VALÊNCIO XAVIER

o MEZ

DA GRIPPE

E OUTROS LIVROS

-~COMPANHIA

DAS LETRAS

Copyright

© 1998 by Valêncio Xavier Projeto gráfico: Hélio de Almeida,

com base em indicações do autor Capa: Hélio de Almeida Preparação: Denise Pegorim Revisão: Eliana Antonioli Ana Maria Barbosa

Dados Internacionais de Caralogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Xavier, Valêncio O

mez da grippe e outros livros / Valêncio das Lerras, 1998.

Xavier.

-

São Paulo: Companhia Bibliografia. 85-7164-810-7

ISBN

1. Contos brasileiros I. Título.
98-3379 CDD-869.935

Índices para catálogo sistemático:
1. Contos: Século 20 : Literatura brasileira

2. Século 20 : Contos: Literatura brasileira

869.935 869.935

1998

Todos os direi tos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 72 04532-002 - São Paulo - SP Telefone: (011) 866-0801 Fax: (011) 866-0814 e-mail: coletras@mtecnetsp.com.br

ÍNDICE

o mez da grippe, 7
MacÍste no inferno, 81

o minotauro,
13 mistérios
+

137

O mistério da prostituta japonesa

& Mimi-Nashi-Oichi,

181

O mistério da porta aberta, 203

Nota bibliográfica, 323

OMEZ DAGRIPPE
novella

Vê-se um sepulcro cheio de cadáveres. nem mais verdadeira. Esta macabra execução é de cera. colorida com tanta naturalidade que a natureza não poderia ser. nem mais expressiva. MARQUÊS DE SADE . desde o instante da morte até a destruição total do indivíduo. sobre os quais se podem observar todos os diferentes estados da dissolução.

1918 Outubro QTTUBRO ==--~--=-.::~~ I~ _~jSI!IQ9:~ -ti 27 121 lói l' 91~~llfl~ ~I 3..IiHi00131i -113114:!2i~3.:~ti 6 Alguma coisa . !~ll!1 ti.~S.:!4~!.. 20 I I~IIRi l():_~.

~ presidente Wilson não fra.. J WA. De Antonina e Morretes seguiram para aquella cidade. Em Paranaguá.. ta com um governo que con. ia effectuar-se o casamento de uma filha do syrio Barbosa. Um homem eu caminho sozinho nesta cidade sem gente as gentes estão nas casas < grippe 13 . 10. os hospedes fluminenses não s6 padeceram da molestia. Dr. Trajano Reis director do Serviço Sanitario. por sua vez. I deE~ Em Paranaguá. como também a transmitiram aos patricios e á população. que se disseminou com as populações com sigo o cidades. I FO~~ tinúa a te de crimes ==== ====commeHer toda a sor. alguns patricios do Sr. que estavam com o mal incubado. I..':. com o mesmo fim dos do Rio. Do Rio de Janeiro vieram assistir ás bodas alguns syrios.A paz está interrompidalo.~~~t da. Relatório do Sr. Barbosa. o ! D. Folgaram juntos e cada um dos residentes em Antonina e rapidez entreMorretes trouxe das referidas gérmen do mal. n'aquella epocha.illN(.lTUN.- O t·jX u Os jornal)" ua bru" se maui-.

.RIFIQUE M OLOUVRB RUA QIJINZE DE NoveMBRO. . gran espanoIada J eca Rabecão O COMMERCIO DO PARANÁ li OORTIIVAS • 14 OORTINADOS BRIZE-BIZES • IJRAI.. CI". 43 5.... - DIA 20 DOMINGO $ A Allemanha vae capitular A SEMANA RIMADA "La influenza espanoIa" Esso todo.w ESTORES OS SORTI MENTOS QUE APRESENTA VE. No tiene casi que nada No passa.-----------------------------_ .'N. Ia gran grita. cosa esquisita I De una .

pano preto. Iam carregando o caixão e as gentes a pé acompanhando pela cidade inteira até o Cemitério Municipal. CORITIBA. mas eram bem poucos. 22 DE OUTUBRO DE 1918 O SECRETARIO . A maioria a pé."E.RICARDO NEGRÃO FILHO .DIA 22 TERÇA o DlRECTOR DO SERVIÇO SANITARIO MANDA AVISAR AS EMPREZAS FUNERARIAS QUE FICAM PROIBIDOS OS ENTERROS Á MÃO. ENQUANTO ENTENDER NECESSARIO Á BEM DA SAUDE PUBLICA E QUE OS ENTERROS DOS QUE FALLECERAM DE MOLESTIAS TRANSMISSÍVEIS SERÃO FEITOS SEM ACOMPANHAMENTO SENDO O CADA VER PROMPT AMENTE REMOVIDO PARA O NECROTERIO DO CEMITERIO MUNICIPAL.1976 por muito tempo. era a pé. cavalos de penacho." 15 . Tinha os muito ricos que faziam enterro com carro. DONA LÚc1A . foi assim.

. ao ver o cadaver do noivo. que pedia para ver o cadaver de seu noivo: pedido a que os guardas depois de muita relutancia resolveram acceder. COMMERCIO DO PARANÁ 16 . COMMERCIO DO PARANÁ ~=============" IIVida Social . cahiu debulhada em lagrimas.~=======~ II Positivamente a vida humana não vale um caracol ..UM CASO PUNGENTE Quando o povo se achava agglomerado em frente ao botequim. noiva do assassinado. lamentando a sua triste sorte. chegou ali Maria Esteves. A infeliz.

que se encarregou do Com numero rel.l'1. . ficou a.S. di l.l'C&n~ PAlA'-C: O Ta \.C' ser ter deixado de<Vlda conta.nall da 11"a.. h"je a...l lll'C'~~. MazzR.l. M. Je baixadQ. do 2.° H. Und ~. __ . i.u hOn A designação desses ofriciaes que era. Fora.UC se gaJ10 di wppril tem esforçado 09 .. da Cir cumacrlpçi. parecendo tn autorld. A..fizcra."HONEl lI08 -. TU&.n~ -f. 'JIt . lendo tudo 1'01' mim [l{'Om'llallh<ldo em to inforntR':1O de (das as v. PAGINA --- •••• ••••-----'Andradtl - guintes Grs. do o gran Que 17 viço de Saude e Vetel'lna.'..sre.-elou o ass-eio. general Barbedo a esta cir· cumscripção Ul':<laçamml da.O "'E1d. do Corrttlo .••• ~'J.1 A influenza A Syrla e n s-.. f(T.. '---- NO PARAN. gC'nt'n1.e .o F... l!am~ f''''f'rci~.me-n'al. A.ndante dt'Mta rogiíi.no Saldanha.de. eervi(:o de con!erencl&!l 1I0bre h)'" giene. oi!tt'icia. oMiciaes e '1. felicitar os srl!!.ar€'s desla cU\lital.iacs e a d('[i$ipncia do ma· teria. do· 4. com mandantes de unidades e dirE'e-torE's de e8ta~leêlmento!i mj. gcu(. Devo citar t<l.. capiotão JOü.' ítuiçlo' é A Q. cumpro (l graRI-o wn I'rupo' tu deVe!' de Jlllul:('ar que me IHll'f'ce ques m de te ra conl!a. de 2. A..do ~ que' deve ter notado o m'uito l.')Il.)lndo provas. 'O'f!tcial Ant. o a pa.B<ldac:ção • OftlciJulo 'W. M.o.sa.•ba. hontem·· Ct8&8 da. com. lU "'ndlM"e\o teleg. onBl<u.•. e capitão Seba.do. a pense ta.C.: .r."i. tle inspeccílo dg ST..-te •.'ommnndunte (ll'sta l'l'giAi(. 12 de tubro re.roo 84 tend -ciplina aqllella com das unido.'C" Jpgo.. da 2.e •.rio para que a instruc· 'tla neral comp-le:ta" a del'lejar na . Frail1ce a com.1m ~·O l!oje ~ 9.o.•• .brlcl& nt>-do Rego Ba. para conveni-ent<· litar fo~e rni·nistrada m-ente e sem embar-aços. ma".q. de T~ nca. SOllr -e Tripoli.o Pin to da Silva.ra.stifi.• I_ :.:.!._._.m conferencias militares.el!!que granrde fim -de . Lj 2. eetot'\." I~ ~~osen~. (IUC'b~ -tante concorreram para os resulta doa colhidos. '\Se ~1 dOrf~!l Í1'ancezea Termin:W~l a In:-lpecC."ptn1aacl( tod08 -lyt~.ül hnpt.Tia.• Theatrosi "'A'$~'_ THEA'i'RO· anima.a: si'8tene !Annun{' a. O puseio militar no dia.rat'l. carpacldade e disciplina lar clnen:""It·d& I e Que continuam~nte dão Ilobejas t-em. g(' eS'[orç:C»! ~IO[' 'ÜilE'_ di:.Q do ParanA.•.vprnl)... que 'Proouziu um beBo traba.~ula. 'exh. 15 de Yovtlmbro..ado de seu. (._-. major dr.•• . ga.litares.. miHtar ao.:1Ilu8~~~~O da~ PO:lu1açõe. 'J)elJ.]dido I.1 teresse sempre patente&-dono cum. qus. e aspirante â..obom exito e.l.rnbem o sr.0 t&nen-te j<"a.:a...lle :p de 3.IlOS.nfltruccão mi c3t1a um..ee assieti.0 tenente Adria.l O cOl.' ledico. Ch. pelo SI'.'. agradeçendoJ.hes o in" em THEA'lRO MduzidUi·.•..lta -de folffk. I --.uiz B8Tl>edo. {. ~omma.I. vando na e çü'o vudes-.· eommal'ldan tchf"Qullri<e de. C'--"ro"t:"- U/..: 1..onlo ANCS de Magalhites.' ~~ .e:. E: ir"" o reBultullo dos ao sr.Zlo pelo ar.4 o que grande.l"a[ I.8 "Protê&". .° B.f unidades para.oe..sita-g {jUe' fl'7. 'P~I~ "Chllro-. (' f':<talH'\{'ciIHcn.hoY-.!!fle Çao cine:ra&togt' CONTINUA NA 2. rim. obteve C1-rmde Aprovoito ainda oppor>tunidade pars.. todos empregados.ide ficado ~uti8felta._.: tes.cf. delicada.0 R. der doA'UoT". que o PaI hontem u'n& c& Para.•. AUI ter sido a 1lI('J-hor 1l()S~lvf'1:t IllT\lJ"('S são rN'(>hida (1('1" mt'l'Imu ar. declamado Q _11:.. !uneet-o. !i1m ••As ·feduzl chefe Se-r .1tt!.' COI'lIO. feita por 80rte rooalhiu no. E.s das div<lrsas t exame .'oroue-l Olava CO!'TI'ia a se-guinte parte que se refer~ 11 visitl. Olegario de Vasconcellos. cir'cum6Cripcli.::===============DiJ'cctor: Generoso nor~l'~ DIARIO FOLHA DE MAIOR CIRCULAÇÃO A inspecção do sr. &- Por todO<:! esses nlotiv06 apresen to minhas felicitaçõE"1iI aos sr8.:rnandes Jonsen Tavares. belIl como aos o1iri-cille8e praças. p"'ico le. primento dos seus deveres e louvan AMER:'CA Cl do-os 'pela. dr. nl2'ral J. Que ã. _ "Diarlo" l . lho l!!obre alcooliemo. &..! obseI"Vou.lor mll5l é'ê O trL'1l!1mo tos milit.=""""'======================. ord~l" du dia ho .

ATÉ QUE TERMINE A EPIDEMIA NO RIO DE JANEIRO. SR. TRAJANO REIS DIRECTOR DO SERVIÇO SANITARIO DO ESTADO 22/10/1918 Entro na casa a porta sem chavear alguém que saiu para voltar e não mais voltou entrou para sair e não mais saiu Não sei porque entro entrei nesta casa onde nunca entrei Pássaro em água estranha Vagueio pela penumbra do corredor pela porta entreaberta vejo 18 .CONSELHO ACONSELHAMOS AOS HABITANTES DE CORITIBA QUE NÃO SE VISITEM. MESMO QUE NÃO HAJA MOLESTIA NAS CASAS QUE PRETENDEREM FREQUENTAR. BEM COMO QUE NÃO CONCORRAM AOS LOGARES ONDE HOUVER AGGLOMERAÇÕES DE PESSOAS. DR.

. atrapalhada. Prá não adoecer Tomo o conselho do Lauro E deixo o barco correr DIÁRIO DA TARDE Manuel Salvat 19 . pensando no caso.. Mas eu.uma sentença! Um conselho em cada esquina E a série de disparates Boas risadas propina ..DIA 23 QUARTA MUSAALEGRE Não há nada neste mundo Que mais possa aborrecer Do que cruel "que brade ira" Sem vintem pr'a dispender Esteve aqui a Olona Com Salvat .. A propria gente da "Imprensa" O Lauro Lopes já disse: Quem quiser ser forte e "são" Beba limão com cachaça Sem abusar do "limão" .o bello par E não pude uma só vez Os mesmos apreceiar-p! Não vos sei tambem dizer Porque houve tal vazante Si por andarem como eu Numa lizura berrante Ou si por cousa diversa: Por se meter na cachóla Do povo qualquer receio De companhia "hespanhola" fUCA VIOLA Pois que d'elln só se falla N'outra cousa não se pensa E anda tonta. Cada coro.

.J~~.(]eqtral HOJE • lIOJE gl'ltllIJO o A Creaçi\o ncontecÍmcnto ela Mmll. elegante -. n~ r~t __.~'~.--------ii ."---COMP.- O peeopd dos treeottds DIA 24 QUINTA --------------- NA BELGICA OS EXERCITOS ALLIADOS VAO LEVANDO DE VENCIDA OS ALLEMÃES NÃO MORREU NINGUEM Informa-nos o sr.Ilctor "1101'1111:111 GEORGE W ALSH ~ma na~ mai~ ij~lla~ronu~~õ~~ ~ --'--'--~c.~"" -s_.=.... CINE TH[ATRAl PARAt~A.--~~-~-"- -- ~-- ii ====::. official do registro civi~ que hontem e hoje. não DIÁRIO DA TARDE se registrou obito algum nesta capitaL 20 . Benedicto Carrão.Jla : CAMINHO extl'l\I)r(i1nuri'l DE BERLIM RIII('rf('IUlo: dI).~. ------.-~--_..

24 DE OUTUBRO DE 1918 (ASSIGNADO) .Commercio do RESOLVE. SUSPENDER O FUNCIONAMENTO DOS CINEMAS E OUTRAS CASAS DE DIVERSÕES DESTA CAPITAL. BEM COMO DA CAPITAL FEDERAL." DONA LÚCIA - 1976 DECRETO N~ 132 O PREFEITO MUNICIPAL DA CAPITAL. TENDO EM VISTA QUE AS DIRECTORIAS DE SERVIÇOS SANITARIOS DA CAPITAL DE SÃO PAULO E DESTE ESTADO. (Sebastião Paraná . não nos visitará. ~oie sa· mat. não encontrará aqui ensachas. CURITYBA. E. Parecia a cidade dos mortos. se subir a serra pela linha ferrea ou pela estrada da Graciosa. meio favoravel á sua propagação virulenta. fazrr de a que a edicção hisse com tod d de redacçãD. PRINCIPALMENTE Á NOITE. ria "Famílias inteiras.JOÃO ANTONIO XAVIER PREFEITO MUNICIPAL 21 . Não houve casa que não tivesse alguém doente. AFIM DE IMPEDIR A PROPAGAÇÃO DA "GRIPPE ESPANHOLA". A peste! EUa não nos visitou ainda.«Ccmmerrio I do Parará» Em virtude doccido de terem a· al~uns possivel dos not sos não com operarfos a ultima nos foi hora. ACONSELHAM INSISTENTEMENTE QUE SE EVITE AGGLOMERAÇÃO. EPIDEMIA ORA REINANTE EM DIVERSAS CAPITAIS DO PAIZ. COMO MEDIDAParaná) PREVENTN A CONTRA A INVASÃO DESSA EPIDEMIA.

se manifestava tão favoravel á Germania e tão hostil a nossa Republica. dr. que assim. presisente Wenceslau Braz. COMMERCIO DO PARANÁ 22 . por escripto.. deu. immediatamente á chefatura de policia. Chefe de policia. para exemplo. indo. voz de prisão. O referido germanoplhilo foi recolhido ao xadrez . Napoleão Lopes effectuou hontem a prisão do germanophilo Roberto Thomaz que no "buffet" do Theatro Hauer teve palavras ofensivas às nossas instituições e ao governo da República determinadamente ao sr. às 23 e 30 horas. á ordem do sr.OUSADIA BOCHE O distinto advogado criminal sr. onde. Ouvindo aquelle advogado palavras insultuosas á nossa Patria.. deu essencia do seu acto.aquelle subdito sueco.

C::U~. CHEFE DE POLICIA AO DIRECTOR DE HYGIENE DO ESTADO DO PARANÁ.:. COM A POSSIVEL URGENCIA. SOLICITO A V.:u~a WILLIAM ".oIIMERC[A~iES LATAS. LINDOLPHO PESSOA. parca seara de louros pelos OFFICIO DO DR. a da aliança por sobre o lençol branco branco braço nú.t\SSE. INCHEI: "JSSAS PEARSON r. PORTÃO E DESTA REPARTIÇÃO.tKuma. e IIt~n.A.10 f. REFUSE:~ OS R~CJP!F. AS NECESSARIAS PROVIDENCIAS AFIM DE SER FEITA. NeDhlUn 'recepta'àulc o MELHOR DESINFECTANTE genulno qU<I nôo tonba o nom~ . ONDE EXISTE AVULTADO NUMERO DE DETENTOS.. EXCA.918. "SENDO NO MOMENTO ACTUAL DE GRANDE NECESSIDADE PARA A SAUDE PUBLICA.. A HYGIENE QQUE SE DEVE MANTER NAS PRISOES DOS POSTOS CENTRAL.Jod"1 'deAi/lrect:}'Lte SEitI ESCRUPULOS TOR~AM I. EM 25 DE OUTUBRO DE 1. SAUDAÇOES. SE:: u."LT~~~.dquer OU~j'·1 synOD)"m(i .Lricatte U<JO Esta t.\lIm J. A DESINFECÇÃO DAS REFERIDAS PRISOES. DA GRACIOSA.!lTES D'FSTA r. A direita assentada sobre o lento respirar do seio rijo. das lffillaçocs."l cOlltêrn meia agua.DIA 25 SEXTA o PAPA INTERCEDE PARA QUE A BELGICA NÃO SEJA DESTRUIDA PELOS ALLEMÃES Mãos grandes como de cavalo. A esquerda. 23 . tem nada que ver com qu.

prostrada sem vontade. 26 DE OUTUBRO DE 1. os casos de doença existentes.0 ANNIVERSARIO DA ENTRADA DO BRASIL NA GUERRA ACTUAL. Mas em mim deu fraca. obrigando-nos assim ao sacrificio de materia redactorial cuja inserção foi absolutamente impossivel. PRESIDENTE DO ESTADO DECRETA QUE SEJA CONSIDERADO DE FERIA O DIA DE HOJE. como num outro mundo. aliás commum na estação que atravessamos." DONA LÚCIA . sim. tratando-se de simples grippe. commentarios ironicos em torno da nossa attitude em relação á epidemia da "grippe espanhola". devido a uma interrupção inesperada do trabalho em consequencia de terem adoecido operários da secção de composição. Esse facto suscitou hontem em certas rodas.1976 DIA 26 SA'BADO DECRETO O SR. NAS REPPARTIÇÔES ESTADOAES EM COMMEMORAÇÃO AO 1. DR. 24 .918. dizendo-se abertamente que a molestia invadira a nossa tenda para obrigar-nos á uma formal retratação. continuamos firmes em nossa attitude pela razão de n[o ter sido de "gripe espanhola" verificado ainda um só caso n'esta capital. COMMERCIO DO PARANÁ "Fiquei. Não obstante. fiquei dias caída na cama ardendo em febre.NÓS E A "INFLUENZA" A nossa edição de hontem saiu muito aquem da espectativa.

pulmO~se garganta.I~ =. .*. A policia nos socorre Toda noticia degola -Aqu~ de vez. a Egreja Evangelica Presbyteriana da rua Comendador Araujo resolveu não realizar amanhã.. ----- . peito.~~~~~~. a hespanhola....NA SERVIA NA BELGICA E NA FRANÇA OS ALLIADOS A VANCAM VITORIOSOS "A HESPANHOLA" De manhã abro as gazetas nenhuma nota . domingo. nada de hespanhola.• ..que bola! Limpo e relimpo as lunetas Nada. ninguém morre.. os cultos de costume... José da Gaita DT *l["õ@:~l@l~.J ------------.jl~H. I Os olhos costurados pela febre loura linha a mesma que tece seus cabelos AMANHÃ NÃO HAVERÁ CULTO Attendendo aos conselhos da Inspectoria de Hygiene.~. DIÁRIO DA TARDE 25 . . Foi p'ro xadrez.

1976 VARIAS Phenomeno unico na vida coritibana accentuando o contraste de somente em epoca de epidemia ás portas do Estado e quando se pretende espalliar o panico isto se dar: ha trez dias que não é registrado um só obito numa população de 80 mil almas. Hontem. pondo ao sol um lodo podre e capaz de infeccionar o ambiente. Deus vendo a creolina penetrar no seu templo certamente se sentiria diminuido em meio da radiosidade de seu prestigio ." DONA LÚCIA . Mas não tinha remédio que servisse. com grande perigo para a saude publica. na rua Marechal Deodoro. de febre typhoide. no trecho entre as ruas Primeiro de Maio e Floriano Peixoto. estava sendo descoberta. As egrejas são templos sumptuosos de Deus. nasceram no districto desta Capital. Fechemos os cinemas. Nestas condições. Durante a semana ultima de 14 a 20 do corrente.. irrisorio seria que se as desinfectassem.DT "Remédios não havia.Depois raciocinemos um pouco. VALlOSISSIMA OPINIAoI GASTÃO FARIA .. De molestia infecciosa houve apenas um obito. Pro pessoal da fábrica eles distribuíam garrafas com limonada. COMMERCIO 26 DO PARANÁ . uma parte da rede de exgottos. mas também abertas não continuem as egrejas. Havia o padre Miguel que ia nas casas levando follias de eucalipto. 39 pessoas e faleceram 19.

.. meus dedos dizem Amarelos Ao levantar o branco lençol advinharei os outros pelos ? 27 .::====='" Vida Social II SUELTO .NOTICIAS DO PAIZ O RIO COBERTO DE LUTO RIO.26 .. pallidas e loiras.A peste de guerra aqui importada pelo "Demerara" e recebida gentilmente com o carinhoso titulo de "pucha-pucha! DIÁRIO DA TARDE DIA 27 DOMINGO ~ 1i (I . COMMERCIO DO PARANÁ Cabelos de vassoura mais macios. muito loiras e frias .~========:. A influenza hespanhola e o amor seria uma tese psychologica magnifica para ser desenvolvida por um Paul Bourget de francaria que se atormentasse num eterno sonho de duquezas e condessas..

A AUDACIA DO INIMIGO PRECISAMOS SER MAIS ENERGICOS AO MENOS EM NOSSO PAIZ É deveras para se lastimar o facto occorrido hontem á noite. Stanislau Urichi. . o escrivão daquelle posto offereceu guardas civis para acompanhal-as. .. revoltou-se contra os guardas. nós não somos criminosos e não ha lei que obrigue a falla portuguez". .. Anna Urichi. . . ha tres dias em que não se verifica um só obito nesta Capital (quadro urbano). " O mais exaltado era o conhecido fanfarrão Frederico Rummert que em portuguez arrevesado gritava: "Não bode ser. cheios de presumpção e agua benta ( ). . procurando offendel-os com palavras asperas quando era recolhido ao xadrez". e não o receio da epidemia de grippe. COMMERCIO 28 DO PARANÁ . nesta cidade. . . barbeiro á praça Zacarias 22. . como sahio na noticia . esposa do sr.. . Á essa offerta. . . .. Na Repartição Central . ellas responderam: "Não precisamos ir com brasileiros. Uma cama de allemães audaciosos. E foram . . explicando-nos ter sido desgostos por uma infermidade incuravel a causa daquelle acto de desespero. Hon tem visitou-nos esse sr. cantando hymnos patrioticos allemães e jogando chacotas aos brasileiros praticando outras tantas imprudencias que o atual estado de guerra em que nos achamos não permite .. . . . Praza a Deus que assim se conserve Coritiba. COMMERCIO DO PARANÁ VARIAS Em nossa edição de antehontem noticiamos a tentativa de suicídio de d. .. Esse estupido e atrevido subdito do kaiser. . . Com o de hontem. preferimos ir sosinhas". Apenas no quarteirão das Merces se deram dois fallecimentos um por tuberculose e outro por lepra. . entenderam de em pleno seio da capital desrespeitar a nossa pátria. Havendo algumas mulheres dito que "não iam para casa sozinhas" . "Cantamos e havemos de cantar hymnos allemães porque não somos trahidores de nossa patria".

l)ois é a melhol plua u. desinfecçí\o no in terior das ~"sa~. ficar deitado curtindo a DONA LÚCIA . AvttR_S facllmen te :t lH'opIIgac. o cansaço. a dor por dentro. Rua Saldanha Marinho n. Remédios não havia. . eJl\ escaw{J.PRECISA-SE De uma mulher para viver com um bom homem solteiro.1976 febre alta.Ao de quahluer EI)tdemia.s. Muito repouso. Para queimar dentro de casa. Com este metllodo pra tico e C('oUQlllico. "É. o 168 (das 5 as 6 horas da tarde) CP familias ProcuI'{ds comprar Naphtuliun C)'eol. folhas de eucalipto. queiman do-se uma p(~quena porçí\() sobre brl! Z(\8." 29 .

que se acha recluso no xadres do Posto Centra~ tentou contra a existência tomando uma forte dose de DIÁRIO DA TARDE creolina. A PESTE RECRUDESCE A SOPA DOS POBRES buço parco louro encima lábios rubros do calor da febre ao levantar o branco lençol encontrarei outros pelos louros cercando rubros lábios NAS RUAS E NA POLICIA NO QUE DEU A "HYGIENE NAS PRISÕES" Hontem a tarde. isso por desgostos intimos. o preso João Baptista Alves dos Santos. . . 30 .DIA 28 SEGUNDA o KAISER VAI SER DEPOSTO A SITUAÇÃO NO RIO DECLINA LENTAMENTE A EPIDEMIA E OS CADAVERES JA SÃO SEPULTADOS .

e AmAnhA serAoil celebrad"slPn a .o. a paga bos prcaborell com os teuS o(!Jos tontemplarás.l . mall não se t!Jegará a ti. UIG~~ cancerosas M mirei bo ~en!Jor: qele é meu refúgio e min!Ja fortale?a. e brrás ao ~ltíssimo te entregallte. jiem ba pellte que bagueia nas trebas. nem ba calamibabe que alISo(a ao meío·bia. em virtude de terem adoecido diversos funccionarios de suas officinas. o teu refúgio é o ~en!Jor. e bn ~ómente tlorque mil à tua bireita. ás Rcqu!I 8 112 hc ras. 510li portanto" con. I' ~tJf 1V. 90 ~~ltjflQ!') DIA 29 TER~A o "COMMERCIO" NÃO CIRCULOU Deixou de circular hoje o nosso apreciado collega mattutino "Commercio Paraná". Convite afim eftlija. ) ) 8066 I Rneumatismo. o meu meus. nem ba seta que bôa be bia. na Cathedr31-':' I Lo ~ vidadzs a es~e rtcer.lrle confiarei ~orque qele te Iíbrará bo (aço bos caçabores e ba peste perniciolla. i. epid@mia nAo no& rla que todas pnssoas Que acto qU3ircrn cump' A-/ A COM MiSSÃO ) f duasSão S9baGtiA' SAo 8 e és missas. penall e bebaixG be suas nocturno.I t\1. jflil cairão ao teu labo. allas te acol!Jerá: a llua qele te cobrirá com suas jião teráll mêbo bo terror berbabe llerá teu ellcubo e broque!. do DIÁRIO DA TARDE 31 .

1976 32 . LEMOS No monte de venus parca loura penugem . CURITlBA. O louco comia pêra com lesma. Não adiantava. Por causa da febre forte dias e dias. olhando. pintados de cal.fenda virgem para mfm advinhada por mim "Muita gente ficou com o juizo abalado. IRMÃ SUPERIORA E PELOS MEDICOS DO ESTABELECIMENTO NAS HORAS HABITUAES DE VISITA. olhando com aqueles olhos." DONA LÚCIA .No jardim do Hospício tinha umas pereiras. Mesmo muito tempo depois da gripe encontrava-se gente que nunca mais recuperou a razão. SRA. pro resto da vida. 29 DE OUTUBRO DE 1.918 ODIRECTOR DR.brancos os pés. ficava horas mastigando fruta e bicho.. lugar úmido. COMO MEDIDA PREVENTIVA ESTÃO SUSPENSAS AS VISITAS AOS DOENTES INTERNADOS NO HOSPICIO NOSSA SENHORA DA LUZ. sempre cheio de lesmas. TODA E QUALQUER INFORMAÇÃO AO RESPEITO DOS MESMOS DEVERÁ SER DADA PELA EXMA.como pelo de pecego margeando os lábios rubros do amor ..

mas sim para dar combate á enfermidade que já n?s atingiu.1976 pra servirpara outro:' 33 .000 ai. com relação á epidemia.Isfflél(OS e 50 canbõfs I f\ Brlgicd Vde ter a séde do seu governu dentro dos territorios receul-libertados A GRIPPE Embora a censura policial tivesse varrido do noticiario da imprensa a rekltação dos fatos verificos.. o nosso dever profissional nos força a sahir do mutismo em que nos encontravamos nesse sentido e vir dizer ao povo que todo esse preparativo que se faz não é apenas para evitar que o mal chegue até nos. Vinham buscar os mortos. eu mesma costurei algumas. antes de enterrar tiravam do caixão DONA LÚCIA . DIÁRIO DA TARDE "Os primeiros mortos tinham mortalha.~ ~ IA paz incondicionalmente iI Austria rende-se e quer Ia i I 95 êDglo·jjalianos avançam aíé~ do (íé\Ve e capturam I 12. Depois era de qualquer jeito..DIA 30 QUARTA AS VICTORIAS DOS ALLIADOS SE MANIFESTAM POR TODA PARTE! ~~~"".eCt~ n _ ••••••. faltou até caixão. A b m 6EMia'Y9bW'(4 AiiS ..

COMMERCIO DO PARANÁ 34 -.- . veio á rua 15 de Novembro. onde praticou uma necessidade phisiologica na porta da redacção do "Diario da Tarde" e em seguida veio escarrar na porta da nossa redação.ONDE IREMOS PARAR? A QUE PONTO CHEGA A INSOLENCIA DE UM BOCHE O allemão Rodolfo André Damn.

Coritiba _.Encontrasse ligeiramente enfermo o sr. 31 de Outubro de 1918 Visões da Guerra ~~ .o SR..-. •. FRANÇA . que não desceu hontem às salas de recepção. Wenceslau Braz.-- "COMMEACIO Pl DO . . Quinta-feira. glorioso 8 A biHlda de rc'!'hncllto de tnusira do tã') cele brc quAo ZURVOS do exerdto francez 35 .. DIÁRIO DA TARDE A FALTA DE CINEMAS TRANSFORMA CURITIBA EM UMA CIDADE DE MORTOS DT DIA 31 QUINTA ReJO DO OPRIEDADE DA SOCIEDADE ANONVM4 . ~~ ~ --- ----~-----~----. PRESIDENTE DA REPUBLICA ESTARÁ COM A "MARIA IGNACIA"? Rio 30 .

fuitar. de manhã e de noite. e Negoci". Sentjndo dôres de cabeça e pelo corpo.. que facilitam a infecção. o regimen lacteo e essa medicação inicial. ~não deve receber visitas. ("(mIm a in/t'q:. sobretudo á noite..1 CÚU edosas e c(('Unça. 5 gottas de oleo gomenolado a 5% nas narinas. de individuo doente a individuo são. evitam as complicações pulmonares gastro-intestinaes ou nervosas. pela ~ ~ é molestia muito séria quando descuidada. afim de evitar que elles adoeçam pelo esfalfamento e venha a faltar no momento mais difficil. e instillar. quando elles poderão prestar maiores serviços ápopulação. como nenhuma outra molestia infectuosa ou parasitaria. Tomar 3 por dia. a não ser do medico assistente. O repouso ao leito. Aconselhamos.30 centigrammos para uma capsula.'tI. para evitar a intervenção de pessoas da família ou extranhas. Inmar um laxante cada 4 dias.loou:. em seguida. diariamente. Indo doente grave deve ser entregue a um enfermeiro ou enfermeira. o uso de bebi das alcoolicas. fuitar.s Interiores Serviço ~e prophylaxia rural do Paraná Combate á grippe Conselhos á população paranaense É impossivel evitar a propagação da epidemia de grippe por não existir um preventivo seguro capa"" de evitar a infecção.. ou usar tampões de algodão com 'vaselina mentholada a 3%. 36 . So levantar-se quando não sentir mais nada.a bocca. com febre.li. Só chamar o medico para os casos serios. também com creolina. QIDln!Q á desinfect. fuitar. nariz e gargarejar com agua salgada com agua salicylada a 1 por 200. O mais importante é a desinfecção da roupa de corpo e de cama. afim de trazer o tubo digestivo sempre desembaraçado Ellgir das agglomerações. fazer uso de purgante salino' ou de calomelanos e tomar aspirina e quinino á 0.as causas de resfriamentos. ~ refeições leves e a horas certas e dormir tempo sufficente.ldI1l1lI. l. com tudo. Não fazer visitas e evitar o contacto com os doentes de'~ porque o contagio é directo. Eara lavar a bocca e gargarejar é excellente a agua com um pouco de tintura de iodo. que seriam contagionadas. o seguinte: Tranqyilidade e confiança nas auctoridades sanitarias.ão basta passar um panno molhado em agua com creolina pelo soalho da casa do doente e desinfectar o seu escarro. AVISO: .]lini8ter. pessoas Recommpudamos maior rigôr TUl def(>.o da Justiça.tiu. aggravàndo a situação geral. do doente. que são muito graves. Dieta lactea.A homeopathia. O espiritismo e as hervas. toda a fadiga ou excessos physicos. não curam a grippe. deve ir immediatamente para a .

1918 Novembro o mez da grippe .

DIA 1 SEXTA HO KAISER CAPUT_" Contra esse injustificado interesse das autoridades sanitarias. espalhou-se de modo aterrador. achando razão nas declarações de que em Coritiba não há epidemia." DONA LUCIA . todas as casas. de ocultar a verdadeira situação. não nos era possivel descuidar da nossa propria vida. Dahi em diante. no dia primeiro.1976 Fina loura linha não de tecer mas louro novelo ninho para o pássaro asas da minha mão 39 .. pois que. "Como saber quantos morreram? O governo não ia dizer o número verdadeiro dos mortos para não alarmar. por assim dizer. Trajano Reis. DIÁRIO DA TARDE Agora está m~o morrendo muita gente. Até hoje. vendo hora a hora cahirem os nossos companheiros enfermos. ninguém sabe ao certo. todas as classes sociaes. em termos claros. Começou o mez de Novembro com um obito por grippe. invadiu. o mal tomou proporções assustadoras. reconhecendo que outra cousa não era sinão essa epidemia que já se estende por todo o Brasil. quasi sem homens para o trabalho. continuamos ftrmes em nossa attitude pela razão. foi que. director do Serviço Sanitário não obstante.. Relatório do Sr. não em entrelinhas nos manifestamos ante-hontem. Dr.

FERREIRA LEAL . viu a coifa da freira em cima da cama. dicCl J' . mo• Iva' por preç A. deixou a porta aberta. CP A freira.. fornecem encommend •• no prazo mal.. a directoria do Serviço Sanitario o fez sob condicção de funcionarem somente 3 vezes por semana. curto po•. Deve ter achado bonito.DIA 2 SA13ADO ~ I. E assim vamos indo nessa estrada. na lidadeira daqueles dias.uta ' no •••• officin •• da C05tur. Deixando o corpo á podridão do Nada..Nov. O louco entrou. 1918 PEQUENAS NOTAS Embora permitindo que os cinemas voltassem a funccionar. colocou na cabeça e saiu daquele jeito pelos corredores: camisolão branco e coüa na cabeça. cantando: 40 . Tristonha de amarguras e miseria.

cOl!inhoir~ para acompanhar milil\ para ·fvra dl\ Yapita1. saía.io n.'l CcmmenfÍRdor de uma uma. Mas ir para onde? As outras cidades também estavam doentes.DIA 3 DOMINGO Nas outras mulheres que conheci na cama preta mata cerrada escondendo o sulco muitas vezes arado Crreada Precisn-s'J com urgüllcio. com medo da gripe." DONA LÚCIA . á r\.. "Muitas famílias saíram da cidade. Quem podia. faTrata-se Al'RlI. 51.1975 41 .

Capo 38 V. o espiritismo e as hervas." DONA LÚCIA . o complemento e a certeza de arte de curar . é dar prova de leviandade" pobre idéa do proprio juizo.~ saude das familias. não obstante. Ele mesmo fazia os caixões. DIÁRIO DA TARDE . . continuamos ftrmes em nossa attitude pela razão . Zombar de uma cousa de que se não tem conhecimento. a garantia do médico conscencioso. No ftm. DIA 5 TER~A "Ali naquela casa morreram sete.DR. Buxeta. a segurança das sociedades. que se não sondou com c escalpello do obseroador consciencioso..4.ECCLESIASTICO . não curam a grippe. com' nenhuma outra mo/estia infectuosa ou parasitaria.1976 42 .. faltou madeira. SATURNINO SOARES DE ME/RELES . não é criticar. era o pai chegar de um enterro já tinha de levar outro ftlho para o cemitério. Kriste Eleisson Buxeta. DR. HERACLIDES DE ARAUJO Na homoeopathia está a salvação do genero humano.Conceitos sobre e doutrina homoeopathica.Livro dos Espiritos O Altissimo creou da terra os medicamentos e o homem prudente não os desprezará. -ALLAN KARDEK .A homoeopathia. Buxeta.DIA 4 SEGUNDA Kirie Eleisson. Allamão Allamão Te pego allamão AhhhhhAaaaaaah Ghhaaaaaaaaa A HOMOEOPATHIA TAMBÉM CURA A VISO .

loira. suspender temporariamente o trafego de eletricos á noite em nossa Capital. isso. não se davam com a gente do bairro. Os dois caíram com a gripe. Não recebiam muita visita. seu nome era Clara.1976 43 .DIA 6 QUARTA VIGOROSO ATAQUE BRITANICO MEDIDAS DA SOUTH Luctando com a falta de pessoal devido a epidemia reinante. CP . muito bonita. Imagine os dois. um num quarto.6/11/1918 Ou então. " DONA LÚCIA . Clara. Passaram muitos dias até que uma vizinha lá entrou e encontrou os dois . as de pouco pelo (negro) que conheci ofereciam lesmas escuras que mesmo penduradas da carne faziam parte "Morava um casal de alemães. outro no outro... ninguém notou. sofrendo sem assistência. resolveu a South Brazilian Railway. a mulher alta.

A "BLACK LIST" ALLEMÃ "Apesar do estado de guerra. o buzinar estridente da ambulancia é:. no silencio sepulchral das ruas desertas. o louco homici& ~============~ IIVida Social II . de que qualquer coisa apavorante ocorre ao nosso derredor.\'t · . Hespanhola.. asas sinistras sibilantes. Esse "jornal boche" passa de mIo em mão" . d. Ao ouvir o trombetear agudo do auto ambulancia tem-se a impressão doloras:.. .. por exemplo.. corvo branco da morte. em que nos achamos.. passa por ahi somente porque vae levar o chal. Mas a sra.~=======. Assistencia Publica que. é sabido que os subditos aliemães que infectam a nossa capital mantêm um "jornal" escripto á machina o qual escreve telegranunas que dizem receber por intermédio da Argentina.' feur ao almoço ? . fora. COMMERCIO DO PARANÁ . · .6(11(1918 DIA 7 QUINTA A PAZ NÃO ESTÁ TÃO PRÓXIMA DIZ CLEMENCEAU Nada assemelhado a isso fenda estreita oferecida como lábios da febre pequeno regato de morna ácida água onde vibram mil peixes DEIXEMOS DISSO · . um pobre enfermo a curtir 400 de febre e ouvir ::. COMMERCIO DO PARANÁ As abas da coifa.. ás vezes. parece não ter vontade de deixar ninguém em paz .. Imagine-se. COMMERCIO DO PARANÃ 44 .

Caderno de um grippado . A hruma. 1918 . quando '. :-:'. eM OOMMERCIO --. a ~evoa. 'I íido re PEL~ TELEGRÀPH~ w_IIlIIIiI IlIl_ ••••••••• .DIA 8 SEXTA A CESSAÇÃO DA GUERRA COM A ALLEMANHA FOI FIRMADA o REGOSIJO PELA 1ERMINAÇÁO DA GUERRA É ENORME FM TODAS AS CIDADES DO MUNDO --_. 8/11/18 45 JAIME BALLAO JUNIOR . máo gra. noticia que foi hoje._-----.. ''''..rnar-:s affixaram outros despad10s teleglaphicos annun· do que ás 13 horc.acional. onglllae~ ""s A" 1\ .-- DO PAllANA .i~:: •• _ ••. ás 11 horas. a~signado o isticio entre os paizes alliados c o imperio allemão.""nhl'o .COr". batalha.__ . 7 (Urgente)-..: d.s de hoje foram cessadas as hoc.em todas as frf1ntes dp. 1 do no.lcç. intensificou-se ainda mais a sensação popular..iba. prirn\3ihoras da noite.1i:1 1'111:11(0 tnl . l!ssa noticia sen::.j_mUilmi!·_ZlB n t . 8 '•.101 I.• assignado hontem O armisticio entre os alHados e a AJlemanba RIO..Telegramma recebido á ultima hord .tili· ..-----._ondres. a grippe.do a situação lamen:1 e doloro~a em que se ach~1o Rio.j~.~--Irltgrammas á disposiçilo 00>.". tendo a cidade 5e movimentado mUlto ác.--. causou grande lção.

Acabemos com elle e terminará a grippe que de trocadilho em trocadilho. Peior. ENQUANTO PERMANECER A EPIDEMIA REINANTE. do que a grippe hespanhola o que está nos matando é o boato. segundo. aggrava-se o estado dos enfermos nas esquinas. primeiro porque a quasi totalidade dos musicos de nossa milicia baixou hospital atacado da epidemia reinante e. Mata se gente nos cafés.DIA 9 SA'BADO A "HESJ?AlliiQLK' Só se falia da epidemia. amanhã concerto de banda de musica na Praça Tiradentes. de pilheria em pilheria. e só não se fazem sepultamentos por que o official do Registro reclama. assoJOÃO ANTONIO XAVIER . porque estando a população a braços com a epidemia não seria louvavel essa organização de diversões. SR. DIÁRIO DA TARDE DECRETO NO 133 O EXMO. pois. CURITYBA. 9 DE NOVEMBRO DE 1918.Prefeito Municipal 46 . CORONEL PREFEITO MUNICIPAL AUTORIZA O COMMERCIO DE SECCOS E MOLHADOS E PHARMACIAS A CONSERVAREM SEUS ESTABELECIMENTOS ABERTOS DURANTE OS DOMINGOS E DIAS FERIADOS. CP NÃO IlAVERÂ CONCERTO Ao contrario do que foi noticiado por um jorna~ não haverá. cream-se cifras de doentes. está pela simples suggestão attirando com toda a gente á cama.

não estavam mortos. Estou vendo. como se os lábios fossem sua boca onde encosto meus lábios. não. MOLESTIAS DO PEITO Se a tosse vos persegue USAr O Xarope ~e 6rin~clia o MEDICO:-Então I Sente-se melhor? A DOENTE:Muito pouco. Não. UNICO QUE CURA " . mas quase..DIA 10 DOMINGO Estou de pé ao pé da cama o traço de sua fenda do amor fica horizontal em relação a mim.. Tiveram que levar os dois para o hospital. doutor." DONA LÚCIA . que não de OLlVfIRA JUNIOR ha remedio senlo appeIlar para o XAROPE DE GRINDELIA.1976 47 .

DIA 11 SEGUNDA o KAISER O KRONPRINZ O ARMISTICIO ABDICOU E TAMBEM NÃO QUIZ FOI ASSIGNADO COM A COMPLETA CAPITULAÇÃO DA ALLEMANHA A REVOLUÇÃO ESTENDENDO-SE POR TODA ALLEMANHA Mesmo na imobilidade da febre suas coxas se entreabrem lentas como a pedir que eu penetre sua gruta com minha Ifngua de sangue em chamas 48 .

Aponta-se também como symptoma caracteristico da injluenza..1918 Kirie eleysson alIamão te cuspo escarro lesma em cima de ti alIamão alIamão cabeça de mamão alIamão mão peluda RECLAMAÇÕES Sr.11.11. redactor do "Diario da Tarde" Um facto que deve merecer a attenção de quem de direito é esse de estarem a dobrar finados. a todo instante. a apprehensão.INFLUENZA pelo Dr. Nilo Cairo . 49 . . depoi~ de repetidos "arrepios" de frio. . espalhando. A prostação é algumas vezes tão profunda que pessoas bem robustas são obrigadas a se meter na cama. violenta "dor de cabeça". e muito frequentemente "dores" bastante intensas das "costas e das cadeiras'. um "peso doloroso nos olhos". Em geral os typos classicos da influenza começam por uma "febre" bastante forte. esse som. grande prostação /feral. DIARIO DA TARDE . Outras vezes se observam symptomas nervosos. que se produz principalmente quando o doente move com os olhos.. em caminho do Cemiterio Municipal. Agora que o numero de mortos augmentou os sinos ali dobram constantemente sempre que um enterro se aproxima. a magua e a tristeza. excitação e delirio. 0 começo da molestia é ordinariamente brusco. os sinos da Igreja do Rosario.

• Ç&Dha. NUo P.DIA 12 TER~A IOR CIRCULAÇÃO NO PARANÁ - Coritibs . u.AI RESOLUÇOES DO PELOS ALLlADOS SAO Ml GOVEBNO· lUO..fW. - YARIAS AS BARBAS DO VISINHO É O caso que havendo fallecido domingo a esposa de um cidadão. terça feira. onde ouviu que "a policia não tem nada com isso". dr.\)1 "'I']'. . &A.O u. Vendo que tal facto constituia uma anormalidade o cidadão referido dirigiu-se á policia. I . llUIS HUMILHANTES PAdai recebeu &elaçõel hnnt.Terça-fsira.\-\[. 12 da N Telegrammas.. para quando teria de ser transferido o enterramento. ~rlSIOneIlO ~ U ('1. AS CONDIÇOES IMPOSTAS AL DA CE8SAÇAO DA GUEB.! VENCEMOS Â COMMUNICAÇAO Á~ GUERRi\! o ex·Kaizer entre~a-sa ~ p OFl'ICI-. foi elle a uma empresa funeraria para encomendar o indispensavel caixão mortuario.em i &A A AI 1 EMANHA. l~. Pois bem: a empreza declarou-lhe que a sua encommenda só seria attendida hoje. COMMERCIO DO PARANÁ 12/11/1918 50 . IIÚIlÍAro Exteriores.

t DIA 13 QUARTA ENFIM A PAZ! ASPIRAÇÃO DOS POVOS CULTOS 7. até rís duas horas da tarde foram registrados no Cartorio da Praça Tiradentes. sendo 16 causados pelo mal reinante DIÁRIO DA TARDE 51 . COMMÉRCIO DO PARANÁ A MORTANDADE CRESCE Hoje. .AS VICTIMAS AVOLUMAM-SE 21 OBITOS SENDO 16 DE GRIPPE OS CINEMAS FECHARAM A CRIPPE TORNA-SE CONTAGIOSA SETE DIAS POR SEMANA DT Agora está mesmo morrendo muita gente. abstendo-se de dar noticias que pudessem levar terror á nossa população. 7 J Esta folha sempre se manteve numa attitude de calma solicitude ante os interesses publicos. . 22 obitos.

." DONA LÚCIA .l . de P.:i~:" POii... O marido passava fora o dia inteiro. os cabelos.f.a::w_ BAI~BEARIA I Riq~~. o bico róseo dos seios..:Za I Precisa-se de dois Funeraria. precorreram outras partes de seu corpo: a boca ru bra febre. ...amws:M' 'cocheiros na EmpreIza I t ••••• __ iFalce. MORREM 24 PESSOAS JA POR DIA EM CORITIBA "Não sei bem no que o marido trabalhava.. 52 I ."".rq~ib~ia l~~!:~}illl Faço isso Somente depois é que meus lábios minhas mãos percorrerão... acho que era dono de alguma coisa.~!~'.~~- Ph'.iVi>hIN&:!WCf••••••• FTlp.. Eles quase não falavam com os vizinhos...1976 DIA 14 QUINTA I ! ~~ItF~~'<i.

sendo já muito limitado o numero de casos novos. dando aos nossos leitores tão animadora noticia que irá restituir a calma e tranquilidade á nossa população. Queremos ganhar as alviçaras. mandei-os Relatorio do Sr. Trajano Reis. quando faltaram que não para conduzir os os infelizes fallecidos. dr. mandei-os fabricar e. Anjo exterminador. nesta capital. a muleta é foice que ceifa mil milllões de cabeças.DIA 15 SEXTA No dia em que não houve caixões para serem transportados os cadaveres. COMMERCIO DO PARANÁ 53 . nos auctorizam a affirmar que a epidemia começou a declinar. assim como os informes fornecidos por alguns medicas. alugar pelo preço pedido. direetor do Serviço Sanitario. Coifa branca. para anirnaes ficassem insepultos carros funebres. o movimento observado hontem nos postos de socorro e nas pharmacias. camisolão.

a parte interna das coxas. o cabelo bem comprido brilhando mesmo quando não tinha sol. cuidando de alguma coisa." DONA LOCIA .DIA 16 SA13ADO os olhos agora semicerrados. novamente o bico dos seios agora também todo o seio branco talhado enche minha boca r SEIOS = Desenvol\ idos FOítificadGs Aformoseados 1 II = = i I "O que a gente via era a mulher. no quintal.1976 54 . alta. Muito branca. Loiro.

motivo de força m:ilor. porém.-.. 55 .. nas e publicando a materia nr.\ Dor circum~tancias ~l11pe· ~ IJI <.~. e DIÁRIO DA TARDE com esforços empregados para debela-lu. i ado' fomos hoje obrigados a traIU' tr.o ar::: prejudicados com essa tr2ns· d. ~:u.forlllhçãot Que n s f')i . A EPIDEMIA DECLINA OU AUGMENT A? É o povo cuja sorte está em jogo a todo o momento interroga. '1' DIA 18 SEGUNDA a suave curva do ventre e meus dedos percorrem tremulos a copa de seus pentelhos. novamente a fonte do amor.DIA 17 DOMINGO .r- _ :. suas mãos os dedos se erguendo com meu forte apertar. prol ._ ~O Paraná" 11:: 'al rto' ~) Por.irrpos llt ~.!t formar a paginação do nos•. sugo seu pescoço: uma mancha vermelha que depois será roxa..~ "CommercÍu . ••• Rnnuncios nas L2' e" 3°a pam.e:~nas 10 e 4. editorial e de collaboraçào : i . 1. Vt &' .rloll Ir:~ 11 u :::: tt.. ltes.. Não se publica uma nota estatistica pela qual se veja que a marcha da molestia que nos infelicita está sendo acompanhada cuidadosamente. Ninguém lhe diz. 50 jornal.a paginas.. inserindo todos os t1j \0 IitJsa~. t...'s~im pedimos pxc usas ao~ ri nosso~ :1!1J'lunciante~aca:.Q.

DIA 19 TER~A M OS OBITOS DE HONTEM NÃO HA AUMENTO NEM DIMINUIÇÃO . não mais de febre agora de gôzo? Gózo e no auge do gôzo tento abraçar todo seu corpo que se me escapa e tenho nas mãos como um pássaro peixe 56 . Ela geme baixinho.

CUSTE O QUE CUSTAR RIO 20 . tendo surprendido agitadores exactamente no momento de explodir o movimento. Reina tranquilidade na cidade. estando a força policial de promptidão.lOSÃODECREANÇAS! 57 .DIA 20 QUARTA " A EPIDEMIA SO DECLINA PARA ASCIENCIA OFFICIAL Maldito pesadelo da mão peluda pulo 3 vezes O mar do mar para lá ficou AS TROPAS ALLIADAS CHEGAM AS MARGENS DO RHENO ABORTOU NO RIO UM MOVIMENTO GREVISTA SEDICIOSO o GOVERNO ESTÁ DISPOSTO A MANTER A ORDEM. O governo está disposto a manter a ordem custe o que custar. DT EM 130BITOS. alguns jornaes noticiam que a policia descobriu um plano de gréve com caracter politico.Apesar da censura da imprensa.

~!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!I.I!!!!~'"

,

Aviso fi
i [lMticipa Empreza
j

€mpreza Funeraría pires ~IiCia.

ao publico em geral Que, desde hoje em diante, attenderA a er.terro~, devido a seus p: 0Iprietf1rlos já cc acharem restabe:ecidos da ericr· midad~ Que os obn~ou a fecharem seu estabE"ieI cimento, estando :l,:tos para lltten~erem SI Qu{'lquC'r peS~()J que necessItar dos servIços da me~nl1 Coritiba, 20 de Novembro

I

J.

de 1918-

BBrreiros Pires & Cia.
DIA 21 QUINTA

iCommuRique·se.
t

aos pobres este aVIso :

I

o Dispensario 810 Vicente de Paulo, delicadamente, nos pede indiquemos aqui os pontos da cidade, onde distribue, o durante dia" o caldo Já preparadopau os i entermos pobres: . Praçi\ da Repubtica (CoUegio
I Praça Santos Andrade (Oolte: São José) gio Sion) Hua Jguass\\ n. 20õ (Colleglo Coração de Jesus) ; Rua Ractcliff n. 2 t 7 (bandas d' A~ua Verde). E para desejar que todes se tornem junto aos pobre~, pOrtavoz dessa communíct'çào:
58

i

DIA 22 SEXTA

" -----0

FUGlO NO DELlRlO DA FEBRE E NINGUt.,M O t.,'NCONTRA Noticiamos ha dros que o sr. Telemaco Jardim em um momento de crise neroosa occasionada pella grippe de que estava acommetido, fugiu de sua residencro á ma Carlos de Caroalho n.8, tendo a familro do enfermo solicitado os officios da policro para descobrir-lhe o paradeiro. Entretanto, dros já se passam e não obstante os esforços empregados pela Inspectorro de Agentes e por pessoas amigas, o desventurado moço não é encontrado. Concorre muito para interceptar as investigações o facto do pouco movimento da cidade, difficultando as informações que poderrom ser colhidas acerca do paradeiro do sr. Telemaco. A falta de qualquer noticro sobre o pobre moço, leva a crer que se trate de uma occurenCla maIS grave. A policia prossegue nas diligencros para deslin(ÚJro facto. DIÁRIO DA TARDE

~Vida Social ~
Que noitadas magnificas nos proporcionou a Companhia Salvat-Olona. .. E de saudade em saudade, como de abysmo em abysmo, chegamos até a tet saudade do tempo em que os cinemas abertos apresentavam a fita "Bigodinho vae á missa" ... COMMERCIO DO PARANÁ ou outra coisa egualmente profunda. . .
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RBCLAMAÇÕESDOPOYO
Pedem-nos moradores da rua Alferes Poly que intercedamos da hygiene municipal que providencie sobre uma casa da rua Silva Jardim onde residem lavadeiras que cuidam das roupas de um hospital de grippados, estendendo-as pelas cercas. O escoamento da agua se faz pela valleta da rua, onde estagna, pondo em risco a saude dos mesmos moradores.
COMMERCIO DO PARANÁ

Um grito lancinante foi ouvido.

DIA 23 S~BADO

Mão peluda acuda acuda acuda cuda cuda cuda cuda cuda cuda mãe cuda mãe cuda mãe

Cuiàado

com a Hespanhola!
Use o poderoso antiputrido
Balsamo Santa He1ena

desinfectante analgesico, ini· migv do máu cheiro Empreg2 do em gargarejos, pora a conservação dos dentes, contra o mau hàlito e

!

Um

affecções da garganta

vidro
as

1$500

em todas

pharmaclas

Só o Balsamo 8t8. Helenll

-----------:
60

DIA 24 DOMINGO

POLICIAES

BAILES DE ARRELIA VISINHANÇA INCOMMODADA Hontem, na casa n.158 da rua Silva Jardim, teve logar um barulhento baile que, dado a agglomeração de mulheres da vida faci1 e de muitos desocupados, muito incommodou a visinhança, onde se acham pessoas atacadas de grippe. Segundo fomos informados o baile da arrelia foi promovido pelo cabo do 4~ Regimento, Manoel Candido de Almeida. Tarde da madrugada, quando a bachanal chegou ao auge, algumas pessoas pediram á patrulha de cavallaria para acabar com a encrenca.
COMMERCIO DO PARANÁ

Pancada tão forte que saiu uma espuma de sangue da boca. Ficou ali tempo, no chão de cimento, dezenas de bolhas de sangue pegajosas, levando tempo para ir estourando, uma a uma.

Quando de fadiga não puderam os coveiros abrir sepulturas, mandei gratificar a outros individuos para que as fizessem, de modo a evitar a decomposição dos cadaveres. Relatório do Sr. dr. Trajano Reis, director do Serviço Sanitario.

Nada mais me importa agora nem a mancha do gôzo em minha calça Nem o paletó cheguei a tirar O marido? tosse que ecoa por toda a casa saio pela porta sem chavear sem a volta da chave na fechadura saio sem me voltar ao menos
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DIA 25 SEGUNDA

Telegrammas
As tropas francezas chegar~o_ a Vienna esta semana" Os - ---------------------------- americanos já invadiram as províncias rhenana~~~ lemãs - A conferencia da paz iniciará seus trabalhos ern ..Janeiro - Hinden~ burg cornmunicou ao governo allemão que o exercito gerrnanico não poderá combater nem um só exercito - A as· quadrra ingleza parrte papa Kiel.
DIA 26 TERÇA

o Conselheiro Rodrigues Alves vae assu..
111ir a

presidencia da Republica

Os holiandezes odeiam o Kaiser - O ge· ~eral d'Esperay chegou a Constanti-_ ncpla - O general Pers0ing será o subo stituto do president~_~ilson •.Os frac~ ~~ze§>estão nas rna'~gens __ __ ~_~~~~noJ numa extensão de 100 milhas - A irn---_._--------_._~_._._-~"---------------------_._prensa allernã pede intervenção dOS ~J-= ~,?_do~J?ara reorganisa~ política allemã
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DIA 27 QUARTA o CHILE E O PERU EM EMMINENCIA DE GUERRA Há dias deu-se um caso que encolerizou quantos o presencearam. brasileira nata. simplesmente pelo facto de ser seu pae allemão (pois sua mãe é brasileira) não tremulou dizer em frente á muitas patricias estas palavras fllhas de uma alma entoxicada pela "Ku1tur": "Eu preferia ser devorada pelos peixes a ser enterrada em território brasileiro" COMMERCIO DO PARANÁ Lá em cima se confere os pecados aqui em baixo ferro e sangue allamão mão mão mão peluda Lüaaahaaahhh AGRADECIMENTOS distincto cidadão. moradora a rua Riachuelo. João Pereira ckt Fonseca. sr. Uma moça. familia visitou-nos agradecendo a noticia que estampamos sobre o passamento de sua galantinha netta a pequena Diva. no seu nome e no de sua exma. DT 63 -o .

continuamos fmnes em Não obstante. Pedaço branco de miolo escorrendo pela parede. Como um verme. Não obstante. Um grito lancinante foi ouvido. Não. Um grito lancinante foi ouvido.DIA 28 QUINTA Um grito Iancinante foi ouvido. igual a um verm: descendo pela parede deixando uma baba de rastro. 64 . continuamos firmes Não obstante. como uma lesma. continuamos Não obstante. continuamos fmnes em nossa Não obstante. continuamos fmnes em nossa attitude Não obstante.. continuamos fmnes em nossa attitude pela razão .. continuamos fmnes em nossa attitude pela Não obstante. Não obstante.

O enterro da desventurada creança realizou-se hoje ás 15 horas.a distincta familia Jardim vem sendo curelmente ferida pela impiedosa epidemia que tantas lagrimas tem ao nosso povo arrumado. não mais o façam. saindo o feretro da rua Carlos de Carvalho n. abandonado e só à beira da Cascatinha de Santa Felicidade.. Telemaco Jardim. DT JOSEPHINA . Dias atraz. no delirio da febre. facto esse que o exaltou de tal forma que. implacavel. E.DIA 29 SEXTA o KAISER VAE ACABAR NO HOSPICIO . e que contava apenas sete annos de idade. a morte paira ainda sobre o lar infeliz e arrebata a gentil menina Josephina primogenita do malogrado cidadão. noticiamos o fallecimento de um filho do sr. quando atacado também do ma~ abandonou o lar e se foi deixar morrer. FECHAM-SE OSPOSTOS MEDICOS MAS OS NECESSITADOS DEVEM PROCURAR A REPARTIÇÃO DE HYGIENE Por achar-se quasi extincta a epidemia da grippe nesta capita~ a Directoria do Seroiço Sanitario determinou que fossem extinctos os postos medicos que o governo creara no quadro urbano e nos suburbios providencinndo tambem para que as pharmacins que estavam autorisadas a preparar receitas gratuitamente para os necessitados. 8 para o Cemitério MunicipaL DIÁRIO DA TARDE 65 .

. sempre com um vidrinho de veneno nas mãos.. " DONA LÚCIA . seu corpo de loura plumagem Sem me voltar. nunca mais ficou com o juízo perfeito. a mulher. silenciosa nestes dias da grippe ninguém me viu nem me verá "Ela. saía a andar sozinha pelas ruas. DI Mas sempre terei diante de mim a visão de eu abrindo a porta a casa vasia. dava assim como uma tristeza nela.COM HESPANHOLA O KAISER ESTA DIA 30 SKBADO De amanhã em diante será restabelecido o trafego dos bonds os quais circularão dE accordo com o antigo horario. Passava uns tempos boa. teve até um filho.. Nunca largava do veneno.1976 66 . De repente. mesmo quando estava normal. alegre com o marido e o filho . sem voltar diante de mim a cidade vazia. criança linda.

918 DIA 1 DIA 2 DIA 3 DIA 4 DIA 5 DIA 6 DIA 7 DIA 8 DIA 9 DIA 10 DIA 11 DIA 12 DIA 13 DIA 14 DIA 15 DIA 16 DIA 17 DIA 18 DIA 19 DIA 20 DIA 21 DIA 22 DIA 23 DIA 24 DIA 25 DIA 26 DIA 27 DIA 28 DIA 29 DIA 30 FONTE: DIÁRIO DA TARDE 1 O 1 4 2 3 4 4 3 10 10 15 12 12 20 10 19 11 7 18 14 13 16 12 15 15 10 12 7 8 67 .OS 6BITOS DE GRIPPE NOVEMBRO DE 1.

. immoror forte. peste • AI F R B GB tZt HF t z Por voss guintes logio der )ac h s s S e· o· e· t S u- P as o r a o JESUS E MARIA 68 . anto Z t t5tA 5 t O I B livrae·me latorias: Po daras dirá osd5 Quando o vossa Cruzr chagas.ovrae-nos.de todo Deus. Devin Jusus.

1918 Dezembro A última ktra do alfabeto .

~::. annunciando exihibiç6es novas depelliCp culas attrahentes.DIA 1 DOMINGO 'I)------CI .o============\1 \IVida Social II Os cinemas "in totun" abrirão amanhã. 71 .

. vivendo por isso solto pelas alamedas dos jardins do Hospicio. velhos demente foi ali reclusos pelos empregados até que após uma Paulo Kopff. tomado 1/2 horas accesso. jaziam cadaveres quatro pessoas. mas desde 5 armos que não tivera accessos de loucura. Numa aneia de matar. pois qque recebendo pancada violenta. o louco.. o louco avançou sobre outra victima. que infeliz e mendigos subjugado se ocultavam-se. E naquelle aranzel.DIA 2 SEGUNDA . DIÁRIO DA TARDE 72 - pos- . No " Scena M6cahra H08~icio da Alie- na U08 um louco mata quatro suas Desenrolou-se hontem no Hospicio N. de uma destas se apoderou vibrando-lhe forte pancada no craneo. Andava por ali abobado. sempre com a tragica molleta já rubra e cheia de massa encephalica de suas victimas saiu em busca de outros. Seria 6 de furioso da manhã. S. em meio de uma profusão de sangue. Era esta o cosinheiro do estabelecimento. o louco desferia pancadas. sem que alguem pudesse um dia augurar a scena horrivel que elle foi causador hontem. naquella confusão que se estabeleceu. a faiscarem. fora recolhido áquelle estabelecimento ha muito tempo. recolhendo o a uma cella. Entretanto. da Luz uma scena terrificante que teve como protagonista um infeliz demente ali recluso. Caido exanime o primeiro. olhos injectados de sangue.. Manoel de Campos. Em quantos que encontrava. no solo.. Pandellis Rethis e lucta perigosa. que procurou defender-se com o braço. que tivera um dos e se achava exaltado pelae febre. caiu também sem vida. Baldado foi seu esforço. o o puzeram em camisa de força. . de 22 annos de idade. ao encontrar grippe reclusos que era aleijado usava molletas. irmãs de caridade fugiam.

Ultimamente. com todo o carinho pelas religiosas daquel1e estabelecimento. nem mesmo um simples presidente da republica: contentava-se com ser Governador do Estado . w -=-w--••••.. destacámos hontem um dos nossos companheiros para ir até aquel1e estabelecimento. ou por relaxamento em tomar as necessarias precauções com os infelizes que habitam aquel1a casa sinistra. WUlI••••••• __ •• ••• lIlIlI U ma trage~ia no Hospicio da uHespanhola" Uma proeZa macabra Domingo foi nossa população cruelmente abalada com a noticia de que no Hospital de N. Teve el1e febre alta e todos os demais symptomas da terrivel enfermidade.••••. S. No desejo de bem informar os nossos leitores. Tratado.. porém. A SCENA DE SANGUE Pela manhã a ronda foi fazer uma visita aos diversos departamentos da instituição. conta cerca de 32 armos de edade. em 1913. a fIm de colher impressões sobre a horrorosa tragedia e ao mesmo tempo syndicar das circunstancias do caso. que naquel1a coisa entoada á guisa de canção está a mostrar o quanto a inconsciencia toma os irresponsaveis como que felizes immersos na noite negra da inconsciencia. a ver se haveria razão em acreditar-se que o descalabro se dera por qualquer imprudencia.DIA 3 TER~A U 2W1 • um ---. sendo Manoel de Campos uma de suas victimas. talvez tendo no co73 . Manoel de Campos quando era interrogado por alguem relativamente á sua identidade. já nos chamou a attenção o cantar monotono de um doido. - Apalermado. com a invasão da peste hespanhola em nosso Estado. da qual era protagonista um dos infelizes reclusos daquel1e estabelecimento. Chama-se Manoel de Campos o autor da horrorosa scena de sangue. respondia que era "governador" do Estado. Como todo o louco tem a sua mania. ninguem suppunha que el1e viesse a ter um accesso de loucura furiosa. da Luz occorrera uma tectrita scena de sangue. Chegados que fomos á mansão dos irresponsaveis. sendo portanto um delirio mais democratico. jamais teve el1e occaSlao de manifestar indicios de loucura furiosa e quem o visitasse era até capaz de jurar que o desgraçado estava ali recolhido por excesso de zelo. Então as irmãs preparavam-se para ir celebrar o sacrifIcio da missa. Pelo que ouvimos. podemos mais ou menos reconstruir a scena horrivel da seguinte forma: O CRIMINOSO E SEUS ANTECEDENTES. como o fazem todos os jornais verdadeiramente modernos. Foi recolhido ao asylo ha cerca de 5 annos. outros a de grandezas. uns a mania de perseguição. pois que o infeliz não se suppunha um rei ou imperador. achava-se el1e ultimamente em convalescença e sempre apalermado.. nada encontrando de anormal que chamasse a sua attenção. a enfermidade fez a sua entrada tambem no Hospicio.••••.

bido de todos. conseguindo prostrar sem vida alguma. Um grito lancinante foi mette contra os primeiros que lhe approouvido. Ribeiro. Quando lhe disseram que havia morBento tivera a boa idéa de. foi Manoel de Campos Bruquikoski que tombava mortalmente preso a uma camisola de força. COMMERCIO DO P ARAN Á sendo que a essas horas já o facto era sa- 74 . Sedento de mais sangue o infeliz demen te arreestabelecimento. por instincto to quatro pessoas e ferido uma. responde conservação. mas ninguem deu a elle attenção ximam. J. levar o braço a cabeça. da do portão para se por em liberdade. recebendo os ferimentos no braço.. correndo em sua perseguiração o desejo de levantar a Deus uma prece em favor dos infelizes recolhidos ao ção muitos doentes e empregados. Com a tranca acto. foi Manoel de Campos sobre o seu uma tranca de madeira.Kosmiake. Mas. respondeu que a este. felizmente não o matando porque não. a sua resposta era mais ou menos toda ensanguentada e a moleta do mendilucida. Francisco se ouçam frequentemente gritos dos irresBittencourt. poz-se o infeliz a correr em demanestes morreram logo quatro . fere se lembrava do que fizera. pois é natural que naquella casa Manoel Salathiel Domingues.Agora está mesmo morrendo muita gente: meu pae morreu sósinho e seguir. Nicoláo Domenico e Miguel ponsaveis.. ginar que era o infeliz mendigo Paulo Subjugado. hontem estando lá o delego ás mãos. Interrroferido por uma pancada desferida com gato. A deu: . que lhe perguntou si do pelo epileptico Bento dos Santos. Manoel tenta fugir e perseguigado dI. E todos estavam longe de ima.

" DONA LÚCIA .1976 M Missa a todas as pessoas que acompanharam agradece os restos mortaes atp á sua ultima morada de sua pranteada e inesquecivel esposa CLARA MARGARETH HEISLER Germano Heisler penhoradamente Aproveitando a opporrunidade convida seus parentes e pessoas de sua amirode para assistirem á missa que manda celebmr sexta-feira. um dia. Muito branca. na egreja da Ordem." .1976 75 . Morreu na gripe. Não resistiu a febre forte." DONA LÚCIA . morreu. "Moça bonita. Morreu na gripe. acho que foi lá por 30. Por este acto de religião e caridade se confessa agradecido. a hora 8. Foi muito tempo depois.. alta.. cabelo loiro bem comprido. tomou o veneno na rua. até que. acharam ela já morta. solteira.

"Não. Tinha períodos de lucidez." DONA LÚCIA . mas nunca mais ficou certa da cabeça.1976 Missa GermanQ Heisler e filhos penhoradamente agradecem a todas as pessoas que acompanharam os restos mortaes até á sua ultima morada de sua pranteada e inesquecivel esposa e mãe CLARA MARGARETH HEISLER Aproveitando a opporrunidade convidam seus parentes e pessoas de sua amisade para assistirem a missa eu mandam celebrar sexta-feira a hora 8. na época ela não era casada. muito branca. loira. solteira. mas ela morreu. Casou. mortallia branca. cabelo branco de tão loiro. Muito branca. Por este acto de religiiio e caridade confessam-se agradecidos. Vi o corpo. O marido se salvou. teve fIlhos. casou depois da gripe.1976 76 ." DONA LÚCIA . bonita. Moça bonita."Não. teve fIlhos. ela morreu na gripe. mas nunca mais ficou certa da cabeça. na egreja da Ordem.

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71 CASA.261 NASCI.J 00 OS MORTOS DA GRIPPE ANNO DE 1918 POPULAÇÃO DE CURITYBA E SUBURBIOS 67 7MENTOS 127 254 59 25 313734 1..249 : 0.000 HABITANTES TOTAL GERAL DOENTES DE GRIPE 2.&4% PORCENTAGEM DE OBITOS RELATÓRIO DO SR DR.244 283 1. DISTRICTOS POLONIA DOTABOÃO = 73.466 295 89 384 = 45.248 TOTAL OBITOS POR 4 NOV. TRAJANO REIS DIRECfOR DO SERVIÇO SANITÁRIO CURYTIBA 1919 .-..629 16 OBITOS240 31 1.GRIPE 29 9 18 59 112 321 DEZ.

N1 FIM .

MACISTE NO INFERNO raconto .

. Rouge e Pó de Arroz . . Caminho da Perdição . Gigolô.. Maciste no Inferno . .Noite de Amor. juan Macho e Femea . Vertigem de Luxo . Perdida em Paris . ... Três Noites de D... Sodoma e Gomorra . Os Mysterios de Hollywood. ... Bachanal ..

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mulheres velludo em atitudes lascivas sobre leitos ou dentro de alcovas. lampadas."Columnas." .. versos. taboletas nos bondes e nos automóveis. quadrigas. apreciações. femeas que se entregam. chronicas. corpos em crispações.. ancias. templo. mãos que agarram. meninas cobras deitadas sobre areias. caretas. commentarios. coxas nuas de girls macias. annuncios luminosos. desejos. fremitos. cavalleiros da Idade Média. bastilhas de papelão. latagões de feira com estandarte e bandas de músicas. oscullos infinitos. D' artagnans de fancaria. lábios que procuram. lettreiros. projectores. espasmos . diálogos.

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onde vivia como um paladino do bem que. um bello dia. Plutão em seu seu reino subterrâneo de treva e rancor invejou-o e para combatel-o mandou a Terra o demônio Barbadilha. com a missão de corromper a bella Graziella. irmã de creação de Maciste .Maciste. o heroe. um dos seus mais ardillosos subditos. o homem de vigor sem egual e coração generoso era tão estimado em sua aldeia natal.

-6 ..•~ • --~ <V ..• ./ .... ••... li! •• ~ .G _____ . ~ ~ ~ ..

ousada mente. trava renhida lucta com o demônio que o arrasta para o inferno .Negro como o inferno até acostumar a vista fico em pé as mãos na mureta de madeira que separa as fileiras de cadeiras da grande porta com cortinas de velludo que separa a salla de exibições da salla de espera Este vendo Grazie/la seduzida por um conquistador sem escrupulos percebe a intervenção de Barbadilha e.

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Com a luz que vem da tella busco com os olhos aquillo que quero e busco meu logar a mulher Até me assegurar que é uma mulher fico atraz da mureta de madeira as mãos segurando suas bordas Para que os outros espectadores não se apercebam das minhas intenções finjo entrar na fileira de traz com mais gente. mudo de idéia e entro na fileira da frente ameaço sentar numa cadeira vazia mas sento-me ao lado della É uma mulher .

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a cabeça para que ella não perceba que estou olhando a ella Nem tentei encostar meu braço no seu e ella olha a tella tremeluz .É uma mulher Fingindo attenção na tella com o rabo dos olhos olho com coragem viro um pouco. bem pouco.

Ora o mortal que chega ao inferno sem ter morrido, pode voltar ao mundo se ao fim de trez dias não tiver cedido à tentação de alguma beldade d'aquelle antro

É bella e macia, estou com meus braços
cruzados e as pontas dos meus dedos acariciam o fino tecido de sua blusa solta ella não solta os olhos da tella cintilante nem sente minha caricia na seda macia diferente do áspero velludo das vermelhas cortinas

É um fume marron nas cennas de inferno é
vermelho Um calor me sobe por todo meu corpo, frieza da seda
Ora, Proserpina, a esposa própria de Plutão tenta-o com encantos taes que Maciste ousa beijal-a: Estava decretada sua sentença às pennas etternaes

Ouso, empurro meus dedos tremulos e toco seu braço como se fosse sem querer Não sobre a cadeira ao lado meu chapeu esta assentado sobre meu sexo agora zona de calor EUa afasta seu braço Ouso, insisto eUa afasta seu braço vira-se e olha firme para mim meus olhos estão na teUa

ardiloso e revoltoso.como nas mangas da blusa .Entrectanto Barbadilha. quer a todo transe desthronar Plutão. para tanto architeta uma revolução no inferno. logar onde o tecido também é solto . Maciste poem sua força e destreza sem egual ao serviço de Plutão e consegue debellar a revolução e castigar o pérfido Barbadilha Acaricio o fino tecido e os dedos vão se aproximando vagarosamente Como os braços della estão bem postos para traz os dedos vão chegando a parte do lado de seu seio direito. Somente por sua lealdade instinctiva.e não encosta no seio pelo menos na parte lateral Olho a tella e nada vejo Poma macio dura vejo .

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Então terminada a lucta, Plutão chama o heroe a sua ignobil presença e em lembrança aos seus serviços auctoriza-Ihe a voltar a Terra: Proserpina protesta contra isso, mas em vão. Maciste prepara-se para partir, mas Proserpina arma-lhe um laço, manda-o prender e torna a beija I-o, condemnando-o novamente à penna eterna Latagões com estandartes e bandas de músicas, coxas nuas de girls macias, meninas cobras deitadas sobre areias, mulheres velludos em attitudes lascivas, mãos que agarram tóco finalmente o lado de seus seios calor, lábios que procuram, femeas que se entregam, corpos em crispações, oscullos infinitos, desejos, ancias, fremitos, espasmos ... No espasmo do gôzo nem sinto suas unhas vermelhas fincarem-se em minha carne: "Que é isso? se o senhor não ficar quieto eu chamo o guarda!"

Levanto sem olhar saindo pelo outro lado das cadeiras Disfarço sair agora sem o filme acabar chamaria atenção; por isso dirijo-me ao banheiro Letreiros homens pintado num vidro que a luz vermelha alumia Uma pequena cortina vermelha antes da porta impede que abrindo a porta a meia luz do logar chegue na salla de projeção Evito olhar no espelho não há toalha limpo a mim e a calça como posso com o papel do programa que anuncia as próximas fitas Caminho da Perdição ... As Trez Noites de D. Juan ... Macho e Femea... Sodoma e Gomorra ...
Entrectanto, na Terra, o seductor de Graziella arrependido de seu acto, volta para junto d'ella e seu filho, que já tem então um anno e meio de edade. Na véspera do Natal,

o pnmeuo a saIr . .. o impávido col/osso Maciste e dá-se o milagre: a prece infantil é ouvida e o Todo Poderoso liberta Maciste e este volta à Terra para gozar a ventura de um novo lar. entre seus amigos Não posso ficar neste logar muito tempo chamaria a attenção sobre minha pessoa A fita está acabando apresso-me com o chapeu cubro a mancha úmida de minha calça as gentes da salla de espera me olham sou .Graziella faz esta adorável creança rezar por seu protector.

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..Mesmo a luz mortiça das quatro horas da tarde me cega Já não escuto o piano quando todos começam a sair da sessão já estou escutando o barulho da cidade das casas das vozes dos automóveis dos ruidos Sou novamente parte da cidade e " nmguem me ve .

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E9 mINE9TAURE9 novela .

na cama do hotelzinho barato. tão sujo. ela dormia ao meu lado. Acordei. nem sei como convenci aquela estátua de mulher a passar a noite comigo neste hotelzinho vagabundo. branca.Para não pagar a mulher. sem fazer barulho deschaveei a porta e. Não que a mulher não me agradasse. . cabelão esparramado pelo lençol. abandonei o quarto no meio da noite. Tenho pouco dinheiro. loira. Uma bela fêmea. saí para o corredor escuro. o que eu podia pagar. de mansinho. tudo o que eu tinha no bolso. ia me deixar sem nada até o fim do mês. O preço combinado. quieto vesti minhas roupas. nua. No escuro me levantei.

fatigado. É um hotel de encontros e ninguém o procura para se hospedar. Nunca aconteceu isso. alguém sair sozinho do hotel durante a noite é relativamente comum: a hora certa para chegar em casa. a insatisfação com a companhia escolhida. o sono alcoólico que impede os prazeres do sexo. será alerta do pelo porteiro noturno sobre a real categoria do estabelecimento e dissuadido de entrar. E não há razão nenhuma para se entrar sozinho naquele hotel de encontros.Sozinho? Nessa hora da madrugada ninguém entra sozinho naquele hotel. os pequenos desentendimentos amorosos. dormir algumas horas. são motivos corriqueiros para se abandonar um quarto pago adiantadamente. . as questiúnculas por questões de dinheiro. a hora que obriga um homem casado a deixar sua parceira noturna dormindo. Se por acaso algum desavisado procurar um quarto para. Ao contrário.

os dois. Também. apertadinha. Três vezes seguidas e eu e ela queríamos mais. nada da potranca que eu cavalgara três vezes. mas o sono não deixou.Excelente fêmea . dormindo ela era coisa morta. Não era mulher para aquele ambiente. no bar. teria de pagá-Ia. quando nos cruzamos na noite.e. as loiras não são boas de cama -. geralmente. e então ia ficar sem dinheiro até o final do mês. Encostei a porta com cuidado e me atirei pelo corredor escuro. Acordei no meio da noite. essa polacona que eu peguei. Me veio a preocupação de que se eu ficasse até de manhã. ela não. Foi tocar na pele e ela se arrepiou toda. . estávamos meio bêbados. Geralmente as loiras são largas. pentelheira loira. aguadas. nem sei o que ela viu em mim. a gente tinha bebido demais. Quando enfiei nela. foi logo beijando meu corpo: como era quente aquela boca com o meu sexo dentro. a mesma coisa: quentura de um pote de mel.

enfia teu cigarro no eu.Não enche o saco. Tchau. . Tem um cigarro? -Não.E eu é que sei? .Porra! Será que ela ainda vem? . tesão. .Porra. .Tesão.Vê se me esquece. .Não pintou por aqui hoje.Você viu a Marilda? . Se a Marilda aparecer.. diz que eu volto. .

Me choquei de frente com uma parede de alvenaria que fechava meu caminho. Nas mãos abertas eu sentia as paredes de tábua e. Como não sentisse com a mão a parede do lado direito. a áspera madeira das portas de inúmeros quartinhos. a intervalos maiores. percebi que o corredor descambava para a direita. numa curva de noventa graus. . me atirei para o lado direito do estreito corredor escuro. Não enxergava nada. como seria normal quando se caminha na escuridão. eu ia com as mãos nas paredes e não para a frente. o relevo das mata-juntas.Porque me parecia que fora por esse lado que eu chegara. de intervalo a intervalo. agora parede de material. E continuei seguindo.

formados no vazio a partir da direita até a parede contra a qual eu me chocara. Parei. estendi a mão direita para a frente e senti outra parede bloqueando o corredor. arrastando os pés. Tropecei em imprevistos degraus.Quase que caio. Desci cuidadosamente. Ao contrário da outra. Havia uma escada à esquerda. seus três degraus. arrastando os pés. este mais curto. pois não sabia quantos degraus existiriam no escuro. . esta escadinha era ascendente. Continuei seguindo. Logo senti um vazio na mão esquerda. Com as mãos nas paredes eu sentia uma repetição do corredor anterior. Me virei e segui arrastando os pés. encaminhando-o para a esquerda. com medo de encontrar pela frente outros degraus. dei uma topada num degrau. O corredor principiava com uma escadinha. cuidadosamente. Galguei.

formando uma delgada moldura. para fixá-Ias nas portas dos quartos. são plaquetas de boa qualidade. Apesar de muitas estarem riscadas ou com o esmalte partido. esmaltadas de branco com os números em azul. Pequeno furo em cada uma das extremidades permite a passagem de pregos. ou parafusos. Devem ter servido em estabelecimento de mais categoria antes de seu uso aqui. numa demonstração de serviço malfeito. Algumas plaquetas estão pregadas tortas e mesmo de cabeça para baixo. . ornadas com friso também azul. e falta numeração em muitos dos quartos.Para a numeração dos quartos deste hotelzinho utilizam-se plaquetas de metal de cerca de sete centímetros de comprimento. outras se acham penduradas. São de formato oval. presas somente por uma das pontas.

Uma luz acesa me indicaria o caminho a seguir. neste hotelzinho barato o acender de uma lâmpada se faça atarrachando-a no bocal.Talvez por economia. e para economizar certamente o porteiro apagara todas as luzes. parecia ser de áspera madeira compensada. . Durante algum tempo continuei com as mãos pelo teto. cheia de abaulamentos. que. No meu tatear pelas paredes ainda não encontrara nenhum interruptor de luz. Estendo as mãos para o alto e alcanço o forro baixo. neste novo corredor. pelo tato. sensível em todos os quartos e corredores. desrosqueada no bocal. Alcançado o topo da escada. na esperança de encontrar uma lâmpada que. Qualquer coisa de abafadiço. Àquela hora tardia não se esperavam mais hóspedes. estivesse provocando a escuridão. Talvez nem existissem. aumentava o cheiro de mofo. continuei a caminhar.

Uma loirona que eu nunca vi por aqUI. . deve ser gata de alguma boate.E de novo? - Uma tremenda duma peça.Boa mesmo? - Coisa fina. Viu o que deu: 24. . .- E como é que tá? . um pé-de-chinelo.Fraco. hoje joguei na dezena da vaca. Olha.Em que quarto você pôs eles? . . seco na cabeça: 25.No oito.E o cara com ela? Acho que já vi antes. .

Procurei com as mãos o interruptor da lâmpada que. Minhas mãos percorrem todas as paredes. bato no puxador da descarga. Empurrei a porta e entrei. ou nunca estivera lá. . Um cubículo. deve existir em um banheiro. encontro um bocal vazio fixado no teto baixo. Erguendo as mãos. com certeza pedaços de jornais velhos. A lâmpada ou havia sido retirada. A mão direita encontra um vazio. Eu não tinha mais nada a fazer neste banheiro escuro. sem sombra de dúvida.wc Este corredor me parece mais longo que os outros. me arranho num prego onde se espetavam ásperos papéis cortados irregularmente. Emanações de urina e fezes se juntam agora ao cheiro de mofo. a porta entreaberta de um banheiro malcheiroso. E não encontrei o interruptor. então saÍ.

Um castiçal com uma vela acesa me seria mais útil nesta escuridão. mal se viam os números do mostrador.Não tenho o hábito de fumar. pois era muito fraquinha. por isso não carrego fósforos comigo. . A luzinha do meu relógio queimou há tempos e de nada adiantaria mesmo.

O rei Minos invade a Grécia e ataca Atenas. sempre sedento de sangue humano. Por ser perversa e tenebrosa.S/NC} UMA LENDA DA ANTIGA GRÉCIA. fortÍssimo. o Minotauro. cabeça de touro e comedor de carne humana. deveria entregar 7 moças virgens e 7 rapazes para serem sacrificados ao Minotauro. andava pela Grécia eliminando bandidos e ladrões. foi castigada pelos deuses tendo um filho monstruoso. que se rende. enredados. Ao saber das exigências do Minotauro. a rainha Parsifae. Vivia o Minotauro no Labirinto. intrincados. A condição de paz imposta à cidade é que. corpo de gente. moço loiro. tortuosos. da ilha de Creta. . uma vez por ano. mulher do rei Minos. Impenetrável à luz. decidido a matar o monstro. toma o lugar de um dos rapazes escolhidos e segue para Creta. tornando impossível para quem nele entrou achar o caminho de volta. Teseu. belo. inteligente. enorme construção de muitos corredores emaranhados. o inextrincável Labirinto era formado de mil voltas com mil corredores arrevesados.

Teseu encosta o navio na ilha de Nacsos. Na saída. a bela princesa Ariadne. Ariadne espera ansiosa por seu amado. No meio da viagem. é visto pela filha mais nova do rei Minos. Deita-se para descansar e Ariadne adormece ao seu lado. para que ele encontre o caminho de volta no Labirinto. o Minotauro ruge e baba de cobiça e gula. Teseu embarca com ela de volta à Grécia. Teseu enfia-lhe a lança no coração e corta-lhe a cabeçorra com a espada. que se apaixona perdidamente por ele. a pretexto de cansaço pela luta com o Minotauro. Sem perda de tempo.Ao desembarcar. Aproveitando o sono da bela Ariadne. Teseu encontra facilmente o caminho de volta seguindo o fio que desenrolara por quilômetros de escuros corredores. . Teseu abandona-a na ilha deserta e zarpa sozinho para a Grécia. após mil voltas Teseu chega ao lugar onde o espera o Minotauro. Entrando no Labirinto. Vencido o monstro. Ao ver carne fresca. Ariadne dá armas e um novelo de fio de ouro a Teseu. enorme com seu corpanzil de homem e caratonha de touro.

Nauseado pelo mau cheiro. Como não bati em nenhuma parede. devo ter entrado por um desapercebido corredor que inicia bem defronte ao pequeno banheiro. quando saí do banheiro devo ter caminhado em linha reta e não para o lado. Sinto também uma corrente de ar frio vinda da escuridão à minha frente. percebo depois de algum tempo que devo estar em outro corredor. .Perdido na escuridão.

agacha-se e solta o segurado jato de urina.A mulher acorda no meio da noite com vontade de urinar. Mesmo na escuridão sabe onde encontrar: pega o rolo de papel higiênico na mesinha-de-cabeceira e se enxuga. percebe que está sozinha. sem sair da cama. Acostumada nesses ambientes. metálico ruído. tateando o chão com as mãos. Ao voltar para a cama. muita bebida. procura até encontrar uma bacia de metal. . Acha não. puxa a bacia para perto de si. Se levanta. esperando achar uma pêra de luz. Passa as mãos pela guarda da cama.

Uma mulher loira. a polícia não encontrou as vestes da vítima. em Campo Largo. nua. atraído por nuvens de urubus sobrevoand. servindo de repasto aos urubus. aparentando vinte e poucos anos. sendo de se supor que a bela loira tenha sido assassinada em outro local e ali jogada durante a noite . perfuração por projétil de arma de fogo. nem qualqur documento que facilitasse sua identificação. Ao locê compareceu uma viatura da delegacia de Campo Largo que providenciou a remoção do corpo para o Instituto Médico Legal d. porém. deparou-se com uma cena tétrica. o lavrador Casemiro Pietroski.8DEMAlO BELA LOIRA DEVORADA POR URUBUS Na manhã de oito de maio. Vasculhando cuidadosamente a região pouco habitada. em meio ao mau cheiro reinante. moradOl do distrito de Itaqui. distante vinte e cinco quilômetros de Curitiba. termina uns cinco quilômetros adiante do lugar do macabro achad e tem muito pouco movimento.e Curitiba. torna-se necessária a realização da devida autópsia. Assustado e enojado. como o corpo da bela jovem loira se encontra bastante bicado pelos urubus. com vistas a estabelece' a causa mortis. Os primeiros exames realizados não evidenciam nenhum. um capão de mato existente no prolongamento da antiga estrada Curitiba-Campo Largo. A estradinha de tern. morta. dirigiu-se para o local e. que lhr arrancaram diversos pedaços da carne já putrefata. encontrava-se caída de bruços. Casemiro Pietroski procurou logo avisar a polícia.

Pela pouca espessura dos tabiques de madeira. A loira roncava. . E eu devia estar bem no centro do hotelzinho. cercado de quartos dos dois lados do corredor sem nenhuma janela. seria natural que se ouvissem barulhos: gemidos de amor. silêncio total. como se esperaria num hotelzinho de encontros. tosses noturnas.Silêncio. pois nem os ruídos noturnos da cidade eu escutava. peidos. Nada. gente roncando. Eu não escutava nenhum barulho vindo dos quartos.

Em frente. um muro. Pequena janela sem serventia. um quebrado. É uma pequena janela. uma baça luminosidade retangular. Não há nada para ver.Na minha frente. De um lado. Abaixo. também quase encostado. ao fundo. Minhas mãos tocam a plana lisura do vidro. o oitão sem aberturas de um edifício alto. . Pequena. Quatro vidros. o que parece ser uma das paredes do hotelzinho. Do outro. bem no centro. a escuridão. bem perto. A noite lá fora está tão escura quanto aqui dentro.

depois do acontecido.Acho que.Cadê a bichinha? . o agente de polícia e Shamanta. embrulhado no acolchoado do jeito que estava.Será que alguém ficou sabendo? . . Ninguém desconfiou quando tiramos para pôr no carro. o patrão.Ninguém comentou nada? -E quem? .Só quem ficou sabendo fomos nós (nós aí incluídos os dois interlocutores.Também.Parece que é.E a Shamanta até defumou o quarto todo: para acalmar o espírito da infeliz. o travesti que cuida da limpeza dos quartos). .. a mulher do patrão. .Estou te dizendo que está quase vazio. parecia um monte de roupa para lavar. . Deixei a porta aberta para ventilar: para saírem os maus eflúvios: não é assim que se diz? . não deixou nenhum sinal. não é? . Deve estar caçando. . ficou com medo de passar a noite aqui. .E a Shamanta lavou tudo direitinho.Mas você não alugou para ninguém.

Cheiro de defumação nesse quarto. Um fino ferro redondo. onde pôr a mão. um pequeno pedaço reto. Tudo fechado. Então me veio a idéia de ir abrindo a porta de todos os quartos. só o bocal vazio. Em algum quarto deve ter luz.Pelo vidro quebrado entrava o vento frio. provavelmente enferrujada. uma pequena curva para cima. depois um pedaço reto maior. Vou entrando devagar. A porta estava aberta. mãos para a frente. Merda. Como das outras vezes. não quero ficar rondando a noite toda. este pendurado no teto pelo fio elétrico. nem precisei baixar a maçaneta de ferro redondo. Que se danem. que não sinto agora. Há quanto tempo estou aqui? .Tem gente aí? Dou uma tremenda duma topada com a canela no pé da cama. Somente depois de passada a dor forte me levanto da cama e procuro no ar uma lâmpada. ou alguém me empresta um isqueiro. Que merda. . Será que tem gente dentro? Parece que esse corredor não era tão comprido: será que não estou onde pensei que estava? Uma porta aberta.

sem sair da cama. passa a mão pelo espaço vazio e sente. procura até encontrar uma bacia de metal. acostumada com esses ambientes. . o esperma deve ter escorrido de dentro dela durante o sono. Procura seu parceiro. tateando o chão com as mãos.ela faz com a boca. no lençol. ela não se limpou. muita bebida. Limpou os dedos em outra parte do lençol e somente então. TSK . Depositado pelo homem não mais ao seu lado. um molhado gosmento.(ou não?) A mulher loira acorda durante a noite com vontade de urinar.

Em que quarto mesmo você disse? -No oito.. .

nenhum hóspede apareceu para ver o que acontecia. Perdi o equilíbrio e rolei escada abaixo. deixei de tatear as paredes. . quando vi estava sem apoio. Na escuridão. O barulho da minha queda não provocou nenhuma resposta. nenhuma porta se abriu. Degraus de formato triangular como um pedaço de pizza vão se abrindo em leque para baixo. tentando inutilmente me agarrar em algum ponto de apoio. Braços cansados.(ou 30-0) Rolei escada abaixo. Eu andava quase encostado na parede direita e entrei na escada em caracol. Não me machuquei. Os degraus dessa escada em caracol giram partindo de um centro que é o canto direito do patamar formado pelo final do assoalho do corredor. foi mais o susto de cair girando num abismo escuro. justamente no lado onde os degraus são mais estreitos. dificilmente a gente consegue caminhar em linha reta.

No escuro caminho no espaço e não no tempo. quando aqui cheguei com a loira me lembro. Imagino que o hotel tenha três andares. Bêbado. num espaço que não compreendo. embaçadamente. subi escadas e continuo no mesmo lugar: na escuridão.Não olhei as horas quando acordei. Sei aonde pretendo chegar: na porta da rua. um velho casarão no centro da cidade. . meu relógio está com a luzinha queimada e eu não conseguiria ver os números agora. Desci escadas. de ter subido escadas.

Conhece o chão onde pisa e sabe que. o caminho é menos cheio de meandros para chegar aonde quer. por ali. Declinou a escada ao lado da pequena portaria. pelos corredores do pequeno hotel. Na hora certa. . Ele conhece o caminho. na escuridão.Há um outro homem que se movimenta. antes percorreu o longo corredor retilíneo do andar térreo e prefere subir pela estreita escada dos fundos. entre as inúmeras portas do hotelzinho ele saberá qual abrir.

Vou falando: Tem alguém aí? Desvio a cama e vou passando as mãos pelas paredes. É uma grande janela. ora de material. encontro uma janela. Procurando uma luz. Saio do corredor escuro e entro no quarto escuro. Não me lembro se tinha janela no quarto da loira. ora de madeira. por mais força que eu faça. . Espio pelas frestas e nada mais vejo além da escuridão. Haverá outros quartos abertos. a vidraça abre para o lado de dentro e.A porta está aberta. não consigo abrir a veneziana nunca aberta.

Acho que vem dos postes de luz. há uma hora em que parece que tudo pára. mal se ouve. as gentes dormindo. Aquele silêncio todo e se ouve um zumbido contínuo como um apito de navio. . Tudo está fechado. Aquele zumbido continuado não é silêncio. não se escuta carro passando. bem baixinho. na cidade.De madrugada.

Ele fuma. sozinho no escuro. Antes de subir a escada. em pé. para não ter de reparti-lo com o porteiro. no fim do corredor. . fumando. apenas por vontade de fumar. fumando. acendeu um cigarro e se deixou ficar ali parado. Talvez por mesquinharia. ele acendeu o cigarro antes de subir a escada e se deixou ficar ali parado. talvez porque a maconha lhe aclare a mente sobre o que fazer ou. talvez. no fim do corredor.

poria fogo nos jornais e me aqueceria. chamas. eu faria uma tocha. . Na verdade. Na verdade. Se eu tivesse um fósforo e tivesse em mãos os jornais do banheiro. uma luz para me guiar. não faria isso.Eu penso em fogo. Se tivesse um fósforo. sinto frio.

Outro jornal. . sem nenhuma fotografia na primeira página. de menor circulação. Na notícia. noticiou que o assassino (ou assassinos) havia posto fogo no cadáver para evitar a identificação. o nome da localidade aparecia grafado errado: Itaigüi.

Tá a fim de fazer hora comigo? Já disse que ela não veio e não me encha o saco. se eu for olhar para a cara de cada puta que entra .Já disse que não. Não tem mesmo um cigarro. . estou louca de vontade de fumar. . Eu estava com o meu.É tanta gente que aparece por aqui.Tá gozando com a minha cara? Ainda ontem ela esteve aqui. Faz dias que não aparece.. .Tesão. . ..Não.A Marilda já veio? ..Se você não olha para a gente. com um velho. . como sabe que ela não veio hoje? .

.Abro uma porta destrancada e vou entrando num quarto escuro. .Onde você andava? Só vejo a voz da loira e respondo: .Fui no banheiro.

o outro homem vê que o 27 está escancarado. encosta a porta. zelosamente. . Quem deixou a porta aberta? Espia para dentro do quarto e.

É que está escuro. Não tem luz nessa porra.Você tem fósforo? . Molha a barra da minha calça. Piso na bacia de metal que entorna seu líquido em cima de mim. em direção à cama. No escuro.Deixa de frescura e vem de uma vez.. . O líquido gelado me entra por dentro dos sapatos. .Pra que que você quer fósforo? Venha deitar logo que eu estou com frio. . eu caminho na direção dela. os meus pés.

Um custou a riscar e queimou meu dedo quando acendeu. Com a desculpa de me enxugar. saio outra vez. atirei fora num grito. . onde eu sabia que encontraria papel. mas tinha fósforos na bolsa. com o nome do inferninho impresso em letras douradas: Le Labirinthe. No escuro. O outro me guiou até o banheiro. preta.A mulher loira também não sabia onde era a luz. A caixa tinha apenas três palitos. me entregou uma caixa de fósforos de papelão.

pela escada que leva ao corredor do banheiro.. sem roncar. O outro homem sobe. porém num lugar onde não possa ser vista pelo porteiro. O porteiro noturno lê. àquela hora. bonitão? O passante não responde e continua seu caminho. A outra mulher pouco se importa. A mulher loira dorme. lentamente. Quando seus olhos chegam na altura do piso do corredor. . dificilmente encontrará um freguês. Se deixou ficar ali. Sabe muito bem que.Está a fim de um programa. perguntou por perguntar. a notícia estampada no jornal do dia anterior. percebe uma luminosidade alaranjada movendo-se na escuridão. perto da pequena porta de entrada do hotel. mais uma vez.

O jornal se encontra bastante amassado e o fogo do terceiro palito de fósforo começa a queimá-Io pela margem. Estou acocorado junto ao foguinho e. . O sapato esmaga o jornal incendiado e. pela escada. assustado. No escuro. . uma perna metida numa calça preta. um barulho seco no chão cimentado. a escuridão. uma canela sem meia. novamente. manchetes impressas em vermelho. por outra escada e vejo. ao levantar me choco contra um corpo aflanelado grosso redondo que perde o equilíbrio e bate com estrondo na porta semi-aberta do banheiro. Rápido. esfrego a barra da calça para secá-Ia. com outro pedaço de jornal.Em preto e branco a fotografia da mulher loira caída de bruços. onde cai. em movimento vejo um sapato preto de cordão. eu corro pelo corredor. luz no fim do corredor. quando a outra escada termina. mas as letras da reportagem estão em preto.Qyhé bbohhar oohhô nnnohehll? Ao mesmo tempo que escuto a voz irada que não entendo.

Trrriiiimmm. precisamente quando os ponteiros marcam cinco horas. . Ao mesmo tempo. toca a campainha do relógio-despertador colocado na parte de dentro do pequeno balcão da pequena portaria.

. e de que começa a amanhecer.A mulher fica dormindo. . procuro caminhar numa direção em que eu não possa mais ser visto pelo porteiro sentado atrás do pequeno balcão. pequenos prédios com a mesma altura. bonitão? Nada respondo. saio pela porta aberta e. Aparentando naturalidade. caminhando por uma rua estreita ladeada de construções antigas.Agora caminho mais devagar. .Tá a fim de um programa. apresso o passo e só então me dou conta de que estou ao ar livre. na rua. apesar da escuridão.

encaminha-se para a pequena portaria.A Marilda ainda não entrou? .A outra mulher sente frio. entra e pergunta: . Depois de alguma hesitação.

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o MIST[RIO & DA PROSTITUTA JAPON[SA MIMI-NASlILOIClII .~ .

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Um vão sem porta. Essas duas paredes. Conhece o caminho. partindo do lado da porta. O quarto já é pequeno e. Traçando um cubículo. outra parede avança. acompanhando os degraus. formam um cubículo sem portas. partindo da parede oposta à parede dos três degraus. formando um minúsculo banheiro. que não se encontram e não alcançam o teto baixo. Ocupam um pequeno espaço dentro do pequeno quarto do hotelzinho de rendez-vaus. piso de tacos de madeira cinza muitas vezes lavado. o chão do banheiro minúsculo é cimentado. pintado de vermelhão. Dentro do pequeno quarto. construíram uma parede que não chega ao alto do teto baixo do pequeno quarto. Diferente do piso do pequeno quarto. uma escadinha de três degraus descendo para nele se entrar. Essa parede não chega a se encontrar com o final da parede construída a partir do lado da porta de entrada do pequeno quarto. Hotel de rendezvaus. A prostituta japonesa vai na minha frente.o quarto do hotelzinho barato. dentro do já cubículo que é o pequeno quarto. essa parede acompanha os três degraus e termina pouco adiante de onde eles terminam. nunca encerado. 185 .

Deitado na cama. 'c Seguindo sempre adiante. A cabeça no edredom tan . exatamente frontal à abertura sem porta. Não sei dizer para que: parte do hotelzinho barato dá esta janela basculante.um pouco . depois à direita.. através da abertura sem porta do pequeno banheiro.: mesinha-de-cabeceira. cor vermelha: a cabeceira encostada na parede oposta ao pequeno banheiro. que foi colocada no lado diante dos degraus. um longo corredor e5' treito. Muitas vezes trilhadora do labirinto.' lha de ralo tecido sobre os vidros pintados e consigo a privacidade é pequeno quarto do hotel de rendez-vous. a janeL basculante com falhas na pintura. Por portas fechadas. Do outro lado da cama. vidros pintados com tinta branca fosca grossa. Um olho pode estar à espreita. Eu coloco a pequena e úmida to~.1 ponesa me conduziu pelo labirinto cheirando a mofo. que deve ter sido levada para outro quarto de hotelzinho barato. sobra mesmo lugar para uma mesinha-de-cabeceira.. que abre um espaço defronte à metade dos pés da baixa cama de casal. bém coberto com o mesmo tecido brilhante da mesma cor vermelh da colcha. A única janela do pequeno quarto fica no pequeno banheiro.a passagem é o vão sem porta. uma escadaria qUe sobe à esquerda. uma negra sala sem portas. Foi ela a pL meira a entrar no pequeno quarto às escuras e a me alertar: 186 .' randa. coberta pela colcha de tecido brilhante. só existe uma posição possível para a baixa cama de casal. O que facilita .. Como é escura esta noite sem estrelas! Um corredor de paredes sem portas e a porta do pequeno quarto. outro negro corredor cortado em cru: por outro corredor sem luz. Eu não saberia reconstituir o caminho que nos conduziu da portaria do hotelzinho barato até este pequeno quarto. um pequeno pátio mal iluminado pela noite.Pelas dimensões do pequeno quarto. a prostituta . a prostituta japonesa caminha adiante de miIr pelos caminhos escuros. Pequena janela basculante. vejo diante L~::: mim. talvez uma V2. com a chave na mão. Nos dois lados da cama o espaço é um pouco maior. não sobrou lugar para a outr.

Existe. Com a mangueirinha. dirige o jato d'água para retirar o sabão. eu estou deitado por cima da colcha de teci~ do brilhante. todas as paredes do pequeno quarto e do pequeno ba~ nheiro.Mesmo na escuridão. O chuveiro elétrico fica no espaço do pequeno banheiro visível para mim. 187 . cor de rosa~maravilha novamente no teto. uma pequena pia bem embaixo da janela basculante. até meia altura. também. sem chuveirinho. A prostituta ja~ ponesa se lava utilizando a mangueirinha do chuveiro elétrico. Dali ao teto. e no sexo de pouca penu~ gem. Tinta fosca aguada. a cor é verde~clara. Em pé. suas mãos sabiam onde encontrar o comu~ tador de luz. manchada. em forma de pêra. Não sei se ela fala para mim ou para ela. eu posso. se quiser. avermelhada. ajuntadas. sem forro. estendendo as mãos para o alto. de cor de rosa~maravilha. As paredes. cobrindo não sei quantas pinturas an~ teriores. fraca. do pequeno quarto. Já sem roupa. Antes. apenas a baça luminosidade atraves~ sando os vidros pintados da janela basculante tomava o pequeno quar~ to. cor vermelha. Mas não quero. Dirijo o meu olhar para a prostituta ja~ ponesa que se lava no pequeno banheiro sem porta. Pas~ sa sabão entre as coxas largas. sem espuma. preso ao fio que pende do teto sobre a baixa guarda da cama. são pintadas. Agora uma pouca luz amarelada. al~ cançar o teto de alvenaria.

poma total. somente o úmido bico.tranqüila? Viro o corpo para o corpo nu da prostituta japonesa. Imóvel. Meu dedo busca a greta ainda seca. Nem moça. que sinto enrijecer. na cama. Subo a mão até os seios. não dela. Cor de chá. Não sei o que ela sentiu. sem que ela o toque. silencioso o corpo ao meu lado. permanece 188 . Não estou mais beijando o seio. nem velha. Quando retiro o meu corpo. O gozo me vem rápido. aperto. eu diria completamente imóveL Contudo. por cima da colcha de tecido brilhante. Permaneceu. o rolo de papel higiênico. foi meu. estufado. Por instantes. beijo. Não fosse por um lento respirar. sua pele lisa sem pêlos contrasta com a brancura do meu corpo peludo. Ela não disse nem um gemido. só com a ponta dos dedos. não sinto mais o cheiro úmido da colcha de tecido brilhante. me parece imóvel somente na superfície visíveL Eu diria que por dentro dele existe toda uma mobilidade . Impossível de usar. A prostituta japonesa já está deitada ao meu lado. e meu travesseiro é o seu seio esquerdo. pequeno traço de poucos pêlos. Então. cor vermelha. Depois. é para deitar ao lado dela. ao lado da cama. como uma fotografia. Não beijo. Na parte que não posso ver do pequeno banheiro fica o vaso sanitário. Eu poderia beijar seu sexo. Com a mão esquerda. enquanto minha mão desce. talvez? Talvez. Meu sexo encontra seu caminho sem que ela auxilie com a mão.E eu é que sei? Nunca estive antes neste hotel de rendez-vous. Difícil dizer a idade das mulheres orientais. mordisco sua orelha. começo a afagar os poucos pêlos pretos macios do seu monte-de-vênus. Preso por um arame. mas não. Melhor apanhar o rolo que está em cima da mesinha-de-cabeceira. cor vermelha. molhado pelos respingos do chuveiro. encosto meu rosto no dela. Deito sobre ela. acaricio o bico do seio. Não sei dizer. Mas permaneço ainda dentro de seu corpo. Primeiro acaricio. meu sexo enrijece. sugo. na hora do gozo. redonda achatada como em todas as mulheres orientais. nem uma palavra. Uns trinta. acaricia novamente a parca penugem. Se houve algum gemido. Penetro-a. Por si.

pele lisa sem pêlos.. Eu é quem falo: . suave montede-vênus de parca penugem. Imóvel somente na superfície visível do corpo cor de chá. Depois de vestida. Seu coração bate rápido e descompassado.Vamos embora? A luz do pequeno quarto fica acesa. Mas teria mesmo gozado? Não deu nenhuma demonstração. eu não sei dizer.silenciosa e não sei para onde olha. ela olha não sei para onde.Nossa. é difícil dizer numa mulher orientaL Não conta o dinheiro. pátios e terraços que levam de volta à portaria do hotelzinho barato.c?J: Não demonstrou. A prostituta japonesa segue ria frente. Agora ela lava o sexo com mais cuidado. seu coração está batendo tão esquisito. Dirige a mangueirinha diretamente para a pequena fenda de pouca penugem. põe as notas dobradas na bolsa. Inquieto? . Reparo que ela não conta. Levanto a cabeça e olho para ela. corredores. Eu diria que ela está completamente imóvel. pago a ela o preço combinado. escadas. Coração batendo forte. - Verdade? - (iÁ. 189 . Quanto tempo ficamos assim. a porta aberta. Será que ela diz a verdade? Fico só olhando. conhecedora dos caminhos.

Mas interrompo: -Vamos? 190 'i>t: UD ~:. formas roliças. .. um velho de camisa florida. ela não deu demonstração de nada. e não para o da frente. O freguês dela. barrigas e nádegas querendo romper o vestido justo. risos. As duas se conhecem. parte do que paguei pelo pequeno quarto.Quer tomar alguma coisa? Vamos num barzinho aqui por perto? Antes da resposta. gozei rápido.Escuta. Tem mais jeito de turca. nem para o do lado. Cabelos amarelos. apenas entrega uma nota amassada à prostituta japonesa.de óculos da portaria nada responde. É dinheiro meu. Algumas fingem. se demora na portaria discutindo com o chinês de óculos. Nem dá para entender o que elas conversam e riem. qualquer coisa assim. peitos.. sai sozinha do hotel outra prostituta. se tocam e falam rapidamente. Não é comum uma prostituta sentir prazer com um freguês. Meio velhusca. Não é japonesa. Eu quero ficar mais tempo com ela: . o . Riem.chinês . Se for verdade que ela gozou. para conquistar um freguês? Para que eu volte outras vezes? Sou limpo. Será mesmo que ela sentiu prazer? Uma prostituta? Ou disse aquilo apenas para me agradar. A comissão por ela ter trazido um freguês para este hotel. não reclamei do quarto. quero possuí-la mais e mais vezes. na rua em frente à porta de entrada do hotelzinho barato. na porta do hotelzinho barato. pintados de amarelo. Estamos fora. Um bom freguês.kf(Q) Fica para outra vez . de pouca conversa.?'Lin. a voz de uma encobrindo a da outra. devem ser muito amigas.JJ"l =. síria. tipo havaiana.é um chinês? .

Muitas vezes dormi com outras prostitutas no mesmo pequeno quarto do hotelzinho barato. Parece querer ir embora logo deste lugar. 191 . afobado à cata de um táxi. Penso em alcançá-Ias. Sai gesticulando. penso que não. Eu fico perto da porta do hotel. Caminharei tantas vezes por esta mesma rua. Nunca encontrarei uma resposta que me satisfaça. A prostituta japonesa passa a mão no meu rosto. Quero segui-Ias. mostrou-se sem proveito. falando sozinho. mas elas já tomam um táxi que passa pela rua. Quantas vezes sentirei na boca o gosto oleoso do gim que vendem por aqui.. Ainda estendo minha mão aberta. mas para conseguir do traficante uma informação que. Já se afastam as duas. Essa foi a última vez que . como uma despedida. Algumas vezes fumarei haxixe. Um gesto. este mesmo bairro de prostituição. Às vezes. às vezes. Entra num táxi e some de vista. parado. não para meu uso. pensando. conseguida. mas sei que nunca mais verei a prostituta japonesa.. três ou quatro vezes deitarei num catre e acenderei o cachimbo de ópio. Será que ela gozou mesmo? Eu voltarei outras vezes. O freguês da outra prostituta sai agora do hotel.Riem muito as duas. Uma vez comprei cocaína. nem saberei se ela sentiu prazer comigo naquela noite escura. penso que sim. nervoso. Afaga meu rosto. Entram rindo.

MIMI-NASIII-OICIII .

acompanhando os versos ao som do biwa.. . ." 195 .contava histórias. Numa noi~ te de inverno. O jovem noviço... ficou famoso como contador de histórias que contava se acompanhando do biwa.Meus nobres amos sabem de sua fama e ficariam muito honrados se o senhor fosse contar para eles a triste história da batalha de Dan-No-Ura.. como vou te explicar? . "Hai." ". Di~ zem que à sua palavra e à sua música todos faziam silêncio e.. instrumento muito antigo ..Oichi. os olhos não seguravam as lágrimas. Oi~ chi. cego.uma espécie de violão japonês.O que é biwa? . pobrezinho.- E você teve medo? .. ". esta noite.... o monge sem orelhas.. Oichi meditava no jardim do mosteiro quando escuta uma voz dizer: "Ouvimos falar de seu talento como cantador de histórias .. quan~ do o canto era triste.

banhos de sangue. porque caminharam por várias salas enormes. como os de um samurai vestindo sua armadura de guerra. . Ouvia o assobio das sedas dos quimonos. Taira e Minamoto.Que batalha é essa? . Foi no século XII: no Ocidente aconteciam as cruzadas. Como na televisão. A luta entre os dois clãs durou quase duzentos anos. Oichi imaginou que devia ser um lugar bem grande. começou a evocar com seu canto os tristes versos da batalha de Dan-No-Ura.Tudo fazia crer um rico palácio. . Eu li uma vez que os cegos não enxergam tudo preto.Das guerras do Japão medieval. Ele era cego de nascença? Sim. Apesar do silêncio reinante. redondo como a Lua. passos - Oichi não pôde recusar o convite. Oichi sentia que muita gente estava ali. Minha mão. Colocado no centro do salão. no Japão havia entre os senhores feudais muitas lutas pelo poder.Um palácio? . bem longe estavam do mosteiro. uma nuvem pousada no teu seio. . Tomou seu biwa e seguiu os daquela voz desconhecida. Na noite escura não sabia para onde estava sendo levado. As famílias rivais.Oichi ia seguindo os passos.Nesta noite ninguém pode dormir: Lua cheia. Já reparou que o preto da televisão nunca é preto. é nuvem branca? Branco-cinza? . Quando chegaram. oculta-te como puderes no meio das chamas). Depois de muito caminhar. Época de guerra civil (conduz teu cavalo sobre o fio duma espada. Passos pesados metálicos. disputavam o poder.O que eles enxergam é uma mancha esbranquiçada. batalhas 196 .

A batalha seguia feroz. . mas um senhor feudal. . bandeou~se para o lado dos Minamo~ to. afundando com o peso das armaduras. mais de mil navios em luta. o canto fúnebre tomou conta dos navios dos Taira. . outras vezes os Minamo~ to venciam.Quem venceu. muitas obrigações ele devia aos Taira. O fogo. Nuvens. Exército dos Minamoto estandartes brancos como aço. para não cair nas mãos do inimigo. Os comandantes se amarram nas âncoras de seus barcos e soltam as correntes.No estreito de Dan~No~Ura.Os Taira tinham o maior número de navios. Exército dos Taira estandartes vermelhos como sangue. Pela vergonha da derrota. veio a certeza da derrota. a maior batalha naval que o Ja~ pão assistiu. quem perdeu? . seus guerreiros se atiram nas águas. Os tombadilhos das embarcações tor~ 197 . Shigeyoshi.quando viram o branco flutuando nos céus. pensaram em nuvens. Às vezes os Taira dominavam. a princípio .O choro. - E como foi a batalha? . seu aliado. levando seus barcos para o inimigo. o assobio metálico das espadas nos combates das abordagens.Acende o meu cigarro. a fumaça dos canhões. Os que não têm coragem de cometer suicídio são mortos pelos companheiros de armas. O coração vermelho de Shigeyoshi hesitava em se passar para os Minamo to. Quando per~ ceberam que o branco estandarte do inimigo tremulava nos mastros de seus próprios navios.incontáveis. Os Taira ainda mantinham a esperança de vitória.

venhas repetir o canto da batalha de Dan-No-Ura. Depois de muito silêncio. Antoku-Tennô. da beleza de teu canto sequer podíamos suspeitar. . é pequeno como um grão de arroz e agora é um imenso vale de miséria Mais abaixo das ondas há outro país onde não existe a tristeza É para lá que te levo. buscam a morte.Tennô. O mesmo samurai que te trouxe aqui esta noite irá te 198 . Aonde me levas. vovó? O Japão Pequeno Antoku. Como teu corpo é bom. .. de sete anos.nam-se rubros de sangue. as velas dos navios explodem ao vento. Sem ter quem as governe. . só escuta o silêncio de lágrimas pressentidas.. Os marinheiros. Em todo o Japão não existe artista tão perfeito. A avó tomou-o nos braços e com ele se encaminhou para a amurada .Quando Oichi termina de contar os últimos versos. . os cortesãos. todos em lágrimas.Com o menino nos braços.Teu corpo é água onde me sustento. a avó se atira no mar tinto de sangue e salgado de lágrimas. ..Nem mesmo o menino imperador.Não sobrou ninguém? Teu corpo nu Agora flutua no lençol transparente como água Sal... Meu amo pede que. durante o tempo em que ele permanecer aqui. Oichi. os servos. por mais seis noites. a voz de uma velha aia: "De tua fama sabíamos.

Por sobre as outras tumbas. Mas meu amo viaja em segredo e ordena que não contes nada a ninguém. Envolvido em seu cantar. no cemitério de Amidaji.pegar. sem sentir a neve que começava a cair. Quando Oichi voltou ao templo. que lhe revela a verdade: "Oichi. Nunca . como espectadoras do canto triste. manda que os monges o procurem. Uma longa noite de buscas. pobre Oichi.. notando que Oichi não está em sua cela. Sobre o sino do templo repousa e dorme a borboleta noturna. Oichi reclama: Como ousam interromper meu canto para tão nobres senhores?!". és livre para partir". E. esquecido de suas obrigações.. O abade o interrogou. cantar exaltado a história da derrota dos Taira. que têm de arrancá-Io do lugar onde está. O abade. Primeira neve. dormiu o dia inteiro. sentado diante da tumba em memória do pequeno imperador Antoku-Tennô. Arrastado de volta ao templo. Bastante para vergar as folhas dos junquilhos . No cemitério de Amidaji estão sepultados os derrotados da batalha de DanNo-Ura. agora. sem que ninguém veja. Exausto. e novamente ele canta a batalha de Dan-No-Ura para a silenciosa platéia. Na noite seguinte. pela manhã. encontrou os monges aflitos com sua ausência. Oichi é levado à presença do abade. Já pela madrugada. os monges vêem Oichi. Aterrorizados. o mesmo samurai vem buscar Oichi. mas ele respondeu com reticências e nada revelou sobre onde estivera. os monges escutam os acordes do biwa e a voz de Oichi. as chamas espectrais dos fogos-fátuos. Oichi não parece sentir a neve. corres grande peri199 . nem ouvir os gritos dos monges. voltando para o templo.

Oichi sentou~se no pórtico do templo. chamando: "Oichi! Oichi!". de ódio: "Oichi! Oichi!". Esta noite. O abade pros~ segue: "Precisamos quebrar o encantamento. Os monges tiram a roupa de Oichi e. o biwa ao seu lado. tudo aparece e desaparece. o abade escreve com pincel os sagrados textos do Prajna. e esperou meditando sobre a vida e a morte. Dos olhos cegos de Oichi correm lágrimas de medo. Todo o corpo de Oichi foi coberto com as palavras de Buda. A voz. só poderá haver a bem~aventurada paz quando se puder escapar da agonia da vida e da morte. Te enfeitiça~ ram. não pode~ mos ficar no templo para te vigiar. Os monges partiram. agora.Paramita. Aproveitando~se de tua cegueira. que o tornariam invisível aos demônios. Não obtém resposta: "Oichi! Oi~ chi!". antes de ir. o samurai-fantasma não encontra o que veio 200 . Ao final da sétima noite. Escuridão de outono. Esta estrada sem ninguém nela. Mas.go. Passos pesados. como um fan~ tasma. temos de atender um serviço re~ ligioso na aldeia. levaste teu canto para os mortos e eles agora são donos de ti. metálica. da escuridão da noite surge a voz profunda. protegerei teu corpo com os textos de Buda. Tudo é mutável. A mudez de Oichi como resposta. que te farão invisível aos demônios". Sentindo~ se protegido. os fantasmas dos mortos na ba~ talha de Dan~No~Ura lançaram encantamentos sobre ti. eles te matarão. escravo dos demônios". no corpo nu. Por duas noites. despedaçarão teu corpo e tu passarás a penar por toda a eternidade. é de ira.

Muitas vezes chamei Oichi e ele não me respondeu. Foi medicado e se salvou. seus passos perdendo-se na noite em direção ao cemitério de Amidaji. Quando os monges voltaram. Tornou-se monge e viveu ain201 . mas vivo.buscar: "Vejo um biwa abandonado e não encontro o trovador. encontram Oichi se esvaindo em sangue. Oichi reza para não gritar de dor e revelar sua presença. Suas orelhas são arrancadas e o samurai-fantasma sai carregando-as. não está aqui. Ao cobrir o corpo de Oichi com os textos sagrados. O sangue escorre. Vejo somente suas orelhas e vou levá-Ias para provar ao meu amo que aqui estive cumprindo minha missão". o abade esqueceu das orelhas. conforme o combinado. ficou livre para sempre dos demônios. foi só o que o fantasma viu e carregou para o mundo dos mortos: duas orelhas. As mãos enluvadas de ferro do fantasma agarram as orelhas de Oichi e puxam ferozmente.

sem dúvida.E você teve medo? . Sim. 202 . Ah. o cantador cego ficou conhecido como Mimi~Nashi~Oi~ chi.Não. e no entanto .Medo não tive. medo não. Oichi. era uma noite tão fria. lágrimas. que acho que até chorei... Desde aquela noite. Tristeza grande. mas me deu uma tristeza grande. o passado. Orvalho deste mundo orvalho deste mundo. O tempo onde se acumularam os dias lentos . naquela noite chuvosa. . Eu era muito pequena quando minha avó con~ tou a história de Mimi~Nashi~Oichi. tristeza. Medo eu não tive. o Sem Orelhas.da muitos anos para poder cantar em versos sua desventura.

)rta aberta .)s + () mistéri<.13 mistéri<.) da p<.

para quem foi Marlene e para Josely Vianna Baptista e Cláudio Lacerda .

Dito por um criminoso no programa do Algaci Túlio .Uma mentira minha vale por dez verdades tuas.

. . .. . . . . . .SUMÁRIO o mistério da porta aberta. .. . . . . . . 211 219 Mistério números Mercúrio mistério.. . . . . . . . .. . . .Um mistério Um mistério no trem-fantasma Mistério Sapho O amor entre as mulheres DELE 281 293 305 O mistério dos sinais da passagem de Curitiba pela cidade 317 . .. . .. . . . . .. . . . . . . . . . . .. 273 A cadeira do diabo . . 227 Os fantasmas do fundo de quintalO mistério teu. . . . . . . . . . . . . . . 233 241 247 253 O mistério do gato preto e da gata gorda . . . . . . . . . . . . 265 Mistério mágico . . 259 O misterioso homem-macaco Como tudo começou . . . . . . . . . . Sônia O mistério da Sonâmbula Mistério do menino morto Um mistério . . . . . . . . . . .. . . .

() mistério da porta aberta .

Às vezes um mistério exasperadamente simples como a localização dos móveis. as poltronas. Até certo ponto essa argumentação é válida. uma porta entreaberta sempre será uma porta aberta. pois a escuridão sempre nos sugere um mistério que precisa ser aclarado. Através de uma porta aberta. Portanto. porém sem muita consistência.na verdade entreaberta. sempre conseguiremos ver o interior para o qual ela se abre. ou mesmo pânico. Nada podemos ver em seu interior. Vi213 . Outra hipótese: a porta se abre para um ambiente iluminado. Mas muito ou pouco aberta uma porta. as mesinhas de centro e podemos tropeçar nelas. Observe pelo tempo que julgar necessário a porta mostrada abaixo: Pode-se argumentar que uma porta aberta não apresenta mistério algum. antes de criarmos a necessária coragem para entrar. fechada ela não está.. O que nos espera lá dentro? Sentiremos medo. simplesmente não entraremos. Sendo assim.. nos machucando. está aberta. Se ali percebermos qualquer coisa estranha. por menor que seja a abertura.. nenhuma visão de perigo que nos possa causar medo. Nem mesmo num recinto bastante conhecido ousamos penetrar sem antes apertar o comutador da luz. Uma porta pode estar aberta para um recinto às escuras. No escuro desconhecido nunca sabemos onde se encontram as cadeiras.

talvez não seja um cão de carne. sem contudo aclarar a escuridão do local desconhecido para onde a porta se entreabre. com a chama queimando normal para o alto. E se for mesmo um cão feroz. quadros representando paisagens. Porém. imóvel. Sofás. Uma na parte de baixo da porta. O barulho ritmado da folha da porta da rua chocando-se violentamente contra o caixilho me assusta. e nos janelões. e até mesmo tirar minha vida. Por certo. com sabe-se lá qual intenção. perto da moldura. apoiado em suas patas dianteiras se posta um enorme cão.sível uma ampla sala muito bem mobiliada. mesa de centro. sangue e ossos. vigilante. aparador. a terceira vela. é possível que seja alguém querendo me assaltar. Vejo claramente as três velas. neste ponto do vestíbulo da casa. uma pequena lareira de mármore. sem tempo de fugir? Temos medo. A riqueza do mobiliário. Atrás de mim outra porta que dá para a rua. e me faz medo. grandes vasos com plantas. mais ou menos na altura da maçaneta. Esta. animal conhecido por sua ferocidade . a imobilidade pétrea do cão. com sua chama derivando para a esquerda. em grandes molduras douradas. nas paredes. Não tenho inimigos. A porta da rua fica exatamente defronte da porta das três velas. poltronas. Eu estou sentado numa cadeira contemplando a porta aberta (entreaberta) para a escuridão. Não tenho inimigos? Nestes tempos de agora nunca se sabe do que as pessoas são capazes. sim. Barulhos. tapetes pelo chão brilhante. cortinas de veludo. Na parte de cima. assim como se alguém estivesse forçando a porta para invadir a casa. a força desse 214 . sinto uma forte corrente de ar circulando entre as duas portas. uma distância de quatro a cinco metros. Talvez seja uma dessas estátuas de porcelana habilmente pintadas. Me assusto com barulhos fortes e continuados na porta da rua às minhas costas. com a chama levemente inclinada para a direita . Entre as duas. fechada. Bem ao fundo. Barulho cadenciado como o soar de tambores. um buldogue. tudo nos leva a crer que se trata de um expensivo objeto decorativo.em inglês bull-dogsignifica cão-touro. pronto para atacar o primeiro estranho que ouse penetrar na sala? É um mistério que precisaremos resolver se quisermos entrar sem riscos na sala aconchegada. Como é noite e estou sozinho nesta casa. Estou sentado a meio caminho e. junto à lareira. Como ele nos receberá quando entrarmos na sala? Avançará sobre nós e seremos estraçalhados por suas presas afiadas. Outra no meio. reproduzindo com fidelidade a imagem do animal.adentrando.

mas sempre para dentro. e também as venezianas do lado de fora.vento é que faz a porta da rua sacudir violentamente. até . Quando não há vento. A vida real. evitando a construção de novos cenários. 215 . nunca para a rua. Desfaz-se este mistério e perco o medo dos golpes. Quando me apercebo disso. a chama de uma vela queima para cima. outra para a direita.para os estranhos barulhos. Como também não é normal as três chamas tomarem direções diferentes. aberta uma porta. num convite para entrarmos. aumenta para mim seu mistério. logicamente as chamas das três velas deveriam estar todas voltadas em minha direção ou. A de um quarto nunca se abre para o corredor. tenho uma explicação racional . Para esconder o fundo. e as cortinas no interior. no teatro e na televisão. ou para facilitar o deslocamento dos atores e das câmeras. Não comprendo. artes da representação. O forte sopro de ar vindo da porta das três velas me provoca calafrios. Se o sopro gelado oriundo da escuridão passa por mim para se chocar violento contra a porta da rua. outra para o alto. perco o medo. ela estivesse indicando a alguém indeciso qual o rumo a tomar. na vida imaginária. as vidraças dajanela estão fechadas. segue a regra estabelecida: as portas se abrem sempre para o lado de dentro. dando a impressão de alguém tentando arrombá-Ia. Todas deveriam estar queimando para o alto.científica. É como se. E tenho medo daquilo que não posso compreender. muitas vezes as portas dos cenários se abrem para fora. sempre. contudo. a colocação de portas obedece a um princípio imutável: as portas sempre se abrem para o lado de dentro! A porta de uma casa sempre se abre para seu interior. vinda da porta entreaberta. Ou estivesse dando a ordem: entre! A exceção a essa regra universalmente estabelecida se encontra no cinema. a porta da rua está fechada à chave. E não poderia haver correntes de ar neste vestíbulo. Observe novamente as três chamas: uma se volta para a esquerda. Mas e a porta das três velas? A descoberta de uma forte corrente de ar. apagadas pela força do vento. Não é normal. Apesar de ser difícil alguém se mostrar calmo com esse soar de atabaques. Desde tempos imemoriais. Porém não é isso o que acontece. então. Isso somente no mundo da fantasia. Tenho medo de atravessar a porta das três velas e penetrar na escuridão.

Nem precisaria ter alguém segurando: um prego afixado na sambladura da porta serviria como haste. isso não é segredo para ninguém. o que afugentaria possíveis inquilinos. Imagino que um estilete de ferro ou arame grosso fixado no centro da vela funcionaria como haste. duas perguntas surgem. Algum amigo faria essa burla de mau gosto comigo? Para me assustar. Não estamos. Não sei. teatros ou em qualquer casa de espetáculos. seria preciso ter a resposta da primeira. Como estão todas quase encostadas na folha direita da porta. ou com os gases gerados pela combustão das velas. arame ou estilete deveriam estar camuflados com tinta fosca preta.a escuridão atrás da porta entreaberta . podemos até pensar em algum truque. etc. etc. precisaríamos ter a resposta da segunda: por quê? Me assustar? Fazer alguma brama comigo? Induzir-me a participar involuntariamente de alguma cerimônia mágica? Etc. Sem dúvida nenhuma. É de se notar que em circos. para não se tornarem visíveis e se confundirem com a escuridão. os números de mágica são apresentados sempre com uma cortina preta ou de cor escura ao fundo. Caso haja algum truque com as três velas.? E para respondermos a segunda pergunta. nenhuma lei física explica isso. A própria posição das velas flutuando no ar já é um mistério em si.Quando se planeja a construção de uma casa. A vela de baixo parece ser a única assentada. Isso muito ajuda a dissimular a aparelhagem e os fios utilizados nos truques. um inimigo certamente arquitetaria algo semelhante . Quem? Por quê? Para respondermos a primeira. O que sustém as três velas no ar? Certamente. familiarizados com os mistérios da física. É lógico que prego. O mistério é como três correntes de ar vindas do mesmo lugar . Um truque mágico pressupõe a existência de alguém capaz de imaginá-Io e executá-Io. uma pessoa de mão firme sustentaria a haste dando-nos a ilusão de que a vela se mantém flutuando no ar. evita-se que janelas e portas se localizem em pontos que possam formar correntes de ar.um susto é capaz de matar quem sofra do coração.podem tomar três direções distintas. nem eu nem você. um estranho ligado a alguma seita ou religião aleivosa teria a ousadia de me enredar num maligno ritual 216 . Talvez esse mistério das três chamas possa ser explicado por alguma lei física que eu e você desconhecemos. Algo relacionado com a pressão atmosférica. Porém uma observação mais atenta nos mostra que ela se eleva uns dois ou três dedos acima do chão. Escondida atrás da folha direita da porta.

de velas se queimando. Incenso. mas isso não interfere na posição das chamas. Mas e se não forem? Não sinto cheiro de gás. pintados de branco. e você sabe. assim como não sei dizer quando começou. As três velas são o bastante para provocar este odor característico de câmara mortuária. O vento parou de repente. Velas artificiais. calor de decomposição. Seja o que for. Desnecessário olhar à minha volta para ver que a única coisa em combustão. Já estou aqui há algum tempo e o tamanho das velas mantém-se o mesmo. Sinto seu calor tomando conta desta peça da casa. nem eu nem ninguém ousaria entrar. enjoativo. 217 . Sinto-o em torno de mim. É como se o tempo não passasse. Talvez da escuridão atrás da porta entreaberta se origine esse cheiro nauseante. Assim. Tubos metálicos sem pavio. como de ervas se queimando. Mas quem e com qual intenção poderia estar oficiando um ritual mágico na escuridão por trás da porta entreaberta? E eu? Como posso exorcizar o desconhecido? O vento parou de repente. persistente. Outra coisa me inquieta. porém. como se usam agora nos velórios. Em sua mente doentia. um louco encontraria razões suficientes para invadir minha casa e armar este estranho altar. As chamas não consomem as velas. talvez. Talvez haja uma explicação bem simples para isso: são velas artificiais. que continuam queimando em diferentes direções. Pegajoso como o calor abafado que sentimos em ambientes fechados com velas acesas. Porém as três velas acesas à minha frente mantêm-se intactas.à luz de velas. Sei. Por vezes. parece-me sentir um cheiro agridoce. o pegajoso cheiro de ervas queimando? Durante o tempo que estou aqui não acendi nenhum cigarro. que em algumas cerimônias religiosas primitivas costumam queimar incenso e estranhas ervas. A fumaça embriagante e fétida assim expelida força o transe místico dos celebrantes e apressa sua comunicação com os espíritos. e o cheiro quente. E se eu ousar? Conseguirei passar com vida pela porta das três velas? E o que encontrarei na escuridão lá dentro? Preciso de respostas para essas perguntas. são as três velas. me abraçando entre meu corpo e minhas roupas. contendo o gás que alimenta as chamas. me parece que o propósito maior é impedir ou retardar a minha passagem pela porta aberta (entreaberta). Não posso afirmar quando. nesta parte da casa. Velas queimando ajudam a medir o tempo pelo seu lento mas inexorável desgaste. Como explicar.

com eles. No entanto aí está. posso retomar a caneta e o papel. posso jazer como jazia quando menino: umedecer com a língua a ponta do polegar e do indicador e. Somente eu carrego a chave da casa. do lado direito . Ou. broma ou seja lá o for esta invasão das três velas ardentes. Abri a porta da rua sabendo o que ia encontrar. Sou o que sou. já vi. preciso me levantar desta cadeira imóvel. Tenho.Contudo. Eu sou eu. apertar as chamas. Pode? Memória da infância. sem mistérios. os mesmos móveis. Depois. E eu tenho de resolvê-Io. Ninguém. truque.gesto tantas vezes repetido. Não foi o que aconteceu hoje. 218 . aleijado. Não é uma casa de loucos. apagando-as. ninguém poderia ter entrado e armado esse altar. cheguei a dar três passos para trás. Esta é a minha casa. Inanimada. Esta é minha casa. Que sempre encontro ajuizada. não estou num velório. Para isso. na mesma casa. Quando me deparei com a porta entreaberta das três velas. Ao abrir a porta e adentrar neste vestíbulo. Tampouco me encontro num templo de cultos primitivos. tenda de culto ou coisa que o valha. Posso. arrombando-a. Depois. Com um pontapé posso abrir a porta entreaberta. Se eu me levantar desta cadeira. Sem novidades. Posso. posso penetrar na escuridão e buscar o comutador da luz. devo e vou fazer alguma coisa. sim. de noite. a casa que me acolhe sempre. A mesma disposição das peças. de volta à rua. Você não pode me ajudar. Nem sou eu um alienado espectador. derrubando pelo chão as velas e tudo o mais que tiver. esse mistério. Devo deixar de me comunicar com você que. sempre a mesma. Sozinho tenho que aclarar este mistério. De dia. quando eu me levantar desta cadeira e me encaminhar em direção da porta entreaberta das três velas. tomando vida somente com a minha chegada. sem dar atenção às velas. Posso e devo. Cuja chave trago sempre no bolso. a casa me recebeu como a um estranho. acender o isqueiro que trago no bolso e aclarar a escuridão. em nada pode me ajudar. devo largar a caneta e o papel. barraca de feira. basbaque deslumbrado. e descrever para você aquilo que aconteceu. na qual eu quis entrar e entrei. E olhei bem para confirmar se eu estava na mesma rua. então. Muitas coisas posso fazer para resolver este mistério idiota. os mesmos ambientes familiares dos quais faço parte. à minha espera. dentro da minha casa. à hora que eu chegasse e abrisse a porta da rua esta casa me acolhia. Para isso.

Mistério ~ numeros .

outras rezam tristes e algumas gemem e soluçam. Umas trazem os olhos abertos. agarra-se firme não só para não cair. outras para baixo. Umas são mulheres. traja um vestido comprido de tecido grosseiro acinzentado. É uma mulher nem muito moça. Na cabeça tem como touca um pano branco que esconde a cor de seus cabelos.1 2 3 4 Lucas é o estábulo santo deJerusalém onde Jesus Cristo nasceu são as duas tábuas em que Moisés recebeu a lei que nos governa são os três cravos que cravaram Jesus Cristo na cruz são os quatro evangelhos: São João. Sem soltar as mãos. com gola. Como as outras mulheres do campo nesta região do Paraná. que tivestes o vosso 221 . outras são homens e três ou quatro são crianças. Virgem Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo. e calça rústicas botinas de couro cru para homens. São Marcos e São as cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo os primeiros selos que o Cordeiro abriu no Apocalipse as sete cartas que. Agarrada firme na imagem de Nossa Senhora das Dores. algumas olham para o lado. no Apocalipse. logo que se entra na igreja. Nem todas estão olhando para a imagem que encima o altar. São Mateus. Umas olham para cima. de Nossa Senhora das Dores. Reza a santa reza: Abraçada estou em vós. Corpo colado com o da santa. algumas entreabertos. a mulher. nem muito velha. que fica do lado direito. pernas trançadas na parte inferior da imagem. Seriam dez ou doze pessoas diante do altar. Umas entoam cantos alegres. Nossa Senhora das Dores. em tamanho natural. Usa grossas meias longas de lã cinza. Amparada estou em vós. São João escreveu às sete igreas oito primeiras epístolas de São João Apóstolo os nove coros de anjos que para o céu subiram os dez mandamentos da Lei de Deus 5 são 6 são 7 são jas da Ásia 8 são 9 são 10 são 11 são as onze mil virgens que desfrutam a companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo 12 eu não contei direito mas me parece que eram umas doze pessoas que se postavam diante do altar de Nossa Senhora das Dores. Beija repetidas vezes a face da imagem. abraça-a para não cair. abotoado. Maria Santíssima. Lá no alto. como também para demonstrar toda a sua fé. respeito e procura de intimidade com Nossa Senhora das Dores. outras mantêm os olhos fechados. em cima do altar. uma mulher está abraçada à imagem em tamanho natural de Nossa Senhora das Dores.

que. encoberto que está por panos roxos. Olhando bem. bruxos ou bruxas e adivinhos. Apenas uma peru222 . uns sentados. outros ajoelhados e alguns em pé. tal a quantidade de flores que cobrem seu corpo. em meio a panos roxos e tecidos rendados nas paredes internas do caixão. se eleva um caixão de defunto apoiado sobre um estrado de madeira que não se vê. Pela roupa o defunto era algum tipo de militar. em sinal de respeito faço o sinalda-cruz e vou me encaminhando para o altar-mar. Sete vezes vos peço. não me parece ser uma pessoa que está ali sendo velada.puro coração transpassado sete vezes por sete espadas. que fica ladeado por quatro candelabros de prata e tem na cabeceira um grande crucifixo também de prata. A tampa de madeira entalhada está apoiada num dos cantos do cadafalso. Chego mais perto e ergo a cabeça para ver melhor. sem orelhas nem marcas de olhos e nariz. Apesar de não ser dessas coisas. Sete dores mortificaram vosso corpo virgem e santo. parece um boneco. parece ter sido pessoa rica e influente. ó minha protetora Eu da cena me desinteressei e Em meu auxílio vinde. no espaço em frente do altar-mar. Há bastante gente nos bancos. madeira escura envernizada. Me aproximo curioso para olhar o morto. em meus parentes ou em meus bens. pelo aparato ao seu redor. guardai-me das investidas de Satanás. É caixão de certo luxo. Nem precisava ter feito o sinal-da-cruz. não dá para perceber direito. em minha pessoa. Em aflição vos peço: Vigiai minha casa. em qualquer lugar. Atravesso por uma fileira vazia e chego ao corredor central. veste o que parece ser uma espécie de uniforme. protegei-me. pranteiam o falecido. Guardai-me de seus agentes. invocações. nigromancias. Nossa Senhora das Dores. Em meu socorro vinde. ó Esposa de Deus desta igreja bastante grande e suntuosa demais para uma cidadezinha do interior como esta. possam atentar em causarme mal. pois ninguém aqui parece se interessar pelo que sou e pelo que faço. bruxedos. visíveis ou invisíveis. Cabeça branca e redonda de pano branco. circunspectas. que. homens e mulheres que sejam. aparadores de brilhante metal prateado. Em torno do esquife. em qualquer hora do dia ou da noite. a mim e à minha família. Perto dos primeiros bancos. ó Rainha dos Anjos vou caminhando em direção ao altar central Em minha defesa acorrei. Imploro vossa proteção contra quaisquer maleJícios. algumas pessoas.

. inicia uma oração: Já que estás partindo para outro mundo. mais respeito . já que estás indo embora para sempre. Batom vermelho 223 . este meu câncer que por dentro me corroe. Pode-se presumir que não seriam mãos que enchem as luvas. Depois de alguns instantes parado. para que leve aos céus ou infernos seu câncer. um anjo aponta sua espada dourada contra mim.. velam em torno do caixão. esse velho doente pedir a um defunto. . Começo a achar tudo isso meio sem sentido e até engraçado.. dedos entrecruzados.. quase inaudível.Este é um lugar sagrado! É uma menina de cabelo comprido e loiro. Tenho vontade de rir. ninguém parece ter tomado conhecimento de minha pessoa. doentia. serragem ou outro material qualquer. doença que me parece vai matá-lo logo logo. Tem nas costas duas asas de papelão com penas brancas coladas. sem retorno. Vagarosamente. amparado por dois homens que suponho serem seus filhos. um velho de cor cinza se aproxima do caixão. O esforço para dizer essas poucas palavras foi muito para o velho.. duas luvas brancas pousadas no ventre do defunto. . pois uns dedos são mais grossos que os outros.Vivente . leva contigo esta minha doença. Saindo das mangas do uniforme. trespassados por um rosário de contas pretas. Uma espada aponta em minha direção.ca encanecida dá alguma aparência humana a essa cabeça. mundo das sombras. e calombos irregulares nas mãos revelam um mal executado enchimento com algodão. o velho põe as mãos sobre as daquele que está no caixão e com voz rouquenha. túnica longa e branca que deixa à mostra apenas seus pequenos pés descalços. Leva contigo para que eu delefique livre e nunca mais volte a sofrer com ele ou com outra doença parecida. .Está zombando de coisa séria! Ameaçador. em pé. como que para recuperar o fôlego.Não se deve zombar daquilo que acontece em solo sagrado! Muito loira de olhos bem azuis. a menina-anjo. e seus filhos têm de arrastá-lo para que ele se deixe cair no banco mais próximo e ali repouse ofegante. Duas luvas brancas. que nem sei se é mesmo um defunto. Desde que entrei nesta igreja. Algumas rezam parecendo puxar um terço em voz baixa. É de muito respeito a atitude das pessoas que. A espada que aponta para mim também deve ser de papelão recoberto com papel laminado dourado. caminhando com muita dificuldade.

talvez pelo calor aqui dentro. As sobrancelhas e os cílios fortemente marcados de preto e sombra verde em torno dos olhos azuis cor do céu. Sei onde ele quer chegar e poupo suas palavras: . . E me afasto caminhando pelo tapete vermelho do corredor central em direção à porta de entrada.. dirige-se a mim sem cuidados: -Aqui são todos bem-vindos . as unhas da mão que empunham a espada estão pintadas de vermelho vivo. longe de casa desde ontem nesta cidade.. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário O canto do coro da igreja vem lá do alto.Em outra ocasião o senhor será bem-vindo aqui. padre. A túnica é de diáfano tecido acetinado e quase antevejo. . todo paramentado de veste litúrgica branca e dourada. Como as dos seus pés. Pela porta da sacristia surge um padre e se encaminha para onde estou. Não sou casado e mesmo na capital. os róseos biquinhos de seus peitinhos. As portas da Casa de Deus têm de estar sempre abertas a todos . Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário 224 . A menina-anjo se desfaz de sua expressão séria e sorri. gotas de purpurina vermelha que rebrilham à luz bruxuleante das velas. como se fosse rezar uma missa imponente. onde moro.carregado nos lábios finos. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário A menina-anjo me segue. a espada toma então outro rumo. Talvez seja por isso. Há dias que estou sem mulher. não tenho companheira fixa.Com sua licença.Eu estava mesmo de saída.. Compenetrado.. Que ofendem ao Senhor Nosso Deus . É um padre jovem.. Deixa de apontar para mim. talvez para ver se estou mesmo indo embora. não sei explicar bem por que mas a visão da menina-anjo me excita. Há dias que estou de viagem pelo interior.mas existem coisas que não gostamos. conduzida pela mão do anjo movimenta-se lentamente em direção à sacristia.. na pequena elevação. Sinto desejos por ela.. . No rosto...

Sou o único hóspede. todas as doze chaves dos doze quartos estão no quadro. um mendigo estende o chapéu para mim na escadaria da igreja. . Procuro no bolso uma moeda ou nota de menor valor para dar de esmola. modesta construção térrea de madeira. Procuro pelo dono.A mulher continua pendurada Dores.A essa hora ainda não temos café feito. não mesmo. Onde andará? Se quiser. E a única da cidade. a sujeira.está sempre sorrindo . tomo na estrada. A mocinha só chega depois das seis. o calor e o abafamento do quarto não me deixarão dormir direito e estarei acordado bem antes das seis. no migué. na casinha de madeira no pátio interno. Ele surge da porta que dá para a área interna.Tem importância não. ele é cego. não preciso esperar o dono da pensão. Não preciso esperar o dono. . Acabo encontrando a nota fiscal de uma com pra que fiz na farmácia . Com poucos passos chego na pensão onde me hospedo.e jogo no chapéu do mendigo: além de aleijado das pernas. que não está na portaria. arrasta uma perna. parece não levar muito a sério o que diz: . É um velho gordo sem dentes. .Deus lhe pague. 225 . vem ajeitando as calças. Nem mesmo preciso pedir que ele me acorde um pouco antes das seis. .Uma esmolinha pelo amor de Deus! Apesar da noite escura cobrindo a praça deserta. posso apanhar a chave do meu quarto pendurada no quadro. . Com toda a certeza estava na privada. Vem sorrindo . preciso talvez é ter alguém com quem conversar. Número nove. como se costuma dizer. Posso pegar minha chave.como se fosse muito engraçado aliviar-se no meio da noite na privada escura e suja no meio do negro pátio. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário na imagem de Nossa Senhora das É a menina-anjo quem fecha as pesadas portas de madeira escura às minhas costas. Não vai ser preciso.Posso pegar minha chave? E dá para o senhor me acordar amanhã às cinco e meia? O velho responde como se estivesse zombando de mim.N ovalgina para uma dor de cabeça que eu estava . quando o único posto da cidade estará aberto e terei gasolina para seguir viagem. os mosquitos.

e o Diabo? Onde fica o tempo todo? Onde encontrar o Diabo? Demoro bastante para responder: . não está mais achando graça: . não sei não.. mas nem penso em arredar o pé dali.Esteve passeando pela nossa bela cidade? Diz isso como quem diz: Então andou vendo que bela porcaria que é este buraco? .Deus . e segue falando: . Ainda com jeito de zombaria. o velho me pergunta: . Vi a igreja grande que vocês têm aqui.O senhor entrou na igreja? -É.Acho uma feiúra. é uno e indivisível. acho que ninguém sabe. O velho perde o ar de gozação. muito bonita. desperdício de dinheiro numa construção daquelas: só para entronchar o cu dos padres. 226 . . .Também não. estive dando uma volta. Mas também é onipresente.É. E ri sem dentes. satisfeito com a grossura que disse. Deus. entrei porque não tinha outro lugar para ir. sei lá. Até mesmo aqui e agora nesta nossa conversa. E o senhor sabe? .É. Mas .É.Estou com a chave do quarto na mão. quieto sem dizer nada... ele está aqui nos escutando. Está em toda parte. nós sabemos.Porcaria duma igreja numa cidade que nem hospital tem. em todos os lugares ao mesmo tempo. se alguém fica doente tem que andar trinta quilômetros até achar um médico.Então o senhor entrou na nossa igreja?! Quer saber duma coisa? Me olha fixo: .. Fica me olhando sério por algum tempo: .

mlsterlo . ".Mercúrio .

que consistia em cozinhar uma moeda de 1 ducado de ouro juntamente com uma galinha velha. Ouro. irmã Eglantine. Liege. em Bois L'Evêque. observar o esmaecido sol da tarde para sentir a transparência do metal e vê-lo enrubescer como um rubi e não é nada estranho que um metal tão precioso como o ouro tenha sido objeto de experiências as mais perseverantes por parte dos alquimistas. Pensou no prazer que sentiria ao levantar entre os dedos a fina placa de ouro e. Pacientemente. Para restaurar os doentes esgotados. passou por cima de informações bastante óbvias para ela. ou um galo velho. como já transmitira às suas alunas durante o transcorrer de longos anos de educadora Saudações. suspendeu a leitura e pensativa deitou os olhos no pátio deserto ao seu redor: certamente não era este um tema para levar ao conhecimento de suas alunas pour les médecins arabes e os adeptos na Idade Média. e mesmo para suas alunas Ordinariamente. naquele início de outono. o ouro é um metal opaco e amarelo porém não pôde deixar de se admirar quando leu o que muita gente não sabe é que reduzido a lâminas extremamente delgadas o ouro torna-se transparente. irmã Eglantine reencontrou conceitos que não só conhecia. que. simplesmente. que sempre sejactaram de possuir o poder de criá-lo em seus laboratórios e com ele obter uma panacéia universal o assunto interessava sobremaneira à irmã Eglanti- ne. de medir e de simbolizar o VALOR irmã Eglantine bem compreendeu que o autor aqui se refe- ria somente ao valor econômico e não aos valores morais. Ou. objeto de culto servil de uns e do desprezo suspeito de outros. um moderno tratado escrito pelo professor Arthur Mangin. é UMA RIQUEZA. E não se pode transferir a qualquer outro metal o honorável papel de representar. o mais pesado e o mais imutável entre todos os metais. A simples imersão do metal vermelho em brasa nas tisanas era o suficiente para transformá-las em fortificante peitoral. do Pensionnat des Religieuses du Sacré-Coeur de jésus. verde por propagação e vermelho por reflexão sentiu vontade de ter nas mãos uma fina folha de ouro para ver se realmente ela tomaria a cor verde. o metal o mais brilhante. ó Rei dos Metais. químico renomado. e preservativos contra a lepra. o ouro ou o SOL possuíam propriedades sobrenaturais.Em setembro de 1879. recebeu o livro Pierre et Metaux. eles prescreviam o famoso Bouillon d 'Or. por segundos. incontestavelmente. Bélgica. ali no jardim do pensionato de verde relvado e árvores com ramagens verdes-cinza. polvilhavam os alimentos dos enfermos com pó de ouro pequenas liberdades consentidas que irmã 229 . Com o ouro fabricavam amuletos para fazer voltar a alegria aos melancólicos. No livro. O ouro não é A RIQUEZA. mas. através dela.

Un. nas teorias místicas dos alquimistas. lavar passar. Nesta hora de silêncio no pensionato. de Bile do Dragão e Leite de Uma Vaca Negra bem doce. Os metais a que melhor adere são o chumbo. Ele se amalgama igualmente com a prata e. pois que somente se solidifica a quarenta graus negativos. o pão e os biscoitos . jovem noviça para todo o serviço no pensionato: preparar-se espiritualmente para o matrimônio com Jesus Cristo. esfregar arear. Longa é a caminhada e irmã Eglantine aperta o passo. quando se vê o mercúrio tomar uma singular importância e desempenhar um papel extraordinário. às vezes. sempre impressionou vivamente a imaginação das pessoas e fez considerar o mercúrio como um metal privilegiado. com o cobre. A vela alumia o livro O mercúrio é o único metal que existe naturalmente em forma líquida e conserva esse estado mesmo a baixas temperaturas. depois de tantos anos servindo a Deus no Pensionnat des Religeuses du Sacré-Coeur deJésus: antes de dormir. que tomba ao fundo". quatre et pourquoi pas cinq tablettes de sucre? Bem adoçado. trois. o chocolate ao leite esquenta e relaxa o corpo. Faz frio. Todos os metais nadam sobre o mercúrio. Somente mais tarde fará as orações da noite O químico árabe Gerber (Yabar-Al-Koufi). Esta singular propriedade. irmã Eglantine prossegue a cativante leitura. o princípio e a essência de todos os metais. a escuma de todas as formas. somada à sua alvura e ao seu brilho cintilante. limpar polir. o chocolate ao leite torna-se mais saboroso e aquece muito mais o corpo. que viveu no século XVIII. irmã Eglantine reina solitária na cozinha. varrer lavar. mesmo passada a hora de se recolher. Eles o chamavam também. No cesto o patê.todos produtos do pensionato. Fraldas confeccionadas com esgarcidos lençóis sem uso completam a esmola piedosa. cozinhar servir.Eglantine se acha no direito de tomar. O cesto quem leva é Anne Marie. É necessário enrolar o xale negro nas mãos brancas que seguram o livro. o estanho e o ouro. bizarramente. quase uma substância sobrenatural. 230 . escreveu em seu Soma da Perfeição do Magistério: "O mercúrio se encontra nas entranhas da terra. Quanto ao ferro. mãos fora das cobertas. Para eles o mercúrio era a Água Divina. toma chocolate com leite na cozinha deserta. muito dificilmente. a este adere somente por um artifício que é o grande segredo da Arte. exceto o ouro. Sobretudo na Idade Média. A pouca mobília torna a cela ainda mais fria. costurar cerzir. A irmã despenseira lhe deixou a chocolateira esquentando sobre a adormecida chapa brilhante do grande fogão a lenha. deux. Essas descrições são exatas e a química moderna nada mais fez do que complementá-Ias. Não adere às superfícies. sobre as quais flui livremente. o queijo de leite de cabra.

camponês que não tem onde cair morto nós já o dissemos. justifica a longa caminhada para a visita de caridade. se bem que tenha um leve reflexo azulado. mão. Ajovem esposa Philipot. irmã Eglantine posta-se na frente de Anne Marie. ouvir e rezar. Irmã Eglantine pega o cesto com Anne Marie e entram as duas na cabana escura. punho e metade da metade do braço. numa cabana em partes afastadas das terras do barão de Montpellier. Como para encobrir aquela visão. Philipot sai de trás da mesa e vem à frente. Nua. o mercúrio é dotado de um brilho cintilante e se parece bastante com a prata. irmã Eglantine grita. Formigamento. dos lobos e das serpentes. acompanhar irmã Eglantine em seus pequenos passeios e visitas de caridade. Philipot agiliza os movimentos. prestes a dar à luz. O cesto com oferendas servirá para mitigar a miséria do casal Philipot. A dor rasgante da facada só é sentida por um segundo. puxa-a violentamente contra seu corpo. Não a faca: o que irmã Eglantine sente agora é a mão punho de Philipot revolvendo suas en231 . Germaine Garnier casou-se com o jovem Paul Philipot. reinado dos javalis. quase como um favor. substituída em seguida por um amortecimento suave. onde está ela. à beira da floresta. até então oculta pelo negror da cabana e por irmã Eglantine. Mas o senhor não se interessa? Não se interessa em conhecer seu filho? E sua mulher. Arranca rasga suas vestes de religiosa. vigiar e repreender as alunas e. Sem largá-Ia. Contra a vontade dos pais. O golpe dado no ventre é tão forte que penetram faca. asas a se agitarem na cabeça. Nu da cintura para cima. desamparada pelos parentes. estátua de sombras. de pé estático. Agarra a freira pelo hábito. Philipot estende a mão livre e toma uma faca de cima da mesa. o homem Philipot. domina-a. afinal? Lentamente. A cabana dos Philipot assenta-se em meio a árvores limpas. quase um apêndice da floresta ao lado. Imoral! Imoral! Como se apenas esperasse ouvir essas palavras para agir. Talvez o bebê já tenha nascido. Talvez ela tenha ido dar à luz em outro lugar que não aquele. desprotegida pelo marido sem trabalho. às vezes. somente com a coifa. E não são dadas maiores explicações. como para melhor se posicionar e ver Anne Marie.plantar colher. Não está a futura mamãe em casa? Não. A mesa alta impede a visão do resto de seu corpo. A porta está aberta mas as janelas permanecem fechadas com tábuas. Talvez tenha sido levada. sozinha? Talvez. O mercúrio não parece existir em grande abundância na natureza os Philipot vivem isolados. Talvez. Monsieur?! Trapos sujos cobrem-lhe o sexo. Como. grita sem que nenhum som escape de sua garganta.

na Feira dos Livros Usados. ela nem sente o peso do corpo nu de Philipot sobre seu corpo nu. Outra moeda sobre o bico róseo do seio esquerdo. Posse silenciosa. como prêmio de aplicação para as alunas que. Anne Marie prepara-se para o sacrifício. espera. Por que se preocupar com uma freira morta. boca e barba o sangue do sexo impúbere loiro de Anne Marie. Desveste o hábito de noviça e. Sai em parte e volta. olhos esgazeados? Há mais o que fazer. retira mão e punho vivos de um corpo já morto. Em outubro de 1989.. situado na rua Emiliano Perneta 325. outra mais sobre o direito. Do fundo da garganta de irmã Eglantine vem um suspiro silencioso. Branco filete líquido oleoso que não adere às bordas róseas da carne e penetra doce e ágil no interior do pequeno mistério da fenda escura. deitada no chão. Bélgica. Philipot pouco se importa com os olhares da freira. encadernado e em perfeito estado de conservação. Onde ele arranjou tantas moedas de ouro? Ainda ajoelhado. pequena fenda agora selada com ouro. longos cabelos loiros espalhados sobre a áspera superfície de pedras.tranhas. irmã Eglantine está atenta e observa a cena. 232 . Deposita uma moeda sobre o lábio de sorriso curto e uma em cada pálpebra semicerrada da moça. Philipot mantém-se de joelhos e. No mês seguinte. foi vendido um exemplar de Pierre et Metaux. tenham alcançado as melhores notas nas aulas de instrução religiosa dos cursos do Pensionnat des Religieuses du Sacré-Coeur de jésus. Mesmo quando caem e rolam os dois pelo chão de pedra. O mercúrio se liberta célere pelos vãos dos dedos. outubro de 1879. prolongado e rouquenho. em Bois L'Évêque. Saindo do corpo da moça. em Curitiba. Apesar de morta. Morta irmã Eglantine. Liege. lenta e cuidadosamente despeja mercúrio na pequena fenda oferta. com as mãos em concha. A cada tentativa dela de se afastar. sai em parte e volta . irmã Eglantine sugere à madre superiora a indicação do livro Pierre et Metaux. Philipot retira a moeda de ouro que cobre o sexo de Anne Marie e. limpa com beijos. por mérito próprio. o braço se deixa sair um pouco e já lhe penetra novamente o ventre.. vou morrer! Quando Philipot retira a mão e o punho. o corpo nu. Sente apenas o retorcer gosmoso entrar e sair da mão punho em seu ventre líquido: Aiiiiii. sebo de propriedade de Irajá Reis. Philipot cobre com um ducado de ouro o sexo profanado de Anne Marie. inclinando-se.

()s fantasmas do fundo de quintal Um mistério .

da bronquite. atento. do remorso. vítimas fáceis dos demônios do quintal dos fundos. dos gases intestinais. preparando suas maldades. da falta de ar.Ao longe o cantar abafado dos galos. das tosses noturnas. o Velho não luta contra o esquecimento: apenas quer lembrar e não consegue se lembrar do que quer lembrar. Ainda está longe o dia. abertos para o vazio do quarto escuro. Os olhos sem imagens. de urina solta. do medo. Não tem perigo dele pisar no canteiro e amassar os pés de alface. ninguém vê mas o Fantasma do Quintal está ali. homem! Revolto na cama. Há os que não. ocos. as cebolinhas e os rabanetes: Que economia trazem para a casa! Sentado na cama em ângulo reto. Atravessam as noites acordados. 235 . de onde não se vê a rua. Na noite fria há os que dormem protegidos pelo escudo do sono Sonham? Talvez. das dores reumáticas. No limitado triângulo o Fantasma dos Quintais caminha pela calçadinha cimentada. Presas da insônia. Ninguém pode se livrar do mal. Os telhados vão amanhecer branquinhos de geada. olhos abertos no escuro fitando o nada. Que tristeza! Milagre: o enorme lençol branco sobrevive no varal! Não se pode deixar roupa dependurada que os ladrões roubam tudo. Os cachorros se esquentam enrodilhados em seus sonhos.

Mas vá falar disso para um homem apaixonado! Não sei. Não adianta: ela não quer saber mais dele. Não há como se livrar disso.ao acordar. Eu tenho rezado tanto pelo meu filhinho! O pior é que a Mãe não sabe por que ele está assim.o Homem não pode se livrar da memória. Ele está se acabando. Inútil insistir. que largou dele para sempre. lá do quintal dela a Enxerida espiona tudo. falsa ou verdadeira.vocês vão ver . o gato da Velha mija fedido na varandinha da casa nova. Tanto ela tem feito para que ele passe essa fase ruim em que está e volte a ser o que era antes: um homem alegre. Se soubesse talvez pudesse ajudar. 236 . Cai num sonho nervoso. As galinhas vêm ciscar na horta alheia. Pela tessitura das cercas. trabalhador. esperando a hora de levantar e fazer café. Deve ser coisa de alguma mulher. sempre há uma esperança. a Mãe insone reza pelo filho. Na interminável noite. Pelo vão da cerca a ameixeira derrama seus melhores galhos para o lado do vizinho. se con tin ua assim não sei o que será dele. os quintais do fundo se ligam com os quintais de outras casas. Botaram feitiço nele. Mais tarde . terá a imagem dela diante dos olhos para sempre. É disso que o Fantasma do Quintal se aproveita Ainda está longe o dia e a geadajá começa a cobrir a grama. Ainda bem que não está ventando. sem dormir sonha agitado com a Outra.

Pensar que o Homem pensou até em matar: Se ela não é minha não será de ninguém. Ahhhh. protegida. matou alguém. longe dali.. quentinha. Coitada. Na sua brancura o Fantasma entreabre um sorriso de dentes amarelos. Sua mão gelada de fantasma acaricia o ventre liso dela. Ela vai ser uma perdida na vida! Na sala o gato preto dorme em cima da televisão. sem fazer barulho. depois escorrega a mão até a gretazinha miúda pulsante. vozes indesejadas atravessam as cercas de madeira. Ninguém nas ruas.que demônio! já está na cama agarrando a Mocinha por detrás. Isso durante o dia: dentro da noite é esse o território dos fantasmas dos quintais. o tatu busca sua toca no terreno baldio sem cercas dentro da noite. Sem sair do quintal o Fantasma . Pé ante pé. 237 .. A Outra dorme aninhada em seu novo namorado. uma criança ainda! Isso não se faz . calorzinho tão bom! Suspiro prolongado e um ai. O canalha! A madrugada vai alta. a sombra do Fantasma entra no quarto e observa o sonho da Mulher para ver se ela dorme calma sem saber das coisas que o marido aprontou. as noites frias! Debaixo do lençol úmido a Mocinha dorme seu sono solitário. Com passinhos macios.a valeta vaza suas águas fétidas para o lado de cá. a Mocinha agora dorme tranqüila debaixo do lençol seco. ao longe passa o ruído de um automóvel tardio. Os ladrões da noite não procuram casas com fantasmas no quintal. na morte será minha! Se a Mãe soubesse que o filho criado com tanto carinho quis tirar a vida de alguém.

que mortalha pode cobrir um bebê morto? Na noite escura só o Homem escuta o grito só para ele. Não sabia rezar. Na agonia da morte uma criança. Não! Alguém vai desconfiar. Com seis meses já está vivo. O Homem cobriu de terra. Se parecia com a mãe? A Outra se recuperava na clínica clandestina. pensou em fazer uma pequena cruz. um grito dele. orelhas e olhos. Fez um buraco com a chave da roda e com as mãos sujas de lama preta. textura lisa talhada. Como pôde limpou a mão numa estopa. rins pelas dobras prenunciando membros. Pela cor plúmbea. Depois eu limpo direito. o grito apertado. nariz. A imagem é outra: o rosto esborrachado do bebê morto. ao longe se vê a estrada de pouco movimento. O filho dele. choro prolongado de um bebê . olhos esbugalhados que não vêem mais a imagem da Outra. dá pontapés na barriga da mãe. Trouxe o feto embrulhado em plástico transparente. dura gelatina. Dias e dias atrás do dinheiro e de um médico que aceitasse fazer o aborto. parecia um grande pedaço de fígado. mas vocês é que vão ter de enterrar. 238 . quando precisava pedia para a Mãe. Tirar agora é matar uma vida. O fusca parado num terreno pantanoso. O Homem não tinha levado nada para cavucar. E desperta dentro de um pesadelo. O rosto que ele agora tinha nos olhos. Olhando a barriguinha da Outra ninguém diria que estava de seis meses.Horrível! O grito de alguém morrendo. O médico aceitou mas fez uma exigência: tirar eu tiro.

Então percebe com horror: O Fantasma do Quintal sou eu! Passa a mão nos olhos. outros mundos. pêlos eriçados. o cão recua ainda rosnando e depois se cala. com as lágrimas lava a lama preta das mãos e vai procurar outros quintais. Tem agora toda a memória do mundo e o dia não vai nascer. o frio da madrugada arrepia seus pêlos. Ninguém vai ouvir seu grito. uma eternidade de medo antes de conseguir gritar: Passa. dentes arreganhados. desassinalado. para que serviu? Não poder dormir nunca mais. no meio da noite. Sultão! Guapeca vagabundo. a mulher volta ao sono. como se não existente. o Homem treme de medo. O Homem abre a porta que dá para o quintal. que dorme calma ao seu lado e tem um ligeiro despertar: aonde você vai? Mais uma mentira das muitas: vou no banheiro. Dá três passos e o grande susto: o Cão Negro. O Homem não conseguia mais ficar deitado. E o amor. latindo avança nele. se enxerga parado no meio do quintal. Nos seus olhos a imagem da Outra se mistura com o rosto mongol do bebê. Não de frio. Os cães do bairro respondem num enrodilhar de latidos. longo. Não vê que sou eu?! No escuro.Patinando na lama o fusca voltou para a estrada. 239 . nunca mais. levanta com cuidado para não acordar a mulher. se fosse um ladrão não acordava. Não sei se foi o medo. O rosto afundado no travesseiro. nem os cães nos quintais. o Homem não está mais dentro do seu corpo. Do Homem sai um grito silencioso.

. ~. A SAUDE DA MULHER O GRANDE REMEDIO DAS DOENÇAS DE SENHORAS . . ()mlsterlo Sônia teu.' 2) o amigo· A SAUDE DA MULHER fará o mi· logre· é o grande remedio pora 0$ incommodo$ vidro hoje dos senhoras. mesmo. voando palavras! phormocial é pri- ElIa • Para lHER. EJle . . COISAS DA VIDA . querido? Foz hoje um onno que brigá mos pelo ultimo vez . abençoarmos a SAUDE DA MU· que me restituiu 00 teu omor!.Lembras-te.Mósinhal Para que recordar? felicidade Elle _ Santas meira de regresso ao teu lar.. Levarós Vou Compro um com elJe o Ello . • • (EPISODIO N..

Mais certo dizer que perto das três e meia. E as ruas de traçado antigo. estreitas e curtas.o ESTADO GERAL DO CARRO Bom. dobrando à esquerda no largo do colégio das irmãs e. O que procura o Homem de Olhos Azuis àquela hora naquela ci243 . O único sinal da viagem que acaba de fazer é a camada de pó pegajosa e leve que aderiu principalmente nas partes laterais e nos pára-lamas. entrando novamente pela avenida xv de Novembro. como se diz. a lataria sem pontos de ferrugem e os pneus são novos. entre duas e quatro horas da madrugada. Longe de ser um defeito desagradável ao olhar. mais adiante. mas a Mulher tem uma mancha preta no branco do olho esquerdo. apesar de grande. a pintura vermelha não está descascada. Traz. para controlar as frieiras que muito o afligem nesta época do ano. oito e meia da noite anterior. esse sinal de nascença. É uma cidade de tamanho médio. chega-se à praça da Matriz. improvisou uma toalha higiênica com um grande guardanapo branco de boa qualidade. o que atesta ter ele rodado em estradas de terra. o sono dos habitantes da cidade. mais para pequeno. vindo do Sul. Um exame mais do que superficial mostra que o carro. porque no sono ela mantém as pálpebras cerradas. Como o carro é de modelo recente seu motor é silencioso. As regras apareceram por volta das oito. não perturbando. que também dorme. e como a Mulher não tivesse modess em casa e se avexasse de mandar alguém buscar na farmácia do seu Benedito. ainda se encontra em bom estado. calçamento apenas no centro e em algumas avenidas periféricas. No momento não podemos ver. dá um certo atrativo à beleza da Mulher. seguramente. um certo it aos olhos esverdeados dela. tem entre os vãos dos dedos do pé chumaços de algodão embebidos em Vodol. A SAÚDE DA MULHER Seriam. obrigam que o Homem de Olhos Azuis conduza o carro em baixa velocidade. Por essa hora o carro entrou na cidade. Seguindo a entrada sul em linha reta. lançado há dois anos pela fábrica. Nenhum amassado na carroceria. O marido. portanto. no centro. o que diminui ainda mais o barulho do motor.

mas geralmente funciona só até as oito. Não tem contra-indicações e não prejudica a amamentação. A SAÚDE São ruas curtas que desembocam em outras ruas curtas e trazem a indagação: para que lado seguir agora? As casas. Por suas propriedades terapêuticas acentuadas. diminua a dose. no máximo. a farmácia. Precavida. logo que desceram as regras. quase todas pinta244 . a Mulher tem sempre em casa um vidro de A Saúde da Mulher. O que fecha mais tarde. ela tomou uma colher das de sopa do remédio. nove e meia da noite. DA MULHER contém substâncias de ação sedativa e antiespasmódica nas cólicas menstruais. A SAÚDE DA MULHER determina ligeiro abalo no organismo. E não será fácil achar o único hotel da cidade. ou. dependendo do dia fecha às nove. remédio antigo mas de comprovada eficácia. Foi comprado na farmácia do seu Benedito e guardado no armarinho de medicamentos até a chegada da menstruação. dissolvido num copo de água açucarada. pois já apagou a pequena lâmpada que alumiava sua pequena placa e fechou a porta de entrada. Ninguém pelas ruas para dar qualquer informação. Passou disso é preciso tocar a campainha para chamar o farmacêutico. Ontem à noite. Até a delegacia de polícia mantém a porta fechada e as luzes apagadas. Não deve haver preocupação com isso porque está agindo beneficamente. Prossiga com o tratamento.dade? Seja o que for. o Central. dificilmente encontrará. E nenhum estabelecimento comercial funciona até essa hora. às vezes.

Uma leve neblina envolve a cidade. as portas do quarto fechadas na velha casa abafada. O Homem de Olhos Azuis no carro vermelho não tem sono. e talvez pudesse localizar aquilo que veio procurar nesta cidade que não conhece. nos tempos em que a cidade florescia. pare por falta de combustível e tenha de esperar até as sete horas. de repente. não terá sido achado. outros respondem lá longe. depois de algum tempo param de latir e vão recomeçar mais tarde. quando abre o único posto da cidade? E. ao lado dela na cama. É agitado o sono da Mulher. Se encontrasse alguém. A obscuridade vista pelos faróis do carro dá ao Homem de Olhos Azuis a impressão de estar sempre andando em círculos pelas mesmas ruas. Mesmo se o Marido. Fosse daqui a uma hora. foram construídas quase na mesma época. o Homem de Olhos Azuis pararia o carro e pediria informação. fazem-na gemer e revirar-se incessantemente na cama. Ela passa por suores frios e ondas de calor que. se não chegam a acordá-Ia. então. mas por se manter atento em achar o caminho por ruas calçadas de paralelepípedos que parecem sempre as mesmas. Quase inaudível. É claro que não se pode adivinhar que tipos de pesadelo o mal-estar traz a ela nesta madrugada nem quente nem fria. seja o que estiver sonhando.das de amarelo. Em seu sono agitado. 245 . não estivesse dormindo roncando. não pela calçada. não irá encontrar nesta hora em que todos dormem. talvez já se visse algum passante andando. Alguém que um compromisso ou um trabalho urgente tirou da cama mais cedo. seja o que for que o Homem de Olhos Azuis esperava encontrar na madrugada desta cidade. sonho bom ou sonho mau. Seja o que for. Ou talvez tenha. mas apressado pelo meio da rua como todos os que caminham pela madrugada. Tem o carro gasolina suficiente para continuar rodando pela cidade adormecida? Não poderá acontecer que. A iluminação pública é bastante ruim. entre casas amarelas que se assemelham iguais. as luzes dos faróis do carro vermelho atravessam por entre as frinchas das venezianas fechadas e relampejam no escuro do quarto abafado. sem encontrar saída. teria dificuldade para identificar o nome que ela diz. a Mulher pronuncia o nome de alguém. um cachorro late aqui. como são as falas do sono. Às vezes. a concentração e a excitação espantaram seu sono.

Tudo o que eu disser será verdade para você. encontrou a saída da cidade. Por exemplo: eu posso escrever que o Homem de Olhos Azuis cansou de procurar e. seguiu os treze quilômetros pela estrada de terra até alcançar a rodovia asfaltada e pegou o caminho de casa. Por isso. a Mulher despertou do seu agitado sono gritando o nome do Homem de Olhos Azuis. do que tinha vindo procurar naquela cidadezinha pela madrugada. Porém. que dormia roncando ao lado dela. Que seus gritos acordaram o Marido. mesmo que seja inventado. seja lá o que for. voltando do sono. 246 . a Mulher e o Marido. descobre com pavor que a Mulher ainda guardava no coração o nome de outro homem. é melhor que eu me cale e deixe somente com você a tarefa de deduzir o que aconteceu depois com o Homem de Olhos Azuis. e tudo o que eu escrever aqui.Mesmo durante o sono. tenho eu o direito de indicar finais possíveis para os acontecimentos reais que comecei a contar? Por acaso sou um deus com o poder de determinar o destino das pessoas? A resposta é não. longos e pretos pêlos púbicos da Mulher. finalmente. no momento em que ele partia. desistindo. o OBSERVADOR o PRIVILEGIADO que aconteceu depois? Em relação a você. o sangue menstrual continuará sendo expelido em grandes fluxos. você tomará como o acontecido. sujando o pano branco e marcando de vermelho os sedosos. eu sou um observador privilegiado. E que o Marido. Posso dizer também que. pois participei do início dos acontecimentos daquela madrugada. Acelerou o carro vermelho.

() mistério da Sonâmbula .

espera no centro da cidade que seu comparsa venha buscá-Io. a empregada dorme em seu quartinho e continuará dormindo mesmo depois do despertador tocar as seis horas. deveria também vigiar a propriedade durante a noite. eu diria. viaja em férias escolares. só então acender as luzes. foi por indecisão entre sair para tomar a fresca da noite ou voltar pelo corredor escuro e. no armarinho de metal. que. A velha mãe. supõe-se. e mesmo depois de se levantar. a mesinha de centro e o pequeno móvel com assento que abriga o telefone.Nada de gestos arrebatados. O Ladrão ainda não invadiu a casa. as dependências da criadagem masculina estão vazias. para combater a insônia. se ficou em frente à grande porta envidraçada. no fundo do corredor. O motorista. eu não diria indecisa. E o velho jardineiro dorme sob o efeito de sedativos. no escuro. Seu caminhar. no meio da noite. caminhando. conforme o combinado. apanhar o vidrinho de comprimidos para dormir. não está. no bar onde fazem ponto. A irmã tem seu quarto longe da sala. Fica ali por alguns instantes. na enfermaria do hospital. não se pode dizer se ela caminha de olhos fechados ou abertos ou de que maneira ela evita. limite entre a sala e o varandão. a cadeira de balanço com armação de palhinha. A Sonâmbula. A cozinheira aproveitou o dia de folga e dorme na casa da filha casada. chegou defronte à grande porta envidraçada. O marido dorme no quarto do casal um sono pesado. o sofá e as três poltronas de veludo vermelho. seguir até a copa. a mesma que se queixa de nunca conseguir dormir à noite. alguém se levanta e. ressona em seu quarto de portas fechadas a sete chaves. a cristaleira antiga que veio da fazenda. o embate com os móveis: a mesa ovalada com seis cadeiras. lavar o rosto e se vestir. No jardim dos fundos. Na parte de baixo. Se. ligeiramente alcoolizado. a Sonâmbula caminha sem se chocar com os móveis da sala. Como ninguém da casa ainda a percebeu em seu sonho de sonâmbula. E podemos mesmo afirmar que. Pela noite. após nova 249 . podemos deduzir que se levantou porque não conseguia dormir e. caminhou pelo corredor até a sala. vai até a porta envidraçada que liga o interior da casa com o varandão do jardim da frente. encher o copo e. é mais um deslizar suave. silenciosa. sem acender as luzes para não perturbar o sono das outras pessoas da casa. longe dali. em movimentos lentos flutuantes. O irmão mais moço não se encontra na casa. duros. pois me parece difícil denominar os atos de uma pessoa em estado de sonambulismo.

indicou o que deveriam apanhar e ainda trouxe o carro roubado. chega até a borda da piscina e mija na água. nu. portanto. . é?! Então você já veio aqui antes.---------indecisão. retorna pela sala entrando no corredor. Na manhã seguinte. Era isso o combinado: o Ladrão pulou sozinho o muro da casa. Debruçada na cama. contrapondo-se ao espelho. começa a se pintar no escuro. pegar não dois mas três comprimidos e tomá-Ios com água. Cacilda. desvendou a disposição dos quartos. O marido intervém: . Rê? Comendo escondida de noite? Por isso essa barriguinha? A Sonâmbula pensou logo na sua velha mãe. prerrogativa de quem levantou o serviço. Porém o que sabemos nós das motivações de uma pessoa sonâmbula? A Sonâmbula toma uma decisão: vira-se.Teus patrões dormem cedo. foi a senhora que fritou dois ovos ontem de noite? . não sei se de olhos fechados ou abertos. Pensou e calou-se. A coisa ficou por isso mesmo. o marido revira-se na cama. A Sonâmbula agora penteia os longos cabelos negros.Acordei hoje e encontrei a cozinha toda bagunçada. seu companheiro ficou no carro vigiando. Ficou com a parte mais fácil. a Sonâmbula fritou ovos na cozinha durante a noite. senta-se e.O que é isso.Eu não. A três quadras dali. abre a porta do quartinho e. espiou a casa durante vários dias. seu sem-vergonho?! Não foi desta vez. a nova empregada tudo vê e reclama quando ele volta: . nem Rejane nem ninguém ficou sabendo que havia uma pessoa sonâmbula na casa. cheia de manias. o motorista sai de cima da nova empregada. com 250 .Dona Rejane. podemos reconstituir facilmente os pensamentos e ações de quem não consegue dormir de noite. pronto a dar sinal caso notasse alguma coisa estranha. Antes. Incomodado por alguma coisa em seu sono. abre a porta de seu quarto. Nunca me viram. enquanto servia o café a cozinheira interrogou: .Nunca te viram. que idéia! . na casa de tijolos aparentes. Há algum tempo atrás.Ficou louco. retira da gaveta da penteadeira o estojo de maquiagem. Alguém andou fritando ovo e deixou tudo sujo. alguém pode te ver! . Muitas vezes na vida tivemos insônia e.

Vamos embora. e tem a coragem de dois cigarrinhos fumados há pouco. quando vê do lado de dentro no escuro um vulto branco quase como a estátua dojardim. quando foi abrir a porta no escuro para ir na privada. . preto mas bom homem. É apenas um menino. meu pai! Meu querido paizinho! Vira de lado e continua a dormir. a Ladrão é moço. coisa fina. saiu bem alimentado com as comidas trazidas pela sogra da casa dos patrões. A cozinheira reza para que o genro arrume um emprego melhor. Para que a filha não seja tão luxenta. Tem o quê? Doze anos? Sentado na cama da enfermaria. ágil. e com a faca começa a forçá-Ia. A velha mãe acorda agoniada e suspira: Ai. Está cada vez pior. Tenta rezar para ver se dorme. parece que nem consegue mais respirar.Deu pra pegar alguma coisa? a a a a 251 .Que que é isso? Que sangue é esse? . A cozinheira deitada ao lado da filha e do netinho na única cama genro já saiu faz tempo da meia-água não consegue pegar no sono.a tampinha do frasco passou perfume nos sovacos. o ar só sai. para seu serviço de vigilante noturno. muito decotada. Ladrão experimenta a grande porta envidraçada. já sabe que não tem alarme na casa. Pensa na última vez que veio pousar na casa da filha. homem trabalhador mas sem sorte. De acordo com as instruções do companheiro. A cozinheira incomoda-se com aranhas. no jardim. não implique tanto com o marido. será? Ladrão não se assusta com a estátua. de dia. no meio das árvores. tadinho. companheiro se assusta com o Ladrão pulando o muro de volta: . meteu a mão numa aranhona caranguejeira que estava na maçaneta. no gramado. balançando as pernas que não alcançam o chão seboso. quase gente. Susto tão grande que precisou tomar água com açúcar para se acalmar. Para que o netinho sare logo daquelas grosseiras que tem no rosto. por isso não consegue dormir. Ele vai morrer. respiração gorgolejante. não entra. atrás da orelha e nos seios livres soltos cobertos pela camisola transparente. olha e pensa no velho jardineiro deitado na cama ao lado. a sangue pegajoso escorre pelas suas pernas abertas. sabe que o melhor será subir pelo varandão e arrombar a grande porta envidraçada. desta vez. Esta noite.

. aí a porta abre e me aparece uma puta duma mulher. . Matou alguém? .Me dá um cigarro.. Em seu sonho..Deu crepe. pulei fora e corri. Me assustei.Você não vai acreditar. apagar ela. Com ela ali o roubo já estava perdido mesmo. entrando e saindo sem nunca se largar de dentro. um grito que veio assim como lá de dentro: Aaaaiiii . mesmo no escuro deu para perceber que estava sem calcinha.Senta no jornal senão suja tudo.. quentura esponjosa que vai pegando forma. a Sonâmbula geme alto: Aaaaiiii . penetrando seu corpo adentro. Ela me olhando quieta e aí levanta a camisola. Me dá um cigarro. Sabe como anda a minha barra com os home. quente. viva. tomando conta de tudo. uma morenaça de camisola transparente. Água oleosa. vambora! _ Tá cheio de sangue na cara.Abre essa porra de carro de uma vez! . se oferecendo. carnosa. _ Não quero ter nada a ver com essa história.Você matou alguém? Deixou a faca lá? _ Não dá para acreditar.. No sonho. olha a tua roupa.. Te pegaram? -Nada. quente.E o sangue? Onde você arranjou essa sangueira toda? 252 . Eu ia pular em cima.Não me põe em fria. a Sonâmbula se vê deitada na banheira e sente a água morna. . Mas aí na hora do gozo ela me dá o maior grito. Tô lá na porta que você falou. . Juntei ela ali de pé mesmo. .

Mistério do menino morto .

Eram gansos. nunca pensamos em mandar tirar. Fui muito feliz nessa foto.Deve ter ficado bem bonita. Era uma mulher bonita. loiro de olhinhos vivos bem azuis. Disse isso como quem diz ele está bem.. quase maiores do que ele. meio judiada mas ainda inteira. imagens já nem pensadas mais ou nunca registradas pela memória. Ele morreu. . Passou nem um mês e a mãe dele vem me procurar .Meus pêsames. Não temos nenhuma fotografia dele . usava métodos próprios muito eficientes. bonito. por isso mesmo queremos a foto. Fotografei o menino quando ele ainda estava vivo. Eu continuava sem saber o que falar. Em poucas horas estava morto. imagens sempre revividas como o lento entreabrir dos ofegantes lábios úmidos da mulher amada ao dizer eu te amo.Foi três dias depois que o senhor esteve lá fotografando. Deu uma bela foto. o menino sorrindo mas meio assustado. 255 . achei o que eu estava precisando: o instantâneo de uma criança dando de comer aos gansos. tudo é lembrado.Ele tinha só cinco aninhos. imagens de toda uma vida no instante mesmo da morte: não se esquece jamais e não importa mais. Foi de meningite..o pai eu não cheguei a ver quando estive no sítio fotografando -. cercado pelos gansos brancos de longos pescoços. nunca sei nessas horas. E não é só quem morre afogado. logo depois do primeiro beijo. Quem sabe o que pensa uma mãe? .Obrigada . O loirinho carregando braçadas de grandes folhas de couve e a gansaria toda correndo atrás e grasnando. A mulher ficou esperando que eu dissesse alguma coisa. rapidamente como num filme.Quando alguém está se afogando vê passar. Sem explicação.. Ela não: ... de cores brilhantes: em primeiro plano.Mas como? Ele . Eu disse: . Eu não sabia o que dizer.. o avô dele tinha uma criação bem-sucedida.. Quando vi aquele menino. toda a sua vida. deu assim de repente. . da hora da saída do ventre materno ao indesejado instante final.. bem nítida. ela queria uma foto: . Coisas tão desimportantes quanto o sonolento vôo de uma mosca na sala de aula.. dizem que nos segundos que antecedem a morte o mundo todo vê sua vida passar.

Lembrou o menino daquela história do Pedra Malazartes que a mãe contou então? Aquela do Malazartes que de preguiça não comia nada e estava morrendo de fome. a alegria assustada de dar comida aos gansos durou o mesmo tempo da imagem sem contornos. Depois a mãe esticava bem o braço. reflexos dourados do sol. No que ele estava pensando quando morreu? Será que é igual a gente grande? Será que também repassou a vida dele . a mãe rodava nos dedos uma bolinha de vidro azul e encostava nos olhinhos do menino. a bolinha azul brilhando lá longe. Olha como ficou bonita: 816 357 492 Antes de mandar entregar. nem cobrei nada.palavra que talvez uma criança de cinco anos nem saiba dizer. Na hora da morte o menino riu novamente dessa história? Na relembrança. eu ficava olhando a foto: coitado do guri.Fiz a ampliação e mandei. aninhado na cama materna. da emoção indefinÍvel da256 . aí passa um homem vendendo banana. "Não tá não". teve a mesma duração daquela manhã dourada? Quando ele. naquela manhã de verão. é claro. "Está descascada?". da febre alta. então ele via o mundo através do azul luminoso girante. A parte da dor. Já iam carregando com ele para o cemitério. pergunta o preguiçoso Malazartes lá do caixão.na hora da morte? E será que tudo passou com o mesmo peso de tempo? A dor forte na nuca .vidinha curta . responde o vendedor. para ele devia ser atrás do pescoço. e Malazartes ordena: "Então toca o enterro!".

quela noite na varanda ao luar. mas quero ver uma vez mais o gemido que escapou dos seus lábios entreabertos.apontava as estrelas. perdida e nunca mais achada? Difícil dizer. eu dirigindo? Ou na longa dor da desagregação do corpo. E que lembranças vou reter na minha hora? Talvez então me venham com clareza momentos passados desapercebidos da primeira vez que tive você nos meus braços. Só saberei de fato quando. Como será? Vai acontecer rapidamente num desastre de carro. E você desaparecerá comigo para todo o sempre. você diz todas as letras do meu nome (como se chamava o menino morto?) e eu sinto a extensão do prazer. um espaço infinito no tempo da minha vida: como se fosse sempre assim e assim sempre será. ouvir o cheiro doce que se espalha de seu prazer. o menino ficou sabendo onde é que foi parar a bolinha de borracha vermelha. 257 . Nossos corpos colados. a podridão em vida. Na morte o menino levou a memória junto. na hora da minha morte. contava coisas da lua de São Jorge brilhante lá longe no negro céu azul do sonho? No repassar de sua vida. como a lenta agonia de meu pai? O câncer roendo pedaços dos lábios dele que iam soltando quando se passava algodão molhado para mitigar sua sede. você já existia? Ou seria amarela e não azul? Não sei. acabamos de fazer amor. É este o sentido da minha vida. E será bom lembrar. será que experimentarei outras vezes o prazer que tantas vezes sinto no seu corpo? Então o estar morrendo valerá a pena? Agora você está ao meu lado. quando a moça de cabelo preto quem era ela? . No relembrar. sentir a cor do seu corpo colado no meu pela gosma do seu gozo. como num filme. as imagens da minha vida desfilarem nos meus olhos. Não pude evitar. o mesmo corpo. comecei a pensar na minha própria morte. Nem água ele agüentava mais tomar. o prazer que você me dá? Você já existia quando eu nem conhecia você? Quando o menino via o mundo no alumbramento azul da bolinha de vidro nas mãos da mãe. Não que eu tenha esquecido cada instante.

() mistério do gato preto e da gata gorda .

um rabinho como o de um gatinho. as coisas têm de ser do jeito que eles determinam. uma mecha mais comprida descendo um pouquinho pelo pescoço. Não era a palavra que mais saía de sua boca. pêlos macios. esparsos. Da primeira vez que os beijei. Mais do que as dos homens. o gato. A noite é território dos gatos. porém tinha pêlos bem pretos espalhados pelo corpo bem branco.Eu sou um homem. como que para ver no escuro. Mais do que os homens. bem redondos. os negros olhos dela são redondos como olhos de gato. se os pêlos tiverem três cores só podem ser fêmeas.mas não dava o braço a torcer. os gatos sabem ver o que se esconde no negror da noite. queria se entregar a mim .tanto podem ser machos como fêmeas.preto e amarelo.fazia bastante frio naquela noite. dizia mil coisas: ''Você é um louco!". firme. escondia o que sentia. não se entregam fácil. A primeira coisa que chama a atenção nela são os cabelos cortados bem curtinhos. e eu brincava: "Parece um hominho". como vi em outras mulheres. lisos. Ao contrário do homem. Porém. seus pêlos são bem macios. uma francesinha. 261 . com grandes olhos bem pretos. Debaixo das grossas sobrancelhas pretas. e correm todos na mesma direção. Gatos com pêlos de uma ou duas cores . No cangote. por exemplo . a Danielle. Alguns animais têm pêlos ásperos. querem agrado mas fingem não querer. espalhados. Não que ela fosse peluda. Não é qualquer pessoa que consegue lidar com gatos. Só gatas tem pêlos de três cores. gatos não.e como queria . Foi a segunda mulher que conheci com pêlos no peito. a outra foi uma namorada que tive quando garotão. inventava mil pretextos. gatos não. Vida sem surpresas. a luz estava apagada e eu pensei que eram do cobertor lanhudo . Os bicos róseos dos seios dela são rodeados de parcos pêlos pretos. igual a qualquer outro animal. Coisas da raça. fininhos. Cara branca redonda como a de uma gata. Ela também era assim.já nasce com o destino traçado. mil desculpas. Gatos costumam ser altivos por natureza. que chupei. Antes de vê-Ia nua eu imaginava que teria uma vasta pentelheira de pêlos compridos espalhados em várias direções. as pupilas dos gatos se dilatam no escuro. Disfarçados como eles só. curtos.

A primeira parte do corpo dela que toquei foram os cabelos curtos bem pretos. empurrava minha cabeça. dengosos.Que nada! Era uma pequena moita de poucos pêlos curtos bem macios correndo em direção à sua fenda. Ela sentia grande prazer com isso. eu a chamava de gatona gorda. na cama. ela fingia que não estava gostando. Minha gatona gorda. quando minha língua acariciava seu sexo. rija debaixo da pele branca como nunca vi igual. E era tão bom! Como acariciar um gato. eu mordia as coxas dela no meio das pernas. O desejo me corria pela ponta dos dedos. se oferecendo para agrados. Eu não sou gata. gato preto. pêlos quentes. ficava a marca dos meus dentes bastante tempo. Acariciei ao contrário do sentido em que eles corriam. quando sugava seus seios. Parecia estar gozando quando eu beijava sua boca. eu gostava de passar minha língua no pequeno buço que encimava seus rosados lábios carnudos. e nada de carnes moles. às vezes tirava sangue. O único lugar onde você pode acariciar um gato no contrapelo é a barriga. Depois de fazer amor. Eu sentia um grande prazer em morder as coxas dela e vê-Ia renegar o gozo que fingia não sentir. Buço ralo que mesmo assim ela descoloria. empurrava. Na hora de beijá-Ia. no gozo. vaidosa que é. Mulher que não se entrega. ela se vestia sem se lavar. mas fingia raiva. Aquilo doía de gozo. Gatos não gostam que a gente revire o pêlo deles. Ela ficava louca de raiva quando. estriados. não sou gorda e não sou tua! E de raiva enfiava fundo as unhas nas minhas costas. Numa das poucas vezes que falou coisas carinhosas para mim. Não era gorda. parecia que ela gozava muitas vezes o mesmo gozo. disse que fazia isso para ficar mais tempo com o meu cheiro no corpo. puxava de volta. Como gata no cio. primeiro roxa depois preta. eu sei. entregue. perto do sexo. Na coxa macia de pele branca. Na hora do gozo ela exalava um cheiro tão bom. depois amarela. nossas gosmas se colavam. cheiro de limão e suor quente. sensível. irritado mas sem coragem de se libertar. O gato fica sem ação. Eu também mantinha o 262 . com os dentes. puxava de volta. e somente quando estão deitados de dorso. pela palma da mão. Com os dedos. quando meu sexo estava dentro dela e quando. disfarçada. eu revirava seus pentelhos. Só tem um jeito da gente dominar um gato: acariciar forte a espinha dele na região entre as omoplatas nas patas dianteiras. era rechonchuda. Fingindo vingança.

Meu coração pára de bater. Antes de você só tive o meu marido e com ele eu nunca senti nada". o calor do meu corpo se esvai para sempre. Você foi o primeiro homem que me fez gozar. Não sinto mais a dor. pode reparar. Sobre eles se cria como que uma tela viscosa. Não sentirei mais o cheiro da mulher amada e não tenho querer. não gostam de mostrar dependência. Eu não sabia o que pensar. se instalam no nosso colo. Soltei um grito fraco da dor rasgada que senti. a boca se abre e não se fechará mais. Meu rosto toma a forma da morte: olhos cavos. Quando se entregam. De dor abro a boca para engolir o ar. eu ainda sentia o cheiro do prazer da minha gata gorda. Minha pele seca e toma a cor cinza. chegam de mansinho. O sangue não circula mais nas minhas veias. Levantou-se da cama e eu continuei deitado pensando no que ela tinha dito. mas também não era de mentir. ela me apertou forte e disse: "Eu nunca tinha gozado antes. De noite. Gatos são animais estranhos. 263 . manchas negras cobrem minha pele. minha voz não se fará ouvir e eu nada escutarei.cheiro do gozo dela comigo. não nos olham nos olhos. Não consigo me mexer. A morte toma conta de mim. mas é um gemido arrastado com gosto de sangue que desce pela minha garganta. depois de fazer amor. na cama. Imóvel. Ela veio com uma faca e enfiou na minha barriga com toda a força que tinha. A respiração abandona meus pulmões secos. As marcas do cadáver: meu nariz torna-se mais pontiagudo do que era. Meus lábios pendem. e ela me amava. quebradiça. O sangue mancha a mim e a ela. vêm como se fossem para outra direção. Com as duas mãos empurrando a faca. ela não era de fazer confidências. nem de falar coisas de amor. ao lado da minha mulher dormindo. os pêlos das narinas cobertos de uma poeira esbranquiçada. à espera de quem venha fechá-Ios. Desvencilhou-se dos meus braços e beijou meu sexo. elajoga o peso do corpo sobre mim e a faca penetra mais fundo. eu nada vejo. fica desagradável ao tato: mas quem vai querer me tocar? Pelo sangue escorrido. nem as mãos eu lavava. Um dia. com uma orla enegrada. como se ali não estivessem ou não quisessem estar. abertos. perdem o brilho. estávamos abraçados. se fosse verdade eu amava aquela mulher. Mas se deixam ficar e sonham sonhos bem quentinhos.

o que vaI dificultar quando forem vestir meu corpo. Pensa no nada. o nada nada ada da a 264 . Meu cérebro não pensa mais.Os músculos começam a enrijecer.

() misterioso homem .macaco Como tudo comecou • ..

Calorão da mata. também não arredavam dali. musculosa. Não adiantava espantar as bichinhas. que refrigério! Me sento num toco e vou tirando a garrafa do bornal. Não sou chegado a carne de macaco. o macaco. até o ipê. De vez em quando puxava o facão da bainha presa na cinta para abrir caminho na mata densa. Pendurado pelo rabo num galho mais alto do ipê. faziam a travessia de uma peroba para um ipê vizinho. tanta a sede de nós dois.Eu ia sozinho cantando: Ta-tu Peba Tatu Pe-reba Ta-tu bola Tatu en-rola ~ i Eu ia sozinho mais o cão. me cobriam a cara sugando meu suor pegajoso. ele caía e ia se esborrachar no chão lá embaixo. de donde seguiam caminho. Segurava uma 28 de chumbo e nas costas uma Winchester 22. Meu rosto preto daquelas abelhinhas miúdas. Se um errasse o salto. braços levantados. Já ia por volta das desoras e eu ainda não tinha caçado nada. camisa molhada grudada no corpo. sombreada pelas copas de muitas árvores tapadoras. Mais de uma vez tive de atorar cipó com o facão para beber a água de dentro dele e dar para o cão. Ao cão não incomodavam por causa do pêlo. a língua do Divino sempre de fora. tirando dele alimento para fazer seu mel azedo. também pendurado o bornal com os cartuchos dos dois calibres. Depois de muito andar chego numa clareira. lá no alto. um deles apanhava o companheiro no ar e. Era um bando de macacos que. a garrafa com café adoçado e pão de milho para mim e o Divino. Bicho danado de engenhoso. atirava-o são e salvo num galhão grosso do ipê. bom veadeiro. pretas que nem mosca. mas como eu não tinha comido nada até aquela hora. Mata escura. e dali um de cada vez dava um salto. que não usava barba naquele tempo. iam caminhando pelo galho pelado da peroba bem até a pontinha. de raro deixando entrever uma nesga de céu muito azul sem nuvens. sabor azedo. se não picavam. fechada. balangando-o. acho muito seca. mas também de muita serventia para outras caças. prestimoso que era. máscara preta cobrindo minha cara e fazendo aumentar o calor sentido. mas em mim. ou se o outro não o agarrasse em tempo. também eu suava. Coisa até interessante de se ver. nisso até se parece com gente. quando ouço uns guinchos ardidos. 267 .

catei a Winchester e me levanteijá apontando para o alto. Divino nem reparou na cena, entretido que estava com o seu descanso. Cachorro é bicho mais preocupado com as coisas da terra, o que se passa lá em cima não lhe interessa, senão já estaria latindo feito um condenado. Já o macaco, lá no alto, sempre se preocupa com aquilo que se passa no chão. Quando apontei a arma quase todos já tinham passado, sobrava só um retardatário no galho da peroba. Aquele outro que estava pendurado pelo rabo no ipê, quando me viu, num átimo pulou para o meio das folhagens e sumiu da minha vista. Mirei então o retardatário, sem o companheiro que fugira não tinha como pular para o ipê. No comprido galho onde estava não tinha ramagem para se esconder, e o tempo era pouco para ele correr até um lugar mais coberto: eu atirava antes. O que fez ele quando se viu perdido? Se meteu a gritar e pular de desespero. Não morreu ali na hora porque não atirei logo, me distraí, rindo que estava de suas macaquices. Quando o bicho se tocou de que eu ia mesmo atirar, pegou das costas um macaquinho bem pequeninho e o levantou nos braços para me mostrar. Vi logo que era uma fêmea com sua cria recém-nascida. Gritou, se ajoelhou e se pôs a chorar - macaco é quase como gente -, uma mãe me pedindo para eu não matar seu filho. A gente faz muita maldade na vida, e na hora não percebe. Eu, ali, fiz uma que fui pagar bem caro depois, caro demais. Mas na ocasião não pensei em nada, e dei com o dedo no gatilho da Winchester, Bang. O que voou de pássaro com o barulho! Tiro certeiro: a macaca despencou lá de cima - queda demorada de tão alta - e veio se estatelar no chão da clareira. Só então o Divino se deu conta e correu latindo para a caça estendida, morta. Corri junto, queria ver. Cheguei antes, e foi bom porque salvei a presa que o cão ia comer. Coisas de mãe que só Deus explica: não é que mesmo morta a macaca deu um jeito de proteger a cria?! Ela caiu segurando o filho e, quando bateram no chão, o corpo dela amorteceu a queda. Morreu bem mortinha, mas salvou o filho. Quando percebi que o cão, nervoso, rosnando, ia abocanhar o filhote, dei um pontapé no focinho, Passa, Divino!, e protegi o bichinho com as minhas mãos. O cão perdeu o filho mas ganhou a mãe, e aí abriu a bocarra e, numa sentada, devorou o cadáver morto da macaca, só deixou pele peluda e osso grande, o resto mandou para as tripas e ainda ficou lambendo o sangue do chão.
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tremia e chorava nas minhas mãos. Magrinho e miudinho, pensei, mas vai me servir de janta. Coloquei o bichinho dentro do bornal e com o calorzinho ele parou de tremer, aos poucos se acalmou, acho que até dormiu quieto, esquecido da morte da mãe. E eu peguei o caminho de casa. Na volta perdi o Divino. Caminhou uns tempos ao meu lado, normal, depois parou e devolveu tudo o que tinha comido, vômito verde, fedido. Aí passou a caminhar inquieto, parando a toda hora para se mijar, sem levantar a pata, que nem uma cadela. Todo nervoso, começou a latir e a correr em roda tentando morder o próprio rabo. De repente, deu uma guinada e disparou ganindo, e sumiu no mato. Chamei, chamei, mas ele não voltou; ainda pensei em correr atrás dele, mas a mata era muito fechada e desisti. Nessa hora o macaquinho pôs a cabecinha para fora do bornal e espiou, olhinhos bem abertos, a mim me pareceu que ele até estava dando risada. Percebi então que a queda não o tinha afetado. Chegado ao rancho, contei a caçada pra minha mulher e mostrei o macaquinho. Seu malvado, ela me repreendeu. Isso não é coisa de cristão fazer. Achou bonito o bichinho: Tadinho, deve estar com fome, o pequeno órfão!. E se tomou de dores pelo macaquinho. Foi tirar leite da cabra, e de um vidrinho com um chumaço de pano no gargalo aprontou uma mamadeira. O danadinho se achou! Era até bonito de ver aquele toquinho feioso, agarrado aos peitões da minha mulher, tomando seu leitinho adoçado com rapadura, chupando a mamadeira. E como mamava, o desgraçadinho! Não havia leite que chegasse. Não fosse, um dia depois, o cabritinho ter morrido de picada de cobra, não sei se a cabra ia ter leite suficiente para o sustento dos dois. Mamava tanto que dali a uns dias já estava forte e grandinho. Não sei se foi pelo leite de cabra, mais forte do que o leite da macaca sua mãe, ou se foi pelo fortume do açúcar de rapadura, só sei que lhe caiu quase todo o pêlo, deixando à vista sua pele enrugadinha, parda, mosqueada. E daí ficou ainda mais parecido com gente humana. Minha mulher andava com ele para cima e para baixo, se tomou de amores pelo bichinho. Não largava dele nem para cozinhar, enquanto segurava o danadinho com uma das mãos, mexia nas panelas com a outra. Para cuidar da criação e trabalhar na roça, levava o macaquinho atado nas costas. Ele bem que gostava, ficava o tempo todo agarrado à minha mulher, como se ela fosse a mãe dele, a falecida. Dormia na nossa cama, os dois abraçados como mãe e filho.
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o macaquinho

Tinha um pintão enorme, cabeça de prego, e para esconder essa vergonha minha mulher até fez umas fraldas, que trocava sempre que molhadas. Era muito dengue para uma criaturinha da mata, mas eu não ligava. Nossa filha já andava com doze anos, viçosa, bonita, carregava as tristezas próprias da idade, vivia ensimesmada, já não era companhia para a mãe. Nosso filho, Pedro, naquele tempo andava buscando ganhar a vida na cidade e quase nunca vinha nos visitar. Mulher é bicho diferente, tem suas coisas, suas manias, e desde que não incomode os outros o melhor é deixar. O carinho dela pelo macaquinho não perturbava ninguém, nem a mim nem à nossa filha. Se isso trazia alegria para ela, se diminuía sua solitude naquele rancho perdido no meio do mato, por que se incomodar, se existem tantas outras coisas para a gente se preocupar nesta vida que Deus nos deu?
Não é mesmo?

Assim foi indo até aquela noite da tempestade. Foi logo depois da janta,já muito escuro começou um vento forte, assobiador, e despencou uma chuvarada forte como nunca se viu antes, um verdadeiro dilúvio. Um frio úmido começou tão de repente que tive que me enrolar no cobertor. Era um relâmpago atrás do outro. A mulher queimou as palmas bentas e rezava assustada para Santa Bárbara. A menina tinha pavor de raio, se abraçou a mim fechando os olhos contra o meu peito, e assim ficou. Só o macaquinho parecia não se incomodar com o temporal, dormia o sono dos justos bem grudadinho na minha mulher. Foi a noite do cão. O medo não deixava ninguém dormir, nem sei como as águas não levaram embora o meu rancho, as horas foram passando e nada da chuva querer diminuir. Até que se deu o acontecido: na madrugada, nós três ainda acordados, assustados, molhados até os ossos pela chuva que caía pelos buracos do teto, e não é que de repente o macaquinho acorda, abre os olhinhos, se levanta, caminhando vai até o fogão, risca um fósforo e acende a lamparina? Na hora até que a gente não estranhou esse seu ato. Afinal, macaco é bicho esperto, achamos que o que ele fez não tinha sido nada mais do que imitar um gesto que tantas vezes nos viu fazer. O de causar espanto era ver a chama da lamparina, que, naquela ventania toda, se mantinha reta, firme, bem luminosa. O macaquinho veio se chegando perto de nós trazendo a lamparina acesa, nos olhos, bem nos olhos, e falou com um vozelrao grosso: - Eu me chamo João da Silva! Cruz credo, Ave Maria, te esconjuro! Já vi muito animal inteligente,
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mas nunca dantes nem eu, nem ninguém, viu bicho falar, ainda mais macaco. Foi um susto só: a menina começou a chorar de medo, o queixo da mulher caiu lá embaixo, os olhos arregalados, nem sei se de espanto ou terror. - Eu me chamo João da Silva! Dito isso, tirou o pinto para fora da fralda e, rindo de gargalhar, mijou quase ao pé da gente no chão de terra batida, mijou tão forte que abriu um buracão. No exato momento da mijada, caiu um raio tão forte, tão estrondoso que alumiou o mundo todo. Tão forte que a noite clareou como dia e derrubou o flamboyant que meu avô plantara na frente do rancho, queimando num fogo que nem a chuva conseguiu apagar, aquilo que talvez fosse a única beleza daquela terra. Eu me chamo João da Silva... foi assim que tudo começou. Foi nessa noite amaldiçoada que ele se revelou, que se fez homem aquele macaco amaldiçoado que em maldita hora eu fui trazer para dentro da minha casa. Esse macaco que fez o padre enlouquecer no dia do seu batizado. Que na escola onde foi aprender as primeiras letras atazanou tanto a professorinha que ela, coitada, abortou. Esse macaco que sempre tratei como filho e que abusou da inocência da minha filha, sua enteada, e fez mal para ela, matando minha mulher de desgosto. Que, com suas artimanhas diabólicas, fez meu filho Pedra pagar por ele, até hoje cumprindo pena na cadeia por um crime que o macaco cometeu. Que de tanto me judiar, me transformou no velho aleijado que hoje eu sou. Tanta sacanagem, tanta maldade, tanta coisa ruim esse João da Silva fez, e ainda faz em suas andanças pelo mundo, que se eu fosse contar levava a vida inteira e ainda não chegava ao fim. Não gosto nem de lembrar dos crimes hediondos que esse ser maligno cometeu. Mas, se você não tiver medo de ouvir e, para se precaver, quiser saber de toda a verdade sobre esse homem-macaco, um dia eu me armo de coragem e te conto tudo.

271

Mistério
~

maglco

.

num gesto rápido desvira o Rei de Ouros. valetes . e atira-o em direção das mesas onde estão os espectadores sentados.. setes. do nada. Cartas de todos os naipes. damas. que tem seguro pelo polegar e o indicador. na frente dos meus olhos!. Da ponta de seus dedos.Olhem fixamente esta carta! Viram bem? É um sete de paus! Correto? Errado! É um rei de ouros. reis. três. de surpresa e espanto e mesmo alguns risos nervosos. Óóóós 275 .. Somente algum tempo depois é que os espectadores começaram a bater palmas assombrados: Eu via um sete e ele se transformou num rei. O Mágico domina sua platéia e não lhe dá folga para pensar. vão surgindo outras cartas que ele vai atirando: noves.

esbelto.. o porte esbelto. As brilhantes luzes do palco em seu corpo bem torneado quase despido na fantasia de odalisca. Cortina preta brilhante ao fundo do pequeno palco. toalhas de linho. nem tão moça. olhos fixos na ponta dos seus dedos. O chão do pequeno palco e parte do salão onde estão as mesas se cobrem de cartas: setes. para colocá-Ia no ritmo em que as cartas vão surgindo das mãos do Mágico: cravo branco na lapela de cetim da casaca preta brilhante. sem os sapatos de salto alto bem fino. algumas mulheres ousam desviar os olhos da ponta dos dedos do Mágico para se fixar na assistente vestida de odalisca. três. O pianista tenta acelerar a música que toca. de roupa comum. cabelos pretos bem curtos esticados por brilhantina. algumas cobertas de peles legítimas. pernas longas. oficiais das três armas. loiro natural. summers e uniformes de gala. o traçado do rosto. Na obscuridade. rosto anguloso. O palco em semicírculo é uma pequena elevação ao fundo do salão. reis . o rosto branco cortado em cima dos lábios por um bigodinho reto preto. "Caravan" de Duke Ellington. outras ao lado dos amantes. industriais.. meias pretas de seda. debutantes. gravata-borboleta do mesmo cetim preto brilhante da lapela. Que idade terá ela?. formando um pequeno bico no meio da testa. damas de caridade. encantados. nem tão formosa. sapatos pretos de verniz brilhante. fora das luzes brilhantes do palco. a pergunta mais perguntada.. peitilho engomado liso branco brilhante. algumas ao lado dos parentes. a boca carnuda bem traçada coberta de batom vermelho. justa no corpo. de onde as cartas surgem do nada. mais elegante que muitos dos espectadores em seus smokings. algumas velhas. todas em seus vestidos de noite decotados. fazem dela a mulher mais formosa no salão. que assistem ao espetáculo nas mesas do salão. personalidades do mundo das artes. Umas ao lado dos maridos. Figuras da sociedade. surpresos. Talvez.o Mágico domina. Enquanto as palmas ainda ecoam pelo número das cartas. Impecavelmente vestido em sua casaca preta brilhante. algumas com chapéus.. bigodinho preto bemcuidado. a maquiagem acentuada. talvez não seja tão alta. As luzes de cena criam uma aura branca brilhante em torno da figura esguia do Mágico e ofuscam a vista dos espectadores enlevados. embaixadores. a odalisca traz um grande aquário redondo e o coloca sobre a mesinha de 276 . abotoaduras de ouro maciço. pele sem nódoas. Algumas moças. membros do governo . algumas com luvas. coberta de jóias douradas como o ouro do seu cabelo comprido solto. Talvez se iguale em beleza às mulheres que a invejam.

Com o susto. intranqüilos na água agitada do grande aquário redondo. aproveitam para servir champanhe francês trazido em baldes de metal branco brilhante e. O Mágico não dá tempo para a platéia respirar. Pela frente. com o Mandrake do gibi! 277 . Depois. Depois do susto. ainda em meio às palmas a bela assistente loira vestida de odalisca traz sobre uma mesinha com rodas uma grande caixa dourada. entrega-a para a assistente e com as mãos suspende o aquário envolto com o pano preto. Na pequena pausa. trançado com finos fios de metal prateado. garçons solícitos. caudas transparentes douradas. Três peixes dourados de longas barbatanas. fecha-a e passa em volta uma corrente de metal dourado. o aquário desapareceu. Caminha lento para a platéia. para algumas mesas. com muito cuidado para não entornar a água do aquário coberto. O Filho do Presidente comenta com um rapaz que está ao seu lado: Já sei com quem ele se parece. num gesto brusco atira a forma do aquário que tem nas mãos em direção aos espectadores. Ajuda a assistente a subir e a entrar agachada na caixa. decorado com aplicações de meias-luas e estrelas de lantejoulas prateadas. em suas calças pretas paletós brancos gravatas-borboleta vermelhas. e. litros de uísque escocês e sifões em garrafas bojudas de vidro opaco. as palmas da platéia. o Mágico abre a caixa puxando uma tampa presa por dobradiças na parte de cima. O Mágico faz gestos ondulantes com sua vare ta fina preta. lacrando-a com um cadeado dourado cuja chave guarda no bolso.longos pés de metal brilhante. subitamente. com medo de se molhar: o Mágico tem nas mãos apenas o pano preto decorado com estrelas e meias-luas prateadas. todos jogam o corpo para trás. no centro do palco. enquanto o Mágico cobre o aquário com um pano preto brilhante.

fazendo as pontas saírem do outro lado. o Mágico mostra a sua mão também limpa. o Mágico choca-se com o Filho do Presidente. abre rápido o cadeado. que se acha atrás da caixa dourada. Em seu andar cego. para mostrar que as espadas estão bem afiadas. olha horrorizado para sua mão manchada de sangue e. mas como ele fez isso?. retira a corrente e abre a caixa dourada. e entre exclamações de admiração. O Mágico. o Mágico vai para a frente da caixa dourada e. deixando impressa uma mão de sangue no peitilho branco. Nem o rapaz nem seus guarda-costas sabem como reagir. assustado. sem saber o que fazer. A música recomeça. três.Ao lado do Filho do Presidente. o Mágico retorna rápido para a platéia e põe o véu azul sobre a mancha de sangue no peitilho da camisa do Filho do Presidente. que agora está toda em pé. já estará morta rasgada por seis pontudas lâminas afiadas. a caixa está toda transpassada. impecavelmente gomado. Percebendo a agitação. o pianista também se levanta para ver o que está acontecendo.já vem suja de sangue vermelho pegajoso quente. Antes. toca com a mão direita no sangue. transpassa a caixa dourada onde está presa sua assistente. A platéia compreende tudo. Sorrindo. Incapaz de esboçar qualquer reação. com elas. voltando ligeiro para o palco. como um autômato. não vê o sangue que começa a escorrer através do buraco aberto pela espada: é pelo burburinho da platéia assustada que ele percebe que alguma coisa saiu errada no truque. Se a assistente ainda está lá dentro. Toma a chave dourada do bolso. É o próprio Mágico quem resolve a situação. seis. cinco. O Mágico agora segura sete espadas brilhantes e. A música parou. a Modelo de Capa de Revista ouve e não entende a piada. Alguns espectadores nervosos se levantam e procuram chegar mais perto do palco. e quando ele puxa o véu azul a admiração é geral: a mancha de sangue desapareceu como por encanto ante os olhos de todos. duas. que estaria vazia não fosse um véu azul transparente caído no chão. dirige-se com passos inseguros para a platéia. Alguns gestos circulares com a vare ta mágica. Uma. joga para cima sete véus de tule de sete cores e corta-os ainda no ar. enfia as espadas na caixa. com cuidado e muita força. estrugem palmas que 278 . Quando a ponta da sétimla espada surge na frente da caixa dourada. foi apenas mais um truque. quatro. resto da fantasia da odalisca. Chegou a vez da sétima espada. de sua camisa. que agora corre abundantemente.

diferenciadas apenas pelos números de 1 a 3A . e somente uma pode ser aberta. o conjunto musical assume rapidamente seu lugar no palco e começa a tocar música de dança. entre eles o Filho do Presidente com a Modelo. Porém. E você. e ele terá de prestar contas àjustiça pelo assassinato. Aberta. sabe qual a porta certa? É uma mágica.3 e 3A. sabe que tem que abrir uma única porta mas não sabe qual. morta ensangüentada pelas catorze perfurações por onde entraram e saíram as pontas das setes espadas. Ele precisa saber. qual das portas abrir. nunca ninguém havia visto truques tão assombrosos. qualquer uma das outras o conduzirá à prisão e à morte. o preço que terá de pagar por não ter sabido usar com sabedoria seus poderes mágicos. todos do lado direito. pois prejudicaria os colegas: que graça teria um truque que já se sabe como foi feito? 279 . esperando a volta do Mágico para. aspira cocaína. tem que ser a do camarim onde a assistente está viva. que entrará em cena logo mais. o Mágico hesita diante de qual porta abrir. aquela que o levará aos braços da assistente. ninguém notou que a assistente vestida de odalisca não reapareceu para agradecer os aplausos. à sua espera. Outra. O comentário geral é sobre as habilidades do Mágico. No corredor. abrindose a última porta encontra-se a assistente ainda vestida de odalisca. Não posso reveláIa porque fere a ética . Outra fecha um camarim às escuras que não será usado esta noite. Ele hesita. Foi vista pela última vez quando entrou na caixa dourada e se pôs de cócoras. comentarem a repercussão do show. Finalmente. quando aberta. os garçons retomam o serviço trazendo bebidas. sua companheira de mesa. O Mágico está parado no início do corredor. Iguais são as portas com a estrela dourada. O Mágico dirige-se agora para o corredor no fundo do palco. Alguns pares se encaminham para dançar na pequena pista. 2.o Mágico agradece curvando-se num gesto de humildade. Uma delas se encontra chaveada. mostrará a assistente de roupão. estendida num pequeno tapete azul. todos com uma estrela dourada na porta e identificados pelos números 1. enquanto o Mágico fechava a tampa.é vedado a um mágico revelar seus truques. para em seguida recolher-se aos bastidores. com certeza. depois de um prolongado beijo. Os espectadores sentam-se novamente. é a do camarim onde o cantor francês. onde há quatro camarins. Qualquer uma das três outras que abrir e o truque não terá dado certo.

claramente. com exagerado excesso de detalhes. onde está a chave do segredo. Fiz questão de dar indicações para que você percebesse. bem à sua vista. escolha. a 3 ou a 3A. abra.Ao executar a mágica destas páginas. eu passei a você todas as informações para abrir a porta certa: a 1. executei o truque bem devagar. A da vida ou a da morte? Você tem que saber. 280 . É um truque entre eu e você. De minha parte. Vamos. a 2. você tem todas as condições de abrir a porta certa: pense.

Um mistério .A cadeira do diaho .

Não vejo como isto possa interessar a você. meio voltada para a platéia. em 1887? 283 . na cidade do Porto. segundo alguns autores. alguém que vive nos dias de hoje. num país preocupado com os terríveis problemas sociais pelos quais atravessamos. pelo não menos famoso Steward Chamberlain) em Portugal. tratados de magia alquímica. À esquerda. A cena representa um laboratório de alquimista. filtros. estofada de veludo vermelho. papéis amarelecidos com encantamentos. se interessar por um mistério levantado pelo célebreAlexander Hermann (e. uma cadeira de espaldar com braços. exorcismos e pentagramas desenhados. espadas e punhais remontadas por um elmo. esferas de vidro azul e outros utensílios mágicos. À direita. provetas. Ao lado desse armário. um armário baixo de portas envidraçadas com muitos livros velhos encadernados. uma panóplia com algumas armas brancas. retortas. Mas como pode. pendurada na parede do fundo. alambiques.

não é? 284 . cerrada barba preta. vestido com uma longa túnica azul cerúleo brilhante onde vemos. das que usavam os antigos sacerdotes caldeus. para um angustiante problema de ordem pessoal que muito o aflige. Você não se inclui nesse caso. todos os planetas conhecidos até então. o Visitante revela-lhe a causa que o traz ali. olhos pretos perscrutadores. consegue ainda se concentrar e acompanhar longas orações que reportam feitos passados acontecidos com personagens inomináveis. que não encontrou até agora. bordados a ouro. vasta barba branca. àquele obscuro gabinete: a busca de uma resposta. de textos ligeiros. abre a porta e faz o Visitante entrar. O Alquimista.Alguém bate à porta do gabinete. dos quais a história não guardou registro algum e que não têm interesse aparente para os dias atuais. rodeados por estrelas prateadas. Não entendo como alguém acostumado comfrases curtas. Homem de uns trinta anos. a cabeça calva coberta por comprida e cônica mitra.

Estarão todos acostumados a escritores de vocabulário parco ou a jornais e revistas ilustradas com textos breves de palavras fáceis? Será difícil entender o significado de certas palavras usadas para descrever objetos de um mundo ao qual não se pertence? Uma ajuda: panóplias são aqueles escudos nos quais se colocam diferentes armas e com os quais se adornam as paredes.sabendo que o Visitante carrega nos bolsos uma grande quantidade de dinheiro. o Alquimista degola-o com uma aguçada espada que tomou da panóplia na parede. a fim de observar uma grandiosa e maravilhosa experiência científica que abrirá sua mente para a compreensão de arcanos herméticos que muito o ajudarão na solução dos problemas que o afligem. Tão logo o Visitante se acomoda na cadeira estofada. 285 . maliciosamente procura logo convencê-Io a descansar e assentar-se na cadeira estofada. o Alquimista.

não sei como pode ainda se emocionar com uma sangrenta ocorrência entre um falso mago e seu ingênuo cliente. para marcar o lugar certo do corte e impedir a vítima de pressentir o golpe. viseira cerrada. ) e acostumado a ver a imagem deles movendo-se nas telas da televisão ou fixada em fotos coloridas nos jornais e revistas de grande circulação.. Na verdade. acontecida há mais de um século num outro país. angustiada e revoltada. enquanto o ensangüentado corpo decapitado ainda perneia. 286 .b Não sei como pode alguém. a toalha serviu para recolher o sangue derramado. homens de negócios. líderes políticos. seu assassino e ladrão.. o Alquimista. cobriu a roupa do Visitante com uma grande toalha branca e colocou-lhe na cabeça um elmo medieval. De cima do armário. Nesse momento. contra o Alquimista. a Cabeça Cortada põe-se a vociferar. habituado a textos jornalísticos que exaltam personagens reais destes tempos de crise (povos em luta. artistas . o Alquimista toma a cabeça cortada e coloca-a em cima do armário baixo de portas envidraçadas e volta para revirar os bolsos e roubar o dinheiro do Visitante assassinado. a voz irada da Cabeça Cortada roga pragas contra o criminoso Alquimista. antes de consumar o odioso crime. que também retirou da panóplia. o elmo. É bom ressaltar que.Após a degolação. chefes de Estado. . sob o pretexto de protegê-Io das emanações dos produtos químicos utilizados na maravilhosa experiência que mostraria dali a instantes.

287 . e. ao som de sua estrepitosa gargalhada. some com ele pelo solo. Ao ver a alegria feroz com que o assassino saboreia o êxito de sua criminosa aventura. vermelhos olhos abertos. vestido com sua infernal roupa vermelha. Enquanto isso. de súbito. exclama com voz rouquenha. uma grande chama negra surge do chão. quase sem forças. Nela aparece um terrÍvel demônio com chifres. pele pálida graças à perda de sangue contrastando com a barba negra. numa estrondosa explosão de fumaça. a Cabeça Cortada. lábios roxos da morte. o pano cai vagarosamente.Alquimista arranca dos bolsos do ensangüentado decapitado notas e moedas de ouro. de ódio: Que Satã te carregue para o mais negro dos infernos! o Nesse momento. abraçando-se ao Alquimista.

é claro. recomendar a leitura de A propos de Ia sugestion mentale. respectivamente em maio ejunho de 1884. portanto. Confesso que minhas capacidades não chegam aos pés desses autores. isto sim. como se verá adiante. de David de Castro. em 1888. talvez espere que eu proceda de maneira semelhante aos autores de sua predileção. como ainda acrescentam às explicações respostas para os angustiantes problemas que afligem a humanidade.espero eu . em poucas linhas.Quem está acostumado a encontrar explicações científicas sobre o que leu. de Gley. editado em português por Lugand e Geneloux. Para o perfeito entendimento de A cadeira do Diabo. resolver . e nem mesmo A cadeira de Satã. Pretendo. que não só explicam os acontecimentos com palavras claras. ambos editados pela Société de Biologie.alguns problemas técnicos que expliquem os misteriosos fatos acontecidos entre o Alquimista e seu malfadado Visitante. de difícil aquisição nos dias de hoje. de Charles Richet. ou Sur les mouvements musculaires inconscients en rapport les images. torna-se necessário: lº) Uma cadeira de espaldar cujas portas devem ser furadas da forma que se vê no desenho abaixo. segundo a dialética do pensamento dominante. Não vou. por serem obras há muito esgotadas e. 288 .

aCIma. a qual deve ser coberta por uma tênue tabuinha apenas suspensa pela extremidade superior e igualmente pintada à imitação do estofo. 289 . deve mostrar o aspecto do desenho 2º) Uma espada. A cadeira. a imitar o padrão do estofo geral. As costas da cadeira assim constituídas muito auxiliam o comparsa quando precisar ocultar a cabeça na cavidade.Esta cadeira tem externamente as costas forradas de tecido elástico pintado. aparentemente.

7º) Um terceiro homem para vestir a fantasia vermelha de diabo. a esquerda e a direita. e pele clara. 6º) Dois homens parecidos (comparsas). Que tão exata seja que. seios bastos com bicos róseos. Este elmo deve ser sempre mostrado de frente. em sua perfeição. ralos pêlos púbicos num tão volumoso monte de Vênus que só se lhe possam acariciar com as duas mãos em concha. ancas anchas. fossem simétricas tanto que uma igual à outra seria. quando estiver ele enfiado na cabeça do visitante. semelhantes por natureza ou por artifício. 5º) Pólvora seca. 4º) Uma toalha branca grande. e cujo gancho serve para engatar no bordo superior das costas da cadeira. 290 . boca carnuda. para que ninguém veja a abertura e o gancho que tem atrás. as duas partes. caso se lhe traçasse uma linha reta ao meio de seu formoso corpo. olhos glaucos. 9º) Um elmo aberto na parte de trás. 8º) Uma bela mulher alta de lindos cabelos cor de mel. tal como mostra o desenho.3º) Uma esponja embebida em tinta vermelha para simular sangue.

. esferas de metal etc.--/ •.~ ... O ângulo de espelhos reflete as prateleiras e os lados internos (K) do armário. desde o começo... ~-~ .....lOº) Um armário com portas envidraçadas (p) e aparência regular. . pintados de negro de modo a manter ao olhar a ilusão de profundidade. dos muitos aparelhos (frascos.) que as prateleiras contêm e da obscuridade reinante no gabinete do Alquimista. e não pode ser descoberto./ A ... conforme planta reproduzida abaixo... que deixa na parte de trás (H) espaço folgado o suficiente para esconder. um comparsa parecido com o visitante. . em virtude da distância de quem o vê...•. mas encerrando ao centro um ângulo de espelhos (g). retortas. B c .. ~ ···········__ ··--··r D ~ ~ 291 ...

de cima do armário. arrasta o Alquimista pelo mesmo alçapão. volta a ficar vertical). FIM E quanto ao sentido do que foi narrado. o Alquimista. cavernosamente lhe dirige. que já estava escondido dentro do armário. através da fumaça e das chamas provocadas pela explosão da pólvora seca . Escusado dizer que o segundo comparsa. é de súbito horrorizado pelas ameaças que a cabeça. Em seguida. ao "o que quer dizer isso?". Batem à porta e entra o Visitante. Então.Agora pratiquemos. É o fim de tudo. tenho que deixar ao paciente leitor a tarefa de achar um sentido para a vida e a morte também dos personagens desta história. Junto ao cadáver decapitado. enquanto o Visitante finge os estertores da morte. vai colocar o elmo em cima do armário. Então. com gargalhadas sinistras. o Alquimista espreme a esponja. imagina-se que a cabeça ainda está ali dentro. introduz-lhe na cabeça o elmo adrede preparado e estende a toalha sobre o corpo dele. o Alquimista põe a mão esquerda na beira do elmo e aplica com a direita o golpe fatal. O Alquimista convence-o a se sentar na cadeira mecânica. encerrando o espetáculo. cerra a viseira e busca uma espada na panóplia de onde havia tirado o elmo. à mensagem. Eu. e era uma vez o Visitante. As cortinas se fecham. Quando sobe o pano. e. deixando-o visível apenas do pescoço (coberto pela toalha) para baixo: como o elmo está com a viseira cerrada. É nesse instante que o comparsa que faz as vezes do Visitante se empurra contra o pano elástico da cadeira e enfia a cabeça pelo alçapão (cuja portinhola. trêmulo. o Alquimista está absorto em seus estudos necrológicos. pelo alçapão do palco. o Alquimista atira a espada ensangüentada no chão e. 292 . que esguicha sobre a toalha como um jorro de sangue. surge. o terceiro comparsa fantasiado de demônio. que talvez nem mesmo saiba o sentido do que escrevi. enfia a cabeça pelo alçapão apenas o Alquimista pousa o elmo ali. Em seguida. pelo seu peso. ZÁS!.tal como o leitor já deve ter visto nas cerimônias de umbanda -. Usando a mão esquerda. exultando de contentamento com o dinheiro que roubou.

.Um mistério no trem .f antasma .

4:'::_ . o carrinho deixava o negro túnel trazendo apenas Astolfo Dagoda: sua companheira havia desaparecido misteriosamente durante o percurso. Quarenta e cinco segundos depois. não chegando a nenhuma conclusão . 17 anos. entidades estudiosas de fenômenos paranormais e segundo alguns o próprio Serviço de Informações do Exército estudaram o caso. 19 de julho de 1969. . na mesma noite em que o homem chegou na Lua. que realizou profundas investigações.o fato aconteceu na fria noite de sábado no Parque de Diversões Alvorada. embarcou no trem-fantasma em companhia de Astolfo Dagoda.tiS."-' Retrato falado de Jucélia Ramos Voc~ conhece esta mo7a? 295 . ajovemJucélia Ramos. .. Por volta das dez e quinze da noite. constituindo o fato. a quem conhecera naquela tarde no Passeio PÚblico. Jucélia Ramos nunca mais foi encontrada. nem foi encontrada nenhuma explicação razoável para seu desaparecimento. até hoje. particulares. seguindo exaustivamente todas as pistas levantadas. ' ~'. um dos grandes casos insolúveis de nossos arquivos policiais. a imprensa. . de 16 anos de idade. Além da polícia.

entra na escuridão das paredes de madeira pintadas de preto e logo já vira. O trem-fantasma é uma construção retangular de vinte metros de frente por dez metros de fundo. Os carrinhos circulam num monotrilho preso ao chão. já fazendo uma nova curva e entrando em outro túnel na direção da parede da frente. Essas curvas são a graça do negócio. um boneco mecânico de cera toca uma sineta de bronze sinalizando a partida dos carrinhos de ferro. ostenta grosseiras pinturas cujo colorido berrante representa cenas macabras: loiras semidespidas sendo atacadas por vampiros. Sua fachada. onde faz uma inesperada curva de noventa graus e arranca gritos de susto dos passageiros. vão acionando as diversas figuras fantasmagóri296 . Em seu trajeto. imitando uma estação ferroviária. que fazem as vezes do trem e carregam dois passageiros cada. entrando veloz por um túnel reto em direção à parede do fundo. Do tamanho de um homem e vestido de ferroviário.Desde os anos 50 que o Parque de Diversões Alvorada está montado no início da avenida João Gualberto. O trem parte. lobisomens. múmias e outros monstros. em frente do Passeio PÚblico de Curitiba. pois aumentam a sensação de desequilíbrio e velocidade.

o que poria em risco a segurança dos passageiros. enforcados. umas pequenas luzes que iluminam essas cenas macabras. Os 45 segundos desta viagem confiável. nos fins de semana. Num pequeno trecho do percurso o carrinho sai do túnel. Por volta das seis. A princípio a moça. sita na rua Atílio Bório 1313. e fixar a barra de segurança que os impede de cair do veículo em movimento. sempre serão uma das maiores atrações de um parque de diversões de qualidade. Numa das paredes do fundo há uma teia com uma enorme e repulsiva aranha negra. procurou afastá-lo: "Estou esperando meu namorado. dando a impressão de que o trem vai se espatifar contra eles. No túnel desta cena ficam suspensos no escuro vários fios de linha e aranhas de borracha. Ficara olhando os animais do Passeio. O trem-fantasma sempre atrai um grande número de curiosos. seis e meia. "padeirinho". que vibram ao ver a expressão assustada dos passageiros e ao ouvir seus gritos. Mesmo nas horas de maior movimento. na Padaria Aurora. ficando por instantes à vista do público antes de mergulhar novamente na escuridão. nunca deixando mais de dois circulando no tr~eto. Empurra o carrinho para dar o impulso inicial e. que estava sozinha. múmias e monstros de vários tipos. Vê se cai fora!". o "chefe do trem" solta apenas um carrinho de cada vez. bichinhos que lhe interessavam bastante. bem na altura da cabeça dos passageiros. nas quais aparecem bonecos de cera em forma de caveiras. 297 . conquistar uma namorada. apenas um funcionário do parque se encarrega de todo o serviço: recolher os bilhetes. ele entrara no Passeio Público com a finalidade de se distrair e. Uniformizado de chefe da estação. na tarde de sábado. trava conhecimento com uma moça que lhe pareceu bonita e ajeitada. colocar os passageiros no trem.cas e ligando. terminado o tr~eto. detendo-se a maior parte do tempo junto da jaula dos macacos. que mesmo o barulho dos carrinhos correndo nos trilhos não consegue encobrir. Isso traz a desagradável sensação de que estamos rompendo enormes teias com aranhas que se enroscam em nossos cabelos. por instantes. por volta das quatro da tarde. Na ocasião o depoente era auxiliar de panificação. Conforme o depoimento de Astolfo Dagoda (inquérito nº 365/69 da SSP-PR). porém cheia de sustos. talvez. aciona a trava que o faz parar e liberta os passageiros. 19 de julho de 1969.

Atiramos no tiro ao alvo. Segundo ele: Foi nesse momento que senti que eu gostava dela. Nem sinal da Lua. Falou ainda que os patrões delajá estavam com a televisão ligada. nébuIa. Ela lhe disse chamar-se Jucélia. Astolfo insistiu e.Jude". de um jeito tão bonito. Astolfo Dagoda. noite escura. que ela trincou com seus dentes perfeitos bem branquinhos. que ia forte naquela hora. Ela falou com tristeza dos astronautas que iam descer na Lua naquela noite: "Imagine se lá tiver uma neblina assim. Ele lembra que a fumaça do braseiro se juntava com a neblina. Escurecia rápido e havia esfriado bastante. mas esqueceram. eu segurei a mão dela e disse: Nossa! Como você está com a mão fria. tiraram uma foto num lambelambe do Passeio Público (atente para este detalhe). Depois que ela vestiu o pulôver. E tirou suas mãozinhas da minha. Abraçados. principalmente quando eles tocam aquela música dos Beatles "Hey. Primeiro afirmou ser estudante mas depois confessou ser doméstica. Conversaram então sobre vários assuntos. não senhor. finos cobertos de batom bem vermelho. Ela falava sempre sem tirar os olhos dos meus e eu sempre olhando para a boca. quando ela sentiu fome comeram um espetinho de um churrasqueiro que estava com o carrinho em frente ao Parque de Diversões Alvorada. pois não trouxera agasalho. entretidos que estavam um com o outro. fica tão engraçado a gente se ver deformado daquele jeito.Atraído pelas maneiras dela. para os lábios dela. de que gosta muito. Entramos no palácio dos espelhos. Não. aos poucos ela foi cedendo à sua "boa conversa" e começaram a passear juntos pelo parque. Astolfo Dagoda afirma que pagou para ela primeiro uma paçoquinha e depois uma maçã do amor. a Lua está comigo aqui. segundo ele. trabalhando para um família no rico bairro do Batel. Astolfo tirou seu pulôver azul-marinho e fez que ela o vestisse por cima do vestido branco de mangas curtas. ela adorava música e disse estar vindo do auditório da TV Paraná. Segundo Astolfo. Não sei nem quanto tempo ficamos no parque de diversões. Aí eu. Teve uma hora que reparei que tinha um cara 298 . para ver e ouvir o conjunto Os Vondas. Ela riu e me disse: "Mão fria. que ia mostrar tudo quando eles chegassem na Lua. Jucélia Ramos. eles limam a mira das espingardinhas de ar comprimido e a gente não acerta uma. ele pagou adiantado e ficaram de pegar as cópias meia hora depois. agora. naquele gelado". coração quente!". e ela de mim. falei: Não preciso subir tão alto. não derrubei nenhum maço de cigarros. não fumo. Falei isso e ela me sorriu. onde fora assistir ao programa Ponto 6.

Percorreram todo o trajeto. certamente teria sido vista. Entretido que estava com as assombrações no escuro.nos seguindo. O que ele queria? Era bem maior que eu. 20 centavos cada. Se isso tivesse acontecido. quando travou o carrinho. Angenor fez nova vistoria. cara? Qual é a tua. e entramos.. além do cadáver. ela fatalmente teria sido atropelada pelo carrinho seguinte e haveria manchas de sangue pelo chão. Em vista da agitação e estranhando o desaparecimento. Astolfo muito pálido . Disse Angenor que. O padeirinho Astolfo Dagoda insiste em afirmar que entrou no trem-fantasma junto comJucélia Ramos e que ela desapareceu na escuridão durante o trajeto. Porém se lembra muito bem que. disse que havia algum movimento naquela hora e não põde precisar se Astolfo Dagoda entrou sozinho ou acompanhado. entrou nos túneis acompanhado de Astolfo Dagoda para ver se achavam a moça desaparecida. não acreditava que a moça tivesse pulado ou caído do carrinho em movimento. Angenor de Oliveira.ele pensou que era de medo pela viagem _ perguntou aflito pela moça que estava com ele. com uma lanterna de mão. só veio a notar o desaparecimento dela quando o carrinho completou a viagem. Não sei bem a hora. não poderia ter saído por nenhuma das paredes. é? O cara mixou e deu no pé. não sabe explicar como. mas de outras pessoas alarmadas pelo mistério. que começa às dez e meia. voltara a verificar o interior do trem-fantasma junto com o guarda299 . coisa que nunca acontecera desde que ali trabalhava. Constatou-se que se a moça tivesse caído ou pulado e tivesse escapado com vida do atropelamento. Comprei as duas entradas. alcunhado Caveirinha. resolvemos dar uma volta no tremlantasma para matar o tempo. examinaram tudo e nada encontraram de anormal. Até ali eu não tinha tocado nela e achei que na escuridão do tremlantasma era a ocasião de sapecar um beijinho nela. ainda naquela noite. Os depoimentos são todos muito desencontrados. se tivesse saído por uma das bocas dos túneis. Angenor de Oliveira. Angenor de Oliveira cortou a corrente elétrica e. Novamente nada foi encontrado. na ocasião encarregado do trem-fantasma. desta vez acompanhado não só de Astolfo. pois tínhamos acertado de ir no baile da Estrela da Manhã. Aí aconteceu . olhando muito para nós. que se encontravam intactas. depois fiquei sabendo que era lá pelas dez. é claro.. Muitos curiosos se aglomeraram no local. Ele. Foi ela quem me chamou a atenção. Ô meu? Tá invocando com a minha cara?! Tá me achando bonito. mas cheguei nele efalei: Que é.

civil que viera atender a ocorrência. e. 20 anos. de repente. doméstica. quando o carrinho com o casal saiu para o claro. parda. mais uma vez. solteira. testemunhou que. nada encontraram de anormal. Já a depoente Cremilda Gomes. ela sumiu como se tivesse evaporado. Afirmou ainda não acreditar em fantasmas e em almas do outro mundo. ela viu nitidamente o rapaz abraçado com a moça e que. 300 .

porém. Essa testemunha. quando os policiais já demonstravam impaciência. mudando-se para lugar incerto e não sabido. que trazia Astolfo Dagoda . segunda pela manhã Karel vendeu seu negócio a toque de caixa e saiu da cidade. que muita gente considera importante. Karel Stephanovich. trouxe mais contradições ao inquérito policial. Os policiais acalmaram o rapaz e intimaram o fotógrafo a prestar depoimento na Central. A imprensa já fazia grande estardalhaço sobre o desaparecimento da moça. nada acrescentou de importante. depois disse que lembrava e entrou na sua barraca para buscar as fotos que o casal esquecera de pegar. O guarda-civil nº 067. Nada achou de anormal quando do exame do local. mas que só falaria na presença do delegado. segunda-feira à tarde. nunca mais retornou a Curitiba. no domingo à tarde Karel foi procurado pela polícia. Ao que consta. sub301 . O estranho comportamento de outra testemunha. Irritado. em vista da aglomeração de pessoas e da polêmica que o fato estava causando.Que foi tudo tão rápido. e o endereço por ela fornecido durante seu depoimento na Delegacia Central não foi localizado. Demorou lá dentro e. pois fora chamado somente depois do fato ter acontecido. Com ele foram as testemunhas Cremilda Gomes e um rapaz que não declarou o nome e disse saber tudo sobre o desaparecimento de jucélia. O comportamento de Karel Stephanovich foi contraditório: primeiro disse que não se lembrava de nada. dizendo que se enganara.o rapaz pernoitara encarcerado na Central. No entanto esse rapaz nem chegou a depor: enquanto os outros entravam na Delegacia Central. e ela não deu na ocasião muita importância ao fato. que não tinha tirado nenhum retrato e que nada sabia da história. pois eram revelações sigilosas. Retratista do Passeio Público. voltou muito pálido. encaminhou Astolfo Dagoda para apresentar queixa na Central. Astolfo Dagoda gritou que ele estava mentindo e que escondia alguma coisa. e logo o carrinho entrou de novo no túnel. quando na terça-feira a polícia técnica realizou exames no trem-fantasma. alegando que ia pagar a corrida ele entrou no táxi e partiu para não mais ser visto. Foi encontrado um pedaço de tecido branco que. não mais se apresentou. pensou que fizesse parte dos truques do trem-fantasma para atrair freguesia. pensou-se ser um rasgão do vestido da desaparecida. Contudo. até a chegada do delegado Miguel Zacarias no domingo pela manhã. a princípio. em serviço naquela noite no Parque de Diversões Alvorada.

a polícia começou a pressionar Astolfo Dagoda. deles se erguendo os bonecos ameaçadores. se abrem. Contudo. encontrou no lago daquele logradouro um pulôver azul que seria o mesmo usado por jucélia naquele sábado trágico. e acusou a polícia de torturar o rapaz no pau-de-arara. jucélia teria ficado ali até as buscas terminarem e depois saíra tranqüilamente. apesar de estar preso e incomunicável. coisa de um louco para chamar atenção sobre sua insignificante figura. Frei Albino lançou a teoria de que a jovem teria sido raptada por seres extraterrestres.jornal dos hoje extintos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Quase um mês depois do desaparecimento surge uma nova pista: Almério da Silva. O padeirinho foi detido para interrogatórios e. A coincidência do horário do desaparecimento de jucélia com o da descida dos astronautas na Lua comprovaria sua teoria. achando tudo um embuste. exigindo portanto sua imediata libertação. trouxe de São Paulo um grupo do Centro de Pesquisas Paranormais e Fenômenos Extraterrenos. levantou a hipótese de que jucélia teria descido do trem e se escondera num dos caixões de defunto que. Imediatamente o delegado Miguel Za302 . chefiado pelo frei Albino Aresi. Ficou constatado serem muito pequenos para acomodar outra pessoa além dos bonecos de cera. e estavam tão cobertos de poeira que qualquer anormalidade teria ali deixado marcas. mas em Curitiba corria o boato de que o desaparecimento de jucélia Ramos estaria ligado às atividades da guerrilha do MR-8 no Paraná.metido a exames de laboratório. Ou coisa pior: ele matarajucélia após violentá-Ia. que considerava ilegal. servente do Passeio Público. a polícia técnica levou os caixões para exame. na época submetidos à rígida censura imposta pelos governos militares. consta que manteve essa versão dos fatos. parapsicólogo de renome. Esses boatos aumentaram com a prisão do chefe guerrilheiro cognominado O Bom Burguês e com o desbaratamento do MR-8 alguns dias depois em Apucarana. já o jornal O Estado do Paraná. acionados pela passagem do carrinho. de lhe aplicar choques elétricos para obrigá-Io a confessar. do então governador Paulo Pimentel. Como a hipótese parecesse plausível. O Diário do Paraná. constatou-se ser parte da atadura da múmia. Nada foi publicado nos jornais. crime sexual que ele procurara esconder inventando aquela história toda. O Diário do Paraná descobriu sua prisão. sem conseguir novas pistas.

passado tanto tempo. O que aconteceu naquela noite no trem-fantasma? O seqüestro de uma bela jovem para fins inconfessáveis. Por mais que se procurasse alguém que trouxesse alguma luz capaz de aclarar o desaparecimento.carias procurou Astolfo Dagoda para que ele fizesse a identificação. nunca mais foi encontrada. muito assustado e aborrecido com sua prisão e "tortura" (entre aspas porque nada foi comprovado). Era como se ela nunca tivesse existido. nem amigos ou conhecidos. provavelmente um crime sexual? A ação nefasta da guerrilha do MR-8. ou como se sua existência nunca tivesse sido percebida pelos habitantes de Curitiba. nem patrões. pedira a conta e deixara Curitiba para recomeçar a vida num lugar onde não fosse conhecido. ninguém apareceu: nem familiares. o padeiro Lidislau Pierko. O jovem não foi encontrado. afirmou que Astolfo. bastante atuante no Paraná naqueles tempos? A vingança de seres extraterrestres irritados com a chegada do homem na Lua? 303 . permanece o mistério do desaparecimento deJucé1ia Ramos. Hoje. mas seu patrão. Quanto aJucélia Ramos.

a verdade apareça. armada sabe-se lá por quê? Ou tudo não passou de uma farsa hedionda do padeirinho? Perguntas até hoje sem resposta. 304 . A verdade sempre aparece. São muitas as teorias e certamente o leitor terá escolhido ou criado a sua. num futuro que esperamos não esteja muito longe. Talvez um dia.Seria o trem-fantasma um lugar assombrado e almas do outro mundo carregaramjucélia Ramos? Foi tudo uma trama da própria polícia.

Mistério Sapho () amor entre as mulheres .

C. Sapho . que também dirigiria Messalina (30). necessitando urgentes trabalhos de restauro em laboratórios especializados. aos 85 anos. até as várias versões de A carne. realizado em 1899. de Annibal Requião. A Cinemateca do Uruguai tem em seus arquivos a maior coleção de filmes eróticos primitivos. Não pudemos confirmar essa informação.O amor entre as mulheres. de Luiz de Barros. A esses vem se juntar agora Crispim Carmoro. Foi encontrada uma cópia 35 mm com apenas quatro bobinas. e a de 26. Para não falarmos do agora. de E. as de número 1. Contam-se nos dedos os estudos e pesquisas sobre o nosso cinema. seus familiares passaram as latas do filme para as minhas mãos.o cinema paranaense continua um insólito desconhecido. 307 . Josephina Bello Carmoro. da obra de José de Alencar. de quem acabam de ser encontradas partes do filme Sapho . considerado o pai da linguagem cinematográfica.3. seis anos após ter realizado o que parece ser seu único filme. e a bobina 5 está inteiramente empedrada. a de 24. A cópia encontrada está em péssimo estado. de Ceorge Melies. em 1975. após a morte do marido transferiu-se para Vitória do Espírito Santo. Pornográfico.O amor entre as mulheres é um filme erótico. permitindo a confecção de novas cópias passíveis de serem projetadas. dirigido por Antônio Tibiriçá. onde teria parentes. Arthur Rogge e João Batista CrofE. Criffith. definitivamente perdida. entre eles vários de D. com partes totalmente meladas. que. se adotarmos outra nomenclatura. apesar de alguns esforços iniciados principalmente após a criação da Cinemateca do Museu Cuido Viaro. dirigido por Vitor Ciacchi. Desde os princípios do cinema são feitos filmes pornôs. que faria Vício e beleza (26) e produziria Depravação (23). apesar do nome. Somente com os serviços de restauração será possível a feitura de um novo negativo. O que restou de Sapho foi encontrado num galinheiro em Almirante Tamandaré. o cinema brasileiro tem vários exemplos de filmes eróticos ou pomôs: desde Lucíola (1916). passando pelo curioso Le film du diable (17). Kerrigan.5 e 8. dirigi da por Leo Martem. até então considerados perdidos. Ali ficara sob a guarda de Rodolpho Hertoso. Consta que sua esposa. das oito que compunham o filme. Não deixou descendentes. e com a atriz que se escondia sob o pseudônimo de Miss Ray mostrando suas carnes. Crispim Carmoro teve portanto a quem puxar. como Dama ao banho. Presumivelmen te Crispim Carmoro faleceu em 1928. Faltam diversos trechos. amigo de Crispim Carmoro. é brasileiro. no qual a atriz Antônia de Negri aparece nua. Com a morte de Hertoso. Ali foram recuperados filmes. W.

Não se sabe se Crispim Carmoro tinha algum conhecimento técnico de cinema. ano em que acontecia em São Paulo a Semana de Arte Moderna? Sabemos pouco de Crispim Carmoro. Aqui passou a exercer a profissão de estucador. Pelo tema e letreiros de Sapho. Emiliano Perneta e outros poetas do movimento simbolista. não só das famílias tradicionais da cidade mas também de pintores como Alfredo Andersen. nem se era italiano ou descendente. mas talvez Sapho possa ter sido filmado por ele ou por algum dos fotógrafos atuantes em Curitiba. que buscavam inspiração na Grécia Antiga. fazia pinturas decorativas. as imagens de Sapho têm momentos de rara beleza.CURITYBA 1922. é de se supor que mantivesse relações de amizade com Dario Vellozo. nem quem o iniciou nos segredos da linguagem cinematográfica. Em algumas velhas residências curitibanas encontram-se paredes com suas pinturas. O único nome que aparece na ficha técnica é o de Crispim Carmoro como realizador. As letras estão desenhadas sobre um cartão-postal com vista fotográfica do Partenon de Atenas. Da mesma maneira que nenhuma das atrizes arriscou colocar seu nome nos créditos.Mas quem foi esse homem e o que o levou a filmar um longa-metragem erótico na provinciana Curitiba de 78968 habitantes em 1922. que preferiu não assinar o trabalho em virtude do tema ousado do filme. que lhe cedeu ou alugou o equipamento para as filmagens de Sapho. Em seguida vem o título: 308 . Através dessa arte tornou-se conhecido. de Annibal Requião. ou pelo menos conhecido. Sabe-se que era amigo. O filme abre com um letreiro: PARTHENON FILMS . Além das decorações em gesso. É certo que não lhe faltavam gosto artístico e conhecimento de fotografia. Apareceu em Curitiba provavelmente logo após a Primeira Guerra Mundial (1914-8). Lange de Morretes e Waldemar Curt Freysleben.

Após esse longo texto introdutório. Vemos meio de longe a atriz que interpreta Sapho pondo incenso num turíbulo sobre um alto tripé. Lembrar que se trata de filme mudo. JV1eu lugar é aqui. sacerdotizas de Vénus. Não é no meio de tanta insipidez. termina de colocar incenso no turíbulo e. a bella sacerdotiza pagã. aparece uma vista de palácio grego. realizado por quem não dominava plenamente a linguagem do cinema. e outro letreiro: Sapho.PELICULA CRISPIM CARMORO. dum orgulho medonho. Sapho baixa a cabeça. na lassidão cálida de uma noite de verão. de semblante tristonho. a Deusa do Amor. graciosas donzelas Entre gestos e corpos que me causam prazer. Sapho reune-se com suas amigas. de amor a gemer Entre rainhas como flor. Segue-se um longo texto explicativo dividido em duas partes. de farto sangue quente. O AMOR ENTRE AS MULHERES. 309 . Dum egoismo atroz. Daí a necessidade de longos letreiros para desenvolver a açao: E sua complementação: Em seu resplandescente palácio na ilha de Lesbos. quando o aroma de nardos. concorre para o enlace sensual dos corpos. como que se dirigindo aos espectadores: o meu lugar não é em meio de vocês. Sapho levanta os olhos em direção à câmera e se põe a falar (através de letreiros). excitante e lascivo. E ainda: UMA Todos esses créditos iniciais estão emoldurados com ornamentos em estilo grego. protegida pelo resplendente azul do jirmamento vago. prepara o altar Aí começa propriamente a ação do filme. inicia grotescos movimentos de dança. Há um corte para um plano mais aproximado. em meio à fumaça. Homens rudes e maus. para o doce sacrifício à Vénus. claramente uma pintura filmada.

sempre precedidas de um letreiro que as identifica pelo nome: Prokné . o corpo delinquente sem pudm.a favorita de Sapho. são mostradas as outras no filme só atuam mulheres . À medida que se desenvolve a dança."bachantes".Deusa Pagã dos amantes E conclama suas bachantes Para os embates do amor. no seu seio Que frescura! Que olor! Que límpido gorjeio! 310 . Sapho invoca Venus .Em sua dansa.

Aglaura .musa pagã de basta cabeleira loura. Virgem de olhos glaucos e seios morenos! Hypolita .virgem pura. virgem bela como Vénus. Corpo rijo. olhos de engodo e boca sedutora! 311 .

odulante como o de uma serpente! 312 .Euridice . Formas tentadoras. sorriso de creança! Fátima . rosto de mulher.angélica expressão de causas mansas.escrava núbia de corpo ardente. Liso.

fremente. colunatas e alguns vasos de gesso imitando urnas gregas completam a cenografia. prossiga com a apresentação das celebrantes em poses lascivas. seminuas. olhando os fotogramas contra a luz. Essa bobina inicia-se com um letreiro: Sapho empina o ventre.Esta última é a única negra que aparece no filme. envoltas em véus e adornadas com bijuterias que simulam ser jóias de valor. 313 . não passa de um cortinado escondendo as paredes e um chão coberto por tapetes. esforçando-se para fazer poses eróticas. A bobina número 3 apresenta várias de suas partes meladas e faltam alguns trechos. É de se supor que o segundo. arqueia o busto e num repente Elétrica se lança aos golpes tentadores. nem cenas de sexo explícito ou de nudez total.entre as outras figurantes. representando o interior de um templo grego. As imagens que se seguem a esse letreiro são da atriz que personifica Sapho dançando . Provavelmente foram cortados por alguém que. O que vemos é a repetição constante de imagens. Almofadões. seios à mostra. com a câmera estática focalizando Sapho e suas "bachantes" envoltas em véus. Com sua imagem termina o primeiro rolo. arremedam roupagens gregas ou orientais.o termo mais certo seria rebolando . cadeiras de madeira entalhada. Não há muita ação no filme. O cenário. Os trajes. Difundindo luxúria e provocando ardores Como se a carne houvera em convulsão. se é que podemos chamá-Ias assim. não encontrado. queria se deliciar com as imagens das mulheres semidespidas. Tudo lembra os cenários de gosto duvidoso utilizados nos estúdios dos retratistas da época como fundo de suas fotografias. em geral rolando pelo chão.

Apesar de na época ser relativamente normal a exibição de filmes eróticos. Toda essa parte está tintada de vermelho pelo sistema de viragem . As bachantes deliram em lúbricos jurores.tintura de anilina usada para dar um tom de cor aos filmes da época. esta cena está entrecortada com imagens das "bachantes" sempre em poses lânguidas. mas nua inteiramente nua! A imagem que se seguiria a este letreiro não está na cópia encontrada. realizado em 1922. Devemos lembrar que o filme. Além de mostrar Sapho dançando. nenhuma notícia da exibição de Sapho foi encontrada nos 314 . Provavelmente seria a única imagem de nu frontal do filme.Ei-la saracoteando. deve ter sido tirada por alguém sequioso de excitar-se com a visão do belo corpo da atriz que encarna Sapho. foi reencontrado somente em 1984: sabe-se lá em que mãos andou durante todos esses anos. o corpo delinqüente Semi-velado ostenta às luzes multicores.Dansa outra vez. Arrastam-se coleando em silvos de serpente. Entre uivos do instinto a cupidez atua E uníssono se escapa um grito retumbante: .

Somente no final do filme. Contudo. o filme termina com um letreiro: Oh! Até que enfim em carícias felinas Teu busto gentil ligeiramente inclinas E te enrolas em mim e me mordes a boca! A imagem da mordida não é mostrada. a deusa de Lesbos. então a zona 315 . O mesmo número de partes do filme de Crispim Carmoro. o pesquisador Jean-Claude Bernardet. em julho de 1923. e não faz referência à sua ficha técnica. vemos as imagens de Sapho e Prokné enlaçadas se beijando. sequiosa em delírio de amor acesa. Em seu lugar vemos o letreiro: fiM Assim termina SAPHO .O AMOR ENTRE AS MULHERES. mas a respeito dele ainda ficam muitas questões: quem foram suas "estrelas"? Prostitutas da rua Ratcliff (hoje Desembargador Westphalen).jornais curitibanos. reproduzem diante da câmera sempre imóvel a ação descrita no poema mostrado no letreiro. na parte oito. edição do governo do estado de São Paulo (1972). Tremerão nossas carnes no mesmo espasmo presas E nos confundiremos entre carícias ledas! Após o poema. Aranhol dos teus fiavas cabelos. Prokné.a rolar pelos tapetes ou enrolando os corpos seminus nas cortinas. 1900-1935. Todo teu corpo de sensual calor! Prender-me nos divinos novelos. menciona um filme com o título de Sapho no Cine Royal de São Paulo. Quero beijar.quem seriam? . em seu Filmografia do cinema brasileiro. O restante da bobina 3 é uma monótona repetição das atrizes improvisadas . como a abelha liba o mel na rosa em fiar. Diz apenas: "Os escândalos de Sapho. E tal como começou. acontece algo mais forte: Sapho e sua favorita. Quero pousar meus lábios nos teus de framboeza E neles. deitadas no chão de falsos tapetes persas. numa grandiosa mise-en-scene em oito partes". nem mesmo se é brasileiro. O anúncio da exibição não diz a origem.

do meretrício de Curitiba? Ou seriam mulheres da sociedade curitibana que aceitaram representar por dinheiro ou outra razão qualquer? Algum poeta curitibano escreveu o "enredo" e os poemas do filme e. 316 . pudorosamente. não quis assinar? Quem financiou a empreitada e o que se propunham os produtores com o filme? Lucro fácil ou algum outro objetivo escuso? Por que não teve continuidade a carreira cinematogáfica de Crispim Carmoro? Talento e capacidade não lhe faltavam.

() mistério dos sinais da passagem dele pela cidade de Curitiha .

do dr. foi encontrada nua. porém tendo o decoro de esconder com uma tarja preta o sexo da infeliz moça. o que provocou protestos generalizados. a prostituta Márcia de Tal. ao lado da caixa-d'água. O revoltante crime teve muita repercussão na época e a Folha de Curitiba publicou fotos do cadáver na primeira página. Mais tarde descobriu-se que o assassino fora o engraxatejurandir Haus. Paulo Pimentel. Olhando assim pode parecer que se trata de uma perfeita imitação em barro pintado. que mantinha sua cadeira instalada na praça Tiradentes. A Tribuna do Paraná. de 21 anos presumíveis. Falo isso porque tal qual as imitações é uma peça inteiriça .Indiscutivelmente são sinais da passagem DELE. de 48 anos. vulgo Careca. também publicou as fotos na primeira página. morta com uma estaca de madeira cravada na vagina. alcunhada de Polaca.como que expelida de uma única vez -. no dia 29 de maio de 1986. dessas vendidas pelos camelôs e usadas para pregar peças nos amigos. onde o perverso assassino enfiara o grosso galho de árvore. com dez centímetros de grossura e cerca de trinta de comprimento desde a 319 . O mesmo onde. O local onde foram encontrados e fotografados é aquele grande terreno baldio no alto da rua xv.

320 . Impressas em vermelho. mostrando ter saído de uma só vez. do caso do miliciano que roubou uma moto e do padeiro assaltado na saída do bailão. parte do título do jornal. Provavelmente. E também que ELE se manteve de cócoras no mesmo lugar durante toda a defecação. Do outro lado desse pedaço. a bolo encontra-se enrodilhado. Examinando-se a Tribuna do Paraná daquele dia.é sabido que a tinta de impressão provoca irritação no ânus -. Estão inteiras as notas da trágica morte do ancião atropelado por uma locomotiva. na página dez. com a manchete O Gênio abre o jogo. todos com mais ou menos quinze por quinze centímetros. está uma parte da seção Cartas dos Leitores. Nota-se que ELE teve a preocupação não só de escolher pedaços do jornal com bastante branco . limpou-se com os pedaços que rasgou. que tem no verso parte do anúncio de página inteira do Carrefour Pinhais. três pedaços amassados e sujos da Tribuna do Paraná. A cerca de um palmo à frente.ponta arredondada até a outra ponta no alto. com as costumeiras reclamações contra os serviços públicos. Um deles é a parte da primeira página onde está a chamada para a entrevista com o ex-jogador de futebol Aladim. na falta de papel higiênico. as letras TRI.062/24 páginas Às segundas cz$ 15. e mais o cabeçalho. onde se afina como uma cauda onde foi cortada pela contração do ânus. reportando com fotos em cores a sensacional vitória do Coritiba por 3 x 2 contra o São Paulo. na Copa Brasil. A página policial também não foi mexida. E também parte da foto da mansão do milionário assaltada no bairro das Mercês. À esquerda do bolo fecal. ELE leu esse jornal enquanto defecava e depois.00. e parte de um anúncio da Prefeitura Municipal de Curitiba intitulado Procura-se um fornecedor. a outro pedaço que ELE usou para se limpar é o recorte do anúncio da Gronau na página onze. mas também de não estragar partes que trouxessem reportagens interessantes para se ler. onde se lê: Segundaleira 2 de novembro de 1987 Ano XXXII nº 9. caso contrário apresentaria outra forma que não a de um rolo. vê-se que foi deixado inteiro o caderno de esportes. nada foi rasgado da reportagem sobre o assalto da mansão milionária. uma poça redonda já seca mostra o lugar onde o jato de mijo penetrou no chão. a Rei dos Tapetes. nem da notícia ATIROU NA RAPOSA E ACERTOU NA FILHA. a terceiro pedaço usado pega parte dos anúncios das Lojas HM na página nove e de Pedroso.

aparentemente jogados ao acaso. em seguida.Provavelmente. essas são observações rápidas e superficiais.pois não acredito ter chegado a horas . fosse o de uma mulher. fosse ELE alto e pesado certamente suas pegadas seriam mais profundas. poderíamos determinar com precisão durante quantos minutos .a vagina fica mais perto do orifício anal do que fica o pênis. Você mesmo deve ter analisado o que viu na foto e certamente teria outras ponderações a fazer. ELE não fuma. um caco ete: o de dobrar palitos de fósforos ao meio. como os três fósforos não estão queimados e tampouco se vêem tocos de cigarros. depois. Daí o cuidado de estragar somente as partes desimportantes do jornal. mais aptos estaremos a saber como ELE é na realidade. pode-se concluir que ELE não fuma. porque isso ajuda a disfarçar o mau cheiro e a fumaça serve para espantar mosquitos. apoiar um palito nos dedos indicador e médio para. vêem-se três palitos de fósforos dobrados ao meio. porém carrega fósforos e tem o sestro de. isso sim. chegamos a uma série de conclusões: ELE usa o corpo de um homem. Muitas pessoas têm o costume de fumar enquanto defecam. ELE tem o hábito de ler enquanto defeca. ELE não é muito alto e pesa pouco: apesar do solo arenoso do terreno baldio ser bastante duro e ressecado. Porém. Tem. a intervalos regulares. principalmente a céu aberto. mas não 321 . pressioná-Io com o polegar. podendo-se argumentar que foi o único jornal encontrado na banca. Soubéssemos nós o tempo que ELE leva para dobrar cada um. No jornal prefere o "noticiário esportivo e o policial. tanto física quanto espiritualmente. sem parti-Ios. Examinando a fotografia com os sinais que comprovam ter ELE estado em Curitiba no dia 2 de novembro de 1987. É terrível dizer. ou pelo menos não sofre de diarréia. naquele dia de Finados. formando um v sem estarem partidos em dois. Durante o tempo que levou para defecar no terreno baldio dobrou três palitos. o que não acontece. E exames mais acurados da passagem DELE nos darão informações cada vez mais preciosas. e o intervalo entre um palito e outro. a marca da poça de urina estaria mais junto do bolo fecal .se bem que esta última afirmação seja discutível. levou-a consigo para terminar a leitura. ELE leu a Tribuna do Paraná enquanto defecava e. Porém. Tem ELE o estômago em bom funcionamento. quebrando-o ao meio sem contudo parti-Io. Pode parecer escusado. porém quanto mais dados tivermos sobre seu comportamento. Do lado direito.ELE esteve defecando no terreno baldio. e é leitor da Tribuna do Paraná .

Corruptio unius generatio est alterius PUTRE factio 322 . não saberemos reconhecê-Io e certamente ELE não se revelará a nós. temos que nos debruçar atentos sobre cada sinal da passagem DELE sobre a Terra e estudá-Io incansavelmente. quando surge uma oportunidade como esta não podemos deixá-Ia escapar. Somente agindo assim é que seremos capazes um dia .que espero não esteja longe . Por esse motivo.de o conhecermos na plena complexidade do seu ser e da sua obra.sabemos com qual semblante ELE se mostra ao mundo: se algum dia estivermos na frente DELE.

Curitiba.. "O mistério da porta aberta". A ação de O mistério da prostituta japonesa se passa em São Paulo. A escrita japonesa e a planta do quarto são de autoria de Sônia Yamanouchi. edição em língua portuguesa de Bukkyo Dendo Kyotai." é de Isa. nº 94. outubro de 1984. novembro de 1984.. Gráfica & Editora Módulo 3.. de Curitiba. agosto de 1984. Contos publicados na revista Quem: "Um mistério no trem-fantasma"." é de Robert Desnos e.. "Conduz teu cavalo . em maio de 1986." são de Bashô. Curitiba. Tóquio. Novela." são trechos de A doutrina de Buda. 13 Mistérios + O mistério da porta aberta.. A primeira versão desse conto foi publicada no nº 117 da revista Quem. passa-se num apartamento em Curitiba e teve uma primeira versão publicada no nº 150 de Quem. Criar. japonesa o mistério da prostituta & Mimi-Nashi-Oichi. "Sob o sino do templo . 1986. o passado " são de Buson. Novella. 1982. "Orvalho deste mundo . O segundo conto." e "Ah.O amor entre as mulheres". o minotauro. O poema "Tanto sonhei contigo . 323 . Mimi-Nashi-Oichi. Logos. Curitiba. nº 113.NOTA BIBLIOGRÁFICA o mez da grippe... "Tocador de biwa" é um desenho anônimo japonês do século XIX." e "Tudo é mutável. nº 118. foi traduzido por Valêncio Xavier. em agosto de 1984. "Mistério Sapho .. Maciste no inferno. "Primeira neve " e "Esta estrada . no bairro da Liberdade.. . "Mercúrio mistério"... agosto de 1983. Os haicais "Nesta noite .. 1981. nº 116. Curitiba. 1983. A "Mão com poema de Desnos" foi desenhada por Cláudia Suemi Hamasaki.. 1985. Raconto.". como os haicais. Fundação Cultural de Curitiba.

Valêncio Xavier Niculitcheff nasceu em São Paulo. "O mistério da Sonâmbula". Além dos livros mencionados. Edições Ciências do Acidente. Criar. recebeu na IX Jornada Brasileira de Curta-Metragem o prêmio de melhor filme de ficção. julho de 1986. 1975. Como cineasta. 22 de julho de 1990. Curitiba. Segunda edição: Curitiba. É consultor de imagem em cinema e roteirista e diretor de TV. Segunda edição: Curitiba. "O misterioso homem-macaco Como tudo começou". 1998. nº 154.Um episódio da colônia Cecília e Os 11 de Curitiba. Payol. Panorama e Revista da USP. 1989. emjaneiro de 1984. todos nós. Edições KM. 1986. Realizou. Curitiba. Antologia de contos com outros autores. Poty. e "Os fantasmas do fundo de quintal . nº 160. Fundação Cultural de Curitiba. Studio Krieger. São Paulo."Mistério mágico". Memória com Poty. Novela-rebus. junho de 1986. em 1933. 7 de amor e violência. agosto de 1986. trilhos. OUTRAS OBRAS DO AUTOR Desembrulhando as balas Zéquinha. No jornal O Estado do Paraná foram publicados dois contos: "Mistério do menino morto". publicou inúmeras narrativas em jornais e revistas (Nicolau. 1986. Curitiba. entre outros). Curitiba.Um mistério". de nós. Meu 7º dia. Biografia. de Curitiba. Curitiba. 324 . O conto "Mistério números" foi publicado no nº 334 da revista Panorama. 1994. Fundação Cultural de Curitiba. trilhas e traços. 18 de junho de 1985. por Caro signore Feline. nº 152. A propósito dejignrinhas. O pão negro . 1973. Nutrimental. Curitiba. Estudo. e está radicado em Curitiba. entre outros vídeos. 1964. Crônicas com Poty. Quem.

BSP LIV 11111111I1111111111 253734 .

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