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I

Direado

NO

de Luis- tfeAlbuquerque

Povoamento e colonização do Reino

de Portugal .lnicio dos descobrimen-

O avanço

tos maritimos portugueses. no Atlântico

Publicações

Alfa

Povoamento

e colonização

ALBERTO

VIElRA

da Madeira

À expedição

de Tristão

Vaz

Teixeira

e João

Gonçalves

no início

do século

xv

sucedeu

o

povoamento

do arquipélago,

por

iniciativa

do infante D. Henrique e dos seus capitães.

As bases institucionais

e económicas

criadas

no século xv

e sensivelmente

modificadas

no

primeiro

quartel

do século

XVI tornaram

possível

um grande

sucesso

económico

da Madeira

através

da produção

de pastel,

açúcar

e vinho,

produtos

circuitos

comerciais

que eram posteriormente

integrados

nos

 

europeus

 

o povoamento e o consequente pro- cesso de valorização económica da Madeira surgem, no contexto da expan-

são europeia dos séculos xv e XVI,como

o

primeiro ensaio de processos, técnicas

e

produtos

que serviram

de base à afir-

mação dos Portugueses no espaço atlân-

tico, continental e insular. Tal situação

resulta do facto de

primeira área atlântica a merecer o impacte da humanização peninsular. Enquanto nas Canárias tardava a pacifi- cação guanche e se esvaneciam as espe- ranças da posse henriquina, na Madeira

os cabouqueiros europeus iniciavam um

plano de exploração intensiva do solo virgem. Ao empenhamento dos tradicio- nais descobridores juntam-se os interes-

ses da coroa, do infante D. Henrique e

italiana sediada em Por-

tugal. Desta forma, quando nas Canárias

a Madeira ter sido a

da comunidade

se inicia, na década de 70, o processo de colonização das oito ilhas que compõem

o referido arquipélago, deixando para

trás um longo período de lutas sangui- nolentas, e quando nos Açores se inicia

162

uma fase de arranque definitivo do seu

povoamento com a colaboração

rense, a Madeira surgia já como um importante entreposto de comércio e de apoio à navegação. Essa situação terá

resultado das condições oferecidas por esta ilha, da conjuntura atlântica de então e do forteempenhamento dos promotores e principais protagonistas

do

na

década de 20 as bases sociais e económi-

cas daquilo

madei-

povoamento.

que

Aqui

será

se

lançam

como

definido

a

civilização atlântica,

cuja

expressão

quatrocentista

referência

e quinhentista

a Madeira.

tem como

A Madeira tinha a seu favor condições especiais propiciadoras dessa experiên- cia de povoamento. Ao invés, nos Aço- res, o temor dos sismos e vulcões e, nas Canárias, a presença autóctone não per- mitiram a rápida ocupação e valorização socioeconómica. Desta forma, o empe- nho das gentes e autoridades peninsula- res, aliado ao investimento e experiência italiana, contribuiu para que em pouco tempo na Madeira a densa floresta desse

lugar

mento. Em face do atrás enunciado, torna-se forçoso considerar que a acção lusíada na década de 20 se define por um pro- cesso de povoamento, e nunca coloniza- ção, pois estamos perante uma porção de terra inabitada cuja paisagem foi humanizada apenas com a entrada por- tuguesa. Além disso, a peculiaridade

desse processo de ocupação resulta em muito dessa situação de abandono em que se encontrava a ilha, o que permitiu o ensaio de técnicas, produtos e formas

a

extensas

clareiras

de

arrotea-

de

domínio

sem

qualquer

entrave

humano.

Os

resultados

desse

ensaio

foram de tal modo profícuos que o pio-

neirismo madeirense

evidência

peninsular,

expansão

lugar

tam-

da

só um

terá

no

mas

não

de

contexto

surgirá

bém

modelo

como

ponto

de

para as outras

referência

experiências

ou

de

povoamento

A maioria

circunscritos

que se seguirão.

dos

eruditos

madeirenses

à ilha ignorou

esta irrefutá-

vel realidade.

Mais uma vez a chamada

R

,

~

.

filo

~

,

"

f1

II1II

~

111

Aspecto da praia de Porto Santo, ilha do arquipélago da Madeira, separada da

extensão

ponta

de São Lourenço

por

uma

de mar conhecida

por «travessa», cujo

primeiro

capitão

do donatário,

Bartolomeu

Perestrelo,

ficou

célebre

porque, ao desembarcar, soltou

.]

aquela coelha com seus filhos para fazer criação, os quais em mui breve tempo

multiplicaram

tanto,

que lhe

empacharam a terra, de guisa que não podiam semear nenhuma cousa que lha eles não estragassem. E é muito para maravilhar, porque acharam que no ano

seguinte

deles muitos,

míngua; por cuja razão deixaram aquela ilha, e passaram-se à outra da Madeira .(Crónica dos Feitos da Guiné, Gomes Eanes de Zurara, capo LXXXII/). Na página anterior, Ribeira da janela, na costa norte da ilha da Madeira. Esta

que ali chegaram,

não fazendo

mataram

porém

região acidentada,

habitada

mas fértil,

do século

em meados

era já

XVI e

pertencia

à capitania

do Machico,

 

concedida

pelo

infante

D. Henrique

a

Tristão

164

Vazo

~-

de atenção partiu de fora, e tal processo

tem

investigadores nacionais e estrangeiros (Virgínia Rau e Borges Macedo, O Açú- car na Madeira nos Fins do Século XV,

Funchal, 1960, 9). As nossas preocupa-

a

tem estado

discussão das datas e nomes dos princi-

pais incentivadores e povoadores. Nesse domínio, duas questões teimam, ainda, em monopolizar a atenção dos eruditos

e investigadores:

mento, de reconhecimento e de ocupa- ção da ilha e a entidade que orientou o primeiro batalhão de cabouqueiros que nele se fixaram nos primórdios do seu povoamento. Não obstante a existência de provas irrefutáveis que indiciam o seu conhecimento na Antiguidade e a sua divulgação na cartografia do sé- culo XIV,só em princípios do século xv surgiu a necessidade de reconhecer e ocupar estas ilhas. A conjuntura penin- sular, aliada à disputa do arquipélago vizinho das Canárias, tornou esse empe- nhamento um dos principais imperati- vos da coroa portuguesa e da casa do infante. De acordo com as crónicas qua-

trocentistas e quinhentistas, esse pro- cesso ter-se-ia organizado de forma

nossa

ções historiográficas

e virada para a

cativado

o

empenho

de

muitos

são

caseiras

atenção

a data de descobri-

faseada a partir de 1419; Zurara refere quatro expedições à ilha antes que o infante ordenasse o envio dos primeiros colonos e clérigos para o arranque do seu aproveitamento. Se tivermos em consideração as condições técnicas e náuticas das referidas expedições, tere-

mos de atribuir

nhecimento

da sua ocupação. Todavia, os documen- tos, contrariando algumas versões dos cronistas, anotam a data de 1419 como de início do seu povoamento, enquanto o infante D. Henrique dá conta da sua intervenção a partir de 1425 [o infante D. Henrique, no seu testamento, datado de 1460 (Silva Marques, Descobrimentos

Portugueses, I, 580), refere: «comecei a

povoar XXXb anos». Em sentença de 20 de

Fevereiro de 1499(A. N. T. T., Cabido

da Sé do

Funchal, maço n.o 1) dá-se

conta que «podera bem aver oytenta annos que a dieta ilha era achada pouco mais ou menos e se comesara a povoar», sendo corroborado em 27 de Julho de

1519 por acórdão da Câmara do Funchal em que se dá conta do início do povoa- mento há cem anos atrás]. Assim, ao

quatro

anos para o reco-

cabal da ilha e para o início

a minha

ilha da Madeira avera

contrário

tas e eruditos,

do que apontam

alguns cronis-

do infante

a intervenção

D. Henrique surgirá apenas passados

de 1430, o mesmo infante recebe

o

seis anos

após

o

início

da

empresa

direito de usufruto

da rendas,

distribui-

madeirense, pois, conforme

opinião do

ção

de

terras

e

jurisdição

no

cível

e

infante, este só entrou em acção em

crime,

exceptuando-se

as

penas

de

1425(confronte-seJerónimo Dias Leite,

Descobrimento da Ilha da Madeira

morte, talhamento

gem de moeda (ibidem).

de membro

e cunha-

de

Este tipo

.j, Coimbra, 1947, 15). O apareci-

doação enquadra-se

dentro

do tipo

de

mento de um capítulo

da

carta

de

senhorios

 

existentes

no

Reino

que

D.João I de 1426, aliado à opinião de Francisco Alcoforado, Jerónimo Dias Leite e Gaspar Frutuoso, confirma essa

ções

foram regulamentados pelas Ordena- ções Afonsinas e Lei Mental (António Manuel Hespanha, História das Institui-

iniciativa da coroa no início do povoa-

[.

.

.j,

Coimbra,

1983, 282-301,

mento da ilha (A. N. T. T., Provedoria e

325).

junta

da

Real

Fazenda

do

Funchal,

A partir

de

1433

ficam

legitimados

f.

13, pl. 100; Gaspar Frutuoso,

Sauda-

juridicamente a posse e o governo da

des da Terra, Ponta Delgada, 1968, 52-

53;Jerónimo Dias Leite, ob. cit., 15); V.

de Magalhães Godinho,

um dos defenso-

res da iniciativa régia, anota a acção de

João Afonso, vedor da Fazenda (Desco- brimentos Portugueses e a Economia Mundial, Lisboa, 1982, vol. lI, 232). A presença do infante D. Henrique só

surge, segundo opinião do mesmo

histo-

riador em 1425, ou a partir de

1433,

com a doação régia do senhorio das ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas

1,

fls. 128 v. °-132). Note-se que na referida

carta, ao contrário do que sucede com a carta das capitanias, não se refere qual-

quer intervenção anterior do referido infante, razão pela qual Fernando Jas- mins Pereira considera o referido acto

de D. Duarte como uma doação autên- tica e não confirmação (Alguns Elemen- tos para o Estudo de História Econó-

. entanto, em 1461, D. Afonso V, citando o infante D. Henrique, diz que João Gonçalves Zarco ,ifora o primeiro home que per seu mandado fora proborar a

No

mica

(A. R. M., C. M. F., Registo

Geral,

t.

da

Madeira

[.

.j,

23-30).

ilha pelo infante D. Henrique; conforme opinião de João Gonçalves da Câmara, em 1511 (A. N. T. T., C. c., 1,27-52, de

25 de Junho

de

1511),

a ilha torna-se

num "horto do senhor

Infante»

que

tinha como administradores

directos

os

dois principais obreiros do seu reconhe- cimento e ocupação. Enquanto a doação do senhorio era vitalícia, passando

depois

feita a título

mas carecendo sempre de confirmação

régia. O capitão surgia na área de capita-

nia como o representante

era

a duas vidas,

a da capitania

hereditário

pelo senhorio,

do senhorio

e

em seu nome exercia "a justiça e

dereyto». Desta forma, a sua intervenção jurisdicional estava limitada ao quadro

de competências

e jurisdição

atribuídas

ao senhorio

e às prerrogativas

por este

enunciadas.

Para dar uma dimensão

ins-

titucional a essa delegação de poderes, criam-se as capitanias, a definir um espaço territorial e uma determinada

jurisdição.

Surgem

assim

as capitanias

do Porto Santo (1446), Machico (1440) e

Funchal (1450), entregues, respectiva-

mente, a Bartolomeu Perestrelo, Tristão Vaz Teixeira e João Gonçalves Zarco Ooão Martins da Silva Marques, ob. cit., I, 403, 404, 449). A sua concessão em datas desconexas, num período de dez anos, gerou algumas dúvidas sobre a sua importância e modo de doação. Assim,

pretende-se que estes instrumentos jurí- dicos surgiram apenas como confirma- ção de uma situação de facto.

Os referidos

povoadores,

conhecidos

desde então como «capitães do donatá-

rio», recebem o encargo de manter e

exercer em nome

tiça e dereyto», a jurisdição do cível e do crime, nomeação dos funcionários do município, organização e defesa, de dis-

de

tribuir as terras, além do usufruto

direitos exclusivos sobre certos meios

de produção (atafonas, fornos, moi-

da redí-

nhos,

zima das rendas do senhorio

pólio

do sal.

do donatário, «em jus-

serras de água, engenhos),

da venda

e do mono-

Se o anterior

sistema de governo,

esta-

belecido

em

1433,

tinha

paralelo

no

Reino, nomeadamente no Sul de Portu- gal, com o processo de reconquista, o mesmo não se poderá dizer com as capi-

tanias, que surgem iniciativa inovadora

solicitações do novo meio. A necessi- dade de um maior empenhamento dos principais obreiros do processo, aliada à distância da casa senhorial, definiu este peculiar sistema de governo. Desta for- ma, este processo institucional está muito aquém do feudalismo europeu e pouco concordante com o senhoria- lismo peninsular; é uma experiência nova, fundamentada na dinâmica insti- tucional resultante da reconquista do Sul

em 1440 como uma

capaz de atender

às

dita

geral, t. 1, fls. 128 v.0-132).

ylha»

(A. R. M.,

C. M.

F.,

Registo

Tal parece-

-nos corroborar

a ideia

de

que

desde

1425

o infante

D. Henrique

teve

uma

ESTRUTURA ADMINISTRATIVADA MADEIRA (1434-1460)

participação activa no povoamento desta ilha. Esta incessante dúvida resulta

do facto

de

até

à

década

de

60

ser

escassa

a

documentação

sobre

a

Madeira,

o

que

nos

obriga

a manter

a

incerteza enquanto

não apareçam novos

documentos

a desvendar

o mistério.

A década

de

20 é marcada

por

uma

activa intervenção da coroa no lança- mento das bases institucionais e econó- micas da nova sociedade. Os primeiros

povoadores

recebem

o encargo

régio de

distribuir

as terras em consonância

com

a

presença

do vedor

da Fazenda,

João

o infante

D. Henrique surge como o principal

impulsionador e senhorio das mesmas ilhas. De acordo com a carta de doação

Afonso.

Numa fase posterior,

COROA

j

ALMOXARIFADO

CAPITÃO

SENHORIO

CONCELHO

165

de Portugal, que marca uma nova era no

processo institucional atlântico-europeu Madeira, Câmara Municipal do Funchal

(vejam-se os trabalhos de Álvaro Rodri- gues de Azevedo, «Anotações», em Sau-

dades da Terra, Funchal, 1873, estrutura institucional madeirense, em notas xv e XXIV; Damião Peres, A consonância com a tendência centraliza-

fls. 272 v.o-275]. O desenvolvimento da

livre voontade [Arquivo Regional da

(A. R. M.,

C. M.

F.), registo geral, t. 1,

Madeira

sob

os Donatários,

Funchal,

dora do poder régio, tornou obsoleto o

1914,7-8;

Fernando Jasmins Pereira, ob.

sistema de senhorio

das ilhas. Ao mesmo

cit., 30-32; Luís F. R. Thomas, «Estrutu-

ras quase feudais na expansão portu- jure dos capitães foram cerceadas com o

de

tempo,

as prerrogativas

de facto

e

a sua acção legis-

ladora, atestam o seu empenho no

rápido avanço do povoamento da ilha

e privilégios aos

moradores exarados no seu foral. O

extenso rol de reclamações apresentado em 1461, após a sua morte, ao seu suces- sor comprova esse relativo menosprezo

tas, que testemunham

por meio de isenções

e tendência centralizadora da política henriquina.

guesa», in Colóquio Internacional de

aparecimento

de

novas

estruturas

e

O infante

D. Fernando,

ao assumir,

História da Madeira, Funchal, 1987).

administração.

 

em 1460, o governo da casa senhorial

As cartas

de

doações

das

capitanias

Durante

esse

período

de

governo

do seu tio, herda um pesado fardo

madeirenses serviram de modelo a idên-

senhorial,

a

Madeira

conheceu

cinco

político-administrativo. Procurando

tica situação nos Açores,

Cabo Verde e

donatários,

que

exerceram

uma

acção

adequar o governo de ilha à nova con-

São Tomé. Em 1450, na doação da capi-

diversa

no seu governo.

A documenta-

tania da ilha Terceira a Jácome de Bru-

ção tombada

no livro de registo geral da

juntura política e à satisfação das recla- mações dos procuradores enviados ao

ges, justifica-se a sua jurisdição pelas Câmara do Funchal atesta essa acção

capitanias madeirenses (Francisco Fer- (publicado por Francisco de Sousa e

Reino, este define em Agosto de 1461 uma nova dinâmica institucional, econó-

reira Drumond, Anais da Ilha Terceira, Melo no Arquivo Histórico da Madeira,

mica e religiosa através dos seus «apon-

A. H., 1850, I, 447-449; Arquivo dos

XV-XVIII,1972-1974). Do governo de

tamentos e capitolos» (ibidem, t. 1,

Açores, 'IV, 207-208).

E

em

1474,

na

vinte e sete anos do infante D. Henrique

fls. 135-224; veja-se Joel Serrão, «O

confirmação da compra

da capitania

da

ficaram dois documentos e algumas

infante D. Fernando

e a Madeira,

1461-

ilha de São Miguel por Rui Gonçalves

da

indicações indirectas das suas lembran-

1470», in Das Artes e da História da

Câmara, filho segundo

de João

Gonçal-

ças e regimentos. Esta quase total lacuna

Madeira, in D. A. H. M., 4, 1950, 10-17;

ves Zarco, afirma-se que seja capitão

de documentação legitimadora da acção

Manuel J. Pita Ferreira, «O infante

como é o seu irmão na ilha da Madeira

henriquina contrasta com a euforia deli-

D. Fernando, terceiro senhor do arqui-

(Arquivo dos Açores, I, 104). berativa dos seus sucessores, nomeada-

pélago da Madeira, 1460-1470», in D. A.

Durante

mais de meio

século

(1433-

mente D. Fernando e D. Manuel. Da

H. M., 33, 1963, 1-22). Os poderes dis-

1497), o governo

das ilhas esteve entre-

intervenção

destes

últimos

surgiram

os

cricionários e os privilégios dos capitães

com a

seus administradores, usufruiu de um senhorio vitalício regulamentado pelas

ordenações régias. No período de 147t),-1~ Esse relativo menosprezo hierárquico

em face da menoridade dos seus donatá- pela regulamentação dos diversos domí-

nios jurisdicionais do senhorio madei- rense deverá resultar do facto de a ilha no período inicial não necessitar de uma excessiva regulamentação refreadora do impulso povoador. Por outro lado, o

senhorial. Assim, em 1497, o mesmo infante encontrava-se empenhado num torna realengo o referido senhorio, processo mais vasto, de conquista das dizendo ser «cousa justa e necesa- Canárias, de expansão e descobrimento

rea

o fim

duque D. Manuel ao trono, pretendia-se

mesmos. Em 1495, com a elevação do

cargo de D. Beatriz, mãe e tutora dos

rios, O governo do senhorio

gue à casa do infante, que, por meio dos

alicerces

da sociedade

nascente,

consequente regulamentação dos diver-

sos domínios

da vida política

e social.

correu

a

governo

desta

experiência

de

.] e por teer rezam desse mays no litoral africano, sobrando-lhe pouco

emnobrecer e aproveitar de noso moto tempo para se empenhar nas coisas da

propeo, certa ciençia poder absoluto

e

sua ilha. Todavia,

as referêpcias

indirec-

ESTRUTU~A ADMINISTRATIVA DA MADEIRA (1460-1495)

MONARCA

COROA

ALMOXARIFADO

166

CAPITÃO

DONATÁRIO

SENHORIO

JUiZES

CONCELHO

sofrem uma grande machadada mercê da aplicação plena da jurisdição estabe-

lecida nas doações, de que se faz uma pública-forma de modo que não possa «entender aalem delle em poer outros foros e a costumes». Ao mesmo tempo, estabelece-se a necessária vinculação da jurisdição do capitão às directivas régias

e da

com o reforço

xarifado. O avanço mais significativo é

dado com o município, que se liberta do controlo e intervenção discricionários do capitão, passando os seus oficiais a ser eleitos entre os homens-bons que fazem parte do rol feito pelo senhorio. Essa autonomia é expressa ainda na con- cessão do selo e da bandeira.

estrutura

municipal,

da intervenção

conjugadas

do almo-

No aspecto

económico,

os referidos

apontamentos

anotam

a necessidade

de

adequar

nível

da ilha, de modo que a mesma favoreça

a continuidade do processo. Primeiro

procura-se uma adequada repartição das águas, tão necessárias à faina açucareira,

depois o necessário apoio aos assalaria- dos e pequenos proprietários. No domí- nio comercial, a intervenção fernandina pautar-se-á por uma abertura aos agentes de comércio nacionais e estrangeiros, o que motiva a sua discordância em face da pretensão dos Madeirenses para a expulsão dos judeus e genoveses.

a

orgânica

administrativa

ao

do

desenvolvimento

económico

;;,r.

A década de 60 é marcada em termos económicos pela dominânciada produ- ção e comércio do cereal madeirense. Os excedentes cerealíferos da ilha eram canalizados para o Reino e abasteci- mento das praças marroquinas. Estas últimas recebiam anualmente o saco de 1000 moios de trigo madeirense, contrá- rio aos interesses da burguesia do arqui- pélago. Daí o empenho manifestadp pelo senhorio e coroa na sua manuten- ção até que na década de 70 os Açores pudessem preencher a lacuna madei- rense. As reclamações e a correspon- dente resposta atestam o pouco pro- gresso económico da ilha na década de 60. A par destas exigências institucionais e económicas, surgem outras do domí- nio social que atestam o surto demográ- fico da ilha; à necessária regulamentação da posse das heranças associa-se a exi- gência de mais capelães para o serviço religioso. Os primitivos núCleos de povoamento (Funchal e Machico) ampliam-se e ramificam-se por toda a

orla costeira meridional; daí a exigência de capelães para Câmara de Lobos,

da

1, fls. 135-

224). Passados cinco anos sobre estas orientações, o infante envia à ilha o seu

ouvidor, Dinis da Grã, com o objectivo de tomar conhecimento do estado da mesma e desencadear algumas acções (ibidem, t. 1, fls. 135-136). Primeiro soluciona as demandas existentes sobre

a uma

distribuição cuidada das mesmas.

Depois

o usufruto das águas e procede

Calheta(A. R. M., C. M. F, t.

Ribeira Brava, Ponta

do

Sol e Arco

procede

à eleição

dos

oficiais

concelhios. Em apontamentos do mesmo ano, o infante atesta o seu empe- nhamento no desenvolvimento da cul-

tura da cana-de-açúcar (ibidem, t. 1, fls. 226-229). Todavia, mostra-se contrá-

da ilha

rio às pretensões quanto a uma

senhoriais; a sua resposta vai no sentido do reforço da acção do almoxarife nesse domínio. A manutenção dos abusos dos

capitães conduziu a uma maior interven-

dos moradores

redução

dos

direitos

Aspecto da costa de Machico. Local onde terão desembarcado João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz, aí foi celebrada uma primeira missa e posteriormente

fundada

resta.

uma capela, da qual nada

ção do senhorio, no sentido de minorar essa situação. Assim, todos os feitos pas- sam para a alçada dos juízes ordinários, enquanto em 1470 se ordena a constru- ção de casa para a câmara e o curral do concelho (ibidem, t.l, fls.231-233). Desta forma, o governo fernandino ter- -se-á pautado pelo cercear dos poderes discricionários do capitão e reforço do poder municipal. A parte final da acção

167

do infante D. Fernando é marcada pela discussão decorrente da afirmação do açúcar na economia madeirense. Aqui discute-se a política de comércio, como veremos mais adiante. A acção da infanta D. Beatriz (1470-

1481), em substituição dos seus filhos D. João e D. Diogo, é marcada pela defi-

da

nição do sistema tributário mercê

criação, em 1477, das Alfândegas de Machico e Funchal; aí se definem medi- das rigorosas para combater o contra-

bando

e a fuga à tributação

do açúcar

com

o estabelecimento

do

sistema

de

estimo

dos canaviais.

Para o cargo

de

juiz de

alfândega

é

nomeado

Luís de

Atouguia, fidalgo, que exercia então as funções de contador na ilha. Todavia, a

questão que mais preocupou a infanta

ao paga-

reais

para as despesas da guerra. A sua inter- cessão junto da coroa foi importante para a resolução da questão, em 1481, com a concordância régia no desconto da referida quantia do açúcar, que lhe fora anteriormente emprestada pelos lavradores (ibidem, t. 1, fls. 153- 154 v.O). É com o governo da infanta D. Beatriz que se sente a necessidade de delinear um plano de defesa para a ilha capaz de proteger os locais das investidas dos cor- sários franceses e castelhanos. Mas o pri- meiro plano de defesa, estabelecido em 1476, foi letra-morta, perante o desinte- resse manifesto dos seus vizinhos, pelo que só no governo manuelino tal plano

mento

era a recusa dos Madeirenses

do

tributo

de

1 200 000

avançaria (ibidem, t. 1, fls. 149-149 v. O).

Os poucos

anos de governo

efectivo

de D. Diogo (1482-1484) foram marca- dos pelo reforço da acção municipal em

168

todo o espaço da capitania do Funchal,

e

a1caides para os lugares de Câmara de

Lobos e Ribeira Brava, passando toda a vida municipal a regular-se pelos regi- mentos de Lisboa (ibidem, t. 1, fls. 37 v.0-139).

com

a criação

dos

juízes

pedâneos

Com D. Manuel redobram

as exigên-

CAPITÃO

OUVIDOR

de

construção de capelas em Machico, Santa Cruz e Câmara de Lobos (1485), resultou dos proventos resultantes da opulência açucareira. Finalmente, a sua

mos de património construído

e

intervenção estende-se também ao. poder municipal, com uma alteração no sentido do seu reforço, com a recomen-

cias governativas do senhorio da ilha; a

dação para a construção da casa do con-

situação económica, aliada ao contur-

celho, paço

e

picota

(ibidem,

t.

1,

bado panorama administrativo, impli- cou uma forte e eficaz intervenção do

fls. 25-25 v. O). A ocupação

e valorização

económica

donatário. Note-se que dois terços da

da

Madeira, nos primórdios

da expansão

documentação emanada da casa senho-

atlântica,

vai ao

encontro

das solicita-

rial para a ilha são de pena manuelina.

manuelina,

senhoriais e régios, atendeu aos múlti- plos aspectos da vida económica, social

de

século.

implicava uma intervenção forte e capaz

de atender às principais solicitações da

sua cultura e comércio. Para além

avanço de medidas adequadas ao debe- lar da crise comercial, avança-se com uma política de arroteamento das áreas arborizadas, de modo a não lesar a cul- tura da cana-sacarina, e, para além das limitações impostas à concessão de ter- ras de sesmarias, proíbe-se o uso de queimadas e estipulam-se medidas de protecção das florestas com a criação do cargo de meirinho das serras (1495). Os aspectos urbanísticos mereceram de igual modo a adequada atenção do senhorio, que promove a construção do Mosteiro de Santa Clara, da Sé e Alfân- dega do Funchal; além disso, é lançado em 1489 um novo direito (imposição do vinho), cujos proventos serão utilizados no nobrecimento da vila. Essa política de enriquecimento do Funchal, em ter-

e político-institucional

A

política

em

termos

açúcar

do

neste

safra

findar

do

A situação

da

ções da conjuntura interna do Reino e

do espaço oriental atlântico. Se no pri-

meiro

disputa das Canárias e à busca de um

ponto

litoral africano,

referir que as embarcações portuguesas trilharam escala obrigatória na Madeira, onde se proviam de «vitualha as ilhas da Madeira, porque havia aí já abastança de mantimentos» (Crónica da Guiné,

do

caso surge como uma resposta à

de

apoio

para

as operações

Zurara faz disso eco ao

capo

XXXII).

De acordo com a versão dos cronistas

insulares, no começo do Verão de 1420

o monarca

expedição comandada por João Gonçal- ves Zarco para dar início à ocupação da ilha. Acompanhavam-no Tristão Vaz Teixeira, Bartolomeu Perestrelo, alguns homiziados que «querião buscar vida e ventura, forão muitos, os mais delles do

Algarve» a. Dias Leite, ob. cit., 15-16; Gaspar Frutuoso, ob. cit., 53).

ordenou

o

envio

de

uma

da

carta de D. João I, João Gonçalves foi incumbido de proceder à distribuição

de terras conforme o regulamento que lhe fora entregue. Esta versão oficial

De acordo

com

o citado

capítulo

contraria a opinião expressa dos cronis- tas do Reino e mesmo o próprio infante

D. Henrique,

henriquina da primeira experiência de

povoamento da ilha a. Dias Leite, ob.

cit., 25-26). Todavia, conforme já referi- mos anteriormente, é ponto assente que

o

monarca D. João I a estabelecer a forma inicial de governo e distribuição das ter- ras. Nesse regimento joanino estabelece- -se uma demarcação social dos agracia- dos com terras de sesmaria. Assim, os vizinhos de mais elevada condição

a iniciativa cabe à coroa,

que aponta

a procedência

sendo

social e possuidores de proventos recebem-nas sem qualquer encargo, enquanto os pobres e humildes que vivem do seu trabalho apenas as recebe- rão mediante condições especiais, só

adquirindo as terras que possam arrotear com a obrigatoriedade de as tornar ará-

Com estas

veis num prazo

cláusulas favorecia-se a posição fundiá- ria da principal fidalguia que acompa-

e

contribuía-se

de

nhou os primeiros povoadores

de dez anos.

para

o

aparecimento

grandes extensões

que mais tarde

serão

 

vinculadas.

A partir

de

1433, com

a doação

do

senhorio

das ilhas ao infante

D. Henri-

que, esse poder de distribuir

terras é

atribuído ao mesmo senhorio, mas «sem

prejuyzo de forma do foro per nos dado

aas ditas ylhas em parte

nem

em todo

nem em alheamento

do

dito

foro»

(A. R. M.,

C. M.

F.,

registo

geral,

t.

1,

fl. 282), o que comprova

que a primeira iniciativa e regulamento de distribuição de terras coube ao monarca. O infante, fazendo uso destas prerrogativas, delega os seus poderes de

distribuição de terras nos capitães (A. N.

T. T., Livro das Ilhas, fl. 550 v. O).Estes

recebem um foral henriquino, que man- tém e confirma as ordenações régias e

estipula que as terras deverão ser distri-

buídas

anos, findo o qual caduca o direito de posse e a possibilidade de nova conces- são. Confrontadas estas situações com as do monarca, notam-se alterações signifi- cativas no regime de concessão de ter- ras. A pressão do movimento demográ- fico, aliada à rarefacção de terras para distribuir, condicionou essa mudança. Desta forma caduca a diferenciação social dos agraciados e o período conce- dido para as tornar aráveis. Todavia, nas décadas seguintes, a concessão de terras de sesmaria e a legitimação da sua posse geraram vários conflitos, que implica- ram a intervenção 1egislativa do senho- rio ou o arbítrio do seu ouvidor. Em 1461, os Madeirenses reclamam contra a

mais uma vez

apenas

por

um

prazo

de cinco

redução do prazo para aproveitamento das terras de sesmaria, dizendo que estas eram «bravas e fragosasas e de muytos arvoredos». Contudo, o infante D. Fer- nando não abdica do foral henriquino e apenas concede a possibilidade de alar- gamento do prazo mediante análise cir- cunstanciada de cada caso pelo almoxa- rife (A. R. M., C. M. F., registo geral, t. 1, fls. 204-209). Passados cinco anos, os mesmos vêm reclamar contra o regime de concessão de terras de arvoredos e do modo de as esmontar mercê dos seus efeitos nefastos para a safra açucareira (ibidem, t. 1, fls. 135-138 v. O). Perante tal reclamação, o senhorio ordena aos capitães e almoxarifes que se cumpram os prazos estabelecidos e que seja inter- dito o uso do fogo. No entanto, em 1483, o capitão de Machico continua a distribuir de sesmarias os montes próxi- mos do Funchal, com excessivo pre-

(ibi-

juízo para os lavradores

dem,

repreende o capitão de Machico e soli- cita que essas concessões, a serem feitas, se façam na presença do provedor. E,

do açúcar

t.

1,

fls.249-251).

D. Manuel

Sé do Funchal, edifício construído no

século xv sob mandado

onde ainda permanecem algumas

de D. Manuel

1 e

preciosidades

artísticas

dos séculos xv e

XVI, como, por exemplo, o tecto de madeira de influência moçárabe, um cadeiral quatrocentista e o retábulo do altar-mor. Elevada à dignidade episcopal

pelas

mãos

do papa

Leão X em 1514,

desempenhou a partir de então um importante papel no quadro religioso da expansão portuguesa.

169

finalmente,

fl. 51), o mesmo proíbe a distribuição de terras de sesmaria nos montes e arvore-

dos do Norte da ilha, para em princípio do século XVI(1501 e 1508) proibir a

concessão de terras em regime de sesma- ria (ibidem, t. 1, fls.287-288, 289 v.o- 291), forma eficaz de evitar a subtracção dos montes e arvoredos, tão necessários à safra do açúcar. Não obstante, ressalvavam-se as terras que pudessem

ser aproveitadas

dos.

As reclamações e as medidas conse- quentes do senhorio atestam a pressão do movimento demográfico sobre a concessão de terras. Das facilidades da década de 20 entra-se na década de 60 com medidas limitadas dessas conces-

sões como forma de preservar

de usufruto

cipais proprietários de canaviais, cuja exploração dependia da existência dos referidos montes e arvoredos. As exor-

bitâncias dos capitães, desrespeitando as ordenações régias e senhoriais, conduzi- ram a uma diminuição da área de pas- cigo de usufruto comum e a essas inces- santes reclamações dos Madeirenses. Saliente-se que o próprio D. Manuel contraria, em 1492, o regimento de dadas de terras ao permitir ao capitão do Funchal a distribuição de terras na serra para currais e cultura de cereais e das bermas das ribeiras para a plantação de

em

1485

(ibidem,

t.

1,

em canaviais e vinhe-

o pascigo

comum

e de apoiar os prin-

1, fl. 45 v. O).

Por outro lado, no sentido de evitar a

exorbitância do capitão no retirar das

terras doadas, revoga-se tal direito (ibi-

dem, t.l, fl.293v.0).

1433 a 1495, a concessão de terras de sesmaria era feita pelo capitão, em nome do donatário. A carta deveria ser lavrada

pelo escrivão do almoxarifado, na pre- sença do capitão e do almoxarife. No seu enunciado deveriam constar as con-

dições gerais que regulavam esse tipo de concessão, as confrontações, extensão e qualidade do terreno, capacidade de produção e o tipo de cultura adequado à sua exploração, bem como o prazo do seu aproveitamento. Ao colono ou ses- meiro deveria caber o cumprimento do clausulado e, findo o prazo estabele- cido, o colono adquire a posse plena do terreno, podendo então vender, doar, «escambar o fazer dela e em ela como sua propria coisa".

as doações

e que

ficaram a testemunhar e legitimar a

árvores de fruto (ibidem,

t.

No período de

São poucas

de terras

que

resistiram ao correr dos tempos

posse

temos notícia

que Alemão (Descobrimentos Portugue-

do

solo

arável da ilha. Destas

1457 a Henri-

de uma de

170

ORIGEM, DOS HABITANTES DA FREGUESIA DA SÉ

(registos

paroquiais

de

1539 a 1600)

ses, organ. de Silva Marques, voi. I,

n.os 356 e 423); nela se especifica que o

mesmo fará casa nas terras concedidas e

que as terras de lavra serão ocupadas em vinhas, canaviais e horta.

A evolução

do movimento

demográ-

fico madeirense, acompanhada da valo- rização das zonas aráveis com as culturas

de

exportação,

conduziu

a profundas

alterações

na

distribuição

e posse

das

terras, aliás já evidente no regimento

henriquino. Os mercados interno e externo condicionaram um maior apro- veitamento do solo arroteável, tornan-

do-se

mento

situação. O aparecimento de capitais estrangeiros e nacionais conduziu à intensificação do arroteamento das ter- ras e provocou alterações na posse des- sas por meio das transacções para com-

pra e aforamento

Pedro de Freitas Drumond, Documentos

Histórico e Geográficos sobre a Ilha da Madeirà (ms. Biblioteca Municipal do Funchal, fls. 15 v.0-17 v.O)]. Em conso- nância com estas mutações, surge a afir-

mação do sistema de vinculação

no reinado

origem ao contrato de colonia Ooão de Sousa, «Notas para a história da Madeira. Italianos na ilha - Benoco Amador", in Cidade Campo, suplemento do Diário de Notícias do Funchal de 6 de Maio de

de D. Manuel, que veio dar

urgente

da

um

adequado

fundiária

reajusta-

à

nova

estrutura

em

fatiota

Uoão

da terra

1984). Note-se que em

1494 se genera-

liza o aforamento dos canaviais na capi-

tania do Funchal, com a especial inci-

dência nas partes do fundo

de Lobos. Com a Lei de 9 de Outubro de 1501

de

sesmarias, como forma de impedir a

diminuição do parque florestal, tão

necessário à laboração

põe-se termo à concessão

e em Câmara

de terras

do açúcar. A par-

tir deste momento, toda a aquisição de

terras só poderá fazer-se por compra ou aforamento em fatiota e transmissão

por

via familiar

por

meio

de

herança,

sucessão

e dote.

Enquanto

a compra

e

venda

surgem

como

mecanismos

de

concentração da propriedade nas mãos da aristocracia e burguesia enriquecidas

com

os proventos

da primeira

fase de

colonização,

ou dos estrangeiros

recém-

-chegados, a herança e dote actuam no

sentido inverso, conduzindo

gração

meira

à desinte-

data

da

grande

propriedade.

conhecida

A pri-

de

feita por Diogo

transacção

1454 e resulta da venda

de Teive a Pedro Gonçalves Barbinhas

de umas terras no Funchal

reais brancos (Descobrimentos Portu-

Rui

Gonçalves da Câmara vende a sua ses- maria da lombada na Ponta do Sol aJoão

Esmeraldo (F. A. Silva, A Lombada dos Esmeraldos na Ilha da Madeira, Fun-

chal, 1933). Quanto ao regime de afora-

por 2000

1498,

gueses,

voi.

I,

n. o 404).

Em

mento,

que

se

generaliza

nas

últimas

décadas

do

século

xv,

a primeira

acta

surge em 1484, quando Constança Rodrigues entrega uma terra em Santa Catarina a João da Cunha por 5000 réis de foro (Descobrimentos Portugueses, voi. III, n.O 384). Em 1494, esse regime

generaliza-se na cultura dos canaviais da capitania do Funchal, com especial inci- dência nas partes do fundo (11 %) e Câmara de Lobos (31 %).

na

O

povoamento

da

ilha,

iniciado

década de 20 nos pequenos núcleos do Funchal e Machico, rapidamente alas- trou por toda a costa meridional, sur- gindo novos núcleos em Santa Cruz, Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta. As condições orográfi- cas condicionaram os rumos dessa

ocupação do solo madeirense, enquanto a elevada fertilidade do solo e a pressão do movimento demográfico implicaram esse rápido processo de humanização e valorização socioeconómica da ilha. Aos obreiros e cabouqueiros iniciais segui- ram-se diversas levas de gente para esse arranque desmesurado da ocupação da ilha. Desse grupo surgem trinta e seis apaniguados da casa do infante, na sua maioria escudeiros e criados, que adqui-

na dinâ-

mica administrativa

rem uma posição

proeminente

e estrutura

fundiá-

ria. Enquanto as gentes importantes

detinham

Reino

uma

ambicionavam

posição

desafogada

melhor

no

ou

situa-

ção noutras

paragens

do Atlântico,

aqui

afluíam muitos

de inferior

qualidade

ou

preteridos da família pelo regime de sucessão vigente. Note-se que o próprio João Gonçalves Zarco sentiu essa situa-

ç/N) ao salientar junto da coroa quatro

varões de qualidade

para casarem com

PARÓQUIAS DA MADEIRA NOS SÉCULOSXV E XVI

as suas filhas; e então o monarca terá

enviado Garcia Homem de Sousa, Diogo Cabral e Diogo Afonso de Aguiar (Sau- dades da Terra, 217-218). Na relação dos homens-bons da capitania do Fun- chal em 1471, a maioria surgia como

escudeiros, sendo reduzido

de cavaleiros e fidalgos Ooão Pedro de

Freitas Drumond, ob. cit.). Todavia, a

partir de finais do século xv, o usufruto de uma elevada condição social pelos primeiros povoadores e seus descenden- tes, resultante da sua intervenção na estrutura administrativa madeirense, na safra açucareira e na nobilitação régia, contribuiu para a formação dessa nova aristocracia insular, que marca uma posi-

ção de destaque

tico nacional,

aristocracia do Reino nas aventuras

cas do Norte de África e Oriente, nas via- gens de exploração do litoral africano e Ocidente (Alberto A. Sarmento, A Ma- deira e as Praças de África, Funchal,

o número

no panorama

aristocrá-

competindo

com a velha

béli-

1932).

É comum

dizer-se terem

sido de pro-

veniência algarvia os primeiros e princi- pais povoadores que estiveram na ori- gem da ocupação da ilha. Essa ideia

$;0Vi"o"

Poo'a

Delgada

8."""0 Moohioo o .Tab,. .",eito Mon'e . Rihe"a"""," o .São ROO""
8."""0
Moohioo o
.Tab,.
.",eito
Mon'e
.
Rihe"a""","
o
.São
ROO""
OS"",,., ",." """""","
.
S""",, mo"',d,"""'"
NÚMERO
DE FOGOS
DAS
PARÓQUIAS
MADEIRENSES
CONFORME
ALVARÁS
DE MANTIMENTODOS
PÁROCOS
(1572-1591)
Sei>alI'.
Poota
Delgada
.
Sao'acoI'.
$;0V"""
I' ""ito

I'. Calhe"

I'.Aooo

I'.Madaleoa

filia-se na tradição

algarvia

da

gesta

expansionista

e

na

expressão

de Jeró-

nimo Dias Leite «muitos do Algarve» (ob.

cit., 16; Gaspar Frutuoso, ob. cit., 54);

todavia, essa dedução parece-nos apres- sada, uma vez que faltam provas que corroborem essa afirmação; numa lista- gem dos primeiros povoadores referi- dos nos documentos e crónicas, a pre- sença nortenha (64 %) é superior à

in

iC-"""" ."'.'00

1'.'".,00

.,200

Das

Artes

.Caoh

e História

da

Madeira,

voi. VIII,n. o 37, 5;Joel Serrão, «Naalvo-

algarvia (25 %). Por outro

tos paroquiais da freguesia da Sé (desde

lado, os regis-

rada do mundo atlântico», in Ibidem, voi. VI, n. o 31, 1961, 6); Ernesto Gon-

1539), no período de 1539 a 1600, con-

çalves,

no

entanto,

é peremptório

em

firmam essa ideia, uma

vez

que

os

apontar

a ascendência

minhota

desses

nubentes oriundos

de

Braga,

Viana

e

primeiros obreiros do povoamento do

Porto representam 50 % do total, enquanto os provenientes de Faro não ultrapassam os 3 % (Luís Francisco de Sousa e Meio, «Aimigração da Madeira», in História e Sociedade, n. o 6, 1979,

39-57); por outro lado, o pretenso de- monstrativismo de Alberto Iria em nada

contribuiu para a solução dessa questão (O Algarve e a Madeira no Século Xv,

Lisboa,

confronte-se

1974,

sep.

de

Ultramar;

com a crítica de Fernando

J. Pereira

em

O Algarve

e a Madeira,

Braga, 1975). Note-se que alguns dos mais eminentes investigadores madei-

entre

minhota ou algarvia dos primeiros colo-

nos (Fernando Augusto da Silva, «Do começo do povoamento madeirense»,

renses

hesitam

a

procedência

arquipélago

Verão», in Ibidem, voi. IV, n.o 21,1955, 45-46; Fernando Vaz Pereira, Famílias da Madeira e Porto Santo, voi. I, Fun- chal, s. d., pp. 224 (n.o 1) e 248 (n.o 1)]. Tendo el1lfConsideração que o povoa- mento da Madeira é um processo faseado em que intervêm gentes oriun- das dos mais recônditos destinos, e que em todo o Reino surgem gentes empe- nhadas nesta experiência tentadora, é de prever a confluência de várias localida- des do Reino, em especial as áreas ribei-

[«No

Minho

ao

sol

de

rinhas -

Viana -,

tradas no arroteamento

Lisboa, Lagos, Aveiro, Porto e

e de gentes estrangeiras,

ades-

de terras Üfcul-

tas.

muitos

Se é certo

dos

que

do Algarve partem

da

casa

do

apaniguados

infante, que detêm uma função impor- tante no lançamento das bases institu- cionais do senhorio, não é menos certo que do Norte de Portugal, nomeada- mente da região de Entre Douro e Minho, provêm os cabouqueiros neces- sários para desbravar a densa floresta e adequar o solo ao lançamento de cultu- ras mediterrânicas - cereal, vinha, cana-de-açúcar e pastel; entretanto, do Mediterrâneo surgem os Italianos, com a sua experiência e o capital necessário para o lançamento da cultura do pastel e açúcar. Contudo, o Norte de Portugal, quer pelo facto de ser a região do País mais densamente povoada, quer pela sua permanente vinculação à economia madeirense, terá exercido uma influên- cia decisiva nesse processo.

O forte

impacte

desta nova realidade

o seu rápido povoamento e valorização socioeconómica. O fluxo emigratório europeu conduziu a uma forte pressão do movimento demográfico madei-

atlântica na Península condicionou

171

Delgada

Ribeira Brava. O recenseamento de 1598

(Arquivo Histórico da Madeira, 11,Fun- chal, 1932) esclarece com maior clareza essa situação; nele se verifica que as oito

da

cidade do Funchal apresentam 44 % dos

fogos e 50 % do número de almas. Além

freguesias da área circunvizinha

disso, a capitania

do

Funchal

detém

79 % dos

fogos

e

82 %

das almas.

De

salientar que toda a faixa norte,

entre

o

Porto da Cruz e Porto Moniz, surge com 9 % dos fogos e 8 % das almas. A par dessa evolução da orgânica municipal e religiosa resultante dessa pressão demográfica, a dinâmica institu- cional madeirense sofre noutros domí-

forma

de

Nesse

do

domínio foram importantes as iniciati- vas do senhorio a partir da década de 60:

Maoh"o"""

Eslce"o

Campaoa"o

;:ios

/

profundas

adaptar

mutações,

como

os novos socioeconómico.

condicionalismos

processo

rense; partindo do reduzido número de colonos que acompanharam os três pro- motores da iniciativa na década de 20, contam-se na década de 40 já cento e cinquenta famílias importantes e na década seguinte oitocentas, para em

princípios do século XVI(1514) se atin-

gir uma população de cinco mil habitan-

tes. Este impacte demográfico adequa-se ao .nível de desenvolvimento econó- mico da ilha e pressiona a evolução da dinâmica institucional e religiosa. A cria- ção dos municípios e das paróquias e a evolução genérica do sistema adminis- trativo e fiscal surgem como os princi- pais aferidores dessa situação galopante da demografia e economia madeirense. No século xv, o povoamento orienta- -se para o litoral meridional, sendo os locais de fixação definidos por enseadas

adequadas à comunicação com o exte- rior e extensas clareiras aptas à faina agrí- cola. Assim, às iniciais capelas e oragos para o serviço religioso no Funchal e

Machico

juntam-se

outras

em

Santo

António,

Câmara

de

Lobos,

Ribeira

Brava, Ponta do Sol, Arco da Calheta e Santa Cruz. Por outro lado, as dificulda-

des de comunicação dos diversos núcleos de povoamento adstritos à capi- tania do Funchal conduziram a uma

do Funchal em 1495, as gentes mais importantes encontravam-se sediadas na área da sede concelhia, pois que 66 % destes pertencia ao Funchal, enquanto

os restantes se distribuíam por Câmara

enquanto

orientar

em

1477

D. Beatriz

procura

no sen-

a economia

madeirense

tido do mercado externo com a criação

de

Lobos (16%),

Ponta

do

Sol (11 %) e

de

duas

alfândegas,

no

Funchal

e

em

Calheta (6 %). Entretanto, nas partes de

Machico,

D. Manuel

desde

1486

o

Machico, o segundo município surgiu

apenas

Santa Cruz. Toda a costa norte,

na capitania de Machico, se manteve

séculos xv a XVIIIvinculada

de poder sediadas em Machico. Só em

a pri-

nos

em

em

1515

e

ficou

sediado

incluída

às estruturas

1743

surge

aí, em

São Vicente,

meira estrutura de poder municipal em toda essa extensa faixa nortenha. Tal

a

que foi votado toda essa extensa área

arborizada mercê das dificuldades

acesso, mas também a macrocefalia da

estrutura administrativa da capital da

capitania

Em 1508, ao elevar a vila do Funchal a cidade, o monarca referia que a mesma tinha crescido «em muy grande povoa- çom e como bivem nella muytos fidalg- nos cavalleyros e pessoas homnradas e

situação tratava não só o abandono

de

de Machico.

de grandes fazendas pellas quais e pollo gramde trauto da dita ilha esperamos

com ajuda de noso

bilha muyto mays se emnobreça e acre-

Sennor que a dita

impulso decisivo da materialização da estrutura administrativa adequada às novas exigências deste final de século; assim, este último ordenou a construção de uma igreja de casa para a câmara,

paço para os tabeliães, alfândega e paço público, cedendo para o efeito os terre- nos que lhe eram pertença e conhecidos como o «campo do Duque». Desta forma, o burgo funchalense amplia-se e

a malha urbana

tura

ilha

ganha

uma nova

da

estru-

renascentista.

exploração

A

económica

orienta-se de acordo com uma política de desenvolvimento económico depen- dente dos interesses do tráfico europeu internacional. A selecção e transplante dos produtos para as novas arroteias far- -se-á, assim, na consonância destes vec- tores do dirigismo económico europeu com as diferenças e assimetrias deriva- das da estrutura do solo e do clima. Esses

impulsos, em conjunto, actuam como mecanismos virtuais de distribuição das culturas europeias-mediterrânicas, com- ponentes da dieta alimentar (cereais, vinha) ou resultantes das solicitações das principais praças europeias (açúcar, pas- tel) Ooel Serrão, ob. cit., 4). Tal situação materializar-se-á numa tendência bem clara destas áreas para uma exploração económica baseada na mono cultura ou dominância de um pro- duto. Contra isso surgirá a heterogenei- dade do espaço insular, que condicio- nará a distribuição destas, dando azo a uma política distributiva ou uma arruma- ção dos principais produtos agrícolas;

redefinição da orgânica admi'nistrativa e

çente

[.

.

.]» (A. R. M.,

C. M.

F., registo

fiscal. Primeiro surgem os pedâneos e

geral,

t.

1, fls. 278 v. °-279).

a1caides dos lugares de Câmara de Lobos

O desenvolvimento

da administração

e

Ribeira

Brava

e

depois

a

estrutura

municipal,

a legitimar

uma

incessante

aspiração das gentes das partes do fundo. Todavia, só em princípios do século XVI,com o governo manuelino,

são atendidas as pretensões dos homens- -bons da referida área, criando-se os

municípios

dos

Calheta (1502).

o homens-bons para servir no concelho

da

Ponta

com

do

Sol (1501)

e

De

acordo

arrolamento

religiosa e o da prestação do respectivo serviço nos diversos lugares da ilha são ao mesmo tempo denunciadores da situação demográfica da ilha. De acordo com a definição do regime de côngruas na década de todo o século XVI,torna-se possível estabelecer e comparar a man- cha de ocupação humana da ilha. Os principais núcleos de população situam- -se na costa sul do Funchal (Sé, São Pedro e Santa Maria Maior), Machico e

172

surgem

assim

áreas

de

produção

para

r subsistênciae troca, procurando definir-

-se as condições

dade das actividades

Desta maneira, a afirmação do açúcar na

Madeira implica a criação de novas áreas de produção cerealífera, capazes de suprirem esta e outras praças carentes.

e a

descontinuidade do espaço arável dos arquipélagos das Canárias e dos Açores

necessárias

à estabili-

socioeconómicas.

De

igual modo,

a heterogeneidade

I condicionarão I dutos e sectores

essa distribuição

de actividade

dos pro-

nas diver-

sas ilhas, definida pela dominância des- tes de acordo com as necessidades internas e externas. Assim, as ilhas de Fuerteventura e Tenerife serão vocacio-

nadas para atender as necessidades da sua própria subsistência e das ilhas vizi- nhas, enquanto as ilhas de São Miguel, Graciosa, São Jorge, suprirão as carên-

e

Madeira.

São

cias

de

Angra,

Nas

praças

de

africanas

e

ilhas

Tenerife

Miguel, mercê

governantes

áreas de arroteias,

as necessidades

da

da

actuação

hábil

disponibilidade

dos

de

ou

de

foi possível

subsistência

conciliar

com

a

voracidade

das solicitações

do mercado

externo.

Esta

situação

de

interdependência

activa uma trama complicada de circui- tos comerciais interinsulares, necessá-

rios

monocultural.

O povoamento e exploração do

à

manutenção

desta

tendência

espaço insular mia-se na actividade que domina o mesmo processo e economia insular. O carácter agrário destas socie-

dades nascentes é compatível com as necessidades derivadas da subsistência e

das solicitações externas. Ambos os sec- tores alicerçaram o rumo desta econo- mia, definindo, por um lado, a aposta numa agricultura de subsistência, assente nos componentes da dieta ali-

mentar europeia, e, por

outro lado, a

imposição de produtos estranhos capa- zes de activarem o sistema de trocas (V. de M. Godinho, Os Descobrimentos e a

definida pelos cereais (trigo, cevada, centeio), os colonos europeus que povoaram estas ilhas não menosprezam

o quantitativo

sementeira

teamento (ibidem, m, 217; Joel Serrão, «Sobre o trigo das ilhas», in D. A. H. M., n.o 2, 1950,2; Oliveira Marques, Intro- dução à História da Agricultura em Portugal, Lisboa, 1978, 269-254). O fenómeno de ocupação e povoamento das ilhas atlânticas é, assim, caracteri- zado pela transplantação de homens, técnicas, produtos e formas de domínio

de grão necessário

para a

de arro-

nestas novas frentes

Aspecto

do Faial, povoação

situada

na

parte

setentrional

da ilha da Madeira

que se constituiu

como pólo

de

desenvolvimento dessa mesma região,

quando o povoamento

norte, convertendo-se num centro

de relativa

se expandiu

para

populacional

importância.

Economia

Mundial,

11,232-233).

e

poder. Estes serão moldados à imagem

A

estrutura

do

sector

produtivo

e

semelhança

das terras de origem destes

adaptar-se-á a esta ambiência, podendo definir-se em componentes de dieta ali- mentar - cereais, vinha, hortas, frutei-

ras, gado e derivados - e de troca colo-

Em

nial - pastel, cana-de-açúcar.

consonância com a actividade agrícola, teremos a valorização dos recursos do

meio insular que irão integrar a dieta ali- -

mentar

cas comerciais - urzela, sumagre,

madeiras e derivados, como pez.

-

pesca, silvicultura

e as tro-

Oriundos

de uma área em que a com-

ponente fundamental

da alimentação

é

colonos. Assim surgem as searas, os vinhedos, as hortas e fruteiras, domina- dos pela casa de palha e, mais tarde, pelas luxuosas vivendas senhoriais. Na Madeira, até à década de 70, a pai- sagem agrícola será dominada pelas sea- ras, decoradas de parreiras e canaviais. A cultura cerealífera dominava então a

economia madeirense; Fernando Jas- mins Pereira refere, a este propósito, que no período henriquino os cereais constituíram a base da colonização da

ilha (Alguns Elementos

.j,

99).

173

VINHAS E LATADAS NA MADEIRA

Faial.

,.,

'"

LCa'ha,

. E",e,'o

WKm

J

A fertilidade do solo, resultante das queimadas, fez que esta cultura atingisse níveis de produção espectaculares, que a historiografia quatrocentista e qui- nhentista anuncia com assiduidade,

notando que se exportava para o Reino

e praças africanas (Alberto Iria, art. cit.; Joel Serrão, art. cit.). Em meados do século, segundo Cadamosto, a ilha pro- duzia 3000 moios de trigo, que excedia

em mais de 65 % as necessidades

da

parca população

«<Navegação de

Luís

Cadamosto»,

Estrangeiros, Funchal, 198 I, 36). Esse

excedente,

terços da produção, era exportado para

o Reino e, segundo os cronistas, vendia-

in A Madeira

avaliado

em

Vista por

de

dois

cerca

-se ao preço

de

4 reais

(O Relato

de

Diogo Gomes, Boletim

da Sociedade

de

Geografia,

n. o 5,

291-292; Jerónimo

Dias Leite, ob. cit., 180-181). Desse total, desde 1461, 1000 moios destina- vam-se ao saco da Guiné (A. R. M., C. M. F., registo geral, I, 205-206, 3 de Agosto). Não obstante, a partir da década de 60, com a valorização da produção açu- careira, as searas diminuíram em superfí-

cie e a produção cerealífera passou a ser deficitária. E, a partir de 1466, a ilha pre- cisava de importar trigo de fora para o sustento dos seus vizinhos, sendo, por-

tanto,

estabe1ecidas (ibidem, 226-299 v. o, 7 de

Novembro). Aliás, em 1479 referia-se que essa produção dava apenas para quatro meses. Esta última situação deri- vava da acção dominadora dos cana- viais, aliada ao rápido esgotamento do

solo e inadequação da cultura, resultante de uma exploração intensiva, sem

arro-

teamento. O agravamento do défice cerealífero

impossível

manter

as escápulas

recurso

a

qualquer

técnica

de

174

nas décadas de 70 e 80, que conduziu ao alastramento da fome, em 1485, surgirá como a principal preocupação das auto- ridades locais e centrais. Primeiro procura-se colmatar essa falta inicial com o recurso à Berberia, Porto, Setú-

bal, Salonica; depois foi necessário defi-

nir uma área produtora

Assim

sucedeu, desde 1508, com a definição

as necessidades

capaz de suprir

dos Madeirenses.

dos Açores como principal área cerealí- fera do Atlântico português, actuando

como

Madeira e substitutivo

mento às praças africanas. A Madeira, que se havia afirmado,

período henriquino, como um impor- tante mercado de fornecimento de trigo, passará, no governo fernandino, à situa- ção de compradora, adquirindo mais de metade do seu consumo nas ilhas vizi-

nhas: Açores e Canárias.

o

celeiro

de

provimento

da

desta no forneci-

no

A crise

cerealífera

madeirense

surge

da

mesma cultura no solo açoriano. Aliás,

Joel Serrão refere-nos que a sua valoriza- ção açoriana resulta dessa situação (art. cit., 5-6). O rápido incentivo deste arqui- pélago nas décadas de 60 e 70 conduziu

a igual desenvolvimento da cultura

cerealífera, de modo que esta, em finais do século, se afirmava como a principal

área produtora de trigo do Novo Mundo

em

consonância

com

a

afirmação

(veja-se o

cerealífera

Ciências Humanas, série «História e Filo-

sofia», 1, Ponta

nosso

estudo

«A questão

nos Açores», in Arquipélago,

Delgada,

1985).

Os

cabouqueiros

peninsulares trans-

os pou-

portaram

conjuntamente

com

cos grãos de cereal

alguns

bacelos

das

boas cepas

existentes

no

Reino,

de

modo

a poderem

 

dispor

do

precioso

rubinéctar

para

o

ritual

cristão

e

ali-

mento diário. A videira adaptou-se com

facilidade ao solo insular e conquistou

uma

insular.

posição

de

valor

na

economia

Cadamosto,

que em meados do século

xv visitou a Madeira, ficou deslumbrado

com o rápido crescimento desta cultura, aduzindo que a ilha «tem vinhos, muitís- simo bons, se se considerar que a ilha é habitada há pouco tempo são em tanta quantidade, que chegam para os da ilha e se exportam muitos deles» (ob. cit.,

37).

A cultura

da vinha na Madeira absor-

via já nessa altura uma porção considerá-

vel da área arroteada da ilha e, de modo

especial, a zona ribeirinha do Funchal,

onde se nos deparam doze vinhas e treze latadas. Além-Funchal, na área entre a Ribeira Brava e Ponta do Sol, encontra- mos apenas oito latadas (V. Rau, O Açú-

car da Madeira

66-74; A. R. M.,

[.

.l,

 

.

Misericórdia

do

Funchal,

n.OS40, 43,

694

e

71 O). Na

primeira

metade do

século seguinte esta cultura aumenta em extensão e importância, alargando-se a novas áreas, como Câmara de Lobos, Caniço e Ribeira Brava. A partir de mea- dos do mesmo século, esta conquista em definitivo o solo madeirense, substi- tuindo os canaviais e alargando-se às cla- reiras da vertente norte, de modo que em finais do século esta existia com

abundância em todos os núcleos de povoamento.

Os

trigais

e

canaviais

davam

assim

lugar

às

latadas

e

balseiras,

a

vinha

tornava-se

na

cultura

exclusiva

do

colono madeirense, à qual dedica toda a

sua acção e engenho.

primeiro lugar na economia madeiren-

se, mantendo-se

culos. A evolução da situação vitivinícola madeirense é apresentada de modo

exemplar por alguns visitantes da ilha

nesse século.

Standen definia a economia da ilha pelo binómio vinho/açúcar, enquanto em Maio desse ano a vereação funchalense

decidia o preço do vinho, uma vez que

«nesta ilha as mais

de vinhos» (A. R. M., C. M. F., n. o 1380, fi. 44). Esta última situação surge refor-

çada em meados do século, e isto de tal modo que na década de 70 o vinho se apresentará como o principal produto

de exportação

cit., m, 224). Em 1583, T. Nichols refe-

ria que «Ia producción principal de este país es una gran cantidad de vino excep- cionalmente bueno, que se lleva a muchos lugares» (Descripción e Historia de las islas Canarias, Santa Cruz de

Tenerife, 1978, 226). E, em 1590, Tor-

O vinho adquire o

cerca

de

três

sé-

por

Assim, em 1547, Hans

pessoas de lia vivem

(V. de M. Godinho,

ob.

riani dava conta da abundância de

vinhos na ilha, referindo «que superou en mucho lo que en su tiempo havia

visto Alvise da Mosto» (Alejandro

Ciora-

nescu, Thomas Nicho/as

J, La

Laguna, 1963, 122). A partir desta pri- meira iniciativa de povoamento e valori- zação socioeconómica de uma área do novo espaço insular avança o processo de ocupação do Atlântico. A experiência madeirense serve ao mesmo tempo de alento e modelo para idênticas iniciati-

---

vas e o Madeirense surge em muitas delas como um elemento reanimador do seu arranque, primeiro na ocupação e

ilha

povoamento

Miguel,

da

de

São

desde

1474,

depois

nas

Canárias,

São

Tomé

e Brasil. Para essas paragens, o

Madeirense levou a experiência de mais

de

necessária esperança do seu êxito. Desta forma, o Madeirense e a sua ilha estão

do

ligados

Novo

meio

século

ao

de

faina

de

agrícola

ocupação

e

a

processo

Mundo

atlântico.

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-

Ponta de São Lourenço. Situada na região leste da ilha da Madeira avistando o mar, mar por onde chegaram os primeiros povoadores e donde partiu uma experiência de organização socioeconómica e administrativa que alcançou as longínquas paragens que os Portugueses colonizaram, a ponta de São Lourenço constitui um espectáculo de rara beleza, digna da Pérola do Atlãntico.

175

Consequências

do povoa1nento

e o ciclo do açúcar

na Madeira

nos séculos XV e XVI

ALBERTO VIElRA

A transplantação

da cultura

da cana-de-açúcar

para

século xv

e. o seu grande

s,ucesso a partir

das últimas

a ilha da Madeira

do mesmo

décadas

nos primórdios

do

século

e no seguinte

marcaram

profundamente

a vida

social

e económica

do arquipélago

envolvido O desenvolvimento

na rede de relações

da cultura

decorrentes

da comercialização

tendo

sacarina

na ilha da Madeira,

e de

todo

o espaço

atlântico

do «ouro branco».

desempenhado

um papel

importante

na economia

experiência

de incalculável

cultura

nas mais

longínquas

portuguesa

seiscentista,

constituiu

um

incentivo

e uma fonte

de

valor

no quadro

da expansão

europeia,

permitindo

regiões,

nomeadamente

as Antilhas,

a ilha

de São

desta Tomé e o Brasil

o sucesso

Do Açuquar, ou néctar na jactancia, Por Comida de Jove Saborosa Terá por ágoas taes, mais abundancia, Que a India, que hé por elle tam formoza; O melhor, & mais puro na substancia, De toda Europa, insigne, & poderosa Porquem crescendo será de dia em dia, Na substancia, no trato & mercancia. (Manuel Thomas, Insulana, Amberes, 1635, x, 81)

Manuel

Thomas,

próximo

da

época

áurea

da safra açucare

ira madeirense,

dá-

-nos

conta,

nestes

versos

do seu poema,

da

dinâmica

do

açúcar

na

Madeira

nos

séculos

xv e XVI; situa

a sua remota

filia-

ção no Oriente,

conta da sua vulgarização

ao mesmo

tempo

que

no

Ocidente,

mercê

da sua transplantação

para

o novo

espaço

atlântico,

onde

veio

enobrecer

a

ilha e as suas gentes.

De acordo

com

esta

perspectiva

procurar-se-á

definir,

ainda

que

de modo

sucinto,

o ciclo

 

do

açúcar

na

Madeira

nos

séculos

xv

e

XVI. Tal

mediterrânica, que, depois, permitiu o seu alargamento aos Açores, Canárias, São Tomé, Brasil e Antilhas. O açúcar e o vinho surgem na econo- mia madeirense como produtos domi- nantes, catalisadores da animação socioeconómica das gentes insulares. Tais produtos surgem, em simultâneo, como factores de enriquecimento e debilitação dos precários mecanismos da estrutura económica da ilha, mercê da definição de uma forte dependência em relação ao mercado europeu, que impõe o produto, financia a sua cultura e controla o seu comércio e consumo. Partindo deste ponto de vista, Fernand Braudel definiu em 1949 a economia do Mediterrâneo atlântico como um regime produtivo de monocultura (Fernand Braudel, La Mediterraneé et le monde

mediterranéen

[.

.

1949,

123).

Todavia,

. j,

tal

vol.

I,

Paris,

caracterização

análise

salienta-se

no

contexto

da

eco-

da

ambiência

económica

insular

mere-

nomia açucareira

atlântica

mercê

do

ceu

a refutação

de

Orlando

Ribeiro, no

facto

de

a Madeira

ter

sido

a primeira

que

concerne

à Madeira,

e de Elias Serra

experiência

desta

cultura

fora

da Europa

Ráfols,

quanto

às

Canárias

(Orlando

212

Ribeiro, L'Ile de Madere

j, Lisboa,

1949,

67;

Elias Serra

Ráfols,

«El gofio

nuestro

de cada día", in Estudios

Cana-

rios,

XIV-XV, 1969-1970,

97-99).

Na

década

de 60, a partir das análises de

Frédéric Mauro e Vitorino de Magalhães

Godinho,

mia insular por um regime de produtos dominantes, e não de monocultura

passou

a definir-se

a econo-

(como

o entendeu

Victor

Morales

Lez-

cano,

Les relaciones

mercantiles

entre

Inglaterra y los archipiélagos atlanti- cos ibéricos, La Laguna, 1970, 32-36). Desta forma, a definição de ciclo de açú- car deverá ser entendida apenas como o desenvolvimento dominante, e não exclusivo, da cultura da cana que cata- lisa o movimento da exportação (Frédé-

ric Mauro, Le Portugal au XVI" siecle, Paris,

e

«Conjoncture économique et sctructure sociale en Amérique latine depuis I'épo- que coloniale", in Hommage à Ernest Labrousse, Paris, 1974, 238-240; Vito- rino de Magalhães Godinho, «A divisão da História de Portugal em períodos", in

et l'Atlantique

1960,

231,

}

Ensaios, 11, 2.a ed., 1978, 12-14). No

entanto, tal retrato estará sempre dis- tante da policromia das condições em que vivem a açucareira brasileira e anti- lhana, sendo impossível a definição de uma sociologia do açúcar ou de uma civilização açucareira com fortes impli- cações ambientais e arquitectónicas (Gil- berto Freire, «Contribuição brasileira para uma sociologia do açúcar)), in Sociologia do Açúcar, Recife, 1971,

9-12).

~I\)

económico

no

mercado

europeu-

-mediterrânico, foi um dos primeiros e principais produtos que a Europa legou

e impôs às novas áreas de ocupação:

pri-

meiro chegou à Madeira para os Açores e Canárias.

e daí passou

A

cana-de-açúcar,

na

sua

primeira

A

Europa

e o oceano Atlântico

(carta

atribuída

a Diogo

Homem,

datada

de

1570

e existente

no Museu

Britânico).

experiência além-Europa, evidenciou as

suas possibilidades

de desenvolvimento

fora do habitat

mediterrânico.

Esta evi-

dência catalisou as atenções

do capital

estrangeiro e nacional, que apostou no

crescimento

e promoção

na ilha.

Só assim

se poderá

desta

cultura

compreender

Cultura,

produção

e crise

o arranque

rápido

da

mesma.

Esta,

que

 

nos

primórdios

da

ocupação

do

solo

A Europa distribui os produtos de cul-

tivo pelas áreas adequadas e assegura as

condições

necessárias

à sua implantação

e ao seu escoamento e comércio. Dentro

destes

parâmetros,

surgem

a cana-de-

-açúcare o pastel, que se alargam a todo

o espaço insular atlântico.

Os incentivos