DIREITO A QUE CIDADE?

A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO DIREITO À MORADIA E AO CONVÍVIO DIGNOS NA PAISAGEM URBANA (A PARTIR DA CONSTITUIÇÃO E DA DEMOCRACIA)  THE RIGHT TO A CERTAIN TOWN? THE SOCIAL CONSTRUCTION OF HOUSING AND DECENT CONVIVIAL RIGHTS IN URBAN LANDSCAPE (THROUGHOUT THE CONSTITUTION AND DEMOCRACY)

Gustavo Rabay Guerra Alexandre Bernardino Costa

RESUMO Buscar os fundamentos do direito ao espaço urbano público em toda sua extensão popular é uma medida teórica imprescindível para reorientar a vocação de exclusão e de segmentação da cidade. Esse texto visa discutir os pontos centrais da adequada articulação entre movimentos democráticos preocupados com a racionalização da questão fundiária urbana e o uso do paradigma constitucional de construção social da cidadania, no sentido de possibilitar a conquista dos sonhos de vida decente nos centros urbanos. A partir da percepção de indicadores de pesquisa, da análise do modelo social de habitação do Brasil e da constatação da insuficiência do direito à moradia na gramática constitucional dominante, é possível resgatar os moradores da cidade do processo de elaboração do não-cidadão, denunciado por Milton Santos, e da lógica de apartação, que modifica profundamente a paisagem urbana, transformando-a, como diz Zygmunt Bauman, em um locus ameaçador ao próprio convívio, como no caso da ocupação popular do setor conhecido como “Sonho Real” (Goiânia-GO), ilustrado no presente trabalho. A partir de novos mecanismos jurídicos, plenamente reconhecidos pelo ordenamento, mas somente legitimados e vivificados pela própria sociedade, é possível concretizar o ideal de uma teia urbana que se encaixe na verdadeira concepção de cidadania e de convívio digno. PALAVRAS-CHAVES: DIREITO URBANÍSTICO POPULAR; DIREITO À CIDADE; DIREITO À MORADIA DIGNA; CONSTRUÇÃO SOCIAL DO DIREITO; LEGITIMAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS.

ABSTRACT Seeking the grounds of the right to public urban space throughout its popular dimension is an imperative theoretical measure to reorient the tendencies of exclusion and segregation of the town system. This text aims to discuss the main aspects of proper linkage between democratic movements concerned with the rationalization of urban
Trabalho publicado nos Anais do XVII Congresso Nacional do CONPEDI, realizado em Brasília – DF nos dias 20, 21 e 22 de novembro de 2008.

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land issue and the use of the constitutional paradigm of social construction of citizenship in order to enable the achievement of dreams of living with dignity in urban centers. From the perception of the indicators of the academic research in this area, examining the model of social housing in Brazil and realizing the failure of the housing rigths issues in the dominant constitutional grammar, it is possible to rescue the residents of the city's process of development of the non-citizen, denounced by Milton Santos, and the logic of apartheid, which profoundly alter the urban landscape, transforming it, as Zygmunt Bauman says, in a place which threats the very convivial, as in the "Sonho Real" social occupation area (Goiânia-GO), illustrated in this work. On the basis of new legal mechanisms, fully recognized by the legal system, but only legitimized and brought alive by the society itself, it is possible to realize the ideal of an urban structure that fits in the true concept of citizenship and decent living. KEYWORDS: LAW OF THE PUBLIC URBAN SPACES; HOUSING RIGHTS ISSUES; SOCIAL CONSTRUCTION OF CITIZENSHIP; CONSTITUTIONAL RIGHTS; SOCIAL ORGANIZATIONS; DEMOCRACY AND PUBLIC POLICIES.

1. Miragens de Concreto Líquido

A maioria das famílias de trabalhadores urbanos tem que resolver uma equação complexa para permitir sua presença no contexto da cidade: um arranjo nada aritmético, permeado por fatores que misturam sua cidadania, suas possibilidades econômicas e suas crenças no futuro com outros ingredientes perversos que conduzem a quatro singelas opções, entre tantas outras possíveis. A família pode alugar um “apartamento” próximo ao trabalho, mas a um custo elevado, de acordo com sua “centralidade”, e que não traduzem qualquer esperança de propriedade posterior. Se acaso a família opta por um abrigo informal, tal como um cômodo ou sótão cubicular, ambiente de má-qualidade, com bom acesso ao lugar de trabalho, ainda assim, não teria esperança alguma de propriedade. A opção poderia, então, recair na ocupação de área pública, seja um terreno ou prédio, sem pagar pelo uso da moradia, mas com alto custo de transporte e total negligência governamental à infra-estrutura. Ou ainda, a família poderia se inserir em loteamentos semi-informais com ocupação legal, mas sem autorização para construções e, a depender das oportunidades, não dificilmente estariam situados em locais distantes do emprego, com algum atendimento de serviços, tal qual transporte público. Esse quadro poderia ser exposto como o leque de escolhas a que estariam submetidos os moradores de uma metrópole brasileira como São Paulo, ou mesmo a Capital Federal, mas foram expostas por Ahmed Soliman, como quatro estratégias básicas de abrigo dos

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sofre com a falta de planejamento urbano e equalização das distorções sociais. negando qualquer tipo de reproduções das violentas restrições sócio-econômicas que hoje sufocam o direito à moradia. O problema global ganha contornos dramáticos em um País com abundância de recursos naturais e que. E as formas de se conjugar moradia não podem prescindir a intervenção econômica do Estado e os movimentos populares. para eqüitativa transformação das possibilidades de alocação dos espaços do cidadão. A moradia urbana é. São nesses elementos que se fundariam um verdadeiro direito à cidade: cidadania ativa. Os diálogos com a cidadania são abruptamente cortados por uma visão imobiliária da cidade. paradoxalmente. ignorados os objetivos calcados no próprio Texto Constitucional de erradicação da pobreza e dissipação das desigualdades sociais e regionais. a identificação com a inexistência das condições próprias à luta pela cidadania plena dos habitantes da cidade. surge a geografia das ausências e a geografia das emergências[2]. circularmente. por mais isolados que possam ser os nichos de sobrevivência na metrópole. A rede urbana pulsa sem perceber os dramas sociais que ela mesmo gera. precisar ser agora cortado por possibilidades urbanísticas democráticas. quando a única forma que resta a boa parte da população que necessita trabalhar na cidade é a de sonhar com a aquisição ou regularização da moradia em áreas distantes e desprestigiadas quanto aos serviços públicos essenciais. isto é. 6086 . como o aluguel de pequenos cubículos pela proximidade do trabalho. tal qual reproduzido por Mike Davis. a informalidade do uso do solo traz dificuldades à acessibilidade dos serviços que deveriam ser assegurados a todos os cidadãos. O que resta são miragens: financiamento inacessível para a maior parte daqueles que se encontram sem lar. Cidade sem cidadãos. rede urbana popular e integração sócio-econômica. O discurso político urbano. improvisações. pois dela são privados. da coordenação urbana pelo mercado[3]. Nessa tensão. cujas possibilidades deveriam ampliar sua vida cidadã. tão sociedade precisa reconhecer a condição de vida cidadã em cada espaço do seu convívio. em seu estudo sobre a “generalização das favelas”[1]. sentenciou o arquiteto anarquista John Turner[4]. grande parcela da população à pobreza. exatamente por estarem na cidade. cada vez mais. de matriz nitidamente capitalista. Cidadania sem sujeitos. loteamentos irregulares em áreas nem sempre providas dos serviços básicos e. que não reconhece as necessidades sociais que.pobres do Cairo. uma equação complicada. A conspurcação da cidadania conduz. até.[5] Para ser decente. de fato. a expondo à desigualdade e ao alargamento do espaço de indiferença que permeia grandes centros urbanos. livre de modelagens de distinção econômica. Mas a complexidade pode ser reduzida a partir de algumas percepções que passam ao largo de uma sociedade indecente. “Moradia é um verbo”. são de todos os indivíduos. No Egito ou no Brasil.

também chamado de Agenda Habitat – que tem como escopo colocar as questões urbanas num lugar prioritário nos programas de desenvolvimento de seus países. por isso. pelo que dispôs. afirma o referido autor ser o direito à moradia um direito da pessoa e da família. de realização progressiva. aluguéis e diversas outras modalidades de alojamento. do qual o Brasil é signatário (Decreto nº 591/92). habitação. em 1996. de assegurar-se a sobrevivência dos indivíduos.2. É um bem cultural cujo valor histórico acompanha diversos caracteres do próprio direito à propriedade. realizada entre os dias 3 e 14 de junho. 6087 . ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle”. Assim. Com um público estimado de 60 mil participantes. dos anseios pessoais ao tempo em cumpre um meta social. a II Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos. como bem adverte Perlingieri: uma de natureza patrimonial e a outra existencial[8]. o direito à segurança em caso de desemprego. Essa bipartição conceitual caracteriza-se pela necessidade do Estado conceber uma política habitacional que venha garantir o respeito às liberdades individuais. a garantia à condigna moradia[10]. com o Pacto dos Direitos Econômicos. a Organização das Nações Unidas promoveu. e serviços sociais indispensáveis. cujo art. Moradia e Cidadania: Para Além de uma Concepção Patrimonial de Habitação Em seu retorno ao pensamento de Cícero e Ovídio. cuidados médicos. viuvez. O primeiro cinge-se ao direito à propriedade do imóvel que serve de moradia a uma determinada família. conceitua o direito à moradia e sua extensão e define o papel dos Estados para a plena realização deste direito[11]. invalidez. No plano internacional. de organização da própria vida em comunidade. Sociais e Culturais. inclusive alimentação. a Conferência foi oportunidade para que chefes de Estados e representantes de 186 países assinassem um documento . Importante inovação foi alcançado em 1966. face a outras hipóteses que assegurem a correta residência. vestuário. muito embora possa afigurar-se prescindível. indeclinável. na cidade de Istambul (Turquia). o direito ao repouso e ao lazer e a “um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar. mediante programas sociais administrativos. tal como relações de uso.[7] Mas a concepção sobre a existência de um direito à moradia radica em duas diferentes acepções. velhice. Fernando Aith lembra que a Agenda não só oferece um quadro geral sobre o déficit habitacional no mundo como também dispõe expressamente que o direito à moradia é um direito humano fundamental. ao passo em que o segundo radica na necessidade humana e. em seu “artigo XXV”. doença.o Plano de Ação Global. onde o objeto jurídico a ser tutelado pode ser de índole econômica ou relativo à liberdade pessoal[9]. Na esteira deste importante documento. Fustel de Coulanges atesta que a moradia é a mais sagrada e inviolável coisa que um homem pode possuir[6]. a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 foi o divisor das águas. 11 prevê. explicitamente. Além disso.

2004. Segundo levantamento feito pela SEPURB. o déficit habitacional quantitativo no país soma 5.8 1.710.835 93.9 2.7 1.703 596. tendo em vista as características da progressividade.984.1 0.357.645 Horizonte Salvador 3.246 130.768. Saneamento e Mobilidade nas Metrópoles em Risco. As nove regiões metropolitanas brasileiras abrigam 42.394 75. 2000 Metrópoles População São Paulo Rio de 10.805 Janeiro Recife 3. ou seja.2 1.952.952 Curitiba 2.854 1.795.667 Brasília Belém 1.767 Fortaleza 2.337.515 390.778 116.536 117.0 5.2 3.355.405. uma vez que aproximadamente 80% da população vive nas cidades. constitui-se em um documento complementar ao Pacto dos Direitos Econômicos.689 163.4 1.609 8. Observatório da Metrópole.232 % do total Domicílios em % do total do Brasil Favelas do Brasil 9. sendo o 2º país mais urbanizado da América Latina.505 42.192.613 Belo 4.933 RIDE 2.805 2. IBGE.1 32. No Brasil a situação é igualmente grave.951 53.6 82. a Agenda Habitat dispõe de vários artigos definindo o direito à moradia como um direito humano[12].668 Total 54. PINCIPAIS METRÓPOLES BRASILEIRAS Déficit habitacional e moradias em favelas.3 2.5 2.2 2. três em cada dez habitantes vive nestas metrópoles.004 Porto Alegre 3. Sua parte inicial oferece dados preocupantes sobre a situação habitacional global.0 416. 2000 6088 . Além de expor a grave realidade vivida no mundo.2 2.5 6.276 146.718. Dados Base: Fundação João Pinheiro.021.572 144.565 191.878.316 21.443 84. 11 do Pacto deve ser interpretado de forma integrada com os preceitos da Agenda.9 3.7 milhões de pessoas.1% Fonte: Plano de Ação em Habitação.4 2.6 milhões de moradias.5 7.Com efeito.931.9% 349.296 Déficit Habitacional 17.010 Manaus 1.447 39.723 107. universalidade e da indivisibilidade dos direitos humanos.183 57.143 25.2 5.212 65.942 155. a Agenda Habitat. MCidades/IPPUR. Sociais e Culturais. O art.5 4. que não possui força obrigacional interna.9 2.

Hoje. a cidadania. Mas todos os países em que houve e há políticas de financiamento da construção resolveram parcialmente. a habitação é uma meta social definida pelo governo. Em alguns países da Europa.[13] Na cidade de São Paulo. o déficit habitacional que havia no final da Segunda Guerra foi sanado em pouco mais de dez anos. inseguro e poluente. havia contra ele uma opinião pública bastante desfavorável. O constante endividamento do país agrava o quadro da pobreza e complica a implantação de projetos que visem a solucioná-la. por exemplo. que possui aproximadamente 10 milhões de habitantes. ao incluir o respeito à soberania. os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político como fundamentos da República. 3. Desde os anos 1950 a França vem construindo as chamadas habitations à loyer modéré (HLM). Os 53 milhões de pobres e miseráveis brasileiros não têm como pagar um aluguel. ao passo em que constituem seus objetivos a construção de uma sociedade livre. essa parcela seria logo absorvida pelo pagamento de juros. se o governo conseguisse o equivalente a 4% do produto nacional. ou pelo menos evitaram o agravamento do problema. O Direito à Moradia na Gramática Constitucional Dominante A Constituição de 1988 absorveu alguns elementos das ondas renovatórias de respeito aos direitos fundamentais. O Banco da Habitação realizou muita coisa. com a 6089 . muito menos como possuir uma moradia. especialmente. mas foi fechado em meados dos anos 1980. dados da FIPE lançados em 1994 revelam que existem 2 milhões de pessoas vivendo em favelas e 600 mil em cortiços[14]. Hoje se percebe que foi um erro ter acabado com esse banco.A radiografia do modelo social de habitação do Brasil não poderia ter sido melhor captado por Celso Furtado: A pobreza no Brasil não resulta das disparidades entre o mundo rural e o mundo urbano. e sim da concentração de renda urbana. auxílio indispensável à solução do problema mais grave e de mais difícil solução no Brasil: a habitação. ocupação predatória de áreas inadequadas. sem uma crítica mais séria do que estava fazendo. a garantia do desenvolvimento nacional. como na Índia. uma massa de recursos que podemos estimar em 4% do produto nacional. a dignidade da pessoa humana. justa e solidária. casas e apartamentos de aluguel reduzidos. carência na qualidade dos serviços de infra-estrutura. e na Nova Zelândia. Essa política de financiamento nos tem cruelmente faltado. Com efeito. serviço de transporte ineficiente. No mundo inteiro houve e há problemas de déficit habitacional. além de conflitos sociais e fundiários. a erradicação da pobreza e da marginalização. Como era uma herança dos governos militares. Os problemas são comuns aos de outros países em desenvolvimento: déficit habitacional. o déficit habitacional é o grande empecilho para superar-se o quadro de pobreza. Suprir esse déficit exige um investimento a longo prazo.

estadual e municipal. fundada na racionalidade pós-positivista que aporta em nossa tradição jurídica. Na esteira do pensamento do português. e a promoção do bem de todos. não se deve concebê-los como “meros produtos” da vontade constituinte: ao contrário. carece de força normativa plena. A partir do instante em que a própria doutrina constitucionalista cogita um esvaziamento de plena eficácia dos direitos sociais ante tênue diferenciação face à categoria direitos fundamentais. sem preconceitos ou quaisquer formas de discriminação.. da Lei Fundamental[15]. como bem salientado por Vieira de Andrade. De mais a mais.. quando a Constituição Federal afirma que todos devem ter direito ao bem social correspondente à moradia. Embora o direito à moradia não estivesse previsto de modo expresso pelo Poder Constituinte. a Constituição. é certamente questionável. sem que existam meios materiais para tanto. no que se refere a prestações materiais. per si. se limita a reconhecer os direitos fundamentais. nas esferas federal. encontra seu limite no princípio da reserva do possível[19]. estabelece como dever do Poder Público. no exercício jurisdicional. é a ausência de densa argumentação jurídica. por meio da função judicial. não é a Constituição um elemento estanque. ainda que inexistente a previsão do gasto. IX. conteúdo programático alçado ao art. O peso dos argumentos que levam.. onde ecoa a lição de Canotilho[20]. importante frisar a importância de adequação do texto Constitucional à natureza das coisas. nos limites estabelecidos pela própria Constituição[21]. no seu núcleo essencial. Aliás. a desprezar-se o necessário papel do Poder Judiciário na chancela de defesa dos direitos sociais conspurcados. os direitos nela regulados. essa deverá ser buscada por meio de medidas e programas habitacionais resultantes de políticas sociais adequadas.) que a todo indivíduo que demonstrasse não possuir moradia caberia ação contra o Poder Público para recebê-la (. gênese de todo e qualquer direito fundamental. à ordem social. como os relativos à saúde e à moradia.redução das desigualdades sociais. um texto constitucional. até mesmo. é preciso enxergar que tal não investe o seu titular numa condição exigibilidade plena. ainda que expresso. no entanto. a par de conferir-lhe aplicabilidade fática. “que existem para além do catálogo que formulou e que não estão sujeitos aos seus poderes de livre disposição”. Trata-se de um princípio decorrente da atividade financeira do Estado alusivo à impossibilidade de um magistrado. pela própria extensão de conseqüências que esse direito subjetivo desencadeia. 23.)”. debilita-se a possibilidade do controle judicial de implementação e execução de políticas públicas. na correção das distorções constitucionais[17]. a promoção de programas de construção de moradias e a melhoria nas condições habitacionais e de saneamento básico.. 6090 . inc. o que consequentemente resultaria despesa orçamentária oficial. pois “seria impossível admitir (. de efetivar ou desenvolver direitos. ou. ou ainda. em especial de direitos sociais. o próprio Poder Público. capaz de gerar. que conduz a essa obliteração dos direitos sociais. Como lembra Regina Ferrari. já em sua redação original.[18] A concretização dos direitos sociais. Em termos empíricos.[16] O direito à moradia.

As adaptações sofridas pelo Texto de 1988 demonstraram. de eficácia contida. que insistem em imiscuir-se no perscrutar da realidade sócio-legal brasileira. nesta seara. é na própria deblateração da eficácia jurídica das normas que amparam direitos sociais tal como o direito à moradia. arrefece as expectativas quanto à construção de um necessário aparato constitucional de excelência decisória e compromisso com o ideal democrático projetado nas linhas da Constituição. como é fácil levar à débito a perenidade das convicções de um Estado social municiado para a concreção dos direitos de cidadania. Diante da inoperatividade do legislativo. A doutrina da aplicabilidade das normas constitucionais. a despeito da notável evolução conceitual desenvolvida. ao afirmar. demonstrando que a criação/fiscalização de tais corresponde à noção de juridificação da política sem necessária ou singelamente romper-se com o horizonte democrático do sistema de independência e harmonia das funções do Estado[24]. tão só. É exatamente na busca por premissas mais apuradas que se poderá insculpir um sistema de fundamentação e interpretação do contexto dos direitos de especial categoria. pelos próprios investigadores pátrios. Assim. em si e por si mesmo. por meio de insípidos embates acadêmicos e sua justaposição ante à prática social de exclusão e desprezo aos comiserados. sem o mínimo cuidado com o peculiar paradigma alçado pelo contexto brasileiro. deixa-se esvanecer diante da insegurança interpretativa (ou da própria aplicabilidade da qual é ínsita) que ocasiona em lindes práticos. por exemplo. um processo curioso de transposição teórica de marcos estrangeiros. com o que poder-se-ia recuperar o “sentido-possível-de-um-determinado-texto e não a re-construção do texto advindo de um significante-primordial-fundante. a partir do final da década de 60. A resposta é antecipada por Lenio Streck.O revés econômico pelo qual passa nosso País. 6091 . mesmo em face da ausência de texto normativo especifico ou de programa social já formulado pelo próprio Executivo. que vislumbra-se o problema do esvaziamento da argumentação jusfundamental. à conta de sua débil condição neoliberal. não há um dispositivo constitucional que seja. A hipótese aqui levantada resume-se à necessidade de eleição de um padrão discursivo capaz indicar parâmetros para aferir a legitimidade dos atores judiciais no controle das políticas públicas sociais.[23] Com efeito. à vista da fácil captação e assimilação acrítica dos sopros alienígenas. de eficácia limitada ou de eficácia plena”. sobretudo. que é preciso romper com a “hermé(nêu)tica jurídica tradicional-objetifivante prisioneira do (idealista) paradigma epistemológico da filosofia da consciência”. entre tantos outros. Mas em que medida poderia o Judiciário determinar o atendimento da pretensão posta em face da ausência de mecanismos suficientes para o amparo habitacional sob a responsabilidade das autoridades representativas? Não se trata apenas de saber se um juiz pode ou não determinar que seja assegurada a entrega de uma unidade habitacional a um grupo de desabrigados em prováveis situações-limite da vida prática. Ocorre. a via judiciária apresenta-se como forma de dialógica democrática entre o cidadão e o Estado. com a obra de José Afonso da Silva[22].

[31] 4. receberam investidura em mandato coletivo. por si mesmo. e cuja efetividade está dependente da chamada ´reserva do possível´”. se de mínima. sobretudo a urbana. na construção de um direito à moradia. sobretudo. Para o professor Ernest Wolfgang Böckenförde.[25] Na esteira da conclusão pontual de Loreci Gottschalk.[26] O problema acerca de uma gradação máxima de acionabilidade dos direitos sociais ainda está longe de um deslinde teórico-dogmático[27].[30] O debate tem evoluído substancialmente: prova disso é que o Supremo Tribunal Federal já decidira. em outra ocasião. ex-juiz do Tribunal Constitucional da Alemanha. em que a gestão democrática da rede urbana se conforme com múltiplas possibilidades de ordenação da produção social e cultural de uma comunidade. um conteúdo fixo quanto à extensão de sua eficácia. embora o Supremo Tribunal Federal tenha decidido que o Executivo não está obrigado a pagar precatório judicial se não houver recursos disponíveis[29]. lembra Ricardo Lobo Torres que. mesmo que sua formulação e execução presumam-se reservadas aos demais Poderes: “Não obstante a formulação e execução de políticas públicas dependam de opções políticas a cargo daqueles que. mas também humanizante. acerca possibilidade de controle judicial das políticas públicas. esta última. “que tem prevalência sobre eventuais sobras de caixa”. não se pode almejar que seu conteúdo esteja na pertença das opções constitucionais: “antes pressupõe uma tarefa de concretização e de mediação do legislador ordinário. cumpre reconhecer que não se revela absoluta. é necessário. quando se fala de direito à habitação. romper com as teses subdesenvolvidas de um direito constitucional de baixa eficácia e com a falácia da “reserva do possível”. nesse domínio. os direitos sociais não exprimem. é preciso narrar a existência de outros ingredientes. Nas palavras de Patrícia Cardoso. O Direito à Cidade como Processo de Superação da Elaboração do Não-Cidadão Se há históricas e infinitas dificuldades para a concretização do direito à moradia. a criação de canais jurídicos que 6092 . a liberdade de conformação do legislador. por delegação popular. média ou máxima gradação. esse entendimento não deve se estender para os casos em que se discute a garantia do “mínimo existencial” – a própria noção de direitos fundamentais sociais –. nem a de atuação do Poder Executivo”. segundo Andreas Krell. o qual irei denominar simplesmente direito à cidade[32]. de modo a buscarmos o seu equacionamento em um paradigma constitucional.Para alcançar esse desiderato. De outra sorte. Mas direito a que cidade? Desenvolvimento urbano com participação popular é a forma como se pode pensar o direito à cidade. de sorte que os direitos fundamentais cingem-se a – nada mais que – tarefas constitucionais (Verfassungsaufträge)[28]. “fruto de um direito constitucional comparado equivocado”.

a urbanização se funda no consumo. provavelmente. aliam-se. ao referir que a própria palavra “cidadão” vai se impor com a grande mutação histórica marcada na Europa com a abolição do feudalismo e início do capitalismo. Enfim. seja este cultural. ser e morar na cidade. a concentração da mídia. A naturalização é tão visível que as brutais migrações nem sempre são motivadas pelo trabalho.. mas apenas para. É preciso sondar os lugares da cidadania: o direito de estar.reconheçam o direito à moradia digna e o direito à cidade sustentável se traduz em um “Direito Urbanístico Popular”. sob pena do trabalhador incorrer em óbvia alienação.. no instante seguinte. em concerto. as nuances econômicas[35]. como lembra Milton Santos. competem entre si. neste termo.). é o lugar onde os grupos efetuam também .[33] A pesquisa interdisciplinar é imprescindível. o planejamento urbanístico. o crescimento econômico delirante. principalmente a cidadania e a identidade do ser humano com o ambiente em que vive[37]. aumentar ou legitimar aquilo que consideram seu patrimônio. Numa palavra: seus estilos de vidas[38]. E que nesse processo de trocas simbólicas é que a cidade desintegra. pois além de mercado de trabalho. Cidadãos se transformam em consumidores.e especialmente . mas pelo consumo em si. Para Harvey e Castoriadis. de referência. à vista da interface existente entre o direito social de habitação e elementos específicos tais como a qualidade da habitação[34]. tais acontecimentos se naturalizaram.. não somente produzir na cidade. encontrando sua melhor definição. impõe-se como um amontoado de signos aparentemente desencontrados. misturam-se e interpenetram a fim de proteger. Marx não teria saudado a passagem do feudalismo para o capitalismo. para limitar mais que para facilitar minha ação. Do contrário.[39] A alienação do cidadão brasileiro. a urbanização galopante e concentradora. os dados eminentemente sociológicos[36]. histórico. porém. ideológico ou outros. Não há mais cidade. Em menos de três décadas esses fenômenos se deram de forma perversamente sistemática[40]. e a degradação das escolas. E a cidadania se esvazia. a noção de mercado permite dizer que a cidade afirma sua existência empírica apenas enquanto sistema no qual atua uma grande quantidade de grupos de interesse. a expansão do consumo de massa.suas trocas simbólicas (. refazer de modo diverso. o controle sanitário/epidemiológico.) para os moradores menos móveis.. agindo. como enumera Santos: a desruralização. Pela força ideológica que as assistou. reintegrar. e que precisa viver em um lugar livre – nos burgos: a cidade. o próprio território e o lugar. Pensar a cidade como construção simbólica de determinados grupos (inclusive o grupo dos que estudam a cidade) possibilita ver que ela não rejeita seu papel de mercado. Surge o trabalhador livre. sem seu antigo “dono” (senhor da terra). de trocas materiais. a cidade é impalpável. pode ser identificada por meio de fenômenos contemporâneos e concomitantes. Consumidores em usuários. mas “(. tornando-me impotente diante da multiplicidade de coisas que me cercam e de que posso dispor”. dilui.[41] 6093 . tamanhos e filiações. no entanto. de vários tipos. especialmente aquele que é todos os dias espoliado na cidade. as migrações brutais e desenraizadoras. Não há mais lugar livre. o espaço se torna um constructo necessário para entender todas as dimensões em que cabem as práticas sociais. Eis o burguês. que se confrontam. Ela. Com a ajuda da mídia.

originária de uma divisão social que a monetarização acentua. aquilo que outro autor – Michael Schwarzer – designou de “bairros fantasmas”[44]. além de superar a ausência de moradia – problema primário -. “É como se as pessoas nem lá estivessem”. formas velhas e novas de não viver. assim. impondo novas formas de vida e. enraizada e possibilitada pela “conectividade virtual”. tornar socialmente justo o espaço convivencial. mutilado pelas desigualdades e injustiças.Assim se estabelece. impede movimentos globais e um pensamento global. Tais constatações tomam relevo porque. A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos. é necessário pensar formas de suplantar a falta de condições dignas para se viver na cidade e romper a segregação sócio-espacial imposta pela organização anti-democrática gerada pelo mercado[48]. hoje a fonte de insegurança que ameaça a integridade social é a própria rede urbana[43]. para se falar verdadeiramente de direito à cidade. criando. De que adianta travar lutas sociais para o reconhecimento de áreas reservadas aos mais carentes e depois vendê-las sob as diversas formas de terrorismo do mercado? No 6094 . lamentavelmente. Os espaços utilizados pela elite acabam criando “exílios internos”. Os movimentos de massa também se esgotam nas coisas. em que a violência obriga parcelas crescentes da população rica e de classe média ao encastelamento dentro de condomínios fechados[45]. assim. o espaço vivido “termina por ser um espaço sem cidadãos”[46]. segundo os autômatos da razão formalizadora (Horkheimer). da passividade mantida pelo terrorismo (Lefebvre). Especialmente as periferias. As coisas se põem entre as pessoas. As mobilizações são locais ou setoriais. Conduzido apenas pela mão ostensiva do mercado. ou “campos de concentração particulares”. A socialização capitalista. posso semear moradia e dignidade para os que têm e os que ainda buscam ter e. Em outras palavras. permeado por uma concepção urbanística popular. o espaço social e o solo do consumo organizado. Se antes as pessoas buscavam segurança na cidade. escolas e serviços. a cidade se transformou historicamente em um locus ameaçador ao próprio convívio. se consolidam a cotidianidade. tão franca aos nossos tempos.[42] A lógica da apartação modifica profundamente a paisagem urbana. É o desperdício do convívio. em uma lógica mais instrumental do que existencial. Essa é a sua forma de comunicação. Para Bauman. é necessário criar uma consciência coletiva de apropriação legítima do espaço urbano. espaços desconectados e abandonados. A reinvindicação de uns não raro representa um agravo para o outro. como externou Milton Santos[47]. Com isso. quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une. Áreas vazias de saúde. A apartação se transforma em abismo: a mídia contribui para a banalização da violência e sua associação à periferia. em que pese a densidade demográfica.

processo de colonização do urbano. 5. lazer. Ou em outra formulação. Os pioneiros não sobrevivem ao pulsante tecido urbano do consumo. É uma forma de exploração da pobreza que transforma a mobilidade em benesse eventual[50]. por exemplo. Afinal. saúde. e melhoria dos padrões de acessibilidade. ao menos quatro questões básicas: habitação para todos. condições dignas de trabalho. Como afirma Milton Santos. entre outros bens. Áreas são valorizadas à medida em que se eleva o preço das áreas do entorno e isso significa a ocorrência de pressões para a expulsão dos mais pobres. reflexo da defesa de interesse da propriedade. um padrão de vida adequado. cultura. independente da construção social fincada no solo almejado. Como exemplo. saneamento ambiental. atende a fins mercantilísticos. o problema urbano é um problema de todos que convivem na cidade. às vezes. surge o sobre-lucro: o valor da terra é bem distante da mercadoria. os planos individuais de aquisição legítima da moradia. uma vida em família. visual e ambiental). reconhecendo-se o paradigma da função social da cidade. os aglomeramentos. Sem a mudança de mentalidade necessária. segurança pública e participação política ativa. Não se trata apenas de saber a quem reclamar. Com empreendimentos para a classe média. bem debaixo do nosso nariz. a existência de postos de atendimento comunitário. A elaboração brasileira do não-cidadão faz com que desprezemos a ocorrência de tal fenômeno. as novas redes de consumo ditam a divisão espacial da cidade: shopping centers. morar na periferia é ser destinado a não dispor de serviços sociais ou utilizá-los precariamente ainda que se pagando mais caro por eles. Em associações ou grupos de moradores populares. pouco importam os programas habitacionais. temas inseridos no contexto de um direito urbanístico cívico e democrático. restaurantes. sobretudo. em que princípios se colocam acima de interesses especulativos. assegurar. transporte público de qualidade. hotéis impõem a reapropriação das áreas. a consciência deve ser a de uma comunidade. tais como a utilização dos espaços públicos. Sociedades de moradores. A visão imobiliária da cidade se naturaliza e “morar na periferia” se tornar algo banal quanto a construção de habitações que. em cujo horizonte se assegurem. enquanto ação política motivada. parques temáticos. precisam do necessário tratamento espacial. a poluição (sonora. entre outros. a privacidade. têm lugar todos os tipos de confinamentos e promiscuidades[49]. em especial na “cidade informal”. de tão pequenas. O Sonho pode virar Realidade? Efetivando o Direito à Cidade a partir dos Movimentos Sociais 6095 . educação. os planos de desenvolvimento e.

a Polícia Militar do Estado promoveu duas operações para promover a desocupação do “Sonho Real”: a “Operação Inquietação”. em seu romance Os contos do morro do Lixo[51]. garis. inclusive estudantes que estavam no local no momento da operação e prestavam apoio à população. Estado de Goiás é um exemplo das dificuldades de semear soluções para o acesso à moradia urbana[53]. empregadas domésticas. oitocentas pessoas foram presas. Apesar da versão oficial de serem apenas dois o número de mortos. o juízo da 10° Vara Cível de Goiânia determinou que a Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás cumprisse a reintegração de posse da área. No início de 2005. em conjunto com as imobiliárias da região.500 homens. as favelas de Istambul são chamadas de gecekondus (“montadas à noite”). quebrou e ateou fogo no que sobrara das moradas. Todas as casas do “Sonho Real” foram derrubadas. A população conseguiu reaver apenas uma pequena parte do que possuíam porque a polícia roubou. o “Sonho Real”. o batismo se deve ao fato de que “os ocupantes heróicos do ´morro das Flores´ constroem e reconstroem cada barraco durante a noite porque as autoridades os põem abaixo toda manhã. sob a promessa do governo local e estadual de que a área privada em que estava encravado o “sonho” seria desapropriada. Só depois de um cerco homérico de 37 dias o governo finalmente desiste e permite que o novo gecekondu crie raízes numa montanha de lixo”.[52] Os fatores múltiplos que levam à ocupação de terras públicas e privadas em diferentes contextos sugerem a necessidade de se auscultar os problemas sociais que geram tais movimentos de luta pela moradia e trabalho. em que viviam catadores de papel. Segundo a escritora turca Latife Tekin. Ao passo em que os moradores deixavam seus empregos para construir suas moradias. Tudo para desocupar definitivamente a área. gerando confrontação entre os moradores e o poder público. incluindo a PM-GO. operários da construção civil. que empregaram suas minguadas economias em edificações precárias. e até o Exército. E os 27 alqueires que serviram às famílias estavam abandonados[54]. era como um bairro da capital goiana. no sentido de extrair soluções para equalizar a ausência de políticas públicas. Em novembro de 2004. também perdiam seus postos de trabalho em decorrência da marginalizada condição de ser morador do “Sonho Real”. Os donos da propriedade deviam cerca de 2 milhões de reais de IPTU. Ocupada por cerca de três mil famílias.5 milhão de reais e contou com um efetivo policial de 2. em que foram gastos R$ 1. que durou quinze dias e serviu para hostilizar os moradores com o emprego de violência. para a construção de um condomínio destinado à classe média[55]. As famílias foram levadas a um ginásio de esportes. em que o direito dogmaticamente organizado foi utilizado de modo constitucionalmente distorcido pela assessoria jurídica da família e de todo setor imobiliário de Goiânia. Ao final da “Operação Triunfo”. os moradores denunciam que há dezenas deles. O caso do Parque Oeste Industrial em Goiânia. a luta pela moradia se transformou em um conflito irracional. Sem emprego e tendo que resistir a pressão desencadeada pela ação de reintegração de posse. como foi batizada a comunidade. inclusive disfarçados. Todo o arsenal de instrumentos jurídicos utilizado tinha uma motivação óbvia: os proprietários nutriam planos. e a “Operação Triunfo”. 6096 .Na Turquia. policiais civis.

257. Como marco para a acessibilidade. A partir do assessoramento comunitário do referido Núcleo. inclusive. e a defesa dos direitos inter-relacionados. apresentando diarréia[56]. reconhecido. penal e trabalhista. muitas pessoas ficaram doentes. aos movimentos sociais.000 eleitores subscrevem a Emenda Constitucional de Iniciativa Popular pela Reforma Urbana. no setor Novo Horizonte e Capuava. as práticas realizadas pelos sujeitos coletivos envolvidos nas comunidades e pelo Núcleo de Prática Jurídica. A regulamentação desses dispositivos só ocorre 13 anos depois. apesar de várias famílias remanescentes do “Sonho Real” não terem conseguido regularizar sua situação habitacional. com atuação nas áreas cível. Sem colchões e alimentação adequada para todos. Em dezembro de 2007. em que o direito de resistência deu espaço a um discurso instituinte e que hoje se revela direito instituído. e com isso conseguem introduzir o princípio da função social da propriedade urbana. na concretização do tão sonhado direito à cidade. 6097 . embora não encontre reconhecimento em um primeiro momento.As famílias despejadas do Sonho Real foram alojadas em dois ginásios da periferia de Goiânia. em que aspirações sociais se opõem dialeticamente ao direito dogmaticamente organizado e. Na Assembléia Nacional Constituinte de 1988. também. inúmeras famílias puderam ser atendidas para que fossem sanados os problemas relativos à ocupação do solo dos acampamentos abrangidos pela ação. Com cerca de 30 alqueires. Três anos depois. objetivaram o princípio da dignidade da pessoa humana. O “Sonho Real”. promoveu a facilitação às comunidades do Acampamento da Telebrasília e de Ceilândia. Registre-se o caso do Distrito Federal. posto que a formação da cidadania depende de momentos como o exemplificado. portanto. a maior parte dos ex-moradores da comunidade conquistaram o direito de ocupar o terreno do Residencial Real Conquista. com a reivindicação de regularização de loteamentos clandestinos pelos excluídos e. decorrentes de demandas imediatas das carências constitutivas do que na proposta se denominou "pólos pró-cidadania". pelo Estado.[58] Muito se deve. mas. de 10 de julho de 2001). a construção social do direito à moradia urbana na década de 70. ao tempo em que já existe contratação para a construção de mais 410 novas residências[57]. da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília. Na recente história brasileira. Destaque-se que esse trabalho foi fundamental para o estabelecimento de uma identidade coletiva e a busca pela promoção não só do direito de morar. em que o trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Prática Jurídica e Escritório de Direitos Humanos e Cidadania. esse é constituído pela própria história resultante do conflito – ainda que esse radique meramente no campo ideológico. 130. que se transformou em “Real Conquista”. sobretudo. com a implantação de infra-estrutura nas favelas. é um exemplo de luta pela moradia na cidade. com a edição do Estatuto da Cidade (Lei nº 10. como lembra Whitaker Ferreira. o Ministério das Cidades entregou 330 unidades habitacionais. foi adquirido pelos governos estadual e municipal para abrigar famílias da ocupação do Parque Oeste Industrial.

Como descrito por Alexandre Bernardino. habitação e mobilidade urbana são prerrogativas jurídicas disponíveis de modo satisfatório na dogmática jurídica. que se destinam à provisão. A Constituição de 1988 foi um passo importante para pensar o problema urbano. na possibilidade de consecução de todos os valores essenciais à vida familiar e social[59]. de habitações populares. a política de desenvolvimento urbano. Só em 2001 surge o Estatuto da Cidade. Democracia e Direito à Cidade: a Experiência Vindoura Na medida em que se busca a concretização de uma reforma urbana com o reconhecimento do direito à cidade em toda a extensão que descrevi. trazendo um modelo normativo para a gestão adequada e democrática das cidades.[60] 6. pelas autoridades. introduzindo. (iv) a possibilidade de criação de Zonas Especiais de Interesse Social. a política setorial de desenvolvimento urbano. assim o princípio da função social da propriedade urbana e. expressamente. por meio de mecanismos. em que o Poder Público passa a ter prioridade na compra de qualquer imóvel urbano. a resistência social de alguns movimentos organizados antecedeu o reconhecimento. (iii) o direito de preempção. (vii) a exigência de Estudos de Impacto Ambiental ou de Vizinhança. À Secretaria Nacional de Habitação. além de prever. edificação ou utilização compulsórios do solo urbano não edificado e não utilizado. A Emenda de Iniciativa Popular pela Reforma Urbana foi o que possibilitou a inserção dos artigos 181 e 182 no Texto Constitucional. incumbe a regressão 6098 . incluindo-se. a partir de instrumentos cívicos como o orçamento participativo. (vi) a concessão de uso especial para fins de moradia. embora não exista teórica e verdadeiramente uma distância entre eles. a habitação. “a formação da cidadania requer autonomia privada de indivíduos livres e iguais. entre os quais destaco: (i) o parcelamento. Com a criação do Ministério das Cidades. foi devidamente impulsionada. A juridicidade do Estatuto da Cidade repousa na garantia da função social da propriedade.da dignidade em se sentir morador daqueles cenários. em janeiro de 2003. fixando. é possível perceber que as práticas sociais e o direito podem se aproximar mais. Como observado linhas acima. O que prejudica é a falta de concatenação entre esses mundos aparentemente distantes. para assegurar o bem-estar de todos os habitantes da cidade. ao mesmo tempo em que requer a possibilidade de reconhecimento e participação pública desses indivíduos nos processos decisórios sobre os seus próprios destinos. a cargo dos municípios. (v) o usucapião de imóvel urbano. o direito de usucapião urbano. órgão vinculado ao Ministério. E por mais que insistam os teóricos do direito quanto à baixa intensidade/eficácia das normas protetivas dos direitos sociais. Tais dispositivos careciam de regulamentação. Constituição. como autores e destinatários dos direitos”. de um direito concreto. como formas de controle dos grandes empreendimentos imobiliários. sob legislação especial. (ii) a desapropriação de imóveis sem uso a mais de 5 anos.

incorporando a regularização fundiária de interesse social. Só com a adequada articulação entre movimentos democráticos engajados na racionalização da questão fundiária urbana e o uso do paradigma constitucional de construção social da cidadania é possível obter o ganho de conteúdo e a conquista dos sonhos de vida digna nos centros urbanos. seja imóvel da União. uma das conquistas mais importantes do governo Lula foi a formulação de um novo paradigma para estruturar a Política Nacional de Habitação. face à inércia do Estado que pode configurar a inconstitucionalidade por omissão. mediante ações e processos judiciais eficazes. nos moldes assumidos pelo art. medidas de implementação do direito social à moradia. da ausência do direito de morar.481. conforme o disposto no art.do déficit habitacional.468. 1. está se construindo cooperativamente e com legitimidade social a pauta de propostas do planejamento nacional de desenvolvimento urbano. efetivamente. de acordo com o pesquisador Nelson Saule Junior[62]: (i) A faculdade de o cidadão exigir de forma imediata as promoções e ações constitutivas desse direito. alguns efeitos positivos almejados poderão ser sentidos. serão consagrados novos instrumentos de regularização fundiária de interesse social dos imóveis da União e a revisão da Lei de Parcelamento do Solo (Lei Federal nº 6766. de 2007. A nova modalidade de expropriação de imóvel abandonado há mais de cinco anos é prova de que o direito dogmaticamente organizado pode ser modificado a partir da percepção da resistência de novos protagonistas que. e (iii) O direito de participar da formulação e implementação das políticas habitacionais.228. configura-se o direito de morar na ausência. muito embora poucos parlamentares e até mesmo integrantes do governo desconheçam as novas diretrizes políticas. ocupado por população de baixa renda previsto da Lei Federal nº 11. A partir do momento em que o Estado possa reafirmar e praticar. de 2007.481. Como lembra a Professora Erminia Maricato. Só por meio da harmonização dessas necessidades sociais com a vontade popularconstituinte de construir uma sociedade decente. Com a realização das Conferências Nacionais das Cidades para a definição de princípios e prioridades da política urbana.[61] Apesar de tudo. podem ser reconhecidos como o discurso popular instituinte de novos direitos. com a ajuda do Conselho das Cidades e do Conselho Curador do Fundo de Garantia dos Trabalhadores (FGTS). destinados à proteção do direito à moradia. É a figura do abandono. Referências 6099 . posta na agenda política do País. transformando-a em espaço da e para a cidadania. Assim. (ii) O direito de acesso à justiça. de 2002). seja de imóvel particular vazio. 3º do Texto Constitucional. a questão urbana é. finalmente. do Código Civil (Lei nº 10. de 1979). A partir da aprovação da Lei Federal nº 11. que pode ser presumido pela falta de pagamento do Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU). uma vez “ouvidos” nas ruas. é possível reorientar a vocação de exclusão e a segmentação da cidade.

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1975. Quando passam por esse sentimento de humilhação. São Paulo: Boitempo. expandir “o domínio das experiências sociais possíveis”. Os Estados partes do presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa a um nível adequado par si próprio e sua família. Segundo Dominique Vidal. p. Pedro Abramo. Trad. que identifica sociologia das ausências e a sociologia das emergências como a possibilidade de expandir “o domínio das experiências sociais já disponíveis”. Beatriz Medina. Paris: Éditions Climats. cit. Cf. Dominique Vidal. Avishai Margalit. Trad. 199. Buenos Aires: Depalma.46. [4] John Turner. Rio de Janeiro: Renovar. [6] Fustel de Coulanges. ed. 1997. passim. contudo negligenciadas e. reconhece-se nesse conceito de humilhação aquilo que o habitante pobre da cidade considera humilhante. Freedom to Build. Lanham. em um segundo momento. 1972 apud Mike Davis. os brasileiros pobres falam de ''falta de respeito'' e costumam dizer que são tratados não como seres humanos. São Paulo: Hemus. Em outras palavras. 1961. ao fazer remissão ao Código Civil Francês (arts. passim.. [9] Idem. [3] Cf. São Paulo: Bertrand Brasil. “Sob vários aspectos. Cf. v. A cidade caleidoscópica. [10] “Art. In: John Turner.). 39. para quem a sociedade decente é aquela em que ninguém pode ser humilhado pelas instituições. 265-287. Rio de Janeiro. 52. University Press of America. p. 3. Jonas Camargo Leite e Eduardo Fonseca. 1999. Planeta Favela. 2. 2004. As empregadas domésticas também se queixam dos patrões que dão ordens e as repreendem como se falassem com um cachorro e que lhes fornecem comida de má qualidade. La Société Décente. Planeta Favela. Trad. 2003. 37-39. 632 a 634). e Robert Fichter (orgs. esses indivíduos se referem constantemente à brutalidade policial. 199. Em seu discurso sobre a injustiça social.[1] Ahmed Soliman. A Cidade Antiga. Nova Iorque: Macmillan. p. [2] A expressão remete à Boaventura Santos. A experiência brasileira e o sentido da cidadania nas democracias modernas. p. Vocabulario Juridico. esclarece que o direito de habitação consiste em direito real inalienável que confere ao beneficiário da faculdade de utilizar-se um imóvel para alojamento próprio e de sua família. Housing as a Verb. 119-120 apud Mike Davis. A linguagem do respeito. [7] Henri Capitant. que a define como ´a recusa de formas específicas de vida pelas quais os seres humanos exprimem sua humanidade’". Perfis do Direito Civil. Henri Capitant. vestimentas e 6104 . p. n. Trad. como medida necessária ao seu bem estar. 2007. Aquiles Horacio Guaglianone. 2006. A possible way out: formalizing housing informality in egyptian cities. [5] Aqui faço uma analogia ao conceito de “sociedade decente” do filósofo israelense Avishai Margalit. e sim como animais. inclusive à alimentação. 11. [8] Pietro Perlingieri. Maria Cristina de Cicco. Isso faz pensar no conceito de humilhação de Margalit. Dados. pp. propõem uma “arqueologia das existências invisíveis”. ao mau atendimento que recebem no serviço público e a atitudes condescendentes por parte de quem ocupa cargos importantes.

1996. das cidades brasileiras. segurança adequada. Segundo Olívio Dutra. Os Estados partes tomarão medidas apropriadas para assegura a consecução desse direito. assim como uma melhoria contínua de suas condições de vida. Em 1950. localização adequada e com acesso aos serviços básicos”. por meio de uma Secretaria vinculada). Juntas.asp>. O Direito à Moradia e Suas Garantias no Sistema de Proteção dos Direitos Humanos. Valor Econômico. os domicílios favelados cresceram 4.8% ao ano. significa também dispor de lugar privado. Uma moradia adequada significa algo mais que um simples teto para se guarnecer.)”. e do Rio de Janeiro. Hoje. apenas 30% dos recursos investidos em habitação popular foram destinados à população de baixa renda. [12] Destaque-se o art. Nestas regiões. Da necessidade de moradias urbanas. enquanto a taxa de crescimento domiciliar no mesmo período foi de 2.6% da população brasileira. existem outras 10 grandes metrópoles. apenas São Paulo e Rio de Janeiro tinham mais de 1 milhão de habitantes.gov. Habitação]. além das regiões metropolitanas de São Paulo. 2002.mre.18% ao ano. de 1995 a 2002. [14] Fonte: Secretaria de Política Urbana do Governo Federal. estabilidade e durabilidade estruturais. 2002 [Dissertação de Mestrado. saneamento e eliminação de dejetos. Os números evidenciam a necessidade de revigoração do financiamento imobiliário. 43. São Paulo. infra-estrutura básica adequada que inclua serviços de abastecimento de água. os assentamentos periféricos têm aumentado consideravelmente a sua área de ocupação.br/portugues/politica_externa/temas_agenda/desenvolvimento/ha bitacao. 29% a famílias 6105 . reconhecendo. calefação e ventilação suficientes.6 milhão de novas moradias na área rural. Olívio Dutra. segurança na posse. Soluções para a habitação das famílias de baixa renda. Desenvolvimento. elas abrigam 33. devido à falta de moradias. [13] Celso Furtado. que inclui 21 cidades. É um problema que vem se agravando ao longo dos anos. 43 da Agenda: “Art. a importância essencial dessa cooperação internacional fundada no livre consentimento”. iluminação. p. São Paulo: Universidade de São Paulo. estimou o déficit habitacional do Brasil. em 4 milhões de novas moradias urbanas e 1. As taxas de crescimento dos domicílios favelados superam em muito as taxas de crescimento domiciliar: entre 1991 e 2000. 55% referem-se a famílias com renda mensal de até dois salários mínimos. Em quatro décadas. ed. nesse sentido. Dados complementares sobre a habitação social no Brasil podem ser obtidos em consulta ao site do Ministério das Relações Exteriores [Política Externa.. em 1995.moradia adequadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra. como o comprovam as estatísticas. o Brasil chegou ao final do século 20 com 3. com a reestruturação institucional e legal do setor (. Área de concentração: Filosofia e Teoria Geral do Direito]. Agenda. então Ministro das Cidades (órgão que gerencia o setor habitacional nacional. há estimativas que. “Ignorar tal demanda tem um alto preço: de acordo com o Censo 2000. Em busca de novo modelo: reflexões sobre a crise contemporânea. SEPURB/FJP. controles apropriados da qualidade do meio ambiente e de saúde pública. espaço suficiente. contratada pelo Governo brasileiro. que abrange 39 municípios. [11] Fernando Mussa Abujamra Aith.. 17-19. 13 cidades atingiram este patamar. 13 set. acessibilidade física. Estudo recente da Fundação João Pinheiro. 2004. Disponível em: <http://www. 2.905 favelas disseminadas por todo o país.

da Lei nº 8.940-4 (São Paulo). ter estampado. Na área rural. Recurso Extraordinário n. 3º. São Paulo: Revista dos Tribunais. Ainda assim. VII ao art. caput. Coimbra: Almedina. incluído pela Emenda Constitucional nº 26/2000. 2005. [15] A expressão “moradia”. da Constituição. 6º. Relator: Carlos Velloso. que. de 29 de março de 1990. permita a penhora de imóvel de família por "obrigação decorrente de fiança concedida em contrato de locação".º 352. Min. Direito à Moradia no Brasil . Nelson Saule Júnior e Patrícia Cardoso. 7º. São Paulo: Pólis. Operatividade e Efetividade. direito social. 6º. 6º (“Direitos sociais”) com a Emenda à Constituição nº 26. afirmou o art. inciso IV. C. 1º .Violações. de 2000. 1998. O fiador e o direito à moradia: direito fundamental à moradia frente à situação do fiador proprietário de bem de família. p. por seu turno. com dados das Relatorias Nacional e Especial da Organização das Nações Unidas (ONU). 3º. o direito à moradia já encontrava previsão constitucional no art. 2002. acrescentou o inc. art. 6106 . o direito à moradia como direito fundamental de 2ª geração. Cf. [17] É o caso da concretização judicial do direito à moradia frente à possibilidade de penhora de imóvel familiar para o pagamento de fiança: o Supremo Tribunal Federal proferiu recente decisão em que o relator. a qual não teria recepcionado a previsão normativa do art. no constituir o direito à moradia um direito fundamental que deve ser protegido e por isso mesmo encontra garantia na Constituição”. 2005. que confirmam descaso histórico com a precariedade da situação da moradia das populações de baixa renda no País. prevê o desenvolvimento pleno das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes. a concentração da necessidade de moradias na faixa de até dois salários mínimos cresce para 78%. não foi recebido pela EC 26. da Lei nº 8. acrescentado pela Lei 8.009.. o direito à moradia. [16] José Carlos Vieira de Andrade. de 2000. [18] Regina Maria Macedo Nery Ferrari.245/91.245/1991.009/90. foi dito linha atrás. Os Direitos Fundamentais na Constituição Portuguesa de 1976. o bem de família . práticas positivas e recomendações ao governo brasileiro.F. o art. 38-39. embora a Lei nº 8. Ainda não houve publicação no Diário da Justiça da União. 82. Para uma análise mais atual e pungente. Rio de Janeiro: Lumen Juris. expressamente. da Constituição de 1988. Eis o trecho fundamental do voto condutor: “tendo em vista o princípio isonômico. de 2000. Eliane Maria Barreiros Aina. ministro Carlos Mário Velloso.. 239. Normas Constitucionais Programáticas: Normatividade. p. Cf. ainda. 182. cf. impede a constrição judicial. Ora. só foi incluída no art. 2001. enquanto na faixa de dois a cinco salários mínimos é de 16% e naquela acima de cinco salários mínimos é de apenas 6%.245.encontra justificativa. no art. como bem consubstanciador do salário mínimo nacional. o citado dispositivo inciso VII do art. Data do julgado: 24 abr. de 18 de outubro de 1991. eis que o referido dispositivo constitucional inclui entre os direitos sociais básicos. No mesmo rumo.com renda mensal de dois a cinco salários mínimos e 16% a famílias com renda superior a cinco salários mínimos.Lei 8. Essa não recepção mais se acentua diante do fato de a EC 26.

O Mínimo Existencial. n. set-dez. os Direitos Sociais e a Reserva do Possível. O Supremo Tribunal Federal e a Judicialização da Política. p.). a realização de determinados direitos. Brasília: Universidade de Brasília. inclusive quanto à designação. 2002. Mais diretamente associado ao tema central dos presentes escritos v. ed. Rio de Janeiro: Renovar. 34. 1997. Entre nós. Estudos Jurídicos. 2002. Justifica-se que a concessão de determinadas prestações. 12. Manuel Palácios Cunha Melo. Eduardo Appio. José Afonso da Silva. The Global Expansion of Judicial Power. São Paulo: Malheiros. Rio de Janeiro: Revan. Lenio Luiz Streck. 51. ainda. Neal Tate. Idem. no. originalmente publicada em 1968. passim. mas todos aferrados ao mesmo objetivo central: a análise conjuntural da chamada “construção/expansão do poder do Judiciário”. Curitiba: Juruá. Rio de Janeiro: Renovar. 101. [27] Cf. p. Curitiba: Juruá. 3. 1999. A obra referencial desse temário é C. 2004. Revista da Unidade de Ciências Jurídicas da Universidade do Vale dos Sinos. Maria Alice Rezende Carvalho. Controle Judicial das Políticas Públicas no Brasil. face às limitações naturais do estudo – em especial quanto à extensão – . Diálogos Constitucionais: Brasil-Portugal. p. ou seja. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Revista Brasileira de Ciências Sociais. p. e Marcelo Baummam Burgos. Krell. 1999. 2004. New York: University Press. Diálogos Constitucionais: BrasilPortugal. destacam-se os trabalhos de Luiz Werneck Vianna. 199. Direitos Fundamentais e sua Concretização. e Jacinto Nelson de Miranda Coutinho (org. mas insuscetível de uma análise mais circunstanciada.[19] Marcelo Antonio Theodoro. [25] Andreas J. [22] A doutrina aqui referida encontra-se em sua obra “Aplicabilidade das Normas Constitucionais”. 301-37. Cf. Cadernos de 6107 . p. Eficácia das Normas Constitucionais de Direitos Fundamentais: o direito a habitação. 447-471 [21] Cf. In: Antônio José Avelãs Nunes e Jacinto Nelson de Miranda Coutinho (org. 120. 37. 120. p. v. 1995. 30-31. A concretização de direitos e a validade da tese da constituição dirigente em países de modernidade tardia. e Tobjörn Vallinder. pode implicar a inviabilização da consecução de outros”. e Marcus Faro de Castro.). p. Hermenêutica (jurídica): compreendemos porque interpretamos ou interpretamos porque compreendemos? Uma resposta a partir do Ontological Turn. [24] De grande interesse para a pesquisa. O tema é extremamente instigante e perfila algumas nuances variáveis na doutrina . jun. São Leopoldo. [23] Lenio Luiz Streck. A Judicialização da Política e das Relações Sociais no Brasil. o mesmo autor: “A aferição desta disponibilidade é feita em função do orçamento. In: Antônio José Avelãs Nunes. Esclarece. 2002 [Dissertação de mestrado]. Fernando Guilherme Bruno Filho. p. Constitucionalismo e direitos sociais: um enfoque ao direito social de moradia. v. [26] Loreci Gottschalk Nolasco. São Paulo. é a questão da juridificação ou judicialização da política. Aplicabilidade das Normas Constitucionais. 147-156. 2004. [20] Ricardo Lobo Torres. 2005. Direitos Sociais e Controle Judicial no Brasil e na Alemanha: Os (des) Caminhos de um Direito Constitucional “Comparado”.

o direito à cultura e à informação. quando configurada hipótese de abusividade governamental. Informativo do STF nº 345/2004. O Direito à Cidade é interdependente a todos os direitos humanos internacionalmente reconhecidos. esse é definido como “o usufruto eqüitativo das cidades dentro dos princípios de sustentabilidade. [32] No item 2 do art. 2004. Permite-se transcrever a ementa do julgado: Ementa: Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental. O território das cidades e seu entorno rural também é espaço e lugar de exercício e cumprimento de direitos coletivos como forma de assegurar a distribuição e o desfrute eqüitativo. racial. sexual e cultural. que lhes confere legitimidade de ação e organização. justo. todos os direitos civis. à participação política e ao acesso à justiça. concebidos integralmente. Direitos sociais: eficácia e acionabilidade à luz da Constituição de 1988. 241-256. 465. 2005. 1993. em especial dos grupos vulneráveis e desfavorecidos. Gilmar Mendes. O Mínimo Existencial. Diálogos Constitucionais: Brasil-Portugal. Rel. de acesso à água potável. In: Antônio José Avelãs Nunes. o transporte e outros serviços sociais. da integridade e da intangibilidade do núcleo consubstanciador do “mínimo existencial”. [31] Medida Cautelar em Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 45/DF. p. baseado em seus usos e costumes. os Direitos Sociais e a Reserva do Possível. Caráter relativo da liberdade de conformação do legislador. de fundar e afiliar-se a sindicatos. Viabilidade instrumental da argüição de descumprimento no processo de concretização das liberdades positivas (direitos constitucionais de segunda geração). p. Este supõe a inclusão do direito ao trabalho em condições eqüitativas e satisfatórias. Trad. São Paulo. Inoponibilidade do arbítrio estatal à efetivação dos direitos sociais. Escritos sobre Derechos Fundamentales. a uma educação pública de qualidade. econômicos. Data do acórdão: 26/03/2003. portanto.). Considerações em torno da cláusula da “reserva do possível”. e o respeito aos migrantes. [30] Ricardo Lobo Torres. Celso de Mello. jan. 1º da Carta Mundial pelo Direito à Cidade. de alimentação. democracia. o reconhecimento do direito de organização. v. [29] Intervenção Federal 492/SP. e Alessandra Gotti Bontempo. em favor dos indivíduos. 26. com o objetivo de alcançar o pleno exercício do direito à livre autodeterminação e a um padrão de vida adequado. equidade e justiça social.Direito Constitucional e Ciência Política. 67-68. p. A questão da legitimidade constitucional do controle e da intervenção do poder judiciário em tema de implementação de políticas públicas. democrático e sustentável dos recursos. Rel. Juan Luis Requejo Pagés e Ignacio Villaverde Menéndez. Decisão de 29/04/2004. culturais e ambientais que já estão regulamentados nos tratados internacionais de direitos humanos. e Jacinto Nelson de Miranda Coutinho (org. à segurança pública e à convivência pacífica. reunião e manifestação. riquezas. políticos. [28] Ernest Wolfgang Böckenförde. Baden-Baden: Nomos. sociais. de acesso à seguridade social e à saúde pública. Necessidade de preservação. serviços. Dimensão política da jurisdição constitucional atribuída ao Supremo Tribunal Federal. Publicado no Diário da Justiça da União de 01/08/2003. Min. econômicos e culturais. Min. É um direito coletivo dos habitantes das cidades. bens e oportunidades que brindam as cidades. e inclui. 1999. Por isso o Direito à Cidade inclui também 6108 . Inclui também o respeito às minorias e à pluralidade étnica. Rio de Janeiro: Renovar. n. universal.7. à energia elétrica. vestuário e moradia adequados./mar. Curitiba: Juruá. Acórdão do Pleno.

Admirável mundo atual: Dicionário pessoal dos horrores e esperanças do mundo globalizado. Barcelona. [41] Idem. Revista Brasileira de Ciências Sociais. [37] Cf. p. Licia Valladares.org. [33] Patrícia de Menezes Cardoso. São Paulo: Bertrand Brasil. p. p. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos.44. 2000. no. Qualidade do espaço e habitação humana. [39] Milton Santos. encastelamento urbano e lógica da apartação]. Carta Mundial pelo Direito à Cidade. V Fórum Social Mundial. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. p. Brasília. O espaço do cidadão. 2001 [conferir os verbetes castelos modernos. v. Constituição e Democracia. out. [38] Rita Amaral Povo-de-santo. 25. Como os castelos medievais. Fórum Social Mundial Policêntrico de 2006 (Fórum Social das Américas. p. jan-fev. 2007.83-98.polis. Milton Santos. janeiro 2005. condomínios. [44] Idem. [43] Zygmunt Bauman. Jorge de Campos Valadares. Tempos Líquidos. 7. 1992. Disponível em: http://www. [34] Cf.br/artigo_interno. [42] Idem. O verbete “Encastelamento urbano” concentra essas preocupações: “Pouco a pouco.1. 7. São Paulo: Zahar. 2007. 30. 77-78. 2008. p.o direito ao desenvolvimento. a implantação da apartação cria um sistema de separação física entre os grupos sociais. [45] Cf. São Paulo. 2007. São Paulo: Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo. 27. ed. setembro de 2004. 2006. [Dissertação de Mestrado]. p. v. 38. Acesso em: 21 dez. a um meio ambiente sadio.15. 2000. A cidade caleidoscópica. 19. [40] Idem. Quito. Ciência & Saúde Coletiva.Estudo antropológico do estilo de vida dos adeptos do candomblé paulista. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. ed. à participação no planejamento e gestão urbanos e à herança histórica e cultural”. n. 2. 79. O espaço do cidadão. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. julho de 2004. p. [35] Pedro Abramo. 5. n. 22. São Paulo. 2007. cercadas contra os pobres. 5-34. p. O direito à cidade: A experiência brasileira de democratização do marco legal urbano. 2007. p. ed. 4-5. A gênese da favela carioca: a produção anterior às ciências sociais. a paisagem do Brasil se reorganiza em uma rede de ilhas privilegiadas. Fórum Mundial Urbano.asp?codigo=139. e Milton Santos. povo de festa . [36] Cf. Porto Alegre. ao desfrute e preservação dos recursos naturais. Cristovam Buarque. São Paulo: Geração Editorial. num processo de encastelamento 6109 .

do nascimento à morte. a proibição da entrada de nordestinos em cidades do sul do país.php/direito/article/viewFile/6975/4953.” Cf. 2006. abrigar-se nele a ponto de não mais querer sair. feito pelo Centro de Mídia Independente de Goiânia em 2005. [47] Idem. [52] Mike Davis. as praças cercadas. É isso o que está em implantação no Brasil. os vidros dos carros usados como barreira contra os meninos de rua.ufpr. O espaço do cidadão. as casas cercadas. Acesso em: 10 dez. [50] Idem. Clóvis Marques Rio de Janeiro: Record.está no centro da segregação territorial”. as telecomunicações tornarão possível o trabalho em casa. Nesse mesmo sentido. 11. cit. Aspectos sociojurídicos da ocupação sonho real à luz da formação urbana de goiânia e dos direitos à moradia. naturalmente). Londres: Marion Boyars. Jacques Attali. A bomba relógio das cidades brasileiras. como sedentários sitiados. a deficiência no sistema de transporte urbano dificultando o ingresso de pessoas da periferia aos locais freqüentados pela elite. [54] Allan Hahnemann. p. [49] Milton Santos. p.. os campi universitários cercados. os prédios protegidos por sistemas de forte aparato eletrônico. os beach parks.c3sl. como lembra Erminia Maricato. 2001. 48. 2007. p. Democracia Viva. Curitiba.. e assim por diante”. sem precisar pôr o nariz fora de casa. e Cleuton César Ripol de Freitas.Uma história de luta por moradia". 59. Planeta Favela. com os shopping centers. dispor em casa de todas as formas de cozinha e distração. será possível levar uma vida praticamente completa. [51] Latife Tekin.urbano. utiliza a expressão “cooconing”: Simultaneamente ao nomadismo e em contradição com ele. [46] Milton Campos. Decididamente. [53] "Sonho Real . São Paulo: Boitempo. em muitas profissões. vai-se reforçar a tendência ancestral dos homens e sobretudo das mulheres de buscar refúgio num casulo. 3-7. 43. v. Revista da Faculdade de Direito da UFPR. receber um diagnóstico sem ir ao médico. Trad. p. 62-63. os condomínios. O espaço do cidadão. p. 48. 2001. de esporte e viagem (virtual. Dicionário do Século XXI. As tecnologias da informação permitirão atender ao essencial das exigências sociais sem precisar sair de casa. 2005. 63. Disponível em: http://ojs. as ruas fechadas. cit. Trad. economista e exassessor do ex-presidente francês François Mitterrand. Beatriz Medina.br/ojs2/index. 6110 ... [48] “No meio urbano. protegerse em seu interior. cit. 59. Rio de Janeiro. Planeta Favela. Jacques Attali. as redes multimídia permitirão comprar praticamente tudo em casa e efetuar todas as operações bancárias sem ir a uma agência. v. 1996 [publicado na Turquia em 1984] apud Mike Davis. Também será possível aprender fora da escola. p. A realidade virtual transformará o movimento em sedentarismo virtual e o cocooning em nomadismo imaginário.legislação/mercado fundiário/exclusão . Berji Kristin: Tales from the Garbage Hills. a relação .. p.

logo me veio à mente Vidas secas. 2006. reservatório de água. 1997. In: Direito à memória e à moradia: realização de direitos humanos pelo protagonismo social da comunidade do acampamento da Telebrasília. polícia comunitária com casas destinadas aos policiais”. moderno sistema de segurança.470 casas com área de 40. São Paulo. cit. Constituição e Democracia. [57] Segundo informações do próprio Ministério. p. [61] Erminia Maricato.gov. a. em julho de 2005. postos de saúde e policial. O Valor. 8 dez. parque ecológico. O Acampamento da Telebrasília e a sua luta pelo direito de morar. 21-55. Ministério das Cidades. Brasília: Câmara dos Deputados. Disponível em: http://www. p.cidades. escolas. 6111 . Fui participar do Encontro Nacional de Estudantes de Direito. 2008. n. no Centro de Goiânia. três creches.br/index. “o bairro já abriga cerca de mil famílias e quando concluído terá 2. Ao encontrar com os desabrigados no ginásio. 77-91.com. Brasília. [62] Nelson Saule Junior.046 unidades habitacionais em Goiânia. 2005. O direito de morar e o direito à memória: um olhar sobre o Acampamento da Telebrasília. asfalto na linha de ônibus. São Paulo.[55] http://www. 7. 2003. 1. p. 1. [59] Cf Maria Elenir Nardi.07m². O direito à moradia como responsabilidade do Estado brasileiro. [60] Alexandre Bernardino Costa. n. 70-71. dez. terminal de transporte. Brasília: UnB. de Graciliano Ramos. 2007. já decorridos alguns meses da desocupação.046_unidades_habitacion ais_em_goianiaAcesso em 21 jan. Cadernos de Pesquisa do CEBRAP [Centro Brasileiro de Análises e Planejamentos]. energia elétrica e rede de água..br/noticias/marcio_fortes_entrega_1. [56] Acompanhei esse momento de angústia em Goiânia. [58] João Sette Whitaker Ferreira. exatamente para palestrar sobre a dimensão cnstitucional do direito à moradia. Alcances e limitações dos Instrumentos Urbanísticos na construção de cidades democráticas e socialmente justas [texto de apoio às discussões Vª Conferência das Cidades]. Brasília. In: Direito à memória e à moradia. 24 nov. A nova Política Nacional de Habitação. Poder constituinte e democracia: um debate necessário. p.php/Sonho-Real-na-paz-doscemiterios. 65-80. 8-9. Marcio Fortes entrega 1. mai.html.anovademocracia. e Nishlei Vieira de Mello. p. 1999. 5 fev. centro comercial.

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