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ROTEIRIZANDO:

UM ENQUADRAMENTO CONCEITUAL PARA OLHAR A CIDADE

A cidade é redundante:

repete-se para fixar alguma imagem na mente.

A memória é redundante:

repete os símbolos para que a cidade comece a existir

( )

( )

Calvino (1991:23)

Quando se fala em roteiro, vem logo à cabeça a idéia de imagens em seqüência. Por que, então, não partir desta linguagem para, nestes tempos interativos, roteirizar o ambiente? O exercício proposto é, pois, uma primeira leitura ambiental de um lugar (espaço/tempo) onde se desenrola um drama em múltiplas escalas (o cotidiano, o urbano, o metropolitano) com o transitar de diferentes personagens e o entrelaçamento de incontáveis histórias, formando um fascinante mosaico cultural 1 .

O que se quer é “aprender do ambiente”. Descobrir as lições do ambiente para poder

fazer parte do jogo urbano interativo, (re)inventar suas lógicas e descobrir sua complexidade, traduzida nas relações sócio-espaciais que animam a vida da cidade.

Nesta perspectiva, roteirizar traduz-se como aventurar-se em um percurso visual/perceptivo. Para isso, é preciso que se defina um ponto de vista. Ou seja, um olhar - ou uma forma de olhar - do observador-ator. Localizar no tempo e no espaço, a ação de que trata o roteiro. Exercício desta natureza deixa de ser vago quando se parte de um sistema de explicação que permita realizar a necessária tradução teórica

- ao mesmo tempo, descritiva, interpretativa e projetual. É o primeiro passo da investigação-ação.

A arquitetura da cidade, protagonista - mais do que cenário - do drama urbano é tema

recorrente na literatura e no cinema. Blade Runner de Scott (1982), mostrando uma

Los Angeles, em 2019, ao mesmo tempo high-tech e miserável, orientalizada nos costumes, banhada por uma chuva constante, tornou-se rapidamente um clássico cinematográfico cult. Em A vida: modo de usar, Georges Perec (1991) faz de um típico edifício parisiense da era Haussmann, o personagem principal. Calvino, em suas Cidades Invisíveis (1991) parece tentar condensar, como ele mesmo afirma, em um único signo - a cidade - todo o sentido da experiência humana.

Como coloca Kevin Lynch (1982), a imagem (a percepção) que se tem do ambiente resulta de um processo interativo entre observador e o meio. Neste sentido, o observador trata de traduzir o que vê em uma linguagem compreensível. Dota de sentido as imagens selecionadas do ambiente em função dos seus próprios objetivos.

Desde esta perspectiva, a idéia de roteirizar o ambiente toma forma na medida em que se possa - “com grande adaptação e a luz de (nossos) objetivos próprios”

(Lynch,1982:16) - construir um instrumento de investigação que articule, partindo da nossa percepção das coisas e dos ritmos do ambiente, um conjunto de técnicas de pesquisa social aplicadas à leitura ambiental, consubstanciando um método na forma

de “(

lê-lo. Ela (a metodologia) reconstrói a unidade significativa para um determinado grupamento humano, levando em conta o sentido das possíveis incoerências, rasuras, emendas, desvios, interpretações e comentários de seus membros sobre eles mesmos e sobre agentes externos.” (Santos e Vogel,1985:13).

É neste sentido que este ensaio metodológico procura aportar o exercício de análise

ambiental urbana.

)

um manuscrito que roteiriza o objeto que se procura conhecer e que permite

1 No sentido dado por Alexander et Al. (1980) para o pattern Mosaico de Subculturas (pp. 64-70).

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PRIMEIRA LEITURA DO AMBIENTE:

UM OLHAR SOBRE TRÊS CIDADES

Nos últimos quatro anos (ao longo, portanto de oito períodos letivos), três cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre foram objeto dos estudos de investigação-ação propostos pelo Ateliê de Planejamento e Desenho Urbano: as cidades de Guaíba, Eldorado do Sul e Portão.

Em cada uma delas, em seu contexto sócio-histórico e a partir de suas particularidades de configuração e desenvolvimento urbano, foi possível reencontrar Leonia, Pentesilea e Zora. Em cada uma, convivem os conflitos que Pesci (1985) denuncia como paradigmáticos do quadro urbano-metropolitano atual.

De forma mais ou menos transparente, ali estão os traços da sociedade consumista que alimenta-se continuamente de um ciclo produção-consumo-dejeto; as franjas periurbanas da exclusão da cidadania plena: amontoados de bairros sem infraestrutura, sem arraigamento, sem história, sem dignidade; os pedaços da inconclusa utopia modernista, fagocitada pelas ideologias dominantes, caricata como espaço-retrato (Choay,1985) da cidade funcional.

Os que vem de fora trazem, ao olhar cada cidade, já uma perspectiva pré-concebida, uma maneira de ler o ambiente (dotá-lo pois de sentido) onde pesam os valores selecionados da vivência de cada um. É necessário, então, exercitar a capacidade de “estranhar-se de si mesmo”, procurando um ponto de vista de observador participante (ou seja, incorporando a experiência de viver em uma outra realidade - em um outro ambiente - à seleção das percepções urbanas consolidadas).

A história de cada cidade (nova, para o observador) revela-se, em grande medida na construção de uma historicidade cotidiana (Certeau,1985), ou seja, na maneira com que seus moradores apropriam-se dos espaços urbanos públicos e privados, revelando atos de prática de lugar.

Neste sentido, cabe enfatizar as palavras de Braudel, ao referir-se que “(…) a história não é somente a diferença, o singular, o inédito—o que não se verá duas vezes. E por outro lado, o inédito nunca é perfeitamente inédito. Convive com o repetido e o regular” (1991:89). E rejeitar a neutralidade meramente científica como postura para descobrir os fatos, abrindo-se a uma busca exploratória e projetual.

Em cada caso, procurou-se a leitura possível do contexto. Uma imersão na historicidade cotidiana, na fruição dos lugares urbanos. A cidade (cada cidade) revela- se, em uma primeira tradução, através do ponto de vista do observador/investigador/projetista e sua percepção: ferramentas para roteirizar o ambiente, iniciar a investigação, tratar de legitimar-se para poder agir.

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3 O Olhar e a Memória Impressões do Alto da Escadaria 2 ) eram as numerosas

O Olhar e a Memória

Impressões do Alto da Escadaria 2

) eram

as numerosas cidadezinhas encerradas na cidade, as fortalezas na fortaleza, isto é, os claustros rodeados de muros e espaços mais ou menos fortificados que restavam de séculos pretéritos (…) Goethe (1986:25)

O que mais atraia a atenção do menino (

D e todos os lugares de Guaíba, o que mais gosto é esta escadaria parada no tempo, que liga a cidade baixa à cidade alta, ladeada de portões de ferro e chalés com

varanda. A cada degrau que se sobe, a faixa escura azulada que é o rio aumenta sua presença, e faz subir o horizonte desenhado de morros e edifícios da cidade grande do outro lado do rio.

Do alto da escadaria, fazendo uso de meus olhos e pincéis, enxergo as coisas como gostaria que elas fossem: tranqüilas, vagarosas, preguiçosas. Nestes momentos, posso fingir que me esqueço da Pentesilea que se espalha, subindo a colina, ladeando a estrada, ocupando as várzeas.

Daqui

estreita, o caisinho. O casario mal cuidado, a antiga prefeitura, o canteiro florido da avenida. As pessoas- formiguinhas, lá embaixo, caminham pelas ruas da cidade. Cada uma é uma história diferente. Suas casas, suas famílias, os amigos, o trabalho. Cada pessoa um mundo cotidiano escrevendo a historicidade: a história da cidade que passa como um filme na tela dos olhos de cada cidadão.

Mirando ao norte, vejo o centro velho, a praça, o mercado, o presídio. os edifícios públicos, as lojas e os bancos. Veja a esplanada esboçada onde param os ônibus; a casa de bombas da Corsan; os restos do trapiche abandonado, de onde, um dia, saiam as barcas; os ambulantes vendendo toda sorte de bugigangas made in Paraguai, ervas medicinais, raspadinha, cachorro quente, pipoca, amendoim, sorvete, churrasquinho.

São dez horas da manhã de uma terça-feira ensolarada, águas de março fechando o verão, um vento morno vem do rio. A cidade, o coração da cidade, fervilha dessas pequenas historias de cada um. Escreve-se, assim, uma história mais completa, complexa, cheia de variações em cada olhar. Há uma fila na porta de um banco: pessoas que estão ali para pagar contas, receber a aposentadoria, sacar um pouco de dinheiro, conversar com o gerente para tentar um empréstimo.

Sentado em um banco da praça, um velho está lendo o jornal. Outros dois se aproximam. Sentam-se. A conversa logo está animada. Não posso ouvi-los, mas sei que os assuntos são

última dos

importantes:

deputados, dizem que não tem inflação mas tudo sobe…

Nos ônibus, pessoas sobem e descem, carregando sacolas, pacotes. Vejo tudo com os olhos convictos de que tudo vai bem. Nem presto atenção quando um menino - uns dez ou doze anos, talvez - arranca a bolsa de uma senhora que esperava para atravessar a rua. Corre, envereda-se por entre as bancas dos ambulantes. Desaparece mercado adentro. Sei que ele vai

fonte colonial, mais embaixo, a rua

posso

ver

a

o

Inter

que

perdeu

de

novo,

a

2 Texto em forma de crônica, escrito após uma visita a Guaíba, fora das atividades de ateliê (outubro, 1994). A cidade já era, então, uma velha conhecida.

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voltar: a cena se repetirá outra e outra vez. É um pequeno drama, o mesmo drama, que se reprisa todos os dias. É um drama entre muitos dramas no cenário urbano, na paisagem da cidade.

Ao sul, a Riocell, na minha imagem (na minha imaginação) um

estapafúrdio monolito de concreto, ergue-se sorvendo do rio o seu alimento. Sua chaminé beijando o céu, deixando sua marca de fumaça branca. É uma história antiga, uma história e tanto, uma já quase lenda, os noruegueses chegando, trazendo

o progresso, a riqueza, os empregos… e a poluição, o cheiro

insuportável, os peixes morrendo, as casas fechadas na Alegria e na Florida. As praias mais ao sul, com seus casarões quase invadindo o rio, parecem adormecidas quando vistas aqui do alto. Mas é um outro cenário, onde certamente outros dramas acontecem escondidos pelas paredes e portas fechadas.

Às minhas

centenário. Foi ali, a sua sombra, que os bravos farroupilhas se reuniram para planejar a invasão de Porto Alegre. A Igreja

domina o conjunto, cria sentido para as duas praças contíguas. Olhando para o oeste, descortina-se a paisagem da colina - agora tomada pelo repetitivo casario - e as terras baixas, alagadiças. A prefeitura nova, o novo hospital. O trevo de acesso à cidade, a estrada: o roadstrip metropolitano tão recorrente.

Com cores de aquarela, eu traduzo a cidade enquanto a vejo do alto da escadaria. Sua origem: um caminho aberto pela peonada que trazia os bois da campanha. O matadouro Linck é a história em pedra. Patrimônio cultural ameaçado (como de costume), abandonado aos interesses de uns poucos, mas ao mesmo tempo, mostrando tanto da cultura tangível na arquitetura de feições inglesas.

Guaíba: impressões imprecisas de um visitante eventual. Ao

final da tarde (passou o tempo, nem percebi), o sol se pondo

a oeste, esparrama seu reflexo sobre a cidade e faz o rio e

as fachadas de cristal dos edifícios em Porto Alegre, arderem como em chamas. É a imagem que guardo ao descer, com vagar, cada degrau da escadaria, procurando colecionar na retina, um pouco desta geografia feita das percepções passageiras de “turista acidental”.

O cipreste

costas,

sinto

o

peso

da história.

geografia feita das percepções passageiras de “turista acidental”. O cipreste costas, sinto o peso da história

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5 Diário de Bordo Uma Crônica on the Road 3 A verdadeira história da cidade contemporânea

Diário de Bordo

Uma Crônica on the Road 3

A verdadeira história da cidade contemporânea ( é a história da periferia. Maurice Cerasi

)

U m ônibus azul, blue bird desasado corta a bê-érre sem muita certeza. Indo para Eldorado do Sul, ninguém de nós tem qualquer certeza, aliás! Hora de se perguntar “que

tantas

perguntas e a gente - é claro - vai em busca de respostas. E

logo, talvez rápido demais, já é a cidade?”).

Quebra

esquisito, meio engraçado, um pouco deprimente

Nem tanto, afinal se vive num big Brasil, cheio de contradições.

Tão pertinho de POA e ao mesmo tempo tão longe. -”Azar, eu

gostei

Não tão rápido, existem coisas para ver. Eldorado do Sul merece, pelo menos, um olhar menos fugaz. Talvez se a gente descesse do ônibus, caminhasse um pouco, falasse com as pessoas, repensasse (e isso é jogo duro!) nosso jeito de olhar o mundo…

zappeamos por

paisagens nunca dantes… Cidade Verde (“cidade” de verdade?

a cidade

“afunda”. Limites precisos: “a cidade acabou?”).

Medianeira, um outro padrão, a avenida se torna estrada que se torna caminho que chega no nada. As casas das pessoas refletem identidade. As pessoas olham curiosas este blue bird nada-a-ver. Outra avenida que corta a cidade no sentido de ligar a estrada com o quase nada: chamada, muito a propósito de Emancipação. Escola, delegacia de polícia (“para quem precisa de polícia…”), CTG, a praça. Um “centro” que se organiza linearmente. Faz calor e blue bird segue seu caminho.

casinhas e

(diria Pesci), tão

cidade (“onde é a

diabos

a

gente

fazendo aqui?”,

é

doloroso

e

outras

de

certezas,

o

que

Inesperado?

tá na hora de ir prá casa.”

então

é

tarde demais

a

para

larga

voltar, pois

avenida.

Dizem

casinhas e

que

On the road again, o ônibus segue pela be-érre, a paisagem industrial fora de lugar, desenho (in)urbano que se enxerga com os olhos da velocidade.

Sans Souci é outra história: nos interessa essa margem de rio e nos esquecemos que o “resto” é o ser e estar à margem de uma metrópole terceiro-mundista quase na ponta do Brasil. Vamos organizar um… ACAMPAMENTO! Afinal, uma idéia genial… carpe diem… Perdidos em um incerto labirinto e on the road again.

Itai, lugar comum, nos embrenhamos por um caminho cheio de olhos curiosos e cachorros mais ainda (nos convertemos em “ameaça” porque somos alienígenas). O canal e o mau cheiro. Constatação:

“Eldorado fede!”. E dai? Faz calor, blue bird reclama mas cumpre sua missão.

3 Texto em forma de crônica, elaborado após uma visita à Eldorado do Sul, com o grupo de estudantes “a bordo” do ônibus da Universidade (Março,1994).

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Chegamos à prainha, que tem praia e que tem rio, e que tem um boteco e nos deliciamos com uma boa coca-cola semimorna que é, afinal, um jeito da gente estar próximos das nossas (aquelas velhas) certezas. Da prainha se vê o skyline recortado de POA. Cheios de saudades, voltamos prá casa. Cheios, já, de saudades de Eldorado do Sul.

On the road again, a FAU-UFRGS surge, depois de um absurdo de pontes e viadutos, como um porto seguro (“E essa tal história de periferia, cidade contemporânea e blá-blá-blá?”). Coisas para pensar um pouco mais. Então vamos falar mais sério!

periferia, cidade contemporânea e blá-blá-blá?” ). Coisas para pensar um pouco mais. Então vamos falar mais

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7 Olhar sobre Portão Um Roteiro de Imagens 4 Então é hora de olhar. Imiscuir-se no

Olhar sobre Portão

Um Roteiro de Imagens 4 Então é hora de olhar. Imiscuir-se no cenário/cidade. Tornar-se personagem. Ator/agente dos fatos. Retratar e retratar-se. Perceber: aguçar os sentidos, aprender de Portão.

Take 1 Tomada 1 Strip Metropolitano grandes infra-estruturas
Take 1
Tomada 1
Strip Metropolitano
grandes
infra-estruturas

Cenário:

regionais - viadutos, trens, aeroporto, fábricas, rio Gravataí, megassuburbio viriliano 6 , congestão, entropia, desconstrução das nossas referências urbanas. Travelling 7 pela BR 116: alta velocidade na infinita highway. Multiplot: a história de cada um de nós. Elipse, passagem de tempo: o ônibus segue pela estrada que é o caminho urgente da metrópole. A paisagem se repete como um padrão 8 caótico. Fade out: a memória é acionada para criar seus próprios símbolos. estamos a caminho de Portão.

strip

metropolitano 5 ,

Take 2 Tomada 1 Aportando: primeira imagem
Take 2
Tomada 1
Aportando: primeira imagem

Cenário: a estrada, motéis, artesanato em cerâmica, postos de gasolina, fábricas. O cheiro que vem dos curtumes supera a

Travelling

imagem,

certeza do que esperar. Os signos urbanos começam a se agrupar,

o strip, aos poucos, perde a cara de estrada, começa a se

parecer com cidade. Hora de se perguntar “o-que-é-que-a-gente- tá-fazendo-aqui?” e outras tantas perguntas que, por enquanto,

só terão respostas provisórias.

muita

halo

desfocado.

pela

RS

240,

sem

Take 3 Tomada 1 Viaduto, Portal, Portão
Take 3
Tomada 1
Viaduto, Portal, Portão

Cenário: o viaduto - concreto armado que é portão, portal, “porteira” que (depois ficamos sabendo) dá origem ao nome do lugar desde tempos fugidios. O viaduto define o novo ponto de

vista:

e

organizando o strip. Corte rápido: já é, então, a cidade. A

megaestrutura

marcando

a

paisagem,

dividindo

4 Texto em forma de roteiro, elaborado após uma primeira visita à Portão com o grupo de estudantes (agosto.1995).
5

Sobre a idéia de strip, ver Venturi, Izenour e Scott-Brown (1978). 6 Refere-se ao double de cineasta e urbanista francês Paul Virilio (1994,1996). 7 A definição deste e de todos os termos que se refiram à linguagem cinematográfica, foram tomadas de Comparato (1983). Ver glossário no final do roteiro. 8 Padrão é conceituado no sentido dado por Alexander (1981,1982).

8

câmera fecha na busca do singular. O “Oh!” de exclamação, surpresa. Gimmick, reversão de expectativas: o edifício/instantâneo pós-moderno. A imagem é quasi virtual, o espaço está fora do “lugar”. Referência arquitetural alienígena respingando nos bordos da metrópole terceiro-mundista.

Take 4 Tomada 1 Learning from Portão
Take 4
Tomada 1
Learning from Portão

Cenário: o centro novo, interface cidade/rodovia. Interface cívica, social por excelência. Panorâmica: prefeitura, edifícios administrativos, um parque, galpão crioulo, âncora (portão) nativa(o)… A câmera fecha - plano americano - no arquiteto que nos revela a esperada storyline, telegrafa a informação, simula o movimento da cidade. A câmera é subjetiva (os olhos por trás da câmera…). Começamos a apreender: Estação Portão, Portão velho, Rincão do Cascalho, lugares urbanos em seqüência, permitindo antever o ritmo urbano que nos espera.

Take 5 Tomada 1 Flash-Forward Urbano
Take 5
Tomada 1
Flash-Forward Urbano

Cenário: a cidade. O parque, a avenida/ciclovia, a vila que se espalha pelas margens do arroio Noque, o curtume beijando o riacho (um beijo de morte…). Flash-forward: a cena revela o que

ainda está para acontecer, resume a estrutura, mostra sem pudor

a conflitualidade mascarada. O núcleo dramático aparece por

inteiro. Já não há como não olhar. Fade in: (re)começamos a entender a história.

Take 6 Tomada 1 O coração da urbanidade
Take 6
Tomada 1
O coração da urbanidade

Cenário: a cidade. Estação Portão, núcleo inicial, “centro histórico” que se revela na historicidade do cotidiano. A praça, o velho prédio da Estação, o casario definindo uma

imagem visual que nos conta de um tempo da cidade. Flash back:

o cemitério, uma interface com a memória de outros tempos.

Patrimônio cultural tangível mesclado com a cultura subjetiva 9 destas “gentes”: primeiro os alemães, os portugueses, depois todo mundo - negros, italianos - “salada mista à brasileira”

que define o percurso da ação.

Take 7 Tomada 1 Pentesilea revisitada
Take 7
Tomada 1
Pentesilea revisitada

9 A respeito de patrimônio cultural tangível e cultura subjetiva, ver Fundación CEPA (1989).

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Cenário: o caminho dos trilhos. Travelling que traz, em si mesmo, o drama da exclusão urbana. Pentesilea revisitada, ausência de urbanidade, margem, o avesso da cidade. Linear, segue o caminho do trem que um dia significou o avesso do avesso. A imagem (a cidade) se dissolve, como em um espelho de suas contradições. Um clichê periurbano - sem graça, sem ética - do nosso processo de metropolização.

Take 8 Tomada 1 A invasão consentida
Take 8
Tomada 1
A invasão consentida

Cenário: o caminho dos trilhos, ainda mais além. Travelling vagaroso, close profundo no drama da invasão consentida. Fruta intragável das ideologias dominantes. Cidade-ilegal-barra- pesada. “Entra quem quer, sai quem pode…” Insert: a parabólica (um signo do absurdo e um pé no mundo). O habitat: as casas, quase todas, com a latrina na frente. A nudez, a crueza, a qualidade da experiência humana transformada em caricatura. Insert: a “quitanda ambulante”, nossas próprias soluções.

Take 9 Tomada 1 Pegadas de Leonia
Take 9
Tomada 1
Pegadas de Leonia

Cenário: a fronteira, o limite, fio-de-navalha entre campo e cidade. A barreira: área interditada do antigo “lixão”. Pegadas de Leonia: o que sobra da cidade (da sociedade) que tudo consome e transforma em dejeto. A voracidade define o tempo dramático. Não há argumento sustentável: fade in, a imagem escurece lentamente. Em off, discursa o Senhor das Moscas.

Take 10 Tomada 1 Zora em "pequenas doses"
Take 10
Tomada 1
Zora em "pequenas doses"

Cenário: o ”loteamento popular” da prefeitura. Embrião da cidade artificial. Padrão: lote de 8,50 m x 22,00 m. A unidade:

26,00 m 2 . No total, 267 unidades previstas, o que significará, mais ou menos, umas mil pessoas. Personagem principal: o “pedreiro mecânico”. Subtexto: o projeto disciplinar, “arquitetura ou revolução” (Le Corbusier vive!). A casa:

resposta ideológica ou barganha política, tanto faz. Um process shot para fingir urbanidade: Zora - a cidade in-urbana - em “pequenas doses” 10 .

Take 11 Tomada 1 Quando a cidade vira campo
Take 11
Tomada 1
Quando a cidade vira campo

Cenário: a interface campo/cidade. O território split screen:

meio campo, meio cidade. O urbano avança tentáculos sobre o

10 No sentido dado por Alexander (1978).

10

espaço rural, colocando em risco a estabilidade do sistema ambiental. Enquanto isso, enormes vazios urbanos - terrenos com pouco ou nenhum uso - permanecem como capital de especulação. O reverso da medalha: o campo improdutivo, esvaziamento, favelização.

Take 12 Tomada 1 Imagens de referência: landmarks
Take 12
Tomada 1
Imagens de referência: landmarks

Cenário: a cidade vista do alto, de longe. Dolly back: a imagem se afasta, a cidade revela seu ethos: o tecido, o grão, a textura, a carne. Portão se espalha. Portão é descontínua, seu crescimento é aluvional. Seu crescimento remete à cidade natural de que fala Alexander 11 . Mas permite revelar seus marcos significativos, sua linguagem, sua pontuação: a torre da CRT, a prefeitura, o viaduto, a praça da Estação, torres de igreja dando ritmo à paisagem.

Take 13 Tomada 1 O strip intermitente
Take 13
Tomada 1
O strip intermitente

Cenário: a RS 240 em direção do Rincão do Cascalho. Travelling:

intermitência, descontinuidade urbana, como que deixando a cidade. The view from the road: a direita, as áreas baixas do arroio Cascalho, a cidade invadindo o riacho. O hardware urbano em conflito com a arquitetura do ambiente.

Take 14 Tomada 1 Townscape à moda Cullen
Take 14
Tomada 1
Townscape à moda Cullen

Cenário: Rincão do Cascalho, a esquerda, o posto de pedágio sobre a rodovia. A torre da Igreja domina o vilarejo. Paisagem quasi campestre, idealizada a la Cullen (1983). O tempo para, a câmera é lenta, o ritmo é deliciosamente sonolento. Em Rincão do Cascalho, tudo é “inho”, diminutivo carinhoso, como em uma cidade de brinquedo. Travelling através da estrada que acompanha o arroio Cascalho. Rua asfaltada, padrão residencial alto. Basta “espichar” o olhar e o campo está bem ali.

Take 15 Tomada 1 A viagem inversa
Take 15
Tomada 1
A viagem inversa

Cenário: a estrada que acompanha o arroio Cascalho. Travelling:

o asfalto acaba, as construções ficam mais simples, uma vez mais Pentesilea. Parece haver um domínio invisível que diferencia o urbano vinculado à rodovia e o periurbano/rural que fica a suas costas. A paisagem de campos cultivados, os hortifrutigranjeiros (“eu quero carneiros e vacas pastando no

11 Noção sustentada por Alexander no antológico artigo A city is not a tree (1988).

11

meu jardim…”). A cidade já se avizinha. O viaduto, grande muro cinzento se insere, cria significado: é ruidoso, cacofônico, desafinado no território.

Take 16 Tomada 1 Epílogo: o olhar e a cidade
Take 16
Tomada 1
Epílogo: o olhar e a cidade

Cenário: o strip percorrido ao contrário: a imagem, a memória e a imaginação. Travelling: voltando para POA. Dissolução de imagens. E de certezas.

Glossário 12

Ação: movimento em frente à câmera. Cena: unidade dramática do roteiro Close up: plano em detalhe Corte: passagem direta para outra cena Dolly back: câmera se afasta do objeto Dolly in: câmera se aproxima do objeto Elipse: passagem rápida de tempo Fade in: gradual escurecimento da imagem Fade out: gradual iluminação da imagem Flash-back: cena que revela elemento do passado Flash-forward: cena que revela o que vai acontecer Fusão: sobreposição de duas imagens em uma só Gimmick: reversão de expectativa Halo desfocado: fundo desfocado, objeto em foco Insert: imagem rápida antecipando um fato Long shot: plano geral, incluindo todo o cenário Loop: segmento do filme Multiplot: várias ações importantes articuladas Off: vozes de fundo sem mostrar o narrador Percurso da ação: conjunto de fatos e conflitos articulados Plano médio: ou americano, da cintura para cima Process shot: truque para simular movimento seqüência: série de tomadas Split screen: imagem da tela dividida em duas Story board: roteiro em forma de desenhos seqüenciais Story line: síntese da história Take: tomada Travelling: câmera em movimento contínuo

12 Adaptado de Comparato (1983).

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APRENDENDO DO AMBIENTE:

ROTEIRO PARA UMA ANÁLISE AMBIENTAL

Aprender da paisagem existente é a maneira de ser um arquiteto revolucionário. Venturi, Izenour e Scott-Brown (1982:22)

Iniciando

o processo

de Investigação-

ação

O enfoque perseguido pelo trabalho de ateliê é eminentemente projetual, ou seja, objetiva construir, pelo grupo de estudantes, alternativas de configuração urbana e de estratégias de gestão da cidade, fundamentadas em um processo de investigação- ação. Esta abordagem não prescinde, por conseqüência, de um momento de análise que subsidie as atitudes de planejamento e projeto.

12

Procedimentos

para

a investigação

empírica

Identificação

e avaliação

de interfaces

físicas

No caso específico, o reconhecimento dos traços estruturais do sistema urbano será buscado desde aportes analíticos referentes aos condicionantes físicos, à oferta de facilidades urbanas/equipamentos de uso coletivo e, com particular ênfase, partindo do ponto de vista dos moradores, aos aspectos relacionados à cultura subjetiva e a percepção do ambiente em que vivem.

Neste sentido, desde a perspectiva teórica discutida nos documentos I e II, propõe-se

uma metodologia de investigação e análise do espaço urbano que prioriza três

procedimentos para a pesquisa empírica 13 :

i. O mapeamento de interfaces físicas, ou seja, o reconhecimento do sistema urbano que se pretende investigar a partir de sua configuração físico-espacial visualizada em seus elementos naturais e construídos que configuram interfaces ou padrões reconhecíveis;

ii. O mapeamento de interfaces sociais, ou seja, o reconhecimento do sistema urbano desde a oferta de situações que potencializem as relações entre indivíduos, atividades e grupos sociais, configurando lugares urbanos caracterizáveis no sentido de acessibilidade e centralidade;

iii. A interpretação de aspectos de percepção ambiental e da cultura subjetiva dos moradores, ou seja, seus valores, interesses, percepções e julgamentos, no que se refere a si próprios, ao lugar onde vivem e aos agentes externos.

Conforme o mencionado no documento II - Notas sobre o Conceito de Interfaces

Urbanas, as interfaces físicas 14 podem ser definidas como elementos da estrutura

urbana que cumprem a função de bordos ou articulações espaciais entre áreas relativamente homogêneas do tecido urbano, ou ainda conectando elementos ativos (interfaces sociais), nos quais processam-se relações de comunicação e troca.

Em outras palavras, as interfaces físicas cumprem o papel de arcabouço às relações sócio-espaciais que acontecem entre indivíduos, atividades e grupos sociais distintos. Servem, neste sentido, de espaço-intervalo 15 de mediação nas relações público/privado: conectam espacialmente distintas zonas da cidade, limitam usos diferenciados ou, ainda, determinam barreiras à percepção, fruição e apropriação do espaço urbano.

Identificação

e avaliação

Nesta mesma perspectiva, as interfaces sociais 16 definem-se por oportunizar

sociais encontros e trocas sociais em distintos níveis. São os “espaços” da cidade que funcionam como atratores urbanos, concentrando a oferta e aglutinando as demandas

de interfaces

e

interações sociais em termos de produção e consumo, acesso aos serviços públicos

e

privados de educação, cultura, saúde, etc.

Sistema

de interfaces,

centralidade e

acessibilidade

Uma vez mais a questão do intervalo (Hertzberger,1996) entre os âmbitos público e privado está presente: entre as interfaces sociais que melhor qualificam a urbanidade, estão aquelas de fruição e apropriação não formalizada e de acesso gratuito, como praças parques e jardins públicos, ruas e avenidas agradáveis que concentram determinados tipos de atividade (muitas vezes dirigidas a um público específico), áreas de praia, mercados informais, campos de jogos, etc. Muitas vezes, as práticas de lugar cotidianas (Certeau,1985) fazem com que uma área qualquer da cidade (que para um urbanista menos avisado e perspicaz pode parecer um simples baldio) revista-se de significados muito particulares e queridos para determinados indivíduos ou grupos

Mantendo este ponto de vista, torna-se bastante simples de entender que interfaces (físicas ou sociais) estão diretamente relacionadas com acessibilidade e centralidade

urbana. É da interação entre o conjunto de interfaces, o tecido urbano em suas

13 Os procedimentos operacionais para o desenvolvimento do trabalho de campo estão detalhados no documento I. Os grupos de pesquisa receberão orientação específica em ateliê. 14 Para aprofundar o estudo da cidade como sistema de interfaces - em particular, quanto à interfaces físicas - centrar-se nas fontes originais: Pesci (1985), Fundación CEPA (1987) e Perez (1995). 15 A expressão utilizada procura aproximar-se da noção de intervalo de Hertzberger (1996), aplicando-a ao conceito de interface. 16 Em relação à interfaces sociais, idem a nota 12.

13

diferentes configurações, e as formas de percepção, fruição e apropriação da cidade por seus moradores, na forma de um sistema, que se pode apreender, por fim, o sentido - a imagem e a legibilidade - da estrutura urbana.

Os quadros-síntese 1. e 2. destacam as principais categorias tipológicas de interfaces físicas e sociais, procurando ilustrá-las com exemplos recorrentes na estruturação da cidade contemporânea:

Categorização tipológica de interfaces físicas

Tipologia

Características a avaliar

Exemplos recorrentes

Interfaces

bordos ecológicos naturais florestas, matas e campos preservados ou implantados cursos d'água de qualquer natureza

naturais

áreas de produção rural

elementos topográficos/geológicos significativo

intensiva ou extensiva parques regionais de preservação áreas de produção agro-pecuária produção de hortifrutigranjeiros agro-indústria, etc.

Interfaces

grandes equipamentos e

instalações portuárias aeroportos, bases aéreas terminais de carga e passageiros ferrovias, rodovias, canais, pontes, viadutos, túneis, diques grandes plantas industriais estações de energia, água e esgoto, etc.

construídas

grandes infraestruturas

urbanas

e/ou regionais

Interfaces

áreas residenciais com carências tecido residencial não consolidado:

periurbanas

de infraestrutura urbana bairros periféricos baixa qualidade do meio construído vilas irregulares ausência de consolidação histórica áreas de invasão ausência de participação vazios intra-urbanos

Interfaces

limites entre distintas jurisdições

fronteiras nacionais ou estaduais limites entre municípios áreas especiais (p.e. bases militares, terrenos pertencentes à União, etc.)

jurisdicionais

Interfaces

definidas pelas regulamentações zoneamento de usos

normativas

urbanísticas em distinos níveis

controle de densidades

legislativos normas de parcelamento e loteamento legislação ambiental, etc.

Interfaces de a ce ssi bili da de

conectores urbanos e regionais avaliados em função da quantidade e qualidade da oferta

sistema viário urbano e regional sistema de transportes públicos articulações intermodais

quadro-síntese 1.: oferta de interfaces físicas - baseado em Fundación CEPA (1987), Perez (1995).

14

Categorização tipológica de interfaces sociais

Tipologia

Características a avaliar

Exemplos recorrentes

Interfaces institucionais cívicas

equipamentos institucionais orgãos públicos da administração direta de uso coletivo (prefeitura, câmara, secretarias, etc.) avaliadas em função: orgãos vinculados ao judiciário da quantidade e distribuição (tribunais de diferentes âmbitos) do dimensionamento x demanda sindicatos, federações e ass. profissionais de critérios de localização instalações de saúde e segurança dos usos e atividades específicas centros comunitários e ass. de bairro, etc. qualidade dos serviços e conservação

Interfaces institucionais Culturais

vinculadas à rede de educação Escolas de I e II graus formal ou não: faculdades e universidades

avaliadas em função dos

creches, maternais, jardins de infância

mesmos critérios acima institutos e cursos científicos e culturais bibliotecas, teatros, cinemas, auditórios clubes sociais templos, paróquias estações de rádio, televisão, jornais, etc.

Interfaces institucionais não formais

rede de espaços abertos praças

de apropriação informal:

parques

 

avaliadas em função dos jardins

mesmos critérios acima

áreas para pedestres campos de jogos "ramblas", caminhos agradáveis

Interfacesprodutivas

usos e atividades dos setores instalações industriais de secundário e terciário, avaliados em diferentes setores função dos mesmos critérios acima atividades de comércio: varejo, atacado, oferta de emprego consumo cotidiano ou eventual volume de produção prestação de serviços:

escritórios, consultórios, etc.

urbanas

quadro-síntese 2.: oferta de interfaces sociais - adaptado de Fundación CEPA (1987), Perez (1995)

Compreendendo

a cultura

subjetiva

Projeto e

destino

Nas sociedades humanas complexas 17 , cada indivíduo cumpre o duplo papel de protagonista e desenhador do ambiente. Com isso se quer afirmar que viver em sociedade significa viver constantemente situações de interação com o meio (como protagonistas, portanto), em muitas das quais existe a exigência de tomar-se decisões que afetarão, não apenas ao ator/protagonista, mas também a outras pessoas e, possivelmente, ao “espaço” em que vive este grupo. Em outras palavras, cada pessoa, na medida em que, para viver em sociedade, é chamada a tomar decisões de maior ou menor complexidade, exerce uma ação projetual que afeta a ambiente em que vive.

“Não há projeto sem destino…”, sustenta Giulio Carlo Argan 18 , no sentido em que a ação projetual eticamente conseqüente, em qualquer escala, objetiva viabilizar uma transformação positiva em relação ao meio. A ação projetual destina-se a alcançar um objetivo, a mudar, neste sentido, o destino daqueles para os quais o projeto se endereça.

17 Sociedade complexa está sendo definida, no âmbito deste texto, como grupamentos humanos em que a organização e divisão das tarefas requer uma certa especialização dos indivíduos e papéis sociais, e uma distribuição hierárquica das responsabilidades, referindo-se especificamente, no caso, às sociedades urbanas.
18

1989:28).

Citado como parte do enfoque conceitual e metodológico para o projeto do Parque Costero del Sur (Fundación CEPA,

15

Projetos

individuais e

coletivos

Cultura urbana

Cultura e

subjetividade

Nestes sentido, na medida em que o homem protagoniza e desenha o “seu” ambiente, ele está definindo o destino do projeto. No caso da cidade, o território urbano se constrói como um puzzle combinado de projetos - físicos, sociais, econômicos - mais ou menos complexos, afetando um maior ou menor contingente de pessoas e destinos.

Todos nós temos projetos individuais (Velho,1981), que estão sendo postos em prática ou aguardando a oportunidade para que possam colocar-se em marcha com aceitáveis possibilidades de sucesso. Os exemplos para ilustrar esta afirmação podem ser identificados na vida cotidiana de cada pessoa: uma família projeta construir sua casa própria; um jovem casal planeja, após a formatura, passar um ano na Europa; um grupo de garotos organiza um time de futebol; um homem já idoso resume o seu “projeto de vida” em escrever suas memórias.

São projetos que dizem respeito especificamente a cada indivíduo ou a um pequeno grupo de pessoas. E, pelo menos em princípio, uma vez que os projetos encontrem o seu destino, quase nada mudará na sociedade como um todo.

Outros projetos, no entanto, mais complexos e envolvendo mais pessoas ou grupos, quando realizados podem refletir-se - em maior ou menor grau, positiva ou negativamente - na vida de toda a sociedade. São projetos coletivos (Velho,1981):

dependem, para serem viáveis, da articulação de indivíduos ou grupos, no sentido de concentrar forças para alcançar um objetivo comum. Aliás, uma das características que melhor define uma sociedade complexa é a existência de projetos coletivos que dão “corpo” a esta sociedade: uma identidade própria, um “norte” a ser buscado conjuntamente.

Compreender este emaranhado (por isso a analogia com o puzzle) de projetos individuais e coletivos que incidem sobre o ambiente, embora faça parte do óbvio cotidiano de nossas vidas, não é uma tarefa das mais simples.

Se cada pessoa protagoniza o seu próprio destino, não é menos verdade que o ambiente condiciona, em grande medida, a concreção dos desejos individuais e a interação de indivíduos, grupos sociais, agentes econômicos, etc. no território sobre o qual a multiplicidade de projetos está sendo acionada.

Embora cada pessoa explique o ambiente em que vive de uma forma que lhe é própria e particular, muitos elementos deste ambiente (coisas boas ou ruins) fazem parte de uma explicação que, dentro de certos limites, é aceita pela maioria das pessoas. Ou seja, algumas coisas, na cidade, são compreendidas e valorizadas por todos ou quase todos os cidadãos.

É neste sentido que se pretende definir o que, a grosso modo, poder-se-ia chamar de uma cultura urbana: um conjunto de valores, percepções, correlações e significados que é compartilhado (reconhecido e interpretado, mas não necessariamente aceito em sua íntegra) por todos aqueles que vivem em um determinado contexto urbano, em um mesmo tempo sócio-histórico.

Pode-se dizer, dentro desta perspectiva, que esta cultura responde a uma percepção estruturada do ambiente. O que permite a interpretação daquilo que importa objetivamente ao conjunto de moradores de uma cidade, quais são suas reais necessidades, seus valores mais caros e arraigados, suas expectativas de mudança em relação ao ambiente em que vivem, etc.

Se é verdade que na sociedade urbana - ou, mais especificamente, em uma determinada sociedade que se define pelo mosaico social que vive em uma dada cidade -, as pessoas passam a compartilhar de uma mesma cultura, esta não se constitui por si só em um consenso. Sempre existirá lugar para discordância de pontos de vista e discrepância na valoração atribuída às coisas dentro desta cultura. Existe pois espaço para o julgamento subjetivo dos fatos. E, neste sentido, a mediação que se dá entre indivíduo ou grupo e o ambiente (o que, como foi visto, é

16

um processo filtrado pela cultura objetiva) refletir-se-á em uma diversidade de opiniões e ideologias 19 .

O urbanista, ao colocar-se no papel de mediador entre os interesses dos distintos agentes do desenvolvimento urbano, necessitará de instrumentos que lhe permitam compreender o conjunto variado de percepções e valores culturais, interpretando-os e

dotando-os de uma significação coletiva, tanto no sentido de legitimar-se no papel de

mediador, quanto para poder avaliar o quão legítimas são as demandas e pautas identificadas, no sentido de respondê-las projetualmente. Dito de outro modo, compreender a quem se destina o projeto, e em que medida uma ação projetual legitima-se socialmente, faz parte da tarefa intransferível do projetista ambiental.

Desde este ponto de vista, é preciso familiarizar-se com algumas técnicas de pesquisa social e de percepção ambiental aplicáveis à investigação-ação

aplicada urbanística 20 . No quadro abaixo, se fará uma referência sucinta a algumas destas técnicas.

pesquisa social

Técnicas de

e interesses

de conflitos

mediador

como

O urbanista

Questionários

Conjunto de questões em que as opções de resposta estão pré- determinadas. Muito utilizada em pesquisa social em que a informação buscada tem caráter quantitativo e presta-se a um tratamento estatístico. Em análise urbana, de um modo geral necessita de um amostragem ampla que lhe confira legitimidade estatística.

fechados

Questionários

Conjunto ode questões que admitem respostas abertas, ou seja formuladas espontaneamente pelo entrevistado. Por exemplo:

abertos

quais os lugares que o(a) senhor(a) acha mais bonitos em sua cidade?

A

informação presta-se a um tratamento tanto quantitativo

(dependendo do tamanho da amostra), quanto qualitativo (uma vez que abre espaço para comentários que qualificam a resposta dada, p.e.: sendo estes os lugares que acha mais bonitos, por que eles lhe chamam mais a atenção?).

Entrevista

não-

Nesta técnica, não se parte de um questionário preestabelecido, mas sim de um roteiro de questões em aberto que vai sendo alterado/complementado ao longo da entrevista, na medida em que assuntos importantes para o tema da pesquisa vão surgindo. Fornece uma informação qualitativa altamente subjetiva. É mais comumente usada em investigação antropológica.

diretiva

História de vida (método biográfico)

Geralmente partindo da entrevista não diretiva, o método biográfico procura traçar a história da vida de um determinado

indivíduo ou grupo (suas relações, sociais, espaciais, vivência

 

de

episódios históricos, etc.).

É geralmente usado em estudos etnográficos, mas pode ser muito útil em pesquisa urbana. Requer, do investigador e do informante, bastante tempo em sua aplicação.

Construção

de

Outra das técnicas antropológicas, que consiste em estruturar-

“redes sociais”

se

uma rede de informantes para a aplicação de entrevistas ou

outras técnicas de pesquisa. A partir de um primeiro informante (o primeiro elo da rede denomina-se ego), este indica um segundo indivíduo para ser contatado e assim por diante. Geralmente as redes são utilizadas na busca de informações de caráter qualitativo. Em muitos casos, sua aplicação permite identificar padrões (rede familiar, profissional, de interesse em filatelia, etc.)

19 No sentido quase coloquial do termo, conforme é utilizado por João Ubaldo Ribeiro:”

de ‘fôrma’ na qual moldamos o mundo.” (1986:191). 20 Os comentários sobre as distintas técnicas de pesquisa social e percepção ambiental foram tomados, principalmente, de Both (1977), Bourdier (1975), Castello et al (1986), Castello, Andrade e Marzulo (1995), Lynch (1982), e Saltalamachia (1992). Sugere-se, para aprofundar a compreensão das técnicas, no sentido de aplicá-las, a consulta às fontes citadas.

uma maneira de pensar, uma espécie

17

Observação

Também mais comumente associada à pesquisa antropológica, trata da “imersão” do investigador na realidade a ser estudada, participando do cotidiano do seu objeto, observando e interagindo com ele.

participante

mapas mentais Técnica de investigação sobre a percepção ambiental de indivíduos ou grupos, sua origem está em estudos da psicologia social. Entre os arquitetos, sua utilização passou a ser bastante utilizada a partir dos estudos de Kevin Lynch (1982, principalmente). De forma simplificada, consiste em pedir ao informante descrições gráficas ou verbais de um determinado lugar (cidade, bairro ou percurso, etc.), enfatizando os elementos da forma visual (ver documento II).

mapas cognitivos Procuram interpretar qualitativamente o grau de conhecimento do informante sobre um determinado espaço ou percurso. Por exemplo: descreva o caminho que você indicaria para que alguém de fora da cidade pudesse se deslocar da estação rodoviária ao Palácio do Governo.

mapas

comportamentais

Existem vários tipos de mapas comportamentais. Uma das formas mais utilizadas em pesquisa urbana trata da observação dos movimentos, hábitos, atividades, etc. que acontecem em um determinado espaço (uma praça, por exemplo) que é mapeada em termos, por exemplo, de hierarquia e freqüência.

em um determinado espaço (uma praça, por exemplo) que é mapeada em termos, por exemplo, de

cenário estruturado Outra técnica de percepção ambiental bastante interessante: o investigador apresenta uma “história” (uma hipótese sobre fatos que contemplem os objetivos de seu estudo) ao entrevistado, apontando diferentes desfechos possíveis entre os quais o informante deverá escolher o mais adequado.

grade de repertório

Consiste em mostrar ao entrevistado um conjunto de imagens (repertório) para que este identifique, comente, hierarquize, etc.

18

4

A INVESTIGAÇÃO EM ANDAMENTO:

CONSTRUINDO A ANÁLISE AMBIENTAL

Nos capítulos anteriores, procurou-se apresentar a experiência recente em análise urbana do Ateliê, referindo-se aos estudos de caso desenvolvidos em três cidades e, em rasgos gerais, o desdobramento teórico-metodológico aplicado. Cabe assinalar o estado de construção da metodologia que vem sendo empregada. Neste sentido, a cada nova experiência, tem-se buscado aperfeiçoar a base teórica e os instrumentos de investigação empírica, objetivando realimentar constantemente, tanto o processo investigativo-projetual (no sentido do produto alcançado pela análise ambiental), quanto o processo formativo (com uma pergunta permanente: que arquiteto urbanista - e qual o papel social deste profissional - está sendo formado no âmbito da universidade pública brasileira?).

Trazer a discussão destas questões para o interior de uma ateliê de planejamento e desenho urbano, pretende ir além de uma retórica acadêmica auto-indulgente ou do já velho (mas ainda mal resolvido) dilema da interface entre universidade e sociedade. Se quer afirmar que este questionamento fundamenta-se em algumas convicções: i) porque o quadro de “desestrutura” das grandes e médias cidades brasileiras atinge proporções insustentáveis em relação a conflitos de moradia, infraestrutura, emprego, apropriação do espaços público, etc.; ii) porque o rol histórico da arquitetura na construção da cidade merece uma reflexão crítica e realista quanto a sua dimensão sócio-ambiental; iii) porque o enfrentamento deste duplo quadro de crise exige um direcionamento acadêmico e profissional com base em novos paradigmas e; iv) porque a perspectiva da projetação ambiental enquanto processo continuado e interativo entre homem e ambiente parece apontar alternativas com capacidade de resposta para uma cidade que enseje urbanidade e cidadania.

Desde este ponto de vista, a construção metodológica da análise ambiental (sempre levando em conta a pequena experiência pregressa do Ateliê) não pode prescindir de um contato participativo e constante com a cidade real: envolver-se em um exercício de análise de interfaces e cultura subjetiva implica em um envolvimento com a cidade, seus problemas concretos, demandas e aspirações legítimas, sua história e sua gente.

Neste sentido, algumas recomendações de caráter operacional podem ser apontadas.

O trabalho deverá ser desenvolvido efetivamente em equipe. Os indivíduos ou

grupos terão definidas suas tarefas específicas dentro de uma programação geral,

e

serão responsáveis pela sua criteriosa execução;

 

O

trabalho

em

equipe

pressupõe

o

cumprimento

das

tarefas

nos

prazos

estabelecidos pela programação: tarefas não cumpridas prejudicarão o trabalho coletivo;

A existência de determinados dados não significa informação confiável: todas as fontes e todas as informações objetivas devem ser checadas em sua veracidade e precisão;

O mapeamento de interfaces físicas e sociais deve buscar a maior precisão possível em termos de descrição e interpretação espacial, nos limites da informação disponível, e ser facilmente compreendida por todos: deve-se buscar uma linguagem gráfica de fácil leitura;

A abordagem da cultura subjetiva é uma tarefa pessoal e intransferível de cada integrante da equipe. Todos devem participar da aplicação das técnicas de pesquisa junto à população da cidade;

A

percepção de cada integrante enriquece a discussão coletiva;

 

O trabalho em equipe avança satisfatoriamente quando a informação é compartilhada, em termos de sua elaboração e discussão;

A

investigação não se esgota com o seminário de análise. Ao contrário, apenas se

inicia. Será preciso constantemente buscar novos elementos e detalhes para

19

garantir credibilidade ao processo de projetação e a adequação das soluções técnicas de projeto.

E, finalmente, é preciso que haja um profundo respeito em relação ao lugar e as pessoas: o jeito particular de pensar e de apropriar-se do espaço urbano de cada indivíduo ou grupo social define, em grande medida, o destino do projeto. O objetivo é aprender do ambiente, o que significa tentar deixar de lado as certezas pré- concebidas, adequar-se ao contexto e a escala, aos costumes e tradições, às fantasias e diferentes visões de mundo. É a diversidade humana que dá sentido à cidade, colorindo o ambiente com os matizes da sua cultura particular e única.

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