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Índice

Expediente
DESTAQUE 5 ESPECIAL 14
Think Tank - A Revista da Livre-iniciativa
Ano XII - no 46 - Mar/Abr/Mai - 2009

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO
Arthur Chagas Diniz
Elcio Anibal de Lucca
Alencar Burti
Paulo de Barros Stewart
DESASTRE NATURAL: LIBERDADE OU PROTEÇÃO? O BOM, O MAU E O FEIO Jorge Gerdau Johannpeter
UMA REFLEXÃO SOBRE O PAPEL DO ESTADO Uma visão liberal do fato Jorge Wilson Simeira Jacob
José L. Carvalho José Humberto Pires de Araújo
Raul Leite Luna

15
Ricardo Yazbek
MATÉRIA DE CAPA ENTREVISTA 19 Roberto Konder Bornhausen
Romeu Chap Chap
CONSELHO EDITORIAL
Arthur Chagas Diniz - presidente
Alberto Oliva
Aloísio Teixeira Garcia
Antônio Carlos Porto Gonçalves
Bruno Medeiros
Cândido José Mendes Prunes
Jorge Wilson Simeira Jacob
José Luiz Carvalho
OBAMA E O BRASIL: ALGUMA MUDANÇA? Luiz Alberto Machado
O BRASIL E SEUS VIZINHOS Nelson Lehmann da Silva
Marcus Vinícius Freitas com Renato Flôres Octavio Amorim Neto
Roberto Fendt
Rodrigo Constantino
William Ling

SOCIEDADE 23 LIVROS 26 Og Francisco Leme e


Ubiratan Borges de Macedo
(in memoriam)

DIRETOR / EDITOR
Arthur Chagas Diniz

JORNALISTA RESPONSÁVEL
Ligia Filgueiras
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e Renato Flôres (arquivo pessoal)

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SÃO PAULO
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BANCO DE IDÉIAS é uma publicação do Instituto Liberal. É permitida a
reprodução de seu conteúdo editorial, desde que mencionada a fonte.
Leitores Editorial
Sua opinião é da maior impor-
tância para nós. Escreva para
Banco de Idéias.
m meio a uma crise econômica do sistema de cotas. O sistema que é
E sem precedentes nos últimos tido como uma ação afirmativa é ex-
Prezado editor, 60/70 anos, Barack Obama foi eleito plicado ao público como temporário,
o primeiro presidente negro na história visando compensar certas debilidades
Há alguns anos esta Banco dos EUA. A questão é relevante para o impostas pela opressão racista ou pela
de Idéias publicou um exce- mundo todo, dado o peso relativo da desvantagem social. O autor do
lente trabalho sobre a reforma economia norte-americana em virtual- artigo, João Luiz Mauad, acredita que
agrária no Brasil, mostrando mente todos os mercados mundiais. longe de redimir desigualdades o
que se o governo tivesse in- Encomendamos a Marcus Vinícius sistema de cotas somente serve para
vestido em educação os re- Freitas, Professor de Direito e Relações reacender preconceitos. A discrimi-
cursos que destinou à reforma Internacionais da FAAP, uma análise nação contra pessoas por razões de
agrária provavelmente hoje o das mudanças e principais repercus- classe, gênero, cor de pele, orientação
problema seria bem menor. O sões nas relações entre o Brasil e os sexual e religião é inquestionável, mas
que pensa Banco de Idéias EUA. O articulista acha que Obama ela, afirma Mauad, não será removida
sobre a questão? Como o fará um governo muito mais voltado por atitudes oportunistas e contrárias
para os assuntos domésticos, e mais, ao Estado de Direito. A universidade
MST tem agido? Em benefício que sua vocação internacionalista é não é, definitivamente, lugar para
de quem? mais retórica e menos prática. Antevê demagogia. Tratar negros, índios e
uma novidade com a nomeação de pobres como se fossem menos capazes
Maria Amélia D. Ramos Hillary Clinton para o Departamento é uma grande humilhação. As re-
Rio Grande – RS de Estado, transformando-a virtual- servas condenam os próprios cotistas
mente em uma primeira-ministra. ao vexame perante colegas e, futu-
Prezada Maria Amélia, Acha que a América Latina renderá ramente, à discriminação no mercado
mais oportunidades “fotográficas” e de trabalho.
Infelizmente o poder pú- retóricas do que novas políticas efetivas, A entrevista concedida pelo pro-
blico quase nada fez em embora acredite que uma parceria entre fessor Renato Flôres versou quase inte-
relação à reforma agrária, até os norte-americanos e o Brasil seria gralmente sobre as relações inter-
porque, hoje, o que é rentável essencial para a transformação do nacionais do Brasil. Flôres acredita
é o agrobussiness, ou seja, a século XXI no século das Américas. que o Brasil agiu acertadamente ao
agricultura industrial. Em O professor José L. Carvalho, titular contemporizar com a Bolívia no
relação ao MST, o movimento de economia da Universidade Santa referente à encampação das ativi-
é cada vez mais político e Úrsula, efetuou uma análise em pro- dades da Petrobras naquele país, bem
menos rural. Seu principal lí- fundidade das conseqüências dos como em não solicitar a judicialização
der é um marxista confesso, o desastres naturais no Brasil, fazendo da questão em foro estrangeiro. Flôres
senhor João Pedro Stedile. Os uma reflexão sobre o papel do Estado vê com grande benevolência o
recursos com que o governo nessas situações. Ele admite que muita governo Lula e não acredita em con-
deveria financiar a educação, gente enxerga na ação estatal o tinuísmo na América Latina (a
cumprimento de uma obrigação em entrevista foi concedida antes do
especialmente no campo, são
relação às populações atingidas. plebiscito venezuelano sobre a ree-
utilizados politicamente para O que o professor questiona é que leição por período indeterminado).
“bancar” as invasões, atos a cada obrigação corresponde uma Em relação a Barack Obama, tem
terroristas e assassinatos no perda de liberdade. José L. Carvalho uma visão semelhante à de Marcus
campo através do MST. As faz uma profunda avaliação, afir- Vinícius Freitas, não há muito o que
polícias estaduais se sentem mando que tanto o desenvolvimento esperar.
inibidas até mesmo para econômico quanto o científico e o Na seção Livros, Rodrigo Cons-
realizar as reintegrações de tecnológico têm reduzido substan- tantino faz uma resenha de uma
posse de fazendas invadidas cialmente os impactos de severos publicação que tem tudo para se tornar
autorizadas pela justiça. Em eventos naturais. O autor acredita que um best seller: The Case Against the
suma, a reforma agrária vai não se deve passar ao Estado a respon- Fed, de Murray Rothbard.
mal e a educação no campo sabilidade de resolver o problema, a Completam esta edição que, de
não melhorou nada. menos das chamadas ações emer- agora em diante, passa a circular
genciais. Microsseguro é uma inovação em versões impressas e eletrônica
financeira que tem permitido a pessoas simultaneamente, o Sumário do livro
Envie as suas mensagens para de baixa renda a proteção contra vários Entendendo o processo de mu-
a rua Rua Maria Eugênia, 167 - tipos de riscos em vários países em dança econômica, de Douglass
Humaitá - Rio de Janeiro - RJ -
22261-080, ou ilrj@gbl.com.br. desenvolvimento. C. North, feito por Roberto Fendt, e
Assunto controverso na educação a 25ª edição de NOTAS sobre a
universitária no Brasil é a instituição Reforma Tributária.

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 4
Destaque

Desastre natural: liberdade ou proteção?


uma reflexão sobre o papel do Estado
José L. Carvalho
Professor Titular de Economia da Universidade Santa Úrsula

s recentes inundações que calamidade pública provocada impotência em face da violência


A castigaram os Estados de por um fenômeno natural? do fenômeno natural justifica a
Santa Catarina, Minas Gerais, Não tenho dúvida de que demanda de uma ação contun-
Espírito Santo e Rio de Janeiro muitos veriam na ação estatal dente do Estado em favor dos
levantam questões importantes uma obrigação de socorrer e atingidos. É essa sensação de
cujas respostas demandam uma ajudar às populações atingidas. O impotência que parece conduzir as
profunda reflexão: qual o papel sentimento de solidariedade para pessoas a abrir mão de liberdade,
do Estado quando ocorrem fe- com os atingidos por um desastre atribuindo ao Estado mais essa
nômenos naturais que causam natural é fortemente alimentado função. Mas, como as pessoas
destruição material, ceifam vidas, pela aleatoriedade, sob o ponto perdem liberdade por demandarem
deixam muitos feridos e desa- de vista individual, de tais eventos. do Estado uma ajuda que aparente-
brigados? Até que ponto os Cada um de nós imagina que tal mente só o governo pode oferecer?
indivíduos em uma sociedade desastre poderia desabar sobre Onde está a perda de liberdade?
estão dispostos a trocar liberdade nossas cabeças, e nesse caso As coisas não são tão simples
por proteção e ajuda do Estado gostaríamos de receber toda como parecem. Toda vez que
em situações de emergência ou ajuda possível. A sensação de atribuímos ao governo funções

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Destaque

por mais específicas que possam alguém se oporia a uma ação prioridades no atendimento das
parecer, corremos dois riscos. O estatal em favor das famílias demandas possíveis. O conflito
primeiro foi destacado por Adam flageladas pela natureza. Se entre escassez de recursos e o
Smith: considerarmos que os dois atendimento das demandas do
The statesman, who should exemplos diferem apenas por sua homem gera uma competição
attempt to direct private people extensão em termos do número de pelo uso dos recursos entre os
in what manner they ought to famílias atingidas, não há como diversos fins possíveis. Essa
employ their capitals, would not justificar a ação do Estado no competição se dá pela instituição
load himself with a most unne- segundo caso e não no primeiro mercado livre. As decisões de
cessary attention, but assume an em uma sociedade onde preva- natureza privada são tomadas
authority which could safely be leça o Estado de Direito. Para pelos indivíduos, enquanto as
trusted, not only to no single distinguirmos um caso do outro, decisões de natureza coletiva são
person, but to no council or é indispensável levar em conside- tomadas pela autoridade pública
senate whatever, and which ração os princípios adotados para (governo) por meio de um sistema
would nowhere be so dangerous político organizado em uma
as in the hands of a man who had democracia representativa. Todas

“ Até
folly and presumption enough to as decisões estão sujeitas à lei que
fancy himself to exercise it. (Adam que ponto deve proteger o indivíduo de
Smith, 1776, p. 423). qualquer concentração de poder,
O segundo risco foi destacado
os indivíduos seja ele econômico ou político. A
por Frederic Bastiat, um econo- em uma organização social exige ainda a
mista do século XIX, ao nos alertar sociedade estão concessão de monopólio da força
que na análise de qualquer ação à autoridade pública de modo a
humana devemos considerar, dispostos a permitir que o governo exerça o
além de seus efeitos imediatos (o trocar liberdade poder de polícia e confisque
que se vê), os efeitos secundários por proteção e recursos do cidadão, por meio de
(o que não se vê) que tal ação impostos, para que possa exercer
provoca. Mas, se o governo usa ajuda do Estado suas funções. A Constituição deve
os recursos gerados pelos indi- em situações de proteger o cidadão contra o
víduos, por que não ajudá-los em emergência ou abuso desse poder de monopólio
momento tão difícil? Não consi- concedido ao Estado.
dero que o Estado não deva ter calamidade pú- Sob tais princípios é possível
uma participação em situações de blica provocada caracterizar-se uma divisão do
desastre natural, só os convido a trabalho entre o setor privado e o
por um fenô-
uma reflexão sobre essa par-
ticipação.
Suponha que a família Silva
meno natural? ” setor público, de modo a pre-
servar tanto a liberdade quanto o
uso eficiente dos recursos es-
tenha tido sua casa, construída há cassos. Em um contexto de re-
20 anos, destruída por um desli- pública federativa, com o
zamento de terra em decorrência a divisão do trabalho entre a município caracterizando a
de uma elevada precipitação sociedade civil (cidadão) e o menor unidade política, pode-se
pluviométrica, fenômeno raro na Estado (autoridade pública). concluir que esses princípios nos
região. Por certo, a família Silva A divisão do trabalho entre o conduzem à Proposição Og
será amparada pela solidariedade setor privado e o setor público só Leme: cabe à União fazer tudo
de seus vizinhos, parentes e pode ser entendida a partir dos aquilo que o Estado não puder
amigos. Dificilmente alguém jus- princípios fundamentais que fazer melhor; cabe ao Estado
tificaria uma ação estatal de ajuda orientam a organização social. fazer tudo aquilo que o Município
aos Silva, fosse ela para satisfazer Assim, vamos considerar uma não puder fazer melhor, e cabe
às necessidades imediatas da sociedade de homens livres em ao Município fazer tudo aquilo
família (abrigo, alimentação, que seus direitos à vida, à liber- que o cidadão, individualmente
vestuário, atendimento médico, dade e à propriedade são ou em grupo, não puder fazer
etc.) ou de recomposição de patri- caracterizados e protegidos em melhor. Nessa proposição fazer
mônio (empréstimo subsidiado). um contexto de Estado de Direito.1 melhor significa produzir o mesmo
Considere agora que a família Como as mais variadas de- benefício a um custo de recursos
Silva é uma entre 5.000 famílias mandas do homem não podem menor. Mais especificamente,
afetadas pelo mesmo fenômeno ser atendidas integralmente, tor- cabe ao Estado, por meio do
natural. Nesse caso, dificilmente na-se necessária uma definição de governo: (i) promover e manter o

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Destaque
Estado de Direito por meio de leis, ciados a eventos climáticos, são traram com maior frequência
regulamentos e pela adminis- os que afetam o maior número de (média anual) cada um dos desas-
tração da justiça;2 (ii) produzir, em pessoas. Alguns analistas têm tres considerados. O propósito
certos casos, e de um modo geral, atribuído ao efeito estufa um desse relatório é a construção de
promover o financiamento de aumento no número de desastres, um índice de desastres para mais
bens públicos, isto é, bens cujo mas sem evidências científicas de 200 países a partir das infor-
consumo por parte de um indi- claras. mações sobre desastres coletadas
víduo não reduz o consumo de É fato que o número de desas- e sistematizadas pelo CRED. 7
outro (e.g., segurança nacional); tres naturais tem aumentado. É Curiosamente, em termos de
(iii) promover bens com elevado também fato que os registros vulnerabilidade no Brasil as inun-
grau de externalidade positiva sobre tais desastres são hoje mais dações são mais importantes que
como, por exemplo, segurança precisos do que no passado. Além as secas, cujos desastres colocam
pública, educação fundamental e disso, a melhor comunicação de o País em quarto lugar em termos
saúde pública.3 que dispomos hoje nos coloca de frequência.
Sob os princípios aceitos e a imediatamente em contato com o Os brasileiros estão sujeitos a
proposição de divisão do trabalho desastre, quase que nos trans- poucos eventos naturais que
entre os indivíduos e o governo, é formando em testemunhas ocu- possam produzir desastres.8 Em
possível desenvolver-se uma lares do evento. Desse modo, mais 2007 foram notificados à Defesa
reflexão objetiva sobre as questões registros e o testemunho impres- Civil 525 desastres, sendo que
postas inicialmente. A ação do sionante da mídia podem ser cerca de 57% destes ocorreram
governo é indispensável em face responsáveis pelo crescimento do em três estados: 123 no Rio
da ocorrência de um desastre número de desastres naturais e Grande do Sul; 100 no Rio
natural? Se a resposta for sim, que pela percepção que temos de sua Grande do Norte e 75 no Rio de
limites se pode impor à ação do maior e mais frequente presença. Janeiro. Com um aumento de
governo de modo a preservar as O que na realidade sabemos é que cerca de 58% em relação ao ano
liberdades individuais? tanto o desenvolvimento econô- anterior, o número de desastres
Eventos naturais severos ocor- mico quanto o desenvolvimento notificados em 2008 atingiu a
rem com frequência: tempes- científico e tecnológico têm re- marca de 831, sendo que os
tades, nevascas, ondas de frio ou duzido os custos dos desastres estados mais atingidos foram: Rio
de calor intensos, erupções vul- naturais. Sabemos ainda que os Grande do Sul (146), Santa Cata-
cânicas, terremotos, furacões, países mais desenvolvidos têm, rina (94), Rio Grande do Norte
ciclones, incêndios naturalmente mais eficientemente, conseguido (94), Maranhão (73), Minas
provocados, estiagens e secas reduzir os impactos de severos Gerais (67) e Rio de Janeiro (64).
prolongadas, inundações, etc.4 O eventos naturais. A redução de As inundações que ocorreram
desastre natural ocorre quando custos ocorre tanto em termos de no Estado de Santa Catarina nos
tais eventos são severos o su- ativos reais quanto em termos das últimos meses de 2008 foram
ficiente para afetar diretamente o populações atingidas (número de para nós, brasileiros, uma grande
ser humano, impondo-lhe custos mortos, de feridos, de desabri- catástrofe. Cento e quarenta
materiais, ecológicos e princi- gados, riscos de epidemias), e os mortes, com cerca de 26% da
palmente em termos de vidas países menos desenvolvidos população do Estado, localizados
humanas, sequelas físicas às registram, relativamente aos mais em 20 municípios, sendo afetados
pessoas, doenças, etc. O Centre ricos, menores perdas materiais pelas inundações. Embora o
for Research on Epidemiology of medidas em unidade monetária número absoluto de desabri-
Disasters (CRED) da Universidade (sendo pobres, as populações gados, oficialmente anunciado
de Louvain, na Bélgica, é a prin- atingidas têm patrimônio de pelas autoridades do Estado, seja
cipal fonte de referência estatística menor valor), mas maiores perdas de 5.737, em relação ao total da
sobre desastres naturais no humanas. Mais de 85% das população atingida, esses desa-
mundo.5 Em 2006 os 427 desas- pessoas afetadas por desastres brigados representam menos de
tres naturais registrados afetaram naturais (ciclones tropicais, inun- 0,4%. O flagelo atingiu mais
cerca de 142 milhões de pessoas, dações, secas e terremotos) vivem violentamente o município de
provocando a morte de 23.833; em países de baixo desenvol- Ilhota, que contabilizou 51 mortes
os 227 desastres tecnológicos vimento humano.6 (36,4% do total) e cerca de 4,6%
relatados foram responsáveis pela A Tabela 1 (página 8) enumera de sua população ficou desa-
morte de 9.900 pessoas, tendo para os quatro desastres naturais brigada, isto é, 9% de todos os
afetado uma população de 172 utilizados em relatório das Nações desabrigados no Estado. Note
mil pessoas. Em geral, os desastres Unidas os cinco países que no que nos referimos aos desabri-
naturais, particularmente os asso- período 1980 – 2000 regis- gados, uma vez que o número de

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Destaque

Tabela 1: desastres naturais selecionados para os cinco países com maior


frequência (médias anuais para o período 1980 – 2000)

Número médio de Pessoas expostas Mortes Vulnerabilidade


País ao evento (por milhão (mortes por milhão
eventos por ano de habitantes) de pessoas expostas)
(% da população)

SECA

China 0,86 2,31 0,14 6,03


Etiópia 0,57 5,52 286,24 5.189,32
Moçambique 0,43 6,58 357,06 5.422,37
Brasil 0,43 6,89 0,01 0,09
Índia 0,38 3,91 0,02 0,58
Média (19*) 0,31 6,96 84,72 1.650,48

INUNDAÇÕES

China 5,57 9,16 1,32 14,36


Índia 3,86 13,33 1,55 11,62
EUA** 3,48 4,06 0,09 2,28
Indonésia 2,48 27,34 120,29 2,44
Brasil 2,19 12,33 99,33 5,43
Média (119*) 0,57 9,12 2,08 23,22

TERREMOTOS

China 2,10 0,30 0,08 26,40


Indonésia 1,62 8,80 1,04 11,85
Irã 1,43 3,60 38,68 1.074,84
Japão 1,14 25,39 2,31 9,12
Afeganistão 0,81 0,11 2480,00 288,10
Brasil*** 0,05 0,01 0,00 3,26
Média (49*) 0,37 16,96 52,94 74,67

CICLONES TROPICAIS****

EUA** 12,14 66,38 0,86 2,49


China 6,90 49,51 0,37 0,74
Filipinas 5,57 430,94 14,35 3,33
Bangladesh 3,43 116,45 64,02 54,98
Índia 2,76 42,75 1,24 2,90
Média (33*) 1,40 66,38 122,00 997,85

Fonte: Nações Unidas (2004). Notas: *Número de países considerados no cálculo da média;**Estados Unidos da América do
Norte; ***Brasil, juntamente com outros 7 países, apresenta a menor frequência de ocorrência do evento; ****Sem ocorrência
registrada no Brasil.

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Destaque

desalojados chegou próximo a 33 governo em uma situação de de- onde residir levando em conta a
mil (5,6% da população do sastre. Assim, essas ações diretas exposição a eventos naturais
Estado), que em sua maioria do governo imediatamente após severos. Embora o mercado de
contaram com a solidariedade da ou durante a ocorrência de um informações climáticas exista e
população não-atingida. desastre natural são compatíveis funcione em nível global – infor-
A solidariedade dos brasileiros com a divisão do trabalho, acima mações sobre futuras condições
para com os flagelados pelas explicitada, entre o setor privado climáticas, por exemplo, em
inundações em Santa Catarina e o setor público. regiões produtoras de commo-
não ficou circunscrita aos pa- Além disso, um desastre na- dities agrícolas, são vendidas
rentes e vizinhos das vítimas. tural gera um conjunto de exter- inclusive pela Internet –, infor-
Segundo a Defesa Civil de Santa nalidades negativas que requerem mações específicas sobre fenô-
Catarina, até 16 de dezembro de ações do governo, tais como: menos naturais severos, quando
2008 as contribuições para o atendimento médico emergencial, disseminadas adequadamente,
Fundo Estadual de Defesa Civil do vacinação da população, recolhi- provocam externalidades positivas
Estado já superavam a marca de mento de cadáveres, retirada de e cumprem a segunda função
R$26 milhões. As doações e entulhos, abertura e reconstrução importante: alertar a população
donativos somavam um milhão de estradas e pontes, provisão para que pessoas tomem as
de quilos de roupas, 4,3 milhões temporária de espaço para os devidas precauções a fim de que
de quilos de alimentos, 2,5 desabrigados assim como de suas o impacto do fenômeno natural
milhões de litros de água, além de necessidades básicas, além de seja minimizado em termos de
material de higiene pessoal e coordenar a distribuição dos possíveis perdas (patrimonial e
brinquedos. A solidariedade é donativos canalizados para as de vidas). Assim, a manutenção
suficiente para justificar a não-in- vítimas pela solidariedade das de um sistema de informações sis-
tromissão do governo em situa- pessoas não afetadas pelo de- tematizadas sobre áreas sujeitas
ções como essa? Aceitos os princí- sastre. Há ainda, nesse contexto, a risco de ocorrência de eventos
pios enumerados anteriormente, uma função importante para a naturais severos e um sistema de
qual o papel das autoridades qual o governo tem vantagens alerta sobre a possibilidade de sua
públicas? comparativas: geração e dissemi- ocorrência se enquadram na
A importância dos princípios de nação de informações antes, promoção, pelo governo, de bens
organização social reside em não durante e após o desastre. com elevado teor de externa-
se retirar do indivíduo sua liber- Informações sobre eventos lidades positivas e se constituem
dade de agir e, consequente- naturais têm duas funções. A em atividades a serem promovidas
mente, sua responsabilidade pelas primeira é a de permitir que o pelo governo. Somente em julho
escolhas feitas, e em não prendê- indivíduo tome decisões sobre de 2008 o Brasil passou a contar
lo na armadilha de ações paterna-
listas que emergem de medidas
adotadas pelo governo com o
objetivo de proteger o indivíduo de
emergências de curto prazo. A
conciliação entre a preservação
da liberdade do indivíduo e a
ação do governo em face de
situações de emergência reside
nos princípios que fundamentam
a sociedade. Um desastre natural
corrompe a ordem social pela
destruição que causa, gerando
oportunidades para que pessoas
inescrupulosas pilhem e saqueiem
o patrimônio alheio, comple-
tamente desprotegido pelo caos
imposto pelo desastre. Resta-
belecer a ordem e manter a
integridade das pessoas e de suas
propriedades, bem como resgatar
pessoas em perigo, são, sem A solidariedade dos brasileiros com os flagelados em Santa Catarina não ficou circunscrita
dúvida, funções importantes do aos parentes e vizinhos das vítimas.

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Destaque

com o Sistema de Monitoramento quando o Departamento Nacional relacionados às adversidades


e Alerta de Desastres Naturais de Obras e Saneamento (DNOS) climáticas no Estado. Assim, são
(Sismadem), uma ferramenta de foi extinto. considerados os desastres decor-
geoprocessamento para controle, Outra razão para a pouca rentes de inundações e desliza-
recuperação, armazenamento e efetividade dos órgãos públicos na mentos de terra, de estiagens, de
processamento de dados ambien- prevenção de inundações reside tempestades severas (vendavais,
tais desenvolvida e operada pelo no interesse próprio tanto dos ressacas, granizo), de tornados e
Instituto Nacional de Pesquisas políticos quanto da burocracia, os do furacão Catarina, fenômeno
Espaciais (Inpe). O sistema, que quais para se autopromoverem inédito no Brasil. Durante o
está disponível na Internet e pode procuram aprovar obras visíveis e período analisado, os desastres
ser acessado por especialistas ou de impacto, tais como canali- naturais desabrigaram 800 mil
não-especialistas, gera um alerta zação de rios ou construção de pessoas e provocaram 248 mor-
para cada situação de risco barragens, mas que na maioria tes. Embora não registrada no
detectada e o envia aos usuários dos casos são pouco eficazes. Os Atlas, pode-se ter uma idéia da
cadastrados. O estado de alerta pobres resultados com esse tipo perda de patrimônio provocada
(atenção, alerta e alerta máximo) de obra levaram a Inglaterra e a por tais desastres naturais. Se-
segue os padrões de risco ado- Holanda a adotar medidas de gundo relatos da Defesa Civil de
tados pelas organizações de restrição a construções em áreas Santa Catarina, somente entre
defesa civil em todo o mundo. de risco (como, por exemplo, 2000 e 2003 os prejuízos pro-
Embora os eventos naturais áreas marginais a rios e áreas de vocados pelos desastres naturais
severos não possam ser evitados, baixada), obtendo assim melhores que castigaram o Estado monta-
situações decorrentes de fenô- resultados na prevenção de desas- vam a R$ 1,48 bilhão.
menos climáticos, em particular tres decorrentes de inundações. Se os fenômenos naturais que
as inundações, que são os desas- Além disso, as intenções do go- provocam desastres são fre-
tres mais frequentes no Brasil, verno ao criar determinadas or- quentes em uma região, não é de
podem ter seus efeitos mitigados ganizações com objetivos espe- se esperar que tanto as pessoas
por obras de contenção de cíficos acabam corrompidas pelos quanto as autoridades públicas
inundações. Entretanto, o objetivo interesses da burocracia, a qual, ajam de modo a minimizar seus
de conter inundações por meio de com o intuito de promover seu efeitos? Como já exposto, ações
obras sob a responsabilidade de desenvolvimento amplia os obje- preventivas por parte do governo
órgãos governamentais não tem tivos da organização, concen- em geral produzem poucos resul-
tido muito sucesso. A principal trando esforços nas atividades que tados, e acabam por estimular as
razão para tais fracassos está mais favoreçam a burocracia. pessoas que, acreditando na pro-
justamente no fato de que a Em geral, as regiões hoje teção das obras, mantêm seu
alocação de recursos e as esco- castigadas por inundações estão domicílio em áreas de risco. Por
lhas das obras a serem execu- recorrentemente sujeitas aos outro lado, geração e dissemi-
tadas são decididas no âmbito fenômenos naturais que as cau- nação de informação são mais
político. O velho ditado É melhor sam. Considere o caso do Estado eficientes. Nesse sentido, o Grupo
prevenir do que remediar só é de Santa Catarina, para o qual há de Estudos de Desastres Naturais
válido para decisões individuais. relatos de desastres provocados da Universidade Federal de Santa
Sob o ponto de vista político, É por inundações desde 1911. Catarina tem feito sua parte,
melhor remediar do que prevenir, Entretanto, as informações mais mapeando risco de desastre ou
uma vez que as obras que evitam sistematizadas sobre os desastres orientando didaticamente as
inundações nem sempre são naturais no Estado só estão pessoas para que elas possam
aparentes para os eleitores ou por disponíveis a partir da década de identificar eventos severos que
eles consideradas como impor- 1980, graças ao Atlas de venham colocar em risco suas
tantes. Por outro lado, o flagelo Desastres Naturais do Estado de vidas. Duas publicações ilustram
imposto por uma inundação Santa Catarina, elaborado pelo essa contribuição do setor pú-
(mortes, desabrigados, destruição de Grupo de Estudos de Desastres blico, específica para o Estado de
patrimônio) clama por uma ação Naturais da UFSC, sob a coor- Santa Catarina: Marcelino et
paternalista do governo, e paterna- denação da professora Maria al.(2006), mapeando riscos, e
lismo gera mais votos. Talvez uma Lucia de Paula Herrmann. Consi- Kobiyama et al.(2006) orientando
evidência desse fato possa ser derando os desastres naturais que as pessoas. Juntamente com o
encontrada na sobrevivência do ocorreram no Estado no período Sismadem, esses tipos de infor-
Departamento Nacional de Obras 1980 – 2004, o Atlas tem por mação, gerados e disseminados
Contra a Seca (DNOCS) à reforma objetivos: cartografar, conceituar pelas autoridades públicas, além
da administração federal de 1990, e analisar os desastres naturais de compatíveis com uma ação do

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Destaque
governo que não retira liberdade as perdas incorridas por indiví- soas, a ação paternalista gera,
do cidadão, favorecem uma duos decorrentes de desastres conforme Buchanan (1975), o
contribuição do mercado, por naturais que independem de sua dilema do bom samaritano e
meio da indústria de seguros, vontade devem ser socializadas promove problemas de risco
para minorar os efeitos de eventos pelo Estado. O segundo se refere moral, uma vez que as pessoas
naturais severos. à indústria de seguros: desastres localizam suas residências em
A importância do mercado, em naturais não podem ser cobertos área de risco por estarem certas
particular da indústria de seguros, por seguro devido à correlação de de que em uma situação de
na administração ex ante de riscos e à seleção adversa. desastre elas serão amparadas
desastres naturais veio a ser O primeiro preconceito já foi pelo governo. Vejamos o argu-
reconhecida pelas Nações Unidas considerado ao discutirmos o mento de falha de mercado na
em sua Conferência Mundial papel do governo em face de presença de desastres.
sobre Redução de Risco de situações de desastres naturais. Segundo a Swiss Re (Swiss
Desastres, realizada em 2005 em Entretanto, é importante destacar Reinsurance, uma companhia
Kobe, Japão. Naquela confe- fundada em 1863), em 2008
rência foi apresentada a Agenda cerca de 238 mil pessoas mor-
Hyogo (Hyogo Framework), reram em decorrência de desas-
estruturada em três princípios: i)
promover o desenvolvimento de
instrumentos financeiros bem
“Senaturais
os fenômenos
que
tres naturais ou provocados pelo
homem. Esses desastres cau-
saram uma perda de patrimônio
como de mecanismos de compar- da ordem de US$ 225 bilhões,
tilhamento de risco, em especial provocam dos quais somente US$ 50 bilhões
por meio de seguros e resseguros, desastres são (22,2% do total do patrimônio
para uma melhor proteção contra atingido) estavam cobertos por
desastres; ii) encorajar o estabe- frequentes em seguro de propriedade. Do
lecimento de parcerias público- uma região, não patrimônio afetado por desastres
privado para que o setor privado e protegido por seguro somente
tenha melhor participação em
é de se esperar US$ 7 bilhões se referiam a
atividades de redução de risco de que tanto as desastres provocados pelo
desastres; iii) desenvolver e pro- homem. 11 Embora a indústria de
mover alternativas e inovações
pessoas quanto seguros tenha uma longa tradição
financeiras para administração do as autoridades de oferecer apólices de seguro
risco de desastres. A Agenda públicas ajam de contra desastres naturais, foi
Hyogo emergiu da insatisfação exatamente um desses desastres
com a ação dos governos quando modo a minimizar o responsável por um conjunto de
da ocorrência de desastres, tanto
a assistencial (ex post) quanto a
preventiva (ex ante).9
A indústria de seguros, no ano
seus efeitos?
” inovações que possibilitou a
cobertura de seguro de patri-
mônio para perdas decorrentes
de tais eventos. Quando em
de 2007, movimentou no mundo 1906 ocorreu o devastador ter-
US$ 4,1 trilhões de dólares de que as ações paternalistas do remoto em San Francisco (CA,
vendas. A importância da indús- governo federal em situações de USA), o único seguro de patri-
tria de seguros não reside apenas desastres naturais têm perenizado mônio existente na região era
em sua capacidade de diluir as possibilidades de desastres. contra incêndio. Entretanto, as
riscos de modo a proteger o se- Confiantes na ajuda federal apólices tinham limites muito
gurado. Como qualquer mer- quando da ocorrência de de- baixos e estabeleciam condições
cado, o de seguros promove infor- sastres naturais, os governos bastante diversas. Os baixos
mação e alocação de recursos locais não agem ou, quando o limites levavam os demandantes
segundo os desejos de seus fazem, suas ações são tímidas e de seguro contra incêndio a
proprietários.10 Entretanto, dois poucos recursos são destinados à subscreverem várias apólices de
preconceitos têm retardado o prevenção. A grande maioria dos seguradoras diferentes. Um ele-
desenvolvimento do mercado de municípios de Minas Gerais, mento adicional de confusão e
seguro na proteção contra desas- estado recentemente castigado conflito estava em determinar se
tres. O primeiro está associado ao por inundações, não participa do o incêndio do patrimônio tinha
sofrimento dos afetados por de- Sistema Nacional de Defesa Civil sido provocado pelo terremoto ou
sastres naturais e tem justificado por não ter organizado seu órgão por causa estranha ao evento que
ações paternalistas do governo: municipal. Com relação às pes- não era contemplada na apólice.

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Destaque

O grande terremoto de 1906 em São Francisco, Califórnia: O incêndio se alastrando na cidade.

Em decorrência daquele terre- risco de sofrer perdas com eventos dificilmente teriam acesso a esse
moto, a indústria de seguros naturais severos seriam os mercado de seguros. Seria um erro
passou a investir na produção de compradores de apólices de tentar resolver esse problema
conhecimento científico sobre seguro, inviabilizando atuarial- atribuindo ao governo o provi-
abalos sísmicos de modo a prover mente a oferta desse serviço de mento de seguro subsidiado para
proteção aos seus clientes. Ino- proteção contra risco. Eviden- essas populações. Nesse sentido
vações financeiras, assim como temente, a sistematização de as lições do exemplo dos EUA são
padronizações nas coberturas das informações sobre áreas de risco fundamentais. O sistema de se-
apólices, abriram caminho para levaria as seguradoras a esta- guros contra inundações (National
o desenvolvimento da indústria de belecer um prêmio compatível Flood Insurance Program – NFIP)
seguros.12 com o risco. Assim, o preço da criado em 1968 e mantido pelo
Responder ao desafio de pro- apólice incorporaria o maior risco governo federal americano não
ver seguro contra terremotos associado à localização das estimula qualquer ação preventiva
indica claramente que o argu- pessoas e de seu patrimônio. por parte do segurado. Além
mento da correlação de risco para Entretanto, residentes em uma disso, cerca de 50% das residên-
justificar uma possível falha de área de risco, por meio de cias unifamiliares em áreas de
mercado não se constitui em investimentos, poderiam reduzir risco não são cobertas por esse
problema para a indústria de seu risco específico e, por con- seguro, por decisão das famílias.
seguros. Tal observação é válida seguinte, ter reduzido o prêmio de As exigibilidades líquidas do NFIP
para todos os desastres naturais. sua apólice. Como o preço de em 1990 montavam a US$ 210
É evidente que uma única se- qualquer outro bem, o prêmio do bilhões, atingiram US$ 570
guradora não pode assumir o seguro indicaria o risco específico bilhões em 2000 e até setembro
risco de um desastre natural em associado ao indivíduo e a seu de 2006 já ultrapassavam US$
uma região, mas muitas segu- patrimônio, além de direcionar 1 trilhão. Esses resultados de-
radoras, a possibilidade de resse- recursos para a redução dos correm do fato de o preço da
guro e a securitização de risco em impactos negativos de um desastre apólice não refletir o risco, e por
geral permitem que os inves- natural. Note que para o prêmio isso o acesso ao seguro não
timentos em informação sobre exercer seu papel de informar e promove ações preventivas por
áreas sujeitas a eventos naturais alocar recursos é indispensável parte dos segurados.13
severos possam orientar as que as seguradoras possam Microsseguro é uma inovação
seguradoras na oferta de apólices discriminar o preço segundo o financeira do mercado de seguros
contra desastres naturais. A risco específico. que tem permitido a pessoas de
existência dessas apólices é a Embora o seguro contra de- baixa renda acesso à proteção
evidência de que o mercado não sastres naturais seja ofertado no contra vários tipos de risco em
falha nesses casos. O argumento mercado, as pessoas mais pobres vários países em desenvol-
da seleção adversa implica que e, por isso mesmo, as mais vimento.14 De particular interesse
apenas as pessoas com elevado expostas a esse tipo de risco para o caso de desastres naturais

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Destaque

são os seguros indexados, nos


quais tanto os prêmios quanto as
indenizações em caso de sinistro REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E NOTAS
estão atrelados a um índice que
reflete o risco de ocorrência do
evento natural severo. Seguros BUCHANAN, James, The Samaritan’s de pessoas que aderem a uma convenção
Dilemma, em Phelps, E. (ed.) Altruism, de uso de um bem de propriedade
indexados foram introduzidos na Morality and Economic Theory. New York: comum ou por meio de uma disciplina
Índia, em 2003, para cobrirem Russell Sage Foundation, 1975: 71 – 85. legal.
perdas dos agricultores decor- HAYEK, F. A., The Use of Knowledge 4
Além dos eventos naturais severos
rentes de secas ou de inundações. in Society. American Economic que podem decorrer de dinâmica interna
Review 35, (September, 1945): 519-530. (e.g., terremotos, vulcanismo, etc.) ou
Microsseguros e seguros inde- ___________
___________, The Constitution of externa (e.g., tempestades, tornados,
xados são duas inovações impor- Liberty. Chicago: The University of ciclones, etc.) da Terra, existem outros
tantes que podem, em um Chicago Press, 1978. eventos que podem, também, impor
mercado de seguros competitivo HERRMANN, M. L. P. et al., Atlas de severos custos ao homem, tais como os
desastres naturais do Estado de Santa eventos siderais (e.g., chuva de meteoros)
com acesso às principais resse- Catarina. Florianópolis: IOESC, 2006. e eventos provocados pelo homem (e.g.,
guradoras do mundo e sob um FRIEDMAN, David The Machinery incêndios, desastres tecnológicos, etc.).
marco regulatório que favoreça of Freedom: Guide to a Radical 5
Ver site www.cred.be ou
sua implantação, ser uma forma Capitalism. New York: Harper and Row, www.emdat.be (Emergency Events Data
1973. Base)
mais eficiente de proteção contra KOBIYAMA, M.; MENDONÇA, M.; 6
Nações Unidas (2004).
desastres naturais. Nesse con- MORENO, D. A.; MARCELINO, I. P. V. 7
A caracterização de um desastre
texto, a ação do governo é a de O.;MARCELINO, E. V.; GONÇALVES, E. pelo CRED requer a ocorrência de pelo
F.; BRAZETTI, L. L. P.; GOERL, R. menos uma das seguintes condições: 10
patrocinar a produção e a di- F.;MOLLERI, G. S. F.; RUDORFF, F. M. ou mais mortes; 100 pessoas afetadas;
vulgação dos índices de risco, Prevenção de desastres naturais: pedido de ajuda internacional e
assim como, por meio de um conceitos básicos. Curitiba: Organica declaração de estado de emergência.
marco regulatório que não in- Trading, 2006. 8
A Defesa Civil caracteriza os
MARCELINO, Emerson Vieira, Luci desastres naturais típicos das regiões
viabilize atuarialmente essas ino- Hidalgo NUNES e Masato KOBIYAMA, brasileiras como sendo: incêndios
vações, estimular a prática de se- Mapeamento de Risco de Desastres florestais e inundações no Norte; secas e
guro como proteção. Naturais no Estado de Santa Catarina. inundações no Nordeste; incêndios
Cremos que as reflexões aqui Caminhos de Geografia, 8 (17):72 – 84 florestais no Centro-Oeste; deslizamentos
(Fev., 2006). do terreno e inundações no Sudeste, e
expostas indicam que as pessoas MICHEL-KERJAN, Erwann O., inundações, vendavais e granizo no Sul.
podem e devem, por meio de suas Disasters and Public Policy: Can Market 9
Um exemplo de inovação
ações, se proteger contra eventos Lessons Help Address Government financeira que permite ao governo uma
naturais severos. A ocorrência de Failures? Paper presented at the 99th. forma de financiar suas atividades de
National Tax Association, Boston, MA, assistência e de reconstrução quando da
desastres naturais não amplia as 2008. (Forthcoming in The National Tax ocorrência de um desastre natural é a
funções do governo, que decor- Journal: Proceedings of the Conference). GlobeCat securitisation desenvolvida
rem de uma eficiente divisão do NAÇÕES UNIDAS, Reduzindo o pela Swiss Re, e disponibilizada no
Risco de Desastres: Um Desafio para o mercado em dezembro de 2007. Esse
trabalho entre o setor privado e o Desenvolvimento. Nova York: PNUD, modelo de securitização provê in-
setor público. Em uma sociedade 2004. denização baseada na população
organizada, como postulado 1
O conceito de Estado de Direito exposta ao evento. Evidentemente, o
nessa reflexão, não há neces- aqui adotado é o proposto por Hayek governo deve destinar recursos orça-
(1978). mentários para assistência e recons-
sidade de se abrir mão da li- 2
No caso da administração da trução, os quais serão alavancados pela
berdade para se ter proteção justiça há fortes argumentos, quanto à securitização e pelo mercado de capitais.
contra desastres naturais. É fato eficiência do sistema, contrários à ação Para mais detalhes, ver www.swissre.com.
que a sociedade brasileira está do Estado. Historicamente a adminis- 10
Ver Hayek (1945).
tração da justiça era mantida por 11
Ver www.swissre.com.
muito distante da organização tribunais privados. Ver a esse respeito 12
Maiores detalhes podem ser
social que serviu de pano de fundo Friedman (1973). obtidos em A Shake in Insurance
para esta reflexão. É fato também 3
Externalidades decorrem do fato de History – The 1906 San FFranciscorancisco
que sociedades com uma orga- que em alguns casos as ações de um Earthquake disponível em: http://
agente social produzem custos ou www.swissre.com/pws/
nização mais próxima do para- benefícios para outros agentes sem que o research%20publications/
digma aqui utilizado são as mais originário da ação pague por esses custos top%20topics%20view/
prósperas. Sabemos onde esta- ou seja compensado pelos benefícios publications%20by%20topic.html
apropriados por outrem. As externalidades 13
Ver Michel-Kerjan (2008)
mos em termos de organização negativas podem ser eliminadas pela 14
Ver, por exemplo, www.micro
social e o que isso implica para a caracterização adequada dos direitos de financegateway.org/resource_centers/
liberdade e o bem-estar dos bra- propriedade das pessoas, pela associação insurance/products#8.
sileiros. A questão é: para onde
queremos ir?

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Especial
Uma visão liberal do fato

oi uma boa providência do Executivo cooptou o Legis- ulla iniciou a campanha


F governo a redução de im- O lativo e o Judiciário. Pro- L eleitoral de Dilma Rousseff,
postos para a venda de veículos cessos envolvendo políticos no e converteu um encontro de
automotores, com consequência STF não andam. Súmula recente prefeitos no lançamento semi-
imediata nos preços. A carga recomenda liberar todos aqueles oficial da candidatura da Minis-
tributária sobre os veículos no que não tenham transitado em jul- tra. Depois, o PT usou a presença
Brasil é a mais alta do mundo. O gado. Só ficam os pobres na dos prefeitos em Brasília para
cidadão americano médio ou cadeia. comemorar o aniversário da sigla,
O governo federal montou e outra vez lançou Dilma.
japonês gasta uma fração do que
uma sólida e corrupta base legis- Até o batom de Dilma e o
gastam os brasileiros na aquisição
lativa, entregando a vários par- esmalte de unhas do presidente
de veículos. são pagos pelo Tesouro, muito
Do total da carga tributária no tidos, em especial o PMDB, minis-
térios de “grande rentabilidade”. provavelmente, através de seus
país, 43% representam impostos cartões corporativos, assunto
sobre consumo, o que é uma É especialmente na contratação
de obras que reside a grande cor- encerrado por Dilma com a ajuda
iniquidade em relação aos que de Erenice Guerra.
vivem com baixos salários. Já rupção que sustenta financei-
ramente a base aliada. O lançamento da mãe do
foram feitas várias tentativas PAC é, antes de tudo, infringência
O modelo substitui o men-
parlamentares para explicitar, em grave à lei eleitoral, mas esta,
salão, onde uns poucos petistas,
todas as mercadorias, o valor dos aparentemente, não detém Lulla,
entre eles Zé Dirceu e Delúbio
impostos, sem qualquer sucesso. que com seus 84% de aprovação
Soares, eram os responsáveis pela acha que pode tudo.
Se o brasileiro, cuja renda média geração de propinas que abas-
é extremamente baixa, tivesse os É assustador o volume de
teciam os caixas dos petistas, gastos já envolvidos na campanha
impostos sobre consumo redu- peemedebistas e outros depu-
zidos à metade ele teria um eno- de Dilma, contabilizadas as des-
tados de siglas menos signifi- pesas como inaugurações de
rme ganho em seu padrão de cativas. Hoje, oito senadores da novas e velhas obras. O proce-
vida. base (40% do total) respondem a dimento de Lulla, embora com-
Hoje, a totalidade dos impos- inquéritos ou ações penais no STF. patível com seus comportamentos
tos corresponde a cerca de 40% Embora não se tenha uma anteriores, deixa antever uma luta
do PIB. A maior parte dos impos- estatística clara, tudo parece selvagem para permanecer com
tos serve para pagar salários e indicar que essa é a base mais o caixa do Tesouro, ainda que
aposentadorias privilegiadas de corrupta com que já se governou constitucionalmente através de
funcionários públicos. o Brasil. interposta pessoa.

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 14
Matéria de Capa

Obama e o Brasil: alguma mudança?


Marcus Vinícius Freitas
Professor de Direito e Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP),
é sócio internacional do Escritório Cerqueira Leite Advogados Associados.

“Hoje eu lhes digo que os de- América, o 44º numa linha de riqueza intelectual, sua ascensão
safios que enfrentamos são reais. sucessão em que lhe antecederam também representa uma troca de
São sérios e são muitos. Eles não alguns dos mais brilhantes esta- gerações no comando da política
serão resolvidos facilmente ou em distas nos últimos séculos. norte-americana. Sem dúvida, ao
um curto período de tempo. Mas Numa eleição marcada pela buscar espelhar-se em Abraham
saiba disso, América: eles serão imprevisibilidade, custos elevados, Lincoln, que assumiu em con-
resolvidos!” guerras e uma crise financeira dições muito adversas, pode-se
Barack Hussein Obama jamais vista, a ascensão do esperar uma presidência que, de
Presidente Barack Obama é um algum modo, nasceu sob enor-
om estas palavras assumiu acontecimento ímpar na história mes desafios, domésticos e inter-
C Barack Hussein Obama a dos Estados Unidos e do mundo. nacionais, mas que, acertando na
presidência dos Estados Unidos da Negro, jovem, dotado de enorme receita, também poderá deixar um

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 15
Matéria de Capa

legado como poucos de seus pre- liberdade e dos mais altos valores requerido para que o efeito de
decessores tiveram a oportunidade da sociedade contemporânea, determinadas políticas e soluções
de fazê-lo. devido à exacerbação de uma seja sentido. O trabalho de res-
Barack Obama é um homem postura unilateral, baseada no tauração de imagem, assim como
do seu tempo. Seu talento como pressuposto da sua hegemonia a resolução da crise financeira
estudante de Direito em Harvard, absoluta no sistema internacional. dos Estados Unidos, tomará,
ativista social e político, além de Maior desafio que esses, somente seguramente, muito mais tempo
sua percepção em conduzir uma os enfrentados por Abraham do que um ou dois mandatos.
campanha moderna utilizando Lincoln durante a Guerra de Se- O Governo Obama tenderá a
todas as formas de comunicação cessão, e Franklin D. Roosevelt, ser um governo mais voltado aos
atualmente existentes, fez com durante a Crise de 1929 e a II assuntos domésticos, com uma
que ele, de modo combativo, Grande Guerra, mas sem o fator vocação mais internacionalista na
derrotasse, num primeiro mo- da deteriorada imagem dos retórica e menos na prática. Em
mento, a Senadora Hillary Rod- Estados Unidos como parte da razão dos enormes desafios
ham Clinton, tida quase que equação. enfrentados pela sociedade norte-
como coroada na candidatura do americana, a resolução de
Partido Democrata, em razão não problemas históricos, assim como
só do talento, mas também por
ocupar o noticiário político há
mais de duas décadas, seja por
“ Três dos membros
do Gabinete do
Presidente Obama
algumas dívidas sociais, como a
questão da igualdade de direitos
das minorias, acesso à saúde e
seu trabalho no Senado repre- seguridade social, acumulada da
sentando o Estado de Nova vêm do Partido questão do terrorismo, certa-
Iorque, seja por suas várias ati- Republicano. Isso, mente dominará a agenda política
vidades – exitosas ou não – como porém, conforme para assegurar, em 2012, uma
Primeira Dama, durante o tempo evidenciado nas possível reeleição. Além da obten-
em que o Presidente Bill Clinton negociações ção da maioria na Câmara de
estava no comando dos Estados Deputados e no Senado, a go-
Unidos. Depois de um enorme e
iniciais com o vernabilidade interna tem sido
incansável embate com Hillary Congresso para o buscada com a nomeação de
Clinton, foi a vez, já na reta final, Pacote Econômico, membros do Partido Republicano
de vencer o renomado e com- não implicará um para o Gabinete, a fim de
bativo Senador Republicano, John cheque em branco estender um sinal de paz parti-
McCain, do Estado do Arizona, para a nova dária para atingir os objetivos que
um herói de guerra e um dos
políticos mais articulados. Com
a vitória, o Presidente Barack
administração.
” tanto o país necessita. Três dos
membros do Gabinete do Presi-
dente Obama vêm do Partido
Obama, finalmente, tornou-se o Republicano. Isso, porém, con-
centro das atenções, liderando, Em razão de tamanhos desa- forme evidenciado nas nego-
ainda, um período tranquilo de fios, criou-se uma expectativa ciações iniciais com o Congresso
transição entre as “duas Casas quase messiânica em relação ao para o Pacote Econômico, não
Brancas”. Presidente Barack Obama. Em implicará um cheque em branco
Os desafios a serem enfren- uma das muitas propagandas para a nova administração.
tados pelo Presidente Barack eleitorais apresentadas por John Para o fronte externo, a no-
Obama são enormes: duas McCain, ao então candidato meação da arqui-rival, Hillary
guerras (Iraque e Afeganistão) Obama se dava jocosamente o Clinton, sinaliza o fato de que o
ainda não vencidas ou sequer apelido de “The One”, ou seja, novo Chefe do Poder Executivo vê
solucionadas, turbulências na “O Único” ou, como nós brasi- na Senadora Clinton um papel de
Palestina, Índia e Paquistão, a leiros diríamos: “O Cara!” “Primeira Ministra”, com respon-
questão nuclear do Irã, o ter- Obviamente que assumir a sabilidade primordial pela agenda
rorismo internacional, a maior Presidência debaixo de tamanhas externa, numa formatação de
crise financeira da história expectativas também será a causa governo raramente experimen-
mundial, a desvalorização do de frustrações ainda maiores, não tada nos Estados Unidos, com
dólar norte-americano como re- somente em razão da impos- uma maior, porém ainda leve,
serva de valor e – o pior de tudo – sibilidade humana de atender a preocupação multilateralista. O
a deterioração da imagem dos todas as necessidades, mas grande legado, na política ex-
Estados Unidos como bastião da também pelo lapso de tempo terna, por certo residirá na busca

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 16
Matéria de Capa

O Governo Obama tenderá a ser um governo mais voltado aos assuntos domésticos.

de uma solução efetiva para al- lidade política de Venezuela, mesmo a possibilidade de au-
guns conflitos que se têm provado Equador e Bolívia; iii) o narco- mentar o turismo, porém a política
perenes na história universal tráfico na Colômbia, e (iv) a do embargo não deverá sofrer
recente, antes mencionados. A energia, seja renovável ou não, no grandes alterações.
agenda externa norte-americana caso do Brasil. É importante O que se pode afirmar quanto
será dominada pelos assuntos ressaltar que a ascensão do Brasil à política do Presidente Barack
tradicionais, particularmente com como potência hegemônica regio- Obama é que, no tocante à Amé-
foco na Ásia, que se tem trans- nal se torna cada vez mais rele- rica Latina, ela deverá continuar
formado nos últimos anos no vante, independentemente do rendendo muito mais “opor-
grande pólo exportador dos pro- alinhamento do Brasil com a tunidades fotográficas” e retórica
dutos consumidos pela população Venezuela em algumas posições do que políticas efetivas, o que
norte-americana e uma eventual políticas e regionais. certamente obrigará a América
contestadora no tabuleiro mun- Não se antevê, portanto, uma Latina a prosseguir baseada,
dial do balanço de poder, com a grande modificação na agenda quase exclusivamente, no seu
ascensão econômica ainda maior norte-americana na região. A próprio esforço.
da China (o contestador) e a Índia política dos Estados Unidos, que No tocante ao Brasil, a questão
(o desafiador amigável). na maior parte do século XX os- do comércio certamente ficará
Haverá, evidentemente, maior cilou entre um intervencionismo um tanto travada, não tanto pelo
protecionismo em razão de o militar ou político e certa condes- espírito de cooperação dos países,
Partido Democrata ter um claro cendência, como, por exemplo, a mas principalmente pela agenda
viés nesse sentido, devido à sua Aliança para o Progresso, do democrata, particularmente num
base eleitoral composta de elei- Presidente John Fitzgerald Ken- cenário de crise econômica, em
tores advindos dos sindicatos, o nedy, tem tratado a América que a proteção da indústria na-
que necessariamente influenciará Latina com relativa negligência, cional será preponderante frente
a administração no sentido de não nas últimas décadas, particu- a uma agenda de maior inte-
ser tão ativa na busca de novos e larmente neste início do século XXI. gração econômica. Diferen-
grandes acordos comerciais, com Assim, o livre comércio, per- temente do Partido Republicano,
o respectivo impacto na força seguido por Bill Clinton e George que é mais liberal nas questões
laboral norte-americana. W. Bush, não terá um papel tão comerciais, o Partido Democrata,
No que tange à América premente na agenda, e questões em razão de suas bases, não vê o
Latina, não se vislumbram no políticas históricas, como o caso livre comércio como uma política
horizonte próximo modificações de Cuba, permanecerão sus- essencial. Logo, a tributação das
profundas na agenda da região, pensas. Claro que, no caso de commodities de maior interesse
girando, basicamente, em torno Cuba, até a saída da Família pelo Brasil não deverá sofrer
de quatro grandes temas: i) a Castro do Poder poderão ocorrer grandes alterações.
questão da imigração no México algumas alterações no tocante à Agora, é equivocado crer
e na América Central; ii) a instabi- remessa de capitais ou até que a questão da tributação das

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Matéria de Capa

commodities é tema exclusivo da regimes do Oriente Médio e militares. É hora de reverter esse
pauta do Poder Executivo. Trata- outras partes do mundo. A coo- quadro. Na hora em que come-
se de uma questão a ser bata- peração entre o Brasil e os çarmos a explorar esses reser-
lhada nos halls do Congresso Estados Unidos deverá ocorrer, vatórios certamente haverá a
Americano, com uma intensa primeiramente, na questão da questão da pirataria, da proteção
atividade de lobby de governo a captação dos recursos neces- da costa e mesmo a possível
governo e do setor privado sários para explorar a área questão do terrorismo infiltrado
utilizando os mecanismos exis- descoberta. Prevê-se a neces- para destruição das plataformas
tentes para influenciar a agenda sidade de aproximadamente US$ de exploração. Se, atualmente,
legislativa do país. Recordo-me, 400 bilhões para desenvolver a tais questões não constituem uma
em razão do meu trabalho na área de pré-sal nos próximos 10 preocupação, a partir do mo-
área de assuntos governamentais anos, conforme cálculos apresen- mento em que começar a jorrar o
de uma empresa petrolífera em tados pela própria Agência ouro negro em maior abundância
Washington, DC, o quão intensa- Nacional de Petróleo (ANP). Isso será uma conseqüência natural.
mente os países asiáticos se O reaparelhamento efetivo de
utilizavam dos serviços de em- nossas forças militares e o
presas de lobby dentro daquele


desenvolvimento de táticas an-
Congresso para buscar a imple- O momento, ao titerroristas, particularmente na
mentação de suas agendas questão da proteção dos recursos
comerciais, inclusive com resul-
mesmo tempo que minerais em alto mar, serão
tados altamente positivos, como é desafiador, é relevantes na agenda do relacio-
no caso das quotas então exis- também histórico. namento com o Governo Obama.
tentes para produtos têxteis. Uma parceria É importante ressaltar que o
A agenda do Brasil com a renovada entre o impacto dessas explorações
Administração do Presidente certamente afetará profunda-
Barack Obama certamente terá Brasil e os Estados mente o nosso programa de
alguns elementos mais pontuais, Unidos é, portanto, etanol. A cooperação no sentido
como, por exemplo, a questão essencial para que de buscar incrementar a questão
energética no segmento dos os dois países da energia limpa e do aqueci-
renováveis e a potencialidade do mento global é essencial para o
Brasil como exportador de pe- transformem o programa do etanol, à medida
tróleo, particularmente quando se século XXI no século que o preço do petróleo cair
tornar mais ampla a exploração
da camada pré-sal.
Nesse caso, é mister afirmar
das Américas.
” internacionalmente para não ser
descartado ou diminuir o ritmo de
desenvolvimento. Necessária será
que o pré-sal deverá alterar o maior cooperação entre os dois
status do Brasil no tabuleiro do se deve ao fato de que a profun- governos para maximizar a
balanço de poder internacional. didade transforma o processo pesquisa quanto à eficiência do
Esses reservatórios, localizados numa exploração ainda cara. biodiesel, do etanol e até mesmo
em camada de sal entre o Espírito Esse montante, numa época de do pré-sal, para melhor explorar
Santo e Santa Catarina, com crise financeira, parece ainda tais recursos de um modo com-
aproximadamente 800 quilô- maior. Também outra área em que petitivo e com elevado nível de
metros de extensão e 200 quilô- poderemos melhorar a nossa pesquisa científica.
metros de largura, numa profun- cooperação é na questão do É difícil ainda prever como será
didade de até 4 mil metros, terão marco regulatório do segmento a Administração Obama. O mo-
enorme impacto no papel que o petrolífero, a fim de assegurar, mento, ao mesmo tempo que é
Brasil desempenhará no cenário tanto ao governo quanto às desafiador, é também histórico.
internacional nos próximos anos. empresas interessadas na explo- Uma parceria renovada entre o
O Brasil, atualmente o 8º ração, o sucesso do retorno Brasil e os Estados Unidos é,
exportador de petróleo cru para financeiro do investimento. portanto, essencial para que os
os Estados Unidos, deverá repre- Outra área de cooperação que dois países transformem o século
sentar um elemento importante na deverá ocorrer, necessariamente, XXI no século das Américas. O
questão da segurança energética é a questão da segurança militar Brasil e os Estados Unidos têm um
daquele país, sendo, certamente, da exploração dos recursos. Por rendez--vous com a história, en-
preferível lidar com o Brasil a anos o Brasil tem decrescido os frentando e resolvendo os desa-
enfrentar a instabilidade dos seus investimentos em gastos fios presentes e futuros.

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 18
Entrevista

O Brasil e seus vizinhos


com Renato Flôres
Professor de Economia da Escola de Pós Graduação em Economia da FGV

anco de Idéias: A aliança importantíssimos e que têm que


B que o Brasil estabeleceu na estar do nosso lado. Uma coisa é
América do Sul com países como Venezuela, Bolívia, Equador e
a Venezuela, Equador e Bolívia Peru; outra, os seus atuais gover-
tem criado problemas para o nantes. E aí, sob esse ponto de
Brasil. O Sr. poderia caracterizar vista, eu aprovo a estratégia bra-
os custos e benefícios dessa sileira, ainda que em nível de
nossa parceria com esses países? detalhes se possa fazer críticas.
Acho que é errado negar os
Renato Flôres: Eu acho que custos, mas acho que, em termos
os problemas são inevitáveis, de tendência e de opção política,
porque o Brasil fez alianças com é importante e válida.
sociedades que estão todas elas
(Equador, Bolívia e Venezuela) em B.I.: Entre os custos que apa-
processo de transição. Já o Brasil, rentemente a estratégia nos
hoje em dia, é um país emer- trouxe, a Petrobras teve as suas
gente, em um estágio muito dife- refinarias e reservas de gás e
rente do dessas três sociedades.
É um país que tem empresas
multinacionais, com interesses em
“ Uma coisa é
Venezuela, Bolívia,
Equador e Peru;
petróleo na Bolívia encampadas,
e há dúvidas a respeito da justa
indenização à Petrobras, que é
investimentos diretos estrangeiros propriedade dos brasileiros.
em outros países. Obviamente, outra, os seus atuais Metade da Petrobras pertence a
interesses maiores quanto menos governantes. E aí, pessoas físicas e a pessoas jurí-
desenvolvido for o outro país; sob esse ponto de dicas brasileiras. Então, mais da
possíveis investimentos diretos na metade do capital votante, mas
Alemanha são reduzidos, mas o
vista, eu aprovo a do capital não-votante a maior
potencial de investimentos para estratégia brasileira, parte pertence não ao estado,
nós no Equador, na Bolívia e na ainda que em nível de mas ao setor privado brasileiro.
Venezuela é muito grande. detalhes se possa O Sr. acha que o Brasil fez bem


Acho que os custos até o mo- fazer críticas. em contemporizar e buscar uma
mento, primeiro, eram inevitáveis, linha de entendimento, como fez
segundo, farão sempre parte do com o Equador, aparentemente
processo. Não sei o que vai acon- de forma bem-sucedida? No
tecer com essas três sociedades. tatividade da população indígena caso da Bolívia, será que foi
Como disse, são sociedades em - que o Sr. Morales representa também adequado não levar a
transformação. legitimamente, e que era uma “ferro e a fogo” a mediação
Os regimes que antecederam coisa que tinha que ocorrer - e a conforme o contrato previa, ou
os atuais governantes não foram, população não-indígena, de deveríamos ter sido mais duros,
em geral, flor que se cheire. Os origem espanhola e outras ori- porque muitos acham que se
atuais governantes, e aí eu gens, inclusive brasileiros, que formos excessivamente soft com
particularizaria mais o caso de detém parte do capital do país. os vizinhos eles vão se aproveitar
Hugo Chávez, que está cada vez Esses acertos sociais devem dessa condição e nós vamos
mais dando sinais de querer uma evoluir e encontrar o equilíbrio em acabar tendo mais custos do que
continuidade excessiva, eu os algum momento. Que não vai ser benefícios?
considero como elementos tam- nem como o passado e provavel-
bém de transição. Espero que mente nem como sob os atuais R.F.: Sem dúvida, não sou
essas sociedades acabem encon- governantes. Os custos estão aí. favorável a uma atitude com-
trando o equilíbrio adequado a Os benefícios, eu acho que são pletamente franciscana. E tam-
cada uma. A Bolívia precisa de um imensos; são países vizinhos e bém não queria entrar no detalhe
equilíbrio entre a represen- detentores de recursos energéticos contábil da questão boliviana.

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 19
Entrevista

Não tenho dados precisos, so- alemão, configuraria situação dência a nossa volta, que começa
mente uma avaliação impres- totalmente diversa. Economia na Argentina, passa pela Bolívia
sionista de custos e benefícios ocidental de ponta, com grandes e segue pelo Peru, vai para o
dessa questão, e acho que deve investimentos no Brasil, sociedade Equador, do Equador pula a Co-
até ter havido um prejuízo para a amadurecida e modelo de pro- lômbia, vai para a Venezuela e
Petrobras, como companhia. cedimentos internacionais, teria agora essa grande incógnita do
Agora, eu queria ressaltar três feito um gesto que necessitaria Paraguai, de governos populistas.
pontos. O primeiro é que, no caso profundas explicações e poderia Qual é a sua avaliação dessa
específico da Bolívia, temos uma desencadear todo um outro con- fase? Isso é um evento neces-
moeda de barganha muito forte junto de medidas. sário nessa transição? Porque,
e a usamos decentemente. Somos No caso do Equador, como foi claro, isso é uma demanda da
os grandes compradores do gás citado, acabou sendo, digamos, maior parte das populações
da Bolívia. Se reduzimos as nossas bem-sucedida a nossa reação. desses países. Isso de alguma
compras a 50%, criamos um Porque temos a faca e o queijo, maneira nos contagiará? Qual é
abalo na economia boliviana. No tanto em relação ao Equador a sua visão sobre esse quadro?
final do ano passado houve essa quanto em relação à Bolívia. E até
ameaça: sinalizamos para a Bolí- extrapolando um pouco, com R.F.: Não creio que nos con-
via que temos esse poder. E a relação à Venezuela. tagie, não. Eu diria a você que
Bolívia está começando a enten- Eu cito o caso da refinaria de não estamos 100% imunes, mas
der um pouco toda a lógica dessa Pernambuco. O Presidente Chá- aos trancos e barrancos a socie-
situação. Acho que o Sr. Morales, vez esteve lá, com capacete de dade brasileira evoluiu. Estamos
que é uma pessoa que respeito, operário, com o Presidente Lula; num estágio diverso daquele em
no início quis dar uma satisfação lançaram a pedra fundamental e, que estão esses vizinhos. O es-
a seus eleitores – como dizem os até agora, a PDVSA não colocou tágio por que estão passando é
americanos, às suas constituen- um níquel para a construção da necessário. Só para dar um pe-
cies. Hoje em dia, amadureceu; refinaria. Nosso governo, esse queno exemplo: quando da inde-
tem consciência de que deve con- ano, decidiu unilateralmente pendência da Bolívia foi colocado
tinuar a dar satisfação aos seus iniciar a construção, com ou sem em sua Constituição que as po-
eleitores, mas tem que cuidar de a PDVSA. Se a PDVSA vier a se aliar pulações indígenas tinham os
onde vêm as receitas de seu país. ao investimento, ótimo, senão, mesmos direitos da população
Então, na situação boliviana, temos quantidade suficiente de criolla, dos brancos, por assim
deixando o ponto que talvez petróleo para ser refinado lá, e o dizer. E que tais direitos seriam
poderíamos ter extraído um pouco investimento continuará. regulamentados na aprovação
mais no ajuste de contas, não Então, um pouco de leniência, dessa Constituição. Essa regula-
acho a nossa atitude totalmente eu não sou desfavorável. Agora, mentação nunca ocorreu. Então,
condenável, não. um pouco de leniência, de gene- esses Estados têm dívidas cen-
Segundo, ela tem um lado po- rosidade, não quer dizer frouxidão tenárias com porcentagens signi-
sitivo: é importante manter uma nem uma atitude franciscana, ficativas de sua população.
boa relação com a Bolívia, e mais, com as quais não concordo. O Equador, para dar um
não deixar a Bolívia se fragmentar. exemplo um pouco diferente, em-
Esse é um ponto que as pessoas B.I.: O Sr. mencionou o fato bora problema semelhante exista,
esquecem. É fundamental o Es- de que esses países estão em mas não tão agudo como na
tado boliviano ter preservada a transição. São sociedades de Bolívia, é um país razoavelmente
sua unidade. E isso é do nosso enorme complexidade. Esses rico e bem dotado de recursos
interesse. Qualquer ação que países andinos têm um conflito de naturais, mas há um conflito
desestabilize mais o frágil Estado culturas muito acirrado. Há, de eterno entre Quito e Guayaquil,
boliviano pode ter um custo mais um lado, uma maioria da popu- de origens econômicas, que tem
tarde, inclusive com interferências lação que tem raízes e valores que ser solucionado com o pro-
estrangeiras na região, muito alto. tribais, e há uma minoria de pes- gresso. O comércio internacional
Se a gente pensa por esse lado, soas que têm uma mentalidade aí pode aportar uma ajuda,
até o momento a atitude do Brasil moderna, capitalista. Então, é mediante uma enorme melhoria
é razoável. Finalmente, há dife- natural que haja uma série de da infra-estrutura no país. O
rentes pesos e medidas no trato conflitos de todas as espécies não Equador é um país pequeno, com
internacional. Se a refinaria esti- só econômicos, mas em todas as uma infra-estrutura de qualidade
vesse na Alemanha – admitamos outras manifestações sociais, de muito baixa.
esse faz-de-conta -, e fosse subi- toda a cultura, até a política. Nós São desenvolvimentos que me
tamente encampada pelo exército observamos que há uma ten- parecem inevitáveis. Ora, como

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 20
Entrevista

eles são nossos vizinhos e as nos- com os EUA, diria que, a curto/ Eu não consigo nem ordená-lo.
sas economias estão ligadas, médio prazos, nada mudará. Não é o 5º, o 6º, o 7º nem o
porque, há que ressaltar, a co- As razões são várias: a pri- 8º. Ou seja: mudanças, não vejo
meçar pela Venezuela, são mer- meira, que é muito irônica, é que nenhuma.
cados importantíssimos para nós em que pese o fato de o ministro A secretária Hillary Clinton já
hoje em dia, e que, numa pers- Mangabeira ter sido professor do declarou com relação à América
pectiva de médio/longo prazos, atual presidente e que este lhe Latina que vão continuar mais ou
serão parceiros fundamentais tenha respeito, e com ele man- menos a política atual. Vão tentar
numa racionalização de uso de tenha uma boa relação, a química dar algum acerto em Cuba, que
recursos ambientais e numa estra- “Bush x Lula” era ótima. A per- já é para eles um problema
tégia de integração energética, gunta que faço é: será que a menor, mas que tem coisas
que em algum momento se dará, química “Obama x Lula” será tão delicadas, porque achei infeliz, se
então é inevitável que parte dos boa quanto? Não sei. Tenho não houve engano na notícia que
spillovers dos custos dessa tran- dúvidas. Segundo, o presidente li, a Sra. Clinton dizer que a ques-
sição caia sobre nós. Vamos ter Obama encontrará uma agenda tão de Cuba seria administrada
que arcar um pouco com eles. complexíssima. Como todos nós pelos cubanos de Miami. Os
sabemos, a primeira parte dessa cubanos de Miami querem
B.I.: Já que o Sr. tocou nesse agenda é uma agenda doméstica vendeta, será uma má forma de
aspecto do comércio interna- nada fácil, pelo menos até o ano conduzir a questão. Claro que eles
cional, a eleição do Presidente que vem. Na parte internacional terão que ter voz na solução, mas
Barack Obama está provocando ele tem problemas candentes. No que conduzam o processo eu
uma série de questões sobre Oriente Médio, na África – acho infeliz. E, no resto, conti-
mudanças. O que pode mudar Zimbábue, Somália, na Europa – nuará normalmente a política
em relação à atitude dos EUA Rússia, Ucrânia, Geórgia. Essas norte-americana.
com relação à América Latina e potências que o presidente Então, eu não vejo nenhuma
em que nós podemos nos bene- sinalizou que teria o interesse em mudança a curto/médio prazos
ficiar e não sermos prejudicados uma relação mais distendida, nas relações entre os EUA e Brasil.
com esse novo governo Obama? como o Irã e a Coréia do Norte. Fora uma viagem simpática, uma
A questão do Paquistão, de tentativa de identificação. Porque
R.F.: Olha, eu era simpático à grande complexidade. A própria química não se cria. Quer dizer
vitória de Obama e continuo Índia, que teve um apoio na então que o Obama vai tentar se
sendo. Espero que o novo pre- administração Bush, que depois se identificar com o Lula, como sendo
sidente traga boas coisas e uma demonstrou contraditório e gerou dois que vieram de baixo ? Mas a
imagem muito positiva para a conflitos internos no país. As química do Bush, que não veio de
nação americana. Para o caso relações com a China... ou seja: baixo como o Lula, penso, sempre
específico das nossas relações qual é o nosso lugar nessa agenda? será muito maior.

O Brasil fez alianças com sociedades (como Argentina, Equador, Bolívia e Venezuela) que estão em processo de transição.

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 21
Entrevista

E na questão do comércio? cáveis do Presidente Chávez. Há mente, maus eventos na Argen-


Todos, desde o presidente até a uma luta pelo poder, o PT deseja tina e, isso sim, embora estejamos
secretária já foram claros que continuar no poder, mas as seme- mais blindados, vai nos causar
questões vergonhosas, embora, é lhanças com o Presidente Chávez problemas.
claro, complexas, como o sub- não são grandes. Claro que a nossa cena polí-
sídio ao milho, o ridículo etanol Você, infelizmente, citou algo tica é muito criticável sob vários
norte-americano extraído do que eu não queria mencionar: a aspectos, mas não vejo problema
milho, não vão mudar. Mas é Argentina. Em 2007, fazendo de Lulismo, e sim, muito temeroso,
inevitável que os EUA vão ter até previsões para 2008, eu esperava a evolução da Argentina e os
o ano que vem uma atitude muito uma crise argentina nos afetar. impactos que isso pode nos trazer,
mais protecionista, e como a Felizmente, isso não ocorreu em econômica e politicamente, e sob
rodada Doha não andará em 2008. Mas, em 2009 a possi- o ponto de vista internacional.
2009, o meu conselho é que
esqueçamos os EUA por um B.I.: Quando eu me referia a
tempo, porque de lá nada virá. idéia do Lulismo eu queria me

B.I.: Queria formular uma


questão de viés político: a Argen-
“ A questão do
Peronismo na
referir a idéia que, por exemplo,
na Argentina, todos os candi-
datos são peronistas. O assis-
tina até hoje vive do peronismo. Argentina é muito tencialismo virou uma bandeira
Quer dizer, Perón impôs uma complexa, argentina. A minha pergunta é se
pobreza aos argentinos na época o Lulismo, visto como assisten-
que ele governava que moldou transcende o real. cialismo, não vai virar uma
o país, que não conseguiu sair Tem essa coisa da bandeira brasileira também?
desse circuito. O Brasil está vi- mística peronista.
vendo da era Vargas, e o Var- R.F.: Não creio, não. Não
guismo predominou um largo Lula, ainda que creio, porque você tem até as
tempo. Provavelmente o Cha- carismático, não é declarações recentes do Ministro
vismo na Venezuela é uma coisa Perón, o Brasil não Mangabeira Unger criticando, e
duradoura, nós estamos vendo corretamente, aspectos negativos
agora ele agir como um ditador. tem alma argentina, do Bolsa Família, por exemplo. Há
Ele proclamou um feriado na vés- e não o vejo entrando uma consciência que tem que
pera e puniu as pessoas que não em transes haver um assistencialismo na
o cumpriram. Eu pergunto: que política pública brasileira e, honra
risco o Sr. vê num Lulismo no semelhantes de se faça, esse assistencialismo o
Brasil?

R.F.: No Brasil, não vejo muito


jeito nenhum.
” presidente Fernando Henrique já
o praticou, principalmente desde
o seu segundo mandato. Que o
risco. Haja vista essa última arru- assistencialismo entre no discurso
mação do Congresso. Já é sabido bilidade dessa crise é maior ainda. de todos os candidatos, vamos
que o Presidente Lula governa com Enquanto muita gente fala sobre dizer assim, é inevitável. Agora, se
o PMDB e não com o PT. Ele o problema equatoriano, boli- da forma como o presidente Lula
segura o PT e governa com o viano, venezuelano, eu acho que o vem praticando, aí já seria uma
PMDB. É claro que o Presidente, o problema na América do Sul, do outra pergunta, porque tem
um homem muito inteligente e um nosso ponto de vista, a grande aspectos saudáveis e outros
político de uma sagacidade extra- questão, é a Argentina. A Argen- menos. Acho que tal forma e/ou
ordinária, com quem todos deve- tina está mal, eu diria, muito mal. discurso não seriam generali-
ríamos aprender, lutará – o que é A Argentina tem uma habilidade zados. Não vejo esse risco, como
normal – pela sua sobrevivência encantadora de sobreviver na nós vemos na Argentina. A
de uma forma ou de outra; fantasia, e por artes difíceis de questão do Peronismo na Argen-
pessoalmente posso estar errado, serem explicadas pelas ciências tina é muito complexa, trans-
mas até por uma sucessão que normais da economia, da socio- cende o real. Tem essa coisa da
não seja tão ligada ao PT, para logia e da política. Mas, ela so- mística peronista. Lula, ainda que
permitir uma volta dele próprio brevive. Entretanto, nosso vizinho, carismático, não é Perón, o Brasil
depois, que espera “triunfal”. Eu mais uma vez, está esgarçando não tem alma argentina, e não o
não vejo de jeito nenhum seme- esse fio mágico que tem a capa- vejo entrando em transes seme-
lhanças com os atos mais criti- cidade de tecer. Antevejo, infeliz- lhantes de jeito nenhum.

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 22
Sociedade

Sistema de
Cotas
João Luiz Mauad
Administrador de empresas pela EBAP/FGV-RJ.
Trabalha na iniciativa privada, no ramo da
construção civil.

s ações afirmativas são normalmente


A explicadas ao público como medidas
temporárias, que visam a compensar
certas debilidades impostas pela opressão
racista ou pela desvantagem social. O
problema é que o discurso não espelha a
realidade em que elas, longe de redimir
desigualdades, são um instrumento
poderoso da divisão da sociedade em
classes e de concessão de privilégios, os
quais, no lugar de remediar conflitos
seculares, somente servem para recru-
descer preconceitos.
A discriminação contra pessoas por
razões de classe, gênero, cor da pele,
orientação sexual, credo religioso, etc. é
absolutamente real – inquestionável. Todos
os dias presenciamos com imenso pesar
as suas inúmeras manifestações, graças
a Deus menos ostensivas e mais enca-
buladas hoje do que eram no passado.
Porém, essa verdadeira chaga, há muito
fincada na dignidade da raça humana,
não será removida por atitudes hipócritas,
oportunistas e contrárias ao Estado de
Direito.
O alicerce do Estado de Direito nas
sociedades livres está no princípio
universal de que “todos os homens são
iguais por natureza e diante da lei”,
estampado no preâmbulo da Declaração
dos Direitos do Homem e do Cidadão, de
1793. Nossa Constituição de 1988 aco-
lheu esse preceito basilar em seu artigo
quinto, o qual textualmente estabelece:
“Todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza...” Mas
os constituintes de então não pararam
por aí. No Artigo 19, nossa Lei Maior pro-
clama ainda que “É vedado à União, aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Mu-
nicípios criar distinções entre brasileiros
ou preferências entre si”.Tal princípio é
de tamanha relevância para o arcabouço

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 23
Sociedade

institucional do país que o funções. Como os governos, em Embora francamente incons-


Ministro Celso de Mello, do seus diversos níveis, não con- titucional e contraproducente, a
Supremo Tribunal Federal, assim seguem prover um ensino básico reserva de vagas vem ganhando
se referiu a ele em acórdão: “Esse de qualidade, pretende-se operar, corpo no país. Segundo levanta-
princípio – cuja observância pela via legal, a mágica de ga- mento realizado pela Univer-
vincula, incondicionalmente, rantir o acesso às universidades sidade do Estado do Rio de Ja-
todas as manifestações do poder públicas daqueles cuja boa neiro (UERJ) e publicado na
público – deve ser considerado, educação foi obstaculizada pela revista Veja, 18 das 35 (cerca de
em sua função precípua de incompetência do próprio Estado, 51%) universidades estaduais e 22
obstar discriminações e de independentemente do mérito ou da 53 (cerca de 42%) das fede-
extinguir privilégios, sob duplo das qualificações. rais de todo o país já adotavam,
aspecto: (a) o da igualdade na até 2007, algum tipo de “ação
lei e (b) o da igualdade perante afirmativa” que privilegiava negros


a lei. A igualdade na lei ... ou indígenas por meio de cotas
constitui exigência destinada ao Definitivamente, ou bonificações no vestibular.
legislador que, no processo de Já de acordo com o portal de
sua formação, nela não poderá
a universidade notícias G1, de um total de
incluir fatores de discriminação, não é lugar para 128.368 vagas oferecidas nos úl-
responsáveis pela ruptura da demagogia. Nela timos processos seletivos de 55
ordem isonômica. A igualdade só deveriam instituições federais de ensino
perante a lei, contudo, pressu- superior, 17.708 são destinadas
pondo lei já elaborada, traduz estar aqueles às cotas, o que representa 13,8%
imposição destinada aos demais que realmente do total das vagas. Essa taxa
poderes estatais, que, na apli- demonstrassem de reserva de vagas para can-
cação da norma legal, não didatos socialmente carentes,
poderão subordiná-la a critérios condições afrodescendentes ou indígenas,
que ensejem tratamento seletivo intelectuais para seria ainda, no entanto, bem
ou discriminatório. A eventual frequentá-la. inferior à pretensão demagógica
inobservância desse postulado de certos políticos, tanto que
pelo legislador imporá ao ato Capacidade inte- tramita no Congresso, com boas
estatal por ele elaborado e pro- lectual independe chances de ser aprovado, um
duzido a eiva da inconstitucio- da cor da pele ou projeto de lei (PL 73/99) cujo


nalidade.” 1 objetivo é determinar que as
Nos Estados Unidos, onde a da condição social. universidades públicas reservem
famigerada ideia foi motivo de nada menos que 50% das suas
intenso debate, por decisão da vagas para as ditas minorias.
Suprema Corte as cotas são Se, por um lado, o remédio das
proibidas desde 1978, seja em Essas políticas são usadas para cotas deixa clara a incompetência
universidades ou no preenchi- passar a imagem de que o go- dos governos, por outro fornece
mento de cargos públicos. Polí- verno está preocupado com a munição aos arautos da luta
ticas de incentivo, como bolsas de questão da educação, mas pas- de classes em sua cruzada ideo-
estudo e financiamentos a custo sam ao largo do problema pri- lógica. Por trás das boas inten-
reduzido, são permitidas, mas mordial da educação pública, que ções, redentoras e politicamente
nada parecido com cotas raciais, é a má qualidade do ensino básico corretas, esconde-se, na maioria
pelo simples fato de que ferem o e fundamental. São políticas de das vezes, a pretensão de dividir
princípio da isonomia. custo zero (almoço grátis?), que para dominar. A excessiva regu-
Além de manifesta e insofis- só maquiam o problema. Como lamentação das relações sociais,
mavelmente inconstitucional, as iniciativas desse tipo não não raro voltada a resolver con-
como se lê acima, as leis que produzem aumento de vagas nas flitos muitas vezes inexistentes,
estabelecem cotas nas univer- universidades, no fim das contas acaba sempre gerando animosi-
sidade públicas brasileiras de- alguns estarão sendo beneficiados dades reais. É assim com as
monstram de forma cabal a mais à custa de outros. Os jovens bran- questões raciais, sexuais e outras
total e absoluta incapacidade do cos de classe média baixa são pro- oriundas da dogmática luta de
Estado para o exercício de suas vavelmente os mais prejudicados. classes.

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 24
Sociedade

De acordo com a procuradora


Roberta Fragoso Kaufman, autora
do livro “Ações afirmativas à
brasileira: necessidade ou mito?”,
a adoção de cotas estimula a
discriminação racial e social por
parte daqueles estudantes que
tiveram o acesso nas universi-
dades públicas dificultado em
razão das reservas de vagas. Em
recente entrevista, ela foi ca-
tegórica: “Vivemos em uma so-
ciedade onde o preconceito não
é escancarado. Os racistas têm
vergonha de dizer que o são.
Conseguimos superar a escra-
vidão sem ter uma sociedade
com ódio racial. Implementar a
raça como fator de segregação
pode acabar com esse frágil equi-
líbrio”.2
É um absoluto disparate criar É um absoluto disparate criar diferenças entre humanos baseadas na coloração da pele.
diferenças entre humanos ba-
seadas na coloração da pele. Ao demonstravelmente falso. Esta é Definitivamente, a universidade
exigir, por exemplo, que certidões a grande fraude de nossos tem- não é lugar para demagogia.
de nascimento, carteiras de iden- pos. Nenhum outro assunto es- Nela só deveriam estar aqueles
tidade e outros documentos teve tão impregnado de de- que realmente demonstrassem
informem a “raça” de seu por- sonestidade intelectual e secta- condições intelectuais para fre-
tador, visando a futuro benefício, rismo ideológico, ultimamente, quentá-la. Capacidade intelectual
como prevê o Estatuto da Igual- que o sistema de cotas nas uni- independe da cor da pele ou da
dade Racial, se está, na prática, versidades públicas. A maioria condição social. Tratar negros,
institucionalizando a segregação dos defensores das ações afir- índios e pobres como se fossem
racial. mativas não é suficientemente menos capazes do que os demais
Onde quer que isso tenha sido honesta nem mesmo para ad- é, acima de tudo, uma grande hu-
feito antes, ainda que com fun- mitir que estamos diante de po- milhação. As reservas de vagas
dadas justificativas e as melhores líticas de privilégios, embora to- condenam os próprios cotistas ao
intenções, os resultados foram os dos saibam que é exatamente vexame perante os colegas e à
piores possíveis, vide a tragédia disso que se trata.”3 inexorável futura discriminação no
nazista e o apartheid sul-africano. Além de inconstitucional e con- mercado de trabalho.
Thomas Sowell, pesquisador traproducente, o sistema de cotas
da Universidade Stanford e, por no Brasil também é absoluta-
acaso, negro, documentou em mente desnecessário, ainda que REFERÊNCIAS
seu livro “Ação Afirmativa ao implementado como medida
Redor do Mundo” o completo voltada a uma suposta “isonomia 1
STF, MI nº 58/DF, Tribunal Pleno,
fracasso das políticas afirmativas racial”. De acordo com dados da Rel. Min. Celso de Mello, DJ:
em todos os países onde foram Associação Nacional dos Diri- 19/04/1991, Seção I, p. 4.580.
adotadas. Sowell é taxativo: gentes das Instituições Federais de 2
Entrevista concedida à revista
“Quando uma política pública Ensino Superior, divulgados pela “Congresso em foco”, disponível em:
somente pode ser defendida com Revista Veja, em 2005 o número http://congressoemfoco.ig.com.br/
mentiras e meias-verdades, há de negros nas universidades fe- NoticiaPrint.aspx?id=22442
alguma coisa fundamentalmente derais correspondia à sua parti- 3
Artigo do autor, disponível em:
errada com essa política. Vir- cipação na população brasileira, h t t p : / / w w w. c a p m a g . c o m /
tualmente cada argumento em que era de aproximadamente 6%, article.asp?ID=2637.
favor das ações afirmativas é segundo a PNAD/2005 do IBGE.

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 25
Livros

A origem do Fed
Resenha do livro The Case Against the Fed, de Murray Rothbard, Ludwig von Mises Institute - 1994.

maioria das pessoas assume


A como certa a necessidade de
inflacionários. Para Rothbard, isso
é análogo ao ladrão que começa
existência de um banco central. a gritar “Pega, ladrão!” e corre
Poucos questionam sobre as suas apontando o dedo para os outros.
origens. O economista Murray Na verdade, o governo não é o
Rothbard foi uma rara exceção. Em único agente capaz de criar
The Case Against the Fed ele conclui inflação. Os bancos podem obter
que o banco central americano o mesmo resultado através do
deveria ser extinto. Em sua opinião, crédito. Os bancos desfrutam do
a própria criação do Federal poder de multiplicação monetária
Reserve foi o resultado de um pode- através do crédito sem lastro em
roso cartel de bancos tentando se reservas. Os bancos assumem o
proteger de saques e objetivando compromisso de pagar seus depó-
manter a capacidade de expandir sitos imediatamente, mas não são
“indefinidamente” o crédito. Da capazes de honrar esse compro-
simbiose entre governo e grandes misso com todos os depositantes.
banqueiros nasceria o poderoso Isso seria ilegal com todos os outros
instrumento de gerar inflação e bens, menos com o dinheiro. E Morgan e Rockfeller, estavam por
redistribuir renda. quanto mais os bancos emprestam trás dessa demanda pela criação
O aumento nos preços dos bens em cima de seus depósitos, maior de um banco central. A crença de
é uma consequência da inflação, o risco de uma repentina perda de que os próprios banqueiros dese-
pois a maior oferta de moeda leva confiança e uma corrida bancária. javam um regulador para limitar sua
a uma queda relativa no seu valor. Por isso há o interesse em formar liberdade por puro altruísmo parece
O público não tem o poder de criar um cartel de bancos. bastante ingênua. Em 1913, os
mais moeda. Somente o governo, Juntando a fome do governo por banqueiros e intervencionistas
através do banco central, tem esse recursos com a vontade de comer venceram a disputa e o Federal
poder. Qualquer um que imprimir dos bancos, a criação de um banco Reserve System foi criado, com o
papel-moeda em casa é acusado central é o próximo passo natural. monopólio da emissão de moeda
do crime grave de falsificação. Para o governo, o banco central e a função de emprestador de última
Todos entendem que isso, se feito representa uma boa solução para instância. Desde então, os Estados
em grande escala, faria com que financiar seus gastos e déficits Unidos experimentaram períodos
os demais sofressem perda no valor através do “imposto inflacionário”, mais intensos de inflação e depres-
de suas rendas. Além disso, não é e para os bancos ele serve para sões mais profundas do que antes.
difícil perceber que o falsificador remover os limites da expansão de A crise atual nada mais é do que
transfere riqueza dos outros para ele crédito. A história mostra que a uma consequência desse modelo.
mesmo, pois quando os efeitos da origem dos principais bancos Alan Greenspan acabou se tor-
maior oferta de dinheiro forem centrais realmente esteve ligada a nando um dos principais respon-
sentidos ele já se apropriou dos bens esses interesses. O Bank of England, sáveis pela inundação de liquidez
comprados. por exemplo, foi criado para ajudar que permitiu o surgimento da bolha
A mesma lógica se aplica a financiar o grande déficit do que agora estourou. E, atualmente,
quando é o governo que cria mais governo com as guerras. Nos Ben Bernanke assumiu o controle do
moeda do nada. O resultado final Estados Unidos, os defensores de poderoso “templo”, disposto a
é a transferência de riqueza para um banco central sempre foram os esticar ainda mais os limites do Fed
os primeiros beneficiados com os herdeiros intelectuais de Hamilton, para salvar os bancos insolventes.
gastos financiados com o novo os mesmos que defendiam tarifas Ele conta com o entusiasmado apoio
papel. Logo, se a inflação crônica protecionistas e subsídios do de intervencionistas como Paul
é causada pela contínua criação de governo para indústrias nacionais. Krugman e, claro, dos próprios
mais moeda e se apenas o banco Tinha que haver uma forma de banqueiros. Que poupador pode
central tem o poder de emitir financiar isso tudo. se sentir protegido com um vigia
moeda, quem é o responsável pela O pânico de 1907 finalmente desses?
inflação? No entanto, todos acei- forneceu o pretexto conveniente
tam sem muita reflexão que o banco para os defensores de um banco
central é o vigia que vai proteger a central. O que Rothbard mostra é por Rodrigo Constantino, Economista
poupança de todos contra os males e escritor, com MBA em Finanças
que os grandes banqueiros, como

MAR/ABR/MAI - 2009 - Nº 46 26