Você está na página 1de 23

PRISCILA LEONEL PASQUALINI

DIFICULDADES? DE APRENDIZAGEM?

FLORIANÓPOLIS
2008
PRISCILA LEONEL PASQUALINI

DIFICULDADES? DE APRENDIZAGEM?

Monografia apresentada ao curso de


Especialização em Psicopedagogia Escolar
e Clínica da Associação Catarinense de
Ensino como requisito parcial para
obtenção do grau de Especialista, sob
orientação da Profª Marise Siqueira
Carneiro da Fontoura, Msc.

FLORIANÓPOLIS
2008
2

PRISCILA LEONEL PASQUALINI

DIFICULDADES? DE APRENDIZAGEM?

Monografia apresentada ao Curso de Especialização em Psicopedagogia Escolar e


Clínica da Associação Catarinense de Ensino para obtenção do grau de Especialista
e aprovada pelos seguintes professores:

FLORIANÓPOLIS
2008
3

RESUMO

A presente monografia tem como objetivo apresentar o trabalho desenvolvido no


Hospital Infantil Joana de Gusmão, com crianças. Estas, pacientes que já tiveram
alta e apresentam dificuldades escolares e de aprendizagem. Assim como apoio e
orientações às famílias e as escolas destes pacientes. Apresenta também, a
observação, o acompanhamento e desenvolvimento de atividades e trabalhos
pedagógicos e psicopedagógicos realizado com uma destas criança.

Palavras-chave: Dificuldade de Aprendizagem, Psicoprdagogia, Educação, Criança,


Família, Escola.
4

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................5

2. HOSPITAL INFANTIL JOANA DE GUSMÃO: HISTÓRICO E PROGRAMAS.......6

2.1. Programa de Dificuldade de Aprendizagem .........................................................8

2.1.1 Histórico ..............................................................................................................8

2.1.2 Objetivos do Programa de Dificuldade de Aprendizagem ..................................9

3. DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM.................................................................11

4. DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM EM CRIANÇAS DE 6 A 15 ANOS DE


IDADE: UMA EXPERIÊNCIA PRÁTICA....................................................................17

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................19

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .....................................................................20


5

1. INTRODUÇÃO

O Hospital Infantil Joana de Gusmão (HIJG) é uma instituição muito


conhecida na cidade de Florianópolis/SC, por atender exclusivamente crianças e
adolescentes e ter características próprias que o diferem significativamente de um
hospital convencional. A começar pelo espaço construído decorado com motivos
voltados ao público infantil e com temas específícos, de acordo com as datas
comemorativas. Os uniformes dos funcionários também são diferentes; em geral,
coloridos ou enfeitados.

Apesar de todo o esforço dos profissionais, o sofrimento é inevitável. Mas


o hospital deve ser um espaço de vida. Dentre os projetos desenvolvidos no HIJG
para garantir o atendimento humanizado e de qualidade, está a seção de pedagogia
com seus programas: Classe Hospitalar , Ambulatório de Dificuldades de
Aprendizagem, Estimulação Essencial e Recreação.

Houve a escolha de um paciente em especial para a observação e o


acompanhamento, isso foi feito pelo fato de poder ter um conhecimento mais
aprofundado, em suas dificuldades, os métodos e estratégias utilizadas em seu
tratamento.

Este trabalho aborda o histórico e os programas do HIJG, em especial o


Programa de Dificuldades de Aprendizagem e a minha experiência prática.
6

2. HOSPITAL INFANTIL JOANA DE GUSMÃO: HISTÓRICO E PROGRAMAS

O Hospital Infantil Joana de Gusmão - HIJG foi inaugurado em 13 de


março de 1979. Seu nome é uma homenagem à beata Joana de Gusmão, nascida
em São Paulo, mas que viveu um período de sua vida nas proximidades da Lagoa
da Conceição, bairro do município de Florianópolis, e deu atendimento às crianças
da comunidade. É uma instituição pública estadual, com 22.000 m² de área
construída. Atualmente conta com 144 leitos, cerca de mil funcionários e faz

aproximadamente 7.300 internações, 59.300 atendimentos ambulatoriais e 93.700


atendimentos emergenciais ao ano.

O espaço físico está dividido em unidades de internação de acordo com


as especialidades atendidas (algumas identificadas por letras):

• A (adolescentes);
• B (ortopedia, pós-operatório e outras);
• C (cardiologia e nutrologia);
• D (nefrologia e pneumologia);
• E (neurologia);
• Berçário;
• Emergência Interna;
• Isolamento;
• Oncologia;
• UTI geral;
• UTI neonatal.

As especialidades atendidas são: Cardiologia, Cirurgias (Pediatria Geral,


Plástica, Oftalmologia, Ortopedia, Otorrinolaringologia e Urologia), Desnutrição,
7

Gastroenterologia, Nefrologia, Neurocirurgia, Neurologia, Queimaduras,


Pneumologia e Terapia Intensiva.

O HIJG atende crianças e jovens de O a 14 anos e as internações são


feitas através de emergência ou do ambulatório. O atendimento ambulatória!
acontece com agendamento de consultas a partir do encaminhamento dos médicos
dos postos de saúde do Estado. Existem ainda os atendimentos do tipo hospital-dia
para o atendimento de pacientes soro-positivo e tratamento quimioterápico.

O hospital atua como um pólo de referência para patologias de maior


complexidade e também como hospital geral pediátrico na região da Grande
Florianópolis.

Além das especialidades médicas, o HIJG oferece aos seus pacientes os


serviços de Fisioterapia, Fonoaudiologia, Psicologia, Pedagogia, Nutrição e Serviço
Social. Este último presta apoio às famílias que necessitam de roupas e materiais
para higiene pessoal, entre outros, durante o período de internação. Conta ainda
com um serviço de voluntariado que tem, entre outras atividades, angariar fundos
que são revertidos em brinquedos e materiais diversos. As voluntárias são também
responsáveis pela decoração do hospital que muda a cada época do ano, de acordo
com as datas comemorativas. Algumas dedicam tempo à interação social com as
crianças e seus acompanhantes.

O trabalho de cunho pedagógico foi instaurado no HIJG ainda na década


de 1980, em razão da necessidade de atividades na área de Estimulação Precoce e,
desde então, vem conquistando espaço. Atualmente existe, no hospital, uma Seção
de Pedagogia, composta por nove profissionais, entre pedagogas, professoras de
outras licenciaturas e um grupo variado de estagiários. A Seção é responsável por
diversas atividades estruturadas na forma de quatro programas de trabalho:
8

Estimulação Essencial, Programa de Dificuldade de Aprendizagem, Recreação e a


Classe Hospitalar.

2.1. PROGRAMA DE DIFICULDADE DE APRENDIZAGEM

2.1.1 Histórico

Surgiu para suprir a necessidade de algumas crianças do Programa de


Estimulação Essencial que, mesmo com acompanhamento e atendimento
pedagógico, apresentavam dificuldades ao ingressarem no ensino regular. As
intervenções decorrentes desse atendimento exigiam do pedagogo um olhar
direcionado para as questões escolares sem, contudo, perder o foco clínico, ou seja,
a história da criança.

Em 1991, o atendimento no ambulatório se intensificou com a solicitação


da área médica para que se efetuasse um trabalho integrado. A preocupação com o
desenvolvimento escolar das crianças atendidas no Hospital Infantil Joana de
Gusmão (HIJG) internadas ou em consulta ambulatorial deixou de ser uma
preocupação restrita ao profissional da educação para tomar-se alvo também dos
profissionais da saúde, que compreendem o ser humano numa perspectiva bio-
psico-social. Por isso, a interdisciplinaridade passou a ser necessária no tratamento
clínico.

No início, o atendimento ao escolar com dificuldade de aprendizagem era


especificamente dado às crianças com um histórico de desnutrição por uma
psicopedagoga que atuou neste ambulatório até 2002 com escolares que possuíam
dificuldades de aprendizagem. Posteriormente, outros encaminhamentos foram
9

feitos, tanto internos quanto das escolas, pela necessidade de ampliação e


reestruturação no atendimento.

Mesmo priorizando o atendimento às crianças que passaram por


hospitalização, o Programa de Dificuldades de Aprendizagem – D.A. passou a
abranger uma clientela encaminhada por outros setores (ambulatórios médicos,
escolas, conselhos tutelares etc...).

Em 2003, foi implantado o projeto "Ressignificando o Saber", tendo como


eixo as propostas teóricas de Alicia Fernandez (que já era a base teórica utilizada no
programa), além dos de Reuaven Feuerstein (Israel), que propõem um Programa de
Enriquecimento Instrumental - PEI e Panlexia (método italiano adaptado no Brasil
para atendimento de crianças e adolescentes com dislexia).

Em 2004, iniciaram alguns contatos com instituições que ofereciam


atendimentos alternativos - artes, esportes, informática, teatro para uma possível
parceria com o Hospital Infantil. Em parceria com Escolinha de Artes de
Florianópolis (FCC), foi elaborado o projeto "Desenvolvendo Competências através
da Arte", que tem como objetivo propiciar o desenvolvimento do pensamento
artístico e da percepção estética do educando, visando ao resgate da auto-estima,
autonomia e autoria.

2.1.2. Objetivos do Programa de Dificuldades de Aprendizagem

O Programa de D.A., no HIJG, mantém um espaço estruturado para


atender escolares que apresentam defasagens no seu processo de apropriação do
10

conhecimento. Busca identificar as causas e fatores que levam os educandos a não


aprender, por meio de avaliações e intervenções psicopedagógicas, levando-os a
descobrir sua própria modalidade de aprendizagem, resgatando a vontade e o
prazer de aprender. Ao adquirir autonomia, o educando passa a acreditar em si, nas
suas criações e a sentir-se digno de se apropriar do conhecimento, elevando, de
modo significativo, sua auto-estima.

Tem como objetivos:

• Identificar os fatores e as causas que impedem os escolares de se


apropriarem do conhecimento escolar;
• buscar estratégias de intervenção que auxiliem no processo de
aprendizagem;
• orientar famílias e escolas sobre os tipos e características das
dificuldades de aprendizagem e como lidar com elas;
• articular ações integradas com municípios do Estado para a
descentralização do serviço de apoio aos indivíduos com D.A.;
• promover convênios com instituições públicas e privadas, buscando
atendimento extra curriculares (natação, atletismo, informática, escola
de futebol, de arte, entre outros.);
• abrir campo de estágio e pesquisa para estudantes de pedagogia e
psicopedagogia.
11

3. DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM

Moojen (1999) afirma que, ao lado do pequeno grupo de crianças que


apresenta Transtornos de Aprendizagem decorrente de imaturidade do
desenvolvimento, existe um grupo muito maior de crianças que apresenta baixo
rendimento escolar em decorrência de fatores isolados ou em interação. As
alterações apresentadas por esse contingente maior de alunos poderiam ser
designado como “dificuldades de aprendizagem”. Participariam dessa conceituação
os atrasos no desempenho escolar por falta de interesse, perturbação emocional,
inadequação metodológica ou mudança no padrão de exigência da escola, ou seja,
alterações evolutivas normais que foram consideradas no passado como alterações
patológicas.

Pain (1981, citado por Rubinstein, 1996) considera a dificuldade para


aprender como um sintoma, que cumpre uma função positiva tão integrativa como o
aprender, e que pode ser determinado por:

1. Fatores orgânicos: relacionados com aspectos do funcionamento


anatômico, como o funcionamento dos órgãos dos sentidos e do sistema nervoso
central;

2. Fatores específicos: relacionados à dificuldades específicas do


indivíduo, os quais não são passíveis de constatação orgânica, mas que se
manifestam na área da linguagem ou na organização espacial e temporal, dentre
outros;
12

3. Fatores psicógenos: é necessário que se faça a distinção entre


dificuldades de aprendizagem decorrentes de um sintoma ou de uma inibição.
Quando relacionado ao um sintoma, o não aprender possui um significado
inconsciente; quando relacionado a uma inibição, trata-se de uma retração
intelectual do ego, ocorrendo uma diminuição das funções cognitivas que acaba por
acarretar os problemas para aprender;

4. Fatores ambientais: relacionados às condições objetivas ambientais


que podem favorecer ou não a aprendizagem do indivíduo.

Fernández (1991) também considera as dificuldades de aprendizagem


como sintomas ou “fraturas” no processo de aprendizagem, onde necessariamente
estão em jogo quatro níveis: o organismo, o corpo, a inteligência e o desejo. A
dificuldade para aprender, segundo a autora, seria o resultado da anulação das
capacidades e do bloqueamento das possibilidades de aprendizagem de um
indivíduo e, a fim de ilustrar essa condição, utiliza o termo inteligência aprisionada.

Para a autora, a origem das dificuldades ou problemas de aprendizagem


não se relaciona apenas à estrutura individual da criança, mas também à estrutura
familiar a que a criança está vinculada. As dificuldades de aprendizagem estariam
relacionadas às seguintes causas:

1. Causas externas à estrutura familiar e individual: originariam o


problema de aprendizagem reativo, o qual afeta o aprender mas não aprisiona a
inteligência e, geralmente, surge do confronto entre o aluno e a instituição;

2. Causas internas à estrutura familiar e individual: originariam o problema


considerado como sintoma e inibição, afetando a dinâmica de articulações
13

necessárias entre organismo, corpo, inteligência e desejo, causando o desejo


inconsciente de não conhecer e, portanto, de não aprender;

3. Modalidades de pensamento derivadas de uma estrutura psicótica, as


quais ocorrem em menor número de casos;

4. Fatores de deficiência orgânica: em casos mais raros.

A aprendizagem e seus desvios, para Fernández, compreendem não somente a


elaboração objetivante, como também a elaboração subjetivante, as quais estão
relacionadas às experiências pessoais, aos intercâmbios afetivos e emocionais,
recordações e fantasias (Miranda, 2000).

De modo geral, as crianças com dificuldades de aprendizagem e de


comportamento são descritas como menos envolvidas com as tarefas escolares do
que os seus colegas sem dificuldades.

As crianças que apresentam pobre desempenho escolar e atribuem isso à


incompetência pessoal apresentam sentimentos de vergonha, dúvidas sobre si
mesmas, baixa estima e distanciamento das demandas da aprendizagem,
caracterizando problemas emocionais e comportamentos internalizados, como é um
problema que afeta pouco as pessoas ao seu redor, este comportamento acaba
sendo banalizado, sem a devida atenção e importância. A timidez é considerada
comportamento internalizado, aqueles expressos “para dentro”, como depressão,
medo etc. Aquelas que atribuem os problemas escolares à influência externa de
pessoas hostis experimentam sentimentos de raiva, distanciamento das demandas
acadêmicas, expressando hostilidade em relação aos outros. Relatam ainda que os
sentimentos de frustração, inferioridade, raiva e agressividade diante do fracasso
14

escolar podem resultar também em problemas comportamentais. Esses relatos são


próprios e também são observados pela família e pelos profissionais que fazem os
atendimentos.

A experiência escolar tem papel crucial na formação das auto-percepções


das crianças. Com isso, as que possuem dificuldades de aprendizagem apresentam
um risco elevado de terem um autoconceito negativo em relação ao seu
desempenho na escola.

Outro ponto destacado, são os problemas de socialização, elas têm


menos habilidades sociais que seus colegas sem dificuldades de aprendizagem, e
que estas persistem ao longo da vida escolar. Crianças que apresentam associação
de dificuldades de aprendizagem com problemas de comportamento tendem a
experimentar dificuldades em suas auto-percepções, apresentando autoconceito
mais baixo e locus de controle1 predominantemente externo, atribuindo, a estes, o
sucesso o fracasso a fatores internos.

As crianças com dificuldades comportamentais além de dificuldades de


aprendizagem podem apresentar um autoconceito mais negativo do que aquelas
com apenas dificuldades de aprendizagem. Este autoconceito mais negativo se
justifica pelo fato de essas crianças receberem um feedback negativo do ambiente,
não só em relação ao domínio acadêmico, mas também em relação ao domínio
social. Os estudantes no início da escolarização que apresentam a concomitância de
dificuldades de aprendizagem e desordens comportamentais tendem a apresentar
um declínio no progresso acadêmico, aumentando os comportamentos mal-
adaptativos ao longo do tempo.

1 O locus de controle é abordado por Rotter, como uma forma para explicar diferenças na personalidade,
quanto às crenças que as pessoas possuem sobre a fonte de reforço, se ele advém do seu próprio
comportamento ou por forças externas.
15

A crença de que as dificuldades comportamentais prejudicam o


autoconceito das crianças requer uma análise mais detalhada do contexto de
inserção social destas. O comportamento pouco adaptado ao ambiente e com
características anti-sociais pode estar associado à popularidade da criança, sendo
as manifestações de agressividade reconhecidas como presentes por pais,
professores e por elas mesmas. Tal associação de comportamento anti-social e
popularidade pode tornar estas, resistentes à mudar seu comportamento na
adolescência, uma vez que este se encontra associado ao prestígio social. Desse
modo, o que seria um suposto problema de ajustamento para os pais e professores
pode não ser assim considerado pela criança e por seus pares.

O autoconceito positivo não foi essencialmente associado com


ajustamento comportamental adequado, aos padrões da scociendade, e o negativo,
não necessariamente implicou pobre ajustamento no comportamento. Na presença
de autoconceito positivo consistente com avaliações externas de competência social
e acadêmica, as crianças podem ser consideradas bem-ajustadas ao
comportamento. Estas, com autoconceito positivo em discrepância com as
avaliações externas podem ter imaturidade cognitiva para perceber seu real
desempenho, ou ainda este pode estar desempenhando uma função protetora,
numa tentativa da criança de se perceber como “boa”, apesar de suas falhas
acadêmicas e sociais, o que pode estar protegendo-a de um feedback negativo do
meio.

A presença de autoconceito negativo coerente com avaliações externas


mostrou-se sugestiva de risco nos domínios acadêmico e social. A presença deste,
em discrepância com as avaliações externas, sugere que estas crianças são
excessivamente autocríticas ou mantêm altos padrões de exigência, embora não
sejam mal-ajustadas ao comportamento considerado normal, na avaliação de outros.

A relação entre autoconceito e ajustamento é mais bem explicada pela


16

consistência ou discrepância entre as auto-avaliações e avaliações externas.

Ressalta-se a importância de instrumentar as intervenções junto a estas


crianças com recursos que promovam o autoconceito, de modo a potencializar os
resultados quanto ao desempenho acadêmico.
17

4. DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM EM CRIANÇAS DE 6 A 15 ANOS DE


IDADE: UMA EXPERIÊNCIA PRÁTICA

No primeiro dia, na sala do Programa de Dificuldades de Aprendizagem,


apenas a professora Lucimara se encontrava, que me recebeu com toda atenção e
passou algumas informações pertinentes ao período de pesquisa.

A sala, pequena, mas muito aconchegante, colorida, com fotos e


desenhos na parede. Logo, as crianças começaram a chegar, inclusive Saulo2,
alegres e contentes por estarem lá. Nenhum deles achou estranho a presença da
pesquisadora, pois já estão acostumados a ter sempre pessoas novas para auxilia-
los.

Saulo, paciente que não consegue escrever; ao copiar, faz trocas e


omissões de letras, não reconhece os números, é muito inseguro na própria fala,
não compreende as solicitações mais simples. Muitas vezes, parece não escutar, é
desatento, não possui noção espacial e temporal, é dependente de ajuda para
realizar qualquer tarefa.

Inicialmente, foi utilizado o jogo das figuras, onde procuramos observar o


grau de conhecimento simbólico, ou seja, reconhecimento das letras. As crianças
tinham que procurar as letras que formavam as figuras escolhidas. Saulo não
conseguiu realizar a tarefa, ficava mexendo mas letras, não querendo que
percebêssemos que estava com dificuldade. A interação com os outros foi muito
forte e divertida, contudo, ele não conseguiu realizar a atividade. Pediu para brincar
de “pega varetas”, saindo-se muito bem, percebemos que não há, a princípio,
problemas motores.

2 Nome fictício, Tem 7 anos e estuda na 2ª série de uma escola pública de SC.
18

No encontro seguinte, pedimos que desenhassem algo que lembrasse


uma festa junina. Saulo fez um lindo desenho de uma fogueira, que foi copiada de
um outro colega, pois estava com dificuldade em saber o que havia nas festas
juninas. Com isto, pudemos observar o grau de conhecimento e cultural dele.

Após o desenho, as professoras formaram palavras que apareciam nos


desenhos com o alfabeto em MDF e as crianças copiavam. Esta atividade foi
completada por Saulo, mas muito devagar, com muita dificuldade. Com a cópia,
estimulamos a motricidade e a memória.

Pedimos a ele que fizesse um desenho de sua casa e da sua família. Ele
fez uma casa muito grande, com uma escada que levava ao quarto dele, longe dos
outros membros da família. Ele apresenta a realidade em que vive, mora com a avó,
tem pouco contato com os pais, pois eles tem problemas químicos.

No dia da festa junina que preparamos, cada um trouxe uma guloseima.


Pedimos que eles ficassem sentados no tapete, em frente ao quadro branco, e
falassem uma comida típica de festa junina. Eles soletravam e a professora escrevia
no quadro. Ganhavam pontos para cada palavra soletrada corretamente. Saulo ficou
sentado mais atrás, se escondendo, pois não conseguiu entender o que foi proposto.
Sentamos junto a ele, mostramos, com a ajuda de revistas, algumas figuras e
formamos algumas palavras. Ele ficou muito contente, pediu para fazer mais e
também mostrou muita vontade de aprender, mas possui problemas com a falta de
atenção e compreensão.

Foi solicitada a realização dos testes de processamento auditivo e


neurológico que, até o momento, não haviam sido realizados. Por isso, não foi
possível um diagnóstico final.
19

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Saber buscar, aplicar, compartilhar conhecimentos são alguns dos vários


objetivos que fazem parte de nossas vidas e este estudo fez parte disso tudo. Em
meio àquele ambiente, foi possível aprender mais sobre a profissão de
psicopedagogo, assim como fazer grandes amigos que ajudaram na condução de
um bom trabalho. Acredito que este trabalho foi de extrema valia para minha prática,
pois o conhecimento adquirido, foi enorme. Poder observar como as estas crianças
são tratadas, acompanhadas, quais são as metodologias utilizadas para cada caso é
maravilhoso.
20

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Especial.


Política de Educação Especial, livro 1. Brasília: MEC/SESP,1994.

CECCIM, R. B. e FONSECA, E. S. Classe Hospitalar: buscando padrões referenciais


de atendimento pedagógico-educacional à crianças e ao adolescente hospitalizados.
Integração (21): 31-40, 1999.

CECCIM, R.B. Classe Hospitalar: encontros da educação e da saúde no ambiente


hospitalar. Pátio, 3(10), ago/out, 1999.

FERNÁNDEZ. A. A inteligência aprisionada: abordagem psicopedagógica clínica da


criança e da família. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991

FONSECA, E. S. e CECCIM, R. B. Atendimento pedagógico-educacional


hospitalar: promoção do desenvolvimento psíquico e cognitivo da criança
hospitalizada. Temas sobre desenvolvimento 7(42): 24-36, 1999.

FONSECA, E.S. Mais forte que a doença. Revista Nova Escola, 120, março de 1999a.

FONTES, R. O desafio da educação no hospital. Presença Pedagógica, 11(64):


21-29, jul/ago 2005.
21

MIRANDA, M. I. Crianças com problemas de aprendizagem na alfabetização:


contribuições da teoria piagetiana. Araraquara, SP: JM Editora, 2000

MOOJEN, S. Dificuldades ou transtornos de aprendizagem? In: Rubinstein, E. (Org.).


Psicopedagogia: uma prática, diferentes estilos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999

ROTTER, J. Generalized expectancies for internal versus extenal control of


reinforcement. Psychological Monographs, 80 (Whole No. 609), 1966.

RUBISTEIN, E. A especificidade do diagnóstico psicopedagógico. In: SISTO, F. et al.


Atuação psicopedagógica e aprendizagem escolar. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996

SILVA, Lucimara Maia da. Dificuldade de Aprendizagem. Florianópolis, Seção de


Pedagogia do HIJG,2006.

STEVANATO, Indira Siqueira. Autoconceito de crianças com dificuldades de


aprendizagem e problemas de comportamento. Psicologia em Estudo, Maringá, v.
8, n. 1, p. 67-76, jan./jun. 2003.