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Oratória

Introdução

A expressão verbal é um instrumento de trabalho de quem


pretende se comunicar com o público, mas a comunicação moderna é
ampla e não apenas verbal, portanto, entendemos ser mais adequado
o uso do vocábulo comunicação (no sentido mais aberto), ao invés de
oratória (que é restritivo), como forma de ampliar as várias situações
em que alguém tem que se expressar em público - exemplo: o
conferencista, o professor, o advogado, o debatedor, etc.
Importa observar que cada uma destas situações exige uma
postura e um forma própria, especialmente porque contêm um
objetivo diferente.
O conferencista leva um tipo de conhecimento aos ouvintes,
mas não tem o objetivo de convencer o seu auditório de que as suas
assertivas são absolutamente certas e inequívocas, apenas lança o
seu ponto de vista sobre um determinado tema.
Então suas colocações são calcadas em informações
científicas, técnicas, embasadas em considerações e premissas
notoriamente corretas.
O professor não apenas lança seu ponto de vista sobre um
tema, mas, pretende que os seus alunos adquiram como
fundamentos os seus enunciados e, com esta base, possam criar e
fomentar suas pesquisas para, a final, formar suas convicções.
Como escopo deste objetivo o professor usa e abusa do
conhecimentos de outras autoridades para fomentar as suas
afirmações e instiga os seus alunos a conhecer as vertentes
favoráveis e desfavoráveis de cada doutrina como instrumento do
aprendizado.
O líder (também o advogado e o político, etc) que se utiliza
de várias formas de comunicação, de forma absolutamente diferente,
busca convencer todos os presentes de que o seu raciocínio é o único
e verdadeiro, e que cada um dos seus ouvintes deve absorver e
adotar a sua verdade (a verdade do comunicador).
Neste caso, não há espaço para a dúvida, e muito menos para
uma segunda opinião. A missão do líder é convencer e para tanto,
utiliza-se de argumentos, de jogo de situações e comparações.
Nestes casos, não raro, deve ser agressivo e especialmente
incisivo.
Já o debatedor tem a função de fazer colocações de sua
opinião ou dúvida sobre os aquelas já manifestadas pelo
conferencista.
Sua postura, além de respeitosa, deve ser objetiva e
questionadora.
Tipos de comunicação em público.

As várias formas de comunicação em público exigem certo


preparo genérico do comunicador, já que em algumas circunstâncias
pode ser necessária a manifestação de absoluto improviso, em
outras apenas leitura de discurso pronto e, o mais comum, é que
tratando-se de palestra ou aula, seja possível de se elaborar um
planejamento viabilizando uma boa apresentação, com grande
parcela de improvisação, mas, com auxílio de uma estrutura e ou
roteiro, adredemente preparados.
Quando a situação assim o exigir o comunicador deve estar
preparado para falar em público de improviso e, para tanto, é natural,
deve ter a estrutura básica destas manifestações já gravadas na sua
memória e assimiladas naturalmente.
É aconselhável o treinamento de situações de emergência
para que o comunicador, instintivamente, possa fazer alterações e
adequações aos discursos proferidos em outras ocasiões e consiga
superar o estigma da pressão e do medo do desconhecido.
Já os discursos lidos são aqueles que correm o maior risco de
serem pouco assimilados pelos ouvintes, visto que, dificilmente
conseguem entusiasmar o auditório.
Estes merecem um exame mais detalhado nas observações
sob este título, além do que, até pela sua natureza, exigem melhor
preparação visual, gestual e vocal.
Os demais discursos sãos os mais usuais e as preparações
são mais uniformes, embora sejam exatamente destes que o
auditório espera mais.
No geral o primeiro passo para se expressar em público deve
ser o cuidado de elaborar um planejamento eficiente de preparação
e depois estruturar como serão inseridos os passos necessários para
a abertura, a introdução, o desenvolvimento, a conclusão e o
encerramento de cada comunicação.
Portanto, estes são os pilares da comunicação em público.
Do planejamento

1.1 Preparação

Antes de cuidar dos detalhes da comunicação propriamente


dita são necessários alguns cuidados preparatórios.
Mas estes não são atos específicos de ajuda para o
comunicador na hora de manifestar-se em público, são mais que isto,
tratam da criação das condições físicas e psicológicas mínimas
capazes de tornar realidade uma comunicação satisfatória, de tornar
seguro o comunicador e fazer refletir este sentimento como resposta
da platéia.
Para tanto é preciso construir uma base sólida, capaz de
viabilizar uma boa comunicação em qualquer momento, em qualquer
estado de espírito e em qualquer circunstância, independente do
estado de ânimo e do humor do comunicador.
E isto somente se obtém depois superados alguns obstáculos
como o medo do ridículo, a vergonha de se expor perante um platéia
e o receio de que as palavras e argumentos expendidos possam
parecer inconsistentes e até incompreensíveis para os ouvintes.
Como conseqüência natural desta insegurança as palavras
podem soar fracas, e até desaparecerem, a respiração tornar-se
ofegante, incontrolável, as pernas fraquejarem, um suor frio aflorar
pelo corpo, além das mãos, desobedientes, optarem por permanecer
trêmulas e sem lugar para acomodar.
Alguns comunicadores apenas procuram fazer um exercício
respiratório e adotar algumas medidas de relaxamento, na maioria
das vezes superando os primeiros longos, muito longos, 03 minutos
de palestra e fazem uma bela apresentação.
Outros, menos bafejados pela sorte, são dominados pelo
desespero e nenhum exercício consegue lhes trazer a calma e o
controle da situação.
Assim, claro, é melhor não arriscar, vale mais a pena perder
algum tempo com a preparação física e psicológica, e poder
adentrar ao púlpito com coragem, confiança e alegria, desde o
princípio, sem sofrimento e sem a angústia do ato de começar.

1.2 Estrutura da Oração

Muitos comunicadores, depois que adquirem segurança


suficiente, podem ignorar qualquer planejamento ou estrutura,
porque já os têm esboçado no inconsciente e toda a técnica de
comunicação se desenvolve de forma automática e sem qualquer
vacilação.
Mas como estamos tratando de situações diferentes, em que
os comunicadores não têm o domínio integral do seu público, é
importante observar algumas regras que podem facilitar a condução
de uma comunicação em público.
A divisão das fases de uma palestra permite que o
comunicador não se perca no emaranhado de informações e possa
seguir adiante sem pular qualquer estágio ou parte de sua
apresentação.
É muito útil elaborar um roteiro, estrutura ou esqueleto da
palestra, de forma que as informações possam ser repassadas sem
repetições e dentro de um certo sequenciamento para melhor
entendimento e aproveitamento da platéia.
É certo que cada tipo de apresentação exige uma estrutura
própria, contudo, inevitavelmente, haverá de conter um princípio, um
meio e um fim.
O princípio (síntese do tema) poderá ser rapidamente
abordado na introdução, até como forma de despertar o interesse e
destacar os mais importantes aspectos do tema que serão
abordados.
O meio, que poderá ser estendido infinitamente, e que é o
núcleo da palestra, merece um detalhamento meticuloso, com todas
as variáveis necessárias, devidamente ligadas entre si dentro de um
contexto lógico.
O fim, que se resume na manifestação de conclusão ou
essência da mensagem do comunicador, deve retratar um resumo
dos pontos cruciais da apresentação e concluir destacando,
finalmente, o ponto de vista defendido pelo comunicador.

1.3 Grau de formalidade

Já na fase de planejamento o comunicador deverá definir em


que grau de formalidade ou de informalidade irá conduzir sua
apresentação.
É natural que em cada situação o grau de formalidade deva
ser observado, pois, tratando-se de uma saudação a novos bacharéis
de direito, por exemplo, não se deverá optar por uma apresentação
simples e de linguagem coloquial. A solenidade do evento e o público
ao qual se dirige a apresentação e que deverá definir os contornos
da linguagem, da gesticulação, do tom de voz, etc.
Por outro lado, quando se trata de uma aula, de uma palestra
para interessados de uma determinado tema, ou de um debate sobre
uma matéria de interesse geral, a informalidade deverá ser
observada porque se pretende atingir um público de conhecimento
mais aberto e não uma casta de intelectuais.

1.4 Postura e gesticulação


A gesticulação também deverá ser aplicada de acordo com o
tema a ser desenvolvido, em sintonia com o tipo de apresentação e o
público alvo sem perder a absoluta harmonia com as palavras e tom
de voz.
Portanto, os gestos e posturas não são instrumentos que se
podem adotar a qualquer momento como simples sofisticação da
apresentação, devendo ser planejados e inseridos no momento certo,
sem afetação e com absoluta simplicidade.
Nada é mais difícil que ouvir um discurso proferido em forma
de leitura, ou decorado, sem ênfase na voz, sem os gestos que
complementam a comunicação, sem o colorido do semblante que
acompanha o foco da oração e sem vislumbrar um mínimo de brilho
nos olhos do conferencista.
Ora, é certo que a postura, a ênfase e os gestos são
fundamentais para o resultado de uma boa apresentação e
comunicação em público.

1.5 Controle da seqüência da palestra

Alguns comunicadores utilizam-se de fichas numeradas, com


os títulos e os destaques de cada fase da apresentação.
Outros, utilizam-se de notebooks ou outros aparelhos
similares que permitem alertar o comunicador sobre cada um dos
temas, subtemas, derivações e observações úteis, dentro da
seqüência desejada.
É fundamental a observação da seqüência da palestra, pois, de
nada adiantará uma exposição que não guarde sintonia com a ordem
da exposição dos fatos e dos argumentos de cada tese.

1.6 Conclusão – encerramento da apresentação

A sintonia de seqüência da apresentação tem importância


maior quando o comunicador tiver que oferecer a sua conclusão e
encerrar o trabalho.
O planejamento deverá dedicar destaque especial à conclusão
e as razões do convencimento do apresentador, sob pena de resultar
pouco ou nada produtiva toda a palestra .
A tarefa de encerramento é complexa e deve ser seguida das
últimas palavras da conclusão.

1.7 Da preparação base

Os atos preparatórios de embasamento da arte de comunicar


em público não guardam qualquer complexidade e não tem contra-
indicação. Isto quer dizer que qualquer pessoa que se expresse por
palavras terá condições de manifestar em público, proferir palestras
ou discursar.
Neste trabalho tivemos o cuidado de separar, apenas para
efeito do aprendizado da preparação, as várias situações de uma
comunicação em público.
Um empresário poderá ter necessidade de dirigir uma reunião
de executivos, e ter como meta uma ampla discussão relativa a
determinada matéria de interesse comercial.
Neste caso, é certo, sua apresentação terá forma e dimensão
diferenciada daquela de um palestrante que pretenda apresentar
uma tese científica, e ambas serão diferentes do discurso de um
deputado pedindo votos ou defendendo uma bandeira de seu
partido, ou ainda, de um advogado defendendo seu cliente perante
um júri.
Por isso, sem questionamento, deve haver uma preparação
que possa dar a base física e psicológica para que o comunicador
possa realizar cada uma destas empreitadas, sem pensar que tudo é
igual e que os requisitos de uma situação sejam válidos para
aplicação em outra.
Os gestos e os tons de voz são imprescindíveis para enfatizar e
dar sentido a uma locução. Um palestrante inerte e de voz uniforme
não contagia seus ouvintes, apenas noticia os fatos e as idéias.

Por isso, quando se trata de uma apresentação técnica não é


necessário a utilização de grandes alterações de voz e gesticulação
acentuada, porque a apresentação não se destina a entusiasmar
ninguém, apenas leva informações aos ouvintes.
Por outro lado é absolutamente certo que o comunicador deve
manter o seu semblante em sintonia com o foco imediato da oração,
quer dizer, não pode o comunicador falar sobre morte e miséria com
um sorriso nos lábios, da mesma forma que deverá manter um
semblante calmo e sereno quando a oração mencionar realização e
paz.
Todavia, quando se pretende ressaltar uma afirmação o rosto
deverá manter um estado de seriedade e convicção, as mãos
também deverão sinalizar este propósito, e a voz deverá ser pausada,
porém mais grave e volumosa.
Nada é difícil, pois estas reações são naturais.
Contudo, quase sempre, o comunicador despreparado se
embaraça no medo e se perde da harmonia, sorrindo quando não
devia, gesticulando sem nexo, olhando para o infinito, para a parede
do lado ou para baixo, e pior, engasgando quando deveria mostrar
firmeza e destemor.
Os gestos, a expressão facial, a voz irada ou até o silêncio e o
olhar penetrante, desde que em momentos apropriados, são
determinantes para definir o sucesso de uma apresentação.
A preparação consiste apenas no treino de concentrar-se no
foco momentâneo da oração, despojando-se de qualquer
pensamento ou preocupação externos, enfim é o ato supremo de dar
vida ao corpo à alma e à palavra.
Mas, como realizar esta proeza?
Como conseguir esta força?
Como se abandonar no embalo de uma oração?
É simples! É se exercitando, treinando, ensaiando e
representando, tal qual o nadador, o lutador, o cantor ou o ator.
Tudo é assim, é pela repetição e pelo exercício contínuo que
perdemos o medo, flexibilizamos nossa musculatura facial,
coordenamos nossa harmonia gestual, adquirimos expressão
corporal, fortalecemos a voz, controlamos nossos sentimentos e, o
melhor, nos cobrimos de autoconfiança.
Portanto, como preparação base, veja e reveja, pratique e
repratique todos os exercícios recomendados no capítulo de
exercícios.
Não adianta nada se concentrar apenas em um ou outro
exercício, que possa parecer mais fácil e apropriado, e abandonar
qualquer outro.
É o conjunto, funcionando sincronizado, que faz a diferença.
Lembre-se, a fragilidade de apenas um elo da corrente a
torna imprestável por inteiro.
Da abertura

A abertura será sempre a forma de cumprimentar os ouvintes


e de se autoapresentar (quando esta apresentação não ocorrer por
intermédio de outra pessoa).
Muitos utilizam apenas as expressões: "Senhoras e Senhores",
"Meus Colegas", Eméritos Julgadores", "Ilustre Auditório" ou "Caros
Ouvintes".
Outros preferem fazê-lo de forma mais sofisticada, citando
nomes ou qualidade de um ou alguns dos presente e depois
estendendo o cumprimento aos demais.
A forma não importa, o fundamental é que o cumprimento
possa fluir simples, sem forçar, e de forma a parecer o mais sincero
possível.
As vezes, dependendo das circunstâncias, pode ser apenas um
bom dia ou boa noite, portanto, absolutamente informal.
O cumprimento não pode ser muito frio e sequer muito
aquecido para a situação, deve apenas ser compatível com a espécie
de atuação pretendida.
O comunicador-conferencista deve ser mais frio, pois não
pretende induzir ninguém, apenas pretende apresentar um conceito.
O comunicador-professor, um misto de conferencista e orador,
busca convencer e expor fundamentos, portanto, deve mesclar o
calor da apresentação.
O comunicador-orador (político, líder, advogado, etc) , deve
ser mais caloroso, porque tem que chamar a atenção e tem como
objetivo convencer a todos. Ora, somente com um postura ereta,
gestos firmes, olhos aguçados, semblante altivo, voz incisiva e forte,
é que um orador poderá levar os seus ouvintes ao convencimento. É
certo que no desenvolver da locução poderá suavizar palavras e
gestos, mas, tudo dosado em cada momento da oração no sentido de
envolver os seus ouvintes.
Da introdução

A parte mais difícil da comunicação em público é a introdução,


porque este é o momento de conseguir atrair a atenção, de relaxar a
platéia e de fazer com que o ato tome forma e se prepare para
desenvolver.
Também é o momento em que o comunicador deverá desligar-
se do seu eu personalíssimo e transportar-se para a personalidade do
personagem que pretende representar.
Será sempre muito proveitoso que o comunicador
(conferencista, professor ou líder) possa começar comentando um
caso recente e de conhecimento público que guarde relação com o
tema a ser apresentado.

Exemplo:

- Ontem li com certa alegria um artigo do Dr. Margarido


Coimbra afirmando que as recentes pesquisas demonstram um
elevado grau de evolução da taxa de desemprego no país. Mas, até
que ponto poderemos suportar a eterna busca da mera sobrevivência,
a ânsia de buscar de um mísero emprego, a resignação de ser
apenas mais um número nas estatísticas...

- Eu quero mais, eu sonho mais alto, eu quero vencer, eu não


aceito envelhecer e sucumbir a cada dia sem conseguir vislumbrar
uma só réstia de esperança.

Na falta de algo atual pode ser uma pequena história ou um


fato, ou ainda uma pergunta (dúvida) sobre o tema.

Senão vejamos:

- Será que alguns dentre nós já parou para meditar sobre a


função do sol no universo, e observou que o astro, embora sustente
toda a vida na terra, paradoxalmente, é também o mensageiro da
morte?

Basta lembrar que o deslocamento de nosso planeta por


meros cinco por cento para mais próximo do sol faria a terra
transformar-se em um imenso deserto, e se fosse 5% mais distante
do sol o nosso planeta seria um imenso bloco de gelo.
Em ambos os casos sem qualquer chance de vida animal,
aliás, como centenas de planetas já desvendados pela nossa ciência.
Nem é preciso destacar que o sol é apenas e tão somente um
poço de energia nuclear encravado no universo e que, pela força de
sua contínua explosão, transborda, irradia e mantém a luz e o calor
e, por conseqüência, a vida que conhecemos...

Alguns comunicadores conseguiram obter sucesso na arte de


chamar atenção do público de forma pouso usual.
Um deles, sem qualquer apresentação, chegou até a tribuna
e, agitado, quase gritando, exclamou:
- Eu renego a Deus, com todos os seus anjos e a virgem Maria.

Depois de 10 segundos de silêncio absoluto, concluiu, já com a


voz comedida e pausada:

- Estas são as palavras que se ouvem nas profundezas do


inferno, mas... aqui, hoje, vamos falar e ouvir sobre a influência da
Camada de Ozônio na transformação das áreas de caatinga, antes
que o inferno se instale naquelas paragens.

Depois de alguns segundos de silêncio, concluiu:

- A notícia é a de que eu não sou um bom orador... aliás, fui


reprovado em todas as oportunidades em que me apresentei, mas,
como sou insistente, e sempre acreditei numa próxima chance, estou
aqui.

- Pelas falhas futuras espero que me perdoem.

Esta não é uma boa escolha.


Qualquer introdução que se utilize de fórmulas negativas
poderão desestimular o público, óbvio, o que é desaconselhável.
Desde que não seja uma piada, qualquer caso pode dar
ensejo a uma melhor interação do palestrante e sua platéia.

Um exemplo:

- Já a alguns anos venho buscando conhecer um pouco do


verdadeiro significado e influência da oratória na vida política
universal ... e tenho tido grandes surpresas.

- Em primeiro lugar descobri que não há uma fórmula para se


tornar um grande orador, depois, que muitos oradores sequer
conheciam satisfatoriamente a língua em que se expressavam e, por
último, e mais intrigante, é que a maior parte dos grandes oradores
eram, e continuaram a sê-lo, tímidos e pouco afeitos a discussões
desimportantes... mas dedicadíssimos leitores e observadores
incansáveis.

Outro exemplo:

- Quando recebi o convite para participar desta empreitada,


falar sobre o Pico do Ibituruna, me veio à lembrança um episódio
que se passou na época da guerra dos farrapos e que sempre foi
uma bússola na minha vida ...

Mais outro exemplo:

- Falar sobre esta matéria é especialmente gratificante para


qualquer palestrista, principalmente porque é um tema recente,
pouco debatido e que a cada momento faz emergir um novo
enfoque, com reflexos a atingir uma crescente rede de empresários e
empreendimentos e, por extensão, alterar toda a estrutura da
economia nacional.

- Por coincidência, ainda hoje pela manhã, ao ler o Jornal


deparei...

De qualquer forma sempre será mais difícil a introdução do


que discorrer sobre o conteúdo da palestra, portanto, o segredo do
sucesso nesta fase é a criatividade, muita criatividade, ou toda
criatividade.
É muito interessante, e eficiente, o uso de citações célebres ou
trechos poéticos para começar abrir a introdução.

Exemplo:

- "Se os fracos não têm a força das armas, que se armem com
a força do seu direito..."

-... já dizia Rui Barbosa, no século passado. Pois hoje, cento e


muitos anos passados, ainda não temos armas, principalmente as
econômicas. Urge, portanto, que tenhamos o direito.

- E é sobre a possibilidade de nos armarmos todos com o uso


imoderado do direito, em toda a sua plenitude e extensão, é que
vamos discorrer sobre os instrumentos jurídicos disponíveis, de
acesso popular, trazidos a lume pela sociedade civil organizada, vez
que pálida e omissa se encontra a estrutura política governamental...

A única dificuldade reside na necessidade de fazer destacar o


elo entre a citação, ou trecho poético, ao enredo da palestra.
Depois o enredo flui naturalmente, desde que observados os
pontos prefixados no projeto estrutural do discurso.
Introdução II

Mas a introdução também deverá abordar de forma sucinta os


principais eixos da apresentação, como forma de despertar o
interesse e como forma de antecipar algumas questões de destaques
no tema.

Em alguns casos a introdução poderá ser um simples resumo


das várias fases do tema a ser apresentado, naturalmente, tendo o
cuidado de não aprofundar em teses, porque sempre haverá o risco
da introdução competir com o enredo e criar dificuldade para o
comunicador transpor a fase de introdução para a fase seguinte.

Por exemplo:

- A nossa pretensão neste trabalho é explorar as razões que


levam o governo municipal a priorizar o controle das áreas
destinadas a construção de prédios residenciais em detrimento do
comércio varejista local, deixando proliferar conglomerados
empresariais, denominados de shopings centers, em ambientes mais
distantes dos pontos de consumo...

Outro exemplo:

- Vamos tentar aferir a possibilidade de formar um bom


comunicador utilizando as ferramentas, o vocabulário e os
conhecimentos já disponíveis, sem necessidade de sofisticar o
aprendizado com impostação de voz, treinamento de postura ou
dramatização da apresentação...

Mais um exemplo:

- Pois bem, agora que já nos conhecemos, devo dizer aos


senhores que aqui estou disposto a discutir aberta e plenamente
todas as implicações da adoção da liberdade do direito de aborto no
território nacional.

- E mais, entendo que é importante cotejar todos os aspectos


positivos e negativos desta hipótese e, da mesma forma, com
coragem, examinar os reflexos já constatados nos demais países que
adotaram ou repeliram a liberação do direito de aborto.

Alguns comunicadores optam por comentar o eixo da palestra


formulando uma tonelada de perguntas para depois dizer que poderá
ou tentará responder a todas.
Introdução III

Ainda na fase de introdução é necessário demonstrar um


razoável conhecimento da matéria enfocada, sob pena do
comunicador não conseguir obter o respeito e a confiança dos
ouvintes.

Portanto, de forma sutil, mas naturalmente perceptível ao nível


do auditório, dever-se-á explorar, rápida, mas eficientemente, alguns
tópicos mais controvertidos do tema, como uma avant premiere da
palestra.

Por exemplo:

- Não pretendo cansá-los e nem permitir que desistam de


desenvolver comigo esta apresentação, porque, penso, deverá ser
importante para o futuro dos nossos descendentes que já encontrem
definidos os moldes de família e sociedade que quisermos e que lhes
deixaremos como herança da nossa geração.

- A questão é definir se a liberdade do direito de aborto


poderia representar um desrespeito ou um atentado à vida potencial,
se seria uma conquista dos direitos da mulher, se poderia
transformar-se em uma forma de planejar a família, se deveria
constituir-se em um instrumento que permita a não proliferação da
paternidade irresponsável, se poderia ensejar a defesa do nascituro
de uma vida indigna, ou mesmo se abriria um caminho para se evitar
a sobrevivência de cidadãos abandonados à própria sorte, sem
carinho sem amor, sem paradigmas e condenados ao infortúnio.

- Bem, este é o nosso dilema, portanto, vamos a ele.

Outro exemplo:

- Todos nós desejamos aprender a nos expressar bem, ter


capacidade de convencer os nossos interlocutores, conseguir
comover e sensibilizar as pessoas ao nosso redor e, naturalmente,
desenvolver técnicas que valorizem a nossa capacidade de comunicar
e externar os nossos pensamentos, mas, por outro lado, temos que
reconhecer que este aprendizado exige dedicação, trabalho e muita
vontade de vencer.

- Pois bem, hoje vamos conhecer alguns instrumentos, que,


bem utilizados, poderão facilitar a nossa capacidade de expressar e
comunicar com as pessoas, mas, sem afastar a certeza de que não
existem fórmulas mágicas e tudo dependerá do empenho, do
capricho e, sobretudo, da nossa capacidade de disciplinar a nossa
conduta diante do aprendizado.

- Não é um gesto, uma palavra, uma atitude ou o


conhecimento profundo de uma determinada matéria que nos dá a
condição de dominar uma palestra e entusiasmar um determinado
auditório, mas, sem dúvida, é a soma de todos estes requisitos,
aliados a uma forma coordenada e a uma técnica direcionada, que
nos dá a possibilidade de alçar à condição de patronos de uma tese
e, com toda glória, a dividirmos com o público.

A introdução não deverá tomar mais que dez por cento do


tempo de toda a apresentação, mas o conteúdo poderá tomar mais
que noventa por cento do tempo sem comprometer a palestra.
Gestos, tom de voz e expressões

Os gestos, tons de voz e expressões, são o tempero e a cor da


apresentação.

Uma apresentação apenas vocal, sem ênfase, eqüivale à visão


de um prato de arroz com feijão, em preto e branco, e depois, pior,
ambos sem qualquer tempero.

O sal, o azeite, a pimenta, o alho, a cebola, o tomate, tal qual


a canela, o alecrim e a hortelã, entre outros simples condimentos,
além do colorido que oferecem, são produtos indispensáveis numa
cozinha.

É possível fazer um bom prato sem arroz, sem feijão e sem


macarrão, ou um excelente prato sem qualquer carne ou legumes,
mas, é absolutamente incomum adotar um prato sem utilizar estes
pequenos e simples ingredientes complementares que são os
temperos.

Na comunicação oral em público também temos estes


complementos que enriquecem o sentido da oração e as vezes são
mais valiosos e comunicativos que as próprias palavras.

Contudo, o pecado será não saber aplicar cada condimento e


colorido no seu momento exato e na dosagem apropriada. Como nos
alimentos os condimentos em excesso tornam o prato simplesmente
inaproveitável, e não é por acaso.

Dizem que a diferença entre o remédio e o veneno encontra-


se apenas na dosagem. Quando falamos de comunicação oral, da
mesma forma, o sucesso e o fracasso estão muito próximos, o
trabalho maior do comunicador e saber dosar cada um dos temperos
na sua locução.

Não há técnica infalível na aplicação dos temperos e sequer


uma dosagem ideal.

A intuição funciona com absoluta simplicidade, mas, deixará


de funcionar se o comunicador não conseguir se incorporar no
personagem e mergulhar no tema, neste caso, ficará reduzido à
imagem de uma peça mecânica que não consegue se sincronizar
com as demais, e se perderá e desgastará a cada minuto.

A fórmula mágica e única, que permite ao comunicador não


perder a sintonia do discurso com os gestos e com a intonação de
voz, consiste no engajamento completo, no despojamento absoluto
do eu cotidiano para imergir profundamente no personagem e no
seu tema.
O treinamento físico e psicológico, recomendado ao final
destas notas, faz com que o comunicador engajado, ausente do
mundo exterior naquele momento, funcione como que
instintivamente, resultando que a palestra e a expressividade
corporal e intelectual trilhem, juntas e entrelaçadas, os caminhos que
já conhecem.

É este instinto que nos faz fechar os olhos, esquivar, e colocar


as mãos à frente, como gesto de defesa, quando algo ameaça a nos
atingir frontalmente.
Quando alguém nunca dirigiu um veículo e precisa para-lo,
não aciona os freios, não reduz a marcha e não tenta desligá-lo.

Contudo, quem tem prática na direção não precisa pensar nem


decidir o que fazer, numa emergência, instintivamente, porque já foi
treinado, aciona os freios, reduz a marcha e desliga o veículo.

É o corpo e a mente interagindo em perfeita harmonia.

Portanto, depois do treinamento, o comunicador saberá


instintivamente a dosagem exata para a postura, para os gestos e
para os tons de voz.