CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO

CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO
Revista de Processo | vol. 46 | p. 39 | Abr / 1987 Doutrinas Essenciais de Processo Civil | vol. 2 | p. 135 | Out / 2011DTR\1987\47 Eduardo Ribeiro de Oliveira Área do Direito: Geral Sumário:

Notórias, no campo doutrinário, as divergências quanto à propriedade e abrangência da expressão condições da ação. Significativa parcela de processualistas sustenta a inadequação do termo, já que entendem o direito de ação como absolutamente incondicionado. Por outro lado, entre os que o admitem, não há acordo quanto à respectiva compreensão. Para as teorias concretistas, a que se filia Chiovenda, condições da ação são as necessárias à obtenção de sentença favorável. Já a doutrina elaborada por Liebman e adotada pelo vigente Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) , considera as condições da ação como requisitos necessários a que se possa obter sentença de mérito. "Em lugar do binômio - pressupostos processuais e mérito - surge um trinômio: pressupostos processuais, condições da ação e mérito da causa". 1 Observa Liebman que a ação, em verdade, não tem conteúdo genérico, competindo indiscriminadamente a todos mas, ao contrário, "si riferisce ad una: fattispecie determinata ed esattamente individuata", condicionando-se a certos requisitos, à falta dos quais o Juiz não proverá sobre o mérito. E, à míngua de tal provimento, inexistirá exercício da jurisdição. 2 Afirma que "no processo de cognição somente a sentença que decide a lide tem plenamente a natureza de ato jurisdicional, no sentido mais próprio e restrito". Recusar o julgamento ou te-lo como possível "são atividades que por si próprias nada têm de jurisdicionais e adquirem esse caráter só por serem uma premissa necessária para o exercício da verdadeira jurisdição". 3 Saliente-se, ainda, a afirmação peremptória de que tradizione e giurisdizione esiste perciò esatta correlazione, non potendo aversi l'una sensa l'altra". 4 Resta, em verdade, alguma dificuldade em aceitar-se tais assertivas. Se o ato que inadmite exame do mérito não é jurisdicional, dificilmente poderá ser classificado como próprio de outra função do Estado. Natureza legislativa certamente não tem; nem seria adequado considerá-lo como administrativo. Procedente, a propósito, a cerrada crítica de Calmon de Passos. 5 Salienta apropriadamente Alfredo Rocco que, além do direito de obter um julgamento de fundo, cada um tem o direito de obter um julgamento sobre a possibilidade de o mérito ser julgado. 6 Vale notar que, ainda verifique o Juiz faltar alguma das chamadas condições da ação, terá havido processo. Em termos de direito positivo brasileiro, isto não pode ser negado, pois admite-o o Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) , dispondo sobre as causas de extinção do processo sem julgamento do mérito. A aceitar-se integralmente a doutrina de Liebman, ter-se-ia processo sem ação, muito embora não iniciado de ofício. Nosso intento, porém, não é estudar a teoria da ação nem mesmo questionar o acerto da que foi adotada pelo Código. Objetivo do trabalho é verificar, face ao direito vigente, como deve ser entendida uma das chamadas condições da ação: a possibilidade jurídica do pedido. Parte da doutrina vinha considerando, pelo menos algumas das condições, como questões de mérito. A lei processual, entretanto, deixou expresso que, se faltarem,
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apenas esta existe. Objeto deste será a lide como apresentada ao Juiz. é certo. há que se ter em conta a lide tal como deduzi da pelo autor na inicial. para que se possa examinar o mérito. há que se buscar como devam ser compreendidas as condições da ação. de maneira a que não se possam reputar abrangidas pela concepção a que se chegou. não mais fazendo menção à possibilidade jurídica do pedido. a que acrescemos algum reparo. incorporou a seu sistema as três condições.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO extingue-se o processo sem julgamento do mérito. em termos coerentes com o direito positivo. o passo seguinte ser á o de entender as condições da ação de maneira a que não se apresentem contaminadas por matéria pertinente ao mérito. O conceito. Não importa o conflito existente fora do processo. efetivamente não era de todo adequado. Malgrado o brilho da exposição. 12 Veio o mestre. sendo que o ilustre autor do anteprojeto do Código de 73 acolhera conceito substancialmente idêntico ao de Liebman. já foi explicitado. Em trabalho anterior. 11 Ou como escreve em célebre trabalho. além dos pressupostos processuais. Como a lei. embora a razão de ser da existência do processo seja a resolução de conflitos antes dele efetivamente existentes. entretanto. restringir-se-á a uma das expressamente previstas: a possibilidade jurídica do pedido. Entretanto. 15 Faz notar o autorizado comentarista que o conceito geralmente aceito "retrata a corrente de pensamento segundo a qual a ação somente será viável se o autor puder mostrar de antemão que o ordenamento jurídico contém uma providência que. entretanto. não apenas na doutrina como notadamente na jurisprudência. na ordem jurídica à qual pertence. anima-nos pesquisar qual deva ser este. 13 Nosso direito. Quanto a essas é que se verificam maiores divergências e imprecisões. a par delas. ou seja. não seria lícito negar que se trata de matéria que anteceda a apreciação do mérito da causa. de pronunciar a espécie de decisão pedida pelo autor". tratar-se de tema estranho ao mérito. ficado imune a censura. A redação adotada enseja concluir-se que se trata de enunciação sem caráter taxativo. tornou-o aceitável. As relacionadas no dispositivo seriam as de caráter genérico e. o ampara". ao contrário do que ocorrera até a segunda edição do Manual. não nos pareceu que as objeções sejam insuperáveis. já citado. afastando. Note-se que do texto do art. entendendo esta condição como" a possibilidade para o Juiz. como exposto de início por Carnelutti. não fornece o conceito de cada uma das condições que arrola. a questionada conotação sociológica. Merece colocada em relevo a formulada por Moniz de Aragão. pois. outras existem específicas para determinadas ações. a definição de Liebman. em tese. 7 Dentro dos limites que nos propusemos. sem deduzir explicações. a possibilidade jurídica é "l'ammissibilit à in astratto del provvedimento chiesto. Página 2 . tendo em vista o dado fundamental fornecido pelo Código. 8 aceitamos que o Código de 73 adotou terminologia que importou identificar o mérito com a lide. Importa insistir em que. 267. Processualmente. entretanto. VI. com base especialmente nas críticas de Calamandrei e Liebman ao conceito de Carnelutti. Fixado o conceito desse último. o Juiz só poderá atuar em função de uma lide que lhe foi exposta. têm de modo geral admitido. de modo especial. o trabalho doutrinário que se seguiu. não tem. Cândido Dinamarco procedeu a reexame do tema. secondo le norme vigenti nell'ordine giuridico nazionale". Para determinar-se exatamente em que consista. Esta seria o conflito de interesse qualificado por pretensão. os que aceitam a existência das condições da ação como necessárias. entretanto. Colocados os pontos acima. O problema coloca-se especialmente em relação à possibilidade jurídica do pedido e a legitimação para a causa. como basicamente adequada. do CPC ( LGL 1973\5 ) resulta que outras condições existem além das ali indicadas. Na doutrina pátria. E procuramos fixar o que se haveria de entender por lide. a restringir a duas as condições da ação. 10 Nosso exame. 14 A conceituação acima exposta. não necessariamente resistida mas simplesmente insatisfeita. 9 não aceitando que a lide possa constituir-se no meritum causae.

em nosso entendimento. por si. O ponto. a possibilidade jurídica não dependerá da existência de texto a admitir como possível. está em saber se a possibilidade jurídica deve ser examinada de maneira inteiramente abstrata ou referida a determinada causa de pedir. ao provimento jurisdicional que repelisse pedidos visando obtê-lo. 1. obstaculizando emenda na lei ordinária. Na exposição de Liebman parece não haver dúvida de que o conceito estaria restrito à primeira hipótese. será mais fácil o trabalho do Juiz. quando não se adequasse a determinada. No período que mediou entre a extinção do óbice constitucional e a modificação da lei civil.encontravam quando escreveu . No primeiro caso. Aponta como adequados os exemplos de cobrança de dívida de jogo e divórcio posto que ambos encontram . não se nos afigura que a impossibilidade jurídica condicionese à vedação expressa na lei. Existisse ou não a proibição constitucional. puder chegar à conclusão de que a providência não se compatibiliza com o direito vigente. à impossibilidade jurídica de seu pedido. Em suma. haverá proibição de qualquer outra. cuja opinião se examina. situação. em tese. Calmon de Passos que. a conseqüência é a mesma e a substância da sentença. 18 Exemplifica com a hipótese se de Página 3 . só seria juridicamente inadmissível o pedido quando o provimento pretendido fosse de todo desconhecido pelo ordenamento. será idêntica. se só após reflexões demoradas ou custosas pesquisas. fazendo. combate vigorosamente a doutrina de Liebman sobre as condições da ação. A falta de preceito a amparar o autor não conduz. faltará a possibilidade jurídica". valendo-se dos processos de integração. dizendo com a abrangência do conceito.º) e no CC (art.477). sustenta "não se poder abstrair da causa de pedir para a construção do conceito de possibilidade jurídica". para dadas situações de fato. aquilo que se pleiteia. quanto ao aspecto que se examina. seja porque expressamente o veda. seria do mesmo modo impossível conceder-se divórcio. seja porque não o prevê. Vale salientar. entretanto. se reconhecesse qualquer mudança de natureza.veto explícito na Constituição (art. inadmitindo o ordenamento aquilo que o autor pretende. 17 Outra questão de relevo. 16 Entretanto. não nos filiarmos à corrente que considera procedente a crítica de Moniz de Aragão. O invocado exemplo do divórcio presta-se a esclarecer o ponto. que em muitos temas a falta de previsão tem conseqüências idênticas à proibição. Se este for claramente excluído pelo direito escrito. o essencial é que o ordenamento jurídico não contenha uma proibição ao seu exercício: aí sim. Se assim é. o direito brasileiro sempre consagrou a possibilidade de o Juiz valer-se de outras fontes quando faltasse previsão legislativa para a hipótese fática que lhe é submetida. § 1. A norma constitucional dirigia-se ao legislador. O julgador haverá sempre de examinar o ordenamento jurídico em seu conjunto. Permitimo-nos. arrolando-as como numerus clausus. 175. para concluir se o provimento pleiteado é ou não admissível. A impossibilidade teria de ser absoluta. tanto quanto fosse o veto explícito. papel de legislador. embora sem adotar norma Tão ampla quanto a contida no Código Suíço. admitem-se determinadas conseqüências jurídicas. não se limitando a reconhecer direito preexistente.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO Salienta que. tem merecido indagações. ser resolvida do modo por ele defendido. continuou a inexistir o divórcio e não se justificaria que. pois. Entretanto. "Sendo a ação o direito público subjetivo de obter a prestação jurisdicional. A impossibilidade de extinção do vínculo derivava simplesmente do fato de o divórcio não ser medida contemplada na legislação civil. nesses casos. esgotados os recursos às fontes. em primeiro lugar. mas fosse admissível em outras. Não temos dúvida em subscrever o entendimento de que o Juiz tem autêntico papel criador quando julga a causa invocando a analogia. seu pronunciamento não terá natureza diversa. Se a lei estabelece que. já salientado. Com a vênia do eminente autor. embora sem adesão ao conceito de Liebman. não importando qual a situação de fato concreta. No segundo. a questão não pode.

Hoje admite-se o divórcio. suscita problemas semelhantes ao da possibilidade jurídica quando se cogita de conceituá-la como matéria estranha ao mérito (art. segundo a terminologia do Código. de que não se traduz em matéria pertinente ao mérito. razão assiste aos autores que sustentam tratar-se de matéria de mérito. Entretanto. Ada Grinover considera que levar-se em conta a causa e pedir importa em decisão de mérito. 295 do CPC ( LGL 1973\5 ) estabelecem duas previsões normativas que obviamente não se podem referir à mesma situação. ainda que não se ignore ter sido o inspirador do texto. Não serão. ao caso concreto. a sentença terá caráter idêntico à que rejeitasse a demanda por não ser a tutela pretendida admissível em caso algum. Há que se buscar conceito compatível com a lei. de passagem. o caso subsumir-se-á ao item III. Na doutrina de Liebman. a que se filiou o eminente autor do anteprojeto do Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) . ao simples fundamento de que deseja desposar outra pessoa. A lei prevê a condenação ao pagamento da quantia em dinheiro. o fato de o ordenamento não contemplar a tutela pleiteada conduzia à impossibilidade jurídica. O primeiro caso estaria art. 295 do CPC ( LGL 1973\5 ) e o segundo Dinamarco. Deixamos expostas algumas das questões já levantadas sobre a possibilidade jurídica do pedido mas resta o fundamental que consiste em defini-la de modo a guardar compatibilidade com o entendimento. Vale salientar. Não haveria porque distinguir esse caso daquele outro em que o divórcio não fosse admitido pelo ordenamento. se alguém pretende obtê-lo. salienta que o pedido. quando a relativa que ocorre nas hipóteses em que. a impossibilidade jurídica absoluta. Entretanto. por conseguinte.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO pedido de nulidade de casamento fundado em incompatibilidade de gênios. entretanto. parece difícil distinguir entre a hipótese de inexistir previsão legal ou esta existir mas para hipótese de fato distintas. ao fazê-lo. tudo conduz ao mesmo resultado. Nos termos em que se costuma definir a possibilidade jurídica do pedido. estará julgando o mérito. Sobre esta incidirá o provimento do Juiz. entretanto. terá decidido o mérito. Os já citados itens II e III do parágrafo único do art. tal provimento não pode ser obtido em virtude de uma peculiaridade da causa de pedir: tratar-se de dívida oriunda do jogo. A hipótese de "da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão" corresponderá àquela em que o que se expôs como causa de pedir não justifique o provimento. Em trabalho posterior 19 distingue entre inexistente a providência que se pleiteia e embora exista em tese. distinguiu. 1). identificar qual a concreta pretensão insatisfeita que se pretende tutelar por meio do processo. mérito e lide identificamse. E lide não será a que efetivamente exista mas a exposta na inicial. A falta completa de previsão da conseqüência postulada ou não se vincular a que é prevista à situação de fato descrita. 295. 267. que o item II citado. adequado para situação diversa. As normas jurídicas materiais consistem logicamente na descrição de um suposto fático a que se liga uma conseqüência jurídica. Se de todo inadmissível. O provimento pleiteado .nulidade do casamento . Nosso direito positivo. não se acha o intérprete adstrito a aceitar tal entendimento. é admissível. não se adequa previsto no item III do parágrafo único do no item II. assim como outros do art. Se o provimento jurisdicional dispuser sobre ela. em tese.é em tese possível mas a causa de pedir apontada jamais poderá conduzir a seu acolhimento. Importa. em tal caso. cuja falta "pediria prover-se quanto ao mérito. Entretanto. 20 examinando o clássico exemplo da cobrança de dívida de jogo. 22 Colocamos em relevo que. 21 Em termos meramente conceituais. condição da ação. sem violentar a natureza das coisas. Página 4 . E. consagrado na lei. objeto do presente trabalho.

como vimos sustentando. A cobrança de dívida de jogo tem sido freqüentemente apontada. resiste à pretensão e surge a lide. Importa a matéria que foi examinada. Se assim é. como reconhecido pelo direito vigente. E a sentença será de mérito (art. Do jogo não nascerá uma relação de débito e crédito. posto que apresentam conceito que faz essa chamada condição abranger o exame do pedido. vê-se que a questão é de mérito. a decisão sobre a lide. 25 Ter-se em conta apenas o pedido imediato. 23 Humberto Theodoro Jr. credor de outrem. em tais casos. Estabelece o CC (art. do CPC ( LGL 1973\5 ) . sem se considerar o bem da vida que se pretende assegurar. só pode ser alcançada verificando-se qual seja essa pretensão que consiste fundamentalmente no pedido mediato que se viabiliza pelo imediato. Necessário que seja vedado qualquer pronunciamento sobre ela e não que seja prontamente repelida por incompatibilidade evidente com o ordenamento. em se verificando ter ocorrido decadência ou prescrição. não há verdadeiramente uma dívida. Bem examinada. entretanto. o mérito decidido. deva. o pedido foi examinado e rejeitado. 1. constituem tema relativo ao mérito. Não se recusou a apreciar o pedido mas. não se nos afigura que a questão possa ser resolvida invocando o que se entende por pedido mediato e imediato. se a pretensão do autor é repelida. a solução será sua improcedência. Basta assinalar que. entendendo que essa submissão lhe é devida. residindo "na permissão ou não do direito positivo a que se instaure a relação processual em torno da pretensão do autor". 24 adere à observação de Allorio. 296. ao contrário. Figure-se exemplo. a inicial será indeferida (art. dispensadas outras indagações. tem-se a lide. entretanto. E sugere solução fundada na distinção entre pedido mediato e imediato. Procedendo-se a exame de muitas das hipóteses que têm sido indicadas como de impossibilidade jurídica. Deduzida esta em Juízo. não podem ser aceitas as colocações da doutrina tradicional. O art. se o pedido contrasta com o ordenamento jurídico. Havendo a negativa. do CPC ( LGL 1973\5 ) há de ser interpretado com temperamentos. exatamente porque despropositado. por algum tempo. IV). para decidir sobre a pretensão do autor. não permite conclusão alguma sobre a possibilidade jurídica. que para entender a possibilidade jurídica como condição da ação e por conseguinte estranha ao mérito. I. aquilo que reclama. ao fundamento de que a ordem jurídica não consagra. pôde desde o examiná-lo e rejeitá-lo. O titular do interesse em conflito sustenta. entretanto. Por isso mesmo. Ao fazê-lo. Só poderá existir impossibilidade jurídica quando ao Juiz for vedado pronunciar-se sobre aquela matéria. 295. Como diz Humberto Theodoro. não é relevante.477) que as dívidas de jogo não obrigam a pagamento. ser proferida tão logo ajuizada a inicial. em parte. a tutela jurisdicional invocada. pretenda que este. deliberadamente aberrante. A possibilidade jurídica haveria de buscar-se apenas no pedido imediato. Suponha-se que alguém. consoante o direito vigente. não importando quão descabida seja a pretensão. Levada a Juízo. quando não possa haver processo sobre aquela pretensão. 295. Não se pode conceder relação jurídica Página 5 . ou seja. segundo a qual. em grande parte. parágrafo único. Afirmou-se que o autor não tinha razão em sua pretensão. prestar-lhe serviços gratuitos. E considera que a distinção entre possibilidade jurídica do pedido mediato e do imediato encontra-se consagrada nos itens II e III do art.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO Pretende alguém subordinar o interesse alheio ao próprio. IV). A decisão quanto a permitir-se que se instaure o processo. A circunstância de que a sentença possa e deva. julgou a lide tal como apresentada. para hipótese alguma. que o ordenamento nem mesmo em tese prevê a medida de que resultaria a colimada subordinação. Induvidoso. o magistrado repelirá prontamente o pedido porque o ordenamento não prevê possa surgir tal obrigação. 267. não dispondo de meios para pagar-lhe. Embora concordemos. independentemente de citação do réu. verifica-se que. com as colocações feitas e os exemplos que sugeriu.

claro que estes inexistem. A pretensão formulada seria rejeitada. A circunstância de não se poder repetir o voluntariamente pago não é bastante para caracterizar alguém como devedor. carece de ser regulamentada. o pedido não tem fundamento legal e o Juiz proferirá veredicto decidindo a causa em seu fundo. Exemplificou Liebman com a inadmissibilidade de mandado de segurança contra atos do Presidente da República e outras autoridades. examinam-se dois. entretanto. 965). O clássico exemplo do divórcio deixou de ser invocável entre nós. Ao reclamar-se judicialmente condenação ao pagamento do que se ganhou no jogo. Página 6 . aliás. repelindo a pretensão. que a impossibilidade de repetir qualquer pagamento indevido. Buzaid. citados por Dinamarco. Se assim fosse. ser encontrados alguns exemplos que consubstanciam hipóteses em que está excluída a possibilidade de exame da pretensão. mais radical porque independe da via eleita. está-se pleiteando seja reconhecido o vínculo de débito e crédito. Como no exemplo acima examinado. Alguém pretende ter ocorrido usucapião. a sentença haveria de negá-lo e não afirmar a impossibilidade de examiná-lo. era também matéria de mérito. 3. feito voluntariamente. outras conseqüências decorreriam como.969/81. Para não nos alongarmos em demasia. só produzem conseqüências jurídicas se unidos a outros. aliás.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO pessoal sem que haja um credor e um devedor. O fenômeno é o mesmo que se dá com as chamadas obrigações naturais que autorizam a soluti retentio. Inútil dizer-se que haveria inadequação do pedido e que a hipótese poderia comportar perdas e danos (se o comportasse). Observe-se que o caso não é de existência de vínculo jurídico que não pudesse. Sua pretensão é negada e por conseguinte examinada. Lide julgada. tratando-se de locação residencial. 28 Alguns referem-se a caso em que realmente não há exame de mérito. 27 Usucapião de terras públicas por causa estranha à Lei 6. exige a prova do erro (CC. diversa será a lide. Sérgio Gischkow Pereira arrola numerosos exemplos. De qualquer sorte.º da Emenda Constitucional 11). Pedido de despejo para uso do imóvel por colateral. já que não há obrigação de pagar. ao dizer que a isso não tem direito. ser invocado em Juízo. Esta a lide deduzida em Juízo. Menciono alguns poucos. Em tais casos. Como este inexiste. Note-se. porque o Juiz considera que a lei não lhe confere o direito que sustenta ter. ao contrário dos independentes. O mérito foi examinado. Numerosos outros exemplos apresentados também se referem ao mérito. O Juiz haverá de afirmar que a locação prorrogou-se e. por conseguinte. exclui-se a possibilidade de exame da lide. mérito examinado. decidiu-a. O mesmo se diria da hipótese prevista no art. E não havendo obrigação de pagar. a compensação que é instituto de direito material. o que não ocorre em nosso direito. arrolados pelos mesmos eminentes autores. A que foi levada a Juízo foi julgada. mencionam-se também aqui duas hipóteses. 205 da Constituição cuja aplicação. sem que isso signifique concordar que outros. não se sujeitem a idêntica observação. Pesquisando no ordenamento podem. a pretensão não prospera. Por brevidade. por exemplo. apresentado tal pedido quando ainda inadmissível a medida. de tais obrigações decorria uma série de conseqüências. O Juiz. 26 Efetivamente. Trata-se de fato jurídico dependente que. a lide decidida. Decisão claramente de mérito. de exame dos atos praticados com base nos Atos Institucionais e Complementares (art. art. entretanto. Lide examinada e decidida. Acarretam efeitos jurídicos apenas quando haja a prestação. entretanto. Nem todos. vedação existente à época em que escreveu. entretanto. Nas origens romanas. Ação de despejo fundada em denúncia vazia. a decisão da causa afirmará não ter o locador o pretendido direito de retomada. a ação haverá de julgar-se improcedente. Vencedor de concorrência pública intenta obrigar o Poder Público a concluir o contrato. lembra opinião de Alberto dos Reis no sentido de que se o divórcio não pode ser autorizado. 29 Subsiste a proibição. Se a pretensão é diversa.

ª ed. p. abrigarem-se hipóteses bastante heterogêneas. Certamente que um deles é o de ação visando a reconhecer filiação adulterina. Morano Editores. entretanto. podem ainda ser apontados. Concluímos do exposto que a conceituação oferecida pela doutrina tradicional não pode subsistir. pretensamente caracterizadores de impossibilidade jurídica. 33 No mesmo sentido Moniz de Aragão. Malgrado se apresente o autor como sujeito da relação que se pretende existir e peça providência adequada a compor a lide. A revisão dos atos administrativos é feita ordinariamente pela Administração o que não impede o recurso ao Judiciário. seu pedido não poderá ser objeto de exame. na constância da sociedade conjugal e sem haver ocorrido separação de fato por mais de cinco anos. entretanto. como dizendo respeito à possibilidade jurídica. não se trata de questão subtraída ao Judiciário. Outros. em virtude de a competência pertencer ao Executivo. aderindo embora ao mesmo entendimento. Página 7 . A ordem jurídica não veda seu exame. o processo haverá de ser extinto sem julgamento do mérito. Assim seria o depósito preparatório da ação. Alfredo Buzaid. Colocar este requisito como de natureza igual a outros apontados. julgamento de mérito. os casos em que o ajuizamento da demanda condiciona-se a medidas preparatórias não se ajustam exatamente à condição em exame. pela doutrina mais recente. vedou-se simplesmente o acesso a este. E só este poderá dizer se houve ou não a lesão. 35 Não temos dúvida em aceitar que.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO As hipóteses acima claramente são de pedido juridicamente impossível. "L'Azione nella Teoria del Processo Civile".30 Armelin considera que aí não se configura impossibilidade jurídica do pedido mas falta de interesse processual. uma vez que traduzem hipóteses em que se patenteia ter havido apreciação da lide. Do Agravo de Petição no Sistema do Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) . por impossibilidade jurídica do pedido. 32 O Juiz nada dirá sobre a possível paternidade. Cumpre reconhecer. pois não poderia ser revista nem deixar de ser obedecida. uma vez que a intervenção do Judiciário seria ineficaz por ilegitimidade. em verdade. que não seja exclusivamente para obter alimentos. pp. Na hipótese citada. face a nosso direito. Hipótese que tem sido apontada. embora o condicione. Limitar-se-á a afirmar que não pode examinar o pedido. 90. Vêse que as hipóteses haverão de ser raras. 1956. desatendida a exigência estabelecida em lei. parece forçado e levaria a. Saraiva. 34 Ada Grinover. que tais casos são raros. posto que prevalece em nossa ordem constitucional o princípio de que nenhuma lesão de direito individual poderá ser excluída da apreciação do Judiciário. se o Judiciário pronunciasse sentença. 2. dado nosso sistema constitucional. para que possa ser examinada. sob a mesma denominação. sobre o tema. Em nosso sistema constitucional. A pretensão. além dos previstos na própria Constituição e sem que haja à regra nela inserta. in Problemi del Processo Civile. 46/47. dirá apenas com os casos em que o pedido não possa ser examinado e não quando as pretensões hajam de ser desde logo repelidas por manifestamente desamparadas. vedado o exame do mérito e não de improcedência prima facie. Não. "O pedido principal só se torna juridicamente possível se antecedido da medida preparatória condicionante para seu exercício" afirma Galeno Lacerda. entretanto. 2. com trânsito em julgado. deixa transparecer que. teria ela inteira eficácia. 31 Permitimo-nos divergir. assim como inaceitáveis alguns exemplos clássicos. A impossibilidade jurídica. Por outro lado. 1. exige o entendimento a requisito prévio.. é aquela em que a lei impõe determinada providência preliminar para ser admitido o ingresso em Juízo.

p. CPC ( LGL 1973\5 ) . 93/94. p. Bushatsky. 137 e ss. VI. Despacho Saneador. "O Conceito de Mérito em Processo Civil".ª ed.REPRO v. Fundamentos do Processo Civil Moderno. La Salle. RF 251/17.. 88. José Bushatsky. 16. 133. Ada Pellegrini Grinover. 128. As condições da Ação Penal. Walter Eduardo Baethgen "As condições da ação e o nosso CPC ( LGL 1973\5 ) ". Cf. Revista de Direito Processual Civil 4/63. 10.. 215. Ed. 16/145. 19. 1986.. Em Torno das Condições. Página 8 . 48/49.. "Existência. 433 e ss. pp. 5 . "Possibilidade Jurídica do Pedido".CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO 3. vol. Comentários ao Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) . 82 e ss. V. 1973. 1976. Manuale di Diritto Processuale Civile.. "Notas sobre o Conceito de Lide". 6. dentro do ordenamento jurídico. "Condições da Ação na Execução Forçada". L' Azione. RT.ª edição. 1977. p. cit. p.ª ed. Forense.ª ed. p. 1953. 22. cit. Editorial Stylo.. Questões Prévias e os Limites Objetivos da Coisa Julgada. p. REPRO 34/20. Forense. 1944. 45-v. REPRO 34/85. Galeno Lacerda. 7. Ed. Expusemos este entendimento em "Sobre o Conceito de Jurisdição" . trad. p. de Mariano Ovejero. 23 e ss. 15. Direito Processual Civil . 20.. I.. p. pp. A Ação no Direito Processual Civil Brasileiro. DF.A Possibilidade Jurídica". cit. 267. 1983. cit. "Despacho Saneador e o Julgamento do Mérito" in Estudos sobre o Processo Civil Brasileiro. in Estudos sobre o Processo Civil Brasileiro. Thereza Alvim. 18. 9. I. RT. 2. nota 1. p. 4. vol.. 4. vol. AJURIS 23/178. 1980. 1. Livraria Progresso Editora. Ed..Estudos e Pareceres. Bushatsky. 124. Comentários ao Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) . 135. México. RT. Saraiva. III. p. 1.. 204.. 11. cit. Giuffre. 13. de um tipo de providência tal como a que se pede" . 8. L'Azione. "O Despacho Saneador e o Julgamento do Mérito". AJURIS 34/43. 21. Calmon de Passos. 14. vol.. p. La Sentencia Civil. "Em Torno das Condições da Ação . 1968. pp. Ob. II.. 17.. art. Execução Civil.Agravo de Petição. 199. p. 1976. 46. 52 e ss. Sérgio Bermudes. p. Sérgio Gischkow Pereira. 1977. p. 12. p. 47.

Adequadas as críticas formuladas por Sérgio Gischkow Pereira. 25. cit. 52. "Ainda que não se subsumam integralmente na possibilidade jurídica como uma cópia com seu modelo. Agravo de Petição cit. 35. tais requisitos a ela se filiam. 180/181.. 24. Humberto Theodoro. p. nota 21. 125. 88. Ob. 34. ob. 182. cit. 53... Em Torno das Condições da Ação. p. ob.. cit. 31. 1985..RF 259/42. Estudos. p. "Processo Cautelar". I. Ob. Consulte-se Donaldo Armelin. cit. Revista Brasileira de Direito Processual 48/89 . de maneira íntima". 32. 27. Ed. cit. Curso de Direito Processual Civil. p. Ob.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO 23.. p. RT. p. 60. pp. 33. 57. 436.. p. 29. p. cit. 30. Ajuris 34/45.. cit. 1979. 28. Forense. Legitimidade para Agir no Direito Processual Civil Brasileiro. vol. 26. Calmon de Passos. in RF 246/154. Página 9 . 63. p.

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