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UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ

PÓS-GRADUAÇÃO EM MÍDIAS DIGITAIS

TV Digital: uma experiência interativa ou uma TV com mais cores?

Patrícia Moura

Artigo apresentado à disciplina de


Tecnologias da Informação na Comunicação
Como requisito parcial para obtenção do título de
Especialista em Mídias Digitais.

Rio de Janeiro
2007
INTRODUÇÃO

“Tire a Televisão de dentro do Brasil e o Brasil desaparece”, disse Eugênio


Bucci no artigo O Brasil não é uma aldeia, mas é global, em 1995. 12 anos depois,
com mais de 180 milhões de habitantes, esta conclusão se reafirma diante da
expectativa do lançamento da TV Digital no país.

Com uma penetração de cerca de 90% dos domicílios brasileiros, a


televisão faz parte da vida cotidiana das pessoas, constituindo-se não apenas em
uma forma de entretenimento, mas em um elemento formador de cultura, moral e
educação. É através da TV que o Brasil se conhece e se reconhece. Costumes e
tradições longínquas se unificam transpondo os abismos sociais decorrentes de
uma das piores distribuições de renda do mundo. Ou seja, não temos comida, mas
temos TV.

O Brasil é o país da América Latina que possui o maior número de


televisores instalados (cerca de 50 milhões) e também o maior mercado para
aparelhos de televisão da região. Somente no ano de 2000, foram consumidos
mais de 5 milhões de televisores, sendo o televisor, o terceiro eletrodoméstico
mais adquirido pela população brasileira, ficando atrás apenas do fogão e do
rádio.

A expectativa destes consumidores em relação a TV Digital é alta. Na


medida em que imaginam que a TV do futuro oferecerá serviços interativos como
definir o melhor horário para assistir a programação, também acreditam que será
possível salvar a receita da Ana Maria Braga, assim como, parcelar em sete vezes
no cartão o vestido que a Camila Pitanga usou no último capítulo de Paraíso
Tropical. Tudo isso, com imagem e transmissão em alta definição dignas de uma
sessão de cinema. Mas será que a TV Digital nos proporcionará tudo isso? E em
quanto tempo?
Interatividade e convergência

Depois de mais de três anos de estudo, debates e muitas polêmicas, o


presidente Luis Inácio Lula da Silva anunciou oficialmente que o Brasil adotará o
padrão japonês de TV digital. A escolha prevê ainda, que a TV digital brasileira
contará com alguns elementos desenvolvidos em território nacional.

Os especialistas afirmam que, inicialmente, não será necessário trocar uma


TV convencional por uma TV digital, ou mesmo uma de plasma. Um terminal de
acesso, chamado set-top box, será responsável por converter o sinal para os
televisores convencionais. É por isso, também, que se aposta na popularização da
TV digital no Brasil.

A interatividade é um dos recursos mais celebrados da TV digital. Na


prática, as emissoras poderão enviar junto com a programação dados e aplicativos
que rodarão no receptor. A gama de aplicações é a mais variada: desde jogos,
notícias, guias de entretenimento até programas governamentais, serviços
públicos e acesso à rede bancária.

Logo após a definição do padrão japonês, o jornalista Renato Marques, em


artigo para o portal Universia Brasil, confirmava a grande expectativa do público
consumidor em relação às possibilidades abertas pela implantação da TV Digital
no país:

“Ainda é difícil afirmar, com certeza, qual o tamanho do


impacto que a TV digital trará. É preciso reconhecer, no
entanto, que há um potencial praticamente infinito. No que
diz respeito ao entretenimento, especificamente, as
especulações impressionam. Com sinal de qualidade,
imagem e som melhoram automaticamente. A capacidade
de interação através do televisor transforma a maneira de
ver TV”.
Nesse cenário, um conceito se destaca paralelamente ao de interatividade:
a convergência de mídias. A TV digital, ao mesmo tempo em que leva ao extremo
as possibilidades de sua transmissão, expande a utilização do televisor. O set-top
box, por exemplo, poderá facilmente substituir o aparelho de DVD. A própria TV
poderá realizar funções até então restritas aos micro-computadores, como acessar
a internet e receber o sinal digital através do palm, celular ou notebook.

Segundo o coordenador do Laboratório TeleMídia do Departamento de


Informática da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Luiz Fernando
Gomes, a decisão do governo pelo padrão japonês para o foi a melhor, se levados
em conta os fatores tecnológicos e a interatividade, uma vez que o sistema
japonês tem a melhor modulação entre os três padrões analisados e facilita a
portabilidade do sinal.

Consumidor: espectador ou usuário?

Segundo especialistas, o padrão ainda permite a interação da TV com


outros aparelhos, como o leitor de discos blue-ray, 4X superior à dos atuais DVDs,
e videogames da nova geração. Gomes, em entrevista concedida à Marques
afirma que "A TV digital vai representar um avanço muito grande, porque o
telespectador não vai mais ter uma assistência passiva, como hoje. Ele passa a
ter uma participação, principalmente quando tivermos o canal de retorno".

A partir desta perspectiva, teremos então, um novo conflito: a transposição


do consumidor como telespectador para usuário. Se avaliarmos a condição do
telespectador hoje, chegaremos à conclusão que a mídia audiovisual é construída
se baseando na unilateralidade, ou seja, o telespectador é passivo e mesmo
quando a TV disponibiliza alguma forma de interação (Programa Você Decide,
Reality Shows, comercial “interativo” da Nokia em que o telespectador opta pela
trilha musical através da tecla SAP), a reação do telespectador é programada.

Faiçal Farhat de Carvalho, consultor técnico da FITec chama atenção para


o aspecto da postura do espectador em relação ao equipamento: “Não podemos
esquecer que a postura do espectador é o fator principal. No computador, ela é
ativa e na TV, contemplativa”.

As possibilidades de interatividade da TV Digital alteram a posição do


telespectador para usuário, assim como na internet. Este novo usuário terá a
oportunidade de interagir com o meio, interferir na grade de programação,
selecionar conteúdo, deixando de ser um mero espectador para um ator ativo. Ou
seja, nem a maneira de assistir a TV será a mesma.

Os novos desafios

O coordenador do Laboratório de Sistemas Integráveis da Universidade de


São Paulo (USP), Marcelo Zuffo, afirma que com a TV digital, em um mesmo
canal poderão ser transmitidos até quatro programas e vários aplicativos,
promovendo uma mudança de paradigma que afetará diversos segmentos, entre
eles, a radiodifusão, a telefonia, a internet e os fabricantes de eletrônicos.

Mas não só as indústrias sofrerão grandes impactos com a TVD, as


emissoras, os produtores de conteúdo e a publicidade, sobretudo, sofrerão
grandes impactos em termos de comunicação e linguagem para o público. Basta
imaginar que, com uma TV digital e o set-top box, será possível receber seis sinais
simultâneos.

O público poderá optar entre assistir a novela, o futebol, o jornal, o


programa de auditório, um filme e um TV Shop. Se pensarmos que hoje, a
quantidade de canais existentes entre a TV aberta e o sinal fechado já promovem
este leque de opções, este desafio parece simples. Mas preparar este tipo de
exibição em um único canal e garantir os mesmos índices de audiência existentes
no sistema analógico serão os grandes desafios do primeiro momento.

Atualmente, o modelo de negócio das emissoras é totalmente baseado nos


índices de audiência. Quanto maior a audiência de um programa, maior é o valor
das inserções nos respectivos intervalos comerciais. Mas com os novos
paradigmas que a TV Digital apresenta, muito provavelmente, as emissoras serão
obrigadas a desenvolver um novo modelo de negócio na publicidade para TV.

A maneira de medir audiência televisiva não será mais a mesma. O próprio


faturamento publicitário das atrações sofrerá mudanças. Projeções com públicos
restritos apontam quem ganhará telespectadores (séries e novelas) e quem
perderá (telejornais) por conta da digitalização dos canais, afirma Diógenes Muniz,
Editor-assistente da Folha Online (2007):

“O Ibope está desenvolvendo um aparelho para


descobrir não apenas a emissora sintonizada, como faz
hoje, mas também o conteúdo digital que está sendo
consumido seja qual for a grade de programação. Isso
porque a TV digital chega com a promessa de, assim
como nos EUA, oferecer autoprogramação, na qual o
usuário pode escolher a hora em que verá determinado
programa”.

Segundo a diretora comercial do Ibope Mídia, Dora Câmara, a audiência de


TV aberta no Brasil é medida hoje pelo DIB 4, um aparelho que é instalado na
residência dos espectadores apenas para revelar os canais sintonizados. Já com
o DIB 6, será possível monitorar também o conteúdo de internet, celular e rádio,
além de identificar a audiência de um programa em segundos, minutos ou horas
depois de ter sido transmitido.
Na publicidade, as mudanças não devem ser tão significantes inicialmente,
pois a interatividade deve diminuir ainda mais a audiência dos comerciais. A
tendência do mercado publicitário é sugerir aos grandes anunciantes que
participem mais do conteúdo da programação, já que a sociedade recusa cada dia
mais todo apelo que lhe pareça invasivo.

O publicitário Nizan Guanaes, em entrevista à Gazeta Mercantil (2006) falou


sobre os desafios que a publicidade terá de enfrentar com o advento: "As pessoas
vão gostar de poder fazer uma coisa que eu não vou gostar muito: pular os
comerciais”. Guanaes acredita que as possibilidades de criação dentro da TV
Digital são inacreditáveis, mas que ainda é cedo para tentar dimensionar.

A autoprogramação permitirá que, manualmente, o telespectador evite os


comerciais. De acordo com especialistas, os programas jornalísticos serão os
produtos mais prejudicados com o "corte" do intervalo pago convencional. Para se
manterem rentáveis, os programas devem inserir ainda mais merchandising, o que
causará mais interferências nas atrações e que pode, com certeza, causar uma
perda de qualidade nos conteúdos de entretenimento.

Sonhos distantes

Nas próximas duas décadas, 1,5 bilhão de televisores no mundo migrarão


para o digital, estimam especialistas. Subestimar as transformações que a TV
Digital acarretará em termos de educação, informação e entretenimento, diante
destas perspectivas, definitivamente não é o caminho certo.

Mas como toda nova tecnologia que chega ao Brasil, a TV Digital levará
bastante tempo para se tornar acessível à população, que em sua maior parte é
de baixa renda. Técnicos afirmam que os chamados set top Box devem custar em
média R$ 800, segundo fontes da indústria.
A empresa de TV à cabo Net TV já traz aos seus assinantes em dezembro
um produto semelhante, que gravará programas pelo mesmo valor. Considerando
que a TV fechada não é muito popular no país (atinge menos de 9% dos
domicílios), esta inovação não será sentida significativamente nos lares
brasileiros.

Como uma nova tecnologia em comunicação, a TV digital interativa


necessita de amplos estudos em torno de suas possibilidades e potencialidades.
Mesmo com algumas referências, o prazo para que a TV digital brasileira seja o
que realmente o público imagina pode ser considerado uma incógnita, já que o
país ainda está engatinhando nesses estudos.

O decreto assinado pelo presidente Lula prevê um prazo de dez anos para
que as transmissões analógicas (formato atual) sejam migradas para o sistema
digital. Ou seja, nos primeiros anos, as mudanças devem acontecer em ritmo
lento. Segundo Renato Marques, estas mudanças serão basicamente estruturais,
como a adaptação das redes transmissoras, desenvolvimento de hardwares e
softwares compatíveis e estudos para a utilização do potencial do sistema.

O professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de


Janeiro (UFRJ), Jorge Chami Batista é ainda menos otimista em relação a prazos.
O professor alega que o aparelho da TV digital com as facilidades de um
computador tornará o equipamento mais caro do que é computador hoje e, apenas
em um período de 30 anos, essa realidade pode ser totalmente diferente.
Conclusão

Dezembro de 2007 é a data marcada para o início da implantação da TV


Digital no país. Este cenário é marcado por discussões sobre marcos regulatórios,
questões político-econômicas, entraves técnicos e insegurança por parte dos
produtores de conteúdo, emissoras de TV e anunciantes.

A indústria também não está absolutamente preparada para prover os


recursos técnicos necessários e o mais importante: a grande massa não dispõe de
recursos financeiros para adquirir o equipamento conversor de sinal (salvo se a
indústria da pirataria sair na frente e conseguir baixar o set top box de R$800 para
R$80).

Mesmo que as classes mais altas tenham acesso aos primeiros recursos
que a TV Digital disponibilizará como imagem e som de alta definição, a previsão
para que este advento funcione de acordo com as expectativas do público é de
longo prazo (10 a 30 anos). Portanto, com base neste breve estudo, podemos
concluir que a TV Digital nada mais será em dezembro e, muito provavelmente,
nos primeiros anos, uma TV com mais cores. O sonho de uma experiência
interativa plena está distante o bastante para que um outro advento venha
substituí-lo ao longo de três décadas.
REFERÊNCIAS

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