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OSHO CONEXÃO BRASIL abril de 2004

Am or e medi ta ção
O dia 11 de junho de 1979 havia chegado e o Ashram estava lotado aguardando o
início de mais uma série de palestras do Osho em inglês. Desde o final de 1978 havia uma
expectativa no ar pois dizia-se que ele iria falar sobre "O Dhammapada", a essência dos
ensinamentos de Buda. Às 8 horas, quando se esperava a chegada de Osho, foi anunciado
que ele não estava bem de saúde e que não viria. Dez dias se passaram desde então e
somente no dia 21 de junho, Osho voltou a falar. Foi quando ele deu início à série de
palestras sobre "O Dhammapada". Havia sido uma longa ausência, a mais longa desde
junho de 1974.

O texto que traduzimos abaixo é parte do primeiro discurso da série sobre "O
Dhammapada".

"........O ódio existe com o passado e com o futuro, enquanto o amor não precisa nem
de passado nem de futuro. O amor existe no presente. O ódio tem uma referência no
passado. Alguém abusou de você ontem e você está carregando isso como uma ferida,
como uma ressaca. Ou pode ser que você esteja com medo de que alguém vá abusar de
você amanhã, um medo, uma sombra de medo. E você já começa a se aprontar, começa a
se preparar para ir de encontro à situação.
O ódio existe com o passado e com o futuro. Você não pode odiar no presente. Tente
e você se sentirá completamente impotente. Tente isso hoje: sente-se em silêncio e odeie
alguém no presente, sem qualquer referência ao passado ou ao futuro... você não consegue
fazer isso. Isso não pode ser feito. Pela própria natureza das coisas, isso é impossível. O
ódio só pode existir se você se lembrar do passado - esse homem fez alguma coisa com
você ontem - aí o ódio é possível. Ou esse homem vai fazer alguma coisa com você amanhã
- aí também o ódio é possível. Mas se você não tiver qualquer referência com o passado ou
com o futuro - esse homem nada fez a você e nem vai fazer, esse homem está
simplesmente sentado ali. Como você pode odiar? Mas você pode amar.
O amor não necessita de qualquer referência. Essa é a beleza do amor e a liberdade
do amor. O ódio é uma escravidão. O ódio é uma prisão imposta por você a si mesmo. E o
ódio cria ódio, o ódio provoca ódio. Se você odeia alguém, você está criando ódio no
coração daquela pessoa contra você mesmo. E todo o mundo existe em torno do ódio, da
destruição, da violência, da inveja, da competição. As pessoas estão cada qual atracadas no
pescoço umas das outras, ou de verdade, na ação, ou pelo menos na mente. Em seus
pensamentos todo mundo está matando, assassinando. É por isso que nós criamos um
inferno em cima desta linda terra, que poderia ter se tornado um paraíso.
Ame e a terra se torna um paraíso novamente. E a imensa beleza do amor é que ele
é, sem qualquer referência. O amor brota em você, sem qualquer razão. É a sua felicidade
transbordando, é o seu coração compartilhado. É o compartilhar da canção do seu ser. E
compartilhar é um ato tão cheio de alegria, que a pessoa compartilha. Compartilhar por ser
bom compartilhar, por nenhum outro motivo.
Mas o amor que você conheceu no passado não é o amor do qual Buda está falando
ou que eu estou falando. O seu amor nada mais é do que o outro lado do ódio. Então o seu
amor tem referência. Alguém foi tão belo com você ontem, ele estava tão bom que você está
sentindo um grande amor por ele. Isso não é amor. Isso é o outro lado do ódio. A prova
disso é a referência. Ou alguém será bom para você amanhã, o jeito como ele sorri para
você, o jeito como ele fala com você, o jeito como ele convidou você para ir à casa dele
amanhã, ele será muito amável com você. E um grande amor desabrocha.
Esse não é o amor do qual Buda fala. Isso é ódio disfarçado em amor. É por isso que
o seu amor pode se transformar em ódio a qualquer momento. Arranhe uma pessoa só um
pouquinho e o amor desaparecerá e o ódio crescerá. Ele não é amor nem de raspão.
Mesmo os chamados grandes amantes estão continuamente lutando, continuamente no
pescoço dos outros, ranzinzas, destrutivos. E as pessoas pensam que isso é amor...
O seu amor não é realmente amor, ele é o seu oposto. Ele é ódio disfarçado em amor,
camuflado como amor, exibindo-se como amor. O verdadeiro amor é sem referências. Ele
não pensa sobre o ontem nem sobre o amanhã. O verdadeiro amor é um espontâneo jorrar
de alegria em você... e o compartilhar isso... e derramar isso... pela simples alegria de
compartilhar, sem qualquer outra razão, sem qualquer outro motivo.
Os pássaros cantando de manhã, esse cuco cantando lá longe... sem qualquer razão.
O coração está simplesmente cheio de alegria e uma canção explode. Quando eu estou
falando sobre o amor, eu estou falando sobre esse amor. Lembre-se disso. E se você puder
entrar na dimensão desse amor, você estará no paraíso, imediatamente. E você começará a
criar um paraíso na terra.
O amor cria amor, assim como o ódio cria ódio.
........O ódio nunca dissolve o ódio, a escuridão não pode dissolver a escuridão.
Somente o amor dissolve o ódio, somente a luz pode dissolver a escuridão. Essa é a lei. O
amor é luz, a luz de seu ser; e o ódio é a escuridão de seu ser. Se você estiver escuro por
dentro, você vai sair lançando ódio por todos os lados. Se você tiver luz dentro, então você
irá irradiar luz ao seu redor.
Ais dhammo sanantano...
Buda sempre repete isso. Essa é a eterna lei. Qual é a eterna lei? A que somente o
amor dissolve o ódio, somente a luz dissolve a escuridão. Por que? Porque a escuridão em
si mesma é apenas um estado negativo, ela não tem qualquer existência positiva. Ela não
existe na verdade. Como você pode dissolvê-la? Você não consegue fazer coisa alguma
diretamente com a escuridão. Se você quiser fazer alguma coisa com a escuridão, você terá
que fazer com a luz. Traga a luz para dentro e a escuridão irá embora. Leve a luz para fora e
escuridão entrará. Mas você não poderá trazer escuridão para dentro ou para fora
diretamente, você não pode fazer coisa alguma com a escuridão.
Lembre-se de que você também não pode fazer coisa alguma com o ódio e essa é a
diferença entre os professores da moral e os místicos religiosos. Os professores da moral
seguem propondo a lei falsa. Eles propõem 'luta contra a escuridão, luta contra o ódio, luta
contra a raiva, luta contra o sexo, luta contra isso, luta contra aquilo'. Toda a abordagem
deles é 'luta contra o negativo', enquanto o verdadeiro e real mestre ensina a você a lei
positiva: Ais dhammo sanantano, a lei eterna, 'não lute contra a escuridão'. E o ódio é
escuridão, o sexo é escuridão, o ciúme é escuridão, a cobiça é escuridão e a raiva é
escuridão.
Traga a luz para dentro...
Como a luz pode ser trazida para dentro? Torne-se silencioso, sem pensamentos,
consciente, alerta, atento, desperto.... É assim que a luz é trazida para dentro. E no
momento em que você estiver alerta e consciente, o ódio não será encontrado.Tente odiar
alguém com consciência..... Esses são experimentos a serem feitos, não apenas palavras a
serem entendidas, experimentos a serem feitos. É por isso que eu digo: não tente entender
apenas intelectualmente, torne-se um experimentador existencial. Tente odiar alguém
conscientemente e verá que isso é impossível. Ou a consciência desaparece e então você
poderá odiar, ou, se você estiver consciente, o ódio desaparecerá. Eles não podem existir
juntos. Não existe coexistência possível, a luz e a escuridão não podem existir juntas,
porque a escuridão nada mais é que ausência de luz.
Os verdadeiros mestres ensinam a alcançar Deus, eles nunca lhe dizem para
renunciar ao mundo. Renúncia é negativo. Eles nunca lhe dizem para escapar do mundo,
eles lhe ensinam ir para Deus. Eles ensinam a você alcançar a verdade, não lutar contra as
mentiras. E as mentiras são milhões. Se você for lutar contra elas, isso levará milhões de
vidas e nada será alcançado. E a verdade é uma, e ela pode ser alcançada
instantaneamente, neste exato momento é possível....
A vida é tão curta, tão momentânea... E você a está desperdiçando em discussões?
Use toda a energia para meditação. É a mesma energia. Você pode brigar com ela ou você
pode se tornar uma luz através dela...
Buda diz: Lembre-se, se você depende de seus sentidos, você permanecerá muito
frágil, porque os sentidos não podem lhe dar força. Eles não lhe podem dar força porque
eles não podem lhe dar uma base constante. Eles estão constantemente num fluxo, tudo
está mudando. Onde você pode ter um abrigo? Onde você pode construir uma base?
Num momento esta mulher parece linda, num outro momento é uma outra mulher. Se
você decidir pelos sentidos, você estará num constante caos, você não pode decidir porque
os sentidos seguem mudando suas opiniões. Num momento uma coisa parece tão incrível, e
num momento seguinte, ela é simplesmente feia, insuportável. E nós dependemos desses
sentidos.
Buda diz: Não dependa dos sentidos, dependa da consciência. Consciência é alguma
coisa escondida atrás dos sentidos. Não são os olhos que vêem. Se você for a um
especialista em olhos ele irá dizer que são os olhos que vêem, mas isso não é verdade. O
olho é apenas um mecanismo, através dele alguém vê. O olho é apenas uma janela e a
janela não pode ver. Quando você se coloca diante de uma janela, você pode olhar para
fora. Alguém que passa pela rua pode pensar: 'a janela está me vendo'. O olho é apenas
uma janela, uma abertura. Quem está por trás dos olhos?
O ouvido não ouve, quem está por trás do ouvido? Quem ouve? Quem sente? Siga
pesquisando isso e você encontrará alguma base, de outra forma, sua vida será apenas
uma folha seca ao vento....
A meditação fará você desperto, forte e humilde. A meditação fará você desperto
porque ela dará a você a primeira experiência de si mesmo. Você não é o corpo e você não
é a mente. Você é pura consciência presenciando, testemunhando. E quando essa
consciência que testemunha é tocada, um grande despertar acontece, como se uma cobra
estivesse quieta enroscada e de repente desse um bote, como se alguém estivesse
dormindo e tivesse sido chacoalhado e despertasse. De repente, há um grande despertar
interno. Pela primeira vez você sente que você é. Pela primeira vez você sente a verdade de
seu ser.
E certamente isso faz você forte, você não é mais frágil, não como uma árvore fraca
que qualquer vento curva. Agora você se tornou uma montanha. Agora você tem uma base,
agora você está enraizado, nenhum vento pode curvar a montanha. Você se torna desperto,
você se torna forte e ainda, você se torna humilde. Essa força não traz qualquer ego para
você. Você se torna humilde porque você se torna consciente de que a mesma alma que
testemunha existe em todo mundo, mesmo em animais, pássaros, plantas, rochas. Essas
são apenas maneiras diferentes de dormir. Algumas pessoas dormem para o lado direito,
algumas pessoas dormem para o lado esquerdo e algumas pessoas dormem de costas...
Essas são maneiras diferentes de dormir. Uma rocha tem sua maneira própria de dormir,
uma árvore, uma maneira diferente de dormir, um pássaro, uma maneira ainda diferente.
Mas são apenas diferenças nas maneiras e nos métodos de dormir. Fora isso, mais
profundamente, no centro de todo ser, está o mesmo testemunhar, o mesmo Deus. Isso faz
você humilde, por que mesmo diante de uma rocha você sabe que você não é ninguém
especial, por que toda a existência é feita da mesma substância chamada consciência. E se
você estiver desperto, forte e humilde, você se torna mestre de si mesmo....."

OSHO - The Book of the Books - Volume I


Palestras sobre O Dhammapada, de Gautama, o Buda
tradução: Sw.Bodhi Champak

Copyright © 2006 OSHO INTERNATIONAL FOUNDATION, Suiça.


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