VALÊNCIO XAVIER

o MEZ

DA GRIPPE

E OUTROS LIVROS

-~COMPANHIA

DAS LETRAS

Copyright

© 1998 by Valêncio Xavier Projeto gráfico: Hélio de Almeida,

com base em indicações do autor Capa: Hélio de Almeida Preparação: Denise Pegorim Revisão: Eliana Antonioli Ana Maria Barbosa

Dados Internacionais de Caralogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Xavier, Valêncio O

mez da grippe e outros livros / Valêncio das Lerras, 1998.

Xavier.

-

São Paulo: Companhia Bibliografia. 85-7164-810-7

ISBN

1. Contos brasileiros I. Título.
98-3379 CDD-869.935

Índices para catálogo sistemático:
1. Contos: Século 20 : Literatura brasileira

2. Século 20 : Contos: Literatura brasileira

869.935 869.935

1998

Todos os direi tos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 72 04532-002 - São Paulo - SP Telefone: (011) 866-0801 Fax: (011) 866-0814 e-mail: coletras@mtecnetsp.com.br

ÍNDICE

o mez da grippe, 7
MacÍste no inferno, 81

o minotauro,
13 mistérios
+

137

O mistério da prostituta japonesa

& Mimi-Nashi-Oichi,

181

O mistério da porta aberta, 203

Nota bibliográfica, 323

OMEZ DAGRIPPE
novella

colorida com tanta naturalidade que a natureza não poderia ser. MARQUÊS DE SADE . nem mais expressiva.Vê-se um sepulcro cheio de cadáveres. Esta macabra execução é de cera. desde o instante da morte até a destruição total do indivíduo. nem mais verdadeira. sobre os quais se podem observar todos os diferentes estados da dissolução.

::~~ I~ _~jSI!IQ9:~ -ti 27 121 lói l' 91~~llfl~ ~I 3.1918 Outubro QTTUBRO ==--~--=-. !~ll!1 ti.:~ti 6 Alguma coisa .:!4~!..~S..IiHi00131i -113114:!2i~3. 20 I I~IIRi l():_~.

.. I. Em Paranaguá. que se disseminou com as populações com sigo o cidades. ta com um governo que con. com o mesmo fim dos do Rio. 10.- O t·jX u Os jornal)" ua bru" se maui-. o ! D. os hospedes fluminenses não s6 padeceram da molestia.~ presidente Wilson não fra. Barbosa..A paz está interrompidalo. I FO~~ tinúa a te de crimes ==== ====commeHer toda a sor. n'aquella epocha. De Antonina e Morretes seguiram para aquella cidade. Folgaram juntos e cada um dos residentes em Antonina e rapidez entreMorretes trouxe das referidas gérmen do mal.lTUN.~~~t da. Relatório do Sr. Dr. Um homem eu caminho sozinho nesta cidade sem gente as gentes estão nas casas < grippe 13 . Trajano Reis director do Serviço Sanitario.illN(. alguns patricios do Sr. J WA.':. Do Rio de Janeiro vieram assistir ás bodas alguns syrios. por sua vez. como também a transmitiram aos patricios e á população. I deE~ Em Paranaguá. que estavam com o mal incubado. ia effectuar-se o casamento de uma filha do syrio Barbosa.

RIFIQUE M OLOUVRB RUA QIJINZE DE NoveMBRO. No tiene casi que nada No passa.. 43 5.'N. .... - DIA 20 DOMINGO $ A Allemanha vae capitular A SEMANA RIMADA "La influenza espanoIa" Esso todo.-----------------------------_ . cosa esquisita I De una . gran espanoIada J eca Rabecão O COMMERCIO DO PARANÁ li OORTIIVAS • 14 OORTINADOS BRIZE-BIZES • IJRAI.w ESTORES OS SORTI MENTOS QUE APRESENTA VE. CI".. Ia gran grita.

22 DE OUTUBRO DE 1918 O SECRETARIO . mas eram bem poucos. CORITIBA. Tinha os muito ricos que faziam enterro com carro. cavalos de penacho."E. era a pé.RICARDO NEGRÃO FILHO .DIA 22 TERÇA o DlRECTOR DO SERVIÇO SANITARIO MANDA AVISAR AS EMPREZAS FUNERARIAS QUE FICAM PROIBIDOS OS ENTERROS Á MÃO. A maioria a pé. DONA LÚc1A ." 15 . Iam carregando o caixão e as gentes a pé acompanhando pela cidade inteira até o Cemitério Municipal. foi assim. pano preto.1976 por muito tempo. ENQUANTO ENTENDER NECESSARIO Á BEM DA SAUDE PUBLICA E QUE OS ENTERROS DOS QUE FALLECERAM DE MOLESTIAS TRANSMISSÍVEIS SERÃO FEITOS SEM ACOMPANHAMENTO SENDO O CADA VER PROMPT AMENTE REMOVIDO PARA O NECROTERIO DO CEMITERIO MUNICIPAL.

A infeliz. COMMERCIO DO PARANÁ 16 . noiva do assassinado.. que pedia para ver o cadaver de seu noivo: pedido a que os guardas depois de muita relutancia resolveram acceder. lamentando a sua triste sorte. COMMERCIO DO PARANÁ ~=============" IIVida Social .~=======~ II Positivamente a vida humana não vale um caracol .UM CASO PUNGENTE Quando o povo se achava agglomerado em frente ao botequim. ao ver o cadaver do noivo. chegou ali Maria Esteves. cahiu debulhada em lagrimas..

. Ch.Tia. (. p"'ico le.. nl2'ral J. h"je a. de 2. i.ee assieti. do Corrttlo .o.hes o in" em THEA'lRO MduzidUi·. MazzR.litares.C. carpacldade e disciplina lar clnen:""It·d& I e Que continuam~nte dão Ilobejas t-em. Fora. vando na e çü'o vudes-..f unidades para.'.• I_ :.onlo ANCS de Magalhites.rio para que a instruc· 'tla neral comp-le:ta" a del'lejar na . hontem·· Ct8&8 da.stifi.=""""'======================.IlOS._-. oi!tt'icia.. ga.:rnandes Jonsen Tavares.o..ado de seu.•."i.Q do ParanA...oe.vprnl). A..do ~ que' deve ter notado o m'uito l. (' f':<talH'\{'ciIHcn.do. &- Por todO<:! esses nlotiv06 apresen to minhas felicitaçõE"1iI aos sr8. A.: . onBl<u. feita por 80rte rooalhiu no. Und ~. _ "Diarlo" l ..••• ~'J.l O cOl.ar€'s desla cU\lital."HONEl lI08 -. cumpro (l graRI-o wn I'rupo' tu deVe!' de Jlllul:('ar que me IHll'f'ce ques m de te ra conl!a.o F. que se encarregou do Com numero rel.lle :p de 3.•• . gC'nt'n1.l"a[ I. agradeçendoJ.•. Devo citar t<l.. declamado Q _11:.' ledico. que o PaI hontem u'n& c& Para. lho l!!obre alcooliemo.e •. Frail1ce a com. eervi(:o de con!erencl&!l 1I0bre h)'" giene.e . {. g(' eS'[orç:C»! ~IO[' 'ÜilE'_ di:.ide ficado ~uti8felta.C' ser ter deixado de<Vlda conta.° H.sre. belIl como aos o1iri-cille8e praças.! obseI"Vou. de T~ nca..nfltruccão mi c3t1a um.: 1. __ . C'--"ro"t:"- U/. general Barbedo a esta cir· cumscripção Ul':<laçamml da.sita-g {jUe' fl'7. e capitão Seba. o a pa.O "'E1d." I~ ~~osen~. Que ã.•. obteve C1-rmde Aprovoito ainda oppor>tunidade pars. 'J)elJ.e:. 'P~I~ "Chllro-. qus. delicada. AUI ter sido a 1lI('J-hor 1l()S~lvf'1:t IllT\lJ"('S são rN'(>hida (1('1" mt'l'Imu ar.:1Ilu8~~~~O da~ PO:lu1açõe. '\Se ~1 dOrf~!l Í1'ancezea Termin:W~l a In:-lpecC.rat'l.iacs e a d('[i$ipncia do ma· teria. com mandantes de unidades e dirE'e-torE's de e8ta~leêlmento!i mj.• Theatrosi "'A'$~'_ THEA'i'RO· anima._..n~ -f.')Il.' ítuiçlo' é A Q.!.a: si'8tene !Annun{' a.ndante dt'Mta rogiíi.l'C&n~ PAlA'-C: O Ta \. di l. der doA'UoT". com...)lndo provas.S. a pense ta. O puseio militar no dia.::===============DiJ'cctor: Generoso nor~l'~ DIARIO FOLHA DE MAIOR CIRCULAÇÃO A inspecção do sr. do 2. dr.:a. M. miHtar ao. A. que 'Proouziu um beBo traba. pelo SI'. .sa.l lll'C'~~. &.1 teresse sempre patente&-dono cum. ord~l" du dia ho .· eommal'ldan tchf"Qullri<e de.no Saldanha. 12 de tubro re. primento dos seus deveres e louvan AMER:'CA Cl do-os 'pela.•ba.s das div<lrsas t exame ._. ~omma.cf.I.q..:.-elou o ass-eio. Je baixadQ. todos empregados. ma"._.~ula.fizcra....'oroue-l Olava CO!'TI'ia a se-guinte parte que se refer~ 11 visitl. !uneet-o. !i1m ••As ·feduzl chefe Se-r ....UC se gaJ10 di wppril tem esforçado 09 . da 2. lendo tudo 1'01' mim [l{'Om'llallh<ldo em to inforntR':1O de (das as v.1tt!.de. major dr.. f(T. parecendo tn autorld. 'O'f!tcial Ant.uiz B8Tl>edo. I --. gcu(.. '---- NO PARAN.lor mll5l é'ê O trL'1l!1mo tos milit. felicitar os srl!!. (IUC'b~ -tante concorreram para os resulta doa colhidos.8 "Protê&". e aspirante â. Lj 2.B<ldac:ção • OftlciJulo 'W.. ficou a.o Pin to da Silva.' ~~ .m conferencias militares. da Cir cumacrlpçi. PAGINA --- •••• ••••-----'Andradtl - guintes Grs.1 A influenza A Syrla e n s-.r.' COI'lIO.brlcl& nt>-do Rego Ba. 15 de Yovtlmbro.l'1. 'exh. TU&.0 R...'ommnndunte (ll'sta l'l'giAi(.u hOn A designação desses ofriciaes que era.'C" Jpgo.ra.!!fle Çao cine:ra&togt' CONTINUA NA 2.. lU "'ndlM"e\o teleg.: tes.•• . SOllr -e Tripoli. do o gran Que 17 viço de Saude e Vetel'lna.1m ~·O l!oje ~ 9.nall da 11"a.hoY-.•.-te •.. l!am~ f''''f'rci~."ptn1aacl( tod08 -lyt~.el!!que granrde fim -de .ül hnpt.0 t&nen-te j<"a. E: ir"" o reBultullo dos ao sr.roo 84 tend -ciplina aqllella com das unido.'. eetot'\. .0 tenente Adria.lta -de folffk. rim.Zlo pelo ar. cir'cum6Cripcli. 'JIt .obom exito e.4 o que grande. tle inspeccílo dg ST.l. do· 4.me-n'al.l. para conveni-ent<· litar fo~e rni·nistrada m-ente e sem embar-aços. Olegario de Vasconcellos. M.. oMiciaes e '1. capiotão JOü. E.rnbem o sr.]dido I.° B.

DR. BEM COMO QUE NÃO CONCORRAM AOS LOGARES ONDE HOUVER AGGLOMERAÇÕES DE PESSOAS. SR. TRAJANO REIS DIRECTOR DO SERVIÇO SANITARIO DO ESTADO 22/10/1918 Entro na casa a porta sem chavear alguém que saiu para voltar e não mais voltou entrou para sair e não mais saiu Não sei porque entro entrei nesta casa onde nunca entrei Pássaro em água estranha Vagueio pela penumbra do corredor pela porta entreaberta vejo 18 . ATÉ QUE TERMINE A EPIDEMIA NO RIO DE JANEIRO.CONSELHO ACONSELHAMOS AOS HABITANTES DE CORITIBA QUE NÃO SE VISITEM. MESMO QUE NÃO HAJA MOLESTIA NAS CASAS QUE PRETENDEREM FREQUENTAR.

uma sentença! Um conselho em cada esquina E a série de disparates Boas risadas propina ... Cada coro. Mas eu. pensando no caso..DIA 23 QUARTA MUSAALEGRE Não há nada neste mundo Que mais possa aborrecer Do que cruel "que brade ira" Sem vintem pr'a dispender Esteve aqui a Olona Com Salvat .. atrapalhada.o bello par E não pude uma só vez Os mesmos apreceiar-p! Não vos sei tambem dizer Porque houve tal vazante Si por andarem como eu Numa lizura berrante Ou si por cousa diversa: Por se meter na cachóla Do povo qualquer receio De companhia "hespanhola" fUCA VIOLA Pois que d'elln só se falla N'outra cousa não se pensa E anda tonta. Prá não adoecer Tomo o conselho do Lauro E deixo o barco correr DIÁRIO DA TARDE Manuel Salvat 19 . A propria gente da "Imprensa" O Lauro Lopes já disse: Quem quiser ser forte e "são" Beba limão com cachaça Sem abusar do "limão" .

official do registro civi~ que hontem e hoje..~"" -s_. elegante -..Ilctor "1101'1111:111 GEORGE W ALSH ~ma na~ mai~ ij~lla~ronu~~õ~~ ~ --'--'--~c. ------."---COMP. não DIÁRIO DA TARDE se registrou obito algum nesta capitaL 20 .--------ii .--~~-~-"- -- ~-- ii ====::.Jla : CAMINHO extl'l\I)r(i1nuri'l DE BERLIM RIII('rf('IUlo: dI).~. n~ r~t __..- O peeopd dos treeottds DIA 24 QUINTA --------------- NA BELGICA OS EXERCITOS ALLIADOS VAO LEVANDO DE VENCIDA OS ALLEMÃES NÃO MORREU NINGUEM Informa-nos o sr.~'~.. CINE TH[ATRAl PARAt~A.(]eqtral HOJE • lIOJE gl'ltllIJO o A Creaçi\o ncontecÍmcnto ela Mmll.=.J~~. Benedicto Carrão..-~--_.

«Ccmmerrio I do Parará» Em virtude doccido de terem a· al~uns possivel dos not sos não com operarfos a ultima nos foi hora.JOÃO ANTONIO XAVIER PREFEITO MUNICIPAL 21 . EPIDEMIA ORA REINANTE EM DIVERSAS CAPITAIS DO PAIZ. BEM COMO DA CAPITAL FEDERAL. se subir a serra pela linha ferrea ou pela estrada da Graciosa. CURITYBA. Parecia a cidade dos mortos. A peste! EUa não nos visitou ainda. PRINCIPALMENTE Á NOITE. meio favoravel á sua propagação virulenta. TENDO EM VISTA QUE AS DIRECTORIAS DE SERVIÇOS SANITARIOS DA CAPITAL DE SÃO PAULO E DESTE ESTADO. ACONSELHAM INSISTENTEMENTE QUE SE EVITE AGGLOMERAÇÃO. AFIM DE IMPEDIR A PROPAGAÇÃO DA "GRIPPE ESPANHOLA". ria "Famílias inteiras. ~oie sa· mat.Commercio do RESOLVE. fazrr de a que a edicção hisse com tod d de redacçãD. não encontrará aqui ensachas. (Sebastião Paraná . Não houve casa que não tivesse alguém doente. E." DONA LÚCIA - 1976 DECRETO N~ 132 O PREFEITO MUNICIPAL DA CAPITAL. SUSPENDER O FUNCIONAMENTO DOS CINEMAS E OUTRAS CASAS DE DIVERSÕES DESTA CAPITAL. não nos visitará. 24 DE OUTUBRO DE 1918 (ASSIGNADO) . COMO MEDIDAParaná) PREVENTN A CONTRA A INVASÃO DESSA EPIDEMIA.

COMMERCIO DO PARANÁ 22 . Napoleão Lopes effectuou hontem a prisão do germanophilo Roberto Thomaz que no "buffet" do Theatro Hauer teve palavras ofensivas às nossas instituições e ao governo da República determinadamente ao sr. Chefe de policia. presisente Wenceslau Braz. se manifestava tão favoravel á Germania e tão hostil a nossa Republica. dr. O referido germanoplhilo foi recolhido ao xadrez .. às 23 e 30 horas. deu essencia do seu acto.. por escripto. Ouvindo aquelle advogado palavras insultuosas á nossa Patria. que assim. voz de prisão.OUSADIA BOCHE O distinto advogado criminal sr. á ordem do sr. immediatamente á chefatura de policia. para exemplo. indo. onde.aquelle subdito sueco. deu.

tKuma. EM 25 DE OUTUBRO DE 1. e IIt~n."l cOlltêrn meia agua. a da aliança por sobre o lençol branco branco braço nú. SE:: u.DIA 25 SEXTA o PAPA INTERCEDE PARA QUE A BELGICA NÃO SEJA DESTRUIDA PELOS ALLEMÃES Mãos grandes como de cavalo. COM A POSSIVEL URGENCIA. ONDE EXISTE AVULTADO NUMERO DE DETENTOS. A DESINFECÇÃO DAS REFERIDAS PRISOES. DA GRACIOSA. AS NECESSARIAS PROVIDENCIAS AFIM DE SER FEITA. "SENDO NO MOMENTO ACTUAL DE GRANDE NECESSIDADE PARA A SAUDE PUBLICA. parca seara de louros pelos OFFICIO DO DR.Lricatte U<JO Esta t.. SOLICITO A V. A HYGIENE QQUE SE DEVE MANTER NAS PRISOES DOS POSTOS CENTRAL.918.t\SSE.dquer OU~j'·1 synOD)"m(i .10 f.oIIMERC[A~iES LATAS.C::U~. CHEFE DE POLICIA AO DIRECTOR DE HYGIENE DO ESTADO DO PARANÁ. SAUDAÇOES. INCHEI: "JSSAS PEARSON r.A."LT~~~. REFUSE:~ OS R~CJP!F. EXCA.\lIm J. das lffillaçocs.. tem nada que ver com qu. A esquerda. 23 . A direita assentada sobre o lento respirar do seio rijo. PORTÃO E DESTA REPARTIÇÃO.!lTES D'FSTA r.:. NeDhlUn 'recepta'àulc o MELHOR DESINFECTANTE genulno qU<I nôo tonba o nom~ .:u~a WILLIAM ".Jod"1 'deAi/lrect:}'Lte SEitI ESCRUPULOS TOR~AM I. LINDOLPHO PESSOA.

Esse facto suscitou hontem em certas rodas. dizendo-se abertamente que a molestia invadira a nossa tenda para obrigar-nos á uma formal retratação. Mas em mim deu fraca. commentarios ironicos em torno da nossa attitude em relação á epidemia da "grippe espanhola". 24 . como num outro mundo. sim.918. devido a uma interrupção inesperada do trabalho em consequencia de terem adoecido operários da secção de composição. aliás commum na estação que atravessamos.0 ANNIVERSARIO DA ENTRADA DO BRASIL NA GUERRA ACTUAL.1976 DIA 26 SA'BADO DECRETO O SR. prostrada sem vontade. PRESIDENTE DO ESTADO DECRETA QUE SEJA CONSIDERADO DE FERIA O DIA DE HOJE. continuamos firmes em nossa attitude pela razão de n[o ter sido de "gripe espanhola" verificado ainda um só caso n'esta capital." DONA LÚCIA . obrigando-nos assim ao sacrificio de materia redactorial cuja inserção foi absolutamente impossivel. os casos de doença existentes. DR. Não obstante. NAS REPPARTIÇÔES ESTADOAES EM COMMEMORAÇÃO AO 1. COMMERCIO DO PARANÁ "Fiquei. fiquei dias caída na cama ardendo em febre. tratando-se de simples grippe. 26 DE OUTUBRO DE 1.NÓS E A "INFLUENZA" A nossa edição de hontem saiu muito aquem da espectativa.

I~ =. José da Gaita DT *l["õ@:~l@l~.jl~H. os cultos de costume..• . . ninguém morre. a Egreja Evangelica Presbyteriana da rua Comendador Araujo resolveu não realizar amanhã.*.que bola! Limpo e relimpo as lunetas Nada. domingo. peito.~... a hespanhola.~~~~~~. DIÁRIO DA TARDE 25 ..NA SERVIA NA BELGICA E NA FRANÇA OS ALLIADOS A VANCAM VITORIOSOS "A HESPANHOLA" De manhã abro as gazetas nenhuma nota ... .. nada de hespanhola. ----- .. A policia nos socorre Toda noticia degola -Aqu~ de vez.J ------------. pulmO~se garganta. I Os olhos costurados pela febre loura linha a mesma que tece seus cabelos AMANHÃ NÃO HAVERÁ CULTO Attendendo aos conselhos da Inspectoria de Hygiene. Foi p'ro xadrez.

mas também abertas não continuem as egrejas. pondo ao sol um lodo podre e capaz de infeccionar o ambiente. com grande perigo para a saude publica. Fechemos os cinemas.. De molestia infecciosa houve apenas um obito.1976 VARIAS Phenomeno unico na vida coritibana accentuando o contraste de somente em epoca de epidemia ás portas do Estado e quando se pretende espalliar o panico isto se dar: ha trez dias que não é registrado um só obito numa população de 80 mil almas. Nestas condições. 39 pessoas e faleceram 19. Hontem. Deus vendo a creolina penetrar no seu templo certamente se sentiria diminuido em meio da radiosidade de seu prestigio .DT "Remédios não havia.Depois raciocinemos um pouco. Durante a semana ultima de 14 a 20 do corrente.. Mas não tinha remédio que servisse. Pro pessoal da fábrica eles distribuíam garrafas com limonada. uma parte da rede de exgottos. nasceram no districto desta Capital. As egrejas são templos sumptuosos de Deus." DONA LÚCIA . VALlOSISSIMA OPINIAoI GASTÃO FARIA . estava sendo descoberta. Havia o padre Miguel que ia nas casas levando follias de eucalipto. na rua Marechal Deodoro. de febre typhoide. COMMERCIO 26 DO PARANÁ . irrisorio seria que se as desinfectassem. no trecho entre as ruas Primeiro de Maio e Floriano Peixoto.

. A influenza hespanhola e o amor seria uma tese psychologica magnifica para ser desenvolvida por um Paul Bourget de francaria que se atormentasse num eterno sonho de duquezas e condessas..::====='" Vida Social II SUELTO .A peste de guerra aqui importada pelo "Demerara" e recebida gentilmente com o carinhoso titulo de "pucha-pucha! DIÁRIO DA TARDE DIA 27 DOMINGO ~ 1i (I . muito loiras e frias .~========:. meus dedos dizem Amarelos Ao levantar o branco lençol advinharei os outros pelos ? 27 . COMMERCIO DO PARANÁ Cabelos de vassoura mais macios..26 . pallidas e loiras.NOTICIAS DO PAIZ O RIO COBERTO DE LUTO RIO..

preferimos ir sosinhas". Á essa offerta. . . Apenas no quarteirão das Merces se deram dois fallecimentos um por tuberculose e outro por lepra. o escrivão daquelle posto offereceu guardas civis para acompanhal-as. . esposa do sr.. e não o receio da epidemia de grippe. como sahio na noticia . procurando offendel-os com palavras asperas quando era recolhido ao xadrez". explicando-nos ter sido desgostos por uma infermidade incuravel a causa daquelle acto de desespero. Havendo algumas mulheres dito que "não iam para casa sozinhas" .A AUDACIA DO INIMIGO PRECISAMOS SER MAIS ENERGICOS AO MENOS EM NOSSO PAIZ É deveras para se lastimar o facto occorrido hontem á noite. barbeiro á praça Zacarias 22. ... cantando hymnos patrioticos allemães e jogando chacotas aos brasileiros praticando outras tantas imprudencias que o atual estado de guerra em que nos achamos não permite . . Esse estupido e atrevido subdito do kaiser. COMMERCIO DO PARANÁ VARIAS Em nossa edição de antehontem noticiamos a tentativa de suicídio de d. ellas responderam: "Não precisamos ir com brasileiros. Anna Urichi. Hon tem visitou-nos esse sr. . Stanislau Urichi. . "Cantamos e havemos de cantar hymnos allemães porque não somos trahidores de nossa patria".. . . . . ha tres dias em que não se verifica um só obito nesta Capital (quadro urbano). Uma cama de allemães audaciosos. . .. . COMMERCIO 28 DO PARANÁ . revoltou-se contra os guardas. E foram . . . . Praza a Deus que assim se conserve Coritiba. nós não somos criminosos e não ha lei que obrigue a falla portuguez". . Na Repartição Central . entenderam de em pleno seio da capital desrespeitar a nossa pátria. nesta cidade. .. cheios de presumpção e agua benta ( ). . " O mais exaltado era o conhecido fanfarrão Frederico Rummert que em portuguez arrevesado gritava: "Não bode ser. . Com o de hontem.

s. eJl\ escaw{J. Com este metllodo pra tico e C('oUQlllico. a dor por dentro. folhas de eucalipto. l)ois é a melhol plua u. . ficar deitado curtindo a DONA LÚCIA . AvttR_S facllmen te :t lH'opIIgac. Para queimar dentro de casa. queiman do-se uma p(~quena porçí\() sobre brl! Z(\8. Muito repouso.1976 febre alta. o cansaço." 29 . Rua Saldanha Marinho n.PRECISA-SE De uma mulher para viver com um bom homem solteiro. o 168 (das 5 as 6 horas da tarde) CP familias ProcuI'{ds comprar Naphtuliun C)'eol. "É. desinfecçí\o no in terior das ~"sa~.Ao de quahluer EI)tdemia. Remédios não havia.

. o preso João Baptista Alves dos Santos. 30 . A PESTE RECRUDESCE A SOPA DOS POBRES buço parco louro encima lábios rubros do calor da febre ao levantar o branco lençol encontrarei outros pelos louros cercando rubros lábios NAS RUAS E NA POLICIA NO QUE DEU A "HYGIENE NAS PRISÕES" Hontem a tarde.DIA 28 SEGUNDA o KAISER VAI SER DEPOSTO A SITUAÇÃO NO RIO DECLINA LENTAMENTE A EPIDEMIA E OS CADAVERES JA SÃO SEPULTADOS . que se acha recluso no xadres do Posto Centra~ tentou contra a existência tomando uma forte dose de DIÁRIO DA TARDE creolina. isso por desgostos intimos. .

allas te acol!Jerá: a llua qele te cobrirá com suas jião teráll mêbo bo terror berbabe llerá teu ellcubo e broque!. jflil cairão ao teu labo.I t\1. em virtude de terem adoecido diversos funccionarios de suas officinas. epid@mia nAo no& rla que todas pnssoas Que acto qU3ircrn cump' A-/ A COM MiSSÃO ) f duasSão S9baGtiA' SAo 8 e és missas. na Cathedr31-':' I Lo ~ vidadzs a es~e rtcer. jiem ba pellte que bagueia nas trebas. e bn ~ómente tlorque mil à tua bireita. o meu meus. nem ba seta que bôa be bia.l . I' ~tJf 1V. nem ba calamibabe que alISo(a ao meío·bia. e brrás ao ~ltíssimo te entregallte. 90 ~~ltjflQ!') DIA 29 TER~A o "COMMERCIO" NÃO CIRCULOU Deixou de circular hoje o nosso apreciado collega mattutino "Commercio Paraná". a paga bos prcaborell com os teuS o(!Jos tontemplarás. 510li portanto" con. Convite afim eftlija. UIG~~ cancerosas M mirei bo ~en!Jor: qele é meu refúgio e min!Ja fortale?a. do DIÁRIO DA TARDE 31 . i.lrle confiarei ~orque qele te Iíbrará bo (aço bos caçabores e ba peste perniciolla. mall não se t!Jegará a ti. e AmAnhA serAoil celebrad"slPn a . o teu refúgio é o ~en!Jor.o. ) ) 8066 I Rneumatismo. ás Rcqu!I 8 112 hc ras. penall e bebaixG be suas nocturno.

918 ODIRECTOR DR. Mesmo muito tempo depois da gripe encontrava-se gente que nunca mais recuperou a razão. CURITlBA.fenda virgem para mfm advinhada por mim "Muita gente ficou com o juizo abalado. pro resto da vida." DONA LÚCIA . Não adiantava. LEMOS No monte de venus parca loura penugem . olhando com aqueles olhos. pintados de cal. ficava horas mastigando fruta e bicho.No jardim do Hospício tinha umas pereiras.. 29 DE OUTUBRO DE 1. IRMÃ SUPERIORA E PELOS MEDICOS DO ESTABELECIMENTO NAS HORAS HABITUAES DE VISITA.como pelo de pecego margeando os lábios rubros do amor . olhando. O louco comia pêra com lesma. Por causa da febre forte dias e dias. TODA E QUALQUER INFORMAÇÃO AO RESPEITO DOS MESMOS DEVERÁ SER DADA PELA EXMA.1976 32 . lugar úmido. sempre cheio de lesmas..brancos os pés. COMO MEDIDA PREVENTIVA ESTÃO SUSPENSAS AS VISITAS AOS DOENTES INTERNADOS NO HOSPICIO NOSSA SENHORA DA LUZ. SRA.

Isfflél(OS e 50 canbõfs I f\ Brlgicd Vde ter a séde do seu governu dentro dos territorios receul-libertados A GRIPPE Embora a censura policial tivesse varrido do noticiario da imprensa a rekltação dos fatos verificos.eCt~ n _ ••••••. Depois era de qualquer jeito. com relação á epidemia. eu mesma costurei algumas.DIA 30 QUARTA AS VICTORIAS DOS ALLIADOS SE MANIFESTAM POR TODA PARTE! ~~~"". A b m 6EMia'Y9bW'(4 AiiS ..000 ai.. DIÁRIO DA TARDE "Os primeiros mortos tinham mortalha. o nosso dever profissional nos força a sahir do mutismo em que nos encontravamos nesse sentido e vir dizer ao povo que todo esse preparativo que se faz não é apenas para evitar que o mal chegue até nos. antes de enterrar tiravam do caixão DONA LÚCIA .~ ~ IA paz incondicionalmente iI Austria rende-se e quer Ia i I 95 êDglo·jjalianos avançam aíé~ do (íé\Ve e capturam I 12. Vinham buscar os mortos.1976 pra servirpara outro:' 33 . faltou até caixão. mas sim para dar combate á enfermidade que já n?s atingiu..

veio á rua 15 de Novembro. onde praticou uma necessidade phisiologica na porta da redacção do "Diario da Tarde" e em seguida veio escarrar na porta da nossa redação.ONDE IREMOS PARAR? A QUE PONTO CHEGA A INSOLENCIA DE UM BOCHE O allemão Rodolfo André Damn.- . COMMERCIO DO PARANÁ 34 -.

Coritiba _. DIÁRIO DA TARDE A FALTA DE CINEMAS TRANSFORMA CURITIBA EM UMA CIDADE DE MORTOS DT DIA 31 QUINTA ReJO DO OPRIEDADE DA SOCIEDADE ANONVM4 . Wenceslau Braz.-- "COMMEACIO Pl DO .o SR.. PRESIDENTE DA REPUBLICA ESTARÁ COM A "MARIA IGNACIA"? Rio 30 . Quinta-feira.Encontrasse ligeiramente enfermo o sr. ~~ ~ --- ----~-----~----. que não desceu hontem às salas de recepção..-. 31 de Outubro de 1918 Visões da Guerra ~~ . glorioso 8 A biHlda de rc'!'hncllto de tnusira do tã') cele brc quAo ZURVOS do exerdto francez 35 . . •. FRANÇA .

também com creolina. O repouso ao leito. fuitar. Dieta lactea. nariz e gargarejar com agua salgada com agua salicylada a 1 por 200. ~não deve receber visitas. com febre..ldI1l1lI. Só chamar o medico para os casos serios. fuitar. O espiritismo e as hervas.30 centigrammos para uma capsula. aggravàndo a situação geral. toda a fadiga ou excessos physicos.'tI.a bocca. So levantar-se quando não sentir mais nada. 5 gottas de oleo gomenolado a 5% nas narinas.tiu.as causas de resfriamentos. para evitar a intervenção de pessoas da família ou extranhas. que são muito graves. l. evitam as complicações pulmonares gastro-intestinaes ou nervosas. ou usar tampões de algodão com 'vaselina mentholada a 3%. diariamente.. fuitar. e instillar. do doente. e Negoci". quando elles poderão prestar maiores serviços ápopulação. o regimen lacteo e essa medicação inicial. com tudo. Sentjndo dôres de cabeça e pelo corpo. Indo doente grave deve ser entregue a um enfermeiro ou enfermeira. não curam a grippe. Aconselhamos.A homeopathia. o uso de bebi das alcoolicas. a não ser do medico assistente. em seguida.o da Justiça.1 CÚU edosas e c(('Unça. o seguinte: Tranqyilidade e confiança nas auctoridades sanitarias. afim de evitar que elles adoeçam pelo esfalfamento e venha a faltar no momento mais difficil. Tomar 3 por dia. 36 . que seriam contagionadas. afim de trazer o tubo digestivo sempre desembaraçado Ellgir das agglomerações. Eara lavar a bocca e gargarejar é excellente a agua com um pouco de tintura de iodo.s Interiores Serviço ~e prophylaxia rural do Paraná Combate á grippe Conselhos á população paranaense É impossivel evitar a propagação da epidemia de grippe por não existir um preventivo seguro capa"" de evitar a infecção. como nenhuma outra molestia infectuosa ou parasitaria. Inmar um laxante cada 4 dias.]lini8ter. que facilitam a infecção. Não fazer visitas e evitar o contacto com os doentes de'~ porque o contagio é directo. de manhã e de noite. O mais importante é a desinfecção da roupa de corpo e de cama.. pela ~ ~ é molestia muito séria quando descuidada. AVISO: . de individuo doente a individuo são.li. ~ refeições leves e a horas certas e dormir tempo sufficente. sobretudo á noite. QIDln!Q á desinfect. fazer uso de purgante salino' ou de calomelanos e tomar aspirina e quinino á 0. ("(mIm a in/t'q:.loou:.ão basta passar um panno molhado em agua com creolina pelo soalho da casa do doente e desinfectar o seu escarro. deve ir immediatamente para a . pessoas Recommpudamos maior rigôr TUl def(>.

1918 Novembro o mez da grippe .

invadiu. pois que. Trajano Reis. director do Serviço Sanitário não obstante. Relatório do Sr.. no dia primeiro.. Até hoje. por assim dizer. Dahi em diante. todas as classes sociaes. ninguém sabe ao certo. foi que. achando razão nas declarações de que em Coritiba não há epidemia." DONA LUCIA . Dr. não em entrelinhas nos manifestamos ante-hontem. vendo hora a hora cahirem os nossos companheiros enfermos. Começou o mez de Novembro com um obito por grippe. todas as casas. espalhou-se de modo aterrador.DIA 1 SEXTA HO KAISER CAPUT_" Contra esse injustificado interesse das autoridades sanitarias. DIÁRIO DA TARDE Agora está m~o morrendo muita gente. quasi sem homens para o trabalho. o mal tomou proporções assustadoras. continuamos ftrmes em nossa attitude pela razão. "Como saber quantos morreram? O governo não ia dizer o número verdadeiro dos mortos para não alarmar. em termos claros.1976 Fina loura linha não de tecer mas louro novelo ninho para o pássaro asas da minha mão 39 . de ocultar a verdadeira situação. reconhecendo que outra cousa não era sinão essa epidemia que já se estende por todo o Brasil. não nos era possivel descuidar da nossa propria vida.

curto po•. mo• Iva' por preç A. Deixando o corpo á podridão do Nada. Deve ter achado bonito. 1918 PEQUENAS NOTAS Embora permitindo que os cinemas voltassem a funccionar. fornecem encommend •• no prazo mal. a directoria do Serviço Sanitario o fez sob condicção de funcionarem somente 3 vezes por semana. E assim vamos indo nessa estrada. FERREIRA LEAL . O louco entrou. na lidadeira daqueles dias. CP A freira. deixou a porta aberta. colocou na cabeça e saiu daquele jeito pelos corredores: camisolão branco e coüa na cabeça..uta ' no •••• officin •• da C05tur.DIA 2 SA13ADO ~ I.Nov. cantando: 40 . dicCl J' . viu a coifa da freira em cima da cama. Tristonha de amarguras e miseria...

'l CcmmenfÍRdor de uma uma.. Quem podia. cOl!inhoir~ para acompanhar milil\ para ·fvra dl\ Yapita1.io n. á r\. faTrata-se Al'RlI. saía. 51. "Muitas famílias saíram da cidade." DONA LÚCIA .1975 41 . Mas ir para onde? As outras cidades também estavam doentes.DIA 3 DOMINGO Nas outras mulheres que conheci na cama preta mata cerrada escondendo o sulco muitas vezes arado Crreada Precisn-s'J com urgüllcio. com medo da gripe.

. Zombar de uma cousa de que se não tem conhecimento.A homoeopathia. a garantia do médico conscencioso. . DIA 5 TER~A "Ali naquela casa morreram sete. DR.. Ele mesmo fazia os caixões." DONA LÚCIA . No ftm. é dar prova de leviandade" pobre idéa do proprio juizo. HERACLIDES DE ARAUJO Na homoeopathia está a salvação do genero humano. o espiritismo e as hervas. continuamos ftrmes em nossa attitude pela razão . Buxeta. o complemento e a certeza de arte de curar .1976 42 . Buxeta. Allamão Allamão Te pego allamão AhhhhhAaaaaaah Ghhaaaaaaaaa A HOMOEOPATHIA TAMBÉM CURA A VISO . DIÁRIO DA TARDE .~ saude das familias. era o pai chegar de um enterro já tinha de levar outro ftlho para o cemitério.DR. -ALLAN KARDEK . não obstante. não curam a grippe.4. que se não sondou com c escalpello do obseroador consciencioso.Conceitos sobre e doutrina homoeopathica. faltou madeira. a segurança das sociedades. com' nenhuma outra mo/estia infectuosa ou parasitaria. SATURNINO SOARES DE ME/RELES . Kriste Eleisson Buxeta. não é criticar.ECCLESIASTICO .Livro dos Espiritos O Altissimo creou da terra os medicamentos e o homem prudente não os desprezará.Capo 38 V.DIA 4 SEGUNDA Kirie Eleisson.

. as de pouco pelo (negro) que conheci ofereciam lesmas escuras que mesmo penduradas da carne faziam parte "Morava um casal de alemães. seu nome era Clara. a mulher alta. loira. Imagine os dois.1976 43 . muito bonita. ninguém notou. Clara.. não se davam com a gente do bairro. isso. Passaram muitos dias até que uma vizinha lá entrou e encontrou os dois .DIA 6 QUARTA VIGOROSO ATAQUE BRITANICO MEDIDAS DA SOUTH Luctando com a falta de pessoal devido a epidemia reinante. resolveu a South Brazilian Railway. CP .6/11/1918 Ou então. Não recebiam muita visita. " DONA LÚCIA . Os dois caíram com a gripe. um num quarto. sofrendo sem assistência. outro no outro. suspender temporariamente o trafego de eletricos á noite em nossa Capital.

.. em que nos achamos. Ao ouvir o trombetear agudo do auto ambulancia tem-se a impressão doloras:. Imagine-se.. Assistencia Publica que... corvo branco da morte. por exemplo. ás vezes.~=======. COMMERCIO DO PARANÃ 44 .. Esse "jornal boche" passa de mIo em mão" . Mas a sra. parece não ter vontade de deixar ninguém em paz . passa por ahi somente porque vae levar o chal.. .6(11(1918 DIA 7 QUINTA A PAZ NÃO ESTÁ TÃO PRÓXIMA DIZ CLEMENCEAU Nada assemelhado a isso fenda estreita oferecida como lábios da febre pequeno regato de morna ácida água onde vibram mil peixes DEIXEMOS DISSO · . de que qualquer coisa apavorante ocorre ao nosso derredor. um pobre enfermo a curtir 400 de febre e ouvir ::.\'t · . d. asas sinistras sibilantes. é sabido que os subditos aliemães que infectam a nossa capital mantêm um "jornal" escripto á machina o qual escreve telegranunas que dizem receber por intermédio da Argentina. fora. o louco homici& ~============~ IIVida Social II . · . no silencio sepulchral das ruas desertas. Hespanhola. COMMERCIO DO PARANÁ .' feur ao almoço ? . o buzinar estridente da ambulancia é:. COMMERCIO DO PARANÁ As abas da coifa.A "BLACK LIST" ALLEMÃ "Apesar do estado de guerra.

"._-----.j_mUilmi!·_ZlB n t . 1918 ..rnar-:s affixaram outros despad10s teleglaphicos annun· do que ás 13 horc. ''''..lcç.__ .em todas as frf1ntes dp.: d. tendo a cidade 5e movimentado mUlto ác.COr"... 8 '•. noticia que foi hoje...1i:1 1'111:11(0 tnl .acional. máo gra.Telegramma recebido á ultima hord . intensificou-se ainda mais a sensação popular. a ~evoa. ás 11 horas. eM OOMMERCIO --. quando '.do a situação lamen:1 e doloro~a em que se ach~1o Rio.DIA 8 SEXTA A CESSAÇÃO DA GUERRA COM A ALLEMANHA FOI FIRMADA o REGOSIJO PELA 1ERMINAÇÁO DA GUERRA É ENORME FM TODAS AS CIDADES DO MUNDO --_.Caderno de um grippado . A hruma. 8/11/18 45 JAIME BALLAO JUNIOR . 7 (Urgente)-. l!ssa noticia sen::. a~signado o isticio entre os paizes alliados c o imperio allemão. prirn\3ihoras da noite. onglllae~ ""s A" 1\ .--. 'I íido re PEL~ TELEGRÀPH~ w_IIlIIIiI IlIl_ ••••••••• . a grippe.~--Irltgrammas á disposiçilo 00>.tili· .-- DO PAllANA .iba.""nhl'o ._ondres.-----. :-:'. causou grande lção.i~:: •• _ ••.101 I. 1 do no. batalha.• assignado hontem O armisticio entre os alHados e a AJlemanba RIO.j~.s de hoje foram cessadas as hoc.

do que a grippe hespanhola o que está nos matando é o boato. Mata se gente nos cafés. está pela simples suggestão attirando com toda a gente á cama. Peior. Acabemos com elle e terminará a grippe que de trocadilho em trocadilho. CORONEL PREFEITO MUNICIPAL AUTORIZA O COMMERCIO DE SECCOS E MOLHADOS E PHARMACIAS A CONSERVAREM SEUS ESTABELECIMENTOS ABERTOS DURANTE OS DOMINGOS E DIAS FERIADOS. cream-se cifras de doentes. de pilheria em pilheria. SR. primeiro porque a quasi totalidade dos musicos de nossa milicia baixou hospital atacado da epidemia reinante e. assoJOÃO ANTONIO XAVIER . e só não se fazem sepultamentos por que o official do Registro reclama. 9 DE NOVEMBRO DE 1918. aggrava-se o estado dos enfermos nas esquinas. segundo. pois.DIA 9 SA'BADO A "HESJ?AlliiQLK' Só se falia da epidemia. amanhã concerto de banda de musica na Praça Tiradentes. CP NÃO IlAVERÂ CONCERTO Ao contrario do que foi noticiado por um jorna~ não haverá. ENQUANTO PERMANECER A EPIDEMIA REINANTE. CURITYBA. porque estando a população a braços com a epidemia não seria louvavel essa organização de diversões.Prefeito Municipal 46 . DIÁRIO DA TARDE DECRETO NO 133 O EXMO.

" DONA LÚCIA . doutor. não estavam mortos. MOLESTIAS DO PEITO Se a tosse vos persegue USAr O Xarope ~e 6rin~clia o MEDICO:-Então I Sente-se melhor? A DOENTE:Muito pouco.. UNICO QUE CURA " . Tiveram que levar os dois para o hospital. que não de OLlVfIRA JUNIOR ha remedio senlo appeIlar para o XAROPE DE GRINDELIA. como se os lábios fossem sua boca onde encosto meus lábios. não. mas quase..DIA 10 DOMINGO Estou de pé ao pé da cama o traço de sua fenda do amor fica horizontal em relação a mim.1976 47 . Estou vendo. Não.

DIA 11 SEGUNDA o KAISER O KRONPRINZ O ARMISTICIO ABDICOU E TAMBEM NÃO QUIZ FOI ASSIGNADO COM A COMPLETA CAPITULAÇÃO DA ALLEMANHA A REVOLUÇÃO ESTENDENDO-SE POR TODA ALLEMANHA Mesmo na imobilidade da febre suas coxas se entreabrem lentas como a pedir que eu penetre sua gruta com minha Ifngua de sangue em chamas 48 .

um "peso doloroso nos olhos". em caminho do Cemiterio Municipal. a magua e a tristeza. 0 começo da molestia é ordinariamente brusco. a todo instante. Aponta-se também como symptoma caracteristico da injluenza. Outras vezes se observam symptomas nervosos. Nilo Cairo . a apprehensão. A prostação é algumas vezes tão profunda que pessoas bem robustas são obrigadas a se meter na cama. que se produz principalmente quando o doente move com os olhos. espalhando. redactor do "Diario da Tarde" Um facto que deve merecer a attenção de quem de direito é esse de estarem a dobrar finados.11. excitação e delirio.. grande prostação /feral.1918 Kirie eleysson alIamão te cuspo escarro lesma em cima de ti alIamão alIamão cabeça de mamão alIamão mão peluda RECLAMAÇÕES Sr.11. Agora que o numero de mortos augmentou os sinos ali dobram constantemente sempre que um enterro se aproxima. . 49 .. depoi~ de repetidos "arrepios" de frio. esse som. os sinos da Igreja do Rosario. e muito frequentemente "dores" bastante intensas das "costas e das cadeiras'.INFLUENZA pelo Dr. DIARIO DA TARDE . Em geral os typos classicos da influenza começam por uma "febre" bastante forte. . violenta "dor de cabeça".

IIÚIlÍAro Exteriores. dr. AS CONDIÇOES IMPOSTAS AL DA CE8SAÇAO DA GUEB. u... para quando teria de ser transferido o enterramento. foi elle a uma empresa funeraria para encomendar o indispensavel caixão mortuario. I . .em i &A A AI 1 EMANHA. Vendo que tal facto constituia uma anormalidade o cidadão referido dirigiu-se á policia.AI RESOLUÇOES DO PELOS ALLlADOS SAO Ml GOVEBNO· lUO. l~.O u. - YARIAS AS BARBAS DO VISINHO É O caso que havendo fallecido domingo a esposa de um cidadão. llUIS HUMILHANTES PAdai recebeu &elaçõel hnnt.DIA 12 TER~A IOR CIRCULAÇÃO NO PARANÁ - Coritibs . onde ouviu que "a policia não tem nada com isso". ~rlSIOneIlO ~ U ('1.! VENCEMOS Â COMMUNICAÇAO Á~ GUERRi\! o ex·Kaizer entre~a-sa ~ p OFl'ICI-. terça feira.\)1 "'I']'.Terça-fsira.fW.• Ç&Dha. 12 da N Telegrammas. Pois bem: a empreza declarou-lhe que a sua encommenda só seria attendida hoje. COMMERCIO DO PARANÁ 12/11/1918 50 . &A. NUo P.\-\[.

t DIA 13 QUARTA ENFIM A PAZ! ASPIRAÇÃO DOS POVOS CULTOS 7. 22 obitos. 7 J Esta folha sempre se manteve numa attitude de calma solicitude ante os interesses publicos. abstendo-se de dar noticias que pudessem levar terror á nossa população. sendo 16 causados pelo mal reinante DIÁRIO DA TARDE 51 . . COMMÉRCIO DO PARANÁ A MORTANDADE CRESCE Hoje. até rís duas horas da tarde foram registrados no Cartorio da Praça Tiradentes. .AS VICTIMAS AVOLUMAM-SE 21 OBITOS SENDO 16 DE GRIPPE OS CINEMAS FECHARAM A CRIPPE TORNA-SE CONTAGIOSA SETE DIAS POR SEMANA DT Agora está mesmo morrendo muita gente.

:Za I Precisa-se de dois Funeraria.a::w_ BAI~BEARIA I Riq~~. o bico róseo dos seios..~~- Ph'. O marido passava fora o dia inteiro....l ..." DONA LÚCIA .f..rq~ib~ia l~~!:~}illl Faço isso Somente depois é que meus lábios minhas mãos percorrerão. de P."". 52 I .. os cabelos.~!~'..amws:M' 'cocheiros na EmpreIza I t ••••• __ iFalce. acho que era dono de alguma coisa.:i~:" POii.. .iVi>hIN&:!WCf••••••• FTlp. precorreram outras partes de seu corpo: a boca ru bra febre. MORREM 24 PESSOAS JA POR DIA EM CORITIBA "Não sei bem no que o marido trabalhava. .1976 DIA 14 QUINTA I ! ~~ItF~~'<i.. Eles quase não falavam com os vizinhos.

assim como os informes fornecidos por alguns medicas. direetor do Serviço Sanitario. alugar pelo preço pedido. a muleta é foice que ceifa mil milllões de cabeças. Anjo exterminador. camisolão. o movimento observado hontem nos postos de socorro e nas pharmacias. quando faltaram que não para conduzir os os infelizes fallecidos. nesta capital. dr. Queremos ganhar as alviçaras. Coifa branca. sendo já muito limitado o numero de casos novos. mandei-os Relatorio do Sr. dando aos nossos leitores tão animadora noticia que irá restituir a calma e tranquilidade á nossa população. Trajano Reis. para anirnaes ficassem insepultos carros funebres. COMMERCIO DO PARANÁ 53 . nos auctorizam a affirmar que a epidemia começou a declinar.DIA 15 SEXTA No dia em que não houve caixões para serem transportados os cadaveres. mandei-os fabricar e.

DIA 16 SA13ADO os olhos agora semicerrados. no quintal.1976 54 . Loiro. alta." DONA LOCIA . Muito branca. novamente o bico dos seios agora também todo o seio branco talhado enche minha boca r SEIOS = Desenvol\ idos FOítificadGs Aformoseados 1 II = = i I "O que a gente via era a mulher. a parte interna das coxas. cuidando de alguma coisa. o cabelo bem comprido brilhando mesmo quando não tinha sol.

e:~nas 10 e 4.. Não se publica uma nota estatistica pela qual se veja que a marcha da molestia que nos infelicita está sendo acompanhada cuidadosamente..-.\ Dor circum~tancias ~l11pe· ~ IJI <.o ar::: prejudicados com essa tr2ns· d. '1' DIA 18 SEGUNDA a suave curva do ventre e meus dedos percorrem tremulos a copa de seus pentelhos. sugo seu pescoço: uma mancha vermelha que depois será roxa. ••• Rnnuncios nas L2' e" 3°a pam.Q. ~:u.!t formar a paginação do nos•.DIA 17 DOMINGO . i ado' fomos hoje obrigados a traIU' tr. 55 .r- _ :.irrpos llt ~. porém. A EPIDEMIA DECLINA OU AUGMENT A? É o povo cuja sorte está em jogo a todo o momento interroga. motivo de força m:ilor. prol .~ "CommercÍu .. editorial e de collaboraçào : i . 1. nas e publicando a materia nr. Ninguém lhe diz. ltes.a paginas.. t... novamente a fonte do amor. 50 jornal... e DIÁRIO DA TARDE com esforços empregados para debela-lu. suas mãos os dedos se erguendo com meu forte apertar.'s~im pedimos pxc usas ao~ ri nosso~ :1!1J'lunciante~aca:. Vt &' .~.forlllhçãot Que n s f')i .rloll Ir:~ 11 u :::: tt. inserindo todos os t1j \0 IitJsa~._ ~O Paraná" 11:: 'al rto' ~) Por.

Ela geme baixinho. não mais de febre agora de gôzo? Gózo e no auge do gôzo tento abraçar todo seu corpo que se me escapa e tenho nas mãos como um pássaro peixe 56 .DIA 19 TER~A M OS OBITOS DE HONTEM NÃO HA AUMENTO NEM DIMINUIÇÃO .

estando a força policial de promptidão. O governo está disposto a manter a ordem custe o que custar. DT EM 130BITOS. tendo surprendido agitadores exactamente no momento de explodir o movimento.Apesar da censura da imprensa.DIA 20 QUARTA " A EPIDEMIA SO DECLINA PARA ASCIENCIA OFFICIAL Maldito pesadelo da mão peluda pulo 3 vezes O mar do mar para lá ficou AS TROPAS ALLIADAS CHEGAM AS MARGENS DO RHENO ABORTOU NO RIO UM MOVIMENTO GREVISTA SEDICIOSO o GOVERNO ESTÁ DISPOSTO A MANTER A ORDEM. Reina tranquilidade na cidade. CUSTE O QUE CUSTAR RIO 20 . alguns jornaes noticiam que a policia descobriu um plano de gréve com caracter politico.lOSÃODECREANÇAS! 57 .

~!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!I.I!!!!~'"

,

Aviso fi
i [lMticipa Empreza
j

€mpreza Funeraría pires ~IiCia.

ao publico em geral Que, desde hoje em diante, attenderA a er.terro~, devido a seus p: 0Iprietf1rlos já cc acharem restabe:ecidos da ericr· midad~ Que os obn~ou a fecharem seu estabE"ieI cimento, estando :l,:tos para lltten~erem SI Qu{'lquC'r peS~()J que necessItar dos servIços da me~nl1 Coritiba, 20 de Novembro

I

J.

de 1918-

BBrreiros Pires & Cia.
DIA 21 QUINTA

iCommuRique·se.
t

aos pobres este aVIso :

I

o Dispensario 810 Vicente de Paulo, delicadamente, nos pede indiquemos aqui os pontos da cidade, onde distribue, o durante dia" o caldo Já preparadopau os i entermos pobres: . Praçi\ da Repubtica (CoUegio
I Praça Santos Andrade (Oolte: São José) gio Sion) Hua Jguass\\ n. 20õ (Colleglo Coração de Jesus) ; Rua Ractcliff n. 2 t 7 (bandas d' A~ua Verde). E para desejar que todes se tornem junto aos pobre~, pOrtavoz dessa communíct'çào:
58

i

DIA 22 SEXTA

" -----0

FUGlO NO DELlRlO DA FEBRE E NINGUt.,M O t.,'NCONTRA Noticiamos ha dros que o sr. Telemaco Jardim em um momento de crise neroosa occasionada pella grippe de que estava acommetido, fugiu de sua residencro á ma Carlos de Caroalho n.8, tendo a familro do enfermo solicitado os officios da policro para descobrir-lhe o paradeiro. Entretanto, dros já se passam e não obstante os esforços empregados pela Inspectorro de Agentes e por pessoas amigas, o desventurado moço não é encontrado. Concorre muito para interceptar as investigações o facto do pouco movimento da cidade, difficultando as informações que poderrom ser colhidas acerca do paradeiro do sr. Telemaco. A falta de qualquer noticro sobre o pobre moço, leva a crer que se trate de uma occurenCla maIS grave. A policia prossegue nas diligencros para deslin(ÚJro facto. DIÁRIO DA TARDE

~Vida Social ~
Que noitadas magnificas nos proporcionou a Companhia Salvat-Olona. .. E de saudade em saudade, como de abysmo em abysmo, chegamos até a tet saudade do tempo em que os cinemas abertos apresentavam a fita "Bigodinho vae á missa" ... COMMERCIO DO PARANÁ ou outra coisa egualmente profunda. . .
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RBCLAMAÇÕESDOPOYO
Pedem-nos moradores da rua Alferes Poly que intercedamos da hygiene municipal que providencie sobre uma casa da rua Silva Jardim onde residem lavadeiras que cuidam das roupas de um hospital de grippados, estendendo-as pelas cercas. O escoamento da agua se faz pela valleta da rua, onde estagna, pondo em risco a saude dos mesmos moradores.
COMMERCIO DO PARANÁ

Um grito lancinante foi ouvido.

DIA 23 S~BADO

Mão peluda acuda acuda acuda cuda cuda cuda cuda cuda cuda mãe cuda mãe cuda mãe

Cuiàado

com a Hespanhola!
Use o poderoso antiputrido
Balsamo Santa He1ena

desinfectante analgesico, ini· migv do máu cheiro Empreg2 do em gargarejos, pora a conservação dos dentes, contra o mau hàlito e

!

Um

affecções da garganta

vidro
as

1$500

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pharmaclas

Só o Balsamo 8t8. Helenll

-----------:
60

DIA 24 DOMINGO

POLICIAES

BAILES DE ARRELIA VISINHANÇA INCOMMODADA Hontem, na casa n.158 da rua Silva Jardim, teve logar um barulhento baile que, dado a agglomeração de mulheres da vida faci1 e de muitos desocupados, muito incommodou a visinhança, onde se acham pessoas atacadas de grippe. Segundo fomos informados o baile da arrelia foi promovido pelo cabo do 4~ Regimento, Manoel Candido de Almeida. Tarde da madrugada, quando a bachanal chegou ao auge, algumas pessoas pediram á patrulha de cavallaria para acabar com a encrenca.
COMMERCIO DO PARANÁ

Pancada tão forte que saiu uma espuma de sangue da boca. Ficou ali tempo, no chão de cimento, dezenas de bolhas de sangue pegajosas, levando tempo para ir estourando, uma a uma.

Quando de fadiga não puderam os coveiros abrir sepulturas, mandei gratificar a outros individuos para que as fizessem, de modo a evitar a decomposição dos cadaveres. Relatório do Sr. dr. Trajano Reis, director do Serviço Sanitario.

Nada mais me importa agora nem a mancha do gôzo em minha calça Nem o paletó cheguei a tirar O marido? tosse que ecoa por toda a casa saio pela porta sem chavear sem a volta da chave na fechadura saio sem me voltar ao menos
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DIA 25 SEGUNDA

Telegrammas
As tropas francezas chegar~o_ a Vienna esta semana" Os - ---------------------------- americanos já invadiram as províncias rhenana~~~ lemãs - A conferencia da paz iniciará seus trabalhos ern ..Janeiro - Hinden~ burg cornmunicou ao governo allemão que o exercito gerrnanico não poderá combater nem um só exercito - A as· quadrra ingleza parrte papa Kiel.
DIA 26 TERÇA

o Conselheiro Rodrigues Alves vae assu..
111ir a

presidencia da Republica

Os holiandezes odeiam o Kaiser - O ge· ~eral d'Esperay chegou a Constanti-_ ncpla - O general Pers0ing será o subo stituto do president~_~ilson •.Os frac~ ~~ze§>estão nas rna'~gens __ __ ~_~~~~noJ numa extensão de 100 milhas - A irn---_._--------_._~_._._-~"---------------------_._prensa allernã pede intervenção dOS ~J-= ~,?_do~J?ara reorganisa~ política allemã
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simplesmente pelo facto de ser seu pae allemão (pois sua mãe é brasileira) não tremulou dizer em frente á muitas patricias estas palavras fllhas de uma alma entoxicada pela "Ku1tur": "Eu preferia ser devorada pelos peixes a ser enterrada em território brasileiro" COMMERCIO DO PARANÁ Lá em cima se confere os pecados aqui em baixo ferro e sangue allamão mão mão mão peluda Lüaaahaaahhh AGRADECIMENTOS distincto cidadão. DT 63 -o .DIA 27 QUARTA o CHILE E O PERU EM EMMINENCIA DE GUERRA Há dias deu-se um caso que encolerizou quantos o presencearam. João Pereira ckt Fonseca. moradora a rua Riachuelo. no seu nome e no de sua exma. sr. Uma moça. familia visitou-nos agradecendo a noticia que estampamos sobre o passamento de sua galantinha netta a pequena Diva. brasileira nata.

continuamos fmnes em nossa attitude pela Não obstante. Um grito lancinante foi ouvido.. continuamos fmnes em Não obstante. continuamos fmnes em nossa attitude Não obstante. Pedaço branco de miolo escorrendo pela parede.. 64 . continuamos fmnes em nossa attitude pela razão . Não. continuamos Não obstante.DIA 28 QUINTA Um grito Iancinante foi ouvido. igual a um verm: descendo pela parede deixando uma baba de rastro. continuamos fmnes em nossa Não obstante. continuamos firmes Não obstante. Um grito lancinante foi ouvido. Não obstante. Como um verme. como uma lesma. Não obstante.

e que contava apenas sete annos de idade. a morte paira ainda sobre o lar infeliz e arrebata a gentil menina Josephina primogenita do malogrado cidadão. E. quando atacado também do ma~ abandonou o lar e se foi deixar morrer. saindo o feretro da rua Carlos de Carvalho n. DT JOSEPHINA . Telemaco Jardim. no delirio da febre.a distincta familia Jardim vem sendo curelmente ferida pela impiedosa epidemia que tantas lagrimas tem ao nosso povo arrumado. noticiamos o fallecimento de um filho do sr. abandonado e só à beira da Cascatinha de Santa Felicidade. FECHAM-SE OSPOSTOS MEDICOS MAS OS NECESSITADOS DEVEM PROCURAR A REPARTIÇÃO DE HYGIENE Por achar-se quasi extincta a epidemia da grippe nesta capita~ a Directoria do Seroiço Sanitario determinou que fossem extinctos os postos medicos que o governo creara no quadro urbano e nos suburbios providencinndo tambem para que as pharmacins que estavam autorisadas a preparar receitas gratuitamente para os necessitados. facto esse que o exaltou de tal forma que. Dias atraz.DIA 29 SEXTA o KAISER VAE ACABAR NO HOSPICIO . 8 para o Cemitério MunicipaL DIÁRIO DA TARDE 65 . implacavel. não mais o façam.. O enterro da desventurada creança realizou-se hoje ás 15 horas.

criança linda.COM HESPANHOLA O KAISER ESTA DIA 30 SKBADO De amanhã em diante será restabelecido o trafego dos bonds os quais circularão dE accordo com o antigo horario. alegre com o marido e o filho . saía a andar sozinha pelas ruas. teve até um filho. seu corpo de loura plumagem Sem me voltar. silenciosa nestes dias da grippe ninguém me viu nem me verá "Ela.. sem voltar diante de mim a cidade vazia. mesmo quando estava normal. Passava uns tempos boa. Nunca largava do veneno.. dava assim como uma tristeza nela. nunca mais ficou com o juízo perfeito.1976 66 . " DONA LÚCIA . De repente. sempre com um vidrinho de veneno nas mãos. a mulher. DI Mas sempre terei diante de mim a visão de eu abrindo a porta a casa vasia..

OS 6BITOS DE GRIPPE NOVEMBRO DE 1.918 DIA 1 DIA 2 DIA 3 DIA 4 DIA 5 DIA 6 DIA 7 DIA 8 DIA 9 DIA 10 DIA 11 DIA 12 DIA 13 DIA 14 DIA 15 DIA 16 DIA 17 DIA 18 DIA 19 DIA 20 DIA 21 DIA 22 DIA 23 DIA 24 DIA 25 DIA 26 DIA 27 DIA 28 DIA 29 DIA 30 FONTE: DIÁRIO DA TARDE 1 O 1 4 2 3 4 4 3 10 10 15 12 12 20 10 19 11 7 18 14 13 16 12 15 15 10 12 7 8 67 .

de todo Deus. peste • AI F R B GB tZt HF t z Por voss guintes logio der )ac h s s S e· o· e· t S u- P as o r a o JESUS E MARIA 68 . .ovrae-nos. anto Z t t5tA 5 t O I B livrae·me latorias: Po daras dirá osd5 Quando o vossa Cruzr chagas. immoror forte. Devin Jusus.

1918 Dezembro A última ktra do alfabeto .

DIA 1 DOMINGO 'I)------CI .~::. annunciando exihibiç6es novas depelliCp culas attrahentes. 71 .o============\1 \IVida Social II Os cinemas "in totun" abrirão amanhã.

que infeliz e mendigos subjugado se ocultavam-se. em meio de uma profusão de sangue. S. fora recolhido áquelle estabelecimento ha muito tempo. mas desde 5 armos que não tivera accessos de loucura. Seria 6 de furioso da manhã. Andava por ali abobado. ao encontrar grippe reclusos que era aleijado usava molletas. olhos injectados de sangue. irmãs de caridade fugiam. . a faiscarem. o o puzeram em camisa de força. o louco desferia pancadas. vivendo por isso solto pelas alamedas dos jardins do Hospicio. Entretanto. o louco. da Luz uma scena terrificante que teve como protagonista um infeliz demente ali recluso. No " Scena M6cahra H08~icio da Alie- na U08 um louco mata quatro suas Desenrolou-se hontem no Hospicio N. tomado 1/2 horas accesso. E naquelle aranzel. recolhendo o a uma cella.. jaziam cadaveres quatro pessoas. Manoel de Campos. no solo. que tivera um dos e se achava exaltado pelae febre. o louco avançou sobre outra victima. Em quantos que encontrava. Era esta o cosinheiro do estabelecimento. caiu também sem vida.DIA 2 SEGUNDA . velhos demente foi ali reclusos pelos empregados até que após uma Paulo Kopff. de uma destas se apoderou vibrando-lhe forte pancada no craneo.. naquella confusão que se estabeleceu. . que procurou defender-se com o braço. DIÁRIO DA TARDE 72 - pos- . Caido exanime o primeiro. pois qque recebendo pancada violenta. Baldado foi seu esforço. de 22 annos de idade. Numa aneia de matar. Pandellis Rethis e lucta perigosa.. sempre com a tragica molleta já rubra e cheia de massa encephalica de suas victimas saiu em busca de outros. sem que alguem pudesse um dia augurar a scena horrivel que elle foi causador hontem.

Então as irmãs preparavam-se para ir celebrar o sacrifIcio da missa. porém.. Ultimamente. conta cerca de 32 armos de edade. destacámos hontem um dos nossos companheiros para ir até aquel1e estabelecimento. ninguem suppunha que el1e viesse a ter um accesso de loucura furiosa. que naquel1a coisa entoada á guisa de canção está a mostrar o quanto a inconsciencia toma os irresponsaveis como que felizes immersos na noite negra da inconsciencia. Chegados que fomos á mansão dos irresponsaveis. em 1913. já nos chamou a attenção o cantar monotono de um doido.DIA 3 TER~A U 2W1 • um ---. a enfermidade fez a sua entrada tambem no Hospicio.. podemos mais ou menos reconstruir a scena horrivel da seguinte forma: O CRIMINOSO E SEUS ANTECEDENTES. Chama-se Manoel de Campos o autor da horrorosa scena de sangue. da Luz occorrera uma tectrita scena de sangue. nada encontrando de anormal que chamasse a sua attenção. nem mesmo um simples presidente da republica: contentava-se com ser Governador do Estado . No desejo de bem informar os nossos leitores. sendo portanto um delirio mais democratico. achava-se el1e ultimamente em convalescença e sempre apalermado. Manoel de Campos quando era interrogado por alguem relativamente á sua identidade. da qual era protagonista um dos infelizes reclusos daquel1e estabelecimento.••••. outros a de grandezas. respondia que era "governador" do Estado. Teve el1e febre alta e todos os demais symptomas da terrivel enfermidade. WUlI••••••• __ •• ••• lIlIlI U ma trage~ia no Hospicio da uHespanhola" Uma proeZa macabra Domingo foi nossa população cruelmente abalada com a noticia de que no Hospital de N. Pelo que ouvimos. Foi recolhido ao asylo ha cerca de 5 annos. com todo o carinho pelas religiosas daquel1e estabelecimento. A SCENA DE SANGUE Pela manhã a ronda foi fazer uma visita aos diversos departamentos da instituição. uns a mania de perseguição. sendo Manoel de Campos uma de suas victimas. talvez tendo no co73 . jamais teve el1e occaSlao de manifestar indicios de loucura furiosa e quem o visitasse era até capaz de jurar que o desgraçado estava ali recolhido por excesso de zelo. como o fazem todos os jornais verdadeiramente modernos. S. Tratado..••••. ou por relaxamento em tomar as necessarias precauções com os infelizes que habitam aquel1a casa sinistra. a fIm de colher impressões sobre a horrorosa tragedia e ao mesmo tempo syndicar das circunstancias do caso. com a invasão da peste hespanhola em nosso Estado. a ver se haveria razão em acreditar-se que o descalabro se dera por qualquer imprudencia. w -=-w--••••. pois que o infeliz não se suppunha um rei ou imperador. Como todo o louco tem a sua mania. - Apalermado.

responde conservação.. respondeu que a este.. conseguindo prostrar sem vida alguma. J. Nicoláo Domenico e Miguel ponsaveis. Sedento de mais sangue o infeliz demen te arreestabelecimento. foi Manoel de Campos Bruquikoski que tombava mortalmente preso a uma camisola de força. pois é natural que naquella casa Manoel Salathiel Domingues. recebendo os ferimentos no braço. por instincto to quatro pessoas e ferido uma. Manoel tenta fugir e perseguigado dI. poz-se o infeliz a correr em demanestes morreram logo quatro . Quando lhe disseram que havia morBento tivera a boa idéa de. da do portão para se por em liberdade. a sua resposta era mais ou menos toda ensanguentada e a moleta do mendilucida.Agora está mesmo morrendo muita gente: meu pae morreu sósinho e seguir. Um grito lancinante foi mette contra os primeiros que lhe approouvido. Interrroferido por uma pancada desferida com gato. levar o braço a cabeça. A deu: . correndo em sua perseguiração o desejo de levantar a Deus uma prece em favor dos infelizes recolhidos ao ção muitos doentes e empregados. Ribeiro. felizmente não o matando porque não.bido de todos. foi Manoel de Campos sobre o seu uma tranca de madeira. Mas. ginar que era o infeliz mendigo Paulo Subjugado. que lhe perguntou si do pelo epileptico Bento dos Santos.Kosmiake. COMMERCIO DO P ARAN Á sendo que a essas horas já o facto era sa- 74 . mas ninguem deu a elle attenção ximam. hontem estando lá o delego ás mãos. E todos estavam longe de ima. Com a tranca acto. fere se lembrava do que fizera. Francisco se ouçam frequentemente gritos dos irresBittencourt.

cabelo loiro bem comprido. morreu. Muito branca. Foi muito tempo depois. na egreja da Ordem." DONA LÚCIA . acharam ela já morta. Por este acto de religião e caridade se confessa agradecido. acho que foi lá por 30." DONA LÚCIA . Não resistiu a febre forte.. Morreu na gripe. a hora 8. alta." . "Moça bonita.1976 75 .1976 M Missa a todas as pessoas que acompanharam agradece os restos mortaes atp á sua ultima morada de sua pranteada e inesquecivel esposa CLARA MARGARETH HEISLER Germano Heisler penhoradamente Aproveitando a opporrunidade convida seus parentes e pessoas de sua amirode para assistirem á missa que manda celebmr sexta-feira. até que. Morreu na gripe.. tomou o veneno na rua. um dia. solteira.

mas nunca mais ficou certa da cabeça. na egreja da Ordem. Casou. O marido se salvou. muito branca. ela morreu na gripe." DONA LÚCIA . teve fIlhos. solteira. mas nunca mais ficou certa da cabeça. Muito branca. Moça bonita. Por este acto de religiiio e caridade confessam-se agradecidos. casou depois da gripe. Vi o corpo. teve fIlhos. mas ela morreu. Tinha períodos de lucidez. bonita." DONA LÚCIA . na época ela não era casada. "Não. loira. cabelo branco de tão loiro.1976 Missa GermanQ Heisler e filhos penhoradamente agradecem a todas as pessoas que acompanharam os restos mortaes até á sua ultima morada de sua pranteada e inesquecivel esposa e mãe CLARA MARGARETH HEISLER Aproveitando a opporrunidade convidam seus parentes e pessoas de sua amisade para assistirem a missa eu mandam celebrar sexta-feira a hora 8. mortallia branca."Não.1976 76 .

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.244 283 1.261 NASCI.&4% PORCENTAGEM DE OBITOS RELATÓRIO DO SR DR. DISTRICTOS POLONIA DOTABOÃO = 73. TRAJANO REIS DIRECfOR DO SERVIÇO SANITÁRIO CURYTIBA 1919 .-.000 HABITANTES TOTAL GERAL DOENTES DE GRIPE 2.466 295 89 384 = 45.J 00 OS MORTOS DA GRIPPE ANNO DE 1918 POPULAÇÃO DE CURITYBA E SUBURBIOS 67 7MENTOS 127 254 59 25 313734 1.GRIPE 29 9 18 59 112 321 DEZ.249 : 0. 71 CASA..629 16 OBITOS240 31 1.248 TOTAL OBITOS POR 4 NOV.

N1 FIM .

MACISTE NO INFERNO raconto .

Três Noites de D. Bachanal .. juan Macho e Femea . Caminho da Perdição ... Sodoma e Gomorra .. . Gigolô. Rouge e Pó de Arroz ..Noite de Amor. . . . Vertigem de Luxo . Maciste no Inferno .. Os Mysterios de Hollywood... Perdida em Paris ..

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versos. femeas que se entregam." . desejos. taboletas nos bondes e nos automóveis. projectores. coxas nuas de girls macias. oscullos infinitos. meninas cobras deitadas sobre areias. mulheres velludo em atitudes lascivas sobre leitos ou dentro de alcovas. cavalleiros da Idade Média. chronicas.. fremitos. corpos em crispações. bastilhas de papelão. mãos que agarram."Columnas. caretas. commentarios. lampadas. apreciações. quadrigas. ancias. lettreiros. latagões de feira com estandarte e bandas de músicas.. annuncios luminosos. lábios que procuram. templo. espasmos . D' artagnans de fancaria. diálogos.

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Plutão em seu seu reino subterrâneo de treva e rancor invejou-o e para combatel-o mandou a Terra o demônio Barbadilha. um dos seus mais ardillosos subditos. um bello dia. o heroe. com a missão de corromper a bella Graziella.Maciste. irmã de creação de Maciste . o homem de vigor sem egual e coração generoso era tão estimado em sua aldeia natal. onde vivia como um paladino do bem que.

. ~ ~ ~ .. -6 ./ ..... li! •• ~ ..•~ • --~ <V . ••.G _____ ..• .

trava renhida lucta com o demônio que o arrasta para o inferno . ousada mente.Negro como o inferno até acostumar a vista fico em pé as mãos na mureta de madeira que separa as fileiras de cadeiras da grande porta com cortinas de velludo que separa a salla de exibições da salla de espera Este vendo Grazie/la seduzida por um conquistador sem escrupulos percebe a intervenção de Barbadilha e.

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Com a luz que vem da tella busco com os olhos aquillo que quero e busco meu logar a mulher Até me assegurar que é uma mulher fico atraz da mureta de madeira as mãos segurando suas bordas Para que os outros espectadores não se apercebam das minhas intenções finjo entrar na fileira de traz com mais gente. mudo de idéia e entro na fileira da frente ameaço sentar numa cadeira vazia mas sento-me ao lado della É uma mulher .

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bem pouco.É uma mulher Fingindo attenção na tella com o rabo dos olhos olho com coragem viro um pouco. a cabeça para que ella não perceba que estou olhando a ella Nem tentei encostar meu braço no seu e ella olha a tella tremeluz .

Ora o mortal que chega ao inferno sem ter morrido, pode voltar ao mundo se ao fim de trez dias não tiver cedido à tentação de alguma beldade d'aquelle antro

É bella e macia, estou com meus braços
cruzados e as pontas dos meus dedos acariciam o fino tecido de sua blusa solta ella não solta os olhos da tella cintilante nem sente minha caricia na seda macia diferente do áspero velludo das vermelhas cortinas

É um fume marron nas cennas de inferno é
vermelho Um calor me sobe por todo meu corpo, frieza da seda
Ora, Proserpina, a esposa própria de Plutão tenta-o com encantos taes que Maciste ousa beijal-a: Estava decretada sua sentença às pennas etternaes

Ouso, empurro meus dedos tremulos e toco seu braço como se fosse sem querer Não sobre a cadeira ao lado meu chapeu esta assentado sobre meu sexo agora zona de calor EUa afasta seu braço Ouso, insisto eUa afasta seu braço vira-se e olha firme para mim meus olhos estão na teUa

e não encosta no seio pelo menos na parte lateral Olho a tella e nada vejo Poma macio dura vejo . Somente por sua lealdade instinctiva. ardiloso e revoltoso. para tanto architeta uma revolução no inferno. Maciste poem sua força e destreza sem egual ao serviço de Plutão e consegue debellar a revolução e castigar o pérfido Barbadilha Acaricio o fino tecido e os dedos vão se aproximando vagarosamente Como os braços della estão bem postos para traz os dedos vão chegando a parte do lado de seu seio direito. quer a todo transe desthronar Plutão. logar onde o tecido também é solto .como nas mangas da blusa .Entrectanto Barbadilha.

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Então terminada a lucta, Plutão chama o heroe a sua ignobil presença e em lembrança aos seus serviços auctoriza-Ihe a voltar a Terra: Proserpina protesta contra isso, mas em vão. Maciste prepara-se para partir, mas Proserpina arma-lhe um laço, manda-o prender e torna a beija I-o, condemnando-o novamente à penna eterna Latagões com estandartes e bandas de músicas, coxas nuas de girls macias, meninas cobras deitadas sobre areias, mulheres velludos em attitudes lascivas, mãos que agarram tóco finalmente o lado de seus seios calor, lábios que procuram, femeas que se entregam, corpos em crispações, oscullos infinitos, desejos, ancias, fremitos, espasmos ... No espasmo do gôzo nem sinto suas unhas vermelhas fincarem-se em minha carne: "Que é isso? se o senhor não ficar quieto eu chamo o guarda!"

Levanto sem olhar saindo pelo outro lado das cadeiras Disfarço sair agora sem o filme acabar chamaria atenção; por isso dirijo-me ao banheiro Letreiros homens pintado num vidro que a luz vermelha alumia Uma pequena cortina vermelha antes da porta impede que abrindo a porta a meia luz do logar chegue na salla de projeção Evito olhar no espelho não há toalha limpo a mim e a calça como posso com o papel do programa que anuncia as próximas fitas Caminho da Perdição ... As Trez Noites de D. Juan ... Macho e Femea... Sodoma e Gomorra ...
Entrectanto, na Terra, o seductor de Graziella arrependido de seu acto, volta para junto d'ella e seu filho, que já tem então um anno e meio de edade. Na véspera do Natal,

Graziella faz esta adorável creança rezar por seu protector. o impávido col/osso Maciste e dá-se o milagre: a prece infantil é ouvida e o Todo Poderoso liberta Maciste e este volta à Terra para gozar a ventura de um novo lar. o pnmeuo a saIr . .. entre seus amigos Não posso ficar neste logar muito tempo chamaria a attenção sobre minha pessoa A fita está acabando apresso-me com o chapeu cubro a mancha úmida de minha calça as gentes da salla de espera me olham sou .

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Mesmo a luz mortiça das quatro horas da tarde me cega Já não escuto o piano quando todos começam a sair da sessão já estou escutando o barulho da cidade das casas das vozes dos automóveis dos ruidos Sou novamente parte da cidade e " nmguem me ve . ..

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E9 mINE9TAURE9 novela .

ia me deixar sem nada até o fim do mês.Para não pagar a mulher. ela dormia ao meu lado. Uma bela fêmea. nem sei como convenci aquela estátua de mulher a passar a noite comigo neste hotelzinho vagabundo. na cama do hotelzinho barato. cabelão esparramado pelo lençol. sem fazer barulho deschaveei a porta e. branca. loira. saí para o corredor escuro. abandonei o quarto no meio da noite. Não que a mulher não me agradasse. o que eu podia pagar. nua. tão sujo. Acordei. quieto vesti minhas roupas. No escuro me levantei. tudo o que eu tinha no bolso. . O preço combinado. de mansinho. Tenho pouco dinheiro.

Se por acaso algum desavisado procurar um quarto para. a hora que obriga um homem casado a deixar sua parceira noturna dormindo.Sozinho? Nessa hora da madrugada ninguém entra sozinho naquele hotel. o sono alcoólico que impede os prazeres do sexo. são motivos corriqueiros para se abandonar um quarto pago adiantadamente. as questiúnculas por questões de dinheiro. . dormir algumas horas. será alerta do pelo porteiro noturno sobre a real categoria do estabelecimento e dissuadido de entrar. alguém sair sozinho do hotel durante a noite é relativamente comum: a hora certa para chegar em casa. a insatisfação com a companhia escolhida. Nunca aconteceu isso. Ao contrário. E não há razão nenhuma para se entrar sozinho naquele hotel de encontros. fatigado. os pequenos desentendimentos amorosos. É um hotel de encontros e ninguém o procura para se hospedar.

geralmente. dormindo ela era coisa morta. teria de pagá-Ia. apertadinha. a mesma coisa: quentura de um pote de mel. Três vezes seguidas e eu e ela queríamos mais. Quando enfiei nela. quando nos cruzamos na noite. e então ia ficar sem dinheiro até o final do mês. nem sei o que ela viu em mim. Também. .e. aguadas. Não era mulher para aquele ambiente. Foi tocar na pele e ela se arrepiou toda. Me veio a preocupação de que se eu ficasse até de manhã. as loiras não são boas de cama -. Acordei no meio da noite. foi logo beijando meu corpo: como era quente aquela boca com o meu sexo dentro. estávamos meio bêbados. pentelheira loira. Geralmente as loiras são largas. os dois. ela não.Excelente fêmea . no bar. mas o sono não deixou. Encostei a porta com cuidado e me atirei pelo corredor escuro. nada da potranca que eu cavalgara três vezes. a gente tinha bebido demais. essa polacona que eu peguei.

Não enche o saco. Se a Marilda aparecer. . . enfia teu cigarro no eu. tesão. Tem um cigarro? -Não. diz que eu volto. .Tesão..Porra.Vê se me esquece.Porra! Será que ela ainda vem? .Você viu a Marilda? . Tchau.E eu é que sei? . .Não pintou por aqui hoje. .

E continuei seguindo. percebi que o corredor descambava para a direita. Como não sentisse com a mão a parede do lado direito. Nas mãos abertas eu sentia as paredes de tábua e. a áspera madeira das portas de inúmeros quartinhos. . de intervalo a intervalo. me atirei para o lado direito do estreito corredor escuro. a intervalos maiores. numa curva de noventa graus.Porque me parecia que fora por esse lado que eu chegara. o relevo das mata-juntas. eu ia com as mãos nas paredes e não para a frente. Me choquei de frente com uma parede de alvenaria que fechava meu caminho. agora parede de material. como seria normal quando se caminha na escuridão. Não enxergava nada.

pois não sabia quantos degraus existiriam no escuro. dei uma topada num degrau. Parei. O corredor principiava com uma escadinha. Ao contrário da outra. . este mais curto. Me virei e segui arrastando os pés. esta escadinha era ascendente. com medo de encontrar pela frente outros degraus. cuidadosamente. estendi a mão direita para a frente e senti outra parede bloqueando o corredor. arrastando os pés. Com as mãos nas paredes eu sentia uma repetição do corredor anterior. Desci cuidadosamente. encaminhando-o para a esquerda. seus três degraus. arrastando os pés. Tropecei em imprevistos degraus. Logo senti um vazio na mão esquerda.Quase que caio. Continuei seguindo. Havia uma escada à esquerda. Galguei. formados no vazio a partir da direita até a parede contra a qual eu me chocara.

ornadas com friso também azul. ou parafusos. outras se acham penduradas. Algumas plaquetas estão pregadas tortas e mesmo de cabeça para baixo. Devem ter servido em estabelecimento de mais categoria antes de seu uso aqui. Apesar de muitas estarem riscadas ou com o esmalte partido. formando uma delgada moldura. . Pequeno furo em cada uma das extremidades permite a passagem de pregos. são plaquetas de boa qualidade. esmaltadas de branco com os números em azul.Para a numeração dos quartos deste hotelzinho utilizam-se plaquetas de metal de cerca de sete centímetros de comprimento. São de formato oval. numa demonstração de serviço malfeito. presas somente por uma das pontas. para fixá-Ias nas portas dos quartos. e falta numeração em muitos dos quartos.

Durante algum tempo continuei com as mãos pelo teto. cheia de abaulamentos. neste novo corredor. estivesse provocando a escuridão.Talvez por economia. No meu tatear pelas paredes ainda não encontrara nenhum interruptor de luz. Talvez nem existissem. que. . Uma luz acesa me indicaria o caminho a seguir. Estendo as mãos para o alto e alcanço o forro baixo. na esperança de encontrar uma lâmpada que. continuei a caminhar. Alcançado o topo da escada. desrosqueada no bocal. aumentava o cheiro de mofo. neste hotelzinho barato o acender de uma lâmpada se faça atarrachando-a no bocal. sensível em todos os quartos e corredores. parecia ser de áspera madeira compensada. Àquela hora tardia não se esperavam mais hóspedes. pelo tato. Qualquer coisa de abafadiço. e para economizar certamente o porteiro apagara todas as luzes.

hoje joguei na dezena da vaca. Olha.E de novo? - Uma tremenda duma peça. . .No oito. seco na cabeça: 25. .Fraco.Boa mesmo? - Coisa fina.E o cara com ela? Acho que já vi antes. um pé-de-chinelo. . deve ser gata de alguma boate. Viu o que deu: 24. .- E como é que tá? .Em que quarto você pôs eles? . Uma loirona que eu nunca vi por aqUI.

deve existir em um banheiro. a porta entreaberta de um banheiro malcheiroso. Eu não tinha mais nada a fazer neste banheiro escuro. com certeza pedaços de jornais velhos. Um cubículo. . Emanações de urina e fezes se juntam agora ao cheiro de mofo. ou nunca estivera lá. E não encontrei o interruptor. Empurrei a porta e entrei. A mão direita encontra um vazio. então saÍ. me arranho num prego onde se espetavam ásperos papéis cortados irregularmente.wc Este corredor me parece mais longo que os outros. sem sombra de dúvida. encontro um bocal vazio fixado no teto baixo. Erguendo as mãos. bato no puxador da descarga. A lâmpada ou havia sido retirada. Minhas mãos percorrem todas as paredes. Procurei com as mãos o interruptor da lâmpada que.

pois era muito fraquinha. A luzinha do meu relógio queimou há tempos e de nada adiantaria mesmo. .Não tenho o hábito de fumar. por isso não carrego fósforos comigo. mal se viam os números do mostrador. Um castiçal com uma vela acesa me seria mais útil nesta escuridão.

moço loiro. Ao saber das exigências do Minotauro. tortuosos.S/NC} UMA LENDA DA ANTIGA GRÉCIA. a rainha Parsifae. o inextrincável Labirinto era formado de mil voltas com mil corredores arrevesados. inteligente. mulher do rei Minos. deveria entregar 7 moças virgens e 7 rapazes para serem sacrificados ao Minotauro. Teseu. sempre sedento de sangue humano. foi castigada pelos deuses tendo um filho monstruoso. intrincados. tornando impossível para quem nele entrou achar o caminho de volta. enorme construção de muitos corredores emaranhados. enredados. corpo de gente. o Minotauro. andava pela Grécia eliminando bandidos e ladrões. uma vez por ano. Impenetrável à luz. O rei Minos invade a Grécia e ataca Atenas. A condição de paz imposta à cidade é que. da ilha de Creta. cabeça de touro e comedor de carne humana. que se rende. Vivia o Minotauro no Labirinto. Por ser perversa e tenebrosa. toma o lugar de um dos rapazes escolhidos e segue para Creta. . fortÍssimo. belo. decidido a matar o monstro.

após mil voltas Teseu chega ao lugar onde o espera o Minotauro. Deita-se para descansar e Ariadne adormece ao seu lado. Na saída. Ao ver carne fresca. enorme com seu corpanzil de homem e caratonha de touro. é visto pela filha mais nova do rei Minos. Teseu abandona-a na ilha deserta e zarpa sozinho para a Grécia. Vencido o monstro. Teseu encosta o navio na ilha de Nacsos. Teseu embarca com ela de volta à Grécia. Ariadne espera ansiosa por seu amado. Teseu enfia-lhe a lança no coração e corta-lhe a cabeçorra com a espada. . No meio da viagem.Ao desembarcar. a pretexto de cansaço pela luta com o Minotauro. Aproveitando o sono da bela Ariadne. a bela princesa Ariadne. que se apaixona perdidamente por ele. Sem perda de tempo. Teseu encontra facilmente o caminho de volta seguindo o fio que desenrolara por quilômetros de escuros corredores. Ariadne dá armas e um novelo de fio de ouro a Teseu. o Minotauro ruge e baba de cobiça e gula. Entrando no Labirinto. para que ele encontre o caminho de volta no Labirinto.

quando saí do banheiro devo ter caminhado em linha reta e não para o lado. . Sinto também uma corrente de ar frio vinda da escuridão à minha frente.Perdido na escuridão. Como não bati em nenhuma parede. Nauseado pelo mau cheiro. devo ter entrado por um desapercebido corredor que inicia bem defronte ao pequeno banheiro. percebo depois de algum tempo que devo estar em outro corredor.

esperando achar uma pêra de luz. Acha não. percebe que está sozinha. Se levanta.A mulher acorda no meio da noite com vontade de urinar. Passa as mãos pela guarda da cama. puxa a bacia para perto de si. Ao voltar para a cama. Acostumada nesses ambientes. sem sair da cama. tateando o chão com as mãos. agacha-se e solta o segurado jato de urina. Mesmo na escuridão sabe onde encontrar: pega o rolo de papel higiênico na mesinha-de-cabeceira e se enxuga. . muita bebida. metálico ruído. procura até encontrar uma bacia de metal.

8DEMAlO BELA LOIRA DEVORADA POR URUBUS Na manhã de oito de maio. Os primeiros exames realizados não evidenciam nenhum. Ao locê compareceu uma viatura da delegacia de Campo Largo que providenciou a remoção do corpo para o Instituto Médico Legal d. dirigiu-se para o local e. atraído por nuvens de urubus sobrevoand. perfuração por projétil de arma de fogo. A estradinha de tern. torna-se necessária a realização da devida autópsia. nem qualqur documento que facilitasse sua identificação. com vistas a estabelece' a causa mortis. em meio ao mau cheiro reinante. porém. deparou-se com uma cena tétrica. termina uns cinco quilômetros adiante do lugar do macabro achad e tem muito pouco movimento. distante vinte e cinco quilômetros de Curitiba. morta. o lavrador Casemiro Pietroski. em Campo Largo. que lhr arrancaram diversos pedaços da carne já putrefata. Uma mulher loira. como o corpo da bela jovem loira se encontra bastante bicado pelos urubus. Vasculhando cuidadosamente a região pouco habitada. servindo de repasto aos urubus. a polícia não encontrou as vestes da vítima. um capão de mato existente no prolongamento da antiga estrada Curitiba-Campo Largo. aparentando vinte e poucos anos. moradOl do distrito de Itaqui. encontrava-se caída de bruços. sendo de se supor que a bela loira tenha sido assassinada em outro local e ali jogada durante a noite . Casemiro Pietroski procurou logo avisar a polícia.e Curitiba. Assustado e enojado. nua.

Eu não escutava nenhum barulho vindo dos quartos. E eu devia estar bem no centro do hotelzinho. como se esperaria num hotelzinho de encontros. Nada. A loira roncava. silêncio total. seria natural que se ouvissem barulhos: gemidos de amor. pois nem os ruídos noturnos da cidade eu escutava. peidos. . cercado de quartos dos dois lados do corredor sem nenhuma janela.Silêncio. Pela pouca espessura dos tabiques de madeira. gente roncando. tosses noturnas.

A noite lá fora está tão escura quanto aqui dentro. uma baça luminosidade retangular. um muro. também quase encostado. Do outro. a escuridão. o oitão sem aberturas de um edifício alto. Não há nada para ver. É uma pequena janela.Na minha frente. Em frente. Abaixo. um quebrado. De um lado. Minhas mãos tocam a plana lisura do vidro. bem no centro. Quatro vidros. . Pequena. bem perto. o que parece ser uma das paredes do hotelzinho. ao fundo. Pequena janela sem serventia.

ficou com medo de passar a noite aqui. depois do acontecido.Acho que. . não é? . parecia um monte de roupa para lavar. Ninguém desconfiou quando tiramos para pôr no carro.Será que alguém ficou sabendo? .Parece que é. Deixei a porta aberta para ventilar: para saírem os maus eflúvios: não é assim que se diz? .Cadê a bichinha? . Deve estar caçando. embrulhado no acolchoado do jeito que estava. não deixou nenhum sinal. o patrão.. . .Mas você não alugou para ninguém.E a Shamanta lavou tudo direitinho.Ninguém comentou nada? -E quem? .Também. . . o travesti que cuida da limpeza dos quartos).Só quem ficou sabendo fomos nós (nós aí incluídos os dois interlocutores. o agente de polícia e Shamanta.E a Shamanta até defumou o quarto todo: para acalmar o espírito da infeliz.Estou te dizendo que está quase vazio. a mulher do patrão. .

que não sinto agora. provavelmente enferrujada. nem precisei baixar a maçaneta de ferro redondo.Tem gente aí? Dou uma tremenda duma topada com a canela no pé da cama. mãos para a frente. não quero ficar rondando a noite toda. Merda. este pendurado no teto pelo fio elétrico. A porta estava aberta. onde pôr a mão. Então me veio a idéia de ir abrindo a porta de todos os quartos. Que se danem. Vou entrando devagar. Em algum quarto deve ter luz.Pelo vidro quebrado entrava o vento frio. ou alguém me empresta um isqueiro. Como das outras vezes. depois um pedaço reto maior. Somente depois de passada a dor forte me levanto da cama e procuro no ar uma lâmpada. só o bocal vazio. Tudo fechado. Que merda. Será que tem gente dentro? Parece que esse corredor não era tão comprido: será que não estou onde pensei que estava? Uma porta aberta. . Um fino ferro redondo. Cheiro de defumação nesse quarto. uma pequena curva para cima. um pequeno pedaço reto. Há quanto tempo estou aqui? .

sem sair da cama. no lençol. . Limpou os dedos em outra parte do lençol e somente então. Depositado pelo homem não mais ao seu lado. passa a mão pelo espaço vazio e sente. acostumada com esses ambientes. ela não se limpou. tateando o chão com as mãos.(ou não?) A mulher loira acorda durante a noite com vontade de urinar. procura até encontrar uma bacia de metal. o esperma deve ter escorrido de dentro dela durante o sono. muita bebida. Procura seu parceiro.ela faz com a boca. um molhado gosmento. TSK .

Em que quarto mesmo você disse? -No oito.. .

foi mais o susto de cair girando num abismo escuro. Eu andava quase encostado na parede direita e entrei na escada em caracol. O barulho da minha queda não provocou nenhuma resposta. tentando inutilmente me agarrar em algum ponto de apoio. Perdi o equilíbrio e rolei escada abaixo. justamente no lado onde os degraus são mais estreitos.(ou 30-0) Rolei escada abaixo. quando vi estava sem apoio. Braços cansados. nenhum hóspede apareceu para ver o que acontecia. . Os degraus dessa escada em caracol giram partindo de um centro que é o canto direito do patamar formado pelo final do assoalho do corredor. nenhuma porta se abriu. deixei de tatear as paredes. Degraus de formato triangular como um pedaço de pizza vão se abrindo em leque para baixo. Na escuridão. Não me machuquei. dificilmente a gente consegue caminhar em linha reta.

No escuro caminho no espaço e não no tempo. Sei aonde pretendo chegar: na porta da rua. . subi escadas e continuo no mesmo lugar: na escuridão.Não olhei as horas quando acordei. num espaço que não compreendo. Bêbado. Desci escadas. embaçadamente. de ter subido escadas. um velho casarão no centro da cidade. Imagino que o hotel tenha três andares. meu relógio está com a luzinha queimada e eu não conseguiria ver os números agora. quando aqui cheguei com a loira me lembro.

o caminho é menos cheio de meandros para chegar aonde quer. Conhece o chão onde pisa e sabe que. Na hora certa. Declinou a escada ao lado da pequena portaria.Há um outro homem que se movimenta. por ali. pelos corredores do pequeno hotel. Ele conhece o caminho. antes percorreu o longo corredor retilíneo do andar térreo e prefere subir pela estreita escada dos fundos. . na escuridão. entre as inúmeras portas do hotelzinho ele saberá qual abrir.

Espio pelas frestas e nada mais vejo além da escuridão. encontro uma janela. por mais força que eu faça.A porta está aberta. ora de madeira. ora de material. Não me lembro se tinha janela no quarto da loira. Haverá outros quartos abertos. a vidraça abre para o lado de dentro e. . Procurando uma luz. Saio do corredor escuro e entro no quarto escuro. É uma grande janela. não consigo abrir a veneziana nunca aberta. Vou falando: Tem alguém aí? Desvio a cama e vou passando as mãos pelas paredes.

bem baixinho. não se escuta carro passando. Acho que vem dos postes de luz. Tudo está fechado.De madrugada. na cidade. as gentes dormindo. mal se ouve. Aquele silêncio todo e se ouve um zumbido contínuo como um apito de navio. há uma hora em que parece que tudo pára. . Aquele zumbido continuado não é silêncio.

Antes de subir a escada. no fim do corredor. no fim do corredor. apenas por vontade de fumar. talvez porque a maconha lhe aclare a mente sobre o que fazer ou. fumando. acendeu um cigarro e se deixou ficar ali parado. em pé. Talvez por mesquinharia. . fumando. ele acendeu o cigarro antes de subir a escada e se deixou ficar ali parado. talvez. sozinho no escuro.Ele fuma. para não ter de reparti-lo com o porteiro.

chamas. . não faria isso.Eu penso em fogo. Se eu tivesse um fósforo e tivesse em mãos os jornais do banheiro. uma luz para me guiar. Na verdade. Se tivesse um fósforo. sinto frio. Na verdade. eu faria uma tocha. poria fogo nos jornais e me aqueceria.

o nome da localidade aparecia grafado errado: Itaigüi. sem nenhuma fotografia na primeira página. noticiou que o assassino (ou assassinos) havia posto fogo no cadáver para evitar a identificação. de menor circulação. . Na notícia.Outro jornal.

. se eu for olhar para a cara de cada puta que entra . . estou louca de vontade de fumar..Já disse que não. como sabe que ela não veio hoje? . .Não. . com um velho.Tesão. Não tem mesmo um cigarro. . Eu estava com o meu.. Faz dias que não aparece.Tá gozando com a minha cara? Ainda ontem ela esteve aqui.A Marilda já veio? .É tanta gente que aparece por aqui..Tá a fim de fazer hora comigo? Já disse que ela não veio e não me encha o saco. .Se você não olha para a gente.

Fui no banheiro.Onde você andava? Só vejo a voz da loira e respondo: . .Abro uma porta destrancada e vou entrando num quarto escuro. .

Quem deixou a porta aberta? Espia para dentro do quarto e.o outro homem vê que o 27 está escancarado. zelosamente. encosta a porta. .

. No escuro.Deixa de frescura e vem de uma vez. . em direção à cama. Piso na bacia de metal que entorna seu líquido em cima de mim.Pra que que você quer fósforo? Venha deitar logo que eu estou com frio. Não tem luz nessa porra. Molha a barra da minha calça.Você tem fósforo? . os meus pés.. . eu caminho na direção dela. O líquido gelado me entra por dentro dos sapatos.É que está escuro.

A mulher loira também não sabia onde era a luz. Um custou a riscar e queimou meu dedo quando acendeu. No escuro. atirei fora num grito. A caixa tinha apenas três palitos. preta. Com a desculpa de me enxugar. onde eu sabia que encontraria papel. com o nome do inferninho impresso em letras douradas: Le Labirinthe. . O outro me guiou até o banheiro. saio outra vez. mas tinha fósforos na bolsa. me entregou uma caixa de fósforos de papelão.

pela escada que leva ao corredor do banheiro. mais uma vez. àquela hora. perto da pequena porta de entrada do hotel. . porém num lugar onde não possa ser vista pelo porteiro. Sabe muito bem que.Está a fim de um programa. O outro homem sobe. dificilmente encontrará um freguês.. percebe uma luminosidade alaranjada movendo-se na escuridão. a notícia estampada no jornal do dia anterior. A mulher loira dorme. lentamente. A outra mulher pouco se importa. Quando seus olhos chegam na altura do piso do corredor. perguntou por perguntar. bonitão? O passante não responde e continua seu caminho. O porteiro noturno lê. sem roncar. Se deixou ficar ali.

eu corro pelo corredor. em movimento vejo um sapato preto de cordão.Em preto e branco a fotografia da mulher loira caída de bruços. esfrego a barra da calça para secá-Ia. No escuro. O jornal se encontra bastante amassado e o fogo do terceiro palito de fósforo começa a queimá-Io pela margem. mas as letras da reportagem estão em preto. onde cai. uma perna metida numa calça preta. assustado. O sapato esmaga o jornal incendiado e.Qyhé bbohhar oohhô nnnohehll? Ao mesmo tempo que escuto a voz irada que não entendo. a escuridão. um barulho seco no chão cimentado. ao levantar me choco contra um corpo aflanelado grosso redondo que perde o equilíbrio e bate com estrondo na porta semi-aberta do banheiro. luz no fim do corredor. manchetes impressas em vermelho. quando a outra escada termina. . Rápido. pela escada. . uma canela sem meia. com outro pedaço de jornal. Estou acocorado junto ao foguinho e. novamente. por outra escada e vejo.

precisamente quando os ponteiros marcam cinco horas. toca a campainha do relógio-despertador colocado na parte de dentro do pequeno balcão da pequena portaria.Trrriiiimmm. Ao mesmo tempo. .

Aparentando naturalidade. saio pela porta aberta e. bonitão? Nada respondo.Tá a fim de um programa. apresso o passo e só então me dou conta de que estou ao ar livre. apesar da escuridão. na rua. . procuro caminhar numa direção em que eu não possa mais ser visto pelo porteiro sentado atrás do pequeno balcão. . caminhando por uma rua estreita ladeada de construções antigas.A mulher fica dormindo. pequenos prédios com a mesma altura. e de que começa a amanhecer. .Agora caminho mais devagar.

A outra mulher sente frio. entra e pergunta: . Depois de alguma hesitação.A Marilda ainda não entrou? . encaminha-se para a pequena portaria.

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~ .o MIST[RIO & DA PROSTITUTA JAPON[SA MIMI-NASlILOIClII .

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185 . dentro do já cubículo que é o pequeno quarto. Essas duas paredes.o quarto do hotelzinho barato. acompanhando os degraus. essa parede acompanha os três degraus e termina pouco adiante de onde eles terminam. o chão do banheiro minúsculo é cimentado. piso de tacos de madeira cinza muitas vezes lavado. nunca encerado. partindo do lado da porta. partindo da parede oposta à parede dos três degraus. uma escadinha de três degraus descendo para nele se entrar. Traçando um cubículo. formam um cubículo sem portas. pintado de vermelhão. A prostituta japonesa vai na minha frente. Ocupam um pequeno espaço dentro do pequeno quarto do hotelzinho de rendez-vaus. Um vão sem porta. construíram uma parede que não chega ao alto do teto baixo do pequeno quarto. Hotel de rendezvaus. outra parede avança. Dentro do pequeno quarto. Conhece o caminho. Diferente do piso do pequeno quarto. O quarto já é pequeno e. que não se encontram e não alcançam o teto baixo. Essa parede não chega a se encontrar com o final da parede construída a partir do lado da porta de entrada do pequeno quarto. formando um minúsculo banheiro.

através da abertura sem porta do pequeno banheiro. um pequeno pátio mal iluminado pela noite. Por portas fechadas. não sobrou lugar para a outr. com a chave na mão.. que deve ter sido levada para outro quarto de hotelzinho barato. exatamente frontal à abertura sem porta. O que facilita . que foi colocada no lado diante dos degraus. coberta pela colcha de tecido brilhante. A única janela do pequeno quarto fica no pequeno banheiro. vidros pintados com tinta branca fosca grossa.. outro negro corredor cortado em cru: por outro corredor sem luz. A cabeça no edredom tan . Um olho pode estar à espreita. talvez uma V2. a prostituta japonesa caminha adiante de miIr pelos caminhos escuros. Muitas vezes trilhadora do labirinto. 'c Seguindo sempre adiante. bém coberto com o mesmo tecido brilhante da mesma cor vermelh da colcha. Eu coloco a pequena e úmida to~. Deitado na cama.um pouco . Como é escura esta noite sem estrelas! Um corredor de paredes sem portas e a porta do pequeno quarto. uma escadaria qUe sobe à esquerda. a janeL basculante com falhas na pintura.' randa. cor vermelha: a cabeceira encostada na parede oposta ao pequeno banheiro. Não sei dizer para que: parte do hotelzinho barato dá esta janela basculante. vejo diante L~::: mim.. Foi ela a pL meira a entrar no pequeno quarto às escuras e a me alertar: 186 . um longo corredor e5' treito.' lha de ralo tecido sobre os vidros pintados e consigo a privacidade é pequeno quarto do hotel de rendez-vous. a prostituta .: mesinha-de-cabeceira. sobra mesmo lugar para uma mesinha-de-cabeceira.1 ponesa me conduziu pelo labirinto cheirando a mofo. depois à direita. uma negra sala sem portas. Eu não saberia reconstituir o caminho que nos conduziu da portaria do hotelzinho barato até este pequeno quarto. Pequena janela basculante. Do outro lado da cama. que abre um espaço defronte à metade dos pés da baixa cama de casal.a passagem é o vão sem porta.Pelas dimensões do pequeno quarto. só existe uma posição possível para a baixa cama de casal. Nos dois lados da cama o espaço é um pouco maior.

187 . eu posso. são pintadas. uma pequena pia bem embaixo da janela basculante. cobrindo não sei quantas pinturas an~ teriores. apenas a baça luminosidade atraves~ sando os vidros pintados da janela basculante tomava o pequeno quar~ to. Dirijo o meu olhar para a prostituta ja~ ponesa que se lava no pequeno banheiro sem porta. manchada. em forma de pêra. a cor é verde~clara. A prostituta ja~ ponesa se lava utilizando a mangueirinha do chuveiro elétrico. Antes. suas mãos sabiam onde encontrar o comu~ tador de luz. também. Não sei se ela fala para mim ou para ela. e no sexo de pouca penu~ gem. se quiser. O chuveiro elétrico fica no espaço do pequeno banheiro visível para mim. sem chuveirinho. avermelhada. até meia altura. Em pé. Agora uma pouca luz amarelada. do pequeno quarto. Mas não quero. ajuntadas. Existe. cor vermelha. Com a mangueirinha. todas as paredes do pequeno quarto e do pequeno ba~ nheiro. Já sem roupa. sem espuma. de cor de rosa~maravilha. estendendo as mãos para o alto. Pas~ sa sabão entre as coxas largas. Tinta fosca aguada. cor de rosa~maravilha novamente no teto. As paredes. fraca. al~ cançar o teto de alvenaria. eu estou deitado por cima da colcha de teci~ do brilhante.Mesmo na escuridão. preso ao fio que pende do teto sobre a baixa guarda da cama. dirige o jato d'água para retirar o sabão. Dali ao teto. sem forro.

Primeiro acaricio. Quando retiro o meu corpo. cor vermelha. Não sei dizer. acaricia novamente a parca penugem. enquanto minha mão desce. sem que ela o toque. Eu poderia beijar seu sexo. Nem moça. na hora do gozo. Deito sobre ela. permanece 188 . Então. poma total. Não beijo. mas não. sugo. Não estou mais beijando o seio. silencioso o corpo ao meu lado. Cor de chá. nem velha. Meu dedo busca a greta ainda seca. Depois. Imóvel. encosto meu rosto no dela. pequeno traço de poucos pêlos. Mas permaneço ainda dentro de seu corpo. meu sexo enrijece. começo a afagar os poucos pêlos pretos macios do seu monte-de-vênus. cor vermelha. somente o úmido bico. Impossível de usar. eu diria completamente imóveL Contudo. nem uma palavra.tranqüila? Viro o corpo para o corpo nu da prostituta japonesa. Na parte que não posso ver do pequeno banheiro fica o vaso sanitário. Por instantes. ao lado da cama. só com a ponta dos dedos. Ela não disse nem um gemido. talvez? Talvez. é para deitar ao lado dela. Subo a mão até os seios. Meu sexo encontra seu caminho sem que ela auxilie com a mão. A prostituta japonesa já está deitada ao meu lado. O gozo me vem rápido. Permaneceu. molhado pelos respingos do chuveiro. Por si. não dela. mordisco sua orelha. na cama. me parece imóvel somente na superfície visíveL Eu diria que por dentro dele existe toda uma mobilidade . estufado. sua pele lisa sem pêlos contrasta com a brancura do meu corpo peludo. Com a mão esquerda.E eu é que sei? Nunca estive antes neste hotel de rendez-vous. como uma fotografia. Penetro-a. o rolo de papel higiênico. beijo. Não fosse por um lento respirar. aperto. que sinto enrijecer. Difícil dizer a idade das mulheres orientais. redonda achatada como em todas as mulheres orientais. Melhor apanhar o rolo que está em cima da mesinha-de-cabeceira. por cima da colcha de tecido brilhante. Uns trinta. não sinto mais o cheiro úmido da colcha de tecido brilhante. Se houve algum gemido. foi meu. e meu travesseiro é o seu seio esquerdo. Preso por um arame. Não sei o que ela sentiu. acaricio o bico do seio.

Quanto tempo ficamos assim. Inquieto? . Depois de vestida. suave montede-vênus de parca penugem.. seu coração está batendo tão esquisito.Vamos embora? A luz do pequeno quarto fica acesa. Seu coração bate rápido e descompassado. Dirige a mangueirinha diretamente para a pequena fenda de pouca penugem. Eu diria que ela está completamente imóvel. Imóvel somente na superfície visível do corpo cor de chá. - Verdade? - (iÁ.Nossa. conhecedora dos caminhos. corredores. Agora ela lava o sexo com mais cuidado. Reparo que ela não conta. Coração batendo forte. A prostituta japonesa segue ria frente. ela olha não sei para onde.c?J: Não demonstrou. escadas. pago a ela o preço combinado. Será que ela diz a verdade? Fico só olhando. 189 . Levanto a cabeça e olho para ela. pátios e terraços que levam de volta à portaria do hotelzinho barato. é difícil dizer numa mulher orientaL Não conta o dinheiro. Eu é quem falo: . eu não sei dizer.silenciosa e não sei para onde olha. pele lisa sem pêlos. Mas teria mesmo gozado? Não deu nenhuma demonstração. a porta aberta. põe as notas dobradas na bolsa.

a voz de uma encobrindo a da outra..Quer tomar alguma coisa? Vamos num barzinho aqui por perto? Antes da resposta. qualquer coisa assim. É dinheiro meu.de óculos da portaria nada responde. Será mesmo que ela sentiu prazer? Uma prostituta? Ou disse aquilo apenas para me agradar. de pouca conversa. formas roliças. As duas se conhecem. Estamos fora. barrigas e nádegas querendo romper o vestido justo. Cabelos amarelos.é um chinês? .JJ"l =. o . Não é comum uma prostituta sentir prazer com um freguês. não reclamei do quarto. gozei rápido. Mas interrompo: -Vamos? 190 'i>t: UD ~:.kf(Q) Fica para outra vez . Um bom freguês. Eu quero ficar mais tempo com ela: . Riem. quero possuí-la mais e mais vezes. se tocam e falam rapidamente.chinês . síria. se demora na portaria discutindo com o chinês de óculos. peitos. na rua em frente à porta de entrada do hotelzinho barato. risos. e não para o da frente. sai sozinha do hotel outra prostituta. O freguês dela. . um velho de camisa florida.?'Lin. na porta do hotelzinho barato. Algumas fingem. Meio velhusca. ela não deu demonstração de nada. apenas entrega uma nota amassada à prostituta japonesa. Tem mais jeito de turca. A comissão por ela ter trazido um freguês para este hotel. Não é japonesa.. Nem dá para entender o que elas conversam e riem. nem para o do lado. tipo havaiana. devem ser muito amigas.Escuta. pintados de amarelo. para conquistar um freguês? Para que eu volte outras vezes? Sou limpo. parte do que paguei pelo pequeno quarto. Se for verdade que ela gozou.

Um gesto. Entra num táxi e some de vista. mostrou-se sem proveito. O freguês da outra prostituta sai agora do hotel. penso que sim. este mesmo bairro de prostituição. Essa foi a última vez que . penso que não. Já se afastam as duas. às vezes. Algumas vezes fumarei haxixe. falando sozinho. mas elas já tomam um táxi que passa pela rua. 191 . Eu fico perto da porta do hotel. pensando. Será que ela gozou mesmo? Eu voltarei outras vezes. afobado à cata de um táxi. Quero segui-Ias. como uma despedida. Muitas vezes dormi com outras prostitutas no mesmo pequeno quarto do hotelzinho barato. mas sei que nunca mais verei a prostituta japonesa.. Quantas vezes sentirei na boca o gosto oleoso do gim que vendem por aqui. conseguida. nem saberei se ela sentiu prazer comigo naquela noite escura. Sai gesticulando. Penso em alcançá-Ias. Às vezes. Parece querer ir embora logo deste lugar. Nunca encontrarei uma resposta que me satisfaça. parado. Ainda estendo minha mão aberta. Afaga meu rosto. três ou quatro vezes deitarei num catre e acenderei o cachimbo de ópio. nervoso. Caminharei tantas vezes por esta mesma rua. A prostituta japonesa passa a mão no meu rosto. mas para conseguir do traficante uma informação que. Uma vez comprei cocaína. Entram rindo.. não para meu uso.Riem muito as duas.

MIMI-NASIII-OICIII .

.O que é biwa? . ficou famoso como contador de histórias que contava se acompanhando do biwa." 195 . Numa noi~ te de inverno.. cego. quan~ do o canto era triste. .Oichi. os olhos não seguravam as lágrimas. ". acompanhando os versos ao som do biwa.. Oi~ chi. Oichi meditava no jardim do mosteiro quando escuta uma voz dizer: "Ouvimos falar de seu talento como cantador de histórias .. esta noite..contava histórias. . instrumento muito antigo .- E você teve medo? ." "..uma espécie de violão japonês. "Hai.. Di~ zem que à sua palavra e à sua música todos faziam silêncio e. o monge sem orelhas...Meus nobres amos sabem de sua fama e ficariam muito honrados se o senhor fosse contar para eles a triste história da batalha de Dan-No-Ura.. como vou te explicar? .. O jovem noviço. pobrezinho..

Como na televisão. . Quando chegaram. Minha mão. Foi no século XII: no Ocidente aconteciam as cruzadas. banhos de sangue. batalhas 196 . Oichi sentia que muita gente estava ali. . Já reparou que o preto da televisão nunca é preto. Apesar do silêncio reinante. Ele era cego de nascença? Sim. bem longe estavam do mosteiro. Na noite escura não sabia para onde estava sendo levado. redondo como a Lua.Das guerras do Japão medieval. oculta-te como puderes no meio das chamas). Passos pesados metálicos. A luta entre os dois clãs durou quase duzentos anos. Eu li uma vez que os cegos não enxergam tudo preto. . passos - Oichi não pôde recusar o convite. porque caminharam por várias salas enormes. Tomou seu biwa e seguiu os daquela voz desconhecida. As famílias rivais. disputavam o poder. como os de um samurai vestindo sua armadura de guerra.Nesta noite ninguém pode dormir: Lua cheia.Um palácio? . no Japão havia entre os senhores feudais muitas lutas pelo poder. Oichi imaginou que devia ser um lugar bem grande. Taira e Minamoto.Oichi ia seguindo os passos. Colocado no centro do salão. Depois de muito caminhar. Ouvia o assobio das sedas dos quimonos.Que batalha é essa? . Época de guerra civil (conduz teu cavalo sobre o fio duma espada. começou a evocar com seu canto os tristes versos da batalha de Dan-No-Ura.O que eles enxergam é uma mancha esbranquiçada.Tudo fazia crer um rico palácio. é nuvem branca? Branco-cinza? . uma nuvem pousada no teu seio.

Quem venceu. . pensaram em nuvens. muitas obrigações ele devia aos Taira. . Quando per~ ceberam que o branco estandarte do inimigo tremulava nos mastros de seus próprios navios. Os comandantes se amarram nas âncoras de seus barcos e soltam as correntes. bandeou~se para o lado dos Minamo~ to. seu aliado. seus guerreiros se atiram nas águas. o canto fúnebre tomou conta dos navios dos Taira. Exército dos Minamoto estandartes brancos como aço. Nuvens. Às vezes os Taira dominavam. afundando com o peso das armaduras. - E como foi a batalha? . outras vezes os Minamo~ to venciam. a maior batalha naval que o Ja~ pão assistiu. Exército dos Taira estandartes vermelhos como sangue.O choro.Os Taira tinham o maior número de navios.No estreito de Dan~No~Ura. veio a certeza da derrota. mais de mil navios em luta.Acende o meu cigarro. levando seus barcos para o inimigo. quem perdeu? .quando viram o branco flutuando nos céus. mas um senhor feudal. Shigeyoshi.incontáveis. Os que não têm coragem de cometer suicídio são mortos pelos companheiros de armas. Os Taira ainda mantinham a esperança de vitória. Pela vergonha da derrota. a fumaça dos canhões. o assobio metálico das espadas nos combates das abordagens. A batalha seguia feroz. a princípio . O fogo. . Os tombadilhos das embarcações tor~ 197 . O coração vermelho de Shigeyoshi hesitava em se passar para os Minamo to. para não cair nas mãos do inimigo.

durante o tempo em que ele permanecer aqui. Antoku-Tennô. . da beleza de teu canto sequer podíamos suspeitar. O mesmo samurai que te trouxe aqui esta noite irá te 198 . venhas repetir o canto da batalha de Dan-No-Ura. . Aonde me levas.Não sobrou ninguém? Teu corpo nu Agora flutua no lençol transparente como água Sal. Oichi. Em todo o Japão não existe artista tão perfeito. buscam a morte.Nem mesmo o menino imperador. Sem ter quem as governe.Teu corpo é água onde me sustento. . por mais seis noites. as velas dos navios explodem ao vento.Com o menino nos braços. de sete anos. a voz de uma velha aia: "De tua fama sabíamos..Quando Oichi termina de contar os últimos versos.. todos em lágrimas. . vovó? O Japão Pequeno Antoku.Tennô. só escuta o silêncio de lágrimas pressentidas.. a avó se atira no mar tinto de sangue e salgado de lágrimas.. .. Como teu corpo é bom. A avó tomou-o nos braços e com ele se encaminhou para a amurada . Meu amo pede que.nam-se rubros de sangue. Depois de muito silêncio. Os marinheiros. é pequeno como um grão de arroz e agora é um imenso vale de miséria Mais abaixo das ondas há outro país onde não existe a tristeza É para lá que te levo. os servos. os cortesãos.

. sentado diante da tumba em memória do pequeno imperador Antoku-Tennô. Na noite seguinte. Mas meu amo viaja em segredo e ordena que não contes nada a ninguém. Nunca . Oichi não parece sentir a neve. esquecido de suas obrigações. O abade o interrogou. E. que lhe revela a verdade: "Oichi. Uma longa noite de buscas. o mesmo samurai vem buscar Oichi. Exausto. Oichi reclama: Como ousam interromper meu canto para tão nobres senhores?!". dormiu o dia inteiro. os monges escutam os acordes do biwa e a voz de Oichi. Aterrorizados. nem ouvir os gritos dos monges. O abade. Já pela madrugada. Arrastado de volta ao templo. Envolvido em seu cantar. os monges vêem Oichi.pegar. Sobre o sino do templo repousa e dorme a borboleta noturna. no cemitério de Amidaji.. encontrou os monges aflitos com sua ausência. como espectadoras do canto triste. manda que os monges o procurem. Bastante para vergar as folhas dos junquilhos . No cemitério de Amidaji estão sepultados os derrotados da batalha de DanNo-Ura. corres grande peri199 . Oichi é levado à presença do abade. sem sentir a neve que começava a cair. cantar exaltado a história da derrota dos Taira. és livre para partir". Por sobre as outras tumbas. mas ele respondeu com reticências e nada revelou sobre onde estivera. agora. voltando para o templo. sem que ninguém veja. Quando Oichi voltou ao templo. as chamas espectrais dos fogos-fátuos. Primeira neve. e novamente ele canta a batalha de Dan-No-Ura para a silenciosa platéia. notando que Oichi não está em sua cela. pobre Oichi. pela manhã. que têm de arrancá-Io do lugar onde está.

Ao final da sétima noite. metálica. Aproveitando~se de tua cegueira. A mudez de Oichi como resposta. é de ira. como um fan~ tasma. Te enfeitiça~ ram. o samurai-fantasma não encontra o que veio 200 . antes de ir. temos de atender um serviço re~ ligioso na aldeia. e esperou meditando sobre a vida e a morte. o biwa ao seu lado. de ódio: "Oichi! Oichi!". no corpo nu. O abade pros~ segue: "Precisamos quebrar o encantamento. Tudo é mutável. da escuridão da noite surge a voz profunda. levaste teu canto para os mortos e eles agora são donos de ti.go. Sentindo~ se protegido. Esta noite. Escuridão de outono. não pode~ mos ficar no templo para te vigiar. agora. despedaçarão teu corpo e tu passarás a penar por toda a eternidade. Passos pesados.Paramita. Mas. o abade escreve com pincel os sagrados textos do Prajna. Oichi sentou~se no pórtico do templo. os fantasmas dos mortos na ba~ talha de Dan~No~Ura lançaram encantamentos sobre ti. que o tornariam invisível aos demônios. só poderá haver a bem~aventurada paz quando se puder escapar da agonia da vida e da morte. Não obtém resposta: "Oichi! Oi~ chi!". Dos olhos cegos de Oichi correm lágrimas de medo. que te farão invisível aos demônios". Todo o corpo de Oichi foi coberto com as palavras de Buda. tudo aparece e desaparece. Esta estrada sem ninguém nela. protegerei teu corpo com os textos de Buda. A voz. eles te matarão. chamando: "Oichi! Oichi!". escravo dos demônios". Os monges tiram a roupa de Oichi e. Os monges partiram. Por duas noites.

Suas orelhas são arrancadas e o samurai-fantasma sai carregando-as. Oichi reza para não gritar de dor e revelar sua presença. encontram Oichi se esvaindo em sangue. Ao cobrir o corpo de Oichi com os textos sagrados. não está aqui. seus passos perdendo-se na noite em direção ao cemitério de Amidaji. conforme o combinado. ficou livre para sempre dos demônios. Foi medicado e se salvou. Vejo somente suas orelhas e vou levá-Ias para provar ao meu amo que aqui estive cumprindo minha missão". O sangue escorre. foi só o que o fantasma viu e carregou para o mundo dos mortos: duas orelhas. Quando os monges voltaram.buscar: "Vejo um biwa abandonado e não encontro o trovador. Muitas vezes chamei Oichi e ele não me respondeu. o abade esqueceu das orelhas. mas vivo. As mãos enluvadas de ferro do fantasma agarram as orelhas de Oichi e puxam ferozmente. Tornou-se monge e viveu ain201 .

era uma noite tão fria. o Sem Orelhas. lágrimas.Não. naquela noite chuvosa. Desde aquela noite.da muitos anos para poder cantar em versos sua desventura. 202 . o cantador cego ficou conhecido como Mimi~Nashi~Oi~ chi. Eu era muito pequena quando minha avó con~ tou a história de Mimi~Nashi~Oichi. o passado. O tempo onde se acumularam os dias lentos .. sem dúvida. e no entanto .Medo não tive..E você teve medo? . que acho que até chorei. Sim. mas me deu uma tristeza grande. Oichi. medo não. Orvalho deste mundo orvalho deste mundo. Ah. tristeza. Tristeza grande. . Medo eu não tive.

) da p<.13 mistéri<.)s + () mistéri<.)rta aberta .

para quem foi Marlene e para Josely Vianna Baptista e Cláudio Lacerda .

Dito por um criminoso no programa do Algaci Túlio .Uma mentira minha vale por dez verdades tuas.

. . . . . . . . . . . . . 233 241 247 253 O mistério do gato preto e da gata gorda . Sônia O mistério da Sonâmbula Mistério do menino morto Um mistério . . . . 259 O misterioso homem-macaco Como tudo começou . . . . . . . . 265 Mistério mágico . . . . .. . . . . . . . . . . .. . . . . . . 273 A cadeira do diabo . . 227 Os fantasmas do fundo de quintalO mistério teu.. . . .Um mistério Um mistério no trem-fantasma Mistério Sapho O amor entre as mulheres DELE 281 293 305 O mistério dos sinais da passagem de Curitiba pela cidade 317 . . . . . .. . . ... . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . .SUMÁRIO o mistério da porta aberta. . . .. . . . .. . 211 219 Mistério números Mercúrio mistério. . . . . . . .

() mistério da porta aberta .

. No escuro desconhecido nunca sabemos onde se encontram as cadeiras. ou mesmo pânico. as mesinhas de centro e podemos tropeçar nelas. Sendo assim. Se ali percebermos qualquer coisa estranha.. Através de uma porta aberta. uma porta entreaberta sempre será uma porta aberta. pois a escuridão sempre nos sugere um mistério que precisa ser aclarado. O que nos espera lá dentro? Sentiremos medo. antes de criarmos a necessária coragem para entrar. Portanto. Outra hipótese: a porta se abre para um ambiente iluminado.na verdade entreaberta. as poltronas. Observe pelo tempo que julgar necessário a porta mostrada abaixo: Pode-se argumentar que uma porta aberta não apresenta mistério algum. simplesmente não entraremos. porém sem muita consistência. por menor que seja a abertura. Até certo ponto essa argumentação é válida. Uma porta pode estar aberta para um recinto às escuras. Às vezes um mistério exasperadamente simples como a localização dos móveis. fechada ela não está. Nada podemos ver em seu interior. sempre conseguiremos ver o interior para o qual ela se abre. está aberta. Vi213 . Nem mesmo num recinto bastante conhecido ousamos penetrar sem antes apertar o comutador da luz. Mas muito ou pouco aberta uma porta. nenhuma visão de perigo que nos possa causar medo.. nos machucando.

e me faz medo. Uma na parte de baixo da porta. sem contudo aclarar a escuridão do local desconhecido para onde a porta se entreabre. Sofás. Não tenho inimigos. tudo nos leva a crer que se trata de um expensivo objeto decorativo.sível uma ampla sala muito bem mobiliada. Entre as duas. e nos janelões. imóvel. a terceira vela. Na parte de cima. a imobilidade pétrea do cão. fechada. aparador. uma pequena lareira de mármore. com a chama queimando normal para o alto. Vejo claramente as três velas. Barulho cadenciado como o soar de tambores. com sua chama derivando para a esquerda. nas paredes. A porta da rua fica exatamente defronte da porta das três velas. é possível que seja alguém querendo me assaltar. e até mesmo tirar minha vida. Atrás de mim outra porta que dá para a rua. junto à lareira. tapetes pelo chão brilhante. Outra no meio. um buldogue. Por certo. sem tempo de fugir? Temos medo. E se for mesmo um cão feroz. sim. talvez não seja um cão de carne. grandes vasos com plantas. Eu estou sentado numa cadeira contemplando a porta aberta (entreaberta) para a escuridão. poltronas. perto da moldura.adentrando. Porém. apoiado em suas patas dianteiras se posta um enorme cão. pronto para atacar o primeiro estranho que ouse penetrar na sala? É um mistério que precisaremos resolver se quisermos entrar sem riscos na sala aconchegada. Como é noite e estou sozinho nesta casa. sinto uma forte corrente de ar circulando entre as duas portas. Não tenho inimigos? Nestes tempos de agora nunca se sabe do que as pessoas são capazes. a força desse 214 . uma distância de quatro a cinco metros. com sabe-se lá qual intenção. Talvez seja uma dessas estátuas de porcelana habilmente pintadas. animal conhecido por sua ferocidade . Me assusto com barulhos fortes e continuados na porta da rua às minhas costas.em inglês bull-dogsignifica cão-touro. A riqueza do mobiliário. Bem ao fundo. reproduzindo com fidelidade a imagem do animal. Barulhos. Estou sentado a meio caminho e. assim como se alguém estivesse forçando a porta para invadir a casa. sangue e ossos. mesa de centro. cortinas de veludo. vigilante. Como ele nos receberá quando entrarmos na sala? Avançará sobre nós e seremos estraçalhados por suas presas afiadas. em grandes molduras douradas. com a chama levemente inclinada para a direita . mais ou menos na altura da maçaneta. neste ponto do vestíbulo da casa. quadros representando paisagens. O barulho ritmado da folha da porta da rua chocando-se violentamente contra o caixilho me assusta. Esta.

contudo. mas sempre para dentro. Observe novamente as três chamas: uma se volta para a esquerda. e as cortinas no interior. Não é normal. segue a regra estabelecida: as portas se abrem sempre para o lado de dentro. Para esconder o fundo. Se o sopro gelado oriundo da escuridão passa por mim para se chocar violento contra a porta da rua. Ou estivesse dando a ordem: entre! A exceção a essa regra universalmente estabelecida se encontra no cinema. Quando não há vento. evitando a construção de novos cenários. Desfaz-se este mistério e perco o medo dos golpes. perco o medo. A de um quarto nunca se abre para o corredor. aumenta para mim seu mistério. Quando me apercebo disso. dando a impressão de alguém tentando arrombá-Ia. outra para a direita. até . artes da representação. A vida real. sempre. e também as venezianas do lado de fora. Desde tempos imemoriais. logicamente as chamas das três velas deveriam estar todas voltadas em minha direção ou. a porta da rua está fechada à chave. na vida imaginária. Porém não é isso o que acontece.científica. 215 . as vidraças dajanela estão fechadas.vento é que faz a porta da rua sacudir violentamente. apagadas pela força do vento. Como também não é normal as três chamas tomarem direções diferentes. muitas vezes as portas dos cenários se abrem para fora. num convite para entrarmos. Não comprendo. no teatro e na televisão. vinda da porta entreaberta. a chama de uma vela queima para cima. a colocação de portas obedece a um princípio imutável: as portas sempre se abrem para o lado de dentro! A porta de uma casa sempre se abre para seu interior. Mas e a porta das três velas? A descoberta de uma forte corrente de ar. ela estivesse indicando a alguém indeciso qual o rumo a tomar. nunca para a rua. É como se. ou para facilitar o deslocamento dos atores e das câmeras. O forte sopro de ar vindo da porta das três velas me provoca calafrios. Isso somente no mundo da fantasia. outra para o alto. Todas deveriam estar queimando para o alto. aberta uma porta. E tenho medo daquilo que não posso compreender. E não poderia haver correntes de ar neste vestíbulo.para os estranhos barulhos. Tenho medo de atravessar a porta das três velas e penetrar na escuridão. Apesar de ser difícil alguém se mostrar calmo com esse soar de atabaques. tenho uma explicação racional . então.

precisaríamos ter a resposta da segunda: por quê? Me assustar? Fazer alguma brama comigo? Induzir-me a participar involuntariamente de alguma cerimônia mágica? Etc. Porém uma observação mais atenta nos mostra que ela se eleva uns dois ou três dedos acima do chão. O que sustém as três velas no ar? Certamente. Quem? Por quê? Para respondermos a primeira. Escondida atrás da folha direita da porta. Isso muito ajuda a dissimular a aparelhagem e os fios utilizados nos truques. A própria posição das velas flutuando no ar já é um mistério em si. etc.a escuridão atrás da porta entreaberta . Imagino que um estilete de ferro ou arame grosso fixado no centro da vela funcionaria como haste. isso não é segredo para ninguém. arame ou estilete deveriam estar camuflados com tinta fosca preta. podemos até pensar em algum truque. seria preciso ter a resposta da primeira. A vela de baixo parece ser a única assentada. o que afugentaria possíveis inquilinos. etc. um estranho ligado a alguma seita ou religião aleivosa teria a ousadia de me enredar num maligno ritual 216 . Talvez esse mistério das três chamas possa ser explicado por alguma lei física que eu e você desconhecemos. familiarizados com os mistérios da física. ou com os gases gerados pela combustão das velas. uma pessoa de mão firme sustentaria a haste dando-nos a ilusão de que a vela se mantém flutuando no ar. É lógico que prego. Sem dúvida nenhuma.um susto é capaz de matar quem sofra do coração. Nem precisaria ter alguém segurando: um prego afixado na sambladura da porta serviria como haste. um inimigo certamente arquitetaria algo semelhante . O mistério é como três correntes de ar vindas do mesmo lugar . para não se tornarem visíveis e se confundirem com a escuridão. É de se notar que em circos. teatros ou em qualquer casa de espetáculos.podem tomar três direções distintas. duas perguntas surgem. Caso haja algum truque com as três velas. evita-se que janelas e portas se localizem em pontos que possam formar correntes de ar.Quando se planeja a construção de uma casa. Algum amigo faria essa burla de mau gosto comigo? Para me assustar. Como estão todas quase encostadas na folha direita da porta. Algo relacionado com a pressão atmosférica. nenhuma lei física explica isso. Não sei. Um truque mágico pressupõe a existência de alguém capaz de imaginá-Io e executá-Io. nem eu nem você. Não estamos. os números de mágica são apresentados sempre com uma cortina preta ou de cor escura ao fundo.? E para respondermos a segunda pergunta.

A fumaça embriagante e fétida assim expelida força o transe místico dos celebrantes e apressa sua comunicação com os espíritos. Tubos metálicos sem pavio. um louco encontraria razões suficientes para invadir minha casa e armar este estranho altar. assim como não sei dizer quando começou. Mas quem e com qual intenção poderia estar oficiando um ritual mágico na escuridão por trás da porta entreaberta? E eu? Como posso exorcizar o desconhecido? O vento parou de repente.à luz de velas. calor de decomposição. nem eu nem ninguém ousaria entrar. e o cheiro quente. Pegajoso como o calor abafado que sentimos em ambientes fechados com velas acesas. persistente. são as três velas. Porém as três velas acesas à minha frente mantêm-se intactas. Outra coisa me inquieta. Mas e se não forem? Não sinto cheiro de gás. como se usam agora nos velórios. e você sabe. como de ervas se queimando. me abraçando entre meu corpo e minhas roupas. enjoativo. Não posso afirmar quando. Sei. Velas queimando ajudam a medir o tempo pelo seu lento mas inexorável desgaste. Incenso. Desnecessário olhar à minha volta para ver que a única coisa em combustão. que em algumas cerimônias religiosas primitivas costumam queimar incenso e estranhas ervas. parece-me sentir um cheiro agridoce. mas isso não interfere na posição das chamas. Talvez da escuridão atrás da porta entreaberta se origine esse cheiro nauseante. 217 . que continuam queimando em diferentes direções. o pegajoso cheiro de ervas queimando? Durante o tempo que estou aqui não acendi nenhum cigarro. Como explicar. nesta parte da casa. porém. Já estou aqui há algum tempo e o tamanho das velas mantém-se o mesmo. de velas se queimando. me parece que o propósito maior é impedir ou retardar a minha passagem pela porta aberta (entreaberta). Por vezes. As três velas são o bastante para provocar este odor característico de câmara mortuária. Assim. Sinto-o em torno de mim. Talvez haja uma explicação bem simples para isso: são velas artificiais. contendo o gás que alimenta as chamas. É como se o tempo não passasse. pintados de branco. As chamas não consomem as velas. Em sua mente doentia. talvez. E se eu ousar? Conseguirei passar com vida pela porta das três velas? E o que encontrarei na escuridão lá dentro? Preciso de respostas para essas perguntas. Sinto seu calor tomando conta desta peça da casa. O vento parou de repente. Velas artificiais. Seja o que for.

então. barraca de feira. Inanimada. tomando vida somente com a minha chegada. Quando me deparei com a porta entreaberta das três velas. E olhei bem para confirmar se eu estava na mesma rua. tenda de culto ou coisa que o valha. 218 . sim. Ninguém. Abri a porta da rua sabendo o que ia encontrar. Posso. Se eu me levantar desta cadeira. Não foi o que aconteceu hoje. Posso e devo. dentro da minha casa. basbaque deslumbrado. devo largar a caneta e o papel. Você não pode me ajudar. apertar as chamas. à minha espera. No entanto aí está. Sem novidades. A mesma disposição das peças. Eu sou eu. Pode? Memória da infância. De dia. Tampouco me encontro num templo de cultos primitivos. Tenho. E eu tenho de resolvê-Io. posso retomar a caneta e o papel.Contudo. na qual eu quis entrar e entrei. os mesmos móveis.gesto tantas vezes repetido. truque. Para isso. Não é uma casa de loucos. os mesmos ambientes familiares dos quais faço parte. ninguém poderia ter entrado e armado esse altar. arrombando-a. Posso. de noite. esse mistério. derrubando pelo chão as velas e tudo o mais que tiver. devo e vou fazer alguma coisa. Sozinho tenho que aclarar este mistério. posso jazer como jazia quando menino: umedecer com a língua a ponta do polegar e do indicador e. Sou o que sou. em nada pode me ajudar. com eles. apagando-as. Depois. Cuja chave trago sempre no bolso. na mesma casa. Esta é minha casa. à hora que eu chegasse e abrisse a porta da rua esta casa me acolhia. quando eu me levantar desta cadeira e me encaminhar em direção da porta entreaberta das três velas. sem dar atenção às velas. acender o isqueiro que trago no bolso e aclarar a escuridão. a casa me recebeu como a um estranho. Ou. Para isso. Esta é a minha casa. Com um pontapé posso abrir a porta entreaberta. Depois. não estou num velório. já vi. Somente eu carrego a chave da casa. broma ou seja lá o for esta invasão das três velas ardentes. e descrever para você aquilo que aconteceu. Muitas coisas posso fazer para resolver este mistério idiota. Ao abrir a porta e adentrar neste vestíbulo. posso penetrar na escuridão e buscar o comutador da luz. Devo deixar de me comunicar com você que. Nem sou eu um alienado espectador. aleijado. Que sempre encontro ajuizada. do lado direito . preciso me levantar desta cadeira imóvel. cheguei a dar três passos para trás. sempre a mesma. sem mistérios. a casa que me acolhe sempre. de volta à rua.

Mistério ~ numeros .

respeito e procura de intimidade com Nossa Senhora das Dores. a mulher. Sem soltar as mãos. São Marcos e São as cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo os primeiros selos que o Cordeiro abriu no Apocalipse as sete cartas que. outras rezam tristes e algumas gemem e soluçam. Lá no alto. Umas entoam cantos alegres. É uma mulher nem muito moça. Agarrada firme na imagem de Nossa Senhora das Dores. algumas olham para o lado. como também para demonstrar toda a sua fé. Beija repetidas vezes a face da imagem. e calça rústicas botinas de couro cru para homens. em tamanho natural. com gola. algumas entreabertos. São Mateus. Umas são mulheres. pernas trançadas na parte inferior da imagem. traja um vestido comprido de tecido grosseiro acinzentado. em cima do altar. Seriam dez ou doze pessoas diante do altar. que tivestes o vosso 221 . Amparada estou em vós. Como as outras mulheres do campo nesta região do Paraná. abotoado. outras para baixo. Umas trazem os olhos abertos. uma mulher está abraçada à imagem em tamanho natural de Nossa Senhora das Dores. de Nossa Senhora das Dores. outras mantêm os olhos fechados. que fica do lado direito. outras são homens e três ou quatro são crianças. Virgem Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo. Maria Santíssima. no Apocalipse.1 2 3 4 Lucas é o estábulo santo deJerusalém onde Jesus Cristo nasceu são as duas tábuas em que Moisés recebeu a lei que nos governa são os três cravos que cravaram Jesus Cristo na cruz são os quatro evangelhos: São João. Corpo colado com o da santa. Na cabeça tem como touca um pano branco que esconde a cor de seus cabelos. agarra-se firme não só para não cair. Nem todas estão olhando para a imagem que encima o altar. logo que se entra na igreja. abraça-a para não cair. Reza a santa reza: Abraçada estou em vós. Umas olham para cima. nem muito velha. Usa grossas meias longas de lã cinza. Nossa Senhora das Dores. São João escreveu às sete igreas oito primeiras epístolas de São João Apóstolo os nove coros de anjos que para o céu subiram os dez mandamentos da Lei de Deus 5 são 6 são 7 são jas da Ásia 8 são 9 são 10 são 11 são as onze mil virgens que desfrutam a companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo 12 eu não contei direito mas me parece que eram umas doze pessoas que se postavam diante do altar de Nossa Senhora das Dores.

a mim e à minha família. Nem precisava ter feito o sinal-da-cruz. que. invocações. parece ter sido pessoa rica e influente. homens e mulheres que sejam. veste o que parece ser uma espécie de uniforme. Em aflição vos peço: Vigiai minha casa. Pela roupa o defunto era algum tipo de militar. bruxedos. em meio a panos roxos e tecidos rendados nas paredes internas do caixão. visíveis ou invisíveis. outros ajoelhados e alguns em pé. Cabeça branca e redonda de pano branco. em qualquer lugar. tal a quantidade de flores que cobrem seu corpo. Sete dores mortificaram vosso corpo virgem e santo. parece um boneco. não dá para perceber direito. algumas pessoas. pelo aparato ao seu redor. bruxos ou bruxas e adivinhos. se eleva um caixão de defunto apoiado sobre um estrado de madeira que não se vê. pranteiam o falecido. ó Esposa de Deus desta igreja bastante grande e suntuosa demais para uma cidadezinha do interior como esta.puro coração transpassado sete vezes por sete espadas. A tampa de madeira entalhada está apoiada num dos cantos do cadafalso. uns sentados. Apesar de não ser dessas coisas. Perto dos primeiros bancos. Apenas uma peru222 . Em meu socorro vinde. Atravesso por uma fileira vazia e chego ao corredor central. em qualquer hora do dia ou da noite. Olhando bem. Chego mais perto e ergo a cabeça para ver melhor. madeira escura envernizada. aparadores de brilhante metal prateado. circunspectas. Sete vezes vos peço. não me parece ser uma pessoa que está ali sendo velada. pois ninguém aqui parece se interessar pelo que sou e pelo que faço. É caixão de certo luxo. Me aproximo curioso para olhar o morto. que. em minha pessoa. Nossa Senhora das Dores. nigromancias. possam atentar em causarme mal. no espaço em frente do altar-mar. guardai-me das investidas de Satanás. sem orelhas nem marcas de olhos e nariz. em sinal de respeito faço o sinalda-cruz e vou me encaminhando para o altar-mar. Há bastante gente nos bancos. Guardai-me de seus agentes. Imploro vossa proteção contra quaisquer maleJícios. ó minha protetora Eu da cena me desinteressei e Em meu auxílio vinde. que fica ladeado por quatro candelabros de prata e tem na cabeceira um grande crucifixo também de prata. Em torno do esquife. ó Rainha dos Anjos vou caminhando em direção ao altar central Em minha defesa acorrei. protegei-me. encoberto que está por panos roxos. em meus parentes ou em meus bens.

Pode-se presumir que não seriam mãos que enchem as luvas. Vagarosamente. ninguém parece ter tomado conhecimento de minha pessoa. quase inaudível. velam em torno do caixão.ca encanecida dá alguma aparência humana a essa cabeça. mundo das sombras. Leva contigo para que eu delefique livre e nunca mais volte a sofrer com ele ou com outra doença parecida. dedos entrecruzados. O esforço para dizer essas poucas palavras foi muito para o velho. já que estás indo embora para sempre. para que leve aos céus ou infernos seu câncer.Não se deve zombar daquilo que acontece em solo sagrado! Muito loira de olhos bem azuis. Tem nas costas duas asas de papelão com penas brancas coladas.. e seus filhos têm de arrastá-lo para que ele se deixe cair no banco mais próximo e ali repouse ofegante. um anjo aponta sua espada dourada contra mim. túnica longa e branca que deixa à mostra apenas seus pequenos pés descalços. que nem sei se é mesmo um defunto.Vivente . . amparado por dois homens que suponho serem seus filhos. Batom vermelho 223 . Depois de alguns instantes parado. . e calombos irregulares nas mãos revelam um mal executado enchimento com algodão.Está zombando de coisa séria! Ameaçador. Algumas rezam parecendo puxar um terço em voz baixa. sem retorno.. trespassados por um rosário de contas pretas.. mais respeito . um velho de cor cinza se aproxima do caixão. . em pé. doença que me parece vai matá-lo logo logo. doentia. esse velho doente pedir a um defunto.Este é um lugar sagrado! É uma menina de cabelo comprido e loiro. Uma espada aponta em minha direção. Desde que entrei nesta igreja. caminhando com muita dificuldade. Tenho vontade de rir. duas luvas brancas pousadas no ventre do defunto. como que para recuperar o fôlego. pois uns dedos são mais grossos que os outros. inicia uma oração: Já que estás partindo para outro mundo. É de muito respeito a atitude das pessoas que. este meu câncer que por dentro me corroe. a menina-anjo. A espada que aponta para mim também deve ser de papelão recoberto com papel laminado dourado. Saindo das mangas do uniforme. Começo a achar tudo isso meio sem sentido e até engraçado. Duas luvas brancas. leva contigo esta minha doença. .. serragem ou outro material qualquer. o velho põe as mãos sobre as daquele que está no caixão e com voz rouquenha.

padre. Talvez seja por isso.Com sua licença. na pequena elevação. Compenetrado. talvez pelo calor aqui dentro.. Pela porta da sacristia surge um padre e se encaminha para onde estou... a espada toma então outro rumo. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário 224 . É um padre jovem. As portas da Casa de Deus têm de estar sempre abertas a todos . Não sou casado e mesmo na capital. não sei explicar bem por que mas a visão da menina-anjo me excita. Há dias que estou de viagem pelo interior. Como as dos seus pés. .mas existem coisas que não gostamos. não tenho companheira fixa. dirige-se a mim sem cuidados: -Aqui são todos bem-vindos . todo paramentado de veste litúrgica branca e dourada... talvez para ver se estou mesmo indo embora. como se fosse rezar uma missa imponente. Sei onde ele quer chegar e poupo suas palavras: .. A túnica é de diáfano tecido acetinado e quase antevejo. as unhas da mão que empunham a espada estão pintadas de vermelho vivo.Em outra ocasião o senhor será bem-vindo aqui. Sinto desejos por ela. . E me afasto caminhando pelo tapete vermelho do corredor central em direção à porta de entrada. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário O canto do coro da igreja vem lá do alto. gotas de purpurina vermelha que rebrilham à luz bruxuleante das velas.. As sobrancelhas e os cílios fortemente marcados de preto e sombra verde em torno dos olhos azuis cor do céu.. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário A menina-anjo me segue. .. A menina-anjo se desfaz de sua expressão séria e sorri. No rosto. conduzida pela mão do anjo movimenta-se lentamente em direção à sacristia. longe de casa desde ontem nesta cidade. Deixa de apontar para mim. Há dias que estou sem mulher.carregado nos lábios finos. os róseos biquinhos de seus peitinhos. onde moro. Que ofendem ao Senhor Nosso Deus .Eu estava mesmo de saída.

. preciso talvez é ter alguém com quem conversar. Procuro pelo dono. Onde andará? Se quiser. A mocinha só chega depois das seis. como se costuma dizer.A essa hora ainda não temos café feito.e jogo no chapéu do mendigo: além de aleijado das pernas. modesta construção térrea de madeira. quando o único posto da cidade estará aberto e terei gasolina para seguir viagem.A mulher continua pendurada Dores. . que não está na portaria. Com poucos passos chego na pensão onde me hospedo. posso apanhar a chave do meu quarto pendurada no quadro. . na casinha de madeira no pátio interno. o calor e o abafamento do quarto não me deixarão dormir direito e estarei acordado bem antes das seis.está sempre sorrindo . todas as doze chaves dos doze quartos estão no quadro. Com toda a certeza estava na privada. Número nove. vem ajeitando as calças.Uma esmolinha pelo amor de Deus! Apesar da noite escura cobrindo a praça deserta. arrasta uma perna. Ele surge da porta que dá para a área interna. . um mendigo estende o chapéu para mim na escadaria da igreja. Não vai ser preciso. Vem sorrindo . Procuro no bolso uma moeda ou nota de menor valor para dar de esmola. parece não levar muito a sério o que diz: . ele é cego.Tem importância não.Posso pegar minha chave? E dá para o senhor me acordar amanhã às cinco e meia? O velho responde como se estivesse zombando de mim. não mesmo.Deus lhe pague. E a única da cidade. Não preciso esperar o dono. Sou o único hóspede.como se fosse muito engraçado aliviar-se no meio da noite na privada escura e suja no meio do negro pátio. a sujeira. 225 . não preciso esperar o dono da pensão. os mosquitos. Posso pegar minha chave. É um velho gordo sem dentes. tomo na estrada. no migué. Nem mesmo preciso pedir que ele me acorde um pouco antes das seis.N ovalgina para uma dor de cabeça que eu estava . Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário na imagem de Nossa Senhora das É a menina-anjo quem fecha as pesadas portas de madeira escura às minhas costas. Acabo encontrando a nota fiscal de uma com pra que fiz na farmácia . .

É.Acho uma feiúra.. Até mesmo aqui e agora nesta nossa conversa. acho que ninguém sabe. Mas também é onipresente.Estou com a chave do quarto na mão. Está em toda parte. é uno e indivisível. O velho perde o ar de gozação..Também não. em todos os lugares ao mesmo tempo.. se alguém fica doente tem que andar trinta quilômetros até achar um médico. . Fica me olhando sério por algum tempo: .É.É.Porcaria duma igreja numa cidade que nem hospital tem.Esteve passeando pela nossa bela cidade? Diz isso como quem diz: Então andou vendo que bela porcaria que é este buraco? . E o senhor sabe? . sei lá. ele está aqui nos escutando. e segue falando: . . Ainda com jeito de zombaria. não sei não. quieto sem dizer nada. Mas . Deus. satisfeito com a grossura que disse. o velho me pergunta: .. mas nem penso em arredar o pé dali. Vi a igreja grande que vocês têm aqui. não está mais achando graça: .Então o senhor entrou na nossa igreja?! Quer saber duma coisa? Me olha fixo: . nós sabemos. 226 . e o Diabo? Onde fica o tempo todo? Onde encontrar o Diabo? Demoro bastante para responder: . E ri sem dentes.O senhor entrou na igreja? -É. estive dando uma volta. entrei porque não tinha outro lugar para ir.Deus . desperdício de dinheiro numa construção daquelas: só para entronchar o cu dos padres. muito bonita.

mlsterlo .Mercúrio . ".

irmã Eglantine reencontrou conceitos que não só conhecia. Para restaurar os doentes esgotados. No livro. que. incontestavelmente. o metal o mais brilhante. A simples imersão do metal vermelho em brasa nas tisanas era o suficiente para transformá-las em fortificante peitoral. químico renomado. suspendeu a leitura e pensativa deitou os olhos no pátio deserto ao seu redor: certamente não era este um tema para levar ao conhecimento de suas alunas pour les médecins arabes e os adeptos na Idade Média. que sempre sejactaram de possuir o poder de criá-lo em seus laboratórios e com ele obter uma panacéia universal o assunto interessava sobremaneira à irmã Eglanti- ne.Em setembro de 1879. de medir e de simbolizar o VALOR irmã Eglantine bem compreendeu que o autor aqui se refe- ria somente ao valor econômico e não aos valores morais. por segundos. observar o esmaecido sol da tarde para sentir a transparência do metal e vê-lo enrubescer como um rubi e não é nada estranho que um metal tão precioso como o ouro tenha sido objeto de experiências as mais perseverantes por parte dos alquimistas. Pensou no prazer que sentiria ao levantar entre os dedos a fina placa de ouro e. como já transmitira às suas alunas durante o transcorrer de longos anos de educadora Saudações. Bélgica. simplesmente. e mesmo para suas alunas Ordinariamente. O ouro não é A RIQUEZA. que consistia em cozinhar uma moeda de 1 ducado de ouro juntamente com uma galinha velha. ali no jardim do pensionato de verde relvado e árvores com ramagens verdes-cinza. um moderno tratado escrito pelo professor Arthur Mangin. ó Rei dos Metais. naquele início de outono. e preservativos contra a lepra. em Bois L'Evêque. Liege. passou por cima de informações bastante óbvias para ela. mas. ou um galo velho. Ouro. Pacientemente. verde por propagação e vermelho por reflexão sentiu vontade de ter nas mãos uma fina folha de ouro para ver se realmente ela tomaria a cor verde. é UMA RIQUEZA. do Pensionnat des Religieuses du Sacré-Coeur de jésus. o mais pesado e o mais imutável entre todos os metais. Ou. o ouro é um metal opaco e amarelo porém não pôde deixar de se admirar quando leu o que muita gente não sabe é que reduzido a lâminas extremamente delgadas o ouro torna-se transparente. irmã Eglantine. recebeu o livro Pierre et Metaux. o ouro ou o SOL possuíam propriedades sobrenaturais. através dela. objeto de culto servil de uns e do desprezo suspeito de outros. E não se pode transferir a qualquer outro metal o honorável papel de representar. Com o ouro fabricavam amuletos para fazer voltar a alegria aos melancólicos. eles prescreviam o famoso Bouillon d 'Or. polvilhavam os alimentos dos enfermos com pó de ouro pequenas liberdades consentidas que irmã 229 .

cozinhar servir. muito dificilmente. irmã Eglantine reina solitária na cozinha. às vezes. que tomba ao fundo". Eles o chamavam também. bizarramente. a escuma de todas as formas. Un. 230 . nas teorias místicas dos alquimistas. deux. Não adere às superfícies. Faz frio. costurar cerzir. com o cobre. mesmo passada a hora de se recolher. somada à sua alvura e ao seu brilho cintilante. esfregar arear. que viveu no século XVIII. Fraldas confeccionadas com esgarcidos lençóis sem uso completam a esmola piedosa. Os metais a que melhor adere são o chumbo. sobre as quais flui livremente. pois que somente se solidifica a quarenta graus negativos. quase uma substância sobrenatural. Todos os metais nadam sobre o mercúrio. No cesto o patê. Somente mais tarde fará as orações da noite O químico árabe Gerber (Yabar-Al-Koufi).Eglantine se acha no direito de tomar. de Bile do Dragão e Leite de Uma Vaca Negra bem doce. a este adere somente por um artifício que é o grande segredo da Arte. A vela alumia o livro O mercúrio é o único metal que existe naturalmente em forma líquida e conserva esse estado mesmo a baixas temperaturas. É necessário enrolar o xale negro nas mãos brancas que seguram o livro. Essas descrições são exatas e a química moderna nada mais fez do que complementá-Ias. A irmã despenseira lhe deixou a chocolateira esquentando sobre a adormecida chapa brilhante do grande fogão a lenha. Sobretudo na Idade Média. trois.todos produtos do pensionato. toma chocolate com leite na cozinha deserta. jovem noviça para todo o serviço no pensionato: preparar-se espiritualmente para o matrimônio com Jesus Cristo. quando se vê o mercúrio tomar uma singular importância e desempenhar um papel extraordinário. Para eles o mercúrio era a Água Divina. o princípio e a essência de todos os metais. Ele se amalgama igualmente com a prata e. o queijo de leite de cabra. depois de tantos anos servindo a Deus no Pensionnat des Religeuses du Sacré-Coeur deJésus: antes de dormir. o estanho e o ouro. exceto o ouro. Longa é a caminhada e irmã Eglantine aperta o passo. o chocolate ao leite torna-se mais saboroso e aquece muito mais o corpo. O cesto quem leva é Anne Marie. quatre et pourquoi pas cinq tablettes de sucre? Bem adoçado. mãos fora das cobertas. escreveu em seu Soma da Perfeição do Magistério: "O mercúrio se encontra nas entranhas da terra. Nesta hora de silêncio no pensionato. limpar polir. o chocolate ao leite esquenta e relaxa o corpo. lavar passar. Esta singular propriedade. sempre impressionou vivamente a imaginação das pessoas e fez considerar o mercúrio como um metal privilegiado. o pão e os biscoitos . Quanto ao ferro. irmã Eglantine prossegue a cativante leitura. varrer lavar. A pouca mobília torna a cela ainda mais fria.

Talvez ela tenha ido dar à luz em outro lugar que não aquele. estátua de sombras. vigiar e repreender as alunas e. A mesa alta impede a visão do resto de seu corpo. Agarra a freira pelo hábito. reinado dos javalis. Monsieur?! Trapos sujos cobrem-lhe o sexo. desamparada pelos parentes. desprotegida pelo marido sem trabalho. justifica a longa caminhada para a visita de caridade. acompanhar irmã Eglantine em seus pequenos passeios e visitas de caridade. camponês que não tem onde cair morto nós já o dissemos. A cabana dos Philipot assenta-se em meio a árvores limpas. substituída em seguida por um amortecimento suave. como para melhor se posicionar e ver Anne Marie. Não está a futura mamãe em casa? Não. Irmã Eglantine pega o cesto com Anne Marie e entram as duas na cabana escura. puxa-a violentamente contra seu corpo. Arranca rasga suas vestes de religiosa. punho e metade da metade do braço. até então oculta pelo negror da cabana e por irmã Eglantine.plantar colher. dos lobos e das serpentes. irmã Eglantine posta-se na frente de Anne Marie. prestes a dar à luz. Formigamento. grita sem que nenhum som escape de sua garganta. domina-a. Mas o senhor não se interessa? Não se interessa em conhecer seu filho? E sua mulher. sozinha? Talvez. Talvez tenha sido levada. às vezes. O mercúrio não parece existir em grande abundância na natureza os Philipot vivem isolados. Contra a vontade dos pais. A porta está aberta mas as janelas permanecem fechadas com tábuas. somente com a coifa. mão. Germaine Garnier casou-se com o jovem Paul Philipot. Philipot sai de trás da mesa e vem à frente. O cesto com oferendas servirá para mitigar a miséria do casal Philipot. numa cabana em partes afastadas das terras do barão de Montpellier. o homem Philipot. à beira da floresta. Ajovem esposa Philipot. E não são dadas maiores explicações. quase como um favor. irmã Eglantine grita. de pé estático. Não a faca: o que irmã Eglantine sente agora é a mão punho de Philipot revolvendo suas en231 . se bem que tenha um leve reflexo azulado. afinal? Lentamente. O golpe dado no ventre é tão forte que penetram faca. Como para encobrir aquela visão. Nu da cintura para cima. o mercúrio é dotado de um brilho cintilante e se parece bastante com a prata. Imoral! Imoral! Como se apenas esperasse ouvir essas palavras para agir. Philipot agiliza os movimentos. A dor rasgante da facada só é sentida por um segundo. Sem largá-Ia. Philipot estende a mão livre e toma uma faca de cima da mesa. onde está ela. Como. Talvez. Talvez o bebê já tenha nascido. asas a se agitarem na cabeça. Nua. ouvir e rezar. quase um apêndice da floresta ao lado.

inclinando-se. Branco filete líquido oleoso que não adere às bordas róseas da carne e penetra doce e ágil no interior do pequeno mistério da fenda escura. sai em parte e volta . limpa com beijos. por mérito próprio. com as mãos em concha. Desveste o hábito de noviça e. Onde ele arranjou tantas moedas de ouro? Ainda ajoelhado. irmã Eglantine está atenta e observa a cena. Philipot pouco se importa com os olhares da freira.. Saindo do corpo da moça. No mês seguinte. Posse silenciosa. prolongado e rouquenho. ela nem sente o peso do corpo nu de Philipot sobre seu corpo nu.. Por que se preocupar com uma freira morta. Outra moeda sobre o bico róseo do seio esquerdo. o corpo nu. Philipot retira a moeda de ouro que cobre o sexo de Anne Marie e. como prêmio de aplicação para as alunas que. Deposita uma moeda sobre o lábio de sorriso curto e uma em cada pálpebra semicerrada da moça. o braço se deixa sair um pouco e já lhe penetra novamente o ventre. Sente apenas o retorcer gosmoso entrar e sair da mão punho em seu ventre líquido: Aiiiiii. Mesmo quando caem e rolam os dois pelo chão de pedra. Em outubro de 1989. outubro de 1879. Philipot mantém-se de joelhos e. Liege. retira mão e punho vivos de um corpo já morto. Apesar de morta. longos cabelos loiros espalhados sobre a áspera superfície de pedras. 232 . boca e barba o sangue do sexo impúbere loiro de Anne Marie. A cada tentativa dela de se afastar. em Curitiba. situado na rua Emiliano Perneta 325. tenham alcançado as melhores notas nas aulas de instrução religiosa dos cursos do Pensionnat des Religieuses du Sacré-Coeur de jésus. Do fundo da garganta de irmã Eglantine vem um suspiro silencioso. Philipot cobre com um ducado de ouro o sexo profanado de Anne Marie. deitada no chão. na Feira dos Livros Usados. Morta irmã Eglantine. Anne Marie prepara-se para o sacrifício. foi vendido um exemplar de Pierre et Metaux. olhos esgazeados? Há mais o que fazer. espera. Bélgica.tranhas. vou morrer! Quando Philipot retira a mão e o punho. irmã Eglantine sugere à madre superiora a indicação do livro Pierre et Metaux. O mercúrio se liberta célere pelos vãos dos dedos. pequena fenda agora selada com ouro. em Bois L'Évêque. outra mais sobre o direito. Sai em parte e volta. lenta e cuidadosamente despeja mercúrio na pequena fenda oferta. sebo de propriedade de Irajá Reis. encadernado e em perfeito estado de conservação.

()s fantasmas do fundo de quintal Um mistério .

No limitado triângulo o Fantasma dos Quintais caminha pela calçadinha cimentada. da falta de ar. das dores reumáticas. 235 . olhos abertos no escuro fitando o nada. Ainda está longe o dia. Que tristeza! Milagre: o enorme lençol branco sobrevive no varal! Não se pode deixar roupa dependurada que os ladrões roubam tudo. de onde não se vê a rua. do remorso. Os olhos sem imagens. Há os que não. Na noite fria há os que dormem protegidos pelo escudo do sono Sonham? Talvez. o Velho não luta contra o esquecimento: apenas quer lembrar e não consegue se lembrar do que quer lembrar.Ao longe o cantar abafado dos galos. Não tem perigo dele pisar no canteiro e amassar os pés de alface. homem! Revolto na cama. dos gases intestinais. vítimas fáceis dos demônios do quintal dos fundos. do medo. das tosses noturnas. as cebolinhas e os rabanetes: Que economia trazem para a casa! Sentado na cama em ângulo reto. da bronquite. Os cachorros se esquentam enrodilhados em seus sonhos. preparando suas maldades. atento. de urina solta. abertos para o vazio do quarto escuro. Presas da insônia. Ninguém pode se livrar do mal. Atravessam as noites acordados. Os telhados vão amanhecer branquinhos de geada. ninguém vê mas o Fantasma do Quintal está ali. ocos.

Tanto ela tem feito para que ele passe essa fase ruim em que está e volte a ser o que era antes: um homem alegre. os quintais do fundo se ligam com os quintais de outras casas. Pelo vão da cerca a ameixeira derrama seus melhores galhos para o lado do vizinho. Ainda bem que não está ventando. As galinhas vêm ciscar na horta alheia.ao acordar. se con tin ua assim não sei o que será dele. Botaram feitiço nele. Se soubesse talvez pudesse ajudar. Cai num sonho nervoso. trabalhador. Não adianta: ela não quer saber mais dele. Mais tarde . falsa ou verdadeira. sempre há uma esperança. Pela tessitura das cercas. terá a imagem dela diante dos olhos para sempre. sem dormir sonha agitado com a Outra. Deve ser coisa de alguma mulher. Ele está se acabando. lá do quintal dela a Enxerida espiona tudo. o gato da Velha mija fedido na varandinha da casa nova. 236 .vocês vão ver . esperando a hora de levantar e fazer café. Não há como se livrar disso. Inútil insistir. a Mãe insone reza pelo filho. Eu tenho rezado tanto pelo meu filhinho! O pior é que a Mãe não sabe por que ele está assim. Mas vá falar disso para um homem apaixonado! Não sei.o Homem não pode se livrar da memória. É disso que o Fantasma do Quintal se aproveita Ainda está longe o dia e a geadajá começa a cobrir a grama. que largou dele para sempre. Na interminável noite.

. Os ladrões da noite não procuram casas com fantasmas no quintal. quentinha. protegida. o tatu busca sua toca no terreno baldio sem cercas dentro da noite. as noites frias! Debaixo do lençol úmido a Mocinha dorme seu sono solitário. O canalha! A madrugada vai alta. Ahhhh. Sem sair do quintal o Fantasma . depois escorrega a mão até a gretazinha miúda pulsante. A Outra dorme aninhada em seu novo namorado. longe dali. matou alguém. a Mocinha agora dorme tranqüila debaixo do lençol seco. uma criança ainda! Isso não se faz . Sua mão gelada de fantasma acaricia o ventre liso dela. calorzinho tão bom! Suspiro prolongado e um ai. na morte será minha! Se a Mãe soubesse que o filho criado com tanto carinho quis tirar a vida de alguém. a sombra do Fantasma entra no quarto e observa o sonho da Mulher para ver se ela dorme calma sem saber das coisas que o marido aprontou. Pensar que o Homem pensou até em matar: Se ela não é minha não será de ninguém. 237 . Na sua brancura o Fantasma entreabre um sorriso de dentes amarelos.que demônio! já está na cama agarrando a Mocinha por detrás. Com passinhos macios. ao longe passa o ruído de um automóvel tardio. Pé ante pé. Coitada. sem fazer barulho. Ninguém nas ruas.a valeta vaza suas águas fétidas para o lado de cá. vozes indesejadas atravessam as cercas de madeira. Isso durante o dia: dentro da noite é esse o território dos fantasmas dos quintais.. Ela vai ser uma perdida na vida! Na sala o gato preto dorme em cima da televisão.

Se parecia com a mãe? A Outra se recuperava na clínica clandestina. ao longe se vê a estrada de pouco movimento. O fusca parado num terreno pantanoso. Tirar agora é matar uma vida. parecia um grande pedaço de fígado. dá pontapés na barriga da mãe.que mortalha pode cobrir um bebê morto? Na noite escura só o Homem escuta o grito só para ele. o grito apertado. rins pelas dobras prenunciando membros. Olhando a barriguinha da Outra ninguém diria que estava de seis meses. um grito dele. orelhas e olhos. O Homem cobriu de terra. E desperta dentro de um pesadelo. Não sabia rezar. Fez um buraco com a chave da roda e com as mãos sujas de lama preta. O médico aceitou mas fez uma exigência: tirar eu tiro. mas vocês é que vão ter de enterrar. O Homem não tinha levado nada para cavucar. textura lisa talhada. Depois eu limpo direito. quando precisava pedia para a Mãe. nariz. olhos esbugalhados que não vêem mais a imagem da Outra. Como pôde limpou a mão numa estopa. Com seis meses já está vivo. Não! Alguém vai desconfiar. pensou em fazer uma pequena cruz. O filho dele. Pela cor plúmbea. A imagem é outra: o rosto esborrachado do bebê morto. Na agonia da morte uma criança. Trouxe o feto embrulhado em plástico transparente. Dias e dias atrás do dinheiro e de um médico que aceitasse fazer o aborto. dura gelatina.Horrível! O grito de alguém morrendo. 238 . choro prolongado de um bebê . O rosto que ele agora tinha nos olhos.

dentes arreganhados. E o amor. se fosse um ladrão não acordava. latindo avança nele. Do Homem sai um grito silencioso. O Homem não conseguia mais ficar deitado. pêlos eriçados. nunca mais. desassinalado. Então percebe com horror: O Fantasma do Quintal sou eu! Passa a mão nos olhos. longo. Os cães do bairro respondem num enrodilhar de latidos. se enxerga parado no meio do quintal. 239 . Ninguém vai ouvir seu grito. o Homem treme de medo. Tem agora toda a memória do mundo e o dia não vai nascer.Patinando na lama o fusca voltou para a estrada. uma eternidade de medo antes de conseguir gritar: Passa. para que serviu? Não poder dormir nunca mais. como se não existente. Nos seus olhos a imagem da Outra se mistura com o rosto mongol do bebê. Não de frio. O Homem abre a porta que dá para o quintal. a mulher volta ao sono. que dorme calma ao seu lado e tem um ligeiro despertar: aonde você vai? Mais uma mentira das muitas: vou no banheiro. Não vê que sou eu?! No escuro. Não sei se foi o medo. o frio da madrugada arrepia seus pêlos. nem os cães nos quintais. com as lágrimas lava a lama preta das mãos e vai procurar outros quintais. O rosto afundado no travesseiro. levanta com cuidado para não acordar a mulher. o cão recua ainda rosnando e depois se cala. Sultão! Guapeca vagabundo. o Homem não está mais dentro do seu corpo. outros mundos. Dá três passos e o grande susto: o Cão Negro. no meio da noite.

COISAS DA VIDA .. mesmo. A SAUDE DA MULHER O GRANDE REMEDIO DAS DOENÇAS DE SENHORAS . EJle . . voando palavras! phormocial é pri- ElIa • Para lHER. ()mlsterlo Sônia teu. • • (EPISODIO N. .Mósinhal Para que recordar? felicidade Elle _ Santas meira de regresso ao teu lar. Levarós Vou Compro um com elJe o Ello . abençoarmos a SAUDE DA MU· que me restituiu 00 teu omor!.. querido? Foz hoje um onno que brigá mos pelo ultimo vez . ~.' 2) o amigo· A SAUDE DA MULHER fará o mi· logre· é o grande remedio pora 0$ incommodo$ vidro hoje dos senhoras.Lembras-te..

chega-se à praça da Matriz. Longe de ser um defeito desagradável ao olhar. apesar de grande. O que procura o Homem de Olhos Azuis àquela hora naquela ci243 . mas a Mulher tem uma mancha preta no branco do olho esquerdo. um certo it aos olhos esverdeados dela. mais adiante. lançado há dois anos pela fábrica. que também dorme. porque no sono ela mantém as pálpebras cerradas. entre duas e quatro horas da madrugada. oito e meia da noite anterior. dá um certo atrativo à beleza da Mulher. esse sinal de nascença. Como o carro é de modelo recente seu motor é silencioso. e como a Mulher não tivesse modess em casa e se avexasse de mandar alguém buscar na farmácia do seu Benedito. No momento não podemos ver. ainda se encontra em bom estado. não perturbando. estreitas e curtas. calçamento apenas no centro e em algumas avenidas periféricas. seguramente. no centro. O único sinal da viagem que acaba de fazer é a camada de pó pegajosa e leve que aderiu principalmente nas partes laterais e nos pára-lamas. o que atesta ter ele rodado em estradas de terra. o que diminui ainda mais o barulho do motor. entrando novamente pela avenida xv de Novembro. tem entre os vãos dos dedos do pé chumaços de algodão embebidos em Vodol. improvisou uma toalha higiênica com um grande guardanapo branco de boa qualidade. vindo do Sul. As regras apareceram por volta das oito. a pintura vermelha não está descascada. obrigam que o Homem de Olhos Azuis conduza o carro em baixa velocidade. E as ruas de traçado antigo. Seguindo a entrada sul em linha reta. Nenhum amassado na carroceria. o sono dos habitantes da cidade. Um exame mais do que superficial mostra que o carro.o ESTADO GERAL DO CARRO Bom. mais para pequeno. para controlar as frieiras que muito o afligem nesta época do ano. O marido. A SAÚDE DA MULHER Seriam. a lataria sem pontos de ferrugem e os pneus são novos. Traz. É uma cidade de tamanho médio. Por essa hora o carro entrou na cidade. dobrando à esquerda no largo do colégio das irmãs e. portanto. Mais certo dizer que perto das três e meia. como se diz.

A SAÚDE DA MULHER determina ligeiro abalo no organismo. Por suas propriedades terapêuticas acentuadas. dificilmente encontrará. E nenhum estabelecimento comercial funciona até essa hora. Até a delegacia de polícia mantém a porta fechada e as luzes apagadas. Prossiga com o tratamento. ela tomou uma colher das de sopa do remédio. remédio antigo mas de comprovada eficácia. Não deve haver preocupação com isso porque está agindo beneficamente. mas geralmente funciona só até as oito. dissolvido num copo de água açucarada. DA MULHER contém substâncias de ação sedativa e antiespasmódica nas cólicas menstruais. Ninguém pelas ruas para dar qualquer informação. a farmácia. às vezes. Passou disso é preciso tocar a campainha para chamar o farmacêutico. diminua a dose. Precavida. Foi comprado na farmácia do seu Benedito e guardado no armarinho de medicamentos até a chegada da menstruação. o Central. nove e meia da noite.dade? Seja o que for. quase todas pinta244 . A SAÚDE São ruas curtas que desembocam em outras ruas curtas e trazem a indagação: para que lado seguir agora? As casas. logo que desceram as regras. pois já apagou a pequena lâmpada que alumiava sua pequena placa e fechou a porta de entrada. O que fecha mais tarde. Não tem contra-indicações e não prejudica a amamentação. a Mulher tem sempre em casa um vidro de A Saúde da Mulher. Ontem à noite. no máximo. ou. E não será fácil achar o único hotel da cidade. dependendo do dia fecha às nove.

Ou talvez tenha. então. O Homem de Olhos Azuis no carro vermelho não tem sono. quando abre o único posto da cidade? E. não estivesse dormindo roncando. fazem-na gemer e revirar-se incessantemente na cama. A obscuridade vista pelos faróis do carro dá ao Homem de Olhos Azuis a impressão de estar sempre andando em círculos pelas mesmas ruas. Alguém que um compromisso ou um trabalho urgente tirou da cama mais cedo. 245 . não pela calçada. teria dificuldade para identificar o nome que ela diz. pare por falta de combustível e tenha de esperar até as sete horas. Às vezes. entre casas amarelas que se assemelham iguais. nos tempos em que a cidade florescia. Mesmo se o Marido. Seja o que for. É agitado o sono da Mulher. a concentração e a excitação espantaram seu sono. mas por se manter atento em achar o caminho por ruas calçadas de paralelepípedos que parecem sempre as mesmas. sonho bom ou sonho mau. Fosse daqui a uma hora. não terá sido achado. É claro que não se pode adivinhar que tipos de pesadelo o mal-estar traz a ela nesta madrugada nem quente nem fria.das de amarelo. Se encontrasse alguém. ao lado dela na cama. Tem o carro gasolina suficiente para continuar rodando pela cidade adormecida? Não poderá acontecer que. Quase inaudível. como são as falas do sono. as portas do quarto fechadas na velha casa abafada. um cachorro late aqui. A iluminação pública é bastante ruim. sem encontrar saída. não irá encontrar nesta hora em que todos dormem. Em seu sono agitado. outros respondem lá longe. depois de algum tempo param de latir e vão recomeçar mais tarde. talvez já se visse algum passante andando. seja o que estiver sonhando. o Homem de Olhos Azuis pararia o carro e pediria informação. a Mulher pronuncia o nome de alguém. Uma leve neblina envolve a cidade. as luzes dos faróis do carro vermelho atravessam por entre as frinchas das venezianas fechadas e relampejam no escuro do quarto abafado. Ela passa por suores frios e ondas de calor que. foram construídas quase na mesma época. seja o que for que o Homem de Olhos Azuis esperava encontrar na madrugada desta cidade. mas apressado pelo meio da rua como todos os que caminham pela madrugada. de repente. e talvez pudesse localizar aquilo que veio procurar nesta cidade que não conhece. se não chegam a acordá-Ia.

Acelerou o carro vermelho. longos e pretos pêlos púbicos da Mulher. finalmente. que dormia roncando ao lado dela. Tudo o que eu disser será verdade para você. voltando do sono. eu sou um observador privilegiado. a Mulher despertou do seu agitado sono gritando o nome do Homem de Olhos Azuis. e tudo o que eu escrever aqui. Posso dizer também que. tenho eu o direito de indicar finais possíveis para os acontecimentos reais que comecei a contar? Por acaso sou um deus com o poder de determinar o destino das pessoas? A resposta é não. seja lá o que for. Por exemplo: eu posso escrever que o Homem de Olhos Azuis cansou de procurar e. o sangue menstrual continuará sendo expelido em grandes fluxos. é melhor que eu me cale e deixe somente com você a tarefa de deduzir o que aconteceu depois com o Homem de Olhos Azuis. a Mulher e o Marido. Por isso. Porém. mesmo que seja inventado.Mesmo durante o sono. do que tinha vindo procurar naquela cidadezinha pela madrugada. E que o Marido. sujando o pano branco e marcando de vermelho os sedosos. no momento em que ele partia. encontrou a saída da cidade. Que seus gritos acordaram o Marido. seguiu os treze quilômetros pela estrada de terra até alcançar a rodovia asfaltada e pegou o caminho de casa. 246 . desistindo. pois participei do início dos acontecimentos daquela madrugada. o OBSERVADOR o PRIVILEGIADO que aconteceu depois? Em relação a você. descobre com pavor que a Mulher ainda guardava no coração o nome de outro homem. você tomará como o acontecido.

() mistério da Sonâmbula .

em movimentos lentos flutuantes. pois me parece difícil denominar os atos de uma pessoa em estado de sonambulismo. chegou defronte à grande porta envidraçada. se ficou em frente à grande porta envidraçada. eu não diria indecisa. deveria também vigiar a propriedade durante a noite. Pela noite. viaja em férias escolares. O marido dorme no quarto do casal um sono pesado. só então acender as luzes. limite entre a sala e o varandão. conforme o combinado. caminhando. eu diria. No jardim dos fundos. sem acender as luzes para não perturbar o sono das outras pessoas da casa. A cozinheira aproveitou o dia de folga e dorme na casa da filha casada. a cristaleira antiga que veio da fazenda. A Sonâmbula. Seu caminhar. Se. silenciosa. no escuro. alguém se levanta e. podemos deduzir que se levantou porque não conseguia dormir e. a mesinha de centro e o pequeno móvel com assento que abriga o telefone. O motorista. que. Como ninguém da casa ainda a percebeu em seu sonho de sonâmbula. Fica ali por alguns instantes. ligeiramente alcoolizado. duros. espera no centro da cidade que seu comparsa venha buscá-Io. caminhou pelo corredor até a sala. ressona em seu quarto de portas fechadas a sete chaves. apanhar o vidrinho de comprimidos para dormir. a cadeira de balanço com armação de palhinha. O Ladrão ainda não invadiu a casa. encher o copo e. não se pode dizer se ela caminha de olhos fechados ou abertos ou de que maneira ela evita. na enfermaria do hospital. longe dali. Na parte de baixo. no armarinho de metal. O irmão mais moço não se encontra na casa. as dependências da criadagem masculina estão vazias. para combater a insônia. A irmã tem seu quarto longe da sala. e mesmo depois de se levantar. A velha mãe. a empregada dorme em seu quartinho e continuará dormindo mesmo depois do despertador tocar as seis horas. foi por indecisão entre sair para tomar a fresca da noite ou voltar pelo corredor escuro e. a Sonâmbula caminha sem se chocar com os móveis da sala. é mais um deslizar suave. seguir até a copa. o sofá e as três poltronas de veludo vermelho. E o velho jardineiro dorme sob o efeito de sedativos. não está.Nada de gestos arrebatados. após nova 249 . o embate com os móveis: a mesa ovalada com seis cadeiras. no bar onde fazem ponto. a mesma que se queixa de nunca conseguir dormir à noite. lavar o rosto e se vestir. vai até a porta envidraçada que liga o interior da casa com o varandão do jardim da frente. supõe-se. no fundo do corredor. E podemos mesmo afirmar que. no meio da noite.

pegar não dois mas três comprimidos e tomá-Ios com água. contrapondo-se ao espelho.Dona Rejane. A Sonâmbula agora penteia os longos cabelos negros. com 250 . o marido revira-se na cama. O marido intervém: . Nunca me viram. a nova empregada tudo vê e reclama quando ele volta: . Ficou com a parte mais fácil. prerrogativa de quem levantou o serviço.Teus patrões dormem cedo. começa a se pintar no escuro. nem Rejane nem ninguém ficou sabendo que havia uma pessoa sonâmbula na casa. seu sem-vergonho?! Não foi desta vez.Eu não. senta-se e. que idéia! . Muitas vezes na vida tivemos insônia e. Cacilda. o motorista sai de cima da nova empregada. A três quadras dali. a Sonâmbula fritou ovos na cozinha durante a noite. Rê? Comendo escondida de noite? Por isso essa barriguinha? A Sonâmbula pensou logo na sua velha mãe.O que é isso. na casa de tijolos aparentes. desvendou a disposição dos quartos.Acordei hoje e encontrei a cozinha toda bagunçada. retira da gaveta da penteadeira o estojo de maquiagem. seu companheiro ficou no carro vigiando. cheia de manias.Ficou louco. . foi a senhora que fritou dois ovos ontem de noite? . Debruçada na cama. alguém pode te ver! . pronto a dar sinal caso notasse alguma coisa estranha. Porém o que sabemos nós das motivações de uma pessoa sonâmbula? A Sonâmbula toma uma decisão: vira-se. Antes. portanto. podemos reconstituir facilmente os pensamentos e ações de quem não consegue dormir de noite. enquanto servia o café a cozinheira interrogou: . Incomodado por alguma coisa em seu sono. é?! Então você já veio aqui antes. abre a porta do quartinho e. espiou a casa durante vários dias. chega até a borda da piscina e mija na água. retorna pela sala entrando no corredor. não sei se de olhos fechados ou abertos. nu. Pensou e calou-se. Alguém andou fritando ovo e deixou tudo sujo. Na manhã seguinte. abre a porta de seu quarto. indicou o que deveriam apanhar e ainda trouxe o carro roubado.---------indecisão. A coisa ficou por isso mesmo. Era isso o combinado: o Ladrão pulou sozinho o muro da casa. Há algum tempo atrás.Nunca te viram.

Tem o quê? Doze anos? Sentado na cama da enfermaria. parece que nem consegue mais respirar. por isso não consegue dormir. A cozinheira reza para que o genro arrume um emprego melhor. Susto tão grande que precisou tomar água com açúcar para se acalmar.Que que é isso? Que sangue é esse? . homem trabalhador mas sem sorte. companheiro se assusta com o Ladrão pulando o muro de volta: . Para que o netinho sare logo daquelas grosseiras que tem no rosto. coisa fina. de dia. Pensa na última vez que veio pousar na casa da filha. Para que a filha não seja tão luxenta. para seu serviço de vigilante noturno. e tem a coragem de dois cigarrinhos fumados há pouco. já sabe que não tem alarme na casa. olha e pensa no velho jardineiro deitado na cama ao lado. não entra.Vamos embora. muito decotada. quando vê do lado de dentro no escuro um vulto branco quase como a estátua dojardim. a sangue pegajoso escorre pelas suas pernas abertas. no meio das árvores. não implique tanto com o marido. no jardim. A velha mãe acorda agoniada e suspira: Ai. sabe que o melhor será subir pelo varandão e arrombar a grande porta envidraçada. quase gente. Esta noite.a tampinha do frasco passou perfume nos sovacos. balançando as pernas que não alcançam o chão seboso. o ar só sai. . respiração gorgolejante. e com a faca começa a forçá-Ia. A cozinheira incomoda-se com aranhas. desta vez. a Ladrão é moço. saiu bem alimentado com as comidas trazidas pela sogra da casa dos patrões. meteu a mão numa aranhona caranguejeira que estava na maçaneta. será? Ladrão não se assusta com a estátua.Deu pra pegar alguma coisa? a a a a 251 . no gramado. É apenas um menino. A cozinheira deitada ao lado da filha e do netinho na única cama genro já saiu faz tempo da meia-água não consegue pegar no sono. Ladrão experimenta a grande porta envidraçada. preto mas bom homem. De acordo com as instruções do companheiro. Está cada vez pior. tadinho. Ele vai morrer. Tenta rezar para ver se dorme. atrás da orelha e nos seios livres soltos cobertos pela camisola transparente. meu pai! Meu querido paizinho! Vira de lado e continua a dormir. quando foi abrir a porta no escuro para ir na privada. ágil.

Água oleosa. entrando e saindo sem nunca se largar de dentro. . um grito que veio assim como lá de dentro: Aaaaiiii . quente.E o sangue? Onde você arranjou essa sangueira toda? 252 . a Sonâmbula geme alto: Aaaaiiii .Deu crepe. Em seu sonho. . quentura esponjosa que vai pegando forma.. Eu ia pular em cima. . _ Não quero ter nada a ver com essa história. Tô lá na porta que você falou. vambora! _ Tá cheio de sangue na cara. olha a tua roupa. viva. se oferecendo. quente. a Sonâmbula se vê deitada na banheira e sente a água morna. No sonho.Não me põe em fria. uma morenaça de camisola transparente..Senta no jornal senão suja tudo. Matou alguém? . Juntei ela ali de pé mesmo. tomando conta de tudo.Você não vai acreditar. Com ela ali o roubo já estava perdido mesmo. . Mas aí na hora do gozo ela me dá o maior grito. Sabe como anda a minha barra com os home. pulei fora e corri.. aí a porta abre e me aparece uma puta duma mulher.Você matou alguém? Deixou a faca lá? _ Não dá para acreditar. apagar ela..Abre essa porra de carro de uma vez! . Me dá um cigarro. penetrando seu corpo adentro. Ela me olhando quieta e aí levanta a camisola.Me dá um cigarro.. mesmo no escuro deu para perceber que estava sem calcinha. Te pegaram? -Nada. carnosa. . Me assustei.

Mistério do menino morto .

Disse isso como quem diz ele está bem. de cores brilhantes: em primeiro plano. ela queria uma foto: . toda a sua vida. Eu continuava sem saber o que falar. logo depois do primeiro beijo. imagens já nem pensadas mais ou nunca registradas pela memória. Eu disse: . cercado pelos gansos brancos de longos pescoços. tudo é lembrado.. bem nítida. Quando vi aquele menino. Foi de meningite. nunca sei nessas horas. imagens sempre revividas como o lento entreabrir dos ofegantes lábios úmidos da mulher amada ao dizer eu te amo. Eram gansos. Coisas tão desimportantes quanto o sonolento vôo de uma mosca na sala de aula. dizem que nos segundos que antecedem a morte o mundo todo vê sua vida passar. quase maiores do que ele. imagens de toda uma vida no instante mesmo da morte: não se esquece jamais e não importa mais.Foi três dias depois que o senhor esteve lá fotografando.Ele tinha só cinco aninhos.. rapidamente como num filme. Fotografei o menino quando ele ainda estava vivo. Fui muito feliz nessa foto..o pai eu não cheguei a ver quando estive no sítio fotografando -. por isso mesmo queremos a foto. O loirinho carregando braçadas de grandes folhas de couve e a gansaria toda correndo atrás e grasnando. E não é só quem morre afogado. Quem sabe o que pensa uma mãe? .Obrigada . Deu uma bela foto. A mulher ficou esperando que eu dissesse alguma coisa. da hora da saída do ventre materno ao indesejado instante final. Ele morreu.Deve ter ficado bem bonita. loiro de olhinhos vivos bem azuis. o avô dele tinha uma criação bem-sucedida. Passou nem um mês e a mãe dele vem me procurar .. meio judiada mas ainda inteira. Era uma mulher bonita. Em poucas horas estava morto. usava métodos próprios muito eficientes.Mas como? Ele .. Não temos nenhuma fotografia dele . Sem explicação. .Meus pêsames.. bonito. nunca pensamos em mandar tirar. achei o que eu estava precisando: o instantâneo de uma criança dando de comer aos gansos. 255 . deu assim de repente..Quando alguém está se afogando vê passar. ... Ela não: . Eu não sabia o que dizer. o menino sorrindo mas meio assustado.

responde o vendedor. "Está descascada?".palavra que talvez uma criança de cinco anos nem saiba dizer. Já iam carregando com ele para o cemitério. teve a mesma duração daquela manhã dourada? Quando ele. pergunta o preguiçoso Malazartes lá do caixão. No que ele estava pensando quando morreu? Será que é igual a gente grande? Será que também repassou a vida dele .na hora da morte? E será que tudo passou com o mesmo peso de tempo? A dor forte na nuca .vidinha curta . "Não tá não". Lembrou o menino daquela história do Pedra Malazartes que a mãe contou então? Aquela do Malazartes que de preguiça não comia nada e estava morrendo de fome. então ele via o mundo através do azul luminoso girante. nem cobrei nada. Na hora da morte o menino riu novamente dessa história? Na relembrança. a alegria assustada de dar comida aos gansos durou o mesmo tempo da imagem sem contornos. Depois a mãe esticava bem o braço. a mãe rodava nos dedos uma bolinha de vidro azul e encostava nos olhinhos do menino. Olha como ficou bonita: 816 357 492 Antes de mandar entregar. da emoção indefinÍvel da256 . a bolinha azul brilhando lá longe. aninhado na cama materna. reflexos dourados do sol. aí passa um homem vendendo banana. é claro. da febre alta. para ele devia ser atrás do pescoço. naquela manhã de verão. A parte da dor. e Malazartes ordena: "Então toca o enterro!".Fiz a ampliação e mandei. eu ficava olhando a foto: coitado do guri.

será que experimentarei outras vezes o prazer que tantas vezes sinto no seu corpo? Então o estar morrendo valerá a pena? Agora você está ao meu lado. comecei a pensar na minha própria morte. Não pude evitar. Como será? Vai acontecer rapidamente num desastre de carro. mas quero ver uma vez mais o gemido que escapou dos seus lábios entreabertos. Não que eu tenha esquecido cada instante. Nem água ele agüentava mais tomar. como num filme. como a lenta agonia de meu pai? O câncer roendo pedaços dos lábios dele que iam soltando quando se passava algodão molhado para mitigar sua sede. perdida e nunca mais achada? Difícil dizer. No relembrar. as imagens da minha vida desfilarem nos meus olhos. o menino ficou sabendo onde é que foi parar a bolinha de borracha vermelha. quando a moça de cabelo preto quem era ela? .apontava as estrelas. 257 . você já existia? Ou seria amarela e não azul? Não sei. E você desaparecerá comigo para todo o sempre. o prazer que você me dá? Você já existia quando eu nem conhecia você? Quando o menino via o mundo no alumbramento azul da bolinha de vidro nas mãos da mãe. Na morte o menino levou a memória junto. eu dirigindo? Ou na longa dor da desagregação do corpo. E será bom lembrar.quela noite na varanda ao luar. você diz todas as letras do meu nome (como se chamava o menino morto?) e eu sinto a extensão do prazer. um espaço infinito no tempo da minha vida: como se fosse sempre assim e assim sempre será. Nossos corpos colados. a podridão em vida. E que lembranças vou reter na minha hora? Talvez então me venham com clareza momentos passados desapercebidos da primeira vez que tive você nos meus braços. sentir a cor do seu corpo colado no meu pela gosma do seu gozo. o mesmo corpo. ouvir o cheiro doce que se espalha de seu prazer. É este o sentido da minha vida. contava coisas da lua de São Jorge brilhante lá longe no negro céu azul do sonho? No repassar de sua vida. na hora da minha morte. acabamos de fazer amor. Só saberei de fato quando.

() mistério do gato preto e da gata gorda .

gatos não. A primeira coisa que chama a atenção nela são os cabelos cortados bem curtinhos. se os pêlos tiverem três cores só podem ser fêmeas.e como queria .Eu sou um homem. que chupei. pêlos macios. inventava mil pretextos. as coisas têm de ser do jeito que eles determinam. Só gatas tem pêlos de três cores. Mais do que as dos homens. Alguns animais têm pêlos ásperos. Foi a segunda mulher que conheci com pêlos no peito. uma mecha mais comprida descendo um pouquinho pelo pescoço. não se entregam fácil. Ela também era assim. Não era a palavra que mais saía de sua boca. a Danielle. Os bicos róseos dos seios dela são rodeados de parcos pêlos pretos. as pupilas dos gatos se dilatam no escuro. Disfarçados como eles só. Debaixo das grossas sobrancelhas pretas. lisos. esparsos. queria se entregar a mim . 261 . como que para ver no escuro. bem redondos.já nasce com o destino traçado. e eu brincava: "Parece um hominho". Gatos costumam ser altivos por natureza.mas não dava o braço a torcer. seus pêlos são bem macios. os negros olhos dela são redondos como olhos de gato. com grandes olhos bem pretos.fazia bastante frio naquela noite. Mais do que os homens. querem agrado mas fingem não querer. Da primeira vez que os beijei. Cara branca redonda como a de uma gata. Gatos com pêlos de uma ou duas cores . mil desculpas. escondia o que sentia. e correm todos na mesma direção. No cangote. a outra foi uma namorada que tive quando garotão. espalhados.tanto podem ser machos como fêmeas. igual a qualquer outro animal. como vi em outras mulheres. Vida sem surpresas. A noite é território dos gatos. firme. Porém. curtos. Antes de vê-Ia nua eu imaginava que teria uma vasta pentelheira de pêlos compridos espalhados em várias direções. Não é qualquer pessoa que consegue lidar com gatos. um rabinho como o de um gatinho. gatos não. Coisas da raça. por exemplo . o gato. a luz estava apagada e eu pensei que eram do cobertor lanhudo . Não que ela fosse peluda.preto e amarelo. dizia mil coisas: ''Você é um louco!". porém tinha pêlos bem pretos espalhados pelo corpo bem branco. Ao contrário do homem. uma francesinha. fininhos. os gatos sabem ver o que se esconde no negror da noite.

Eu sentia um grande prazer em morder as coxas dela e vê-Ia renegar o gozo que fingia não sentir. Na coxa macia de pele branca. perto do sexo. às vezes tirava sangue. estriados. Eu também mantinha o 262 . irritado mas sem coragem de se libertar. rija debaixo da pele branca como nunca vi igual. Com os dedos. dengosos. Numa das poucas vezes que falou coisas carinhosas para mim. mas fingia raiva. Acariciei ao contrário do sentido em que eles corriam. ela fingia que não estava gostando. O gato fica sem ação. cheiro de limão e suor quente. quando minha língua acariciava seu sexo. Parecia estar gozando quando eu beijava sua boca. disse que fazia isso para ficar mais tempo com o meu cheiro no corpo. e somente quando estão deitados de dorso. O desejo me corria pela ponta dos dedos. Na hora do gozo ela exalava um cheiro tão bom. vaidosa que é.Que nada! Era uma pequena moita de poucos pêlos curtos bem macios correndo em direção à sua fenda. disfarçada. Não era gorda. com os dentes. na cama. Ela ficava louca de raiva quando. ficava a marca dos meus dentes bastante tempo. gato preto. eu gostava de passar minha língua no pequeno buço que encimava seus rosados lábios carnudos. E era tão bom! Como acariciar um gato. puxava de volta. O único lugar onde você pode acariciar um gato no contrapelo é a barriga. eu revirava seus pentelhos. Buço ralo que mesmo assim ela descoloria. parecia que ela gozava muitas vezes o mesmo gozo. Minha gatona gorda. Fingindo vingança. Gatos não gostam que a gente revire o pêlo deles. e nada de carnes moles. Aquilo doía de gozo. eu sei. eu mordia as coxas dela no meio das pernas. primeiro roxa depois preta. Na hora de beijá-Ia. A primeira parte do corpo dela que toquei foram os cabelos curtos bem pretos. depois amarela. empurrava minha cabeça. Mulher que não se entrega. Só tem um jeito da gente dominar um gato: acariciar forte a espinha dele na região entre as omoplatas nas patas dianteiras. Eu não sou gata. nossas gosmas se colavam. ela se vestia sem se lavar. puxava de volta. entregue. eu a chamava de gatona gorda. sensível. se oferecendo para agrados. pêlos quentes. empurrava. no gozo. Como gata no cio. Ela sentia grande prazer com isso. não sou gorda e não sou tua! E de raiva enfiava fundo as unhas nas minhas costas. quando meu sexo estava dentro dela e quando. pela palma da mão. era rechonchuda. Depois de fazer amor. quando sugava seus seios.

depois de fazer amor.cheiro do gozo dela comigo. pode reparar. Com as duas mãos empurrando a faca. Meu rosto toma a forma da morte: olhos cavos. o calor do meu corpo se esvai para sempre. vêm como se fossem para outra direção. abertos. na cama. não gostam de mostrar dependência. ao lado da minha mulher dormindo. Um dia. A respiração abandona meus pulmões secos. ela me apertou forte e disse: "Eu nunca tinha gozado antes. Gatos são animais estranhos. se fosse verdade eu amava aquela mulher. De noite. Ela veio com uma faca e enfiou na minha barriga com toda a força que tinha. mas é um gemido arrastado com gosto de sangue que desce pela minha garganta. e ela me amava. a boca se abre e não se fechará mais. Levantou-se da cama e eu continuei deitado pensando no que ela tinha dito. como se ali não estivessem ou não quisessem estar. Eu não sabia o que pensar. estávamos abraçados. quebradiça. O sangue mancha a mim e a ela. O sangue não circula mais nas minhas veias. Não sentirei mais o cheiro da mulher amada e não tenho querer. nem as mãos eu lavava. Quando se entregam. eu ainda sentia o cheiro do prazer da minha gata gorda. As marcas do cadáver: meu nariz torna-se mais pontiagudo do que era. chegam de mansinho. Não sinto mais a dor. Soltei um grito fraco da dor rasgada que senti. Meus lábios pendem. se instalam no nosso colo. Imóvel. nem de falar coisas de amor. os pêlos das narinas cobertos de uma poeira esbranquiçada. com uma orla enegrada. manchas negras cobrem minha pele. Desvencilhou-se dos meus braços e beijou meu sexo. fica desagradável ao tato: mas quem vai querer me tocar? Pelo sangue escorrido. à espera de quem venha fechá-Ios. Você foi o primeiro homem que me fez gozar. eu nada vejo. Mas se deixam ficar e sonham sonhos bem quentinhos. Meu coração pára de bater. perdem o brilho. elajoga o peso do corpo sobre mim e a faca penetra mais fundo. não nos olham nos olhos. Antes de você só tive o meu marido e com ele eu nunca senti nada". ela não era de fazer confidências. Não consigo me mexer. Minha pele seca e toma a cor cinza. 263 . De dor abro a boca para engolir o ar. mas também não era de mentir. minha voz não se fará ouvir e eu nada escutarei. Sobre eles se cria como que uma tela viscosa. A morte toma conta de mim.

Os músculos começam a enrijecer. o nada nada ada da a 264 . Pensa no nada. Meu cérebro não pensa mais. o que vaI dificultar quando forem vestir meu corpo.

.macaco Como tudo comecou • .() misterioso homem .

267 . ou se o outro não o agarrasse em tempo. me cobriam a cara sugando meu suor pegajoso. faziam a travessia de uma peroba para um ipê vizinho. de donde seguiam caminho. quando ouço uns guinchos ardidos. Se um errasse o salto. lá no alto. iam caminhando pelo galho pelado da peroba bem até a pontinha. ele caía e ia se esborrachar no chão lá embaixo. Mais de uma vez tive de atorar cipó com o facão para beber a água de dentro dele e dar para o cão. um deles apanhava o companheiro no ar e. de raro deixando entrever uma nesga de céu muito azul sem nuvens. também não arredavam dali. nisso até se parece com gente. bom veadeiro. a língua do Divino sempre de fora. máscara preta cobrindo minha cara e fazendo aumentar o calor sentido. também eu suava. balangando-o. prestimoso que era. Já ia por volta das desoras e eu ainda não tinha caçado nada. mas em mim. pretas que nem mosca. musculosa. Ao cão não incomodavam por causa do pêlo. que não usava barba naquele tempo. Meu rosto preto daquelas abelhinhas miúdas. Calorão da mata. tirando dele alimento para fazer seu mel azedo. sombreada pelas copas de muitas árvores tapadoras. acho muito seca. a garrafa com café adoçado e pão de milho para mim e o Divino. atirava-o são e salvo num galhão grosso do ipê. tanta a sede de nós dois. Coisa até interessante de se ver. Depois de muito andar chego numa clareira. Não sou chegado a carne de macaco. De vez em quando puxava o facão da bainha presa na cinta para abrir caminho na mata densa. mas também de muita serventia para outras caças. camisa molhada grudada no corpo. se não picavam.Eu ia sozinho cantando: Ta-tu Peba Tatu Pe-reba Ta-tu bola Tatu en-rola ~ i Eu ia sozinho mais o cão. também pendurado o bornal com os cartuchos dos dois calibres. o macaco. Bicho danado de engenhoso. e dali um de cada vez dava um salto. Mata escura. Era um bando de macacos que. até o ipê. fechada. mas como eu não tinha comido nada até aquela hora. Não adiantava espantar as bichinhas. braços levantados. Pendurado pelo rabo num galho mais alto do ipê. que refrigério! Me sento num toco e vou tirando a garrafa do bornal. sabor azedo. Segurava uma 28 de chumbo e nas costas uma Winchester 22.

catei a Winchester e me levanteijá apontando para o alto. Divino nem reparou na cena, entretido que estava com o seu descanso. Cachorro é bicho mais preocupado com as coisas da terra, o que se passa lá em cima não lhe interessa, senão já estaria latindo feito um condenado. Já o macaco, lá no alto, sempre se preocupa com aquilo que se passa no chão. Quando apontei a arma quase todos já tinham passado, sobrava só um retardatário no galho da peroba. Aquele outro que estava pendurado pelo rabo no ipê, quando me viu, num átimo pulou para o meio das folhagens e sumiu da minha vista. Mirei então o retardatário, sem o companheiro que fugira não tinha como pular para o ipê. No comprido galho onde estava não tinha ramagem para se esconder, e o tempo era pouco para ele correr até um lugar mais coberto: eu atirava antes. O que fez ele quando se viu perdido? Se meteu a gritar e pular de desespero. Não morreu ali na hora porque não atirei logo, me distraí, rindo que estava de suas macaquices. Quando o bicho se tocou de que eu ia mesmo atirar, pegou das costas um macaquinho bem pequeninho e o levantou nos braços para me mostrar. Vi logo que era uma fêmea com sua cria recém-nascida. Gritou, se ajoelhou e se pôs a chorar - macaco é quase como gente -, uma mãe me pedindo para eu não matar seu filho. A gente faz muita maldade na vida, e na hora não percebe. Eu, ali, fiz uma que fui pagar bem caro depois, caro demais. Mas na ocasião não pensei em nada, e dei com o dedo no gatilho da Winchester, Bang. O que voou de pássaro com o barulho! Tiro certeiro: a macaca despencou lá de cima - queda demorada de tão alta - e veio se estatelar no chão da clareira. Só então o Divino se deu conta e correu latindo para a caça estendida, morta. Corri junto, queria ver. Cheguei antes, e foi bom porque salvei a presa que o cão ia comer. Coisas de mãe que só Deus explica: não é que mesmo morta a macaca deu um jeito de proteger a cria?! Ela caiu segurando o filho e, quando bateram no chão, o corpo dela amorteceu a queda. Morreu bem mortinha, mas salvou o filho. Quando percebi que o cão, nervoso, rosnando, ia abocanhar o filhote, dei um pontapé no focinho, Passa, Divino!, e protegi o bichinho com as minhas mãos. O cão perdeu o filho mas ganhou a mãe, e aí abriu a bocarra e, numa sentada, devorou o cadáver morto da macaca, só deixou pele peluda e osso grande, o resto mandou para as tripas e ainda ficou lambendo o sangue do chão.
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tremia e chorava nas minhas mãos. Magrinho e miudinho, pensei, mas vai me servir de janta. Coloquei o bichinho dentro do bornal e com o calorzinho ele parou de tremer, aos poucos se acalmou, acho que até dormiu quieto, esquecido da morte da mãe. E eu peguei o caminho de casa. Na volta perdi o Divino. Caminhou uns tempos ao meu lado, normal, depois parou e devolveu tudo o que tinha comido, vômito verde, fedido. Aí passou a caminhar inquieto, parando a toda hora para se mijar, sem levantar a pata, que nem uma cadela. Todo nervoso, começou a latir e a correr em roda tentando morder o próprio rabo. De repente, deu uma guinada e disparou ganindo, e sumiu no mato. Chamei, chamei, mas ele não voltou; ainda pensei em correr atrás dele, mas a mata era muito fechada e desisti. Nessa hora o macaquinho pôs a cabecinha para fora do bornal e espiou, olhinhos bem abertos, a mim me pareceu que ele até estava dando risada. Percebi então que a queda não o tinha afetado. Chegado ao rancho, contei a caçada pra minha mulher e mostrei o macaquinho. Seu malvado, ela me repreendeu. Isso não é coisa de cristão fazer. Achou bonito o bichinho: Tadinho, deve estar com fome, o pequeno órfão!. E se tomou de dores pelo macaquinho. Foi tirar leite da cabra, e de um vidrinho com um chumaço de pano no gargalo aprontou uma mamadeira. O danadinho se achou! Era até bonito de ver aquele toquinho feioso, agarrado aos peitões da minha mulher, tomando seu leitinho adoçado com rapadura, chupando a mamadeira. E como mamava, o desgraçadinho! Não havia leite que chegasse. Não fosse, um dia depois, o cabritinho ter morrido de picada de cobra, não sei se a cabra ia ter leite suficiente para o sustento dos dois. Mamava tanto que dali a uns dias já estava forte e grandinho. Não sei se foi pelo leite de cabra, mais forte do que o leite da macaca sua mãe, ou se foi pelo fortume do açúcar de rapadura, só sei que lhe caiu quase todo o pêlo, deixando à vista sua pele enrugadinha, parda, mosqueada. E daí ficou ainda mais parecido com gente humana. Minha mulher andava com ele para cima e para baixo, se tomou de amores pelo bichinho. Não largava dele nem para cozinhar, enquanto segurava o danadinho com uma das mãos, mexia nas panelas com a outra. Para cuidar da criação e trabalhar na roça, levava o macaquinho atado nas costas. Ele bem que gostava, ficava o tempo todo agarrado à minha mulher, como se ela fosse a mãe dele, a falecida. Dormia na nossa cama, os dois abraçados como mãe e filho.
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o macaquinho

Tinha um pintão enorme, cabeça de prego, e para esconder essa vergonha minha mulher até fez umas fraldas, que trocava sempre que molhadas. Era muito dengue para uma criaturinha da mata, mas eu não ligava. Nossa filha já andava com doze anos, viçosa, bonita, carregava as tristezas próprias da idade, vivia ensimesmada, já não era companhia para a mãe. Nosso filho, Pedro, naquele tempo andava buscando ganhar a vida na cidade e quase nunca vinha nos visitar. Mulher é bicho diferente, tem suas coisas, suas manias, e desde que não incomode os outros o melhor é deixar. O carinho dela pelo macaquinho não perturbava ninguém, nem a mim nem à nossa filha. Se isso trazia alegria para ela, se diminuía sua solitude naquele rancho perdido no meio do mato, por que se incomodar, se existem tantas outras coisas para a gente se preocupar nesta vida que Deus nos deu?
Não é mesmo?

Assim foi indo até aquela noite da tempestade. Foi logo depois da janta,já muito escuro começou um vento forte, assobiador, e despencou uma chuvarada forte como nunca se viu antes, um verdadeiro dilúvio. Um frio úmido começou tão de repente que tive que me enrolar no cobertor. Era um relâmpago atrás do outro. A mulher queimou as palmas bentas e rezava assustada para Santa Bárbara. A menina tinha pavor de raio, se abraçou a mim fechando os olhos contra o meu peito, e assim ficou. Só o macaquinho parecia não se incomodar com o temporal, dormia o sono dos justos bem grudadinho na minha mulher. Foi a noite do cão. O medo não deixava ninguém dormir, nem sei como as águas não levaram embora o meu rancho, as horas foram passando e nada da chuva querer diminuir. Até que se deu o acontecido: na madrugada, nós três ainda acordados, assustados, molhados até os ossos pela chuva que caía pelos buracos do teto, e não é que de repente o macaquinho acorda, abre os olhinhos, se levanta, caminhando vai até o fogão, risca um fósforo e acende a lamparina? Na hora até que a gente não estranhou esse seu ato. Afinal, macaco é bicho esperto, achamos que o que ele fez não tinha sido nada mais do que imitar um gesto que tantas vezes nos viu fazer. O de causar espanto era ver a chama da lamparina, que, naquela ventania toda, se mantinha reta, firme, bem luminosa. O macaquinho veio se chegando perto de nós trazendo a lamparina acesa, nos olhos, bem nos olhos, e falou com um vozelrao grosso: - Eu me chamo João da Silva! Cruz credo, Ave Maria, te esconjuro! Já vi muito animal inteligente,
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mas nunca dantes nem eu, nem ninguém, viu bicho falar, ainda mais macaco. Foi um susto só: a menina começou a chorar de medo, o queixo da mulher caiu lá embaixo, os olhos arregalados, nem sei se de espanto ou terror. - Eu me chamo João da Silva! Dito isso, tirou o pinto para fora da fralda e, rindo de gargalhar, mijou quase ao pé da gente no chão de terra batida, mijou tão forte que abriu um buracão. No exato momento da mijada, caiu um raio tão forte, tão estrondoso que alumiou o mundo todo. Tão forte que a noite clareou como dia e derrubou o flamboyant que meu avô plantara na frente do rancho, queimando num fogo que nem a chuva conseguiu apagar, aquilo que talvez fosse a única beleza daquela terra. Eu me chamo João da Silva... foi assim que tudo começou. Foi nessa noite amaldiçoada que ele se revelou, que se fez homem aquele macaco amaldiçoado que em maldita hora eu fui trazer para dentro da minha casa. Esse macaco que fez o padre enlouquecer no dia do seu batizado. Que na escola onde foi aprender as primeiras letras atazanou tanto a professorinha que ela, coitada, abortou. Esse macaco que sempre tratei como filho e que abusou da inocência da minha filha, sua enteada, e fez mal para ela, matando minha mulher de desgosto. Que, com suas artimanhas diabólicas, fez meu filho Pedra pagar por ele, até hoje cumprindo pena na cadeia por um crime que o macaco cometeu. Que de tanto me judiar, me transformou no velho aleijado que hoje eu sou. Tanta sacanagem, tanta maldade, tanta coisa ruim esse João da Silva fez, e ainda faz em suas andanças pelo mundo, que se eu fosse contar levava a vida inteira e ainda não chegava ao fim. Não gosto nem de lembrar dos crimes hediondos que esse ser maligno cometeu. Mas, se você não tiver medo de ouvir e, para se precaver, quiser saber de toda a verdade sobre esse homem-macaco, um dia eu me armo de coragem e te conto tudo.

271

Mistério
~

maglco

.

. Cartas de todos os naipes. Óóóós 275 .. setes. vão surgindo outras cartas que ele vai atirando: noves.Olhem fixamente esta carta! Viram bem? É um sete de paus! Correto? Errado! É um rei de ouros. na frente dos meus olhos!. O Mágico domina sua platéia e não lhe dá folga para pensar. de surpresa e espanto e mesmo alguns risos nervosos. do nada. reis. num gesto rápido desvira o Rei de Ouros. Da ponta de seus dedos. três. damas. Somente algum tempo depois é que os espectadores começaram a bater palmas assombrados: Eu via um sete e ele se transformou num rei. que tem seguro pelo polegar e o indicador. e atira-o em direção das mesas onde estão os espectadores sentados. valetes .

algumas com luvas. O chão do pequeno palco e parte do salão onde estão as mesas se cobrem de cartas: setes. de roupa comum. fazem dela a mulher mais formosa no salão. Cortina preta brilhante ao fundo do pequeno palco. coberta de jóias douradas como o ouro do seu cabelo comprido solto. debutantes. loiro natural. Figuras da sociedade. abotoaduras de ouro maciço. Talvez. Talvez se iguale em beleza às mulheres que a invejam. algumas mulheres ousam desviar os olhos da ponta dos dedos do Mágico para se fixar na assistente vestida de odalisca. sapatos pretos de verniz brilhante. a maquiagem acentuada. personalidades do mundo das artes. algumas ao lado dos parentes. algumas com chapéus. nem tão moça. oficiais das três armas. o traçado do rosto. Algumas moças. membros do governo . algumas cobertas de peles legítimas. de onde as cartas surgem do nada. nem tão formosa. bigodinho preto bemcuidado.. damas de caridade. O pianista tenta acelerar a música que toca. encantados. reis .o Mágico domina. pernas longas. a odalisca traz um grande aquário redondo e o coloca sobre a mesinha de 276 . pele sem nódoas. toalhas de linho. talvez não seja tão alta. esbelto. que assistem ao espetáculo nas mesas do salão. O palco em semicírculo é uma pequena elevação ao fundo do salão. summers e uniformes de gala. para colocá-Ia no ritmo em que as cartas vão surgindo das mãos do Mágico: cravo branco na lapela de cetim da casaca preta brilhante. embaixadores. algumas velhas. cabelos pretos bem curtos esticados por brilhantina.. Umas ao lado dos maridos. olhos fixos na ponta dos seus dedos. três. gravata-borboleta do mesmo cetim preto brilhante da lapela. mais elegante que muitos dos espectadores em seus smokings. justa no corpo. fora das luzes brilhantes do palco. a pergunta mais perguntada. meias pretas de seda. Enquanto as palmas ainda ecoam pelo número das cartas. surpresos. todas em seus vestidos de noite decotados. Na obscuridade. Impecavelmente vestido em sua casaca preta brilhante. a boca carnuda bem traçada coberta de batom vermelho. outras ao lado dos amantes. o porte esbelto. sem os sapatos de salto alto bem fino. rosto anguloso. industriais. "Caravan" de Duke Ellington. As luzes de cena criam uma aura branca brilhante em torno da figura esguia do Mágico e ofuscam a vista dos espectadores enlevados.. formando um pequeno bico no meio da testa. o rosto branco cortado em cima dos lábios por um bigodinho reto preto. Que idade terá ela?.. peitilho engomado liso branco brilhante. As brilhantes luzes do palco em seu corpo bem torneado quase despido na fantasia de odalisca.

para algumas mesas. litros de uísque escocês e sifões em garrafas bojudas de vidro opaco. Caminha lento para a platéia. Três peixes dourados de longas barbatanas. no centro do palco. num gesto brusco atira a forma do aquário que tem nas mãos em direção aos espectadores. com muito cuidado para não entornar a água do aquário coberto. com medo de se molhar: o Mágico tem nas mãos apenas o pano preto decorado com estrelas e meias-luas prateadas. e. Pela frente. subitamente. em suas calças pretas paletós brancos gravatas-borboleta vermelhas. ainda em meio às palmas a bela assistente loira vestida de odalisca traz sobre uma mesinha com rodas uma grande caixa dourada. lacrando-a com um cadeado dourado cuja chave guarda no bolso. com o Mandrake do gibi! 277 . Na pequena pausa. Ajuda a assistente a subir e a entrar agachada na caixa. Depois.longos pés de metal brilhante. o aquário desapareceu. enquanto o Mágico cobre o aquário com um pano preto brilhante. entrega-a para a assistente e com as mãos suspende o aquário envolto com o pano preto. Com o susto. Depois do susto. intranqüilos na água agitada do grande aquário redondo. trançado com finos fios de metal prateado. as palmas da platéia. O Mágico faz gestos ondulantes com sua vare ta fina preta. garçons solícitos. o Mágico abre a caixa puxando uma tampa presa por dobradiças na parte de cima. caudas transparentes douradas. O Mágico não dá tempo para a platéia respirar. decorado com aplicações de meias-luas e estrelas de lantejoulas prateadas. aproveitam para servir champanhe francês trazido em baldes de metal branco brilhante e. O Filho do Presidente comenta com um rapaz que está ao seu lado: Já sei com quem ele se parece. todos jogam o corpo para trás. fecha-a e passa em volta uma corrente de metal dourado.

que se acha atrás da caixa dourada. Toma a chave dourada do bolso. transpassa a caixa dourada onde está presa sua assistente. impecavelmente gomado. enfia as espadas na caixa. dirige-se com passos inseguros para a platéia. para mostrar que as espadas estão bem afiadas. fazendo as pontas saírem do outro lado. de sua camisa. Percebendo a agitação. quatro. Incapaz de esboçar qualquer reação. resto da fantasia da odalisca. voltando ligeiro para o palco.Ao lado do Filho do Presidente. retira a corrente e abre a caixa dourada. a caixa está toda transpassada. Alguns espectadores nervosos se levantam e procuram chegar mais perto do palco. o Mágico vai para a frente da caixa dourada e. já estará morta rasgada por seis pontudas lâminas afiadas. o Mágico retorna rápido para a platéia e põe o véu azul sobre a mancha de sangue no peitilho da camisa do Filho do Presidente. foi apenas mais um truque. olha horrorizado para sua mão manchada de sangue e. seis. O Mágico. estrugem palmas que 278 . Alguns gestos circulares com a vare ta mágica. o Mágico choca-se com o Filho do Presidente. Se a assistente ainda está lá dentro. cinco. sem saber o que fazer. A música parou. abre rápido o cadeado. que agora está toda em pé. A platéia compreende tudo. três. É o próprio Mágico quem resolve a situação. como um autômato. que estaria vazia não fosse um véu azul transparente caído no chão. Nem o rapaz nem seus guarda-costas sabem como reagir. duas. O Mágico agora segura sete espadas brilhantes e. deixando impressa uma mão de sangue no peitilho branco. com cuidado e muita força. com elas. Antes. A música recomeça. Chegou a vez da sétima espada. Quando a ponta da sétimla espada surge na frente da caixa dourada. joga para cima sete véus de tule de sete cores e corta-os ainda no ar. não vê o sangue que começa a escorrer através do buraco aberto pela espada: é pelo burburinho da platéia assustada que ele percebe que alguma coisa saiu errada no truque. e quando ele puxa o véu azul a admiração é geral: a mancha de sangue desapareceu como por encanto ante os olhos de todos. a Modelo de Capa de Revista ouve e não entende a piada. toca com a mão direita no sangue. assustado. e entre exclamações de admiração. que agora corre abundantemente. Em seu andar cego. mas como ele fez isso?. o pianista também se levanta para ver o que está acontecendo. o Mágico mostra a sua mão também limpa. Uma. Sorrindo.já vem suja de sangue vermelho pegajoso quente.

O Mágico está parado no início do corredor. aspira cocaína. Alguns pares se encaminham para dançar na pequena pista. o Mágico hesita diante de qual porta abrir. E você.o Mágico agradece curvando-se num gesto de humildade. é a do camarim onde o cantor francês. com certeza. para em seguida recolher-se aos bastidores. No corredor. depois de um prolongado beijo.é vedado a um mágico revelar seus truques. entre eles o Filho do Presidente com a Modelo. pois prejudicaria os colegas: que graça teria um truque que já se sabe como foi feito? 279 . qual das portas abrir. mostrará a assistente de roupão.3 e 3A. quando aberta. Ele hesita. 2. os garçons retomam o serviço trazendo bebidas. morta ensangüentada pelas catorze perfurações por onde entraram e saíram as pontas das setes espadas. Outra. Qualquer uma das três outras que abrir e o truque não terá dado certo. sabe qual a porta certa? É uma mágica. Outra fecha um camarim às escuras que não será usado esta noite. e somente uma pode ser aberta. Os espectadores sentam-se novamente. o preço que terá de pagar por não ter sabido usar com sabedoria seus poderes mágicos. Uma delas se encontra chaveada. que entrará em cena logo mais. qualquer uma das outras o conduzirá à prisão e à morte. Não posso reveláIa porque fere a ética . Iguais são as portas com a estrela dourada. todos do lado direito. Aberta. o conjunto musical assume rapidamente seu lugar no palco e começa a tocar música de dança. nunca ninguém havia visto truques tão assombrosos. enquanto o Mágico fechava a tampa. O Mágico dirige-se agora para o corredor no fundo do palco. todos com uma estrela dourada na porta e identificados pelos números 1. onde há quatro camarins. Foi vista pela última vez quando entrou na caixa dourada e se pôs de cócoras. Finalmente. abrindose a última porta encontra-se a assistente ainda vestida de odalisca. e ele terá de prestar contas àjustiça pelo assassinato. diferenciadas apenas pelos números de 1 a 3A . sabe que tem que abrir uma única porta mas não sabe qual. comentarem a repercussão do show. estendida num pequeno tapete azul. Porém. ninguém notou que a assistente vestida de odalisca não reapareceu para agradecer os aplausos. sua companheira de mesa. tem que ser a do camarim onde a assistente está viva. esperando a volta do Mágico para. O comentário geral é sobre as habilidades do Mágico. Ele precisa saber. à sua espera. aquela que o levará aos braços da assistente.

você tem todas as condições de abrir a porta certa: pense. com exagerado excesso de detalhes. bem à sua vista. a 3 ou a 3A. a 2. abra. 280 . executei o truque bem devagar. De minha parte. eu passei a você todas as informações para abrir a porta certa: a 1. escolha. Fiz questão de dar indicações para que você percebesse. A da vida ou a da morte? Você tem que saber. É um truque entre eu e você. onde está a chave do segredo. claramente. Vamos.Ao executar a mágica destas páginas.

A cadeira do diaho .Um mistério .

num país preocupado com os terríveis problemas sociais pelos quais atravessamos. estofada de veludo vermelho. A cena representa um laboratório de alquimista. um armário baixo de portas envidraçadas com muitos livros velhos encadernados. papéis amarelecidos com encantamentos. Mas como pode. esferas de vidro azul e outros utensílios mágicos. na cidade do Porto. segundo alguns autores. Ao lado desse armário. uma panóplia com algumas armas brancas. alguém que vive nos dias de hoje. À esquerda. provetas. tratados de magia alquímica. uma cadeira de espaldar com braços. espadas e punhais remontadas por um elmo. se interessar por um mistério levantado pelo célebreAlexander Hermann (e. pelo não menos famoso Steward Chamberlain) em Portugal. filtros. pendurada na parede do fundo. exorcismos e pentagramas desenhados. meio voltada para a platéia.Não vejo como isto possa interessar a você. alambiques. em 1887? 283 . retortas. À direita.

para um angustiante problema de ordem pessoal que muito o aflige.Alguém bate à porta do gabinete. àquele obscuro gabinete: a busca de uma resposta. rodeados por estrelas prateadas. vestido com uma longa túnica azul cerúleo brilhante onde vemos. que não encontrou até agora. Não entendo como alguém acostumado comfrases curtas. não é? 284 . cerrada barba preta. O Alquimista. Você não se inclui nesse caso. Homem de uns trinta anos. de textos ligeiros. o Visitante revela-lhe a causa que o traz ali. bordados a ouro. vasta barba branca. a cabeça calva coberta por comprida e cônica mitra. todos os planetas conhecidos até então. abre a porta e faz o Visitante entrar. das que usavam os antigos sacerdotes caldeus. consegue ainda se concentrar e acompanhar longas orações que reportam feitos passados acontecidos com personagens inomináveis. olhos pretos perscrutadores. dos quais a história não guardou registro algum e que não têm interesse aparente para os dias atuais.

o Alquimista. Estarão todos acostumados a escritores de vocabulário parco ou a jornais e revistas ilustradas com textos breves de palavras fáceis? Será difícil entender o significado de certas palavras usadas para descrever objetos de um mundo ao qual não se pertence? Uma ajuda: panóplias são aqueles escudos nos quais se colocam diferentes armas e com os quais se adornam as paredes. Tão logo o Visitante se acomoda na cadeira estofada. 285 . maliciosamente procura logo convencê-Io a descansar e assentar-se na cadeira estofada. a fim de observar uma grandiosa e maravilhosa experiência científica que abrirá sua mente para a compreensão de arcanos herméticos que muito o ajudarão na solução dos problemas que o afligem.sabendo que o Visitante carrega nos bolsos uma grande quantidade de dinheiro. o Alquimista degola-o com uma aguçada espada que tomou da panóplia na parede.

sob o pretexto de protegê-Io das emanações dos produtos químicos utilizados na maravilhosa experiência que mostraria dali a instantes. a voz irada da Cabeça Cortada roga pragas contra o criminoso Alquimista. que também retirou da panóplia. viseira cerrada. seu assassino e ladrão. 286 . não sei como pode ainda se emocionar com uma sangrenta ocorrência entre um falso mago e seu ingênuo cliente. habituado a textos jornalísticos que exaltam personagens reais destes tempos de crise (povos em luta.Após a degolação. o elmo. líderes políticos. Na verdade.. antes de consumar o odioso crime.b Não sei como pode alguém. o Alquimista toma a cabeça cortada e coloca-a em cima do armário baixo de portas envidraçadas e volta para revirar os bolsos e roubar o dinheiro do Visitante assassinado. cobriu a roupa do Visitante com uma grande toalha branca e colocou-lhe na cabeça um elmo medieval. enquanto o ensangüentado corpo decapitado ainda perneia. De cima do armário. contra o Alquimista. chefes de Estado.. . acontecida há mais de um século num outro país. o Alquimista. angustiada e revoltada. Nesse momento. a toalha serviu para recolher o sangue derramado. artistas . homens de negócios. para marcar o lugar certo do corte e impedir a vítima de pressentir o golpe. É bom ressaltar que. a Cabeça Cortada põe-se a vociferar. ) e acostumado a ver a imagem deles movendo-se nas telas da televisão ou fixada em fotos coloridas nos jornais e revistas de grande circulação.

de súbito. uma grande chama negra surge do chão. vestido com sua infernal roupa vermelha. Nela aparece um terrÍvel demônio com chifres. 287 . lábios roxos da morte. quase sem forças. some com ele pelo solo.Alquimista arranca dos bolsos do ensangüentado decapitado notas e moedas de ouro. Ao ver a alegria feroz com que o assassino saboreia o êxito de sua criminosa aventura. e. pele pálida graças à perda de sangue contrastando com a barba negra. abraçando-se ao Alquimista. o pano cai vagarosamente. de ódio: Que Satã te carregue para o mais negro dos infernos! o Nesse momento. vermelhos olhos abertos. Enquanto isso. exclama com voz rouquenha. numa estrondosa explosão de fumaça. a Cabeça Cortada. ao som de sua estrepitosa gargalhada.

de David de Castro.alguns problemas técnicos que expliquem os misteriosos fatos acontecidos entre o Alquimista e seu malfadado Visitante. por serem obras há muito esgotadas e. Não vou. ou Sur les mouvements musculaires inconscients en rapport les images. de Gley. como ainda acrescentam às explicações respostas para os angustiantes problemas que afligem a humanidade. isto sim. talvez espere que eu proceda de maneira semelhante aos autores de sua predileção. torna-se necessário: lº) Uma cadeira de espaldar cujas portas devem ser furadas da forma que se vê no desenho abaixo. como se verá adiante. é claro. editado em português por Lugand e Geneloux. em poucas linhas. e nem mesmo A cadeira de Satã. recomendar a leitura de A propos de Ia sugestion mentale. 288 . Para o perfeito entendimento de A cadeira do Diabo. portanto. respectivamente em maio ejunho de 1884. Pretendo.espero eu . Confesso que minhas capacidades não chegam aos pés desses autores. de Charles Richet. que não só explicam os acontecimentos com palavras claras.Quem está acostumado a encontrar explicações científicas sobre o que leu. resolver . em 1888. segundo a dialética do pensamento dominante. ambos editados pela Société de Biologie. de difícil aquisição nos dias de hoje.

Esta cadeira tem externamente as costas forradas de tecido elástico pintado. As costas da cadeira assim constituídas muito auxiliam o comparsa quando precisar ocultar a cabeça na cavidade. a imitar o padrão do estofo geral. aCIma. aparentemente. 289 . a qual deve ser coberta por uma tênue tabuinha apenas suspensa pela extremidade superior e igualmente pintada à imitação do estofo. deve mostrar o aspecto do desenho 2º) Uma espada. A cadeira.

fossem simétricas tanto que uma igual à outra seria. Este elmo deve ser sempre mostrado de frente. para que ninguém veja a abertura e o gancho que tem atrás. 4º) Uma toalha branca grande. em sua perfeição. 290 . boca carnuda. e pele clara.3º) Uma esponja embebida em tinta vermelha para simular sangue. 6º) Dois homens parecidos (comparsas). ralos pêlos púbicos num tão volumoso monte de Vênus que só se lhe possam acariciar com as duas mãos em concha. olhos glaucos. seios bastos com bicos róseos. 9º) Um elmo aberto na parte de trás. tal como mostra o desenho. semelhantes por natureza ou por artifício. 5º) Pólvora seca. e cujo gancho serve para engatar no bordo superior das costas da cadeira. ancas anchas. 7º) Um terceiro homem para vestir a fantasia vermelha de diabo. as duas partes. 8º) Uma bela mulher alta de lindos cabelos cor de mel. a esquerda e a direita. caso se lhe traçasse uma linha reta ao meio de seu formoso corpo. quando estiver ele enfiado na cabeça do visitante. Que tão exata seja que.

..~ . . que deixa na parte de trás (H) espaço folgado o suficiente para esconder. em virtude da distância de quem o vê. O ângulo de espelhos reflete as prateleiras e os lados internos (K) do armário. B c ... um comparsa parecido com o visitante.--/ •.... e não pode ser descoberto. dos muitos aparelhos (frascos.....) que as prateleiras contêm e da obscuridade reinante no gabinete do Alquimista.. desde o começo... pintados de negro de modo a manter ao olhar a ilusão de profundidade. .lOº) Um armário com portas envidraçadas (p) e aparência regular./ A .•. mas encerrando ao centro um ângulo de espelhos (g). ~-~ . ~ ···········__ ··--··r D ~ ~ 291 .. esferas de metal etc. conforme planta reproduzida abaixo. retortas....

deixando-o visível apenas do pescoço (coberto pela toalha) para baixo: como o elmo está com a viseira cerrada. através da fumaça e das chamas provocadas pela explosão da pólvora seca . Eu. enfia a cabeça pelo alçapão apenas o Alquimista pousa o elmo ali. tenho que deixar ao paciente leitor a tarefa de achar um sentido para a vida e a morte também dos personagens desta história. surge. vai colocar o elmo em cima do armário. e era uma vez o Visitante. trêmulo. Então. Junto ao cadáver decapitado. o Alquimista põe a mão esquerda na beira do elmo e aplica com a direita o golpe fatal. com gargalhadas sinistras. arrasta o Alquimista pelo mesmo alçapão. exultando de contentamento com o dinheiro que roubou. 292 .Agora pratiquemos. o Alquimista espreme a esponja. As cortinas se fecham. ZÁS!. que talvez nem mesmo saiba o sentido do que escrevi. o Alquimista atira a espada ensangüentada no chão e. encerrando o espetáculo. o terceiro comparsa fantasiado de demônio. Escusado dizer que o segundo comparsa. Em seguida. Então. à mensagem. ao "o que quer dizer isso?". Batem à porta e entra o Visitante. Usando a mão esquerda. que já estava escondido dentro do armário. Em seguida. pelo alçapão do palco. imagina-se que a cabeça ainda está ali dentro. e. cerra a viseira e busca uma espada na panóplia de onde havia tirado o elmo. pelo seu peso. é de súbito horrorizado pelas ameaças que a cabeça. FIM E quanto ao sentido do que foi narrado. enquanto o Visitante finge os estertores da morte.tal como o leitor já deve ter visto nas cerimônias de umbanda -. cavernosamente lhe dirige. o Alquimista está absorto em seus estudos necrológicos. Quando sobe o pano. É o fim de tudo. o Alquimista. volta a ficar vertical). de cima do armário. O Alquimista convence-o a se sentar na cadeira mecânica. que esguicha sobre a toalha como um jorro de sangue. introduz-lhe na cabeça o elmo adrede preparado e estende a toalha sobre o corpo dele. É nesse instante que o comparsa que faz as vezes do Visitante se empurra contra o pano elástico da cadeira e enfia a cabeça pelo alçapão (cuja portinhola.

.Um mistério no trem .f antasma .

o fato aconteceu na fria noite de sábado no Parque de Diversões Alvorada. até hoje. ' ~'. 19 de julho de 1969.tiS. embarcou no trem-fantasma em companhia de Astolfo Dagoda. Por volta das dez e quinze da noite. não chegando a nenhuma conclusão . a quem conhecera naquela tarde no Passeio PÚblico. Quarenta e cinco segundos depois. na mesma noite em que o homem chegou na Lua. Além da polícia.. entidades estudiosas de fenômenos paranormais e segundo alguns o próprio Serviço de Informações do Exército estudaram o caso. seguindo exaustivamente todas as pistas levantadas. . . que realizou profundas investigações. de 16 anos de idade. Jucélia Ramos nunca mais foi encontrada. nem foi encontrada nenhuma explicação razoável para seu desaparecimento. o carrinho deixava o negro túnel trazendo apenas Astolfo Dagoda: sua companheira havia desaparecido misteriosamente durante o percurso.4:'::_ . ajovemJucélia Ramos."-' Retrato falado de Jucélia Ramos Voc~ conhece esta mo7a? 295 . . particulares. um dos grandes casos insolúveis de nossos arquivos policiais. 17 anos. a imprensa. constituindo o fato.

imitando uma estação ferroviária. O trem-fantasma é uma construção retangular de vinte metros de frente por dez metros de fundo. pois aumentam a sensação de desequilíbrio e velocidade. entra na escuridão das paredes de madeira pintadas de preto e logo já vira. em frente do Passeio PÚblico de Curitiba. O trem parte. onde faz uma inesperada curva de noventa graus e arranca gritos de susto dos passageiros. múmias e outros monstros. Os carrinhos circulam num monotrilho preso ao chão.Desde os anos 50 que o Parque de Diversões Alvorada está montado no início da avenida João Gualberto. Essas curvas são a graça do negócio. que fazem as vezes do trem e carregam dois passageiros cada. Do tamanho de um homem e vestido de ferroviário. já fazendo uma nova curva e entrando em outro túnel na direção da parede da frente. Em seu trajeto. um boneco mecânico de cera toca uma sineta de bronze sinalizando a partida dos carrinhos de ferro. ostenta grosseiras pinturas cujo colorido berrante representa cenas macabras: loiras semidespidas sendo atacadas por vampiros. lobisomens. entrando veloz por um túnel reto em direção à parede do fundo. vão acionando as diversas figuras fantasmagóri296 . Sua fachada.

ficando por instantes à vista do público antes de mergulhar novamente na escuridão. 19 de julho de 1969. porém cheia de sustos. na tarde de sábado. Vê se cai fora!". trava conhecimento com uma moça que lhe pareceu bonita e ajeitada. Os 45 segundos desta viagem confiável. apenas um funcionário do parque se encarrega de todo o serviço: recolher os bilhetes. Mesmo nas horas de maior movimento. detendo-se a maior parte do tempo junto da jaula dos macacos. ele entrara no Passeio Público com a finalidade de se distrair e. aciona a trava que o faz parar e liberta os passageiros. Uniformizado de chefe da estação. O trem-fantasma sempre atrai um grande número de curiosos. sempre serão uma das maiores atrações de um parque de diversões de qualidade. dando a impressão de que o trem vai se espatifar contra eles. sita na rua Atílio Bório 1313. Numa das paredes do fundo há uma teia com uma enorme e repulsiva aranha negra. nunca deixando mais de dois circulando no tr~eto. 297 . Conforme o depoimento de Astolfo Dagoda (inquérito nº 365/69 da SSP-PR). colocar os passageiros no trem. e fixar a barra de segurança que os impede de cair do veículo em movimento. que vibram ao ver a expressão assustada dos passageiros e ao ouvir seus gritos.cas e ligando. enforcados. terminado o tr~eto. conquistar uma namorada. na Padaria Aurora. talvez. que estava sozinha. Por volta das seis. Na ocasião o depoente era auxiliar de panificação. Ficara olhando os animais do Passeio. bem na altura da cabeça dos passageiros. umas pequenas luzes que iluminam essas cenas macabras. A princípio a moça. por instantes. procurou afastá-lo: "Estou esperando meu namorado. "padeirinho". o que poria em risco a segurança dos passageiros. nas quais aparecem bonecos de cera em forma de caveiras. Num pequeno trecho do percurso o carrinho sai do túnel. por volta das quatro da tarde. múmias e monstros de vários tipos. que mesmo o barulho dos carrinhos correndo nos trilhos não consegue encobrir. Isso traz a desagradável sensação de que estamos rompendo enormes teias com aranhas que se enroscam em nossos cabelos. No túnel desta cena ficam suspensos no escuro vários fios de linha e aranhas de borracha. o "chefe do trem" solta apenas um carrinho de cada vez. seis e meia. Empurra o carrinho para dar o impulso inicial e. bichinhos que lhe interessavam bastante. nos fins de semana.

de um jeito tão bonito. Atiramos no tiro ao alvo. que ia mostrar tudo quando eles chegassem na Lua. fica tão engraçado a gente se ver deformado daquele jeito.Atraído pelas maneiras dela. Não. não fumo. a Lua está comigo aqui. Astolfo insistiu e. falei: Não preciso subir tão alto. Ela lhe disse chamar-se Jucélia. aos poucos ela foi cedendo à sua "boa conversa" e começaram a passear juntos pelo parque. Primeiro afirmou ser estudante mas depois confessou ser doméstica. coração quente!". E tirou suas mãozinhas da minha. Nem sinal da Lua. Segundo ele: Foi nesse momento que senti que eu gostava dela. de que gosta muito. Astolfo Dagoda afirma que pagou para ela primeiro uma paçoquinha e depois uma maçã do amor. Jucélia Ramos. e ela de mim. para ver e ouvir o conjunto Os Vondas. trabalhando para um família no rico bairro do Batel. tiraram uma foto num lambelambe do Passeio Público (atente para este detalhe). que ia forte naquela hora. mas esqueceram. onde fora assistir ao programa Ponto 6. entretidos que estavam um com o outro. finos cobertos de batom bem vermelho. quando ela sentiu fome comeram um espetinho de um churrasqueiro que estava com o carrinho em frente ao Parque de Diversões Alvorada. ele pagou adiantado e ficaram de pegar as cópias meia hora depois. eles limam a mira das espingardinhas de ar comprimido e a gente não acerta uma. para os lábios dela. Abraçados. eu segurei a mão dela e disse: Nossa! Como você está com a mão fria. Falei isso e ela me sorriu. Conversaram então sobre vários assuntos.Jude". não senhor. Ela riu e me disse: "Mão fria. naquele gelado". noite escura. ela adorava música e disse estar vindo do auditório da TV Paraná. Ela falava sempre sem tirar os olhos dos meus e eu sempre olhando para a boca. Aí eu. Escurecia rápido e havia esfriado bastante. Entramos no palácio dos espelhos. principalmente quando eles tocam aquela música dos Beatles "Hey. Falou ainda que os patrões delajá estavam com a televisão ligada. Depois que ela vestiu o pulôver. nébuIa. segundo ele. Astolfo Dagoda. Ele lembra que a fumaça do braseiro se juntava com a neblina. Ela falou com tristeza dos astronautas que iam descer na Lua naquela noite: "Imagine se lá tiver uma neblina assim. Não sei nem quanto tempo ficamos no parque de diversões. não derrubei nenhum maço de cigarros. Segundo Astolfo. pois não trouxera agasalho. Astolfo tirou seu pulôver azul-marinho e fez que ela o vestisse por cima do vestido branco de mangas curtas. que ela trincou com seus dentes perfeitos bem branquinhos. agora. Teve uma hora que reparei que tinha um cara 298 .

Entretido que estava com as assombrações no escuro.. resolvemos dar uma volta no tremlantasma para matar o tempo. ela fatalmente teria sido atropelada pelo carrinho seguinte e haveria manchas de sangue pelo chão. coisa que nunca acontecera desde que ali trabalhava. Angenor de Oliveira cortou a corrente elétrica e. Não sei bem a hora. mas cheguei nele efalei: Que é. Os depoimentos são todos muito desencontrados. Aí aconteceu . O que ele queria? Era bem maior que eu. alcunhado Caveirinha. quando travou o carrinho. que se encontravam intactas. Novamente nada foi encontrado. só veio a notar o desaparecimento dela quando o carrinho completou a viagem. ainda naquela noite. certamente teria sido vista. é? O cara mixou e deu no pé. Ô meu? Tá invocando com a minha cara?! Tá me achando bonito. Angenor de Oliveira. Disse Angenor que.ele pensou que era de medo pela viagem _ perguntou aflito pela moça que estava com ele. se tivesse saído por uma das bocas dos túneis. Comprei as duas entradas. Muitos curiosos se aglomeraram no local.nos seguindo. olhando muito para nós. Até ali eu não tinha tocado nela e achei que na escuridão do tremlantasma era a ocasião de sapecar um beijinho nela. Foi ela quem me chamou a atenção. mas de outras pessoas alarmadas pelo mistério. não poderia ter saído por nenhuma das paredes. Constatou-se que se a moça tivesse caído ou pulado e tivesse escapado com vida do atropelamento. é claro. entrou nos túneis acompanhado de Astolfo Dagoda para ver se achavam a moça desaparecida.. examinaram tudo e nada encontraram de anormal. Percorreram todo o trajeto. e entramos. na ocasião encarregado do trem-fantasma. disse que havia algum movimento naquela hora e não põde precisar se Astolfo Dagoda entrou sozinho ou acompanhado. 20 centavos cada. Astolfo muito pálido . Em vista da agitação e estranhando o desaparecimento. Ele. desta vez acompanhado não só de Astolfo. Angenor fez nova vistoria. O padeirinho Astolfo Dagoda insiste em afirmar que entrou no trem-fantasma junto comJucélia Ramos e que ela desapareceu na escuridão durante o trajeto. cara? Qual é a tua. voltara a verificar o interior do trem-fantasma junto com o guarda299 . Angenor de Oliveira. Porém se lembra muito bem que. pois tínhamos acertado de ir no baile da Estrela da Manhã. depois fiquei sabendo que era lá pelas dez. Se isso tivesse acontecido. com uma lanterna de mão. além do cadáver. não sabe explicar como. que começa às dez e meia. não acreditava que a moça tivesse pulado ou caído do carrinho em movimento.

mais uma vez. testemunhou que. e. ela sumiu como se tivesse evaporado. 300 . de repente. 20 anos. solteira. doméstica.civil que viera atender a ocorrência. Já a depoente Cremilda Gomes. parda. quando o carrinho com o casal saiu para o claro. nada encontraram de anormal. ela viu nitidamente o rapaz abraçado com a moça e que. Afirmou ainda não acreditar em fantasmas e em almas do outro mundo.

nunca mais retornou a Curitiba. Retratista do Passeio Público.Que foi tudo tão rápido. Nada achou de anormal quando do exame do local. mas que só falaria na presença do delegado. voltou muito pálido. e logo o carrinho entrou de novo no túnel.o rapaz pernoitara encarcerado na Central. Contudo. Irritado. e ela não deu na ocasião muita importância ao fato. Ao que consta. pensou-se ser um rasgão do vestido da desaparecida. No entanto esse rapaz nem chegou a depor: enquanto os outros entravam na Delegacia Central. porém. O guarda-civil nº 067. a princípio. dizendo que se enganara. quando os policiais já demonstravam impaciência. alegando que ia pagar a corrida ele entrou no táxi e partiu para não mais ser visto. Essa testemunha. Os policiais acalmaram o rapaz e intimaram o fotógrafo a prestar depoimento na Central. nada acrescentou de importante. segunda pela manhã Karel vendeu seu negócio a toque de caixa e saiu da cidade. quando na terça-feira a polícia técnica realizou exames no trem-fantasma. Karel Stephanovich. Foi encontrado um pedaço de tecido branco que. que não tinha tirado nenhum retrato e que nada sabia da história. mudando-se para lugar incerto e não sabido. depois disse que lembrava e entrou na sua barraca para buscar as fotos que o casal esquecera de pegar. sub301 . pois eram revelações sigilosas. O estranho comportamento de outra testemunha. pois fora chamado somente depois do fato ter acontecido. Astolfo Dagoda gritou que ele estava mentindo e que escondia alguma coisa. A imprensa já fazia grande estardalhaço sobre o desaparecimento da moça. encaminhou Astolfo Dagoda para apresentar queixa na Central. segunda-feira à tarde. Com ele foram as testemunhas Cremilda Gomes e um rapaz que não declarou o nome e disse saber tudo sobre o desaparecimento de jucélia. em vista da aglomeração de pessoas e da polêmica que o fato estava causando. e o endereço por ela fornecido durante seu depoimento na Delegacia Central não foi localizado. O comportamento de Karel Stephanovich foi contraditório: primeiro disse que não se lembrava de nada. em serviço naquela noite no Parque de Diversões Alvorada. Demorou lá dentro e. não mais se apresentou. que muita gente considera importante. pensou que fizesse parte dos truques do trem-fantasma para atrair freguesia. que trazia Astolfo Dagoda . trouxe mais contradições ao inquérito policial. até a chegada do delegado Miguel Zacarias no domingo pela manhã. no domingo à tarde Karel foi procurado pela polícia.

crime sexual que ele procurara esconder inventando aquela história toda. chefiado pelo frei Albino Aresi. encontrou no lago daquele logradouro um pulôver azul que seria o mesmo usado por jucélia naquele sábado trágico. Imediatamente o delegado Miguel Za302 . a polícia técnica levou os caixões para exame. Frei Albino lançou a teoria de que a jovem teria sido raptada por seres extraterrestres. sem conseguir novas pistas. apesar de estar preso e incomunicável. de lhe aplicar choques elétricos para obrigá-Io a confessar. na época submetidos à rígida censura imposta pelos governos militares. O Diário do Paraná. Nada foi publicado nos jornais. e estavam tão cobertos de poeira que qualquer anormalidade teria ali deixado marcas. levantou a hipótese de que jucélia teria descido do trem e se escondera num dos caixões de defunto que. trouxe de São Paulo um grupo do Centro de Pesquisas Paranormais e Fenômenos Extraterrenos. servente do Passeio Público. O Diário do Paraná descobriu sua prisão. que considerava ilegal. exigindo portanto sua imediata libertação. Contudo.metido a exames de laboratório. se abrem. Ficou constatado serem muito pequenos para acomodar outra pessoa além dos bonecos de cera. do então governador Paulo Pimentel. jucélia teria ficado ali até as buscas terminarem e depois saíra tranqüilamente. Quase um mês depois do desaparecimento surge uma nova pista: Almério da Silva.jornal dos hoje extintos Diários Associados de Assis Chateaubriand. coisa de um louco para chamar atenção sobre sua insignificante figura. e acusou a polícia de torturar o rapaz no pau-de-arara. A coincidência do horário do desaparecimento de jucélia com o da descida dos astronautas na Lua comprovaria sua teoria. Esses boatos aumentaram com a prisão do chefe guerrilheiro cognominado O Bom Burguês e com o desbaratamento do MR-8 alguns dias depois em Apucarana. já o jornal O Estado do Paraná. Ou coisa pior: ele matarajucélia após violentá-Ia. achando tudo um embuste. constatou-se ser parte da atadura da múmia. a polícia começou a pressionar Astolfo Dagoda. mas em Curitiba corria o boato de que o desaparecimento de jucélia Ramos estaria ligado às atividades da guerrilha do MR-8 no Paraná. Como a hipótese parecesse plausível. acionados pela passagem do carrinho. O padeirinho foi detido para interrogatórios e. parapsicólogo de renome. consta que manteve essa versão dos fatos. deles se erguendo os bonecos ameaçadores.

muito assustado e aborrecido com sua prisão e "tortura" (entre aspas porque nada foi comprovado). pedira a conta e deixara Curitiba para recomeçar a vida num lugar onde não fosse conhecido. Por mais que se procurasse alguém que trouxesse alguma luz capaz de aclarar o desaparecimento. Quanto aJucélia Ramos. bastante atuante no Paraná naqueles tempos? A vingança de seres extraterrestres irritados com a chegada do homem na Lua? 303 . o padeiro Lidislau Pierko. O que aconteceu naquela noite no trem-fantasma? O seqüestro de uma bela jovem para fins inconfessáveis. Era como se ela nunca tivesse existido. mas seu patrão. nem patrões.carias procurou Astolfo Dagoda para que ele fizesse a identificação. passado tanto tempo. permanece o mistério do desaparecimento deJucé1ia Ramos. O jovem não foi encontrado. Hoje. provavelmente um crime sexual? A ação nefasta da guerrilha do MR-8. nunca mais foi encontrada. ou como se sua existência nunca tivesse sido percebida pelos habitantes de Curitiba. ninguém apareceu: nem familiares. afirmou que Astolfo. nem amigos ou conhecidos.

a verdade apareça. num futuro que esperamos não esteja muito longe. São muitas as teorias e certamente o leitor terá escolhido ou criado a sua. A verdade sempre aparece.Seria o trem-fantasma um lugar assombrado e almas do outro mundo carregaramjucélia Ramos? Foi tudo uma trama da própria polícia. 304 . Talvez um dia. armada sabe-se lá por quê? Ou tudo não passou de uma farsa hedionda do padeirinho? Perguntas até hoje sem resposta.

Mistério Sapho () amor entre as mulheres .

das oito que compunham o filme. onde teria parentes. entre eles vários de D. seus familiares passaram as latas do filme para as minhas mãos. após a morte do marido transferiu-se para Vitória do Espírito Santo. C. se adotarmos outra nomenclatura. Ali foram recuperados filmes. que. Consta que sua esposa. de Ceorge Melies. e a de 26. e com a atriz que se escondia sob o pseudônimo de Miss Ray mostrando suas carnes. Contam-se nos dedos os estudos e pesquisas sobre o nosso cinema. permitindo a confecção de novas cópias passíveis de serem projetadas. e a bobina 5 está inteiramente empedrada.O amor entre as mulheres é um filme erótico. necessitando urgentes trabalhos de restauro em laboratórios especializados. aos 85 anos. de E. A esses vem se juntar agora Crispim Carmoro. amigo de Crispim Carmoro. Kerrigan. Com a morte de Hertoso. as de número 1. Presumivelmen te Crispim Carmoro faleceu em 1928. de Luiz de Barros. A Cinemateca do Uruguai tem em seus arquivos a maior coleção de filmes eróticos primitivos. de quem acabam de ser encontradas partes do filme Sapho . até então considerados perdidos. Ali ficara sob a guarda de Rodolpho Hertoso. dirigi da por Leo Martem. de Annibal Requião. definitivamente perdida. 307 .o cinema paranaense continua um insólito desconhecido. dirigido por Vitor Ciacchi. no qual a atriz Antônia de Negri aparece nua. dirigido por Antônio Tibiriçá. até as várias versões de A carne. W. A cópia encontrada está em péssimo estado. seis anos após ter realizado o que parece ser seu único filme. apesar do nome. que também dirigiria Messalina (30). Sapho . é brasileiro. Josephina Bello Carmoro. Somente com os serviços de restauração será possível a feitura de um novo negativo. Não pudemos confirmar essa informação. com partes totalmente meladas. da obra de José de Alencar. Arthur Rogge e João Batista CrofE.O amor entre as mulheres. Não deixou descendentes. considerado o pai da linguagem cinematográfica.3. em 1975. Foi encontrada uma cópia 35 mm com apenas quatro bobinas. realizado em 1899. Desde os princípios do cinema são feitos filmes pornôs. que faria Vício e beleza (26) e produziria Depravação (23). Crispim Carmoro teve portanto a quem puxar. apesar de alguns esforços iniciados principalmente após a criação da Cinemateca do Museu Cuido Viaro. o cinema brasileiro tem vários exemplos de filmes eróticos ou pomôs: desde Lucíola (1916). como Dama ao banho. Para não falarmos do agora. Criffith. O que restou de Sapho foi encontrado num galinheiro em Almirante Tamandaré. Pornográfico.5 e 8. Faltam diversos trechos. passando pelo curioso Le film du diable (17). a de 24.

Apareceu em Curitiba provavelmente logo após a Primeira Guerra Mundial (1914-8). Pelo tema e letreiros de Sapho. É certo que não lhe faltavam gosto artístico e conhecimento de fotografia. mas talvez Sapho possa ter sido filmado por ele ou por algum dos fotógrafos atuantes em Curitiba. que preferiu não assinar o trabalho em virtude do tema ousado do filme. Sabe-se que era amigo. Em algumas velhas residências curitibanas encontram-se paredes com suas pinturas. O filme abre com um letreiro: PARTHENON FILMS . Aqui passou a exercer a profissão de estucador.Mas quem foi esse homem e o que o levou a filmar um longa-metragem erótico na provinciana Curitiba de 78968 habitantes em 1922. As letras estão desenhadas sobre um cartão-postal com vista fotográfica do Partenon de Atenas. Através dessa arte tornou-se conhecido. Lange de Morretes e Waldemar Curt Freysleben. Emiliano Perneta e outros poetas do movimento simbolista. Além das decorações em gesso. O único nome que aparece na ficha técnica é o de Crispim Carmoro como realizador. as imagens de Sapho têm momentos de rara beleza. é de se supor que mantivesse relações de amizade com Dario Vellozo. Não se sabe se Crispim Carmoro tinha algum conhecimento técnico de cinema. ano em que acontecia em São Paulo a Semana de Arte Moderna? Sabemos pouco de Crispim Carmoro. Da mesma maneira que nenhuma das atrizes arriscou colocar seu nome nos créditos. Em seguida vem o título: 308 . nem se era italiano ou descendente. não só das famílias tradicionais da cidade mas também de pintores como Alfredo Andersen. nem quem o iniciou nos segredos da linguagem cinematográfica. fazia pinturas decorativas. de Annibal Requião. que lhe cedeu ou alugou o equipamento para as filmagens de Sapho.CURITYBA 1922. ou pelo menos conhecido. que buscavam inspiração na Grécia Antiga.

Dum egoismo atroz. para o doce sacrifício à Vénus. Vemos meio de longe a atriz que interpreta Sapho pondo incenso num turíbulo sobre um alto tripé. quando o aroma de nardos. termina de colocar incenso no turíbulo e. 309 . prepara o altar Aí começa propriamente a ação do filme. excitante e lascivo. a Deusa do Amor. Lembrar que se trata de filme mudo. aparece uma vista de palácio grego. Segue-se um longo texto explicativo dividido em duas partes. de amor a gemer Entre rainhas como flor. claramente uma pintura filmada. sacerdotizas de Vénus. E ainda: UMA Todos esses créditos iniciais estão emoldurados com ornamentos em estilo grego. na lassidão cálida de uma noite de verão. Sapho reune-se com suas amigas. de farto sangue quente. Não é no meio de tanta insipidez.PELICULA CRISPIM CARMORO. Homens rudes e maus. Sapho levanta os olhos em direção à câmera e se põe a falar (através de letreiros). e outro letreiro: Sapho. inicia grotescos movimentos de dança. Após esse longo texto introdutório. Daí a necessidade de longos letreiros para desenvolver a açao: E sua complementação: Em seu resplandescente palácio na ilha de Lesbos. Sapho baixa a cabeça. JV1eu lugar é aqui. a bella sacerdotiza pagã. dum orgulho medonho. graciosas donzelas Entre gestos e corpos que me causam prazer. como que se dirigindo aos espectadores: o meu lugar não é em meio de vocês. concorre para o enlace sensual dos corpos. Há um corte para um plano mais aproximado. O AMOR ENTRE AS MULHERES. protegida pelo resplendente azul do jirmamento vago. realizado por quem não dominava plenamente a linguagem do cinema. em meio à fumaça. de semblante tristonho.

sempre precedidas de um letreiro que as identifica pelo nome: Prokné . o corpo delinquente sem pudm. Sapho invoca Venus . no seu seio Que frescura! Que olor! Que límpido gorjeio! 310 . À medida que se desenvolve a dança.Em sua dansa.Deusa Pagã dos amantes E conclama suas bachantes Para os embates do amor."bachantes".a favorita de Sapho. são mostradas as outras no filme só atuam mulheres .

virgem bela como Vénus.Aglaura . Virgem de olhos glaucos e seios morenos! Hypolita . olhos de engodo e boca sedutora! 311 . Corpo rijo.virgem pura.musa pagã de basta cabeleira loura.

Formas tentadoras.Euridice .escrava núbia de corpo ardente. sorriso de creança! Fátima . Liso. rosto de mulher. odulante como o de uma serpente! 312 .angélica expressão de causas mansas.

esforçando-se para fazer poses eróticas. Com sua imagem termina o primeiro rolo. nem cenas de sexo explícito ou de nudez total. Essa bobina inicia-se com um letreiro: Sapho empina o ventre. O cenário. olhando os fotogramas contra a luz. arqueia o busto e num repente Elétrica se lança aos golpes tentadores.entre as outras figurantes. 313 . A bobina número 3 apresenta várias de suas partes meladas e faltam alguns trechos. fremente. colunatas e alguns vasos de gesso imitando urnas gregas completam a cenografia. arremedam roupagens gregas ou orientais. É de se supor que o segundo. seios à mostra. Os trajes. O que vemos é a repetição constante de imagens. em geral rolando pelo chão. queria se deliciar com as imagens das mulheres semidespidas. envoltas em véus e adornadas com bijuterias que simulam ser jóias de valor. não passa de um cortinado escondendo as paredes e um chão coberto por tapetes. Tudo lembra os cenários de gosto duvidoso utilizados nos estúdios dos retratistas da época como fundo de suas fotografias. Difundindo luxúria e provocando ardores Como se a carne houvera em convulsão. As imagens que se seguem a esse letreiro são da atriz que personifica Sapho dançando .Esta última é a única negra que aparece no filme. Provavelmente foram cortados por alguém que. representando o interior de um templo grego. não encontrado. Não há muita ação no filme. cadeiras de madeira entalhada. Almofadões.o termo mais certo seria rebolando . se é que podemos chamá-Ias assim. seminuas. prossiga com a apresentação das celebrantes em poses lascivas. com a câmera estática focalizando Sapho e suas "bachantes" envoltas em véus.

Entre uivos do instinto a cupidez atua E uníssono se escapa um grito retumbante: . nenhuma notícia da exibição de Sapho foi encontrada nos 314 . Arrastam-se coleando em silvos de serpente.Dansa outra vez. Provavelmente seria a única imagem de nu frontal do filme. esta cena está entrecortada com imagens das "bachantes" sempre em poses lânguidas. mas nua inteiramente nua! A imagem que se seguiria a este letreiro não está na cópia encontrada. As bachantes deliram em lúbricos jurores. Apesar de na época ser relativamente normal a exibição de filmes eróticos. realizado em 1922. Devemos lembrar que o filme. Toda essa parte está tintada de vermelho pelo sistema de viragem .Ei-la saracoteando.tintura de anilina usada para dar um tom de cor aos filmes da época. foi reencontrado somente em 1984: sabe-se lá em que mãos andou durante todos esses anos. Além de mostrar Sapho dançando. o corpo delinqüente Semi-velado ostenta às luzes multicores. deve ter sido tirada por alguém sequioso de excitar-se com a visão do belo corpo da atriz que encarna Sapho.

numa grandiosa mise-en-scene em oito partes". O anúncio da exibição não diz a origem. Diz apenas: "Os escândalos de Sapho. Quero beijar. mas a respeito dele ainda ficam muitas questões: quem foram suas "estrelas"? Prostitutas da rua Ratcliff (hoje Desembargador Westphalen). nem mesmo se é brasileiro. Prokné. acontece algo mais forte: Sapho e sua favorita.quem seriam? . Tremerão nossas carnes no mesmo espasmo presas E nos confundiremos entre carícias ledas! Após o poema. em julho de 1923. em seu Filmografia do cinema brasileiro. Quero pousar meus lábios nos teus de framboeza E neles. então a zona 315 . o pesquisador Jean-Claude Bernardet.O AMOR ENTRE AS MULHERES. como a abelha liba o mel na rosa em fiar. o filme termina com um letreiro: Oh! Até que enfim em carícias felinas Teu busto gentil ligeiramente inclinas E te enrolas em mim e me mordes a boca! A imagem da mordida não é mostrada. a deusa de Lesbos. sequiosa em delírio de amor acesa. deitadas no chão de falsos tapetes persas. Somente no final do filme. 1900-1935. edição do governo do estado de São Paulo (1972). reproduzem diante da câmera sempre imóvel a ação descrita no poema mostrado no letreiro. menciona um filme com o título de Sapho no Cine Royal de São Paulo. E tal como começou. na parte oito.jornais curitibanos. Todo teu corpo de sensual calor! Prender-me nos divinos novelos. Aranhol dos teus fiavas cabelos. Em seu lugar vemos o letreiro: fiM Assim termina SAPHO . e não faz referência à sua ficha técnica.a rolar pelos tapetes ou enrolando os corpos seminus nas cortinas. O restante da bobina 3 é uma monótona repetição das atrizes improvisadas . O mesmo número de partes do filme de Crispim Carmoro. Contudo. vemos as imagens de Sapho e Prokné enlaçadas se beijando.

do meretrício de Curitiba? Ou seriam mulheres da sociedade curitibana que aceitaram representar por dinheiro ou outra razão qualquer? Algum poeta curitibano escreveu o "enredo" e os poemas do filme e. 316 . pudorosamente. não quis assinar? Quem financiou a empreitada e o que se propunham os produtores com o filme? Lucro fácil ou algum outro objetivo escuso? Por que não teve continuidade a carreira cinematogáfica de Crispim Carmoro? Talento e capacidade não lhe faltavam.

() mistério dos sinais da passagem dele pela cidade de Curitiha .

de 48 anos. ao lado da caixa-d'água. morta com uma estaca de madeira cravada na vagina. porém tendo o decoro de esconder com uma tarja preta o sexo da infeliz moça. no dia 29 de maio de 1986. que mantinha sua cadeira instalada na praça Tiradentes. a prostituta Márcia de Tal. A Tribuna do Paraná. O revoltante crime teve muita repercussão na época e a Folha de Curitiba publicou fotos do cadáver na primeira página. vulgo Careca. também publicou as fotos na primeira página. Olhando assim pode parecer que se trata de uma perfeita imitação em barro pintado. onde o perverso assassino enfiara o grosso galho de árvore.Indiscutivelmente são sinais da passagem DELE. O mesmo onde. Falo isso porque tal qual as imitações é uma peça inteiriça . de 21 anos presumíveis. foi encontrada nua. com dez centímetros de grossura e cerca de trinta de comprimento desde a 319 . do dr. dessas vendidas pelos camelôs e usadas para pregar peças nos amigos. O local onde foram encontrados e fotografados é aquele grande terreno baldio no alto da rua xv. Mais tarde descobriu-se que o assassino fora o engraxatejurandir Haus.como que expelida de uma única vez -. alcunhada de Polaca. o que provocou protestos generalizados. Paulo Pimentel.

ELE leu esse jornal enquanto defecava e depois. a outro pedaço que ELE usou para se limpar é o recorte do anúncio da Gronau na página onze. E também que ELE se manteve de cócoras no mesmo lugar durante toda a defecação. com a manchete O Gênio abre o jogo. Nota-se que ELE teve a preocupação não só de escolher pedaços do jornal com bastante branco . uma poça redonda já seca mostra o lugar onde o jato de mijo penetrou no chão.ponta arredondada até a outra ponta no alto. parte do título do jornal.00. mas também de não estragar partes que trouxessem reportagens interessantes para se ler. A página policial também não foi mexida. A cerca de um palmo à frente. reportando com fotos em cores a sensacional vitória do Coritiba por 3 x 2 contra o São Paulo. Um deles é a parte da primeira página onde está a chamada para a entrevista com o ex-jogador de futebol Aladim. Estão inteiras as notas da trágica morte do ancião atropelado por uma locomotiva. a terceiro pedaço usado pega parte dos anúncios das Lojas HM na página nove e de Pedroso. e mais o cabeçalho. limpou-se com os pedaços que rasgou. que tem no verso parte do anúncio de página inteira do Carrefour Pinhais. Examinando-se a Tribuna do Paraná daquele dia. nem da notícia ATIROU NA RAPOSA E ACERTOU NA FILHA. caso contrário apresentaria outra forma que não a de um rolo.é sabido que a tinta de impressão provoca irritação no ânus -. Do outro lado desse pedaço. nada foi rasgado da reportagem sobre o assalto da mansão milionária. a bolo encontra-se enrodilhado. três pedaços amassados e sujos da Tribuna do Paraná. mostrando ter saído de uma só vez.062/24 páginas Às segundas cz$ 15. 320 . na falta de papel higiênico. À esquerda do bolo fecal. E também parte da foto da mansão do milionário assaltada no bairro das Mercês. na Copa Brasil. a Rei dos Tapetes. do caso do miliciano que roubou uma moto e do padeiro assaltado na saída do bailão. onde se lê: Segundaleira 2 de novembro de 1987 Ano XXXII nº 9. todos com mais ou menos quinze por quinze centímetros. Impressas em vermelho. vê-se que foi deixado inteiro o caderno de esportes. na página dez. Provavelmente. e parte de um anúncio da Prefeitura Municipal de Curitiba intitulado Procura-se um fornecedor. com as costumeiras reclamações contra os serviços públicos. as letras TRI. onde se afina como uma cauda onde foi cortada pela contração do ânus. está uma parte da seção Cartas dos Leitores.

sem parti-Ios. ELE leu a Tribuna do Paraná enquanto defecava e. Do lado direito. e o intervalo entre um palito e outro. formando um v sem estarem partidos em dois. levou-a consigo para terminar a leitura. ELE não é muito alto e pesa pouco: apesar do solo arenoso do terreno baldio ser bastante duro e ressecado. Tem ELE o estômago em bom funcionamento. porém quanto mais dados tivermos sobre seu comportamento. Daí o cuidado de estragar somente as partes desimportantes do jornal. ELE tem o hábito de ler enquanto defeca. o que não acontece. apoiar um palito nos dedos indicador e médio para. pressioná-Io com o polegar. Muitas pessoas têm o costume de fumar enquanto defecam. naquele dia de Finados. pode-se concluir que ELE não fuma.Provavelmente. podendo-se argumentar que foi o único jornal encontrado na banca. ou pelo menos não sofre de diarréia. a intervalos regulares. Examinando a fotografia com os sinais que comprovam ter ELE estado em Curitiba no dia 2 de novembro de 1987. chegamos a uma série de conclusões: ELE usa o corpo de um homem.pois não acredito ter chegado a horas . isso sim. Porém. aparentemente jogados ao acaso. E exames mais acurados da passagem DELE nos darão informações cada vez mais preciosas.ELE esteve defecando no terreno baldio. principalmente a céu aberto. Durante o tempo que levou para defecar no terreno baldio dobrou três palitos. porque isso ajuda a disfarçar o mau cheiro e a fumaça serve para espantar mosquitos. fosse o de uma mulher.se bem que esta última afirmação seja discutível. poderíamos determinar com precisão durante quantos minutos . É terrível dizer. mais aptos estaremos a saber como ELE é na realidade. Porém. Pode parecer escusado. fosse ELE alto e pesado certamente suas pegadas seriam mais profundas. porém carrega fósforos e tem o sestro de. ELE não fuma. e é leitor da Tribuna do Paraná . tanto física quanto espiritualmente. mas não 321 . essas são observações rápidas e superficiais. depois. em seguida. como os três fósforos não estão queimados e tampouco se vêem tocos de cigarros. um caco ete: o de dobrar palitos de fósforos ao meio.a vagina fica mais perto do orifício anal do que fica o pênis. a marca da poça de urina estaria mais junto do bolo fecal . No jornal prefere o "noticiário esportivo e o policial. Soubéssemos nós o tempo que ELE leva para dobrar cada um. Você mesmo deve ter analisado o que viu na foto e certamente teria outras ponderações a fazer. vêem-se três palitos de fósforos dobrados ao meio. quebrando-o ao meio sem contudo parti-Io. Tem.

de o conhecermos na plena complexidade do seu ser e da sua obra.sabemos com qual semblante ELE se mostra ao mundo: se algum dia estivermos na frente DELE. quando surge uma oportunidade como esta não podemos deixá-Ia escapar. Corruptio unius generatio est alterius PUTRE factio 322 . Por esse motivo. não saberemos reconhecê-Io e certamente ELE não se revelará a nós. Somente agindo assim é que seremos capazes um dia . temos que nos debruçar atentos sobre cada sinal da passagem DELE sobre a Terra e estudá-Io incansavelmente.que espero não esteja longe .

foi traduzido por Valêncio Xavier. Criar. em agosto de 1984. Os haicais "Nesta noite . edição em língua portuguesa de Bukkyo Dendo Kyotai." são de Bashô.. agosto de 1983. .. 323 . nº 94. 1983. no bairro da Liberdade." é de Isa. Tóquio. Curitiba. "Tocador de biwa" é um desenho anônimo japonês do século XIX.. agosto de 1984. nº 116.. de Curitiba. Maciste no inferno. "Conduz teu cavalo . 1982. japonesa o mistério da prostituta & Mimi-Nashi-Oichi.NOTA BIBLIOGRÁFICA o mez da grippe. 1985... Curitiba. A primeira versão desse conto foi publicada no nº 117 da revista Quem. "Orvalho deste mundo . 13 Mistérios + O mistério da porta aberta. Raconto. passa-se num apartamento em Curitiba e teve uma primeira versão publicada no nº 150 de Quem.. 1981." e "Ah.". em maio de 1986.. Gráfica & Editora Módulo 3." e "Tudo é mutável. "Sob o sino do templo ... novembro de 1984." são trechos de A doutrina de Buda. Novella. outubro de 1984. 1986. "O mistério da porta aberta". A "Mão com poema de Desnos" foi desenhada por Cláudia Suemi Hamasaki.O amor entre as mulheres". Curitiba. como os haicais. nº 118. o minotauro. "Mercúrio mistério". Novela.. nº 113. Contos publicados na revista Quem: "Um mistério no trem-fantasma". Mimi-Nashi-Oichi. o passado " são de Buson. "Mistério Sapho . "Primeira neve " e "Esta estrada . Curitiba. A ação de O mistério da prostituta japonesa se passa em São Paulo. Fundação Cultural de Curitiba. A escrita japonesa e a planta do quarto são de autoria de Sônia Yamanouchi. O poema "Tanto sonhei contigo . Logos." é de Robert Desnos e. O segundo conto...

Novela-rebus. Panorama e Revista da USP. Curitiba. e "Os fantasmas do fundo de quintal . Studio Krieger. Curitiba. OUTRAS OBRAS DO AUTOR Desembrulhando as balas Zéquinha. 1975. 324 . 1973. nº 160. todos nós. trilhos. Quem. nº 152. 1964.Um mistério". Curitiba. Valêncio Xavier Niculitcheff nasceu em São Paulo. por Caro signore Feline. publicou inúmeras narrativas em jornais e revistas (Nicolau. Além dos livros mencionados. de nós. Curitiba. junho de 1986. Como cineasta. No jornal O Estado do Paraná foram publicados dois contos: "Mistério do menino morto". Fundação Cultural de Curitiba. entre outros vídeos. Segunda edição: Curitiba. Estudo. "O misterioso homem-macaco Como tudo começou". São Paulo. 7 de amor e violência. trilhas e traços. O pão negro . 1986. agosto de 1986. 1994. Realizou. Curitiba.Um episódio da colônia Cecília e Os 11 de Curitiba. "O mistério da Sonâmbula". em 1933. julho de 1986. Biografia. recebeu na IX Jornada Brasileira de Curta-Metragem o prêmio de melhor filme de ficção. nº 154. Criar. emjaneiro de 1984. Payol. Segunda edição: Curitiba. Curitiba. Poty. O conto "Mistério números" foi publicado no nº 334 da revista Panorama. 1986. Antologia de contos com outros autores. 1989. Crônicas com Poty. Edições KM. e está radicado em Curitiba. É consultor de imagem em cinema e roteirista e diretor de TV. Memória com Poty. 18 de junho de 1985. de Curitiba."Mistério mágico". A propósito dejignrinhas. entre outros). Nutrimental. Edições Ciências do Acidente. 1998. Fundação Cultural de Curitiba. 22 de julho de 1990. Meu 7º dia.

BSP LIV 11111111I1111111111 253734 .

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