VALÊNCIO XAVIER

o MEZ

DA GRIPPE

E OUTROS LIVROS

-~COMPANHIA

DAS LETRAS

Copyright

© 1998 by Valêncio Xavier Projeto gráfico: Hélio de Almeida,

com base em indicações do autor Capa: Hélio de Almeida Preparação: Denise Pegorim Revisão: Eliana Antonioli Ana Maria Barbosa

Dados Internacionais de Caralogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Xavier, Valêncio O

mez da grippe e outros livros / Valêncio das Lerras, 1998.

Xavier.

-

São Paulo: Companhia Bibliografia. 85-7164-810-7

ISBN

1. Contos brasileiros I. Título.
98-3379 CDD-869.935

Índices para catálogo sistemático:
1. Contos: Século 20 : Literatura brasileira

2. Século 20 : Contos: Literatura brasileira

869.935 869.935

1998

Todos os direi tos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 72 04532-002 - São Paulo - SP Telefone: (011) 866-0801 Fax: (011) 866-0814 e-mail: coletras@mtecnetsp.com.br

ÍNDICE

o mez da grippe, 7
MacÍste no inferno, 81

o minotauro,
13 mistérios
+

137

O mistério da prostituta japonesa

& Mimi-Nashi-Oichi,

181

O mistério da porta aberta, 203

Nota bibliográfica, 323

OMEZ DAGRIPPE
novella

Vê-se um sepulcro cheio de cadáveres. Esta macabra execução é de cera. colorida com tanta naturalidade que a natureza não poderia ser. sobre os quais se podem observar todos os diferentes estados da dissolução. nem mais verdadeira. MARQUÊS DE SADE . nem mais expressiva. desde o instante da morte até a destruição total do indivíduo.

.:~ti 6 Alguma coisa . !~ll!1 ti.::~~ I~ _~jSI!IQ9:~ -ti 27 121 lói l' 91~~llfl~ ~I 3..~S.1918 Outubro QTTUBRO ==--~--=-.:!4~!.IiHi00131i -113114:!2i~3. 20 I I~IIRi l():_~.

como também a transmitiram aos patricios e á população.lTUN. I FO~~ tinúa a te de crimes ==== ====commeHer toda a sor. que se disseminou com as populações com sigo o cidades. Dr.illN(. alguns patricios do Sr. ta com um governo que con.. com o mesmo fim dos do Rio. os hospedes fluminenses não s6 padeceram da molestia. que estavam com o mal incubado. I. Do Rio de Janeiro vieram assistir ás bodas alguns syrios.. Barbosa. ia effectuar-se o casamento de uma filha do syrio Barbosa.~ presidente Wilson não fra.~~~t da. I deE~ Em Paranaguá. J WA. Em Paranaguá.A paz está interrompidalo. Folgaram juntos e cada um dos residentes em Antonina e rapidez entreMorretes trouxe das referidas gérmen do mal. Trajano Reis director do Serviço Sanitario. o ! D.':. De Antonina e Morretes seguiram para aquella cidade.. 10. Relatório do Sr. por sua vez.- O t·jX u Os jornal)" ua bru" se maui-. n'aquella epocha. Um homem eu caminho sozinho nesta cidade sem gente as gentes estão nas casas < grippe 13 .

.RIFIQUE M OLOUVRB RUA QIJINZE DE NoveMBRO. CI".. - DIA 20 DOMINGO $ A Allemanha vae capitular A SEMANA RIMADA "La influenza espanoIa" Esso todo.w ESTORES OS SORTI MENTOS QUE APRESENTA VE.. . No tiene casi que nada No passa.'N.-----------------------------_ . gran espanoIada J eca Rabecão O COMMERCIO DO PARANÁ li OORTIIVAS • 14 OORTINADOS BRIZE-BIZES • IJRAI. cosa esquisita I De una . 43 5.. Ia gran grita..

DONA LÚc1A . era a pé. A maioria a pé. Tinha os muito ricos que faziam enterro com carro. cavalos de penacho.RICARDO NEGRÃO FILHO . foi assim.DIA 22 TERÇA o DlRECTOR DO SERVIÇO SANITARIO MANDA AVISAR AS EMPREZAS FUNERARIAS QUE FICAM PROIBIDOS OS ENTERROS Á MÃO. 22 DE OUTUBRO DE 1918 O SECRETARIO . CORITIBA.1976 por muito tempo. pano preto. mas eram bem poucos."E. Iam carregando o caixão e as gentes a pé acompanhando pela cidade inteira até o Cemitério Municipal. ENQUANTO ENTENDER NECESSARIO Á BEM DA SAUDE PUBLICA E QUE OS ENTERROS DOS QUE FALLECERAM DE MOLESTIAS TRANSMISSÍVEIS SERÃO FEITOS SEM ACOMPANHAMENTO SENDO O CADA VER PROMPT AMENTE REMOVIDO PARA O NECROTERIO DO CEMITERIO MUNICIPAL." 15 .

noiva do assassinado.. COMMERCIO DO PARANÁ ~=============" IIVida Social .~=======~ II Positivamente a vida humana não vale um caracol . lamentando a sua triste sorte. A infeliz. que pedia para ver o cadaver de seu noivo: pedido a que os guardas depois de muita relutancia resolveram acceder. chegou ali Maria Esteves.. cahiu debulhada em lagrimas.UM CASO PUNGENTE Quando o povo se achava agglomerado em frente ao botequim. COMMERCIO DO PARANÁ 16 . ao ver o cadaver do noivo.

felicitar os srl!!.roo 84 tend -ciplina aqllella com das unido.. pelo SI'. !uneet-o. ord~l" du dia ho .•.ee assieti.:. tle inspeccílo dg ST.•ba.::===============DiJ'cctor: Generoso nor~l'~ DIARIO FOLHA DE MAIOR CIRCULAÇÃO A inspecção do sr.. (.sre.nfltruccão mi c3t1a um. &.4 o que grande.. f(T. .•• .C.o Pin to da Silva..Tia.UC se gaJ10 di wppril tem esforçado 09 . onBl<u. lendo tudo 1'01' mim [l{'Om'llallh<ldo em to inforntR':1O de (das as v.0 tenente Adria. di l. lho l!!obre alcooliemo. para conveni-ent<· litar fo~e rni·nistrada m-ente e sem embar-aços. agradeçendoJ..0 t&nen-te j<"a."HONEl lI08 -.de.. dr.! obseI"Vou.. miHtar ao. Ch. carpacldade e disciplina lar clnen:""It·d& I e Que continuam~nte dão Ilobejas t-em."i. ficou a. que se encarregou do Com numero rel. (' f':<talH'\{'ciIHcn. i.sita-g {jUe' fl'7. M. '\Se ~1 dOrf~!l Í1'ancezea Termin:W~l a In:-lpecC.. do Corrttlo . Je baixadQ.e •. a pense ta. ma".:rnandes Jonsen Tavares. capiotão JOü.' ítuiçlo' é A Q. de 2.Zlo pelo ar. PAGINA --- •••• ••••-----'Andradtl - guintes Grs. Que ã. vando na e çü'o vudes-.a: si'8tene !Annun{' a.: . A. O puseio militar no dia. __ . primento dos seus deveres e louvan AMER:'CA Cl do-os 'pela. nl2'ral J. .S.ndante dt'Mta rogiíi.ül hnpt.'oroue-l Olava CO!'TI'ia a se-guinte parte que se refer~ 11 visitl. com mandantes de unidades e dirE'e-torE's de e8ta~leêlmento!i mj.' ledico. 'O'f!tcial Ant. da Cir cumacrlpçi.!.I.l'1. cir'cum6Cripcli. AUI ter sido a 1lI('J-hor 1l()S~lvf'1:t IllT\lJ"('S são rN'(>hida (1('1" mt'l'Imu ar. que o PaI hontem u'n& c& Para.no Saldanha.]dido I. 'J)elJ._.l.. E: ir"" o reBultullo dos ao sr.••• ~'J. feita por 80rte rooalhiu no.=""""'======================. Frail1ce a com.me-n'al.oe.do.•.stifi. todos empregados." I~ ~~osen~.n~ -f.rat'l.l O cOl. eetot'\.IlOS. oMiciaes e '1. TU&. general Barbedo a esta cir· cumscripção Ul':<laçamml da.rio para que a instruc· 'tla neral comp-le:ta" a del'lejar na .hes o in" em THEA'lRO MduzidUi·.el!!que granrde fim -de . Devo citar t<l. major dr.obom exito e. &- Por todO<:! esses nlotiv06 apresen to minhas felicitaçõE"1iI aos sr8.: 1.l"a[ I.onlo ANCS de Magalhites.•.vprnl). Fora. _ "Diarlo" l .. oi!tt'icia.e:. belIl como aos o1iri-cille8e praças.' ~~ .ra. ga.o F.u hOn A designação desses ofriciaes que era. Lj 2.1 A influenza A Syrla e n s-.•. p"'ico le.uiz B8Tl>edo. o a pa. lU "'ndlM"e\o teleg. eervi(:o de con!erencl&!l 1I0bre h)'" giene. cumpro (l graRI-o wn I'rupo' tu deVe!' de Jlllul:('ar que me IHll'f'ce ques m de te ra conl!a.rnbem o sr.8 "Protê&".ado de seu.q.o.s das div<lrsas t exame . de T~ nca. hontem·· Ct8&8 da.• Theatrosi "'A'$~'_ THEA'i'RO· anima.do ~ que' deve ter notado o m'uito l.'._-.:a. 'exh.')Il. (IUC'b~ -tante concorreram para os resulta doa colhidos.)lndo provas. qus. SOllr -e Tripoli. com..lle :p de 3.: tes.-elou o ass-eio. M.~ula. A. gcu(.litares. que 'Proouziu um beBo traba. do· 4.iacs e a d('[i$ipncia do ma· teria.l._.1tt!.brlcl& nt>-do Rego Ba. obteve C1-rmde Aprovoito ainda oppor>tunidade pars. A.e . C'--"ro"t:"- U/.1m ~·O l!oje ~ 9. rim. declamado Q _11:. do o gran Que 17 viço de Saude e Vetel'lna.. I --..:1Ilu8~~~~O da~ PO:lu1açõe.. e aspirante â.cf. gC'nt'n1...O "'E1d..'.lta -de folffk. e capitão Seba.B<ldac:ção • OftlciJulo 'W.Q do ParanA.sa. parecendo tn autorld.-te •. '---- NO PARAN.. h"je a.lor mll5l é'ê O trL'1l!1mo tos milit."ptn1aacl( tod08 -lyt~.... g(' eS'[orç:C»! ~IO[' 'ÜilE'_ di:.o. der doA'UoT". do 2. delicada.m conferencias militares.1 teresse sempre patente&-dono cum. da 2. ~omma.l'C&n~ PAlA'-C: O Ta \.fizcra.'ommnndunte (ll'sta l'l'giAi(.ar€'s desla cU\lital. Olegario de Vasconcellos.° B. MazzR. !i1m ••As ·feduzl chefe Se-r . 'JIt . E.. {...C' ser ter deixado de<Vlda conta..° H._...' COI'lIO.!!fle Çao cine:ra&togt' CONTINUA NA 2.•• . Und ~.l lll'C'~~...hoY-.nall da 11"a. 15 de Yovtlmbro.• I_ :.'C" Jpgo.r.ide ficado ~uti8felta. l!am~ f''''f'rci~. 12 de tubro re.· eommal'ldan tchf"Qullri<e de. 'P~I~ "Chllro-.f unidades para.0 R.

TRAJANO REIS DIRECTOR DO SERVIÇO SANITARIO DO ESTADO 22/10/1918 Entro na casa a porta sem chavear alguém que saiu para voltar e não mais voltou entrou para sair e não mais saiu Não sei porque entro entrei nesta casa onde nunca entrei Pássaro em água estranha Vagueio pela penumbra do corredor pela porta entreaberta vejo 18 .CONSELHO ACONSELHAMOS AOS HABITANTES DE CORITIBA QUE NÃO SE VISITEM. MESMO QUE NÃO HAJA MOLESTIA NAS CASAS QUE PRETENDEREM FREQUENTAR. ATÉ QUE TERMINE A EPIDEMIA NO RIO DE JANEIRO. SR. BEM COMO QUE NÃO CONCORRAM AOS LOGARES ONDE HOUVER AGGLOMERAÇÕES DE PESSOAS. DR.

Prá não adoecer Tomo o conselho do Lauro E deixo o barco correr DIÁRIO DA TARDE Manuel Salvat 19 . pensando no caso.o bello par E não pude uma só vez Os mesmos apreceiar-p! Não vos sei tambem dizer Porque houve tal vazante Si por andarem como eu Numa lizura berrante Ou si por cousa diversa: Por se meter na cachóla Do povo qualquer receio De companhia "hespanhola" fUCA VIOLA Pois que d'elln só se falla N'outra cousa não se pensa E anda tonta.DIA 23 QUARTA MUSAALEGRE Não há nada neste mundo Que mais possa aborrecer Do que cruel "que brade ira" Sem vintem pr'a dispender Esteve aqui a Olona Com Salvat .... Mas eu. A propria gente da "Imprensa" O Lauro Lopes já disse: Quem quiser ser forte e "são" Beba limão com cachaça Sem abusar do "limão" . atrapalhada.uma sentença! Um conselho em cada esquina E a série de disparates Boas risadas propina . Cada coro..

Benedicto Carrão.(]eqtral HOJE • lIOJE gl'ltllIJO o A Creaçi\o ncontecÍmcnto ela Mmll..~'~. elegante -. ------.- O peeopd dos treeottds DIA 24 QUINTA --------------- NA BELGICA OS EXERCITOS ALLIADOS VAO LEVANDO DE VENCIDA OS ALLEMÃES NÃO MORREU NINGUEM Informa-nos o sr..~"" -s_.J~~.Jla : CAMINHO extl'l\I)r(i1nuri'l DE BERLIM RIII('rf('IUlo: dI). não DIÁRIO DA TARDE se registrou obito algum nesta capitaL 20 . n~ r~t __.--~~-~-"- -- ~-- ii ====::.-~--_.--------ii ."---COMP. CINE TH[ATRAl PARAt~A..Ilctor "1101'1111:111 GEORGE W ALSH ~ma na~ mai~ ij~lla~ronu~~õ~~ ~ --'--'--~c.~.=... official do registro civi~ que hontem e hoje.

«Ccmmerrio I do Parará» Em virtude doccido de terem a· al~uns possivel dos not sos não com operarfos a ultima nos foi hora. (Sebastião Paraná . SUSPENDER O FUNCIONAMENTO DOS CINEMAS E OUTRAS CASAS DE DIVERSÕES DESTA CAPITAL. fazrr de a que a edicção hisse com tod d de redacçãD. BEM COMO DA CAPITAL FEDERAL. ~oie sa· mat. Parecia a cidade dos mortos.JOÃO ANTONIO XAVIER PREFEITO MUNICIPAL 21 . E. não encontrará aqui ensachas. EPIDEMIA ORA REINANTE EM DIVERSAS CAPITAIS DO PAIZ. se subir a serra pela linha ferrea ou pela estrada da Graciosa. Não houve casa que não tivesse alguém doente. ria "Famílias inteiras." DONA LÚCIA - 1976 DECRETO N~ 132 O PREFEITO MUNICIPAL DA CAPITAL. ACONSELHAM INSISTENTEMENTE QUE SE EVITE AGGLOMERAÇÃO. COMO MEDIDAParaná) PREVENTN A CONTRA A INVASÃO DESSA EPIDEMIA. AFIM DE IMPEDIR A PROPAGAÇÃO DA "GRIPPE ESPANHOLA". meio favoravel á sua propagação virulenta. A peste! EUa não nos visitou ainda.Commercio do RESOLVE. PRINCIPALMENTE Á NOITE. 24 DE OUTUBRO DE 1918 (ASSIGNADO) . não nos visitará. TENDO EM VISTA QUE AS DIRECTORIAS DE SERVIÇOS SANITARIOS DA CAPITAL DE SÃO PAULO E DESTE ESTADO. CURITYBA.

immediatamente á chefatura de policia. que assim.. onde.aquelle subdito sueco. para exemplo. COMMERCIO DO PARANÁ 22 . às 23 e 30 horas. deu. indo. á ordem do sr. dr.OUSADIA BOCHE O distinto advogado criminal sr. presisente Wenceslau Braz. Chefe de policia. se manifestava tão favoravel á Germania e tão hostil a nossa Republica. Napoleão Lopes effectuou hontem a prisão do germanophilo Roberto Thomaz que no "buffet" do Theatro Hauer teve palavras ofensivas às nossas instituições e ao governo da República determinadamente ao sr. O referido germanoplhilo foi recolhido ao xadrez . Ouvindo aquelle advogado palavras insultuosas á nossa Patria.. voz de prisão. por escripto. deu essencia do seu acto.

AS NECESSARIAS PROVIDENCIAS AFIM DE SER FEITA. SOLICITO A V. CHEFE DE POLICIA AO DIRECTOR DE HYGIENE DO ESTADO DO PARANÁ. A direita assentada sobre o lento respirar do seio rijo.\lIm J.:u~a WILLIAM ". SAUDAÇOES.918. REFUSE:~ OS R~CJP!F. A DESINFECÇÃO DAS REFERIDAS PRISOES.C::U~. DA GRACIOSA."l cOlltêrn meia agua. LINDOLPHO PESSOA. "SENDO NO MOMENTO ACTUAL DE GRANDE NECESSIDADE PARA A SAUDE PUBLICA. e IIt~n. A HYGIENE QQUE SE DEVE MANTER NAS PRISOES DOS POSTOS CENTRAL. PORTÃO E DESTA REPARTIÇÃO.!lTES D'FSTA r.:.dquer OU~j'·1 synOD)"m(i . NeDhlUn 'recepta'àulc o MELHOR DESINFECTANTE genulno qU<I nôo tonba o nom~ . das lffillaçocs. INCHEI: "JSSAS PEARSON r.. parca seara de louros pelos OFFICIO DO DR.tKuma. tem nada que ver com qu. 23 .Jod"1 'deAi/lrect:}'Lte SEitI ESCRUPULOS TOR~AM I. A esquerda.Lricatte U<JO Esta t. SE:: u. COM A POSSIVEL URGENCIA.oIIMERC[A~iES LATAS. a da aliança por sobre o lençol branco branco braço nú.t\SSE. ONDE EXISTE AVULTADO NUMERO DE DETENTOS.DIA 25 SEXTA o PAPA INTERCEDE PARA QUE A BELGICA NÃO SEJA DESTRUIDA PELOS ALLEMÃES Mãos grandes como de cavalo.A..10 f. EM 25 DE OUTUBRO DE 1."LT~~~. EXCA.

PRESIDENTE DO ESTADO DECRETA QUE SEJA CONSIDERADO DE FERIA O DIA DE HOJE. os casos de doença existentes. commentarios ironicos em torno da nossa attitude em relação á epidemia da "grippe espanhola". DR. fiquei dias caída na cama ardendo em febre. dizendo-se abertamente que a molestia invadira a nossa tenda para obrigar-nos á uma formal retratação.0 ANNIVERSARIO DA ENTRADA DO BRASIL NA GUERRA ACTUAL. tratando-se de simples grippe." DONA LÚCIA .918. prostrada sem vontade. continuamos firmes em nossa attitude pela razão de n[o ter sido de "gripe espanhola" verificado ainda um só caso n'esta capital.1976 DIA 26 SA'BADO DECRETO O SR. Não obstante. COMMERCIO DO PARANÁ "Fiquei. sim. aliás commum na estação que atravessamos. devido a uma interrupção inesperada do trabalho em consequencia de terem adoecido operários da secção de composição. como num outro mundo. NAS REPPARTIÇÔES ESTADOAES EM COMMEMORAÇÃO AO 1. 24 . Esse facto suscitou hontem em certas rodas. Mas em mim deu fraca.NÓS E A "INFLUENZA" A nossa edição de hontem saiu muito aquem da espectativa. 26 DE OUTUBRO DE 1. obrigando-nos assim ao sacrificio de materia redactorial cuja inserção foi absolutamente impossivel.

. os cultos de costume. José da Gaita DT *l["õ@:~l@l~. peito.NA SERVIA NA BELGICA E NA FRANÇA OS ALLIADOS A VANCAM VITORIOSOS "A HESPANHOLA" De manhã abro as gazetas nenhuma nota . a Egreja Evangelica Presbyteriana da rua Comendador Araujo resolveu não realizar amanhã. ----- . I Os olhos costurados pela febre loura linha a mesma que tece seus cabelos AMANHÃ NÃO HAVERÁ CULTO Attendendo aos conselhos da Inspectoria de Hygiene.que bola! Limpo e relimpo as lunetas Nada. a hespanhola... .J ------------. A policia nos socorre Toda noticia degola -Aqu~ de vez. domingo. DIÁRIO DA TARDE 25 . Foi p'ro xadrez..~. .• .. ninguém morre.I~ =..*.. nada de hespanhola.jl~H.~~~~~~. pulmO~se garganta..

1976 VARIAS Phenomeno unico na vida coritibana accentuando o contraste de somente em epoca de epidemia ás portas do Estado e quando se pretende espalliar o panico isto se dar: ha trez dias que não é registrado um só obito numa população de 80 mil almas. na rua Marechal Deodoro. Mas não tinha remédio que servisse. Deus vendo a creolina penetrar no seu templo certamente se sentiria diminuido em meio da radiosidade de seu prestigio . nasceram no districto desta Capital. no trecho entre as ruas Primeiro de Maio e Floriano Peixoto. Fechemos os cinemas. de febre typhoide. com grande perigo para a saude publica. COMMERCIO 26 DO PARANÁ . Nestas condições.Depois raciocinemos um pouco. Hontem. As egrejas são templos sumptuosos de Deus.. pondo ao sol um lodo podre e capaz de infeccionar o ambiente. mas também abertas não continuem as egrejas." DONA LÚCIA . Pro pessoal da fábrica eles distribuíam garrafas com limonada. Havia o padre Miguel que ia nas casas levando follias de eucalipto.DT "Remédios não havia. Durante a semana ultima de 14 a 20 do corrente.. 39 pessoas e faleceram 19. uma parte da rede de exgottos. irrisorio seria que se as desinfectassem. estava sendo descoberta. De molestia infecciosa houve apenas um obito. VALlOSISSIMA OPINIAoI GASTÃO FARIA .

.NOTICIAS DO PAIZ O RIO COBERTO DE LUTO RIO. muito loiras e frias ..A peste de guerra aqui importada pelo "Demerara" e recebida gentilmente com o carinhoso titulo de "pucha-pucha! DIÁRIO DA TARDE DIA 27 DOMINGO ~ 1i (I . meus dedos dizem Amarelos Ao levantar o branco lençol advinharei os outros pelos ? 27 .~========:.26 .::====='" Vida Social II SUELTO . COMMERCIO DO PARANÁ Cabelos de vassoura mais macios. pallidas e loiras. A influenza hespanhola e o amor seria uma tese psychologica magnifica para ser desenvolvida por um Paul Bourget de francaria que se atormentasse num eterno sonho de duquezas e condessas...

como sahio na noticia . . . Stanislau Urichi. .. E foram . Esse estupido e atrevido subdito do kaiser. . cheios de presumpção e agua benta ( ). . cantando hymnos patrioticos allemães e jogando chacotas aos brasileiros praticando outras tantas imprudencias que o atual estado de guerra em que nos achamos não permite . Á essa offerta. nós não somos criminosos e não ha lei que obrigue a falla portuguez". o escrivão daquelle posto offereceu guardas civis para acompanhal-as. nesta cidade. ellas responderam: "Não precisamos ir com brasileiros. . esposa do sr. .A AUDACIA DO INIMIGO PRECISAMOS SER MAIS ENERGICOS AO MENOS EM NOSSO PAIZ É deveras para se lastimar o facto occorrido hontem á noite. . Anna Urichi. Na Repartição Central . Praza a Deus que assim se conserve Coritiba. barbeiro á praça Zacarias 22. . explicando-nos ter sido desgostos por uma infermidade incuravel a causa daquelle acto de desespero. . Uma cama de allemães audaciosos. e não o receio da epidemia de grippe. entenderam de em pleno seio da capital desrespeitar a nossa pátria. " O mais exaltado era o conhecido fanfarrão Frederico Rummert que em portuguez arrevesado gritava: "Não bode ser. procurando offendel-os com palavras asperas quando era recolhido ao xadrez".. "Cantamos e havemos de cantar hymnos allemães porque não somos trahidores de nossa patria". revoltou-se contra os guardas. .. ha tres dias em que não se verifica um só obito nesta Capital (quadro urbano).. . COMMERCIO 28 DO PARANÁ . Apenas no quarteirão das Merces se deram dois fallecimentos um por tuberculose e outro por lepra. . . preferimos ir sosinhas".. . . Hon tem visitou-nos esse sr. Com o de hontem.. . Havendo algumas mulheres dito que "não iam para casa sozinhas" . . . . COMMERCIO DO PARANÁ VARIAS Em nossa edição de antehontem noticiamos a tentativa de suicídio de d. .

o cansaço. "É. .Ao de quahluer EI)tdemia. Rua Saldanha Marinho n. l)ois é a melhol plua u. Remédios não havia. Com este metllodo pra tico e C('oUQlllico." 29 . desinfecçí\o no in terior das ~"sa~.1976 febre alta.s. o 168 (das 5 as 6 horas da tarde) CP familias ProcuI'{ds comprar Naphtuliun C)'eol. folhas de eucalipto. AvttR_S facllmen te :t lH'opIIgac. Para queimar dentro de casa. ficar deitado curtindo a DONA LÚCIA . a dor por dentro.PRECISA-SE De uma mulher para viver com um bom homem solteiro. queiman do-se uma p(~quena porçí\() sobre brl! Z(\8. Muito repouso. eJl\ escaw{J.

isso por desgostos intimos.DIA 28 SEGUNDA o KAISER VAI SER DEPOSTO A SITUAÇÃO NO RIO DECLINA LENTAMENTE A EPIDEMIA E OS CADAVERES JA SÃO SEPULTADOS . . . o preso João Baptista Alves dos Santos. que se acha recluso no xadres do Posto Centra~ tentou contra a existência tomando uma forte dose de DIÁRIO DA TARDE creolina. A PESTE RECRUDESCE A SOPA DOS POBRES buço parco louro encima lábios rubros do calor da febre ao levantar o branco lençol encontrarei outros pelos louros cercando rubros lábios NAS RUAS E NA POLICIA NO QUE DEU A "HYGIENE NAS PRISÕES" Hontem a tarde. 30 .

epid@mia nAo no& rla que todas pnssoas Que acto qU3ircrn cump' A-/ A COM MiSSÃO ) f duasSão S9baGtiA' SAo 8 e és missas. e bn ~ómente tlorque mil à tua bireita. ás Rcqu!I 8 112 hc ras. do DIÁRIO DA TARDE 31 . e AmAnhA serAoil celebrad"slPn a .lrle confiarei ~orque qele te Iíbrará bo (aço bos caçabores e ba peste perniciolla. e brrás ao ~ltíssimo te entregallte. 510li portanto" con. Convite afim eftlija. jflil cairão ao teu labo. a paga bos prcaborell com os teuS o(!Jos tontemplarás. penall e bebaixG be suas nocturno. o meu meus. em virtude de terem adoecido diversos funccionarios de suas officinas. ) ) 8066 I Rneumatismo. na Cathedr31-':' I Lo ~ vidadzs a es~e rtcer. UIG~~ cancerosas M mirei bo ~en!Jor: qele é meu refúgio e min!Ja fortale?a. nem ba calamibabe que alISo(a ao meío·bia. mall não se t!Jegará a ti.l . nem ba seta que bôa be bia. o teu refúgio é o ~en!Jor. allas te acol!Jerá: a llua qele te cobrirá com suas jião teráll mêbo bo terror berbabe llerá teu ellcubo e broque!. I' ~tJf 1V. 90 ~~ltjflQ!') DIA 29 TER~A o "COMMERCIO" NÃO CIRCULOU Deixou de circular hoje o nosso apreciado collega mattutino "Commercio Paraná".o. jiem ba pellte que bagueia nas trebas. i.I t\1.

SRA. Por causa da febre forte dias e dias. TODA E QUALQUER INFORMAÇÃO AO RESPEITO DOS MESMOS DEVERÁ SER DADA PELA EXMA. Não adiantava. pintados de cal." DONA LÚCIA .fenda virgem para mfm advinhada por mim "Muita gente ficou com o juizo abalado. IRMÃ SUPERIORA E PELOS MEDICOS DO ESTABELECIMENTO NAS HORAS HABITUAES DE VISITA. Mesmo muito tempo depois da gripe encontrava-se gente que nunca mais recuperou a razão.brancos os pés. olhando com aqueles olhos. O louco comia pêra com lesma.. ficava horas mastigando fruta e bicho. CURITlBA.. LEMOS No monte de venus parca loura penugem . olhando.1976 32 . pro resto da vida. lugar úmido. 29 DE OUTUBRO DE 1. sempre cheio de lesmas.No jardim do Hospício tinha umas pereiras.918 ODIRECTOR DR. COMO MEDIDA PREVENTIVA ESTÃO SUSPENSAS AS VISITAS AOS DOENTES INTERNADOS NO HOSPICIO NOSSA SENHORA DA LUZ.como pelo de pecego margeando os lábios rubros do amor .

antes de enterrar tiravam do caixão DONA LÚCIA . eu mesma costurei algumas.000 ai.1976 pra servirpara outro:' 33 . A b m 6EMia'Y9bW'(4 AiiS . o nosso dever profissional nos força a sahir do mutismo em que nos encontravamos nesse sentido e vir dizer ao povo que todo esse preparativo que se faz não é apenas para evitar que o mal chegue até nos... DIÁRIO DA TARDE "Os primeiros mortos tinham mortalha.DIA 30 QUARTA AS VICTORIAS DOS ALLIADOS SE MANIFESTAM POR TODA PARTE! ~~~""..eCt~ n _ ••••••. com relação á epidemia.~ ~ IA paz incondicionalmente iI Austria rende-se e quer Ia i I 95 êDglo·jjalianos avançam aíé~ do (íé\Ve e capturam I 12. Vinham buscar os mortos. Depois era de qualquer jeito. mas sim para dar combate á enfermidade que já n?s atingiu. faltou até caixão.Isfflél(OS e 50 canbõfs I f\ Brlgicd Vde ter a séde do seu governu dentro dos territorios receul-libertados A GRIPPE Embora a censura policial tivesse varrido do noticiario da imprensa a rekltação dos fatos verificos.

onde praticou uma necessidade phisiologica na porta da redacção do "Diario da Tarde" e em seguida veio escarrar na porta da nossa redação.- . COMMERCIO DO PARANÁ 34 -.ONDE IREMOS PARAR? A QUE PONTO CHEGA A INSOLENCIA DE UM BOCHE O allemão Rodolfo André Damn. veio á rua 15 de Novembro.

PRESIDENTE DA REPUBLICA ESTARÁ COM A "MARIA IGNACIA"? Rio 30 .Encontrasse ligeiramente enfermo o sr. DIÁRIO DA TARDE A FALTA DE CINEMAS TRANSFORMA CURITIBA EM UMA CIDADE DE MORTOS DT DIA 31 QUINTA ReJO DO OPRIEDADE DA SOCIEDADE ANONVM4 . •.-. glorioso 8 A biHlda de rc'!'hncllto de tnusira do tã') cele brc quAo ZURVOS do exerdto francez 35 . Coritiba _. Wenceslau Braz.o SR. 31 de Outubro de 1918 Visões da Guerra ~~ . Quinta-feira...-- "COMMEACIO Pl DO . FRANÇA . . que não desceu hontem às salas de recepção. ~~ ~ --- ----~-----~----.

de manhã e de noite. deve ir immediatamente para a ..a bocca.]lini8ter. pessoas Recommpudamos maior rigôr TUl def(>.tiu. fuitar. Aconselhamos. fuitar. afim de evitar que elles adoeçam pelo esfalfamento e venha a faltar no momento mais difficil.1 CÚU edosas e c(('Unça.ão basta passar um panno molhado em agua com creolina pelo soalho da casa do doente e desinfectar o seu escarro. Tomar 3 por dia. ("(mIm a in/t'q:. O repouso ao leito. Inmar um laxante cada 4 dias. como nenhuma outra molestia infectuosa ou parasitaria. também com creolina. Dieta lactea. o regimen lacteo e essa medicação inicial. QIDln!Q á desinfect. do doente. quando elles poderão prestar maiores serviços ápopulação. aggravàndo a situação geral. o uso de bebi das alcoolicas. que facilitam a infecção.loou:. com febre. Só chamar o medico para os casos serios. Não fazer visitas e evitar o contacto com os doentes de'~ porque o contagio é directo.o da Justiça.'tI.ldI1l1lI.A homeopathia. afim de trazer o tubo digestivo sempre desembaraçado Ellgir das agglomerações.. fazer uso de purgante salino' ou de calomelanos e tomar aspirina e quinino á 0. l.30 centigrammos para uma capsula. não curam a grippe. o seguinte: Tranqyilidade e confiança nas auctoridades sanitarias. Indo doente grave deve ser entregue a um enfermeiro ou enfermeira. e instillar. fuitar.. 5 gottas de oleo gomenolado a 5% nas narinas. nariz e gargarejar com agua salgada com agua salicylada a 1 por 200. AVISO: . Sentjndo dôres de cabeça e pelo corpo. que são muito graves. diariamente. Eara lavar a bocca e gargarejar é excellente a agua com um pouco de tintura de iodo.li. evitam as complicações pulmonares gastro-intestinaes ou nervosas. a não ser do medico assistente. e Negoci".s Interiores Serviço ~e prophylaxia rural do Paraná Combate á grippe Conselhos á população paranaense É impossivel evitar a propagação da epidemia de grippe por não existir um preventivo seguro capa"" de evitar a infecção. O mais importante é a desinfecção da roupa de corpo e de cama. em seguida. sobretudo á noite.as causas de resfriamentos. de individuo doente a individuo são. So levantar-se quando não sentir mais nada. toda a fadiga ou excessos physicos. ~ refeições leves e a horas certas e dormir tempo sufficente. ~não deve receber visitas. ou usar tampões de algodão com 'vaselina mentholada a 3%. pela ~ ~ é molestia muito séria quando descuidada. com tudo. 36 . para evitar a intervenção de pessoas da família ou extranhas. que seriam contagionadas. O espiritismo e as hervas.

1918 Novembro o mez da grippe .

continuamos ftrmes em nossa attitude pela razão. de ocultar a verdadeira situação. no dia primeiro. pois que. vendo hora a hora cahirem os nossos companheiros enfermos. não em entrelinhas nos manifestamos ante-hontem. "Como saber quantos morreram? O governo não ia dizer o número verdadeiro dos mortos para não alarmar. não nos era possivel descuidar da nossa propria vida. espalhou-se de modo aterrador. reconhecendo que outra cousa não era sinão essa epidemia que já se estende por todo o Brasil." DONA LUCIA . ninguém sabe ao certo. foi que.. Até hoje. Relatório do Sr. DIÁRIO DA TARDE Agora está m~o morrendo muita gente. em termos claros.DIA 1 SEXTA HO KAISER CAPUT_" Contra esse injustificado interesse das autoridades sanitarias. Começou o mez de Novembro com um obito por grippe. Dahi em diante. por assim dizer. invadiu. achando razão nas declarações de que em Coritiba não há epidemia. todas as casas. quasi sem homens para o trabalho. director do Serviço Sanitário não obstante. todas as classes sociaes.1976 Fina loura linha não de tecer mas louro novelo ninho para o pássaro asas da minha mão 39 . o mal tomou proporções assustadoras. Trajano Reis.. Dr.

. dicCl J' . Tristonha de amarguras e miseria. na lidadeira daqueles dias. colocou na cabeça e saiu daquele jeito pelos corredores: camisolão branco e coüa na cabeça.DIA 2 SA13ADO ~ I. Deve ter achado bonito. a directoria do Serviço Sanitario o fez sob condicção de funcionarem somente 3 vezes por semana. cantando: 40 .Nov. O louco entrou.. Deixando o corpo á podridão do Nada. mo• Iva' por preç A. viu a coifa da freira em cima da cama.uta ' no •••• officin •• da C05tur. CP A freira. E assim vamos indo nessa estrada. fornecem encommend •• no prazo mal. 1918 PEQUENAS NOTAS Embora permitindo que os cinemas voltassem a funccionar.. FERREIRA LEAL . deixou a porta aberta. curto po•.

Quem podia. á r\. Mas ir para onde? As outras cidades também estavam doentes. faTrata-se Al'RlI. 51.." DONA LÚCIA .'l CcmmenfÍRdor de uma uma. com medo da gripe.1975 41 . cOl!inhoir~ para acompanhar milil\ para ·fvra dl\ Yapita1. "Muitas famílias saíram da cidade.io n.DIA 3 DOMINGO Nas outras mulheres que conheci na cama preta mata cerrada escondendo o sulco muitas vezes arado Crreada Precisn-s'J com urgüllcio. saía.

DR. Kriste Eleisson Buxeta.4. Zombar de uma cousa de que se não tem conhecimento. com' nenhuma outra mo/estia infectuosa ou parasitaria. SATURNINO SOARES DE ME/RELES .ECCLESIASTICO .DIA 4 SEGUNDA Kirie Eleisson. Allamão Allamão Te pego allamão AhhhhhAaaaaaah Ghhaaaaaaaaa A HOMOEOPATHIA TAMBÉM CURA A VISO . DR. faltou madeira.. a garantia do médico conscencioso. a segurança das sociedades. era o pai chegar de um enterro já tinha de levar outro ftlho para o cemitério. No ftm.Capo 38 V.~ saude das familias. o espiritismo e as hervas." DONA LÚCIA .Conceitos sobre e doutrina homoeopathica. DIA 5 TER~A "Ali naquela casa morreram sete. . Buxeta. -ALLAN KARDEK . não obstante. HERACLIDES DE ARAUJO Na homoeopathia está a salvação do genero humano. não é criticar. o complemento e a certeza de arte de curar . Buxeta.A homoeopathia.Livro dos Espiritos O Altissimo creou da terra os medicamentos e o homem prudente não os desprezará.1976 42 . continuamos ftrmes em nossa attitude pela razão . que se não sondou com c escalpello do obseroador consciencioso. DIÁRIO DA TARDE . não curam a grippe. Ele mesmo fazia os caixões. é dar prova de leviandade" pobre idéa do proprio juizo..

Os dois caíram com a gripe. ninguém notou.. Passaram muitos dias até que uma vizinha lá entrou e encontrou os dois . suspender temporariamente o trafego de eletricos á noite em nossa Capital. Imagine os dois. um num quarto. " DONA LÚCIA . não se davam com a gente do bairro. loira. seu nome era Clara. sofrendo sem assistência. isso. as de pouco pelo (negro) que conheci ofereciam lesmas escuras que mesmo penduradas da carne faziam parte "Morava um casal de alemães.6/11/1918 Ou então. Clara.1976 43 . outro no outro. Não recebiam muita visita. muito bonita. resolveu a South Brazilian Railway.DIA 6 QUARTA VIGOROSO ATAQUE BRITANICO MEDIDAS DA SOUTH Luctando com a falta de pessoal devido a epidemia reinante. CP . a mulher alta..

por exemplo... asas sinistras sibilantes..A "BLACK LIST" ALLEMÃ "Apesar do estado de guerra. · . em que nos achamos. COMMERCIO DO PARANÁ As abas da coifa.' feur ao almoço ? ..\'t · . COMMERCIO DO PARANÃ 44 . o buzinar estridente da ambulancia é:. o louco homici& ~============~ IIVida Social II .. Imagine-se. Mas a sra. .~=======. é sabido que os subditos aliemães que infectam a nossa capital mantêm um "jornal" escripto á machina o qual escreve telegranunas que dizem receber por intermédio da Argentina. Esse "jornal boche" passa de mIo em mão" . um pobre enfermo a curtir 400 de febre e ouvir ::. d. parece não ter vontade de deixar ninguém em paz . corvo branco da morte. passa por ahi somente porque vae levar o chal.6(11(1918 DIA 7 QUINTA A PAZ NÃO ESTÁ TÃO PRÓXIMA DIZ CLEMENCEAU Nada assemelhado a isso fenda estreita oferecida como lábios da febre pequeno regato de morna ácida água onde vibram mil peixes DEIXEMOS DISSO · . de que qualquer coisa apavorante ocorre ao nosso derredor. ás vezes. Assistencia Publica que. fora. Ao ouvir o trombetear agudo do auto ambulancia tem-se a impressão doloras:.. Hespanhola. COMMERCIO DO PARANÁ . no silencio sepulchral das ruas desertas..

tendo a cidade 5e movimentado mUlto ác. prirn\3ihoras da noite..Telegramma recebido á ultima hord . onglllae~ ""s A" 1\ ...COr".-----.do a situação lamen:1 e doloro~a em que se ach~1o Rio. 1 do no..101 I. :-:'.DIA 8 SEXTA A CESSAÇÃO DA GUERRA COM A ALLEMANHA FOI FIRMADA o REGOSIJO PELA 1ERMINAÇÁO DA GUERRA É ENORME FM TODAS AS CIDADES DO MUNDO --_._-----.1i:1 1'111:11(0 tnl . 1918 .__ .j_mUilmi!·_ZlB n t .Caderno de um grippado .--.acional. ás 11 horas.rnar-:s affixaram outros despad10s teleglaphicos annun· do que ás 13 horc.-- DO PAllANA . quando '. a~signado o isticio entre os paizes alliados c o imperio allemão. A hruma.. causou grande lção. 8/11/18 45 JAIME BALLAO JUNIOR .: d._ondres.i~:: •• _ ••.j~.". a ~evoa.s de hoje foram cessadas as hoc. ''''. eM OOMMERCIO --.. batalha. 7 (Urgente)-.tili· .• assignado hontem O armisticio entre os alHados e a AJlemanba RIO.""nhl'o . intensificou-se ainda mais a sensação popular. 8 '•. 'I íido re PEL~ TELEGRÀPH~ w_IIlIIIiI IlIl_ ••••••••• .lcç. máo gra.em todas as frf1ntes dp. l!ssa noticia sen::.iba. a grippe. noticia que foi hoje.~--Irltgrammas á disposiçilo 00>.

e só não se fazem sepultamentos por que o official do Registro reclama. aggrava-se o estado dos enfermos nas esquinas. do que a grippe hespanhola o que está nos matando é o boato. pois. primeiro porque a quasi totalidade dos musicos de nossa milicia baixou hospital atacado da epidemia reinante e. segundo.Prefeito Municipal 46 . de pilheria em pilheria. Acabemos com elle e terminará a grippe que de trocadilho em trocadilho. está pela simples suggestão attirando com toda a gente á cama. DIÁRIO DA TARDE DECRETO NO 133 O EXMO. CURITYBA. 9 DE NOVEMBRO DE 1918. assoJOÃO ANTONIO XAVIER . Mata se gente nos cafés. cream-se cifras de doentes. ENQUANTO PERMANECER A EPIDEMIA REINANTE. Peior. CORONEL PREFEITO MUNICIPAL AUTORIZA O COMMERCIO DE SECCOS E MOLHADOS E PHARMACIAS A CONSERVAREM SEUS ESTABELECIMENTOS ABERTOS DURANTE OS DOMINGOS E DIAS FERIADOS. CP NÃO IlAVERÂ CONCERTO Ao contrario do que foi noticiado por um jorna~ não haverá.DIA 9 SA'BADO A "HESJ?AlliiQLK' Só se falia da epidemia. porque estando a população a braços com a epidemia não seria louvavel essa organização de diversões. amanhã concerto de banda de musica na Praça Tiradentes. SR.

Tiveram que levar os dois para o hospital. mas quase. UNICO QUE CURA " .. Não. não. Estou vendo. MOLESTIAS DO PEITO Se a tosse vos persegue USAr O Xarope ~e 6rin~clia o MEDICO:-Então I Sente-se melhor? A DOENTE:Muito pouco.1976 47 ." DONA LÚCIA . que não de OLlVfIRA JUNIOR ha remedio senlo appeIlar para o XAROPE DE GRINDELIA.DIA 10 DOMINGO Estou de pé ao pé da cama o traço de sua fenda do amor fica horizontal em relação a mim. como se os lábios fossem sua boca onde encosto meus lábios. não estavam mortos.. doutor.

DIA 11 SEGUNDA o KAISER O KRONPRINZ O ARMISTICIO ABDICOU E TAMBEM NÃO QUIZ FOI ASSIGNADO COM A COMPLETA CAPITULAÇÃO DA ALLEMANHA A REVOLUÇÃO ESTENDENDO-SE POR TODA ALLEMANHA Mesmo na imobilidade da febre suas coxas se entreabrem lentas como a pedir que eu penetre sua gruta com minha Ifngua de sangue em chamas 48 .

Agora que o numero de mortos augmentou os sinos ali dobram constantemente sempre que um enterro se aproxima.1918 Kirie eleysson alIamão te cuspo escarro lesma em cima de ti alIamão alIamão cabeça de mamão alIamão mão peluda RECLAMAÇÕES Sr. 49 . excitação e delirio. grande prostação /feral. os sinos da Igreja do Rosario. e muito frequentemente "dores" bastante intensas das "costas e das cadeiras'. Nilo Cairo . Aponta-se também como symptoma caracteristico da injluenza. DIARIO DA TARDE . a todo instante. 0 começo da molestia é ordinariamente brusco. a magua e a tristeza.INFLUENZA pelo Dr. em caminho do Cemiterio Municipal. redactor do "Diario da Tarde" Um facto que deve merecer a attenção de quem de direito é esse de estarem a dobrar finados. . esse som. a apprehensão. depoi~ de repetidos "arrepios" de frio. um "peso doloroso nos olhos".11. .. Outras vezes se observam symptomas nervosos. Em geral os typos classicos da influenza começam por uma "febre" bastante forte.. espalhando.11. A prostação é algumas vezes tão profunda que pessoas bem robustas são obrigadas a se meter na cama. violenta "dor de cabeça". que se produz principalmente quando o doente move com os olhos.

. IIÚIlÍAro Exteriores. COMMERCIO DO PARANÁ 12/11/1918 50 . 12 da N Telegrammas.Terça-fsira.DIA 12 TER~A IOR CIRCULAÇÃO NO PARANÁ - Coritibs . foi elle a uma empresa funeraria para encomendar o indispensavel caixão mortuario. I . u. AS CONDIÇOES IMPOSTAS AL DA CE8SAÇAO DA GUEB. .em i &A A AI 1 EMANHA.\-\[. Vendo que tal facto constituia uma anormalidade o cidadão referido dirigiu-se á policia.AI RESOLUÇOES DO PELOS ALLlADOS SAO Ml GOVEBNO· lUO. NUo P.• Ç&Dha. &A.! VENCEMOS Â COMMUNICAÇAO Á~ GUERRi\! o ex·Kaizer entre~a-sa ~ p OFl'ICI-.. - YARIAS AS BARBAS DO VISINHO É O caso que havendo fallecido domingo a esposa de um cidadão.fW. terça feira. l~. ~rlSIOneIlO ~ U ('1. onde ouviu que "a policia não tem nada com isso". Pois bem: a empreza declarou-lhe que a sua encommenda só seria attendida hoje.O u.\)1 "'I']'. dr. llUIS HUMILHANTES PAdai recebeu &elaçõel hnnt. para quando teria de ser transferido o enterramento.

COMMÉRCIO DO PARANÁ A MORTANDADE CRESCE Hoje. t DIA 13 QUARTA ENFIM A PAZ! ASPIRAÇÃO DOS POVOS CULTOS 7.AS VICTIMAS AVOLUMAM-SE 21 OBITOS SENDO 16 DE GRIPPE OS CINEMAS FECHARAM A CRIPPE TORNA-SE CONTAGIOSA SETE DIAS POR SEMANA DT Agora está mesmo morrendo muita gente. até rís duas horas da tarde foram registrados no Cartorio da Praça Tiradentes. sendo 16 causados pelo mal reinante DIÁRIO DA TARDE 51 . abstendo-se de dar noticias que pudessem levar terror á nossa população. 22 obitos. . 7 J Esta folha sempre se manteve numa attitude de calma solicitude ante os interesses publicos. .

..amws:M' 'cocheiros na EmpreIza I t ••••• __ iFalce. ."".rq~ib~ia l~~!:~}illl Faço isso Somente depois é que meus lábios minhas mãos percorrerão.~~- Ph'.~!~'. precorreram outras partes de seu corpo: a boca ru bra febre.l .iVi>hIN&:!WCf••••••• FTlp... 52 I .1976 DIA 14 QUINTA I ! ~~ItF~~'<i.. O marido passava fora o dia inteiro.... o bico róseo dos seios. Eles quase não falavam com os vizinhos.:Za I Precisa-se de dois Funeraria. . de P. os cabelos. MORREM 24 PESSOAS JA POR DIA EM CORITIBA "Não sei bem no que o marido trabalhava...f." DONA LÚCIA ..a::w_ BAI~BEARIA I Riq~~.:i~:" POii. acho que era dono de alguma coisa.

camisolão. assim como os informes fornecidos por alguns medicas. nesta capital. mandei-os fabricar e. dr. a muleta é foice que ceifa mil milllões de cabeças. Anjo exterminador. sendo já muito limitado o numero de casos novos. dando aos nossos leitores tão animadora noticia que irá restituir a calma e tranquilidade á nossa população. quando faltaram que não para conduzir os os infelizes fallecidos. COMMERCIO DO PARANÁ 53 . o movimento observado hontem nos postos de socorro e nas pharmacias. para anirnaes ficassem insepultos carros funebres. alugar pelo preço pedido. mandei-os Relatorio do Sr. Queremos ganhar as alviçaras. Coifa branca.DIA 15 SEXTA No dia em que não houve caixões para serem transportados os cadaveres. nos auctorizam a affirmar que a epidemia começou a declinar. Trajano Reis. direetor do Serviço Sanitario.

novamente o bico dos seios agora também todo o seio branco talhado enche minha boca r SEIOS = Desenvol\ idos FOítificadGs Aformoseados 1 II = = i I "O que a gente via era a mulher. o cabelo bem comprido brilhando mesmo quando não tinha sol. a parte interna das coxas. alta. cuidando de alguma coisa.1976 54 . no quintal. Loiro. Muito branca.DIA 16 SA13ADO os olhos agora semicerrados." DONA LOCIA .

rloll Ir:~ 11 u :::: tt.~ "CommercÍu . nas e publicando a materia nr.a paginas.\ Dor circum~tancias ~l11pe· ~ IJI <.Q._ ~O Paraná" 11:: 'al rto' ~) Por.e:~nas 10 e 4. i ado' fomos hoje obrigados a traIU' tr.!t formar a paginação do nos•. t.forlllhçãot Que n s f')i .~. ••• Rnnuncios nas L2' e" 3°a pam. suas mãos os dedos se erguendo com meu forte apertar. motivo de força m:ilor.'s~im pedimos pxc usas ao~ ri nosso~ :1!1J'lunciante~aca:. prol . Ninguém lhe diz. ~:u. A EPIDEMIA DECLINA OU AUGMENT A? É o povo cuja sorte está em jogo a todo o momento interroga...r- _ :. e DIÁRIO DA TARDE com esforços empregados para debela-lu. '1' DIA 18 SEGUNDA a suave curva do ventre e meus dedos percorrem tremulos a copa de seus pentelhos. ltes.... inserindo todos os t1j \0 IitJsa~. 55 . 50 jornal. novamente a fonte do amor.DIA 17 DOMINGO . Vt &' .. editorial e de collaboraçào : i ..irrpos llt ~.. sugo seu pescoço: uma mancha vermelha que depois será roxa.o ar::: prejudicados com essa tr2ns· d. 1. porém.-. Não se publica uma nota estatistica pela qual se veja que a marcha da molestia que nos infelicita está sendo acompanhada cuidadosamente.

DIA 19 TER~A M OS OBITOS DE HONTEM NÃO HA AUMENTO NEM DIMINUIÇÃO . não mais de febre agora de gôzo? Gózo e no auge do gôzo tento abraçar todo seu corpo que se me escapa e tenho nas mãos como um pássaro peixe 56 . Ela geme baixinho.

Reina tranquilidade na cidade. DT EM 130BITOS.Apesar da censura da imprensa. alguns jornaes noticiam que a policia descobriu um plano de gréve com caracter politico. estando a força policial de promptidão. CUSTE O QUE CUSTAR RIO 20 . tendo surprendido agitadores exactamente no momento de explodir o movimento.DIA 20 QUARTA " A EPIDEMIA SO DECLINA PARA ASCIENCIA OFFICIAL Maldito pesadelo da mão peluda pulo 3 vezes O mar do mar para lá ficou AS TROPAS ALLIADAS CHEGAM AS MARGENS DO RHENO ABORTOU NO RIO UM MOVIMENTO GREVISTA SEDICIOSO o GOVERNO ESTÁ DISPOSTO A MANTER A ORDEM. O governo está disposto a manter a ordem custe o que custar.lOSÃODECREANÇAS! 57 .

~!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!I.I!!!!~'"

,

Aviso fi
i [lMticipa Empreza
j

€mpreza Funeraría pires ~IiCia.

ao publico em geral Que, desde hoje em diante, attenderA a er.terro~, devido a seus p: 0Iprietf1rlos já cc acharem restabe:ecidos da ericr· midad~ Que os obn~ou a fecharem seu estabE"ieI cimento, estando :l,:tos para lltten~erem SI Qu{'lquC'r peS~()J que necessItar dos servIços da me~nl1 Coritiba, 20 de Novembro

I

J.

de 1918-

BBrreiros Pires & Cia.
DIA 21 QUINTA

iCommuRique·se.
t

aos pobres este aVIso :

I

o Dispensario 810 Vicente de Paulo, delicadamente, nos pede indiquemos aqui os pontos da cidade, onde distribue, o durante dia" o caldo Já preparadopau os i entermos pobres: . Praçi\ da Repubtica (CoUegio
I Praça Santos Andrade (Oolte: São José) gio Sion) Hua Jguass\\ n. 20õ (Colleglo Coração de Jesus) ; Rua Ractcliff n. 2 t 7 (bandas d' A~ua Verde). E para desejar que todes se tornem junto aos pobre~, pOrtavoz dessa communíct'çào:
58

i

DIA 22 SEXTA

" -----0

FUGlO NO DELlRlO DA FEBRE E NINGUt.,M O t.,'NCONTRA Noticiamos ha dros que o sr. Telemaco Jardim em um momento de crise neroosa occasionada pella grippe de que estava acommetido, fugiu de sua residencro á ma Carlos de Caroalho n.8, tendo a familro do enfermo solicitado os officios da policro para descobrir-lhe o paradeiro. Entretanto, dros já se passam e não obstante os esforços empregados pela Inspectorro de Agentes e por pessoas amigas, o desventurado moço não é encontrado. Concorre muito para interceptar as investigações o facto do pouco movimento da cidade, difficultando as informações que poderrom ser colhidas acerca do paradeiro do sr. Telemaco. A falta de qualquer noticro sobre o pobre moço, leva a crer que se trate de uma occurenCla maIS grave. A policia prossegue nas diligencros para deslin(ÚJro facto. DIÁRIO DA TARDE

~Vida Social ~
Que noitadas magnificas nos proporcionou a Companhia Salvat-Olona. .. E de saudade em saudade, como de abysmo em abysmo, chegamos até a tet saudade do tempo em que os cinemas abertos apresentavam a fita "Bigodinho vae á missa" ... COMMERCIO DO PARANÁ ou outra coisa egualmente profunda. . .
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RBCLAMAÇÕESDOPOYO
Pedem-nos moradores da rua Alferes Poly que intercedamos da hygiene municipal que providencie sobre uma casa da rua Silva Jardim onde residem lavadeiras que cuidam das roupas de um hospital de grippados, estendendo-as pelas cercas. O escoamento da agua se faz pela valleta da rua, onde estagna, pondo em risco a saude dos mesmos moradores.
COMMERCIO DO PARANÁ

Um grito lancinante foi ouvido.

DIA 23 S~BADO

Mão peluda acuda acuda acuda cuda cuda cuda cuda cuda cuda mãe cuda mãe cuda mãe

Cuiàado

com a Hespanhola!
Use o poderoso antiputrido
Balsamo Santa He1ena

desinfectante analgesico, ini· migv do máu cheiro Empreg2 do em gargarejos, pora a conservação dos dentes, contra o mau hàlito e

!

Um

affecções da garganta

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1$500

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pharmaclas

Só o Balsamo 8t8. Helenll

-----------:
60

DIA 24 DOMINGO

POLICIAES

BAILES DE ARRELIA VISINHANÇA INCOMMODADA Hontem, na casa n.158 da rua Silva Jardim, teve logar um barulhento baile que, dado a agglomeração de mulheres da vida faci1 e de muitos desocupados, muito incommodou a visinhança, onde se acham pessoas atacadas de grippe. Segundo fomos informados o baile da arrelia foi promovido pelo cabo do 4~ Regimento, Manoel Candido de Almeida. Tarde da madrugada, quando a bachanal chegou ao auge, algumas pessoas pediram á patrulha de cavallaria para acabar com a encrenca.
COMMERCIO DO PARANÁ

Pancada tão forte que saiu uma espuma de sangue da boca. Ficou ali tempo, no chão de cimento, dezenas de bolhas de sangue pegajosas, levando tempo para ir estourando, uma a uma.

Quando de fadiga não puderam os coveiros abrir sepulturas, mandei gratificar a outros individuos para que as fizessem, de modo a evitar a decomposição dos cadaveres. Relatório do Sr. dr. Trajano Reis, director do Serviço Sanitario.

Nada mais me importa agora nem a mancha do gôzo em minha calça Nem o paletó cheguei a tirar O marido? tosse que ecoa por toda a casa saio pela porta sem chavear sem a volta da chave na fechadura saio sem me voltar ao menos
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DIA 25 SEGUNDA

Telegrammas
As tropas francezas chegar~o_ a Vienna esta semana" Os - ---------------------------- americanos já invadiram as províncias rhenana~~~ lemãs - A conferencia da paz iniciará seus trabalhos ern ..Janeiro - Hinden~ burg cornmunicou ao governo allemão que o exercito gerrnanico não poderá combater nem um só exercito - A as· quadrra ingleza parrte papa Kiel.
DIA 26 TERÇA

o Conselheiro Rodrigues Alves vae assu..
111ir a

presidencia da Republica

Os holiandezes odeiam o Kaiser - O ge· ~eral d'Esperay chegou a Constanti-_ ncpla - O general Pers0ing será o subo stituto do president~_~ilson •.Os frac~ ~~ze§>estão nas rna'~gens __ __ ~_~~~~noJ numa extensão de 100 milhas - A irn---_._--------_._~_._._-~"---------------------_._prensa allernã pede intervenção dOS ~J-= ~,?_do~J?ara reorganisa~ política allemã
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DIA 27 QUARTA o CHILE E O PERU EM EMMINENCIA DE GUERRA Há dias deu-se um caso que encolerizou quantos o presencearam. sr. familia visitou-nos agradecendo a noticia que estampamos sobre o passamento de sua galantinha netta a pequena Diva. brasileira nata. moradora a rua Riachuelo. João Pereira ckt Fonseca. Uma moça. simplesmente pelo facto de ser seu pae allemão (pois sua mãe é brasileira) não tremulou dizer em frente á muitas patricias estas palavras fllhas de uma alma entoxicada pela "Ku1tur": "Eu preferia ser devorada pelos peixes a ser enterrada em território brasileiro" COMMERCIO DO PARANÁ Lá em cima se confere os pecados aqui em baixo ferro e sangue allamão mão mão mão peluda Lüaaahaaahhh AGRADECIMENTOS distincto cidadão. no seu nome e no de sua exma. DT 63 -o .

Como um verme.. Pedaço branco de miolo escorrendo pela parede. continuamos fmnes em nossa attitude pela Não obstante.. continuamos firmes Não obstante. Um grito lancinante foi ouvido. continuamos fmnes em nossa attitude pela razão . como uma lesma. continuamos fmnes em nossa Não obstante. igual a um verm: descendo pela parede deixando uma baba de rastro. 64 . continuamos fmnes em nossa attitude Não obstante.DIA 28 QUINTA Um grito Iancinante foi ouvido. continuamos fmnes em Não obstante. Não obstante. Um grito lancinante foi ouvido. Não obstante. Não. continuamos Não obstante.

O enterro da desventurada creança realizou-se hoje ás 15 horas. DT JOSEPHINA . e que contava apenas sete annos de idade. implacavel. FECHAM-SE OSPOSTOS MEDICOS MAS OS NECESSITADOS DEVEM PROCURAR A REPARTIÇÃO DE HYGIENE Por achar-se quasi extincta a epidemia da grippe nesta capita~ a Directoria do Seroiço Sanitario determinou que fossem extinctos os postos medicos que o governo creara no quadro urbano e nos suburbios providencinndo tambem para que as pharmacins que estavam autorisadas a preparar receitas gratuitamente para os necessitados.DIA 29 SEXTA o KAISER VAE ACABAR NO HOSPICIO . noticiamos o fallecimento de um filho do sr. Dias atraz. Telemaco Jardim. E. abandonado e só à beira da Cascatinha de Santa Felicidade.a distincta familia Jardim vem sendo curelmente ferida pela impiedosa epidemia que tantas lagrimas tem ao nosso povo arrumado. saindo o feretro da rua Carlos de Carvalho n. no delirio da febre. não mais o façam. 8 para o Cemitério MunicipaL DIÁRIO DA TARDE 65 . quando atacado também do ma~ abandonou o lar e se foi deixar morrer. a morte paira ainda sobre o lar infeliz e arrebata a gentil menina Josephina primogenita do malogrado cidadão. facto esse que o exaltou de tal forma que..

DI Mas sempre terei diante de mim a visão de eu abrindo a porta a casa vasia. nunca mais ficou com o juízo perfeito. De repente.. criança linda. Nunca largava do veneno. sempre com um vidrinho de veneno nas mãos. mesmo quando estava normal. dava assim como uma tristeza nela. alegre com o marido e o filho . Passava uns tempos boa. a mulher. " DONA LÚCIA . saía a andar sozinha pelas ruas... sem voltar diante de mim a cidade vazia. seu corpo de loura plumagem Sem me voltar.1976 66 .COM HESPANHOLA O KAISER ESTA DIA 30 SKBADO De amanhã em diante será restabelecido o trafego dos bonds os quais circularão dE accordo com o antigo horario. silenciosa nestes dias da grippe ninguém me viu nem me verá "Ela. teve até um filho.

OS 6BITOS DE GRIPPE NOVEMBRO DE 1.918 DIA 1 DIA 2 DIA 3 DIA 4 DIA 5 DIA 6 DIA 7 DIA 8 DIA 9 DIA 10 DIA 11 DIA 12 DIA 13 DIA 14 DIA 15 DIA 16 DIA 17 DIA 18 DIA 19 DIA 20 DIA 21 DIA 22 DIA 23 DIA 24 DIA 25 DIA 26 DIA 27 DIA 28 DIA 29 DIA 30 FONTE: DIÁRIO DA TARDE 1 O 1 4 2 3 4 4 3 10 10 15 12 12 20 10 19 11 7 18 14 13 16 12 15 15 10 12 7 8 67 .

ovrae-nos. . anto Z t t5tA 5 t O I B livrae·me latorias: Po daras dirá osd5 Quando o vossa Cruzr chagas. peste • AI F R B GB tZt HF t z Por voss guintes logio der )ac h s s S e· o· e· t S u- P as o r a o JESUS E MARIA 68 . immoror forte. Devin Jusus.de todo Deus.

1918 Dezembro A última ktra do alfabeto .

o============\1 \IVida Social II Os cinemas "in totun" abrirão amanhã. 71 .DIA 1 DOMINGO 'I)------CI . annunciando exihibiç6es novas depelliCp culas attrahentes.~::.

a faiscarem. Numa aneia de matar. . Seria 6 de furioso da manhã. em meio de uma profusão de sangue. sem que alguem pudesse um dia augurar a scena horrivel que elle foi causador hontem. o louco. fora recolhido áquelle estabelecimento ha muito tempo.. no solo.. tomado 1/2 horas accesso. que tivera um dos e se achava exaltado pelae febre. E naquelle aranzel. ao encontrar grippe reclusos que era aleijado usava molletas. velhos demente foi ali reclusos pelos empregados até que após uma Paulo Kopff. Era esta o cosinheiro do estabelecimento. de 22 annos de idade. Caido exanime o primeiro. o louco desferia pancadas. Entretanto. olhos injectados de sangue. Manoel de Campos.DIA 2 SEGUNDA .. pois qque recebendo pancada violenta. No " Scena M6cahra H08~icio da Alie- na U08 um louco mata quatro suas Desenrolou-se hontem no Hospicio N. vivendo por isso solto pelas alamedas dos jardins do Hospicio. o louco avançou sobre outra victima. DIÁRIO DA TARDE 72 - pos- . de uma destas se apoderou vibrando-lhe forte pancada no craneo. que infeliz e mendigos subjugado se ocultavam-se. que procurou defender-se com o braço. . irmãs de caridade fugiam. sempre com a tragica molleta já rubra e cheia de massa encephalica de suas victimas saiu em busca de outros. mas desde 5 armos que não tivera accessos de loucura. jaziam cadaveres quatro pessoas. S. da Luz uma scena terrificante que teve como protagonista um infeliz demente ali recluso. Andava por ali abobado. Pandellis Rethis e lucta perigosa. naquella confusão que se estabeleceu. Em quantos que encontrava. o o puzeram em camisa de força. Baldado foi seu esforço. recolhendo o a uma cella. caiu também sem vida.

uns a mania de perseguição. WUlI••••••• __ •• ••• lIlIlI U ma trage~ia no Hospicio da uHespanhola" Uma proeZa macabra Domingo foi nossa população cruelmente abalada com a noticia de que no Hospital de N. conta cerca de 32 armos de edade. que naquel1a coisa entoada á guisa de canção está a mostrar o quanto a inconsciencia toma os irresponsaveis como que felizes immersos na noite negra da inconsciencia. jamais teve el1e occaSlao de manifestar indicios de loucura furiosa e quem o visitasse era até capaz de jurar que o desgraçado estava ali recolhido por excesso de zelo.••••. ninguem suppunha que el1e viesse a ter um accesso de loucura furiosa.••••. porém. destacámos hontem um dos nossos companheiros para ir até aquel1e estabelecimento. w -=-w--••••. Teve el1e febre alta e todos os demais symptomas da terrivel enfermidade.. a fIm de colher impressões sobre a horrorosa tragedia e ao mesmo tempo syndicar das circunstancias do caso. podemos mais ou menos reconstruir a scena horrivel da seguinte forma: O CRIMINOSO E SEUS ANTECEDENTES. Foi recolhido ao asylo ha cerca de 5 annos. a ver se haveria razão em acreditar-se que o descalabro se dera por qualquer imprudencia. com todo o carinho pelas religiosas daquel1e estabelecimento. Tratado. Ultimamente. já nos chamou a attenção o cantar monotono de um doido.. No desejo de bem informar os nossos leitores. como o fazem todos os jornais verdadeiramente modernos. em 1913. nada encontrando de anormal que chamasse a sua attenção. talvez tendo no co73 . achava-se el1e ultimamente em convalescença e sempre apalermado. da qual era protagonista um dos infelizes reclusos daquel1e estabelecimento. A SCENA DE SANGUE Pela manhã a ronda foi fazer uma visita aos diversos departamentos da instituição. Manoel de Campos quando era interrogado por alguem relativamente á sua identidade. Então as irmãs preparavam-se para ir celebrar o sacrifIcio da missa.. da Luz occorrera uma tectrita scena de sangue. ou por relaxamento em tomar as necessarias precauções com os infelizes que habitam aquel1a casa sinistra. sendo Manoel de Campos uma de suas victimas. Chama-se Manoel de Campos o autor da horrorosa scena de sangue. com a invasão da peste hespanhola em nosso Estado. nem mesmo um simples presidente da republica: contentava-se com ser Governador do Estado .DIA 3 TER~A U 2W1 • um ---. Pelo que ouvimos. Como todo o louco tem a sua mania. pois que o infeliz não se suppunha um rei ou imperador. Chegados que fomos á mansão dos irresponsaveis. sendo portanto um delirio mais democratico. respondia que era "governador" do Estado. S. outros a de grandezas. - Apalermado. a enfermidade fez a sua entrada tambem no Hospicio.

Quando lhe disseram que havia morBento tivera a boa idéa de. responde conservação. Interrroferido por uma pancada desferida com gato.. poz-se o infeliz a correr em demanestes morreram logo quatro . J. por instincto to quatro pessoas e ferido uma. conseguindo prostrar sem vida alguma. Francisco se ouçam frequentemente gritos dos irresBittencourt. felizmente não o matando porque não. recebendo os ferimentos no braço. Nicoláo Domenico e Miguel ponsaveis. A deu: . foi Manoel de Campos sobre o seu uma tranca de madeira. pois é natural que naquella casa Manoel Salathiel Domingues.Kosmiake.bido de todos. correndo em sua perseguiração o desejo de levantar a Deus uma prece em favor dos infelizes recolhidos ao ção muitos doentes e empregados. mas ninguem deu a elle attenção ximam.. E todos estavam longe de ima. foi Manoel de Campos Bruquikoski que tombava mortalmente preso a uma camisola de força. Sedento de mais sangue o infeliz demen te arreestabelecimento. Manoel tenta fugir e perseguigado dI. ginar que era o infeliz mendigo Paulo Subjugado. levar o braço a cabeça. COMMERCIO DO P ARAN Á sendo que a essas horas já o facto era sa- 74 . hontem estando lá o delego ás mãos. Ribeiro. Um grito lancinante foi mette contra os primeiros que lhe approouvido. Com a tranca acto. respondeu que a este. fere se lembrava do que fizera. da do portão para se por em liberdade.Agora está mesmo morrendo muita gente: meu pae morreu sósinho e seguir. a sua resposta era mais ou menos toda ensanguentada e a moleta do mendilucida. que lhe perguntou si do pelo epileptico Bento dos Santos. Mas.

" DONA LÚCIA . Não resistiu a febre forte. tomou o veneno na rua." . Morreu na gripe. acho que foi lá por 30. Por este acto de religião e caridade se confessa agradecido. Morreu na gripe. até que. morreu. Foi muito tempo depois. Muito branca. a hora 8.." DONA LÚCIA . acharam ela já morta. solteira. na egreja da Ordem.1976 75 . cabelo loiro bem comprido. "Moça bonita.1976 M Missa a todas as pessoas que acompanharam agradece os restos mortaes atp á sua ultima morada de sua pranteada e inesquecivel esposa CLARA MARGARETH HEISLER Germano Heisler penhoradamente Aproveitando a opporrunidade convida seus parentes e pessoas de sua amirode para assistirem á missa que manda celebmr sexta-feira. alta. um dia..

mas nunca mais ficou certa da cabeça. ela morreu na gripe. Casou. loira. mortallia branca. Vi o corpo. Muito branca. teve fIlhos." DONA LÚCIA . Tinha períodos de lucidez. Por este acto de religiiio e caridade confessam-se agradecidos. na época ela não era casada.1976 76 ."Não. bonita.1976 Missa GermanQ Heisler e filhos penhoradamente agradecem a todas as pessoas que acompanharam os restos mortaes até á sua ultima morada de sua pranteada e inesquecivel esposa e mãe CLARA MARGARETH HEISLER Aproveitando a opporrunidade convidam seus parentes e pessoas de sua amisade para assistirem a missa eu mandam celebrar sexta-feira a hora 8." DONA LÚCIA . mas nunca mais ficou certa da cabeça. teve fIlhos. na egreja da Ordem. cabelo branco de tão loiro. solteira. muito branca. casou depois da gripe. "Não. Moça bonita. mas ela morreu. O marido se salvou.

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629 16 OBITOS240 31 1.244 283 1.000 HABITANTES TOTAL GERAL DOENTES DE GRIPE 2.466 295 89 384 = 45. DISTRICTOS POLONIA DOTABOÃO = 73.GRIPE 29 9 18 59 112 321 DEZ.249 : 0.. TRAJANO REIS DIRECfOR DO SERVIÇO SANITÁRIO CURYTIBA 1919 .248 TOTAL OBITOS POR 4 NOV. 71 CASA.-..&4% PORCENTAGEM DE OBITOS RELATÓRIO DO SR DR.J 00 OS MORTOS DA GRIPPE ANNO DE 1918 POPULAÇÃO DE CURITYBA E SUBURBIOS 67 7MENTOS 127 254 59 25 313734 1.261 NASCI.

N1 FIM .

MACISTE NO INFERNO raconto .

. Vertigem de Luxo . Perdida em Paris . Rouge e Pó de Arroz . Gigolô.... . Bachanal . juan Macho e Femea .. . Maciste no Inferno . Sodoma e Gomorra ... .. Três Noites de D.. Os Mysterios de Hollywood. Caminho da Perdição . .Noite de Amor.

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" . femeas que se entregam. meninas cobras deitadas sobre areias. apreciações. projectores.. quadrigas. fremitos. espasmos . coxas nuas de girls macias. diálogos. commentarios. caretas.. corpos em crispações. taboletas nos bondes e nos automóveis. versos. templo. chronicas. lettreiros. bastilhas de papelão. mãos que agarram. annuncios luminosos. oscullos infinitos. latagões de feira com estandarte e bandas de músicas. cavalleiros da Idade Média. D' artagnans de fancaria. mulheres velludo em atitudes lascivas sobre leitos ou dentro de alcovas. lábios que procuram. desejos."Columnas. lampadas. ancias.

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onde vivia como um paladino do bem que. o homem de vigor sem egual e coração generoso era tão estimado em sua aldeia natal.Maciste. o heroe. irmã de creação de Maciste . com a missão de corromper a bella Graziella. um bello dia. Plutão em seu seu reino subterrâneo de treva e rancor invejou-o e para combatel-o mandou a Terra o demônio Barbadilha. um dos seus mais ardillosos subditos.

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Negro como o inferno até acostumar a vista fico em pé as mãos na mureta de madeira que separa as fileiras de cadeiras da grande porta com cortinas de velludo que separa a salla de exibições da salla de espera Este vendo Grazie/la seduzida por um conquistador sem escrupulos percebe a intervenção de Barbadilha e. ousada mente. trava renhida lucta com o demônio que o arrasta para o inferno .

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mudo de idéia e entro na fileira da frente ameaço sentar numa cadeira vazia mas sento-me ao lado della É uma mulher .Com a luz que vem da tella busco com os olhos aquillo que quero e busco meu logar a mulher Até me assegurar que é uma mulher fico atraz da mureta de madeira as mãos segurando suas bordas Para que os outros espectadores não se apercebam das minhas intenções finjo entrar na fileira de traz com mais gente.

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bem pouco. a cabeça para que ella não perceba que estou olhando a ella Nem tentei encostar meu braço no seu e ella olha a tella tremeluz .É uma mulher Fingindo attenção na tella com o rabo dos olhos olho com coragem viro um pouco.

Ora o mortal que chega ao inferno sem ter morrido, pode voltar ao mundo se ao fim de trez dias não tiver cedido à tentação de alguma beldade d'aquelle antro

É bella e macia, estou com meus braços
cruzados e as pontas dos meus dedos acariciam o fino tecido de sua blusa solta ella não solta os olhos da tella cintilante nem sente minha caricia na seda macia diferente do áspero velludo das vermelhas cortinas

É um fume marron nas cennas de inferno é
vermelho Um calor me sobe por todo meu corpo, frieza da seda
Ora, Proserpina, a esposa própria de Plutão tenta-o com encantos taes que Maciste ousa beijal-a: Estava decretada sua sentença às pennas etternaes

Ouso, empurro meus dedos tremulos e toco seu braço como se fosse sem querer Não sobre a cadeira ao lado meu chapeu esta assentado sobre meu sexo agora zona de calor EUa afasta seu braço Ouso, insisto eUa afasta seu braço vira-se e olha firme para mim meus olhos estão na teUa

Maciste poem sua força e destreza sem egual ao serviço de Plutão e consegue debellar a revolução e castigar o pérfido Barbadilha Acaricio o fino tecido e os dedos vão se aproximando vagarosamente Como os braços della estão bem postos para traz os dedos vão chegando a parte do lado de seu seio direito.e não encosta no seio pelo menos na parte lateral Olho a tella e nada vejo Poma macio dura vejo .Entrectanto Barbadilha. Somente por sua lealdade instinctiva. para tanto architeta uma revolução no inferno. logar onde o tecido também é solto . ardiloso e revoltoso. quer a todo transe desthronar Plutão.como nas mangas da blusa .

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Então terminada a lucta, Plutão chama o heroe a sua ignobil presença e em lembrança aos seus serviços auctoriza-Ihe a voltar a Terra: Proserpina protesta contra isso, mas em vão. Maciste prepara-se para partir, mas Proserpina arma-lhe um laço, manda-o prender e torna a beija I-o, condemnando-o novamente à penna eterna Latagões com estandartes e bandas de músicas, coxas nuas de girls macias, meninas cobras deitadas sobre areias, mulheres velludos em attitudes lascivas, mãos que agarram tóco finalmente o lado de seus seios calor, lábios que procuram, femeas que se entregam, corpos em crispações, oscullos infinitos, desejos, ancias, fremitos, espasmos ... No espasmo do gôzo nem sinto suas unhas vermelhas fincarem-se em minha carne: "Que é isso? se o senhor não ficar quieto eu chamo o guarda!"

Levanto sem olhar saindo pelo outro lado das cadeiras Disfarço sair agora sem o filme acabar chamaria atenção; por isso dirijo-me ao banheiro Letreiros homens pintado num vidro que a luz vermelha alumia Uma pequena cortina vermelha antes da porta impede que abrindo a porta a meia luz do logar chegue na salla de projeção Evito olhar no espelho não há toalha limpo a mim e a calça como posso com o papel do programa que anuncia as próximas fitas Caminho da Perdição ... As Trez Noites de D. Juan ... Macho e Femea... Sodoma e Gomorra ...
Entrectanto, na Terra, o seductor de Graziella arrependido de seu acto, volta para junto d'ella e seu filho, que já tem então um anno e meio de edade. Na véspera do Natal,

entre seus amigos Não posso ficar neste logar muito tempo chamaria a attenção sobre minha pessoa A fita está acabando apresso-me com o chapeu cubro a mancha úmida de minha calça as gentes da salla de espera me olham sou .. o impávido col/osso Maciste e dá-se o milagre: a prece infantil é ouvida e o Todo Poderoso liberta Maciste e este volta à Terra para gozar a ventura de um novo lar.Graziella faz esta adorável creança rezar por seu protector. . o pnmeuo a saIr .

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Mesmo a luz mortiça das quatro horas da tarde me cega Já não escuto o piano quando todos começam a sair da sessão já estou escutando o barulho da cidade das casas das vozes dos automóveis dos ruidos Sou novamente parte da cidade e " nmguem me ve . ..

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E9 mINE9TAURE9 novela .

Não que a mulher não me agradasse. Tenho pouco dinheiro.Para não pagar a mulher. O preço combinado. quieto vesti minhas roupas. Uma bela fêmea. ela dormia ao meu lado. branca. sem fazer barulho deschaveei a porta e. nua. tão sujo. Acordei. na cama do hotelzinho barato. No escuro me levantei. de mansinho. loira. o que eu podia pagar. saí para o corredor escuro. . cabelão esparramado pelo lençol. ia me deixar sem nada até o fim do mês. tudo o que eu tinha no bolso. abandonei o quarto no meio da noite. nem sei como convenci aquela estátua de mulher a passar a noite comigo neste hotelzinho vagabundo.

Sozinho? Nessa hora da madrugada ninguém entra sozinho naquele hotel. Ao contrário. a insatisfação com a companhia escolhida. Nunca aconteceu isso. dormir algumas horas. É um hotel de encontros e ninguém o procura para se hospedar. será alerta do pelo porteiro noturno sobre a real categoria do estabelecimento e dissuadido de entrar. fatigado. as questiúnculas por questões de dinheiro. . alguém sair sozinho do hotel durante a noite é relativamente comum: a hora certa para chegar em casa. os pequenos desentendimentos amorosos. Se por acaso algum desavisado procurar um quarto para. o sono alcoólico que impede os prazeres do sexo. E não há razão nenhuma para se entrar sozinho naquele hotel de encontros. a hora que obriga um homem casado a deixar sua parceira noturna dormindo. são motivos corriqueiros para se abandonar um quarto pago adiantadamente.

os dois. Foi tocar na pele e ela se arrepiou toda. . ela não. Geralmente as loiras são largas. e então ia ficar sem dinheiro até o final do mês. teria de pagá-Ia. a gente tinha bebido demais. apertadinha. essa polacona que eu peguei. nada da potranca que eu cavalgara três vezes. pentelheira loira. nem sei o que ela viu em mim. as loiras não são boas de cama -. Também. Quando enfiei nela. Não era mulher para aquele ambiente. dormindo ela era coisa morta. Encostei a porta com cuidado e me atirei pelo corredor escuro. Três vezes seguidas e eu e ela queríamos mais. quando nos cruzamos na noite.e. a mesma coisa: quentura de um pote de mel.Excelente fêmea . estávamos meio bêbados. Me veio a preocupação de que se eu ficasse até de manhã. aguadas. no bar. mas o sono não deixou. Acordei no meio da noite. geralmente. foi logo beijando meu corpo: como era quente aquela boca com o meu sexo dentro.

. Tchau. diz que eu volto.Vê se me esquece. . .Porra! Será que ela ainda vem? . .Tesão.Você viu a Marilda? . .Não enche o saco.E eu é que sei? . enfia teu cigarro no eu. Se a Marilda aparecer.. Tem um cigarro? -Não.Não pintou por aqui hoje.Porra. tesão.

E continuei seguindo. Não enxergava nada. percebi que o corredor descambava para a direita. Como não sentisse com a mão a parede do lado direito. numa curva de noventa graus. a áspera madeira das portas de inúmeros quartinhos. Me choquei de frente com uma parede de alvenaria que fechava meu caminho. me atirei para o lado direito do estreito corredor escuro. a intervalos maiores. Nas mãos abertas eu sentia as paredes de tábua e. como seria normal quando se caminha na escuridão. . agora parede de material.Porque me parecia que fora por esse lado que eu chegara. eu ia com as mãos nas paredes e não para a frente. de intervalo a intervalo. o relevo das mata-juntas.

Quase que caio. cuidadosamente. . Desci cuidadosamente. O corredor principiava com uma escadinha. Continuei seguindo. dei uma topada num degrau. Me virei e segui arrastando os pés. estendi a mão direita para a frente e senti outra parede bloqueando o corredor. Logo senti um vazio na mão esquerda. Parei. arrastando os pés. pois não sabia quantos degraus existiriam no escuro. este mais curto. Com as mãos nas paredes eu sentia uma repetição do corredor anterior. com medo de encontrar pela frente outros degraus. Havia uma escada à esquerda. formados no vazio a partir da direita até a parede contra a qual eu me chocara. esta escadinha era ascendente. Galguei. Ao contrário da outra. seus três degraus. arrastando os pés. Tropecei em imprevistos degraus. encaminhando-o para a esquerda.

. ornadas com friso também azul. Pequeno furo em cada uma das extremidades permite a passagem de pregos. formando uma delgada moldura. presas somente por uma das pontas. outras se acham penduradas. Devem ter servido em estabelecimento de mais categoria antes de seu uso aqui. para fixá-Ias nas portas dos quartos.Para a numeração dos quartos deste hotelzinho utilizam-se plaquetas de metal de cerca de sete centímetros de comprimento. e falta numeração em muitos dos quartos. esmaltadas de branco com os números em azul. numa demonstração de serviço malfeito. Apesar de muitas estarem riscadas ou com o esmalte partido. São de formato oval. Algumas plaquetas estão pregadas tortas e mesmo de cabeça para baixo. ou parafusos. são plaquetas de boa qualidade.

desrosqueada no bocal. aumentava o cheiro de mofo. parecia ser de áspera madeira compensada. sensível em todos os quartos e corredores. e para economizar certamente o porteiro apagara todas as luzes. que. Talvez nem existissem. neste hotelzinho barato o acender de uma lâmpada se faça atarrachando-a no bocal. continuei a caminhar. Alcançado o topo da escada. No meu tatear pelas paredes ainda não encontrara nenhum interruptor de luz. estivesse provocando a escuridão. pelo tato. Àquela hora tardia não se esperavam mais hóspedes. Qualquer coisa de abafadiço.Talvez por economia. na esperança de encontrar uma lâmpada que. cheia de abaulamentos. Uma luz acesa me indicaria o caminho a seguir. . Durante algum tempo continuei com as mãos pelo teto. Estendo as mãos para o alto e alcanço o forro baixo. neste novo corredor.

um pé-de-chinelo.No oito.- E como é que tá? . . . Olha. seco na cabeça: 25. .E o cara com ela? Acho que já vi antes. . Uma loirona que eu nunca vi por aqUI.Boa mesmo? - Coisa fina.Fraco. hoje joguei na dezena da vaca.Em que quarto você pôs eles? . deve ser gata de alguma boate. .E de novo? - Uma tremenda duma peça. Viu o que deu: 24.

. Erguendo as mãos. com certeza pedaços de jornais velhos. A lâmpada ou havia sido retirada. então saÍ. a porta entreaberta de um banheiro malcheiroso. encontro um bocal vazio fixado no teto baixo. me arranho num prego onde se espetavam ásperos papéis cortados irregularmente. E não encontrei o interruptor.wc Este corredor me parece mais longo que os outros. deve existir em um banheiro. Eu não tinha mais nada a fazer neste banheiro escuro. A mão direita encontra um vazio. Procurei com as mãos o interruptor da lâmpada que. Um cubículo. sem sombra de dúvida. bato no puxador da descarga. Minhas mãos percorrem todas as paredes. ou nunca estivera lá. Emanações de urina e fezes se juntam agora ao cheiro de mofo. Empurrei a porta e entrei.

Não tenho o hábito de fumar. por isso não carrego fósforos comigo. Um castiçal com uma vela acesa me seria mais útil nesta escuridão. mal se viam os números do mostrador. . A luzinha do meu relógio queimou há tempos e de nada adiantaria mesmo. pois era muito fraquinha.

o Minotauro. O rei Minos invade a Grécia e ataca Atenas. Ao saber das exigências do Minotauro. uma vez por ano.S/NC} UMA LENDA DA ANTIGA GRÉCIA. enorme construção de muitos corredores emaranhados. deveria entregar 7 moças virgens e 7 rapazes para serem sacrificados ao Minotauro. Vivia o Minotauro no Labirinto. andava pela Grécia eliminando bandidos e ladrões. Impenetrável à luz. intrincados. corpo de gente. decidido a matar o monstro. a rainha Parsifae. Por ser perversa e tenebrosa. que se rende. moço loiro. tornando impossível para quem nele entrou achar o caminho de volta. mulher do rei Minos. da ilha de Creta. Teseu. . toma o lugar de um dos rapazes escolhidos e segue para Creta. foi castigada pelos deuses tendo um filho monstruoso. A condição de paz imposta à cidade é que. tortuosos. fortÍssimo. o inextrincável Labirinto era formado de mil voltas com mil corredores arrevesados. cabeça de touro e comedor de carne humana. belo. inteligente. sempre sedento de sangue humano. enredados.

Teseu embarca com ela de volta à Grécia. é visto pela filha mais nova do rei Minos. a pretexto de cansaço pela luta com o Minotauro. para que ele encontre o caminho de volta no Labirinto. Ariadne espera ansiosa por seu amado. enorme com seu corpanzil de homem e caratonha de touro. Teseu encosta o navio na ilha de Nacsos. Deita-se para descansar e Ariadne adormece ao seu lado. No meio da viagem. Entrando no Labirinto. após mil voltas Teseu chega ao lugar onde o espera o Minotauro. Teseu abandona-a na ilha deserta e zarpa sozinho para a Grécia. Teseu encontra facilmente o caminho de volta seguindo o fio que desenrolara por quilômetros de escuros corredores. que se apaixona perdidamente por ele. Ao ver carne fresca. Sem perda de tempo. Na saída.Ao desembarcar. . Vencido o monstro. Aproveitando o sono da bela Ariadne. o Minotauro ruge e baba de cobiça e gula. Teseu enfia-lhe a lança no coração e corta-lhe a cabeçorra com a espada. Ariadne dá armas e um novelo de fio de ouro a Teseu. a bela princesa Ariadne.

Nauseado pelo mau cheiro. percebo depois de algum tempo que devo estar em outro corredor. devo ter entrado por um desapercebido corredor que inicia bem defronte ao pequeno banheiro. Sinto também uma corrente de ar frio vinda da escuridão à minha frente. . quando saí do banheiro devo ter caminhado em linha reta e não para o lado. Como não bati em nenhuma parede.Perdido na escuridão.

A mulher acorda no meio da noite com vontade de urinar. agacha-se e solta o segurado jato de urina. puxa a bacia para perto de si. percebe que está sozinha. Ao voltar para a cama. esperando achar uma pêra de luz. Acostumada nesses ambientes. tateando o chão com as mãos. Se levanta. Passa as mãos pela guarda da cama. sem sair da cama. Mesmo na escuridão sabe onde encontrar: pega o rolo de papel higiênico na mesinha-de-cabeceira e se enxuga. Acha não. procura até encontrar uma bacia de metal. metálico ruído. . muita bebida.

8DEMAlO BELA LOIRA DEVORADA POR URUBUS Na manhã de oito de maio. Ao locê compareceu uma viatura da delegacia de Campo Largo que providenciou a remoção do corpo para o Instituto Médico Legal d. a polícia não encontrou as vestes da vítima. um capão de mato existente no prolongamento da antiga estrada Curitiba-Campo Largo. dirigiu-se para o local e. servindo de repasto aos urubus. como o corpo da bela jovem loira se encontra bastante bicado pelos urubus. nua. encontrava-se caída de bruços. com vistas a estabelece' a causa mortis.e Curitiba. em Campo Largo. atraído por nuvens de urubus sobrevoand. Uma mulher loira. sendo de se supor que a bela loira tenha sido assassinada em outro local e ali jogada durante a noite . moradOl do distrito de Itaqui. A estradinha de tern. em meio ao mau cheiro reinante. que lhr arrancaram diversos pedaços da carne já putrefata. deparou-se com uma cena tétrica. Casemiro Pietroski procurou logo avisar a polícia. o lavrador Casemiro Pietroski. Os primeiros exames realizados não evidenciam nenhum. distante vinte e cinco quilômetros de Curitiba. perfuração por projétil de arma de fogo. Vasculhando cuidadosamente a região pouco habitada. morta. termina uns cinco quilômetros adiante do lugar do macabro achad e tem muito pouco movimento. Assustado e enojado. nem qualqur documento que facilitasse sua identificação. aparentando vinte e poucos anos. porém. torna-se necessária a realização da devida autópsia.

Pela pouca espessura dos tabiques de madeira. E eu devia estar bem no centro do hotelzinho. Nada. gente roncando. . cercado de quartos dos dois lados do corredor sem nenhuma janela. seria natural que se ouvissem barulhos: gemidos de amor. tosses noturnas. Eu não escutava nenhum barulho vindo dos quartos. pois nem os ruídos noturnos da cidade eu escutava.Silêncio. como se esperaria num hotelzinho de encontros. silêncio total. peidos. A loira roncava.

Em frente. um muro. Pequena janela sem serventia. Minhas mãos tocam a plana lisura do vidro. ao fundo.Na minha frente. Abaixo. De um lado. a escuridão. A noite lá fora está tão escura quanto aqui dentro. um quebrado. É uma pequena janela. Do outro. Não há nada para ver. o que parece ser uma das paredes do hotelzinho. Pequena. bem perto. o oitão sem aberturas de um edifício alto. Quatro vidros. uma baça luminosidade retangular. bem no centro. também quase encostado. .

Parece que é. ficou com medo de passar a noite aqui.Será que alguém ficou sabendo? . .Ninguém comentou nada? -E quem? . o travesti que cuida da limpeza dos quartos). o patrão. . embrulhado no acolchoado do jeito que estava.E a Shamanta até defumou o quarto todo: para acalmar o espírito da infeliz. .E a Shamanta lavou tudo direitinho.Acho que.Mas você não alugou para ninguém. Deve estar caçando.Também. . parecia um monte de roupa para lavar. depois do acontecido. Deixei a porta aberta para ventilar: para saírem os maus eflúvios: não é assim que se diz? . o agente de polícia e Shamanta.. Ninguém desconfiou quando tiramos para pôr no carro. não deixou nenhum sinal.Estou te dizendo que está quase vazio. a mulher do patrão.Cadê a bichinha? . .Só quem ficou sabendo fomos nós (nós aí incluídos os dois interlocutores. não é? . .

Em algum quarto deve ter luz. Merda. . um pequeno pedaço reto. Será que tem gente dentro? Parece que esse corredor não era tão comprido: será que não estou onde pensei que estava? Uma porta aberta. Cheiro de defumação nesse quarto. A porta estava aberta. Que merda. mãos para a frente. uma pequena curva para cima. que não sinto agora. nem precisei baixar a maçaneta de ferro redondo. este pendurado no teto pelo fio elétrico. Como das outras vezes. Que se danem. Tudo fechado. depois um pedaço reto maior. onde pôr a mão. Há quanto tempo estou aqui? . Um fino ferro redondo. Vou entrando devagar.Pelo vidro quebrado entrava o vento frio. não quero ficar rondando a noite toda. provavelmente enferrujada. Somente depois de passada a dor forte me levanto da cama e procuro no ar uma lâmpada. ou alguém me empresta um isqueiro.Tem gente aí? Dou uma tremenda duma topada com a canela no pé da cama. só o bocal vazio. Então me veio a idéia de ir abrindo a porta de todos os quartos.

um molhado gosmento. Procura seu parceiro. sem sair da cama.ela faz com a boca. . o esperma deve ter escorrido de dentro dela durante o sono. muita bebida. procura até encontrar uma bacia de metal. passa a mão pelo espaço vazio e sente. Depositado pelo homem não mais ao seu lado. no lençol. ela não se limpou. acostumada com esses ambientes. Limpou os dedos em outra parte do lençol e somente então. tateando o chão com as mãos. TSK .(ou não?) A mulher loira acorda durante a noite com vontade de urinar.

Em que quarto mesmo você disse? -No oito.. .

foi mais o susto de cair girando num abismo escuro. O barulho da minha queda não provocou nenhuma resposta. . nenhum hóspede apareceu para ver o que acontecia.(ou 30-0) Rolei escada abaixo. Perdi o equilíbrio e rolei escada abaixo. Não me machuquei. dificilmente a gente consegue caminhar em linha reta. justamente no lado onde os degraus são mais estreitos. Os degraus dessa escada em caracol giram partindo de um centro que é o canto direito do patamar formado pelo final do assoalho do corredor. deixei de tatear as paredes. tentando inutilmente me agarrar em algum ponto de apoio. Eu andava quase encostado na parede direita e entrei na escada em caracol. Degraus de formato triangular como um pedaço de pizza vão se abrindo em leque para baixo. quando vi estava sem apoio. Na escuridão. nenhuma porta se abriu. Braços cansados.

. quando aqui cheguei com a loira me lembro. num espaço que não compreendo. Desci escadas. Sei aonde pretendo chegar: na porta da rua. embaçadamente. subi escadas e continuo no mesmo lugar: na escuridão.Não olhei as horas quando acordei. um velho casarão no centro da cidade. de ter subido escadas. No escuro caminho no espaço e não no tempo. Imagino que o hotel tenha três andares. Bêbado. meu relógio está com a luzinha queimada e eu não conseguiria ver os números agora.

entre as inúmeras portas do hotelzinho ele saberá qual abrir. por ali.Há um outro homem que se movimenta. pelos corredores do pequeno hotel. Na hora certa. antes percorreu o longo corredor retilíneo do andar térreo e prefere subir pela estreita escada dos fundos. Declinou a escada ao lado da pequena portaria. Ele conhece o caminho. . Conhece o chão onde pisa e sabe que. o caminho é menos cheio de meandros para chegar aonde quer. na escuridão.

Espio pelas frestas e nada mais vejo além da escuridão. por mais força que eu faça. Procurando uma luz. Haverá outros quartos abertos. ora de material. encontro uma janela. não consigo abrir a veneziana nunca aberta. Saio do corredor escuro e entro no quarto escuro. ora de madeira. Não me lembro se tinha janela no quarto da loira. . Vou falando: Tem alguém aí? Desvio a cama e vou passando as mãos pelas paredes. a vidraça abre para o lado de dentro e.A porta está aberta. É uma grande janela.

as gentes dormindo.De madrugada. há uma hora em que parece que tudo pára. . bem baixinho. Acho que vem dos postes de luz. Tudo está fechado. não se escuta carro passando. na cidade. Aquele silêncio todo e se ouve um zumbido contínuo como um apito de navio. mal se ouve. Aquele zumbido continuado não é silêncio.

acendeu um cigarro e se deixou ficar ali parado. no fim do corredor. em pé. .Ele fuma. talvez. fumando. Antes de subir a escada. sozinho no escuro. para não ter de reparti-lo com o porteiro. apenas por vontade de fumar. ele acendeu o cigarro antes de subir a escada e se deixou ficar ali parado. Talvez por mesquinharia. no fim do corredor. talvez porque a maconha lhe aclare a mente sobre o que fazer ou. fumando.

. uma luz para me guiar. Na verdade. sinto frio. Se eu tivesse um fósforo e tivesse em mãos os jornais do banheiro.Eu penso em fogo. poria fogo nos jornais e me aqueceria. chamas. Se tivesse um fósforo. não faria isso. Na verdade. eu faria uma tocha.

noticiou que o assassino (ou assassinos) havia posto fogo no cadáver para evitar a identificação. . Na notícia. o nome da localidade aparecia grafado errado: Itaigüi. de menor circulação. sem nenhuma fotografia na primeira página.Outro jornal.

É tanta gente que aparece por aqui.Se você não olha para a gente. se eu for olhar para a cara de cada puta que entra . .Tá gozando com a minha cara? Ainda ontem ela esteve aqui. .. Não tem mesmo um cigarro.Não. estou louca de vontade de fumar. Faz dias que não aparece. .A Marilda já veio? . .. com um velho.Tá a fim de fazer hora comigo? Já disse que ela não veio e não me encha o saco.Tesão.. Eu estava com o meu.Já disse que não. como sabe que ela não veio hoje? . . .

Onde você andava? Só vejo a voz da loira e respondo: .Abro uma porta destrancada e vou entrando num quarto escuro. .Fui no banheiro. .

Quem deixou a porta aberta? Espia para dentro do quarto e. zelosamente. . encosta a porta.o outro homem vê que o 27 está escancarado.

em direção à cama.É que está escuro. Molha a barra da minha calça. No escuro. Piso na bacia de metal que entorna seu líquido em cima de mim. . .Você tem fósforo? . os meus pés.Pra que que você quer fósforo? Venha deitar logo que eu estou com frio. O líquido gelado me entra por dentro dos sapatos. Não tem luz nessa porra. eu caminho na direção dela.. .Deixa de frescura e vem de uma vez.

A caixa tinha apenas três palitos. me entregou uma caixa de fósforos de papelão. Um custou a riscar e queimou meu dedo quando acendeu. preta. Com a desculpa de me enxugar. No escuro. . saio outra vez. com o nome do inferninho impresso em letras douradas: Le Labirinthe. atirei fora num grito.A mulher loira também não sabia onde era a luz. O outro me guiou até o banheiro. onde eu sabia que encontraria papel. mas tinha fósforos na bolsa.

mais uma vez. bonitão? O passante não responde e continua seu caminho. pela escada que leva ao corredor do banheiro. A mulher loira dorme. lentamente. O porteiro noturno lê. . Sabe muito bem que. percebe uma luminosidade alaranjada movendo-se na escuridão. Quando seus olhos chegam na altura do piso do corredor. perguntou por perguntar. a notícia estampada no jornal do dia anterior.Está a fim de um programa. dificilmente encontrará um freguês. porém num lugar onde não possa ser vista pelo porteiro. perto da pequena porta de entrada do hotel. O outro homem sobe.. A outra mulher pouco se importa. Se deixou ficar ali. sem roncar. àquela hora.

em movimento vejo um sapato preto de cordão. No escuro. quando a outra escada termina. por outra escada e vejo. O jornal se encontra bastante amassado e o fogo do terceiro palito de fósforo começa a queimá-Io pela margem. ao levantar me choco contra um corpo aflanelado grosso redondo que perde o equilíbrio e bate com estrondo na porta semi-aberta do banheiro. uma canela sem meia. a escuridão. novamente. eu corro pelo corredor. luz no fim do corredor. assustado. mas as letras da reportagem estão em preto. uma perna metida numa calça preta. Rápido. . onde cai. manchetes impressas em vermelho. esfrego a barra da calça para secá-Ia. pela escada.Qyhé bbohhar oohhô nnnohehll? Ao mesmo tempo que escuto a voz irada que não entendo. Estou acocorado junto ao foguinho e. O sapato esmaga o jornal incendiado e. um barulho seco no chão cimentado.Em preto e branco a fotografia da mulher loira caída de bruços. com outro pedaço de jornal. .

Trrriiiimmm. Ao mesmo tempo. precisamente quando os ponteiros marcam cinco horas. . toca a campainha do relógio-despertador colocado na parte de dentro do pequeno balcão da pequena portaria.

Aparentando naturalidade. saio pela porta aberta e. e de que começa a amanhecer. apesar da escuridão.Tá a fim de um programa. pequenos prédios com a mesma altura. caminhando por uma rua estreita ladeada de construções antigas. apresso o passo e só então me dou conta de que estou ao ar livre. . . procuro caminhar numa direção em que eu não possa mais ser visto pelo porteiro sentado atrás do pequeno balcão.Agora caminho mais devagar. na rua. bonitão? Nada respondo.A mulher fica dormindo. .

A outra mulher sente frio.A Marilda ainda não entrou? . entra e pergunta: . encaminha-se para a pequena portaria. Depois de alguma hesitação.

.

~ .o MIST[RIO & DA PROSTITUTA JAPON[SA MIMI-NASlILOIClII .

.

185 . uma escadinha de três degraus descendo para nele se entrar. acompanhando os degraus. o chão do banheiro minúsculo é cimentado. partindo da parede oposta à parede dos três degraus. essa parede acompanha os três degraus e termina pouco adiante de onde eles terminam. Conhece o caminho. Um vão sem porta. Ocupam um pequeno espaço dentro do pequeno quarto do hotelzinho de rendez-vaus. Diferente do piso do pequeno quarto. Hotel de rendezvaus. O quarto já é pequeno e. partindo do lado da porta. que não se encontram e não alcançam o teto baixo. piso de tacos de madeira cinza muitas vezes lavado. Traçando um cubículo. construíram uma parede que não chega ao alto do teto baixo do pequeno quarto. Dentro do pequeno quarto. Essas duas paredes. nunca encerado. dentro do já cubículo que é o pequeno quarto. pintado de vermelhão. outra parede avança. Essa parede não chega a se encontrar com o final da parede construída a partir do lado da porta de entrada do pequeno quarto. formando um minúsculo banheiro. formam um cubículo sem portas. A prostituta japonesa vai na minha frente.o quarto do hotelzinho barato.

' lha de ralo tecido sobre os vidros pintados e consigo a privacidade é pequeno quarto do hotel de rendez-vous. depois à direita. através da abertura sem porta do pequeno banheiro. Muitas vezes trilhadora do labirinto.. a prostituta japonesa caminha adiante de miIr pelos caminhos escuros. coberta pela colcha de tecido brilhante. uma escadaria qUe sobe à esquerda. cor vermelha: a cabeceira encostada na parede oposta ao pequeno banheiro.a passagem é o vão sem porta. um longo corredor e5' treito. só existe uma posição possível para a baixa cama de casal. que abre um espaço defronte à metade dos pés da baixa cama de casal. uma negra sala sem portas.1 ponesa me conduziu pelo labirinto cheirando a mofo. Um olho pode estar à espreita. exatamente frontal à abertura sem porta. Nos dois lados da cama o espaço é um pouco maior. Foi ela a pL meira a entrar no pequeno quarto às escuras e a me alertar: 186 .. sobra mesmo lugar para uma mesinha-de-cabeceira.um pouco . Eu não saberia reconstituir o caminho que nos conduziu da portaria do hotelzinho barato até este pequeno quarto. A única janela do pequeno quarto fica no pequeno banheiro. Deitado na cama. com a chave na mão. a janeL basculante com falhas na pintura. Não sei dizer para que: parte do hotelzinho barato dá esta janela basculante.. Pequena janela basculante. vejo diante L~::: mim. bém coberto com o mesmo tecido brilhante da mesma cor vermelh da colcha. Do outro lado da cama. vidros pintados com tinta branca fosca grossa. um pequeno pátio mal iluminado pela noite. A cabeça no edredom tan .: mesinha-de-cabeceira. não sobrou lugar para a outr.Pelas dimensões do pequeno quarto. outro negro corredor cortado em cru: por outro corredor sem luz. talvez uma V2.' randa. que foi colocada no lado diante dos degraus. Por portas fechadas. O que facilita . a prostituta . que deve ter sido levada para outro quarto de hotelzinho barato. 'c Seguindo sempre adiante. Como é escura esta noite sem estrelas! Um corredor de paredes sem portas e a porta do pequeno quarto. Eu coloco a pequena e úmida to~.

Mas não quero. estendendo as mãos para o alto. Dali ao teto. eu estou deitado por cima da colcha de teci~ do brilhante. fraca. avermelhada. preso ao fio que pende do teto sobre a baixa guarda da cama. As paredes. suas mãos sabiam onde encontrar o comu~ tador de luz. A prostituta ja~ ponesa se lava utilizando a mangueirinha do chuveiro elétrico. Com a mangueirinha. e no sexo de pouca penu~ gem. do pequeno quarto. até meia altura. 187 . Dirijo o meu olhar para a prostituta ja~ ponesa que se lava no pequeno banheiro sem porta. eu posso. se quiser. Tinta fosca aguada. a cor é verde~clara. de cor de rosa~maravilha.Mesmo na escuridão. dirige o jato d'água para retirar o sabão. ajuntadas. sem espuma. sem forro. apenas a baça luminosidade atraves~ sando os vidros pintados da janela basculante tomava o pequeno quar~ to. Já sem roupa. Existe. Antes. cor vermelha. todas as paredes do pequeno quarto e do pequeno ba~ nheiro. são pintadas. Pas~ sa sabão entre as coxas largas. também. sem chuveirinho. cobrindo não sei quantas pinturas an~ teriores. cor de rosa~maravilha novamente no teto. O chuveiro elétrico fica no espaço do pequeno banheiro visível para mim. manchada. Em pé. al~ cançar o teto de alvenaria. Agora uma pouca luz amarelada. Não sei se ela fala para mim ou para ela. uma pequena pia bem embaixo da janela basculante. em forma de pêra.

Depois. O gozo me vem rápido. A prostituta japonesa já está deitada ao meu lado. é para deitar ao lado dela. Uns trinta. encosto meu rosto no dela. estufado. Primeiro acaricio. Penetro-a. Por instantes. nem velha. Por si. na hora do gozo. poma total. acaricia novamente a parca penugem. Não sei dizer. redonda achatada como em todas as mulheres orientais. Não beijo. mordisco sua orelha. Cor de chá. na cama. beijo. silencioso o corpo ao meu lado. Impossível de usar. começo a afagar os poucos pêlos pretos macios do seu monte-de-vênus. foi meu. Na parte que não posso ver do pequeno banheiro fica o vaso sanitário. Deito sobre ela. Com a mão esquerda. por cima da colcha de tecido brilhante. Difícil dizer a idade das mulheres orientais. molhado pelos respingos do chuveiro. eu diria completamente imóveL Contudo. o rolo de papel higiênico. Permaneceu. Não sei o que ela sentiu. ao lado da cama. meu sexo enrijece. talvez? Talvez. Subo a mão até os seios. Meu dedo busca a greta ainda seca. Ela não disse nem um gemido. sua pele lisa sem pêlos contrasta com a brancura do meu corpo peludo. Melhor apanhar o rolo que está em cima da mesinha-de-cabeceira.tranqüila? Viro o corpo para o corpo nu da prostituta japonesa. sugo. somente o úmido bico. como uma fotografia. mas não. sem que ela o toque.E eu é que sei? Nunca estive antes neste hotel de rendez-vous. não sinto mais o cheiro úmido da colcha de tecido brilhante. Preso por um arame. Então. só com a ponta dos dedos. e meu travesseiro é o seu seio esquerdo. aperto. Nem moça. cor vermelha. enquanto minha mão desce. permanece 188 . cor vermelha. Mas permaneço ainda dentro de seu corpo. Imóvel. Eu poderia beijar seu sexo. Meu sexo encontra seu caminho sem que ela auxilie com a mão. que sinto enrijecer. acaricio o bico do seio. Não fosse por um lento respirar. Quando retiro o meu corpo. nem uma palavra. Não estou mais beijando o seio. não dela. pequeno traço de poucos pêlos. me parece imóvel somente na superfície visíveL Eu diria que por dentro dele existe toda uma mobilidade . Se houve algum gemido.

pele lisa sem pêlos. pátios e terraços que levam de volta à portaria do hotelzinho barato. Eu diria que ela está completamente imóvel. é difícil dizer numa mulher orientaL Não conta o dinheiro. Seu coração bate rápido e descompassado. corredores. Imóvel somente na superfície visível do corpo cor de chá.Vamos embora? A luz do pequeno quarto fica acesa. a porta aberta. 189 . seu coração está batendo tão esquisito. Reparo que ela não conta. escadas. eu não sei dizer. Dirige a mangueirinha diretamente para a pequena fenda de pouca penugem.c?J: Não demonstrou.silenciosa e não sei para onde olha. Inquieto? . Quanto tempo ficamos assim. Coração batendo forte. A prostituta japonesa segue ria frente. Será que ela diz a verdade? Fico só olhando. suave montede-vênus de parca penugem. Depois de vestida. pago a ela o preço combinado..Nossa. Agora ela lava o sexo com mais cuidado. conhecedora dos caminhos. põe as notas dobradas na bolsa. Levanto a cabeça e olho para ela. Mas teria mesmo gozado? Não deu nenhuma demonstração. ela olha não sei para onde. - Verdade? - (iÁ. Eu é quem falo: .

Nem dá para entender o que elas conversam e riem. Riem. Cabelos amarelos. sai sozinha do hotel outra prostituta. tipo havaiana. um velho de camisa florida. a voz de uma encobrindo a da outra. . de pouca conversa. risos. peitos. Mas interrompo: -Vamos? 190 'i>t: UD ~:. apenas entrega uma nota amassada à prostituta japonesa. quero possuí-la mais e mais vezes. ela não deu demonstração de nada. O freguês dela. Algumas fingem. qualquer coisa assim. Será mesmo que ela sentiu prazer? Uma prostituta? Ou disse aquilo apenas para me agradar.JJ"l =. síria. e não para o da frente. barrigas e nádegas querendo romper o vestido justo. para conquistar um freguês? Para que eu volte outras vezes? Sou limpo. pintados de amarelo.Escuta.?'Lin. devem ser muito amigas.. na porta do hotelzinho barato. Tem mais jeito de turca..é um chinês? . Se for verdade que ela gozou.de óculos da portaria nada responde. Eu quero ficar mais tempo com ela: . se tocam e falam rapidamente. formas roliças. As duas se conhecem. Estamos fora.Quer tomar alguma coisa? Vamos num barzinho aqui por perto? Antes da resposta. na rua em frente à porta de entrada do hotelzinho barato. se demora na portaria discutindo com o chinês de óculos. gozei rápido. É dinheiro meu. não reclamei do quarto. Um bom freguês. nem para o do lado. Não é japonesa. Não é comum uma prostituta sentir prazer com um freguês.kf(Q) Fica para outra vez . Meio velhusca.chinês . o . parte do que paguei pelo pequeno quarto. A comissão por ela ter trazido um freguês para este hotel.

O freguês da outra prostituta sai agora do hotel. nem saberei se ela sentiu prazer comigo naquela noite escura. falando sozinho. Entram rindo. mas elas já tomam um táxi que passa pela rua. Será que ela gozou mesmo? Eu voltarei outras vezes. Já se afastam as duas. às vezes. Uma vez comprei cocaína. não para meu uso. penso que não. Sai gesticulando. Ainda estendo minha mão aberta. três ou quatro vezes deitarei num catre e acenderei o cachimbo de ópio. afobado à cata de um táxi. Caminharei tantas vezes por esta mesma rua. pensando. Quantas vezes sentirei na boca o gosto oleoso do gim que vendem por aqui. Parece querer ir embora logo deste lugar. nervoso. Essa foi a última vez que . Muitas vezes dormi com outras prostitutas no mesmo pequeno quarto do hotelzinho barato. Entra num táxi e some de vista. penso que sim. Um gesto. mas para conseguir do traficante uma informação que. mas sei que nunca mais verei a prostituta japonesa. Algumas vezes fumarei haxixe. Nunca encontrarei uma resposta que me satisfaça.Riem muito as duas.. Às vezes. parado. Quero segui-Ias. Afaga meu rosto. A prostituta japonesa passa a mão no meu rosto. mostrou-se sem proveito. conseguida. Penso em alcançá-Ias.. este mesmo bairro de prostituição. Eu fico perto da porta do hotel. 191 . como uma despedida.

MIMI-NASIII-OICIII .

." 195 .uma espécie de violão japonês.. . Oichi meditava no jardim do mosteiro quando escuta uma voz dizer: "Ouvimos falar de seu talento como cantador de histórias .Meus nobres amos sabem de sua fama e ficariam muito honrados se o senhor fosse contar para eles a triste história da batalha de Dan-No-Ura. "Hai." ". o monge sem orelhas.. quan~ do o canto era triste.. ficou famoso como contador de histórias que contava se acompanhando do biwa. como vou te explicar? ... instrumento muito antigo . O jovem noviço..- E você teve medo? .O que é biwa? . acompanhando os versos ao som do biwa....contava histórias. pobrezinho. esta noite. cego. ". Oi~ chi. Numa noi~ te de inverno.Oichi. os olhos não seguravam as lágrimas. . Di~ zem que à sua palavra e à sua música todos faziam silêncio e...

é nuvem branca? Branco-cinza? . Passos pesados metálicos. Oichi sentia que muita gente estava ali. Colocado no centro do salão. uma nuvem pousada no teu seio. . Ele era cego de nascença? Sim. banhos de sangue. no Japão havia entre os senhores feudais muitas lutas pelo poder. passos - Oichi não pôde recusar o convite. Tomou seu biwa e seguiu os daquela voz desconhecida. Já reparou que o preto da televisão nunca é preto. bem longe estavam do mosteiro. Época de guerra civil (conduz teu cavalo sobre o fio duma espada.Oichi ia seguindo os passos. Taira e Minamoto.O que eles enxergam é uma mancha esbranquiçada. como os de um samurai vestindo sua armadura de guerra. Ouvia o assobio das sedas dos quimonos. . oculta-te como puderes no meio das chamas).Das guerras do Japão medieval.Tudo fazia crer um rico palácio. batalhas 196 . A luta entre os dois clãs durou quase duzentos anos. . disputavam o poder. começou a evocar com seu canto os tristes versos da batalha de Dan-No-Ura. As famílias rivais.Que batalha é essa? . Apesar do silêncio reinante. Oichi imaginou que devia ser um lugar bem grande. Quando chegaram. Minha mão.Um palácio? . Como na televisão. redondo como a Lua. porque caminharam por várias salas enormes. Foi no século XII: no Ocidente aconteciam as cruzadas.Nesta noite ninguém pode dormir: Lua cheia. Depois de muito caminhar. Na noite escura não sabia para onde estava sendo levado. Eu li uma vez que os cegos não enxergam tudo preto.

bandeou~se para o lado dos Minamo~ to. outras vezes os Minamo~ to venciam. Os que não têm coragem de cometer suicídio são mortos pelos companheiros de armas. seu aliado. Às vezes os Taira dominavam. mais de mil navios em luta. Pela vergonha da derrota. Nuvens. Exército dos Taira estandartes vermelhos como sangue. O fogo. a maior batalha naval que o Ja~ pão assistiu. . Exército dos Minamoto estandartes brancos como aço. - E como foi a batalha? .O choro. seus guerreiros se atiram nas águas. quem perdeu? . o canto fúnebre tomou conta dos navios dos Taira. A batalha seguia feroz.No estreito de Dan~No~Ura.Os Taira tinham o maior número de navios. a fumaça dos canhões.quando viram o branco flutuando nos céus.Quem venceu.Acende o meu cigarro. Os tombadilhos das embarcações tor~ 197 . muitas obrigações ele devia aos Taira. Os comandantes se amarram nas âncoras de seus barcos e soltam as correntes. o assobio metálico das espadas nos combates das abordagens.incontáveis. veio a certeza da derrota. mas um senhor feudal. levando seus barcos para o inimigo. . afundando com o peso das armaduras. Os Taira ainda mantinham a esperança de vitória. para não cair nas mãos do inimigo. a princípio . Shigeyoshi. pensaram em nuvens. . O coração vermelho de Shigeyoshi hesitava em se passar para os Minamo to. Quando per~ ceberam que o branco estandarte do inimigo tremulava nos mastros de seus próprios navios.

. por mais seis noites. só escuta o silêncio de lágrimas pressentidas. ..Não sobrou ninguém? Teu corpo nu Agora flutua no lençol transparente como água Sal.Com o menino nos braços.. O mesmo samurai que te trouxe aqui esta noite irá te 198 . A avó tomou-o nos braços e com ele se encaminhou para a amurada . Como teu corpo é bom. é pequeno como um grão de arroz e agora é um imenso vale de miséria Mais abaixo das ondas há outro país onde não existe a tristeza É para lá que te levo. . Sem ter quem as governe. as velas dos navios explodem ao vento. Oichi.Quando Oichi termina de contar os últimos versos. a voz de uma velha aia: "De tua fama sabíamos. Aonde me levas. venhas repetir o canto da batalha de Dan-No-Ura. vovó? O Japão Pequeno Antoku. da beleza de teu canto sequer podíamos suspeitar. os cortesãos. de sete anos.Teu corpo é água onde me sustento. os servos. buscam a morte.. . Antoku-Tennô. Depois de muito silêncio. Em todo o Japão não existe artista tão perfeito. Meu amo pede que.. durante o tempo em que ele permanecer aqui. . Os marinheiros.nam-se rubros de sangue.Tennô.Nem mesmo o menino imperador.. a avó se atira no mar tinto de sangue e salgado de lágrimas. todos em lágrimas.

E. dormiu o dia inteiro. Aterrorizados. como espectadoras do canto triste. Oichi reclama: Como ousam interromper meu canto para tão nobres senhores?!". notando que Oichi não está em sua cela. sentado diante da tumba em memória do pequeno imperador Antoku-Tennô. Por sobre as outras tumbas.. mas ele respondeu com reticências e nada revelou sobre onde estivera. manda que os monges o procurem. Nunca . pobre Oichi. Oichi é levado à presença do abade.pegar. voltando para o templo. as chamas espectrais dos fogos-fátuos. encontrou os monges aflitos com sua ausência. Já pela madrugada. sem sentir a neve que começava a cair. Quando Oichi voltou ao templo. Mas meu amo viaja em segredo e ordena que não contes nada a ninguém. e novamente ele canta a batalha de Dan-No-Ura para a silenciosa platéia. agora. O abade. Uma longa noite de buscas. Sobre o sino do templo repousa e dorme a borboleta noturna. os monges vêem Oichi. os monges escutam os acordes do biwa e a voz de Oichi. O abade o interrogou. Bastante para vergar as folhas dos junquilhos . Oichi não parece sentir a neve. Arrastado de volta ao templo. Na noite seguinte. que têm de arrancá-Io do lugar onde está. Envolvido em seu cantar. Exausto.. corres grande peri199 . no cemitério de Amidaji. No cemitério de Amidaji estão sepultados os derrotados da batalha de DanNo-Ura. Primeira neve. pela manhã. que lhe revela a verdade: "Oichi. és livre para partir". cantar exaltado a história da derrota dos Taira. esquecido de suas obrigações. sem que ninguém veja. o mesmo samurai vem buscar Oichi. nem ouvir os gritos dos monges.

Os monges partiram. Sentindo~ se protegido. Aproveitando~se de tua cegueira. o biwa ao seu lado.Paramita. os fantasmas dos mortos na ba~ talha de Dan~No~Ura lançaram encantamentos sobre ti.go. Esta estrada sem ninguém nela. de ódio: "Oichi! Oichi!". A voz. Os monges tiram a roupa de Oichi e. Mas. da escuridão da noite surge a voz profunda. protegerei teu corpo com os textos de Buda. tudo aparece e desaparece. que te farão invisível aos demônios". eles te matarão. só poderá haver a bem~aventurada paz quando se puder escapar da agonia da vida e da morte. o abade escreve com pincel os sagrados textos do Prajna. Passos pesados. o samurai-fantasma não encontra o que veio 200 . A mudez de Oichi como resposta. é de ira. Esta noite. Por duas noites. Dos olhos cegos de Oichi correm lágrimas de medo. antes de ir. no corpo nu. Tudo é mutável. escravo dos demônios". O abade pros~ segue: "Precisamos quebrar o encantamento. e esperou meditando sobre a vida e a morte. Todo o corpo de Oichi foi coberto com as palavras de Buda. agora. Te enfeitiça~ ram. como um fan~ tasma. chamando: "Oichi! Oichi!". temos de atender um serviço re~ ligioso na aldeia. despedaçarão teu corpo e tu passarás a penar por toda a eternidade. metálica. Não obtém resposta: "Oichi! Oi~ chi!". Ao final da sétima noite. Escuridão de outono. Oichi sentou~se no pórtico do templo. levaste teu canto para os mortos e eles agora são donos de ti. não pode~ mos ficar no templo para te vigiar. que o tornariam invisível aos demônios.

Suas orelhas são arrancadas e o samurai-fantasma sai carregando-as. foi só o que o fantasma viu e carregou para o mundo dos mortos: duas orelhas. Oichi reza para não gritar de dor e revelar sua presença. ficou livre para sempre dos demônios. mas vivo.buscar: "Vejo um biwa abandonado e não encontro o trovador. Tornou-se monge e viveu ain201 . conforme o combinado. o abade esqueceu das orelhas. seus passos perdendo-se na noite em direção ao cemitério de Amidaji. não está aqui. Ao cobrir o corpo de Oichi com os textos sagrados. encontram Oichi se esvaindo em sangue. O sangue escorre. Foi medicado e se salvou. Vejo somente suas orelhas e vou levá-Ias para provar ao meu amo que aqui estive cumprindo minha missão". Quando os monges voltaram. As mãos enluvadas de ferro do fantasma agarram as orelhas de Oichi e puxam ferozmente. Muitas vezes chamei Oichi e ele não me respondeu.

Orvalho deste mundo orvalho deste mundo.da muitos anos para poder cantar em versos sua desventura. . Sim. que acho que até chorei. e no entanto . Desde aquela noite. O tempo onde se acumularam os dias lentos .Medo não tive. mas me deu uma tristeza grande. o cantador cego ficou conhecido como Mimi~Nashi~Oi~ chi.E você teve medo? . naquela noite chuvosa. medo não. lágrimas. Medo eu não tive. Ah. 202 .. tristeza. Oichi. sem dúvida. Eu era muito pequena quando minha avó con~ tou a história de Mimi~Nashi~Oichi. Tristeza grande. era uma noite tão fria. o passado. o Sem Orelhas.Não..

13 mistéri<.)rta aberta .)s + () mistéri<.) da p<.

para quem foi Marlene e para Josely Vianna Baptista e Cláudio Lacerda .

Dito por um criminoso no programa do Algaci Túlio .Uma mentira minha vale por dez verdades tuas.

. . 259 O misterioso homem-macaco Como tudo começou . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .SUMÁRIO o mistério da porta aberta. . . . . . . . . . . . . .Um mistério Um mistério no trem-fantasma Mistério Sapho O amor entre as mulheres DELE 281 293 305 O mistério dos sinais da passagem de Curitiba pela cidade 317 .. . . . . .. . . . . .. .. . . . . . . . . .. . 265 Mistério mágico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . 227 Os fantasmas do fundo de quintalO mistério teu. 273 A cadeira do diabo . . . . . 233 241 247 253 O mistério do gato preto e da gata gorda . . . .. . . Sônia O mistério da Sonâmbula Mistério do menino morto Um mistério ... . 211 219 Mistério números Mercúrio mistério. . . .

() mistério da porta aberta .

simplesmente não entraremos. Vi213 . pois a escuridão sempre nos sugere um mistério que precisa ser aclarado. Através de uma porta aberta. O que nos espera lá dentro? Sentiremos medo. Sendo assim. as poltronas.. as mesinhas de centro e podemos tropeçar nelas. uma porta entreaberta sempre será uma porta aberta. está aberta. antes de criarmos a necessária coragem para entrar. Se ali percebermos qualquer coisa estranha. Uma porta pode estar aberta para um recinto às escuras..na verdade entreaberta. nenhuma visão de perigo que nos possa causar medo. No escuro desconhecido nunca sabemos onde se encontram as cadeiras. Até certo ponto essa argumentação é válida. Outra hipótese: a porta se abre para um ambiente iluminado. Nada podemos ver em seu interior. nos machucando. Nem mesmo num recinto bastante conhecido ousamos penetrar sem antes apertar o comutador da luz. porém sem muita consistência. fechada ela não está. por menor que seja a abertura. sempre conseguiremos ver o interior para o qual ela se abre. Mas muito ou pouco aberta uma porta. Às vezes um mistério exasperadamente simples como a localização dos móveis. ou mesmo pânico. Observe pelo tempo que julgar necessário a porta mostrada abaixo: Pode-se argumentar que uma porta aberta não apresenta mistério algum.. Portanto.

Outra no meio. a força desse 214 . sem contudo aclarar a escuridão do local desconhecido para onde a porta se entreabre. mesa de centro. sinto uma forte corrente de ar circulando entre as duas portas. neste ponto do vestíbulo da casa. pronto para atacar o primeiro estranho que ouse penetrar na sala? É um mistério que precisaremos resolver se quisermos entrar sem riscos na sala aconchegada. Sofás. uma pequena lareira de mármore. Por certo. e me faz medo. com a chama levemente inclinada para a direita . Vejo claramente as três velas. tapetes pelo chão brilhante. Bem ao fundo. sangue e ossos. Porém. nas paredes. Uma na parte de baixo da porta. fechada. sem tempo de fugir? Temos medo. Barulhos. com sabe-se lá qual intenção.sível uma ampla sala muito bem mobiliada. Não tenho inimigos? Nestes tempos de agora nunca se sabe do que as pessoas são capazes. com sua chama derivando para a esquerda. junto à lareira. E se for mesmo um cão feroz. poltronas.adentrando. Entre as duas. em grandes molduras douradas. perto da moldura. Não tenho inimigos. animal conhecido por sua ferocidade . Talvez seja uma dessas estátuas de porcelana habilmente pintadas. A riqueza do mobiliário. aparador. imóvel. Como ele nos receberá quando entrarmos na sala? Avançará sobre nós e seremos estraçalhados por suas presas afiadas. talvez não seja um cão de carne. uma distância de quatro a cinco metros. Como é noite e estou sozinho nesta casa. quadros representando paisagens. Barulho cadenciado como o soar de tambores. a terceira vela. Eu estou sentado numa cadeira contemplando a porta aberta (entreaberta) para a escuridão. reproduzindo com fidelidade a imagem do animal. O barulho ritmado da folha da porta da rua chocando-se violentamente contra o caixilho me assusta. e nos janelões. assim como se alguém estivesse forçando a porta para invadir a casa. grandes vasos com plantas. cortinas de veludo.em inglês bull-dogsignifica cão-touro. Estou sentado a meio caminho e. tudo nos leva a crer que se trata de um expensivo objeto decorativo. Atrás de mim outra porta que dá para a rua. A porta da rua fica exatamente defronte da porta das três velas. mais ou menos na altura da maçaneta. com a chama queimando normal para o alto. Esta. e até mesmo tirar minha vida. sim. a imobilidade pétrea do cão. um buldogue. vigilante. apoiado em suas patas dianteiras se posta um enorme cão. Na parte de cima. Me assusto com barulhos fortes e continuados na porta da rua às minhas costas. é possível que seja alguém querendo me assaltar.

outra para o alto.para os estranhos barulhos. e as cortinas no interior. Quando não há vento. nunca para a rua. vinda da porta entreaberta. muitas vezes as portas dos cenários se abrem para fora. outra para a direita. A vida real. É como se. então. a chama de uma vela queima para cima. na vida imaginária. Como também não é normal as três chamas tomarem direções diferentes. apagadas pela força do vento. Desfaz-se este mistério e perco o medo dos golpes. Porém não é isso o que acontece. as vidraças dajanela estão fechadas. Quando me apercebo disso. O forte sopro de ar vindo da porta das três velas me provoca calafrios. no teatro e na televisão. Isso somente no mundo da fantasia. ela estivesse indicando a alguém indeciso qual o rumo a tomar. contudo. E tenho medo daquilo que não posso compreender. Desde tempos imemoriais. ou para facilitar o deslocamento dos atores e das câmeras. logicamente as chamas das três velas deveriam estar todas voltadas em minha direção ou.vento é que faz a porta da rua sacudir violentamente. Não comprendo. Não é normal. tenho uma explicação racional . segue a regra estabelecida: as portas se abrem sempre para o lado de dentro. 215 . aumenta para mim seu mistério. A de um quarto nunca se abre para o corredor. Observe novamente as três chamas: uma se volta para a esquerda. Tenho medo de atravessar a porta das três velas e penetrar na escuridão. E não poderia haver correntes de ar neste vestíbulo. Apesar de ser difícil alguém se mostrar calmo com esse soar de atabaques. até . a colocação de portas obedece a um princípio imutável: as portas sempre se abrem para o lado de dentro! A porta de uma casa sempre se abre para seu interior. num convite para entrarmos. Ou estivesse dando a ordem: entre! A exceção a essa regra universalmente estabelecida se encontra no cinema. sempre. Todas deveriam estar queimando para o alto. evitando a construção de novos cenários. aberta uma porta. mas sempre para dentro.científica. Para esconder o fundo. dando a impressão de alguém tentando arrombá-Ia. artes da representação. Mas e a porta das três velas? A descoberta de uma forte corrente de ar. a porta da rua está fechada à chave. perco o medo. Se o sopro gelado oriundo da escuridão passa por mim para se chocar violento contra a porta da rua. e também as venezianas do lado de fora.

duas perguntas surgem. A própria posição das velas flutuando no ar já é um mistério em si. Escondida atrás da folha direita da porta. É de se notar que em circos. arame ou estilete deveriam estar camuflados com tinta fosca preta. Algum amigo faria essa burla de mau gosto comigo? Para me assustar.a escuridão atrás da porta entreaberta . nem eu nem você.Quando se planeja a construção de uma casa. O que sustém as três velas no ar? Certamente.podem tomar três direções distintas. Quem? Por quê? Para respondermos a primeira. É lógico que prego. Um truque mágico pressupõe a existência de alguém capaz de imaginá-Io e executá-Io. familiarizados com os mistérios da física. A vela de baixo parece ser a única assentada. Não sei. Imagino que um estilete de ferro ou arame grosso fixado no centro da vela funcionaria como haste. para não se tornarem visíveis e se confundirem com a escuridão. Como estão todas quase encostadas na folha direita da porta. etc. Talvez esse mistério das três chamas possa ser explicado por alguma lei física que eu e você desconhecemos. um estranho ligado a alguma seita ou religião aleivosa teria a ousadia de me enredar num maligno ritual 216 . Porém uma observação mais atenta nos mostra que ela se eleva uns dois ou três dedos acima do chão. ou com os gases gerados pela combustão das velas. seria preciso ter a resposta da primeira. o que afugentaria possíveis inquilinos. um inimigo certamente arquitetaria algo semelhante . Caso haja algum truque com as três velas.? E para respondermos a segunda pergunta. isso não é segredo para ninguém. Não estamos. Isso muito ajuda a dissimular a aparelhagem e os fios utilizados nos truques. O mistério é como três correntes de ar vindas do mesmo lugar . Sem dúvida nenhuma. evita-se que janelas e portas se localizem em pontos que possam formar correntes de ar. uma pessoa de mão firme sustentaria a haste dando-nos a ilusão de que a vela se mantém flutuando no ar. etc. Algo relacionado com a pressão atmosférica. podemos até pensar em algum truque. os números de mágica são apresentados sempre com uma cortina preta ou de cor escura ao fundo. teatros ou em qualquer casa de espetáculos. nenhuma lei física explica isso. Nem precisaria ter alguém segurando: um prego afixado na sambladura da porta serviria como haste. precisaríamos ter a resposta da segunda: por quê? Me assustar? Fazer alguma brama comigo? Induzir-me a participar involuntariamente de alguma cerimônia mágica? Etc.um susto é capaz de matar quem sofra do coração.

pintados de branco. Não posso afirmar quando. Desnecessário olhar à minha volta para ver que a única coisa em combustão. Mas quem e com qual intenção poderia estar oficiando um ritual mágico na escuridão por trás da porta entreaberta? E eu? Como posso exorcizar o desconhecido? O vento parou de repente. É como se o tempo não passasse. assim como não sei dizer quando começou. Pegajoso como o calor abafado que sentimos em ambientes fechados com velas acesas. que continuam queimando em diferentes direções. Sinto-o em torno de mim. Seja o que for. A fumaça embriagante e fétida assim expelida força o transe místico dos celebrantes e apressa sua comunicação com os espíritos. E se eu ousar? Conseguirei passar com vida pela porta das três velas? E o que encontrarei na escuridão lá dentro? Preciso de respostas para essas perguntas. Já estou aqui há algum tempo e o tamanho das velas mantém-se o mesmo. enjoativo. Mas e se não forem? Não sinto cheiro de gás.à luz de velas. mas isso não interfere na posição das chamas. Tubos metálicos sem pavio. parece-me sentir um cheiro agridoce. persistente. Em sua mente doentia. Como explicar. Incenso. calor de decomposição. como de ervas se queimando. Assim. que em algumas cerimônias religiosas primitivas costumam queimar incenso e estranhas ervas. As três velas são o bastante para provocar este odor característico de câmara mortuária. nesta parte da casa. Talvez da escuridão atrás da porta entreaberta se origine esse cheiro nauseante. são as três velas. As chamas não consomem as velas. Velas artificiais. contendo o gás que alimenta as chamas. e o cheiro quente. nem eu nem ninguém ousaria entrar. me abraçando entre meu corpo e minhas roupas. Sinto seu calor tomando conta desta peça da casa. o pegajoso cheiro de ervas queimando? Durante o tempo que estou aqui não acendi nenhum cigarro. me parece que o propósito maior é impedir ou retardar a minha passagem pela porta aberta (entreaberta). porém. 217 . Velas queimando ajudam a medir o tempo pelo seu lento mas inexorável desgaste. de velas se queimando. um louco encontraria razões suficientes para invadir minha casa e armar este estranho altar. como se usam agora nos velórios. e você sabe. Porém as três velas acesas à minha frente mantêm-se intactas. Outra coisa me inquieta. Talvez haja uma explicação bem simples para isso: são velas artificiais. Sei. O vento parou de repente. Por vezes. talvez.

Eu sou eu. Quando me deparei com a porta entreaberta das três velas. barraca de feira. E eu tenho de resolvê-Io. Não é uma casa de loucos. em nada pode me ajudar. Devo deixar de me comunicar com você que. Você não pode me ajudar. a casa que me acolhe sempre. apertar as chamas. Posso e devo. quando eu me levantar desta cadeira e me encaminhar em direção da porta entreaberta das três velas. Com um pontapé posso abrir a porta entreaberta. preciso me levantar desta cadeira imóvel. os mesmos ambientes familiares dos quais faço parte. Abri a porta da rua sabendo o que ia encontrar. Depois. basbaque deslumbrado. esse mistério. cheguei a dar três passos para trás. à minha espera. derrubando pelo chão as velas e tudo o mais que tiver. sempre a mesma. sem dar atenção às velas. a casa me recebeu como a um estranho. Que sempre encontro ajuizada. sem mistérios. Esta é a minha casa. Para isso. Nem sou eu um alienado espectador. Sem novidades. apagando-as. De dia. à hora que eu chegasse e abrisse a porta da rua esta casa me acolhia. posso retomar a caneta e o papel. Ninguém. Muitas coisas posso fazer para resolver este mistério idiota. os mesmos móveis. dentro da minha casa. truque. já vi. Esta é minha casa. Somente eu carrego a chave da casa. Pode? Memória da infância. Para isso. Sou o que sou. ninguém poderia ter entrado e armado esse altar. E olhei bem para confirmar se eu estava na mesma rua.Contudo. Não foi o que aconteceu hoje. posso jazer como jazia quando menino: umedecer com a língua a ponta do polegar e do indicador e. devo largar a caneta e o papel. devo e vou fazer alguma coisa. Posso. aleijado. posso penetrar na escuridão e buscar o comutador da luz. do lado direito . No entanto aí está. Tenho. Depois. Se eu me levantar desta cadeira. Cuja chave trago sempre no bolso. Ou. broma ou seja lá o for esta invasão das três velas ardentes. tenda de culto ou coisa que o valha. e descrever para você aquilo que aconteceu. Inanimada. não estou num velório.gesto tantas vezes repetido. na qual eu quis entrar e entrei. sim. de noite. Sozinho tenho que aclarar este mistério. tomando vida somente com a minha chegada. com eles. Posso. A mesma disposição das peças. Ao abrir a porta e adentrar neste vestíbulo. então. acender o isqueiro que trago no bolso e aclarar a escuridão. na mesma casa. arrombando-a. de volta à rua. 218 . Tampouco me encontro num templo de cultos primitivos.

Mistério ~ numeros .

Como as outras mulheres do campo nesta região do Paraná. Seriam dez ou doze pessoas diante do altar. Umas são mulheres. Virgem Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo. outras mantêm os olhos fechados. São Mateus. como também para demonstrar toda a sua fé. outras são homens e três ou quatro são crianças.1 2 3 4 Lucas é o estábulo santo deJerusalém onde Jesus Cristo nasceu são as duas tábuas em que Moisés recebeu a lei que nos governa são os três cravos que cravaram Jesus Cristo na cruz são os quatro evangelhos: São João. a mulher. Reza a santa reza: Abraçada estou em vós. e calça rústicas botinas de couro cru para homens. abraça-a para não cair. Umas trazem os olhos abertos. com gola. outras para baixo. Umas entoam cantos alegres. que fica do lado direito. traja um vestido comprido de tecido grosseiro acinzentado. Amparada estou em vós. Nossa Senhora das Dores. uma mulher está abraçada à imagem em tamanho natural de Nossa Senhora das Dores. Usa grossas meias longas de lã cinza. respeito e procura de intimidade com Nossa Senhora das Dores. Umas olham para cima. algumas olham para o lado. abotoado. Sem soltar as mãos. É uma mulher nem muito moça. em cima do altar. Na cabeça tem como touca um pano branco que esconde a cor de seus cabelos. em tamanho natural. no Apocalipse. Lá no alto. nem muito velha. logo que se entra na igreja. Nem todas estão olhando para a imagem que encima o altar. São Marcos e São as cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo os primeiros selos que o Cordeiro abriu no Apocalipse as sete cartas que. Beija repetidas vezes a face da imagem. que tivestes o vosso 221 . São João escreveu às sete igreas oito primeiras epístolas de São João Apóstolo os nove coros de anjos que para o céu subiram os dez mandamentos da Lei de Deus 5 são 6 são 7 são jas da Ásia 8 são 9 são 10 são 11 são as onze mil virgens que desfrutam a companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo 12 eu não contei direito mas me parece que eram umas doze pessoas que se postavam diante do altar de Nossa Senhora das Dores. Maria Santíssima. agarra-se firme não só para não cair. outras rezam tristes e algumas gemem e soluçam. pernas trançadas na parte inferior da imagem. de Nossa Senhora das Dores. algumas entreabertos. Agarrada firme na imagem de Nossa Senhora das Dores. Corpo colado com o da santa.

ó minha protetora Eu da cena me desinteressei e Em meu auxílio vinde. protegei-me. Apesar de não ser dessas coisas. homens e mulheres que sejam. Olhando bem.puro coração transpassado sete vezes por sete espadas. invocações. possam atentar em causarme mal. Em meu socorro vinde. Sete vezes vos peço. Perto dos primeiros bancos. circunspectas. visíveis ou invisíveis. parece um boneco. madeira escura envernizada. Cabeça branca e redonda de pano branco. não dá para perceber direito. parece ter sido pessoa rica e influente. Nossa Senhora das Dores. Nem precisava ter feito o sinal-da-cruz. guardai-me das investidas de Satanás. Me aproximo curioso para olhar o morto. uns sentados. pranteiam o falecido. em qualquer lugar. em sinal de respeito faço o sinalda-cruz e vou me encaminhando para o altar-mar. ó Esposa de Deus desta igreja bastante grande e suntuosa demais para uma cidadezinha do interior como esta. Pela roupa o defunto era algum tipo de militar. Em aflição vos peço: Vigiai minha casa. pois ninguém aqui parece se interessar pelo que sou e pelo que faço. se eleva um caixão de defunto apoiado sobre um estrado de madeira que não se vê. bruxos ou bruxas e adivinhos. outros ajoelhados e alguns em pé. É caixão de certo luxo. em meus parentes ou em meus bens. Imploro vossa proteção contra quaisquer maleJícios. Sete dores mortificaram vosso corpo virgem e santo. em qualquer hora do dia ou da noite. pelo aparato ao seu redor. A tampa de madeira entalhada está apoiada num dos cantos do cadafalso. que. tal a quantidade de flores que cobrem seu corpo. bruxedos. Atravesso por uma fileira vazia e chego ao corredor central. em minha pessoa. algumas pessoas. Há bastante gente nos bancos. a mim e à minha família. Chego mais perto e ergo a cabeça para ver melhor. que fica ladeado por quatro candelabros de prata e tem na cabeceira um grande crucifixo também de prata. no espaço em frente do altar-mar. em meio a panos roxos e tecidos rendados nas paredes internas do caixão. ó Rainha dos Anjos vou caminhando em direção ao altar central Em minha defesa acorrei. Apenas uma peru222 . que. Guardai-me de seus agentes. aparadores de brilhante metal prateado. não me parece ser uma pessoa que está ali sendo velada. encoberto que está por panos roxos. sem orelhas nem marcas de olhos e nariz. Em torno do esquife. nigromancias. veste o que parece ser uma espécie de uniforme.

Tem nas costas duas asas de papelão com penas brancas coladas. dedos entrecruzados. em pé. doença que me parece vai matá-lo logo logo. a menina-anjo. amparado por dois homens que suponho serem seus filhos.Não se deve zombar daquilo que acontece em solo sagrado! Muito loira de olhos bem azuis. Leva contigo para que eu delefique livre e nunca mais volte a sofrer com ele ou com outra doença parecida.. Desde que entrei nesta igreja. Saindo das mangas do uniforme. um velho de cor cinza se aproxima do caixão. e calombos irregulares nas mãos revelam um mal executado enchimento com algodão. um anjo aponta sua espada dourada contra mim. Uma espada aponta em minha direção.. Duas luvas brancas. doentia. este meu câncer que por dentro me corroe. Algumas rezam parecendo puxar um terço em voz baixa.. A espada que aponta para mim também deve ser de papelão recoberto com papel laminado dourado. . Começo a achar tudo isso meio sem sentido e até engraçado. pois uns dedos são mais grossos que os outros. Vagarosamente. como que para recuperar o fôlego. e seus filhos têm de arrastá-lo para que ele se deixe cair no banco mais próximo e ali repouse ofegante. quase inaudível. É de muito respeito a atitude das pessoas que. túnica longa e branca que deixa à mostra apenas seus pequenos pés descalços. ninguém parece ter tomado conhecimento de minha pessoa. duas luvas brancas pousadas no ventre do defunto. mundo das sombras. esse velho doente pedir a um defunto. sem retorno. . que nem sei se é mesmo um defunto. já que estás indo embora para sempre. caminhando com muita dificuldade. velam em torno do caixão. O esforço para dizer essas poucas palavras foi muito para o velho.Vivente . Pode-se presumir que não seriam mãos que enchem as luvas. . Tenho vontade de rir. serragem ou outro material qualquer.Este é um lugar sagrado! É uma menina de cabelo comprido e loiro.ca encanecida dá alguma aparência humana a essa cabeça. leva contigo esta minha doença. Depois de alguns instantes parado. para que leve aos céus ou infernos seu câncer. mais respeito .. trespassados por um rosário de contas pretas.Está zombando de coisa séria! Ameaçador. Batom vermelho 223 . inicia uma oração: Já que estás partindo para outro mundo. . o velho põe as mãos sobre as daquele que está no caixão e com voz rouquenha.

Há dias que estou de viagem pelo interior.. A menina-anjo se desfaz de sua expressão séria e sorri. Sinto desejos por ela. talvez para ver se estou mesmo indo embora. as unhas da mão que empunham a espada estão pintadas de vermelho vivo. os róseos biquinhos de seus peitinhos.. Há dias que estou sem mulher. Talvez seja por isso. Sei onde ele quer chegar e poupo suas palavras: . na pequena elevação.. padre.... longe de casa desde ontem nesta cidade. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário 224 .Eu estava mesmo de saída. não tenho companheira fixa. talvez pelo calor aqui dentro. As portas da Casa de Deus têm de estar sempre abertas a todos . A túnica é de diáfano tecido acetinado e quase antevejo. dirige-se a mim sem cuidados: -Aqui são todos bem-vindos . Que ofendem ao Senhor Nosso Deus .Com sua licença.Em outra ocasião o senhor será bem-vindo aqui. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário O canto do coro da igreja vem lá do alto. . gotas de purpurina vermelha que rebrilham à luz bruxuleante das velas. Compenetrado. No rosto. conduzida pela mão do anjo movimenta-se lentamente em direção à sacristia. onde moro.carregado nos lábios finos. Não sou casado e mesmo na capital. Deixa de apontar para mim. como se fosse rezar uma missa imponente. a espada toma então outro rumo..mas existem coisas que não gostamos.. . As sobrancelhas e os cílios fortemente marcados de preto e sombra verde em torno dos olhos azuis cor do céu. É um padre jovem. não sei explicar bem por que mas a visão da menina-anjo me excita. Pela porta da sacristia surge um padre e se encaminha para onde estou. todo paramentado de veste litúrgica branca e dourada. Como as dos seus pés. E me afasto caminhando pelo tapete vermelho do corredor central em direção à porta de entrada. .. Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário A menina-anjo me segue.

tomo na estrada.Tem importância não. posso apanhar a chave do meu quarto pendurada no quadro.A essa hora ainda não temos café feito. Vem sorrindo .Posso pegar minha chave? E dá para o senhor me acordar amanhã às cinco e meia? O velho responde como se estivesse zombando de mim. ele é cego. Acabo encontrando a nota fiscal de uma com pra que fiz na farmácia .N ovalgina para uma dor de cabeça que eu estava .Uma esmolinha pelo amor de Deus! Apesar da noite escura cobrindo a praça deserta. E a única da cidade. Procuro pelo dono. parece não levar muito a sério o que diz: . Silêncio Silêncio Olhai o Sacrário na imagem de Nossa Senhora das É a menina-anjo quem fecha as pesadas portas de madeira escura às minhas costas. . 225 .e jogo no chapéu do mendigo: além de aleijado das pernas. os mosquitos. todas as doze chaves dos doze quartos estão no quadro. Nem mesmo preciso pedir que ele me acorde um pouco antes das seis. modesta construção térrea de madeira. quando o único posto da cidade estará aberto e terei gasolina para seguir viagem. Procuro no bolso uma moeda ou nota de menor valor para dar de esmola.como se fosse muito engraçado aliviar-se no meio da noite na privada escura e suja no meio do negro pátio. É um velho gordo sem dentes. arrasta uma perna.está sempre sorrindo . A mocinha só chega depois das seis. na casinha de madeira no pátio interno. não preciso esperar o dono da pensão. Posso pegar minha chave. vem ajeitando as calças. Número nove. não mesmo. a sujeira. Com poucos passos chego na pensão onde me hospedo. . . Não preciso esperar o dono. Não vai ser preciso.A mulher continua pendurada Dores. Onde andará? Se quiser.Deus lhe pague. o calor e o abafamento do quarto não me deixarão dormir direito e estarei acordado bem antes das seis. Ele surge da porta que dá para a área interna. . Com toda a certeza estava na privada. como se costuma dizer. no migué. que não está na portaria. Sou o único hóspede. preciso talvez é ter alguém com quem conversar. um mendigo estende o chapéu para mim na escadaria da igreja. .

E ri sem dentes.Estou com a chave do quarto na mão. em todos os lugares ao mesmo tempo.. Mas . e segue falando: .Então o senhor entrou na nossa igreja?! Quer saber duma coisa? Me olha fixo: . ele está aqui nos escutando. estive dando uma volta. E o senhor sabe? .É.. 226 .Também não.O senhor entrou na igreja? -É.. mas nem penso em arredar o pé dali. Ainda com jeito de zombaria. Fica me olhando sério por algum tempo: . O velho perde o ar de gozação. muito bonita.É.Porcaria duma igreja numa cidade que nem hospital tem.Esteve passeando pela nossa bela cidade? Diz isso como quem diz: Então andou vendo que bela porcaria que é este buraco? . satisfeito com a grossura que disse. entrei porque não tinha outro lugar para ir. e o Diabo? Onde fica o tempo todo? Onde encontrar o Diabo? Demoro bastante para responder: . se alguém fica doente tem que andar trinta quilômetros até achar um médico. nós sabemos. Está em toda parte.Deus . Deus. é uno e indivisível.. Até mesmo aqui e agora nesta nossa conversa. desperdício de dinheiro numa construção daquelas: só para entronchar o cu dos padres. quieto sem dizer nada.É. sei lá. . não sei não. acho que ninguém sabe. não está mais achando graça: . o velho me pergunta: . Vi a igreja grande que vocês têm aqui. Mas também é onipresente.Acho uma feiúra. .

".Mercúrio . mlsterlo .

Pensou no prazer que sentiria ao levantar entre os dedos a fina placa de ouro e. em Bois L'Evêque. Liege. suspendeu a leitura e pensativa deitou os olhos no pátio deserto ao seu redor: certamente não era este um tema para levar ao conhecimento de suas alunas pour les médecins arabes e os adeptos na Idade Média. que. um moderno tratado escrito pelo professor Arthur Mangin. e mesmo para suas alunas Ordinariamente. e preservativos contra a lepra. por segundos. simplesmente. verde por propagação e vermelho por reflexão sentiu vontade de ter nas mãos uma fina folha de ouro para ver se realmente ela tomaria a cor verde. ó Rei dos Metais. ali no jardim do pensionato de verde relvado e árvores com ramagens verdes-cinza. A simples imersão do metal vermelho em brasa nas tisanas era o suficiente para transformá-las em fortificante peitoral. O ouro não é A RIQUEZA. o ouro é um metal opaco e amarelo porém não pôde deixar de se admirar quando leu o que muita gente não sabe é que reduzido a lâminas extremamente delgadas o ouro torna-se transparente. Bélgica. Pacientemente. passou por cima de informações bastante óbvias para ela. irmã Eglantine reencontrou conceitos que não só conhecia. objeto de culto servil de uns e do desprezo suspeito de outros.Em setembro de 1879. o mais pesado e o mais imutável entre todos os metais. Com o ouro fabricavam amuletos para fazer voltar a alegria aos melancólicos. Para restaurar os doentes esgotados. que consistia em cozinhar uma moeda de 1 ducado de ouro juntamente com uma galinha velha. químico renomado. recebeu o livro Pierre et Metaux. Ou. polvilhavam os alimentos dos enfermos com pó de ouro pequenas liberdades consentidas que irmã 229 . o metal o mais brilhante. irmã Eglantine. como já transmitira às suas alunas durante o transcorrer de longos anos de educadora Saudações. de medir e de simbolizar o VALOR irmã Eglantine bem compreendeu que o autor aqui se refe- ria somente ao valor econômico e não aos valores morais. mas. eles prescreviam o famoso Bouillon d 'Or. do Pensionnat des Religieuses du Sacré-Coeur de jésus. o ouro ou o SOL possuíam propriedades sobrenaturais. E não se pode transferir a qualquer outro metal o honorável papel de representar. que sempre sejactaram de possuir o poder de criá-lo em seus laboratórios e com ele obter uma panacéia universal o assunto interessava sobremaneira à irmã Eglanti- ne. Ouro. incontestavelmente. observar o esmaecido sol da tarde para sentir a transparência do metal e vê-lo enrubescer como um rubi e não é nada estranho que um metal tão precioso como o ouro tenha sido objeto de experiências as mais perseverantes por parte dos alquimistas. No livro. através dela. naquele início de outono. ou um galo velho. é UMA RIQUEZA.

230 . Para eles o mercúrio era a Água Divina. jovem noviça para todo o serviço no pensionato: preparar-se espiritualmente para o matrimônio com Jesus Cristo. quase uma substância sobrenatural. Fraldas confeccionadas com esgarcidos lençóis sem uso completam a esmola piedosa. de Bile do Dragão e Leite de Uma Vaca Negra bem doce. que viveu no século XVIII. limpar polir. Os metais a que melhor adere são o chumbo. Un. costurar cerzir. Esta singular propriedade. às vezes. Nesta hora de silêncio no pensionato. Todos os metais nadam sobre o mercúrio. O cesto quem leva é Anne Marie. toma chocolate com leite na cozinha deserta. trois. deux. Quanto ao ferro. A irmã despenseira lhe deixou a chocolateira esquentando sobre a adormecida chapa brilhante do grande fogão a lenha. que tomba ao fundo". sempre impressionou vivamente a imaginação das pessoas e fez considerar o mercúrio como um metal privilegiado. somada à sua alvura e ao seu brilho cintilante. Longa é a caminhada e irmã Eglantine aperta o passo. Somente mais tarde fará as orações da noite O químico árabe Gerber (Yabar-Al-Koufi). bizarramente. Ele se amalgama igualmente com a prata e. Sobretudo na Idade Média. mesmo passada a hora de se recolher. esfregar arear. o princípio e a essência de todos os metais. com o cobre. a este adere somente por um artifício que é o grande segredo da Arte. mãos fora das cobertas. pois que somente se solidifica a quarenta graus negativos. depois de tantos anos servindo a Deus no Pensionnat des Religeuses du Sacré-Coeur deJésus: antes de dormir. escreveu em seu Soma da Perfeição do Magistério: "O mercúrio se encontra nas entranhas da terra. irmã Eglantine reina solitária na cozinha. o estanho e o ouro. cozinhar servir.Eglantine se acha no direito de tomar. nas teorias místicas dos alquimistas. quando se vê o mercúrio tomar uma singular importância e desempenhar um papel extraordinário. Faz frio. Essas descrições são exatas e a química moderna nada mais fez do que complementá-Ias. a escuma de todas as formas. muito dificilmente. irmã Eglantine prossegue a cativante leitura. A pouca mobília torna a cela ainda mais fria.todos produtos do pensionato. varrer lavar. quatre et pourquoi pas cinq tablettes de sucre? Bem adoçado. o chocolate ao leite esquenta e relaxa o corpo. lavar passar. exceto o ouro. A vela alumia o livro O mercúrio é o único metal que existe naturalmente em forma líquida e conserva esse estado mesmo a baixas temperaturas. No cesto o patê. Não adere às superfícies. o pão e os biscoitos . sobre as quais flui livremente. o queijo de leite de cabra. o chocolate ao leite torna-se mais saboroso e aquece muito mais o corpo. Eles o chamavam também. É necessário enrolar o xale negro nas mãos brancas que seguram o livro.

Talvez ela tenha ido dar à luz em outro lugar que não aquele.plantar colher. Talvez. sozinha? Talvez. prestes a dar à luz. numa cabana em partes afastadas das terras do barão de Montpellier. O cesto com oferendas servirá para mitigar a miséria do casal Philipot. vigiar e repreender as alunas e. A porta está aberta mas as janelas permanecem fechadas com tábuas. Como para encobrir aquela visão. como para melhor se posicionar e ver Anne Marie. punho e metade da metade do braço. reinado dos javalis. domina-a. E não são dadas maiores explicações. à beira da floresta. Philipot agiliza os movimentos. A dor rasgante da facada só é sentida por um segundo. O mercúrio não parece existir em grande abundância na natureza os Philipot vivem isolados. Nu da cintura para cima. acompanhar irmã Eglantine em seus pequenos passeios e visitas de caridade. asas a se agitarem na cabeça. Agarra a freira pelo hábito. Nua. mão. Germaine Garnier casou-se com o jovem Paul Philipot. Irmã Eglantine pega o cesto com Anne Marie e entram as duas na cabana escura. afinal? Lentamente. Talvez tenha sido levada. Imoral! Imoral! Como se apenas esperasse ouvir essas palavras para agir. Talvez o bebê já tenha nascido. às vezes. até então oculta pelo negror da cabana e por irmã Eglantine. Mas o senhor não se interessa? Não se interessa em conhecer seu filho? E sua mulher. irmã Eglantine grita. Formigamento. Arranca rasga suas vestes de religiosa. Philipot sai de trás da mesa e vem à frente. somente com a coifa. se bem que tenha um leve reflexo azulado. grita sem que nenhum som escape de sua garganta. desamparada pelos parentes. justifica a longa caminhada para a visita de caridade. Não está a futura mamãe em casa? Não. de pé estático. quase como um favor. o homem Philipot. camponês que não tem onde cair morto nós já o dissemos. onde está ela. o mercúrio é dotado de um brilho cintilante e se parece bastante com a prata. Contra a vontade dos pais. puxa-a violentamente contra seu corpo. ouvir e rezar. Monsieur?! Trapos sujos cobrem-lhe o sexo. Ajovem esposa Philipot. A mesa alta impede a visão do resto de seu corpo. desprotegida pelo marido sem trabalho. quase um apêndice da floresta ao lado. Sem largá-Ia. Philipot estende a mão livre e toma uma faca de cima da mesa. substituída em seguida por um amortecimento suave. Como. Não a faca: o que irmã Eglantine sente agora é a mão punho de Philipot revolvendo suas en231 . A cabana dos Philipot assenta-se em meio a árvores limpas. dos lobos e das serpentes. estátua de sombras. O golpe dado no ventre é tão forte que penetram faca. irmã Eglantine posta-se na frente de Anne Marie.

. outubro de 1879.tranhas. 232 . A cada tentativa dela de se afastar. Outra moeda sobre o bico róseo do seio esquerdo. em Bois L'Évêque. irmã Eglantine está atenta e observa a cena. situado na rua Emiliano Perneta 325. pequena fenda agora selada com ouro. retira mão e punho vivos de um corpo já morto.. limpa com beijos. Saindo do corpo da moça. vou morrer! Quando Philipot retira a mão e o punho. prolongado e rouquenho. Liege. na Feira dos Livros Usados. Branco filete líquido oleoso que não adere às bordas róseas da carne e penetra doce e ágil no interior do pequeno mistério da fenda escura. Por que se preocupar com uma freira morta. outra mais sobre o direito. Desveste o hábito de noviça e. irmã Eglantine sugere à madre superiora a indicação do livro Pierre et Metaux. encadernado e em perfeito estado de conservação. Bélgica. em Curitiba. sai em parte e volta . por mérito próprio. O mercúrio se liberta célere pelos vãos dos dedos. Sente apenas o retorcer gosmoso entrar e sair da mão punho em seu ventre líquido: Aiiiiii. Sai em parte e volta. espera. longos cabelos loiros espalhados sobre a áspera superfície de pedras. com as mãos em concha. Apesar de morta. Onde ele arranjou tantas moedas de ouro? Ainda ajoelhado. Philipot pouco se importa com os olhares da freira. Philipot retira a moeda de ouro que cobre o sexo de Anne Marie e. foi vendido um exemplar de Pierre et Metaux. Morta irmã Eglantine. Posse silenciosa. No mês seguinte. Em outubro de 1989. Do fundo da garganta de irmã Eglantine vem um suspiro silencioso. como prêmio de aplicação para as alunas que. o braço se deixa sair um pouco e já lhe penetra novamente o ventre. deitada no chão. inclinando-se. boca e barba o sangue do sexo impúbere loiro de Anne Marie. Anne Marie prepara-se para o sacrifício. tenham alcançado as melhores notas nas aulas de instrução religiosa dos cursos do Pensionnat des Religieuses du Sacré-Coeur de jésus. Mesmo quando caem e rolam os dois pelo chão de pedra. o corpo nu. Philipot cobre com um ducado de ouro o sexo profanado de Anne Marie. Philipot mantém-se de joelhos e. sebo de propriedade de Irajá Reis. lenta e cuidadosamente despeja mercúrio na pequena fenda oferta. olhos esgazeados? Há mais o que fazer. ela nem sente o peso do corpo nu de Philipot sobre seu corpo nu. Deposita uma moeda sobre o lábio de sorriso curto e uma em cada pálpebra semicerrada da moça.

()s fantasmas do fundo de quintal Um mistério .

Na noite fria há os que dormem protegidos pelo escudo do sono Sonham? Talvez. ocos. Ainda está longe o dia. de onde não se vê a rua. abertos para o vazio do quarto escuro. olhos abertos no escuro fitando o nada. Os cachorros se esquentam enrodilhados em seus sonhos. do remorso. Há os que não. Presas da insônia. as cebolinhas e os rabanetes: Que economia trazem para a casa! Sentado na cama em ângulo reto. das dores reumáticas. de urina solta. Os telhados vão amanhecer branquinhos de geada. No limitado triângulo o Fantasma dos Quintais caminha pela calçadinha cimentada. dos gases intestinais. do medo.Ao longe o cantar abafado dos galos. ninguém vê mas o Fantasma do Quintal está ali. preparando suas maldades. 235 . atento. da falta de ar. homem! Revolto na cama. vítimas fáceis dos demônios do quintal dos fundos. o Velho não luta contra o esquecimento: apenas quer lembrar e não consegue se lembrar do que quer lembrar. Que tristeza! Milagre: o enorme lençol branco sobrevive no varal! Não se pode deixar roupa dependurada que os ladrões roubam tudo. Ninguém pode se livrar do mal. Os olhos sem imagens. da bronquite. Não tem perigo dele pisar no canteiro e amassar os pés de alface. das tosses noturnas. Atravessam as noites acordados.

Inútil insistir. esperando a hora de levantar e fazer café. que largou dele para sempre.o Homem não pode se livrar da memória. As galinhas vêm ciscar na horta alheia. trabalhador. Ele está se acabando. 236 . Não adianta: ela não quer saber mais dele. Pelo vão da cerca a ameixeira derrama seus melhores galhos para o lado do vizinho. Pela tessitura das cercas. Na interminável noite. Não há como se livrar disso. Se soubesse talvez pudesse ajudar. lá do quintal dela a Enxerida espiona tudo. Deve ser coisa de alguma mulher.vocês vão ver . Tanto ela tem feito para que ele passe essa fase ruim em que está e volte a ser o que era antes: um homem alegre. sempre há uma esperança. Ainda bem que não está ventando. Botaram feitiço nele. Eu tenho rezado tanto pelo meu filhinho! O pior é que a Mãe não sabe por que ele está assim. Mas vá falar disso para um homem apaixonado! Não sei. o gato da Velha mija fedido na varandinha da casa nova. É disso que o Fantasma do Quintal se aproveita Ainda está longe o dia e a geadajá começa a cobrir a grama. Mais tarde . a Mãe insone reza pelo filho.ao acordar. sem dormir sonha agitado com a Outra. se con tin ua assim não sei o que será dele. falsa ou verdadeira. terá a imagem dela diante dos olhos para sempre. Cai num sonho nervoso. os quintais do fundo se ligam com os quintais de outras casas.

. 237 . Ela vai ser uma perdida na vida! Na sala o gato preto dorme em cima da televisão.. Pensar que o Homem pensou até em matar: Se ela não é minha não será de ninguém.a valeta vaza suas águas fétidas para o lado de cá.que demônio! já está na cama agarrando a Mocinha por detrás. Ahhhh. sem fazer barulho. o tatu busca sua toca no terreno baldio sem cercas dentro da noite. as noites frias! Debaixo do lençol úmido a Mocinha dorme seu sono solitário. Sem sair do quintal o Fantasma . Com passinhos macios. ao longe passa o ruído de um automóvel tardio. calorzinho tão bom! Suspiro prolongado e um ai. depois escorrega a mão até a gretazinha miúda pulsante. a Mocinha agora dorme tranqüila debaixo do lençol seco. Sua mão gelada de fantasma acaricia o ventre liso dela. Isso durante o dia: dentro da noite é esse o território dos fantasmas dos quintais. Pé ante pé. A Outra dorme aninhada em seu novo namorado. Coitada. na morte será minha! Se a Mãe soubesse que o filho criado com tanto carinho quis tirar a vida de alguém. Na sua brancura o Fantasma entreabre um sorriso de dentes amarelos. matou alguém. a sombra do Fantasma entra no quarto e observa o sonho da Mulher para ver se ela dorme calma sem saber das coisas que o marido aprontou. longe dali. Ninguém nas ruas. vozes indesejadas atravessam as cercas de madeira. protegida. O canalha! A madrugada vai alta. uma criança ainda! Isso não se faz . quentinha. Os ladrões da noite não procuram casas com fantasmas no quintal.

O médico aceitou mas fez uma exigência: tirar eu tiro. mas vocês é que vão ter de enterrar. Com seis meses já está vivo. choro prolongado de um bebê . ao longe se vê a estrada de pouco movimento. o grito apertado. E desperta dentro de um pesadelo. quando precisava pedia para a Mãe. Trouxe o feto embrulhado em plástico transparente. Não sabia rezar. O filho dele. O Homem cobriu de terra. pensou em fazer uma pequena cruz. Dias e dias atrás do dinheiro e de um médico que aceitasse fazer o aborto. dura gelatina.que mortalha pode cobrir um bebê morto? Na noite escura só o Homem escuta o grito só para ele. Olhando a barriguinha da Outra ninguém diria que estava de seis meses. A imagem é outra: o rosto esborrachado do bebê morto. Depois eu limpo direito. Como pôde limpou a mão numa estopa. O fusca parado num terreno pantanoso. nariz. parecia um grande pedaço de fígado. Não! Alguém vai desconfiar. Fez um buraco com a chave da roda e com as mãos sujas de lama preta. orelhas e olhos. O rosto que ele agora tinha nos olhos.Horrível! O grito de alguém morrendo. rins pelas dobras prenunciando membros. um grito dele. textura lisa talhada. Se parecia com a mãe? A Outra se recuperava na clínica clandestina. O Homem não tinha levado nada para cavucar. Na agonia da morte uma criança. dá pontapés na barriga da mãe. Tirar agora é matar uma vida. 238 . Pela cor plúmbea. olhos esbugalhados que não vêem mais a imagem da Outra.

dentes arreganhados. Nos seus olhos a imagem da Outra se mistura com o rosto mongol do bebê. longo. a mulher volta ao sono. outros mundos. 239 . uma eternidade de medo antes de conseguir gritar: Passa. E o amor. para que serviu? Não poder dormir nunca mais. com as lágrimas lava a lama preta das mãos e vai procurar outros quintais. no meio da noite. O Homem não conseguia mais ficar deitado. pêlos eriçados. O rosto afundado no travesseiro. se enxerga parado no meio do quintal. Não sei se foi o medo. como se não existente. Então percebe com horror: O Fantasma do Quintal sou eu! Passa a mão nos olhos. Não de frio.Patinando na lama o fusca voltou para a estrada. o Homem treme de medo. que dorme calma ao seu lado e tem um ligeiro despertar: aonde você vai? Mais uma mentira das muitas: vou no banheiro. Tem agora toda a memória do mundo e o dia não vai nascer. nunca mais. levanta com cuidado para não acordar a mulher. Ninguém vai ouvir seu grito. o Homem não está mais dentro do seu corpo. Sultão! Guapeca vagabundo. se fosse um ladrão não acordava. o cão recua ainda rosnando e depois se cala. Dá três passos e o grande susto: o Cão Negro. nem os cães nos quintais. O Homem abre a porta que dá para o quintal. Do Homem sai um grito silencioso. desassinalado. Não vê que sou eu?! No escuro. Os cães do bairro respondem num enrodilhar de latidos. latindo avança nele. o frio da madrugada arrepia seus pêlos.

abençoarmos a SAUDE DA MU· que me restituiu 00 teu omor!. . mesmo. Levarós Vou Compro um com elJe o Ello .. EJle . .Lembras-te. voando palavras! phormocial é pri- ElIa • Para lHER. ~. ()mlsterlo Sônia teu. querido? Foz hoje um onno que brigá mos pelo ultimo vez .Mósinhal Para que recordar? felicidade Elle _ Santas meira de regresso ao teu lar... COISAS DA VIDA . • • (EPISODIO N. A SAUDE DA MULHER O GRANDE REMEDIO DAS DOENÇAS DE SENHORAS .' 2) o amigo· A SAUDE DA MULHER fará o mi· logre· é o grande remedio pora 0$ incommodo$ vidro hoje dos senhoras.

vindo do Sul. mais adiante. lançado há dois anos pela fábrica. seguramente. Traz. apesar de grande. no centro. O único sinal da viagem que acaba de fazer é a camada de pó pegajosa e leve que aderiu principalmente nas partes laterais e nos pára-lamas. para controlar as frieiras que muito o afligem nesta época do ano. Um exame mais do que superficial mostra que o carro. As regras apareceram por volta das oito. obrigam que o Homem de Olhos Azuis conduza o carro em baixa velocidade. Seguindo a entrada sul em linha reta. O que procura o Homem de Olhos Azuis àquela hora naquela ci243 . ainda se encontra em bom estado. oito e meia da noite anterior. entre duas e quatro horas da madrugada. tem entre os vãos dos dedos do pé chumaços de algodão embebidos em Vodol. o sono dos habitantes da cidade. portanto.o ESTADO GERAL DO CARRO Bom. Como o carro é de modelo recente seu motor é silencioso. improvisou uma toalha higiênica com um grande guardanapo branco de boa qualidade. porque no sono ela mantém as pálpebras cerradas. não perturbando. E as ruas de traçado antigo. mais para pequeno. entrando novamente pela avenida xv de Novembro. Mais certo dizer que perto das três e meia. É uma cidade de tamanho médio. O marido. Por essa hora o carro entrou na cidade. mas a Mulher tem uma mancha preta no branco do olho esquerdo. um certo it aos olhos esverdeados dela. como se diz. A SAÚDE DA MULHER Seriam. Longe de ser um defeito desagradável ao olhar. chega-se à praça da Matriz. No momento não podemos ver. Nenhum amassado na carroceria. o que atesta ter ele rodado em estradas de terra. a pintura vermelha não está descascada. estreitas e curtas. calçamento apenas no centro e em algumas avenidas periféricas. dá um certo atrativo à beleza da Mulher. e como a Mulher não tivesse modess em casa e se avexasse de mandar alguém buscar na farmácia do seu Benedito. dobrando à esquerda no largo do colégio das irmãs e. esse sinal de nascença. a lataria sem pontos de ferrugem e os pneus são novos. o que diminui ainda mais o barulho do motor. que também dorme.

A SAÚDE DA MULHER determina ligeiro abalo no organismo. logo que desceram as regras. pois já apagou a pequena lâmpada que alumiava sua pequena placa e fechou a porta de entrada. dependendo do dia fecha às nove. Por suas propriedades terapêuticas acentuadas. DA MULHER contém substâncias de ação sedativa e antiespasmódica nas cólicas menstruais. Não deve haver preocupação com isso porque está agindo beneficamente. mas geralmente funciona só até as oito. Não tem contra-indicações e não prejudica a amamentação. no máximo. o Central. quase todas pinta244 . A SAÚDE São ruas curtas que desembocam em outras ruas curtas e trazem a indagação: para que lado seguir agora? As casas. a Mulher tem sempre em casa um vidro de A Saúde da Mulher. às vezes. Ontem à noite. dissolvido num copo de água açucarada. Prossiga com o tratamento. Precavida. Até a delegacia de polícia mantém a porta fechada e as luzes apagadas. diminua a dose. O que fecha mais tarde. E não será fácil achar o único hotel da cidade.dade? Seja o que for. dificilmente encontrará. remédio antigo mas de comprovada eficácia. nove e meia da noite. a farmácia. Ninguém pelas ruas para dar qualquer informação. Foi comprado na farmácia do seu Benedito e guardado no armarinho de medicamentos até a chegada da menstruação. ou. E nenhum estabelecimento comercial funciona até essa hora. Passou disso é preciso tocar a campainha para chamar o farmacêutico. ela tomou uma colher das de sopa do remédio.

teria dificuldade para identificar o nome que ela diz. a Mulher pronuncia o nome de alguém. Em seu sono agitado. depois de algum tempo param de latir e vão recomeçar mais tarde. Uma leve neblina envolve a cidade. não irá encontrar nesta hora em que todos dormem.das de amarelo. foram construídas quase na mesma época. Ou talvez tenha. Seja o que for. de repente. o Homem de Olhos Azuis pararia o carro e pediria informação. Fosse daqui a uma hora. não pela calçada. nos tempos em que a cidade florescia. entre casas amarelas que se assemelham iguais. um cachorro late aqui. Mesmo se o Marido. a concentração e a excitação espantaram seu sono. Ela passa por suores frios e ondas de calor que. mas apressado pelo meio da rua como todos os que caminham pela madrugada. as luzes dos faróis do carro vermelho atravessam por entre as frinchas das venezianas fechadas e relampejam no escuro do quarto abafado. A obscuridade vista pelos faróis do carro dá ao Homem de Olhos Azuis a impressão de estar sempre andando em círculos pelas mesmas ruas. seja o que estiver sonhando. É claro que não se pode adivinhar que tipos de pesadelo o mal-estar traz a ela nesta madrugada nem quente nem fria. É agitado o sono da Mulher. então. Às vezes. se não chegam a acordá-Ia. e talvez pudesse localizar aquilo que veio procurar nesta cidade que não conhece. Tem o carro gasolina suficiente para continuar rodando pela cidade adormecida? Não poderá acontecer que. pare por falta de combustível e tenha de esperar até as sete horas. outros respondem lá longe. ao lado dela na cama. fazem-na gemer e revirar-se incessantemente na cama. Quase inaudível. A iluminação pública é bastante ruim. 245 . seja o que for que o Homem de Olhos Azuis esperava encontrar na madrugada desta cidade. talvez já se visse algum passante andando. Se encontrasse alguém. não terá sido achado. como são as falas do sono. sonho bom ou sonho mau. as portas do quarto fechadas na velha casa abafada. Alguém que um compromisso ou um trabalho urgente tirou da cama mais cedo. mas por se manter atento em achar o caminho por ruas calçadas de paralelepípedos que parecem sempre as mesmas. sem encontrar saída. não estivesse dormindo roncando. quando abre o único posto da cidade? E. O Homem de Olhos Azuis no carro vermelho não tem sono.

Mesmo durante o sono. Acelerou o carro vermelho. longos e pretos pêlos púbicos da Mulher. Tudo o que eu disser será verdade para você. E que o Marido. encontrou a saída da cidade. que dormia roncando ao lado dela. Por isso. voltando do sono. Por exemplo: eu posso escrever que o Homem de Olhos Azuis cansou de procurar e. descobre com pavor que a Mulher ainda guardava no coração o nome de outro homem. o OBSERVADOR o PRIVILEGIADO que aconteceu depois? Em relação a você. a Mulher despertou do seu agitado sono gritando o nome do Homem de Olhos Azuis. Porém. sujando o pano branco e marcando de vermelho os sedosos. pois participei do início dos acontecimentos daquela madrugada. do que tinha vindo procurar naquela cidadezinha pela madrugada. a Mulher e o Marido. eu sou um observador privilegiado. seja lá o que for. desistindo. mesmo que seja inventado. finalmente. no momento em que ele partia. seguiu os treze quilômetros pela estrada de terra até alcançar a rodovia asfaltada e pegou o caminho de casa. Posso dizer também que. é melhor que eu me cale e deixe somente com você a tarefa de deduzir o que aconteceu depois com o Homem de Olhos Azuis. e tudo o que eu escrever aqui. 246 . você tomará como o acontecido. Que seus gritos acordaram o Marido. tenho eu o direito de indicar finais possíveis para os acontecimentos reais que comecei a contar? Por acaso sou um deus com o poder de determinar o destino das pessoas? A resposta é não. o sangue menstrual continuará sendo expelido em grandes fluxos.

() mistério da Sonâmbula .

Pela noite. no bar onde fazem ponto. chegou defronte à grande porta envidraçada. e mesmo depois de se levantar. no escuro. que. podemos deduzir que se levantou porque não conseguia dormir e. eu diria. no fundo do corredor. na enfermaria do hospital. vai até a porta envidraçada que liga o interior da casa com o varandão do jardim da frente. pois me parece difícil denominar os atos de uma pessoa em estado de sonambulismo. a Sonâmbula caminha sem se chocar com os móveis da sala. encher o copo e. após nova 249 . as dependências da criadagem masculina estão vazias. se ficou em frente à grande porta envidraçada. não está. no meio da noite. a mesinha de centro e o pequeno móvel com assento que abriga o telefone. caminhou pelo corredor até a sala. não se pode dizer se ela caminha de olhos fechados ou abertos ou de que maneira ela evita. silenciosa. limite entre a sala e o varandão. apanhar o vidrinho de comprimidos para dormir. supõe-se. o sofá e as três poltronas de veludo vermelho. para combater a insônia. E podemos mesmo afirmar que. ligeiramente alcoolizado. Se. o embate com os móveis: a mesa ovalada com seis cadeiras. conforme o combinado. a cristaleira antiga que veio da fazenda. viaja em férias escolares. espera no centro da cidade que seu comparsa venha buscá-Io. no armarinho de metal. a mesma que se queixa de nunca conseguir dormir à noite. O Ladrão ainda não invadiu a casa. a cadeira de balanço com armação de palhinha. deveria também vigiar a propriedade durante a noite. E o velho jardineiro dorme sob o efeito de sedativos. sem acender as luzes para não perturbar o sono das outras pessoas da casa. caminhando. Na parte de baixo. No jardim dos fundos. eu não diria indecisa. A irmã tem seu quarto longe da sala. A Sonâmbula. longe dali. em movimentos lentos flutuantes. seguir até a copa. a empregada dorme em seu quartinho e continuará dormindo mesmo depois do despertador tocar as seis horas.Nada de gestos arrebatados. lavar o rosto e se vestir. Como ninguém da casa ainda a percebeu em seu sonho de sonâmbula. O motorista. duros. O irmão mais moço não se encontra na casa. Fica ali por alguns instantes. Seu caminhar. A velha mãe. ressona em seu quarto de portas fechadas a sete chaves. foi por indecisão entre sair para tomar a fresca da noite ou voltar pelo corredor escuro e. O marido dorme no quarto do casal um sono pesado. alguém se levanta e. A cozinheira aproveitou o dia de folga e dorme na casa da filha casada. é mais um deslizar suave. só então acender as luzes.

Teus patrões dormem cedo. Na manhã seguinte. que idéia! . chega até a borda da piscina e mija na água. portanto. pegar não dois mas três comprimidos e tomá-Ios com água. desvendou a disposição dos quartos. Debruçada na cama. A coisa ficou por isso mesmo.Ficou louco.Acordei hoje e encontrei a cozinha toda bagunçada. enquanto servia o café a cozinheira interrogou: . nem Rejane nem ninguém ficou sabendo que havia uma pessoa sonâmbula na casa. Muitas vezes na vida tivemos insônia e. o marido revira-se na cama. O marido intervém: . abre a porta do quartinho e. o motorista sai de cima da nova empregada. a Sonâmbula fritou ovos na cozinha durante a noite. Ficou com a parte mais fácil. .---------indecisão. espiou a casa durante vários dias. começa a se pintar no escuro. Rê? Comendo escondida de noite? Por isso essa barriguinha? A Sonâmbula pensou logo na sua velha mãe. seu sem-vergonho?! Não foi desta vez. Antes. com 250 . Era isso o combinado: o Ladrão pulou sozinho o muro da casa. contrapondo-se ao espelho. nu. é?! Então você já veio aqui antes. A três quadras dali. retorna pela sala entrando no corredor. Há algum tempo atrás. abre a porta de seu quarto. cheia de manias.O que é isso. Nunca me viram. a nova empregada tudo vê e reclama quando ele volta: . foi a senhora que fritou dois ovos ontem de noite? . alguém pode te ver! . não sei se de olhos fechados ou abertos. senta-se e. Alguém andou fritando ovo e deixou tudo sujo. Cacilda. Pensou e calou-se. indicou o que deveriam apanhar e ainda trouxe o carro roubado.Nunca te viram.Dona Rejane. seu companheiro ficou no carro vigiando. na casa de tijolos aparentes.Eu não. Incomodado por alguma coisa em seu sono. prerrogativa de quem levantou o serviço. retira da gaveta da penteadeira o estojo de maquiagem. Porém o que sabemos nós das motivações de uma pessoa sonâmbula? A Sonâmbula toma uma decisão: vira-se. podemos reconstituir facilmente os pensamentos e ações de quem não consegue dormir de noite. A Sonâmbula agora penteia os longos cabelos negros. pronto a dar sinal caso notasse alguma coisa estranha.

A cozinheira deitada ao lado da filha e do netinho na única cama genro já saiu faz tempo da meia-água não consegue pegar no sono. meu pai! Meu querido paizinho! Vira de lado e continua a dormir. Para que a filha não seja tão luxenta. Ladrão experimenta a grande porta envidraçada. Ele vai morrer. preto mas bom homem. Para que o netinho sare logo daquelas grosseiras que tem no rosto. sabe que o melhor será subir pelo varandão e arrombar a grande porta envidraçada. atrás da orelha e nos seios livres soltos cobertos pela camisola transparente. e com a faca começa a forçá-Ia. É apenas um menino. muito decotada. ágil.a tampinha do frasco passou perfume nos sovacos. quando foi abrir a porta no escuro para ir na privada. meteu a mão numa aranhona caranguejeira que estava na maçaneta. Está cada vez pior. olha e pensa no velho jardineiro deitado na cama ao lado. homem trabalhador mas sem sorte. A velha mãe acorda agoniada e suspira: Ai. não entra. parece que nem consegue mais respirar. A cozinheira incomoda-se com aranhas. Esta noite. De acordo com as instruções do companheiro. saiu bem alimentado com as comidas trazidas pela sogra da casa dos patrões. Pensa na última vez que veio pousar na casa da filha.Vamos embora. . no jardim. a sangue pegajoso escorre pelas suas pernas abertas. A cozinheira reza para que o genro arrume um emprego melhor. já sabe que não tem alarme na casa. desta vez. e tem a coragem de dois cigarrinhos fumados há pouco. balançando as pernas que não alcançam o chão seboso. a Ladrão é moço. no gramado. quando vê do lado de dentro no escuro um vulto branco quase como a estátua dojardim. coisa fina. no meio das árvores. o ar só sai. Tenta rezar para ver se dorme. Susto tão grande que precisou tomar água com açúcar para se acalmar.Deu pra pegar alguma coisa? a a a a 251 . tadinho. de dia. companheiro se assusta com o Ladrão pulando o muro de volta: . será? Ladrão não se assusta com a estátua. Tem o quê? Doze anos? Sentado na cama da enfermaria. quase gente. respiração gorgolejante.Que que é isso? Que sangue é esse? . para seu serviço de vigilante noturno. não implique tanto com o marido. por isso não consegue dormir.

. Ela me olhando quieta e aí levanta a camisola. uma morenaça de camisola transparente. No sonho. aí a porta abre e me aparece uma puta duma mulher. quentura esponjosa que vai pegando forma. entrando e saindo sem nunca se largar de dentro.. .Abre essa porra de carro de uma vez! . Água oleosa. Em seu sonho. Te pegaram? -Nada. apagar ela.. quente.Você não vai acreditar. Sabe como anda a minha barra com os home.Você matou alguém? Deixou a faca lá? _ Não dá para acreditar. . mesmo no escuro deu para perceber que estava sem calcinha. . Eu ia pular em cima. Tô lá na porta que você falou. Com ela ali o roubo já estava perdido mesmo. olha a tua roupa. viva. se oferecendo.Deu crepe. Me dá um cigarro. vambora! _ Tá cheio de sangue na cara. a Sonâmbula se vê deitada na banheira e sente a água morna.. quente. Me assustei. Juntei ela ali de pé mesmo. _ Não quero ter nada a ver com essa história.Senta no jornal senão suja tudo. um grito que veio assim como lá de dentro: Aaaaiiii .Não me põe em fria. penetrando seu corpo adentro. .Me dá um cigarro. . Matou alguém? . a Sonâmbula geme alto: Aaaaiiii . carnosa.E o sangue? Onde você arranjou essa sangueira toda? 252 .. pulei fora e corri. Mas aí na hora do gozo ela me dá o maior grito. tomando conta de tudo.

Mistério do menino morto .

Em poucas horas estava morto. Fui muito feliz nessa foto... meio judiada mas ainda inteira. Eu não sabia o que dizer. E não é só quem morre afogado. loiro de olhinhos vivos bem azuis.. de cores brilhantes: em primeiro plano. Disse isso como quem diz ele está bem. tudo é lembrado.Obrigada . Quando vi aquele menino. ela queria uma foto: . deu assim de repente. da hora da saída do ventre materno ao indesejado instante final.. dizem que nos segundos que antecedem a morte o mundo todo vê sua vida passar. Foi de meningite.Deve ter ficado bem bonita. Ele morreu. usava métodos próprios muito eficientes.. Era uma mulher bonita. Passou nem um mês e a mãe dele vem me procurar . A mulher ficou esperando que eu dissesse alguma coisa. cercado pelos gansos brancos de longos pescoços. Deu uma bela foto. imagens sempre revividas como o lento entreabrir dos ofegantes lábios úmidos da mulher amada ao dizer eu te amo. 255 . achei o que eu estava precisando: o instantâneo de uma criança dando de comer aos gansos. Não temos nenhuma fotografia dele . . por isso mesmo queremos a foto..o pai eu não cheguei a ver quando estive no sítio fotografando -.. nunca pensamos em mandar tirar. . rapidamente como num filme. bonito.. nunca sei nessas horas.Mas como? Ele . o menino sorrindo mas meio assustado. Eu disse: .Foi três dias depois que o senhor esteve lá fotografando. bem nítida. logo depois do primeiro beijo.Ele tinha só cinco aninhos. Coisas tão desimportantes quanto o sonolento vôo de uma mosca na sala de aula. Eram gansos. O loirinho carregando braçadas de grandes folhas de couve e a gansaria toda correndo atrás e grasnando. Sem explicação. toda a sua vida.Meus pêsames. Quem sabe o que pensa uma mãe? . Eu continuava sem saber o que falar. quase maiores do que ele. Ela não: .Quando alguém está se afogando vê passar. imagens de toda uma vida no instante mesmo da morte: não se esquece jamais e não importa mais. imagens já nem pensadas mais ou nunca registradas pela memória. o avô dele tinha uma criação bem-sucedida.. Fotografei o menino quando ele ainda estava vivo.

No que ele estava pensando quando morreu? Será que é igual a gente grande? Será que também repassou a vida dele . reflexos dourados do sol. naquela manhã de verão.vidinha curta . a bolinha azul brilhando lá longe. Já iam carregando com ele para o cemitério. Olha como ficou bonita: 816 357 492 Antes de mandar entregar.Fiz a ampliação e mandei. e Malazartes ordena: "Então toca o enterro!". teve a mesma duração daquela manhã dourada? Quando ele. nem cobrei nada. "Está descascada?". Na hora da morte o menino riu novamente dessa história? Na relembrança. para ele devia ser atrás do pescoço. aí passa um homem vendendo banana. A parte da dor. da emoção indefinÍvel da256 . Lembrou o menino daquela história do Pedra Malazartes que a mãe contou então? Aquela do Malazartes que de preguiça não comia nada e estava morrendo de fome. responde o vendedor.na hora da morte? E será que tudo passou com o mesmo peso de tempo? A dor forte na nuca .palavra que talvez uma criança de cinco anos nem saiba dizer. "Não tá não". da febre alta. aninhado na cama materna. Depois a mãe esticava bem o braço. pergunta o preguiçoso Malazartes lá do caixão. eu ficava olhando a foto: coitado do guri. a mãe rodava nos dedos uma bolinha de vidro azul e encostava nos olhinhos do menino. é claro. a alegria assustada de dar comida aos gansos durou o mesmo tempo da imagem sem contornos. então ele via o mundo através do azul luminoso girante.

sentir a cor do seu corpo colado no meu pela gosma do seu gozo. na hora da minha morte. um espaço infinito no tempo da minha vida: como se fosse sempre assim e assim sempre será. Só saberei de fato quando. mas quero ver uma vez mais o gemido que escapou dos seus lábios entreabertos. como num filme. Não pude evitar. É este o sentido da minha vida. eu dirigindo? Ou na longa dor da desagregação do corpo. comecei a pensar na minha própria morte. E será bom lembrar. perdida e nunca mais achada? Difícil dizer. você já existia? Ou seria amarela e não azul? Não sei.apontava as estrelas. será que experimentarei outras vezes o prazer que tantas vezes sinto no seu corpo? Então o estar morrendo valerá a pena? Agora você está ao meu lado. Nossos corpos colados. contava coisas da lua de São Jorge brilhante lá longe no negro céu azul do sonho? No repassar de sua vida. as imagens da minha vida desfilarem nos meus olhos. como a lenta agonia de meu pai? O câncer roendo pedaços dos lábios dele que iam soltando quando se passava algodão molhado para mitigar sua sede. E você desaparecerá comigo para todo o sempre. o menino ficou sabendo onde é que foi parar a bolinha de borracha vermelha. quando a moça de cabelo preto quem era ela? . Não que eu tenha esquecido cada instante. o prazer que você me dá? Você já existia quando eu nem conhecia você? Quando o menino via o mundo no alumbramento azul da bolinha de vidro nas mãos da mãe.quela noite na varanda ao luar. Como será? Vai acontecer rapidamente num desastre de carro. E que lembranças vou reter na minha hora? Talvez então me venham com clareza momentos passados desapercebidos da primeira vez que tive você nos meus braços. acabamos de fazer amor. Na morte o menino levou a memória junto. Nem água ele agüentava mais tomar. No relembrar. 257 . a podridão em vida. o mesmo corpo. você diz todas as letras do meu nome (como se chamava o menino morto?) e eu sinto a extensão do prazer. ouvir o cheiro doce que se espalha de seu prazer.

() mistério do gato preto e da gata gorda .

já nasce com o destino traçado. Coisas da raça. Não era a palavra que mais saía de sua boca. igual a qualquer outro animal. Mais do que os homens.preto e amarelo. Disfarçados como eles só.mas não dava o braço a torcer. e correm todos na mesma direção. curtos. com grandes olhos bem pretos. as coisas têm de ser do jeito que eles determinam. Os bicos róseos dos seios dela são rodeados de parcos pêlos pretos. Foi a segunda mulher que conheci com pêlos no peito.Eu sou um homem. as pupilas dos gatos se dilatam no escuro. se os pêlos tiverem três cores só podem ser fêmeas. um rabinho como o de um gatinho. não se entregam fácil. gatos não. Da primeira vez que os beijei. Debaixo das grossas sobrancelhas pretas. espalhados. A primeira coisa que chama a atenção nela são os cabelos cortados bem curtinhos. Mais do que as dos homens. Ao contrário do homem. Porém. Ela também era assim.tanto podem ser machos como fêmeas. pêlos macios. uma francesinha. porém tinha pêlos bem pretos espalhados pelo corpo bem branco. gatos não. Gatos com pêlos de uma ou duas cores . Só gatas tem pêlos de três cores. Gatos costumam ser altivos por natureza.fazia bastante frio naquela noite. firme. A noite é território dos gatos. os gatos sabem ver o que se esconde no negror da noite. bem redondos. esparsos. No cangote. escondia o que sentia. Cara branca redonda como a de uma gata. Alguns animais têm pêlos ásperos. mil desculpas. a luz estava apagada e eu pensei que eram do cobertor lanhudo . a Danielle. Vida sem surpresas. lisos. 261 . a outra foi uma namorada que tive quando garotão. o gato. como que para ver no escuro. e eu brincava: "Parece um hominho". Não que ela fosse peluda. como vi em outras mulheres. por exemplo . fininhos.e como queria . seus pêlos são bem macios. que chupei. uma mecha mais comprida descendo um pouquinho pelo pescoço. Não é qualquer pessoa que consegue lidar com gatos. querem agrado mas fingem não querer. dizia mil coisas: ''Você é um louco!". os negros olhos dela são redondos como olhos de gato. queria se entregar a mim . inventava mil pretextos. Antes de vê-Ia nua eu imaginava que teria uma vasta pentelheira de pêlos compridos espalhados em várias direções.

Numa das poucas vezes que falou coisas carinhosas para mim. Eu sentia um grande prazer em morder as coxas dela e vê-Ia renegar o gozo que fingia não sentir. Mulher que não se entrega. sensível. no gozo. eu a chamava de gatona gorda. entregue. quando meu sexo estava dentro dela e quando. dengosos. Ela ficava louca de raiva quando. se oferecendo para agrados. parecia que ela gozava muitas vezes o mesmo gozo. vaidosa que é. Acariciei ao contrário do sentido em que eles corriam. Fingindo vingança. Só tem um jeito da gente dominar um gato: acariciar forte a espinha dele na região entre as omoplatas nas patas dianteiras. mas fingia raiva. era rechonchuda. perto do sexo. Como gata no cio. na cama. ela fingia que não estava gostando. Parecia estar gozando quando eu beijava sua boca. Buço ralo que mesmo assim ela descoloria. A primeira parte do corpo dela que toquei foram os cabelos curtos bem pretos. Não era gorda. Na hora do gozo ela exalava um cheiro tão bom. com os dentes. quando minha língua acariciava seu sexo. eu gostava de passar minha língua no pequeno buço que encimava seus rosados lábios carnudos. e somente quando estão deitados de dorso. eu sei. primeiro roxa depois preta. quando sugava seus seios. E era tão bom! Como acariciar um gato. gato preto. Com os dedos. puxava de volta. ela se vestia sem se lavar. rija debaixo da pele branca como nunca vi igual.Que nada! Era uma pequena moita de poucos pêlos curtos bem macios correndo em direção à sua fenda. Depois de fazer amor. disse que fazia isso para ficar mais tempo com o meu cheiro no corpo. Eu não sou gata. empurrava. ficava a marca dos meus dentes bastante tempo. às vezes tirava sangue. depois amarela. eu mordia as coxas dela no meio das pernas. O desejo me corria pela ponta dos dedos. não sou gorda e não sou tua! E de raiva enfiava fundo as unhas nas minhas costas. empurrava minha cabeça. puxava de volta. disfarçada. irritado mas sem coragem de se libertar. nossas gosmas se colavam. Na hora de beijá-Ia. Minha gatona gorda. Gatos não gostam que a gente revire o pêlo deles. Na coxa macia de pele branca. O único lugar onde você pode acariciar um gato no contrapelo é a barriga. eu revirava seus pentelhos. cheiro de limão e suor quente. pêlos quentes. pela palma da mão. O gato fica sem ação. Eu também mantinha o 262 . e nada de carnes moles. Ela sentia grande prazer com isso. Aquilo doía de gozo. estriados.

minha voz não se fará ouvir e eu nada escutarei. à espera de quem venha fechá-Ios. Antes de você só tive o meu marido e com ele eu nunca senti nada". e ela me amava. com uma orla enegrada. Eu não sabia o que pensar. Meus lábios pendem. 263 . Ela veio com uma faca e enfiou na minha barriga com toda a força que tinha. pode reparar. Um dia. eu ainda sentia o cheiro do prazer da minha gata gorda. Soltei um grito fraco da dor rasgada que senti. na cama. a boca se abre e não se fechará mais. fica desagradável ao tato: mas quem vai querer me tocar? Pelo sangue escorrido. depois de fazer amor. estávamos abraçados. mas também não era de mentir. chegam de mansinho. Não sentirei mais o cheiro da mulher amada e não tenho querer. Mas se deixam ficar e sonham sonhos bem quentinhos.cheiro do gozo dela comigo. Não consigo me mexer. manchas negras cobrem minha pele. nem de falar coisas de amor. A morte toma conta de mim. não nos olham nos olhos. como se ali não estivessem ou não quisessem estar. As marcas do cadáver: meu nariz torna-se mais pontiagudo do que era. ao lado da minha mulher dormindo. Meu coração pára de bater. Minha pele seca e toma a cor cinza. eu nada vejo. Desvencilhou-se dos meus braços e beijou meu sexo. se instalam no nosso colo. A respiração abandona meus pulmões secos. abertos. Levantou-se da cama e eu continuei deitado pensando no que ela tinha dito. ela me apertou forte e disse: "Eu nunca tinha gozado antes. Você foi o primeiro homem que me fez gozar. Meu rosto toma a forma da morte: olhos cavos. Sobre eles se cria como que uma tela viscosa. o calor do meu corpo se esvai para sempre. De dor abro a boca para engolir o ar. perdem o brilho. Com as duas mãos empurrando a faca. nem as mãos eu lavava. mas é um gemido arrastado com gosto de sangue que desce pela minha garganta. Imóvel. quebradiça. não gostam de mostrar dependência. ela não era de fazer confidências. Não sinto mais a dor. se fosse verdade eu amava aquela mulher. O sangue mancha a mim e a ela. vêm como se fossem para outra direção. Gatos são animais estranhos. os pêlos das narinas cobertos de uma poeira esbranquiçada. De noite. Quando se entregam. O sangue não circula mais nas minhas veias. elajoga o peso do corpo sobre mim e a faca penetra mais fundo.

Pensa no nada.Os músculos começam a enrijecer. Meu cérebro não pensa mais. o nada nada ada da a 264 . o que vaI dificultar quando forem vestir meu corpo.

macaco Como tudo comecou • ..() misterioso homem .

atirava-o são e salvo num galhão grosso do ipê. sombreada pelas copas de muitas árvores tapadoras. tanta a sede de nós dois. faziam a travessia de uma peroba para um ipê vizinho.Eu ia sozinho cantando: Ta-tu Peba Tatu Pe-reba Ta-tu bola Tatu en-rola ~ i Eu ia sozinho mais o cão. também eu suava. Mais de uma vez tive de atorar cipó com o facão para beber a água de dentro dele e dar para o cão. sabor azedo. Bicho danado de engenhoso. Segurava uma 28 de chumbo e nas costas uma Winchester 22. Coisa até interessante de se ver. até o ipê. prestimoso que era. que não usava barba naquele tempo. também pendurado o bornal com os cartuchos dos dois calibres. iam caminhando pelo galho pelado da peroba bem até a pontinha. me cobriam a cara sugando meu suor pegajoso. balangando-o. Meu rosto preto daquelas abelhinhas miúdas. mas em mim. mas como eu não tinha comido nada até aquela hora. um deles apanhava o companheiro no ar e. Era um bando de macacos que. a garrafa com café adoçado e pão de milho para mim e o Divino. De vez em quando puxava o facão da bainha presa na cinta para abrir caminho na mata densa. quando ouço uns guinchos ardidos. Ao cão não incomodavam por causa do pêlo. acho muito seca. braços levantados. o macaco. Já ia por volta das desoras e eu ainda não tinha caçado nada. a língua do Divino sempre de fora. que refrigério! Me sento num toco e vou tirando a garrafa do bornal. máscara preta cobrindo minha cara e fazendo aumentar o calor sentido. Não adiantava espantar as bichinhas. Mata escura. ou se o outro não o agarrasse em tempo. pretas que nem mosca. 267 . Calorão da mata. Depois de muito andar chego numa clareira. nisso até se parece com gente. Não sou chegado a carne de macaco. lá no alto. musculosa. de donde seguiam caminho. também não arredavam dali. Pendurado pelo rabo num galho mais alto do ipê. tirando dele alimento para fazer seu mel azedo. camisa molhada grudada no corpo. fechada. ele caía e ia se esborrachar no chão lá embaixo. bom veadeiro. Se um errasse o salto. de raro deixando entrever uma nesga de céu muito azul sem nuvens. mas também de muita serventia para outras caças. e dali um de cada vez dava um salto. se não picavam.

catei a Winchester e me levanteijá apontando para o alto. Divino nem reparou na cena, entretido que estava com o seu descanso. Cachorro é bicho mais preocupado com as coisas da terra, o que se passa lá em cima não lhe interessa, senão já estaria latindo feito um condenado. Já o macaco, lá no alto, sempre se preocupa com aquilo que se passa no chão. Quando apontei a arma quase todos já tinham passado, sobrava só um retardatário no galho da peroba. Aquele outro que estava pendurado pelo rabo no ipê, quando me viu, num átimo pulou para o meio das folhagens e sumiu da minha vista. Mirei então o retardatário, sem o companheiro que fugira não tinha como pular para o ipê. No comprido galho onde estava não tinha ramagem para se esconder, e o tempo era pouco para ele correr até um lugar mais coberto: eu atirava antes. O que fez ele quando se viu perdido? Se meteu a gritar e pular de desespero. Não morreu ali na hora porque não atirei logo, me distraí, rindo que estava de suas macaquices. Quando o bicho se tocou de que eu ia mesmo atirar, pegou das costas um macaquinho bem pequeninho e o levantou nos braços para me mostrar. Vi logo que era uma fêmea com sua cria recém-nascida. Gritou, se ajoelhou e se pôs a chorar - macaco é quase como gente -, uma mãe me pedindo para eu não matar seu filho. A gente faz muita maldade na vida, e na hora não percebe. Eu, ali, fiz uma que fui pagar bem caro depois, caro demais. Mas na ocasião não pensei em nada, e dei com o dedo no gatilho da Winchester, Bang. O que voou de pássaro com o barulho! Tiro certeiro: a macaca despencou lá de cima - queda demorada de tão alta - e veio se estatelar no chão da clareira. Só então o Divino se deu conta e correu latindo para a caça estendida, morta. Corri junto, queria ver. Cheguei antes, e foi bom porque salvei a presa que o cão ia comer. Coisas de mãe que só Deus explica: não é que mesmo morta a macaca deu um jeito de proteger a cria?! Ela caiu segurando o filho e, quando bateram no chão, o corpo dela amorteceu a queda. Morreu bem mortinha, mas salvou o filho. Quando percebi que o cão, nervoso, rosnando, ia abocanhar o filhote, dei um pontapé no focinho, Passa, Divino!, e protegi o bichinho com as minhas mãos. O cão perdeu o filho mas ganhou a mãe, e aí abriu a bocarra e, numa sentada, devorou o cadáver morto da macaca, só deixou pele peluda e osso grande, o resto mandou para as tripas e ainda ficou lambendo o sangue do chão.
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tremia e chorava nas minhas mãos. Magrinho e miudinho, pensei, mas vai me servir de janta. Coloquei o bichinho dentro do bornal e com o calorzinho ele parou de tremer, aos poucos se acalmou, acho que até dormiu quieto, esquecido da morte da mãe. E eu peguei o caminho de casa. Na volta perdi o Divino. Caminhou uns tempos ao meu lado, normal, depois parou e devolveu tudo o que tinha comido, vômito verde, fedido. Aí passou a caminhar inquieto, parando a toda hora para se mijar, sem levantar a pata, que nem uma cadela. Todo nervoso, começou a latir e a correr em roda tentando morder o próprio rabo. De repente, deu uma guinada e disparou ganindo, e sumiu no mato. Chamei, chamei, mas ele não voltou; ainda pensei em correr atrás dele, mas a mata era muito fechada e desisti. Nessa hora o macaquinho pôs a cabecinha para fora do bornal e espiou, olhinhos bem abertos, a mim me pareceu que ele até estava dando risada. Percebi então que a queda não o tinha afetado. Chegado ao rancho, contei a caçada pra minha mulher e mostrei o macaquinho. Seu malvado, ela me repreendeu. Isso não é coisa de cristão fazer. Achou bonito o bichinho: Tadinho, deve estar com fome, o pequeno órfão!. E se tomou de dores pelo macaquinho. Foi tirar leite da cabra, e de um vidrinho com um chumaço de pano no gargalo aprontou uma mamadeira. O danadinho se achou! Era até bonito de ver aquele toquinho feioso, agarrado aos peitões da minha mulher, tomando seu leitinho adoçado com rapadura, chupando a mamadeira. E como mamava, o desgraçadinho! Não havia leite que chegasse. Não fosse, um dia depois, o cabritinho ter morrido de picada de cobra, não sei se a cabra ia ter leite suficiente para o sustento dos dois. Mamava tanto que dali a uns dias já estava forte e grandinho. Não sei se foi pelo leite de cabra, mais forte do que o leite da macaca sua mãe, ou se foi pelo fortume do açúcar de rapadura, só sei que lhe caiu quase todo o pêlo, deixando à vista sua pele enrugadinha, parda, mosqueada. E daí ficou ainda mais parecido com gente humana. Minha mulher andava com ele para cima e para baixo, se tomou de amores pelo bichinho. Não largava dele nem para cozinhar, enquanto segurava o danadinho com uma das mãos, mexia nas panelas com a outra. Para cuidar da criação e trabalhar na roça, levava o macaquinho atado nas costas. Ele bem que gostava, ficava o tempo todo agarrado à minha mulher, como se ela fosse a mãe dele, a falecida. Dormia na nossa cama, os dois abraçados como mãe e filho.
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o macaquinho

Tinha um pintão enorme, cabeça de prego, e para esconder essa vergonha minha mulher até fez umas fraldas, que trocava sempre que molhadas. Era muito dengue para uma criaturinha da mata, mas eu não ligava. Nossa filha já andava com doze anos, viçosa, bonita, carregava as tristezas próprias da idade, vivia ensimesmada, já não era companhia para a mãe. Nosso filho, Pedro, naquele tempo andava buscando ganhar a vida na cidade e quase nunca vinha nos visitar. Mulher é bicho diferente, tem suas coisas, suas manias, e desde que não incomode os outros o melhor é deixar. O carinho dela pelo macaquinho não perturbava ninguém, nem a mim nem à nossa filha. Se isso trazia alegria para ela, se diminuía sua solitude naquele rancho perdido no meio do mato, por que se incomodar, se existem tantas outras coisas para a gente se preocupar nesta vida que Deus nos deu?
Não é mesmo?

Assim foi indo até aquela noite da tempestade. Foi logo depois da janta,já muito escuro começou um vento forte, assobiador, e despencou uma chuvarada forte como nunca se viu antes, um verdadeiro dilúvio. Um frio úmido começou tão de repente que tive que me enrolar no cobertor. Era um relâmpago atrás do outro. A mulher queimou as palmas bentas e rezava assustada para Santa Bárbara. A menina tinha pavor de raio, se abraçou a mim fechando os olhos contra o meu peito, e assim ficou. Só o macaquinho parecia não se incomodar com o temporal, dormia o sono dos justos bem grudadinho na minha mulher. Foi a noite do cão. O medo não deixava ninguém dormir, nem sei como as águas não levaram embora o meu rancho, as horas foram passando e nada da chuva querer diminuir. Até que se deu o acontecido: na madrugada, nós três ainda acordados, assustados, molhados até os ossos pela chuva que caía pelos buracos do teto, e não é que de repente o macaquinho acorda, abre os olhinhos, se levanta, caminhando vai até o fogão, risca um fósforo e acende a lamparina? Na hora até que a gente não estranhou esse seu ato. Afinal, macaco é bicho esperto, achamos que o que ele fez não tinha sido nada mais do que imitar um gesto que tantas vezes nos viu fazer. O de causar espanto era ver a chama da lamparina, que, naquela ventania toda, se mantinha reta, firme, bem luminosa. O macaquinho veio se chegando perto de nós trazendo a lamparina acesa, nos olhos, bem nos olhos, e falou com um vozelrao grosso: - Eu me chamo João da Silva! Cruz credo, Ave Maria, te esconjuro! Já vi muito animal inteligente,
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mas nunca dantes nem eu, nem ninguém, viu bicho falar, ainda mais macaco. Foi um susto só: a menina começou a chorar de medo, o queixo da mulher caiu lá embaixo, os olhos arregalados, nem sei se de espanto ou terror. - Eu me chamo João da Silva! Dito isso, tirou o pinto para fora da fralda e, rindo de gargalhar, mijou quase ao pé da gente no chão de terra batida, mijou tão forte que abriu um buracão. No exato momento da mijada, caiu um raio tão forte, tão estrondoso que alumiou o mundo todo. Tão forte que a noite clareou como dia e derrubou o flamboyant que meu avô plantara na frente do rancho, queimando num fogo que nem a chuva conseguiu apagar, aquilo que talvez fosse a única beleza daquela terra. Eu me chamo João da Silva... foi assim que tudo começou. Foi nessa noite amaldiçoada que ele se revelou, que se fez homem aquele macaco amaldiçoado que em maldita hora eu fui trazer para dentro da minha casa. Esse macaco que fez o padre enlouquecer no dia do seu batizado. Que na escola onde foi aprender as primeiras letras atazanou tanto a professorinha que ela, coitada, abortou. Esse macaco que sempre tratei como filho e que abusou da inocência da minha filha, sua enteada, e fez mal para ela, matando minha mulher de desgosto. Que, com suas artimanhas diabólicas, fez meu filho Pedra pagar por ele, até hoje cumprindo pena na cadeia por um crime que o macaco cometeu. Que de tanto me judiar, me transformou no velho aleijado que hoje eu sou. Tanta sacanagem, tanta maldade, tanta coisa ruim esse João da Silva fez, e ainda faz em suas andanças pelo mundo, que se eu fosse contar levava a vida inteira e ainda não chegava ao fim. Não gosto nem de lembrar dos crimes hediondos que esse ser maligno cometeu. Mas, se você não tiver medo de ouvir e, para se precaver, quiser saber de toda a verdade sobre esse homem-macaco, um dia eu me armo de coragem e te conto tudo.

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Mistério
~

maglco

.

O Mágico domina sua platéia e não lhe dá folga para pensar.. Somente algum tempo depois é que os espectadores começaram a bater palmas assombrados: Eu via um sete e ele se transformou num rei. num gesto rápido desvira o Rei de Ouros. setes. Óóóós 275 .. que tem seguro pelo polegar e o indicador. Da ponta de seus dedos. do nada. de surpresa e espanto e mesmo alguns risos nervosos. valetes . e atira-o em direção das mesas onde estão os espectadores sentados. reis. vão surgindo outras cartas que ele vai atirando: noves. damas. três.Olhem fixamente esta carta! Viram bem? É um sete de paus! Correto? Errado! É um rei de ouros. na frente dos meus olhos!. Cartas de todos os naipes.

. bigodinho preto bemcuidado. "Caravan" de Duke Ellington. industriais. pele sem nódoas. o porte esbelto. pernas longas. Enquanto as palmas ainda ecoam pelo número das cartas. três. algumas mulheres ousam desviar os olhos da ponta dos dedos do Mágico para se fixar na assistente vestida de odalisca. algumas cobertas de peles legítimas. membros do governo . justa no corpo. a pergunta mais perguntada. embaixadores. reis . toalhas de linho. outras ao lado dos amantes. sapatos pretos de verniz brilhante. Talvez se iguale em beleza às mulheres que a invejam. nem tão moça. cabelos pretos bem curtos esticados por brilhantina. surpresos. Algumas moças. para colocá-Ia no ritmo em que as cartas vão surgindo das mãos do Mágico: cravo branco na lapela de cetim da casaca preta brilhante. abotoaduras de ouro maciço. fazem dela a mulher mais formosa no salão. O palco em semicírculo é uma pequena elevação ao fundo do salão. Na obscuridade. que assistem ao espetáculo nas mesas do salão. rosto anguloso. todas em seus vestidos de noite decotados.. talvez não seja tão alta. coberta de jóias douradas como o ouro do seu cabelo comprido solto. Talvez. Que idade terá ela?. As luzes de cena criam uma aura branca brilhante em torno da figura esguia do Mágico e ofuscam a vista dos espectadores enlevados. peitilho engomado liso branco brilhante. nem tão formosa.. a boca carnuda bem traçada coberta de batom vermelho. O chão do pequeno palco e parte do salão onde estão as mesas se cobrem de cartas: setes. damas de caridade.o Mágico domina. As brilhantes luzes do palco em seu corpo bem torneado quase despido na fantasia de odalisca. algumas com luvas. de onde as cartas surgem do nada. fora das luzes brilhantes do palco. mais elegante que muitos dos espectadores em seus smokings. O pianista tenta acelerar a música que toca. Impecavelmente vestido em sua casaca preta brilhante. oficiais das três armas. Cortina preta brilhante ao fundo do pequeno palco. o traçado do rosto. encantados. a maquiagem acentuada. algumas ao lado dos parentes. olhos fixos na ponta dos seus dedos. sem os sapatos de salto alto bem fino. formando um pequeno bico no meio da testa. algumas velhas. a odalisca traz um grande aquário redondo e o coloca sobre a mesinha de 276 . personalidades do mundo das artes. de roupa comum. o rosto branco cortado em cima dos lábios por um bigodinho reto preto. debutantes. meias pretas de seda. loiro natural. Figuras da sociedade.. summers e uniformes de gala. gravata-borboleta do mesmo cetim preto brilhante da lapela. algumas com chapéus. esbelto. Umas ao lado dos maridos.

todos jogam o corpo para trás. litros de uísque escocês e sifões em garrafas bojudas de vidro opaco. O Mágico não dá tempo para a platéia respirar. O Filho do Presidente comenta com um rapaz que está ao seu lado: Já sei com quem ele se parece. aproveitam para servir champanhe francês trazido em baldes de metal branco brilhante e. garçons solícitos. Pela frente. entrega-a para a assistente e com as mãos suspende o aquário envolto com o pano preto. Depois. com medo de se molhar: o Mágico tem nas mãos apenas o pano preto decorado com estrelas e meias-luas prateadas. e. caudas transparentes douradas. decorado com aplicações de meias-luas e estrelas de lantejoulas prateadas. as palmas da platéia. com muito cuidado para não entornar a água do aquário coberto. ainda em meio às palmas a bela assistente loira vestida de odalisca traz sobre uma mesinha com rodas uma grande caixa dourada. com o Mandrake do gibi! 277 . para algumas mesas. fecha-a e passa em volta uma corrente de metal dourado. Três peixes dourados de longas barbatanas. no centro do palco. intranqüilos na água agitada do grande aquário redondo. Caminha lento para a platéia. subitamente. o Mágico abre a caixa puxando uma tampa presa por dobradiças na parte de cima. Com o susto. Depois do susto. trançado com finos fios de metal prateado. O Mágico faz gestos ondulantes com sua vare ta fina preta. o aquário desapareceu. Ajuda a assistente a subir e a entrar agachada na caixa. num gesto brusco atira a forma do aquário que tem nas mãos em direção aos espectadores.longos pés de metal brilhante. lacrando-a com um cadeado dourado cuja chave guarda no bolso. enquanto o Mágico cobre o aquário com um pano preto brilhante. Na pequena pausa. em suas calças pretas paletós brancos gravatas-borboleta vermelhas.

Antes. retira a corrente e abre a caixa dourada. Nem o rapaz nem seus guarda-costas sabem como reagir. o Mágico mostra a sua mão também limpa. Alguns espectadores nervosos se levantam e procuram chegar mais perto do palco. Uma. assustado. o pianista também se levanta para ver o que está acontecendo. abre rápido o cadeado. já estará morta rasgada por seis pontudas lâminas afiadas. que estaria vazia não fosse um véu azul transparente caído no chão. toca com a mão direita no sangue. fazendo as pontas saírem do outro lado. Alguns gestos circulares com a vare ta mágica. como um autômato. seis. O Mágico. Chegou a vez da sétima espada. cinco. não vê o sangue que começa a escorrer através do buraco aberto pela espada: é pelo burburinho da platéia assustada que ele percebe que alguma coisa saiu errada no truque.Ao lado do Filho do Presidente. a Modelo de Capa de Revista ouve e não entende a piada. resto da fantasia da odalisca. Quando a ponta da sétimla espada surge na frente da caixa dourada. voltando ligeiro para o palco. enfia as espadas na caixa. que se acha atrás da caixa dourada. Se a assistente ainda está lá dentro. que agora corre abundantemente. o Mágico retorna rápido para a platéia e põe o véu azul sobre a mancha de sangue no peitilho da camisa do Filho do Presidente.já vem suja de sangue vermelho pegajoso quente. com cuidado e muita força. deixando impressa uma mão de sangue no peitilho branco. olha horrorizado para sua mão manchada de sangue e. o Mágico choca-se com o Filho do Presidente. de sua camisa. É o próprio Mágico quem resolve a situação. a caixa está toda transpassada. mas como ele fez isso?. Incapaz de esboçar qualquer reação. Sorrindo. transpassa a caixa dourada onde está presa sua assistente. que agora está toda em pé. com elas. duas. joga para cima sete véus de tule de sete cores e corta-os ainda no ar. O Mágico agora segura sete espadas brilhantes e. para mostrar que as espadas estão bem afiadas. A música recomeça. Toma a chave dourada do bolso. impecavelmente gomado. e entre exclamações de admiração. foi apenas mais um truque. A música parou. Em seu andar cego. e quando ele puxa o véu azul a admiração é geral: a mancha de sangue desapareceu como por encanto ante os olhos de todos. Percebendo a agitação. A platéia compreende tudo. dirige-se com passos inseguros para a platéia. sem saber o que fazer. o Mágico vai para a frente da caixa dourada e. quatro. três. estrugem palmas que 278 .

enquanto o Mágico fechava a tampa. Foi vista pela última vez quando entrou na caixa dourada e se pôs de cócoras. esperando a volta do Mágico para. O Mágico dirige-se agora para o corredor no fundo do palco. Finalmente. Aberta. O comentário geral é sobre as habilidades do Mágico. depois de um prolongado beijo. é a do camarim onde o cantor francês. todos do lado direito. estendida num pequeno tapete azul. nunca ninguém havia visto truques tão assombrosos. diferenciadas apenas pelos números de 1 a 3A . sabe que tem que abrir uma única porta mas não sabe qual. onde há quatro camarins. Ele precisa saber. todos com uma estrela dourada na porta e identificados pelos números 1. Porém. Uma delas se encontra chaveada. entre eles o Filho do Presidente com a Modelo. comentarem a repercussão do show. para em seguida recolher-se aos bastidores. e ele terá de prestar contas àjustiça pelo assassinato. o preço que terá de pagar por não ter sabido usar com sabedoria seus poderes mágicos. aspira cocaína.o Mágico agradece curvando-se num gesto de humildade. ninguém notou que a assistente vestida de odalisca não reapareceu para agradecer os aplausos. sabe qual a porta certa? É uma mágica. sua companheira de mesa.3 e 3A. e somente uma pode ser aberta. abrindose a última porta encontra-se a assistente ainda vestida de odalisca. No corredor. Alguns pares se encaminham para dançar na pequena pista. Os espectadores sentam-se novamente. o conjunto musical assume rapidamente seu lugar no palco e começa a tocar música de dança. Qualquer uma das três outras que abrir e o truque não terá dado certo. tem que ser a do camarim onde a assistente está viva. Ele hesita. o Mágico hesita diante de qual porta abrir. morta ensangüentada pelas catorze perfurações por onde entraram e saíram as pontas das setes espadas. qual das portas abrir. aquela que o levará aos braços da assistente. O Mágico está parado no início do corredor. pois prejudicaria os colegas: que graça teria um truque que já se sabe como foi feito? 279 . E você. Não posso reveláIa porque fere a ética . Outra. que entrará em cena logo mais. 2. quando aberta.é vedado a um mágico revelar seus truques. Outra fecha um camarim às escuras que não será usado esta noite. os garçons retomam o serviço trazendo bebidas. Iguais são as portas com a estrela dourada. com certeza. à sua espera. qualquer uma das outras o conduzirá à prisão e à morte. mostrará a assistente de roupão.

abra. escolha. bem à sua vista. você tem todas as condições de abrir a porta certa: pense. De minha parte. A da vida ou a da morte? Você tem que saber.Ao executar a mágica destas páginas. com exagerado excesso de detalhes. a 2. onde está a chave do segredo. eu passei a você todas as informações para abrir a porta certa: a 1. Vamos. executei o truque bem devagar. claramente. 280 . Fiz questão de dar indicações para que você percebesse. É um truque entre eu e você. a 3 ou a 3A.

A cadeira do diaho .Um mistério .

alambiques. provetas. Mas como pode. na cidade do Porto. estofada de veludo vermelho. segundo alguns autores. uma panóplia com algumas armas brancas. Ao lado desse armário.Não vejo como isto possa interessar a você. espadas e punhais remontadas por um elmo. pendurada na parede do fundo. exorcismos e pentagramas desenhados. esferas de vidro azul e outros utensílios mágicos. filtros. À direita. papéis amarelecidos com encantamentos. em 1887? 283 . tratados de magia alquímica. num país preocupado com os terríveis problemas sociais pelos quais atravessamos. pelo não menos famoso Steward Chamberlain) em Portugal. uma cadeira de espaldar com braços. À esquerda. se interessar por um mistério levantado pelo célebreAlexander Hermann (e. meio voltada para a platéia. A cena representa um laboratório de alquimista. retortas. um armário baixo de portas envidraçadas com muitos livros velhos encadernados. alguém que vive nos dias de hoje.

vestido com uma longa túnica azul cerúleo brilhante onde vemos. olhos pretos perscrutadores. rodeados por estrelas prateadas. das que usavam os antigos sacerdotes caldeus. àquele obscuro gabinete: a busca de uma resposta. a cabeça calva coberta por comprida e cônica mitra.Alguém bate à porta do gabinete. todos os planetas conhecidos até então. Não entendo como alguém acostumado comfrases curtas. vasta barba branca. O Alquimista. bordados a ouro. o Visitante revela-lhe a causa que o traz ali. Homem de uns trinta anos. dos quais a história não guardou registro algum e que não têm interesse aparente para os dias atuais. de textos ligeiros. cerrada barba preta. não é? 284 . Você não se inclui nesse caso. consegue ainda se concentrar e acompanhar longas orações que reportam feitos passados acontecidos com personagens inomináveis. para um angustiante problema de ordem pessoal que muito o aflige. abre a porta e faz o Visitante entrar. que não encontrou até agora.

maliciosamente procura logo convencê-Io a descansar e assentar-se na cadeira estofada. o Alquimista. a fim de observar uma grandiosa e maravilhosa experiência científica que abrirá sua mente para a compreensão de arcanos herméticos que muito o ajudarão na solução dos problemas que o afligem. Tão logo o Visitante se acomoda na cadeira estofada. o Alquimista degola-o com uma aguçada espada que tomou da panóplia na parede. 285 . Estarão todos acostumados a escritores de vocabulário parco ou a jornais e revistas ilustradas com textos breves de palavras fáceis? Será difícil entender o significado de certas palavras usadas para descrever objetos de um mundo ao qual não se pertence? Uma ajuda: panóplias são aqueles escudos nos quais se colocam diferentes armas e com os quais se adornam as paredes.sabendo que o Visitante carrega nos bolsos uma grande quantidade de dinheiro.

sob o pretexto de protegê-Io das emanações dos produtos químicos utilizados na maravilhosa experiência que mostraria dali a instantes. enquanto o ensangüentado corpo decapitado ainda perneia. habituado a textos jornalísticos que exaltam personagens reais destes tempos de crise (povos em luta. acontecida há mais de um século num outro país. líderes políticos. antes de consumar o odioso crime. Na verdade.. que também retirou da panóplia. viseira cerrada. o Alquimista toma a cabeça cortada e coloca-a em cima do armário baixo de portas envidraçadas e volta para revirar os bolsos e roubar o dinheiro do Visitante assassinado. chefes de Estado. cobriu a roupa do Visitante com uma grande toalha branca e colocou-lhe na cabeça um elmo medieval. 286 . Nesse momento. ) e acostumado a ver a imagem deles movendo-se nas telas da televisão ou fixada em fotos coloridas nos jornais e revistas de grande circulação. angustiada e revoltada. homens de negócios. artistas . não sei como pode ainda se emocionar com uma sangrenta ocorrência entre um falso mago e seu ingênuo cliente. seu assassino e ladrão. para marcar o lugar certo do corte e impedir a vítima de pressentir o golpe. De cima do armário. a Cabeça Cortada põe-se a vociferar. a toalha serviu para recolher o sangue derramado. . contra o Alquimista. a voz irada da Cabeça Cortada roga pragas contra o criminoso Alquimista. É bom ressaltar que. o Alquimista.b Não sei como pode alguém. o elmo.Após a degolação..

de ódio: Que Satã te carregue para o mais negro dos infernos! o Nesse momento. some com ele pelo solo. abraçando-se ao Alquimista. uma grande chama negra surge do chão. vestido com sua infernal roupa vermelha. quase sem forças.Alquimista arranca dos bolsos do ensangüentado decapitado notas e moedas de ouro. 287 . lábios roxos da morte. pele pálida graças à perda de sangue contrastando com a barba negra. ao som de sua estrepitosa gargalhada. Nela aparece um terrÍvel demônio com chifres. numa estrondosa explosão de fumaça. o pano cai vagarosamente. Ao ver a alegria feroz com que o assassino saboreia o êxito de sua criminosa aventura. exclama com voz rouquenha. vermelhos olhos abertos. Enquanto isso. de súbito. e. a Cabeça Cortada.

que não só explicam os acontecimentos com palavras claras. de Gley. recomendar a leitura de A propos de Ia sugestion mentale. como ainda acrescentam às explicações respostas para os angustiantes problemas que afligem a humanidade. como se verá adiante.alguns problemas técnicos que expliquem os misteriosos fatos acontecidos entre o Alquimista e seu malfadado Visitante. de David de Castro. portanto. resolver . de difícil aquisição nos dias de hoje. 288 . e nem mesmo A cadeira de Satã. isto sim. em poucas linhas. é claro. Confesso que minhas capacidades não chegam aos pés desses autores. segundo a dialética do pensamento dominante. torna-se necessário: lº) Uma cadeira de espaldar cujas portas devem ser furadas da forma que se vê no desenho abaixo. por serem obras há muito esgotadas e. editado em português por Lugand e Geneloux. em 1888.espero eu . Pretendo. ou Sur les mouvements musculaires inconscients en rapport les images. Para o perfeito entendimento de A cadeira do Diabo. respectivamente em maio ejunho de 1884. ambos editados pela Société de Biologie. de Charles Richet.Quem está acostumado a encontrar explicações científicas sobre o que leu. talvez espere que eu proceda de maneira semelhante aos autores de sua predileção. Não vou.

deve mostrar o aspecto do desenho 2º) Uma espada.Esta cadeira tem externamente as costas forradas de tecido elástico pintado. aCIma. A cadeira. a imitar o padrão do estofo geral. aparentemente. a qual deve ser coberta por uma tênue tabuinha apenas suspensa pela extremidade superior e igualmente pintada à imitação do estofo. As costas da cadeira assim constituídas muito auxiliam o comparsa quando precisar ocultar a cabeça na cavidade. 289 .

e cujo gancho serve para engatar no bordo superior das costas da cadeira. caso se lhe traçasse uma linha reta ao meio de seu formoso corpo. 290 . e pele clara. 6º) Dois homens parecidos (comparsas). Que tão exata seja que. 4º) Uma toalha branca grande. para que ninguém veja a abertura e o gancho que tem atrás. quando estiver ele enfiado na cabeça do visitante. 9º) Um elmo aberto na parte de trás. em sua perfeição. seios bastos com bicos róseos.3º) Uma esponja embebida em tinta vermelha para simular sangue. fossem simétricas tanto que uma igual à outra seria. olhos glaucos. Este elmo deve ser sempre mostrado de frente. ancas anchas. 7º) Um terceiro homem para vestir a fantasia vermelha de diabo. 8º) Uma bela mulher alta de lindos cabelos cor de mel. ralos pêlos púbicos num tão volumoso monte de Vênus que só se lhe possam acariciar com as duas mãos em concha. semelhantes por natureza ou por artifício. boca carnuda. a esquerda e a direita. tal como mostra o desenho. as duas partes. 5º) Pólvora seca.

.) que as prateleiras contêm e da obscuridade reinante no gabinete do Alquimista. retortas.. em virtude da distância de quem o vê. B c . conforme planta reproduzida abaixo. mas encerrando ao centro um ângulo de espelhos (g).. . . que deixa na parte de trás (H) espaço folgado o suficiente para esconder.. O ângulo de espelhos reflete as prateleiras e os lados internos (K) do armário... esferas de metal etc../ A . um comparsa parecido com o visitante.... ~-~ . e não pode ser descoberto..--/ •..•. dos muitos aparelhos (frascos. pintados de negro de modo a manter ao olhar a ilusão de profundidade.. ~ ···········__ ··--··r D ~ ~ 291 .lOº) Um armário com portas envidraçadas (p) e aparência regular.. desde o começo....~ ..

deixando-o visível apenas do pescoço (coberto pela toalha) para baixo: como o elmo está com a viseira cerrada. ZÁS!. através da fumaça e das chamas provocadas pela explosão da pólvora seca . 292 .Agora pratiquemos. encerrando o espetáculo. que esguicha sobre a toalha como um jorro de sangue. tenho que deixar ao paciente leitor a tarefa de achar um sentido para a vida e a morte também dos personagens desta história. à mensagem. Em seguida. Então. Eu. vai colocar o elmo em cima do armário. que talvez nem mesmo saiba o sentido do que escrevi. introduz-lhe na cabeça o elmo adrede preparado e estende a toalha sobre o corpo dele. o Alquimista espreme a esponja. o Alquimista. É o fim de tudo. Usando a mão esquerda. arrasta o Alquimista pelo mesmo alçapão. enfia a cabeça pelo alçapão apenas o Alquimista pousa o elmo ali. É nesse instante que o comparsa que faz as vezes do Visitante se empurra contra o pano elástico da cadeira e enfia a cabeça pelo alçapão (cuja portinhola. de cima do armário. FIM E quanto ao sentido do que foi narrado. Escusado dizer que o segundo comparsa. o Alquimista está absorto em seus estudos necrológicos. pelo alçapão do palco. Junto ao cadáver decapitado. Quando sobe o pano. enquanto o Visitante finge os estertores da morte. e era uma vez o Visitante. As cortinas se fecham. cerra a viseira e busca uma espada na panóplia de onde havia tirado o elmo. O Alquimista convence-o a se sentar na cadeira mecânica. ao "o que quer dizer isso?". surge. com gargalhadas sinistras. o Alquimista põe a mão esquerda na beira do elmo e aplica com a direita o golpe fatal. pelo seu peso.tal como o leitor já deve ter visto nas cerimônias de umbanda -. trêmulo. o terceiro comparsa fantasiado de demônio. Batem à porta e entra o Visitante. imagina-se que a cabeça ainda está ali dentro. exultando de contentamento com o dinheiro que roubou. e. cavernosamente lhe dirige. volta a ficar vertical). o Alquimista atira a espada ensangüentada no chão e. é de súbito horrorizado pelas ameaças que a cabeça. Em seguida. que já estava escondido dentro do armário. Então.

f antasma .Um mistério no trem ..

. embarcou no trem-fantasma em companhia de Astolfo Dagoda. entidades estudiosas de fenômenos paranormais e segundo alguns o próprio Serviço de Informações do Exército estudaram o caso. Jucélia Ramos nunca mais foi encontrada. seguindo exaustivamente todas as pistas levantadas. que realizou profundas investigações. a quem conhecera naquela tarde no Passeio PÚblico. ' ~'. Quarenta e cinco segundos depois. um dos grandes casos insolúveis de nossos arquivos policiais. de 16 anos de idade. constituindo o fato. 17 anos..4:'::_ . até hoje. Além da polícia. 19 de julho de 1969.o fato aconteceu na fria noite de sábado no Parque de Diversões Alvorada. nem foi encontrada nenhuma explicação razoável para seu desaparecimento. na mesma noite em que o homem chegou na Lua. Por volta das dez e quinze da noite.tiS. o carrinho deixava o negro túnel trazendo apenas Astolfo Dagoda: sua companheira havia desaparecido misteriosamente durante o percurso. a imprensa. não chegando a nenhuma conclusão ."-' Retrato falado de Jucélia Ramos Voc~ conhece esta mo7a? 295 . particulares. . . ajovemJucélia Ramos.

entrando veloz por um túnel reto em direção à parede do fundo. Essas curvas são a graça do negócio. Do tamanho de um homem e vestido de ferroviário. entra na escuridão das paredes de madeira pintadas de preto e logo já vira. em frente do Passeio PÚblico de Curitiba. múmias e outros monstros. que fazem as vezes do trem e carregam dois passageiros cada. Sua fachada. Em seu trajeto. pois aumentam a sensação de desequilíbrio e velocidade. ostenta grosseiras pinturas cujo colorido berrante representa cenas macabras: loiras semidespidas sendo atacadas por vampiros. imitando uma estação ferroviária. um boneco mecânico de cera toca uma sineta de bronze sinalizando a partida dos carrinhos de ferro. O trem-fantasma é uma construção retangular de vinte metros de frente por dez metros de fundo. vão acionando as diversas figuras fantasmagóri296 . lobisomens. onde faz uma inesperada curva de noventa graus e arranca gritos de susto dos passageiros. O trem parte.Desde os anos 50 que o Parque de Diversões Alvorada está montado no início da avenida João Gualberto. já fazendo uma nova curva e entrando em outro túnel na direção da parede da frente. Os carrinhos circulam num monotrilho preso ao chão.

enforcados. Ficara olhando os animais do Passeio. sempre serão uma das maiores atrações de um parque de diversões de qualidade. terminado o tr~eto. Conforme o depoimento de Astolfo Dagoda (inquérito nº 365/69 da SSP-PR). 297 . ficando por instantes à vista do público antes de mergulhar novamente na escuridão. por volta das quatro da tarde. múmias e monstros de vários tipos. Isso traz a desagradável sensação de que estamos rompendo enormes teias com aranhas que se enroscam em nossos cabelos. Mesmo nas horas de maior movimento. Na ocasião o depoente era auxiliar de panificação. colocar os passageiros no trem. Vê se cai fora!". aciona a trava que o faz parar e liberta os passageiros. procurou afastá-lo: "Estou esperando meu namorado. umas pequenas luzes que iluminam essas cenas macabras. Por volta das seis. bem na altura da cabeça dos passageiros. dando a impressão de que o trem vai se espatifar contra eles. No túnel desta cena ficam suspensos no escuro vários fios de linha e aranhas de borracha. na tarde de sábado. Numa das paredes do fundo há uma teia com uma enorme e repulsiva aranha negra. detendo-se a maior parte do tempo junto da jaula dos macacos. que vibram ao ver a expressão assustada dos passageiros e ao ouvir seus gritos. talvez. trava conhecimento com uma moça que lhe pareceu bonita e ajeitada. Empurra o carrinho para dar o impulso inicial e. que mesmo o barulho dos carrinhos correndo nos trilhos não consegue encobrir. "padeirinho". na Padaria Aurora. nos fins de semana. que estava sozinha. nas quais aparecem bonecos de cera em forma de caveiras. seis e meia. conquistar uma namorada. por instantes. ele entrara no Passeio Público com a finalidade de se distrair e. A princípio a moça.cas e ligando. porém cheia de sustos. 19 de julho de 1969. bichinhos que lhe interessavam bastante. o "chefe do trem" solta apenas um carrinho de cada vez. sita na rua Atílio Bório 1313. Os 45 segundos desta viagem confiável. Uniformizado de chefe da estação. O trem-fantasma sempre atrai um grande número de curiosos. e fixar a barra de segurança que os impede de cair do veículo em movimento. nunca deixando mais de dois circulando no tr~eto. Num pequeno trecho do percurso o carrinho sai do túnel. apenas um funcionário do parque se encarrega de todo o serviço: recolher os bilhetes. o que poria em risco a segurança dos passageiros.

noite escura. eu segurei a mão dela e disse: Nossa! Como você está com a mão fria. Entramos no palácio dos espelhos. ele pagou adiantado e ficaram de pegar as cópias meia hora depois. ela adorava música e disse estar vindo do auditório da TV Paraná. para ver e ouvir o conjunto Os Vondas. segundo ele. entretidos que estavam um com o outro. Falei isso e ela me sorriu. onde fora assistir ao programa Ponto 6. Falou ainda que os patrões delajá estavam com a televisão ligada. que ia forte naquela hora. Astolfo Dagoda afirma que pagou para ela primeiro uma paçoquinha e depois uma maçã do amor. Segundo ele: Foi nesse momento que senti que eu gostava dela. coração quente!". que ia mostrar tudo quando eles chegassem na Lua. trabalhando para um família no rico bairro do Batel. finos cobertos de batom bem vermelho. mas esqueceram. Ela riu e me disse: "Mão fria. tiraram uma foto num lambelambe do Passeio Público (atente para este detalhe). a Lua está comigo aqui. não derrubei nenhum maço de cigarros. Depois que ela vestiu o pulôver. Aí eu. não fumo. de um jeito tão bonito. Não. aos poucos ela foi cedendo à sua "boa conversa" e começaram a passear juntos pelo parque. principalmente quando eles tocam aquela música dos Beatles "Hey. Teve uma hora que reparei que tinha um cara 298 . e ela de mim. naquele gelado". de que gosta muito. Atiramos no tiro ao alvo. para os lábios dela. que ela trincou com seus dentes perfeitos bem branquinhos. não senhor. Segundo Astolfo. Escurecia rápido e havia esfriado bastante. Abraçados. nébuIa. Nem sinal da Lua. fica tão engraçado a gente se ver deformado daquele jeito. Astolfo Dagoda. Primeiro afirmou ser estudante mas depois confessou ser doméstica. quando ela sentiu fome comeram um espetinho de um churrasqueiro que estava com o carrinho em frente ao Parque de Diversões Alvorada. pois não trouxera agasalho. Ela falava sempre sem tirar os olhos dos meus e eu sempre olhando para a boca. Jucélia Ramos. falei: Não preciso subir tão alto. Astolfo tirou seu pulôver azul-marinho e fez que ela o vestisse por cima do vestido branco de mangas curtas. Não sei nem quanto tempo ficamos no parque de diversões.Jude". Ele lembra que a fumaça do braseiro se juntava com a neblina. Ela falou com tristeza dos astronautas que iam descer na Lua naquela noite: "Imagine se lá tiver uma neblina assim.Atraído pelas maneiras dela. Conversaram então sobre vários assuntos. Astolfo insistiu e. agora. eles limam a mira das espingardinhas de ar comprimido e a gente não acerta uma. E tirou suas mãozinhas da minha. Ela lhe disse chamar-se Jucélia.

Se isso tivesse acontecido. Angenor de Oliveira. certamente teria sido vista. só veio a notar o desaparecimento dela quando o carrinho completou a viagem. cara? Qual é a tua. Foi ela quem me chamou a atenção. examinaram tudo e nada encontraram de anormal. Percorreram todo o trajeto. disse que havia algum movimento naquela hora e não põde precisar se Astolfo Dagoda entrou sozinho ou acompanhado. que se encontravam intactas. 20 centavos cada. com uma lanterna de mão. Angenor de Oliveira. quando travou o carrinho. Novamente nada foi encontrado. ela fatalmente teria sido atropelada pelo carrinho seguinte e haveria manchas de sangue pelo chão. Ô meu? Tá invocando com a minha cara?! Tá me achando bonito. pois tínhamos acertado de ir no baile da Estrela da Manhã. Os depoimentos são todos muito desencontrados. Não sei bem a hora. Constatou-se que se a moça tivesse caído ou pulado e tivesse escapado com vida do atropelamento. O que ele queria? Era bem maior que eu. Comprei as duas entradas. que começa às dez e meia. olhando muito para nós. desta vez acompanhado não só de Astolfo.nos seguindo. não poderia ter saído por nenhuma das paredes. mas de outras pessoas alarmadas pelo mistério.. é claro. depois fiquei sabendo que era lá pelas dez.. coisa que nunca acontecera desde que ali trabalhava. Angenor de Oliveira cortou a corrente elétrica e. Angenor fez nova vistoria. resolvemos dar uma volta no tremlantasma para matar o tempo. Em vista da agitação e estranhando o desaparecimento. não sabe explicar como. Até ali eu não tinha tocado nela e achei que na escuridão do tremlantasma era a ocasião de sapecar um beijinho nela. voltara a verificar o interior do trem-fantasma junto com o guarda299 . Astolfo muito pálido . entrou nos túneis acompanhado de Astolfo Dagoda para ver se achavam a moça desaparecida. Muitos curiosos se aglomeraram no local. mas cheguei nele efalei: Que é.ele pensou que era de medo pela viagem _ perguntou aflito pela moça que estava com ele. não acreditava que a moça tivesse pulado ou caído do carrinho em movimento. e entramos. é? O cara mixou e deu no pé. alcunhado Caveirinha. O padeirinho Astolfo Dagoda insiste em afirmar que entrou no trem-fantasma junto comJucélia Ramos e que ela desapareceu na escuridão durante o trajeto. Porém se lembra muito bem que. Disse Angenor que. ainda naquela noite. se tivesse saído por uma das bocas dos túneis. Aí aconteceu . Ele. Entretido que estava com as assombrações no escuro. na ocasião encarregado do trem-fantasma. além do cadáver.

parda.civil que viera atender a ocorrência. e. testemunhou que. quando o carrinho com o casal saiu para o claro. de repente. doméstica. ela sumiu como se tivesse evaporado. solteira. Já a depoente Cremilda Gomes. Afirmou ainda não acreditar em fantasmas e em almas do outro mundo. 300 . mais uma vez. 20 anos. nada encontraram de anormal. ela viu nitidamente o rapaz abraçado com a moça e que.

O comportamento de Karel Stephanovich foi contraditório: primeiro disse que não se lembrava de nada. quando os policiais já demonstravam impaciência. Nada achou de anormal quando do exame do local. depois disse que lembrava e entrou na sua barraca para buscar as fotos que o casal esquecera de pegar. até a chegada do delegado Miguel Zacarias no domingo pela manhã. nunca mais retornou a Curitiba. que não tinha tirado nenhum retrato e que nada sabia da história. Irritado. mas que só falaria na presença do delegado. Astolfo Dagoda gritou que ele estava mentindo e que escondia alguma coisa.o rapaz pernoitara encarcerado na Central. em serviço naquela noite no Parque de Diversões Alvorada. Os policiais acalmaram o rapaz e intimaram o fotógrafo a prestar depoimento na Central. segunda-feira à tarde. porém. pensou que fizesse parte dos truques do trem-fantasma para atrair freguesia. e logo o carrinho entrou de novo no túnel. Essa testemunha. Karel Stephanovich. no domingo à tarde Karel foi procurado pela polícia. voltou muito pálido. pois fora chamado somente depois do fato ter acontecido. quando na terça-feira a polícia técnica realizou exames no trem-fantasma. Com ele foram as testemunhas Cremilda Gomes e um rapaz que não declarou o nome e disse saber tudo sobre o desaparecimento de jucélia. em vista da aglomeração de pessoas e da polêmica que o fato estava causando. A imprensa já fazia grande estardalhaço sobre o desaparecimento da moça. mudando-se para lugar incerto e não sabido. nada acrescentou de importante. alegando que ia pagar a corrida ele entrou no táxi e partiu para não mais ser visto. não mais se apresentou. O guarda-civil nº 067. Contudo. No entanto esse rapaz nem chegou a depor: enquanto os outros entravam na Delegacia Central. a princípio. encaminhou Astolfo Dagoda para apresentar queixa na Central. e o endereço por ela fornecido durante seu depoimento na Delegacia Central não foi localizado. dizendo que se enganara. trouxe mais contradições ao inquérito policial. Ao que consta. pensou-se ser um rasgão do vestido da desaparecida. Foi encontrado um pedaço de tecido branco que. sub301 . O estranho comportamento de outra testemunha. que muita gente considera importante. Retratista do Passeio Público. segunda pela manhã Karel vendeu seu negócio a toque de caixa e saiu da cidade. pois eram revelações sigilosas. que trazia Astolfo Dagoda . Demorou lá dentro e.Que foi tudo tão rápido. e ela não deu na ocasião muita importância ao fato.

levantou a hipótese de que jucélia teria descido do trem e se escondera num dos caixões de defunto que. Frei Albino lançou a teoria de que a jovem teria sido raptada por seres extraterrestres.metido a exames de laboratório. e acusou a polícia de torturar o rapaz no pau-de-arara. de lhe aplicar choques elétricos para obrigá-Io a confessar. apesar de estar preso e incomunicável. parapsicólogo de renome. servente do Passeio Público. do então governador Paulo Pimentel. Como a hipótese parecesse plausível.jornal dos hoje extintos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Nada foi publicado nos jornais. Contudo. A coincidência do horário do desaparecimento de jucélia com o da descida dos astronautas na Lua comprovaria sua teoria. constatou-se ser parte da atadura da múmia. sem conseguir novas pistas. achando tudo um embuste. Ficou constatado serem muito pequenos para acomodar outra pessoa além dos bonecos de cera. exigindo portanto sua imediata libertação. consta que manteve essa versão dos fatos. na época submetidos à rígida censura imposta pelos governos militares. trouxe de São Paulo um grupo do Centro de Pesquisas Paranormais e Fenômenos Extraterrenos. Esses boatos aumentaram com a prisão do chefe guerrilheiro cognominado O Bom Burguês e com o desbaratamento do MR-8 alguns dias depois em Apucarana. Imediatamente o delegado Miguel Za302 . acionados pela passagem do carrinho. deles se erguendo os bonecos ameaçadores. coisa de um louco para chamar atenção sobre sua insignificante figura. encontrou no lago daquele logradouro um pulôver azul que seria o mesmo usado por jucélia naquele sábado trágico. já o jornal O Estado do Paraná. Ou coisa pior: ele matarajucélia após violentá-Ia. a polícia começou a pressionar Astolfo Dagoda. O padeirinho foi detido para interrogatórios e. a polícia técnica levou os caixões para exame. crime sexual que ele procurara esconder inventando aquela história toda. O Diário do Paraná. e estavam tão cobertos de poeira que qualquer anormalidade teria ali deixado marcas. que considerava ilegal. chefiado pelo frei Albino Aresi. O Diário do Paraná descobriu sua prisão. jucélia teria ficado ali até as buscas terminarem e depois saíra tranqüilamente. Quase um mês depois do desaparecimento surge uma nova pista: Almério da Silva. se abrem. mas em Curitiba corria o boato de que o desaparecimento de jucélia Ramos estaria ligado às atividades da guerrilha do MR-8 no Paraná.

passado tanto tempo. nem patrões. pedira a conta e deixara Curitiba para recomeçar a vida num lugar onde não fosse conhecido. Hoje. ou como se sua existência nunca tivesse sido percebida pelos habitantes de Curitiba. permanece o mistério do desaparecimento deJucé1ia Ramos. Quanto aJucélia Ramos. o padeiro Lidislau Pierko. O jovem não foi encontrado. nem amigos ou conhecidos. bastante atuante no Paraná naqueles tempos? A vingança de seres extraterrestres irritados com a chegada do homem na Lua? 303 . afirmou que Astolfo. O que aconteceu naquela noite no trem-fantasma? O seqüestro de uma bela jovem para fins inconfessáveis. nunca mais foi encontrada. Por mais que se procurasse alguém que trouxesse alguma luz capaz de aclarar o desaparecimento. muito assustado e aborrecido com sua prisão e "tortura" (entre aspas porque nada foi comprovado). ninguém apareceu: nem familiares.carias procurou Astolfo Dagoda para que ele fizesse a identificação. Era como se ela nunca tivesse existido. provavelmente um crime sexual? A ação nefasta da guerrilha do MR-8. mas seu patrão.

A verdade sempre aparece. a verdade apareça. São muitas as teorias e certamente o leitor terá escolhido ou criado a sua.Seria o trem-fantasma um lugar assombrado e almas do outro mundo carregaramjucélia Ramos? Foi tudo uma trama da própria polícia. armada sabe-se lá por quê? Ou tudo não passou de uma farsa hedionda do padeirinho? Perguntas até hoje sem resposta. 304 . num futuro que esperamos não esteja muito longe. Talvez um dia.

Mistério Sapho () amor entre as mulheres .

de quem acabam de ser encontradas partes do filme Sapho . como Dama ao banho. Ali foram recuperados filmes. Criffith. Desde os princípios do cinema são feitos filmes pornôs. Não deixou descendentes.o cinema paranaense continua um insólito desconhecido. 307 . em 1975. necessitando urgentes trabalhos de restauro em laboratórios especializados. Não pudemos confirmar essa informação. apesar de alguns esforços iniciados principalmente após a criação da Cinemateca do Museu Cuido Viaro.O amor entre as mulheres é um filme erótico. Ali ficara sob a guarda de Rodolpho Hertoso. Foi encontrada uma cópia 35 mm com apenas quatro bobinas. Para não falarmos do agora. e com a atriz que se escondia sob o pseudônimo de Miss Ray mostrando suas carnes. dirigi da por Leo Martem. realizado em 1899. Faltam diversos trechos. Arthur Rogge e João Batista CrofE. Contam-se nos dedos os estudos e pesquisas sobre o nosso cinema. entre eles vários de D. e a de 26. das oito que compunham o filme.3. permitindo a confecção de novas cópias passíveis de serem projetadas. onde teria parentes. até então considerados perdidos. definitivamente perdida. até as várias versões de A carne. que. é brasileiro. apesar do nome. A esses vem se juntar agora Crispim Carmoro. que também dirigiria Messalina (30). seus familiares passaram as latas do filme para as minhas mãos. amigo de Crispim Carmoro. de Luiz de Barros. Pornográfico. Kerrigan. com partes totalmente meladas. considerado o pai da linguagem cinematográfica. Crispim Carmoro teve portanto a quem puxar. A Cinemateca do Uruguai tem em seus arquivos a maior coleção de filmes eróticos primitivos. dirigido por Vitor Ciacchi. passando pelo curioso Le film du diable (17). de E. aos 85 anos. O que restou de Sapho foi encontrado num galinheiro em Almirante Tamandaré. que faria Vício e beleza (26) e produziria Depravação (23). Presumivelmen te Crispim Carmoro faleceu em 1928. W. de Ceorge Melies. de Annibal Requião.5 e 8. após a morte do marido transferiu-se para Vitória do Espírito Santo. C. se adotarmos outra nomenclatura. Josephina Bello Carmoro. seis anos após ter realizado o que parece ser seu único filme. Consta que sua esposa. o cinema brasileiro tem vários exemplos de filmes eróticos ou pomôs: desde Lucíola (1916). da obra de José de Alencar. Somente com os serviços de restauração será possível a feitura de um novo negativo. Com a morte de Hertoso. e a bobina 5 está inteiramente empedrada. Sapho . no qual a atriz Antônia de Negri aparece nua. A cópia encontrada está em péssimo estado.O amor entre as mulheres. dirigido por Antônio Tibiriçá. a de 24. as de número 1.

Através dessa arte tornou-se conhecido. mas talvez Sapho possa ter sido filmado por ele ou por algum dos fotógrafos atuantes em Curitiba. Em seguida vem o título: 308 . Apareceu em Curitiba provavelmente logo após a Primeira Guerra Mundial (1914-8). que lhe cedeu ou alugou o equipamento para as filmagens de Sapho. as imagens de Sapho têm momentos de rara beleza. que buscavam inspiração na Grécia Antiga. Emiliano Perneta e outros poetas do movimento simbolista. O único nome que aparece na ficha técnica é o de Crispim Carmoro como realizador. Da mesma maneira que nenhuma das atrizes arriscou colocar seu nome nos créditos. Sabe-se que era amigo. Pelo tema e letreiros de Sapho. Lange de Morretes e Waldemar Curt Freysleben. que preferiu não assinar o trabalho em virtude do tema ousado do filme. fazia pinturas decorativas. Aqui passou a exercer a profissão de estucador. As letras estão desenhadas sobre um cartão-postal com vista fotográfica do Partenon de Atenas. de Annibal Requião.CURITYBA 1922. é de se supor que mantivesse relações de amizade com Dario Vellozo. ano em que acontecia em São Paulo a Semana de Arte Moderna? Sabemos pouco de Crispim Carmoro. não só das famílias tradicionais da cidade mas também de pintores como Alfredo Andersen. Em algumas velhas residências curitibanas encontram-se paredes com suas pinturas. nem quem o iniciou nos segredos da linguagem cinematográfica. ou pelo menos conhecido. É certo que não lhe faltavam gosto artístico e conhecimento de fotografia. nem se era italiano ou descendente. Além das decorações em gesso. Não se sabe se Crispim Carmoro tinha algum conhecimento técnico de cinema. O filme abre com um letreiro: PARTHENON FILMS .Mas quem foi esse homem e o que o levou a filmar um longa-metragem erótico na provinciana Curitiba de 78968 habitantes em 1922.

para o doce sacrifício à Vénus. excitante e lascivo. Lembrar que se trata de filme mudo. concorre para o enlace sensual dos corpos. quando o aroma de nardos. protegida pelo resplendente azul do jirmamento vago. Dum egoismo atroz. Após esse longo texto introdutório. dum orgulho medonho. Segue-se um longo texto explicativo dividido em duas partes. como que se dirigindo aos espectadores: o meu lugar não é em meio de vocês. de semblante tristonho. O AMOR ENTRE AS MULHERES. aparece uma vista de palácio grego. Não é no meio de tanta insipidez. a bella sacerdotiza pagã. de amor a gemer Entre rainhas como flor. a Deusa do Amor. Daí a necessidade de longos letreiros para desenvolver a açao: E sua complementação: Em seu resplandescente palácio na ilha de Lesbos. de farto sangue quente. e outro letreiro: Sapho. Vemos meio de longe a atriz que interpreta Sapho pondo incenso num turíbulo sobre um alto tripé. Há um corte para um plano mais aproximado. claramente uma pintura filmada. em meio à fumaça. Homens rudes e maus. JV1eu lugar é aqui. sacerdotizas de Vénus. graciosas donzelas Entre gestos e corpos que me causam prazer. Sapho baixa a cabeça. realizado por quem não dominava plenamente a linguagem do cinema. Sapho levanta os olhos em direção à câmera e se põe a falar (através de letreiros). na lassidão cálida de uma noite de verão. 309 . inicia grotescos movimentos de dança. Sapho reune-se com suas amigas.PELICULA CRISPIM CARMORO. termina de colocar incenso no turíbulo e. E ainda: UMA Todos esses créditos iniciais estão emoldurados com ornamentos em estilo grego. prepara o altar Aí começa propriamente a ação do filme.

no seu seio Que frescura! Que olor! Que límpido gorjeio! 310 ."bachantes". À medida que se desenvolve a dança.Deusa Pagã dos amantes E conclama suas bachantes Para os embates do amor. o corpo delinquente sem pudm.Em sua dansa. Sapho invoca Venus . sempre precedidas de um letreiro que as identifica pelo nome: Prokné . são mostradas as outras no filme só atuam mulheres .a favorita de Sapho.

olhos de engodo e boca sedutora! 311 . virgem bela como Vénus.musa pagã de basta cabeleira loura. Virgem de olhos glaucos e seios morenos! Hypolita . Corpo rijo.Aglaura .virgem pura.

rosto de mulher. Liso.Euridice .escrava núbia de corpo ardente.angélica expressão de causas mansas. odulante como o de uma serpente! 312 . Formas tentadoras. sorriso de creança! Fátima .

entre as outras figurantes. cadeiras de madeira entalhada. Essa bobina inicia-se com um letreiro: Sapho empina o ventre. queria se deliciar com as imagens das mulheres semidespidas. em geral rolando pelo chão. seminuas.Esta última é a única negra que aparece no filme. Difundindo luxúria e provocando ardores Como se a carne houvera em convulsão. A bobina número 3 apresenta várias de suas partes meladas e faltam alguns trechos. seios à mostra. Não há muita ação no filme. Provavelmente foram cortados por alguém que. com a câmera estática focalizando Sapho e suas "bachantes" envoltas em véus. não encontrado. olhando os fotogramas contra a luz. É de se supor que o segundo. O que vemos é a repetição constante de imagens.o termo mais certo seria rebolando . Os trajes. prossiga com a apresentação das celebrantes em poses lascivas. colunatas e alguns vasos de gesso imitando urnas gregas completam a cenografia. não passa de um cortinado escondendo as paredes e um chão coberto por tapetes. 313 . O cenário. nem cenas de sexo explícito ou de nudez total. Com sua imagem termina o primeiro rolo. envoltas em véus e adornadas com bijuterias que simulam ser jóias de valor. Almofadões. representando o interior de um templo grego. As imagens que se seguem a esse letreiro são da atriz que personifica Sapho dançando . arqueia o busto e num repente Elétrica se lança aos golpes tentadores. arremedam roupagens gregas ou orientais. esforçando-se para fazer poses eróticas. fremente. Tudo lembra os cenários de gosto duvidoso utilizados nos estúdios dos retratistas da época como fundo de suas fotografias. se é que podemos chamá-Ias assim.

Além de mostrar Sapho dançando.tintura de anilina usada para dar um tom de cor aos filmes da época. Provavelmente seria a única imagem de nu frontal do filme.Dansa outra vez. Entre uivos do instinto a cupidez atua E uníssono se escapa um grito retumbante: . esta cena está entrecortada com imagens das "bachantes" sempre em poses lânguidas.Ei-la saracoteando. o corpo delinqüente Semi-velado ostenta às luzes multicores. Apesar de na época ser relativamente normal a exibição de filmes eróticos. nenhuma notícia da exibição de Sapho foi encontrada nos 314 . As bachantes deliram em lúbricos jurores. foi reencontrado somente em 1984: sabe-se lá em que mãos andou durante todos esses anos. Devemos lembrar que o filme. deve ter sido tirada por alguém sequioso de excitar-se com a visão do belo corpo da atriz que encarna Sapho. realizado em 1922. Toda essa parte está tintada de vermelho pelo sistema de viragem . Arrastam-se coleando em silvos de serpente. mas nua inteiramente nua! A imagem que se seguiria a este letreiro não está na cópia encontrada.

Prokné. Contudo. numa grandiosa mise-en-scene em oito partes". então a zona 315 . O restante da bobina 3 é uma monótona repetição das atrizes improvisadas . Tremerão nossas carnes no mesmo espasmo presas E nos confundiremos entre carícias ledas! Após o poema. e não faz referência à sua ficha técnica. Todo teu corpo de sensual calor! Prender-me nos divinos novelos. menciona um filme com o título de Sapho no Cine Royal de São Paulo.quem seriam? . nem mesmo se é brasileiro. em julho de 1923.O AMOR ENTRE AS MULHERES. na parte oito. sequiosa em delírio de amor acesa. Aranhol dos teus fiavas cabelos. Em seu lugar vemos o letreiro: fiM Assim termina SAPHO . vemos as imagens de Sapho e Prokné enlaçadas se beijando. O anúncio da exibição não diz a origem. o pesquisador Jean-Claude Bernardet. mas a respeito dele ainda ficam muitas questões: quem foram suas "estrelas"? Prostitutas da rua Ratcliff (hoje Desembargador Westphalen). em seu Filmografia do cinema brasileiro.jornais curitibanos.a rolar pelos tapetes ou enrolando os corpos seminus nas cortinas. Diz apenas: "Os escândalos de Sapho. a deusa de Lesbos. deitadas no chão de falsos tapetes persas. O mesmo número de partes do filme de Crispim Carmoro. o filme termina com um letreiro: Oh! Até que enfim em carícias felinas Teu busto gentil ligeiramente inclinas E te enrolas em mim e me mordes a boca! A imagem da mordida não é mostrada. edição do governo do estado de São Paulo (1972). Quero beijar. acontece algo mais forte: Sapho e sua favorita. reproduzem diante da câmera sempre imóvel a ação descrita no poema mostrado no letreiro. E tal como começou. Quero pousar meus lábios nos teus de framboeza E neles. Somente no final do filme. como a abelha liba o mel na rosa em fiar. 1900-1935.

do meretrício de Curitiba? Ou seriam mulheres da sociedade curitibana que aceitaram representar por dinheiro ou outra razão qualquer? Algum poeta curitibano escreveu o "enredo" e os poemas do filme e. não quis assinar? Quem financiou a empreitada e o que se propunham os produtores com o filme? Lucro fácil ou algum outro objetivo escuso? Por que não teve continuidade a carreira cinematogáfica de Crispim Carmoro? Talento e capacidade não lhe faltavam. 316 . pudorosamente.

() mistério dos sinais da passagem dele pela cidade de Curitiha .

o que provocou protestos generalizados. foi encontrada nua.como que expelida de uma única vez -. Olhando assim pode parecer que se trata de uma perfeita imitação em barro pintado. onde o perverso assassino enfiara o grosso galho de árvore. A Tribuna do Paraná. com dez centímetros de grossura e cerca de trinta de comprimento desde a 319 . morta com uma estaca de madeira cravada na vagina. O mesmo onde. de 48 anos. dessas vendidas pelos camelôs e usadas para pregar peças nos amigos. ao lado da caixa-d'água. Falo isso porque tal qual as imitações é uma peça inteiriça . de 21 anos presumíveis. O local onde foram encontrados e fotografados é aquele grande terreno baldio no alto da rua xv.Indiscutivelmente são sinais da passagem DELE. vulgo Careca. Mais tarde descobriu-se que o assassino fora o engraxatejurandir Haus. que mantinha sua cadeira instalada na praça Tiradentes. no dia 29 de maio de 1986. do dr. a prostituta Márcia de Tal. também publicou as fotos na primeira página. O revoltante crime teve muita repercussão na época e a Folha de Curitiba publicou fotos do cadáver na primeira página. porém tendo o decoro de esconder com uma tarja preta o sexo da infeliz moça. alcunhada de Polaca. Paulo Pimentel.

320 . nem da notícia ATIROU NA RAPOSA E ACERTOU NA FILHA. ELE leu esse jornal enquanto defecava e depois. Examinando-se a Tribuna do Paraná daquele dia. uma poça redonda já seca mostra o lugar onde o jato de mijo penetrou no chão. a terceiro pedaço usado pega parte dos anúncios das Lojas HM na página nove e de Pedroso.ponta arredondada até a outra ponta no alto. E também que ELE se manteve de cócoras no mesmo lugar durante toda a defecação. as letras TRI. e mais o cabeçalho. nada foi rasgado da reportagem sobre o assalto da mansão milionária.00. do caso do miliciano que roubou uma moto e do padeiro assaltado na saída do bailão. todos com mais ou menos quinze por quinze centímetros. Estão inteiras as notas da trágica morte do ancião atropelado por uma locomotiva. com as costumeiras reclamações contra os serviços públicos. onde se afina como uma cauda onde foi cortada pela contração do ânus. vê-se que foi deixado inteiro o caderno de esportes. A cerca de um palmo à frente. Um deles é a parte da primeira página onde está a chamada para a entrevista com o ex-jogador de futebol Aladim. três pedaços amassados e sujos da Tribuna do Paraná. que tem no verso parte do anúncio de página inteira do Carrefour Pinhais. a outro pedaço que ELE usou para se limpar é o recorte do anúncio da Gronau na página onze. E também parte da foto da mansão do milionário assaltada no bairro das Mercês. onde se lê: Segundaleira 2 de novembro de 1987 Ano XXXII nº 9. a Rei dos Tapetes. À esquerda do bolo fecal.062/24 páginas Às segundas cz$ 15. na página dez. e parte de um anúncio da Prefeitura Municipal de Curitiba intitulado Procura-se um fornecedor. parte do título do jornal. a bolo encontra-se enrodilhado.é sabido que a tinta de impressão provoca irritação no ânus -. Nota-se que ELE teve a preocupação não só de escolher pedaços do jornal com bastante branco . com a manchete O Gênio abre o jogo. reportando com fotos em cores a sensacional vitória do Coritiba por 3 x 2 contra o São Paulo. está uma parte da seção Cartas dos Leitores. A página policial também não foi mexida. Do outro lado desse pedaço. na Copa Brasil. mostrando ter saído de uma só vez. Impressas em vermelho. Provavelmente. limpou-se com os pedaços que rasgou. mas também de não estragar partes que trouxessem reportagens interessantes para se ler. caso contrário apresentaria outra forma que não a de um rolo. na falta de papel higiênico.

aparentemente jogados ao acaso. formando um v sem estarem partidos em dois. ELE leu a Tribuna do Paraná enquanto defecava e. podendo-se argumentar que foi o único jornal encontrado na banca. isso sim. Durante o tempo que levou para defecar no terreno baldio dobrou três palitos. a intervalos regulares. poderíamos determinar com precisão durante quantos minutos . ELE não é muito alto e pesa pouco: apesar do solo arenoso do terreno baldio ser bastante duro e ressecado. levou-a consigo para terminar a leitura.se bem que esta última afirmação seja discutível. porém carrega fósforos e tem o sestro de. como os três fósforos não estão queimados e tampouco se vêem tocos de cigarros. pressioná-Io com o polegar. Pode parecer escusado. chegamos a uma série de conclusões: ELE usa o corpo de um homem. mas não 321 . em seguida. No jornal prefere o "noticiário esportivo e o policial. sem parti-Ios. fosse o de uma mulher. um caco ete: o de dobrar palitos de fósforos ao meio. Você mesmo deve ter analisado o que viu na foto e certamente teria outras ponderações a fazer.a vagina fica mais perto do orifício anal do que fica o pênis. tanto física quanto espiritualmente. Porém.pois não acredito ter chegado a horas . o que não acontece. e o intervalo entre um palito e outro. depois. mais aptos estaremos a saber como ELE é na realidade. ELE não fuma. Tem. e é leitor da Tribuna do Paraná . principalmente a céu aberto. Soubéssemos nós o tempo que ELE leva para dobrar cada um. pode-se concluir que ELE não fuma. E exames mais acurados da passagem DELE nos darão informações cada vez mais preciosas. apoiar um palito nos dedos indicador e médio para. quebrando-o ao meio sem contudo parti-Io. É terrível dizer.Provavelmente. vêem-se três palitos de fósforos dobrados ao meio. essas são observações rápidas e superficiais. fosse ELE alto e pesado certamente suas pegadas seriam mais profundas. ELE tem o hábito de ler enquanto defeca.ELE esteve defecando no terreno baldio. Daí o cuidado de estragar somente as partes desimportantes do jornal. a marca da poça de urina estaria mais junto do bolo fecal . Muitas pessoas têm o costume de fumar enquanto defecam. Examinando a fotografia com os sinais que comprovam ter ELE estado em Curitiba no dia 2 de novembro de 1987. naquele dia de Finados. Porém. Tem ELE o estômago em bom funcionamento. ou pelo menos não sofre de diarréia. porém quanto mais dados tivermos sobre seu comportamento. Do lado direito. porque isso ajuda a disfarçar o mau cheiro e a fumaça serve para espantar mosquitos.

de o conhecermos na plena complexidade do seu ser e da sua obra. Por esse motivo.sabemos com qual semblante ELE se mostra ao mundo: se algum dia estivermos na frente DELE.que espero não esteja longe . Corruptio unius generatio est alterius PUTRE factio 322 . temos que nos debruçar atentos sobre cada sinal da passagem DELE sobre a Terra e estudá-Io incansavelmente. Somente agindo assim é que seremos capazes um dia . não saberemos reconhecê-Io e certamente ELE não se revelará a nós. quando surge uma oportunidade como esta não podemos deixá-Ia escapar.

1981. Os haicais "Nesta noite . Curitiba.. Gráfica & Editora Módulo 3. "Mistério Sapho .. outubro de 1984. passa-se num apartamento em Curitiba e teve uma primeira versão publicada no nº 150 de Quem.. nº 113. O poema "Tanto sonhei contigo . Contos publicados na revista Quem: "Um mistério no trem-fantasma". 1985." é de Isa. como os haicais.O amor entre as mulheres".NOTA BIBLIOGRÁFICA o mez da grippe..". em agosto de 1984. em maio de 1986. "Tocador de biwa" é um desenho anônimo japonês do século XIX.. Logos. 1983." é de Robert Desnos e. 1986. A "Mão com poema de Desnos" foi desenhada por Cláudia Suemi Hamasaki.. Fundação Cultural de Curitiba. nº 94. Raconto. agosto de 1984. japonesa o mistério da prostituta & Mimi-Nashi-Oichi.." são de Bashô. no bairro da Liberdade. Novella. Criar. o passado " são de Buson." e "Ah. "Sob o sino do templo . de Curitiba.. "Primeira neve " e "Esta estrada . Novela. Curitiba. "Orvalho deste mundo . Curitiba. "Mercúrio mistério". A escrita japonesa e a planta do quarto são de autoria de Sônia Yamanouchi." são trechos de A doutrina de Buda. Curitiba. nº 116. A ação de O mistério da prostituta japonesa se passa em São Paulo. 323 . 13 Mistérios + O mistério da porta aberta. edição em língua portuguesa de Bukkyo Dendo Kyotai. foi traduzido por Valêncio Xavier." e "Tudo é mutável. Tóquio. o minotauro. .. Maciste no inferno. "Conduz teu cavalo . A primeira versão desse conto foi publicada no nº 117 da revista Quem. novembro de 1984.. 1982. Mimi-Nashi-Oichi.... nº 118. "O mistério da porta aberta". O segundo conto. agosto de 1983.

1975. Poty. Como cineasta. Studio Krieger. julho de 1986. É consultor de imagem em cinema e roteirista e diretor de TV. por Caro signore Feline. entre outros vídeos. O pão negro . nº 154. 1998. Curitiba. Edições Ciências do Acidente. 324 . Estudo. Fundação Cultural de Curitiba. Curitiba. 1964. Criar. 1986. 18 de junho de 1985.Um episódio da colônia Cecília e Os 11 de Curitiba. Quem. Segunda edição: Curitiba. "O misterioso homem-macaco Como tudo começou". A propósito dejignrinhas. São Paulo. emjaneiro de 1984. e "Os fantasmas do fundo de quintal . publicou inúmeras narrativas em jornais e revistas (Nicolau. Novela-rebus. Valêncio Xavier Niculitcheff nasceu em São Paulo. de Curitiba. trilhos.Um mistério". Fundação Cultural de Curitiba. Edições KM. recebeu na IX Jornada Brasileira de Curta-Metragem o prêmio de melhor filme de ficção. 1986. de nós. Nutrimental. Meu 7º dia. 22 de julho de 1990. Memória com Poty. No jornal O Estado do Paraná foram publicados dois contos: "Mistério do menino morto". 1973."Mistério mágico". entre outros). OUTRAS OBRAS DO AUTOR Desembrulhando as balas Zéquinha. "O mistério da Sonâmbula". Biografia. Antologia de contos com outros autores. Curitiba. Curitiba. Panorama e Revista da USP. Curitiba. todos nós. junho de 1986. Curitiba. 7 de amor e violência. Além dos livros mencionados. trilhas e traços. nº 160. em 1933. agosto de 1986. 1989. Payol. Crônicas com Poty. nº 152. Realizou. e está radicado em Curitiba. O conto "Mistério números" foi publicado no nº 334 da revista Panorama. Segunda edição: Curitiba. 1994.

BSP LIV 11111111I1111111111 253734 .

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