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Saramago

Não ser anti-basco, em Espanha, é como era no velho Portugal não ser do Benfica: mau
chefe de família. Há muito que José Saramago o descobriu.

A propósito de uma declaração pública do dramaturgo Alfonso Sastre (um dos grandes
intelectuais ibéricos do nosso tempo, preso por Franco e pelos seus tribunais e polícia
políticos acusado de apoio ao terrorismo basco contra a democracia orgânica madrilena
dessa altura) a propósito de uma declaração deste, José Saramago deu à estampa no
Diário de Notícias, de Lisboa (23-6-2009), um artigo intitulado «Sastre», em que revela
duas coisas: que Sastre, entre muitos outros, Prémio Nacional de Teatro, é afinal e a
despeito da sua vasta obra «um valedor de assassinos»; e o seu —dele Saramago—
espanto por isso.

Como veremos, não se percebe a origem da iluminação de Saramago, depois da


tempestade desencadeada em todos os quadrantes da política nacionalista espanhola
pela incendiária declaração em que Sastre constatava que sem um processo negocial
sério com a ETA e o secessionismo local, não haveria solução para o conflito político
entre o integralismo espanhol e o independentismo basco.

Sastre afirmou-o depois do atentado em que um comando da ETA matou Eduardo


Puelles, comissário da polícia espanhola que dirigia, a partir de Bilbau, o serviço secreto
de seguimentos e vigilância a membros da organização armada e a militantes políticos
independentistas. De acordo com os relatos jornalísticos, o oficial da polícia espanhola
terá tido uma morte atroz, calcinado no interior do seu automóvel em chamas, depois da
deflagração de um engenho explosivo magnético, na sexta-feira, 19 de Junho de 2009.

Que diz Alfonso Sastre?

O texto de Alfonso Sastre, «La prosa y la política», publicado dois dias depois, a 21 de
Junho de 2009 no jornal independentista basco «Gara», começava com uma «nota de
urgência. Mal tinha terminado este artigo, produziram-se o último atentado —desta vez
mortal— da ETA e as respostas rituais do PSOE e do PP. Tudo isto parece fechar uma
vez mais um círculo vicioso e acreditar que a paz neste país é definitivamente
impossível».

Assim abria Sastre o seu texto, com a situação que classificava de tão «angustiosa» que
não pede menos do que ir-se «ao fundo da questão» o que fazia nestes termos,
respondendo ao secretário-geral socialista basco, Pátxi López, hoje à frente do Governo
autonómico local: «dirigindo-me ao PSOE, partido que gostaria de ver recuperar ao
menos uma parte da sua honra perdida, é verdade —é inclusivamente possível— que
vocês não vejam que o problema não é que exista um pequeno bando (mas na vez
seguinte, enorme!) de assassinos de grandes dentes e sedentos de sangue que, vocês e os
vossos amigos, dizem que só sabem matar? É verdade que vocês não consigam ver uma
coisa tão visível como esta: a de que aqui há um sério conflito político que só poderá
resolver-se em termos políticos? É verdade, por fim, que vocês não se tenham ainda
dado conta de que a solução para este conflito, que tanta dor traz, é a possibilidade de
uma negociação? A que meios ‘mais contundentes’ se refere você, senhor López?».
E noutra passagem: «A ser assim, Deus nos tenha confessados, porque nos haveriam de
esperar e ameaçar tempos de muita dor, no lugar da paz, que nunca se conseguirá. […]
Então, pobres de nós e pobres de vós».

Sastre como se conclui das suas próprias palavras, não dizia o que a direita espanhola e
Saramago lhe imputam. Dizia outra coisa, inversa e muito mais significativa: a
importância da palavra contra a morte e a guerra, a importância de abrir o diálogo,
mesmo ali e sobretudo ali, quando e onde se não ouvem senão as armas.

O que poderia parecer estranho, portanto, é que sendo José Saramago Prémio Nobel da
Literatura, essa arte pura da palavra, se entregue agora ao esquecimento sobre como, ao
longo da História, sempre que os homens não falaram, se mataram. Por outras palavras,
como pode Saramago, um homem que o mundo homenageia pelas suas palavras, dispor-
se ao desprezo pela palavra, a troco da voz das armas que implicitamente preconiza, ao
acusar os outros da irracionalidade lógica que, escondidamente, defende quando se
consagra a ignorar e denegrir o apelo à inevitabilidade do diálogo, deixado por outro
cultor da palavra, Sastre, também ele pelo mundo e por isso reconhecido?

O sofrimento de que fala Sastre

Sem contabilizar as vidas arruinadas em silêncio, o desgosto não mensurável, os jornais


e órgãos de comunicação e outras empresas e organizações fechados pela polícia, os
despedidos, os que, a partir daí, não encontram uma vida para si, todas as vítimas
mudas, o conjunto de vítimas com expressão, apresentava o seguinte registo numa obra
de 2003 intitulada «Un mapa (inacabado) del sufrimiento» (Bilbao, Instituto Manu
Robles-Arangiz Fundazioa), da autoria Sabino Ormazábal Elola:

Mortos: 817 pela ETA (478 pertencentes aos corpos de Segurança e exército);
339 pela polícia e forças de segurança; total: 1.156
Feridos: 3.959 pela polícia; em atentados da ETA, 2.367; Desses, 1.294 ficaram
com incapacidades físicas; 242 em acções da extrema direita (total: 6568
Acções armadas da ETA: 3.391, (1968— 2003); Acções de sabotagem e de rua: 3.761
Ameaçados: Pelo menos 1.000 escoltados e mais 300 c/ vigilância preventiva, em 2003

As detenções e prisões, só no período pós-franquista, e até 2003, atingem os seguintes


números:

Detidos: 34.797 pessoas (8.172 delas, acusadas de sere, “membros da ETA”—


Ministério espanhol do Interior )
Presos: 4700 (actualmente 785) José Maria Sagardui Moja (Gazta), preso em Maio de
1980, encontra-se na cadeia de Jaen, totalizando mais de 29 anos de cárcere
(Mandela esteve 27 anos, para referir um exemplo conhecido de brutalidade
repressiva, a África do Sul do Apartheid)
Torturados: 5.390 denúncias entre 1977 y 2003.
Exilados políticos: aprox. 3000

De regresso a esse mesmo dia 19 de Junho de 2009, em que a ETA matou o comissário
Puelles, cumpriam-se 22 anos sobre o mais sangrento atentado daquela organização, que
provocou 22 mortos e 45 feridos, num supermercado de Barcelona, como foi abundante
e correctamente recordado. Mas (e como foi abundante e incorrectamente silenciado),
passavam também dois meses sobre o desaparecimento do ex-preso e ex-militante da
ETA, Jon Anza, que tomou a 19 de Abril um comboio em Bayonne (País Basco sob
administração francesa) com destino a Toulouse para um encontro com membros da
organização no activo, ao qual nunca chegou a comparecer. Ao contrário do que é
costume, a ETA emitiu dois dias depois um comunicado em que confirmava o
desaparecimento de Anza, quando se dirigia a um encontro com elementos seus. No
mesmo texto, eram levantadas suspeitas sobre o possível envolvimento das forças de
segurança espanhola neste desaparecimento «extrajudicial».

Quem conheça medianamente os últimos trinta anos do conflito hispano-basco, sabe


que estas práticas são, ali, conhecidas como «guerra suja» (como se pudessem existir
guerras limpas), ou seja, o recurso à táctica policial de «esquadrões da morte». No nosso
imaginário político, costumamos associar esta figura às ditaduras brasileira, uruguaia ou
argentina, nos anos sessenta até oitenta e, mais recentemente, a «democracias» como a
colombiana, por exemplo. Mas, por ela foram julgadas e condenadas importantes
figuras do complexo policial-político do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE)
no tempo dos Governos de Felipe González, nos anos 1980, com um ministro do
Interior e um Secretário de Estado presos, por envolvimento no assunto. Foi o chamado
(e esquecido) caso GAL (Grupos Anti-Terroristas de Libertação), 35 mortos, que
chegaram a ter uma conexão operacional portuguesa, ligada à Dinfo, designação à época
dos serviços nacionais de informações militares.

Quem conheça medianamente o historial do conflito hispano-basco não pode contornar


a hipótese de o atentado contra o responsável das equipas policiais espanholas de
seguimento de militantes da ETA e não só, poder constituir uma acção de retaliação por
um eventual retorno da chamada «guerra suja» que, em boa verdade, juntamente com a
prática de tortura de presos bascos (da ETA ou não) nas prisões espanholas, nunca foi
seriamente interrompida. «Os comandos da ETA não falam sozinhos», esclarecia o
general espanhol Saenz de Santamaría a propósito de um destes casos (o aparecimento
do cadáver do suposto membro da ETA, José Luís Geresta Mújika, a 20 de Março de
1999, com sinais evidentes de tortura, entre os quais dentes arrancados a sangue frio,
com martelo e alicate como revelaram os exames forenses.

Os caminhos que tomamos

Nenhum crime não justifica outro, é certo. Mas não pode ser a um preceito ético tão
geral que José Saramago se refere, quando chama a Sastre, «valedor dos assassinos». O
próprio Saramago tem hábitos de solidariedade pública com movimentos armados,
como os zapatistas. E a própria direita espanhola, em cujo coro Saramago tenta fazer-se
ouvir, lho lembrava, sem se esquecer da factura, na sua imprensa, não há muitos anos:
«Marcos vive do corrupio dos progressistas de cinco estrelas que se dedicam a ir a
Chiapas em primeira classe para se solidarizarem com os zapatistas. […] à frente deles,
o inevitável Saramago. Digo-o para que comecemos a saber com quem estamos a gastar
tão generosamente os estipêndios com que costumamos pagar-lhe com dinheiro público
as suas aparições estelares», escrevia António Burgos, no diário El Mundo, a 29-11-
2002.

Já a propósito do sequestro e morte pela ETA do vereador do PP da localidade basca de


Ermua, Miguel Ángel Blanco, escrevera José Saramago uma crónica publicada na
revista portuguesa «Visão», nesse Verão de 1997, em que, uma vez mais em coro com a
direita espanhola, alguma da qual herdeira directa da experiência nazi na instalação do
franquismo em Espanha, no final da década de 30, apodava a ETA de «organização
nazi». Mas, os poderes, como se comprova pelos caminhos espanhóis de José
Saramago, e pela olímpica ignorância desta passagem de 1997 a que El Mundo resolve
proceder no seu artigo de Novembro de 2002, os poderes costumam ter memória longa
e costumam também ser exíguos no perdão. Ao contrário daqueles que o procuram.

Depois da desavença pessoal com o então Secretário de Estado português da Cultura,


Sousa Lara, devido ao seu «Evangelho», Saramago resolveu que, por inteiro, o seu país
não o merecia. E só depois de um almoço com o então primeiro-ministro, Durão
Barroso, em 2003, o já Prémio Nobel da Literatura, à saída de S. Bento, perdoou (não
Sousa Lara), mas Portugal, pela afronta que lhe fizera.

Ora Portugal, como sabemos todos nós, os portugueses e alguns ibéricos, depois de
almoço é pródigo em lisonjas, desde que os comensais se prestem convenientemente à
função. Testemunham-no todos os recalcitrantes da cultura deste país que morreram na
miséria, antes e depois da existência da Academia sueca, não pela debilidade da sua
arte, mas pela força do seu carácter, usualmente acima do prato de lentilhas
governamentais, como de todas as demais homenagens de Estado.

Não seremos exemplar único. A crucificação de Sastre na Ibéria, feita à força do que
Saramago chama «ocasionais e pouco expressivas notícias de imprensa» como as que
na breve selecção aleatória de metade de uma manhã a seguir se relatam, percorre
avenidas tão amplas, quanto a entronização de Saramago. Nestes últimos dias, parece
que para surpresa deste, diziam títulos e editoriais de toda imprensa e de toda a direita
espanhola sobre aquele:

«Basagoiti [líder do PP no País Basco] pede aos juízes que evitem que Sastre se
ria das vítimas como Paqui' [viúva do comisario espanhol], El Mundo, 21-6-09).

«O PP e os sindicatos de Polícia pedem à Justiça que actue contra Sastre e o seu


partido» (ABC, 22-06-2009).

Sastre «não tenta apenas manchar com a sua mensagem ameaçadora a dor dos
familiares de Eduardo Puelles, como prostitui até a sua própria linguagem
quando fala de negociação com os terroristas» (Diário de Navarra, Editorial, 22-
6-09).

«O sinistro Sastre» (ABC, 22-06-2009).

«Quando Alfonso Sastre morrer, ninguém terá que lhe fechar os olhos. A mancha
negra do ódio já é também clausura», Alfonso Ussia, La Razón (23-6-09);

«Assim nos encontramos com a envolvente da ETA, personificada desta vez pelo
dramaturgo Alfonso Sastre, candidato vedeta pela Iniciativa Internacionalista,
nas passadas eleições europeias, que justifica os assassinos e repete as diatribes
habituais […] A despeito de a mentira revolucionária dos porta-vozes filoetarras
ser tão insistente e nauseabunda, acabamos por nos habituar a ela. Até ao
extremo em que esta gentalha dispõe sempre de alto-falantes para se fazer ouvir»
(Libertad Digital, 23-06-2009).
«A metamorfose: de cabeça de lista a matador — O dramaturgo filoetarra e
cabeça de lista da Iniciativa Nacionalista (sic) nas passadas europeias, Alfonso
Sastre, ameaçou ontem com «tempos de muita dor» se não se negoceia com a
ETA. Num artigo de opinião […] Sastre advertiu o lehendakari [presidente
autonómico basco] que se optam pela «via policial» para acabar com a ETA,
«pobres de nós, mas também de vós». Sastre emprega o mesmo raciocínio que
os terroristas…» (ABC, 23-06-2009);

Uma pessoa pode sempre dedicar-se a imaginar a reacção de José Saramago, caso fosse
ele o objecto de «ocasionais e pouco expressivas» notícias como estas, que se sucedem
ao longo de anos. Mas, mais interessante será notar como esta lista se estende
infindavelmente para grande e exclusiva surpresa de José Saramago que, distraído do
mundo, foi encontrar na sua própria pessoa uma razão mais original para se juntar ao
integralismo espanhol a propósito de Sartre. Escreve Saramago:

«Conheci o dramaturgo Alfonso Sastre há mais de trinta anos. Foi o nosso único
encontro. Nunca lhe escrevi, nunca recebi uma carta sua. Fiquei com a impressão de um
carácter áspero, duro, nada complacente, que não facilitou o diálogo, ainda que não o
tivesse dificultado. Não voltei a saber dele, salvo por ocasionais e pouco expressivas
notícias de imprensa, sempre relacionadas com a sua militância política nas fileiras
abertzales [independentistas]».

Pela parte que me cabe, sem ter propriamente nenhum diálogo agendado que Sastre
pudesse facilitar ou dificultar, conheci-o há precisamente doze anos, como jornalista,
em sua casa, em Hondarribia, perto de Donostia ou San Sebastian, conforme o idioma
que o leitor prefira. E vi em Sastre, precisamente o contrário do que Saramago diz ter
encontrado. É verdade que Sastre também comigo não teve qualquer vénia epistolar (a
quem possa interessar, é escusado procurarem provas de polícia em minha casa, repito:
Sastre nunca me escreveu).

Mas essa desatenção fatal em relação à minha pessoa, não turva a memória pessoal que
dele guardei: a de um intelectual probo, vastissimamente culto (coisa que mais tarde ou
mais cedo acaba sempre por se notar num intelectual, sobretudo quando lhe falta),
comprometido com o humano, conversador atento na escuta e penetrante na fala, tão
pouco dado a rodriguinhos e a lugares-comuns como aos sectarismos da moda.

Não se lhe conhecem, aliás, na biografia gestos «ásperos, duros, nada complacentes» —
e para mais tarde esquecer— de idolatria fanática para com os superiores de turno e do
correspondente linchamento dos inferiores de turno, no caso, subalternos, companheiros
de ofício, em nome da santidade de quaisquer revoluções renegáveis (como sucedeu
com José Saramago, precisamente neste mesmo jornal, o Diário de Notícias, que o
acolhia tão triunfalmente nos saneamentos políticos ou somente pessoais que aí
promoveu em 1975, quanto o faz em 2009, nas suas queixas sobre Sastre, em mais uma
lição banal acerca das ironias da História e de trajectória que reconduzem, afinal, os
homens a si mesmos).

Em suma, vi em Sastre um intelectual «contra o pensamento fraco», como escreveu o


próprio; um desses intelectuais que não jogam no duplo tabuleiro do poder e da
oposição procurando colher para seu mor benefício e vaidade pessoal o melhor dos dois
mundos. Um intelectual irredutível à lisonja e inconvertível à troca do humano pela
demagogia dos direitos humanos em sociedades opressivas como, entre outras, a
espanhola, e um experiente conhecedor dos expedientes desse exercício tão
escassamente fútil quanto altamente remunerado para os mais bem sucedidos dos
intelectuais de todas as craveiras que à sua sedução e aviltamento decidem gozosamente
sucumbir.

Não encontrei em Alfonso Sastre um valedor de assassinos. Encontrei em Alfonso


Sastre um intelectual que nunca se valeu do crime social e político que contribui para
ocultar, sob o véu palavroso da hipocrisia humanitária e da autoridade da Academia
sueca, ou outra qualquer, para melhor dele se poder beneficiar. Nunca sabemos como
vamos morrer. Mas ouso arriscar que de Sastre nunca dirá o cronista António Burgos,
aquilo que escreveu sobre Saramago, no jornal El Mundo, de 29 de Novembro de 2002.

Rui Pereira
jornalista