou ao templo. Aterrorizados. Bastante para vergar as folhas dos junquilhos . E. no cemitério de Amidaji.pegar. Na noite seguinte. sentado diante da tumba em memória do pequeno imperador Antoku-Tennô. Por sobre as outras tumbas. Mas meu amo viaja em segredo e ordena que não contes nada a ninguém. Sobre o sino do templo repousa e dorme a borboleta noturna. No cemitério de Amidaji estão sepultados os derrotados da batalha de DanNo-Ura. O abade. como espectadoras do canto triste. Envolvido em seu cantar. Oichi reclama: Como ousam interromper meu canto para tão nobres senhores?!". nem ouvir os gritos dos monges. as chamas espectrais dos fogos-fátuos.. os monges escutam os acordes do biwa e a voz de Oichi. O abade o interrogou. Uma longa noite de buscas. manda que os monges o procurem.. encontrou os monges aflitos com sua ausência. Exausto. que lhe revela a verdade: "Oichi. mas ele respondeu com reticências e nada revelou sobre onde estivera. cantar exaltado a história da derrota dos Taira.

não pode~ mos ficar no templo para te vigiar. Os monges partiram.Paramita. Não obtém resposta: "Oichi! Oi~ chi!". A voz. Mas. A mudez de Oichi como resposta. Passos pesados. Todo o corpo de Oichi foi coberto com as palavras de Buda. protegerei teu corpo com os textos de Buda. levaste teu canto para os mortos e eles agora são donos de ti. no corpo nu. Oichi sentou~se no pórtico do templo. como um fan~ tasma. que te farão invisível aos demônios". Sentindo~ se protegido. Por duas noites. Te enfeitiça~ ram. chamando: "Oichi! Oichi!". Escuridão de outono. metálica. despedaçarão teu corpo e tu passarás a penar por toda a eternidade. Aproveitando~se de tua cegueira. é de ira. agora. Dos olhos cegos de Oichi correm lágrimas de medo. tudo aparece e desaparece. escravo dos demônios". antes de ir. da escuridão da noite surge a voz profunda. que o tornariam invisível aos demônios. eles te matarão. o abade escreve com pincel os sagrados textos do Prajna. só poderá haver a bem~aventurada paz quando se puder escapar da agonia da vida e da morte. O abade pros~ segue: "Precisamos quebrar o encantamento. Esta noite. Ao final da sétima noite.go. Esta estrada sem ninguém nela. Tudo é mutável. o biwa ao seu lado. temos de atender um serviço re~ ligioso na aldeia. e esperou meditando sobre a vida e a morte. o samurai-fantasma não encontra o que veio 200 . Os monges tiram a roupa de Oichi e. os fantasmas dos mortos na ba~ talha de Dan~No~Ura lançaram encantamentos sobre ti. de ódio: "Oichi! Oichi!".

Muitas vezes chamei Oichi e ele não me respondeu. Oichi reza para não gritar de dor e revelar sua presença. foi só o que o fantasma viu e carregou para o mundo dos mortos: duas orelhas. As mãos enluvadas de ferro do fantasma agarram as orelhas de Oichi e puxam ferozmente. seus passos perdendo-se na noite em direção ao cemitério de Amidaji. conforme o combinado. encontram Oichi se esvaindo em sangue. ficou livre para sempre dos demônios. mas vivo.buscar: "Vejo um biwa abandonado e não encontro o trovador. Suas orelhas são arrancadas e o samurai-fantasma sai carregando-as. Vejo somente suas orelhas e vou levá-Ias para provar ao meu amo que aqui estive cumprindo minha missão". não está aqui. Quando os monges voltaram. Tornou-se monge e viveu ain201 . Ao cobrir o corpo de Oichi com os textos sagrados. O sangue escorre. o abade esqueceu das orelhas. Foi medicado e se salvou.

E você teve medo? . sem dúvida. Eu era muito pequena quando minha avó con~ tou a história de Mimi~Nashi~Oichi. Oichi. lágrimas. o cantador cego ficou conhecido como Mimi~Nashi~Oi~ chi. Medo eu não tive. Ah.Medo não tive. tristeza. e no entanto . medo não.. era uma noite tão fria. Tristeza grande. Desde aquela noite. Orvalho deste mundo orvalho deste mundo. 202 .da muitos anos para poder cantar em versos sua desventura. o passado. Sim. . o Sem Orelhas. que acho que até chorei. O tempo onde se acumularam os dias lentos .. mas me deu uma tristeza grande.Não. naquela noite chuvosa.

)rta aberta .13 mistéri<.) da p<.)s + () mistéri<.

para quem foi Marlene e para Josely Vianna Baptista e Cláudio Lacerda .

Dito por um criminoso no programa do Algaci Túlio .Uma mentira minha vale por dez verdades tuas.

. .. . . . . . 265 Mistério mágico . . . . . . .Um mistério Um mistério no trem-fantasma Mistério Sapho O amor entre as mulheres DELE 281 293 305 O mistério dos sinais da passagem de Curitiba pela cidade 317 . . . . .. . . 227 Os fantasmas do fundo de quintalO mistério teu. . . . . . . .. . . . . . 259 O misterioso homem-macaco Como tudo começou . . . . . . . . .. . . . .. . . . . . . . .. Sônia O mistério da Sonâmbula Mistério do menino morto Um mistério . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . 233 241 247 253 O mistério do gato preto e da gata gorda . . . . . . . .. . . 273 A cadeira do diabo . . . . .SUMÁRIO o mistério da porta aberta. . . . . . . . . . . . 211 219 Mistério números Mercúrio mistério. . .

() mistério da porta aberta .

Se ali percebermos qualquer coisa estranha. Às vezes um mistério exasperadamente simples como a localização dos móveis. No escuro desconhecido nunca sabemos onde se encontram as cadeiras. nenhuma visão de perigo que nos possa causar medo.. ou mesmo pânico. nos machucando. as poltronas. Outra hipótese: a porta se abre para um ambiente iluminado.. porém sem muita consistência. Até certo ponto essa argumentação é válida. Vi213 . antes de criarmos a necessária coragem para entrar. fechada ela não está. O que nos espera lá dentro? Sentiremos medo. uma porta entreaberta sempre será uma porta aberta.. Através de uma porta aberta. Observe pelo tempo que julgar necessário a porta mostrada abaixo: Pode-se argumentar que uma porta aberta não apresenta mistério algum. Nada podemos ver em seu interior. simplesmente não entraremos. Sendo assim. Uma porta pode estar aberta para um recinto às escuras. por menor que seja a abertura. está aberta. as mesinhas de centro e podemos tropeçar nelas.na verdade entreaberta. Mas muito ou pouco aberta uma porta. sempre conseguiremos ver o interior para o qual ela se abre. Portanto. Nem mesmo num recinto bastante conhecido ousamos penetrar sem antes apertar o comutador da luz. pois a escuridão sempre nos sugere um mistério que precisa ser aclarado.

sim.adentrando. nas paredes. grandes vasos com plantas. A riqueza do mobiliário. vigilante. Como é noite e estou sozinho nesta casa. e me faz medo. a imobilidade pétrea do cão. E se for mesmo um cão feroz. Não tenho inimigos? Nestes tempos de agora nunca se sabe do que as pessoas são capazes. Uma na parte de baixo da porta. Estou sentado a meio caminho e. Barulhos. talvez não seja um cão de carne. sinto uma forte corrente de ar circulando entre as duas portas. Outra no meio. junto à lareira. é possível que seja alguém querendo me assaltar. Não tenho inimigos. mesa de centro. tudo nos leva a crer que se trata de um expensivo objeto decorativo. Esta. Eu estou sentado numa cadeira contemplando a porta aberta (entreaberta) para a escuridão. Porém. animal conhecido por sua ferocidade . Na parte de cima. a terceira vela. Barulho cadenciado como o soar de tambores.sível uma ampla sala muito bem mobiliada. O barulho ritmado da folha da porta da rua chocando-se violentamente contra o caixilho me assusta. Entre as duas. com a chama levemente inclinada para a direita . cortinas de veludo. sem tempo de fugir? Temos medo.em inglês bull-dogsignifica cão-touro. apoiado em suas patas dianteiras se posta um enorme cão. Como ele nos receberá quando entrarmos na sala? Avançará sobre nós e seremos estraçalhados por suas presas afiadas. aparador. a força desse 214 . Atrás de mim outra porta que dá para a rua. sem contudo aclarar a escuridão do local desconhecido para onde a porta se entreabre. fechada. um buldogue. uma distância de quatro a cinco metros. sangue e ossos. e nos janelões. A porta da rua fica exatamente defronte da porta das três velas. imóvel. com a chama queimando normal para o alto. Por certo. poltronas. assim como se alguém estivesse forçando a porta para invadir a casa. Sofás. mais ou menos na altura da maçaneta. Vejo claramente as três velas. Talvez seja uma dessas estátuas de porcelana habilmente pintadas. com sua chama derivando para a esquerda. tapetes pelo chão brilhante. neste ponto do vestíbulo da casa. Bem ao fundo. uma pequena lareira de mármore. quadros representando paisagens. reproduzindo com fidelidade a imagem do animal. e até mesmo tirar minha vida. Me assusto com barulhos fortes e continuados na porta da rua às minhas costas. perto da moldura. em grandes molduras douradas. pronto para atacar o primeiro estranho que ouse penetrar na sala? É um mistério que precisaremos resolver se quisermos entrar sem riscos na sala aconchegada. com sabe-se lá qual intenção.

Tenho medo de atravessar a porta das três velas e penetrar na escuridão. perco o medo. E não poderia haver correntes de ar neste vestíbulo. segue a regra estabelecida: as portas se abrem sempre para o lado de dentro. 215 . outra para a direita. O forte sopro de ar vindo da porta das três velas me provoca calafrios. apagadas pela força do vento. Se o sopro gelado oriundo da escuridão passa por mim para se chocar violento contra a porta da rua. num convite para entrarmos. E tenho medo daquilo que não posso compreender. Como também não é normal as três chamas tomarem direções diferentes. Desde tempos imemoriais. A vida real. aumenta para mim seu mistério.para os estranhos barulhos. nunca para a rua.vento é que faz a porta da rua sacudir violentamente. ou para facilitar o deslocamento dos atores e das câmeras. então. a porta da rua está fechada à chave. Observe novamente as três chamas: uma se volta para a esquerda. Todas deveriam estar queimando para o alto. e também as venezianas do lado de fora. Para esconder o fundo. Não comprendo. muitas vezes as portas dos cenários se abrem para fora. contudo. artes da representação. logicamente as chamas das três velas deveriam estar todas voltadas em minha direção ou. Desfaz-se este mistério e perco o medo dos golpes. as vidraças dajanela estão fechadas.científica. e as cortinas no interior. a colocação de portas obedece a um princípio imutável: as portas sempre se abrem para o lado de dentro! A porta de uma casa sempre se abre para seu interior. na vida imaginária. Mas e a porta das três velas? A descoberta de uma forte corrente de ar. A de um quarto nunca se abre para o corredor. dando a impressão de alguém tentando arrombá-Ia. Isso somente no mundo da fantasia. sempre. Quando me apercebo disso. evitando a construção de novos cenários. vinda da porta entreaberta. Apesar de ser difícil alguém se mostrar calmo com esse soar de atabaques. aberta uma porta. a chama de uma vela queima para cima. até . Porém não é isso o que acontece. mas sempre para dentro. no teatro e na televisão. ela estivesse indicando a alguém indeciso qual o rumo a tomar. Não é normal. Ou estivesse dando a ordem: entre! A exceção a essa regra universalmente estabelecida se encontra no cinema. tenho uma explicação racional . Quando não há vento. É como se. outra para o alto.

Não sei. Caso haja algum truque com as três velas. Porém uma observação mais atenta nos mostra que ela se eleva uns dois ou três dedos acima do chão. para não se tornarem visíveis e se confundirem com a escuridão. Algo relacionado com a pressão atmosférica. Como estão todas quase encostadas na folha direita da porta. uma pessoa de mão firme sustentaria a haste dando-nos a ilusão de que a vela se mantém flutuando no ar. evita-se que janelas e portas se localizem em pontos que possam formar correntes de ar. precisaríamos ter a resposta da segunda: por quê? Me assustar? Fazer alguma brama comigo? Induzir-me a participar involuntariamente de alguma cerimônia mágica? Etc. É lógico que prego.podem tomar três direções distintas. É de se notar que em circos. etc. Nem precisaria ter alguém segurando: um prego afixado na sambladura da porta serviria como haste. arame ou estilete deveriam estar camuflados com tinta fosca preta. etc.a escuridão atrás da porta entreaberta . isso não é segredo para ninguém. familiarizados com os mistérios da física. Quem? Por quê? Para respondermos a primeira. seria preciso ter a resposta da primeira. O que sustém as três velas no ar? Certamente.Quando se planeja a construção de uma casa. teatros ou em qualquer casa de espetáculos. Um truque mágico pressupõe a existência de alguém capaz de imaginá-Io e executá-Io. um estranho ligado a alguma seita ou religião aleivosa teria a ousadia de me enredar num maligno ritual 216 . Não estamos. nem eu nem você. Talvez esse mistério das três chamas possa ser explicado por alguma lei física que eu e você desconhecemos.? E para respondermos a segunda pergunta. ou com os gases gerados pela combustão das velas. A vela de baixo parece ser a única assentada. Isso muito ajuda a dissimular a aparelhagem e os fios utilizados nos truques. Algum amigo faria essa burla de mau gosto comigo? Para me assustar. podemos até pensar em algum truque.um susto é capaz de matar quem sofra do coração. os números de mágica são apresentados sempre com uma cortina preta ou de cor escura ao fundo. o que afugentaria possíveis inquilinos. O mistério é como três correntes de ar vindas do mesmo lugar . Escondida atrás da folha direita da porta. A própria posição das velas flutuando no ar já é um mistério em si. duas perguntas surgem. Sem dúvida nenhuma. nenhuma lei física explica isso. Imagino que um estilete de ferro ou arame grosso fixado no centro da vela funcionaria como haste. um inimigo certamente arquitetaria algo semelhante .

um louco encontraria razões suficientes para invadir minha casa e armar este estranho altar. são as três velas. Por vezes. como se usam agora nos velórios. nesta parte da casa. Talvez da escuridão atrás da porta entreaberta se origine esse cheiro nauseante. Velas queimando ajudam a medir o tempo pelo seu lento mas inexorável desgaste. e você sabe. me parece que o propósito maior é impedir ou retardar a minha passagem pela porta aberta (entreaberta). As três velas são o bastante para provocar este odor característico de câmara mortuária. Outra coisa me inquieta. Incenso. que continuam queimando em diferentes direções. o pegajoso cheiro de ervas queimando? Durante o tempo que estou aqui não acendi nenhum cigarro. Velas artificiais. e o cheiro quente. porém. Seja o que for. O vento parou de repente. assim como não sei dizer quando começou. Mas e se não forem? Não sinto cheiro de gás. Porém as três velas acesas à minha frente mantêm-se intactas. calor de decomposição. me abraçando entre meu corpo e minhas roupas. Talvez haja uma explicação bem simples para isso: são velas artificiais. Desnecessário olhar à minha volta para ver que a única coisa em combustão. enjoativo. É como se o tempo não passasse. 217 . A fumaça embriagante e fétida assim expelida força o transe místico dos celebrantes e apressa sua comunicação com os espíritos. Sei. como de ervas se queimando. Como explicar. parece-me sentir um cheiro agridoce.à luz de velas. E se eu ousar? Conseguirei passar com vida pela porta das três velas? E o que encontrarei na escuridão lá dentro? Preciso de respostas para essas perguntas. contendo o gás que alimenta as chamas. Sinto seu calor tomando conta desta peça da casa. Tubos metálicos sem pavio. pintados de branco. Sinto-o em torno de mim. persistente. mas isso não interfere na posição das chamas. Não posso afirmar quando. de velas se queimando. nem eu nem ninguém ousaria entrar. Em sua mente doentia. As chamas não consomem as velas. Já estou aqui há algum tempo e o tamanho das velas mantém-se o mesmo. Pegajoso como o calor abafado que sentimos em ambientes fechados com velas acesas. Mas quem e com qual intenção poderia estar oficiando um ritual mágico na escuridão por trás da porta entreaberta? E eu? Como posso exorcizar o desconhecido? O vento parou de repente. que em algumas cerimônias religiosas primitivas costumam queimar incenso e estranhas ervas. Assim. talvez.

apagando-as. posso jazer como jazia quando menino: umedecer com a língua a ponta do polegar e do indicador e. Quando me deparei com a porta entreaberta das três velas. Abri a porta da rua sabendo o que ia encontrar. E olhei bem para confirmar se eu estava na mesma rua. devo largar a caneta e o papel. Pode? Memória da infância. Nem sou eu um alienado espectador. na mesma casa. à minha espera. sem mistérios. De dia. Depois. E eu tenho de resolvê-Io. posso penetrar na escuridão e buscar o comutador da luz. ninguém poderia ter entrado e armado esse altar. já vi. sim. arrombando-a. Posso e devo. do lado direito . Depois. truque. 218 . acender o isqueiro que trago no bolso e aclarar a escuridão. Somente eu carrego a chave da casa. Inanimada. os mesmos móveis. Sem novidades. aleijado. com eles. dentro da minha casa. Que sempre encontro ajuizada. Eu sou eu. barraca de feira. Tenho. então. No entanto aí está. sempre a mesma. Sou o que sou. a casa que me acolhe sempre. em nada pode me ajudar. Não foi o que aconteceu hoje. apertar as chamas. Não é uma casa de loucos. Tampouco me encontro num templo de cultos primitivos. não estou num velório. à hora que eu chegasse e abrisse a porta da rua esta casa me acolhia. Posso.gesto tantas vezes repetido. devo e vou fazer alguma coisa. Esta é minha casa. tomando vida somente com a minha chegada. Você não pode me ajudar. Se eu me levantar desta cadeira. os mesmos ambientes familiares dos quais faço parte. Muitas coisas posso fazer para resolver este mistério idiota. Ao abrir a porta e adentrar neste vestíbulo. Devo deixar de me comunicar com você que. broma ou seja lá o for esta invasão das três velas ardentes. na qual eu quis entrar e entrei. esse mistério. basbaque deslumbrado. Com um pontapé posso abrir a porta entreaberta. Sozinho tenho que aclarar este mistério. Para isso. a casa me recebeu como a um estranho. Ninguém. tenda de culto ou coisa que o valha. sem dar atenção às velas. cheguei a dar três passos para trás. Cuja chave trago sempre no bolso. Para isso.Contudo. posso retomar a caneta e o papel. e descrever para você aquilo que aconteceu. de volta à rua. Ou. derrubando pelo chão as velas e tudo o mais que tiver. de noite. Esta é a minha casa. A mesma disposição das peças. quando eu me levantar desta cadeira e me encaminhar em direção da porta entreaberta das três velas. Posso. preciso me levantar desta cadeira imóvel.

Mistério ~ numeros .

Agarrada firme na imagem de Nossa Senhora das Dores. de Nossa Senhora das Dores. em cima do altar. abotoado. outras rezam tristes e algumas gemem e soluçam. Virgem Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo. agarra-se firme não só para não cair. Como as outras mulheres do campo nesta região do Paraná. Seriam dez ou doze pessoas diante do altar. Corpo colado com o da santa. Reza a santa reza: Abraçada estou em vós.1 2 3 4 Lucas é o estábulo santo deJerusalém onde Jesus Cristo nasceu são as duas tábuas em que Moisés recebeu a lei que nos governa são os três cravos que cravaram Jesus Cristo na cruz são os quatro evangelhos: São João. respeito e procura de intimidade com Nossa Senhora das Dores. Lá no alto. Na cabeça tem como touca um pano branco que esconde a cor de seus cabelos. Umas entoam cantos alegres. com gola. como também para demonstrar toda a sua fé. pernas trançadas na parte inferior da imagem. a mulher. São Mateus. É uma mulher nem muito moça. Amparada estou em vós. e calça rústicas botinas de couro cru para homens. Nossa Senhora das Dores. outras mantêm os olhos fechados. outras são homens e três ou quatro são crianças. que tivestes o vosso 221 . Umas trazem os olhos abertos. Umas olham para cima. Beija repetidas vezes a face da imagem. que fica do lado direito. Sem soltar as mãos. em tamanho natural. São João escreveu às sete igreas oito primeiras epístolas de São João Apóstolo os nove coros de anjos que para o céu subiram os dez mandamentos da Lei de Deus 5 são 6 são 7 são jas da Ásia 8 são 9 são 10 são 11 são as onze mil virgens que desfrutam a companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo 12 eu não contei direito mas me parece que eram umas doze pessoas que se postavam diante do altar de Nossa Senhora das Dores. Maria Santíssima. Usa grossas meias longas de lã cinza. algumas entreabertos. Umas são mulheres. logo que se entra na igreja. no Apocalipse. São Marcos e São as cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo os primeiros selos que o Cordeiro abriu no Apocalipse as sete cartas que. nem muito velha. algumas olham para o lado. Nem todas estão olhando para a imagem que encima o altar. outras para baixo. abraça-a para não cair. traja um vestido comprido de tecido grosseiro acinzentado. uma mulher está abraçada à imagem em tamanho natural de Nossa Senhora das Dores.

visíveis ou invisíveis. Imploro vossa proteção contra quaisquer maleJícios. homens e mulheres que sejam. algumas pessoas. ó Rainha dos Anjos vou caminhando em direção ao altar central Em minha defesa acorrei. no espaço em frente do altar-mar. É caixão de certo luxo. Nossa Senhora das Dores. Em torno do esquife. encoberto que está por panos roxos. pelo aparato ao seu redor. Guardai-me de seus agentes. possam atentar em causarme mal. Cabeça branca e redonda de pano branco. que fica ladeado por quatro candelabros de prata e tem na cabeceira um grande crucifixo também de prata. Olhando bem. A tampa de madeira entalhada está apoiada num dos cantos do cadafalso. Há bastante gente nos bancos. tal a quantidade de flores que cobrem seu corpo. Em meu socorro vinde. Nem precisava ter feito o sinal-da-cruz. Perto dos primeiros bancos. pois ninguém aqui parece se interessar pelo que sou e pelo que faço. uns sentados. parece um boneco. Sete vezes vos peço. outros ajoelhados e alguns em pé. guardai-me das investidas de Satanás. que. protegei-me. se eleva um caixão de defunto apoiado sobre um estrado de madeira que não se vê. ó Esposa de Deus desta igreja bastante grande e suntuosa demais para uma cidadezinha do interior como esta. Atravesso por uma fileira vazia e chego ao corredor central. sem orelhas nem marcas de olhos e nariz. a mim e à minha família. madeira escura envernizada. aparadores de brilhante metal prateado. parece ter sido pessoa rica e influente. Sete dores mortificaram vosso corpo virgem e santo. Apenas uma peru222 . Me aproximo curioso para olhar o morto. não me parece ser uma pessoa que está ali sendo velada. que. não dá para perceber direito. bruxedos. ó minha protetora Eu da cena me desinteressei e Em meu auxílio vinde. em minha pessoa. em qualquer hora do dia ou da noite. Chego mais perto e ergo a cabeça para ver melhor. veste o que parece ser uma espécie de uniforme. bruxos ou bruxas e adivinhos. em meus parentes ou em meus bens.puro coração transpassado sete vezes por sete espadas. pranteiam o falecido. em meio a panos roxos e tecidos rendados nas paredes internas do caixão. em sinal de respeito faço o sinalda-cruz e vou me encaminhando para o altar-mar. Apesar de não ser dessas coisas. Em aflição vos peço: Vigiai minha casa. Pela roupa o defunto era algum tipo de militar. invocações. nigromancias. circunspectas. em qualquer lugar.

pois uns dedos são mais grossos que os outros. já que estás indo embora para sempre. amparado por dois homens que suponho serem seus filhos. duas luvas brancas pousadas no ventre do defunto. para que leve aos céus ou infernos seu câncer.. um anjo aponta sua espada dourada contra mim. caminhando com muita dificuldade.Está zombando de coisa séria! Ameaçador. . Desde que entrei nesta igreja. Começo a achar tudo isso meio sem sentido e até engraçado.. esse velho doente pedir a um defunto. Saindo das mangas do uniforme. e calombos irregulares nas mãos revelam um mal executado enchimento com algodão. mais respeito . Tenho vontade de rir. Leva contigo para que eu delefique livre e nunca mais volte a sofrer com ele ou com outra doença parecida. Depois de alguns instantes parado. doentia. Vagarosamente. trespassados por um rosário de contas pretas. o velho põe as mãos sobre as daquele que está no caixão e com voz rouquenha. como que para recuperar o fôlego. dedos entrecruzados. leva contigo esta minha doença. túnica longa e branca que deixa à mostra apenas seus pequenos pés descalços. doença que me parece vai matá-lo logo logo. . sem retorno. Duas luvas brancas. inicia uma oração: Já que estás partindo para outro mundo. O esforço para dizer essas poucas palavras foi muito para o velho. . que nem sei se é mesmo um defunto. Batom vermelho 223 . velam em torno do caixão. A espada que aponta para mim também deve ser de papelão recoberto com papel laminado dourado.ca encanecida dá alguma aparência humana a essa cabeça. este meu câncer que por dentro me corroe. mundo das sombras.Vivente . Tem nas costas duas asas de papelão com penas brancas coladas.Este é um lugar sagrado! É uma menina de cabelo comprido e loiro. Uma espada aponta em minha direção. É de muito respeito a atitude das pessoas que. ninguém parece ter tomado conhecimento de minha pessoa. em pé. serragem ou outro material qualquer.. Algumas rezam parecendo puxar um terço em voz baixa. um velho de cor cinza se aproxima do caixão.Não se deve zombar daquilo que acontece em solo sagrado! Muito loira de olhos bem azuis. . e seus filhos têm de arrastá-lo para que ele se deixe cair no banco mais próximo e ali repouse ofegante.. a menina-anjo. Pode-se presumir que não seriam mãos que enchem as luvas. quase inaudível.

talvez pelo calor aqui dentro. conduzida pela mão do anjo movimenta-se lentamente em direção à sacristia. não tenho companheira fixa. . dirige-se a mim sem cuidados: -Aqui são todos bem-vindos .Com sua licença.. Talvez seja por isso. onde moro. a espada toma então outro rumo. .. Pela porta da sacristia surge um padre e se encaminha para onde estou. como se fosse rezar uma missa imponente. na pequena elevação. gotas de purpurina vermelha que rebrilham à luz bruxuleante das velas.. os róseos biquinhos de seus peitinhos.Em outra ocasião o senhor será bem-vindo aqui. As sobrancelhas e os cílios fortemente marcados de preto e sombra verde em torno dos olhos azuis cor do céu. Sinto desejos por ela. Há dias que estou sem mulher..Eu estava mesmo de saída. A menina-anjo se desfaz de sua expressão séria e sorri. Sei onde ele quer chegar e poupo suas palavras: . Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário A menina-anjo me segue. As portas da Casa de Deus têm de estar sempre abertas a todos .. as unhas da mão que empunham a espada estão pintadas de vermelho vivo. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário O canto do coro da igreja vem lá do alto.mas existem coisas que não gostamos.carregado nos lábios finos. . Há dias que estou de viagem pelo interior. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário 224 . A túnica é de diáfano tecido acetinado e quase antevejo. Compenetrado. Não sou casado e mesmo na capital.. Como as dos seus pés. todo paramentado de veste litúrgica branca e dourada.. Deixa de apontar para mim. longe de casa desde ontem nesta cidade. Que ofendem ao Senhor Nosso Deus . talvez para ver se estou mesmo indo embora. No rosto. não sei explicar bem por que mas a visão da menina-anjo me excita.. padre. É um padre jovem. E me afasto caminhando pelo tapete vermelho do corredor central em direção à porta de entrada..

Com poucos passos chego na pensão onde me hospedo. Ele surge da porta que dá para a área interna. Sou o único hóspede. . Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário na imagem de Nossa Senhora das É a menina-anjo quem fecha as pesadas portas de madeira escura às minhas costas. vem ajeitando as calças. Não preciso esperar o dono. Nem mesmo preciso pedir que ele me acorde um pouco antes das seis. ele é cego. Não vai ser preciso. os mosquitos. Posso pegar minha chave.N ovalgina para uma dor de cabeça que eu estava .e jogo no chapéu do mendigo: além de aleijado das pernas. Com toda a certeza estava na privada. no migué. a sujeira. A mocinha só chega depois das seis. tomo na estrada. É um velho gordo sem dentes. E a única da cidade. todas as doze chaves dos doze quartos estão no quadro.como se fosse muito engraçado aliviar-se no meio da noite na privada escura e suja no meio do negro pátio. que não está na portaria. não mesmo.Posso pegar minha chave? E dá para o senhor me acordar amanhã às cinco e meia? O velho responde como se estivesse zombando de mim. Procuro no bolso uma moeda ou nota de menor valor para dar de esmola. Onde andará? Se quiser. 225 . na casinha de madeira no pátio interno. como se costuma dizer.A essa hora ainda não temos café feito. . . preciso talvez é ter alguém com quem conversar. o calor e o abafamento do quarto não me deixarão dormir direito e estarei acordado bem antes das seis. Vem sorrindo .Deus lhe pague. não preciso esperar o dono da pensão. Procuro pelo dono. posso apanhar a chave do meu quarto pendurada no quadro. Número nove. quando o único posto da cidade estará aberto e terei gasolina para seguir viagem.Tem importância não. .está sempre sorrindo . um mendigo estende o chapéu para mim na escadaria da igreja. modesta construção térrea de madeira. Acabo encontrando a nota fiscal de uma com pra que fiz na farmácia . .Uma esmolinha pelo amor de Deus! Apesar da noite escura cobrindo a praça deserta. parece não levar muito a sério o que diz: .A mulher continua pendurada Dores. arrasta uma perna.

e o Diabo? Onde fica o tempo todo? Onde encontrar o Diabo? Demoro bastante para responder: .Deus . se alguém fica doente tem que andar trinta quilômetros até achar um médico. satisfeito com a grossura que disse.É. e segue falando: . 226 .. Fica me olhando sério por algum tempo: . Vi a igreja grande que vocês têm aqui. nós sabemos.O senhor entrou na igreja? -É. muito bonita. E ri sem dentes.É.É. Está em toda parte. Ainda com jeito de zombaria.Também não. ele está aqui nos escutando. não está mais achando graça: . Deus. sei lá. .. estive dando uma volta. desperdício de dinheiro numa construção daquelas: só para entronchar o cu dos padres. O velho perde o ar de gozação. Mas . quieto sem dizer nada.Porcaria duma igreja numa cidade que nem hospital tem. Mas também é onipresente. mas nem penso em arredar o pé dali.Acho uma feiúra. é uno e indivisível.Estou com a chave do quarto na mão. acho que ninguém sabe. Até mesmo aqui e agora nesta nossa conversa. . não sei não. o velho me pergunta: .. entrei porque não tinha outro lugar para ir.Então o senhor entrou na nossa igreja?! Quer saber duma coisa? Me olha fixo: .Esteve passeando pela nossa bela cidade? Diz isso como quem diz: Então andou vendo que bela porcaria que é este buraco? . E o senhor sabe? .. em todos os lugares ao mesmo tempo.

". mlsterlo .Mercúrio .

Pacientemente. ou um galo velho. que consistia em cozinhar uma moeda de 1 ducado de ouro juntamente com uma galinha velha. que. em Bois L'Evêque. polvilhavam os alimentos dos enfermos com pó de ouro pequenas liberdades consentidas que irmã 229 . Pensou no prazer que sentiria ao levantar entre os dedos a fina placa de ouro e. Liege. E não se pode transferir a qualquer outro metal o honorável papel de representar. de medir e de simbolizar o VALOR irmã Eglantine bem compreendeu que o autor aqui se refe- ria somente ao valor econômico e não aos valores morais. eles prescreviam o famoso Bouillon d 'Or. mas. Ou. e preservativos contra a lepra. Bélgica. No livro. O ouro não é A RIQUEZA. Com o ouro fabricavam amuletos para fazer voltar a alegria aos melancólicos. ó Rei dos Metais. simplesmente.Em setembro de 1879. do Pensionnat des Religieuses du Sacré-Coeur de jésus. irmã Eglantine. é UMA RIQUEZA. A simples imersão do metal vermelho em brasa nas tisanas era o suficiente para transformá-las em fortificante peitoral. observar o esmaecido sol da tarde para sentir a transparência do metal e vê-lo enrubescer como um rubi e não é nada estranho que um metal tão precioso como o ouro tenha sido objeto de experiências as mais perseverantes por parte dos alquimistas. químico renomado. passou por cima de informações bastante óbvias para ela. naquele início de outono. incontestavelmente. que sempre sejactaram de possuir o poder de criá-lo em seus laboratórios e com ele obter uma panacéia universal o assunto interessava sobremaneira à irmã Eglanti- ne. como já transmitira às suas alunas durante o transcorrer de longos anos de educadora Saudações. Ouro. o mais pesado e o mais imutável entre todos os metais. verde por propagação e vermelho por reflexão sentiu vontade de ter nas mãos uma fina folha de ouro para ver se realmente ela tomaria a cor verde. suspendeu a leitura e pensativa deitou os olhos no pátio deserto ao seu redor: certamente não era este um tema para levar ao conhecimento de suas alunas pour les médecins arabes e os adeptos na Idade Média. o ouro ou o SOL possuíam propriedades sobrenaturais. o metal o mais brilhante. ali no jardim do pensionato de verde relvado e árvores com ramagens verdes-cinza. objeto de culto servil de uns e do desprezo suspeito de outros. um moderno tratado escrito pelo professor Arthur Mangin. Para restaurar os doentes esgotados. irmã Eglantine reencontrou conceitos que não só conhecia. através dela. recebeu o livro Pierre et Metaux. e mesmo para suas alunas Ordinariamente. por segundos. o ouro é um metal opaco e amarelo porém não pôde deixar de se admirar quando leu o que muita gente não sabe é que reduzido a lâminas extremamente delgadas o ouro torna-se transparente.

o chocolate ao leite esquenta e relaxa o corpo. Não adere às superfícies. toma chocolate com leite na cozinha deserta. Ele se amalgama igualmente com a prata e. lavar passar. o pão e os biscoitos . esfregar arear. limpar polir. trois. deux. nas teorias místicas dos alquimistas. Sobretudo na Idade Média. varrer lavar. sobre as quais flui livremente. irmã Eglantine prossegue a cativante leitura. 230 . de Bile do Dragão e Leite de Uma Vaca Negra bem doce. O cesto quem leva é Anne Marie.Eglantine se acha no direito de tomar. Longa é a caminhada e irmã Eglantine aperta o passo. que tomba ao fundo". Para eles o mercúrio era a Água Divina. o estanho e o ouro. Quanto ao ferro. irmã Eglantine reina solitária na cozinha. que viveu no século XVIII. É necessário enrolar o xale negro nas mãos brancas que seguram o livro. cozinhar servir. somada à sua alvura e ao seu brilho cintilante. quando se vê o mercúrio tomar uma singular importância e desempenhar um papel extraordinário. com o cobre. Esta singular propriedade. Essas descrições são exatas e a química moderna nada mais fez do que complementá-Ias. às vezes. A vela alumia o livro O mercúrio é o único metal que existe naturalmente em forma líquida e conserva esse estado mesmo a baixas temperaturas. o princípio e a essência de todos os metais. Nesta hora de silêncio no pensionato. exceto o ouro.todos produtos do pensionato. quatre et pourquoi pas cinq tablettes de sucre? Bem adoçado. Faz frio. costurar cerzir. bizarramente. pois que somente se solidifica a quarenta graus negativos. a escuma de todas as formas. quase uma substância sobrenatural. sempre impressionou vivamente a imaginação das pessoas e fez considerar o mercúrio como um metal privilegiado. A pouca mobília torna a cela ainda mais fria. o queijo de leite de cabra. o chocolate ao leite torna-se mais saboroso e aquece muito mais o corpo. Os metais a que melhor adere são o chumbo. muito dificilmente. A irmã despenseira lhe deixou a chocolateira esquentando sobre a adormecida chapa brilhante do grande fogão a lenha. mesmo passada a hora de se recolher. Fraldas confeccionadas com esgarcidos lençóis sem uso completam a esmola piedosa. Eles o chamavam também. mãos fora das cobertas. Un. Todos os metais nadam sobre o mercúrio. escreveu em seu Soma da Perfeição do Magistério: "O mercúrio se encontra nas entranhas da terra. a este adere somente por um artifício que é o grande segredo da Arte. depois de tantos anos servindo a Deus no Pensionnat des Religeuses du Sacré-Coeur deJésus: antes de dormir. No cesto o patê. jovem noviça para todo o serviço no pensionato: preparar-se espiritualmente para o matrimônio com Jesus Cristo. Somente mais tarde fará as orações da noite O químico árabe Gerber (Yabar-Al-Koufi).

Germaine Garnier casou-se com o jovem Paul Philipot. às vezes. camponês que não tem onde cair morto nós já o dissemos. Não a faca: o que irmã Eglantine sente agora é a mão punho de Philipot revolvendo suas en231 . Talvez. Não está a futura mamãe em casa? Não. irmã Eglantine grita. A dor rasgante da facada só é sentida por um segundo. à beira da floresta. o mercúrio é dotado de um brilho cintilante e se parece bastante com a prata. mão. Nu da cintura para cima. Sem largá-Ia.plantar colher. puxa-a violentamente contra seu corpo. desamparada pelos parentes. afinal? Lentamente. Irmã Eglantine pega o cesto com Anne Marie e entram as duas na cabana escura. Nua. Talvez tenha sido levada. Philipot agiliza os movimentos. punho e metade da metade do braço. Imoral! Imoral! Como se apenas esperasse ouvir essas palavras para agir. O mercúrio não parece existir em grande abundância na natureza os Philipot vivem isolados. como para melhor se posicionar e ver Anne Marie. grita sem que nenhum som escape de sua garganta. quase um apêndice da floresta ao lado. Mas o senhor não se interessa? Não se interessa em conhecer seu filho? E sua mulher. Philipot sai de trás da mesa e vem à frente. domina-a. estátua de sombras. quase como um favor. Formigamento. sozinha? Talvez. somente com a coifa. irmã Eglantine posta-se na frente de Anne Marie. E não são dadas maiores explicações. justifica a longa caminhada para a visita de caridade. se bem que tenha um leve reflexo azulado. A mesa alta impede a visão do resto de seu corpo. acompanhar irmã Eglantine em seus pequenos passeios e visitas de caridade. substituída em seguida por um amortecimento suave. Como para encobrir aquela visão. O cesto com oferendas servirá para mitigar a miséria do casal Philipot. prestes a dar à luz. reinado dos javalis. Agarra a freira pelo hábito. Arranca rasga suas vestes de religiosa. de pé estático. A cabana dos Philipot assenta-se em meio a árvores limpas. Como. O golpe dado no ventre é tão forte que penetram faca. até então oculta pelo negror da cabana e por irmã Eglantine. desprotegida pelo marido sem trabalho. A porta está aberta mas as janelas permanecem fechadas com tábuas. o homem Philipot. Contra a vontade dos pais. Monsieur?! Trapos sujos cobrem-lhe o sexo. Talvez ela tenha ido dar à luz em outro lugar que não aquele. Talvez o bebê já tenha nascido. asas a se agitarem na cabeça. dos lobos e das serpentes. Ajovem esposa Philipot. vigiar e repreender as alunas e. Philipot estende a mão livre e toma uma faca de cima da mesa. ouvir e rezar. onde está ela. numa cabana em partes afastadas das terras do barão de Montpellier.

em Curitiba. outubro de 1879. irmã Eglantine sugere à madre superiora a indicação do livro Pierre et Metaux. Bélgica.. Por que se preocupar com uma freira morta. Desveste o hábito de noviça e. irmã Eglantine está atenta e observa a cena. Onde ele arranjou tantas moedas de ouro? Ainda ajoelhado. inclinando-se. 232 . sai em parte e volta . outra mais sobre o direito. Sente apenas o retorcer gosmoso entrar e sair da mão punho em seu ventre líquido: Aiiiiii. pequena fenda agora selada com ouro. boca e barba o sangue do sexo impúbere loiro de Anne Marie. Morta irmã Eglantine. ela nem sente o peso do corpo nu de Philipot sobre seu corpo nu. vou morrer! Quando Philipot retira a mão e o punho. Liege. Apesar de morta. retira mão e punho vivos de um corpo já morto. por mérito próprio. sebo de propriedade de Irajá Reis. Sai em parte e volta. encadernado e em perfeito estado de conservação. com as mãos em concha. lenta e cuidadosamente despeja mercúrio na pequena fenda oferta. Philipot retira a moeda de ouro que cobre o sexo de Anne Marie e. espera. Philipot cobre com um ducado de ouro o sexo profanado de Anne Marie. longos cabelos loiros espalhados sobre a áspera superfície de pedras. o braço se deixa sair um pouco e já lhe penetra novamente o ventre. prolongado e rouquenho. situado na rua Emiliano Perneta 325.tranhas. O mercúrio se liberta célere pelos vãos dos dedos. limpa com beijos. foi vendido um exemplar de Pierre et Metaux. Posse silenciosa. Outra moeda sobre o bico róseo do seio esquerdo.. No mês seguinte. o corpo nu. Deposita uma moeda sobre o lábio de sorriso curto e uma em cada pálpebra semicerrada da moça. na Feira dos Livros Usados. A cada tentativa dela de se afastar. Em outubro de 1989. em Bois L'Évêque. tenham alcançado as melhores notas nas aulas de instrução religiosa dos cursos do Pensionnat des Religieuses du Sacré-Coeur de jésus. como prêmio de aplicação para as alunas que. Philipot mantém-se de joelhos e. Philipot pouco se importa com os olhares da freira. Do fundo da garganta de irmã Eglantine vem um suspiro silencioso. olhos esgazeados? Há mais o que fazer. Saindo do corpo da moça. Anne Marie prepara-se para o sacrifício. deitada no chão. Mesmo quando caem e rolam os dois pelo chão de pedra. Branco filete líquido oleoso que não adere às bordas róseas da carne e penetra doce e ágil no interior do pequeno mistério da fenda escura.

()s fantasmas do fundo de quintal Um mistério .

Na noite fria há os que dormem protegidos pelo escudo do sono Sonham? Talvez. homem! Revolto na cama. de onde não se vê a rua. Presas da insônia. das dores reumáticas. atento. abertos para o vazio do quarto escuro. No limitado triângulo o Fantasma dos Quintais caminha pela calçadinha cimentada. o Velho não luta contra o esquecimento: apenas quer lembrar e não consegue se lembrar do que quer lembrar. Ainda está longe o dia. Ninguém pode se livrar do mal. ocos. Os telhados vão amanhecer branquinhos de geada. Os olhos sem imagens. da bronquite.Ao longe o cantar abafado dos galos. Há os que não. de urina solta. vítimas fáceis dos demônios do quintal dos fundos. dos gases intestinais. das tosses noturnas. Que tristeza! Milagre: o enorme lençol branco sobrevive no varal! Não se pode deixar roupa dependurada que os ladrões roubam tudo. as cebolinhas e os rabanetes: Que economia trazem para a casa! Sentado na cama em ângulo reto. Os cachorros se esquentam enrodilhados em seus sonhos. do remorso. Atravessam as noites acordados. Não tem perigo dele pisar no canteiro e amassar os pés de alface. preparando suas maldades. da falta de ar. do medo. ninguém vê mas o Fantasma do Quintal está ali. 235 . olhos abertos no escuro fitando o nada.

sempre há uma esperança. terá a imagem dela diante dos olhos para sempre. Tanto ela tem feito para que ele passe essa fase ruim em que está e volte a ser o que era antes: um homem alegre. sem dormir sonha agitado com a Outra. Não há como se livrar disso. Mas vá falar disso para um homem apaixonado! Não sei. trabalhador. falsa ou verdadeira. Botaram feitiço nele. Cai num sonho nervoso. se con tin ua assim não sei o que será dele.o Homem não pode se livrar da memória. 236 . Pelo vão da cerca a ameixeira derrama seus melhores galhos para o lado do vizinho. Mais tarde . os quintais do fundo se ligam com os quintais de outras casas.ao acordar. Na interminável noite. Pela tessitura das cercas. esperando a hora de levantar e fazer café. o gato da Velha mija fedido na varandinha da casa nova. As galinhas vêm ciscar na horta alheia. Eu tenho rezado tanto pelo meu filhinho! O pior é que a Mãe não sabe por que ele está assim. É disso que o Fantasma do Quintal se aproveita Ainda está longe o dia e a geadajá começa a cobrir a grama. Ele está se acabando. a Mãe insone reza pelo filho. que largou dele para sempre. Se soubesse talvez pudesse ajudar.vocês vão ver . lá do quintal dela a Enxerida espiona tudo. Deve ser coisa de alguma mulher. Inútil insistir. Ainda bem que não está ventando. Não adianta: ela não quer saber mais dele.

Ela vai ser uma perdida na vida! Na sala o gato preto dorme em cima da televisão. Sem sair do quintal o Fantasma . uma criança ainda! Isso não se faz . sem fazer barulho. Pé ante pé. Sua mão gelada de fantasma acaricia o ventre liso dela.. o tatu busca sua toca no terreno baldio sem cercas dentro da noite. Na sua brancura o Fantasma entreabre um sorriso de dentes amarelos.. calorzinho tão bom! Suspiro prolongado e um ai. Pensar que o Homem pensou até em matar: Se ela não é minha não será de ninguém. a sombra do Fantasma entra no quarto e observa o sonho da Mulher para ver se ela dorme calma sem saber das coisas que o marido aprontou. matou alguém. longe dali. Coitada. Os ladrões da noite não procuram casas com fantasmas no quintal. protegida. Ahhhh. a Mocinha agora dorme tranqüila debaixo do lençol seco. na morte será minha! Se a Mãe soubesse que o filho criado com tanto carinho quis tirar a vida de alguém. ao longe passa o ruído de um automóvel tardio. Ninguém nas ruas.a valeta vaza suas águas fétidas para o lado de cá. quentinha. O canalha! A madrugada vai alta. 237 .que demônio! já está na cama agarrando a Mocinha por detrás. A Outra dorme aninhada em seu novo namorado. Com passinhos macios. depois escorrega a mão até a gretazinha miúda pulsante. Isso durante o dia: dentro da noite é esse o território dos fantasmas dos quintais. as noites frias! Debaixo do lençol úmido a Mocinha dorme seu sono solitário. vozes indesejadas atravessam as cercas de madeira.

238 . Não sabia rezar. Dias e dias atrás do dinheiro e de um médico que aceitasse fazer o aborto. choro prolongado de um bebê . Fez um buraco com a chave da roda e com as mãos sujas de lama preta. nariz. A imagem é outra: o rosto esborrachado do bebê morto. quando precisava pedia para a Mãe. Não! Alguém vai desconfiar. Como pôde limpou a mão numa estopa. parecia um grande pedaço de fígado. O médico aceitou mas fez uma exigência: tirar eu tiro. O Homem não tinha levado nada para cavucar. Olhando a barriguinha da Outra ninguém diria que estava de seis meses. Na agonia da morte uma criança. textura lisa talhada. um grito dele.Horrível! O grito de alguém morrendo. Trouxe o feto embrulhado em plástico transparente. Depois eu limpo direito. o grito apertado. pensou em fazer uma pequena cruz. mas vocês é que vão ter de enterrar.que mortalha pode cobrir um bebê morto? Na noite escura só o Homem escuta o grito só para ele. ao longe se vê a estrada de pouco movimento. O fusca parado num terreno pantanoso. dura gelatina. orelhas e olhos. Pela cor plúmbea. Tirar agora é matar uma vida. Se parecia com a mãe? A Outra se recuperava na clínica clandestina. O Homem cobriu de terra. rins pelas dobras prenunciando membros. olhos esbugalhados que não vêem mais a imagem da Outra. O rosto que ele agora tinha nos olhos. Com seis meses já está vivo. O filho dele. E desperta dentro de um pesadelo. dá pontapés na barriga da mãe.

dentes arreganhados. se fosse um ladrão não acordava. pêlos eriçados. Então percebe com horror: O Fantasma do Quintal sou eu! Passa a mão nos olhos. Nos seus olhos a imagem da Outra se mistura com o rosto mongol do bebê. o cão recua ainda rosnando e depois se cala. Os cães do bairro respondem num enrodilhar de latidos. Não sei se foi o medo. se enxerga parado no meio do quintal.Patinando na lama o fusca voltou para a estrada. 239 . Do Homem sai um grito silencioso. O Homem não conseguia mais ficar deitado. o Homem não está mais dentro do seu corpo. O Homem abre a porta que dá para o quintal. no meio da noite. Não vê que sou eu?! No escuro. E o amor. Não de frio. Dá três passos e o grande susto: o Cão Negro. Sultão! Guapeca vagabundo. que dorme calma ao seu lado e tem um ligeiro despertar: aonde você vai? Mais uma mentira das muitas: vou no banheiro. o Homem treme de medo. a mulher volta ao sono. Tem agora toda a memória do mundo e o dia não vai nascer. nem os cães nos quintais. com as lágrimas lava a lama preta das mãos e vai procurar outros quintais. desassinalado. longo. latindo avança nele. o frio da madrugada arrepia seus pêlos. para que serviu? Não poder dormir nunca mais. outros mundos. como se não existente. levanta com cuidado para não acordar a mulher. nunca mais. Ninguém vai ouvir seu grito. uma eternidade de medo antes de conseguir gritar: Passa. O rosto afundado no travesseiro.

.Mósinhal Para que recordar? felicidade Elle _ Santas meira de regresso ao teu lar..Lembras-te.' 2) o amigo· A SAUDE DA MULHER fará o mi· logre· é o grande remedio pora 0$ incommodo$ vidro hoje dos senhoras. voando palavras! phormocial é pri- ElIa • Para lHER. • • (EPISODIO N. EJle . abençoarmos a SAUDE DA MU· que me restituiu 00 teu omor!. .. A SAUDE DA MULHER O GRANDE REMEDIO DAS DOENÇAS DE SENHORAS . ~. COISAS DA VIDA . querido? Foz hoje um onno que brigá mos pelo ultimo vez . ()mlsterlo Sônia teu. Levarós Vou Compro um com elJe o Ello .. mesmo.

para controlar as frieiras que muito o afligem nesta época do ano. mais adiante. no centro. entrando novamente pela avenida xv de Novembro. Por essa hora o carro entrou na cidade. mas a Mulher tem uma mancha preta no branco do olho esquerdo. não perturbando. mais para pequeno. A SAÚDE DA MULHER Seriam. O único sinal da viagem que acaba de fazer é a camada de pó pegajosa e leve que aderiu principalmente nas partes laterais e nos pára-lamas. dá um certo atrativo à beleza da Mulher. O marido. esse sinal de nascença. porque no sono ela mantém as pálpebras cerradas. a lataria sem pontos de ferrugem e os pneus são novos. Longe de ser um defeito desagradável ao olhar. Como o carro é de modelo recente seu motor é silencioso. o que atesta ter ele rodado em estradas de terra. entre duas e quatro horas da madrugada. portanto. que também dorme. No momento não podemos ver. calçamento apenas no centro e em algumas avenidas periféricas. Traz. Mais certo dizer que perto das três e meia. As regras apareceram por volta das oito. estreitas e curtas. É uma cidade de tamanho médio. o que diminui ainda mais o barulho do motor. lançado há dois anos pela fábrica. E as ruas de traçado antigo. um certo it aos olhos esverdeados dela. dobrando à esquerda no largo do colégio das irmãs e.o ESTADO GERAL DO CARRO Bom. Nenhum amassado na carroceria. obrigam que o Homem de Olhos Azuis conduza o carro em baixa velocidade. a pintura vermelha não está descascada. tem entre os vãos dos dedos do pé chumaços de algodão embebidos em Vodol. apesar de grande. vindo do Sul. como se diz. ainda se encontra em bom estado. oito e meia da noite anterior. Um exame mais do que superficial mostra que o carro. Seguindo a entrada sul em linha reta. O que procura o Homem de Olhos Azuis àquela hora naquela ci243 . chega-se à praça da Matriz. e como a Mulher não tivesse modess em casa e se avexasse de mandar alguém buscar na farmácia do seu Benedito. improvisou uma toalha higiênica com um grande guardanapo branco de boa qualidade. o sono dos habitantes da cidade. seguramente.

Até a delegacia de polícia mantém a porta fechada e as luzes apagadas. o Central. Foi comprado na farmácia do seu Benedito e guardado no armarinho de medicamentos até a chegada da menstruação. mas geralmente funciona só até as oito. DA MULHER contém substâncias de ação sedativa e antiespasmódica nas cólicas menstruais. remédio antigo mas de comprovada eficácia. diminua a dose. ou. dificilmente encontrará. E nenhum estabelecimento comercial funciona até essa hora. a Mulher tem sempre em casa um vidro de A Saúde da Mulher. quase todas pinta244 . às vezes. Não deve haver preocupação com isso porque está agindo beneficamente. A SAÚDE São ruas curtas que desembocam em outras ruas curtas e trazem a indagação: para que lado seguir agora? As casas. nove e meia da noite. Por suas propriedades terapêuticas acentuadas. Passou disso é preciso tocar a campainha para chamar o farmacêutico. O que fecha mais tarde.dade? Seja o que for. Prossiga com o tratamento. dissolvido num copo de água açucarada. Ninguém pelas ruas para dar qualquer informação. logo que desceram as regras. no máximo. A SAÚDE DA MULHER determina ligeiro abalo no organismo. Não tem contra-indicações e não prejudica a amamentação. Precavida. Ontem à noite. E não será fácil achar o único hotel da cidade. pois já apagou a pequena lâmpada que alumiava sua pequena placa e fechou a porta de entrada. a farmácia. dependendo do dia fecha às nove. ela tomou uma colher das de sopa do remédio.

foram construídas quase na mesma época. mas apressado pelo meio da rua como todos os que caminham pela madrugada. Tem o carro gasolina suficiente para continuar rodando pela cidade adormecida? Não poderá acontecer que. sem encontrar saída. o Homem de Olhos Azuis pararia o carro e pediria informação. Se encontrasse alguém. e talvez pudesse localizar aquilo que veio procurar nesta cidade que não conhece. É claro que não se pode adivinhar que tipos de pesadelo o mal-estar traz a ela nesta madrugada nem quente nem fria. Quase inaudível. mas por se manter atento em achar o caminho por ruas calçadas de paralelepípedos que parecem sempre as mesmas. a Mulher pronuncia o nome de alguém. não irá encontrar nesta hora em que todos dormem. Fosse daqui a uma hora. não estivesse dormindo roncando. O Homem de Olhos Azuis no carro vermelho não tem sono. um cachorro late aqui. Seja o que for. se não chegam a acordá-Ia. teria dificuldade para identificar o nome que ela diz. seja o que estiver sonhando. depois de algum tempo param de latir e vão recomeçar mais tarde. sonho bom ou sonho mau. as luzes dos faróis do carro vermelho atravessam por entre as frinchas das venezianas fechadas e relampejam no escuro do quarto abafado. entre casas amarelas que se assemelham iguais. A iluminação pública é bastante ruim. Às vezes.das de amarelo. Ou talvez tenha. pare por falta de combustível e tenha de esperar até as sete horas. as portas do quarto fechadas na velha casa abafada. Em seu sono agitado. quando abre o único posto da cidade? E. fazem-na gemer e revirar-se incessantemente na cama. É agitado o sono da Mulher. outros respondem lá longe. nos tempos em que a cidade florescia. como são as falas do sono. então. Mesmo se o Marido. seja o que for que o Homem de Olhos Azuis esperava encontrar na madrugada desta cidade. talvez já se visse algum passante andando. A obscuridade vista pelos faróis do carro dá ao Homem de Olhos Azuis a impressão de estar sempre andando em círculos pelas mesmas ruas. de repente. 245 . a concentração e a excitação espantaram seu sono. não terá sido achado. Ela passa por suores frios e ondas de calor que. ao lado dela na cama. Alguém que um compromisso ou um trabalho urgente tirou da cama mais cedo. não pela calçada. Uma leve neblina envolve a cidade.

encontrou a saída da cidade. Porém. que dormia roncando ao lado dela. eu sou um observador privilegiado. 246 . pois participei do início dos acontecimentos daquela madrugada. tenho eu o direito de indicar finais possíveis para os acontecimentos reais que comecei a contar? Por acaso sou um deus com o poder de determinar o destino das pessoas? A resposta é não. você tomará como o acontecido. desistindo. e tudo o que eu escrever aqui. longos e pretos pêlos púbicos da Mulher. Por isso. voltando do sono. o OBSERVADOR o PRIVILEGIADO que aconteceu depois? Em relação a você.Mesmo durante o sono. sujando o pano branco e marcando de vermelho os sedosos. a Mulher despertou do seu agitado sono gritando o nome do Homem de Olhos Azuis. Que seus gritos acordaram o Marido. é melhor que eu me cale e deixe somente com você a tarefa de deduzir o que aconteceu depois com o Homem de Olhos Azuis. Por exemplo: eu posso escrever que o Homem de Olhos Azuis cansou de procurar e. descobre com pavor que a Mulher ainda guardava no coração o nome de outro homem. do que tinha vindo procurar naquela cidadezinha pela madrugada. no momento em que ele partia. seguiu os treze quilômetros pela estrada de terra até alcançar a rodovia asfaltada e pegou o caminho de casa. a Mulher e o Marido. finalmente. seja lá o que for. o sangue menstrual continuará sendo expelido em grandes fluxos. Acelerou o carro vermelho. Posso dizer também que. mesmo que seja inventado. Tudo o que eu disser será verdade para você. E que o Marido.

() mistério da Sonâmbula .

caminhando. não se pode dizer se ela caminha de olhos fechados ou abertos ou de que maneira ela evita. A velha mãe. E o velho jardineiro dorme sob o efeito de sedativos.Nada de gestos arrebatados. alguém se levanta e. não está. Se. Fica ali por alguns instantes. é mais um deslizar suave. Seu caminhar. Pela noite. a mesma que se queixa de nunca conseguir dormir à noite. para combater a insônia. A Sonâmbula. no bar onde fazem ponto. O irmão mais moço não se encontra na casa. A irmã tem seu quarto longe da sala. sem acender as luzes para não perturbar o sono das outras pessoas da casa. conforme o combinado. seguir até a copa. no armarinho de metal. o embate com os móveis: a mesa ovalada com seis cadeiras. só então acender as luzes. O Ladrão ainda não invadiu a casa. limite entre a sala e o varandão. Na parte de baixo. O marido dorme no quarto do casal um sono pesado. eu diria. chegou defronte à grande porta envidraçada. duros. encher o copo e. a Sonâmbula caminha sem se chocar com os móveis da sala. supõe-se. as dependências da criadagem masculina estão vazias. longe dali. O motorista. a cadeira de balanço com armação de palhinha. eu não diria indecisa. no escuro. vai até a porta envidraçada que liga o interior da casa com o varandão do jardim da frente. pois me parece difícil denominar os atos de uma pessoa em estado de sonambulismo. no meio da noite. deveria também vigiar a propriedade durante a noite. ligeiramente alcoolizado. a empregada dorme em seu quartinho e continuará dormindo mesmo depois do despertador tocar as seis horas. silenciosa. o sofá e as três poltronas de veludo vermelho. lavar o rosto e se vestir. podemos deduzir que se levantou porque não conseguia dormir e. se ficou em frente à grande porta envidraçada. A cozinheira aproveitou o dia de folga e dorme na casa da filha casada. na enfermaria do hospital. No jardim dos fundos. apanhar o vidrinho de comprimidos para dormir. no fundo do corredor. ressona em seu quarto de portas fechadas a sete chaves. E podemos mesmo afirmar que. a mesinha de centro e o pequeno móvel com assento que abriga o telefone. após nova 249 . que. em movimentos lentos flutuantes. a cristaleira antiga que veio da fazenda. espera no centro da cidade que seu comparsa venha buscá-Io. caminhou pelo corredor até a sala. e mesmo depois de se levantar. Como ninguém da casa ainda a percebeu em seu sonho de sonâmbula. viaja em férias escolares. foi por indecisão entre sair para tomar a fresca da noite ou voltar pelo corredor escuro e.

foi a senhora que fritou dois ovos ontem de noite? . espiou a casa durante vários dias. não sei se de olhos fechados ou abertos. Nunca me viram. pegar não dois mas três comprimidos e tomá-Ios com água.Eu não. abre a porta do quartinho e. O marido intervém: . A três quadras dali. chega até a borda da piscina e mija na água. cheia de manias. Rê? Comendo escondida de noite? Por isso essa barriguinha? A Sonâmbula pensou logo na sua velha mãe.Teus patrões dormem cedo. a nova empregada tudo vê e reclama quando ele volta: . A coisa ficou por isso mesmo. A Sonâmbula agora penteia os longos cabelos negros. .---------indecisão. Incomodado por alguma coisa em seu sono.O que é isso. o motorista sai de cima da nova empregada. retira da gaveta da penteadeira o estojo de maquiagem.Ficou louco. Cacilda.Acordei hoje e encontrei a cozinha toda bagunçada. retorna pela sala entrando no corredor. é?! Então você já veio aqui antes.Dona Rejane. Antes. Na manhã seguinte. senta-se e. pronto a dar sinal caso notasse alguma coisa estranha. portanto. nu. Alguém andou fritando ovo e deixou tudo sujo. seu sem-vergonho?! Não foi desta vez. que idéia! . Pensou e calou-se. Ficou com a parte mais fácil. começa a se pintar no escuro. seu companheiro ficou no carro vigiando. o marido revira-se na cama. contrapondo-se ao espelho. indicou o que deveriam apanhar e ainda trouxe o carro roubado. Há algum tempo atrás. abre a porta de seu quarto. Debruçada na cama. Muitas vezes na vida tivemos insônia e. prerrogativa de quem levantou o serviço. desvendou a disposição dos quartos. a Sonâmbula fritou ovos na cozinha durante a noite. podemos reconstituir facilmente os pensamentos e ações de quem não consegue dormir de noite. enquanto servia o café a cozinheira interrogou: . nem Rejane nem ninguém ficou sabendo que havia uma pessoa sonâmbula na casa.Nunca te viram. Era isso o combinado: o Ladrão pulou sozinho o muro da casa. alguém pode te ver! . com 250 . na casa de tijolos aparentes. Porém o que sabemos nós das motivações de uma pessoa sonâmbula? A Sonâmbula toma uma decisão: vira-se.

Pensa na última vez que veio pousar na casa da filha. sabe que o melhor será subir pelo varandão e arrombar a grande porta envidraçada. meteu a mão numa aranhona caranguejeira que estava na maçaneta. A velha mãe acorda agoniada e suspira: Ai. balançando as pernas que não alcançam o chão seboso. homem trabalhador mas sem sorte. a Ladrão é moço. já sabe que não tem alarme na casa. parece que nem consegue mais respirar. A cozinheira deitada ao lado da filha e do netinho na única cama genro já saiu faz tempo da meia-água não consegue pegar no sono. A cozinheira incomoda-se com aranhas. A cozinheira reza para que o genro arrume um emprego melhor. olha e pensa no velho jardineiro deitado na cama ao lado. De acordo com as instruções do companheiro. Ele vai morrer. . e com a faca começa a forçá-Ia. no gramado. Tem o quê? Doze anos? Sentado na cama da enfermaria. quando foi abrir a porta no escuro para ir na privada. não implique tanto com o marido.a tampinha do frasco passou perfume nos sovacos. muito decotada. no jardim. meu pai! Meu querido paizinho! Vira de lado e continua a dormir. o ar só sai. Está cada vez pior.Que que é isso? Que sangue é esse? . Ladrão experimenta a grande porta envidraçada. coisa fina. e tem a coragem de dois cigarrinhos fumados há pouco. atrás da orelha e nos seios livres soltos cobertos pela camisola transparente.Vamos embora. a sangue pegajoso escorre pelas suas pernas abertas. será? Ladrão não se assusta com a estátua. Susto tão grande que precisou tomar água com açúcar para se acalmar. É apenas um menino. tadinho. desta vez. companheiro se assusta com o Ladrão pulando o muro de volta: .Deu pra pegar alguma coisa? a a a a 251 . Para que o netinho sare logo daquelas grosseiras que tem no rosto. no meio das árvores. Esta noite. não entra. preto mas bom homem. ágil. por isso não consegue dormir. Tenta rezar para ver se dorme. respiração gorgolejante. Para que a filha não seja tão luxenta. de dia. quando vê do lado de dentro no escuro um vulto branco quase como a estátua dojardim. saiu bem alimentado com as comidas trazidas pela sogra da casa dos patrões. quase gente. para seu serviço de vigilante noturno.

apagar ela.Me dá um cigarro. quente. a Sonâmbula se vê deitada na banheira e sente a água morna. quentura esponjosa que vai pegando forma. Juntei ela ali de pé mesmo. Água oleosa. . um grito que veio assim como lá de dentro: Aaaaiiii .Senta no jornal senão suja tudo. uma morenaça de camisola transparente... Tô lá na porta que você falou. Em seu sonho. mesmo no escuro deu para perceber que estava sem calcinha.E o sangue? Onde você arranjou essa sangueira toda? 252 .. . a Sonâmbula geme alto: Aaaaiiii . vambora! _ Tá cheio de sangue na cara. entrando e saindo sem nunca se largar de dentro. Mas aí na hora do gozo ela me dá o maior grito.. quente. . aí a porta abre e me aparece uma puta duma mulher. Me dá um cigarro. olha a tua roupa. No sonho. Ela me olhando quieta e aí levanta a camisola.Abre essa porra de carro de uma vez! .Deu crepe..Você matou alguém? Deixou a faca lá? _ Não dá para acreditar. Te pegaram? -Nada. Com ela ali o roubo já estava perdido mesmo. Matou alguém? . viva. . . tomando conta de tudo. pulei fora e corri.Você não vai acreditar. carnosa. Me assustei.Não me põe em fria. se oferecendo. Sabe como anda a minha barra com os home. _ Não quero ter nada a ver com essa história. penetrando seu corpo adentro. Eu ia pular em cima.

Mistério do menino morto .

Disse isso como quem diz ele está bem.Ele tinha só cinco aninhos.. logo depois do primeiro beijo. Eu não sabia o que dizer. A mulher ficou esperando que eu dissesse alguma coisa. rapidamente como num filme. dizem que nos segundos que antecedem a morte o mundo todo vê sua vida passar. usava métodos próprios muito eficientes. nunca sei nessas horas.....Foi três dias depois que o senhor esteve lá fotografando. Coisas tão desimportantes quanto o sonolento vôo de uma mosca na sala de aula.Meus pêsames. nunca pensamos em mandar tirar. E não é só quem morre afogado. 255 .Obrigada . da hora da saída do ventre materno ao indesejado instante final. Quando vi aquele menino.. bonito.Quando alguém está se afogando vê passar. imagens de toda uma vida no instante mesmo da morte: não se esquece jamais e não importa mais. Fui muito feliz nessa foto. . Quem sabe o que pensa uma mãe? . cercado pelos gansos brancos de longos pescoços. toda a sua vida. Eu disse: . Ela não: . Sem explicação..Mas como? Ele . . Em poucas horas estava morto. por isso mesmo queremos a foto.. Eram gansos. deu assim de repente. achei o que eu estava precisando: o instantâneo de uma criança dando de comer aos gansos.o pai eu não cheguei a ver quando estive no sítio fotografando -. de cores brilhantes: em primeiro plano. tudo é lembrado. imagens sempre revividas como o lento entreabrir dos ofegantes lábios úmidos da mulher amada ao dizer eu te amo. Passou nem um mês e a mãe dele vem me procurar . Não temos nenhuma fotografia dele . Ele morreu. meio judiada mas ainda inteira. Deu uma bela foto. Foi de meningite. o avô dele tinha uma criação bem-sucedida. bem nítida. o menino sorrindo mas meio assustado. Fotografei o menino quando ele ainda estava vivo. Eu continuava sem saber o que falar. quase maiores do que ele.. imagens já nem pensadas mais ou nunca registradas pela memória. loiro de olhinhos vivos bem azuis. O loirinho carregando braçadas de grandes folhas de couve e a gansaria toda correndo atrás e grasnando. ela queria uma foto: . Era uma mulher bonita.Deve ter ficado bem bonita.

a bolinha azul brilhando lá longe. é claro. teve a mesma duração daquela manhã dourada? Quando ele. naquela manhã de verão. reflexos dourados do sol. e Malazartes ordena: "Então toca o enterro!". Lembrou o menino daquela história do Pedra Malazartes que a mãe contou então? Aquela do Malazartes que de preguiça não comia nada e estava morrendo de fome. pergunta o preguiçoso Malazartes lá do caixão. "Está descascada?". da emoção indefinÍvel da256 . aninhado na cama materna. "Não tá não".Fiz a ampliação e mandei. Depois a mãe esticava bem o braço.palavra que talvez uma criança de cinco anos nem saiba dizer. Já iam carregando com ele para o cemitério. eu ficava olhando a foto: coitado do guri.na hora da morte? E será que tudo passou com o mesmo peso de tempo? A dor forte na nuca . Na hora da morte o menino riu novamente dessa história? Na relembrança. para ele devia ser atrás do pescoço. então ele via o mundo através do azul luminoso girante. A parte da dor. a mãe rodava nos dedos uma bolinha de vidro azul e encostava nos olhinhos do menino. da febre alta. aí passa um homem vendendo banana. a alegria assustada de dar comida aos gansos durou o mesmo tempo da imagem sem contornos.vidinha curta . responde o vendedor. nem cobrei nada. No que ele estava pensando quando morreu? Será que é igual a gente grande? Será que também repassou a vida dele . Olha como ficou bonita: 816 357 492 Antes de mandar entregar.

E você desaparecerá comigo para todo o sempre. Nem água ele agüentava mais tomar. Como será? Vai acontecer rapidamente num desastre de carro. Não que eu tenha esquecido cada instante. ouvir o cheiro doce que se espalha de seu prazer. E será bom lembrar. No relembrar. você diz todas as letras do meu nome (como se chamava o menino morto?) e eu sinto a extensão do prazer. perdida e nunca mais achada? Difícil dizer. a podridão em vida. Não pude evitar. como num filme. o mesmo corpo. comecei a pensar na minha própria morte. mas quero ver uma vez mais o gemido que escapou dos seus lábios entreabertos. será que experimentarei outras vezes o prazer que tantas vezes sinto no seu corpo? Então o estar morrendo valerá a pena? Agora você está ao meu lado. o prazer que você me dá? Você já existia quando eu nem conhecia você? Quando o menino via o mundo no alumbramento azul da bolinha de vidro nas mãos da mãe. na hora da minha morte.quela noite na varanda ao luar. um espaço infinito no tempo da minha vida: como se fosse sempre assim e assim sempre será. o menino ficou sabendo onde é que foi parar a bolinha de borracha vermelha. E que lembranças vou reter na minha hora? Talvez então me venham com clareza momentos passados desapercebidos da primeira vez que tive você nos meus braços. quando a moça de cabelo preto quem era ela? . acabamos de fazer amor.apontava as estrelas. sentir a cor do seu corpo colado no meu pela gosma do seu gozo. É este o sentido da minha vida. Na morte o menino levou a memória junto. as imagens da minha vida desfilarem nos meus olhos. Nossos corpos colados. 257 . como a lenta agonia de meu pai? O câncer roendo pedaços dos lábios dele que iam soltando quando se passava algodão molhado para mitigar sua sede. eu dirigindo? Ou na longa dor da desagregação do corpo. você já existia? Ou seria amarela e não azul? Não sei. Só saberei de fato quando. contava coisas da lua de São Jorge brilhante lá longe no negro céu azul do sonho? No repassar de sua vida.

() mistério do gato preto e da gata gorda .

as pupilas dos gatos se dilatam no escuro. No cangote. escondia o que sentia.e como queria . Porém. 261 . uma mecha mais comprida descendo um pouquinho pelo pescoço. os gatos sabem ver o que se esconde no negror da noite. porém tinha pêlos bem pretos espalhados pelo corpo bem branco. Mais do que os homens. Gatos com pêlos de uma ou duas cores . Vida sem surpresas. e eu brincava: "Parece um hominho". se os pêlos tiverem três cores só podem ser fêmeas. os negros olhos dela são redondos como olhos de gato. por exemplo . Debaixo das grossas sobrancelhas pretas. Não é qualquer pessoa que consegue lidar com gatos. curtos. pêlos macios. que chupei. Ao contrário do homem. bem redondos. A noite é território dos gatos. Só gatas tem pêlos de três cores. Antes de vê-Ia nua eu imaginava que teria uma vasta pentelheira de pêlos compridos espalhados em várias direções. Da primeira vez que os beijei. um rabinho como o de um gatinho. gatos não. igual a qualquer outro animal. esparsos. Mais do que as dos homens. Alguns animais têm pêlos ásperos.preto e amarelo. A primeira coisa que chama a atenção nela são os cabelos cortados bem curtinhos. como vi em outras mulheres. a luz estava apagada e eu pensei que eram do cobertor lanhudo . a Danielle. dizia mil coisas: ''Você é um louco!". com grandes olhos bem pretos. queria se entregar a mim . Cara branca redonda como a de uma gata. inventava mil pretextos. mil desculpas. fininhos.tanto podem ser machos como fêmeas. seus pêlos são bem macios. Gatos costumam ser altivos por natureza.fazia bastante frio naquela noite. como que para ver no escuro. firme. gatos não. Coisas da raça. e correm todos na mesma direção.Eu sou um homem. Não que ela fosse peluda.mas não dava o braço a torcer. lisos. Foi a segunda mulher que conheci com pêlos no peito. o gato. a outra foi uma namorada que tive quando garotão. Não era a palavra que mais saía de sua boca. Disfarçados como eles só. Ela também era assim. não se entregam fácil. uma francesinha.já nasce com o destino traçado. espalhados. as coisas têm de ser do jeito que eles determinam. Os bicos róseos dos seios dela são rodeados de parcos pêlos pretos. querem agrado mas fingem não querer.

entregue. Gatos não gostam que a gente revire o pêlo deles. depois amarela. Mulher que não se entrega. no gozo. disse que fazia isso para ficar mais tempo com o meu cheiro no corpo. Numa das poucas vezes que falou coisas carinhosas para mim. vaidosa que é. eu sei. Não era gorda. E era tão bom! Como acariciar um gato. eu a chamava de gatona gorda. dengosos. Aquilo doía de gozo. pela palma da mão. quando minha língua acariciava seu sexo. com os dentes. Parecia estar gozando quando eu beijava sua boca. sensível. empurrava. Minha gatona gorda. às vezes tirava sangue. ela se vestia sem se lavar. ela fingia que não estava gostando. A primeira parte do corpo dela que toquei foram os cabelos curtos bem pretos. O único lugar onde você pode acariciar um gato no contrapelo é a barriga. O gato fica sem ação.Que nada! Era uma pequena moita de poucos pêlos curtos bem macios correndo em direção à sua fenda. eu mordia as coxas dela no meio das pernas. Na coxa macia de pele branca. Com os dedos. quando sugava seus seios. Ela sentia grande prazer com isso. Fingindo vingança. estriados. perto do sexo. quando meu sexo estava dentro dela e quando. Acariciei ao contrário do sentido em que eles corriam. puxava de volta. empurrava minha cabeça. e somente quando estão deitados de dorso. Depois de fazer amor. eu gostava de passar minha língua no pequeno buço que encimava seus rosados lábios carnudos. mas fingia raiva. parecia que ela gozava muitas vezes o mesmo gozo. Eu não sou gata. disfarçada. rija debaixo da pele branca como nunca vi igual. pêlos quentes. Na hora de beijá-Ia. eu revirava seus pentelhos. nossas gosmas se colavam. Na hora do gozo ela exalava um cheiro tão bom. O desejo me corria pela ponta dos dedos. gato preto. Eu também mantinha o 262 . ficava a marca dos meus dentes bastante tempo. era rechonchuda. na cama. irritado mas sem coragem de se libertar. Buço ralo que mesmo assim ela descoloria. primeiro roxa depois preta. e nada de carnes moles. Só tem um jeito da gente dominar um gato: acariciar forte a espinha dele na região entre as omoplatas nas patas dianteiras. Eu sentia um grande prazer em morder as coxas dela e vê-Ia renegar o gozo que fingia não sentir. puxava de volta. cheiro de limão e suor quente. não sou gorda e não sou tua! E de raiva enfiava fundo as unhas nas minhas costas. Como gata no cio. Ela ficava louca de raiva quando. se oferecendo para agrados.

Eu não sabia o que pensar. eu ainda sentia o cheiro do prazer da minha gata gorda. De noite. ela não era de fazer confidências. O sangue mancha a mim e a ela. ela me apertou forte e disse: "Eu nunca tinha gozado antes. Não sinto mais a dor. pode reparar. com uma orla enegrada. mas também não era de mentir. A morte toma conta de mim. manchas negras cobrem minha pele. Imóvel. Não sentirei mais o cheiro da mulher amada e não tenho querer. 263 . nem de falar coisas de amor. Ela veio com uma faca e enfiou na minha barriga com toda a força que tinha. Meu coração pára de bater. perdem o brilho. Desvencilhou-se dos meus braços e beijou meu sexo. estávamos abraçados. Meus lábios pendem. Minha pele seca e toma a cor cinza. a boca se abre e não se fechará mais. De dor abro a boca para engolir o ar. ao lado da minha mulher dormindo. não gostam de mostrar dependência. eu nada vejo. Levantou-se da cama e eu continuei deitado pensando no que ela tinha dito. Mas se deixam ficar e sonham sonhos bem quentinhos. vêm como se fossem para outra direção. se instalam no nosso colo. Meu rosto toma a forma da morte: olhos cavos. Com as duas mãos empurrando a faca. elajoga o peso do corpo sobre mim e a faca penetra mais fundo. à espera de quem venha fechá-Ios. mas é um gemido arrastado com gosto de sangue que desce pela minha garganta. Soltei um grito fraco da dor rasgada que senti. Quando se entregam.cheiro do gozo dela comigo. e ela me amava. Antes de você só tive o meu marido e com ele eu nunca senti nada". abertos. Não consigo me mexer. se fosse verdade eu amava aquela mulher. As marcas do cadáver: meu nariz torna-se mais pontiagudo do que era. nem as mãos eu lavava. Você foi o primeiro homem que me fez gozar. Gatos são animais estranhos. Sobre eles se cria como que uma tela viscosa. na cama. como se ali não estivessem ou não quisessem estar. minha voz não se fará ouvir e eu nada escutarei. os pêlos das narinas cobertos de uma poeira esbranquiçada. A respiração abandona meus pulmões secos. depois de fazer amor. chegam de mansinho. o calor do meu corpo se esvai para sempre. Um dia. fica desagradável ao tato: mas quem vai querer me tocar? Pelo sangue escorrido. quebradiça. O sangue não circula mais nas minhas veias. não nos olham nos olhos.

Os músculos começam a enrijecer. Meu cérebro não pensa mais. o que vaI dificultar quando forem vestir meu corpo. o nada nada ada da a 264 . Pensa no nada.

() misterioso homem ..macaco Como tudo comecou • .

ou se o outro não o agarrasse em tempo. Calorão da mata. a garrafa com café adoçado e pão de milho para mim e o Divino. braços levantados. musculosa. iam caminhando pelo galho pelado da peroba bem até a pontinha. nisso até se parece com gente. Se um errasse o salto. me cobriam a cara sugando meu suor pegajoso. fechada. Não sou chegado a carne de macaco. Meu rosto preto daquelas abelhinhas miúdas. bom veadeiro. pretas que nem mosca. Ao cão não incomodavam por causa do pêlo. sabor azedo. Era um bando de macacos que. o macaco. mas como eu não tinha comido nada até aquela hora. e dali um de cada vez dava um salto. Já ia por volta das desoras e eu ainda não tinha caçado nada. Pendurado pelo rabo num galho mais alto do ipê. também eu suava. ele caía e ia se esborrachar no chão lá embaixo. de donde seguiam caminho. Não adiantava espantar as bichinhas. Bicho danado de engenhoso. um deles apanhava o companheiro no ar e. atirava-o são e salvo num galhão grosso do ipê. Mata escura. também não arredavam dali. acho muito seca. tirando dele alimento para fazer seu mel azedo. mas também de muita serventia para outras caças. tanta a sede de nós dois. Mais de uma vez tive de atorar cipó com o facão para beber a água de dentro dele e dar para o cão. quando ouço uns guinchos ardidos.Eu ia sozinho cantando: Ta-tu Peba Tatu Pe-reba Ta-tu bola Tatu en-rola ~ i Eu ia sozinho mais o cão. Coisa até interessante de se ver. que não usava barba naquele tempo. máscara preta cobrindo minha cara e fazendo aumentar o calor sentido. que refrigério! Me sento num toco e vou tirando a garrafa do bornal. Segurava uma 28 de chumbo e nas costas uma Winchester 22. de raro deixando entrever uma nesga de céu muito azul sem nuvens. também pendurado o bornal com os cartuchos dos dois calibres. balangando-o. De vez em quando puxava o facão da bainha presa na cinta para abrir caminho na mata densa. prestimoso que era. 267 . faziam a travessia de uma peroba para um ipê vizinho. camisa molhada grudada no corpo. mas em mim. se não picavam. até o ipê. a língua do Divino sempre de fora. lá no alto. Depois de muito andar chego numa clareira. sombreada pelas copas de muitas árvores tapadoras.

catei a Winchester e me levanteijá apontando para o alto. Divino nem reparou na cena, entretido que estava com o seu descanso. Cachorro é bicho mais preocupado com as coisas da terra, o que se passa lá em cima não lhe interessa, senão já estaria latindo feito um condenado. Já o macaco, lá no alto, sempre se preocupa com aquilo que se passa no chão. Quando apontei a arma quase todos já tinham passado, sobrava só um retardatário no galho da peroba. Aquele outro que estava pendurado pelo rabo no ipê, quando me viu, num átimo pulou para o meio das folhagens e sumiu da minha vista. Mirei então o retardatário, sem o companheiro que fugira não tinha como pular para o ipê. No comprido galho onde estava não tinha ramagem para se esconder, e o tempo era pouco para ele correr até um lugar mais coberto: eu atirava antes. O que fez ele quando se viu perdido? Se meteu a gritar e pular de desespero. Não morreu ali na hora porque não atirei logo, me distraí, rindo que estava de suas macaquices. Quando o bicho se tocou de que eu ia mesmo atirar, pegou das costas um macaquinho bem pequeninho e o levantou nos braços para me mostrar. Vi logo que era uma fêmea com sua cria recém-nascida. Gritou, se ajoelhou e se pôs a chorar - macaco é quase como gente -, uma mãe me pedindo para eu não matar seu filho. A gente faz muita maldade na vida, e na hora não percebe. Eu, ali, fiz uma que fui pagar bem caro depois, caro demais. Mas na ocasião não pensei em nada, e dei com o dedo no gatilho da Winchester, Bang. O que voou de pássaro com o barulho! Tiro certeiro: a macaca despencou lá de cima - queda demorada de tão alta - e veio se estatelar no chão da clareira. Só então o Divino se deu conta e correu latindo para a caça estendida, morta. Corri junto, queria ver. Cheguei antes, e foi bom porque salvei a presa que o cão ia comer. Coisas de mãe que só Deus explica: não é que mesmo morta a macaca deu um jeito de proteger a cria?! Ela caiu segurando o filho e, quando bateram no chão, o corpo dela amorteceu a queda. Morreu bem mortinha, mas salvou o filho. Quando percebi que o cão, nervoso, rosnando, ia abocanhar o filhote, dei um pontapé no focinho, Passa, Divino!, e protegi o bichinho com as minhas mãos. O cão perdeu o filho mas ganhou a mãe, e aí abriu a bocarra e, numa sentada, devorou o cadáver morto da macaca, só deixou pele peluda e osso grande, o resto mandou para as tripas e ainda ficou lambendo o sangue do chão.
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tremia e chorava nas minhas mãos. Magrinho e miudinho, pensei, mas vai me servir de janta. Coloquei o bichinho dentro do bornal e com o calorzinho ele parou de tremer, aos poucos se acalmou, acho que até dormiu quieto, esquecido da morte da mãe. E eu peguei o caminho de casa. Na volta perdi o Divino. Caminhou uns tempos ao meu lado, normal, depois parou e devolveu tudo o que tinha comido, vômito verde, fedido. Aí passou a caminhar inquieto, parando a toda hora para se mijar, sem levantar a pata, que nem uma cadela. Todo nervoso, começou a latir e a correr em roda tentando morder o próprio rabo. De repente, deu uma guinada e disparou ganindo, e sumiu no mato. Chamei, chamei, mas ele não voltou; ainda pensei em correr atrás dele, mas a mata era muito fechada e desisti. Nessa hora o macaquinho pôs a cabecinha para fora do bornal e espiou, olhinhos bem abertos, a mim me pareceu que ele até estava dando risada. Percebi então que a queda não o tinha afetado. Chegado ao rancho, contei a caçada pra minha mulher e mostrei o macaquinho. Seu malvado, ela me repreendeu. Isso não é coisa de cristão fazer. Achou bonito o bichinho: Tadinho, deve estar com fome, o pequeno órfão!. E se tomou de dores pelo macaquinho. Foi tirar leite da cabra, e de um vidrinho com um chumaço de pano no gargalo aprontou uma mamadeira. O danadinho se achou! Era até bonito de ver aquele toquinho feioso, agarrado aos peitões da minha mulher, tomando seu leitinho adoçado com rapadura, chupando a mamadeira. E como mamava, o desgraçadinho! Não havia leite que chegasse. Não fosse, um dia depois, o cabritinho ter morrido de picada de cobra, não sei se a cabra ia ter leite suficiente para o sustento dos dois. Mamava tanto que dali a uns dias já estava forte e grandinho. Não sei se foi pelo leite de cabra, mais forte do que o leite da macaca sua mãe, ou se foi pelo fortume do açúcar de rapadura, só sei que lhe caiu quase todo o pêlo, deixando à vista sua pele enrugadinha, parda, mosqueada. E daí ficou ainda mais parecido com gente humana. Minha mulher andava com ele para cima e para baixo, se tomou de amores pelo bichinho. Não largava dele nem para cozinhar, enquanto segurava o danadinho com uma das mãos, mexia nas panelas com a outra. Para cuidar da criação e trabalhar na roça, levava o macaquinho atado nas costas. Ele bem que gostava, ficava o tempo todo agarrado à minha mulher, como se ela fosse a mãe dele, a falecida. Dormia na nossa cama, os dois abraçados como mãe e filho.
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o macaquinho

Tinha um pintão enorme, cabeça de prego, e para esconder essa vergonha minha mulher até fez umas fraldas, que trocava sempre que molhadas. Era muito dengue para uma criaturinha da mata, mas eu não ligava. Nossa filha já andava com doze anos, viçosa, bonita, carregava as tristezas próprias da idade, vivia ensimesmada, já não era companhia para a mãe. Nosso filho, Pedro, naquele tempo andava buscando ganhar a vida na cidade e quase nunca vinha nos visitar. Mulher é bicho diferente, tem suas coisas, suas manias, e desde que não incomode os outros o melhor é deixar. O carinho dela pelo macaquinho não perturbava ninguém, nem a mim nem à nossa filha. Se isso trazia alegria para ela, se diminuía sua solitude naquele rancho perdido no meio do mato, por que se incomodar, se existem tantas outras coisas para a gente se preocupar nesta vida que Deus nos deu?
Não é mesmo?

Assim foi indo até aquela noite da tempestade. Foi logo depois da janta,já muito escuro começou um vento forte, assobiador, e despencou uma chuvarada forte como nunca se viu antes, um verdadeiro dilúvio. Um frio úmido começou tão de repente que tive que me enrolar no cobertor. Era um relâmpago atrás do outro. A mulher queimou as palmas bentas e rezava assustada para Santa Bárbara. A menina tinha pavor de raio, se abraçou a mim fechando os olhos contra o meu peito, e assim ficou. Só o macaquinho parecia não se incomodar com o temporal, dormia o sono dos justos bem grudadinho na minha mulher. Foi a noite do cão. O medo não deixava ninguém dormir, nem sei como as águas não levaram embora o meu rancho, as horas foram passando e nada da chuva querer diminuir. Até que se deu o acontecido: na madrugada, nós três ainda acordados, assustados, molhados até os ossos pela chuva que caía pelos buracos do teto, e não é que de repente o macaquinho acorda, abre os olhinhos, se levanta, caminhando vai até o fogão, risca um fósforo e acende a lamparina? Na hora até que a gente não estranhou esse seu ato. Afinal, macaco é bicho esperto, achamos que o que ele fez não tinha sido nada mais do que imitar um gesto que tantas vezes nos viu fazer. O de causar espanto era ver a chama da lamparina, que, naquela ventania toda, se mantinha reta, firme, bem luminosa. O macaquinho veio se chegando perto de nós trazendo a lamparina acesa, nos olhos, bem nos olhos, e falou com um vozelrao grosso: - Eu me chamo João da Silva! Cruz credo, Ave Maria, te esconjuro! Já vi muito animal inteligente,
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mas nunca dantes nem eu, nem ninguém, viu bicho falar, ainda mais macaco. Foi um susto só: a menina começou a chorar de medo, o queixo da mulher caiu lá embaixo, os olhos arregalados, nem sei se de espanto ou terror. - Eu me chamo João da Silva! Dito isso, tirou o pinto para fora da fralda e, rindo de gargalhar, mijou quase ao pé da gente no chão de terra batida, mijou tão forte que abriu um buracão. No exato momento da mijada, caiu um raio tão forte, tão estrondoso que alumiou o mundo todo. Tão forte que a noite clareou como dia e derrubou o flamboyant que meu avô plantara na frente do rancho, queimando num fogo que nem a chuva conseguiu apagar, aquilo que talvez fosse a única beleza daquela terra. Eu me chamo João da Silva... foi assim que tudo começou. Foi nessa noite amaldiçoada que ele se revelou, que se fez homem aquele macaco amaldiçoado que em maldita hora eu fui trazer para dentro da minha casa. Esse macaco que fez o padre enlouquecer no dia do seu batizado. Que na escola onde foi aprender as primeiras letras atazanou tanto a professorinha que ela, coitada, abortou. Esse macaco que sempre tratei como filho e que abusou da inocência da minha filha, sua enteada, e fez mal para ela, matando minha mulher de desgosto. Que, com suas artimanhas diabólicas, fez meu filho Pedra pagar por ele, até hoje cumprindo pena na cadeia por um crime que o macaco cometeu. Que de tanto me judiar, me transformou no velho aleijado que hoje eu sou. Tanta sacanagem, tanta maldade, tanta coisa ruim esse João da Silva fez, e ainda faz em suas andanças pelo mundo, que se eu fosse contar levava a vida inteira e ainda não chegava ao fim. Não gosto nem de lembrar dos crimes hediondos que esse ser maligno cometeu. Mas, se você não tiver medo de ouvir e, para se precaver, quiser saber de toda a verdade sobre esse homem-macaco, um dia eu me armo de coragem e te conto tudo.

271

Mistério
~

maglco

.

Da ponta de seus dedos. na frente dos meus olhos!. num gesto rápido desvira o Rei de Ouros. setes. Somente algum tempo depois é que os espectadores começaram a bater palmas assombrados: Eu via um sete e ele se transformou num rei. vão surgindo outras cartas que ele vai atirando: noves. do nada. três. de surpresa e espanto e mesmo alguns risos nervosos. reis.. que tem seguro pelo polegar e o indicador. O Mágico domina sua platéia e não lhe dá folga para pensar. valetes . e atira-o em direção das mesas onde estão os espectadores sentados. Cartas de todos os naipes.Olhem fixamente esta carta! Viram bem? É um sete de paus! Correto? Errado! É um rei de ouros.. Óóóós 275 . damas.

outras ao lado dos amantes. justa no corpo. As luzes de cena criam uma aura branca brilhante em torno da figura esguia do Mágico e ofuscam a vista dos espectadores enlevados. O pianista tenta acelerar a música que toca. formando um pequeno bico no meio da testa. gravata-borboleta do mesmo cetim preto brilhante da lapela. toalhas de linho. membros do governo . a pergunta mais perguntada. olhos fixos na ponta dos seus dedos. "Caravan" de Duke Ellington. personalidades do mundo das artes. de roupa comum. Umas ao lado dos maridos. reis ... algumas velhas. nem tão moça. damas de caridade. o traçado do rosto. nem tão formosa. esbelto. sapatos pretos de verniz brilhante. a maquiagem acentuada. O chão do pequeno palco e parte do salão onde estão as mesas se cobrem de cartas: setes. meias pretas de seda. surpresos. O palco em semicírculo é uma pequena elevação ao fundo do salão. o porte esbelto. para colocá-Ia no ritmo em que as cartas vão surgindo das mãos do Mágico: cravo branco na lapela de cetim da casaca preta brilhante. peitilho engomado liso branco brilhante. mais elegante que muitos dos espectadores em seus smokings. Talvez.. Talvez se iguale em beleza às mulheres que a invejam. pele sem nódoas. que assistem ao espetáculo nas mesas do salão. rosto anguloso. cabelos pretos bem curtos esticados por brilhantina. encantados. summers e uniformes de gala. industriais. pernas longas. a odalisca traz um grande aquário redondo e o coloca sobre a mesinha de 276 . Enquanto as palmas ainda ecoam pelo número das cartas. algumas mulheres ousam desviar os olhos da ponta dos dedos do Mágico para se fixar na assistente vestida de odalisca. Que idade terá ela?. o rosto branco cortado em cima dos lábios por um bigodinho reto preto.o Mágico domina. Cortina preta brilhante ao fundo do pequeno palco. algumas com luvas. abotoaduras de ouro maciço. debutantes. algumas cobertas de peles legítimas. embaixadores. sem os sapatos de salto alto bem fino. As brilhantes luzes do palco em seu corpo bem torneado quase despido na fantasia de odalisca. todas em seus vestidos de noite decotados. algumas com chapéus. Algumas moças. talvez não seja tão alta. três. coberta de jóias douradas como o ouro do seu cabelo comprido solto.. a boca carnuda bem traçada coberta de batom vermelho. bigodinho preto bemcuidado. algumas ao lado dos parentes. Impecavelmente vestido em sua casaca preta brilhante. de onde as cartas surgem do nada. Na obscuridade. fazem dela a mulher mais formosa no salão. oficiais das três armas. Figuras da sociedade. loiro natural. fora das luzes brilhantes do palco.

subitamente. Caminha lento para a platéia. Depois. Pela frente. num gesto brusco atira a forma do aquário que tem nas mãos em direção aos espectadores. garçons solícitos. O Mágico faz gestos ondulantes com sua vare ta fina preta. caudas transparentes douradas. Ajuda a assistente a subir e a entrar agachada na caixa. e. com o Mandrake do gibi! 277 . lacrando-a com um cadeado dourado cuja chave guarda no bolso.longos pés de metal brilhante. Com o susto. Depois do susto. enquanto o Mágico cobre o aquário com um pano preto brilhante. as palmas da platéia. todos jogam o corpo para trás. entrega-a para a assistente e com as mãos suspende o aquário envolto com o pano preto. aproveitam para servir champanhe francês trazido em baldes de metal branco brilhante e. decorado com aplicações de meias-luas e estrelas de lantejoulas prateadas. para algumas mesas. o aquário desapareceu. Três peixes dourados de longas barbatanas. O Filho do Presidente comenta com um rapaz que está ao seu lado: Já sei com quem ele se parece. com muito cuidado para não entornar a água do aquário coberto. o Mágico abre a caixa puxando uma tampa presa por dobradiças na parte de cima. ainda em meio às palmas a bela assistente loira vestida de odalisca traz sobre uma mesinha com rodas uma grande caixa dourada. fecha-a e passa em volta uma corrente de metal dourado. com medo de se molhar: o Mágico tem nas mãos apenas o pano preto decorado com estrelas e meias-luas prateadas. trançado com finos fios de metal prateado. no centro do palco. Na pequena pausa. intranqüilos na água agitada do grande aquário redondo. em suas calças pretas paletós brancos gravatas-borboleta vermelhas. O Mágico não dá tempo para a platéia respirar. litros de uísque escocês e sifões em garrafas bojudas de vidro opaco.

para mostrar que as espadas estão bem afiadas. resto da fantasia da odalisca. sem saber o que fazer. o Mágico vai para a frente da caixa dourada e. com elas. o Mágico mostra a sua mão também limpa. Percebendo a agitação. cinco. Uma. quatro. com cuidado e muita força. Incapaz de esboçar qualquer reação. foi apenas mais um truque. Quando a ponta da sétimla espada surge na frente da caixa dourada. estrugem palmas que 278 . o Mágico retorna rápido para a platéia e põe o véu azul sobre a mancha de sangue no peitilho da camisa do Filho do Presidente. retira a corrente e abre a caixa dourada. seis. Alguns espectadores nervosos se levantam e procuram chegar mais perto do palco. olha horrorizado para sua mão manchada de sangue e. mas como ele fez isso?. Chegou a vez da sétima espada. voltando ligeiro para o palco. duas.Ao lado do Filho do Presidente. de sua camisa. Sorrindo. o pianista também se levanta para ver o que está acontecendo. A música recomeça. toca com a mão direita no sangue. que se acha atrás da caixa dourada. não vê o sangue que começa a escorrer através do buraco aberto pela espada: é pelo burburinho da platéia assustada que ele percebe que alguma coisa saiu errada no truque. Em seu andar cego. impecavelmente gomado. três. Nem o rapaz nem seus guarda-costas sabem como reagir. o Mágico choca-se com o Filho do Presidente. deixando impressa uma mão de sangue no peitilho branco. que estaria vazia não fosse um véu azul transparente caído no chão. que agora está toda em pé. assustado. já estará morta rasgada por seis pontudas lâminas afiadas. e quando ele puxa o véu azul a admiração é geral: a mancha de sangue desapareceu como por encanto ante os olhos de todos. dirige-se com passos inseguros para a platéia.já vem suja de sangue vermelho pegajoso quente. Toma a chave dourada do bolso. joga para cima sete véus de tule de sete cores e corta-os ainda no ar. O Mágico. É o próprio Mágico quem resolve a situação. a Modelo de Capa de Revista ouve e não entende a piada. Alguns gestos circulares com a vare ta mágica. que agora corre abundantemente. como um autômato. a caixa está toda transpassada. A platéia compreende tudo. Antes. O Mágico agora segura sete espadas brilhantes e. fazendo as pontas saírem do outro lado. abre rápido o cadeado. e entre exclamações de admiração. enfia as espadas na caixa. transpassa a caixa dourada onde está presa sua assistente. A música parou. Se a assistente ainda está lá dentro.

estendida num pequeno tapete azul. quando aberta. à sua espera. Porém. O Mágico está parado no início do corredor. enquanto o Mágico fechava a tampa. e ele terá de prestar contas àjustiça pelo assassinato. com certeza. tem que ser a do camarim onde a assistente está viva. esperando a volta do Mágico para. No corredor. Ele hesita. diferenciadas apenas pelos números de 1 a 3A . ninguém notou que a assistente vestida de odalisca não reapareceu para agradecer os aplausos. os garçons retomam o serviço trazendo bebidas. Finalmente. onde há quatro camarins. Uma delas se encontra chaveada. todos do lado direito.o Mágico agradece curvando-se num gesto de humildade. nunca ninguém havia visto truques tão assombrosos. todos com uma estrela dourada na porta e identificados pelos números 1. o conjunto musical assume rapidamente seu lugar no palco e começa a tocar música de dança. que entrará em cena logo mais. mostrará a assistente de roupão. aquela que o levará aos braços da assistente. sabe que tem que abrir uma única porta mas não sabe qual. sabe qual a porta certa? É uma mágica. Não posso reveláIa porque fere a ética . Foi vista pela última vez quando entrou na caixa dourada e se pôs de cócoras. é a do camarim onde o cantor francês. 2. E você. e somente uma pode ser aberta. pois prejudicaria os colegas: que graça teria um truque que já se sabe como foi feito? 279 . entre eles o Filho do Presidente com a Modelo. depois de um prolongado beijo. Qualquer uma das três outras que abrir e o truque não terá dado certo. abrindose a última porta encontra-se a assistente ainda vestida de odalisca. para em seguida recolher-se aos bastidores.é vedado a um mágico revelar seus truques. Outra. O Mágico dirige-se agora para o corredor no fundo do palco. Os espectadores sentam-se novamente. O comentário geral é sobre as habilidades do Mágico. qual das portas abrir. Iguais são as portas com a estrela dourada. aspira cocaína. Ele precisa saber. Alguns pares se encaminham para dançar na pequena pista. o Mágico hesita diante de qual porta abrir. morta ensangüentada pelas catorze perfurações por onde entraram e saíram as pontas das setes espadas. Outra fecha um camarim às escuras que não será usado esta noite.3 e 3A. sua companheira de mesa. qualquer uma das outras o conduzirá à prisão e à morte. Aberta. comentarem a repercussão do show. o preço que terá de pagar por não ter sabido usar com sabedoria seus poderes mágicos.

bem à sua vista. onde está a chave do segredo. a 2. 280 . De minha parte. você tem todas as condições de abrir a porta certa: pense. escolha. a 3 ou a 3A. executei o truque bem devagar. A da vida ou a da morte? Você tem que saber. Fiz questão de dar indicações para que você percebesse. com exagerado excesso de detalhes. abra.Ao executar a mágica destas páginas. claramente. eu passei a você todas as informações para abrir a porta certa: a 1. Vamos. É um truque entre eu e você.

A cadeira do diaho .Um mistério .

esferas de vidro azul e outros utensílios mágicos. se interessar por um mistério levantado pelo célebreAlexander Hermann (e. retortas. provetas. alguém que vive nos dias de hoje. meio voltada para a platéia. um armário baixo de portas envidraçadas com muitos livros velhos encadernados. segundo alguns autores. À esquerda. num país preocupado com os terríveis problemas sociais pelos quais atravessamos.Não vejo como isto possa interessar a você. filtros. alambiques. tratados de magia alquímica. exorcismos e pentagramas desenhados. uma panóplia com algumas armas brancas. A cena representa um laboratório de alquimista. em 1887? 283 . Ao lado desse armário. na cidade do Porto. Mas como pode. espadas e punhais remontadas por um elmo. uma cadeira de espaldar com braços. estofada de veludo vermelho. pendurada na parede do fundo. pelo não menos famoso Steward Chamberlain) em Portugal. papéis amarelecidos com encantamentos. À direita.

àquele obscuro gabinete: a busca de uma resposta. Não entendo como alguém acostumado comfrases curtas. a cabeça calva coberta por comprida e cônica mitra. bordados a ouro. não é? 284 . abre a porta e faz o Visitante entrar. para um angustiante problema de ordem pessoal que muito o aflige. consegue ainda se concentrar e acompanhar longas orações que reportam feitos passados acontecidos com personagens inomináveis. cerrada barba preta. vasta barba branca.Alguém bate à porta do gabinete. que não encontrou até agora. o Visitante revela-lhe a causa que o traz ali. O Alquimista. olhos pretos perscrutadores. vestido com uma longa túnica azul cerúleo brilhante onde vemos. dos quais a história não guardou registro algum e que não têm interesse aparente para os dias atuais. rodeados por estrelas prateadas. de textos ligeiros. das que usavam os antigos sacerdotes caldeus. Homem de uns trinta anos. Você não se inclui nesse caso. todos os planetas conhecidos até então.

o Alquimista degola-o com uma aguçada espada que tomou da panóplia na parede. Estarão todos acostumados a escritores de vocabulário parco ou a jornais e revistas ilustradas com textos breves de palavras fáceis? Será difícil entender o significado de certas palavras usadas para descrever objetos de um mundo ao qual não se pertence? Uma ajuda: panóplias são aqueles escudos nos quais se colocam diferentes armas e com os quais se adornam as paredes. o Alquimista. Tão logo o Visitante se acomoda na cadeira estofada. 285 . maliciosamente procura logo convencê-Io a descansar e assentar-se na cadeira estofada. a fim de observar uma grandiosa e maravilhosa experiência científica que abrirá sua mente para a compreensão de arcanos herméticos que muito o ajudarão na solução dos problemas que o afligem.sabendo que o Visitante carrega nos bolsos uma grande quantidade de dinheiro.

antes de consumar o odioso crime. cobriu a roupa do Visitante com uma grande toalha branca e colocou-lhe na cabeça um elmo medieval. líderes políticos. o Alquimista toma a cabeça cortada e coloca-a em cima do armário baixo de portas envidraçadas e volta para revirar os bolsos e roubar o dinheiro do Visitante assassinado. a toalha serviu para recolher o sangue derramado. para marcar o lugar certo do corte e impedir a vítima de pressentir o golpe.Após a degolação. sob o pretexto de protegê-Io das emanações dos produtos químicos utilizados na maravilhosa experiência que mostraria dali a instantes. . o elmo. ) e acostumado a ver a imagem deles movendo-se nas telas da televisão ou fixada em fotos coloridas nos jornais e revistas de grande circulação. a Cabeça Cortada põe-se a vociferar. o Alquimista. que também retirou da panóplia. a voz irada da Cabeça Cortada roga pragas contra o criminoso Alquimista. chefes de Estado. Na verdade. não sei como pode ainda se emocionar com uma sangrenta ocorrência entre um falso mago e seu ingênuo cliente.b Não sei como pode alguém. acontecida há mais de um século num outro país. De cima do armário. homens de negócios. Nesse momento. seu assassino e ladrão.. viseira cerrada. artistas . contra o Alquimista. 286 . habituado a textos jornalísticos que exaltam personagens reais destes tempos de crise (povos em luta. É bom ressaltar que.. enquanto o ensangüentado corpo decapitado ainda perneia. angustiada e revoltada.

lábios roxos da morte. de súbito. exclama com voz rouquenha. 287 . Nela aparece um terrÍvel demônio com chifres. e.Alquimista arranca dos bolsos do ensangüentado decapitado notas e moedas de ouro. ao som de sua estrepitosa gargalhada. uma grande chama negra surge do chão. quase sem forças. pele pálida graças à perda de sangue contrastando com a barba negra. Ao ver a alegria feroz com que o assassino saboreia o êxito de sua criminosa aventura. some com ele pelo solo. a Cabeça Cortada. abraçando-se ao Alquimista. de ódio: Que Satã te carregue para o mais negro dos infernos! o Nesse momento. o pano cai vagarosamente. Enquanto isso. numa estrondosa explosão de fumaça. vermelhos olhos abertos. vestido com sua infernal roupa vermelha.

resolver .Quem está acostumado a encontrar explicações científicas sobre o que leu. de David de Castro. e nem mesmo A cadeira de Satã. de Gley. Confesso que minhas capacidades não chegam aos pés desses autores. torna-se necessário: lº) Uma cadeira de espaldar cujas portas devem ser furadas da forma que se vê no desenho abaixo.espero eu . 288 . talvez espere que eu proceda de maneira semelhante aos autores de sua predileção. Não vou. Para o perfeito entendimento de A cadeira do Diabo. como se verá adiante. segundo a dialética do pensamento dominante. é claro. em 1888. ou Sur les mouvements musculaires inconscients en rapport les images. como ainda acrescentam às explicações respostas para os angustiantes problemas que afligem a humanidade. respectivamente em maio ejunho de 1884. de difícil aquisição nos dias de hoje.alguns problemas técnicos que expliquem os misteriosos fatos acontecidos entre o Alquimista e seu malfadado Visitante. editado em português por Lugand e Geneloux. Pretendo. isto sim. em poucas linhas. que não só explicam os acontecimentos com palavras claras. recomendar a leitura de A propos de Ia sugestion mentale. de Charles Richet. por serem obras há muito esgotadas e. ambos editados pela Société de Biologie. portanto.

289 . aparentemente. a qual deve ser coberta por uma tênue tabuinha apenas suspensa pela extremidade superior e igualmente pintada à imitação do estofo. A cadeira. deve mostrar o aspecto do desenho 2º) Uma espada. aCIma. a imitar o padrão do estofo geral. As costas da cadeira assim constituídas muito auxiliam o comparsa quando precisar ocultar a cabeça na cavidade.Esta cadeira tem externamente as costas forradas de tecido elástico pintado.

290 . para que ninguém veja a abertura e o gancho que tem atrás. seios bastos com bicos róseos. e cujo gancho serve para engatar no bordo superior das costas da cadeira. 9º) Um elmo aberto na parte de trás. Este elmo deve ser sempre mostrado de frente. ralos pêlos púbicos num tão volumoso monte de Vênus que só se lhe possam acariciar com as duas mãos em concha. 4º) Uma toalha branca grande. fossem simétricas tanto que uma igual à outra seria. a esquerda e a direita. as duas partes. caso se lhe traçasse uma linha reta ao meio de seu formoso corpo. 7º) Um terceiro homem para vestir a fantasia vermelha de diabo. em sua perfeição. quando estiver ele enfiado na cabeça do visitante. 8º) Uma bela mulher alta de lindos cabelos cor de mel.3º) Uma esponja embebida em tinta vermelha para simular sangue. 6º) Dois homens parecidos (comparsas). olhos glaucos. 5º) Pólvora seca. tal como mostra o desenho. boca carnuda. semelhantes por natureza ou por artifício. ancas anchas. Que tão exata seja que. e pele clara.

... ..... desde o começo. e não pode ser descoberto..--/ •... pintados de negro de modo a manter ao olhar a ilusão de profundidade. conforme planta reproduzida abaixo.... ~-~ . em virtude da distância de quem o vê..) que as prateleiras contêm e da obscuridade reinante no gabinete do Alquimista.. dos muitos aparelhos (frascos.. O ângulo de espelhos reflete as prateleiras e os lados internos (K) do armário.. ~ ···········__ ··--··r D ~ ~ 291 . um comparsa parecido com o visitante../ A . B c . esferas de metal etc.lOº) Um armário com portas envidraçadas (p) e aparência regular. mas encerrando ao centro um ângulo de espelhos (g). retortas.~ . . que deixa na parte de trás (H) espaço folgado o suficiente para esconder.•.

exultando de contentamento com o dinheiro que roubou. surge. o terceiro comparsa fantasiado de demônio. o Alquimista está absorto em seus estudos necrológicos. As cortinas se fecham. Usando a mão esquerda. ao "o que quer dizer isso?". através da fumaça e das chamas provocadas pela explosão da pólvora seca .Agora pratiquemos. vai colocar o elmo em cima do armário. pelo alçapão do palco. arrasta o Alquimista pelo mesmo alçapão. É o fim de tudo. encerrando o espetáculo. Então. que esguicha sobre a toalha como um jorro de sangue. deixando-o visível apenas do pescoço (coberto pela toalha) para baixo: como o elmo está com a viseira cerrada. Eu. introduz-lhe na cabeça o elmo adrede preparado e estende a toalha sobre o corpo dele. o Alquimista atira a espada ensangüentada no chão e. enquanto o Visitante finge os estertores da morte. volta a ficar vertical). que talvez nem mesmo saiba o sentido do que escrevi. e. à mensagem. Quando sobe o pano. o Alquimista. O Alquimista convence-o a se sentar na cadeira mecânica. FIM E quanto ao sentido do que foi narrado. É nesse instante que o comparsa que faz as vezes do Visitante se empurra contra o pano elástico da cadeira e enfia a cabeça pelo alçapão (cuja portinhola. 292 . Em seguida. Escusado dizer que o segundo comparsa. imagina-se que a cabeça ainda está ali dentro. que já estava escondido dentro do armário. Junto ao cadáver decapitado. Então. ZÁS!. o Alquimista põe a mão esquerda na beira do elmo e aplica com a direita o golpe fatal. enfia a cabeça pelo alçapão apenas o Alquimista pousa o elmo ali. com gargalhadas sinistras. o Alquimista espreme a esponja.tal como o leitor já deve ter visto nas cerimônias de umbanda -. Batem à porta e entra o Visitante. e era uma vez o Visitante. tenho que deixar ao paciente leitor a tarefa de achar um sentido para a vida e a morte também dos personagens desta história. trêmulo. cerra a viseira e busca uma espada na panóplia de onde havia tirado o elmo. cavernosamente lhe dirige. Em seguida. de cima do armário. pelo seu peso. é de súbito horrorizado pelas ameaças que a cabeça.

Um mistério no trem ..f antasma .

que realizou profundas investigações. Por volta das dez e quinze da noite. nem foi encontrada nenhuma explicação razoável para seu desaparecimento."-' Retrato falado de Jucélia Ramos Voc~ conhece esta mo7a? 295 .o fato aconteceu na fria noite de sábado no Parque de Diversões Alvorada. 17 anos. um dos grandes casos insolúveis de nossos arquivos policiais. particulares. seguindo exaustivamente todas as pistas levantadas. a imprensa.4:'::_ . . não chegando a nenhuma conclusão .. na mesma noite em que o homem chegou na Lua. 19 de julho de 1969. a quem conhecera naquela tarde no Passeio PÚblico. ajovemJucélia Ramos. constituindo o fato. o carrinho deixava o negro túnel trazendo apenas Astolfo Dagoda: sua companheira havia desaparecido misteriosamente durante o percurso. até hoje. Quarenta e cinco segundos depois. de 16 anos de idade. . entidades estudiosas de fenômenos paranormais e segundo alguns o próprio Serviço de Informações do Exército estudaram o caso. . Além da polícia.tiS. ' ~'. Jucélia Ramos nunca mais foi encontrada. embarcou no trem-fantasma em companhia de Astolfo Dagoda.

Do tamanho de um homem e vestido de ferroviário. ostenta grosseiras pinturas cujo colorido berrante representa cenas macabras: loiras semidespidas sendo atacadas por vampiros. Essas curvas são a graça do negócio. lobisomens. em frente do Passeio PÚblico de Curitiba.Desde os anos 50 que o Parque de Diversões Alvorada está montado no início da avenida João Gualberto. que fazem as vezes do trem e carregam dois passageiros cada. pois aumentam a sensação de desequilíbrio e velocidade. já fazendo uma nova curva e entrando em outro túnel na direção da parede da frente. Sua fachada. onde faz uma inesperada curva de noventa graus e arranca gritos de susto dos passageiros. múmias e outros monstros. Em seu trajeto. Os carrinhos circulam num monotrilho preso ao chão. O trem-fantasma é uma construção retangular de vinte metros de frente por dez metros de fundo. O trem parte. entrando veloz por um túnel reto em direção à parede do fundo. imitando uma estação ferroviária. um boneco mecânico de cera toca uma sineta de bronze sinalizando a partida dos carrinhos de ferro. entra na escuridão das paredes de madeira pintadas de preto e logo já vira. vão acionando as diversas figuras fantasmagóri296 .

Os 45 segundos desta viagem confiável. Uniformizado de chefe da estação. ficando por instantes à vista do público antes de mergulhar novamente na escuridão. "padeirinho". sita na rua Atílio Bório 1313. O trem-fantasma sempre atrai um grande número de curiosos. que estava sozinha. detendo-se a maior parte do tempo junto da jaula dos macacos. No túnel desta cena ficam suspensos no escuro vários fios de linha e aranhas de borracha. dando a impressão de que o trem vai se espatifar contra eles. apenas um funcionário do parque se encarrega de todo o serviço: recolher os bilhetes. A princípio a moça. bichinhos que lhe interessavam bastante. o "chefe do trem" solta apenas um carrinho de cada vez. na Padaria Aurora. sempre serão uma das maiores atrações de um parque de diversões de qualidade. ele entrara no Passeio Público com a finalidade de se distrair e. Empurra o carrinho para dar o impulso inicial e. porém cheia de sustos. Ficara olhando os animais do Passeio. aciona a trava que o faz parar e liberta os passageiros. na tarde de sábado. que mesmo o barulho dos carrinhos correndo nos trilhos não consegue encobrir. Vê se cai fora!". talvez. procurou afastá-lo: "Estou esperando meu namorado. Na ocasião o depoente era auxiliar de panificação. umas pequenas luzes que iluminam essas cenas macabras. colocar os passageiros no trem. que vibram ao ver a expressão assustada dos passageiros e ao ouvir seus gritos. Mesmo nas horas de maior movimento. Num pequeno trecho do percurso o carrinho sai do túnel. 19 de julho de 1969. trava conhecimento com uma moça que lhe pareceu bonita e ajeitada. Por volta das seis. Isso traz a desagradável sensação de que estamos rompendo enormes teias com aranhas que se enroscam em nossos cabelos. 297 . Numa das paredes do fundo há uma teia com uma enorme e repulsiva aranha negra. nas quais aparecem bonecos de cera em forma de caveiras. nunca deixando mais de dois circulando no tr~eto. por instantes. e fixar a barra de segurança que os impede de cair do veículo em movimento. seis e meia. Conforme o depoimento de Astolfo Dagoda (inquérito nº 365/69 da SSP-PR). conquistar uma namorada. bem na altura da cabeça dos passageiros. o que poria em risco a segurança dos passageiros.cas e ligando. terminado o tr~eto. enforcados. nos fins de semana. múmias e monstros de vários tipos. por volta das quatro da tarde.

não fumo. Ela riu e me disse: "Mão fria. fica tão engraçado a gente se ver deformado daquele jeito. mas esqueceram. Falou ainda que os patrões delajá estavam com a televisão ligada. naquele gelado". nébuIa. eles limam a mira das espingardinhas de ar comprimido e a gente não acerta uma. Atiramos no tiro ao alvo. trabalhando para um família no rico bairro do Batel. Ele lembra que a fumaça do braseiro se juntava com a neblina. segundo ele. Depois que ela vestiu o pulôver. Não sei nem quanto tempo ficamos no parque de diversões. Astolfo tirou seu pulôver azul-marinho e fez que ela o vestisse por cima do vestido branco de mangas curtas. ela adorava música e disse estar vindo do auditório da TV Paraná. Não. Escurecia rápido e havia esfriado bastante. para ver e ouvir o conjunto Os Vondas. ele pagou adiantado e ficaram de pegar as cópias meia hora depois. Entramos no palácio dos espelhos. e ela de mim.Jude".Atraído pelas maneiras dela. Falei isso e ela me sorriu. onde fora assistir ao programa Ponto 6. aos poucos ela foi cedendo à sua "boa conversa" e começaram a passear juntos pelo parque. que ia mostrar tudo quando eles chegassem na Lua. que ela trincou com seus dentes perfeitos bem branquinhos. eu segurei a mão dela e disse: Nossa! Como você está com a mão fria. Aí eu. quando ela sentiu fome comeram um espetinho de um churrasqueiro que estava com o carrinho em frente ao Parque de Diversões Alvorada. Segundo Astolfo. Segundo ele: Foi nesse momento que senti que eu gostava dela. não derrubei nenhum maço de cigarros. Abraçados. principalmente quando eles tocam aquela música dos Beatles "Hey. entretidos que estavam um com o outro. E tirou suas mãozinhas da minha. não senhor. Ela lhe disse chamar-se Jucélia. a Lua está comigo aqui. Primeiro afirmou ser estudante mas depois confessou ser doméstica. Astolfo Dagoda. Astolfo Dagoda afirma que pagou para ela primeiro uma paçoquinha e depois uma maçã do amor. para os lábios dela. coração quente!". finos cobertos de batom bem vermelho. agora. Teve uma hora que reparei que tinha um cara 298 . Ela falou com tristeza dos astronautas que iam descer na Lua naquela noite: "Imagine se lá tiver uma neblina assim. Jucélia Ramos. Nem sinal da Lua. que ia forte naquela hora. Astolfo insistiu e. tiraram uma foto num lambelambe do Passeio Público (atente para este detalhe). Ela falava sempre sem tirar os olhos dos meus e eu sempre olhando para a boca. pois não trouxera agasalho. Conversaram então sobre vários assuntos. de que gosta muito. falei: Não preciso subir tão alto. de um jeito tão bonito. noite escura.

Angenor de Oliveira cortou a corrente elétrica e. examinaram tudo e nada encontraram de anormal.ele pensou que era de medo pela viagem _ perguntou aflito pela moça que estava com ele. além do cadáver.. Ele. Foi ela quem me chamou a atenção. desta vez acompanhado não só de Astolfo. mas de outras pessoas alarmadas pelo mistério. Disse Angenor que.. depois fiquei sabendo que era lá pelas dez. Entretido que estava com as assombrações no escuro. não sabe explicar como. certamente teria sido vista. mas cheguei nele efalei: Que é. Até ali eu não tinha tocado nela e achei que na escuridão do tremlantasma era a ocasião de sapecar um beijinho nela. entrou nos túneis acompanhado de Astolfo Dagoda para ver se achavam a moça desaparecida. O padeirinho Astolfo Dagoda insiste em afirmar que entrou no trem-fantasma junto comJucélia Ramos e que ela desapareceu na escuridão durante o trajeto. não acreditava que a moça tivesse pulado ou caído do carrinho em movimento. Comprei as duas entradas. olhando muito para nós. Constatou-se que se a moça tivesse caído ou pulado e tivesse escapado com vida do atropelamento. Novamente nada foi encontrado. e entramos. Angenor de Oliveira. ainda naquela noite. só veio a notar o desaparecimento dela quando o carrinho completou a viagem. Angenor fez nova vistoria. resolvemos dar uma volta no tremlantasma para matar o tempo. voltara a verificar o interior do trem-fantasma junto com o guarda299 . 20 centavos cada. Não sei bem a hora. O que ele queria? Era bem maior que eu. se tivesse saído por uma das bocas dos túneis. Muitos curiosos se aglomeraram no local. cara? Qual é a tua. não poderia ter saído por nenhuma das paredes. Em vista da agitação e estranhando o desaparecimento. ela fatalmente teria sido atropelada pelo carrinho seguinte e haveria manchas de sangue pelo chão. na ocasião encarregado do trem-fantasma. Angenor de Oliveira. disse que havia algum movimento naquela hora e não põde precisar se Astolfo Dagoda entrou sozinho ou acompanhado. pois tínhamos acertado de ir no baile da Estrela da Manhã. que começa às dez e meia. Percorreram todo o trajeto. Astolfo muito pálido . Ô meu? Tá invocando com a minha cara?! Tá me achando bonito. Porém se lembra muito bem que. Aí aconteceu . com uma lanterna de mão. Se isso tivesse acontecido. Os depoimentos são todos muito desencontrados. que se encontravam intactas. coisa que nunca acontecera desde que ali trabalhava. alcunhado Caveirinha. quando travou o carrinho.nos seguindo. é claro. é? O cara mixou e deu no pé.

e. de repente. solteira. Já a depoente Cremilda Gomes. parda. 20 anos. quando o carrinho com o casal saiu para o claro.civil que viera atender a ocorrência. ela sumiu como se tivesse evaporado. testemunhou que. Afirmou ainda não acreditar em fantasmas e em almas do outro mundo. 300 . mais uma vez. nada encontraram de anormal. ela viu nitidamente o rapaz abraçado com a moça e que. doméstica.

não mais se apresentou.o rapaz pernoitara encarcerado na Central. O estranho comportamento de outra testemunha. No entanto esse rapaz nem chegou a depor: enquanto os outros entravam na Delegacia Central. quando na terça-feira a polícia técnica realizou exames no trem-fantasma. dizendo que se enganara. Contudo. quando os policiais já demonstravam impaciência.Que foi tudo tão rápido. e ela não deu na ocasião muita importância ao fato. Nada achou de anormal quando do exame do local. Astolfo Dagoda gritou que ele estava mentindo e que escondia alguma coisa. pois fora chamado somente depois do fato ter acontecido. mas que só falaria na presença do delegado. Karel Stephanovich. que trazia Astolfo Dagoda . que muita gente considera importante. Irritado. nada acrescentou de importante. segunda-feira à tarde. mudando-se para lugar incerto e não sabido. Retratista do Passeio Público. e logo o carrinho entrou de novo no túnel. Com ele foram as testemunhas Cremilda Gomes e um rapaz que não declarou o nome e disse saber tudo sobre o desaparecimento de jucélia. no domingo à tarde Karel foi procurado pela polícia. trouxe mais contradições ao inquérito policial. voltou muito pálido. porém. sub301 . Os policiais acalmaram o rapaz e intimaram o fotógrafo a prestar depoimento na Central. pois eram revelações sigilosas. pensou que fizesse parte dos truques do trem-fantasma para atrair freguesia. Essa testemunha. que não tinha tirado nenhum retrato e que nada sabia da história. O comportamento de Karel Stephanovich foi contraditório: primeiro disse que não se lembrava de nada. O guarda-civil nº 067. depois disse que lembrava e entrou na sua barraca para buscar as fotos que o casal esquecera de pegar. em serviço naquela noite no Parque de Diversões Alvorada. a princípio. e o endereço por ela fornecido durante seu depoimento na Delegacia Central não foi localizado. nunca mais retornou a Curitiba. encaminhou Astolfo Dagoda para apresentar queixa na Central. até a chegada do delegado Miguel Zacarias no domingo pela manhã. em vista da aglomeração de pessoas e da polêmica que o fato estava causando. segunda pela manhã Karel vendeu seu negócio a toque de caixa e saiu da cidade. Foi encontrado um pedaço de tecido branco que. A imprensa já fazia grande estardalhaço sobre o desaparecimento da moça. pensou-se ser um rasgão do vestido da desaparecida. Ao que consta. Demorou lá dentro e. alegando que ia pagar a corrida ele entrou no táxi e partiu para não mais ser visto.

sem conseguir novas pistas. de lhe aplicar choques elétricos para obrigá-Io a confessar. exigindo portanto sua imediata libertação. consta que manteve essa versão dos fatos. Quase um mês depois do desaparecimento surge uma nova pista: Almério da Silva. na época submetidos à rígida censura imposta pelos governos militares. O padeirinho foi detido para interrogatórios e. O Diário do Paraná. coisa de um louco para chamar atenção sobre sua insignificante figura. apesar de estar preso e incomunicável. e acusou a polícia de torturar o rapaz no pau-de-arara. a polícia começou a pressionar Astolfo Dagoda. O Diário do Paraná descobriu sua prisão. parapsicólogo de renome. Imediatamente o delegado Miguel Za302 . jucélia teria ficado ali até as buscas terminarem e depois saíra tranqüilamente. Frei Albino lançou a teoria de que a jovem teria sido raptada por seres extraterrestres. que considerava ilegal. A coincidência do horário do desaparecimento de jucélia com o da descida dos astronautas na Lua comprovaria sua teoria. levantou a hipótese de que jucélia teria descido do trem e se escondera num dos caixões de defunto que. chefiado pelo frei Albino Aresi. se abrem.jornal dos hoje extintos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Contudo. a polícia técnica levou os caixões para exame. acionados pela passagem do carrinho. mas em Curitiba corria o boato de que o desaparecimento de jucélia Ramos estaria ligado às atividades da guerrilha do MR-8 no Paraná. Como a hipótese parecesse plausível. e estavam tão cobertos de poeira que qualquer anormalidade teria ali deixado marcas. Esses boatos aumentaram com a prisão do chefe guerrilheiro cognominado O Bom Burguês e com o desbaratamento do MR-8 alguns dias depois em Apucarana. já o jornal O Estado do Paraná. encontrou no lago daquele logradouro um pulôver azul que seria o mesmo usado por jucélia naquele sábado trágico. Nada foi publicado nos jornais. achando tudo um embuste.metido a exames de laboratório. Ficou constatado serem muito pequenos para acomodar outra pessoa além dos bonecos de cera. do então governador Paulo Pimentel. deles se erguendo os bonecos ameaçadores. crime sexual que ele procurara esconder inventando aquela história toda. constatou-se ser parte da atadura da múmia. servente do Passeio Público. trouxe de São Paulo um grupo do Centro de Pesquisas Paranormais e Fenômenos Extraterrenos. Ou coisa pior: ele matarajucélia após violentá-Ia.

O jovem não foi encontrado.carias procurou Astolfo Dagoda para que ele fizesse a identificação. ou como se sua existência nunca tivesse sido percebida pelos habitantes de Curitiba. mas seu patrão. nunca mais foi encontrada. Por mais que se procurasse alguém que trouxesse alguma luz capaz de aclarar o desaparecimento. bastante atuante no Paraná naqueles tempos? A vingança de seres extraterrestres irritados com a chegada do homem na Lua? 303 . permanece o mistério do desaparecimento deJucé1ia Ramos. O que aconteceu naquela noite no trem-fantasma? O seqüestro de uma bela jovem para fins inconfessáveis. Hoje. nem patrões. provavelmente um crime sexual? A ação nefasta da guerrilha do MR-8. nem amigos ou conhecidos. afirmou que Astolfo. ninguém apareceu: nem familiares. pedira a conta e deixara Curitiba para recomeçar a vida num lugar onde não fosse conhecido. o padeiro Lidislau Pierko. passado tanto tempo. muito assustado e aborrecido com sua prisão e "tortura" (entre aspas porque nada foi comprovado). Quanto aJucélia Ramos. Era como se ela nunca tivesse existido.

São muitas as teorias e certamente o leitor terá escolhido ou criado a sua. armada sabe-se lá por quê? Ou tudo não passou de uma farsa hedionda do padeirinho? Perguntas até hoje sem resposta.Seria o trem-fantasma um lugar assombrado e almas do outro mundo carregaramjucélia Ramos? Foi tudo uma trama da própria polícia. Talvez um dia. num futuro que esperamos não esteja muito longe. A verdade sempre aparece. a verdade apareça. 304 .

Mistério Sapho () amor entre as mulheres .

Não deixou descendentes. onde teria parentes. dirigi da por Leo Martem. C. entre eles vários de D. as de número 1. necessitando urgentes trabalhos de restauro em laboratórios especializados. até as várias versões de A carne. Faltam diversos trechos. Foi encontrada uma cópia 35 mm com apenas quatro bobinas. passando pelo curioso Le film du diable (17). A esses vem se juntar agora Crispim Carmoro. dirigido por Antônio Tibiriçá. O que restou de Sapho foi encontrado num galinheiro em Almirante Tamandaré. da obra de José de Alencar. o cinema brasileiro tem vários exemplos de filmes eróticos ou pomôs: desde Lucíola (1916).O amor entre as mulheres é um filme erótico. no qual a atriz Antônia de Negri aparece nua. Desde os princípios do cinema são feitos filmes pornôs. após a morte do marido transferiu-se para Vitória do Espírito Santo. Contam-se nos dedos os estudos e pesquisas sobre o nosso cinema. que. é brasileiro. a de 24. amigo de Crispim Carmoro. realizado em 1899. Pornográfico. aos 85 anos. que também dirigiria Messalina (30). Para não falarmos do agora. se adotarmos outra nomenclatura. Crispim Carmoro teve portanto a quem puxar. Somente com os serviços de restauração será possível a feitura de um novo negativo. Ali ficara sob a guarda de Rodolpho Hertoso. Kerrigan. Criffith. Ali foram recuperados filmes. apesar do nome.3. como Dama ao banho.5 e 8. com partes totalmente meladas. A Cinemateca do Uruguai tem em seus arquivos a maior coleção de filmes eróticos primitivos. Arthur Rogge e João Batista CrofE. seus familiares passaram as latas do filme para as minhas mãos. de Annibal Requião. definitivamente perdida. considerado o pai da linguagem cinematográfica. 307 . Presumivelmen te Crispim Carmoro faleceu em 1928. e a bobina 5 está inteiramente empedrada.o cinema paranaense continua um insólito desconhecido. seis anos após ter realizado o que parece ser seu único filme. que faria Vício e beleza (26) e produziria Depravação (23). de E. permitindo a confecção de novas cópias passíveis de serem projetadas. Com a morte de Hertoso. apesar de alguns esforços iniciados principalmente após a criação da Cinemateca do Museu Cuido Viaro. Não pudemos confirmar essa informação. até então considerados perdidos. W. de Ceorge Melies. em 1975. de Luiz de Barros. e com a atriz que se escondia sob o pseudônimo de Miss Ray mostrando suas carnes. Sapho . Josephina Bello Carmoro. de quem acabam de ser encontradas partes do filme Sapho . dirigido por Vitor Ciacchi. e a de 26.O amor entre as mulheres. das oito que compunham o filme. A cópia encontrada está em péssimo estado. Consta que sua esposa.

Não se sabe se Crispim Carmoro tinha algum conhecimento técnico de cinema. Da mesma maneira que nenhuma das atrizes arriscou colocar seu nome nos créditos. ou pelo menos conhecido. nem se era italiano ou descendente. que buscavam inspiração na Grécia Antiga. As letras estão desenhadas sobre um cartão-postal com vista fotográfica do Partenon de Atenas. Emiliano Perneta e outros poetas do movimento simbolista. Lange de Morretes e Waldemar Curt Freysleben. Aqui passou a exercer a profissão de estucador. as imagens de Sapho têm momentos de rara beleza.Mas quem foi esse homem e o que o levou a filmar um longa-metragem erótico na provinciana Curitiba de 78968 habitantes em 1922. nem quem o iniciou nos segredos da linguagem cinematográfica. Através dessa arte tornou-se conhecido. que lhe cedeu ou alugou o equipamento para as filmagens de Sapho. é de se supor que mantivesse relações de amizade com Dario Vellozo. Em algumas velhas residências curitibanas encontram-se paredes com suas pinturas. É certo que não lhe faltavam gosto artístico e conhecimento de fotografia. ano em que acontecia em São Paulo a Semana de Arte Moderna? Sabemos pouco de Crispim Carmoro. Além das decorações em gesso.CURITYBA 1922. O único nome que aparece na ficha técnica é o de Crispim Carmoro como realizador. Em seguida vem o título: 308 . mas talvez Sapho possa ter sido filmado por ele ou por algum dos fotógrafos atuantes em Curitiba. de Annibal Requião. Apareceu em Curitiba provavelmente logo após a Primeira Guerra Mundial (1914-8). fazia pinturas decorativas. não só das famílias tradicionais da cidade mas também de pintores como Alfredo Andersen. O filme abre com um letreiro: PARTHENON FILMS . que preferiu não assinar o trabalho em virtude do tema ousado do filme. Sabe-se que era amigo. Pelo tema e letreiros de Sapho.

excitante e lascivo. na lassidão cálida de uma noite de verão. Dum egoismo atroz. quando o aroma de nardos. 309 . sacerdotizas de Vénus. para o doce sacrifício à Vénus. Lembrar que se trata de filme mudo. graciosas donzelas Entre gestos e corpos que me causam prazer. protegida pelo resplendente azul do jirmamento vago. E ainda: UMA Todos esses créditos iniciais estão emoldurados com ornamentos em estilo grego. JV1eu lugar é aqui. Não é no meio de tanta insipidez. em meio à fumaça. dum orgulho medonho. realizado por quem não dominava plenamente a linguagem do cinema. Sapho reune-se com suas amigas. Homens rudes e maus. e outro letreiro: Sapho. Sapho levanta os olhos em direção à câmera e se põe a falar (através de letreiros). aparece uma vista de palácio grego. Sapho baixa a cabeça.PELICULA CRISPIM CARMORO. prepara o altar Aí começa propriamente a ação do filme. Daí a necessidade de longos letreiros para desenvolver a açao: E sua complementação: Em seu resplandescente palácio na ilha de Lesbos. como que se dirigindo aos espectadores: o meu lugar não é em meio de vocês. de amor a gemer Entre rainhas como flor. Segue-se um longo texto explicativo dividido em duas partes. a bella sacerdotiza pagã. a Deusa do Amor. O AMOR ENTRE AS MULHERES. claramente uma pintura filmada. inicia grotescos movimentos de dança. Há um corte para um plano mais aproximado. de farto sangue quente. concorre para o enlace sensual dos corpos. Após esse longo texto introdutório. de semblante tristonho. Vemos meio de longe a atriz que interpreta Sapho pondo incenso num turíbulo sobre um alto tripé. termina de colocar incenso no turíbulo e.

a favorita de Sapho. o corpo delinquente sem pudm. Sapho invoca Venus . À medida que se desenvolve a dança. no seu seio Que frescura! Que olor! Que límpido gorjeio! 310 ."bachantes".Deusa Pagã dos amantes E conclama suas bachantes Para os embates do amor. sempre precedidas de um letreiro que as identifica pelo nome: Prokné .Em sua dansa. são mostradas as outras no filme só atuam mulheres .

virgem bela como Vénus. olhos de engodo e boca sedutora! 311 . Corpo rijo. Virgem de olhos glaucos e seios morenos! Hypolita .Aglaura .virgem pura.musa pagã de basta cabeleira loura.

odulante como o de uma serpente! 312 .Euridice . Liso. Formas tentadoras. rosto de mulher.escrava núbia de corpo ardente. sorriso de creança! Fátima .angélica expressão de causas mansas.

Com sua imagem termina o primeiro rolo.o termo mais certo seria rebolando .Esta última é a única negra que aparece no filme. representando o interior de um templo grego. O cenário. O que vemos é a repetição constante de imagens. fremente. arqueia o busto e num repente Elétrica se lança aos golpes tentadores. prossiga com a apresentação das celebrantes em poses lascivas. Almofadões. Essa bobina inicia-se com um letreiro: Sapho empina o ventre. em geral rolando pelo chão. não passa de um cortinado escondendo as paredes e um chão coberto por tapetes. Tudo lembra os cenários de gosto duvidoso utilizados nos estúdios dos retratistas da época como fundo de suas fotografias. As imagens que se seguem a esse letreiro são da atriz que personifica Sapho dançando . seios à mostra. É de se supor que o segundo. esforçando-se para fazer poses eróticas. nem cenas de sexo explícito ou de nudez total. se é que podemos chamá-Ias assim. arremedam roupagens gregas ou orientais. não encontrado. Provavelmente foram cortados por alguém que. Os trajes.entre as outras figurantes. Difundindo luxúria e provocando ardores Como se a carne houvera em convulsão. envoltas em véus e adornadas com bijuterias que simulam ser jóias de valor. 313 . Não há muita ação no filme. seminuas. queria se deliciar com as imagens das mulheres semidespidas. colunatas e alguns vasos de gesso imitando urnas gregas completam a cenografia. A bobina número 3 apresenta várias de suas partes meladas e faltam alguns trechos. olhando os fotogramas contra a luz. cadeiras de madeira entalhada. com a câmera estática focalizando Sapho e suas "bachantes" envoltas em véus.

Entre uivos do instinto a cupidez atua E uníssono se escapa um grito retumbante: . o corpo delinqüente Semi-velado ostenta às luzes multicores. nenhuma notícia da exibição de Sapho foi encontrada nos 314 .Dansa outra vez. Toda essa parte está tintada de vermelho pelo sistema de viragem . Arrastam-se coleando em silvos de serpente. foi reencontrado somente em 1984: sabe-se lá em que mãos andou durante todos esses anos. mas nua inteiramente nua! A imagem que se seguiria a este letreiro não está na cópia encontrada.tintura de anilina usada para dar um tom de cor aos filmes da época. deve ter sido tirada por alguém sequioso de excitar-se com a visão do belo corpo da atriz que encarna Sapho. esta cena está entrecortada com imagens das "bachantes" sempre em poses lânguidas. realizado em 1922. As bachantes deliram em lúbricos jurores. Além de mostrar Sapho dançando.Ei-la saracoteando. Devemos lembrar que o filme. Apesar de na época ser relativamente normal a exibição de filmes eróticos. Provavelmente seria a única imagem de nu frontal do filme.

em julho de 1923. na parte oito. a deusa de Lesbos. Contudo. Em seu lugar vemos o letreiro: fiM Assim termina SAPHO . reproduzem diante da câmera sempre imóvel a ação descrita no poema mostrado no letreiro. Todo teu corpo de sensual calor! Prender-me nos divinos novelos. deitadas no chão de falsos tapetes persas. O mesmo número de partes do filme de Crispim Carmoro.jornais curitibanos. Somente no final do filme. o pesquisador Jean-Claude Bernardet. então a zona 315 . Prokné. em seu Filmografia do cinema brasileiro. O anúncio da exibição não diz a origem. numa grandiosa mise-en-scene em oito partes". vemos as imagens de Sapho e Prokné enlaçadas se beijando. o filme termina com um letreiro: Oh! Até que enfim em carícias felinas Teu busto gentil ligeiramente inclinas E te enrolas em mim e me mordes a boca! A imagem da mordida não é mostrada. acontece algo mais forte: Sapho e sua favorita. Diz apenas: "Os escândalos de Sapho. e não faz referência à sua ficha técnica. mas a respeito dele ainda ficam muitas questões: quem foram suas "estrelas"? Prostitutas da rua Ratcliff (hoje Desembargador Westphalen).O AMOR ENTRE AS MULHERES. Quero beijar. E tal como começou. Quero pousar meus lábios nos teus de framboeza E neles. Tremerão nossas carnes no mesmo espasmo presas E nos confundiremos entre carícias ledas! Após o poema. nem mesmo se é brasileiro. O restante da bobina 3 é uma monótona repetição das atrizes improvisadas .quem seriam? . como a abelha liba o mel na rosa em fiar.a rolar pelos tapetes ou enrolando os corpos seminus nas cortinas. edição do governo do estado de São Paulo (1972). menciona um filme com o título de Sapho no Cine Royal de São Paulo. 1900-1935. sequiosa em delírio de amor acesa. Aranhol dos teus fiavas cabelos.

não quis assinar? Quem financiou a empreitada e o que se propunham os produtores com o filme? Lucro fácil ou algum outro objetivo escuso? Por que não teve continuidade a carreira cinematogáfica de Crispim Carmoro? Talento e capacidade não lhe faltavam.do meretrício de Curitiba? Ou seriam mulheres da sociedade curitibana que aceitaram representar por dinheiro ou outra razão qualquer? Algum poeta curitibano escreveu o "enredo" e os poemas do filme e. pudorosamente. 316 .

() mistério dos sinais da passagem dele pela cidade de Curitiha .

O local onde foram encontrados e fotografados é aquele grande terreno baldio no alto da rua xv.como que expelida de uma única vez -. de 21 anos presumíveis. também publicou as fotos na primeira página. Falo isso porque tal qual as imitações é uma peça inteiriça . do dr. Mais tarde descobriu-se que o assassino fora o engraxatejurandir Haus. O mesmo onde. onde o perverso assassino enfiara o grosso galho de árvore. porém tendo o decoro de esconder com uma tarja preta o sexo da infeliz moça.Indiscutivelmente são sinais da passagem DELE. morta com uma estaca de madeira cravada na vagina. vulgo Careca. a prostituta Márcia de Tal. Paulo Pimentel. A Tribuna do Paraná. o que provocou protestos generalizados. Olhando assim pode parecer que se trata de uma perfeita imitação em barro pintado. foi encontrada nua. alcunhada de Polaca. no dia 29 de maio de 1986. ao lado da caixa-d'água. de 48 anos. com dez centímetros de grossura e cerca de trinta de comprimento desde a 319 . dessas vendidas pelos camelôs e usadas para pregar peças nos amigos. que mantinha sua cadeira instalada na praça Tiradentes. O revoltante crime teve muita repercussão na época e a Folha de Curitiba publicou fotos do cadáver na primeira página.

com as costumeiras reclamações contra os serviços públicos. nem da notícia ATIROU NA RAPOSA E ACERTOU NA FILHA.ponta arredondada até a outra ponta no alto. e mais o cabeçalho. À esquerda do bolo fecal. mostrando ter saído de uma só vez. ELE leu esse jornal enquanto defecava e depois. todos com mais ou menos quinze por quinze centímetros. 320 . onde se lê: Segundaleira 2 de novembro de 1987 Ano XXXII nº 9. Examinando-se a Tribuna do Paraná daquele dia. a Rei dos Tapetes. a bolo encontra-se enrodilhado. na falta de papel higiênico. na página dez. três pedaços amassados e sujos da Tribuna do Paraná. caso contrário apresentaria outra forma que não a de um rolo. está uma parte da seção Cartas dos Leitores. e parte de um anúncio da Prefeitura Municipal de Curitiba intitulado Procura-se um fornecedor. Impressas em vermelho. nada foi rasgado da reportagem sobre o assalto da mansão milionária. com a manchete O Gênio abre o jogo. Provavelmente.062/24 páginas Às segundas cz$ 15. E também parte da foto da mansão do milionário assaltada no bairro das Mercês. as letras TRI. Nota-se que ELE teve a preocupação não só de escolher pedaços do jornal com bastante branco . reportando com fotos em cores a sensacional vitória do Coritiba por 3 x 2 contra o São Paulo. do caso do miliciano que roubou uma moto e do padeiro assaltado na saída do bailão. a outro pedaço que ELE usou para se limpar é o recorte do anúncio da Gronau na página onze. na Copa Brasil. mas também de não estragar partes que trouxessem reportagens interessantes para se ler.00. Do outro lado desse pedaço. a terceiro pedaço usado pega parte dos anúncios das Lojas HM na página nove e de Pedroso. onde se afina como uma cauda onde foi cortada pela contração do ânus. Estão inteiras as notas da trágica morte do ancião atropelado por uma locomotiva. A página policial também não foi mexida. vê-se que foi deixado inteiro o caderno de esportes. parte do título do jornal. Um deles é a parte da primeira página onde está a chamada para a entrevista com o ex-jogador de futebol Aladim. limpou-se com os pedaços que rasgou. E também que ELE se manteve de cócoras no mesmo lugar durante toda a defecação. uma poça redonda já seca mostra o lugar onde o jato de mijo penetrou no chão. A cerca de um palmo à frente.é sabido que a tinta de impressão provoca irritação no ânus -. que tem no verso parte do anúncio de página inteira do Carrefour Pinhais.

essas são observações rápidas e superficiais. mas não 321 . a marca da poça de urina estaria mais junto do bolo fecal . porém carrega fósforos e tem o sestro de. Muitas pessoas têm o costume de fumar enquanto defecam. aparentemente jogados ao acaso. Soubéssemos nós o tempo que ELE leva para dobrar cada um. Daí o cuidado de estragar somente as partes desimportantes do jornal. mais aptos estaremos a saber como ELE é na realidade. a intervalos regulares.se bem que esta última afirmação seja discutível. principalmente a céu aberto. ou pelo menos não sofre de diarréia. ELE tem o hábito de ler enquanto defeca. Porém. pode-se concluir que ELE não fuma. fosse o de uma mulher. É terrível dizer. e o intervalo entre um palito e outro. um caco ete: o de dobrar palitos de fósforos ao meio. Pode parecer escusado. pressioná-Io com o polegar. fosse ELE alto e pesado certamente suas pegadas seriam mais profundas. Do lado direito. isso sim. depois. E exames mais acurados da passagem DELE nos darão informações cada vez mais preciosas. como os três fósforos não estão queimados e tampouco se vêem tocos de cigarros. ELE não fuma. em seguida. ELE leu a Tribuna do Paraná enquanto defecava e. tanto física quanto espiritualmente. porém quanto mais dados tivermos sobre seu comportamento.ELE esteve defecando no terreno baldio. Durante o tempo que levou para defecar no terreno baldio dobrou três palitos. poderíamos determinar com precisão durante quantos minutos . quebrando-o ao meio sem contudo parti-Io. vêem-se três palitos de fósforos dobrados ao meio. podendo-se argumentar que foi o único jornal encontrado na banca.Provavelmente. naquele dia de Finados.a vagina fica mais perto do orifício anal do que fica o pênis. o que não acontece. levou-a consigo para terminar a leitura. No jornal prefere o "noticiário esportivo e o policial. porque isso ajuda a disfarçar o mau cheiro e a fumaça serve para espantar mosquitos. Tem. sem parti-Ios. e é leitor da Tribuna do Paraná . Porém. ELE não é muito alto e pesa pouco: apesar do solo arenoso do terreno baldio ser bastante duro e ressecado. formando um v sem estarem partidos em dois. Você mesmo deve ter analisado o que viu na foto e certamente teria outras ponderações a fazer.pois não acredito ter chegado a horas . Tem ELE o estômago em bom funcionamento. chegamos a uma série de conclusões: ELE usa o corpo de um homem. apoiar um palito nos dedos indicador e médio para. Examinando a fotografia com os sinais que comprovam ter ELE estado em Curitiba no dia 2 de novembro de 1987.

quando surge uma oportunidade como esta não podemos deixá-Ia escapar. não saberemos reconhecê-Io e certamente ELE não se revelará a nós. Por esse motivo. Somente agindo assim é que seremos capazes um dia . Corruptio unius generatio est alterius PUTRE factio 322 .sabemos com qual semblante ELE se mostra ao mundo: se algum dia estivermos na frente DELE.que espero não esteja longe .de o conhecermos na plena complexidade do seu ser e da sua obra. temos que nos debruçar atentos sobre cada sinal da passagem DELE sobre a Terra e estudá-Io incansavelmente.

A escrita japonesa e a planta do quarto são de autoria de Sônia Yamanouchi.NOTA BIBLIOGRÁFICA o mez da grippe.. 323 ... como os haicais. no bairro da Liberdade. em agosto de 1984. . "Tocador de biwa" é um desenho anônimo japonês do século XIX. em maio de 1986. 1982." são de Bashô. nº 116. Os haicais "Nesta noite . novembro de 1984.. "Sob o sino do templo . outubro de 1984.. A primeira versão desse conto foi publicada no nº 117 da revista Quem. de Curitiba. O poema "Tanto sonhei contigo . Criar. "Mistério Sapho . agosto de 1983. agosto de 1984. Tóquio.". Raconto. nº 113." é de Robert Desnos e. 13 Mistérios + O mistério da porta aberta." é de Isa. Curitiba. nº 94. O segundo conto." e "Tudo é mutável. Contos publicados na revista Quem: "Um mistério no trem-fantasma". 1986. Fundação Cultural de Curitiba.. foi traduzido por Valêncio Xavier. Curitiba.. japonesa o mistério da prostituta & Mimi-Nashi-Oichi. 1981. "Primeira neve " e "Esta estrada . 1985. passa-se num apartamento em Curitiba e teve uma primeira versão publicada no nº 150 de Quem. Novela.O amor entre as mulheres". Gráfica & Editora Módulo 3. "Conduz teu cavalo . nº 118. Mimi-Nashi-Oichi. edição em língua portuguesa de Bukkyo Dendo Kyotai. "Mercúrio mistério"." e "Ah. Curitiba.. 1983. Novella. A ação de O mistério da prostituta japonesa se passa em São Paulo... Maciste no inferno. "O mistério da porta aberta".. o passado " são de Buson. "Orvalho deste mundo .. Logos. Curitiba.. A "Mão com poema de Desnos" foi desenhada por Cláudia Suemi Hamasaki. o minotauro." são trechos de A doutrina de Buda.

1975. trilhas e traços. agosto de 1986. de Curitiba. A propósito dejignrinhas. Biografia. entre outros). nº 160. de nós.Um mistério". Criar. Novela-rebus. recebeu na IX Jornada Brasileira de Curta-Metragem o prêmio de melhor filme de ficção. 1986. Crônicas com Poty. É consultor de imagem em cinema e roteirista e diretor de TV. "O misterioso homem-macaco Como tudo começou". Meu 7º dia. nº 154. "O mistério da Sonâmbula". OUTRAS OBRAS DO AUTOR Desembrulhando as balas Zéquinha. 1994. trilhos. Além dos livros mencionados. Curitiba. Estudo. Panorama e Revista da USP. Memória com Poty. e "Os fantasmas do fundo de quintal . Como cineasta. 1989. entre outros vídeos. Fundação Cultural de Curitiba. julho de 1986. em 1933. Valêncio Xavier Niculitcheff nasceu em São Paulo. nº 152. No jornal O Estado do Paraná foram publicados dois contos: "Mistério do menino morto". Studio Krieger. publicou inúmeras narrativas em jornais e revistas (Nicolau. Curitiba. 22 de julho de 1990. Segunda edição: Curitiba. Fundação Cultural de Curitiba. por Caro signore Feline. junho de 1986. Curitiba. Segunda edição: Curitiba. Curitiba. Poty. O conto "Mistério números" foi publicado no nº 334 da revista Panorama. 18 de junho de 1985. 1964. 1998. Payol. Curitiba. Realizou. todos nós. Edições KM. e está radicado em Curitiba. São Paulo.Um episódio da colônia Cecília e Os 11 de Curitiba. 1986. O pão negro . Edições Ciências do Acidente. Antologia de contos com outros autores."Mistério mágico". 1973. 324 . 7 de amor e violência. Nutrimental. emjaneiro de 1984. Quem. Curitiba.

BSP LIV 11111111I1111111111 253734 .

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