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FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE

Faculdade de Direito

Trabalho de Conclusão de Curso

PELO DIREITO A ALIMENTAÇÃO: O Sistema Nacional de Segurança Alimentar em face do sistema jurídico, dos direitos fundamentais, da agroecologia e da extensão universitária.

Matheus Sehn Korting

Rio Grande, 2011

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MATHEUS SEHN KORTING

PELO DIREITO A ALIMENTAÇÃO: O Sistema Nacional de Segurança Alimentar em face do sistema jurídico, dos direitos fundamentais, da agroecologia e da extensão universitária.

Trabalho de conclusão de curso apresentado à Faculdade de Direito da Universidade Federal de Rio Grande, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Eder Dion de Paula Costa

Rio Grande, 2011

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Existe prazer nas matas densas, Existe tal beleza na praia solitária, Existe convivência sem que haja intromissão no mar profundo, E música em seu ruído, Não que ame menos o homem Mas sim mais a Natureza.Lord Byron

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LISTA DE SIGLAS

CONSEA Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional FAO Food and Agriculture Organization of United Nations Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação LOSAN Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional MDS Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome SAN Segurança Alimentar e Nutricional SISAN Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional ONU Organização das Nações Unidas

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RESUMO

O presente Trabalho de Conclusão de Curso versará sobre a temática do Sistema de Segurança Alimentar e Nutricional como propulsor do direito fundamental social à alimentação relacionando com questões contemporâneas constitucionais, ecológicas e sociais dentro de uma perspectiva de políticas públicas, inclusão social e garantia de alimentação adequada à população. O reconhecimento das necessidades da população aliado a uma atuação positiva do estado no viés dos direitos sociais desenvolve ações para a promoção da igualdade material. Assim, através do sistema jurídico e das políticas públicas, se garantirá o direito a alimentação com acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente, sem prejuízo ao meio ambiente. Inicialmente, será compreendido o conceito de sistema jurídico, interpretação sistemática e pluralismo jurídico dialogando com as compreensões do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional na ideia de entendermos a lógica do ordenamento jurídico numa perspectiva de incorporá-lo aos anseios do povo. Num segundo momento, será visto a evolução dos direitos fundamentais e suas dimensões até que se chegue ao direito a alimentação proposto na Constituição Federal dentro da perspectiva de direito fundamental social, sem prejuízo dos direitos fundamentais ao meio ambiente equilibrado no desenvolvimento e apoio da produção agroecológica. Num terceiro momento, serão abordadas as políticas públicas de segurança alimentar, juntamente a importância da agricultura familiar e da agroecologia para a segurança alimentar num prisma ecológico. Além disso, serão apresentadas algumas experiências vivenciadas na extensão universitária junto ao Núcleo de Desenvolvimento Econômico e Social NUDESE/FURG, através de um projeto de Agricultura Urbana e Periurbana financiado pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS) no intento de trazer resultados do projeto enquanto apoiador da segurança alimentar, agroecologia e incentivador da agricultura familiar na região de Rio Grande e São José do Norte, além de experiências vivenciadas em escolas e em centros de reabilitação.

Palavras-chave: sistema jurídico direito a alimentação Segurança Alimentar e Nutricional políticas públicas agroecologia.

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ABSTRACT

This Conclusion Course Work Will focus on the theme of Food Security System as a driver of fundamental social right to food relating to constitutional, environmental and social perspective in public policy, social inclusion and ensuring adequate food the population. Recognitizing the needs of the population with a positive role in the state of social bias develops actions for the promotion of substantive equality. Thus,through the legal system and public policies, will ensure the right to supply with regular and permanent access to quality food in sufficient quantity, without prejudice the environment. Initially, we will understand the concept of legal system,systematic interpretation and of legal pluralism in dialogue with the insights of the National Food and Nutrition Security System to understand the logic of the law to incorporating it in the desires of people. Secondly, we will see the evolution of fundamental rights and dimensions until it reaches the food´s right in the Federal Constitution from the perspective of fundamental social right, without prejudice to the rights fundamental to a balanced environment and support the development of agro- ecological production. Thirdly, I will discuss the public policy of food security with the importance of family farming and sustainable agriculture for food security in a ecological light. In addition, we will present some experiences in the university extension with the Center for Economic and Social Development - NUDESE / FURG through a project Urban and Peri-Urban Agriculture with the Ministry of Social Development and Fight against Hunger (MDS) in an attempt to bring the results as supportive of food security, agro-ecology and supporter of family farms in the region of Rio Grande and São José do Norte, as well as experiences in schools and rehabilitation centers.

Keywords: legal system - the right to food - Food and Nutrition Security - public policy - agroecology.

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RESUMO:

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ABSTRACT:

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INTRODUÇÃO:

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Capítulo 1 O Sistema Jurídico, a Interpretação Sistemática, o Pluralismo Jurídico dentro da compreensão do Sistema Nacional de Segurança

 

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1.1. Compreensão sobre Sistema Jurídico:

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1.2. Princípios, normas e valores no sistema jurídico:

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1.3. Antinomias:

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1.4. Interpretação sistemática:

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1.5. Unidade e Coerência do sistema jurídico:

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1.6. Pluralismo Jurídico:

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1.7. Os relacionamentos existentes entre o Sistema Nacional de

Segurança Alimentar e Nutricional e o sistema jurídico:

1.7.1. Histórico de iniciativas institucionais para o combate a fome desde

o contexto internacional até a Criação do Sistema Nacional de Segurança

Alimentar e Nutricional SISAN:

1.7.2. O Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional - SISAN e

o Sistema Jurídico:

Capítulo 2 A Segurança Alimentar dentro dos direitos fundamentais,

23

23

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para além de direito social e de direito ambiental

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2.1. Evolução dos

Direitos

Fundamentais:

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2.2. Direitos fundamentais de primeira dimensão:

39

2.3. Direitos fundamentais de segunda dimensão:

40

2.4. Direitos fundamentais de terceira dimensão:

41

2.5. Direitos fundamentais de quarta dimensão:

42

2.6. A alimentação como direito fundamental de segunda dimensão:42

2.7. O meio ambiente equilibrado como direito fundamental de terceira

dimensão:

Capítulo 3 As políticas públicas de Segurança Alimentar e Nutricional, a

43

Agroecologia e a Extensão Universitária:

46

3.1. Políticas Públicas de Segurança Alimentar e Nutricional:

46

3.2.

Conceitos de agroecologia:

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3.2.1.

Finalidades e Diretrizes da Agricultura Orgânica:

53

3.2.2.

Incentivo à diversidade e a atividade biológica do solo:

54

3.2.3.

Boas práticas:

 

54

3.2.4.

Comercialização:

55

3.2.5.

Conversão e produção paralela:

57

3.3.

Extensão Universitária:

59

3.3.1.

Experiência dos agricultores de Rio Grande:

61

3.3.2.

Experiência dos agricultores de São José do Norte:

62

3.3.3.

Experiências na Penitenciária de Rio Grande, Comunidade

Terapêutica Vida Nova e Comunidade Terapêutica Prosseguir:

64

3.3.4.

Experiências no CAIC e na Escola Assis Brasil:

65

3.3.5.

Experiências

no

CCMAR:

65

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Considerações Finais:

67

Referências Bibliográficas:

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INTRODUÇÃO

A criação de um Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional representa um grande passo no qual a sociedade brasileira confronta o paradigma de fome e de alimentação saudável. O enfrentamento desses se dá com a concretização de políticas públicas de segurança alimentar nas quais as ações estatais estão asseguradas e norteadas pelo nosso sistema jurídico e pela participação da sociedade e de seus anseios.

Dentro dessa perspectiva, vê-se o sistema jurídico através da proposições de princípios, normas e valores para a concretização dos objetivos da sociedade, assim como o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional como um sistema de execução jurídica dos princípios e direitos fundamentais propostos em relação a alimentação na nossa Constituição. Esta alimentação que pode sim ser oriunda de uma relação sustentável com o seu meio, na ideia de meio ambiente ecologicamente equilibrado, privilegiando a agroecologia através de um paradigma ecocêntrico,

A propagação de políticas públicas nesse sentido faz com que se incentivem a agricultura familiar e as ações da agroecologia, dando ao alimento o merecido valor nutricional e um manejo mais sustentável dos recursos. E é nesse sentido que a extensão universitária vem participando da promoção dessa política pública de alimentação através de apoio a agroecologia trazendo

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a comunidade para dentro dos espaços acadêmicos, ao mesmo tempo que possibilitando aos espaços acadêmicos uma aproximação com a realidade.

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CAPÍTULO 1 - O SISTEMA JURÍDICO, A INTERPRETAÇÃO SISTEMÁTICA, O PLURALISMO JURÍDICO DENTRO DA COMPREENSÃO DO SISTEMA NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR.

1.1. Compreensão sobre Sistema Jurídico:

O sistema jurídico, basilar para a construção do direito, é um estudo

que prima pela compreensão da rede de princípios, normas e regras as quais a sociedade vinculou-se para a efetivação do Estado Democrático de Direito. Nessa rede vemos os preceitos e fundamentos que regem a sociedade para chegarmos a um estado social que dignifique o povo em sua essência.

O ordenamento jurídico é um conjunto ou complexo de normas que

através de coerência e unidade podem-se identificar os problemas gerais do

direito e através de uma análise sistemática trazer uma resposta ao meio social. Para tanto, reforça Bobbio que

pode falar em Direito somente onde haja um complexo de normas

formando um ordenamento, e que, portanto, o direito não é norma, mas

um conjunto de normas, sendo evidente que uma norma jurídica não se encontra jamais só, mas esta ligada a outras normas com as quais forma um sistema normativo. (BOBBIO, 1997, p. 21)

se

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O sistema normativo aliado a uma hermenêutica transformadora transpassa o papel de mero legitimador e formalizador de direitos dos economicamente favorecidos para uma atuação pluralista do estado enquanto mediador e alterador dos paradigmas de desigualdades e injustiças presentes na sociedade.

O jurista Juarez Freitas nos define Sistema Jurídico, onde o reconhece

como uma rede axiológica e hierarquizada topicamente de princípios fundamentais, de normas estritas (ou regras) e de valores jurídicos cuja função é a de, evitando ou superando antinomias em sentido amplo, dar cumprimento aos objetivos justificadores do Estado Democrático de Direito, assim como se encontram consubstanciados, expressa ou implicitamente, na Constituição.” (FREITAS, 2002, p. 61)

Dito isso, o sistema define-se com uma rede pelo seu caráter de complexidade e de interdependência entre seus componentes, e o olhar indissociável entre o positivado e a realidade, pois uma vez não havendo eficácia social não há porque existir a norma ou ordenamento pois o povo não pode perder a soberania delegada para representação da sociedade e nem deve criar um Estado distinto ou separado de si mesmo. No intento de melhor compreensão a cerca do que é sistema jurídico, o presente capítulo versará sobre os diversos conceitos alicerçados na definição do jurista gaúcho Freitas, para que se compreenda as definições das partes do conceito sem dissociar do conjunto de sistema jurídico.

O ordenamento jurídico é composto, “resultante de uma estratificação secular de ordenamentos diversos, a princípio independentes um do outro e depois, pouco a pouco, absorvidos e amalgamados no ordenamento estatal único ora vigente” (BOBBIO, 1997, p. 170), para dessa forma estabelecer o sistema jurídico através do conhecimento dos princípios bases, das normas e dos valores que a sociedade prima sempre com o intuito de dirimir as antinomias jurídicas e lacunas do direito.

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O sistema jurídico não é mais dotado da arcaica noção de “sistema de apriorísticos e puros conceitos formais” (FREITAS, 2002), mas sim de complexidade e de dialeticidade necessárias a aproximação da justiça. E para isso, a rede axiológica do sistema jurídico utiliza-se de princípios fundamentais, normas e valores.

Os princípios fundamentais, conforme Juarez Freitas (2002), são as diretrizes basilares do sistema jurídico que funcionam como linhas mestres sendo hierarquicamente superiores às normas (regras) e aos próprios valores (genéricos e indeterminados). Os princípios possuem qualidade argumentativa superior, além da “primazia da fundamentalidade” (FREITAS, 2002), esta que faz com que os princípios preponderem num conflito com uma regra, ou, havendo duas regras, o princípio possa resolver o conflito pela sua profundidade axiológica.

Para as normas ou regras, estas são preceitos menos amplos e axiologicamente inferiores aos princípios, e “existem para harmonizar e concretizar os princípios fundamentais, não para debilita-los ou deles subtrair a nuclear eficácia direta e imediata.” (FREITAS, 2002, p. 58) sendo necessária a aplicação das regras em conexão com os princípios, os valores e as demais regras do ordenamento.

Aos valores, culmina Freitas (2002) que mesmo o preâmbulo constitucional mencionar expressamente “valores supremos”, princípios e valores possuem quase o mesmo sentido na diferença que os princípios tem forma mais concentrada de diretrizes sendo os justificadores do sistema e os valores possuem menor grau ou intensidade.

1.3.

Antinomias:

Seguindo na construção do conceito de sistema jurídico, as antinomias jurídicas são definidas “como aquela situação que se verifica entre duas

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normas incompatíveis, pertencentes ao mesmo ordenamento e tendo o mesmo âmbito de validade.” (BOBBIO, 1997, p. 88)

Ainda em Bobbio (1997) acrescentaria qualificações da natureza dessas normas incompatíveis, tais como obrigatória, proibida, permitido positivo e o permitido negativo, elencando em seguida os casos de incompatibilidade:

“1) entre uma norma que ordena fazer algo e uma norma que proíbe fazê-lo (contrariedade); 2)entre uma norma que ordena fazer e uma que permite não fazer (contrariedade); 3) entre uma norma que proíbe fazer e uma que permite fazer (contrariedade)” (BOBBIO, 1997, p. 85)

Juarez Freitas aprofunda a temática ao afirmar que as antinomias não ocorrem apenas entre as regras e sim poderá ocorrer entre o plano axiológico e principiológico, aprimorando o conceito das antinomias para além do proposto por Bobbio, aproximando-se, dessa forma, da construção e definição de sistema jurídico. Juarez Freitas conceitua antinomias jurídicas como

incompatibilidades possíveis ou instauradas entre regras, valores ou princípios jurídicos, tendo de ser vencidas para a preservação da unidade e da coerência do sistema positivo e para que se alcance a máxima efetividade da pluralista teleologia constitucional. (FREITAS, 2002, p. 91)

Nesse sentido, Freitas acredita que prepondera o critério da hierarquização axiológica, e mesmo os conflitos se dando através das normas, o intérprete sistemático deve compreender as antinomias também através do plano axiológico e principiológico, devido a sua fundamentalidade.

1.4. Interpretação sistemática:

Para seqüência das compreensões do sistema jurídico, uma vez já estabelecida, passa-se agora a outro aprendizado de igual valia que é o da interpretação sistemática. Uma vez consolidada a compreensão do sistema jurídico enquanto rede axiológica de princípios, valores e normas em sua vital importância ao Estado Democrático de Direito, deve-se preservar que também seja feita uma interpretação de igual forma sistemática, ou seja, de acordo com

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esse sistema jurídico, para que se evidencie nexo entre o pretendido no sistema e o executado enquanto a pessoa do intérprete.

E é nesse sentido que Freitas (2002) nos acrescenta suas motivações para a definição do intérprete sistemático, onde o evidencia da seguinte forma:

“O intérprete sistemático deve assimilar que, para além de unilateralismos e de simplificações reducionistas, a visada de conjunto torna cognoscível o Direito em sua riqueza valorativa (o todo é maior do que as partes e deve ser, também, melhor), de sorte a transcender a antiga e inconsistente técnica de decompor em elementos simples, porquanto o pensamento apto a dar conta da complexidade mostra-se dialógico em todas as suas etapas.

Por isso, não se deve descurar da elaboração de uma nova maneira de compreender o sistema jurídico, que ultrapasse, de um lado, os passivismos e os emotivismos e, de outro, que estimule, numa era de indeterminações exacerbadas, a vinculação do intérprete menos ao texto legislado fugaz e episódico, mais aos princípios fundamentais do ordenamento, assim como entendidos no capítulo antecedente. É dizer de acordo com diretrizes legítimas que devem ser contempladas com primazia pelo positivador derradeiro o intérprete, na sua interação prudente e comedida com o ordenamento e com as reinvidicações do caso. (FREITAS, 2002, p. 70)

Relevante contribuição do autor ao afirmar que o intérprete não deve esquecer-se do legislado e do comprometimento com o sistema jurídico de uma forma unicamente passional e, ao mesmo tempo, desmembrar-se de leituras positivistas desconsiderando fatores em detrimento da norma. O intérprete não deve se ater a escravidão mental não abolida pelo originalismo extremado e nem pelo textualismo radical (FREITAS, 2002). Deve então partir da riqueza valorativa dos princípios fundamentais para que, ao atribuir a hierarquização axiológica dos princípios, consiga de uma forma mais livre e mais profunda adentrar-se nas questões mais específicas e conseguir então dar a resposta mais efetiva da intensão do legislador e da demanda social apresentada.

Para

além

dessa

compreensão,

adentrando

na

interpretação

sistemática do ordenamento jurídico, Freitas (2002) nos ensina que:

“O intérprete sistemático deve guardar vinculo com a excelência ou com a otimização máxima da efetividade do discurso normativo. Deve fazê-lo, entretanto, naquilo que este possuir de eticamente superior, relevante e universalizável, conferindo-lhe, simultaneamente, a

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devida eficácia jurídica e a não menos devida eficácia ético-social. (FREITAS, 2002, p. 68-69)”

Inquestionável a valoração ética do intérprete para a melhor valoração do ordenamento para que as respostas dadas a sociedade sejam, além do positivado, o justo e o ético aceitos socialmente, maximizando, sob essas premissas éticas, a efetividade do discurso normativo. Nesse sentido, ainda em Freitas (2002):

Toda interpretação jurídica (englobando os tradicionais métodos de interpretação literal, histórico, teleológico, sociológico) emerge como um só processo tópico e sistemático, que torna imperioso a viabilização do equilíbrio entre formalismo e pragmatismo, o reconhecimento da impossibilidade do método único e a busca de soluções respeitadoras do ordenamento na sua fecunda dimensão axiológica e em seu caráter histórico não-linear, compreendido como projeto holístico, potencialmente coerente e permeável a evolutivas mutações. (FREITAS, 2002, p. 68)

Dentro dessa complexidade de argumentos, a grande questão é considerar a rede axiológica como holística e que vá além de uma técnica específica para resolução de casos concretos, ou que não haja reflexões sobre o modus operandi das decisões a serem tomadas. O intérprete deve estar sempre aberto a repensar as maneiras pelas quais atribuirá valores e princípios pela própria mutabilidade da sociedade e desses processos de evolução das compreensões de sistema jurídico para além das normas e para além da paixão e emoção. Nesse sentido, Costa (2005) de acordo com o jurista Juarez Freitas, acrescentaria como forma de expansão das compreensões sobre sistema jurídico, avançando na hierarquização axiológica, que:

Esse novo conceito de interpretação sistemática tem um aspecto fundamental, que é o metacritério da hierarquização axiológica. Interpretar consiste sempre em hierarquizar. O exegeta, para uma perfeita interpretação sistemática, tem necessariamente que hierarquizar seja em relação às normas, em inferior ou superior, geral

ou especial, seja em relação aos princípios e aos valores jurídicos. A

hierarquização de princípios e valores visa a superar as antinomias, e

o parâmetro pela qual o hermeneuta deve se guiar é a Constituição. Nesta, o intérprete busca encontrar os valores maiores de uma sociedade, os quais estão disseminados em normas e princípios do sistema jurídico. Vimos, assim, que o sistema está impregnado de valores, ou melhor, não há norma ou principio que não tenha valor.

O principio da hierarquização axiológica é, por assim dizer, um

superprincípio ou metaprincípio que “faz às vezes de um imperativo principiológico que imprime unidade sistemática aos fins jurídicos” (FREITAS, 2002, p. 80). A importância maior que verificamos nesse

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metacritério é o de superar as antinomias e as contradições que possam ocorrer no interior do sistema. Juarez Freitas bem esclarece esse superprincípio ao conceituá-lo como “o metacritério que ordena, diante inclusive de antinomias no plano de critérios, a prevalência do princípio axiologicamente superior, ou da norma axiologicamente superior em relação às demais, visando-se a uma exegese que impeça a autocontradição do sistema conforme a Constituição e que resguarde a unidade sintética dos seus múltiplos comandos. (COSTA, 2005, p. 87)

Dentro dessa nova temática apresentada, vê-se então, aliada a compreensão de sistema jurídico, a hierarquização axiológica como fenômeno de parâmetro entre princípios visando superar as antinomias através dos valores presentes da Constituição. Então, esse metacritério da hierarquização axiológica vai além da compreensão de sistema jurídico como rede axiológica entre princípios, valores e normas, pois a partir deste, uma vez havendo antinomias em relação a princípios axiologicamente superior, a hierarquização axiológica tentará, de acordo sempre com os princípios constitucionais, dar a compreensão para guardar a unidade do sistema jurídico e primar pela justiça. É nesse sentido que completa Juarez Freitas (2002), em junção feita entre hierarquização axiológica e a teoria de justiça proposta por John Rawls, afirmando que:

Deste modo reiterando inocorrer pretensão de expor uma paralela teoria da justiça -, resulta decisivo, para a melhor aplicação do princípio da hierarquização axiológica, compreender que, em face do conflito entre regras de prioridade, imanentes ou externas, o intérprete precisa se mostrar capaz de juridicamente vencer sem cair na falácia de uma hetero-integração que não seja, em alguma medida, auto-integração o conflito eventualmente existente entre o Direito posto ou vigente e o Direito tal como deveria ser, notadamente num Estado Democrático, guiado por uma racional concepção tendente a soluções equitativas e hierarquizando a justiça como um dos valores supremos, ao qual cumpre efetivar, ao máximo, no círculo dialógico da interpretação. (FREITAS, 2002, p. 143)

Faz-se mister a questão da própria justiça constitucional e dos direitos fundamentais em tese de fundamentação para uma hierarquização axiológica de forma a, de acordo com o princípio da proporcionalidade, “sacrificar o mínimo para preservar o máximo de direitos fundamentais” (FREITAS, 2002), e se chegar ao mais próximo de que um sistema jurídico possa chegar da justiça.

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Para tanto, o ordenamento jurídico enquanto sistema deve ter unidade

e coerência entre si, de tal modo que as normas fundamentais possam se

relacionar com todo o ordenamento jurídico, mas, como ressalta Bobbio, não só se relacionem com o todo mas num relacionamento de coerência entre si. Além da coerência entre as próprias normas, o Sistema Jurídico deve estar em harmonia com a sociedade, pois considerando o direito como complexo, falível, mutável e que está em constante construção para a conquista de ideais de justiça a toda a pluralidade não há como considerá-lo como um sistema

fechado e hermético. Sobre a mutabilidade do direito, nos ensina Canaris

(2002):

Mas a abertura do sistema objetivo resulta da essência do objeto da jurisprudência, designadamente da essência do Direito Positivo como um fenômeno colocado no processo da História, e como tal, mutável. Esta forma de abertura não se encontra necessariamente em todas as outras Ciências, pois o seu objeto pode ser imutável; pode até haver aqui uma especificidade da Ciencia do Direito; não se justifica então, de modo algum, colocar em dúvida a capacidade da ideia de sistema para a Ciência do Direito: pois as especificidades do nosso objeto devem corresponder a especialidades do nosso conceito de sistema e um sistema (em sentido objetivo) em mudança permanente é tao imaginável como uma unidade de sentido duradouramente modificável. (CANARIS, 2002 , p. 110-111)

O sistema jurídico, enquanto sistema pulsante que o é, não sobreviveria

a um sistema fechado e não complexo exatamente por ser representado por

uma diversidade de seres e pessoas que, por serem diferentes entre si e participarem de diferentes coletivos dentro de uma sociedade, exige do sistema uma adequação a essas realidades não encontradas outrora. Para Costa (2005), se considerá-lo como fechado e hermético, parte da sociedade criará ordenamentos jurídicos paralelos/alternativos por sentirem-se alijados da participação do contrato social. Bobbio (1997) colabora ao reconhecer como fonte do Direito não a razão, mas a vontade, e ainda tendo caído a concepção teológica do universo nas ciências modernas, a conseqüência inevitável é o pluralismo jurídico, através do reconhecimento das vontades proposta desde as concepções do contrato social.

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Através de uma interpretação hermenêutica e de uma visão sistemática deste conjunto pode-se pensar em um sistema jurídico como um tudo, em sua forma hierarquizada na forma de pirâmide. Em seu vértice de cima tem-se as normas fundamentais ou superiores que norteiam e indicam o caminho das demais normas e na base da pirâmide têm-se os atos executivos dessas normas. O Ordenamento Jurídico é tal que visa que estas normas ajam de forma ordenada para garantirem ou primarem pela norma fundamental. Ainda em respeito da pirâmide, “se a olharmos de cima para baixo, veremos uma série de processos de produção jurídica; se a olharmos de baixo para cima veremos, ao contrário, uma série de processos de execução jurídica.” (BOBBIO, 1997, p. 51)

Frisa também Bobbio (1997) que nos graus intermediários da pirâmide, estão juntas a produção e a execução; nos graus extremos, ou só a produção (norma fundamental) ou só a execução (atos executivos). Isso ocorre pois as normas fundamentais, presentes no topo da pirâmide, são as que coordenam e limitam as próximas ações de execução do sistema jurídico, de tal maneira que distribui-se o poder de forma limitada a partir da norma fundamental até as normas inferiores subseqüentes que visaram a execução da norma fundamental.

1.6. Pluralismo jurídico:

Uma das principais características do direito é ser mutável e falível, eis que não conseguirá atender a todas as demandas sociais, ou todos os anseios individuais/coletivos. Quando as demandas sociais não estão de acordo com àquelas a que o estado a submete, poderá ocorrer a criação de normas específicas utilizadas apenas por determinado grupo, pois a utilização das regras estatais descaracterizariam o grupo ou o colocariam em situação desforme à sua real condição enquanto grupo. Em virtude disso, o sistema jurídico acaba por agir através da recusa ou do reenvio da normativa, conforme Bobbio:

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Um estado que venha a incorporar um grupo étnico com costumes, civilização e história muito diferentes das do grupo étnico predominante pode seguir a via da absorção e da tolerância: a primeira requer. Frente ao ordenamento menor, o procedimento que chamamos de recusa, isto é, o do desconhecimento das regras próprias do grupo étnico e da substituição violentas pelas normas já em vigor no ordenamento estatal; a segunda poderá ser realizada através do processo de reenvio, isto é, atribuindo-se às normas, provavelmente a um grupo de normas, formadas integralmente no ordenamento menor, a mesma validade das normas próprias do ordenamento estatal, como se aquelas fossem idênticas a estas.

A atitude mais freqüente do Estado em relação às regras de ordenamentos menores e parciais é a da indiferença. Isso quer dizer que tais ordenamentos têm suas ordens e suas proibições, mas o Estado não as reconhece. (BOBBIO, 1997, p. 172)

É através da definição do que não é pluralismo jurídico que se inicia este capítulo, pois são em sistemas jurídicos fechados que facilmente enxergamos o quanto um Estado pode não reconhecer seus grupos internos e suas características reais, atendo-se aos próprios interesses, diminuindo, ou não reconhecendo, a variabilidade cultural existente para formação de um Estado. Para Wolkmer (2009), o desafio é de como participar do contexto social da globalização mundial em desenvolvimento sem deixar de estar integrado e atuar ativamente no plano cultural da legitimidade local, tendo em vista os projetos emancipatórios de vivência compartilhada.

Para o contraponto a esse direito posto, fechado e formalista, e para iniciar as colaborações do pluralismo jurídico como ferramenta para uma sociedade mais compartilhada e participativa, Boaventura de Souza Santos (1997) nos introduz suas compreensões:

“Sendo os cidadãos livres e autônomos, o poder do estado só pode assentar no consentimento deles e a obediência que lhe é devida só pode resultar de obrigação auto-assumida, isto é, do contrato social. (SANTOS, 1997)”

Se, em clara conexão com Jean-Jacques Rousseau e o Contrato Social, o poder do estado pertence aos cidadãos e em ultima análise ao povo, como poderia um Estado não admitir ou deixar de admitir determinadas demandas e anseios do povo uma vez que o legitimador do Estado é o próprio povo? E a participação da sociedade civil não significa nada para a atuação do Estado? As demandas claras a que o povo necessita não alertam mais ao

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Estado o foco de suas atuações? Senão, qual é o foco do Estado enquanto legitimado pelo povo?

O projeto da modernidade, segundo Boaventura de Souza Santos

(1997), baseou-se, no equilíbrio entre regulação e emancipação. Na regulação,

os princípios basilares eram:

- Princípio do Estado (Hobbes), Princípio Princípio da Comunidade (Rousseau).

de

Mercado (Locke) e

Já a emancipação baseou-se em três dimensões de racionalização e secularização da vida coletiva:

- Racionalidade moral-prática do direito moderno; Racionalidade

cognitivo-experimental da ciência e técnica moderna; racionalidade estético-

expressiva das artes e literaturas modernas.

Diante desse paradigma societário proposto por Boaventura de Souza

Santos, esse equilíbrio entre essas dimensões entre regulação e emancipação não ocorreram, devido ao próprio pilar da regulação se fortalecer às custas do pilar da emancipação em diversas contraditoriedades tais como entre cientismo

e utopismo, corporativismo e luta de classes, capitalismo e socialismo,

fascismo e democracia participativa, entre outras. O equilíbrio só ocorreria se esses pilares coevoluissem e crescessem em harmonia, no entanto não é o

que se vê.

Houve grande distanciamento entre o que o povo quer e o que o Estado tem como objetivos criando as tão conhecidas dicotomias na sociedade, de tal forma que ocorre descrédito a função estatal levando também a redução da participação política democrática baseada na representação, esta conquistada no voto. Para Boaventura de Souza Santos (1997), “a representação democrática assenta na distância, na diferenciação e mesmo na opacidade entre representante e representado” (SANTOS, 1997, p. 238) criando então uma situação de passividade política dos cidadãos.

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Na perspectiva de uma democracia participativa, através de solidariedade socialmente contextualizada, o mais importante é a participação horizontal dos cidadãos para a concretização da vontade geral e não de uma participação delegada e vertical, sem que os cidadãos se relacionem com aquilo que está sendo proposto. Nesse sentido. Boaventura de Souza Santos (1997) compartilha que:

“Para Rousseau, a vontade geral tem de ser construída com a participação efetiva dos cidadãos, de modo autônomo e solidário, sem delegações que retirem transparência à relação entre “soberania” e “governo”. Por esta razão, o contrato social assenta, não numa obrigação política vertical cidadão-estado, como sucede no modelo liberal, mas antes numa obrigação política horizontal cidadão- cidadão na base da qual é possível fundar uma associação política participativa. E para isso, a igualdade formal entre os cidadãos não chega, é necessária a igualdade substantiva, o que implica uma crítica da propriedade privada, como, de resto, Rousseau faz no seu Discurso sobre a Desigualdade entre os homens.” (SANTOS, 1997, p.

239)

Para tanto, passa-se do paradigma da igualdade meramente formal, instaurada pelo Estado liberal, para outro que concentra-se na igualdade substantiva ou material, para a efetivação dos pressupostos básicos do sistema jurídico, para ir além do que vem sendo proposto pela práxis dominante. E para isso, trazendo a questão do pluralismo jurídico conjuntamente com uma nova visão sobre a sociedade civil e o resgaste da participação através de novas relações culturais, Wolkmer (2009) nos introduz que:

Reinventar um “novo modo de vida” estimula a inserção cultural por outras modalidades de convivência compartilhada, de relações sociais e regulamentações das práticas emergentes e instituintes. Em tal cenário, a ênfase não estará no Estado e no Mercado, mas agora na Sociedade Civil enquanto novo espaço de resistência e de efetividade da pluralidade e das diferenças. Em sua capacidade geradora, a nova esfera pública proporciona, para os horizontes institucionais, novas alteridades culturais, novos procedimentos de prática política e de acesso à justiça, projetando extensa e diversa gama de atores sociais como fonte de legitimação do espaço sociopolítico e da constituição emergente de direitos. (WOLKMER, p. 2009, p. 203)

E, nesse espírito de inserção cultural, de aproximação da sociedade civil às conquistas de direitos relacionados à interesses comuns, é que está inserido essa nova lógica de “pluralismo jurídico”.

22

O pluralismo jurídico envolve diversas mudanças na construção da sociedade para sua efetiva aplicação que importam, como lembra Wolkmer (2009) a legitimidade de novos sujeitos sociais, a fundamentação na justa satisfação de necessidades humanas, a democratização e descentralização de um espaço público participativo, a defesa pedagógica de uma ética da alteridade, a consolidação de processos conducentes a uma racionalidade emancipatória, adotando assim a postura de um direito crítico que se reinventa enquanto um sistema jurídico aberto, flexível, participativo e democrático. Para Peter Haberle (1997) “a sociedade é livre e aberta na medida em que se amplia o círculo de intérpretes da Constituição” (HABERLE, 1997, p. 40), defendendo que, para além da interpretação dos juízes, a participação dos cidadãos, de grupos de interesse e da opinião pública é essencial para que o sistema jurídico tenha plena validade.

Os novos sujeitos sociais derivam de uma postura que, antes submissa e inerte, incitam emancipação, participação e criação de uma nova história, tais como os movimentos sociais que revela uma nova cidadania na sociedade, justificados em virtude do sistema de necessidades apresentados de uma forma que propicie valores de justiça, liberdade e vida. Também enfatiza Wolkmer (2009) a importância de uma ética de alteridade que simboliza uma ética antropológica da solidariedade, partindo dos elos mais oprimidos e excluídos para, através de práticas pedagógicas transformadoras, emancipar e libertar esses novos sujeitos sociais partindo para um comprometimento com a dignidade do “outro”. Dessa forma, e em conexão profunda, um novo paradigma de juridicidade baseia-se na racionalidade de caráter emancipatória construído a partir de uma identidade cultural que visa a liberdade, a emancipação e a autodeterminação.

Aproximando o pluralismo jurídico as praticas sociais alternativas, Wolkmer (2009) vê na produção e aplicação de direitos advindos das lutas ou práticas sociais comunitárias um grande exemplo de aplicação do pluralismo jurídico, pois a própria comunidade se torna capaz e emancipada de ações libertadoras que não necessariamente dependam das normas cogentes estatais, descentralizando a ideia de que o Direito provém do Judiciário, das

23

Assembléias Legislativas ou das Escolas de Direito. Na ideia de Direito como “acordo” e produto de necessidades, Wolkmer (2009) nos argumenta que

Um conjunto de vestígios confirmar a implementação crescente de novos mecanismos de auto-regulação dos conflitos e de resoluções dos interesses emergentes. É, sem negar ou abolir as manifestações normativas estatais, avançar democraticamente na direção de uma legalidade plural, fundada não mais exclusivamente na lógica de uma racionalidade formal, mas na satisfação das necessidades e na legitimidade de novos sujeitos sociais. (WOLKMER, 2009, p. 199-

200)

O pluralismo jurídico adota uma postura crítica em relação ao paradigma dominante, e propõe-se então, como todo pensamento crítico, subverter o que é convencionalmente aceito criando desfamilizarização em relação ao estabelecido, para em ultima instância, tornar-se em novo senso comum. Nesse sentido, buscando libertar os que paradigmaticamente estão excluídos, a crítica serve para revelar a alienação vivenciada historicamente, dispertando a autoconsciência e a possibilidade de modificação de diversos paradigmas intocáveis pelas práticas da sociedade. Para Wolkmer (2009), a crítica “tem um papel pedagógico transgressor, á medida que se torna instrumental operante correto para a conscientização, resistência e libertação, incorporando as esperanças, intentos e carências de sociabilidades”, possibilitando desgarrar-se de uma posição já estabelecida de opressão para outra postura de participação e emancipação.

1.7. Os relacionamentos existentes entre o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e o sistema jurídico

1.7.1. Histórico de iniciativas institucionais para o combate a fome desde o contexto internacional até a Criação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional SISAN

A preocupação com a alimentação, com a fome e com a qualidade dos alimentos é uma preocupação inerente a humanidade tendo em vista o caráter existencial da alimentação para a vida humana. Entretanto, essa preocupação

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diretamente com a falta de acesso aos alimentos e a má distribuição, em nível internacional, só ganhou expressão enquanto atividade estratégica conjunta após a Segunda Guerra Mundial.

Em um contexto de recuperação das relações internacionais, da criação da ONU Organização das Nações Unidas entre outras iniciativas surge uma proposta para a criação de um órgão específico acerca da alimentação e agricultura. Este órgão é a FAO Food and Agriculture Organization, criada em 1945 em Quebéc no Canadá. Marcada por concepções liberais norte-americanas e de uma crescente importância do alimento enquanto estratégia de força política, criou-se o ambiente necessário para a implantação de tecnologias para o aumento do acesso da alimentação através de insumos químicos, sementes melhoradas e máquinas agrícolas, dando inicio à Revolução Verde. Para a visualização do potencial empregado e nos resultados obtidos através do uso das tecnologias, Goodman (1990, p.12) revela que “a produção total das safras aumentou 97% nos Estados Unidos entre 1950 e 1981, com aumento de apenas 3% nas terras cultivadas e apesar de um declínio de 63% no emprego de mão-de-obra.”

Apesar de todo investimento feito na produção agrícola e no incentivo as tecnologias para os alimentos, o reflexo não é o esperado em relação ao acesso a alimentação, seguindo quadros cada vez mais preocupantes em relação a fome no mundo. Para Takagi (2006, p. 21), “o que se constatou, mesmo com um aumento fenomenal na produção mundial de alimentos, foi a manutenção de condições agudas de fome e desnutrição de grande parte da população mundial.” Para além do aumento quantitativo de produção, não viu- se nessas políticas alimentares a preocupação com o conceito chave de segurança alimentar. A principal preocupação deteve-se a oportunidades de mercado e de participação política determinada pelo pós-guerra de fixação da alimentação como poder internacional, através da ligação entre estado e empresas. O estado tornou-se decisivo para a legitimação das empresas agrícolas através dos capitais agroindustriais identificados com sistemas de produção agrícola (commodities). Goodman (1990) acrescenta que:

25

A aliança do Estado, capitais agroindustriais e “lobbies” agrários representa uma formidável coalizão em defesa da agricultura e assegura a continuidade das oportunidades de acumulação nas cadeias agroalimentares tradicionais. A institucionalização dos excedentes de produção, relegando a segundo plano as forças de mercado, tornou-se, assim, a base das estratégias apropriacionistas dos capitais agroindustriais (GOODMAN, 1990, p. 12)

Com essa compreensão em relação a falta de preocupação com a segurança alimentar a nível internacional, e sim em relação a poder

internacional através da alimentação, Josué de Castro apud TAKAGI (2006, p. 14) contribui ao afirmar que “a fome é um produto de estruturas econômicas

não é um problema de limitação da produção por coerção de

forças naturais. É antes, um problema de distribuição”. Nesse sentido, apesar de tentativas de incorporar políticas baseados em assistência alimentar, fato que revela-se insuficiente para o direito a alimentação, apenas em 1982 é que a FAO, através do Comitê Mundial de Segurança Alimentar define que “o objetivo final da segurança alimentar mundial é assegurar que todas as pessoas tenham, em todo momento, acesso físico e econômico aos alimentos básicos que necessitam” (TAKAGI, 2006, p. 22) alinhando-se ao conceito de acessibilidade aos alimentos básicos para a sobrevivência e para a supressão da fome. Além da fome, acrescentou-se ao conceito de segurança alimentar a questão da qualidade do alimento em caráter nutricional, biológico e sanitário, incorporada a noção de alimento seguro na Conferencia Nacional de Nutrição, promovida pela FAO em 1992 e pela Organização Mundial da Saúde.

defeituosas (

)

Nessa mesma perspectiva, foi realizada em 1996 a Cúpula Mundial da Alimentação, com o objetivo de colocar metas para que se renovasse o compromisso global de eliminar a fome e a subnutrição podendo compartilhar a segurança alimentar e o direito a alimentação a todas as pessoas. Após cinco anos, foi realizada a Cúpula + 5, e analisou-se que as metas estavam longe das estabelecidas em 1996. As estimativas eram da existência de 816 milhões de pessoas de pessoas que não consumiam o suficiente (TAKAGI, 2006).

Criou-se também em 2000 a Relatoria Especial sobre o Direito a Alimentação, uma instituição paralela à FAO, além da incorporação da ONU junto a FAO, incorporando o direito a alimentação adequada nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

26

No Brasil, especificamente, as intervenções estatais em relação a abastecimento e, por consequência, a fome, começa por volta de 1917, através da crise em relação a grande oferta de alimentos baseada na exportação e de pouco interesse no abastecimento interno. Lembra Belik, Graziano da Silva e Takagi (2001) que:

“na realidade, a escassez estava sendo gerada pelos crescentes embarques de alimentos brasileiros para o abastecimento das nações europeias em guerra (Fritsch, 1990:45). O mercado não queria café, cujos preços estavam em baixa, e sim alimentos. Isso levava a um enorme esforço das fazendas em situação financeira debilitada para desviar o produto agrícola que atendia a uma população urbana já na casa dos milhões.” (BELIK, GRAZIANO DA SILVA, TAKAGI, 2001, p.

120)

Então nesse sentido foi criado ainda no governo Vargas o Comite de Abastecimento, que dentro das suas contribuições em relação ao abastecimento interno teve iniciativas como os restaurantes populares e instrumentos de incentivo de apoio à produção agrícola. Iniciou-se então, em escala internacional, preocupações em relação a produção, ao consumo e a distribuição de alimentos onde o Brasil participou da Conferência de Hot Springs (1943) que indicava a própria criação da FAO. Também nesse período é que Josué de Castro lançou sua obra Geografia da Fome, que foi um grande marco para a segurança alimentar e fome no país. Na sequencia dos acontecimentos, tiveram várias iniciativas para melhorias e controle da distribuição de alimentos e estocagem em época de inicio da Reforma Agrária:

“Nesse sentido, vale mencionar a criação da Cofap - Comissão Federal de Abastecimento e Preços em 1951, que mais tarde abriu espaço para uma área de fiscalização (Sunab), armazenamento (Cibrazém), distribuição (Cobal) e administração de estoques reguladores (CFP). Todos esses órgãos foram lançados dez anos depois, através das leis delegadas, numa tentativa do governo Goulart de recuperar o atraso existente entre as estruturas de produção e comercialização e deter a especulação.” (BELIK, GRAZIANO DA SILVA, TAKAGI, 2001, p. 121)

A produção agrícola começa então a crescer em ritmo superior ao aumento populacional, através do aumento da agricultura e da pecuária através do crédito rural subsidiado fazendo com que os alimentos estivessem de certa forma mais disponíveis dentro do país. No entanto destaca Belik, Graziano da Silva e Takagi (2001) que

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embora a produção agrícola fosse suficiente para atender às necessidades nutricionais mesmo considerando a crescente exportação de produtos agrícolas e parte importante da distribuição estivesse sob controle do poder público, os preços dos alimentos continuavam elevados e a questão da fome já se destacava na realidade brasileira associada à questão da carestia dos alimentos e à inflação. (BELIK, GRAZIANO DA SILVA, TAKAGI, 2001, p. 122)

O Ministério da Agricultura, em 1985, introduziu o conceito de

segurança alimentar como proposta para intervenção na fome, mas ainda considerando a fome como problema da agricultura e de abastecimento, e não como um todo mais complexo. No documento, a noção de segurança alimentar se baseava no atendimento às necessidades alimentares da população e na auto-suficiência nacional na produção de alimentos (TAKAGI, 2006).

A partir de 1993, inicia-se a mobilização da Ação de Cidadania contra a

Fome, Miséria e pela Vida, dirigido pelo sociólogo Betinho onde em diversos lugares no Brasil iniciam-se Comitês para resgate da cidadania de milhares de pessoas em situação de fome e miséria.

A formulação de uma proposta de caráter nacional de política pública

ocorre então na proposta conhecida como “Política Nacional de Segurança Alimentar”, criado pelo Governo Paralelo, sob responsabilidade de Luis Inácio Lula da Silva, para aumentar a política em relação ao acesso aos alimentos

juntamente com a questão da produção dos alimentos, sendo discutido a questão do direito a alimentação para todos os cidadãos. Em conjunto com as praticas da Ação de Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, a proposta foi entregue ao então presidente Itamar Franco que criou o Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar. No entanto, o Consea foi extinto no governo de Fernando Henrique Cardoso, o substituindo pelo Conselho da Comunidade Solidária, descaracterizando as funções iniciais. A revitalização deste conselho se deu após a Cúpula Mundial de Alimentação ocorrida em Roma, em 1996, onde o grupo brasileiro participante criou o Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar e Nutricional para promover ações para a formação da política pública através da sociedade civil.

No inicio de 2000, dá-se inicio ao Programa Fome Zero colocando a

questão da fome como meta prioritária para o governo que após diversas

28

conferências foi reinstalado o Consea dentre outras iniciativas para a efetivação deste programa. O programa foi criado também para ampliar as condições das ações feitas em relação a fome, que muitas vezes formam-se apenas em situações emergenciais e não em atuação efetiva, criando mecanismos que liguem as políticas públicas desde apoios a agricultura familiar até a melhor distribuição e melhores preços dos alimentos, repensando as bases estruturais.

Então o Consea ficou responsável pela formação da Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, enfatizando então o direito a alimentação como princípio geral. Para Triches (2010), as ações estavam em áreas como na produção de alimentos, no acesso aos alimentos e no campo das ações de alimentação e de nutrição, e ainda complementa:

Cabe salientar que, na proposta da SAN, as políticas de estímulo ao crescimento da produção agroalimentar deveriam estar associadas a itens tais como: promoção de formas socialmente equitativas e ambientalmente sustentáveis de ocupação do espaço agrário; valorização das culturas alimentares locais e regionais; enfrentamento da pobreza rural, já que nas áreas rurais estavam localizadas as mais elevadas prevalências de pobreza e de insegurança alimentar; e, estímulo ao desenvolvimento local e regional. Por outro lado, propunha-se reverter as tendências de consumo alimentar que remeteriam a problemas e riscos provocados pela conformação de um padrão alimentar que contrastaria com o que seria recomendável em termos de práticas alimentares saudáveis, ou de um padrão de consumo sustentável. Para além da educação alimentar e nutricional racional, deveriam ser abordados elementos relativos aos direitos do consumidor e à valorização dos aspectos sociais, ambientais e culturais envolvidos na produção e distribuição de alimentos. (TRICHES, 2010, p. 78)

O Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional SISAN é um sistema ainda em construção e que visa promover o direito fundamental à alimentação adequada. Este é um sistema público que, através da gestão interministerial articulado e em parceria com os entes federativos e a sociedade civil, implementam as políticas públicas promotoras da segurança alimentar e nutricional asseguradas em nossa Constituição tendo em vista sua relevância para a promoção dos direitos sociais e fundamentais.

Como forma de garantir a efetivação do direito a alimentação dentro de uma política pública atuante nesta temática, foi aprovada a Lei Orgânica de Segurança Alimentar em 15 de Setembro de 2006, que cria o Sistema de

29

Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN) com vistas a assegurar o direito humano a alimentação adequada, onde no art 1º versa:

Art. 1 o Esta Lei estabelece as definições, princípios, diretrizes, objetivos e composição do Sistema Nacional de Segurança Alimentar

e Nutricional SISAN, por meio do qual o poder público, com a

participação da sociedade civil organizada, formulará e implementará políticas, planos, programas e ações com vistas em assegurar o direito humano à alimentação adequada.

A lei orgânica permite a criação do Sistema Nacional para a efetivação da política pública uma vez formada. Após desenvolvido o conceito de segurança alimentar e nutricional nos moldes atuais, a lei nos ensina sobre o que ela abrange:

Art. 4 o A segurança alimentar e nutricional abrange:

I a ampliação das condições de acesso aos alimentos por meio da produção, em especial da agricultura tradicional e familiar, do

processamento, da industrialização, da comercialização, incluindo-se

os acordos internacionais, do abastecimento e da distribuição dos

alimentos, incluindo-se a água, bem como da geração de emprego e

da redistribuição da renda;

II a conservação da biodiversidade e a utilização sustentável dos

recursos;

III a promoção da saúde, da nutrição e da alimentação da

população, incluindo-se grupos populacionais específicos e

populações em situação de vulnerabilidade social;

IV a garantia da qualidade biológica, sanitária, nutricional e

tecnológica dos alimentos, bem como seu aproveitamento, estimulando práticas alimentares e estilos de vida saudáveis que respeitem a diversidade étnica e racial e cultural da população;

V a produção de conhecimento e o acesso à informação; e

VI

a implementação de políticas públicas e estratégias sustentáveis

e

participativas de produção, comercialização e consumo de

alimentos, respeitando-se as múltiplas características culturais do País.

Este artigo condensa as principais preocupações da segurança alimentar tentando ampliá-la enquanto problematização sistêmica. Inicia com o foco na agricultura familiar e tradicional, na questão do êxodo rural entre outros para a produção de alimentos, também abarcando a biodiversidade e, por consequência, modelos mais sustentáveis de agricultura tais como a agroecologia, demonstrando que as monoculturas apesar de serem um forte

30

aparato econômico não garantem a nossa subsistência enquanto pessoas saudáveis e nutridas. Também a questão da qualidade alimentar, em diversos eixos, juntamente ao respeito as diversidades culturais, sendo que vários povos possuem sua própria criação de soberania alimentar, não podendo portanto o estado intervir de uma forma autoritária na educação e formação daquelas pessoas, podendo complementar e ensinar os ganhos e melhorias de uma alimentação a partir das experiências já existentes.

Apesar do foco interministerial proposto pelo governo para as ações de segurança alimentar, os principais programas estão vinculados ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a fome, que concentram as atividades em parceria com os outros ministérios, com a sociedade civil. As principais iniciativas de segurança alimentar no país rondam os seguintes programas/projetos:

- Programa de Aquisição de Alimentos (PAA): O PAA tem por objetivo estimular a pequena produção agropecuária familiar onde são feitas compras diretas de alimentos com os agricultores sendo distribuídos a entidades sem fins lucrativos que redistribui às pessoas que estão em situação de insegurança alimentar. A compra direta do produto obedece um critério referencial de preço de mercado, não devendo ser nem superior, nem inferior.

- Programa Restaurantes Populares (PRP): Os Restaurantes Populares ofertam refeições saudáveis a preços acessíveis (custo de R$ 1,00) para aquelas pessoas com situação de insegurança alimentar ou que não possuam renda, promovendo o Direito Humano à Alimentação Adequada. Para a efetividade dessa ação, “O MDS apóia a construção e/ou a reforma das instalações prediais, a aquisição de equipamentos, o suporte técnico e o acompanhamento.”(CONTI, 2009)

- Programa de Cozinhas Comunitárias (PCC): As Cozinhas Comunitárias visam ofertar refeições adequadas nutricionalmente e, ao mesmo tempo, incluir socialmente a comunidade promovendo inserção social e alimentação. “As cozinhas são uma espécie de mini-restaurantes populares

31

que contribuem para a inclusão social, bem como para o fortalecimento da ação coletiva e da identidade comum.” (CONTI, 2009)

- Programa Bancos de Alimentos (PBA):

Os Bancos de Alimentos são “Equipamentos Públicos de Alimentação e Nutrição destinados a arrecadar, selecionar, processar, armazenar e distribuir gêneros alimentícios arrecadados por meio de doações junto à rede varejista e/ou adquiridos da agricultura familiar por meio de programas governamentais.” (MDS, 2011)

Após feita esta análise os alimentos são destinados à pessoas em vulnerabilidade alimentar e nutricional. Este programa destina-se ao combate do desperdício de alimentos através da “arrecadação de gêneros alimentícios normalmente perdidos ao longo da cadeia produtiva, além de apoiar o abastecimento alimentar local por meio da integração com outros programas”(MDS, 2011) tais como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

- Programa de Agricultura Urbana e Periurbana: A Agricultura Urbana e

Periurbana (AUP) é um conceito multidimensional que inclui a produção, a coleta, a transformação e a prestação de serviço para produção agrícola (hortaliças, frutas, ervas, plantas medicinais e ornamentais) voltada ao autoconsumo, troca, doação e/ou comercialização, valendo-se, de forma eficiente e saudável, dos insumos e dos ambientes locais. É desenvolvida em espaços intraurbanos ou periurbanos, vinculada a dinâmicas locais (MDS, 2007). As ações do Programa visam consolidar a cultura da agricultura urbana

e periurbana, melhorando o auto-abastecimento alimentar das famílias e comunidades engajadas além da comercialização do excedente em feiras, conscientizando sobre a importância da melhoria da dieta alimentar, de uma relação com o meio ambiente mais próxima e de uma renda complementar proveniente da venda dos alimentos produzidos. (CONTI, 2009)

- Programa de Feiras e Mercados Populares:

32

Para estimular a comercialização e o consumo de alimentos estão as Feiras e Mercados Populares. Enquanto as Feiras promovem a venda de produtos agrícolas, os mercados comercializam alimentos não perecíveis e outros itens de primeira necessidade. As Feiras Populares beneficiam os agricultores familiares pois são uma importante estratégia de comercialização da produção, possibilitando maior acesso a população em geral a alimentos de qualidade além da proximidade entre consumidor e produtor, aumentando os diálogos entre ambos.(MDS, 2011)

Outros programas que possuem relevância com uma abordagem mais ampla e que possui cunho interministerial e contribuem para o Plano Nacional de Segurança Alimentar são o Programa Cisternas, Programa do Leite, Educação Alimentar e Nutricional, Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), Territórios de Cidadania, Programa Bolsa Família.

1.7.2. O Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional - SISAN e o Sistema Jurídico:

O Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional SISAN é componente das políticas públicas que atuam na frente contra a fome e contra a miséria no Brasil. Por conseguinte, O SISAN faz parte do Sistema jurídico brasileiro por ser regulada por princípios, normas e valores jurídicos que primam pelo cumprimento das normas fundamentais da Constituição.

O Sistema jurídico é definido por Freitas (2002), onde o reconhece

“como uma rede axiológica e hierarquizada topicamente de princípios fundamentais, de normas estritas (ou regras) e de valores jurídicos cuja função é a de, evitando ou superando antinomias em sentido amplo, dar cumprimento aos objetivos justificadores do Estado Democrático de Direito, assim como se encontram consubstanciados, expressa ou implicitamente, na Constituição.” (FREITAS, p. 61, 2002)

33

Dentro desse conceito, aproximando do SISAN, vemos que a execução das políticas públicas foi baseada em princípios basilares da Constituição como o da dignidade humana entre outros para a efetivação do direito a alimentação. Como se não bastasse a dignidade humana para a criação de políticas públicas voltadas a alimentação saudável, o legislador optou por trazer novas positivações incorporando ao sistema jurídico, como direito fundamental social, disposto no art. 6º da Carta Maior, o direito a alimentação. A norma fundamental a que o SISAN opera foi promulgada através da Emenda Constitucional nº 64, de 04 de fevereiro de 2010:

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

Antes da inserção desta emenda constitucional, o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional já existia e tinha como base principiológica a questão da dignidade da pessoa humana e da igualdade e como norma fundamental, a saúde e a assistência aos desemparados (art. 6º), além da competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios de combater as causas da pobreza e os fatores de marginalização (art. 23, X), todas presentes no texto constitucional.

Reconhecendo o Ordenamento Jurídico como normas que ajam de forma ordenada para garantirem ou primarem pela norma fundamental ou princípios, vemos o SISAN como uma atuação estatal que, com base constitucional, atua ao executar uma política pública de alimentação adequada, através de leis que são, como lembra Bobbio “se a olharmos de cima para baixo, veremos uma série de processos de produção jurídica; se a olharmos de baixo para cima veremos, ao contrário, uma série de processos de execução jurídica.” (BOBBIO, 1997, p. 51) Ou seja, ao olharmos de cima para baixo, ou seja, da Constituição para a execução da política pública enxergamos os princípios como paradigmas de modificação e atuação na sociedade, enquanto que, olhando o ordenamento jurídico das execuções para a Constituição, entendemos que as execuções são resultados do que se pretendeu pelo

34

legislador na Carta Maior. O direito a alimentação, portanto, foi uma produção jurídica que por estar sob a forma de direitos fundamentais, possui sua fundamentalidade oriunda diretamente dos princípios constitucionais, para a partir disso ser criadas na forma de pirâmide do sistema jurídico as normas de execução deste direito fundamental para sua concretização no plano da práxis das políticas públicas. Além disso, por ser de aplicação imediata os direitos fundamentais, conforme Silva (2010), reforça o plano de execução desta norma baseando então todo o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional a partir do Sistema Jurídico.

Então, como forma de visualizar essa pirâmide pretendida por Bobbio, em primeiro lugar temos o direito social a alimentação positivado no art. 6º da Constituição. Em seguida, temos a Lei Orgânica de Segurança Alimentar (LOSAN) que é o marco regulatório específico para a criação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar que estabelece as definições, os princípios, diretrizes e os objetivos do SISAN.

Art. 7 o A consecução do direito humano à alimentação adequada e

da segurança alimentar e nutricional da população far-se-á por meio

do SISAN, integrado por um conjunto de órgãos e entidades da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e pelas instituições privadas, com ou sem fins lucrativos, afetas à segurança alimentar e nutricional e que manifestem interesse em integrar o Sistema, respeitada a legislação aplicável.

§

obedecer aos princípios e diretrizes do Sistema e será definida a partir de critérios estabelecidos pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional CONSEA e pela Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional, a ser criada em ato do Poder Executivo Federal.

1 o A participação no SISAN de que trata este artigo deverá

§

§ 1 o deste artigo poderão estabelecer requisitos distintos e específicos para os setores público e privado.

o

2 o Os órgãos responsáveis pela definição dos critérios de que trata

§

SISAN o farão em caráter interdependente, assegurada a autonomia

dos seus processos decisórios.

3 o Os órgãos e entidades públicos ou privados que integram o

§

entidades da sociedade civil integrantes do SISAN.

4 o

O dever do poder público não exclui a responsabilidade das

35

Este sistema cria condições para a formulação da Política e do Plano Nacional nesta área além do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA), da Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, da Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional. Também integram o SISAN órgãos e entidades da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios.

O SISAN propicia a inclusão de diretrizes, metas, recursos e instrumentos

de avaliação e monitoramento para a gestão pública com o foco na resolução dos problemas que ainda envergonham o Brasil, tais como a fome e a carência

nutricional. Essas diretrizes estão presentes no art. 9º da Lei Orgânica de Segurança Alimentar:

Art. 9 o O SISAN tem como base as seguintes diretrizes:

I promoção da intersetorialidade das políticas, programas e ações governamentais e não-governamentais;

II

colaboração, entre as esferas de governo;

descentralização

das

ações

e

articulação,

em

regime

de

III monitoramento da situação alimentar e nutricional, visando a

subsidiar o ciclo de gestão das políticas para a área nas diferentes esferas de governo;

IV conjugação de medidas diretas e imediatas de garantia de

acesso à alimentação adequada, com ações que ampliem a

capacidade de subsistência autônoma da população;

V articulação entre orçamento e gestão;

VI estímulo ao desenvolvimento de pesquisas e à capacitação de

recursos humanos.

É proposta a divisão e compartilhamento das responsabilidades entre os

entes para aumentar as possibilidades de êxito dos programas e ampliar a troca de conhecimentos e experiências de diferentes setores do governo e da sociedade civil para uma gestão mais democrática e menos dividida. Um instrumento novo, mas que uma vez bem utilizado pode estabelecer melhores resultados do que uma política pública sozinha dentro de um ministério específico. Além disso, as medidas diretas e imediatas de garantia ao acesso à

36

alimentação, proposta no art. 9°, IV da LOSAN, adequada se coadunam com os direitos fundamentais que são de aplicabilidade imediata.

A Lei orgânica 11.346 descreve os princípios as quais o SISAN está submetido no art. 8°:

Art. 8 o O SISAN reger-se-á pelos seguintes princípios:

I universalidade e eqüidade no acesso à alimentação adequada, sem qualquer espécie de discriminação;

II preservação da autonomia e respeito à dignidade das pessoas;

III participação social na formulação, execução, acompanhamento,

monitoramento e controle das políticas e dos planos de segurança alimentar e nutricional em todas as esferas de governo; e

IV transparência dos programas, das ações e dos recursos públicos

e privados e dos critérios para sua concessão.

Sobre princípios, lembra Canaris (2002, p. 76) que estes são os valores fundamentais mais profundos e que estes estão por de trás da lei e da ratio legis, sendo a ratio iuris determinante que tornam possível compreender a unidade jurídica. Além disso, pondera Canaris (2002, p. 88) que os princípios precisam “para a sua realização, de uma concretização através de sub- princípios e valores singulares, com conteúdo material próprio.” Nesse sentido, o sistema jurídico possui princípios como o da dignidade humana e que, a partir desse, derivam-se sub-princípios e valores, no caso em tela - tendo em conta a base antropológica - os direitos fundamentais (CANOTILHO, 2003). Isso é o que consta no art. 2º da LOSAN quando diz que a alimentação adequada é direito fundamental do ser humano, inerente à dignidade da pessoa humana.

A partir de então se encontra os direitos sociais e seu rol expresso no art. 6º da Constituição. Então, para regular este direito a alimentação, criou-se outro sistema, que limitado pela produção jurídica superior, exerce sua execução jurídica e por sua vez pois seus próprios princípios, tais como expresso no art. 8º da LOSAN (BOBBIO, 1997).

Destacam-se os princípios da equidade, e por tanto, vendo a equidade como material, a universalidade do acesso à alimentação. Outro princípio que merece destaque é o da participação social para o aprimoramento dos

37

programas e das reais necessidades/dificuldades do acesso aos programas, vendo-o como processo emancipador e não meramente assistencial, para reforçar a própria questão da autonomia e da dignidade do cidadão.

Dentro do SISAN existem iniciativas para que se promovam a participação popular nas decisões para tentar aproximar as decisões do governo das reais necessidades da população, incentivando a participação nas Conferências de Segurança Alimentar, na formação dos Fóruns de Segurança Alimentar e no próprio Conselho Nacional de Segurança Alimentar, reservando 2/3 da composição no CONSEA de representantes da sociedade civil e 1/3 de representantes do governo, tentando de alguma forma mexer na estrutura rígida de outras políticas públicas e efetivando a participação popular através do Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar e Nutricional, fomentando as discussões com a sociedade.

38

CAPÍTULO 2 A SEGURANÇA ALIMENTAR DENTRO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS, PARA ALÉM DE DIREITO SOCIAL E DE DIREITO AMBIENTAL.

2.1. Evolução dos Direitos Fundamentais:

Dentro das conquistas dos direitos fundamentais, temos todo um

histórico que nos permitiu intensificar os conceitos de direitos fundamentais e

ampliá-los a forma na qual hoje encontramos. Dito isso, temos que esses

direitos foram, a seu tempo, vertentes de lutas e insatisfações que o povo

trouxe a tona para intensificar a abordagem de um Estado protetor e não

apenas um Estado arrecadador. Nas palavras de Celso Bastos (1999, p. 590),

“o exercício dos poderes soberanos não vai ao ponto de ignorar que há limites

para a sua atividade além dos quais se invade a esfera jurídica do cidadão.”

Esses direitos constitucionais garantem o exercício de uma autonomia e, além

disso, impõem limitações à conduta do Estado.

Na seqüência dos acontecimentos históricos definiram-se novos

direitos fundamentais por se perceber novas problemáticas humanas,

ampliando a atuação estatal e a participação democrática da população para a

garantia de direitos individuais e coletivos que complementem os anseios da

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comunidade. Dentro desta perspectiva temos as dimensões de direitos fundamentais que nos remetem a um processo cumulativo e de complementaridade destes direitos (SARLET, 2010). A doutrina traz as dimensões através da expressão gerações, o que acaba por transferir a ideia de uma gradativa substituição de uma geração por outra, o que não corresponde a realidade de lutas cada vez mais relevantes em todas as áreas percorridas pelos direitos fundamentais. (SARLET 2010)

2.2. Direitos fundamentais de primeira dimensão:

como

aqueles que dizem respeito às liberdades políticas e aos direitos civis e políticos. O principal princípio é o da liberdade.

A

esses

direitos

de

primeira

dimensão

podemos

defini-los

Os direitos fundamentais de primeira dimensão, lembra Lenza (2008), iniciaram-se nos séculos XVII, XVIII e XIX através, por exemplo, da Magna Carta de 1215 de autoria do rei “João Sem Terra”, também no acontecimento da Paz de Westfália (1648), Habeas Corpus Act (1679), Bill of Rights (1688), a Declaração Americana (1776) e a Francesa (1789).

Derivada de algumas concessões a certos estamentos sociais, a Magna Carta de João Sem Terra foi extraída pelos nobres ingleses no intento de receber privilégios tais como isenções de taxas e de facilitações com a justiça. Como nos explica Celso Bastos (1999, p. 590), “valeu como a definição de principio de monarquia limitada, sem repercussão, porém, na época, às massas.” A partir dessa Carta, a monarquia acabou tendo que repartir seu poderio com outras classes sociais. Mesmo não tendo atingido a todos de uma forma geral, esta Carta corrobora para um aumento da participação e da não personificação do Estado na figura do rei.

Para Bastos (2010), outro momento de grande importância para essa dimensão de direitos fundamentais foram as Declarações Americana (1776) e a

40

Francesa (1789), onde ambas apresentaram a questão da universalidade dos direitos. No artigo 1º da Declaração Americana vê-se essa questão presente:

“Que todos os homens são, por natureza, igualmente livres e independentes, e tem certos direitos inatos, dos quais , quando entram em estado de sociedade, não podem por qualquer acordo privar ou despojar seu pósteros e que são: o gozo da vida e da liberdade com os meios de adquirir e de possuir a propriedade e de buscar e obter a felicidade e a segurança.”

Sob influência de Jean-Jacques Rousseau, a Declaração Francesa parte da premissa de que “todos os homens nascem livres”. Importante reflexão feita por Bastos (2010) acerca da obra “O Contrato Social” de Rousseau, é que a sociedade de iguais que se submete ao contrato nada mais faz do que obedecer a si mesma, ou seja, o contrato compromete-se com obediência da vontade geral (da maioria). O grande legado dessa dimensão de direitos fundamentais foi a questão da liberdade, que apesar de não ter alcançado a todas as classes sociais, iniciam as conquistas dos direitos fundamentais.

2.3. Direitos fundamentais de segunda dimensão:

Para os direitos pertencentes à segunda dimensão, vemos a questão dos direitos sociais, onde através do período da Revolução Industrial viu-se a necessidade de buscar princípios de igualdade através da questão social. As ideias de segunda dimensão vieram da Constituição de Weimar Alemanha (1919), Tratado de Versalhes (1919), Comuna de Paris (1848) entre outros.

Partindo da premissa de quem cada homem é igual detentor de direitos, a ideia dos direitos fundamentais de segunda dimensão era a de assegurar uma igualdade inicial para eliminar privilégios e assim, ampliar os direitos dos menos amparados apenas por ter nascido em uma “casta” menos favorecida. Erguido em um contexto marxista, na busca de uma igualdade não meramente formal, esses direitos fundamentais trouxeram consigo garantias em questões econômicas, sociais, políticos e culturais através da atuação do

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Estado como garantidor. Ajuda-nos a compreender o resultado dessa dimensão, a lição de José Afonso da Silva onde

podemos dizer que os direitos sociais, como dimensão de direitos fundamentais do homem, são prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais. São, portanto, direitos que se ligam ao direito de igualdade. Valem como pressupostos do gozo dos direitos individuais na medida em que criam condições materiais mais propícias ao auferimento da igualdade real, o que, por sua vez, proporciona condição mais compatível com o exercício efetivo da liberdade. (SILVA, 2010, p. 286)

A intenção de igualar os desiguais é a grande questão dentro desta segunda dimensão que privilegia os direitos sociais. Tem-se com isso a ideia de evitar o formalismo de igualdade gerador das desigualdades econômicas de uma sociedade liberal.

Como lembra José Afonso da Silva (2010), o principio da igualdade esteve presente, desde o Império, como igualdade perante a lei, enunciado que se confunde com a mera isonomia formal. Assim, a lei e sua aplicação tratam a todos igualmente, sem levar em conta as distinções dos grupos. Para o atendimento de populações que se encontram em vulnerabilidade social, na ideia de equiparação social, é que a Constituição atua para promoção da justiça social no intento de promover a igualdade material.

2.4. Direitos fundamentais de terceira dimensão:

No decorrer da conquista dos direitos fundamentais, os direitos fundamentais de terceira geração estão relacionados com o humanismo e com o ideal de uma sociedade mais justa e solidária onde passa-se a atribuir direitos ao indivíduo não só em sua singularidade, mas sim a toda coletividade social, incluindo a proteção das próximas gerações.

Dentro desse panorama podemos incluir o preservacionismo ambiental, a paz mundial, os patrimônios comuns a humanidade, a autodeterminação dos

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povos, a questão da comunicação e a proteção dos consumidores. Norberto Bobbio (1992) nos acrescenta que o mais importante dos direitos de terceira dimensão são os reivindicados pelos movimentos ecológicos, qual seja, o direito de viver num ambiente não poluído. Importante considerar que esta dimensão colabora para o crescimento de uma consciência jurídica de sociedade, redimensionando os direito coletivos (difusos).

2.5. Direitos fundamentais de quarta dimensão:

Ainda havendo possibilidade para novas dimensões de direitos fundamentais, a última conhecida é a que se refere à questão do risco a

existência humana através da engenharia genética, onde as pesquisas genéticas podem vir a ter seus efeitos cada vez mais traumáticos em virtude de exageros e usos inadequados da tecnologia subvertendo a pesquisa científica

a interesses puramente econômicos em detrimento da dignidade humana.

2.6. A alimentação como direito fundamental de segunda dimensão:

Na questão da alimentação como direito fundamental de segunda dimensão, temos a inserção da temática através da Emenda Constitucional nº 64, de 04 de fevereiro de 2010, que nos acrescenta em nossa Magna Carta

o direito social a alimentação.

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (grifo nosso)

Além disso, é importante frisar a aplicação imediata dada aos direitos sociais pelo disposto no art. 5º, §1º da Magna Carta: “As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”. E é nessa linha, que, segundo Sarlet (2010), entendemos os direitos sociais como de natureza prestacional onde se desenvolvem ações que objetivam a realização da

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igualdade material, no sentido de garantirem a participação do povo na distribuição política de bens.

Para Castro (1984, p. 20), “a desnutrição é causada pela falta de alimentos, dificuldades econômicas e desconhecimento dos princípios de alimentação balanceada.” Encontramos grande nível de subnutrição e desnutrição em nosso país em virtude de um sistema econômico excludente que não distribui a renda de uma maneira efetiva para manutenção do mínimo existencial através da alimentação.

E assim, para positivar, assegurar e promover a segurança alimentar no Brasil, é que foi criada a lei 11346/06, que define a alimentação adequada como direito fundamental levando em conta as dimensões ambientais, culturais e sociais segurança alimentar conforme segue:

Art. 2 o A alimentação adequada é direito fundamental do ser humano, inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal, devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população.

§

dimensões ambientais, culturais, econômicas, regionais e sociais.

1 o A adoção dessas políticas e ações deverá levar em conta as

§

informar, monitorar, fiscalizar e avaliar a realização do direito humano à alimentação adequada, bem como garantir os mecanismos para

sua exigibilidade.

2 o É dever do poder público respeitar, proteger, promover, prover,

Na intenção de acabar com a fome no país e proporcionar alimentos de qualidade que melhorem a saúde das pessoas é que a LOSAN (Lei Orgânica de Segurança Alimentar) se propõe a intervir, através da criação/atuação de comissões e conselhos que, de forma ativa, possam transformar a realidade.

2.7. O meio ambiente equilibrado como direito fundamental de terceira

dimensão:

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Sobre o meio ambiente como direito fundamental de terceira dimensão, sobre o alicerce da solidariedade, é válida a compreensão adotada por Paulo Bonavides na citação de Leite onde os direitos de terceira dimensão são

que não se destinam especificamente à proteção dos

interesses de um indivíduo, de um grupo ou de um determinado Estado. Tem primeiro por destinatário o gênero humano mesmo, num momento expressivo de sua afirmação como valor supremo em termos de existência concreta. (CANOTILHO; LEITE, 2010, p. 123)

direitos

Para Norberto Bobbio (1992), diante desse panorama de preservação e defesa do meio ambiente em benefício das presentes e futuras gerações, emerge nos movimentos ecológicos um direito da natureza a ser respeitada ou não explorada, onde as palavras "respeito" e "exploração" são as mesmas que justificam os direitos do homem.

Ainda, nos explica Pedro Lenza (2008) que estando o ser humano inserido na coletividade e o preservacionismo ambiental ser direito fundamental de terceira dimensão, todos nós somos titulares desse direito de solidariedade. Vê-se nessa perspectiva, conforme Celso Lafer (1995), que os direitos de

terceira dimensão “enquanto valores fundamentais indisponíveis (

como prerrogativas impregnadas de uma natureza essencialmente inexaurível”.

(são)

)

Para arremate dessa questão, Leite nos ensina:

“Nesse complexo quadro de aspirações individuais e sociais, ganham relevo categorias novas de expectativas (e a partir daí, de direitos), cujos contornos estão em divergência com a fórmula clássica do eu- contra-o-Estado, ou até da sua versão welfarista mais moderna, do nós-contra-o-Estado. Seguindo tal linha de análise, a ecologização do texto constitucional traz um certo sabor herético, deslocado das fórmulas antecedentes, ao propor a receita solidarista temporal e materialmente ampliada (e, por isso mesmo, prisioneira de traços utópicos) do nós-todos-em-favor-do-planeta.” (CANOTILHO; LEITE, 2010, p.79)

Diante disso, vemos com o avançar da teoria do Direito a sua inserção no contexto de realidade, não presente apenas para regulamentação de direitos individuais e/ou defesa dos interesses dos socialmente favorecidos. Adentrar em questões humanitárias e solidárias onde o Estado e o Direito têm a necessidade de apontar caminhos para que a população possa viver com

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maior qualidade, não comprometendo as próximas gerações, é a perspectiva mais favorável ao bem comum.

O art. 4° da LOSAN nos fala que a segurança alimentar e nutricional abrange a conservação da biodiversidade e a utilização sustentável dos recursos, promoção da saúde, da nutrição e da alimentação da população incluindo grupos populacionais específicos e populações em situação de vulnerabilidade social. Por fim o Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, através do Decreto 7.272 de 2010, tem por diretriz a promoção do abastecimento e estruturação de sistemas sustentáveis e descentralizados, de base agroecológica, de produção, extração, processamento e distribuição de alimentos.

Além disso, para uma verdadeira segurança alimentar e nutricional temos que avançar em nossa percepção de qualidade da alimentação, melhorando a relação da terra com o agricultor conscientizando-nos da importância de um alimento limpo, saudável, sem aditivos químicos e nutritivos. A promoção da agroecologia é uma dessas iniciativas em que a saúde do consumidor e do produtor é levado em conta mais do que os rendimentos finais com a lavoura de monocultura, por exemplo. O incentivo a produção para auto-consumo ou produção “pro gasto” (SCHNEIDER, 2010) promovem a autonomia para a alimentação e para ampliação dos meios de vida dos agricultores além de aumentar o cuidado e respeito ao alimento que será consumido tanto pelo produtor quanto pelo consumidor, aumentando os laços e, por consequência, a segurança alimentar e nutricional.

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CAPÍTULO 3 AS POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL, A AGROECOLOGIA E A EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA:

3.1. Políticas Públicas de Segurança Alimentar e Nutricional

A Segurança Alimentar, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), simboliza uma situação na qual todas as pessoas, durante todo o tempo, possuam acesso físico, social e econômico a uma alimentação suficiente, segura e nutritiva, que atenda a suas necessidades dietárias e preferências alimentares para uma vida ativa e saudável. (BELIK, 2003)

A alimentação implica em saúde e em desenvolvimento humano, sendo esta intrínseca a sobrevivência do ser humano. Para Castro (1984), “a desnutrição é causada pela falta de alimentos, dificuldades econômicas e desconhecimento dos princípios de alimentação balanceada.” Encontramos grande nível de subnutrição e desnutrição em nosso país em virtude de um

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sistema econômico excludente que não distribui a renda de uma maneira efetiva para manutenção do mínimo existencial. Diante disso:

A fome no Brasil, que perdura, apesar dos enormes progressos alcançados em vários setores de nossas atividades, é conseqüência, antes de tudo, de seu passado histórico, com os seus grupos humanos, sempre em luta e quase nunca em harmonia com os quadros naturais. Luta, em certos casos, provocada e por culpa, portanto, da agressividade do meio, que iniciou abertamente as hostilidades, mas, quase sempre, por inabilidade do elemento colonizador, indiferente a tudo que não significasse vantagem direta e imediata para os seus planos de aventura mercantil. (CASTRO, 1984, p. 279)

No ponto de vista histórico do Brasil, a grande desigualdade desde os períodos de colonização onde a preocupação em explorar e não preocupar-se com nada que não fosse gerador de resultado econômico traz de modo reflexo a nossa realidade de exclusão social e de fome.

Diante dessa perspectiva de desigualdade e de vulnerabilidade social é que se entendeu a questão da alimentação adequada como direito social e fundamental. O direito a se alimentar regular e adequadamente não deve ser o resultado de ações de caridade, mas sim, prioritariamente, de uma obrigação que é exercida pelo Estado que, em última análise, é a representação da nossa sociedade. (BELIK, 2003) E é nessa linha, vendo o direito a alimentação como um direito social e fundamental, que Sarlet (2010) identifica os direitos sociais como os de natureza prestacional onde se desenvolvem ações que objetivam a realização da igualdade material, no sentido de garantirem a participação do povo na distribuição política de bens.

Segundo Buzanello (2009), o conceito de direito à alimentação passa por quatro aspectos: 1) a segurança alimentar é um direito humano básico à alimentação e nutrição; 2) esse direito deve ser garantido e implementado, de forma ininterrupta, por políticas públicas, com a atuação de agentes públicos e privados; 3) incumbe ao Estado proteger, respeitar, promover ou facilitar e realizar esse direito; 4) a participação ativa e parceria da sociedade civil através de suas organizações próprias, com agregação de agricultores familiares e que privilegiam a agroecologia no intento de torná-los participantes

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tanto de uma alimentação adequada quanto produtores desta alimentação para a sociedade.

Nosso ordenamento jurídico, em consonância com a segurança alimentar, inseriu a temática através da Emenda Constitucional nº 64, de 04 de fevereiro de 2010, que nos acrescenta em nossa Magna Carta, o direito a alimentação como um direito social e, como todo direito social, conforme Silva (2010), é um direito de aplicabilidade imediata, legitimando assim através de políticas públicas definitivas, e não de “políticas de governo” limitadas ao período de mandato, a atuação estatal nessa questão da fome e da alimentação adequada. Em um primeiro momento a fome e a desnutrição, vinculada tanto a falta de alimentos quanto a má distribuição em alguns contextos de miséria. Em um segundo momento, e não menos importante, a dieta baseada em excessos de carboidratos e alimentos gordurosos e déficits nutricionais em alimentos mais saudáveis, gerando desequilíbrio alimentar em diversos contextos por falta de informação, desvinculando alimentação de saúde.

E assim, para positivar e promover políticas públicas de segurança alimentar no Brasil, é que foi criada a lei 11.346/2006, que a define conforme segue:

Art. 3º. A segurança alimentar e nutricional consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis.

Na intenção de solucionar o problema da fome no país e proporcionar alimentos de qualidade que melhorem a saúde das pessoas é que a LOSAN (Lei Orgânica de Segurança Alimentar) se propõe a intervir, através da criação/atuação de comissões e conselhos que, de forma ativa com participação da sociedade civil, possam transformar a realidade.

Merece relevância a segurança alimentar através do incentivo a agroecologia, essa que não agride o meio ambiente e intensifica a inclusão

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social, “proporciona melhores condições econômicas para os agricultores, aliada a segurança alimentar dos próprios produtores e consumidores em geral” (ALVES, 2008, p. 143), além de ser um campo de conhecimento multidisciplinar que enriquece e respeita o solo com conseqüente produção saudável e adequada ao consumo. A agroecologia significa, para Guterres

(2006), “não uma disciplina e sim um enfoque transdisciplinar que enfoca a

atividade agrária desde uma perspectiva ecológica (

Vinculação essencial

que existe entre o solo, a planta, o animal e o ser humano” onde o paradigma antropocêntrico dá lugar ao biocêntrico, elevando a agricultura e reconhecendo

o poder que emana da natureza.

)

Vê-se a promoção da saúde do meio ambiente na ideia de preservação da biodiversidade, respeito aos ciclos e a rotação de culturas, o não empobrecimento das terras e as atividades biológicas do solo, onde o uso de

defensivos agrícolas utilizado pela agricultura convencional degrada e modifica

o solo.

A adoção do sistema orgânico de produção por pequenos produtores traz vantagens tais como: a diversificação produtiva em virtude da integração do cultivo de lavouras temporárias; escala de produção menor e em áreas menores; maior envolvimento direto do produtor e dos membros da família; menor dependência de recursos externos, concluindo que a saída dos pequenos produtores parece ser o fortalecimento da exploração dos nichos do mercado local (ALVES, 2008).

3.2. Conceitos de agroecologia:

Na ideia de unirmos o direito fundamental da alimentação adequada e do meio ambiente equilibrado, encontramos o conceito de agroecologia como um sistema holístico de manejo da unidade de produção agrícola onde, com foco na sustentabilidade ambiental, social e econômica, promovem a biodiversidade respeitando os ciclos biológicos naturais sem a utilização de agroquímicos (agrotóxicos), antibióticos ou hormônios. (NEVES, 2000) Vimos

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que a forma de agricultura proposta tem como proposta a não-degradação ambiental, a participação dos pequenos produtores de agricultura familiar promovendo a segurança alimentar na ideia de alimentos saudáveis e nutricionais. Para definirmos a agricultura familiar, temos a lei 11.326/2005 que nos ensina:

Art. 3 o Para os efeitos desta Lei, considera-se agricultor familiar e empreendedor familiar rural aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos:

não detenha,

I

módulos fiscais;

-

a qualquer título, área maior do que 4 (quatro)

II - utilize predominantemente mão-de-obra da própria família nas

atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento;

III - tenha renda familiar predominantemente originada de atividades

econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou

empreendimento;

IV - dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família.

A agricultura familiar é responsável por cerca de 70% de alimentos que compõem a mesa dos brasileiros, segundo o Secretário Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome Onaur Ruano(MDS, 2008). Além disso, o Censo Agropecuário 2006 feito pelo IBGE afirma que 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite, 59% dos suínos, 50% das aves, 30% do gado provém da agricultura familiar. As menores porcentagens de produção da agricultura familiar são do trigo (21%) e da soja (16%). Estes dois últimos destinam-se principalmente a exportação (IBGE, 2006).

Nesse sentido a agricultura familiar é composta em maior parte por membros da família que realizam a gestão da propriedade para a auto- subsistência e para a comercialização do excedente. E é da agricultura familiar o principal foco para o trabalho agroecológico. Colaborando para a apreciação e o entendimento da contextualização da Agroecologia, Caporal e Costabeber:

“Em anos mais recentes, a referência constante à Agroecologia, que se constitui em mais uma expressão sócio-política do processo de ecologização, tem sido bastante positiva, pois nos faz lembrar de estilos de agricultura menos agressivos ao meio ambiente, que promovem a inclusão social e proporcionam melhores condições

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econômicas aos agricultores. Nesse sentido, são comuns as interpretações que vinculam a Agroecologia com “uma vida mais saudável”; “uma produção agrícola dentro de uma lógica em que a Natureza mostra o caminho”; “uma agricultura socialmente justa”; “o ato de trabalhar dentro do meio ambiente, preservando-o”; “o equilíbrio entre nutrientes, solo, planta, água e animais”; “o continuar tirando alimentos da terra sem esgotar os recursos naturais”; “um novo equilíbrio nas relações homem e natureza”; “uma agricultura sem destruição do meio ambiente”; “uma agricultura que não exclui ninguém”; entre outras. Assim, o uso do termo Agroecologia nos tem trazido a ideia e a expectativa de uma nova agricultura capaz de fazer bem ao homem e ao meio ambiente.” (CAPORAL; COSTABEBER, 2004, p. 6)

Nesse processo de ecologização, onde as iniciativas apontam para uma mudança de comportamento no que tange a relação homem-natureza, vê- se arraigada na questão agroecológica a questão da saúde, do respeito às próximas gerações, de uma vida voltada a natureza. Devemos reconhecer as nossas necessidades autênticas, diminuindo o consumo excessivo e suprimindo a atual obsessão acumuladora de bens.

Nesse sentido, nos acrescenta Illich, na citação de Jean-Pierre Dupuy

que

as pessoas em bom estado de saúde não são as que recebem bons cuidados médicos, mas sim aquelas que moram em casas salubres, comem uma comida sadia, em um meio que lhes permite dar à luz, crescer, trabalhar e morrer”.(DUPUY, 1980, 49)

Houve precarização em relação à saúde, aos relacionamentos, ao diálogo. A própria agricultura convencional nos mostra apenas preocupação com novas tecnologias, novos modos e novos mercados promissores a partir de uma visão instrumental em relação aos nossos recursos naturais. A esse modo de produção baseado no mercado e na lucratividade, onde o homem se apropria dos recursos naturais como se fosse seu servo é que se dá o nome de heteronomia.

“Essas relações, os homens não as produzem mais por si próprios, de modo autônomo, elas lhes aparecem com o produto não desejado de forças, mecanismos e instituições cujo controle lhes escapa. È a esse processo de exteriorização, a essa alienação, que Illich dá o nome de heteronomia.” (DUPUY, 1980, p. 32)

Dessa forma, “Como situar a liberdade do homem dentro da Natureza?” (DUPUY, 1980, p. 20) Entendendo que o homem deve agir de

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modo autônomo, numa visão de atuação onde o processo de produção seja feito com sua participação, conclui-se que:

única liberdade possível é a regulação racional, pelo ser

humano socializado, pelos produtores associados, de seu metabolismo com a natureza, que eles controlam juntos ao invés de

serem dominados por ele como por uma potência cega.” (LÖWY, 2005, p. 37).

“(

)a

Na ideia de nos ajudar a construir o conceito de agricultura orgânica temos na doutrina de Direito Ambiental de Celso Fiorillo que

A agricultura orgânica é um sistema de gerenciamento total da

produção agrícola com vistas a promover a saúde do meio ambiente preservando a biodiversidade, os ciclos e as atividades biológicas do solo, enfatizando o uso de práticas de manejo em oposição ao uso de elementos estranhos ao meio rural. (FIORILLO, 2007, p. 516)

Vê-se do entendimento do autor a promoção da saúde do meio ambiente na ideia de preservação da biodiversidade, de respeito aos ciclos e de rotação de culturas, além do não empobrecimento das terras e das atividades biológicas do solo, assim distanciando a agricultura orgânica do monocultivo em grande escala assim como o uso de defensivos agrícolas utilizado pela agricultura convencional.

Para a lei 10.831, o conceito de agricultura orgânica define-se como:

“Art. 1 o Considera-se sistema orgânico de produção agropecuária todo aquele em que se adotam técnicas específicas, mediante a otimização do uso dos recursos naturais e socioeconômicos disponíveis e o respeito à integridade cultural das comunidades rurais, tendo por objetivo à sustentabilidade econômica e ecológica, a maximização dos benefícios sociais, a minimização da dependência de energia não renovável, empregando, sempre que possível, métodos culturais, biológicos e mecânicos, em contraposição ao uso de materiais sintéticos, a eliminação do uso de organismos geneticamente modificados e radiações ionizantes, em qualquer fase do processo de produção, processamento, armazenamento, distribuição e comercialização, e a proteção do meio ambiente.“

Na agroecologia, vemos diversificadas formas de agricultura onde encontramos ideias premissas diferentes, mas com o objetivo único de estabelecer harmonia entre o homem, o meio ambiente e os alimentos. O art. 1º, §2º da lei 10831/2003 nos diz quais são:

§ 2 o O conceito de sistema orgânico de produção agropecuária e industrial abrange os denominados: ecológico, biodinâmico, natural,

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regenerativo, biológico, agroecológicos, permacultura e outros que atendam os princípios estabelecidos por esta Lei.

Para NEVES (2000) destacam-se: Agricultura ecológica (Procura um maior equilíbrio com o meio ambiente, buscando modelos agrícolas mais integrados e o manejo dos solos mais racional) Agricultura biodinâmica (fruto da ciência espiritual antroposófica, uso de preparados biodinâmicos, uso de calendários astrológicos, busca harmonia entre terra, plantas, animais, influências cósmicas e o homem), Agricultura natural (práticas agrícolas mais recomendadas são: rotação de culturas, uso de adubos verdes, compostagem e cobertura morta sobre o solo), Agricultura regenerativa (Nome pelo qual a agricultura orgânica ficou conhecida os EUA, ligada aos trabalhos de Robert Rodale, em 1983), Agricultura biológica (Particularidades: compostagem na superfície do solo e o teste microbiológico de Rush, para avaliação da fertilidade do solo) e Permacultura (Conceito criado pelos australianos Bill Mollison e David Holmgren, anos 70, consiste em uma reunião dos conhecimentos de sociedades tradicionais com técnicas inovadoras, com o objetivo de criar uma "cultura permanente", sustentável, baseada na cooperação entre os homens e a natureza. Um dos princípios fundamentais da permacultura é o respeito pela sabedoria da natureza, que desenvolveu um sistema perfeito para cada lugar. Do princípio vem a estratégia, observar e copiar a Natureza)

3.2.1. Finalidades e Diretrizes da Agricultura Orgânica:

Tendo por base à leitura da lei 10.831/2003 e o Decreto-Lei 6323/2007 do Ordenamento Brasileiro, veremos inicialmente a questão das finalidades (art. 1º, §1º, lei 10.831) e diretrizes da agricultura orgânica (art. 3º, Decreto-Lei 6323/2007) onde destas, podemos destacar alguns itens, tais como o incentivo à diversidade e a atividade biológica do solo, as boas práticas, a comercialização, a conversão e produção paralela.

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3.2.2. Incentivo à diversidade e a atividade biológica do solo

Vemos então o incentivo à diversidade e a atividade biológica do solo através de práticas que respeitem o solo, a água e o ar com o intuito de reduzir ao mínimo as formas de contaminação e desperdícios desses bens ambientais. Dito isso, acompanhando Canotilho e Leite (2010), temos que

campo dos recursos naturais e do uso da terra, tal

transmudação implica a substituição definitiva do regime de explorabilidade plena e incondicionada (com limites mínimos e pulverizados, decorrentes, p. ex., das regras de polícia sanitária e da proteção dos vizinhos) pelo regime de explorabilidade limitada e

condicionada (com limites amplos e sistemáticos, centrados na manutenção dos processos ecológicos). Limitada, porque nem tudo que integra a propriedade pode ser explorado; condicionada, porque mesmo aquilo que, em tese, pode ser explorado, depende da observância de certas condições impostas abstratamente na lei e concretamente em licença ambiental exigível. (CANOTILHO; LEITE, 2010, p. 90)

No

Vemos que o legislador, ao incentivar à diversidade e a atividade

biológica do solo, substitui a explorabilidade plena e incondicionada que a agricultura convencional acaba incrementando por uma explorabilidade limitada

e condicionada onde os limites são a não explorabilidade em curto prazo sem inserir a preocupação com as próximas gerações e as condições da não utilização de uma agricultura com agrotóxicos, respeitando a rotação de culturas e o não empobrecimento das terras.

Além de manter o ecossistema, no art. 1º, II da lei 10.831/03 nos atenta para a “recomposição ou incremento da diversidade biológica dos ecossistemas modificados” na ideia de enriquecimento da terra promovendo diversidade através de diferentes culturas de plantio oferecendo mais vida para

o solo, rejeitando as monoculturas e o cultivo de diferentes sementes a fim de potencializar de forma sustentável as atividades do solo.

3.2.3. Boas práticas:

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Outra questão abordada pela lei de produção orgânica são as boas práticas que devem ser utilizadas para garantirem práticas sustentáveis no processo da produção orgânico. E é isso que nos ensina a leitura do art. 1º, V da lei 10.831/03:

V - inclusão de práticas sustentáveis em todo o seu processo, desde

a escolha do produto a ser cultivado até sua colocação no mercado,

incluindo o manejo dos sistemas de produção e dos resíduos

gerados;

Enfatiza o legislador a adoção de boas práticas em toda cadeia de produção, desde o reconhecimento das épocas de plantio e colheita do produto, respeitando os períodos de cada cultivo, assim como manejando de forma ecológica todo sua produção cuidando de todos os resíduos gerados, reciclando-os e utilizando sempre que possivel os recursos renováveis disponíveis. Além disso, a lei ainda incentiva a fertilidade do solo a longo prazo. Ainda no art. 3º, IX, do Decreto 6323/2007, o propósito das boas práticas é o de “manter a integridade orgânica e as qualidades vitais do produto em todas as etapas”.

3.2.4. Comercialização:

Na compreensão de comercialização da produção orgânica, existe a intenção de ofertar produtos saudáveis isentos de contaminantes intencionais (art. 1º, I, Lei 10.831/03) assim como promover o consumo responsável e o comércio justo e solidário no intento de desenvolver os sistemas agrícolas locais (art. 1º, VII, Lei 10831/03 e art. 3º, VII, Decreto 6323/2007).

Dito isso, temos a presença da Economia solidária, a qual representa um novo conceito que visa fazer o contraponto à lógica capitalista, e é através desta que teremos um abastecimento da rede local de produção, valorizando o produtor rural e incentivando a agroecologia e suas benesses ao meio ambiente. Nesse sentido, favorecendo a rede de segurança alimentar, numa

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perspectiva de combate a fome com maior acessibilidade à rede local e com alimentos de maior qualidade.

De modo a complementar o entendimento e expandir a produção orgânica, atentaremos ao art. 1º,VII da Lei 10.831/03, que nos ensina que um dos objetivos da produção orgânica é:

VIII incentivar a integração entre os diferentes segmentos da cadeia produtiva e de consumo de produtos orgânicos e a regionalização da produção e comércio desses produtos;

Como forma de promover a Economia Solidária e valorizar o trabalho do produtor, fomentando uma economia autogestionária, a lei 10.831/03 quer incentivar que dentro da cadeia produtiva o produtor possua maior autonomia e consiga ter seus ganhos de forma a valorizar todo o ardo trabalho que possuiu desde o plantio. Outra questão de extrema relevância é a promoção do desenvolvimento local, social econômico sustentável, atribuindo a rede de produção orgânica uma economia mais ecológica, humana e popular.

Na agricultura convencional, os produtores muitas vezes se submetem à lógica do mercado e acabam por vender seus produtos a atravessadores por um valor inferior ao que merecem visto a importância da alimentação em nossas vidas. Nessa perspectiva vê-se exploração por parte dos que detém capital nos mostrando a manifestação da incapacidade de uma sociedade em praticar a solidariedade humana de outra forma que não através de rituais técnicos derrisórios e custosos (DUPUY, 1980), onde o produtor deixa de possuir autogestão e, portanto, engana-se por causa dos resultados econômicos prometidos. A lei 10.831/03 estimula o consumo responsável, comércio justo e solidário na ideia de integrar a rede de produção orgânica regionalizando a produção estimulando a relação direita entre o produtor e o consumidor.

Além disso, nos casos de comercialização direta entre o produtor e o consumidor, o legislador aproximou-se da realidade do agricultor facilitando o seu acesso às feiras livres através da não necessidade (facultatividade) de certificação na comercialização direta. E dessa forma a legislação nos orienta no parágrafo primeiro do art. 3° da lei 10.831/03:

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Art. 3 o Para sua comercialização, os produtos orgânicos deverão ser certificados por organismo reconhecido oficialmente, segundo critérios estabelecidos em regulamento:

§ 1 o No caso da comercialização direta aos consumidores, por parte dos agricultores familiares, inseridos em processos próprios de organização e controle social, previamente cadastrados junto ao órgão fiscalizador, a certificação será facultativa, uma vez assegurada aos consumidores e ao órgão fiscalizador a rastreabilidade do produto e o livre acesso aos locais de produção ou processamento. (grifo nosso)

Nesta seara, vê-se a comercialização direta sem certificação, ocorrendo em feiras diretas dos produtores vinculados a alguma organização de controle social cadastradas em órgão fiscalizador, onde o lucro é todo do produtor sem relação com atravessadores, promovendo a economia solidária.

3.2.5. Conversão e produção paralela:

É prevista em lei a questão da conversão e produção paralela para o

agricultor substituir sua produção convencional pela produção agroecológica na ideia de progressivamente ter hortas orgânicas e que possam ser reconhecidas como tal.

Para tanto, o art. 6° do decreto 6323/2007 nos ensina que para uma área dentro de uma unidade de produção ser considerada orgânica, deverá ser obedecido um período de conversão, onde deverá ser estabelecido um plano de manejo orgânico na unidade produtiva. No Art. 3°, XVI do mesmo decreto, incentiva-se a conversão progressiva de toda a unidade de produção para o sistema orgânico, para que realmente a conversão seja de todo o local, mas que ocorra de maneira progressiva para as condições do meio ambiente se adequarem a melhor forma.

A intensão aqui é de incentivo ao produtor a conversão para sistema de

cultivo sustentável onde se deve respeitar certo período para que o solo descontamine da utilização de defensivos agricolas além de beneficiar o solo

com matéria orgânica e bioprotetores que nao agridam ao meio ambiente.

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Além disso, é prevista a produção paralela entre produtos orgânicos e não orgânicos, devem, como determina o art. 7°, §1°, decreto 6323/2007 estar claramente separados os produtos orgânicos dos produtos não orgânicos, devendo ser descrito no processo de produção, processamento e armazenamento.

No art. 8° da mesma legislação, o local que apresenta produção paralela deve manter sob rigoroso controle a matéria-prima, insumos, medicamentos e substancias utilizados na produção não organica, afim de não misturar esses materiais com os da produção orgânica.

Vemos aqui, se aproximando das realidades do campo, uma forma de manter os ganhos do agricultor que, de forma convencional, mantém sua familia e ao mesmo tempo, de forma progressiva, integra a uma nova realidade que não o mantém de forma alheia ao seu produto (QUINTANEIRO, 2002), para que o produtor participe de toda a cadeia produtiva tornando-o assim protagonista do processo de cultivo. Busca-se dessa forma uma preocupação ecológica, social e humana.

O legislador dentro da produção paralela versa através do art. 7, parágrafo único, que a produção convencional não poderá conter organismos geneticamente modificados. Dentro do viés da agricultura orgânica, os transgênicos não são ferramentas confiáveis de uso a tal ponto que o legislador nem os admite na forma de produção não orgânica.

o legislador também entendeu por bem fixar regras jurídicas

destinadas a tutelar técnica específica destinada a empregar, sempre

que possível, métodos culturais, biológicos e mecânicos em contraposição ao uso de matérias sintéticos, a eliminação do uso de organismos geneticamente modificados e radiações ionizantes no âmbito da produção agropecuária.

“(

)

Daí a importância do denominado sistema orgânico de produção agropecuária definido na Lei n. 10831/2003 destinado a aperfeiçoar o uso de recursos naturais e socioeconômicos disponíveis assim com o respeito à integridade cultura das comunidades rurais visando à sustentabilidade econômica e ecológica, bem como a maximização dos benefícios sociais e a minimização da dependência de energia não-renovável.”(FIORILLO, 2007, p. 518)

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O fato é que ainda não há conformidade científica que possa compreender os transgênicos como uma ferramenta efetiva, e o que se tem visto com as práticas que já existem são doenças aos agricultores que manuseiam os alimentos e incertezas em relação à qualidade do produto.

3.3. Extensão Universitária:

Uma das experiências da Universidade Federal do Rio Grande - FURG com agricultura familiar vem sendo difundida pelo Núcleo de Desenvolvimento Social e Econômico NUDESE/FURG, com atuação de agricultores familiares dos municípios de São José do Norte e Rio Grande. Essa intervenção vem viabilizando uma nova proposta que se caracteriza numa transição da produção convencional para uma produção agroecológica. Tal experiência possibilita alternativas de comercialização dos produtos destes agricultores através de uma parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome ( ).

Essa proposta é denominada “Projeto desenvolvimento da agricultura urbana e Periurbana (AUP) na aglomeração urbana do sul (Município de Rio Grande e São José do Norte) através do fortalecimento da produção e da comercialização e da agroecologia”, devido à prática da agricultura familiar na região e pela potencialidade para a produção agroecológica, merecedora de mais incentivos educacionais e técnicos que proporcione uma prática voltada para a qualidade da alimentação dessas famílias, além de propagar um processo de mudança cultural nas comunidades locais e viabilizar a constituição de um ponto de comercialização que incentive a sociedade local a práxis de ingerir alimentos saudáveis, contribuindo com a qualidade de vida dessas populações. Diante disso, tem se constituído uma nova forma de manejo, mas acima de tudo uma mudança cultural que busca uma práxis de agricultura mais sustentável, denominada de Agroecologia, tal conhecimento se afirma como uma nova ciência em construção, que tem como convicção de que

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é possível reorientar o curso alterado dos processos de uso e manejo dos recursos naturais, de forma a ampliar a inclusão social, reduzir os danos ambientais e fortalecer a segurança alimentar e nutricional, com a oferta de alimentos sadios para todos os brasileiros (CAPORAL, 2009).

A Agricultura Urbana e Periurbana (AUP) é um conceito multidimensional que inclui a produção, o agroextrativismo, a coleta, a transformação e a prestação de serviço, para produção agrícola (hortaliças, frutas, ervas, plantas medicinais e ornamentais) e pecuária, voltada ao autoconsumo, troca, doação e/ou comercialização, valendo-se, de forma eficiente e saudável, dos insumos e dos ambientes locais (água, mão-de-obra, saberes). É desenvolvida em espaços intraurbanos ou periurbanos, vinculada a dinâmicas locais e articulada a gestão territorial e ambiental das cidades (MDS,

2007).

O projeto contou com uma equipe interdisciplinar de diferentes áreas

do conhecimento tais como Geografia, Direito, Pedagogia, Biologia, História,

além de profissionais Técnicos Agrícolas.

Diante disso, o projeto iniciou-se com a Formação e Sensibilização com os agricultores, os acadêmicos e os professores, onde todos aprendem e trocam saberes para enriquecer e harmonizar o grupo entendendo as diferentes realidades. Foram realizados cursos de educação ambiental, cooperativismo, associativismo como formas de ampliar a compreensão crítica dos sujeitos envolvidos e também cursos de cunho mais prático tais como técnicas de cultivo de produtos de base ecológica, marketing e vendas.

A partir da formação/sensibilização, iniciou-se a parte da produção,

onde foi realizada a entrega de insumos para o cultivo de hortaliças de base ecológica, tais como sementes, fitoprotetores e estufas. Juntamente com essa estrutura básica foi feito o acompanhamento técnico da produção por meio de consultores, colaboradores e bolsistas.

Depois disso, inicia-se os processos de comercialização e consumo, onde podemos elencar a implantação de duas feiras de produtos de base

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ecológica, uma no município de São José do Norte, todas as sextas-feiras e outra em Rio Grande, todas as quartas-feiras, na FURG Carreiros. Também foi iniciada a criação do Centro de Apoio à Agricultura Urbana e Periurbana (CAAUP) que busca ampliar a proposta da comercialização agroecológica.

Estes três pontos anteriormente citados, além de mostrarem a preocupação com o ciclo do modelo de produção agroecológica faz do agricultor familiar o sujeito de seu trabalho, pois, o trabalhador não “relaciona- se com o produto do seu trabalho como algo alheio a ele”. (QUINTANEIRO, 2002, p. 52)

Com a execução do projeto, essas principais experiências pode colaborar de uma forma não linear, dialogando em todos os momentos para a formação do sujeito crític o em busca da autogestão.

3.3.1. Experiência dos agricultores de Rio Grande:

Na experiência de Rio Grande, os produtores relatam que, anteriormente ao projeto, tinham práticas de agricultura convencional com uso de agrotóxicos, e que após se inserirem ao trabalho desenvolvido pelo NEMA (Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental) mudaram suas hortas para a transição agroecológica e passaram a frequentar a feira motivados por poder ofertar produtos de melhor qualidade e não prejudiciais a saúde.

Também haviam produtores que já possuíam um trabalho diferenciado e, juntando-se ao grupo, puderam trocar experiências e aumentar seu conhecimento em conjunto. Alguns produtores acabaram desistindo das iniciativas por não conseguirem se adequarem ao projeto ou por não se sentirem inseridos naquele contexto.

Atualmente, a realidade após três anos de feira é de uma forte relação entre a Universidade e os grupos ecológicos. Recentemente foram construídas

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bancas de madeira em frente ao Centro de Convivência da FURG para dar melhor estrutura para a feira. O NUDESE é apoiador da iniciativa, acompanhando a feira, emprestando as bancas, dando assistência técnica, aproximando os produtores da Universidade, de modo que se vivencia o consumo responsável e saudável aproximando a teoria e a prática dentro da universidade.

Os produtores já são conhecidos da comunidade acadêmica e já possuem clientela fixa que chegam à feira no intento de consumir determinados produtos que só na feira ecológica possui. Alunos, técnicos e professores vão a feira tendo como objetivo a compra um alimento de qualidade, sem agrotóxico, a justo preço, desta forma contribuindo com a agroecologia e com o fortalecimento da rede de Economia Popular Solidária no município. Dentro desta lógica, há um ótimo clima nas feiras, intensificado inclusive por música em frente às bancas, que harmonizam e ampliam as relações da Universidade com os produtores. Ocorrem outros atrativos como o projeto “O artista vai à feira” onde uma vez por mês a feira traz uma atração cultural seja de teatro, música ou exposição.

3.3.2. Experiência dos agricultores de São José do Norte:

Outra cidade assistida pelo projeto AUP é São José do Norte município localizado entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico, numa estreita faixa de terra (plana baixa e arenosa) que fica a 7 km de Rio Grande e 317 km de Porto Alegre. A ligação com Rio Grande se dá através de serviços de lanchas e barcas, que é interrompido toda vez que condições adversas de clima (vendavais e nevoeiros) impedem a navegação. Em relação a Porto Alegre, ocorre através da BR 101. Atualmente o município de São José do Norte, vive e sobrevive da agropecuária, extração de vegetal e da pesca. Os produtores, em geral, plantam e conhecem a cultura da cebola, onde através da cooperativa e

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das associações revendem a sua produção para atravessadores que percorrem o Brasil em busca de compradores.

Constatou-se que a cidade não possuía feira ecológica, apenas a feira convencional com participação inclusive de feirantes de Rio Grande que atravessam seus produtos para suprir o mercado da população de São José do Norte. E, então, nesse contexto que se desenvolve a agricultura periurbana como uma outra forma de produção. Deve-se entender que grande parte da população nortense provém da área rural e que estes valorizam a produção local, ainda mais com foco ecológico.

Com a execução do projeto, os principais processos que os produtores e os integrantes extensionistas participaram foram cursos e/ou oficinas de:

educação ambiental, cooperativismo, associativismo, técnicas de cultivo de produtos de base ecológica, marketing e vendas.

Como forma de trabalhar a produção, foi entregue insumos para o cultivo de hortaliças de base ecológica, tais como: sementes, fitoprotetores e estufas. Juntamente com essa estrutura básica foi feito o acompanhamento técnico da produção por meio de consultores, colaboradores e bolsistas.

Para a sequência da cadeia produtiva buscou-se a parceria com a Secretaria Municipal de Agricultura e Pesca (SMAP) de São José do Norte, foi iniciada a Feira de Produtos Ecológicos em 21 de maio de 2010, ocorrendo toda sexta-feira desde então. Iniciou-se a construção do Regimento de feira de produtos agroecológicos de São José do Norte, que tem a função de avaliar e garantir a procedência ecológica dos produtos.

Os produtores dividem as despesas do pagamento de motorista e do combustível gasto que passam nas casas dos produtores pela manhã para recolher suas produções a serem vendidas no centro de São José do Norte.

Foram feitos, através do NUDESE, planilhas de controle para os produtores anotarem os seus resultados, verificando qual o nível de venda dos alimentos para avaliação dos produtores e dos participantes do projeto, que identificam de forma dialogada alguns produtos que poderiam ser produzidos

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em maior ou menor quantidade por haver compradores ou a própria disposição destes na feira, como no caso da rúcula e da alface e na oferta da moranga inteira ou cortada, onde o corte faz com que o produto se torne mais prático e atraente para a compra.

Cabe salientar a importância que a diversificação da produção é necessária para a feira pelo fato de que “uma queda nos preços de alguns produtos pode ser compensada pela alta de outros” (ALVES, 2008, p. 146) fato este que faz com que haja uma diversificação natural de produção que garante maior estabilidade econômica para o produtor além de que mantém a biodiversidade e conserva o meio ambiente.

A participação coletiva destes trabalhadores é a base de sustentação da comunidade, devendo ser valorizado seu esforço e dedicação de uma forma humanitária e solidária, transformando e ampliando os olhares para o verdadeiro “celeiro do mundo” que provém da agricultura familiar.

3.3.3. Experiências na Penitenciária de Rio Grande, Comunidade Terapêutica Vida Nova e Comunidade Terapêutica Prosseguir:

O projeto teve atuação na Penitenciária Estadual de Rio Grande no intento da ressocialização aos apenados, foi viabilizada a oportunidade de trabalho e de remição de pena pelo trabalho, além de proporcionar alimentação para o presídio, com participação dos integrantes do projeto com apoio técnico à horta.

Outras entidades foram beneficiadas tais como a Comunidade Terapêutica Vida Nova e a Comunidade Terapêutica Prosseguir, que tratam pacientes usuários de drogas psicotrópicas, também promover a valorização do trabalho para uma melhor recuperação, tentando trazer ao paciente uma atividade que requer cuidado e responsabilidade por parte de todos para aproveitar os alimentos sadios da horta.

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3.3.4. Experiências no CAIC e na Escola Assis Brasil:

Através das atividades na horta do Centro de Atenção Integral à criança e ao adolescente CAIC, como atividades complementares tanto aos alunos quanto para comunidade, foram ofertados produtos saudáveis para crianças, adolescentes e suas famílias. Como resultado do trabalho, a colheita da horta agroecológica é utilizada na merenda escolar ou repassada para famílias em vulnerabilidade social que participaram.

Mais um trabalho semelhante é feito na Escola Assis Brasil, onde foi instalada estufa para produção agroecológica, aos cuidados de técnico agrícola vinculado, com o objetivo de vivenciar a prática da agroecologia.

3.3.5. Experiências no CCMAR:

O Centro de Convívio dos Meninos do Mar (Ccmar) apresenta proposta

muito interessante com jovens de escolas públicas do município que se encontram em vulnerabilidade social, podendo através do aprendizado em turno inverso ao da escola, fazer cursos que os capacitem a diversas atividades como: montagem de barcos artesanais, padaria, curso de fotografia e o curso de agricultura familiar ministrado por integrantes do NUDESE.

E é nesse sentido que a participação do projeto foi importante, através

da iniciativa de montagem de horta orgânica com estufa para que os alunos pudessem ter a vivência da horta, reconhecendo a importância do alimento de qualidade em suas vidas e aprendendo sobre a prática da produção.

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3.3.6. Proposta de criação de um CAAUP:

Como forma de fomento a comercialização e articulação entre produtores de diferentes localidades, será criado o CAAUP (Centro de Apoio a Agricultura Urbana e Periurbana), como forma de ampliar os espaços de comercialização. O objetivo do CAAUP é fomentar empreendimentos produtivos, formar agricultores, através do uso de tecnologias de bases agroecológicas e mobilização comunitária com foco em Economia Popular Solidária. Com isso, é possível promover a produção de alimentos para o autoconsumo, para o abastecimento de Restaurantes Populares e Cozinhas Comunitárias e para vendas de excedentes no mercado local e no próprio centro.

Vê-se, através das experiências do projeto com os diversos produtores, que há uma alternativa válida para a venda direta de alimentos, fomentando a segurança alimentar e a agroecologia. A proposta de efetivação do Centro já possui local definido, que é ao lado do Centro de Convívio dos Meninos do Mar (Ccmar), possuindo visibilidade e reconhecimento da comunidade rio-grandina.

Desta forma é que o projeto de extensão aproxima-se das propostas de efetivação da política pública de segurança alimentar, trazendo para os produtores e para os consumidores um alimento de qualidade com fornecimento de forma ininterrupta e centralizada de modo a garantir a segurança alimentar e nutricional para a população.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Diante de toda temática apresentada, vê-se o direito à alimentação como um novo direito fundamental e social promulgado na Constituição Federal que, através do nosso sistema jurídico, se legitimará a atuação positiva estatal como política pública, não sendo mais como uma política de oportunidades, transitória e emergencial que não combatem a fome e nem a alimentação adequada em sua essência.

Nesse sentido, o sistema jurídico visto como falível e provisório, tem em sua fundamentalidade dos princípios um grande norteador na medida da hierarquização axiológica para a modificação do status quo de nossa sociedade, no intento de perfectibilizar-se enquanto sistema aberto as mais diversas demandas em virtude de anseios sociais, ambientais, culturais entre outros. Diante disso, os princípios fundamentais é que fundamentam as decisões e as normas do sistema jurídico, num processo de execuções jurídicas sucessivas que não podem ir de encontro ao interesse desses princípios fundamentais. Nesse sentido, conclui Freitas (2002) que de acordo com o princípio da proporcionalidade sacrificaríamos o mínimo para preservar o máximo de direitos fundamentais.

Acompanhando a perspectiva do direito como transitório, vemos a figura do pluralismo jurídico através da efetivação de uma democracia participativa, através de uma horizontalização do poder e, por isso, maior participação do povo nas decisões tomadas para a sociedade. A esses processos chama-se emancipação, e desta é que depende o sucesso de políticas públicas tais como

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a da segurança alimentar e nutricional pois só com a participação efetiva da população é que serão tomadas as medidas necessárias mas de forma dialogada com a população, respeitando sua cultura, sua identidade, visando autodeterminação e autonomia.

E nessa seara de mudança de paradigma é que esperamos do direito, onde, o vendo como um resultado de uma construção argumentativa e humana, possa ter um olhar indissociado entre o positivado e a realidade. Diante desse panorama apresentado devemos reconhecer estes instrumentos jurídicos e promovê-los para a promoção de justiça social, ambiental garantidora do futuro das gerações. Se não a que valem as leis e o Direito? Uma vez o Estado legitimando o discurso do Direito, somos nós, cidadãos, atores sociais capazes de interferir e garantir a harmonia entre a lei e a realidade e, em última análise, entre o homem e o seu meio social e ecológico.

Reconheceu-se o direito a alimentação na Constituição Federal em seu art. 6º como direito social, com foco na fome e em relação a alimentação adequada, tais como condições do alimento tais como biológicas, sanitaristas, nutricionais e suas procedência com incentivos a participação da agricultura familiar e da agroecologia como forma de se obter alimentos saudáveis. Os direitos fundamentais foram grandes conquistas por atrelar ao ordenamento jurídico, responsabilidades e comprometimentos para com seus cidadãos e de forma cumulativa as suas dimensões de direitos fundamentais ampliou-se os direitos dos cidadãos, enquanto ser individual, em seus grupos societários e enquanto humanidade geral de modo difuso.

Além disso, viu-se a questão da agroecologia como elo entre o direito fundamental social e ambiental, na ideia de um resgate de uma alimentação baseada na biodiversidade sem a utilização de agrotóxicos respeitando os ciclos naturais e os períodos de cada alimento. E, nesse sentido, a agricultura familiar é responsável por grande parte do que está em nossa mesa para o alimento, devendo defendê-los para que possam seguir vivendo da terra com garantia de amparo estatal e de estruturação e de incentivos para a formação de associações e cooperativas num processo de emancipação e de auto- gestão. A agroecologia propõe um novo relacionar entre homem e natureza, na

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ideia de respeito e de agradecimento desta pela possibilidade de cultivar alimentos sobre seu manto protetor, seguindo seus ciclos naturais dialogando com os espaços para, dessa forma, não necessitarmos de artificializações da natureza e nem diminuir sua variabilidade como o mercado global vem agindo através do uso intenso de agrotóxicos e de transgênicos. Nessa perspectiva, a agroecologia ganhou espaço de mercado nesses últimos anos, então criou-se a lei 10831/2003 que dispõe sobre a agricultura orgânica como forma de entender e padronizar esse conceito inclusive para a própria certificação de produtos orgânicos.

Para concluir, ao projeto de extensão devemos reconhecer a importância da agricultura urbana e periurbana para o combate a fome e a desigualdade social com foco na agroecologia. Dito isso, é de grande valia trazer para os meios acadêmicos as ricas experiências de extensão universitária junto aos agricultores para uma compreensão diferenciada e enriquecedora da realidade visando a própria formação dos estudantes.

Os conhecimentos e experiências construídos no projeto não se encerram em determinadas áreas do conhecimento. Ao contrário, abrange uma transdisciplinariedade que enriquece a todos que participam dos processos através da troca de saberes (formais ou não formais) que envolvem uma atividade de extensão.

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