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Saúde Mental e relgiosidade - no caminho da superação de preconceitos

Saúde Mental e relgiosidade - no caminho da superação de preconceitos

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O IMPACTO DO PRECONCEITO DE RAIZ RELIGIOSA NAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS DE PORTADORES DE 1 TRANSTORNOS MENTAIS E SEUS FAMILIARES

Geni Maria Hoss2

Resumo: A Saúde Mental só muito tardiamente foi assumida como objeto de estudos no campo da saúde. Isto aconteceu em final do século XVIII e início do século XIX. Enquanto na Grécia Antiga, a loucura era considerada uma manifestação do divino, no século XV, por sua vez, era tida como expressão do diabólico. Exemplos clássicos são os rituais dos exorcismos, medidas contra feitiços e demônios, relacionados com todos que tinham alguma manifestação desconhecido da época. As formas de ver a doença mental se traduzem nos cuidados prestados ao portador de transtornos mentais. Foram diversas as formas de atendimento psiquiátrico ao longo da história. Uma mudança significativa foi a reforma psiquiátrica iniciada no último século em diversos países. No Brasil, o marco inicial foi a promulgação da Lei 10.216, de 6 de abril de 2001. Foi definida redução de leitos em instituições psiquiátricas – nos tradicionais pavilhões - e sugeridas alternativas para o cuidado em Saúde Mental como: reintegração familiar com acompanhamento ambulatorial, hospital dia, casa terapêutica, centro de atendimento psicossocial. A nova forma de ver e cuidar prevê o respeito pela autonomia do paciente e reintegração social envolvendo a família de forma ativa nos processos de tratamento psiquiátrico. Cabe à Teologia fundamentar e criar subsídios à luz dos valores cristãos nos novos tempos da Saúde Mental para superar preconceitos de raiz religiosa forte impacto nas relações das humanas por parte de todos os integrantes da rede de contatos do doente e seus familiares. Vale igualmente um serviço de diaconia junto às famílias para superar as relações afetadas pelos preconceitos, dando lugar a relações de ajuda e reintegração social, a começar pela integração no espaço familiar como protagonista de sua própria história Palavras chave: Saúde Mental, Reforma Psiquiátrica, Relações Interpessoais. Abstract: The Mental Health just lately was assumed like studies object in the field of the health. This happened in end of the century XVIII and beginning of the century XIX. While in Ancient Greece, the madness was considered a demonstration of the Divine, in the century XV, for his time, it was had like expression of the diabolical one. Classic examples are the rituals of the exorcisms, measures against charms and devils connected with all who had some unknown manifestation at that time. The forms of seeing the mental disease are translated in the cares been suitable for a bearer of mental upsets. The forms of psychiatric service were different along the history. A significant change went to psychiatric reform initiated in the last century in several countries. In Brazil, the initial landmark went to promulgation of the Law 10.216, of the 6th of April , 2001. Beds reduction was defined in psychiatric institutions – in the traditional tents - and alternatives were suggested for the care in Mental Health like: familiar reintegration with attendance ambulatorial, hospital day, therapeutic house, service center psicossocial. The new form of seeing and of taking care predicts the respect for the autonomy of the patient and social reintegration wrapping the family of active form in the processes of psychiatric treatment. It suits to the Theology to substantiate and to create subsidies by the light of the Christian values in the new times of the Mental Health in order that impact to surpass prejudices of strong religious root in the relations of the human ones for part of all the integrants of the net of contacts of the patient and his relatives. It costs equally a service of deacony near the families to surpass the relations affected by the prejudices, by giving place to relations of help and social reintegration, beginning for the integration in the familiar space like protagonist of his history itself Key-words: Mental Health, Psychiatric Reform, Human Relations.

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Salão de Pesquisa, 2010, Faculdades EST, São Leopoldo, RS.

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INTRODUÇÃO

A relação do ser humano com o mundo oculto, com a transcendência sempre foi desafiante uma vez que lhe faltam provas concretas palpáveis a respeito da existência e manifestação na vida do cotidiano. Na área de psiquiatria, esta dimensão da vida humana sempre ocupou um espaço significativo. De um lado há tempos em que a patologia psiquiátrica era relacionada com poderes divinos, de outro, a identificação era com possessão demoníaca, com castigo divino. A história mostra que estas teorias oscilavam ou até mesmo concorriam nas mesmas épocas e sociedade. Para a Teologia é importante conhecer o histórico dos paradigmas reinantes em cada época, atualizar-se a respeito dos atuais paradigmas a fim de poder falar com autoridade sobre o assunto e dialogar com as Ciências Humanas sem tornar-se subserviente. Somente assim a reflexão teológica pode contribuir de forma significativa para uma relação humana e cristã com o campo da Saúde Mental. Ao mesmo tempo em que o portador de transtornos mentais tem direito à proteção especial é ao mesmo tempo protagonista de sua própria história. Condição que lhe é roubada muitas vezes pelo desequilíbrio no tratamento que lhe é dado no sentido de lhe oferecer espaços de desenvolvimento pessoal e social. A Reforma Psiquiátrica e a maior contribuição que a Teologia poder dar é oferecer criar espaços de reintegração social para aqueles que a sociedade excluiu por séculos.

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A PSIQUIATRIA AO LONGO DOS SÉCULOS E SUA RELAÇÃO COM A TRANSCENDÊNCIA

Desde a antiguidade há relatos sobre perturbação mental ou influências malignas ou então sobre uma possível intervenção divina na vida de algumas

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pessoas, cujo comportamento era diferenciado do comportamento social admissível como normal de determinada sociedade em determinada época.

1.1

CONCEITOS QUE PERPASSAM UM LONGO PERÍODO DA HISTÓRIA

Entre o povo Israelita, o conceito da loucura era acompanhado pelos atributos fúria, raiva. “No dia seguinte, um mau espírito da parte de Deus assaltou Saul, que começou a delirar no meio da casa. Davi tangia a lira como nos outros dias e Saul estava com a lança na mão”. (1Sam 18,11). Sonhos, visões, vozes divinas, tão comuns nos relatos bíblicos, em virtude do seu distanciamento contextual, não podem ser interpretados com os instrumentos disponíveis hoje uma vez que não está ao alcance a apuração daquilo que é anormal e do que poderia ser manifestação de uma pessoa especial. Com a organização da sociedade, ou seja, com a urbanização, surge também um novo momento da Ciência. Então a Psiquiatria avança e é sistematizada sem, contudo, ser desvinculada da magia e do poder místico. Por este motivo, os primeiros médicos das civilizações pré-clássicas como os babliônios, egípcios e hindus eram também sacerdotes. Os poemas de Homero, escritos 1000 a. C., falam da ofensa aos deuses como causa dos comportamentos estranhos. O Pai da Medicina, Hipócritas (460 a.C.), busca outras explicações para as doenças mentais, provavelmente pela influência da corrente racionalista dos filósofos gregos. Hipócrates refutou qualquer relação das perturbações mentais com a divindade e classificou os transtornos mentais em categorias: mania, melancolia e demência, a partir do acompanhamento minucioso diário de seus pacientes. Os filósofos gregos Platão (429-347 a.C) e Aristóteles (384 – 322 a.C.) contemplaram o tema em diversas de suas obras como: A República, As Leis, Timeu e Pedro (Platão) e O Tratado da Alma (Aristóteles). Importantes conquistas na área da Saúde Mental são registradas nos séculos seguintes. ALEXANDER e SELESNICK, escrevem em sua obra, destacando o legado de Asclepíades (124 a.C.):

Receitava banhos, exercícios, massagens e vinho [....] e também se notabilizava por dar ênfase a um tratamento humano e digno. Aposentos claros e arejados, música, banhos e massagens eram oferecidos não só

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aos pacientes com doenças físicas, mas também mentais. Asclepiades acentuava também a importância de distinguir entre doenças agudas e crônicas, fazia distinção entre alucinações e delírios. Simpatizava com os doentes mentais e considerava e doença mental resultado de perturbação 3 emocional.

No Império Romano, ainda outros Médicos prestaram serviços de relevância para a Saúde Mental: Aretaeus (50-130 d.C.) considerou as fases da mania e melancolia como expressão da mesma doença. Galeno (131-200 d.C.) se destacou pelas valiosas contribuições para a anatomia e fisiologia no seu contexto histórico, no campo da Saúde Mental, sistematizou de forma consistente as idéias de Hipócrates, Platão e Aristóteles. Com a desintegração do Império Romano, estes avanços quase foram anulados, havendo um retorno ao pensamento místico na antiguidade pré-clássica.

Os cidadãos da Grécia Antiga no apogeu de sua civilização encontraram segurança interior no conhecimento e na razão. Os romanos adotaram a herança intelectual da Grécia., mas, para assegurar sua paz de espírito, confiavam mais em instituições sociais e na organização racional de uma sociedade sustentada por lei igualitária, realizações tecnológicas e poderio militar. Quando estas instituições se desintegraram e o império declinou, o medo, genuíno e nu, sentido igualmente por ricos e pobres, tornou-se a questão social dinâmica central. O colapso do sistema romano de segurança produziu um retrocesso geral à crença na magia, misticismo e demonologia, da qual, sete séculos antes, o homem se libertara graças ao 4 gênio grego.

Após o ano 1000 – no demônio e poderes sobrenaturais vieram à tona em todos os âmbitos. A Igreja entrou no seu pior momento – no final da Idade Média e início da Idade Moderna – favorecido pela decadência social, econômica e política. Associar patologias mentais a diferentes influências malignas, à bruxaria não exigia grande esforço. O tratamento lógico, então, era o da caça às bruxas, a tortura generalizada e indiscriminada, acorrentamento... tudo isto para que o demônio abandonasse o hospedeiro. Pessoas acometidas por crises psicóticas eram tidas como prova real da manifestação demoníaca.

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ALEXANDER, Franz; SELESNICK, Sheldon. História da Psiquiatria: Uma avaliação do Pensamento Primitivo desde os Tempos Primitivos até o Presente. São Paulo: IBRASA, 1980, p. 71. 4 ALEXANDER; SELESNICK. 1980. P. 83

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Mudanças significativos vieram com três importantes pensadores: Paracelso (1493-1541) refutou a possibilidade de possessão demoníaca das bruxas e doentes mentais; Johann Weyer (1515-1588), após estudos sobre patologias mentais, publicou em 1563 um livro onde se posiciona de forma crítica diante das idéias publicadas em Malleus Maleficarum da Igreja; Reginald Scot (1538 – 1599) fez um estudo sobre feitiçaria e concluiu que as bruxas e doentes mentais não eram acometidos de poderes malignos, mas de enfermidades mentais. Desta forma, os novos paradigmas emergentes permitiram organizar uma nova forma de cuidados dos portadores de transtornos mentais. Era preciso criar novas estruturas institucionais para um cuidado mais humano. Surgiram então asilos, hospitais para acolher os doentes. Cientistas e filósofos como Descartes (1596-1650), Hobbes (1588-1679), Locke (1632-1704), entre outros, deram grande contribuição nos séculos XVII e XVIII para importantes mudanças na área de Saúde Mental. O pensamento científicoracional, excluindo seus radicalismos, abriu importante caminho para definitivamente encarar questões de Saúde Mental de forma objetiva merecedora de tratamento terapêutico. O filósofo Kant – em 1764 – escreveu obra Ensaio sobre as Doenças Mentais sob o aspecto histórico-filosófico que merece consideração. Época em que há um esforço para classificar as patologias mentais e definir um tratamento adequado. Phillippe Pinel (1745-1826) foi e é até hoje referência em Psiquiatria. Revolucionou a Psiquiatria ao iniciar, na França, transformações radicais no tratamento aos portadores de transtornos mentais. A ele se deve também a classificação das patologias de forma acessível, isto é, simples e prática. Pinel se deparou com uma instituição, o hospital de Bicêtre, em Paris, que pode ser comparada, com razão, a uma casa dos horrores. Ali a maioria dos pacientes era abandonada à própria sorte. Pinel, com reta intenção, começou a separar e classificar as patologias em diversos tipos: desvio, alienação mental. Assim surgiram os manicômios, hospitais psiquiátricos. Somente mais tarde foi possível mensurar as consequências tanto dos resultados dos estudos das patologias e sua importância para o futuro da psiquiatria, bem como do cuidado desumanizado gerado pelo afastamento total do convívio social dos portadores de transtornos mentais

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Este movimento de Reforma Psiquiátrica, na época, se estendeu a outros países. Vale destacar aqui expoentes neste campo: Vicenzo Chiarugi, Pietro Pisani (Itália), Johann Langermann (Alemanha), William Tuke (Inglaterra) e Benjamim Rush (USA). Uma vez assumida a condição de patologia, sobretudo, a partir do conhecimento científico, também mudam os paradigmas da Saúde Mental. Estes seguem o curso dos avanços científicos nas mais diversas áreas do conhecimento humano, pois estes se interconectam, se questionam e fundamentam

reciprocamente. Em época posterior ao cientificismo puro, identifica-se maior prudência e abertura necessária para revisão e readequação de paradigmas relativos a uma dimensão ainda bastante desconhecida da vida humana. Este é um pressuposto fundamental para que se possa realizar uma Reforma Psiquiátrica significativa, sem riscos de continuamente retroceder por falta de consistência dos novos modos de ver e fazer intervenções terapêuticas quando se trata do campo da Saúde Mental. Com o avanço das Ciências Humanas, mudam as maneiras de ver e cuidar o portador de transtornos mentais. Com Darwin (1790), Origem das Espécies, a Biologia se equiparou a áreas do conhecimento como a Física e a Química. Várias áreas da Medicina passaram a desfrutar destas Ciências. Neste contexto, problemas psiquiátricos passaram a ser tratados como patologia orgânica do cérebro. Destacam-se nesta época Wilhelm Griesinger (1817-1868), Emil Kraepelin (18561925). Assim foi constituída, a partir do Século XIX, a psiquiatria organicista. Surgia, na mesma época a Psicologia como Ciência, como disciplina desvinculada da Filosofia. Esta, por sua vez, apresentou linhas de tratamento e do estudo da etiologia dos transtornos mentais. São inúmeros os psicólogos que poderiam ser aqui mencionados, com suas respectivas linhas de ação, mas não sendo foco deste estudo, vale ressaltar ao menos Sigmund Freud (1856-1939). Como médico e neurologista deixou importante legado para a Neurologia Clínica. Pai da Psicanálise, ele revolucionou a forma de ver e tratar enfermidades mentais. No início do Século XX surge a obra prima da Psiquiatria. Trata-se da obra de Karl Jaspers, 1913, Psicopatologia Geral, que contribuiu para mudanças significativas no campo da Saúde Mental. Surgiram na sequência, diversas formas de tratamento: Egas Moriz, 1935, lobotomia frontal, Ugo Cerletti e Lucio Bini, 1938, eletrochoque, John Cade, 1949, aprovou o uso do lítio no tratamento da psicose

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maníaco-depressiva. A partir de 1950 começou a ser investido mais na pesquisa de novos fármacos, o que permitem hoje um tratamento medicamentoso mais eficaz.
Com os avanços da genética e da bioquímica do cérebro, aliados ao aperfeiçoamento dos medicamentos que vieram a ser utilizados com eficácia na redução e até na remoção dos sintomas em doenças mentais, o ponto de vista orgânico para o entendimento dos distúrbios psiquiátricos consolidou-se como caminho segurio, seguido por grande parte dos 5 profissionais de Saúde Mental.

1.2

A SAÚDE MENTAL HOJE NO BRASIL

No Brasil, questões de Saúde Mental, tanto as estruturas quanto os modos de cuidar, por falta de uma reflexão e política própria, eram importadas de modo particular da Europa. Não se desenvolveu um estudo próprio sobre a Psiquiatria. No entanto, uma vez integrada neste novo contexto, a Psiquiatria vinda de outros contextos assumia características próprias da cultura e modos de ser e ver o mundo local. Embora não existisse uma política pública e nem estruturas adequadas, a demanda na área de Saúde Mental era significativa. Poucos se aventuraram a escrever sobre este tema deixando uma grande lacuna sobre o tema. Igualmente carecem registros históricos confiáveis neste campo. Na falta de instituições próprias, no Brasil, os cuidados dos portadores de transtornos mentais foram assumidos em diferentes regiões pelas Irmandades da Santa Casa de Misericórdia. Instituições que têm como missão dar assistência aos necessitados, pautados nas obras de misericórdia6, concretizando assim em cada época e lugar a tarefa original da primeira Santa Casa, fundada em 1498, em Lisboa, Portugal, com total apoio da Rainha Leonor. A natureza caritativa destas instituições, no entanto, não era suficiente. O Brasil carecia de estruturas

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RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. Saúde Mental: Dimensão Histórica e Dimensão de Atuação. São Paulo: EPU, 1996. p. 44.
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As obras de misericórdia são as ações caritativas pelas quais socorremos o próximo em suas necessidades corporais e espirituais. Instruir, aconselhar, consolar, confortar são obras de misericórdia espiritual, como também perdoar e suportar com paciência. As obras de misericórdia corporal consistem,sobretudo, em dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar moradia aos desabrigados, vestir os maltrapilhos, visitar os doentes e prisioneiros, sepultar os mortos. Dentre esses gestos de misericórdia, a esmola dada aos pobres é um dos principais testemunhos da caridade fraterna. E também uma prática de justiça que agrada a Deus (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, § 2447)

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apropriadas para atender os portadores de transtornos mentais. Mesmo assim, este modelo de atendimento perdurou até à proclamação da República em 1889, sendo suprida esta necessidade muitas vezes por estruturas físicas anexas aos próprios prédios de hospitais gerais das Irmandades. Alguns fatos históricos demonstram preocupação com espaços próprios para a Assistência em Saúde Mental. Destaca-se aqui trecho do decreto de D. Pedro II Decreto Nº. 82 - de 1841:
Desejando assinalar o fausto dia de minha sagração com a criação de um estabelecimento de pública beneficência: hei por bem fundar um hospital destinado privativamente para tratamento de alienados com a denominação de HOSPÍCIO PEDRO II o qual ficará anexo ao Hospital da Santa Casa de Misericórdia desta Corte, debaixo de minha imperial proteção, aplicando desde já para princípio de sua fundação o produto das subscrições promovidas por uma comissão da praça do comércio, e pelo provedor da sobredita Santa Casa, além das quantias com que eu houver por bem 7 contribuir.

A partir de 1890, o Hospício Pedro II passa a ser chamado de Hospício Nacional dos Alienados. No século XX, surgem novos nomes: O Hospício passa a ser hospital, o alienado passa a ser denominado doente mental, o asilado, interno. Mudanças que de certa forma revelam preocupação com a forma de atendimento dos doentes mentais. E a Lei? O Código Criminal do Império, de 1830, os portadores de transtornos mentais foram denominados loucos de todo gênero. Expressão que se manteve no Código Civil de 1916. Apesar da carência, ou talvez justamente por causa dela, foi criada, em 1923, a Liga Brasileira de Higiene Mental, no Rio de Janeiro. A iniciativa foi do psiquiatra Gustavo Riedel, que lhe conferiu como objetivo máximo o atendimento humanizado dos doentes mentais, ao modernizar as formas de atendimento psiquiátrico. A intenção era nobre, a proposta neutralidade também, porém, ainda cedo, influenciada crença na supremacia das Ciências, especialmente aquelas que,

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SILVA, Antônio Carlos Pacheco e. A proteção aos insanos no Segundo Reino, Revista de Psiquiatria Clínica, [online] 2009. Vol. 36. N.5, p. 226.

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na época, davam suporte científico à eugenia, a Liga se tornou escrava conceitos eugenistas. Os cuidados em Psiquiatria, nas instituições das Santas Casas, por serem instituições caritativas de ampla abrangência, eram geralmente administrados por grupos ou pessoas relacionadas à Igreja Católica, isto é, Comunidades Religiosas delegadas para esta prestação de serviços pela autoridade eclesiástica local, ou ainda, outros administradores de confiança da Igreja. No início do século XX, no entanto, a gestão recai mais e mais sobre médicos e, desta forma, estas instituições caritativas assumem gradativamente um caráter clínico. Nos anos 80 surgiu um movimento social que propôs uma sociedade sem manicômios. Engajaram-se neste movimento, técnicos, usuários, familiares e sociedade em geral. No entanto, não conseguiu alcançar expressão social capaz de fazer superar preconceitos milenares no campo da Saúde Mental. Muitos passos ainda se fariam necessário. A promulgação da Constituição de 1988 e a sanção das Leis 8.080/1990 (Lei Orgânica da Saúde) e 8.142/1990 foi criado e regulamentado o Sistema Único de Saúde (SUS), que significou grande avanço na assistência à saúde no Brasil, cujas ações devem obedecer aos seguintes princípios e diretrizes: Universalidade, Equidade, Integralidade, Descentralização, Regionalização, Participação Popular. Estas diretrizes deram um novo impulso para as reivindicações vindas de diversos segmentos da sociedade e da Associação Brasileira de Psiquiatria. Em 1989, o deputado Paulo Delgado (PT-MG) apresentou o projeto de lei 3.567/89 propondo a extinção gradativa dos manicômios, com substituição dos mesmos por formas mais humanas de assistência. Não foi este o projeto de lei aprovado que garantiu a Reforma Psiquiátrica, pois seguiram estudos posteriores, com aprovação definitiva de um substitutivo, 12 anos mais tarde. Embora ainda não houvesse uma política ampla de assistência, a portaria nº 224, de 29 de janeiro de 1992, do Ministério da Saúde estabelece as diretrizes para o atendimento, definindo vários serviços alternativos: Atendimento Ambulatorial, Centros / Núcleos de Atenção Psicossocial (CAPS/NAPS), Hospital-Dia (HD), Serviço de Urgência Psiquiátrica e leitos em hospital geral. A Portaria nº 106, de 11 de fevereiro de 2000, cria e define as Residências Terapêuticas para pacientes de longa permanência em hospitais psiquiátricos, totalmente desvinculados de suas famílias ou ambiente substituto desta.

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A Lei 10.216, de 6 de abril de 2001, é outro importante passo rumo à assistência humanizada no campo da Saúde Mental. Esta lei tem como objeto a redução de leitos em hospitais psiquiátricos, substituindo-os por uma rede comunitária de atenção psicossocial. Já em 2003, a Lei 10.708, cria o programa De volta para casa e estabelece garantias de apoio para a reintegração social dos pacientes após longo período de internação. A Portaria N.° 52, de 20 de janeiro de 2004, cria o Programa Anual de Reestruturação da Assistência Hospitalar no SUS, o que constitui um processo de redução gradativa dos leitos hospitalares. A Reforma Psiquiátrica é um processo político-social complexo. Importar medicamentos e procedimentos terapêuticos, com certeza, é muito mais simples do que implantar um amplo processo de reintegração social de uma categoria até então era marginalizada. A história da Psiquiatria de todos os tempos está permeada de registros de exclusão social e discriminação. Qual o significado maior da Reforma Psiquiátrica? Resumidamente pode se dizer: O resgate da cidadania através do respeito pelos direitos e reintegração social do portador de transtornos mentais. O que parece simples, no entanto, é a dimensão mais completa e sentido último de todo o processo da Reforma Psiquiátrica. A nova filosofia do tratamento, geradora da Reforma Psiquiátrica, alarga os cuidados através do atendimento por uma equipe multidisciplinar e inclui também a família na educação para a Saúde. Enquanto antes se concentrava a atenção na possibilidade de cura, hoje se insere e educa a família de forma que se capacite para lidar com o doente:
Quando a onda de realismo finalmente atingiu a comunidade psiquiátrica americana, vários psiquiatras se posicionaram na vanguarda da nova filosofia de tratamento. Por exemplo, William McFarlane reconhecia que muito poderia ser feito para melhorar as vidas de pacientes esquizofrênicos se, em vez de se tentar “curar” a condição subjacente, os membros da família fossem educados sobre a natureza da doença dos seus parentes; sua cronicidade, a vulnerabilidade do paciente a censuras e críticas (como se o parente esquizofrênico desempregado fosse simplesmente “mimado” ou “preguiçoso”, os sinais premonitórios de crise iminente (a fim de que a recaída pudesse ser prevenida) e a necessidade de farmacoterapia a longo 8 prazo.

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STONE, Michael. A Cura da Mente: A história da Psiquiatria da Antiguidade até o Presente. Tradução de Maria Cristina Monteiro. Porto Alegre: Artmed, 1999, p. 309.

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É essencial que se capacite a família para acompanhar e dar suporte à terapia medicamentosa e formas complementares. Tudo começa pela importância de compreender as patologias psiquiátricas. Para que isto aconteça é necessário um programa permanente de educação em Saúde Mental. Hoje estes espaços fazem parte do quadro de atividades das instituições / clínicas psiquiátricas.

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ELEMENTOS DA RELAÇÃO ENTRE SAÚDE MENTAL E FÉ / RELIGIÃO

O diálogo entre fé e medicina se tem acentuado nas últimas décadas. De um lado isto se deve ao fato de um reconhecimento dos direitos do pacientes, assegurados pela Lei Magna do Estado e de outro por um novo paradigma na área da Saúde, o do atendimento integral do ser humano, que inclui sua dimensão espiritual.

2.1

DEUS NO CORAÇÃO DAS PESSOAS

Como Deus é Transcendência, só o compreendemos com imagens que dele Deus para si. Deus, portanto, se configura de acordo com a nossa experiência pessoal e comunitária, nossas possibilidades e limitações. É fácil, por isso, encontrar pessoas que tem imagem positiva de Deus – Deus de amor e misericórdia – e outras com imagens negativas – o Deus cruel que castiga. Uma imagem extremamente negativa, parcial, absolutizada determina as relações com o Transcendente, mas também com os semelhantes.

O Deus julgador / punidor leva por vezes pessoas a questionar o comportamento de uma pessoa quando não está no padrão normal, sobre uma possível culpa desta, capaz atrair o mal para toda a família. Sua ausência ou distanciamento, poderia, em tese, amenizar o mal para outrem. Há neste caso muitas vezes uma preocupação escrupulosa para cumprir normas e regras religiosas e o não cumprimento por parte da pessoa afetada é tido como uma fonte de

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desgraça por parte da família e pessoas do entorno. A idéia é ser justo e irrepreensível (cf. Fl 3,6) perante a Lei. O Deus da morte aparece em pessoas que, pela sua patologia, se sentem não desejados. Percebem-se um peso sem sentido para os que lhe são próximos. A família, por sua vez, expressa muitas vezes seu desgosto pela situação gerada pelo membro afetado. Sonha, na sua presença, com situações mais agradáveis e realizadoras. Neste caso, identifica-se muitas vezes o isolamento do paciente tanto por si próprio, como pela família. O Deus legalista motiva a participar avidamente de devoções e rezas como forma de santificação. Como as condições da vida nem sempre permitem então gera-se um conflito familiar, de um lado pode a família motivar e exigir sempre mais devocionais, de outro demover o paciente de suas devoções por achá-los exagerados. O Deus da eficiência é outra imagem que, especialmente em condições de situação-limite, entra em choque com valores humanitários importantes. Se a pessoa não tem como produzir algo relevante para a família e a sociedade, que sentido tem a vida? O amor de Deus deve ser conquistado com méritos adquiridos pela eficiência. Esta imagem rouba qualquer forma de sentido de vida. Que imagem? Que relação com o Transcendente devem ser desenvolvidos para que a experiência de Deus seja construtiva em todas as condições de vida? Que imagens precisam ser construídas especialmente em condições de situaçãolimite? Que respostas se pode dar a partir da fé cristã?

2.2

UM DEUS DE AMOR E TERNURA

"Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância" (Jo 10.10). Com estas palavras, Jesus fala do seu Plano de Salvação e Libertação estendido a todas as pessoas, desconsiderando qualquer condicionante. Vida plena é possível em todas as circunstâncias, pois não se fala ali de produção, mas sim, simplesmente de vida e do sentido de viver. A experiência humana de Deus torna-o mais próximo da experiência das limitações especialmente experimentadas em situação de doença – de falta de

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Saúde Mental. Experimentar-se humano é, portanto, a mais profunda experiência compartilhada com um Deus que se fez humano, que é amor e misericórdia. A imagem de Deus ternura e misericórdia é fundamental para um grande processo de perdoar-se e crescer interiormente de forma que haja um pressuposto bastante forte para uma verdadeira reintegração social a partir da fé – da fé cristã. A reintegração social provocada por Cristo é a reintegração plena dos marginalizados da sociedade: o pobre, o doente, a mulher samaritana, as crianças... O que está à margem deve vir ao meio: “Ele diz ao homem da mão seca: Vem para o meio” (Mc 3,3). Vem para o meio! Estar no meio é estar integrado no grupo social. Jesus é apelativo, não condiciona, simplesmente convida. Vem para o meio! Chama-se para o meio quem é aceito no grupo. Jesus convida para o meio, o que requer uma iniciativa e um querer de quem é convidado para o meio. Se este não protagonizar este ir para o meio, ele não acontece. Nisto reside a grandeza e distinção da reintegração social cristã. É capacitar para que o portador de transtornos mentais assuma seu papel de protagonista de sua vida. Provavelmente, uma das mais graves doenças, no tempo de Jesus, pode ter sido a apatia perante a vida. Que elemento comum encontramos nos milagres? Qual o maior dos milagres? Repetidas vezes, Jesus apela: Levanta-te! Só depois acontecia o milagre. Nenhuma pessoa caridosa foi chamada para ajudar. É porque Jesus queria a contribuição efetiva, o protagonismo do seu interlocutor. Apelo este que aparece em diversas passagens bíblicas: Mt 9.5; 9. 6; Mc 3.3, Lc 5.23 Mt 2.13; Mc 4.42; Lc 15.18. Reintegração social sob a ótica cristã é, portanto, um processo lento e seguro de superação e domínio da própria vida, de protagonismo e realização pessoal e da relação com um Deus acolhedor e dinâmico, que ama e capacita para o amor.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

A imagem de Deus que propicia relações humanas harmoniosas entre portadores de transtornos mentais e suas redes sociais é aquela que o próprio Cristo nos apresenta. Ele acolhe e salva a todos e não quer outra coisa do que a felicidade de cada ser humana. Trata-se de um Deus do amor e do perdão capaz de levar pacientes e familiares a um longo processo de reconciliação com a história da vida. O perdão liberta e torna capaz para o protagonismo, para a identificação de um sentido pleno de vida não condicionado a qualquer tipo de limitação. A experiência do amor de Deus é fundamental para a aceitação da própria condição e o desenvolvimento de habilidades e o protagonismo em relação à vida e a configuração da vida pessoal e social. A reintegração social, bandeira da recente reforma psiquiátrica, requer uma nova relação com o Transcendente. A valorização pessoal não pode conflitar com a imagem de Deus. A fé em Deus não pode levar a passividade, a conformidade com a situação que pode e deve ser mudada. É preciso reconhecer as habilidades e possibilidades à luz da fé num Deus que acolhe todos igualmente e quer que sejam felizes através da auto-realização no desdobramento de habilidades pessoais.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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