Você está na página 1de 128

Sementes do Jardim do Crepúsculo

A primeira vez que provei o fruto das Árvores


senti as sementes da Vida e Conhecimento
queimar dentro de mim
Jurei nesse dia que não voltaria atrás.
- Do Juramento de Lilith

Compilado por Rachel Dolium


Mensagem aos Leitores
Este livro foi feito por diagramadores, tradutores, revisores, divulgadores
(vocês são indispensáveis!) e críticos (que nos fazem melhorar!) que mesmo
não sendo especialistas nas atividades que exercem dentro do projeto,
doaram um pouco do seu tempo para tornar seu cenário favorito de RPG
mais rico.
Provavelmente você tem um computador para estar lendo isso,
talvez com internet para te baixado e quem sabe até uma impressora para te-
lo impresso, porem lembre-se que há pessoas no NOSSO Mundo Real que nada tem e apenas precisa do mais
simples. No capitalismo, trabalho é dinheiro, mas nós não queremos a grana de vocês, então o que custa ajudar a
quem realmente precisa? Ajude sempre que puder, pois esse será o nosso maior pagamento e, ver que podemos
mudar o mundo a nossa volta, será a nossa maior recompensa.
Somos a favor do direito autoral, por isso SEMPRE PUBLICAMOS OS CRÉDITOS ORIGINAIS
nas nossas traduções.
Somos contra o papo besta de "se tivesse um preço justo todos poderiam ter", o autor não tem culpa da
nossa extorsiva carga tributária e de nossa má remuneração pelo nosso suor. Então, NÃO VENDA este
documento, seja virtual ou impresso. TRADUÇÃO GRATUITA SIM, PIRATARIA NÃO!
Mudaremos o mundo pouco a pouco. Então por que não se une a nós para fazermos à diferença?
Equipe Movimento Anarquista

Créditos Originais Créditos da Tradução


Título Original: Revelations of the Dark Mother Tradutores: Gothmate, (Ark)Mahasian,
Autores: Phil brucato, Rachelle Udell
Desenvolvimento: Robert Hatch
Tarsila, Renata Marques e Ideos
Editora: Janice Sellers Revisores: Tarsila, (Ark)Mahasian, Folha
Diretor de Arte: Aileen E. Miles do Outono e Ideos
Layout e Tipagem: Aileen E. Miles Diagramação: Ideos
Arte Interior: Rebecca Guay, Eric Hotz, Vince Locke
Design de Capa e Contracapa: Aileen E. Miles
www.movanarquista.multiply.com
© 1998 White Wolf, Inc. Todos os direitos reservados. Todos os personagens,
nomes, lugares e textos mencionados neste livro são propriedade intelectual da
White Wolf, Inc. A reprodução sem permissão escrita do editor é expressamente
proibida, exceto para o propósito de resenhas, e das planilhas de personagens, que
podem ser reproduzidas para uso pessoal apenas. White Wolf, Vampiro: A
Mascara, Vampire: Dark Ages, Mago A Ascensão e o Mundo das Trevas são
marcas registradas da White Wolf Publishing, Inc. Todos os direitos reservados.
Trinity, Lobisomem o Apocalipse, Wraith the Oblivion, Changeling o Sonhar, Werewolf the Wild West,
Hierarchy, Livro do Clã Lasombra, Livro do Clã Capadócio, Livro do Clã Baali, Black Dog Game Factory, Dark
Ages Companion, Dark Ages Storyteller Secrets e Constantinopla by Night são marcas registradas da White
Wolf Publishing, Inc. A menção de qualquer referencia a qualquer companhia ou produto nessas paginas não são
uma afronta à marca registrada ou direitos autorais dos mesmos.
Este livro usa o sobrenatural como mecânica, personagens e temas. Todos os elementos místicos são fictícios e
direcionados apenas para diversão. Recomenda-se cautela ao leitor.
Dê uma olhada na White Wolf on-line:
www.white-wolf.com; alt.games.whitewolf e rec.frp.storyteller
IMPRESSO EM SUA CASA ;P
Agradecimentos
(Música cívica, tocada em uma vitrola, tipo A Voz do Brasil)
Senhoras, Senhores e... bem... e........(gesto abragente)

Aqui vos apresento o fruto do trabalho árduo de muitas pessoas.


Mais uma tradução se finda e temos aqui, em nossa língua, mais um livro que nos auxiliará no
caminho do jogador de RPG...

(Disco arranha. Barulho de vitrola quebrada).

Bem, pessoal. Deixa pra lá o discurso de movimento das massas de 1950. O Ideos pediu que
escrevesse qualquer coisa pra colocar nos agradecimentos do livro, já que eu estava coordenando e
talz...

Meu primeiro impulso foi mandar uma folha do Word escrita "QUALQUER COISA" em
letra 72. Mas sabendo que o Ideos era muito capaz de colocar isso no livro, e como deu muito trabalho
o bichim, resolvi tentar fazer algo decente.

Eu e esse livro meio que nos encontramos. Estava eu querendo entrar nesse negócio de
tradução, tinha achado a página no multiply. Mandei um recado e todo mundo me esnobou legal. Na
segunda tentativa (não, eu não tenho vergonha na cara XD), o Folha disse: "Vá pra comu do orkut, vá
ver que tem coisa pra fazer lá". Lá, achei um tópico legal: "Revelation of the Dark Mother", posto e o
que aconteceu? Nada. Aí fiquei maluca: "Puta merda, quando acho um projeto, ninguém responde".
Postei perguntando como é que era, se já era ou se já tinha ido... e descobri que o projeto tava
moribundo. Foi quando o Ideos perguntou se eu não queria coordenar. Eu disse "Claro!" Mas por
dentro tava: "Maluuuuucaaaa!!! olha onde tu vai amarrar teu bode!". Estava certa. Meu bode ficou
amarrado no sol, o coitado.

No entanto, contudo, todavia, não obstante, depois de muita pestana queimada ele está aqui.
Traduzido. Mas preciso dizer que nunca teria saído sem o pessoal da comu: desde o primo Ideos (que é
malkav - eu sou filha da cacofonia, e considero mentor) que diagramou e traduziu um ciclo e revisou
outro... até o Adrian que não deixou o tópico cair... toda vida postava alguma coisa periodicamente,
algum comentário, ou outra coisa engraçada que fazia que eu não me sentisse tão na merda (já que
todo mundo sumia quando ia cobrar). Muito obrigada também (Ark)Mahasian que era um poço de
paciência e presteza quando eu chegava e pedia "ei, revisa meio livro pra mim até o fim da semana?",
mesmo estando ocupado com o livro Tremere. Valeu Gothmate por guardar seus arquivos (a intro foi
a única parte recuperada da primeira tentativa de tradução). Valeu Renata pelo terceiro ciclo.

Valeu também o pessoal que não conseguiu/pôde ajudar pelo motivo que seja...

Então... tá bom de discurso de miss universo! Vão ler o livro que tá muito massa!

Paz e Vida Próspera.


Conteúdo
Prefácio: Retirado das Raízes - 06
Notas sobre este Livro - 16
Os Três Ciclos de Lilith - 17
Os Bahari 19
Primeiro Ciclo: O Livro da Serpente - 34
O Juramento de Lilith - 35
O Fragmento do Gênesis - 39
Notas - 64
Segundo Ciclo: O Livro da Coruja - 70
O Jardim da Meia Noite - 71
A Cerimônia de Caim - 95
O Lamento por Lúcifer - 102
Notas - 104
Terceiro Ciclo: O Livro do Dragão - 108
Maldição: Rainha dos Infernos - 109
Lamias: Notas da Inquisição - 114
Coruja, Gato e Serpente - 117
As Marés Crescentes - 122
Notas - 125
Prefácio:
Retirado
Das Raízes
Por Rachel Dolium

De novo e de novo, ouço dois sons. Quase sussurros, silenciosos e


sibilantes, como o silvo da língua de uma serpente. Lilith. Uma voz grasnada
como de uma coruja tremendo à luz da aurora, esmagada no limite da
sanidade, roubando o ar de crianças e surrupiando a semente dos que
sonham. O toque de toda vergonha, os dentes brilhantes de um amante
nada admitirá além de desejo. A Rainha Sombria se levantará para anunciar
o fim do mundo.
Eu a vi. Você a viu. Um culto de devotos celebram seu exemplo, e um
sem número de livros, panfletos, canções, escrituras e tratados foram criados
para amaldiçoar, divinizar ou defini-la. Até mesmo os mortais gostam da
Justiça de Lilith, na qual as mulheres supostamente deixam de servir e
definem sua feminilidade em canções. (Um conceito interessante, quando
você presta atenção: um playground cheio de hippies cantando canções em
nome de Lilith).
De acordo com a lenda dos rabinos e o testamento esquecido de Ur e
Babilônia, Lilith foi a primeira mulher, à esquerda de Adão, que cresceu
como ele, carne de sua carne. A seu lado, Eva, a “mãe de todos”, torna-se um
pálido espectro. Como parte da Criação original, Lilith possuía magia por
direito e aprendeu grandes Artes. Obviamente, ela se considerava igual a
Adão; que como a maioria dos homens, via de maneira diferente. Quando
ele a estuprou, Lilith apelou Àquele nas alturas, que a retirou do Éden e a
lançou em um mundo ainda em formação. Nesse ponto, é dito, ela se tornou
um demônio vingativo, matando crianças, roubando sementes e
emboscando homens virtuosos.
Sua história não é, digamos, uma história desconhecida.
Na cultura de Caim, nosso tão amado senhor, Lilith tornou-se a mãe
que o ensinou as artes da noite.
06 Revelações da Mãe Sombria
Impiedosa, ela o abrigou
quando Deus e o homem o
baniu. Sua recompensa foi ser
demonizada como “Mãe
Sombria”; por 13 gerações, as
crias de Caim conspiraram
contra ela, da mesma forma que
os mortais.
Encantos foram criados,
caçadas de sangue iniciadas e
linhagens inteiras foram
destruídas em nome de uma
campanha genocida.
Algumas pessoas, que
reverenciam as habilidades
lendárias dessa mulher, sentem-
se compelidas a saber, “será que
ela é real?” como se esse
conhecimento os garantisse uma
súbita visita.
Outros querem saber, “O que
ela é? Uma vampira? Uma
Magus? Alguma deusa ou
criatura abençoada pela lua?” só
posso afirmar que
Lilith
É
Lilith
... e ela não será forçada a
nenhuma classificação
arbitrária.
Lilith é real? Alguns
perguntariam a mesma coisa
sobre Jesus de Nazaré, ou Moisés,
ou Gautama Buddha ou milhares
de outras figuras históricas as
quais suas imagens causam tanta
devoção e terror.

Retirado das Raízes 07


Se você está perguntando “Você pode provar que Lilith caminhou sobre
a Terra?” minha resposta é não. Não posso lhe mostrar um esqueleto ou
pegadas ou uma lista de estatísticas dizendo, “Isto é Lilith”. Devo notar,
contudo, que tudo é possível nesse mundo estranho ao qual pertencemos, e
essa mitologia tem um meio esquisito de te enganar quando você menos
espera e enterrar seus dentes no seu pescoço.
Nas palavras de nossos anciões, Lilith representa um grande perigo.
Seus cultos, quando foram encontrados entre nossa espécie, foram extintos
com a sensibilidade que atribuímos à nossa raça fratricida. Nossas
“escrituras sagradas” (tão ardorosamente codificadas pelo estimado
Aristotle de Laurent) a veste com dois mantos diferentes: a mentora
caridosa do nosso senhor, e a “rainha sombria” que ele enfrentará no fim dos
tempos. Quão apropriado uma mãe que sustenta e uma prostituta
demoníaca.
Crédito demais para os poderes transformadores do Abraço.
A lenda de Lilith é a lenda de todos nós; falo não somente de minhas
irmãs da escuridão, mas de todos os Membros. Como ela, nós recebemos
uma herança proibida, a consumimos e nos tornamos como deuses,
superiores a tudo aquilo que um dia fomos. Como ela, sofremos com a
transformação, tornando-nos párias mesmo entre nossas crias. Como ela,
estabelecemos domínios apenas para vê-los tomados por aqueles que
ensinamos. E como ela, tivemos que nos esconder na escuridão, nos unindo
e gritando desafios contra os olhos noturnos antes de podermos provar da
fruta que comemos.
Irônico, então, que ela seja tão odiada.
Isso tem haver, eu suspeito, com o legado do aprendiz de Lilith: Caim,
senhor de toda a nossa espécie. Ele que Abraçou a Noite, ainda assim nos
passou uma litania de proibições que cada um de nós enfrenta todas as noites
de nossa existência uma coleção de regras antiquadas baseadas na
superioridade dos anciões e na santidade de sua eterna sabedoria. Essas leis,
assim nos foi contado, são essenciais para nossa sobrevivência; ao nos
defrontar com uma variedade de inimigos mortais ou outra coisa, nós
necessitamos de um código de conduta para nos sustentar. E quem melhor
para falar dessas coisas do que nosso Grande Pai Sombrio?
Que melhor inimigo que sua contraparte, a sedutora, mãe incestuosa
que incontáveis gerações aprenderam a temer? Quão boas são as proibições
sem uma punição? Melhor ainda, como nossa espécie continua
reverenciando as leis de Caim se esse senhor existe na sombra Daquela Que
o Tirou da Poeira?
08 Revelações da Mãe Sombria
O que teria acontecido, eu me pergunto, se tivéssemos jogado as leis
de Caim no mar e seguido nossos instintos, como nossa Mãe nos ordenou?
Haveria caos, dizem nossos anciões, e eles devem estar certos. Mas há
sabedoria no caos. O Sabá sabe muito bem disso, e sucumbem aos prazeres
da desordem ao invés de aprender com ela. Os magi também o conhecem;
pelo que vi ao longo dos anos, suas constantes brigas internas por
discordância sobre o nível de caos necessário para se conseguir iluminação.
Nós Membros somos seres emocionalmente caóticos. Apesar de
admitir minha falta de experiência no estado dos mortos-vivos, tenho de
confessar que parecemos estáticos e intelectualmente obtusos, opacos
como um ankh prateado e sem cor, que já foi usado por vários donos, onde
cada um acha que sabe o que é melhor para nossa espécie. Sobrecarregados
com o peso dos clãs e Caim, nós perambulamos sob a sombra de alguma
Gehenna mítica. Numa noite próxima, assim nos foi dito, fantasmas
ancestrais virão, chutarão alguns traseiros e se alimentarão com um longo
banquete de almas.
Essa é nossa lei. E nos consideramos senhores da noite? Melhor usar
aquele tratamento absurdo muito usado, crianças da noite. Deus sabe como
de vez em quando agimos dessa forma. Enquanto nos curvamos ao trono de
algum ancestral egocêntrico (que pode ou não ser pura mitologia) e seu
falso principado permanece, a Mãe Sombria nos invoca a renunciar as
regras que nossos pais criaram. Caim criou leis que nem mesmo ele toleraria;
ele próprio reconhece, sua anciã Lilith lhe disse para tomar a Fruta-de-
Tântalo que possuía poder sem igual. Ele não o fez, e conseguiu grandes
coisas. Não deveríamos fazer o mesmo? Claro!
Estou falando heresias? Bom! A verdade sempre soa herege, e os que
mentem sempre tentam manter a mentira enterrada. Perdida. Proibida.
Punida com a morte. Mas sem a brilhante verdade herege, sem a
marretada nos pilares da ordem, estamos acorrentados como pit-bulls ou
poodles nos pés de nossas mesas.
Sim, mesmo nós “senhores da escuridão”: Nós, talvez mais que todos,
estamos aprisionados pela nossa própria imortalidade. Somente um imortal
pode ser escravo por tantas vidas mortais.
Lilith é a antítese da escravidão. Seja livre, ela diz, e sofra. Oh, sim. A
Mãe Sombria está relacionada ao sofrimento. Ela sofreu, suas crianças
sofreram, seus devotos sofreram, e eu sem dúvida sofrerei por me atrever a
expressar isso em palavras.
Retirado das Raízes 09
Posso ver os pergaminhos com meu nome escrito com vitae, jogado
nas chamas para representar uma dezena merda, milhares de caçadas de
sangue. Já desisti da esperança de ser imortal. Alguma manhã, não muito
distante, o sol me levará para sempre. Meus algozes, se vangloriando por um
serviço bem feito, voltarão às mesas de seus senhores, se gabando com
algumas notas e continuarão seus caminhos, convencidos de que aquela
noite durará para sempre ou ao menos até a Gehenna. E estarei rindo de
vocês por todo o caminho para o Inferno. Pois no meu sofrimento, terei
chegado à compreensão que meus assassinos jamais conhecerão. E essa
compreensão me libertará.
Somente através da dor podemos abrir nossos olhos.
Entrei no jardim de Lilith numa busca pelo meu senhor. Determinada
a expor os seguidores de Lilith (hoje conhecidos como Bahari) frente ao
altar de nossa estimada Camarilla, eu mergulhei em um oceano de
conhecimentos perdidos. Meu prêmio: o cobiçado “Ciclo de Lilith” descrito
por M. de Laurent e, claro, uma gorda recompensa do meu criador.

10 Revelações da Mãe Sombria


Entenda, eu vi o que muitos dos nossos anciões não viram: essa é a
maneira de Lilith se esconder em plena vista. Em canções, em livros, nas
caçadas políticas e em arruinadas catedrais da sociedade humana. Nossos
anciões são muito estáticos, muito antigos, para verem os sinais. Não
compreendem a imensidão da cultura moderna, e assim as canções de Lilith
esvaem-se por entre suas mãos inaptas. Esta inabilidade permite que as
canções cresçam a volumes cada vez mais altos, até que estas árias, então
imensas, afoguem o empoeirado coro da tradição.
Um ancião não pode ouvir as canções que eu ouço. Não pode ter as
visões que eu tive.
Lilith está entre nós. Seus devotos são uma legião; a maioria não
entende ao que servem, eles a adoram em seus altares de dor por puro
abandono este é o ponto!!! não por algumas escrituras arcaicas. Os
verdadeiros cultos a Lilith, chamados coletivamente de Bahari, são
minúsculos, sociedades infinitesimais entre os Amaldiçoados e os vivos;
mas os verdadeiros seguidores de Lilith estão por toda parte; sempre que
alguém abandona todos os medos e cruza uma selva de foras da lei, Lilith
sorri das sombras. Nessas selvas, ela sabe, eles aprenderão ou perecerão.
Normalmente ambos.
Esse conhecimento se tornou meu quando observava a festa de
horrores noturnos na TV. Seduzida, me despi das roupas civilizadas e
mergulhei no Oceano sem Fim. Na canção dos segredos das musas Bahari
(como a poetisa punk Patrícia de la Forge, a qual seu trabalho eu re-imprimi
aqui com suas bênçãos), senti a enxurrada de fé aumentando como um
ferimento em pele maltratada. Em suas unhas pontudas de loucuras
adolescentes, no vômito bulímico de uma pretensa bonequinha, nas
agulhas de heroína daqueles dos quais orações são o esquecimento, comecei
a ouvir sua suave privação. Viva. Aprenda. Sofra. E Transcenda. Como eu. E
assim obedeci.
Fui às pedras erguidas no limiar da lua cheia; dancei ao lado das bruxas
e bebi suas amargas poções; urinei nas raízes das árvores ao redor dos nossos
inimigos Lupinos e bebi o sangue de antiquários humanos. Quando
possível, verifiquei o abismo do excesso humano tortura na Bósnia, rituais
Satânicos em Berkeley, orgias de crianças na Tailândia e drogados furiosos
em Berlin tudo mentalmente anotado nas canções que nasciam em minha
cabeça sempre que eu excedia meus limites admitidamente inumanos.
Retirado das Raízes 11
Cada experiência deixava as palavras mais claras, até que pude ouvi-
las em todo lugar. Ahi hay Lilitu “Todos Saúdem Lilith”. Agora que
reconheço a privação, a vejo por todo canto nos grafites, em canções
populares, em mensagens subliminares em comerciais e encobertas nos
graciosos corpos de lindas “top-models”. Através da dor, eu me iniciei numa
sociedade surreal que pode ou não saber a devoção que professa.
Desde que descobri, não consigo ter sensações suficientes. Fui
chicoteada com tiras flamejantes, marcada com ferro (uma dor estranha
para um Membro, devo dizer!), arrastada nua por cacos de vidro e submersa
em pedras de gelo. As sensações apenas aumentaram o coro na minha
cabeça um coro tão alto que invadia meu sono diurno. Aquele coro
espantava o medo que antes havia sido minha herança Cainita; o inferno
não tinha mais horrores a me oferecer. Apesar de morta, aprendi a viver
mais livremente do que jamais vivi. Através de amigos conhecidos, peões
comandados e sacrifícios de carne e espírito, abriram meus ouvidos às
canções religiosas de Lilith. Como desejei transformar um documento dos
nossos inimigos em uma marca de ferro quente, me queimando de dentro
pra fora mesmo quando procurei transformar essas canções-de-fogo em
palavras.
Lilith quer que nós queimemos nas chamas. Para enegrecer a pele de
nossos espíritos como a dela foi queimada no deserto entre-mundos. Cair e
marcar nossos joelhos e nos confortar no nosso próprio sangue, chorando
nossas chagas. Afogando-nos nas lágrimas da danação. Pois na dor
aprendemos. No sofrimento nos tornamos mais fortes. No desafio
prosperamos, como uma planta podada pelas mãos de um jardineiro. Lilith é
a jardineira, a mãe cruel, o espinho na rosa da nossa sobrevivência. Sem a
dor, ela nos ensina, nada mais importa. Sem um grito na noite, nossas vozes
se chocam contra a tranqüilidade da eternidade.
Minha busca pela Mãe Sombria arrancou as sombras dos meus olhos e
me forçou a enfrentar aquela verdade que deixa incontáveis anciões loucos:
Nossas leis são uma mentira. Nossa existência uma piada. Nosso senhor era
um peão num jogo perdido com Deus, e o próprio Deus é um pálido reflexo
entre um breve momento de existência e um nada interminável. Lilith
compreende isso. Seus devotos (que levam o nome Bahari como tributo à
Ba'hara, o terceiro jardim construído pela Mãe Negra) compreenderam,
também. Seus descendentes, amaldiçoados como demônios e mortos há
milhares de anos, viram isso dos botões plantados em sua honra no terceiro
jardim da Rainha Negra.
12 Revelações da Mãe Sombria
Sem dor, sem mudança, a existência nada significa. Conforto é
apodrecimento. Poder é uma gota de chuva secando no calor do deserto.
Agonia é a porta de saída para o êxtase.
Lilith é nossa mãe no sentido real da palavra. Através do desafio, ela
se tornou uma deusa. Através do amor, devastou o Éden. Ela é a grande
serpente enroscada nas raízes da árvore da Vida e do Conhecimento, e seu
veneno é a amaldiçoada sabedoria através da palavra e da oratória colocada
na fruta. Apesar de sua esfera ser a lua, o toque do seu beijo é o fogo de um
napalm.
Eu confesso que esse fogo me queimou, e sou agradecida por isso. Eu
desperdicei uma pequena mas razoável quantia que consegui na minha pós-
vida, gastei-a por vaidade imprimindo 20.000 cópias desse diariozinho
tribal, e os enviando para livrarias através do mundo. Fodam-se, foda-se sua
“Máscara” patética, e foda-se a política depreciativa que guia sua existência.
Sou livre de tudo isso. Minhas noites finais serão gastas nas névoas mais
claras que já conheci. Talvez alguns sigam minha liderança.
Sei que minha existência desse ponto em diante será medida em dias
ou semanas, então escolho gastar meus pertences num presente à Mãe
Sombria. Chamem isso de lição de esclarecimento uma labareda de chamas
de um navio afundando ao alcance de seus conquistadores. É a maneira de
Lilith, que aprendi, a ensinar com dor. Deixar de lado as conseqüências
decididamente mortais de liberdade em razão de abraçar as lições que
aprendeu a caminho do esquecimento. A própria Lilith sobreviveu
assumindo-se, claro, que ela tenha sobrevivido! apenas por obra do destino,
a imortalidade de suas artes, e o abrasivo exemplo que ela deixou para
aqueles com a coragem de segui-lo. Não posso esperar fazer o mesmo, então
dou boas-vindas ao sol de coração, espírito e braços abertos.
Transforme-me em cinzas se quiser. Posso agüentar.
Ahi hay lilitu

Retirado das Raízes 13


Notas Sobre Este Livro
A lei de Lilith é uma anti-lei. Ao contrário das escrituras
cuspidas às quais estamos tão acostumados, suas palavras fluem
através de impressões divinas um cântico de sombras que pode ser
decifrado apenas através da experiência. Nenhum leitor absorverá
esses ensinamentos da mesma forma, e duvido que qualquer leitor
veja os mesmos significados em uma mesma passagem ao ler
novamente.
O estimado M. de Laurent (a quem estou em débito por sua
maravilhosamente inspiradora litania “secreta” das leis do Grande
Pai Sombrio) passou anos procurando pelas palavras “definitivas”
de Caim e seus seguidores, obviamente pela impossibilidade de
uma verdade absoluta.
Eu fiz o contrário; minha pesquisa, apesar de exaustiva (e
como foi!) se concentrou em diversas impressões no lugar de
conhecimento erudito. A maioria de minhas fontes era oral ao
invés de escrita, e teve provavelmente um milênio de re-
interpretações. M. de Laurent, sem dúvida, chamaria minha
metodologia de precária e imprecisa, mas eu segui meramente o
caminho de Lilith. Seu jardim é uma coisa crescente e mutável
não um pedaço de pedra, mas um ramo de frutas selvagens.
Sempre que possível, eu transcrevi o conhecimento oral que
me foi passado em palavras escritas. Em alguns lugares, acontece ao
contrário. A própria diversidade e antiguidade do culto Bahari (ou
mais adequadamente, cultos) tornaram uma compilação
“definitiva” do evangelho de Lilith uma tarefa impossível, mesmo
para um imortal. Mesmo assim, essa própria diversidade dá à seita
força e flexibilidade; enquanto outras sociedades, mais rígidas
erguem-se, fragmentam-se e caem pelas palavras de seus
fundadores, a Mãe Sombria pede apenas uma coisa de seus devotos:
Abram seus olhos, estendam seus braços, e cultivem um jardim
(dentro e fora) com sementes de suas experiências. O Juramento
de Lilith, com o qual eu comecei minha coleção, é o mais próximo
de um código que essa sociedade respeita.

14 Revelações da Mãe Sombria


Os Três Ciclos de Lilith
De Laurent refere-se ao elusivo “Ciclo de Lilith”, o qual ele foi incapaz
de captar algo maior que um pequeno, cintilar. Há um motivo para isso:
Aquele documento não existe. O que ele viu se sua história for mesmo algo
além de uma visão romântica foi provavelmente ou um fragmento Bahari,
um embuste ou um Cainita recontando um encontro do ponto de vista do
seu senhor. Pelas minhas observações, o chamado “Ciclo” tem, de fato, ao
menos nove versões diferentes; muitas delas envolvem quatro partes um
ritual de inverno, uma invocação de primavera, uma observação de verão e
um ritual outonal que leva ao inverno, que recomeça o Ciclo.
Como a Crônica de Caim, essa história pode ser contada de duas
maneiras: como uma história literal recontada por semideuses ancestrais e
seus conflitos domésticos; ou como um testamento simbólico da cultura
matriarcal atravessando o mar, o útero e a plantação até que homens
ciumentos as destruíram, mataram suas famílias e acabaram com suas tribos.
De qualquer forma, a figura de Lilith permanece intimidadora e
inspiradora. Ela transcende seu papel, aprende com seus tormentos e
reergue, mais forte que antes mas encoberta em sombras e jura vingança
eterna.
Esse Ciclo é, de certa forma, minha própria conclusão; a Mãe prefere
imaginação ao dogma. Guardado com alguns Guardiões do Conhecimento
Bahari, eu dividi essas “escrituras”, em três livros, correspondendo à antiga e
universal trindade da Dama, Mãe e Anciã, mas em ordem contrária. As
lendas mais antigas são contadas primeiro, então o ciclo central, depois o
mais jovem e mais contemporâneo. Sua ordem reflete a progressão de Lilith.
• O Livro da Serpente reconta o idealismo juvenil da Mãe, sua
criação, tentativas e ascensão de mero brinquedinho valioso à divindade.
• O Livro da Coruja reflete sua busca pessoal e a fundação de Elona, o
Primeiro Jardim da Esperança, e D'hainu, o Segundo Jardim da Renovação.
Esse último dá a Lilith um lar, seu consorte Lúcifer e seus filhos. Quando
Caim descobriu (ou foi levado) àquele lugar, mudou o caminho da
humanidade e toda a sua raça.
• O Livro do Dragão fecha o círculo descrevendo a criação de
Ba'hara, o terceiro Jardim das Lamentações.
Introdução 17
Desse lugar-que-não-é-lugar, Lilith invoca os espíritos da Tempestade
e do tormento e declara uma longa noite de sofrimentos especialmente às
crias de Caim. Esta noite, de acordo com a profecia, chegará ao seu clímax
com o Surgimento de Marés, durante as quais o mundo atual será destruído
por ondas e ventos, para renascer quando o próximo mundo começar. Nesse
intervalo, vemos lampejos dos ajudantes de Lilith: os Bahari e as três bestas
sagradas.
Os dois primeiros Ciclos giram em torno da Mãe e suas tribulações; o
terceiro começa com ela, mas desse ponto em diante, Lilith torna-se um
enigma. Nós espalhamos lendas sobre sua voracidade noturna, mas essas
vieram de fontes posteriores. Os próprios Bahari evitam compor “escrituras”
sobre as ações de Lilith após o semear de Ba'hara. Canções ocasionais e
histórias regionais falam do que deve ter acontecido, mas o “sagrado” oficial
é o silêncio nas noites entre a Maldição e as Marés Crescentes. Nesse
silêncio, um Ba'ham deve tirar suas próprias conclusões. Lilith não fez
promessas, nem foi até uma colina para proclamar suas intenções ou sua
mera existência. Assim que as sementes dos Ba'hara foram plantadas, Lilith
desapareceu na noite profunda possivelmente para esperar as ondas,
escondida entre os mortais, assumindo formas enganadoras até que o jogo
chegasse ao fim e desse frutos.
Pois o plano de Lilith leva ao fim do jogo um arranca-rabo com o deus
que a criou, o amante que a abandonou e o patife ingrato que ganhou a
imortalidade através dela mas esfolou seus filhos sem piedade. As sementes
de Lilith os Bahari e seus mantras de dor e conhecimento seguiram adiante
nos mundos mortal e espiritual, os levando frutos de tentação, auxílio e
revelação. O mundo que vemos ao nosso redor é o resultado do fim de jogo e
a jogadora Lilith saiu vencedora. Jeová se tornou uma estatua quebrada;
Lúcifer tem seus devotos, mas suas previsões são obscuras, assim como seu
amor perdido, por trás de uma barreira de remorso; Caim foi banido e seus
filhos se devoram uns aos outros numa procura por ouro-de-tolo.
Você ouve a onda por trás da sua porta? Posso te garantir, eu ouço.

18 Revelações da Mãe Sombria


Os Bahari
Os arautos destas ondas - se não as próprias ondas - são chamados de
"Bahari"; cada Ba'ham se considera o fruto do terceiro e último jardim da
Mãe. Como tais, essas proles cultivam pomares de dor e bosques de
sabedoria, nutrindo crises em volta deles, e então acompanhando os
sobreviventes e os instruindo, para que possam aprender através do
sofrimento.
As ferramentas de cada jardineiro são tão individuais quanto pecados.
Alguns empregam o rude arado da tortura física, e prosperam no
terreno preparado de grandes cidades, plantando intrigas e boatos, e então
os fertilizando com insinuações; alguns podam os galhos de árvores
quebradas, trabalhando como confidentes e curandeiros entre os feridos,
aparando-os com pequenos cortes e então remodelando os talos com
palavras gentis. Independentemente de sua metodologia, os verdadeiros
Ba'ham conduzem seus "projetos" com bondade e encorajamento; dor é
inútil a menos que aquele que sofre aprenda alguma coisa com as
conseqüências. Destruição não é nem intento, nem prerrogativa dos
Ba'ham's. A Mãe Sombria irá cuidar de tais coisas no seu próprio tempo.
Até lá, cada Ba'ham planta a semente da sabedoria e a ajuda a crescer.
Alguns poderiam assumir, dado o sexo da Mãe Sombria, que todos os
Bahari são mulheres. Estariam muito enganados em pensar assim. Homens
muitas vezes cuidam dos santuários de Maria ou dos altares embebidos em
sangue de Kali (que podem representar facetas da Mãe Sombria), portanto
eles podam árvores no jardim de Lilith também.
Apresentado às ligações de Lilith com Caim e as misteriosas Lamia
(veja abaixo), um forasteiro poderia também assumir que os Bahari são
vampiros. Não necessariamente. Embora seja verdade que os adotados da
Mãe Sombria se alimentam de sangue e se consideram renascidos através
disso, eles não são Membros no sentido mais restrito.
Muitos são simples mortais sem poderes dos quais se gabar; alguns são
mortais exaltados - magi com os talentos místicos da própria Mãe; uma
porção são verdadeiros vampiros, mas estes "Membros" abandonaram seus
elos com a descendência de Caim. Bebendo o sangue de Lilith, eles
simbolicamente rompem suas ligações com o traidor dela e ascendem como
descendentes de Eva.
Introdução 19
A julgar pelo nome de "seita", alguém poderia pensar que todos os
Bahari trabalham unidos como um todo. Novamente, errado. Apesar das
flores e frutos de Lilith crescerem de sementes similares, eles crescem como
querem. Muitos congregam em pequenos lugares - cultos de três a sete
membros - ou operam raízes que transportam correspondência através das
mensagens, mídia e Internet, mas mantém seus "galhos" bem distantes. Boa
parte cresce como árvores em seus próprios canteiros, alimentando-se de
pequenas mas potentes misérias.
Outros imitam as ervas daninhas, espalhando pequenas informações
e angústias maiores em rápidas e amplas explosões. Algumas seitas são
profundamente formais, possuindo hierarquias adornadas e protocolos;
outras são coros de uma só voz.
O jardim da Mãe tem lugar para todos eles, enquanto continuarem a
ampliá-lo.
Apresentado ao paradigma bíblico que eu escolhi, um observador
poderia ligar os modos de Lilith com as tradições religiosas ocidentais. Mais
uma vez, não é necessariamente isso. Embora nós Membros permaneçamos
atolados em nossa adoração de mito bíblico, os caminhos de Lilith são
universais.

20 Revelações da Mãe Sombria


Verdadeiramente, muitas vezes eu os descrevo em termos de
patriarcado familiar de Jeová/Adão/Lúcifer; todavia muitos dos próprios
seguidores da Mãe Sombria se apegam a esses mitos, que podem
simplesmente ser o resultado da ampla influência do Ocidente. Eu preferi
ver a saga de Lilith como uma fatia de uma tradição maior - da Grade Mãe
Sombria que cria com amor e então pune com a morte. Essa tradição é
universal: eu vejo a face de Lilith na espada reluzente de Ishtar, nos fossos de
Kali, nas teias da Mulher Aranha, e mesmo nos suaves, porém remotos,
abraços de Maria. E enquanto eu vejo estas faces, os Bahari os reverenciam
em ritual. Eu dancei nos jardins Africanos, bebi sangue misturado com
manteiga indiana, e fiz preces na noite Tibetana. A Mãe está em todos os
lugares... Assim como suas crianças.
Apesar de sua aliança com Lilith poder fazer os Bahari parecerem
feministas naturais, a verdade é muito mais complexa. As mulheres não são
exaltadas necessariamente da mesma forma. Pelo contrário - muitas
mulheres, na visão dos Bahari, são descendentes de Eva, a terceira e mais
inferior mulher. Criada de um solitário Adão, sem os dons originais de Lilith
e sua divina gestação, estas mulheres realmente são o rebanho barato que os
misóginos desdenham. E, a menos que uma mulher consuma o sangue da
Mãe e tome seu Juramento, aquela mulher é um animal - que está,
certamente, muito abaixo dos Bahari.
Introdução 21
Iniciação
“Tornar-se" um Ba'ham é muitas vezes um processo simples, porém
excruciante. Como a própria Lilith, um Ba'ham prospectivo começa como
uma pessoa favorecida - abastada, talvez, ou bonita, ou popular, ou
abençoada de alguma outra forma. Subitamente, um evento cataclísmico
devasta tudo e a deixa vagando por um deserto de dor. Lá ela obtém algum
discernimento da vasta e finita natureza do mundo: Alguns vêem uma visão
literal da Mãe Sombria, ou sonham estar viajando em um lugar arruinado,
sem água e vazio. Outros vêem os infindáveis olhos d'O Antigo (citado no
Fragmento de Gênesis) contemplando um gigantesco vazio; outras ainda
caem em coma ou literalmente vagam em um estado de semi-morte (muitas
vezes grávidas, como Lilith estava) até que uma segunda catástrofe as
arranca desse torpor. Até que este ordálio e visão ocorram, um candidato à
Ba'ham permanece fora do jardim; somente rasgando-se com os espinhos do
portão ela pode atingir o doce néctar que há lá dentro. Até esse momento,
ela pode falar o nome da Mãe, fazer suas cerimônias e até cuidar do jardim,
mas ainda continuará fora, assim como Lilith ficou exilada do Éden.

22 Revelações da Mãe Sombria


A dor é a iniciação, agonia e discernimento são os degraus.
Se ela tiver sorte, essa desafortunada pode descobrir - ou ser
descoberta - pelos seguidores de Lilith. Os rituais que eles costumam
ensinar e iniciá-la dependem dos costumes e cultura dos Bahari. As
chamadas "bruxas" empregam os dogmas da Wicca, Santeria e outros
passatempos; cultos aborígines tagarelam sobres deidades de pesadelos e
dançam com brinquedos de ossos e vísceras; devotos leigos preferem falar
em símbolos de matriarcas e mães cruéis, embora renunciem às tradições
Cristã, Muçulmana e especialmente Judia usam os nomes mais familiares de
todos. Nos distantes monastérios de Budistas renegados e esquerdistas
Tantrika, velas iluminam discípulos copulando e seus servos mutilados.
Quais são os verdadeiros Bahari? Todos eles é claro! A dor, a visão, o
Juramento e a jardinagem são as únicas associações reais.
O sangue de Lilith consagra uma iniciação. Como a Cristão
Eucaristia, seu sangue forma uma ponte simbólica entre a deusa e o
jardineiro; diferentemente da Hóstia, esse sangue é real, muitas vezes
colhido do iniciado, do iniciador, uma planta e um sacrifício vivo, então
misturados em um preparado não muito agradável. Depois de bebê-lo, o
novo Ba'ham recita alguma variação do Juramento de Lilith, então recebe
quaisquer votos, estudos ou sofrimentos que o iniciador sentir que são
apropriados. Muitos Bahari aprendem as runas chamadas Ba'hara, a língua
simbólica da seita; muitos outros não. Não vale de nada que milhares, talvez
milhões, de devotos venerem o altar de Lilith sem ao menos saber o que
estão fazendo. Por não serem Bahari oficiais, estes "acólitos" reverenciam a
dor, alegram-se nas ciências ocultas e fazem questão de defender os dois.
Apesar de nunca ter sido formalmente iniciada na irmandade Bahari,
eu fui privilegiada a conhecer muitos membros da seita em uma livraria
secreta no Soho, cidade de Nova York. Dois deles eram Membros (ou, como
eu deveria enfatizar, Lhaka, já que os de Sangue Bahari não se consideram
Membros); três outros eram mortais. Estes fascinantes e carismáticos
personagens me levaram a um redemoinho de sofrimento e remissão; em
sua companhia eu me deparei com outros Bahari, encontrei incontáveis
seguidores da Mãe que não sabiam porque eles o faziam, viajei a lugares
isolados e li atentamente os pictogramas Ba'hara que dão conteúdo às
escrituras.
Eu sabia, conforme me enchi do conhecimento da Mãe, que minhas
alegrias levariam outros membros aos meus tutores.
Introdução 23
Como um ato de compaixão, eu matei quase todos eles; melhor que a
morte venha das minhas carinhosas mãos do que dos brutais ministérios de
arcontes ou o estupro mental dos Feiticeiros. Por respeito aos meus
professores, não profanarei seus nomes com pseudônimos. Deixemos
aqueles que estudam tirar suas próprias conclusões. Eu permaneço em
silêncio.
Meus excelentes mentores me deram igualmente excelentes lições.
Um deles, um mago, me levou tão longe dentro de mim mesma que eu
pensei que minha mente havia se despedaçado. Suas mãos seguravam a
promessa de amor eterno, mas ele se provou mais inconstante em suas
afeições do que qualquer membro egoísta. Eu o estripei enquanto ele
copulava com uma conquista - um garoto de 12 anos, que eu deixei vivo para
que aprendesse com sua experiência.
Uma antiga Toreadora tocou para mim uma canção de uma freira
Bahari enclausurada num convento em Milão, no século 12. A seus hinos
eram considerados uma devoção a Maria, até que um erudito descobriu sua
verdadeira lealdade. Como podem presumir, a freira foi queimada numa
pilha de seus próprios hinos.
24 Revelações da Mãe Sombria
Infelizmente, todas as transcrições foram destruídas também; minha
musa as tocou de cabeça. Quando ela mesma esfarelou-se no Sol da manhã,
as últimas recordações das composições da freira sumiram junto com ela.
Uma Caitiff errante fez minha pele coçar. Grosseira, ela parecia
orgulhar-se dos insultos que lhe fazíamos. Sua boca - incrivelmente grande,
metafórica e literalmente - nunca se calava. Quando eu a enfiei no picador
de papéis, foi o único assassinato que eu apreciei em anos.
Eu esfolei vivo um velho. Ele me pediu e eu obedeci, arrancando gotas
de sangue enquanto eu o fazia. Que desperdício. Seu latim era tão impecável
quanto um estudante romano, e sua coleção de livros - de romances a altos
manuscritos clássicos - eram memoráveis, mesmo que apenas em sua
variedade.
O velho não tinha boas maneiras, eu confesso, e isso o tornou vítima
de nossas brincadeiras. Ele levou tudo na esportiva, mas pareceu manter um
rancor que nunca se satisfazia. Seca, sua pele formou o pergaminho para a
edição original deste livro. Ele iria querer que fosse dessa forma.
Eu deixei que uma garota vivesse. Até hoje, eu não posso explicar o
impulso que me levou a esse ato de crueldade. Também mortal, a garota me
pareceu vagamente familiar. Eu descobri mais tarde, a origem dessa
semelhança em uma crônica de doutrina mágica. Pode ter sido
coincidência, mas ela lembrava muito uma pupila de Cagliostro e uma
consorte de Aleister Crowley. Submissa por natureza, ela tinha a mais
incrível tolerância à dor que eu jamais vi em um mortal.
O líder do grupo, uma mulher de Bali de idade desconhecida, era
mortal. Seu carisma, porém, era como uma coisa viva. Apesar de não ter
poderes místicos que eu pudesse ter notado, ela encantava com cada palavra
que proferia. Eu a deixei viver também. Há muitos poucos como ela. Apesar
de jurar vingança contra mim por ter matado seus companheiros, ela me
agradeceu por tê-lo feito. A Mãe Sombria age de modos estranhos,
certamente!

Mágika do Breve Amanhecer


Como qualquer um que tenha sentido o açoite dos raios do Sol, o
impacto de um tiro de calibre doze ou o corte de uma ferramenta de
vivisseção pode confirmar, todos nós atingimos uma explosão de percepção,
um satori, quando feridos.
Introdução 25
Por um breve momento, o
mundo congela e somos
transportados para um lugar
desconhecido ou terra-de-
ninguém onde a pulsação do
próprio Deus corre em nossas
veias. Como beber da jugular
celeste, este obsceno prazer
atordoante pode derrubar alguém.
O momento é apenas isso -
um momento - mas quando passa,
vemos algo memorável emergir
do nevoeiro de dor.
Muitos Bahari chamam esse
momento de sa, o "Breve
Amanhecer". Os místicos entre
eles comparam isso ao momento
de lucidez que os magos chamam
de “Despertar”; de fato, muitos
deles clamam ser Despertos cujo
sa guiou ao estudo de artes
mágicas. Lilith sentiu o sa quando
vagou pelas terras destruídas,
assim como guiou Caim a ele
quando ele desceu ao Inferno. Se
corretamente experimentado, o
sa leva à elevada consciência,
visão celeste e poderes místicos.
Humanos buscam por isso
em rituais sadomasoquistas, mas
isso raramente vem de forma
organizada. Para alguém
encontrar um verdadeiro sa, deve
atirar-se de cabeça em um abismo
físico e emocional - e sair pelo
outro lado.
26 Revelações da Mãe Sombria
Os Bahari cultivam o sa, neles mesmos e nos outros. Para eles, é a doce
fruta do Conhecimento e a amarga polpa da Vida em um só.
Talvez os sons místicos do sa proporcionaram a Lilith seu ar de
feitiçaria; apesar dela claramente transcender a mágika mortal, feiticeiros
tem sido ligados a Lilith desde o começo do tempo. Não é menos verdadeiro
nos dias de hoje; seitas de magos abrigam grandes números de Bahari, cujas
artes místicas avançam o sonho da Mãe Sombria das Ondas Finais. Embora
eu não seja aluna de doutrina mágica, conheci muitos desses chamados
"magi" em seus terrenos de rituais. O mais predominante, ao que parece,
vem de um clã místico que tem o nome de um tipo de planta medicinal, ou
verbena; considerando seus papéis como frutos do jardim de Lilith, seu
nome botânico é inapropriado. Outros pertencem à sociedade
reencarnatista, cuja imagem de uma grande roda corresponde aos olhos
eternos d'O Antigo, abrindo e fechando em seus infindáveis ciclos de
criação e destruição. Outros ainda passeiam no êxtase de dor e flashes de
sabedoria posterior a isso, ou lideram cultos de origem duvidosa. Enquanto
muitos desses místicos progridam nos planos de sua rainha numa base local,
eu admito que alguns deles detém rebanhos que seriam a inveja de qualquer
Príncipe. Cultivando estes rebanhos com credos de renovação através de
sacrifício, bruxos Bahari aumentam uma fome por sabedoria - e por mais e
maiores agonias.

Sangue Bahari: os Dissidentes de Caim


Como Caim, os Membros são atraídos e inspirados pelo sofrimento;
esta tendência explica certos passatempos suicidas, como andar sobre fogo,
políticas da Gehenna e os Tzimisce em geral. Quando você considera esse
fato, os membros dissidentes - chamados de Lhaka ou Sangue Bahari - entre
as hostes de Lilith parece natural. Como eu mesma, muitos desses vampiros
começam como ovelhas cegas; atingidos pelo sa, alguns poucos entendem a
verdadeira ordem das coisas e logo se juntam aos Bahari. A cerimônia de
sangue quebra o laço de vitae que nos liga aos nossos princípios; como Lilith
comendo o fruto do Éden, esse momento apaga nossa prévia cegueira. A
partir desse ponto, nós somos indivíduos cuidando do jardim da dor.
(Me faz sorrir pensar nos nossos ó-tão-sagazes anciões jogados nas
mãos de Lilith com tanto prazer.
Introdução 27
Seus conflitos incessantes por supremacia geram anarquistas e
candidatos a Bahari assim como água suja gera desinteria. A maldição de
Lilith permanece ainda hoje. As crianças de Caim "se alimentam dos
corações uns dos outros", figurativamente e de outra forma, como
delicadezas palpitantes).
As Lamia, uma extinta linhagem dos Giovanni, presenteiam os
alunos com um enigma. Os apócrifos dos Giovanni (obtidos a um grande
preço, eu lhe asseguro!) dizem que a linhagem começou quando um deles
raptou uma sacerdotisa de Lilith. Supostamente, esta sacerdotisa era a única
filha de Adão e Lilith, nascida de um infindável ciclo de estupro e
concepção desenrolando-se de volta à brutalidade do próprio Adão.
A lenda Bahari, por outro lado, claramente diz que Lilith teve três
filhas e três filhos, que nenhum deles era de Adão e que todos eles foram
assassinados. Embora não seja a primeira vez que lendas discordam umas das
outras, esse ponto vale à pena ser registrado.
Supostamente, estas Lamia se tornaram Membros raros, porém
iluminadas, mantendo os "verdadeiros ritos da Mãe Sombria" mas servindo
o clã que os Giovanni destruíram. Eu guardo essas besteiras; apesar de ser
inteiramente possível que um "Capadócio" abrace uma sacerdotisa Bahari,
ela seria uma pobre Ba'ham que gastaria todo seu tempo transando com
cadáveres a serviço da prole de Caim.
Embora provar minha teoria seja difícil - todas as Lamia foram dadas
como exterminadas por volta de 1800 - eu especulo que os progenitores
Giovanni também o tenham sido.
Talvez nossa sacerdotisa mítica realmente acreditava descender de
Adão e da Mãe; talvez ela fosse - dizem que Lilith estava grávida durante sua
jornada pelo deserto, e é possível que ela tenha carregado uma criança
humana assim como a descendência sobrenatural de Jeová. Sabendo o que
sei do Breve Amanhecer e as formidáveis conseqüências desse choque, eu
não acredito que uma tribo de necrófilos pervertidos poderia ter escravizado
os seguidores de Lilith. Acredito que uma porção de Bahari deram
continuidade à piada e então colocaram seus "mestres" em um série de
armadilhas fatais.
De qualquer forma, dizem que as Lamia comandaram temíveis
flagelos e necromancias; a descrição de uma capturada por Inquisidores
pode ser encontrada no Livro III.

28 Revelações da Mãe Sombria


Talvez as Lamia ainda existam sob outro nome¹; tendo projetado a
destruição dos Capadócios, elas quebraram seus laços de sangue e se
juntaram aos crescentes postos dos Lhaka - uma sociedade à qual eu mesmo
pertenço.
E eu estou longe de estar sozinha.
Chega de fatos irrelevantes. Deixemos os frutos serem colhidos e as
Ondas Finais ascenderem! Banqueteiem-se nestas Revelações enquanto eu
me banqueteio do sangue e corações dos meus antigos amantes e parentes.
Eu fiz minha parte e espero o curto porém brilhante amanhecer.
1: Eu sei de fato que algumas das chamadas "Filhas da Cacofonia" adoram a Lilith. Seus dons para a
música e loucura fazem muito sentido. Seriam elas talvez as remanescentes das Lamia, ou uma linhagem delas?
Talvez nós nunca saibamos.

Exemplos de Pictogramas de Ba'hara


Uma sociedade secreta requer comunicações secretas. Ba'hara, uma
coleção de símbolos mnemônicos, garante uma base escrita para a tradição
oral. Embora não seja uma língua formal num sentido estrito, ela oferece a
um iniciado Ba'ham um sentido de unidade. A partir de minhas pesquisas,
eu deduzi que Ba'hara deriva de pictogramas medievais da antiga linhagem
Lamia, a qual é proveniente de uma fonte ainda mais antiga. Aquelas
"formas primitivas" da língua foram, que eu saiba, há muito esquecidas,
embora os exemplos, provavelmente, ainda existam em alguma gruta
remota irreconhecíveis como já foram um dia.
A forma moderna de Ba'hara utiliza plantas e animais como bases
abstratas para as letras. Assim como a seita, é dito que a língua cresceu a
partir de sementes do Terceiro Jardim, e suas plantas são um eco daquelas
idéias.

Sangue
Lilith Caim
Introdução 29
Membros Lua

Sol Lúcifer

Serpente Coruja
30 Revelações da Mãe Sombria
Dragão Humano

Gato

Aliado Mágica
Introdução 31
Local Nos Encontremos
Sagrado Aqui

Perigo

Este Local Deve


Ser Destruído All Hail Lilith!
32 Revelações da Mãe Sombria
Ilustração para o livro de Marc André Rivest Lê Jardin interdit: Ces Choses qui ne son pas dites
(O Jardim Proibido: ou as Coisas que não se comentam), 1547.
Primeiro Ciclo:
O Livro
da Serpente

Fodida
Por um raio que veio do céu
Mãe, poderia eu
Sim
Bom
Me comportarei
Como se estivesse
Voando
Sobre uma semente amarga
Minha boca é um tambor
Meu ventre uma multidão de moscas
- Patrícia de la Forge,
“Outside the Garden”

34 Revelações da Mãe Sombria


O Juramento de Lilith
Nota da Editora
Formulado por um Ba'ham durante a sua iniciação, diz-se que o
juramento é uma preservação das palavras que Lilith disse a si mesma
quando vestiu-se com o Manto da Lua. Acredito que não é mais que pura
fantasia, mas estas palavras, quando pronunciadas, ressoam com um poder
que não posso negar. Ainda que nunca tenha me considerado uma Ba'ham
formal, pronuncio este juramento ao cair de cada noite. Esta devoção pode
me explicar algumas coisas...

A primeira vez que provei o fruto das Árvores


senti as sementes da Vida e do Conhecimento
queimar dentro de mim
Jurei nesse dia que não voltaria atrás.
A primeira vez que provei a carne da morte
senti o sabor do sangue
e o ranger dos ossos
Jurei nesse dia que não morreria.
A primeira vez que provei o meu próprio sangue
Senti a necessidade e a agitação
de minha própria vida em meus lábios
Jurei nesse dia amar a mim mesma
sobre todas as coisas

O Livro da Serpente 35
A primeira vez que provei a luz da lua
Senti seu brilho em meu ventre
E sua selvagem ternura
Jurei nesse dia que caminharia de
noite.
A primeira vez que provei o amor de um
deus
Senti o cortante alçar de canção e
fogo
Jurei nesse dia que acariciaria a
carne.
A primeira vez que provei o sal do mar
Senti meu sangue transformar-se
em água
Enquanto o céu caía sobre mim
Jurei nesse dia que descenderia e
retornaria com maravilhas.
A primeira vez que provei o amor de um
jovem
Gritei com a alegria de uma nova
vida
E chorei pelo que havia perdido
E ganhado
Jurei nesse dia nutrir a vida
Como antes abraçara a morte.
Juro por três vezes três vezes três
Que estes sete momentos serão
meus
E que nada que transpire,
Nem deus, nem homem e nem
besta, os quitará
O juro por mim mesma.
E pela minha imortalidade.
36 Revelações da Mãe Sombria
O Fragmento do Gênesis
Notas da Editora
Este, a origem de todo o Ciclo de Lilith, é o que falta nas escrituras
tradicionais. Mesmo que supostamente descreva os Primeiros Dias, o
Gênesis judaico-cristão não faz referência a Lilith em momento algum. A
vemos mencionada nos Midrashim rabínicos dos judeus e em alguns textos
hebreus obscuros (e não tão obscuros). Mas a primeira mulher esta ausente
de versões consolidadas tanto da Bíblia cristã como o da Tanakh judaica.
Tal como vimos neste “Gênesis perdido” podemos ver o porque.
Apesar do seu nome, este mal chamado “Fragmentos do Gênesis” não
pode ser considerado parte dos livros canônicos cristãos e judaicos. Mesmo
que a versão mais antiga do mesmo esta escrita em hebreu, o uso informal, e
inclusive às vezes burlesco, do nome de Jeová (tradicionalmente escrito
como YHVH, “O Senhor”, seguido por “bendito seja Ele”) esta tão distante
do paradigma judeu que o Fragmento deve ser considerado, como muitos, o
trabalho de algum israelense profundamente herético.
Não há nada fora do habitual a respeito disso: o Gênesis, o Êxodo e
outros dos primeiros livros declaram a existência de uma miríade de seitas
pagãs ou heréticas entre os filhos de Abraão; um autor com um, digamos,
ponto de vista pouco convencional do Todo Poderoso não é muito difícil de
imaginar; Ainda sim, muitos textos heréticos foram purificados junto de
seus autores.
O Fragmento do Gênesis chegou de algum modo ao grupo de textos
que se perderam durante o cerco de Roma a cidade de Jerusalém (64 d.C.),
salvando-se da destruição. Dada a natureza blasfema do Fragmento, duvido
que jamais fora considerado parte do Pentatéuco, ou os cinco livros de
Moisés. É mais provável que fora conservado como parte de algum ritual ou
encantamento de proteção (para “conhecer o seu inimigo”, com dito antes)
ou como matérial de estudo de algum intrépido erudito. Seja como for, o
Fragmento foi preservado das chamas de Roma, mas foi deixado de lado
quando confeccionaram a Torá a partir dos textos conservados, e de novo
mais a frente, quando o Concílio de Nicéia estabeleceu os livros da Bíblia
cristã. Tratando de ser fiel ao texto original, comparei este Fragmento com
dois similares, um em grego e outro preservado na tradição oral dos ritos
Bahari. Tive acesso a uma versão pictográfica Ba'hara, mas devido a que tais
documentos são usados mnemotecnicamente, e não são palavras literais,
dificilmente poderiam ser uma versão Bahari definitiva.
O Livro da Serpente 37
Em parte para conservar o ambiente intrínseco ao texto, e em parte
para capturar o ritmo original do hebreu, usei a versão israelense como base
de minha tradução. Uma série de notas de rodapé mostra as minhas próprias
observações.
Seria fútil tentar começar dizendo qual destas três versões é a
“definitiva”. Cada uma delas tem a sua própria autoridade. A tradição
Ba'hara parece adotar o papel do Evangelho segundo Lilith; as fontes gregas
servem de “ponte” entre os rolos antigos e a tradução atual, e inclui algumas
ambigüidades panteísticas; o documento herético israelense é mais
adequado ao nosso conceito das Escrituras. Surpreendentemente, todas elas
se confirmam de um modo quase perturbador.
Apesar de que o Fragmento conter numerosos elementos cabalísticos,
estes se encontram difusos e desorganizados. Seria de autoria de uma
mulher? Se for, isso justificaria as correspondências incompletas e o uso
improvisado do hebreu em algumas passagens. A erudição feminina estava
de certo ponto mal vista, e muitas vezes proibida, especialmente quando dita
erudição incluía as Escrituras. Inclusive jovens homens eram (e, todavia
são) mantidos afastados das mais sagradas escrituras. Eu creio que a
verdadeira origem do Fragmento prove da “sabedoria feminina”, a tradição
oral transmitida de geração a geração, de mãe para filha, e que raramente se
punha por escrito. Este é sem duvida alguma minha afirmação.
Ainda levando em conta a sua origem e usa importância para a
doutrina Baharim o fragmento é mais a historia dos Primeiros Dias do que
uma relação das aventuras de Lilith. Lilith não é sequer a protagonista
principal: esta distinção corresponde a Jeová, o deus com problemas,
orgulhoso e definitivamente trágico cujos erros esmiúçam o equilíbrio da
Criação Imortal. Do mesmo modo, seus atos rompem a situação estática de
então, criando a primeira criatura com vontade própria: Lilith. E quando ela
tomou parte neste drama universal, O Que Era passa a ser O Que Será. Seu
desafio (primeiro Jeová, depois os elementos, Lúcifer e depois os outros
deuses) agita o pequeno mundo feliz que havia encoberto profundas
injustiças. Ela trai consigo amor, alegria, rebeldia e finalmente desastre, mas
emerge como a verdadeira arquiteta do nosso mundo, para o bem e para o
mal. Quando parte para o Mar Eterno para estabelecer seu próprio jardim, a
vemos transformada em igual de Jeová: a mulher que o obrigou a ver a ilusão
sob a qual estava se escondendo.
Não deveria surpreender, pois, que os Bahari a consideram a
Verdadeira Deusa do nosso mundo.
38 Revelações da Mãe Sombria
O Fragmento do Gênesis
I: A Criação

Uma vez, houve silêncio e quietude. Esse foi o Tempo do Nada,


quando o Ser Ancestral descansava Seus olhos e não se movia. A cada
55.555 anos, o Ser Ancestral rompe o Seu sono e abre Seus olhos, para ver
que não estava antes ali. A cada 55.555 anos, fecha novamente Seus olhos,
e tudo retorna ao silêncio e quietude novamente¹.
Então foi quando o Ser Ancestral abriu os Seus olhos pela 333ª vez, e
um relâmpago de Luz rompeu a escuridão². Dali proveio [Jeová]³ e os outros
Seres Luminosos4. Para agradar os olhos do Ser Ancestral, Falaram grandes
Palavras, e cantaram grandes Canções, e assim foi como teceram o mundo
na existência.
Até as conchas dos 332 Velhos Mundos se dirigiram, e as criaturas
destes mundos gritaram e se dirigiram para as terras selvagens 5.
Cada um deles cultivou um jardim, criando plantas e bestas no seu
interior. Dentro de cada jardim, a terra proveu sustento para os entes que
cresciam; e o fogo queimava nos céus de dia e de noite; e o ar fluía como
palavras de divindade; e as águas nutriam as flores e plantas e todos os seres
vivos 6.
E Jeová, o Primogênito, cultivou o maior Jardim de todos eles na terra
entre os rios. E Ele cultivou duas Árvores dentro deste Jardim, a Árvore da
Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. E cada Árvore
produziu frutos de sete sementes cada uma e cada semente continha as
grandes verdades dos Seres Luminosos.
O tempo passou, e as bestas do jardim de Jeová se alimentaram das
sementes das árvores e souberam as grandes verdades, mas isso não os
importava. As bestas se alimentaram das sementes, das ervas e deles
mesmos; pois assim é Como São Todas as Coisas.
E isso estava bem.
Mas Jeová tinha ansiedade. Alimentou-se dos frutos de ambas as
Árvores, mas eles não o saciaram. Bebeu dos dois rios e do sal dos grandes
mares, mas não O saciaram.
Alimentou-se nos jardins de [Lúcifer] e [Gabriel] e [Astarte] e [Bel],
mas ainda assim ainda não estava satisfeito. Seu ventre rugia e as bestas se
escondiam temerosas, tão grande era a ânsia do Primogênito.
O Livro da Serpente 39
Mas não tinha fome de carne, nem
frutas, nem da companhia de Seus primos.
Jeová ansiava companhia.
Jeová se lamentava e Seus gemidos
eram como tormentas.
Chorou, e Suas lagrimas tornou
úmida a Verdadeira Terra7 no centro
de Seu Jardim. E caíram sobre as
sementes das Árvores da Vida e do
Conhecimento, e produziram
um estranho e maravilhoso
fruto.
Macho e fêmea
surgiram do lodo da
Verdadeira Terra,
unidos pelas costas; e
lutaram para porem-
se de pé. Mas não
puderam.
Até que Jeová
passou a Sua mão
entre eles e os
transformou em
Dois; iguais e fortes
Ele os Fez. E o Ser
Ancestral não viu
estas coisas.
Porém Ele parecia
sorrir.

40 Revelações da Mãe Sombria


II: O Jardim

Jeová chamou as Suas criaturas de “Ish”, ou “Adão”, e “Lilitu” ou


“Lilith” 8, e Ele os deu grandes Dons. Ao homem, Ele deu-lhe os poderes de
Modelar e Nomear; à mulher, Ele deu os poderes da Fertilidade e a Intuição.
Como tinham se originado da Verdadeira Terra e das sementes das
Árvores, o homem e a mulher podiam ver e adorar os trabalhos de Jeová, Ele
estava muito contente.
E Ele ordenou que Seus servos, estes serafins e querubins e demônios
que mostravam para Adão e a Lilith as maravilhas do Jardim, e lhes
ensinaram a usar seus Dons. Ele ordenou a Adão que nomeasse cada uma
das plantas e criaturas que ali moravam, e ordenou a Lilith que os
alimentasse; e ordenou a ambos que tomassem o que necessitassem do
Jardim.
Lilith passou o tempo entre as plantas e as árvores frutíferas; Adão
passou o tempo nomeando os animais, os machos e as fêmeas que
habitavam o Jardim. Adão aprendeu a caçar as criaturas tal com caçavam
umas as outras; e Lilith aprendeu a alimentar-se de árvores e plantas, tal
como estes fertilizavam uns aos outros.
Enquanto cuidava do Jardim, Jeová os proibiu de alimentarem-se das
Árvores da Vida e do Conhecimento, dizendo-lhes: “Estes são os frutos da
divindade. Imortais, como sois, estes frutos os devorariam se vós os
devorarem antes. Como o relâmpago dos Céus, lhes cegariam,
despedaçariam a pele e as entranhas, e os partiriam com a árvore que por ele
teriam os alcançado”.
Mas Lilith não acreditou em Jeová; mas tão pouco o pôs a prova. Mas
desejou estes frutos, pois era uma criação de grande vontade. Quando o
fruto caiu das Árvores, ela os comeu, e assim seus olhos se abriram.
Estava nua, mas não se envergonhou disso 9. E se transformou em um
Ser Luminoso, como Jeová; mas não entendeu como ser igual a Ele, e assim
esperou e observou.
Lilith tentou explicar para Adão os segredos das plantas, mas a ele
isso não importava; o observou enquanto caçava, e criou ferramentas que o
ajudariam; e ordenou que o lobo, o leão e a coruja o seguisse. Assim foi como
Lilith sobressaiu nas tarefas da caça e da colheita dos alimentos10. Mas adão
enfureceu-se, e foi para longe de onde ela estava.
O Livro da Serpente 41
Em sua solidão, Adão várias
das muitas bestas fêmeas, pois
desejava uma parceira para si. E
Jeová pediu para que se visse a
mulher, Lilith, a que fora sua
parceira, dizendo-lhe: “Tu estas
acima das bestas, e é detestável que
deiteis com elas”.
E assim foi como Adão foi em
busca de Lilith para que deitasse
consigo. Mas Lilith sentia repulsa
por ele, pois havia copulado com as
bestas. Ele tentou inclinar-se sobre
suas costas para poder penetrá-la,
mas ela o rechaçou, dizendo-lhe:
“Porque eu deveria deitar-me
embaixo de ti? Eu também fui criada
da Verdadeira Terra, e sou sua igual”.
E Adão se enfureceu; em sua
raiva, forçou Lilith a deitar-se sob
ele. Enquanto lutava, ele a infligiu
vários golpes, até que o sangue de
Lilith caiu na terra junto com o de
Adão. E adão era impetuoso como
um touro xucro e sua semente caiu
sobre a terra; e arbustos e heras
cresceram ali, agarrando-se aos
tornozelos de Lilith e Adão.
Adão enfiou-lhe o chifre de
sua virilidade; mas Lilith uivou o
Nome Verdadeiro de Jeová e Ele
apareceu acima do Jardim vindo dos
Céus.
E Adão caiu no solo, e
abrandou sua fúria e sua luxúria nas
bestas e nas flores. Mas ele não havia
comido do fruto das Árvores e não
sabia o que fazia.
III: Lilith como Consorte de Jeová

Uma vez que Lilith foi levada para longe de Adão, Jeová a inquiriu:
“Como soubestes o Nome Oculto Daquele que te criou?” Sua voz era
ensurdecedora. A luz crepitou no céu. Os ventos esvoaçavam os cabelos de
Lilith e cobriram sua pele de gelo.
Tinha medo, mas não o disse em voz alta. Ao invés disso, O disse, ao
trovão, relâmpago e vento. E seu medo foi como a sabedoria e o consolo
contra a tormenta.
Lilith disse: “Eu fiz o que Tu me pediste. Cultivei os frutos do Jardim, e
as bestas do bosque. Quando prosperaram, me nutri deles. Quando caíram,
os recostei para repousarem. Os frutos que eu comi são os que caíram por
Tuas próprias mãos. Os aceitei como um dom de amor de Tua abundância,
para que pudesse unir-me a Ti nos Céus”.
Após dizer isso, fez crescer suas próprias flores; flores que não foram
criadas pelas mãos de Jeová, nem cultivadas pelas mãos de Lilith. Eram
novas, e ela as criou a partir do Firmamento dos Céus, e as ofereceu a Ele.
E no final a tormenta cessou. E Jeová permaneceu calmo.
Ele a levou aos Céus, e a tomou como esposa. Durante sete dias e sete
noites, ela se sentou sobre Seu colo e Ele dentro dela 11.
E sua copula foi como a tormenta; e ambos ficaram satisfeitos. E o
amor cresceu entre Jeová e Lilith, com os frutos da Árvore da Vida.
Mas Ele não suportava compartilhar Seu poder e conhecimento com
Lilith. Lilith disse: “Agora somos como deveríamos ser, iguais sobre todos os
demais”. Ao ouvir isso, Jeová enciumou-se, como fizera Sua criação, Adão.
E assim ocorreu que Jeová expulsou Lilith de Sua vista, com antes já
expulsara a Dama 12 que viera antes dela. Após sete dias e sete noites, Lilith
foi exilada dos Céus. Sobre o pó que havia entre os Jardins foi exilada. Então
Jeová proclamou: “Vagarás por entre as terras sem criar para sempre”.
Após dizer isso, desapareceu, deixando Lilith só.

44 Revelações da Mãe Sombria


IV: Lilith Sozinha ¹³

Então Lilith rumou ao deserto e vagou durante sete vezes sete dias e
noites.
E os dias eram cálidos e selvagens, como as chamas; e a escura pele de
Lilith enrijeceu, e se secou e rachou como o lodo; e sua língua inchou; e seus
ossos marcavam a sua pele, e seus pés se queimaram como se tivessem
provado brasas ardentes. Mas ainda sim não se arrependeu; nem buscou
perdão do Senhor, nem negou que era com Ele.
O fruto que havia comido se alojou em seu ventre, e dele se
alimentou.
Mas seu coração e seu ventre estavam dilacerados por Aquele a havia
traído; e Sua semente cresceu em seu ventre até que ficou inchada e pesada.
Quando estava sedenta, Lilith bebeu de seu próprio sangue, e este a
alimentou .
Os dias se tornaram um tormento, e assim aprendeu a enterrar-se na
terra e aguardar a caída da noite. Sob o solo, Lilith aprendeu a enviar seus
sentidos ao longe15 e assim descobriu os rios e Jardins dos outros Seres
Luminosos. E quando o sol havia se posto, emergiu da terra e seguiu até o
Mar Eterno. E Lilith caminhou por rochas e areia; e cruzou montanhas e
tremeu com ventos frios, e foi fustigada pelo pó; e caiu muitas vezes, mas não
se deteve, e se levantava outra vez. Pois a dor era como sabedoria para ela.
Longe das terras de Jeová, encontrou a grande extensão que era o Mar
Eterno16. quando o alcançou, Lilith se atirou nas águas, e nadou até as
profundezas; e se transformou em uma de suas próprias criaturas; e se deitou
com elas, como Adão fizera com as bestas do jardim; e os caçou, como fizera
no Jardim, até que estivesse saciada.
Quando viu os grandes jardins no fundo do Mar, Lilith se
surpreendeu.
Para sua surpresa, viu que as plantas floresciam e que as bestas do Mar
se reproduziram; e assim se transformou na Mãe do Mar17.
Debaixo do Mar Eterno, Lilith aprendeu a ser como Jeová e a dominar
seus poderes. Expulsou de seu interior Sua semente e a plantou entre os
filhos de seu ventre e entre a semente das criaturas do Mar.
Quando saiu do Mar, sua escura pele havia tornado-se âmbar, e seus
cabelos havia se tornado negros como o alcatrão.
O Livro da Serpente 45
Seus olhos eram como a superfície do Mar e dançavam como a lua
sobre suas águas18.
Mas não pode criar um Jardim como o de Jeová, então ela rangeu os
dentes de ciúmes. Pois ainda que pudesse realizar muitas maravilhas e dar
vida a muitas bestas estranhas, Lilith não estava satisfeita.
E assim foi como deixou o Mar Eterno e retornou ao deserto.
Ela almejava o fruto do Jardim de Jeová; pois era o mais saboroso que
jamais havia provado19.

O Livro da Serpente 47
V: Os Jardins dos Elohim

Lilith vagou durante sete vezes sete anos; e então foi quando
encontrou os jardins de [Bes]; e os vinhedos de [Dionísio]; e os campos de
[Baal], e todas as maravilhas que estes continham. Essas maravilhas a
mostraram aos seus proprietários, pois se surpreenderam ao ver alguém tão
graciosa e bonita como aquela Que Saiu do Mar Eterno.
E houve grandes celebrações nos jardins de [Bel[; e nos vinhedos de
[Dionísio]; e nos campos de [Baal]; e todos os Seres Luminosos
proclamaram: “Lilith não tem igual, pois é Luminosa como a luz do Ser
Ancestral mas foi criada com a Verdadeira Terra de nossos jardins”.
Mas as celebrações e as libações eram como prazeres vazios. Lilith
ansiava pelo fruto do grande Jardim de Jeová; os frutos das Árvores da Vida e
do Conhecimento. Não havia outros que se assemelhariam, por mais ricos
que fossem. E assim partiu destes jardins, agradecendo os seus anfitriões e
presenteando-os com preciosos frutos ²².

VI: Jeová Encarrega Lúcifer a Proteção do Éden ²³

E aconteceu que Jeová soube das viagens de Lilith pelos Seres


Luminosos; e Ele temia que pudesse regressar ao Éden e destruir sua Criação.
Assim sendo, Jeová encarregou Lúcifer a guardar o Éden, caso Lilith
regressasse.
E o Portador da Luz, que guardava Jeová em seu coração como a um
irmão, aceitou o cargo e postou-se frente às portas do Éden com uma temível
espada. E a espada foi criada a partir da Verdadeira Terra do Éden; e deste
modo a espada poderia ferir Lilith, pois ela foi criada da mesma Terra. Pois
era terrível para ela, e também para Adão.
Com sua grande visão, Lúcifer viu Lilith a uma grande distância; a
espiou desde as nuvens diurnas e o brilhante disco do sol. Mas sua beleza o
feriu com se fosse um raio; e quando ela se aproximou dele com a espada
ainda em suas mãos. Mas não a feriu.
E Lilith lhe disse: “Quem és tu, que guardas o Jardim do
Primogênito?”.
“Eu sou a Luz e a Escuridão”, respondeu Lúcifer.
“És formoso aos meus olhos”, falou Lilith, e disse a verdade; pois és um
ser belo, uma árvore modelada com contornos que satisfazem a vista; e sua
pele é ouro polido, e seus olhos são da cor da lua.
48 Revelações da Mãe Sombria
Seu alento é o aroma da
loto; e suas caricias como um
suspiro24.
E Lúcifer disse: “És a
intempestuosa criação de meu
irmão, que saiu do Jardim com
ódio em seu coração?”. “Não o
sou”, respondeu Lilith. “Sou
como tu, e como nosso irmão;
e nunca danificaria nada em
Seu Jardim, nem sequer às
bestas inferiores ao seu
cuidado 25.Somente desejo
aprender sobre as
maravilhosas Árvores que
cultiva”.
E olhou no interior de
seu coração e viu que dizia a
verdade. E seu próprio
coração se encheu de amor e
desejo, como um jardim
florescendo com água fresca e boas
sementes. Foi assim como Lúcifer a
deixou passar.
Mas antes de Lilith entrar, o
Portador da Luz a ofereceu um
presente.
Lúcifer disse: “Assim como
sou o Senhor da Luz, tenho também o
domínio sobre essas esferas que
iluminam o céu.
E deste modo te presenteio
com estas vestimentas da Noite,
querida irmã, onde estão bordadas a
lua e as estrelas e tudo o que se pode
ver no céu noturno.
Use-o e governe a
Noite assim como eu
governo o Dia”.
E Lilith colheu a
vestimenta; e sua tez ficou
da cor azul escuro da
noite; e seus cabelos do
pratéado das estrelas; e
seus olhos brilharam com
a suave luz da lua26.
Sobressaltada e
surpresa, Lilith se deteve.
“Amo estes presentes,
como amo agora a quem o
me entregou”, disse. “Não
perturbarei o nosso irmão,
mas sim cultivarei o meu
próprio Jardim; e tu poderás
vir me visitar ali; e eu te
mostrarei todos os seus
esplendores”.
Após dizer isso, ela
deixou o Éden. Então se cobriu
com seu manto de noite e subiu
até o céu, ao longe.
VII: O Primeiro Jardim de Lilith

Lilith escolheu uma terra rica e fértil, com três rios delimitando suas
fronteiras. E cobriu esta terra com seu manto de Noite; se suas vestimentas,
colhendo um punhado de estrelas; e espalhou estas estrelas sobre a terra. E
essas sementes celestiais geraram maravilhosas plantas e árvores frutíferas e
todo tipo de vegetação.
Mas esta vegetação não era como a do Éden de Jeová; pois cresciam
somente sob o amparo da lua de Lilith. E Lilith caminhou muitas vezes por
seu Jardim; e alimentou as plantas com seu próprio sangue; e floresceram e
deram grandes frutos.
Em seu ventre, Lilith conservava as sementes da Árvore da Vida e do
Conhecimento. E a estas também alimentou com a água de seu corpo e o
sangue de sua vida; mas elas não cresceram.
E Lilith foi ao ar com lamentos de frustração e tristeza; pois ansiava
pelos frutos destas Árvores; e o amor de Jeová, aquele que a expulsou.
Então Lilith escureceu; e a sua raiva subiu com a areia em um vento
forte; e purificou o local onde não cresceram as sementes das Árvores; onde
as sementes jaziam na terra; e amaldiçoou Jeová por seu orgulho. Então
amaldiçoou a si mesma por sua dor, e pelo amor que sentia por Aquele Que
A Traiu.
E seu primeiro jardim foi arrasado em sua fúria, até que deixou de
existir.
Então Lilith deixou seu Jardim da Noite e partiu ao Éden.

O Livro da Serpente 51
VIII: A Criação de Eva, e a Queda.

Quando Jeová livrou de Lilith, Adão se encheu de raiva e ciúmes,


pois havia tomado a sua parceira. E em silêncio amaldiçoou o nome de seu
criador. Mas Jeová o olhou e disse: “Não sejas leviano. Aquela a teu lado
estava repleta de espíritos malignos 27 e o teria ferido. Não tema, pois lhe
darei outra companheira”.
Jeová dirigiu-se a Verdadeira Terra, e tomou um punhado de areia e
lançou sobre o seu alento. E a argila formou os ossos da mulher; e sua pele; e
os fluidos e órgãos se deram interior. Mas Adão estava consternado, e se
sentia doente no Jardim; pois havia visto as entranhas de sua companheira,
e não lhe daria um nome 28.
E assim, Jeová destruiu Sua própria Criação; com um poderoso vento,
devastou sua pele, e suas entranhas, e seus ossos, e deixou que seus fluídos
encharcassem o solo da Verdadeira Terra.
E pequenas criaturas vieram e devoraram a fêmea, até que não
restaram mais rastros dela. Quanto ela fora aniquilada, Adão ficou
satisfeito.
E Jeová fez com que Adão entrasse em um profundo sono e o privou
de uma costela; e desta costela criou Eva. E Adão ficou satisfeito; e lhe deu o
Nome de “Ishah”, ou “Eva”; e conheceu Eva; e ela deitou-se com ele, pois
era um ser inferior, não criada da Verdadeira Terra com Lilith; não das
costas de Adão, e sim de seus ossos 29.
Quando Lilith surgiu do Céu, Jeová chorou novamente; e Suas
lagrimas foram com um dilúvio sobre o Éden. Chorou durante sete dias e
sete noites, até que todas as criaturas do Jardim gritaram pedindo
clemência.
A partir deste momento Jeová não chorou mais; exceto uma vez mais
em todos os dias e noites deste mundo30.
Quando Ele ouviu sobre os atos de Lilith, e de suas visitas aos jardins e
vinhedos de Seus irmãos e irmãs, Jeová sentiu-se muito preocupado.
Pois ainda pensava nela como na Sua criação e Seu amor. E por isso
pediu que seu mais amado irmão guardasse o Éden. Mas não disse nada a
Lúcifer sobre Lilith, nem do amor que sentia por ela; nem dos poderes que
possuía; nem dos frutos que havia comido.
Porque o Primogênito tinha medo.
O Livro da Serpente 53
E aconteceu que Lilith retornou ao Éden, vestida em suas vestes da
Noite; e ali novamente se encontrou com Lúcifer, que estava parado frente
às portas do Éden com uma flamejante espada nas mãos.
“Querido, por que estás aqui parado frente às portas do jardim de
Jeová?”, disse Lilith. “Tu se transformastes em seu servo e lacaio?”.
“Não”, contestou o Portador da Luz. “Espero Aquela Que Foi Expulsa;
pois o Primogênito me disse que sua alma és pequena e escura e esta cheia de
espíritos malignos; e que não seria capaz de contemplar a minha luz. E por
isso estou aqui como um favor Aquele a quem amo como a um irmão”.
E suas palavras feriram Lilith; pois sabia que Jeová tinha falado dela.
Mas também se sentia orgulhosa por saber que seu Criador sucumbira
à falsidade. Pois com ela originava-se da Verdadeira Terra do Éden, não
poderia passar enquanto Lúcifer empunhasse sua espada contra ela ³¹.
54 Revelações da Mãe Sombria
Por isso disse a Lúcifer: “Abaixa tua espada, meu amado, e deixa-me
passar. Pois não sou esta pessoa. Permaneço parada frente a sua luz e a
reflito como se fosse minha”.
E o Portador da Luz lembrou-se que Lilith outrora havia
prometido não causar dano nenhum e foi sincera naquela vez. E por isso
acreditou nela.
E ainda assim estava surpreendido com ela, resplandecente com
suas vestes e Noite.
“Por que viestes até aqui, minha amada?”, disse Lúcifer.
E Lilith respondeu: “Também tenho cultivado um Jardim, e
desejo aprender como Jeová faz com que suas Árvores da Vida e do
Conhecimento cresçam tão fortes e dêem frutos”.
E ela mostrou-lhe as sementes que havia
salvado e Lúcifer viu o que eram. Então Lúcifer
baixou a sua espada para que Lilith pudesse passar
pelas portas.
E assim Lilith entrou no Éden. Cobrindo-se
com suas vestes por trás das Árvores, ela se
transformou na Grande Serpente, com escamas
pontiagudas da cor das plantas ao seu redor; e com
grandes asas que surgiram do seu corpo sinuoso,
para que pudesse ocultar-se de Jeová.
A Serpente era sagaz e silenciosa, e se movia invisível através das
profundas plantas do Éden ³².
E finalmente chegou a Árvore da Vida, e encostando seu ouvido em
suas raízes a perguntou: “Como fazeis para crescer?”.
E a madeira viva desta árvore lhe disse: “Graças às sementes que
nascem em número de sete vezes sete”.
E agradeceu a Árvore; e dela colheu sete frutos, pois cada um continha
sete sementes ³³.
Então ele chegou à Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e a
perguntou: “Como fazeis para crescer?”. E a Árvore lhe disse: “Graças às
sementes que nascem sete vezes sete”. E novamente agradeceu a Árvore, e
dela também colheu sete de seus frutos.
Mas Lilith não estava só.

O Livro da Serpente 55
Eva havia chegado quando
Lilith encontrava-se junto a Árvore
do Conhecimento. A terceira mulher
chegou e se sentou embaixo da
Árvore.
E Lilith viu que era um ser
inferior, e se apiedou dela. Em sua
compaixão, dirigiu-se a Eva: “Toma o
fruto e come dele para que teus olhos
possam se abrir”.
E Eva fez o que ela havia lhe
dito; e tomou o fruto; e comeu dele.
E assim os olhos de Eva se
abriram como se fossem cegados por
uma explosão de fogo; e caiu como se
a tivessem golpeado; e chorou pelas
coisas que agora podia entender.
E Lilith envolveu Eva para
consolá-la; e Eva abraçou a Serpente
como a um amante; e conheceram
uma a outra sob a sombra da Árvore
do Conhecimento34.
E os sons das lágrimas
conduziram Adão a este lugar. E a
coruja o viu, e advertiu Lilith de sua
chegada. E assim a Serpente deixou a
mulher com seu homem; e ele se
surpreendeu quando a encontrou
sorrindo, mas cheia de lagrimas; e ele
a perguntou: “Porque choras, minha
esposa?”.

56 Revelações da Mãe Sombria


E sendo a amante de Adão compartilhou o fruto com ele.
E assim foram amaldiçoados o homem, a mulher, o Portador da Luz e a
Serpente.

O Livro da Serpente 57
IX: A Ira do Senhor do Jardim e suas Sete Maldições

Adão e Eva estavam nus, e sentiram-se envergonhados por está-lo; e


Adão recordou-se de seus pecados, e se remoeu de arrependimentos. Caiu de
joelhos frente à mulher e chorou e arrancou a barba; e não disse palavra
alguma, mas sim uivou como um animal.
Eva o consolou, e acariciou seus cabelos, pois não compreendia a
profundidade de sua tristeza nem do que se arrependia 35. Mas o Senhor do
Jardim ouviu o seu choro, e estava irado e surpreso.
A ira de Jeová foi como um leão sobre uma criança. Seu rugido
tombou as Árvores; Seus passos sacudiram a Verdadeira Terra, fazendo-a em
pedaços; o ranger de Seus dentes fez com que um terço das rochas se
quebrassem; Sua saliva era como fogo e consumiu as flores do Éden.
E a Árvore da Vida murchou com a fúria de Jeová; enquanto o
homem, a mulher e Lilith observavam, transformou-se em cinzas e o vento
as espalhou com a fúria do Senhor do Jardim.
Pois assim o Ciclo começaria novamente. O Vinho da Imortalidade
havia se derramado e a taça quebrado nas raízes do Éden. E o mundo
começou de novo; o sono caiu dos céus e foi consumido pela fúria do Senhor
do Jardim.
E Ele era prisioneiro deste Vinho, e não pode desfazer aquilo q tinha
feito quando o Ser Ancestral fechasse os olhos Ele também morreria.
Inclusive Ele, o Senhor do Jardim36.
O Portador da Luz chegou correndo. Com um rugido, Jeová fez com
que a terra se partisse e que tragasse Lúcifer; e que o lançou ao ar. Quando
caiu, Lilith correu até ele, e o socorreu; não a Serpente, mas sim a primeira
mulher.
E a espada de Lúcifer se partiu em dois; uma metade caiu aos pés do
Portador da Luz e o outro nos pés de Lilith.
A voz de Jeová ressoou nos Céus: “Esta é a sentença do Primogênito”.

58 Revelações da Mãe Sombria


À Adão e a Eva, Ele disse: “Por terem comido da Árvore que vos
disse para evitar, sereis amaldiçoados”.
À mulher Ele disse: “Tu se erguestes para tomar o fruto do
Altíssimo; por isso te inclinarás pelo resto de teus dias. Por isso,
amaldiçôo-te com dores; assim como tomaste o fruto, teu ventre assim o
levará como se fossem pedras; como derramastes as sementes; assim
deverás recolher as sementes do homem pelo resto de teus dias; como
derramastes o sumo do fruto; assim teu próprio sumo fluirá com cada
mudança da lua; como desejastes o fruto do Altíssimo, assim desejarás o
do homem. O conhecimento do Bem e do Mal descansará em teu
interior, mas não o recordarás”.
Ao homem Ele disse: “Tu abdicastes da graça em que fostes
gerado. Por isso, amaldiçôo-te com o trabalho; como tu subjugastes a
primeira companheira que te dei, assim serás subjugado perante Minha
graça; como tu acasalastes com as bestas do campo, assim serás como eles
em sua luxúria; como destes Nomes e Formas com teus Dons de
nascimento, assim terão estes Nomes e Formas pela eternidade; como
ajoelhastes ante a mulher, assim se inclinara sempre frente a ela, por
mais fortes que sejas. Te amaldiçôo com a morte, e que volte ao pó do
qual o criei”.
À Lúcifer Ele disse: “Por não ter cumprido com tua tarefa e não ter
querido ver o que acontecia, amaldiçôo-te com a cegueira. Por teres um
coração aberto, amaldiçôo-te com a cautela. Por ter mostrado
compaixão, te transformo em um escravo da fúria. A espada estará
sempre em tuas mãos, e teu consolo será como o beijo dos vermes”.
A Lilith Ele disse: “Tu provastes o Vinho da Imortalidade, e por
isso não morrerás nunca até que os olhos do Ser Ancestral se fechem,
assim como Eu; e neste instante morrerás. E por ter desdenhado do Meu
amor, não amarás a mais nada, por mais que tenteis.
E teu ventre transbordará de filhos, mas não te amarão, nem serão
parte de ti; e teus olhos verão de noite, mas cegarão de dia; e tua pele se
partirá sob o sol de teu falso amor Lúcifer, e se curará somente a luz da
lua. Tu te transformastes em um Ser Luminoso, mas tua luz brilhará
somente a noite”.
E a ambos Ele disse: “Sereis os Ceifeiros dos Campos. E vossas
espadas da Verdadeira Terra cortarão as vidas de Adão e Eva, e de todos
os seus”.
E a todos finalmente Disse: “Por ter-me permitido que isso
acontecesse, amaldiçôo a mim mesmo com os céus e o exílio. De agora
em diante, não caminharei mais entre vós a não ser secretamente; não
terei amor se não somente por esta obrigação; não confiarei em nada,
assim como manterei minhas portas sempre protegidas. Pois meu
coração esteve aberto uma vez, e por isso terei que morrer”.
E o homem e a mulher choraram, pois não tinham lar nem
consolo.
E Lúcifer disse: “Quem és Tu para amaldiçoarmos assim, irmão?
Somos iguais a Ti!”.
A Palavra do Senhor foi como o trovão e o vento; “Não os
amaldiçôo. A maldição não é se não vossas ações, pelas quais estamos
todos atados”.
“Mas isto lhes dou: que o homem e a mulher serão Um juntos; e o
Rainha da Noite e o Senhor do Dia serão Um juntos; mas o Senhor do
Jardim será Um Só; e Ele se isolara de sua companhia”.
“E Ele será grande, mas estará sempre só”.
Lilith chorou ao ouvir isso e Lúcifer também. E Lhe pediram para
reconsiderar, mas Ele não o faria.
X: Sentença, Amor e Afirmação

E ao invés disso, invocou as hostes dos ELOHIM, para que fossem


testemunhas de Sua maldição.
E se reuniram nas ruínas do Éden. [Dionísio] e [Baal] e [Astarte] e [Bel]
e [Rá] e [Ptah] e todos os outros Seres Luminosos 37 se aproximaram dali para
julgar se era legitima a proclamação de Jeová.
“O que fizestes, Primogênito?”, perguntaram em uníssono. “Como
corrompestes tanto o Teu Jardim, como se tornou tão devastado?” “O que
aconteceu aqui?”.
E quando ele se explicou, houve uma grande luta no Céu; e as hostes
dos Seres Luminosos discutiram; e suas palavras foram como pedras caindo
do céu. Alguns achavam que Jeová deveria ser castigado por permitir que
Seu Jardim se enfraquecesse tanto; e alguns exigiram que Lilith pagasse por
ele, pois esta mulher provara o que era proibido; e alguns zombaram de
Lúcifer por nublar a sua luz e dar a escuridão a uma estranha; e outros
quiseram a morte do homem e da mulher, que todos deveriam sofrer pela
mortalidade dos mundos.
Mas Adão se manteve firme para proteger a sua companheira da
violência da tormenta; e pôs o seu corpo entre Eva e a terra, o fogo, o ar e a
água. Assim Eva foi salva.
As bestas se lançaram contra Adão, como se fossem despedaçá-lo; mas
Eva se interpôs entre as bestas e Adão, e o protegeu com o corpo. Assim
Adão foi salvo 38.
Os ELOHIM ficaram surpresos: “Que não caia nenhum castigo sobre
eles”, disseram em uníssono os Seres Luminosos, “pois se salvaram um ao
outro”. E chamaram esta salvação de Amor, e nomearam alguns dos seus
para que cuidassem deste tesouro por toda a eternidade.
Após isso, disseram: “Que as maldições caiam sobre nossos irmãos e
irmã, pois sabem o que fizeram”.
O Portador da Luz disse: “Eu fiz o que o meu irmão me pediu para fazer;
se eu me equivoquei não foi meu erro e sim uma sombra do Seu. Pois a
mulher Lilith é Sua criação, e mesmo assim foi feita a si mesma segundo Sua
própria vontade. Sendo assim, a amo, e não posso negar seus desejos”.
E Lilith disse: “Eu vim reclamar o legado de meu amante e Criador;
mas ele me expulsou e faz de mim uma estranha. Mas seu irmão me deu a
dádiva da Noite e Amor, e eu não o nego”.
E o Primogênito calou-se. E no final disse: “SOU O QUE SOU”. “E
não direi mais nada”.
Com estas palavras, tão poderosas em sua Verdade, o mundo se dividiu
em Norte, Sul, Leste e Oeste.
E todos viram que isso estava bem.39

62 Revelações da Mãe Sombria


XI: O Exílio

Os Seres Luminosos partiram das ruínas do Éden, dizendo: “A justiça


foi feita”. E foram viver em seus próprios jardins, e cuidaram deles e
cultivaram suas próprias criações, cada um de acordo com seus próprios
desejos 40.
E fizeram com que três dos seus prestassem um serviço, que
montassem guarda contra o poder de Lilith e Lúcifer, e protegerem Adão e
Eva do poder de seus ceifeiros.
Adão e Eva partiram para a Terra de Nod, apoiando-se um no outro
como se fossem uma só carne.
Lilith tomou a mão de Lúcifer. O levou para longe deste lugar e foi
com ele até as terras sem criar. Juntos foram as margens do Mar Eterno; e
cultivaram ali um novo Jardim. E ali tiveram três filhos e três filhas, mas não
morreram, pois eram com um só espírito.
E Jeová Se declarou Senhor das Ruínas. Pôs um anjo nas portas, para
que nada tomasse os frutos do Éden, e se transformou-se em um deus
vagabundo. Deste dia em diante, viveu como um somente entre os
ELOHIM 41.
Mas só voltaria a chorar uma vez.

O Livro da Serpente 63
O Livro da Serpente: Notas
1. Este começo esta ausente na versão hebréia, mas aparece tanto na edição grega
como na Ba'hara.
2. Isso concorda com a explicação cabalística da Criação, segundo a qual a
Divindade contempla a Si e rompe o Nada com um clarão de luz.
3. Entre parênteses está anotado os nomes modernos destas deidades, servos e filhos;
os nomes mais antigos, e mais esotéricos, que aparecem no texto original seriam
ininteligíveis para o leitor mediano. Visto que as fontes originais da tradução estão perdidas
no tempo, tomei a liberdade de interpretar certas entidades segundo os símbolos que elas
representam. Eu usei o nome “Jeová” para referir-me ao deus dos hebreus, o qual o autor sem
duvida se refere; O manuscrito grego simplesmente diz Theos Kanova, uma distinção
pouco clara se levarmos em consideração o panteísmo dos gregos (mas possivelmente
originada a partir de uma perífrase para referir-se a “Jeová”). Jeová em si não é mais que uma
corrupção de YHVH ou “Yahweh”, mas YHVH implica a entidade superior que se
manifesta mediante os distintos ELOHIM (os quais muitas vezes chamamos de anjos). Mas
ainda assim, o texto hebreu mescla ELOHIM com YHVH, isso é, “Os Deuses” com “O
Senhor Deus”. Confusão? Erro de tradução? Ou um comentário áspero de algum israelita
sobre a religião de seu povo? Tais sentimentos não eram desconhecidos em épocas
passadas... Para distinguir as palavras e ações de Jeová do resto dos personagens foi mantido
a tradição cristã de por em maiúsculo os pronomes que se referem a Ele. (Nota de Tradução:
“Jeová” é “Yahweh” com as vogais de “Adonai”. Este vocábulo é o que os judeus usavam
para referirem a Deus de forma indireta, inclusive nas Escrituras).
4. “ELOHIM” no texto hebreu, implicando as distintas manifestações de YHVH.
5. Esta passagem aparece somente na versão hebraica, e parece referir-se ao “mundo
das conchas”, a origem dos espíritos maléficos e as criaturas invejosas que rodeiam e tentam
as criações dos ELOHIM.
6. Na cabala, os quatro elementos simbolizam a presença dos quatro Mundos
Superiores no nosso. A terra proporciona uma Base para as outras manifestações; o fogo é
luz, ou o Mundo da emanação Divina; o ar simboliza os princípios espirituais e cósmicos da
Criação; a água transforma-se no fluxo sempre mutante da Formação, criando, nutrindo e
destruindo em sua passagem. Em cada jardim, então, os Mundos Superiores se manifestam
no mundo mortal, criando a ordem a partir do caos.
7. Os símbolos para a “Verdadeira Terra” remetem aos usados para o Tiferet, o centro
do Yezirah Sefirot, ou o Mundo Primordial descrito na teoria cabalística. Falei “remetem”,
entretanto; os personagens não são copias exatas de nenhum personagem hebreu ou
descrição enoquiana, e devem ser considerados na luz de sua tradução grega: “Verdadeira
Terra” como oposto de “Terra Inferior”, como, por exemplo, o pó.
8. Em hebreu, “Adão” corresponde a Adam Kadmon, o estado superior da
humanidade e a primeira das quatro manifestações de Deus; “Ish” é simplesmente
“homem”. “Lili”, entretanto, refere-se muitas vezes a demônios, mas podemos assumir que
esta correspondência provém de mitos posteriores; “Lilitu” tem origens obscuras, mas este
termo vem das invocações dos Bahari e das “memórias” de Lilith.
64 Revelações da Mãe Sombria
9. Ao contrario de Adão, Eva e seus filhos, que, de acordo com o que diz no Gênesis,
“se envergonharam” quando descobriram a nudez. “Nudez” pode descrever em parte os
casos um estado “aberto”, quando uma pessoa permanece sem cobrir-se, e em parte
preparado para o que possa proceder. A roupa é um escudo; talvez Adão e sua família
temessem este estado, enquanto Lilith não o temesse.
10. O que nos mostra, talvez, a imagem de Diana a Caçadora, e implica a Disciplina
vampírica Animalismo. Muitas fontes sustentam que Lilith, e não Jeová, criou estes três
animais; ver a canção “Coruja, Cobra e Serpente” no Livro III.
11. Uma postura tântrica desta que os budistas tibetanos chamam de “Yab-Yum”, ou
“Pai-Mãe”.
12. Muitos eruditos religiosos postulam que Jeová teve uma Matriarca antes de
tomar Lilith como consorte. Existem referencias a tais relações nos Midrashim, ainda que
sejam escassas e pouco claras. Estranhamente, esta referencia aparece intacta na versão
judaica do Fragmento. Pessoalmente, me pergunto se trata de uma referência a Bruxa do
Livro de Nod.
13. Os eruditos Bahari chamam esta busca de Viagem a Transformação, que é
quando um místico ou peregrino deixa a sua casa (ou é expulso dela), supera obstáculos e
finalmente chega a um Declínio (muitas vezes a terra ou a água, ambos os símbolos do
subconsciente), se ergue, e conhece um mestre (normalmente do sexo oposto). Diz-se que
esta busca purifica o iniciado, queimando o seu eu interior e preparando-o para os estranhos
novos talentos e visões que logo descobrirá.
14. Uma alusão ao vampirismo? Ou simplesmente pragmatismo, devido à carência
de água? Os Bahari afirmam que este sangue era a origem de seu poder e imortalidade, o
condutor para o sumo do Fruto da Vida.
15. Os primeiros exemplos dos talentos vampíricos de fusão com a terra e
clarividência? Ou se trata de símbolos da crescente consciência que a mulher/deusa Lilith
tinha começado a adquirir?
16. Novamente, estamos frente a uma metáfora do subconsciente, especialmente do
subconsciente feminino. A qual oceano o mito se refere? Quem sabe. Visto que o Éden esta
localizado tradicionalmente na crescente fértil (e a travessia do Mar Vermelho em outras
fontes hebraicas), este “Mar Eterno” é provavelmente o Mediterrâneo. Não obstante, se a
teoria de Pangéia de um continente único for correta, este “Mar” poderia ter sido realmente
imenso.
17. De acordo com o mito comum, Lilith manteve relações sexuais com os monstros
do mar e gerou uma raça de demônios. Este fragmento nos da uma perspectiva um tanto
diferente, supostamente, e explica sua posterior conexão com o elemento da Água.
18. O âmbar é associado muitas vezes às lagrimas (especialmente as da deusa Freya e
Afrodite), e o sol ao ouro. Os últimos dois são normalmente símbolos masculinos, mas
também estão relacionados com a transformação. Na alquimia, o ouro é o Maximo estado
material, e o âmbar muitas vezes corresponde ao ouro fundido ou a luz do sol. O negro está
relacionado com a noite, supostamente, e talvez com o azeviche, que protege o portador do
veneno. O simbolismo da água é obvio; nota-se que a passagem cita “lua”, e não “sol”.
19. O fruto da Vida e o Conhecimento, o amor de Jeová? Pessoalmente eu diria
ambos.
O Livro da Serpente 65
20. Em muitos lugares é utilizado “Seres Luminosos” de acordo com as versões gregas
e Ba'ham; aqui, porém, prefiro usar as palavras ELOHIM, denotando a divindade dos
outros “hóspedes”.
21. Uma importante distinção: os outros ELOHIM, incluindo Jeová, são criaturas
de puro Espírito; Lilith seria a primeira a encarnar este Espírito e a matéria em um só corpo,
o que seria uma coisa maravilhosa, inclusive entre os deuses.
22. O fruto das plantas (que podiam criar a vontade), ou o de seu ventre? O mito
hebreu sugere este último, e esta crônica deixa bem claro o apetite carnal de Lilith.
23. Em todas as copias, as personificações de Lúcifer são idênticas as usadas no
sentido tradicional, o de Lúcifer como Portador da Luz (Nota de Tradução: “Lúcifer”
significa, etimologicamente, “Portador da Luz”), amado de Deus, do qual se rebelou, caiu
sobre a terra e passou a ser o Satã (“Adversário”).
24. O elo narrativo hebreu aqui passa para o presente. Talvez o escritor tenha algo
mais que um conhecimento acadêmico de Lúcifer...
25. Em outras palavras, seu violador, Adão. Esta Lilith é mais clemente do que sua
lenda poderia sugerir.
26. Devemos nos perguntar sobre esta referência a roupas, e sobre as intenções de
Lúcifer. O fragmento diz que “não se sentia envergonhada” de estar nua. Ou estava, aos
olhos de Lúcifer? Os outros ELOHIM usam roupas, ou Lúcifer esta querendo proteger sua
amada dos olhos dos demais... e os seus próprios? Esta tentando evitar que seja
demasiadamente “aberta”, ou esta lhe dando um manto como os que os outros ELOHIM
vestem? Visto que esta é a única referencia que temos das roupas divinas, prefiro pensar que
é um manto iniciático e uma metáfora da Noite que Lúcifer generosamente entrega a sua
amada. De um ponto de vista literal, devemos questionar o domínio destes “Seres
Luminosos”: se Lúcifer tem os poderes da Noite e do Dia, o que cedem os outros ELOHIM a
ele? Há outros deuses e deusas da Noite e do Dia e, se for assim, o que pensam da
generosidade de Lúcifer? E como pôde dar a Noite com tanta facilidade? Visto que estamos
falando de mitologia, acredito que é melhor se interpretarmos este fragmento de um ponto
de vista metafórico: o de um governante dando a metade de seus domínios à mulher que lhe
roubou o coração; e de um coração egoísta entregando seus mistérios; e o de uma recém
nascida deusa tomando posse de seus domínios.
27. As “criaturas do mundo das conchas” mencionadas na primeira parte. Talvez
Adão já tivesse se familiarizado com elas.
28. Sem um Nome, esta segunda fêmea não seria reconhecida, nem existiria aos
olhos dos povos antigos. Ao recusar dar-lhe um Nome, Adão a nega a existência, e seu
direito a uma alma.
29. Segundo todos os patrões, Adão passa a ser um pouco mais que um bastardo aqui.
“Ishah” é “mulher”; “Eva”, segundo a maioria das teorias, deriva de “chavvah”, que por sua
vez sai de “chai”, “vida”. O nome familiar, Eva, significa então “Mãe de Todos os Vivos”.
Claramente, ela não é uma mãe nem a mãe neste ponto, mas como a maioria de nós
estamos acostumados a “Adão e Eva” eu usei os nomes habituais. Algumas Bahari preferem
diluir a referencia ao “ser inferior”, vendo-o como um reforço do estereotipo de “mulher
inferior”.

66 Revelações da Mãe Sombria


Outras o enfatizam, identificando-se com Lilith ao invés de Eva. De acordo com
estas sectárias de Lilith, as filhas de Eva são inferiores, e merecem compreensão e piedade,
mas não parentesco. Pelo sangue de Lilith, suas irmãs estão conectadas a ela, acima do
estado anterior de “filhas e Eva”. E sim, acredito que as conotações sexuais de “criada... de
seu osso” são intencionais.
30. Sendo esta segunda vez o Dilúvio Bíblico (coisa que situaria este sucesso sob
uma perspectiva totalmente nova).
31. As conotações sexuais desta imagem são obvias. Simbolicamente, podemos
assumir que Lilith deve conseguir com que o homem “baixe a guarda (virilidade)” para
deixá-la passar. Isto pode ser interpretado como uma referência a vigilância (que se
encaixa com a idéia judaica de Lilith como depravada sexual), ou uma petição de deixar as
armas (sexuais) de lado para evitar a violação implícita em uma “espada de fogo”.
32. Está claro que esta “serpente” não era uma simples cobra. Muitas ilustrações
(incluindo o pictograma Ba'hara para esta versão da “serpente”) mostram um enorme
dragão alado com nove patas. Para enfatizar esta distinção, eu escrevi com maiúsculas
“Serpente” quando se referir ao alter ego de Lilith. Em quase todas as culturas antigas, as
serpentes estão vinculadas à mulher e aos princípios femininos, ou mais diretamente, ao
conhecimento e a sabedoria femininas. A imagem de Lilith como tentadora e ladra de
conhecimentos evoca esta antiga conexão. (Os eruditos em vampirismo podem refletir
sobre a expulsão dos Seguidores de Set, aqueles que estão “associados com a Serpente”.
Muitos especialistas interpretam isso como um símbolo de Satã. Poderia Set ter se
associado no seu lugar com Lilith? Se for assim, os notoriamente falocêntricos Setitas
foram enganados... e por uma mulher, nada menos. Pergunto-me o que fariam com tal
revelação...).
33. Um número de importância Bíblica, o sete às vezes representa os princípios
femininos, ou a unidade da base masculina (3) com a feminina (4) para formar uma
unidade perfeita, mesmo que desequilibrada. E as disciplinas numerológicas de todo tipo, o
sete tem conotações tanto positivas (sete maravilhas, sete céus) como negativas (sete
demônios do apocalipse).
34. Mais adiante, rabinos e sacerdotes pregaram contra as mulheres não somente
por seus vínculos com a queda da Humanidade, mas sim também por seus apetites carnais.
A imagem de Eva enrolando-se com a serpente proporcionaram motivos esculturais
comuns na Babilônia, Grécia e Índia, e nas esculturas medievais; podemos encontrar
vários exemplos nos museus de arte, e nas paredes isoladas de velhas igrejas. A maioria dos
mitos identifica a Serpente com o macho Satã, mas algumas fontes rabinas descrevem a
serpente como feminina.
35. Esta passagem aparece somente na versão grega, talvez como uma tentativa de
humanizar Adão. A variante Bahari o exclui completamente, e a versão hebréia menciona
o familiar versículo do Gênesis “Quem dissestes que estavas nu?”.
36. Eis aqui a origem do aborrecimento de Jeová, e o verdadeiro ganho de Lilith: a
morte para todos, inclusive os deuses. As ações de Lilith (e também as de Adão e Eva)
desencadearam o fim de um engano. Ao estabelecer um Jardim e ancorá-lo com as Árvores
da Vida e do Conhecimento, o Primogênito tinha esperado retardar a clausura dos olhos do
Ser Ancestral, e assim fazer deste mundo imortal.

O Livro da Serpente 67
A “corrupção” destas Árvores por criações inferiores arruinou esse plano e instaurou
a mortalidade. Lilith se transforma então na destruidora deste mundo e em inimiga jurada
de Jeová, seu criador; e, opostamente, uma parte necessária na ordem cósmica que Jeová
tinha tentado manipular. Nota para os Membros: A Imortalidade é uma mentira. Todas as
coisas (incluindo nós mesmos) perecerão. Eis aqui as vangloriosas promessas de nossos
anciões!
37. De fato, esta lista continua durante uma dezena de linhas. A versão hebraica
nomeia vários anjos e demônios maiores; a grega enumera (não deveria nos surpreender)
uma serie de deidades mesopotâmicas e helênicas; a versão Ba'hara lista alguns dos nomes
que aqui invoquei, além de duas ou três dezenas a mais, nenhum dos quais são inteligíveis
para o leitor moderno (inclusive a mim).
38. A primeira vez que vemos Adão fazer um ato nobre. Talvez o fruto tenha feito
algum bem. Simbolicamente, poderíamos interpretar isto como a luta do homem contra os
elementos e a divindade. Eva era muito audaz, mesmo que não fosse brilhante. Em um nível
simbólico, podemos ver isso como a intervenção do amor como a salvação da carne do
ataque das “bestas” da luxuria e da fúria.
39. Cosmicamente, o equilíbrio foi restabelecido e os Quatro Mundos se
restauraram e receberam uma nova forma. “EHYEH ASHER EHYEH” (“SOU O QUE
SOU”) culmina o Keter, ou a Coroa, da Árvore Cabalística, e representa a vontade divina.
Em um sentido bíblico, a afirmação de Jeová é toda a definição que Ele precisa: isto é o que
faz com que o mundo comece a existir, e a partir dali cria-se o equilíbrio.
40. ... e dando lugar as distintas tribos, nações e criaturas encontradas em diferentes
partes do mundo.
41. Coisa que explica o carinho que Jeová sente pelos nômades, e a resistência de
Seus seguidores e suas constantes exigências de supremacia.

O Livro da Serpente 68
Pinturas Rupestres, Roda de Istar, Turquia; datada de aproximadamente 15.000 a.C.
Segundo Ciclo:
O Livro
da Coruja

Eu perdi minha fé
em silêncio
- Patricia de la Forge, "Grin”

70 Revelações da Mãe Sombria


O Jardim da Meia Noite
Notas da Editora
Esta "declaração de primeira mão" vem de duas fontes diretas: as
recitações de uma sacerdotisa Bahari e o pergaminhos grego que eu descobri
em uma coleção de um antiquário. Esse aluno, um particularmente refinado
hindu chamado Jureem, implorou a mim por muitos segredos de clã como
uma bênção por sua ajuda. (Eu suspeito que o arconte gostaria de ter uma
palavra comigo sobre isso!) Em troca, ele me deu o pergaminho, um
assistente e um lugar para estudos. Por dezessete noites à fio, eu me
aprofundei nas notas; meu ajudante parecia incansável, e trabalhava
durante o dia também. As traduções que nós deciframos lembram de leve o
cântico que eu testemunhei na cerimônia Bahari; como sempre, eu juntei os
dois em um só.
Eu acredito que esse testamento incompleto é uma versão do infame
"Ciclo de Lilith". Ele toca em muitos dos pontos importantes do mito de
Caim/Lilith, mas os aproxima da perspectiva da Rainha Sombria. Da
mesma forma, ele oferece uma sugestão para a disputa entre muitos
Membros e os Bahari; se levado simbolicamente (como um conto de
culturas patriarcas guerreiras que ultrapassou as místicas matriarcas que os
criou) ou literalmente (como a traição de um semideus por outro), a
conclusão genocida do "Jardim da Meia noite" certamente criou o caminho
para milênios de inimizade.

O Livro da Coruja 71
I: A Primeira Paz

Nas Terras Sem Forma eu criei um


jardim para mim mesma,
Unindo mundos e palavras e sangue
para formarem arbustos.
Com o carinho de uma mãe eu dei a
luz uma à um mar de raízes
emaranhadas e frescas,
De flores com botões-de-sangue e
caules de carvão.
E ele brilhou como eu brilhei
Sob a Lua.
Ahi hay Lilitu
Eu construí um jardim à partir
do nada
E frutas do solo estéril.
No meu manto da noite
Eu o varri e o agüei com sangue.
Ahi hay Lilitu
Eu construí um jardim à partir do
nada
E frutas do solo estéril.
II: Os Dias Anteriores

Pelas Terras Sem Forma eu vaguei


Nos dias anteriores ao jardim,
Exilada das terras do Único Acima
E jogada nas ruínas hostis.
Meu sangue chegou doce aos meu
lábios
Nos dias anteriores ao jardim,
E eu chorei pelo lar que eu tinha
deixado para trás
Com olhos secos como areia.
E o Sol me queimou.
E o vento me rasgou.
E as pedras cortaram minha carne.
E a água me negou,
Salvo aquela que eu extraí de mim
mesma.
Tão amaldiçoada, vazia e
desolada estava essa Terra
Nos dias anteriores ao jardim,
Que nenhum animal poderia
estar comigo,
Nem Coruja, nem Gato, nem
Serpente.¹
Minha voz estava perdida em
meio ao vazio.
Ahi hay Lilitu
Minha voz estava perdida em meio
ao nada.
Ainda assim o jardim cresceu
dentro de mim
Uma barriga inchada
Com sementes do fruto roubado
E seu prolongado gosto amargo.

O Livro da Coruja 73
Pois não há frutas tão doces
Quanto aquelas que queimam.
Ahi hay Lilitu
Minha dor fez de mim uma montanha.
Queimou-me até que virasse cinzas.
E das cinzas eu ascendi.
Ahi hay Lilitu
Minha dor fez de mim uma montanha,
Mas como um verme eu me escondi na areia
E andei durante a noite,
Pois os dias eram claros demais para agüentá-los
Sem gritar profanações ao Único Acima²
Que me jogou à disformidade.
Nas terras devastadas, eu tomei forma.
Ahi hay Lilitu
Eu me encontrei nas terras devastadas,
Onde minha visão se expandiu,
E minha mente se estendeu,
E minha carne se tornou água,
E meus ossos se tornaram pedra,
E meus pés aceleraram seus passos,
E minha sombra se tornou débil e se escondeu do Sol³
Até que a noite fresca viesse
Quando minhas dores sumiriam
Deixando-me mais sábia com suas lições.
Minha excruciação me fez livre.

74 Revelações da Mãe Sombria


III: O Oceano e suas criaturas4

Quando eu alcancei a praia do Oceano Infinito


Eu me joguei nas profundezas e afundei para
sempre.
Eu esqueci de respirar, e logo não precisei mais.
Minha pele, uma vez morena, então negra, voltou
Sobre si mesma e fugiu silenciosamente

Quando eu vomitei a cria do Único Acima5


No redemoinho do abismo
Onde eles se tornaram a miríade de
criaturas do mar.
Eu uivei de dor nas águas
Pois minha fome era uma besta dentro de mim
E minha barriga estava cheia com a cria
Do Resplandecente cuja semente
Gerou o Jardim onde eu nasci.
Eu não pude conter Sua prole,
Então eu os mandei ao Mar Infinito para encontrarem um lar.
Ahi hay Lilitu
Eu os mandei às profundezas sozinhos.
Logo minha descendência acalmou minha fome
Por comida, por beleza, por companhia de muitos tipos.
Minha fome era eterna.
Minha fome é eterna,
E eu devorei a mim mesma
Para me manter.
Na minha estada eterna, eu dei a luz à novas raças
Que em troca devoraram as velhas.
E então o Mar Infinito estava cheio.
Ahi hay Lilitu
Eu enchi o Mar Infinito,
Gritando minhas dores de parto ao vazio.
IV: Retorno ao Éden

Na hora certa, eu me cansei do mar


E retornei às Terras Sem Forma.
Eu desejei criar um jardim como aquele que havia sido
Meu lar,
Mas o mar estava cheio do jardim do outro,6
E quando eu pude aguardar lá por um instante,
Aquele domínio não era meu para reclamá-lo.
Então eu voltei através das Terras Sem Forma,
Andando pelo Éden.
Ahi hay Lilitu
Eu andei através das areias do Éden.
Observando de longe os olhos da coruja7
Eu espiei o Grande Lúcifer,
Resplandecente portador do Sol e das Estrelas,
Permanecendo ao limiar com uma lâmina.
Ahi hay Lilitu
Ele permaneceu com uma lâmina em suas mãos.

O Livro da Coruja 77
V: Lilith e Lúcifer

Ó cavaleiro com asas de serafim


Vestido em preto como o céu que você me
deu
Coração como a estrela pela qual você é
nomeado
Olhos como ondas de pôr do Sol
Chama-me através das trevas
Derrame seu sangue para alimentar minha
sede e
tome a minha
Como oferta à sua fome.
Ahi hay Lucifii
Persiga-me pelas terras não formadas e deixe-
nos
cair
Rindo no abismo dos deuses
Onde nós podemos fazer nosso próprio jardim
E populá-lo com deidades,
Espinhos e videiras e palmeiras guardiãs.
Ó Anjo do Amanhecer,
Agüemo-los com prata e bebamos
Do seu prêmio, enquanto os frutos do
Meu amor por você desabrocham
Em estranhas e selvagens flores.
Ó Lúcifer, tão quieto, deixe sua lâmina
Cair na areia e ser enterrada
Como um osso atirado à vaidade
Do Único Acima.
Deixe suas asas me envolverem.
Esteja em paz.
Ahi hay Lucifii
Esteja em paz.
VI: A Vinda de Caim8

Enquanto meu amor carregava o Sol


Eu conheci um homem arruinado
Um lavrador sem plantações para cuidar
Um pai sem filhos, uma criança sem senhores,
E eu estava maravilhada, pois ele não carregava sinais de divindade
Porém vagava no pó como um animal sem valor.
Ele carregava as marcas de Adão
Ele carregava a palidez de Eva
Ele carregava as cicatrizes do Único Acima9
E ele chorava, pois tudo isso ele havia perdido.
Ahi hay Lilitu
Tudo isso ele havia perdido.
Eu o chamei e ele respondeu
Em uma voz de galho quebrado.
"Eu sou Lilith," eu disse
"Eu sou Caim," disse ele,
E eu tive pena dele
Porém eu o odiei
Pois ele tinha o cheiro de Adão,
O toque de Eva
E os olhos assombrados do Único Acima.
Como Ele, Caim carregava uma mancha em forma de
redemoinho
No ar em volta dele, uma marca
De um poder desconhecido e sombrio.
Assassinato, ele possuía,
O poder de matar seres superiores -
Não de caçar como Adão tinha,
Mas de matar como Jeová.10
Ahi hay Lilitu
Caim possuía a marca da
morte.
Então eu o trouxe ao meu
jardim e o ensinei.
Ahi hay Lilitu
Eu o ensinei lições de dor.
Sozinho ele estava, na
escuridão.
Embora banhado em luz, ele
andava nas sombras11
E escondia seus braços do frio.
Eu o tomei
Com palavras de auxílio.
Com palavras de cessar.
Meu olhos perfuraram as trevas de
seu sofrimento
Minha voz acalmou o frio dentro
dos seus ossos
E eu o segurei como a uma criança
Como se ele fosse filho do meu
companheiro de nascimento e meu.

80 Revelações da Mãe Sombria


Eu chorei com ele, pois ele era meu próprio filho
Ahi hay Lilitu
Como meu filho com alguém
"Eu conheço você, Caim de Nod," eu disse a ele,
"Venha! Dispa-se de suas vestes tão esfarrapadas e
manchadas de sangue
"Entre no meu jardim como uma criança, pois uma criança
você é -
"Filho do meu companheiro de nascimento, abatido pelo
meu primeiro amante.
"Você não tem segredos aqui,
"Você não tem pecados aqui,
"Então entre nu em meu lar.12
"Como você está agora, uma vez eu estive."
E ele me seguiu, nu
Dentro do jardim de Lilith e Lúcifer
Aos meu pés Caim de Nod se ajoelhou,
Como se ajoelhou à fúria do Único Acima.
Seus olhos não podiam olhar para mim,
Sua voz estava arruinada e vazia,

82 Revelações da Mãe Sombria


E eu fiquei enraivecida desse vergonhoso estado,
Como ele se acovardou diante do seu julgamento
como uma coisa sem valor.
Por ele eu fiz meu jardim um lugar de horror,
Traindo-o como ele traiu sua carne.13
Eu dei meu sangue e o untei
com ele,

Que ele possa se tornar uma abominação


em
minha residência.
E os céus olharam com desdém para meu
jardim,
E o ar estava pesado com assobio da
Serpente, grito da Coruja, rugido do
Gato.
"Vá, Caim de Nod, pois este é o jardim
que você semeou,
"E seus frutos você deve colher."
Ele tropeçou nas profundezas do
jardim
E eu o segui,
Rindo, chicoteando-o com galhos em
chamas.
Por todo um dia e noite eu o ensinei,
Ensinei-o os segredos do jardim.
Meus espinhos o rasgaram,
Então sua carne se tornou uma rede
de cicatrizes.

Conforme minhas videiras


procuravam capturá-lo
Seus membros se tornavam mais
rápidos.
Caim de Nod aprendeu a se esconder das dores
do jardim,
Para conhecer a minha vinda como um animal
selvagem conhece seu caçador.
Sobre a Serpente, a Coruja e o Gato ele
aprendeu a dominação.
E ele cresceu forte em angústia,
Orgulho brilhava nos seus olhos
E as chamas dos meus galhos queimavam
no seu coração.14
Um dia, ele não fugiu mais,
Mas ficou e deixou seu sangue
fluir,
Cultivando meu jardim.
E ungindo a si mesmo com
seu sangue
Assim como eu o ungi com o meu,
Ele caiu em um transe
Do qual eu não o acordaria.
Eu o deixei lá, retornando para minha
Casa,15
Pois eu não tinha negócios com as
Hostes que estavam por vir.

Então veio à ele Miguel,16


Guardião flamejante da Chama,
Trazendo notícias de piedade do
Único Acima.
E Caim, orgulhoso Caim,
Filho de Adão,
Fortalecido pelo meu jardim,
Declarou que ele sozinho poderia conceder
piedade à si mesmo.
Então Miguel pôs a Maldição de Fogo sobre
Caim de Nod.
E eu sorri, pois isso me agradou.
Então veio a ele Rafael,
Guardião tremeluzente do Amanhecer,
Trazendo notícias de perdão do Único Acima.

E Caim, orgulhoso Caim,


Filho de Adão,
Fortalecido pelo meu jardim,
Declarou que ele sozinho julgaria suas ações.
Então Rafael pôs sobre ele a Maldição do
Amanhecer sobre Caim de Nod,
E eu sorri, pois isso me agradou.
Então veio à ele Uriel,
Guardião encoberto da Profundidade,
Trazendo notícias de cessar do Único Acima.
E Caim, orgulhoso Caim,
Filho de Adão,
Fortalecido pelo meu jardim,
Declarou que ele e todas as suas crianças que
viriam
Só descansariam quando ele achasse adequado.17
Então Uriel pôs a Maldição das Cinzas sobre
Caim de Nod.
Mais uma vez, enquanto Caim se escondeu nas
trevas,
Eu vim à ele.
"Certamente," eu disse,
"Você cuidou bem do meu jardim, como um lavrador deveria.”
E, entendendo, ele me amaldiçoou
Com cinzas, com amargura e com esterilidade,
Ahi hay Lilitu
Com estas coisas ele me amaldiçoou
Enquanto ele desaparecia no noite.

86 Revelações da Mãe Sombria


VII: As Crianças

Nos dias seguintes, nós cuidamos da nossa terra


E agüamos com amor.
No tempo certo, os frutos de D'hainu
Elevaram-se como pequenas montanhas no ventre do mundo.
O trabalho foi árduo, mas meu amor estava ao meu lado.
A Coruja observou dos céus,
O Gato rondou como uma sombra,
A serpente se aninhou sob meus seios,
Lúcifer segurou minhas mãos com as dele
E eu cedi o néctar de alegria e tristeza.
Três garotos são eles, e eles são como hissopo.
Três garotas são elas, e elas são como romã.18
Abençoados sejam eles, os frutos do meu ventre!
Pois eles brilham como a lua alta e como o Sol ao meio dia.
E os filhos eu os nomeio Kessep e Shotheq e Nesher
E as filhas eu nomeio Mem e Oreb e Laylah.19
Abençoados são meus filhos!
Abençoadas são minhas filhas!
Pois eles deram estímulo ao Sol
E eles deram conforto À lua.
Ahi hay Lilitu
Ahi hay Lucifii
Pois eles deram luz a D'hainu,
O Jardim da Renovação,
E o popularam com estrelas.

O Livro da Coruja 87
VIII: A violação de D'hainu

Em alegria e tristeza, nosso jardim cresceu


Até que atingiu os limites do Mar Infinito.
A Coruja estava fértil
O gato estava fértil
A serpente estava fértil
E nossas crianças eram como luzes no céu.
Apesar de ser uma sombra do Éden, D'hainu rivalizou o Éden
Cujas árvores altas e águas correntes eram por muito tempo desde o pó.
Até o retorno de Caim
E suas crianças amaldiçoadas,
Nosso jardim cresceu

O Livro da Coruja 89
E nós estávamos todos apaixonados.
Num dia negro como cinzas, o assassino voltou
Quando Lúcifer carregou o céu com tempestades.20
A mão de Caim carregava as pedras do ódio e a lâmina da vingança.
Suas crianças seguiram numa nuvem de gafanhotos após ele.
Como chacais, eles caíram sobre as crianças de D'hainu.
Como lobos, eles se alimentaram da carne.
Como besouros, eles levaram embora os frutos do jardim
E queimaram D'hainu até que só restassem brasas.
Di halla Lilitu21
D'hainu não existe mais.

90 Revelações da Mãe Sombria


IX: A Maldição sobre Caim e sua Prole²²

Ahi hay Lilitu


Todos amaldiçoem a Casa de Caim!
Ahi hay Lilitu
Que eles sejam consumidos!
Sal seja sobre as língua dos Brujah, Tzimisce e Setitas23
Que massacraram as crianças de Lilith e Lúcifer!
Lamentações sejam sobre as línguas do Ventrue, Lasombra e
Malkavianos
Que queimaram as árvores e envenenaram os rios!
Brasas sejam sobre as línguas dos Ravnos e Capadócios, Salubri24 e
Gangrel
Que como animais devoraram a carne de nossas crianças!
Larvas sejam sobre as línguas dos Assamitas,
Os mais amaldiçoados de todos, Que levaram embora os segredos de
D'hainu
E os esconderam fundo na terra.25
E amaldiçoado seja o pai deles,
Seu três-vezes amaldiçoado pai,
Todo o sofrimento seja sobre o Pai da Noite
Pois ele é a chama nos campos de D'hainu!
Que a podridão devore o lombo de Caim,
Cujas mãos brutas sobrepujaram a Mãe de D'hainu,
Profanando-a com sua respiração e seu toque e sua semente.
Que a imundície cubra os olhos de Caim,
Cuja semente queima como fogo dentro da Mãe de D'hainu,
Poluindo seu ventre e rasgando seu coração.
Que os dentes caiam da boca de Caim,
Cujas crianças destruíram as flores de D'hainu,
Até que toda a Criação chore ao som e à vista!

O Livro da Coruja 91
Somente Nosferatu e Toreador devem ser poupados
Pois eles cobriram as faces
Dos mortos.
Com pena, eles molharam os lábios das crianças e
Deram estímulo à mãe dos mortos.
Todos os outros devem ser consumidos pelo fogo
E entortados como árvores na tempestade
E quebrados como argila
E atropelados como estrume
E levados pelas águas como pó!
Ahi hay Lilitu
Como pó eles devem ser varridos!

92 Revelações da Mãe Sombria


X: Cinzas

Caim riu quando ele deixou meu jardim naquele dia


Sua descendência maldita sorriu para o que haviam feito.
Para sua cidade de muros e escravidão, eles fugiram,26
Nos deixando a chorar nas ruínas que eles deixaram.
E eu os amaldiçoei a todos
Com cinzas, com amargura e com esterilidade,
Ahi hay Lilitu
Com estas coisas, eu os amaldiçoei.
Meu amor, meu Resplandecente,
Golpeou-lhes com a lâmina do dia
Ahi hay Lucifii
Com a luz do Sol ele os amaldiçoou.
Minhas mãos golpearam os cainitas
Com a agonia da noite.
Juntos, nós golpeamos os cainitas
Com o ódio de suas crianças
Que ele possa fazer inimigos entre ele mesmo.

E ele fez.
E nós fizemos.
Meu amor me deixou
Sob asas da meia noite.
Nossa ligação está quebrada
E tudo é cinzas agora.
Ahi hay Lilitu
Tudo é cinzas agora.

O Livro da Coruja 93
A Cerimônia de Caim
Notas da Editora
Meus companheiros (citados na seção de "notas" anteriormente neste
livro) executaram essa cerimônia comigo sob a lua cheia há alguns anos.
O velho me deu sua transcrição, a qual eu tentei manter intacta. De
toda a minha pesquisa, este é o único ritual Bahari escrito com o qual cruzei.
A Cerimônia envolveu meus amigos, um de seus úteis serviçais, e treze
prisioneiros, cada um drogado, hipnotizado e conduzido telepaticamente
através de seus próprios pés por um vampiro cujo nome eu nunca ouvi. Os
prisioneiros representavam as crias de Caim e interpretaram seu papel com
gosto; não obstante, eles pareciam perturbados quando as crianças "mortas"
de Lilith - interpretadas pelos Bahari vampíricos - retornaram à vida, os
rasgaram, esquartejaram e consagraram a cerimônia com seus fluidos vitais.
Como o costume manda, a Cerimônia de Caim que eu participei foi
realizada sem vestimentas em pleno inverno, num jardim sagrado de rosas,
videiras, hera e pedras. Algumas das plantas que eu vi eram mistérios para
mim, mas eu ainda não era uma botânica naquela época. Um vento frio
lançou os participantes (inclusive a mim) em um entorpecimento dentro do
qual a Cerimônia foi realizada. Eu acredito que o vento congelante
supostamente representa o terror espiritual do genocídio de Caim, a sombra
de Lilith e Lúcifer, e a aridez que seguiu a separação. O frio despedaçante
ajudou a enfatizar a lição de dor, também; até o que há de não-morto entre
nós sentiu isso arder. Os efeitos daquele frio nos participantes mortais
podem apenas ser imaginados.

94 Revelações da Mãe Sombria


A Cerimônia de Caim
Parte Um: A Cerimônia da Morte
Esta cerimônia originou-se com os primeiros do Sangue Bahari, e é o
único que é interpretado e testemunhado quase que exclusivamente por
seus pares. No entanto, existem algumas almas mortais que por várias razões
(na maioria das vezes, curiosidade) escolhem participar desta cerimônia
anual. Ela não é para suscetíveis nem para corações fracos. No ponto alto, a
cerimônia é sobre sacrifício, dor e retribuição - um reflexo apropriado de
nossa Mãe.
A primeira parte da cerimônia é melhor descrita que transcrita. Os
participantes reúnem-se no ponto de encontro, nus em pleno inverno.
Normalmente, o caminho é repleto de espinhos, sarças e espinheiros.
Muitos participantes lançam-se nos mais terríveis rosnados, doando
euforicamente sua carne como se pudessem arrancá-la. Assim, cada um é
coberto com seu próprio sangue, sua carne cantando com a dor enquanto
alcançam a clareira.
No fim dela, espera-os uma enorme fogueira, queimando. Bem em
frente há uma piscina d'água, freqüentemente congelada em um brilho
delgado ou balançando-se com fragmentos. Uma vez que os observadores
estão em seus lugares, os celebrantes - a sacerdotisa e o sacerdote, se você
preferir - chegam, cada um trazendo um flagelo. Após uma rápida troca de
abraços e beijos, os dois começam, lentamente, a excitar um ao outro com
beijos e carícias dos tipos mais íntimos. Quando a paixão começa a crescer,
ambos celebrantes começam a utilizar arbustos e flores espinhosas em sua
dança do acasalamento. Logo depois disso, os flagelos também são
utilizados. Quando os celebrantes estão banhados de suor e sangue, trocam
um beijo. A sacerdotisa mergulha nas águas congelantes da piscina
(significando a descida da nossa Mãe ao Mar Infinito) e o sacerdote passa
pelas chamas da fogueira (representando a luz de Lúcifer e o fogo da
iniciação). Dizem que quando os dois celebrantes se submetem a essas
torturas, a dor transporta suas almas pelo éter, permitindo que o Portador da
luz e Lilith se manifestem em seus ansiosos corpos. Tendo presenciado essa
Cerimônia pelos cinco anos passados, eu posso atestar o fato de que ambas as
partes foram, de alguma forma, transformadas.

O Livro da Coruja 95
Através de encantos que eu posso dizer apenas de modo vago, os
ensangüentados celebrantes invocam, logo após, fantasmas e espíritos,
verdadeiramente:
Sacerdotisa: Nachash el marhim arik no kofelo. Shelack no komair
neshia aparm! Bahari latwaa - Bahari latwaa. Baruk hamaat, baruk hamaat!
Artri Lilhitu!
Sacerdote: Lammanas! Lammanas! Kol fetu hattabus! Nachash no
goash aral to ari. Yin soquaa ahni anaka. Lakhil alhil kataab. Yin soquaa ali.
Artri Lilhitu!
Em meio a um grande clamor e um clima
hostil, os espíritos se manifestam. Enquanto a
Cerimônia acontece, esses fantasmas assistem
com uma sombria decisão, então entram na
celebração depois de um sinal de
consentimento.
Agora que tudo está preparado, o ritual
pode começar de verdade. A sacerdotisa
invoca as Crianças. Na clareira aproximam-
se os seis do Sangue Bahari (os assim
chamados, Lhaka), cada um deles belos,
reluzentes e inocentes à luz da lua. Depois
os prisioneiros são trazidos - treze ao todo,
cada um representando um clã dos
Cainitas e trajando máscaras estilizadas as
quais envolviam os respectivos os papéis
designados dele ou dela. Esses infelizes
geralmente são abandonados, os vampiros
prisioneiros ou os outros inimigos dos do
Sangue. Admitidos e controlados por um
mestre invisível, esses substitutos
encaminham-se para a arena e
permanecem à distância, aguardando
suas próximas instruções.
Há uma breve troca de diálogo que flui naturalmente :
Uma voz sem rosto, aparentemente uma manifestação simbólica de
Caim, diz: Quem são vocês que permanecem aqui no Jardim de Lilith?
As Crianças respondem: Nós somos as Crianças de Lilith, as quais
provaram do sangue do seu coração e comeram as frutas sagradas.
Caim: Vejam as Crianças daquela que nos privou o alimento!
Crianças: Você mente! Ela passou fome, você não!
Caim: Vejam as Crianças daquela que nos negou!
Crianças: Você mente! Ela recusou, e você nada!
Caim: Vejam as crianças daquela que nos amaldiçoou!
Crianças: Você mente! A maldição é culpa sua!
Caim: Venham a mim, minhas crias! Destruamos este jardim e
corrompamos a descendência da Mãe Sombria!
Nesse momento, onze dos prisioneiros entraram em um violento
frenesi se lançam sobre as belas Crianças à frente deles. Os outros dois,
representando Toreador e Nosferatu, dão as costas para a violência e não
tomam parte. O massacre que se sucedeu é poético e horrível ao mesmo
tempo. Comandados pelo do mestre invisível, os substitutos dos Cainitas
saltaram sobres as presas como cães rasgando as partes macias, usando para
isso dentes e unhas. As sarças do jardim geralmente são utilizadas, assim
como as várias pedras e galhos deixados por lá para esse fim. Os fantasmas na
borda do círculo assistiam famintos enquanto o sangue espirrava. A força
deles aumentava a do ventríloquo que os controlava, os substitutos rasgam
membro por membro das Crianças, saciando-se com o sangue e as
entranhas, suspendendo as tochas de fogo e incendiando os arbustos ao
redor.
Enquanto isso, Toreador e Nosferatu vão solenemente ao círculo três
vezes, mergulham seus dedos na piscina, então molham os lábios mortos das
Crianças como para lhes dar um gole final.
Depois disso, os dois tiram os corpos dos inocentes ocultos de detrás de
suas máscaras e jogam-nos diante da face dos matadores. Feito isso, os
assassinos - pois foi isso o que os outros substitutos se tornaram - levam os
corpos despedaçados em direção às chamas.

O Livro da Coruja 97
Nesse momento, a sacerdotisa
ergue a mão. Todo o movimento
cessa. O sacerdote também ergue sua
mão. Juntos eles entoam o seguinte
canto:
Sacerdotisa: O sangue de
minhas Crianças, em dor, clama por
mim na dor! O sangue de minhas Crianças
clama por mim, na morte! O sangue de
minhas Crianças clama por mim, pela
vingança! Desapareça Geração de Caim!
Eu declaro sua condenação!
Sacerdote: Repugnante
Geração de Caim! Montes de fezes e
poeira! Vocês se atrevem a se
levantar contra as minhas belas
crianças? Vocês se atrevem a violar
o meu Jardim de Renovação? Vocês
se atrevem a ferir o coração de minha
amada? Então banqueteiem-se com
minha ira, e banqueteiem-se bem!
Como você possuiu o coração delas,
então eu devo possuir o seu!
Sacerdotisa: Levantem-se
minhas Crianças! Deixem seu sangue
vivo fluir nesses espinhos e espinheiros!
Deixem seu sangue despertar essas
videiras sufocadas! Levantem-se
minhas crianças e vinguem-se!
Dispersem a carne deles até os
confins da Terra.

98 Revelações da Mãe Sombria


Parte Dois: A Cerimônia da Vingança

Uma vez que as palavras são ditas pela sacerdotisa, percursionistas à


borda do circulo começam a tocar. As Crianças desmembradas levantam-se.
Conforme elas fazem isso, suas feridas se curam e as Crianças tornam-
se inteiras novamente. Então, em um instante, todo o controle sobre os
cativos é retirado. Eles logo percebem sua situação e tentam escapar. É então
que os espíritos ao redor do círculo são liberados.
Toreador e Nosferatu têm permissão para escapar. Indubitavelmente,
esses cativos levarão consigo histórias selvagens se sobreviverem ao
caminho rumo à civilização. Os onze assassinos são agarrados pelas videiras,
pelos arbustos e pelas árvores que cercam o círculo, ou são carregados pelas
próprias Crianças. Seus destinos desse ponto em diante são totalmente
apavorantes.
Os pormenores da Cerimônia variam. Em todos os casos, os
hospedeiros encontram mortes dolorosas e horríveis. Seus corpos são
rasgados em pedaços. Seu sangue é usado para fertilizar as plantas. Seus
lamentos se tornam um coro, muitas vezes aumentando e diminuindo com o
ritmo das batidas. De suas posições privilegiadas, a sacerdotisa e o sacerdote
se certificam de que o hospedeiro pereça bem devagar.
Conforme o sangue jorra, os percursionistas alcançam um frenesi. Os
fantasmas e espíritos possuem os participantes da Cerimônia. Quaisquer
grupos que haviam permanecido afastados até este ponto, se juntam aos
outros. Muitos copulam loucamente dentro do círculo, aquecendo seus
membros gélidos com sangue fresco e calor corporal. Os líderes da cerimônia
comandam o desvario, tomando quantos parceiros eles puderem alcançar.
Conforme os percursionistas se cansam e os cativos morrem, o frenesi
diminui de intensidade e então desaparece em silêncio. Quando o último
hospedeiro expira, a música pára.
Um a um, as sacerdotisas e os sacerdotes vão à cada hospedeiro.
Conforme eles alcançam cada um, arrancam o coração e o baço, comem e
depositam a máscara no fogo. Quando todos os clãs tiveram o mesmo
destino, eles recitam em uníssono:
Sacerdotisa e Sacerdote: Esta é a justiça de Lilith e Lúcifer! Este é o
destino das crianças de Caim!

O Livro da Coruja 99
Sacerdotisa: Caim, Filho de Eva e cria
de Adão, o Profanador, tu hás de colher sete
vezes as ervas amargas da minha vingança!
Sacerdote: Caim, Filho de Eva e cria do
Primeiro Homem, tu há de queimar na
satisfação do Sol!
Ambos: Para sempre estaremos contra tu e os
teus! Tuas Crianças hão de se levantar umas contra as
outras, e hão de fazer contigo muito pior do que fizeste
conosco. Para sempre serás privado do fruto dos
jardins, e tu terás de vagar pela terra em
desgraça. Esta é a Maldição da Mãe.
Todos respondem: Assim foi dito!
Assim está feito! Bahari leitee Lilitu! Bahari
leitee Lilitu! Bahari leitee Lilitu! Assim está
feito!
A sacerdotisa rompe o círculo e dispensa
os espíritos da seguinte maneira:
Sacerdotisa: Sigam adiante com o vento
para atormentar as crianças de Caim. Eu os
liberto de sua convocação, desejo-lhes boa caça
e adeus. Eu os agradeço. Vão em paz. Artri
Lilhitu. Artri Lilhitu.
O sacerdote toca a face da sacerdotisa,
então se volta, afasta-se dela, passa pelo fogo
novamente e desaparece nas sombras. As
Crianças saem do círculo e recuam para as
árvores. Os espíritos desaparecem. As
fogueiras são apagadas e clareira escurece.
A sacerdotisa cai de joelhos, verte
lágrimas, recolhe as cinzas das máscaras, e
então as espalha por entre os arbustos.
Quando essa tarefa está acabada, ela anda lentamente até a piscina, ajoelha-
se na borda e submerge nela.
Quando ela afunda sob o gelo, a Cerimônia está terminada. Todos os
grupos partem.
100 Revelações da Mãe Sombria
O Lamento por Lúcifer
Nota da Editora
Eu ouvi este canto assombrado executado por uma sacerdotisa Bahari
do grupo mortal. Eu não tenho idéia de quão antigo é, nem qual possa ser
sua fonte. Ela disse as palavras como a oração de uma amante, acariciando
cada sílaba com gélida paixão. Sem querer perder uma palavra, eu fechei
meus olhos e deixei o canto gravar figuras em minha mente. Quando a
oração acabou e o círculo foi rompido, eu poupei meus anfitriões dos
ultrajes das investigações Tzimisce, e então enterrei seus corpos no jardim
que eles consideravam tão sagrados. Por apoio, eu contei com minhas
lágrimas. O jardim, eu agüei com sua vitae. Pareceu-me sacrilégio fazer de
outro jeito.

O Livro da Coruja 101


O Lamento
por Lúcifer
Fecho meus olhos para a luz do Sol,
Minha Estrela da Manhã, minha tempestade.
Dobre suas asas com graça e afaste-se de mim.
Saboreie minhas bênçãos enquanto você se vai.
Nós não nos deitaremos como um novamente.
Pois meu ventre é um jardim de podridão.
Meu coração é cinzas.
Minhas lágrimas são sangue.
Boa caçada, meu alento, e leve com você
Os ossos de nossas crianças, envoltos em folhas de palmeiras.
Espalhe-os pelo horizonte e tranqüilize seu choro.
Hei de administrar um túmulo de água profunda
Hei de varrer nossos inimigos.
Fique bem, meu vento do deserto,
Empunhe alto sua lâmina unte-a com lágrimas.
Hei de ser a coruja no vento noturno,
O gato com patas silenciosas

102 Revelações da Mãe Sombria


E a serpente nos calcanhares de Caim.
Hei de ser a origem de lágrimas,
mas meus olhos hão de ser areia e
silêncio,
Meu coração há de ser o deserto
e o mar,
E meu pranto há de ser a coruja
que foi caçar
Enquanto o Sol deixa meu céu.
Não chore, meu amado,
Mas mantenha-me próxima em sua
perseguição distante.
Nós havemos de ser os espinhos do
Éden arruinado
Não me esqueça
Sol para minha Lua
Pranto para meu silêncio.

O Livro da Coruja 103


Livro da Coruja:
Notas Finais
1: aparentemente Lilith abandonou suas criações no Éden
2: "profano" origina-se de "fora do templo", e indica uma provocação contra o
exaltado - uma marca dos seguidores de Lilith nos dias de hoje.
3: isto pode ser uma referência aos poderes originais de Auspícios, Dominação,
Metamorfose/Vicissitude, Potência/Fortitude, Rapidez, Ofuscação e Tenebrosidade -
poderes mais tarde oferecidos por Lilith aos grandes mágicos.
4: o simbolismo do oceano como uma iniciação feminina é óbvia. Em quase todas as
culturas, água é considerada como um elemento feminino e é fortemente sugerido em
ambos a mente subconsciente como a fecundação ilimitada do ventre da mulher.
5: incluí essa tradução de Jehovah como uma ordem de M. de Laurent. A versão
escrita diz simplesmente “Deus”, enquanto que a sacerdotisa diz “Divino”. Ainda que
tenha um certo impacto poético em “Vomitar a prole de Deus”, optei por conectar a minha
transcrição com o Livro de Nod.
6: uma insana omissão; não importa onde eu procurava, não encontrei nenhuma
referencia ao “outro” que tinha reclamado o domínio do mar. Baseando-me nos
Fragmentos do Gênesis, poderia considerar que se trata de um dos outros ELOHIM; este
nome, porem, nunca foi dado, nem essa regra se refere a ela novamente.
Poderíamos considerar a possibilidade de que esse “outro” foi a consorte de
Jehovah, e provavelmente como a “Bruxa” de Laurent; porém, a relativa fraqueza da Bruxa
com respeito a Caim refuta esta interpretação. Poderia ser que houvesse uma deidade
intemporal habitando os mares ate os dias de hoje?
Conseqüentemente, os jardins dos outros ELOHIM a que se refere o Fragmento são
completamente ausentes da versão de Lilith. Existiram, e, se for assim, porque Lilith não os
julgou dignos de ser mencionados? Acredito que a informação que pude estudar deste
antigo mito seja escassa, ou que o próprio mito tenha se condensado a partir de sua forma
original. Se for assim, eu gostaria de saber o que ocorreu após as sessões que se perderam.
Me pergunto se ainda existem.
7: acredito que isso se refira a Disciplina Auspícios. Como na referência
“esquecendo de respirar”, sugere o aumento dos poderes mágicos de Lilith.
8: esta sessão mostra o mais próximo do assim chamado “Ciclo de Lilith”, ainda que
a perspectiva seja, é claro, diferente. A versão escrita por M. de Laurent é sem duvida fruto
da criação de algum erudito Cainita, dificilmente é um produto da “visita oficial de Lilith”
que descreve.
9: uma intrigante coleção de imagens. Seria Caim uma criança maltratada?
10: aqui optei por usar o nome “próprio” de Deus por razões poéticas e para
concordar com a tradução. Note que neste momento a morte como tal ainda não existia
entre os seres superiores. Caim, tendo assassinado o seu irmão, é o portador de um poder
desconhecido para muitos ELOHIM, e é o precursor tanto da mortalidade quanto da
imortalidade.

104 Revelações da Mãe Sombria


11: acredito que isso se refira a escuridão do espírito mais do que a noite física.
Afinal, o testamento relata como Lúcifer “portador do sol”. Esta referência a escuridão
coincide com os “salmos” sobre Caim, ainda que estes últimos infiram que ele conheceu
Lilith à noite, não de dia, como ela sugere.
12: uma contradição direta com a versão de Laurent; no Livro de Nod, Lilith oferece
vestimentas a um Caim desnudo. Aqui, isso é o contrário. Simbolicamente, acho esta
versão muito mais apropriada.
13: Abel, supostamente.
14: o orgulho de Caim aumenta com o poder de suas Disciplinas, sob os carinhosos
ensinamentos de Lilith.
15: uma morada fora do jardim propriamente dito. Sem duvida, Lilith não desejava
fazer parte do que os três anjos de Jehovah fizeram, mas acho que trata-se mais de um desejo
de que Caim tome suas decisões por si próprio e não por medo.
16: novamente uso os nomes de M. de Laurent para as três Hostes.
17: “... e todos os seus filhos...” um arauto da Jihad?
18: o número sagrado de Lilith, sete, reflete a mãe e sua progênie. Seu símbolo
representa a Lilith ao centro, Lúcifer no círculo intermediário, e seus seis filhos ao longo das
bordas. A mudança do passado para o presente reflete a importância que esses filhos têm
para Lilith; até mesmo após sua morte, eles não estão verdadeiramente mortos para ela. A
planta de hisopo representa purgação, pureza e inocência recobrada. A romã é um símbolo
ancestral do sol, da fertilidade e do potencial. Lilith teve os seis filhos ao mesmo tempo ou
os concebeu separadamente? Isso é realmente importante? Podemos assumir, porém, que
drogas para aumentar a fertilidade não tiveram papel algum na concepção.
19: os nomes tradicionais dos filhos correspondem as designações hebraicas
posteriores. Os garotos são “Prata” (o metal da lua), “Silêncio” (um atributo da noite), e
Águia. As garotas são “Água”, “Corvo” e “Noite”.
20: Uma referência pouco nítida. Porém, graças a outras fontes podemos assumir
que Lúcifer encontrava-se distante realizando o seu papel como Portador da Luz quando
Caim e seus descendentes atacaram o jardim.
21: uma frase incerta. Provavelmente um lamento.
22: geralmente recitado a parte do Jardim da Meia Noite, esta maldição é recitada
por um grupo Bahari na íntegra. Em três cerimônias distintas, vi imagens dos Membros
queimados, humanos cativos despedaçados e esculturas de barro dos profanadores varridos
por tempestades repentinas.
O registro Bahari apresenta uma grande contradição: de acordo com o Livro de
Nod, os filhos originais de Caim eram três: Enoshm Zillah e Irad. Os Altos clãs,
mencionados aqui, vieram a existir séculos depois, após a Primeira Cidade e o Dilúvio
Universal. Mas ainda sim, tanto no Jardim da Meia Noite como no Rito de Caim falam de
treze profanadores, liderados por um vingativo Caim.
Tenho três teorias: a primeira aceita a história como verdadeira e deixa confusa
qualquer uma das crônicas. A segunda estipula uma guerra entre vampiros e magos
shamanistas, ocorrendo após a formação da Primeira Cidade e que resultaria na destruição
dos magos.

O Livro da Coruja 105


A terceira interpreta a totalidade do registro em um nível simbólico e descreve a
destruição de uma sociedade matriarcal por uma sociedade patriarcal governada por
Membros. De qualquer forma, o resultado é o mesmo: um bando numeroso queima, viola e
mata indo através de um assentamento pastoril, despertando a ira da Mãe Sombria e
destruindo seus seres amados.
23: os nomes dos clãs de Membros (mas não de seus fundadores, os quais
supostamente cometeram os crimes) aparecem tanto nas fontes Gregas como Ba'hara.
24: um contraste interessante à imagem habitual deste “beatífico” clã!
25: nenhum Membro pode evitar perguntar a que isso se refere...
26: provavelmente uma referência a Enoch.

106 Revelações da Mãe Sombria


A Era do Ferro, de uma pintura em um muro em Calcutá, 1894.
Terceiro Ciclo:
O Livro
do Dragão

Sob sua pele brilhante


Uma borboleta
Grita
Esperando para libertar-se

- Patrícia de La Forge, Tick Tick

108 Revelações da Mãe Sombria


Maldição:
Rainha dos Infernos
Notas da Editora
Como no “O Jardim da meia noite” as citações a seguir são,
supostamente, palavras da própria Lilith. Apesar dos dois contos serem
distintos, há, definitivamente, sentimentos de conexão entre eles. Nós
podemos ver a decadência da continuação do “Jardim da meia noite”; traída
por sua cria e amante, Lilith promete a vingança eterna, e convoca os
“espíritos uivantes” da ira e tentação para fica ao seu lado. Descendendo
com eles, ela invoca três versões dela mesma (ou seis, dependendo de como
você deseja ler) e transforma suas lamentações numa furiosa tempestade.
Mesmo assim, há divergências. Enquanto eu via cada evocação em
suas performances como parte dos ritos de Bahari (enquanto espíritos
demoníacos e furiosas tempestades são convocadas), as duas falaram em
diferentes ocasiões o Jardim como um rito de verão, a Maldição como um
rito de inverno. Através de intermináveis mudanças, performances e
translações, as duas peças são tomadas em ritos e características similares;
ainda assim o Jardim da Meia Noite original é, até onde sei, apenas oral; a
Rainha dos Infernos foi transcrito por um sábio Sumério por volta de 4000
a.C. Obrigada meu velho (veja “Notas”), Eu vi a transcrição daquela peça, e
construí a seguinte Maldição enquanto eu interligo as duas histórias.
Mesmo que a Rainha dos Infernos seja obviamente um pouco mais
moderna que sua inspiração pré-história (carregado com anacronismos
como prensa de vinho e cinto de castidade), dá ao Bahari a voz da ira de sua
Mãe Sombria e forja laços entre a desejosa e a voluntariosa Lilith, dos contos
anteriores e a Mãe Sombria tão temida pelos Membros e seus similares.

O Livro do Dragão 109


Venham, descendentes, espíritos das conchas,
Amigos da luz decadente!¹
Venham e abracem o dom de Caim,
Eu clamo pela morte
Eu desejo a morte
Venham, descendentes, fragmentos de
arrependimentos,
Esfarrapados e imperfeitos mestres passados
Venham e abracem o lamento de Lilith,
Eu clamo pela morte
Eu desejo a morte.
Pois meu coração esteve atormentado
E meu amor esteve atormentado
Eu me dispo do meu casaco da noite
E me atiro ao mar
Onde nenhuma luz pode me confortar
E nenhuma palavra pode me socorrer
E nenhuma mentira pode me curvar
E eu morarei na mão esquerda da morte
Pois eu sou a mãe cujos filhos foram
assassinados
E eu sou a amante cujo coração estava
atormentado
E eu sou a irmã cujo corpo foi vendido
Meu coração e meu jardim são cinzas agora
Deixe que meu pranto os carregue para
longe.²
Venham, ergam-se, espíritos dos
esfomeados
Amigos das chamas!
Venham e abracem o inverno do amor
Eu clamo pela morte
Eu desejo a morte
Venha desenhar meu manto sobre a lua cheia
E deixe todos os ventres estéreis essa noite
Um novo jardim surgirá sobre a terra,
Ba´hara, o Jardim das Lamentações.
Venham, ergam-se, sementes do desespero,
Caídos, deixados às pedras para apodrecerem.
Venham e abracem o lamento da coruja.³
Eu clamo a raiva
Eu desejo a raiva
Pois eu sou a tempestade com dez mil gritos
Pois eu sou a tempestade com dez mil lagrimas
Pois eu sou a fruta que foi seca no quente suspiro do ódio
Até que ela caia da vinha e torne-se pó
Venham, ergam-se, espíritos da terra
Aranhas famintas com dedos de sombra!
Levem-me para as cavernas do renascimento
Onde dançaremos até as mares crescerem
Pois eu me tornei a prensa das lamentações
Pois eu me tornei a ladra das sementes
Pois eu me tornei a quebradora de lâminas
E o grampo acima das frutas dos homens4
O Ancião
Cujos olhos manifestam o dia 5
Veja meu desafio, Veja-me sujar tua terra
Com meus pés enquanto eu afasto para longe de sua luz
Eu serei a coruja com lamentos mortais
Eu me tornarei o gato com olhos famintos
Eu sempre serei o Dragão6
E as frutas em minhas garras serão as gerações dos homens.
Venham, ergam-se, espíritos da tempestade e luxúria,
O Livro do Dragão 111
Vozes das noites passadas!
Levem-me pelo ar e as marés
Onde poderemos elevar as tormentas
Pois eu sou a donzela cujos frutos foram destruídos
Pois eu sou a mãe cujos jardins foram salgados
Pois eu cujos lábios têm gosto de sangue7
Deixe que estas três faces me recebam enquanto eu desço
Pelo do mar desconhecido
Deixe que teu alento queime o amor
Que tem estado em minhas lágrimas.
Deixe que nossas sementes cresçam em sebes
Com espinhos envenenados e doces flores
Venha cear comigo agora
E surjam de suas conchas.8
Que formas prazerosas nos guiem
Às cabeças e corações dos amaldiçoados.
Eles surgirão em tempestades
Para levar a areia9
E deixar as conchas nuas
Venham, descendentes, filhos de Caim,

Venham e abracem o lamento de Lilith


Ignorem o chamado de seu Pai
E alimente-se dos corações uns dos outros
Venham todos, serpentes do ódio
As nuvens da decepção e
As marés do silencio eterno
Eu clamo pela morte
Eu desejo a morte
Eu clamo pela morte
Que assim seja!
112 Revelações da Mãe Sombria
Lamia:
Notas da Inquisição

Notas da Editora
O seguinte trecho é tirado das anotações de um mísero escriba
anônimo, a serviço de Igreja Inglesa. Os caçadores locais aparentemente
pegaram uma Lamia Ba´ham. Mesmo ignorantes sobre a natureza de sua
prisioneira, esses senhores aprenderam rapidamente (através de três guardas
desmembrados) que essa “Bruxa” em particular deveria ser contida em
poderosas correntes. Uma vez feito isso, três padres, um torturador, vários
guardas e nosso escriba começaram interrogar a poderosa convidada.

[Após muito esforço, a Acusada está segura em uma mesa de


tortura e é sujeita às mais leves e simples torturas. Durante estas,
cantava como uma criança no colo de sua mãe. Ao final, ela fala em
palavras mais apropriadas para essa crônica.]
Padre: Quem sois servente dos Poderes Negros? Renega a ele e
refugia-se no Senhor nosso Deus?
Acusada: Eu sou o Gato, filha da Coruja, e pratico o que temes, e rio
de vós e cuspo em vós, e em vosso Deus também. Eu não renego de nada.
[Aqui ferros quentes são aplicados em várias partes do corpo da
Acusada. Muitos gritos e risadas vieram em seguida. Esse escriba
confessa um profundo e insuportável medo ao som de tais celebrações.]
Padre: Renuncias os Poderes Negros? E nomeará vossos
companheiros? Prometo-te dor se não responderes.
Acusada: Mais fogo. Mais ferros. Oh! Carcereiro desejo-os dez mil
vezes mais. Cada excruciação me traz mil revelações, e eu as beberei como
grandes tragos de vinho.

114 Revelações da Mãe Sombria


[Mais torturas lhe são aplicadas,
levando a Acusada a proferir
grandes gritos de dor a retorcer-se de
modo lascivo; dois dos santos padres
saíram do lugar antes que tudo estivesse
terminado e a Bruxa voltou a falar, com
litanias profanas que este escriba se
recusa a colocar nesta crônica. Depois de
tais atos ela voltou a falar de forma mais
gentil aos ouvidos do Senhor, de forma a
se passar por uma louca]
Acusada: As preces continuam, bons
senhores. Meu gosto para sonhos
está terminado.
Padre: Onde nasceste? Em que
província? Quem sois tua mãe e
teu pai; compartilha com eles
vossas artes?
Acusada: O que me perguntas?
Meus parentescos? Sou filha da
coruja e irmã do dragão.
Meu pai é o Leão Negro e o
portador do sol.¹¹ Meus irmãos são
as rosas que florescem a meia
noite; minhas irmãs são as
lágrimas que caem nos lençóis das
virgens perdidas.
Não sou como você.
Se o duvidas, atormenta-me
novamente para que eu possa me
exaltar.

O Livro do Dragão 115


[Então aplicaram ferros em suas partes pubianas, aos seus olhos e
suas partas brandas atrás dos joelhos e cotovelos. A Acusada falou
novamente em línguas bárbaras e desconhecidas por este escriba; mesmo
assim tentarei transcreve-las para o futuro de nossa Grande
Investigação]
Ai-ai-ai. Ai hamma gee tabool eer hamma quanta mas. Hattabas.
Akhool. Hattabas. Yin soquaa ahni anaka. Bahari latwaa-Bahari
latwaa; Sin solo extro vina contolo mas. Lakhil-alhil-kataab-Lilitu ah
mas. Ahi Hay Lilitu-Ahi hay Lilitu.¹²
[Este último a acusada repetia como se fosse uma prece pagã. Após
ouvi repetidamente os carcereiros e eu mesmo sentimos um particular mal
estar; dores na cabeça, baço e estomago. Após vomitar uma bílis negra
pedimos ao torturador que queimasse a língua da Bruxa para que ela não
nos amaldiçoasse mais. Assim o fez; e então um cuspe caiu sobre o braço
do torturador. Ele gritou como a mulher que estava presa à roda, e sua
carne caiu como a de um leproso. Nos o tiramos daquele lugar e o selamos
com todas as preces e benção de um verdadeiro homem de Deus. E assim
acaba esta Crônica.¹³]

116 Revelações da Mãe Sombria


Coruja, Gato e Serpente

Notas da Editora
Enquanto vários animais são tidos como sagrados para a Mãe Sombria,
a coruja, o gato e a serpente são geralmente considerados como suas bestas
“símbolo”.
Um conto medieval (muito longo e sem nexo para ser contado aqui)
conta como Lilith e Adão (antes de sua épica separação) brincavam de criar
no Jardim do Éden. Adão, sendo o moldador, poderia transformar lama em
muros, árvores em lanças e gravetos em jaulas. Lilith, sendo fértil, poderia
criar coisas vivas a partir de sua urina, sangue e suspiro. As três primeiras
coisas que ela criou foram ditas como a coruja (que voou sobre o muro de
Adão), o gato (que capturou o veado que escapou das lanças de Adão.) e a
serpente (que escorregou pelas barras da jaula de Adão). A combinação de
inveja e medo dessas criações provavelmente contribuiu para as desavenças
conjugais que os separaram para sempre.
Quando Lilith deixou o Jardim, dizem que Adão violentou cada besta
que existia no Jardim, menos a coruja, o gato e a serpente; esses o
perseguiram até ele clamar por socorro para seu deus. Quando Jeová
amaldiçoou Lilith, a maldição também caiu sobres seus animais. Por meio de
sabedoria superior eles seguiram Lilith e Lúcifer até o segundo jardim e
espalharam-se por lá. Quando aquele casal jurou vingança contra a
humanidade e Caim, os companheiros de Lilith, dizem, foram os primeiros
agentes de sua vontade.
Esta música inglesa, outra composição medieval, foi cantada por uma
moça em tolas roupas. Ela diz ser uma “recriacionista” (uma apelação que eu
posso chamar absurda) cuja paixão foi queimada em uma idealizada terra do
nunca, baseada em surreais escritos de autores de fantasia. Mesmo assim, ela
tinha uma grande aptidão para pesquisas essa música é aparentemente
autentica, e de mais de 600 anos. Eu a ofereço como um exemplo da
influência da Mãe Sombria no mundo mortal.
No espírito de suas musicas e de seus interesses por coisas medievais,
dei a minha musa uma amostra das leis antigas: uma viagem no rio James,
amarrada a um saco com uma coruja, um gato e uma serpente. De acordo
com os jornais, ela sobreviveu. Espero que ela tenha aprendido alguma coisa.
O Livro do Dragão 117
Vinde a mim

Mostre-me tuas artimanhas*

Minha coruja, cruel ave da noite

Com bico, garras e penas, Oh!

Vinde a mim

Mostre-me tuas artimanhas*

Meu gato, cruel caçador

Com garras, seriedade e olhar austero, Oh!

Vinde a mim

Mostre-me tuas artimanhas*

Minha serpente, cruel trapaceira

Com um bote, suavidade e vislumbre, Oh!

Vinde a mim

E conceda-me venenos

Conceda-me visão noturna

Conceda-me furtividade e artifícios

Oh!

118 Revelações da Mãe Sombria


Nome da Mãe
Minha doce e amada mãe
Lilith minha Mãe
Minha benção, minha tortura
Oh!
Verta meu sangue e talvez eu imagine
O Dia no Jardim quando tu criaste
A coruja, o gato noturno e a serpente
E me entregaste-os
Verta meu sangue, e talvez eu lhe Abrace
E envenena o mundo
Que renegou a nós dois
Envenena o mundo
Que renegou a nós dois
Ahi hay Lilitu!
Ahi hay Lilitu!
Envenena o mundo
Que renegou a nós dois
Vinde a mim
Coruja, gato e serpente, guia-me
Na escuridão
Com os mais charmosos e raros beijos
Eu lhe entrego
Minha vida, minha fé e meus medos.
Vinde a mim
E guia-me após a morte.

* NT. No texto original, “O say diddle-dally” é uma frase a qual não existe tradução para
o português, portanto, optamos por adaptar a frase da melhor maneira possível.
O Livro do Dragão 119
As Marés Crescentes

Notas da Editora
Escutei pela primeira vez essa perturbadora profecia como parte da
mesclada indústria de dança “Time for Breakfast”, de Shaken Baby
Syndrome. Prendeu minha atenção das primeiras linhas até o final.
Nenhum mortal, pensei, poderia saber tanto sobre coisas obscuras. Como
sabemos, nossa grandiosa Mascara é muito eficiente para deixar que tal
informação vazasse para o público em geral. Enquanto eu escutava, não
podia evitar ficar perturbada. Quando a música acabou, fui pegar o DJ que
havia tocado a música.
A voz fria e desapaixonada que havia pronunciado acabou sendo de
Patrícia de La Forge. Quando eu a perguntei da fonte de profecia, ela
admitiu ser muito mais antiga que ela. Com ajuda do velho, eu achei a
versão latina das Marés Crescentes que é anterior à conquista de Bretanha.
Assim começou minha busca pelas origens e natureza dos cultos modernos
de Lilith.
Parece-me apropriado acabar esse Ciclo com as mesmas palavras que
começaram a minha jornada. Como qualquer um com grande
conhecimento sabe, muito dos sinais descritos a seguir tornaram-se reais
últimos anos. Até mesmo os mortais sabem que sinais de um fim próximo
têm mais a ver com antigas proclamações do que com calendários tolos e
números preocupantes. Enquanto as palavras de Caim dizem que o mundo
se acabará com fogo, a versão de Lilith assegura que o fogo será extinto pela
água. Talvez a colisão dos dois transforme essa terra condenada em uma
pilha de “novos mundos de conchas”. Quando os olhos do Ser Ancestral
fecharem-se novamente, o esquecimento cairá novamente e o silêncio
reinará. Talvez, após um tempo, outra terra surgirá e outro ciclo começará.
Eu estou apenas feliz por ter a oportunidade de voltar a descansar.
Creio que à noite que virá será muito desagradável.
Durmam bem, Filhos de Caim. Algumas velhas dívidas estão sobre a
mesa, e seus créditos expiraram.
Tique Taque, certamente.

120 Revelações da Mãe Sombria


As Marés Crescentes

Tremei, Filhos de Caim


Tremei, Filhos de Seth
A Mãe está chegando
A Mãe está aqui
Com suas lições de loucura
E suas mãos cheias de sangue
Ela vem para fazer um mundo novo
Sua carruagem é a dor e o horror
O cristal está quebrado, os demônios estão livres
O cristal está quebrado, os demônios estão livres
As águas surgirão
As águas surgirão
Chorem, filhos dos imortais
Pois vossa existência será como as conchas quebradas
Pelo brilho de cada novo mundo
Tudo isso passará.
Chorem, fariseus e sacerdotes,
Pois vosso Deus é uma mentira e as promessas são sacos vazios.
Tudo isso passará
Chorem, larvas do grão
Retorcendo-se na cesta de pão,
Pois suas barrigas partem-se com o banquete
E a tempestade de moscas está vindo
Tudo isso passará
Chorem, pesadelos tenebrosos
Pois os deuses dançantes os conduzirão ao esquecimento
Mãe está chegando

122 Revelações da Mãe Sombria


Mãe está aqui
Tudo isso passará
O cristal está quebrado, os demônios estão livres
O cristal está quebrado, os demônios estão livres
As águas surgirão
As águas surgirão
Veja o colosso de aço sobre o mundo
Observa os vermes aos seus pés
Quando o gigante de aço tropeçar, os vermes se regojizarão,
Pois haverá comida em abundância quando o gigante cair.
Veja a câmara quebrada de 500 anos
E o cristal quebrado sobre o solo
Veja as pedras chorando e os dragões livres
Lilith está aqui.
Lilith está livre.
Ouvindo os uivos da noite
Entre os lobos de Adão
Lançando-os nos anéis do Dragão
Cheira ao sangue do irmão desde o começo dos tempos
Agora morno e fino como a água
Na água a luz morrerá
Na água o fogo morrerá
Do Leste, do mar a vingança surgirá

O Livro do Dragão 123


E daqueles cujo sangue é água!

As cidades do Oeste queimarão com sangue,

E uma grande roda do Leste,

Desde as terras informes,

As destruirá!

No último dia

Quando a lua for um pedaço de


escuridão

Virá o último abraço!


Brilha negro o sol!
Brilha a negra lua!

As águas surgirão!

Ahi hay Lilitu!


O Livro do Dragão

Notas Finais
1: Esta parece ser uma referencia ao “mundo das conchas” descrito nos escrito
cabalísticos uma estanha correspondência, dada a diferença entra a cosmologia Hebraica
e Suméria. (Veja os fragmentos de Gênesis).
2: Note as repetições do três , recorrente a essa invocação. Em muitas filosofias
místicas, o três é o numero fortalecedor, o numero da unidade. E também corresponde a
água, o elemento mais associado a Lilith e a mulher em geral.
3: Muitos textos antigos mencionam Lilith como a coruja. Veja o texto “Coruja,
Gato e Serpente.”
4: Tal e como eu interpretei, esse verso dizia “... e a lâmina da espada do homem.” A
versão suméria, entretanto, oferece uma dupla metáfora a fabulosa vagina dentata, e a
armadilha da castração utilizados por anciões para castrar fazendeiros, escravos e
criminosos.
5: Uma referência a Jeová? Ou ao Ancião mencionado nos fragmentos de Gênesis?
6: Na versão suméria, o criptograma Ba´hara da Grande Serpente é claramente
visível. Eu uso a tradução “Dragão” para enfatizar a diferença entre uma mera cobra e a
encarnação de Lilith.
7: Nós podemos pegar essa misteriosa referencia em três modos: como uma
lembrança dos banquetes de Lilith com seu próprio sangue no deserto; como referência ao
vampirismo; ou como um plano para tomar o sangue de Caim. Lembra-se da Bruxa no ciclo
de Nod deLaurent? Poderia ter sido Lilith tomando outra forma, escravizando Caim
mesmo fingindo ser mais fraca que ele? A idéia é inconcebível.
8: A versão moderna usa “inferno”, mas a versão cuneiforme suméria sugere
“mundos quebrados” mais que infernos na versão tradicional. Afinal de contas, nessa
época, havia poucos mortos. Seria necessário um inferno? Seriam outros submundos ou
fragmentos deste? Creio que esta última teoria é a mais certa.
9: Normalmente considerado como símbolo do infinito, a areia representa os
inconstantes aspectos da terra (a fundação e o ventre) que podem ser barrados, ou que não
pode suportar grande peso ou força, como um castelo de areia derrubado pela maré.
10: Interpreto isso como um chamado os novos vampiros que escolherão Lilith a
Caim, mas também pode ser interpretado como uma invocação à “mancha negra do
assassinato” que convenceu Lilith a ajudar Caim (veja O Jardim da Meia Noite). A mãe
obscura pode estar invocando não só os filhos do Amaldiçoado, mas seus talentos para
matar também.
11: Uma imagem incerta. Os leões são tipicamente associados com a realeza e
ocasionalmente com Jesus Cristo; a veracidade e a natureza indomável, entretanto eles
também são considerados bestas de fúria e encarnações dos desejos de Satã. Essa
(combinada com o referencial de “portador do sol”) fala da Lamia como filha de Lilith e
não de Adão.

Revelações da Mãe Sombria 125


12: Transcrito textualmente. Note a repetição de varias frases do “Rito de Caim” no
Livro II
13: De acordo com as notas posteriores na crônica, a cela onde esse pequeno e
civilizado intercâmbio tomou lugar foi lacrado. As vítimas, ainda acorrentadas, foram
deixadas nas mesas de torturas. O homem tão habilidoso com os ferros perdeu sua
habilidade; ele também perdeu seu braço inteiro, do ombro para baixo. O cronista afirma
que os gritos e gemidos da “acusada” continuaram por três meses, e poderiam ser claramente
ouvidos através das paredes de 30 cm. Eventualmente, a masmorra foi abandonada; os
torturadores não conseguiam descer as escadas. Os ocupantes restantes foram trancados
com a “Bruxa-Espectro”; tão furiosos estavam seus fantasmas que aquele castelo foi
abandonado e queimado em 1473.

Podemos presumir que, de uma vez por todas, a vítima torturada se vingou de seus
torturadores mesmo que por um breve período.

126 Revelações da Mãe Sombria