CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO

CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO
Revista de Processo | vol. 46 | p. 39 | Abr / 1987 Doutrinas Essenciais de Processo Civil | vol. 2 | p. 135 | Out / 2011DTR\1987\47 Eduardo Ribeiro de Oliveira Área do Direito: Geral Sumário:

Notórias, no campo doutrinário, as divergências quanto à propriedade e abrangência da expressão condições da ação. Significativa parcela de processualistas sustenta a inadequação do termo, já que entendem o direito de ação como absolutamente incondicionado. Por outro lado, entre os que o admitem, não há acordo quanto à respectiva compreensão. Para as teorias concretistas, a que se filia Chiovenda, condições da ação são as necessárias à obtenção de sentença favorável. Já a doutrina elaborada por Liebman e adotada pelo vigente Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) , considera as condições da ação como requisitos necessários a que se possa obter sentença de mérito. "Em lugar do binômio - pressupostos processuais e mérito - surge um trinômio: pressupostos processuais, condições da ação e mérito da causa". 1 Observa Liebman que a ação, em verdade, não tem conteúdo genérico, competindo indiscriminadamente a todos mas, ao contrário, "si riferisce ad una: fattispecie determinata ed esattamente individuata", condicionando-se a certos requisitos, à falta dos quais o Juiz não proverá sobre o mérito. E, à míngua de tal provimento, inexistirá exercício da jurisdição. 2 Afirma que "no processo de cognição somente a sentença que decide a lide tem plenamente a natureza de ato jurisdicional, no sentido mais próprio e restrito". Recusar o julgamento ou te-lo como possível "são atividades que por si próprias nada têm de jurisdicionais e adquirem esse caráter só por serem uma premissa necessária para o exercício da verdadeira jurisdição". 3 Saliente-se, ainda, a afirmação peremptória de que tradizione e giurisdizione esiste perciò esatta correlazione, non potendo aversi l'una sensa l'altra". 4 Resta, em verdade, alguma dificuldade em aceitar-se tais assertivas. Se o ato que inadmite exame do mérito não é jurisdicional, dificilmente poderá ser classificado como próprio de outra função do Estado. Natureza legislativa certamente não tem; nem seria adequado considerá-lo como administrativo. Procedente, a propósito, a cerrada crítica de Calmon de Passos. 5 Salienta apropriadamente Alfredo Rocco que, além do direito de obter um julgamento de fundo, cada um tem o direito de obter um julgamento sobre a possibilidade de o mérito ser julgado. 6 Vale notar que, ainda verifique o Juiz faltar alguma das chamadas condições da ação, terá havido processo. Em termos de direito positivo brasileiro, isto não pode ser negado, pois admite-o o Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) , dispondo sobre as causas de extinção do processo sem julgamento do mérito. A aceitar-se integralmente a doutrina de Liebman, ter-se-ia processo sem ação, muito embora não iniciado de ofício. Nosso intento, porém, não é estudar a teoria da ação nem mesmo questionar o acerto da que foi adotada pelo Código. Objetivo do trabalho é verificar, face ao direito vigente, como deve ser entendida uma das chamadas condições da ação: a possibilidade jurídica do pedido. Parte da doutrina vinha considerando, pelo menos algumas das condições, como questões de mérito. A lei processual, entretanto, deixou expresso que, se faltarem,
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tornou-o aceitável. Note-se que do texto do art. sendo que o ilustre autor do anteprojeto do Código de 73 acolhera conceito substancialmente idêntico ao de Liebman. sem deduzir explicações. tendo em vista o dado fundamental fornecido pelo Código. Como a lei. outras existem específicas para determinadas ações. Entretanto. Em trabalho anterior. 8 aceitamos que o Código de 73 adotou terminologia que importou identificar o mérito com a lide. não nos pareceu que as objeções sejam insuperáveis. há que se buscar como devam ser compreendidas as condições da ação. restringir-se-á a uma das expressamente previstas: a possibilidade jurídica do pedido. entretanto. Esta seria o conflito de interesse qualificado por pretensão. como exposto de início por Carnelutti. Para determinar-se exatamente em que consista. o passo seguinte ser á o de entender as condições da ação de maneira a que não se apresentem contaminadas por matéria pertinente ao mérito. o ampara". os que aceitam a existência das condições da ação como necessárias. para que se possa examinar o mérito. Página 2 . na ordem jurídica à qual pertence. 267. Objeto deste será a lide como apresentada ao Juiz. Na doutrina pátria. 13 Nosso direito. Não importa o conflito existente fora do processo. de modo especial.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO extingue-se o processo sem julgamento do mérito. é certo. apenas esta existe. ficado imune a censura. a questionada conotação sociológica. ao contrário do que ocorrera até a segunda edição do Manual. Merece colocada em relevo a formulada por Moniz de Aragão. entendendo esta condição como" a possibilidade para o Juiz. 14 A conceituação acima exposta. Fixado o conceito desse último. efetivamente não era de todo adequado. E procuramos fixar o que se haveria de entender por lide. 9 não aceitando que a lide possa constituir-se no meritum causae. As relacionadas no dispositivo seriam as de caráter genérico e. A redação adotada enseja concluir-se que se trata de enunciação sem caráter taxativo. afastando. anima-nos pesquisar qual deva ser este. já foi explicitado. a restringir a duas as condições da ação. entretanto. Quanto a essas é que se verificam maiores divergências e imprecisões. o Juiz só poderá atuar em função de uma lide que lhe foi exposta. com base especialmente nas críticas de Calamandrei e Liebman ao conceito de Carnelutti. embora a razão de ser da existência do processo seja a resolução de conflitos antes dele efetivamente existentes. Colocados os pontos acima. entretanto. O problema coloca-se especialmente em relação à possibilidade jurídica do pedido e a legitimação para a causa. incorporou a seu sistema as três condições. em termos coerentes com o direito positivo. Importa insistir em que. em tese. não fornece o conceito de cada uma das condições que arrola. tratar-se de tema estranho ao mérito. O conceito. não seria lícito negar que se trata de matéria que anteceda a apreciação do mérito da causa. não apenas na doutrina como notadamente na jurisprudência. não tem. o trabalho doutrinário que se seguiu. 10 Nosso exame. secondo le norme vigenti nell'ordine giuridico nazionale". não mais fazendo menção à possibilidade jurídica do pedido. já citado. como basicamente adequada. 15 Faz notar o autorizado comentarista que o conceito geralmente aceito "retrata a corrente de pensamento segundo a qual a ação somente será viável se o autor puder mostrar de antemão que o ordenamento jurídico contém uma providência que. há que se ter em conta a lide tal como deduzi da pelo autor na inicial. ou seja. além dos pressupostos processuais. entretanto. 7 Dentro dos limites que nos propusemos. têm de modo geral admitido. a que acrescemos algum reparo. 12 Veio o mestre. não necessariamente resistida mas simplesmente insatisfeita. a definição de Liebman. VI. Malgrado o brilho da exposição. a possibilidade jurídica é "l'ammissibilit à in astratto del provvedimento chiesto. Processualmente. a par delas. 11 Ou como escreve em célebre trabalho. pois. do CPC ( LGL 1973\5 ) resulta que outras condições existem além das ali indicadas. de maneira a que não se possam reputar abrangidas pela concepção a que se chegou. de pronunciar a espécie de decisão pedida pelo autor". Cândido Dinamarco procedeu a reexame do tema.

quando não se adequasse a determinada. continuou a inexistir o divórcio e não se justificaria que. se reconhecesse qualquer mudança de natureza. mas fosse admissível em outras. que em muitos temas a falta de previsão tem conseqüências idênticas à proibição. tanto quanto fosse o veto explícito. Calmon de Passos que. em nosso entendimento. No período que mediou entre a extinção do óbice constitucional e a modificação da lei civil. a possibilidade jurídica não dependerá da existência de texto a admitir como possível. fazendo. a questão não pode. 175. o essencial é que o ordenamento jurídico não contenha uma proibição ao seu exercício: aí sim. inadmitindo o ordenamento aquilo que o autor pretende. tem merecido indagações. para dadas situações de fato. esgotados os recursos às fontes. embora sem adotar norma Tão ampla quanto a contida no Código Suíço. A falta de preceito a amparar o autor não conduz. em tese. sustenta "não se poder abstrair da causa de pedir para a construção do conceito de possibilidade jurídica".veto explícito na Constituição (art. Na exposição de Liebman parece não haver dúvida de que o conceito estaria restrito à primeira hipótese. por si. Entretanto. Em suma. Existisse ou não a proibição constitucional. Se a lei estabelece que. haverá proibição de qualquer outra. admitem-se determinadas conseqüências jurídicas. a conseqüência é a mesma e a substância da sentença.477). seu pronunciamento não terá natureza diversa. está em saber se a possibilidade jurídica deve ser examinada de maneira inteiramente abstrata ou referida a determinada causa de pedir. nesses casos. 16 Entretanto. O julgador haverá sempre de examinar o ordenamento jurídico em seu conjunto. não importando qual a situação de fato concreta. o direito brasileiro sempre consagrou a possibilidade de o Juiz valer-se de outras fontes quando faltasse previsão legislativa para a hipótese fática que lhe é submetida. será idêntica. seja porque não o prevê. papel de legislador. cuja opinião se examina. se só após reflexões demoradas ou custosas pesquisas. para concluir se o provimento pleiteado é ou não admissível.º) e no CC (art. 17 Outra questão de relevo. § 1. quanto ao aspecto que se examina. entretanto. faltará a possibilidade jurídica". será mais fácil o trabalho do Juiz.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO Salienta que. seja porque expressamente o veda. Se assim é. A impossibilidade de extinção do vínculo derivava simplesmente do fato de o divórcio não ser medida contemplada na legislação civil. arrolando-as como numerus clausus. combate vigorosamente a doutrina de Liebman sobre as condições da ação. 1. à impossibilidade jurídica de seu pedido. obstaculizando emenda na lei ordinária. No primeiro caso. 18 Exemplifica com a hipótese se de Página 3 . Com a vênia do eminente autor. aquilo que se pleiteia. No segundo. A norma constitucional dirigia-se ao legislador. puder chegar à conclusão de que a providência não se compatibiliza com o direito vigente. O ponto. dizendo com a abrangência do conceito. seria do mesmo modo impossível conceder-se divórcio. não se limitando a reconhecer direito preexistente. pois. embora sem adesão ao conceito de Liebman. Não temos dúvida em subscrever o entendimento de que o Juiz tem autêntico papel criador quando julga a causa invocando a analogia. Permitimo-nos. só seria juridicamente inadmissível o pedido quando o provimento pretendido fosse de todo desconhecido pelo ordenamento. em primeiro lugar. "Sendo a ação o direito público subjetivo de obter a prestação jurisdicional. já salientado. valendo-se dos processos de integração. não nos filiarmos à corrente que considera procedente a crítica de Moniz de Aragão. O invocado exemplo do divórcio presta-se a esclarecer o ponto. situação. Aponta como adequados os exemplos de cobrança de dívida de jogo e divórcio posto que ambos encontram . ser resolvida do modo por ele defendido. Se este for claramente excluído pelo direito escrito.encontravam quando escreveu . não se nos afigura que a impossibilidade jurídica condicionese à vedação expressa na lei. ao provimento jurisdicional que repelisse pedidos visando obtê-lo. A impossibilidade teria de ser absoluta. Vale salientar.

Na doutrina de Liebman. A falta completa de previsão da conseqüência postulada ou não se vincular a que é prevista à situação de fato descrita. Não serão. em tal caso. tudo conduz ao mesmo resultado. Nos termos em que se costuma definir a possibilidade jurídica do pedido. Em trabalho posterior 19 distingue entre inexistente a providência que se pleiteia e embora exista em tese. por conseguinte. Vale salientar. Deixamos expostas algumas das questões já levantadas sobre a possibilidade jurídica do pedido mas resta o fundamental que consiste em defini-la de modo a guardar compatibilidade com o entendimento. entretanto. segundo a terminologia do Código. Importa. Entretanto. quando a relativa que ocorre nas hipóteses em que. Entretanto. de que não se traduz em matéria pertinente ao mérito. 295 do CPC ( LGL 1973\5 ) e o segundo Dinamarco. suscita problemas semelhantes ao da possibilidade jurídica quando se cogita de conceituá-la como matéria estranha ao mérito (art. ao simples fundamento de que deseja desposar outra pessoa. 267. a sentença terá caráter idêntico à que rejeitasse a demanda por não ser a tutela pretendida admissível em caso algum. Há que se buscar conceito compatível com a lei. As normas jurídicas materiais consistem logicamente na descrição de um suposto fático a que se liga uma conseqüência jurídica. 1). razão assiste aos autores que sustentam tratar-se de matéria de mérito.nulidade do casamento . que o item II citado. se alguém pretende obtê-lo. cuja falta "pediria prover-se quanto ao mérito. 295. estará julgando o mérito. 295 do CPC ( LGL 1973\5 ) estabelecem duas previsões normativas que obviamente não se podem referir à mesma situação. sem violentar a natureza das coisas. parece difícil distinguir entre a hipótese de inexistir previsão legal ou esta existir mas para hipótese de fato distintas. salienta que o pedido. identificar qual a concreta pretensão insatisfeita que se pretende tutelar por meio do processo. de passagem. é admissível. Ada Grinover considera que levar-se em conta a causa e pedir importa em decisão de mérito. assim como outros do art.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO pedido de nulidade de casamento fundado em incompatibilidade de gênios. Os já citados itens II e III do parágrafo único do art. a que se filiou o eminente autor do anteprojeto do Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) . Se o provimento jurisdicional dispuser sobre ela. E. ao caso concreto. Se de todo inadmissível. O provimento pleiteado . consagrado na lei. Não haveria porque distinguir esse caso daquele outro em que o divórcio não fosse admitido pelo ordenamento. adequado para situação diversa.é em tese possível mas a causa de pedir apontada jamais poderá conduzir a seu acolhimento. tal provimento não pode ser obtido em virtude de uma peculiaridade da causa de pedir: tratar-se de dívida oriunda do jogo. mérito e lide identificamse. A lei prevê a condenação ao pagamento da quantia em dinheiro. Sobre esta incidirá o provimento do Juiz. objeto do presente trabalho. Entretanto. Hoje admite-se o divórcio. ao fazê-lo. E lide não será a que efetivamente exista mas a exposta na inicial. ainda que não se ignore ter sido o inspirador do texto. não se adequa previsto no item III do parágrafo único do no item II. o caso subsumir-se-á ao item III. a impossibilidade jurídica absoluta. O primeiro caso estaria art. entretanto. 22 Colocamos em relevo que. distinguiu. condição da ação. o fato de o ordenamento não contemplar a tutela pleiteada conduzia à impossibilidade jurídica. Página 4 . não se acha o intérprete adstrito a aceitar tal entendimento. 20 examinando o clássico exemplo da cobrança de dívida de jogo. Nosso direito positivo. terá decidido o mérito. 21 Em termos meramente conceituais. em tese. A hipótese de "da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão" corresponderá àquela em que o que se expôs como causa de pedir não justifique o provimento.

E considera que a distinção entre possibilidade jurídica do pedido mediato e do imediato encontra-se consagrada nos itens II e III do art. não é relevante. Bem examinada. o mérito decidido. não há verdadeiramente uma dívida. Induvidoso. I. posto que apresentam conceito que faz essa chamada condição abranger o exame do pedido. julgou a lide tal como apresentada. Figure-se exemplo. se o pedido contrasta com o ordenamento jurídico. não podem ser aceitas as colocações da doutrina tradicional. ao contrário. vê-se que a questão é de mérito. como vimos sustentando.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO Pretende alguém subordinar o interesse alheio ao próprio. se a pretensão do autor é repelida. A decisão quanto a permitir-se que se instaure o processo. 295. E a sentença será de mérito (art. deva. Afirmou-se que o autor não tinha razão em sua pretensão.477) que as dívidas de jogo não obrigam a pagamento. a inicial será indeferida (art. com as colocações feitas e os exemplos que sugeriu. ao fundamento de que a ordem jurídica não consagra. Não se pode conceder relação jurídica Página 5 . 296. deliberadamente aberrante. constituem tema relativo ao mérito. segundo a qual. Só poderá existir impossibilidade jurídica quando ao Juiz for vedado pronunciar-se sobre aquela matéria. Havendo a negativa. 23 Humberto Theodoro Jr. 267. 24 adere à observação de Allorio. Necessário que seja vedado qualquer pronunciamento sobre ela e não que seja prontamente repelida por incompatibilidade evidente com o ordenamento. como reconhecido pelo direito vigente. Importa a matéria que foi examinada. credor de outrem. pretenda que este. 1. resiste à pretensão e surge a lide. não dispondo de meios para pagar-lhe. Ao fazê-lo. Embora concordemos. em parte. em grande parte. ou seja. residindo "na permissão ou não do direito positivo a que se instaure a relação processual em torno da pretensão do autor". a decisão sobre a lide. A cobrança de dívida de jogo tem sido freqüentemente apontada. não importando quão descabida seja a pretensão. A circunstância de que a sentença possa e deva. sem se considerar o bem da vida que se pretende assegurar. quando não possa haver processo sobre aquela pretensão. entretanto. o pedido foi examinado e rejeitado. a tutela jurisdicional invocada. Não se recusou a apreciar o pedido mas. Se assim é. pôde desde o examiná-lo e rejeitá-lo. tem-se a lide. aquilo que reclama. verifica-se que. ser proferida tão logo ajuizada a inicial. IV). em tais casos. entretanto. Estabelece o CC (art. a solução será sua improcedência. dispensadas outras indagações. 25 Ter-se em conta apenas o pedido imediato. Do jogo não nascerá uma relação de débito e crédito. por algum tempo. não se nos afigura que a questão possa ser resolvida invocando o que se entende por pedido mediato e imediato. 295. Como diz Humberto Theodoro. prestar-lhe serviços gratuitos. só pode ser alcançada verificando-se qual seja essa pretensão que consiste fundamentalmente no pedido mediato que se viabiliza pelo imediato. do CPC ( LGL 1973\5 ) . Levada a Juízo. que para entender a possibilidade jurídica como condição da ação e por conseguinte estranha ao mérito. entretanto. exatamente porque despropositado. A possibilidade jurídica haveria de buscar-se apenas no pedido imediato. do CPC ( LGL 1973\5 ) há de ser interpretado com temperamentos. parágrafo único. Suponha-se que alguém. para hipótese alguma. o magistrado repelirá prontamente o pedido porque o ordenamento não prevê possa surgir tal obrigação. não permite conclusão alguma sobre a possibilidade jurídica. para decidir sobre a pretensão do autor. entendendo que essa submissão lhe é devida. Procedendo-se a exame de muitas das hipóteses que têm sido indicadas como de impossibilidade jurídica. independentemente de citação do réu. consoante o direito vigente. Basta assinalar que. Deduzida esta em Juízo. O art. que o ordenamento nem mesmo em tese prevê a medida de que resultaria a colimada subordinação. O titular do interesse em conflito sustenta. IV). Por isso mesmo. E sugere solução fundada na distinção entre pedido mediato e imediato. em se verificando ter ocorrido decadência ou prescrição.

Em tais casos. Exemplificou Liebman com a inadmissibilidade de mandado de segurança contra atos do Presidente da República e outras autoridades. exige a prova do erro (CC. já que não há obrigação de pagar. Ação de despejo fundada em denúncia vazia. 28 Alguns referem-se a caso em que realmente não há exame de mérito. a compensação que é instituto de direito material. Lide examinada e decidida. Decisão claramente de mérito. de tais obrigações decorria uma série de conseqüências. Trata-se de fato jurídico dependente que. O mérito foi examinado. repelindo a pretensão. Para não nos alongarmos em demasia. Ao reclamar-se judicialmente condenação ao pagamento do que se ganhou no jogo. Lide julgada. examinam-se dois. 27 Usucapião de terras públicas por causa estranha à Lei 6.º da Emenda Constitucional 11). Numerosos outros exemplos apresentados também se referem ao mérito. Como este inexiste. decidiu-a. entretanto. Se a pretensão é diversa. não se sujeitem a idêntica observação. só produzem conseqüências jurídicas se unidos a outros. 3. sem que isso signifique concordar que outros. o pedido não tem fundamento legal e o Juiz proferirá veredicto decidindo a causa em seu fundo. Sua pretensão é negada e por conseguinte examinada. entretanto. Note-se. E não havendo obrigação de pagar. exclui-se a possibilidade de exame da lide. Página 6 . a sentença haveria de negá-lo e não afirmar a impossibilidade de examiná-lo. O Juiz. De qualquer sorte. apresentado tal pedido quando ainda inadmissível a medida. aliás. por exemplo. 29 Subsiste a proibição. carece de ser regulamentada. mais radical porque independe da via eleita. ao contrário dos independentes. porque o Juiz considera que a lei não lhe confere o direito que sustenta ter. A circunstância de não se poder repetir o voluntariamente pago não é bastante para caracterizar alguém como devedor. Acarretam efeitos jurídicos apenas quando haja a prestação. 965). outras conseqüências decorreriam como. Alguém pretende ter ocorrido usucapião. 26 Efetivamente. Nem todos.969/81. era também matéria de mérito. A que foi levada a Juízo foi julgada. O mesmo se diria da hipótese prevista no art. está-se pleiteando seja reconhecido o vínculo de débito e crédito. Como no exemplo acima examinado. Sérgio Gischkow Pereira arrola numerosos exemplos. feito voluntariamente. art. por conseguinte. arrolados pelos mesmos eminentes autores. a lide decidida. Se assim fosse. claro que estes inexistem. Nas origens romanas. O clássico exemplo do divórcio deixou de ser invocável entre nós. o que não ocorre em nosso direito. Observe-se que o caso não é de existência de vínculo jurídico que não pudesse. a decisão da causa afirmará não ter o locador o pretendido direito de retomada. ser encontrados alguns exemplos que consubstanciam hipóteses em que está excluída a possibilidade de exame da pretensão. Por brevidade. aliás. Esta a lide deduzida em Juízo. entretanto. A pretensão formulada seria rejeitada.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO pessoal sem que haja um credor e um devedor. 205 da Constituição cuja aplicação. tratando-se de locação residencial. ao dizer que a isso não tem direito. Pedido de despejo para uso do imóvel por colateral. O fenômeno é o mesmo que se dá com as chamadas obrigações naturais que autorizam a soluti retentio. Inútil dizer-se que haveria inadequação do pedido e que a hipótese poderia comportar perdas e danos (se o comportasse). Buzaid. que a impossibilidade de repetir qualquer pagamento indevido. entretanto. ser invocado em Juízo. Menciono alguns poucos. lembra opinião de Alberto dos Reis no sentido de que se o divórcio não pode ser autorizado. O Juiz haverá de afirmar que a locação prorrogou-se e. a pretensão não prospera. diversa será a lide. mérito examinado. mencionam-se também aqui duas hipóteses. de exame dos atos praticados com base nos Atos Institucionais e Complementares (art. vedação existente à época em que escreveu. a ação haverá de julgar-se improcedente. Vencedor de concorrência pública intenta obrigar o Poder Público a concluir o contrato. citados por Dinamarco. Pesquisando no ordenamento podem.

entretanto. podem ainda ser apontados. p. Na hipótese citada. em verdade. por impossibilidade jurídica do pedido. 35 Não temos dúvida em aceitar que. que não seja exclusivamente para obter alimentos. sob a mesma denominação. que tais casos são raros. 31 Permitimo-nos divergir. Outros. o processo haverá de ser extinto sem julgamento do mérito. desatendida a exigência estabelecida em lei. A pretensão. pela doutrina mais recente. na constância da sociedade conjugal e sem haver ocorrido separação de fato por mais de cinco anos. os casos em que o ajuizamento da demanda condiciona-se a medidas preparatórias não se ajustam exatamente à condição em exame. posto que prevalece em nossa ordem constitucional o princípio de que nenhuma lesão de direito individual poderá ser excluída da apreciação do Judiciário. A impossibilidade jurídica. 2. pois não poderia ser revista nem deixar de ser obedecida. Hipótese que tem sido apontada. com trânsito em julgado. Assim seria o depósito preparatório da ação. parece forçado e levaria a. não se trata de questão subtraída ao Judiciário. exige o entendimento a requisito prévio. Colocar este requisito como de natureza igual a outros apontados. dirá apenas com os casos em que o pedido não possa ser examinado e não quando as pretensões hajam de ser desde logo repelidas por manifestamente desamparadas. sobre o tema. A revisão dos atos administrativos é feita ordinariamente pela Administração o que não impede o recurso ao Judiciário. Vêse que as hipóteses haverão de ser raras. 2. em virtude de a competência pertencer ao Executivo. aderindo embora ao mesmo entendimento. E só este poderá dizer se houve ou não a lesão. Cumpre reconhecer. abrigarem-se hipóteses bastante heterogêneas. se o Judiciário pronunciasse sentença. dado nosso sistema constitucional. 46/47. Página 7 . A ordem jurídica não veda seu exame. Não. 1.30 Armelin considera que aí não se configura impossibilidade jurídica do pedido mas falta de interesse processual. entretanto. "L'Azione nella Teoria del Processo Civile". Certamente que um deles é o de ação visando a reconhecer filiação adulterina. 90. julgamento de mérito. além dos previstos na própria Constituição e sem que haja à regra nela inserta. pp.. in Problemi del Processo Civile. Limitar-se-á a afirmar que não pode examinar o pedido. "O pedido principal só se torna juridicamente possível se antecedido da medida preparatória condicionante para seu exercício" afirma Galeno Lacerda. entretanto. como dizendo respeito à possibilidade jurídica. 33 No mesmo sentido Moniz de Aragão.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO As hipóteses acima claramente são de pedido juridicamente impossível. Do Agravo de Petição no Sistema do Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) . Saraiva. uma vez que a intervenção do Judiciário seria ineficaz por ilegitimidade. teria ela inteira eficácia. 32 O Juiz nada dirá sobre a possível paternidade. assim como inaceitáveis alguns exemplos clássicos. Alfredo Buzaid. vedou-se simplesmente o acesso a este. Concluímos do exposto que a conceituação oferecida pela doutrina tradicional não pode subsistir. seu pedido não poderá ser objeto de exame. para que possa ser examinada. Malgrado se apresente o autor como sujeito da relação que se pretende existir e peça providência adequada a compor a lide. deixa transparecer que. embora o condicione. face a nosso direito. Em nosso sistema constitucional. 1956. uma vez que traduzem hipóteses em que se patenteia ter havido apreciação da lide. é aquela em que a lei impõe determinada providência preliminar para ser admitido o ingresso em Juízo. Por outro lado. vedado o exame do mérito e não de improcedência prima facie. 34 Ada Grinover.ª ed. pretensamente caracterizadores de impossibilidade jurídica. Morano Editores.

133. vol. p. p. 16/145. 20. Manuale di Diritto Processuale Civile. 52 e ss. 48/49. cit. CPC ( LGL 1973\5 ) . 10. p. Comentários ao Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) . 1968. A Ação no Direito Processual Civil Brasileiro. 137 e ss. Expusemos este entendimento em "Sobre o Conceito de Jurisdição" . 12.REPRO v. AJURIS 34/43. Despacho Saneador. p. art. Ob. Ed. 14. p. Sérgio Gischkow Pereira. 1977. 135. 19.. 1980. "Em Torno das Condições da Ação .. in Estudos sobre o Processo Civil Brasileiro. cit. 1977. 4.ª edição. p. Em Torno das Condições. vol. 88. Revista de Direito Processual Civil 4/63. p.. Direito Processual Civil . "Notas sobre o Conceito de Lide". Saraiva. "Despacho Saneador e o Julgamento do Mérito" in Estudos sobre o Processo Civil Brasileiro..CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO 3. "Condições da Ação na Execução Forçada". 204. 18. Questões Prévias e os Limites Objetivos da Coisa Julgada. 45-v. Comentários ao Código de Processo Civil ( LGL 1973\5 ) . L'Azione. 128. vol. La Salle. pp.Estudos e Pareceres.. 21. 11. DF.. 1953. vol. Ed. de Mariano Ovejero. Página 8 . dentro do ordenamento jurídico.. Fundamentos do Processo Civil Moderno. 267. 433 e ss.. 1976. "Existência. 82 e ss. REPRO 34/20. Execução Civil.. Ed.ª ed. L' Azione. cit. p. I. pp. II. 1. Galeno Lacerda. p. "Possibilidade Jurídica do Pedido". I. 17. 2. Ada Pellegrini Grinover. México. 46. p. p. As condições da Ação Penal. 16.A Possibilidade Jurídica". Thereza Alvim. III. José Bushatsky. 7. 1973. 1. 1983. p. Calmon de Passos. de um tipo de providência tal como a que se pede" . RT. Walter Eduardo Baethgen "As condições da ação e o nosso CPC ( LGL 1973\5 ) ". RF 251/17. "O Conceito de Mérito em Processo Civil".ª ed. cit. p. AJURIS 23/178. 124. 8. 1944. cit.ª ed. Forense.. 47. RT. 23 e ss. pp. Editorial Stylo. VI. Forense. REPRO 34/85.. 199. 22. Livraria Progresso Editora. 1986. p. 13. Sérgio Bermudes. 5 . 15.Agravo de Petição. 6.. p. Cf. 93/94. Giuffre. Bushatsky. V. Bushatsky. 1976. 9. nota 1. 215. "O Despacho Saneador e o Julgamento do Mérito".. trad.. RT.. La Sentencia Civil. 4.

cit. ob. p. 52.CONDIÇÕES DA AÇÃO: A POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO 23.. 35. Ed. Ob.RF 259/42. 33. 1979. nota 21. Ajuris 34/45. Agravo de Petição cit. in RF 246/154. 27. tais requisitos a ela se filiam. Humberto Theodoro. 26. p. Página 9 . p. 30. Legitimidade para Agir no Direito Processual Civil Brasileiro. Forense.. Curso de Direito Processual Civil. 57. 182. cit. Estudos. 28. 63. Ob. de maneira íntima". 31. cit. "Processo Cautelar". 53. 60. 1985. 436. 24. Consulte-se Donaldo Armelin. "Ainda que não se subsumam integralmente na possibilidade jurídica como uma cópia com seu modelo.. 29. p. Ob. Calmon de Passos. Revista Brasileira de Direito Processual 48/89 . 180/181. p. RT. I. 32. p.. p. 125. cit. Em Torno das Condições da Ação.. pp. 34. p.. p. cit. cit.. Adequadas as críticas formuladas por Sérgio Gischkow Pereira.. 88. vol. 25. ob. cit.

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