P. 1
Sexo Tantrico

Sexo Tantrico

|Views: 162|Likes:
Publicado porBernardo Do Amaral

More info:

Published by: Bernardo Do Amaral on May 26, 2012
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

07/23/2013

pdf

text

original

Experiência sexual e iluminação na tradição tântrica

Paulo A. E. Borges (Universidade de Lisboa)

Se quase todo o pensamento oriental é muito mal conhecido num Ocidente cuja consciência de si, nessa “amnésia filosófica” de que fala Roger-Pol Droit 1, parece ter-se constituído num esquecimento, quando não numa incompreensão e num repúdio, da metade oriental da sua humanidade e do riquíssimo património espiritual e cultural que o precede, acompanha e naturalmente lhe pertence, o mesmo se dirá, com maior propriedade, da tradição tântrica. Mal compreendido, olhado com suspeição e por vezes rejeitado mesmo na própria Índia, devido à sua atitude iconoclasta, transgressora dos preceitos da religião védica e da moralidade comum como via de uma mais rápida, eficiente e profunda realização das supremas possibilidades do homem, não apenas mas também pelo recurso à sexualidade, real e simbólica, o chamado tantrismo, hindu ou budista, não deixa de chegar hoje até nós, ocidentais do século XXI, filhos da recusa dos valores tradicionais e da cisão entre o corpo e o espírito, nimbado de uma auréola estranha mas sedutora. Todavia, a degenerescência de alguns dos seus praticantes, não das suas práticas, bem como as vias da sua recente divulgação ao grande público ocidental – o “esoterismo” exótico e exotérico e os artigos das revistas mundanas, particularmente femininas, sobre como aumentar o prazer sexual, alimentando a ficção de que o dito tantrismo se limita à exploração da sexualidade, sobretudo se entendida de forma comum - , não parecem constituir os melhores meios para se compreender o sentido profundo e sério dos Tantras. Por outro lado, e numa reflexão auto-crítica, melhor meio para essa compreensão não será decerto este mesmo estudo, que tem naturalmente os limites de toda a abordagem teórica de uma experiência eminentemente vivencial e prática. É exortando a ela que nos ocorrem os pro-vocadores versos de Luís de
1

Cf. Roger-Pol Droi, L’Oubli de l’Inde. Une amnésie philosophique, edição revista e corrigida, Paris, P.U.F. 1989.

Camões, a respeito do vivido na Ilha dos Amores: “Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo” 2. Não podemos aqui discutir a questão complexa das origens da tradição tântrica, onde alguns pretendem ver o desentranhamento esotérico dos Vedas e do ensinamento do Buda, outros a manifestação, no seio da religião védica e do budismo, da religião anterior às invasões indo-europeias, a religião dos povos dravidianos, doravante marginalizada e tornada apanágio das castas mais baixas, cujos símbolos restariam nas ruínas de Harappa e Mohenjo-Daro, restos da Civilização do Vale do Indo, remontante a 3000 anos A. C., e outros ainda a reformulação de arcaicas práticas chamânicas, ou mesmo de ritos préhistóricos, ligados ao culto da Deusa-Mãe e da fertilidade. O que é um facto é que a síntese hinduísta da tradição védica acabou por integrar substanciais elementos tântricos, se é que eles não estão já presentes, como cremos, nos próprios Vedas. Por outro lado, se aqui falamos de tradição tântrica em geral, não deixa de ser necessário observar que, para além dos elementos afins, existem diferenças fundamentais e específicas entre o tantrismo hindu e o budista, sendo uma delas de capital importância: ao contrário do que acontece no hinduísmo, todas as práticas tântricas budistas supõem o desenvolvimento preliminar e jamais abandonado da aspiração própria do Bodhisattva, o chamado bodhicitta, ou seja, o desejo profundo de atingir a Iluminação, ou o estado de Buda, para o bem último de todos os seres sensíveis, para a sua libertação suprema. Outra diferença importante diz respeito à oposição das características e simbolismo sexual das polaridades em que se manifesta a nãodualidade do real: no Tantra hindu o princípio passivo e cognitivo é masculino, enquanto o activo é feminino; no Tantra budista, o princípio estático, relacionado com a vacuidade e a sabedoria, é feminino, enquanto o dinâmico, relacionado com a compaixão, é masculino 3. Decerto que “tantrismo” é, como todos os “ismos”, uma palavra forjada pelo espírito ideológico ocidental. A palavra “Tantra” parece nalguns casos não significar senão “livro”, com um género e conteúdo específicos 4, ou, consoante a raiz tan-, remeter para ideias como
2 3

Luís de Camões, Os Lusíadas, IX, 83. Cf. Agehananda Bharati, The Tantric Tradition, Londres, Rider Books, 1992, p.19. 4 Cf. L’enseignement secret de la Divine Shakti, antologia de textos tântricos traduzidos do sânscrito e apresentados por Jean Varenne, Paris, Bernard Grasset, 1995, p. 25.

Ritual. ou mesmo superior. Bhattacharyya. N. Art. no hinduísmo.18-19. Segundo um ensinamento oral de Jigmé Khyentsé Rinpoché. 8 – a transmutação do veneno em remédio. Madrid. Vejamos algumas características gerais que nos permitem falar de tradição tântrica e situar o tratamento do nosso tema: 1 – a sua apresentação como a manifestação do sentido mais profundo da tradição hindu e budista e uma via mais rápida para a realização integral do ser humano. a mesma palavra designa a própria natureza de Buda. Guenther. Editorial Eyras. “expandir” (a consciência e as faculdades) 6. particularmente adaptada às condições espirituais de uma era como a nossa. 1982. bem como às personificações femininas da Sabedoria. dos obstáculos e factores de queda espiritual em via de progresso mais rápido. An historical. ritualistic and philosophical Study. 1999.9. para sempre e a cada instante. a do Kali-Yuga. Mãe de todos os Budas. 7 – a centralidade da referência à energia e polaridade feminina do divino (Shakti). p. 2 – o rigor dos seus preceitos próprios. utilizando-se a energia das emoções e paixões. desde sempre. p. cuja extrema decadência se considera poder ser transmutada numa oportunidade superior de libertação. acompanhado da liberdade em face dos valores morais comuns. Em tibetano a palavra para Tantra é rgyüd. pp. Londres. em todas as suas manifestações 7. como Tara. que significa uma conexão ou algo que une as coisas. “propagar” 5. nomeadamente a pontual infracção ritual do regime vegetariano. ingerindo-se carne. The Tantric Way. incluindo os divinos e o próprio absoluto. N. a rejeição do regime de castas e a consideração da mulher igual ao homem. Ajit Mookerjee e Madhu Khanna. La Visión Tantrica de la Vida. significar “integração” e “continuidade”.20. . Thames and Hudson. no caso do Tantra budista. ou ainda. ou as suas consortes. 6 – a utilização das energias profundas e subtis do corpo como via para a iluminação.“difundir”. 4 – o sentido eminentemente prático e não intelectualista das suas doutrinas. 1996. Manohar. History of the Tantric Religion. nas iconografias. 5 – a utilização de rituais e visualizações como suporte da meditação. ou seja. 3 – a atitude iconoclasta e transgressora a respeito da religiosidade institucional e convencional. Science. peixe e álcool. no budismo. em termos espirituais. Nova Deli. mesmo as aparentemente mais negativas. 6 Cf. a eles unidas sexualmente. integração da consciência e do individual no real. considerando-se o corpo individual como microcosmos onde estão contidos e acessíveis todos os níveis da realidade macrocósmica. 7 Cf. continuidade deste mesmo real. como veículo libertador. Herbert V. 9 – o central e 5 Cf. isso que está continuamente presente na mente e nos fenómenos. Mãe de todos os deuses e de toda a manifestação.

há que recordar que já desde os Vedas os mitos de origem recorrem abundantemente ao imaginário sexual. S. The Himalayan Institute Press. cf. como aliás em muitas outras tradições. Tantra Unveiled. Ses pratiques. Tantra in Practice. editado por David Gordon White. de realização plena de todas as potencialidades do ser e da consciência individuais no reconhecimento da sua identidade com o absoluto. bem como. An Introduction to Tantric Buddhism. Deli. Guenther. Principles of Tantra. AGHORA. Le Yoga Tantrique. Paris.)” – Agehananda Bharati. além das já referidas. 1983. nalguns casos. No que respeita ao hinduísmo. The Power in Tantra. La Vision Tantrica de la Vida. Um conhecido texto cosmogónico (Rig Veda.18. X. . como o renascimento em reinos infernais. Introduction à l’Hinduisme Tantrique. 10 – o cultivo da visão da perfeição e pureza de todas as coisas..abundante recurso ao imaginário sexual na meditação. Honesdale. 1998. S’akti and S’akta. The Himalayan Institute Press. Para outras obras sobre o tantrismo em geral. Nova Deli. Paris. Sakti. como a obtenção de poder mágico ou prazer sexual. At the left hand of God. Bhattacarya. introduções de Arthur Avalon e Sriyukta Barada Kanta Majumdar. 1998. JC Latès. 1999. L’initiation d’un occidental à l’amour absolu. Albin Michel. 1996. Nova Iorque. expõe o indivíduo aos mais graves riscos físicos e espirituais. 2003. tradução de Gabrielle Robinet. Jean Varenne. métaphysique. 1992. David Kinsley. a prática deste caminho sem a orientação de um mestre. 1997. a prática real da união sexual como via de iluminação e de uma beatitude não só espiritual mas também física. 1972. Honesdale. Dover Publications. secrecy. Não sem antes advertir que. Madrid. 129) apresenta a passagem do indiferenciado 8 “What distinguishes tantric from other Hindu and Buddhist teaching is its systematic emphasis on the identity of the absolute (paramartha) and the phenomenal (vyavahara) world (.. Munshiram Manoharlal Publishers. tradução de M. Berkeley / Los Angeles / Londres. Hugh B. Berkeley. AAVV. Shibata. Tantra. Dervy Livres / Trismégiste. Editorial Eyras.. p. University of California Press. ou para fins mundanos e egoístas. 2000. editado por Arthur avalon. Robert Svoboda. enfatizando-se a identidade do absoluto e do fenomenal 8. Shambhala. Paris. Nadras. Arthur Avalon. 1960. 1974. Le Tantrisme. segundo a tradição hindu e budista. tendo sempre consequências extremamente nefastas. The Tantric Tradition. 1980. Id. Pandit Rajmani Tigunait. Urban. Dasgupta. B. ou seja. The World of Tantra. Herbert V. Tantra. Oxford University Press. Sa métaphysique. Albuquerque/Bellingham. politics and power in the study of religion.. 1999. Julius Evola. 1999. É neste contexto que passamos a ocupar-nos do nosso tema.. Ganesh & Co. prefácio e tradução de Arthur Avalon. Princeton / Oxford. Sex. para além de quaisquer dualidades e antinomias conceptuais. Seducing the forces of matter & spirit. 1998. se pensarmos em Hesíodo e nas teocosmogonias órficas. B. Tantric Visions of the Divine Feminine. o infinito e a totalidade. Daniel Odier. Motilal Banarsidass. rites. Mythes. Fayard. procurando expor os fundamentos metafísicos e psicofisiológicos da utilização da energia e experiência sexuais como via de iluminação. Tantra of the Great Liberation. incluindo a grega. Brotherhood of Life / Sadhana Publications.. Madras. Ganesh & Co. Id.

flutua sobre a “Onda” primordial. Ao invés de ver no teor sexual dos mitos de origem. meras alegorias antropomórficas da sexualidade humana. onde o mundo.225-226. 1.60-62. o Uno. Cf. de novo. A diferenciação originária é inerente ao “desejo” (kama). de “cavalos” ou “vacas”. pp. 23. há aqui uma possível “conotação sexual”. como resultado do seu “ardor” (tapas). p. como se o mundo resultasse da “emissão do sémen” 10 . do tantrismo. onde Prajapati. dito “a semente primeira da Consciência”. Se o “fazer correr” ou “fluir” se associa à imagem mítica do “escoamento” ou “fluxo impetuoso (um jorro. Gallimard/Unesco. traduzidos do sânscrito e anotados por Louis Renou. in Jean Varenne. “fazer correr” ou “fluir”. Ora.125-126. Mais explícito é um outro texto. já o “emitir” se prende quer com o simbolismo do som (nada). como veremos. 23. como nota Jean Varenne. o Taittiriya Aranyaka. evoluiu. sendo curioso que a posição habitual parece inverter-se. comparativamente. no final do período védico. Rg-Veda. 1. cujo primeiro sentido. Cosmogonies Védiques. se representa como fruto de um jogo erótico 11.. bem como do “ardor” já referido. para “emitir”. abundante no Yoga e no tantrismo. 1982. estado imanifestado do universo. . uma torrente) de águas”. de um absoluto auto-excitado e incontinente pelo desejo de libertar algo de excessivo.268 e nota 3. Les Belles Lettres/Archè. X. o 9 Cf. Cosmogonies Védiques. que emanam de si as primeiras formas cósmicas. 129. estando “em cima” o feminino e “em baixo” o masculino 9.primordial à sua primeira determinação. E a continuidade da constituição do mundo parece atribuir-se ao relacionamento sexual entre os “doadores de semente” e o que os acolhe. pelo qual no “não-Ser” surge o “Ser”. vencendo o Dragão que as guardava . bem como do relacionamento entre deuses e deusas. pp. Paris/Milano. que significativamente cita o anterior. Taittiriya Aranyaka. termo que designa o fervor da ascese espiritual mas também o da excitação sexual. É pelo desenvolvimento no seu íntimo do desejo (kama) de “deixar fluir” essa “Onda”. dominante nas especulações do Samkhya e. 1985. 11 Cf. 10 Cf. também Jean Varenne. “até então retidas prisioneiras” – conforme o mito da libertação das águas primordiais por Indra. Jean Varenne. diríamos nós. É deveras significativo que a raiz etimológica predominante nos termos do sânscrito clássico designativos do acto criador seja SRJ-. pp. ou. Cosmogonies Védiques. quer com o da ejaculação. diferenciação henológica e personificação demiúrgica do Brahman. in Hymnes Spéculatifs du Véda.

Le secret de la relation entre l’homme et la femme dans la cabale. o desejo erótico (Rati) é uma impulsão instintiva”. não é estranha num universo onde desde sempre o erotismo e a experiência sexual são sagrados. no sentido do regresso ao Todo indiferenciado. Fernando Ribeiro de Mello / Edições Afrodite. pelo brâmane Vatsyayana no final da vida. seguido de “Métaphores et pratiques sexuelles dans la cabale” por Moché Idel. enquanto “a procriação está ligada à moral e aos bens materiais. de renunciante. Goldkorn. tradução de Ana Margarida Paixão. este último é curiosamente o que mais se aproxima do fim trans-mundano que é moksha. Editora Bertrand Brasil. Esta assunção da sexualidade no centro da constituição da realidade. Madeleine Biardeau. as vertentes mais profundas das sabedorias orientais sempre colocaram a sexualidade no centro da relação do homem com o cosmos.pensamento tradicional e indiano considera intrinsecamente sexual essa força originária que preside à constituição do mundo. um texto fundamental como Lettre sur la Sainteté. dela vivem e nela se dissolvem. 14 Cf. tradução do hebreu e comentários por Charles Mopsik. com destaque para a Cabala judaica. Rio de Janeiro. Daí que o conhecido Kama Sutra. cumprindo o Dharma pela sua própria superação 15. que o erotismo é a primordial força criadora em termos cósmicos e humanos e que todos os seres procedem da “felicidade” (ananda). não visando a 12 13 Cf. Lisboa. Cf. assumiram e assumem na união sexual um sacramento e um modo privilegiado de comunhão com Deus 13 . . a busca da riqueza. meta-humana e trans-individual 12.69-87. 1986. Flammarion. parecendo singular para a consciência ocidental. uma vez chegado ao estado de sannyasin. o comentador Devadatta Shâstrî sustenta que Kama/Eros é “o primeiro dos deuses”. p. O. a realização do desejo e do prazer erótico . A Magia Sexual. Antígona. 1976. 1994. É por isso que. redigido. ou uma via para o poder mágico 14. Dolores Ashcroft-Nowicki. artha. reconhecendo-lhe uma dimensão principial. possa ser lido no sentido de sugerir algo próximo da visão tântrica: ou seja. A Árvore do Êxtase. o viver de acordo com a ordem global. Anthropologie d’une civilisation. estudo preliminar. referindo-se aos Vedas e a textos como o Taittirîya Upanishad. a libertação. tradução de Roberto B. 1995.173. a qual. Alexandrian. segundo o comentário de Yashodhara. religiosa ou laica.. e kama. pp. sócio-cósmica. segundo a tradição. Assim quando. 15 Cf. Rituais de Magia Sexual. essa pulsão primeira donde surgem todas as coisas. 2002. que dos três fins próprios do homem que vive no mundo – dharma. Julius Evola. A Metafísica do Sexo. como um arquétipo de que a sexualidade humana não é senão uma das suas múltiplas manifestações cósmicas. Éditions Verdier. L’Hindouisme. Enquanto no ocidente só algumas tradições esotéricas. Lagrasse. o divino e o absoluto.

21-24. o resultado do amor é não ser mais que um só pensamento. Vâtsyâyana.. 1977. p. com a instrumentalização da mulher como reprodutora. pela identificação dos espíritos.) como animais” . Le Bréviaire de l’Amour. publicado originalmente sob o título L’Érotisme divinisé. Le Bréviaire de l’Amour.. 20 Cf. A beatitude da 16 Cf. como veremos. 19 Cf. e que se pode abrir a uma transcensão da própria condição humana e cósmica. pp.. onde homens e mulheres. seja a grega. fotografias de Raymond Burnier. comentário Jayamangalâ em sânscrito de Yashodhara. Éditions Buchet-Chastel. Jean Varenne. Quando o amor deixa diferentes os pensamentos (de cada um). Primeiro pelo cuidado do prazer mútuo e depois. como a cidade santa de Varanasi. ou a do amor cortês. Vâtsyâyana. explica a sua sacralização em quase toda a Índia. Instinto todavia espiritual termina por ser “a pedra de toque da virtude” 17 16 que e da realização superior do homem. 1992. no apogeu desse prazer. de que serve o recolhimento – dhyana ? De que serve o acto amoroso ?”. é um fim em si mesma. 18 Cf. sendo na verdade aqueles “que não compreendem o significado último do prazer sexual” que “se comportam (. traduzidos por Alain Daniélou. da união divina. Ibid. Id. 1995. esta assunção da experiência erótica e sexual como a menos mundana das experiências. Cf. integrante e afim do já atrás citado Taittiriya Aranyaka. Kâma Sûtra. Madeleine Biardeau. O primeiro texto referido é o Taittirîya Upanishad. pp. 17 Cf. que o 18 distingue dos animais. extractos de um comentário em hindi de Devadatta Shâstrî. Como diz um outro tratado erótico. É assim que outro texto. a romana.34.23 e 41.6. até à sua tradução arquitectónica e escultórica nas magníficas figuras de pedra dos templos de Khajuraho. edição aumentada.. Sobre o erotismo na arte . Monaco. Alain Daniélou. sobretudo nas regiões shivaítas. em que é fonte do prazer masculino. se amam em todas as posições e amplexos da profunda beatitude extática 20. assimila muito significativamente o acto sexual e a meditação. Nos antípodas das raízes das concepções ocidentais do amor. pp. a Centúria da Paixão Amorosa: “Neste mundo. Éditions du Rocher. pp. L’Hindouisme. 85-86. 2.. Kâma Sûtra. com a sua valorização da relação psicológica inter-pessoal 19.290-291. Flammarion. La Sculpture érotique hindoue. é como se aí houvesse a união de dois cadáveres”. Anthropologie d’une civilisation. ícone vivo. na medida em que têm o mesmo fim de realizar a absorção transcensora da cisão sujeito-objecto e da decorrente errância do pensamento conceptual: “Quando o pensamento não é reabsorvido no acto amoroso e na concentração yógica – samadhi .obtenção de nenhum objectivo. desde a omnipresença da conjunção do linga (falo) e da yoni (vagina) nos lugares de culto. deuses e deusas.. Cosmogonies Védiques. O sentido desta realização superior é o do despojamento de si pela fusão com o outro. o Sarngadharapaddhati.

tu és o que eu sou ! / Eu sou o Céu. 2002. É a esta luz que podemos compreender as concepções propriamente tântricas do Kundalini Yoga. A questão é que a chamada criação. teológica e religiosamente vistos como o Deus e a Deusa primordiais. Pai-Mãe. produzida pelo desejo de fruição individual do oriental. p. Editorial Presença. Isto. Erotic Art of India. embora idêntica à “Consciência pura”. como o nome indica. eu sou a Melodia !” 21. no seu aspecto transcendente. Nova Iorque.30-32. 1977. destinada a ser reabsorvida no regresso ao homogéneo (pralaya. 21 Le Veda. Arthur Avalon (Sir John Woodroffe).. não muda. 22 Cf. Erotic Art of the East. pelas impressões mentais e tendências inconscientes produzidas pelas acções. o poder de formação de um mundo determinado e limitado. É essa energia residual. tradução de Pedro Tamen. O absoluto primordial. que é a sua Maya. respectivamente. Paris. pelo karma acumulado. cuja fundamentação metafísica recorre abundantemente aos textos védicos. Barcarena. de Shakti. prefácio de Jean Herbert. ou ignorância potencial (Avidya). é uma unidade com dois aspectos: o estático e o dinâmico. tudo no universo. sem um início primeiro. dissolução). cf. Id. Thames and Hudson. é a “potência” de manifestação que. tradução de Jean Varenne. ou Shiva. Dervy-Livres. pela cíclica activação de Maya. a beatitude das eternas núpcias do Céu e da Terra.398.plena integração recíproca.: Philip Rawson. É assim que. 1995. introdução de Alex Comfort. incluindo o homem. por todos os seres. citado in Michel Hulin e Lakshmi Kapani. a leva a manifestar-se/experienciar-se nos planos da mente. . mas antes de “Forma do Sem forma”. La Puissance du Serpent. Nova Iorque. pp. ser (sat). também. tu és a Terra ! / Tu és a Estrofe. The Art of Tantra. sob a direcção de Jean Delumeau. eu sou ! / E tu. indiana e tântrica. traduzido por Charles Vachot. da vida e da matéria. não é senão uma impulsão e um resultado ocorrido à superfície da imutável Consciência pura. determinando o infinito sem forma no mundo das formas. Gallery Books. Introduction au Tantrisme. Berkeley Publishing Corporation. ou seja. é uma determinação da unidade primordial que é Shiva-Shakti. sem a afectar. aqui não no sentido de “ilusão”. masculino-feminino 22. personificados em Shiva e Shakti. Londres. constituído pelo “Samskara ou Vasana colectivo”. “O Hinduísmo”. enquanto sob o seu aspecto imanente. pelo “processo criador (Pravritti)”. Id. em universos anteriores. 1985. The Sexual Theme in Oriental Painting and Sculpture. A este respeito considera-se que Shiva. Shakti. consciência (chit) e beatitude (ananda). experiencia a mobilidade. enquanto passagem do homogéneo (mulaprakriti) ao heterogéneo (vikriti). par divino que em si são um só.. in AAVV. 1993. Como se canta na belíssima fórmula ritual do casamento védico: “O que tu és. As Grandes Religiões do Mundo.

que vela a Consciência absoluta. embora em todos os chakras se conjuguem o Deus e a Deusa. o monte Meru . que no início de cada novo ciclo da manifestação não pode suster o desejo de ser que nele resta dos ciclos de manifestação anteriores. Ibid. ao mesmo tempo que o sexualiza ao fazer surgir unidas na sua distinção as suas duas polaridades antes indiferenciadas. Ibid. que. no sonho e na vigília e designados como “karanasharira”. no centro superior (sahasrâra) desta psicofisiologia subtil 23 24 Cf.. enquanto de-terminação dessa Consciência primordial. pp.38-39 e 43-45. . Como no plano macrocósmico e em todos os seres.. o primeiro centro da manifestação 24.. não é senão a reemergência do cúmulo de todas as experiências individuais dualistas e do seu desejo de existência separada.em sete principais centros ou “rodas” (chakras) de energia e funções psicofísicas. desde o topo do crânio até à base da medula. Alguns textos descrevem esta união entre Shiva e Shakti como um enlace sexual (maithuna) cujo ardor é nada. p. activando Shakti. p. experienciados no sono profundo. da raíz shri. A emanação de Shakti estrutura o organismo humano ao longo da coluna vertebral – análoga ao eixo do mundo. “sukshmasharira” e “sthulasharira” 25 . projectando a experiência passada na plasmação do mundo a vir. “desejosa de criação. É então..52. pp. a criação é a incontinência do Absoluto. o som primordial do qual emana Mahabindu. Ibid.. Ibid. o desejo (kama) cosmogónico que emerge do Absoluto primordial e o ex-cita convertendo-o em mundo. Como vimos ser sugerido pelos mitos védicos.mundo e reprodutora desse mesmo desejo. do corpo subtil e do corpo de matéria grosseira.) se cobre com a sua própria Maya”.. “definhar” 26 . portadora dos princípios do mental e da matéria. constitutivos do universo 23. Cf. se torna “Vikarini”. e. como “Maya Shakti”.60-62. que. em cada ser humano Avidya Shakti é a potência de velamento e envolvimento da Consciência pura e absoluta nos planos progressivamente emanados do corpo causal. 26 Cf. Nesta perspectiva.71. o que indica o carácter efémero e evanescente de toda a manifestação. simbolizados por várias flores de lótus. (. ao mesmo tempo que se mantém na “louca voluptuosidade da Sua união” com Shiva. 25 Cf.

as energias positiva e negativa. Fayard. L’Énergie des Profondeurs. La Puissance du Serpent.59-68. 1983. Swâmi Muntananda. Ibid. atinge a narina esquerda.. circundando assim os chakras e reunindo-se no centro frontal.11. Gopi Khrishna. que os Tantras enumeram entre 72000 e 350000. o Deus e a Deusa. Shakti. 27 Cf. 28 Cf. no interior do mesmo indivíduo. Myths and Symbols in Indian Art and Civilization. l’enérgie évolutive de l’être. conhecidos da medicina ocidental. situado à sua esquerda. Ajit Mookerjee. onde os canais colaterais se unificam no central. pp. pp. Robert Svoboda.reside fundamentalmente Shiva. The Arousal of the Inner Energy. 1992.167-170. símbolo da divina energia vital. cruzam-se da direita para a esquerda e da esquerda para a direita. 1986. da raiz “nad”. 1992. Integral Publishing. La Kundalini. 32 e 35. le secret de la vie. contendo diversas forças divinas e condicionando diversos níveis de percepção e estruturação do mundo.113-116. que atravessa todos os chakras. o Sol. Sobre a kundalini. Kundalini. . JC Lattés. Heinrich Zimmer. obedecem à tripartição do corpo em três níveis. Introduction au Tantrisme. subtil e grosseiro. Os chakras são atravessados e animados pela circulação do “prana”. indo desde os nervos. princípio luminoso de revelação da consciência. prefácio de Madeleine Biardeau. pp. que. Sobre a kundalini e a serpente na mitologia hindu. a Lua. ida ou shashi. de natureza feminina. numa perfeita circulação onde se complementam e comutam. Kundalini. num simbolismo complexo que aqui não podemos descrever. ligando o superior ao inferior. simbolizada por uma serpente “enrolada” (kundala. e o contraste com a sua maldição na mitologia grega e na tradição judaico-cristã. e pingala ou mihira. estática e dinâmica. pp. The Kundalini Experience. traduzido do alemão por Michele Hulin. Estes. Kundalini. Lilian Silburn. masculino. 1995. enquanto no centro inferior (mûlâdhâra) se condensa a sua energia vital. se relaciona particularmente com um dos três modos de manifestação de prakriti. Lee Sannela. Destiny Books. Le Relié. Cf também Id. 1999. causal. enquanto o canal feminino. “movimento”. Rochester. Kundalini. Saraswati. Partindo do chakra inferior. cf.. a energia vital. rajas. Os mais importantes são três: sushumna. até uma constituição extremamente subtil. Les Deux Océans. Estas mesmas energias. 1987. situado à direita. Maya ou le Rêve Cosmique dans la Mythologie Hindu. a “natureza” de onde procedem todas as coisas: sattva. estão presentes em cada chakra. atinge a narina direita. a Consciência. como três rios que se separam. entre as sobrancelhas. o canal masculino. situado no interior da medula. donde o nome de kundalini) sobre si mesma e adormecida 27. Arthur Avalon (Sir John Woodroffe). Antes disso. 1999. Shiva e Shakti 28. Aghora II. Princeton University Press. em finos canais designados “nadis”. que se constitui a partir do lado esquerdo do corpo. cf. veias e artérias. solar e lunar. que depois da separação parte do lado direito do corpo. editado por Joseph Campbell.

ajna. a abertura superior do corpo subtil pela qual o princípio de consciência individual. Ibid. “sai” para se reintegrar no Absoluto. tamas. o Shiva sem atributos. a serpente enrolada três vezes e meia em torno do linga.. e a Shakti liberta de toda a criação. para a criação/percepção dualista do mundo. Diz-se que a serpente cobre com a sua cabeça o Brahmadvâra. nessa Realidade absoluta e imutável que nunca deixaram de constituir. em direcção ao Brahmarandra. as shakti destes centros orientam-se para a “dissolução” do mundo criado/percepcionado pelas primeiras. apenas velada pelos envólucros cósmicos e individuais da mente. o “Vazio” que é o atman último de cada ser.107-144. sahasrara. o que simboliza que neste estado. atman. Quanto ao centro superior. pp. Entre ajna e o centro supremo.147-182. Introduction à l’Hinduisme Tantrique. estão dirigidas para “fora”. numa união indissolúvel e eterna. pp. Anahata. sahasrara. purusha ou jivatman. Nirguna Shiva e Nirvana Shakti. na região genital subtil. Ibid. a entrada inferior do canal central. O centro seguinte. sendo pela concentração nele que toda a estrutura se ilumina. Aí residem.. 1989. O que os caracteriza é que. Cf. situado ao nível do umbigo. da vida e da matéria 30. . a energia primordial está cristalizada na inércia da matéria e não circula na via ascendente. é Shunya. Jean Varenne. imanifestado. é o lugar dos princípios mais subtis das faculdades mentais. “as cinco formas da matéria sensível”. pp.57-58. dos centros inferiores.princípio activo. o princípio do obscurecimento.. mesmo subtil. também Id. S’akti and S’akta. Acima. situado na região subtil entre o ânus e o sexo. as potências. o manipura.430-447. relaciona-se com o ar e com o tacto e considera-se o centro da consciência individual. 29 30 Cf. pp. liga-se ao fogo e ao sentido da visão.. Shakti repousa adormecida sob a forma de kundalini. Na raiz da garganta temos vishuddha. enquanto as shakti. estão outros centros menores. Éditions Jacqueline Renard. Id. Paris. Cf. o falo. No centro inferior. símbolo de Shiva. na região do coração. Aux Sources du Yoga. marcado por tamas. Até aqui são considerados os chakras associados aos cinco princípios (tattva) “relativamente grosseiros”. associado ao elemento terra e ao sentido do olfacto. muladhara. na morte ou na meditação. princípio de obscurecimento 29 . pp. está associado ao elemento água e ao sentido do gosto. O próximo centro. relacionado com o éter e com a audição.159-220. entre as sobrancelhas. considerado como exterior ao organismo humano. e assim muitas vezes não representado. svadhishtana.

Payot. Arthur Avalon (Sir John Woodroffe). ou seja. que escraviza o ignorante. a originalidade dos Tantras está em apontarem a via de uma correcção disso por uma recondução à sua origem. sob a forma de secreções grosseiras. reabsorvendo os inferiores nos superiores. antecipa a dissolução dos mundos. p. com a consequente emissão da energia criadora. Art. reintegrando em cada um as polaridades positiva e negativa da consciência e da energia. Shiva e Shakti. 32 Cf. sendo apenas pelo desejo sexual que ela se concentra e se elabora. o Mircea Eliade. a meditação tântrica é fundamentalmente uma transmutação da energia sexual. La Puissance du Serpent. o mental. por todo o corpo. nota 488. o sémen. Ritual. reabsorvendo todo o desejo de experiência dualista. “são um”. 31 Cf. Immortalité et Liberté. Considerando-se que a mesma força criadora. . a vitalidade. desenrolando a serpente e levando-a a erguer-se – como uma nadja obedecendo à flauta do seu encantador – ao longo dos seis chakras. pp. donde antes emanaram. Assim o yogi. é aquela que leva o yogi à Libertação. em desejo de Libertação. É neste sentido que o Yoga é “Laya”. pp. e levando finalmente Kundalini Shakti a reintegrar a sua união plena com Shiva no centro sahasrara. e virya.229-245. que se considera presente. 1991.195-196. Le Yoga. 153-156. tornando definitivo o que para todos os seres só acontece provisória e ciclicamente.Se apresentamos esta descrição da estrutura antropocósmica da manifestação é para que se compreenda o objectivo último do kundalini yoga e da sexualidade tântrica. e dissolvendo este na fruição da plenitude jamais perdida e apenas velada. ou seja. Paris. da energia sexual humana dele procedente. pp. Science. pela renovação da inconsciência e do desejo a partir dos seus resíduos não eliminados. da sua percepção. nos órgãos genitais 32. que é despertar. por exercícios físicos e respiratórios. Ajit Mookerjee e Madhu Khanna. Fundados na ideia védica de que o mundo se origina numa sexuação da Realidade primordial. ao Absoluto. Ibid. Introduction au Tantrisme.54.. The Tantric Way. sem fim. ou num trans-humano êxtase sexual. no seu estado subtil. todo o desejo que cria/percepciona e reproduz um mundo exterior. pela prática dos mantras e pelo poder da meditação em símbolos operativos. prana. dissolução 31 de tudo o que ilusoriamente se supõe realmente acrescentado ao que pura e simplesmente é. e que o domínio de um deles implica o dos três. a divina força vital tornada inconsciente e subordinada às funções mais elementares no chakra inferior. Considerando que manas.

a experiência sexual está sempre presente. Ibid. na visão da sua Presença e no seu culto e adoração com oferendas. que passa a habitar no corpo da mulher. Ricolfi.. nos indivíduos. Ibid. De qualquer modo. pelo mesmo poder da meditação que visualiza os corpos do homem e da mulher como epifanias concretas do Deus e da Deusa. em que o amor seja realmente. irredutíveis às comuns e convencionais expectativas psicológicas e sociais a respeito do casamento. trocando a reprodução do estado cindido e ex-istente de ser (não só seja pela geração física. p. A Metafísica do Sexo. seja na transfiguração da união sexual física. pela meditação. Cf. como uma etimologia pouco fundada pretendeu. 1933..objectivo é utilizar a manifestação de kundalini como energia sexual. in Julius Evola. uma ausência de morte 36. melhor. . das energias masculina e feminina no canal central. mas fundamentalmente pela manutenção e reforço da cisão dualista eu-outro) pela sua reintegração no Absoluto. que recorre à experiência sexual exterior para efectuar a unificação interior. onde a força seminal suscitada pelo desejo dualista se converte no néctar de imortalidade (amrita) que flui da União absoluta de Shiva e Shakti 34. I. que pode recorrer ao suporte simbólico da visualização de divindades unindo-se sexualmente nos vários centros do corpo. É a atitude típica do herói. caso isto não se consiga. Milão. Albin Michel. 35 Jacques Vigne. Umas bodas alquímicas.72. cit. Le Mariage Intérieur en Orient et Occident. mediante a unificação. Em qualquer dos casos o que está em causa é um “casamento interior” 35. para além de exterior e interior. O que se pode fazer a nível meramente subtil e interior.196. com suporte ou não numa união física. porém convertendo-a de potência seminal em potência de reintegração da Consciência primordial 33. p. Só então se segue a união 33 34 Cf. do Virya. seja na conjunção interna do masculino e do feminino pelo poder da meditação. Um exemplo da referida união sexual concreta é aquele em que o homem e a mulher se unem como corolário de um longo processo ritual e sacramental. o néctar de imortalidade que vimos fluir da união de Shiva e Shakti. rajásico. Stuidi sui Fideli d’Amore. p. pode ser necessário o recurso à união sexual com um parceiro/a do sexo oposto. Todavia. ou. fundamentalmente consistente na invocação da “Divina Shakti”. pp.217-219 e 222. a-mors. pelo predomínio do princípio activo. 2001. levando-as a fundirem-se no centro superior. curiosamente o mesmo que a-mrita. Paris. A.63. 36 Cf.

Aix-en-Provence. Sexualités Boudhiques. pp.160-166 e 235-241. Boston. Id. métaphysique. JC Lattés. 2000.253-271. Sobre os ritos e práticas sexuais e a “erótica mística”. Jean Varenne. Mantras et mandarins.178-214. considera-se equivalente do culto da Shakti nos seus templos ou da peregrinação a quatro dos santuários consagrados à Grande Deusa. cf. cf.. A Metafísica do Sexo. já não profana. Art. assim praticada. de um não menos singular e controverso autor do século XX. sem profanar os mais profundos ensinamentos tântricos budistas. por mais longínquos e dificilmente acessíveis. Mundos Paralelos.Varanasi/Kathmandu.sexual. pp. Le bouddhisme tantrique en Chine. tântrico ou não. 38 Sobre a sexualidade no budismo. Entre désirs et réalités. State University of New York Press. considerando-se que daí resultam os mesmo benefícios espirituais 37. AAVV. no desvendamento da natureza última de todas as coisas. mas sagrada. 1994. o VI Dalai Lama: cf. Désirs. Judit Simmer-Brown. Le Yoga Tantrique. Ritual. The Divine Madman. pp. Julius Evola. pp. S’akti and S’akta. The sublime life and songs of Drukpa Kunley. Albin Michel. Daniel Odier. Passionate Enlightenment. Miranda Shaw.165-185. pp. Cantos de Amor. de acordo com o ensinamento do próprio Buda nos Sutras . Gallimard. Lisboa. No que respeita à experiência sexual no budismo tântrico 38. Reconhecendo a poderosa força da paixão no mundo em que vivemos e a natural tendência dos homens e das mulheres para a consumação da felicidade da união sexual. Drukpa Kunley. onde se afirma que cada um dos sexos é para o outro a melhor gratificação dos 37 Cf. tradução de Dominique Dussaussoy. Paris. Yogi tantrique tibétain du XVIe siècle. Paris. VI Dalai Lama. Mircea Eliade. Éditions de l’Herne. Women in Tantric Buddhism. permitindo conciliar a natural busca do prazer físico e afectivo com a iluminação da consciência. Buddhism. prefácio e tradução de Paulo Borges. Mythes. Le Fou Divin. 2001. Shambhala Publications. Aux Sources du Yoga.170-174. 1999. 1997.o autor cita. o Tratado da Paixão.. . Pilgrims Publishing. Le Tantrisme. Esta união sexual real (maithuna). Id.. Sexuality and Gender. Sur l’érotique mystique indienne. A particular originalidade e interesse desta obra residem na sua proposta de orientar toda a tradição do erotismo indotibetano. Dakini’s Warm Breath. procurando. Bernard Faure. L’enseignement secret de la Divine Shakti. 2005. Le Yoga. Le Mail. Id. The Tantric Way. editado por José Inácio Cabezón. 1982. pp. Immortalité et Liberté. L’Unité de l’être. passions et spiritualité. Princeton University Press.376-412. Sir John Woodroffe. 39 Figura de “louco divino”. em tantos pontos afim a Drukpa Kunley ou Tsangyang Gyatso. 1996. do tibetano Gedün Chöpel 39. rites. para uma experiência da sexualidade como via de profunda realização e iluminação espiritual. 1992. Michel Strickman. pp. traduzido por Keith Dowman e Sonam Paljor. tornar daí acessível o que pode transformar a experiência sexual comum. o Anguttara.322-355. Veja-se a descrição pormenorizada de um ritual semelhante em Ajit Mookerjee e Madhu Khanna. entre outros. iniciações e qualificações para tal. Science. 1995. secretos na medida em que não devem e não podem ser revelados senão àqueles com as potencialidades. não iremos aqui além da sua perspectiva a partir de uma obra singular.7-23.182-185. pp. pp.

pp. Lisboa. Petite Encyclopédie des Divinités et Symboles du Bouddhisme Tibétain.40.271. nem aos que não podem evoluir senão pela renúncia ao desejo. tradução de Lúcia Marques. 45 Cf.270-271. Rolf A. revisão de Conceição Gomes. a inversão da concepção hindu.168-169. nem aos que não possuem a energia requerida. New York. 2001. in Gedün Chöpel. Num ensinamento não destinado nem a monges.118. vacuidade) na postura yab yum. “pai-mãe” a sua matriz estática. Library of Tibetan Works & Archives. p. Ibid. Tibetan Arts of Love. felicidade) e feminina (sabedoria. o puro e o imundo. em contraste com a Indiana e nepalesa. La Civilisation Tibétaine. Tibetan Arts of Love. 46 Jeffrey Hopkins. p. segundo a tradição Nyingmapa. Id. É que.181. Gedün Chöpel. alimentada e experienciada do íntimo “da felicidade e da vacuidade” 41 . . Geshe Ngawang Dhargyey. passando o masculino a simbolizar o aspecto dinâmico da natureza primordial e o feminino Cf. sendo aliás o apogeu sexual a mais plena. 42 Cf. p. de novo. Tibetan Arts of Love. Stein. mostrando-lhes como é justo “compartilhar de todas as maneiras das fruições do sexo”. “a jubilosa mente da clara luz impregna toda a experiência” 46. 2002. 41 Cf. introduzido e traduzido por Jeffrey Hopkins com Dorje Yudon Yuthok.153. 1996. edição portuguesa: Gedün Chöpel. Arte tibetana do amor e yoga tântrico.cinco sentidos. prefácio de Paulo Borges. cf. cf. Tibetan Arts of Love. conforme expresso nas iconografias dos Budas unidos sexualmente com as suas consortes. traduzido por Gelong Jhampa Lelsang (Allan Wallace). Tcheuky Séngué.200. Gedün Chöpel. Claire Lumière. 1992. simbolizada na união das suas polaridades masculina (compaixão. Kalachakra Tantra (comentário). termos técnicos no budismo 42 tântrico para designar a plenitude da realização do ser. p. evidente e natural reintegração do estado natural 40 . inaptos para compreenderem que “o bem e o mal. Langues et Mondes – L’Asiathèque. a questão é desculpabilizar as consciências. e em que se reconhece que o mal do “desejo ardente” é maior que o da sua realização. Saint-Cannat. Snow Lion. Note-se. Prefácio. pp. 1994. Ithaca. e o Lalitavistara. Sobre o maior realismo e visibilidade da união sexual na arte religiosa tibetana. 44 Gedün Chöpel. Essa é a “via da paixão”. pois “aliviar um espírito entristecido é a divina religião dos excelentes” 45. “Introdução”. são apenas a nossa própria fantasia” 44. Dharmsala. onde se diz que conhecer os tratados eróticos “como uma prostituta” é uma das qualidades convenientes para ser “a rainha de um Bodhisattva” . nem àqueles demasiado presos em convenções morais. 43 . Tratado da Paixão. trata-se de apontar uma via alternativa ao igual desperdício dessa energia numa renúncia castradora e num sensualismo não esclarecido.. na visão não dualista de uma consciência desperta.. 43 Sobre o simbolismo das iconografias tibetanas. a mais antiga do budismo tibetano. p.

sem recurso à prática meditativa. Levenson. Dalai Lama. sentindo desejo e apego pelo futuro pai e aversão pela futura mãe. organização. o ciclo das existências condicionadas onde predomina a insatisfação e o sofrimento. É deste modo que penetra na matriz onde. O princípio de consciência renasce assim no “viscoso misto” das essências masculina e Cf. S. 1979. Le Livre des Morts Tibétain. traduzido do inglês por Claude B. morrendo no estado intermediário e renascendo. Paris. Como se expressa no Bardo-Thödol. 48 Cf. . Na verdade. mourir. 1996. acerca do processo de formação e da constituição subtil do corpo humano. de todas as ocorrências em que naturalmente. no caso de falharem todas as oportunidades de Libertação. sentindo desejo e apego pela futura mãe e aversão pelo futuro pai. 2ª edição corrigida. Rêver. O Budismo Tibetano. percepcionar-se-á sob forma masculina. Explorer la conscience avec le Dalaï-Lama. o sono profundo. pp. após a morte do corpo físico anterior o corpo mental erra no estado intermediário (bardo) até que.da mente. como ensina S. Editorial Presença. O fundamento disto está no profundo ensinamento.o espirrar. selon Karma Lingpa. o fluxo da consciência vê os seus futuros pai e mãe. S. experiencia a “beatitude inata” e nessa profunda felicidade se desvanece. desejo e indiferença que se consideram a raiz de todos os conceitos e emoções perturbadoras estruturadores dos estados de alucinação perceptiva em que consiste o samsara. a unirem-se sexualmente. suspendendo o regime habitual de consciência obscurecida pela ignorância e pela cisão entre sujeito e objecto. p. S. Geshe Ngawang Dhargyey. com as derivadas aversão. Se o seu karma levar o ser do estado intermediário a ser um homem. a morte e o clímax sexual . é este último que “nos oferece a melhor oportunidade de originar a experiência da clara luz” 47. inconsciente. o desmaio. Le Courrier du Livre. p. o Dalaï-Lama. La Grande Libération par l’audition pendant le Bardo par Guru Rinpoche. tradução de Carlos Grifo Babo. prefácio de S. NiL éditions. Paris. S. percepcionar-se-á sob forma feminina. prefácio e notas de Geshe Thupten Jinpa.. Se o seu karma o levar a ser uma mulher. 1998. pela força das suas inclinações kármicas se dirige para a matriz do seu futuro renascimento. sob a direcção de Francisco J. de cada vez que a consciência renasce por virtude do impulso kármico das suas acções anteriores. sob uma forma difusa. no ventre materno 48 47 . o Livro Tibetano dos Mortos. no exacto momento em que o óvulo feminino e a semente masculina se encontram. nova tradução a partir do tibetano com um comentário por Francesca Fremantle e Chögyam Trungpa. Varela. No caso desse renascimento ser humano. Lisboa.70. Dormir. ainda pouco conhecido no Ocidente. se entrevê o “estado não-conceptual” da mente . o Dalaï-Lama.102.100-101.

das suas cinco sabedorias e dos cinco elementos.. É assim que. no Vajrayana designa a essência profunda da energia masculina e feminina. constituindo o corpo psico-físico de cada ser humano como uma emanação onde se condensam os vários aspectos e qualidades da primordial consciência iluminada 50. Essas gotas. que de um estado extremamente subtil passam para dimensões cada vez mais grosseiras e materializadas de constituição psicofísica.103-104. manifestada nas suas secreções sexuais . primeira tradução integral de Gyurme Dorje. da “gota indestrutível” ascende pelo canal (sânscrito: nadi.105-107 e 117-120. conhecendo um processo de formação que reconstitui. 2005. combinam-se no chakra do coração. a partir do qual o feto começa a crescer. comentário introdutório por S. uma parte do aspecto branco. que no ensinamento tântrico se designam como o “bodhicitta branco do pai” e o “bodhicitta vermelho da mãe” . vayu. manifestação das cinco famílias de Budas. Simultaneamente. composto por Padmasambhava. que ao nível do Mahayana designa o espírito altruísta. masculino. o Dalai Lama. . a “subtil energia sustentadora da vida”. tibetano: lung). enquanto uma parte do seu aspecto vermelho. tibetano: thigle) branca e vermelha de esperma e sangue. editado por Graham Coleman com Thupten Jinpa. pp. desdobra-se sucessivamente nas cinco energias principais e nas cinco secundárias. as “gotas” (sânscrito: bindu. 50 Cf. a génese do próprio universo. pp. tibetano: rtsa) central do corpo subtil. pela Iluminação 49. Penguin Books. desce pelo mesmo canal e permanece no chakra do umbigo. Geshe Ngawang Dhargyey. no que respeita às “energias” ou “ventos de energia” (sânscrito: prana.. a nível microcósmico. representado iconograficamente na união sexual de duas figuras masculina e feminina. Ver a primeira edição integral no Ocidente da primeira obra: The Tibetan Book of the Dead. verifica-se a progressiva separação e condensação das potencialidades contidas nessa “gota indestrutível”. estabilizando-se no chakra da cúspide do crânio. Durante a gestação do feto. ligadas às acções das vidas anteriores e estruturadoras dos estados emocionais e perceptivos da consciência na vida futura. feminino.91 e 107. revelado pelo Terton Karma Lingpa. Todos os Kalachakra Tantra (comentário).note-se que o “bodhicitta”. formando a “gota indestrutível” que une em si a “consciência” e “energia” que atravessam todos os renascimentos no samsara até se converterem num Buda.. Londres. Id. Kalachakra Tantra (comentário). S. pp.feminina. ou do Buda primordial. que permanece após a dissolução de todos os seus aspectos grosseiros na morte. Ibid. 49 Cf. ambas nuas.

que 51 52 Cf. .. pp. o direito (sânscrito: rasana. Esta disseminação da energia e das essências primordiais na geração do corpo humano. invertendo o processo conducente ao renascimento da consciência na geração do grosseiro corpo samsárico. Ibid. bem como pelo total de 72 000 canais que deles derivam 52. 54 Cf. com o elemento “espaço” e difundida por todo o corpo. Essa disseminação. recusou ou não pôde permanecer no estado primordial de Iluminação. cf. uma pessoa real. Todavia esta pode ser.104-105. p.. Passionate Enlightenment. impedindo a Libertação no reconhecimento da natureza fundamentalmente iluminada e não-dual da consciência e de todos os fenómenos percepcionados. aversão e indiferença. relacionada com o Buda Vairocana..o central (sâncrito: avadhuti. é então o de reabsorver as referidas dez energias. na “clara luz” várias vezes emergente ao longo do bardo desde o primeiro desvelamento no momento da própria morte.. tibetano: kyangma) . primeiro no canal central e depois na “gota indestrutível” situada no chakra do coração. é muito difícil de reabsorver. tibetano: uma). Id. obscurecida pela ignorância dualista e impulsionada pelo karma que dela se origina e a reproduz. respectivamente. condiciona a percepção impura de si e do mundo que reproduz os véus da ignorância e do karma e assim a insatisfação inerente ao desejo.151. na mesma medida em que estrutura e mantém em funcionamento o corpo psico-físico comum. pp. Em qualquer dos casos. p. Aqui surge o recurso à prática sexual. Ibid. particularmente ao nível do estádio de perfeição (dzog rim).. concentradas nos seus cinco principais centros e circulando pelos três canais principais . em termos físicos (sânscrito: karma-mudra). 53 Cf.restantes chakras possuem porções destas duas essências. pp. sendo para tal indispensável que o/a praticante medite em união com um/uma consorte 53. Id. tibetano: roma) e o esquerdo (sânscrito: lalana. ou uma ainda mais subtil (sânscrito: maha-mudra) 54.. interiormente visualizada (sânscrito: jñana-mudra).147-148. O objectivo das meditações e práticas tântricas. Id.. Id. pois uma das cinco principais energias.137. Women in Tantric Buddhism... resulta da projecção da consciência que. uma entidade subtil. a meditação implica a plena geração e utilização da força do desejo da união sexual. Ibid. mas são estes os principais centros da sua expansão por todo o corpo.107-108. Ibid. Miranda Shaw. a “energia penetrante”. Cf. nutridos pelo centro do coração 51. Sobre as diferentes perspectivas acerca da superioridade ou não da união física real.

O que exige não se cair no erro da ejaculação. que dissolve a força dos impulsos sexuais” 55. a fusão e descida das gotas do bodhicitta branco. seja em termos mentais. 1998. que aqui não podemos expor em pormenor. 114. Cf. física ou não. seja em termos físicos. Toda a questão reside em transmutar. Kalachakra Tantra (comentário). o “centro que guarda a beatitude”. induzida pelo desejo sexual. que gera o “tummo” . mediante a visualização que identifica os praticantes a um Buda em conjunção sexual com a sua consorte. Dalaï Lama. Cf. por via da poderosa força do desejo unitivo. 131. Sobre o tummo e as práticas tântricas budistas. têm a virtude de liquefazer “os elementos vitais situados no cimo do crânio”. fazendo-os descer ao longo do canal central até ao centro genital. The Bliss of Inner Fire. em certo sentido. na sabedoria e felicidade inerentes à experiência da ausência de existência intrínseca do eu e dos fenómenos.101-102. onde. pp. suscitando a experiência da beatitude não-conceptual. 55 56 Cf. Heart Practices of the Six Yogas of Naropa. S. onde é retida. Kalachakra Tantra (comentário). Geshe Ngawang Dhargyey. consumindo-se. o desejo auto-liberta-se.102.sob a forma da sabedoria derivada da ilusão . p. Como conclui S. cf. 57 Cf. 133 e 152. Wisdom Publications. . 11. Boston. concentrando-a na extremidade do órgão genital. Lama Thubten Yeshe. com o seu direccionamento ascendente. pela reunião das energias subtis do corpo psico-físico.9. O Budismo Tibetano. p. 116. podemos dizer que é a própria ilusão . e se desenvolve no Kalachakra Tantra.que na realidade destrói as ilusões. se dissipam todos os véus emocionais e cognitivos. a ilusão dualista. Como o indica S. Nas mais avançadas práticas tântricas.o fogo interior – .deve ser efectiva. a força do desejo e a união sexual. S. a mais elevada das fruições ligadas aos demais centros 57. S. até ao centro genital. com algumas indicações sobre as dimensões subtis da experiência sexual. Pela força do desejo e do movimento dos órgãos sexuais. o Dalaï-Lama. trata-se de completar essa retenção da energia luminosa. provoca a “espontânea beatitude” 56. também pp. através dos vários chakras. Reconduzido ao estado primordial da consciência. pois é a beatífica experiência do vazio. S. que exterior e grosseiramente se manifesta como esperma. pelo qual a energia se perde e tem fim a beatitude da experiência não dual designada como vacuidade. onde as essências masculina e feminina se reúnem. o Dalaï-Lama: “Por conseguinte. sendo a partir daí o seu fluxo invertido em direcção ascendente pelo poder da meditação. Geshe Ngawang Dhargyey. geradora desse desejo.

pp.223-224. algo de idêntico todavia subsiste. por dissipação de todos os véus e ilusões. Cf. enquanto reconhecimento do estado primordial do ser e da consciência. onde se permanecerá durante um tempo inconcebivelmente longo 59. É aqui que regressamos à obra de Gedün Chöpel. em particular com um/uma consorte real..Simultaneamente. mourir.143-145. estas práticas. diz-se que a prática prematura desta via de realização conduz a renascer num inferno. De forma nada convencional. Ibid. .. ao passo que noutro sentido. o mesmo processo realiza-se com o bodhicitta vermelho. 60 Cf. segundo um comentário do Kalachakra Tantra. Ibid. Sem isso. pp. cuja intenção maior é a de despertar os leitores para o máximo aproveitamento dessa potencialidade que naturalmente reside na geralmente mais desejada das experiências humanas. num sentido. Neste sentido. Explorer la conscience avec le Dalaï-Lama. Id. com a exaustão dos múltiplos componentes materiais do corpo grosseiro. b) haver perfeitamente recebido a iniciação para tal. S. Se bem que o movimento dos fluidos na união sexual de um yogi e de uma yogîni seja fundamentalmente diferente do que acontece num relacionamento comum. in Dormir. que é o seu movimento em direcção aos órgãos genitais 60... pp. implicam rigorosas qualificações: a) haver exercitado o espírito na via comum. para usar a pouco feliz expressão corrente. enquanto dissolução do estado psicofísico grosseiro que as consciências não iluminadas têm por o de um ser vivo e real. iluminando a secular conotação do êxtase sexual e do amor com a morte e a ressurreição. fazer amor. Dalaï-Lama. pode ser vista como uma morte. o que está aqui em causa é uma experiência que. exterior. d) o homem e a mulher estarem num mesmo nível de realização.151-152. mais profundo. residindo a diferença geral no grau de domínio consciente do processo. S. é sempre vencer a morte. obtendo-se o “corpo de arco-íris” da Budeidade 58 . Mas é importante advertir que. O resultado é a experiência da “suprema beatitude imutável”. que se reabsorvem na consciência e energia primordial. c) manter a observância dos preceitos e votos a ela inerentes. em termos tântricos. Note-se que. Id. Rêver. o autor enceta uma ousada exploração desse fundo comum à prática tântrica e à vivência natural da paixão sexual 58 59 Cf. deve ser vista como regresso ou acesso à verdadeira Vida.

) / (. Gedün Chöpel.. Assim. p. cf. Ibid. Métaphysique des Sexes. Le Mariage Intérieur en Orient et Occident. Masculin/Féminin aux sources du christianisme. muitas vezes escritas na perspectiva masculina e que ferem o romantismo da consciência ocidental 61. O Banquete.258. sem hipocrisia e adultério. 66 Cf.) / (. Assumindo a sua devoção pelo feminino e reconhecendo como foi instruído pelas mulheres no seu saber de experiência feito 66. organizado por von Werner Heilmann. “é a melhor das éticas” e aquele que o lograr até ao fim da vida fará com que mesmo o seu cadáver seja digno de “culto” 65.. Id. in The Nag Hammadi Library. Sobre a questão no cristianismo. traduzido e introduzido por membros do Projecto da Biblioteca Gnóstica Copta do Instituto para a Antiguidade e Cristandade de Claremont (Califórnia). 64 The Gospel of Thomas.272-274.. tradução de Richard Paul Neto. narrado por Aristófanes n’O Banquete de Platão 63. Éditions du Seuil. 24). Robinson. reiterada por Cristo (Mateus. Referência que.. Fang-shung-shu. a fim de que o macho não seja macho nem / a fêmea fêmea (. 1994.. 65 Cf. de que homem e mulher se unem numa “só carne”.) e quando / fizerdes o macho e a fêmea um e o mesmo. New York. Platão. 1992. p.193 d. editado por James M. 62 Cf. um tratado da tradição taoísta chinesa: A Arte Chinesa do Amor. numa provocação ao desprezo das mulheres pela cultura monástica e patriarcal. 2ª edição. 3ª edição. 5). a par da menos conhecida referência à androginia no budismo tibetano.. 189 d .. pp. Tibetan Arts of Love. considera que “metade do corpo de um marido é a sua mulher e metade do corpo de uma mulher o seu marido”. Tibetan Arts of Love. ou ainda a afirmação do Génesis (2. Sylviane Agacinski... aprofundada num apócrifo como o Evangelho de Tomás: “Quando fizerdes o dois um (. o mito do amor como busca de restaurar o ser andrógino primordial. 19. Sem o frio esquematismo normativo que frequentemente surge em textos orientais que igualmente buscam apontar o caminho da exaltação das energias vitais e da realização espiritual por meio da sexualidade. HarperCollins Publishers. a par da alusão à integração da essência de cada sexo pelo outro 62. pp. Rio de Janeiro.. completamente revista.humana. Jacques Vigne. Gedün Chöpel. . prefácio de Richard Smith. cf. 22. Sobre a questão nas grandes tradições espirituais e religiosas.129.) então entrareis no Reino !” 64.. 63 Cf. o nosso iconoclasta desmonta radicalmente toda a moralização da paixão e dos actos sexuais como a hipócrita máscara das convenções e pretensões mundanas que deve cair perante a espontaneidade não-artificial da “beatitude 61 Veja-se. como exemplo. o autor. 2005. um amor da companheira igual ao da própria vida.184 e 192. evoca. Ediouro S. procurando tanto quanto possível elevar os amantes à suprema fruição e libertação dos yogis. A.

É assim que não há no corpo partes puras ou impuras. a transgressão liberta do dualismo e “os actos de corpo. considerados negativos em ensinamentos tradicionais 70.234. palavra e espírito tornam-se puros”. o sexo deve ser vivido pelo casal sem abdicação de nenhuma das formas possíveis de prazer. Havendo uma relação plena. A plena libertação de inibições. Na verdade. Patrul Rinpoché.) durante o sexo não se abstenham de nada. converte-se em factor de iluminação do espírito. constitui “a essência da vida e possui a natureza da nossa divindade inata” 68. que adere a umas coisas rejeitando outras. inapropriados para serem vistos por um terceiro ou escutados por um quinto ouvido. boas ou más 67.inata”. p. Como nos exorta: “(. receios ou remorsos.. Pela prática do convencionalmente “impuro”. Ibid.230. pondo fim à “percepção da fealdade e da sujidade”. de confiança.. aquilo que de outro modo poderia causar obstáculos é transformado em fonte de “poder.. Id.. levando ao “prazer extremo”. edição revista. 70 Cf. Uma sexualidade extra-convencional pode assim libertar da visão dualista do mundo. 69 Id. bem como ao “medo” e à “vergonha”. E concluindo: “Aqueles que têm encontros secretos e incomuns. retendo o “fluido essencial” nos canais subtis. brilho e juventude”. p.. Walnut Creek / London / New Delhi. mediante actos sexualmente ousados e a narrativa de histórias excitantes. .. traduzido pela Comissão de Tradução Padmakara. façam tudo sem excepção”.107. mas assumidos como apontados pelos tratados atribuídos às dakinis (seres femininos subtis) e destinados aos homens e mulheres “extremamente apaixonados”. além de originar “uma excelente linhagem e as glórias do prazer”. Altamira Press. se se consciencializar que “na hora do prazer o deus e a deusa que originam a beatitude vivem realmente nos corpos do macho e da fêmea”.224. É nesta perspectiva que mesmo actos como o sexo oral. 1998. p. são valorizados e recomendados pelo autor àqueles que os possam praticar sem embaraços. e “mesmo uma ligeira proibição de actos inebriantes na hora do prazer é uma doutrina pecaminosa”. pensando e fazendo coisas habitualmente “embaraçosas”. Id. Ibid. Ibid. tornam-se os melhores amigos do coração no mundo” 69.. os actos convencionalmente “impróprios” são aqueles que podem gerar mais “paixão sexual” e.. p. mediante a confusão e 67 68 Cf. Words of My Perfect Teacher. uma vez que a paixão. sem constrangimentos.

ou no seu rosto.. num dos belos poemas que nos oferece. provenientes do erotismo tradicional compendiado no Kama Sutra. . dirigindo-se para a intensificação não só do prazer habitual da fruição erótica mas. Id. sentindo-a antes numa forma “ampla e vasta”. Cf. o beliscar e o arranhar. omnipenetrante 72. celebrando uma Ilha dos Amores tântrica. Ibid. pp. sobretudo. a inversão de papéis e as várias posições da cópula .230. 1. Transcendente de todas as discriminações do intelecto. como vimos. A retenção do fluido seminal pode realizarse mediante a concentração profunda. pelo contrair os pés e as mãos apertando bem os dedos ou pelo empurrar o estômago para a coluna.255-258. Ou ainda. enquanto ardentemente se trocam “palavras de paixão”. 73 Cf. Gedün Chöpel. pelo voltar para cima a língua e os olhos. assumem nesta obra um alcance novo e mais profundo. Cf.267-268.. destinadas agora sobretudo aos homens. física e mental.. Id. pp. divididas nos oito grandes jogos sexuais – o abraçar. também p. cuja atenção. quanto maior for mais pode conduzir ao Despertar. o movimento de vai e vem. o morder. impulsionando fortemente a energia para dentro pela contracção do ânus. Como o diz Gedün Chöpel. pp. Ibid. que confunde orgasmo com ejaculação. Daí as derradeiras instruções do autor.265-266. o beijar. os sons eróticos. vão no sentido de preservar e aumentar a felicidade do clímax sexual. todas as coisas são puras” (Tito. Tibetan Arts of Love. Com estas “técnicas físicas” deve concorrer o espírito. é neste “reino de grande beatitude” que todas as aparências se dissolvem. que. Como diz um texto atribuído a São Paulo: “Para os puros. não só no órgão genital mas em todo o corpo. para a exacerbação do desejo que. mas 71 72 Cf. pode-se visualizar a “vastidão do céu”. quando a beatitude se difunde por todo o corpo. este “celeste reino de beatitude e vacuidade” que silencia as “palavras dos eruditos” e que os amantes na sua paixão ardentemente buscam.. quando a ejaculação está iminente.suspensão da “memória” e das conceptualizações analíticas 71. deve evitar concentrar-se nas sensações genitais. 15). “com a criança muda de uma mente que nada sabe” 73. o apertar. da visão num ponto no meio das sobrancelhas da mulher. impedindo a ejaculação para que o orgasmo se prolongue. É deste modo que as sessenta e quatro artes do amor.. o que parecerá estranho para a incultura ocidental a este respeito.

a infinita pureza de todas as coisas. é um puro estado de Bodhisattva” 74.117-118. que lhes dá a sensação de serem senhores de tudo. . selecção. Borges. Gonçalves.imanente às entranhas do eros iluminado. Os laços firmes do amplexo amoroso são um puro estado de Bodhisattva. é a inocência da Grande Perfeição. Possam todos os seres atingi-lo e nele sempre permanecer ! (C)Copyright. pp. tradução. edição revista e ampliada. São Paulo. A excitação dos sentidos. Cultrix. in Textos Budistas e Zen-budistas. 1999. dotados com a total liberdade. E. O pleno gozo experimentado pelo homem e a mulher. como diz o Iluminado no Sutra do Caminho da Verdadeira Sabedoria: “O êxtase supremo da união entre o homem e a mulher é um puro estado de Bodhisattva. 2006-2007 74 Sutra do Caminho da Verdadeira Sabedoria. comparável ao rápido voo de uma flecha. é um puro estado de Bodhisattva. Aí. As carícias trocadas entre homem e mulher são um puro estado de Bodhisattva. Paulo A. introdução e notas de Ricardo M.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->