Você está na página 1de 232
Rebeca alguns não pecam por nada! Marco Buzetto
Rebeca
alguns não pecam por nada!
Marco Buzetto

Copyright © Marco Buzetto 2013 Rebeca - Alguns não pecam por nada!

Capa Foto da capa Foto do autor Produção Gráfica

Marco Buzetto Rebeca von Weisheit Danilo de Paula Karlinhus Mozzambani

Catalogação na fonte elaborada pela Bibliotecária Karina Gimenes Fernandes CRB-8/7418

B917r

Buzetto, Marco.

Rebeca : alguns não pecam por nada / Marco Buzetto. – São Paulo :

Copacabana Books, 2013.

234 p.

ISBN 978-8-5639120-1-5

1. Literatura brasileira. 2. Romance brasileiro. 3. Filosofia. I. Título.

CDD B869.3

Todos os direitos reservados ao autor Impresso no Brasil

Nesta obra, em alguns casos, o autor optou por não se utilizar das normas padrões da língua portuguesa.

COPACABANA BOOKS Rua Azevedo Júnior, 143 – 1/11 – Brás São Paulo – SP – Brasil – CEP: 03040-020

LETRAVOX EDITORIAL Rua Morikazo Takimoto, 161 – Laranjeiras Monte Alto – São Paulo – Brasil – CEP: 15910-000

Vendas e Atendimento ao Leitor: (016) 9142 6754 Facebook: Marco Buzetto - E-mail: marcobuzetto@hotmail.com.br

Marco Buzetto

Rebeca

M arco B uzetto Rebeca alguns não pecam por nada! 1 ª edição S ão P

alguns não pecam por nada!

M arco B uzetto Rebeca alguns não pecam por nada! 1 ª edição S ão P

1ª edição

São Paulo

M arco B uzetto Rebeca alguns não pecam por nada! 1 ª edição S ão P

2013

Em memória de Vida e Cristal, minhas maiores paixões.

Ao Amor. A Solidão.

A todos. A todas. A ninguém.

Introdução

“Eu sou Rebeca von Weisheit! Com esta afirmação, compreendo mi- nha própria escolha, a escolha que faço por mim e sobre mim. Eu sou Rebeca von Weisheit. Uma mulher de transparência pesada, cansativa, transgressiva e extravagante. Não tenho problema em ir para a cama com mil homens ou mil mulheres, estejam eles sujos ou limpos, sejam eles intelectuais russos ou franceses, ou, quem sabe, ignorantes, do tipo caipira que se nega a aprender. Gosto de muito whiskey, sexo e filosofia densa. Gosto de fazer do ser huma- no um cardápio com sugestões e possibilidades infinitas. No entanto, o que procuro em todos os corpos que se deitam comigo, sejam eles belos ou feios, são as respostas para as questões mais irritantes: existência, motivos, porquês, para quê, qual é a função de cada um?, o que é felicidade e como as pessoas a conquistam?, de que as pessoas necessitam para viver com plenitude?, e, por que não, qual é a razão de ainda estarem vivos? Eu sou Rebeca von Weisheit, e quero que meu útero seja explorado até sua profundeza para que nasça como luz em forma de criança a filosofia do ser humano moderno. Quero que jatos de esperma e orgasmos femininos escorram por meus lábios vaginais a fora, lubrificando a sabedoria e o conhecimento. Não sou uma mulher que não sabe o que é ou parece ser certo ou er- rado. Não sou uma mulher sem princípios, sem escrúpulos, sem moralidade. Não sou uma prostituta, uma vagabunda, uma vadia; muito menos uma poetisa evocadora do apocalipse. Não sou uma ignorante ou uma pessoa confusa, pois sei bem o que procuro. Sei bem o que sou e para onde vou. Sei o que sinto e sobre o que reflito. Sei exatamente o que faço e o que cada um dos indivíduos pensa. Eu enxergo nas profundezas do cotidiano de cada corpo; a cada dose. Eu faço. Eu ajo. Eu pergunto. Eu respondo. Eu sei. Eu sou. Eu sou Rebeca von Weisheit”!

7

Rebeca é uma mulher/garota, uma mestra em questionar o que há de errado ou certo com a vida das pessoas. Neste livro, Rebeca bebe whiskey, usa bem as palavras e gosta de filosofar a respeito dos conceitos e sacramentos

Marco Buzetto |

ditados pelas sociedades. Aqui, a filosofia e a crítica social pesada remetem o leitor a uma realidade surrada, presente. O real aqui é duro, e vem rápido com extrema violência socar o rosto de quem quer que seja, sem distinção de sexo ou engajamento. Rebeca procura respostas para suas frustrações, e liga cada uma delas

a todos a sua volta. Rebeca diz que “ninguém peca por nada”, todos possuem motivos para fazer o que fazem, mesmo que pareça a mais angelical das ino- cências. Porém, ela mesma reconhece seu próprio pecado: a dúvida. Prefere sacrificar a si mesma sangrando por toda a cama com a verdade do que viver os anos com a dúvida castigando seu pensamento com uma marreta divina.

8

Nietzsche, Schopenhauer, Heidegger, Goethe, Dostoievski, ou qualquer

um dos clássicos pensadores e escritores da antiguidade podem ser lidos nas

E muitos deles morderiam a si mesmos em suas próprias

bocas caso lessem sobre a vida de Rebeca von Weisheit. Sem frescuras, com seu próprio pudor, sem medo de agir quando neces- sário abrindo suas pernas e ingerindo cada vez mais whiskey, sangue, saliva

e suor, Rebeca trata de incentivar sua própria ação filosófica, e sacrifica seu

palavras de Rebeca

templo à procura incansável de respostas e, ainda mais necessárias, as pergun- tas corretas.

| Rebeca

Deixe eu me apresentar

Meu nome é Rebeca, como você bem sabe. Sou uma garota qualquer, quem sabe, que durante nossa jornada aqui juntos se torna mulher, e retorna a juventude. Minha vida não é lá grande coisa. Nenhuma novidade. Nada pra se or- gulhar. Nenhuma boa notícia. Nenhum entusiasmo. Minha vida é praticamente uma hipnose, um transe – repleto de transas –; uma hipnose que você perceberá não somente em minha vida, mas também me minhas palavras. Minhas confissões são reais, fatos que aconteceram em alguns momen- tos distintos. Porém, na maioria das vezes, estes fatos me acompanham por vários dias, algumas semanas. São fatos que colaboraram para meu desprezo pessoal. São fatos que colaboraram para o engrandecimento alheio, enquanto eu definhava. Minhas palavras são repletas de peso e acidez, carregadas de blasfê- mias e pecados. Sou um livro arrependido, talvez. Talvez carregado também de inocência. Uma inocência que finge a si mesma. Inocente como uma garota buscando seus maiores prazeres e mentindo para os pais. Por muito tempo tive vergonha sobre o que me tornei. Ainda em minha infância, minhas lágrimas despencavam discretas pelo meu rosto, pois eu não conseguia acreditar em nada do que chegava aos meus ouvidos.

9

Sim. Tem razão. Se você ouviu dizerem que minha vida é cheia de sexo e álcool, acredite. Sou viciada em todos os males. Porém, talvez o maior, a dúvida. Meu maior vício é questionar. É não acreditar que a felicidade está nas pequenas coisas; acreditar que não está na porta ao lado, logo ali. No entanto, poucas lágrimas e soluços de choro você encontrará em minhas confissões. Posso dizer que, em muitas vezes, talvez na maioria das vezes, você sentirá nojo de mim, possivelmente um pouco de pena. Mas a repulsa tomará conta de seus sentimentos. Não apenas por eu me deitar com todos, mulher ou homem. Você sentira repulsa em me conhecer, justamente por eu me tornar sua melhor e pior amiga. Por eu socar a verdade em sua cara. Verdades que muitas

Marco Buzetto |

vezes não são questionadas, por medo. Pelo simples fato de você sentir medo de conhecer a si mesmo. Eu estou aqui, e vim para contestar a sua vida. Estou aqui, e vim para provar que você não conhece a si mesmo. Estou aqui para lhe mostrar que o conheço melhor e mais profundamente do que ninguém um dia conheceu. Quero te mostrar que o caos que vive dentro de mim tornará sua vida um mar de positividade. Quero te mostrar que eu luto todas as minhas maiores batalhas sozinha, e sempre as venço.

10

Confesso que sou uma história baseada em fatos reais. Confesso que minha pessoa não é lá as melhores. Pois sou aquele tipo de mulher que sua mãe diria para não andar junto. Porém, quem é sua mãe para fazer julgamentos, não é mesmo? Você lerá sobre minha vida, e irá evoluir junto comigo de tal maneira que acabará renovado, totalmente transformado. Ao chegar à última página sobre minha vida, sobre mim, sua experiência evolucional estará num ponto

alto, restando apenas alguns detalhes para se tornar completo em sim mesmo; uma pessoa transformada, melhor do que era quando começou a me conhecer. Quanto menos você estiver em contato comigo, mais vontade terá de me conhecer e saber mais sobre mim. Quanto maior a distância de minha pes- soa, mais saudade e vontade de voltar correndo para meus braços você sentirá. No entanto, sou apenas uma garota/mulher, como todas as outras; como todo ser humano. Sou uma pessoa comum, igual a você, igual ao seu vizinho, igual a sua mãe, seus irmãos, seus colegas de trabalho. A única diferença é que minha boca não está fechada, tampouco minha consciência, minha vontade. Olhe atrás de você. Quero conhecer mais sobre você. Quero saber todos os detalhes de sua vida. E conseguirei. Pois, à medida em que você conhecer mais sobre mim, mais eu estarei próxima de você. Quero saber tudo sobre você. Começando pelo seu nome. Homem ou mulher? Qual é seu nome? Todos possuem um nome. O meu é Sabedoria.

| Rebeca

Rebeca

Livro I Parte I

Em todos os lugares todas as pessoas um dia ouviram falar em Rebe- ca. Quem não ouvira? Uma garota linda, com seus vinte e poucos anos, de

cabelos fantasticamente negros como a noite mais escura, boa altura, mais ou

menos um metro e oitenta, por aí

Simplesmente assim. Um verdadeiro poço de luxúria adolescente; um poço de

luxúria

impossíveis de se negar. Não, ela não é uma prostituta! Isso seria clichê demais. Porém, Rebeca

gostava de viver sua própria lei: gostava de se divertir. Uma jovem como qual- quer outra, liberal por vocação ou enrustida por obrigação. Não mantinha nada em segredo, mas também sem dizer uma palavra sobre si fora de hora, ou longe

Talvez

Vívida. Afável. Envolta em névoa de complexidade e atração quase

Rebeca é simplesmente uma garota linda.

de sua melhor amiga, Anna, simpaticíssima, de descendência italiana nada de especial. As duas se adoravam, só isso.

― Por que você vive fazendo isso, Rebeca? – questionava sua melhor

amiga. Por que faz estas coisas sabendo que irá se amargurar no dia seguinte?

― Bom, Anna, se fosse apenas no dia seguinte, então tudo estaria tran- quilo para mim. A angústia seria muito menor assim.

Mais desce do que

sobe. – continuava sua amiga Anna, rindo de tudo enquanto secava um copo de vodka sem gelo e com limão.

― Conheci uma pessoa ontem, sabe. Inteligente, legal comigo, muito bonito. Uma ótima pessoa. – expeliu de sua boca a jovem Rebeca.

― É? Uma pessoa? Simples assim? – indagava sua amiga. Conte-me a

respeito. Sei que vai fazer isso mesmo Sim, é verdade. Rebeca havia conhecido uma boa pessoa na noite ante-

rior. Um homem bondoso, inteligente, como ela mesma havia afirmado. Bonito, até mesmo elegante, jovem, porém um pouco mais velho que ela. Conheceu-o

Ela

no caminho de volta para casa, na saída de um barzinho beira de estrada

logo pensou: “esse parece estar fora de sua realidade”. E realmente estava, pois

Marco Buzetto |

― Você parece um elevador, isso sim. Sobe, desce

11

aquele era um local onde os deprimidos, os babacas, as pessoas que não possu- íam coragem de encarar suas realidades de vida frequentavam.

― Você parece estar um pouco longe de casa, forasteiro. – brincou ela. Acho que não vai encontrar o que quer por aqui.

― E o que eu quero? – indagou ele. Conheço você?

12

Rebeca. Rebeca é meu nome. – disse ela

prontamente.

― E você, por acaso, sabe o que estou procurando? – continuou ele. Por

acaso é algum tipo de vidente, uma investigadora por hobby, ou coisa assim?

― Não! – disse ela enquanto passava os olhos dos pés à cabeça do

parceiro de diálogo. Não sou uma espécie de vidente, ou qualquer merda desse tipo. Mas sei adivinhar que você não me disse seu nome, forasteiro Estas apresentações não são necessárias para visualizarmos a cena. Pois, violentamente, Rebeca e o “forasteiro” encontravam-se se entrelaçando em uma cama de solteiro entre quatro paredes rubras. A noite estava apenas começando para os dois, apesar dos ponteiros de um velho relógio sob a cabe-

ceira da cama apontar muito mais de três horas; uma madrugada sexualmente viciada para ela, coisa a que está acostumada, de fato. Enquanto o ato se consumava, o forasteiro pensava ter encontrado o sexo daquela noite, marcando mais um ponto em seu nojento caderno de refei- ções pós-meia-noite. Ela, Rebeca, preocupava-se com muito mais em sua men- te. Estava mais interessada em saber quando aquele filme macabro iria acabar; pois, mais parecia uma trilogia interminável e bizarra. No entanto, saciou-se ferozmente, de maneira plena e aceitável.

― Acredito que não. Mas

― Mas e então? – perguntou Anna à sua amiga. Sentiu tudo o que cos-

tuma sentir nestes momentos “mágicos”? Ou será que dessa vez foi diferente de todos os outros dias e noites?

― Nada disso. Nunca é diferente Anna. Nunca! – respondeu Rebeca.

Sabe, no fim das coisas, sempre, sempre quando os primeiros raios de sol ba- tem em meu rosto como um soco dado por deus, ou sempre que eu acordo e saio de fininho para não acordar ninguém, sempre nesses momentos me sinto a pior pessoa do mundo. O que será que está errado? Mesmo nos momentos mais

| Rebeca

apaixonados, quando transo e durmo com uma pessoa em um relacionamento

completamente estável e duradouro, me sinto exatamente igual. Sinto-me pesa- damente culpada. É uma sensação péssima, como se tudo não pudesse ter acon- tecido; mas que em um ato de esperança cedi a mim mesma. E acabo dizendo

O que está acontecendo? Merda”! Mas

em meus próprios ouvidos: “Rebeca

não encontro à maldita resposta, mesmo enquanto sorriu como uma louca entre um orgasmo e outro. Não consigo esconder minha tristeza. Esta era toda a verdade que a jovem Rebeca podia e sabia dizer sobre si. Não consegue sentir-se bem consigo mesma. E o pior, nem ao menos sabia o motivo por essa distância abismal entre ela e a felicidade. No entanto, sua felicidade não se resumia apenas nesta palavrinha vendida em propaganda de

cosméticos, farmácias ou rede de fastfoods. Rebeca sentia-se frustrada em rela- ção ao mundo. E por mais que se divertisse de todas as formas possíveis, nunca parecia encontrar um ponto no qual pudesse se focar. Não. Rebeca não era uma vagabunda, ou uma desequilibrada, ou alguém equilibrada demais. Mas sentia- -se incompleta, em todos os sentidos. Sua vida se resumia em falsa diversão e dura realidade. Uma realidade que socava sua cara como um boxeador violento e inescrupuloso.

― Isso parece muito duro de aguentar. – disse Anna, olhando sua amiga nos olhos, tão fundo como se mergulhasse neles.

― Parece que sim. – respondeu. Mas acho que aguento mais um pouco.

Porque não? Esse lugar parece ter me dado tudo o que possuía. Acredito que posso encontrar algo que sacie minha sede de não sei o que.

Rebeca por mais que conhecesse as verdades por detrás dos fatos e ilu- sões das pessoas, não conseguia ao menos fazer de conta que podia ser como

todos. Por debaixo das células, dos cromossomos ou de milhares de mililitros cúbicos de plasma sanguíneo não havia sentido algum para as reações irracio-

nais do ser humano

Tanta tecnologia e evolução da máquina humana para

nada: para enchermos nossa cabeça de porquês. Este talvez seja um problema real de pessoas que investem em sua inteligência: uma recompensa injusta e dolorosa, que afoga brutalmente nossa inocência. Uma verdadeira e crescente entropia individual. Normalmente as pessoas acreditam possuir a felicidade em todos os

Marco Buzetto |

13

14

momentos de sua vida, como se esse fenômeno – sim, isso mesmo, um fenô-

meno – fizesse parte integral de suas vidas, vindo em um kit encomendado logo no nascimento. Porém, quando um acidente muito grande, o chamado “tombo” emocional acontece, logo a realidade bate em nossa porta, como aquele já co- nhecido “soco na cara”. E devemos torcer para que esse “soco” nos deixe uma marca eterna, pois podemos chamá-lo de aprendizagem. E exatamente isso é o que acontece com Rebeca: suas cicatrizes estão cada vez maiores; mas, mesmo assim não consegue enxergar uma cura. Uma pessoa rodeada de falsos amigos, mas que por vezes estes fazem bem seu papel; com dinheiro suficiente para manter suas ambições, que na realidade não são tão grandes assim; corpo de dar inveja em muita mulher, e tirar suspiros de todos os homens, até mesmo o

Um súcubo;

mais fiel e correto dos homens. Rebeca é praticamente um diabo mesmo em sua inocência de anjo.

― O que você pretende fazer agora Beca? – perguntou sua amiga, cha- mando-a carinhosamente pelo diminutivo.

― Na verdade, minha amiga filósofa, podemos encher nossas caras em

um bar qualquer. O que acha? Já passam das vinte e duas horas, e nós estamos aqui conversando sobre minha merda de realidade. Você sabe muito bem que a verdadeira filosofia se faz no bar. – respondeu ela, lembrando a formação acadêmica de sua companheira. No bar, a velha história se repetia: um copo alto com limão, três pedras

de gelo e completo de vodka até o topo para Anna, e um copo largo de whiskey para a jovem Beca. O dono do lugar as conhecia bem, pois eram clientes assí- duas daquela espelunca. Para completar o cardápio, uma porção de castanhas As quais nenhuma das duas tinha coragem de comer, mas que sempre estava lá, servida por aquele barman asqueroso.

― Lembra-se quando espionamos aquela psicóloga maluca do seu pai

que você detestava

Aquela que tentou seduzir ele? – lembrou Beca dando

altas risadas algumas dezenas de minutos após terem chegado ao local.

Ele nunca soube o que eu fiz. – respondeu ela. Se ele soubesse, puta

que pariu

Não sei o que seria capaz de me fazer.

Ah Anna, pára com isso. Teu pai te ama mais do que tudo nesse mun-

do. – dizia sua amiga. Acho que ele não levantaria a voz nem se você tivesse

| Rebeca

matado aquela vagabunda.

― Rá

Matado? Eu?

dka, por favor, com limão

Matado

― Anna, veja só aquele cara

Não, eu não. Pois é

Mais uma vo- Matado

Rá. Só você mesma Beca

Ali no canto, com a garota loira.

― O que tem, Beca? Qual é o problema? – indagou sua amiga. Você o conhece por um acaso?

― Não por acaso. Grande cara. – respondeu. Namoramos uns dois

anos. Você estava fora do país nessa época, por isso não o conhece.

― Pelo jeito vocês não se entenderam muito bem, então.

― Putz, passamos dois anos juntos, e você acha que não nos entende-

Dez anos, talvez? Que

mos? Imagino se tivéssemos nos entendido melhor horror!

― O que aconteceu? – continuou Anna sobre o namoro “relâmpago”.

― Aconteceu tudo o que não deveria ter acontecido, isso sim. Ele me

traia com essa mesma loira que está com ele hoje. Coisa sem importância, só sexo. – respondeu Beca, mostrando não se importar enquanto lembrava-se dos fatos.

15

― O que está acontecendo entre a gente? – perguntava Rebeca ao na- morado. Estou fazendo algo que você não gosta?

― Do que está falando Rebeca?

― De você. É de você que estou falando. – respondeu a namorada do

passado. Quero saber o que está acontecendo, pois parece que não nos impor- tamos mais um com o outro.

― Como assim “não nos importamos mais”? – perguntou. Acabamos

de transar, e você pareceu ter gostado muito. Você chama isso de “não se im- portar” agora?

― Só estou perguntando. – disse ela, com o rosto deitado sobre o peito do rapaz. Foi apenas uma droga de pergunta. Me desculpe.

― Estamos a dois anos juntos, Rebeca; tudo bem que terminei com

você um ano atrás e em pouco tempo retomamos o relacionamento, mas você sabe o que sinto por você.

― Sim! Sei muito bem o que sente. – respondeu a garota de olhar triste,

Marco Buzetto |

porém disfarçado. Sei muito bem. E é exatamente por isso que me sinto assim. A garota então simplesmente vestiu-se com o que mais parecia um uni-

forme, pois quase nunca mudava o tom das roupas, sempre tons escuros, selan- do um beijo molhado no rapaz e dando-lhe as costas em um tchau sincero, tão sincero que fazia com que seus lábios tremessem ressecados. Fechou a porta

da frente

desaparecendo por completo em alguns segundos.

E o barulho do escapamento se distanciava a cada marcha trocada,

16

― Bom, foi mais ou menos deste jeito. – continuava Beca, contando o que havia acontecido com o casal do passado.

― Mas porque você não falou sobre a loira, a traição, as mentiras dele – indagou Anna, já com outro copo de vodka em mãos.

― Isso não mudaria nada Anna. – respondeu Beca. Sabe, eu já não

tinha esperança alguma nele, e, para ser sincera, sempre que ele mentia para mim com aquele sorriso hipócrita nos lábios eu me sentia um dia a mais em li-

berdade, ou talvez mais próxima dela. Então, preferi não prolongar minha dor.

― Tenho uma grande admiração por você minha amiga. – dizia Anna,

parecendo estar um pouco alta por causa das vodkas, ou será por causa do li-

mão? Por mais que as pessoas te façam triste, você sempre dá um jeito de sair

da situação ilesa

― Bom, não entendi muito bem, mas vou tomar isso como uma coisa

boa. – riu Beca, virando secamente dois dedos bem generosos de whiskey go- ela abaixo.

Mesmo abraçando a tristeza e não soltando dela.

Havia um lugar no qual Rebeca conseguia se sentir um pouco menos

triste, e este lugar era palco de muitas de suas transas e tristezas. Este quarto havia conhecido várias pessoas, homens e também algumas mulheres. Transar

com mulheres

Isso era uma rotina falha, que acontecia algumas vezes, mas

era uma das coisas que o volume máximo de álcool fazia acontecer na vida das

pessoas. Coisa de sábado à noite

Che-

Nada de mais. Muita música, muito álcool,

um pouco de drogas – bom, ninguém está mais nem aí para nada, então

ga de falsa moralidade – e o show atravessava a madrugada como uma agulha

atravesa a pele de um viciado em heroína. Mas Rebeca mantinha sua cabeça

| Rebeca

longe de certas coisas, às quais julgava altamente perigosas, viciosas; como o amor, por exemplo. Ela tentava manter-se o mais longe possível desse entorpe- cente pesado, de alto risco.

― Sabe Anna, acho que seu pai estava mesmo certo. – continuava Beca

com sua amiga ainda no bar. Esse lugar dá nos nervos, essa cidade. Sinto como se alguém pegasse meu coração e o usasse para limpar a privada de um banhei-

Eu tenho

certeza que os outros pensam a mesma coisa.

― Mas você não é. Não é uma prostituta. – amenizava, Anna. Você não

é uma prostituta, minha amiga. E você sabe disso, droga!

― Tem razão. Se eu fosse, tenho certeza que teria grana para tomarmos

mais um pouco de álcool. Além do mais, não dou importância para o que as pessoas pensam ao meu respeito. Metade da cidade não gosta de mim, e a outra metade sou eu que não gosto. Não sou uma prostituta por ter transado com vários homens, e algumas mulheres também – mas isso não vem ao caso agora. Quero dizer: uma mulher em um relacionamento estável então pode ser considerada uma prostituta por fazer todo o tipo de sexo com seu marido, transando com ele por todos os lados de maneira vergonhosa para ela, fazendo coisas bizarras, denegrindo sua imagem, só porque é uma mulher casada - por

ro público. Alguns pensam que sou uma prostituta, e outros, bom

17

um contrato? E eu, solteira, sou uma vagabunda por considerar o sexo parte de minha vida ativa nesse sentido? Não saio por aí transando em um carro velho, debaixo da sombra da porra de uma árvore. Nem ao menos em praças duran-

te a madrugada

saíram de casa rumo ao mercado da esquina. E também há esse monte muito

alto de mulher que se diz religiosa, e que por trás dos panos faz tudo o que os homens pedem, tudo o que elas secretamente querem, todos os tipos de sacana- gem; fazem tudo o tempo todo em qualquer lugar nojento. São as verdadeiras prostitutas, as religiosas: prostitutas de deus.

― É mesmo por isso que gosto de sair com você Beca, minha querida

Ou aproveitando para dar uma rapidinha porque meus pais

amiga. Ainda mais nos bares dessa merda de ninho maligno. Realmente a filo- sofia se faz no bar. – dizia Anna enquanto abraçava sua companheira. Mesmo que digam por aí que você tem um caso até com os padres e freiras

― O quê? – indagou ela dando gargalhadas. Um, um caso? Quer dizer

Marco Buzetto |

que estão dizendo que transo com esses bostas de padres? Puta que pariu, esses fofoqueiros estão ficando criativos.

Dias depois da bebedeira colossal, lá estava Rebeca em um banco que-

brado de praça. Ele parou diante de seus olhos, bem a sua frente, sentou-se como quem tivera voltado de algum lugar saído ha pouco tempo, cruzou os dedos de uma mão com a outra suspirando fundo

― Pare com isso. Você já está me irritando. – disse Rebeca.

18

― Eu estava com saudades dessa tua arrogância. – respondeu o rapaz. Pensei que não fosse me reconhecer.

― Não faz tanto tempo assim. Ou é você quem já não se lembra mais

de mim?

― Você está esperando alguém? – indagou ele, como quem estivesse preocupado em ser surpreendido.

― Deixa de ser palhaço, mas que saco. E daí se eu estivesse esperando

Fiz isso prati-

alguém? E daí se eu estiver aqui sentada, sozinha, por anos

cante minha vida toda, não é mesmo? Esse foi meu erro: esperar por alguém.

― Você faz parecer uma coisa tão horrível.

― Não sei o que passou pela sua cabeça, mas quando alguém me diz

que tudo vai ficar bem e no outro dia desaparece, eu logo imagino uma coisa bem ruim. Não dou uma festa para comemorar. – disse ela arrogantemente.

Falando nisso, você poderia me dizer por que resolveu se sentar aqui comigo?

― Cheguei hoje de manhã, e desde então estou andando por aí, lem-

brando os velhos tempos. Vi você, e é claro que fiquei com medo de vir até

aqui

― Presunção! Assim deveria ser seu nome. – continuou Rebeca com

suas palavras pesadas. Falando em chegar, você vai embora quando?

― Você pode tirar esses óculos escuros enquanto conversamos? – per- guntou ele.

― E você, pode tomar conta da sua própria vida? – perguntou. Ah, e

Mas mesmo assim senti saudade. – respondeu o tal velho amigo.

quando for embora, por favor, não se esqueça de não me avisar de novo.

― Agora você se importa em saber ou não se vou partir.

― Não me importo com você. Só me importo em sentar-me aqui nova-

| Rebeca

mente e não ter você para me encher o saco ou tomar meu tempo. – respondeu Rebeca, levantando-se do banco de cimento e partindo para sua caminhada solitária rumo a qualquer lugar ou lugar nenhum, como sempre. Rebeca um dia tentou ser feliz ao lado de um homem. Era um grande amigo, um grande amor: o verdadeiro amor, para dizer a verdade. Conheceu-o em seu tempo de escola, estudaram na mesma sala durante anos, mas nos pri- meiros tempos o “tal” tinha namorada. Começaram um lindo romance alguns dias depois dele tornar-se novamente solteiro, saindo de um namoro conturba- do. A mãe de Rebeca era totalmente contra o romance, pois era contra o este-

reotipo do então garoto. Infelizmente as pessoas se deixam julgar pela imagem (ou seria uma coisa boa?); o que os obrigou a um namoro escondido por algum tempo. Passados estes meses, uma “emboscada” feita flagrou o jovem casal em um ato depravado, inapropriado e imoral, sexualmente ativo no meio da rua:

Por mais

os dois estavam de mãos dadas. Isso. Isso mesmo. De mãos dadas

absurdo que pareça, a mãe e o pai de Rebeca, nesse momento, viram um filme

pornô do mais baixo nível possível passando diante de seus olhos, pelo simples fato das mãos dadas. Por alguns anos se estenderam, juntos; mas, nada que

valha realmente a pena, ou as lágrimas, ou o gozo

Agora, lá estava ele novamente, o tal (um nome qualquer), voltado

àquele antro majestoso, podre, contrastante, vindo de algum lugar onde passara seus últimos dias. E Rebeca, a jovem sedenta por si mesma, em um momento

Mas, na verdade, já não se importava mais com o lance;

revoltou-se ao vê-lo

sobre ele, sobre ela, sobre todos

Foda-se! Ela possuía consigo um frasco de

um perfume por ele usado em seu tempo de romance. Um perfume levemente

adocicado, mas de presença marcante e equilibrada. Esse frasco já estava vazio há muito tempo, mas ela ainda o guardava. Não queria comprar outro, novo, cheio; queria aquele mesmo, o frasco vazio, e por uma vez ou outra no ano criava coragem o bastante para tomá-lo em suas mãos, olhar fixamente para

Retirava-a, sentia

o vidro de textura e cor amarronzada de tampa laranjada

o leve perfume, sentindo também o doce de todas as lembranças possíveis em sua mente como se ainda estivessem acontecendo, como se os tempos fossem realmente aqueles, como se ela e seu amado fossem se encontrar logo mais a noite; e depois de todo esse ritual de flagelo e prazer mental, guardava-o nova-

“Ah quantos orgasmos”.

Marco Buzetto |

19

20

mente, como há anos acontecia sem ninguém saber. Certa vez, sua amiga Anna o encontrou, sem querer, e pergunto o motivo pelo qual Rebeca guardava um frasco vazio de perfume masculino. E nesse exato momento ela rapidamente socorreu-o das mãos de sua amiga, guardando-o em outro lugar, talvez mais seguro, sem falar uma só palavra a respeito. Mas Anna imediatamente enten- deu, capturou a resposta no vento. Sua amiga Rebeca era uma eterna apaixo- nada pelo passado, e também por um tempo presente que não mais possuía ou avistava diante de seus olhos. Depois de alguns minutos em silêncio, apenas

essa frase saiu pelos lábios de Rebeca: esse frasco não está vazio. Dentro dele há um filme cheio de detalhes. Naqueles momentos de lembrança, Rebeca conseguia até mesmo visu- alizar seus momentos mais íntimos com o tal retornado. Via-se em sua cama com ele, deitada daquela maneira: com uma das mãos estendida sobre sua bar- rida e face colada em seu peito com uma curta e masculina pelagem castanha. Via-se também usando uma das jaquetas do rapaz, sua preferida na época, de

cor verde escura, macia, quente, aconchegante

E quantas vezes a vestiu em

seu corpo nu, com os seios tocando a malha de algodão. No entanto, esses tem- pos haviam voltado à sua mente. Tudo estava novamente em seu lugar, mesmo que apenas nas lembranças de Rebeca sobre tempos felizes, mesmo tendo sido instáveis. Em uma de suas contagens, em um único ano, romperam o namoro

Putz, e ao menos sabiam o motivo. Começavam

o dia juntos, caminhando pelas ruas, e voltavam para suas casas cada um em

Fazer o quê? A vida é assim, cheia de falsas realidades e

esperanças mortas sobre a felicidade.

uma calçada. Mas

durante vinte e sete vezes

Em um de seus melhores momentos, ao menos um que poderia ser con- siderado melhor, Rebeca via-se como uma freira procurando a paz eterna junto de suas irmãs de convento. Não era uma fantasia sexual, ela considerava essas coisas inúteis e perigosas para um relacionamento, pois afastavam o casal de sua realidade. Mas mesmo assim, a jovem garota possuía algumas idéias de como seria sua vida, às vezes sob um manto sagrado e religioso, outras vezes como uma simples dona de casa cuidando de seu marido bêbado e alguns filhos analfabetos aos dez anos de idade. Ora, quem um dia não se imaginou em outra

| Rebeca

realidade, que não fosse a sua própria? E sempre nesses momentos de idéias sobre si mesma, Rebeca contorcia toda sua face, fazendo expressões sinceras e descontentes com o que passava em sua cabeça. ― Essa coisa de família realmente me assusta. – dizia ela a si mesma.

Será que prostituta divina seria uma vida melhor? Eu não me afastaria de deus, tão pouco do bom e velho, e confuso, e deprimente sexo. Mas falando assim, parece mesmo uma coisa ruim. Rebeca sabia, é claro, que somos nós mesmos que decidimos ganhar ou perder na vida; podemos escolher. Mas tudo não passa de um jogo sórdido,

impuro, traiçoeiro

Coisa que só um trapaceiro pode fazer bem, em sua total

naturalidade. Essa é a vida de Rebeca: um trem louco que não para em estação

alguma, mesmo sendo seu destino; esse trem passa batido por vários caminhos,

e só para quando o combustível acaba. Por vezes Rebeca decidia arriscar-se

deitada sobre os trilhos fumegantes dessa pesada e dolorosa locomotiva

Mas

na manhã seguinte seu corpo estava dolorido apenas pela pressão masculina. Realmente não podia contar com o suicídio como solução final. Mas tentava

E tentava. Um suicídio moral, mental, individualmente irrelevante. Ela não

pensava em tirar sua própria vida; não teria coragem o bastante para tal ato. Mas também não podia mais aguentar esse mundo sujo. Seria melhor mudar-se para junto de alguma tribo indígena da América do Sul, ou isolar-se por com- pleto em uma montanha qualquer do mediterrâneo. Porém, aqui estava ela, em uma tribo chamada desafio, por vezes conhecida como cidade pesadelo, onde

Mesmo sabendo que não

os indivíduos comportavam-se como civilizados

passam de chimpanzés evoluídos (apenas fisicamente, é claro).

21

Em uma de suas conversas de boteco, Rebeca e Anna conversavam so- bre a vontade da segunda em lecionar, pois acreditava já estar preparada para tanto. Rebeca, em sua negatividade corriqueira, brincava com Anna, dizendo que o governo deveria dar treinamento militar aos professores, e uma arma semi-automática, por conta de alguns casos (cada vez mais comuns) que costu- ma-se ver nos noticiários sobre agressões de alunos para com os professores e pais, e tantos outros adolescentes confusos promovendo chacinas em escolas. A falta de interesse educacional dos jovens e sua agressividade não é

Marco Buzetto |

22

um problema isolado, não podem ser culpados apenas eles próprios. Existe todo um contexto social que envolve o processo educacional dos alunos: es-

cola, família, sociedade, religião, influências internas e externas, retrocesso do modelo de educação atual o qual castra o aluno, deixando-o nu de toda sua capacidade de aprendizado e criatividade dentro e fora da sala de aula.

― E não sei até quando o sistema educacional irá aguentar antes de se

jogar de cabeça nos trilhos. – dizia Rebeca. O que fazem com as crianças e jovens é uma verdadeira barbaridade. A escola de hoje ainda mata a criativida-

de, desencoraja as capacidades intelectuais e artístico-culturais dos indivíduos

e tiram todo seu ânimo de juventude. Os professores dizem ainda que estão

formando os alunos para o “mercado de trabalho”. Mas, que mercado de tra-

balho é esse? Qual será o mercado de trabalho, a sociedade, a vida real para

a qual esses modelos fajutas e ultrapassados atuais ainda insistem em estarem formando as pessoas? Nem ao menos os próprios professores compreendem o que estão fazendo. Não compreendem os reais problemas. Não compreendem

que eles próprios estão no centro desse problema. Quanto mais compreenderão

como resolvê-lo. Claro, o assunto não ficou rodeado apenas de teorias para melhoria da qualidade de vida do ser humano. Também se falou muito de muita bobagem, ainda mais com goles e goles goela abaixo. Um dia desss, boom!, combustão espontânea. E bem vida uma nova crise social.

― Bom Beca, tenho que ir. Meu pai quer encontrar com uns amigos da

academia militar e eu vou junto. Ainda me trata como uma criancinha, sua fi-

lhinha. Só espero que esses palhaços não pensem que sou a entrada do cardápio masculino. Sabe como é

― Boa sorte! – disse Beca brincando. Espero que você não pense que

eles são uma presa em seu cardápio de insanidades. Deixa que essa é por minha conta, minha amiga. Nos vemos por aí Rebeca resolveu ficar um pouco mais em um daqueles bares que as jovens costumavam fazer suas turnês, talvez para o último, ou penúltimo ou antepenúltimo copo de whiskey, que, dependendo da noite, era do tipo cowboy. Uma verdadeira rainha das mil noites.

― Posso?

| Rebeca

― Bom, teoricamente este é um país livre. Você pode se sentar onde

quiser desde que não me aborreça. – respondeu Rebeca.

― Qual é seu nome, gracinha?

― Meu nome é nãoteinteressovisky. O que acha? – respondeu ela seca-

mente. Você não tem mais o que fazer? Vai ler um livro ou fazer palavras-cru-

zadas

― Você é muito arrogante, sabia? Porque está me tratando assim? Eu só

quero conversar, e quem sabe pagar um drink. Assim a garota respirou fundo, pediu outro copo de destilado de malte

para o barman, e disse que o “cavalheiro” ao lado iria pagar aquela. O barman delicadamente fez seu trabalho, colocando três dedos de whiskey em um copo sem gelo, e retirou-se.

A garrafa fica. – disse a garota. Não disse que essa é por conta

do cavalheiro aqui?

― Você não acha que está passando dos limites? – indagou o rapaz, sorrindo e tentando se aproximar.

― E você, não acha que deve tomar conta da sua vida? Você disse que

iria pagar um drink

Bom, eu já estava bebendo um. Além disso, você estava

pagando algumas rodadas aos seus amigos ali atrás. Uma garrafinha ou outra

não vai fazer diferença no cartão de crédito do seu pai. – respondeu ela, en- quanto completava o copo e olhava ironicamente o rapaz. Além do mais, eu não transaria com você sóbria.

Vai tocar uma no banheiro, se quiser, desde que não me encha o saco.

― Não

23

― E quem disse que quero transar com você? – indagou ele.

― Você esperou, covardemente, eu ficar sozinha para criar coragem de

vir até aqui, e com certeza deve ter feito algum tipo de aposta com seus amigos playboys ali. – dizia ela. Deve ter pensado que sou uma garota fácil, por estar

Ou todas possíveis. Mas faço isso

há anos, e não me comovo com o fato de um agroboy como você pensar que pode me levar para a cama quando quiser. Rebeca chamava-o de agroboy por conta deu estilo de vestir. Era mes-

sentada aqui no balcão bebendo algumas

mo um filho de fazendeiro, do tipo riquinho que esbanja a grana do pai. Então,

a garota dava essa terminologia para este tipo de pessoa boy: um agroboy.

Não mais um play-

Marco Buzetto |

24

Já em outro cenário, lá estava a jovem Rebeca cavalgando o corpo do

tal rapaz sequer apresentado. Ela não precisa saber seu nome, já que em poucas horas nunca mais trocaria uma só palavra com ele. É claro que a garrafa de whiskey havia secado até a última gota; aliás, uma no bar e outra na cama da- quele motel fedorento em beira de pista, enquanto Rebeca sufocava com suas mãos aquele rapaz.

o que está fazendo garota? –

perguntava ele assustado, tentando livrar sua garganta das mãos da garota. Está

louca? Me solta!

Só quero dei-

Não só um falso orgasmo com-

xar algo para você não se esquecer de mim

prado com whiskey. A garota Rebeca saiu daquele maldito quarto de motel, já vestida, e ru- mou para casa sozinha. Mas dizer que nunca mais gostaria de ver aquele rapaz novamente seria exagero, pois, ela não se importava o mínimo sequer com tudo aquilo. E ele realmente mereceu o que teve, uma marca que o chocou, levan-

do a questionar seus pensamentos a respeito daquela “transa fácil”. E quanto a Rebeca? Bom, ela sabia que seu fim seria o mesmo de todos os outros, ou ainda pior sobre esse: aquele velho olhar vazio, mórbido, que questionava a si mesma. O que havia de errado com ela então, se sabia bem o que aconteceria? Onde estava o problema, se é que havia algum para julgarmos sua moral, ou

sua sanidade, ou a falta das duas coisas? Rebeca fazia o que queria, o que desse

vontade

Mas, claro, nada que arriscasse sua vida, pois conhecia bem seus

limites. Esta era uma das coisas admiráveis nessa garota: conhecia bem seus limites, até onde podia e queria chegar. O que falta em muita mulher em seus tempos, e precocemente em um bando de meninas cheirando a leite e urina em suas calcinhas.

― O que

O

O que você está, rufh

― Você não está gostando? – indagou ela ironicamente

― Como este lugar é mesquinho. Que droga. – dizia Rebeca a si mes-

ma. Mas o problema é que não consigo me afastar daqui. O que me prende a

essa cidade de merda? Droga! Acho que nunca vou parar de reclamar. Recla- mar sozinha, aliás. Cada vez mais sozinha.

― Sabe Beca, eu sei muito bem do que você está falando. – completava

| Rebeca

sua amiga Anna. Meu pai vive reclamando desse lugar, assim como você. Mas

ele resolveu entender que o problema não estava nos locais, e sim nele próprio. As coisas por aqui são mesmo uma bosta, mas temos que dar um jeito de ver tudo de uma maneira diferente.

― Anna, seu pai é maluco, isso sim. Ele sabe que esse lugar não vale

nada, e eu tenho certeza que ele não desistiu de falar a respeito disso. Apenas não há nenhuma novidade para ele o fazer; nada que o motive a continuar tentando por na cabeça das pessoas que elas devem mudar seu comportamento medíocre, superficial, para que possam mudar suas próprias realidades de ma- neira proveitosa. – disse Beca. Mas quem sou eu para falar essas coisas, não é

mesmo? Uma ninfomaníaca

― Olha Beca, que as pessoas daqui não valem nada, disso você tem ra-

zão. E que esse lugar também não vale um peido, bom, provavelmente também

esteja certa. Agora, dizer que você é uma ninfomaníaca, daí eu já acho exagero. – dizia Anna, sorrindo. É claro que você não é só uma simples ninfomaníaca. Você é ninfomaníaca, independente de qualquer outra coisa.

― O que você pensa a respeito daqui, desse interior metido à metrópo-

le, Anna? – indagou sua amiga. Você que já viveu em tantos lugares, conheceu tantos povos e costumes, outros corpos e camas; o que você pensa a respeito dessa merda, dessa fossa?

― Bom, eu não sei o que pensar. Eu nunca poderia comparar o “aqui”

com todos os pontos do mundo. Seria uma puta covardia. É claro que o maior lixo daquele lado é o paraíso se comparado com aqui. – respondeu Anna. Po- rém, prefiro manter a opinião do meu pai, e também a sua. Você sabe muito bem o que penso sobre esse nosso lugar. Esse lugar está perdido, condenado.

Acho que é a água, ou o ar, ou qualquer coisa. Um símbolo de atraso, isso sim.

― Adorei! – exclamou Rebeca. Vamos beber a isso. Hei senhor bar-

man, você já sabe o que fazer. Mas por favor, nada daquela sujeira que você chama de castanha. Obrigado. Isso mesmo jovem Rebeca. Vivendo, amando; é simplesmente uma mu- lher. Uma mulher feita que não deve nada à ninguém, nem ao menos uma ex- plicação sobre seus prazeres. É isso mesmo, este lugar não vale absolutamente nada para ninguém. Na verdade, tudo vale nada para ninguém. O problema é

Amiga da filósofa assassina.

Marco Buzetto |

25

26

que a coragem para afirmar isso estava em poucos. Uma puta falsa devoção. Pois, é claro que todos os locais, todos os lugares possuem seus defeitos. Mas é que aqui, como diz você, Rebeca, na cidade pesadelo, a coisa é escandalosa, escancarada como as pernas de uma prostituta barata. Uma sujeira social que não deixa nenhum olhar se focar em outra coisa. Um fedor humano insuportá- vel que impede qualquer um de respirar fundo meio à multidão, pois tamanha era a impostura das pessoas. Aqui, ali, por toda parte neste meu interior metido à metrópole, havia espaço suficiente para que todos vivessem suas realidades, formando apenas uma. No entanto, os pobres gostam de viver pensando e acreditando ser exa- tamente o que o governo prega que são: pessoas em ascensão social. Para co- meçar, diria Rebeca, “ascensão é o caralho”! Pobre não tem ascensão alguma. Tudo não passa de uma ilusão sem tamanho, sem cabimento. Mas o problema

não era essa ilusão: é o pobre acreditar que ele não faz parte disso, que ele pode se tornar um milionário da noite para o dia, simplesmente por que comprou

um carro novo, ou uma casa, ou uma porra de uma bicicleta

que parcelou tudo em um zilhão de vezes, que até seus filhos, se bobear, irão

trabalhar para pagar estas contas. Por outro lado, os ricos

Bom, deixa pra lá.

E se esquece

É melhor assim. Esse assunto já encheu o saco, não é? Rebeca transmitia seu lado filosófico a todo tempo – que, na realidade, podemos dizer que é uma das matérias que matam nossa inocência (ignorân- cia) aos murros e pontapés, sem dó nem piedade. Mas ela mesma dizia que esse “dom” estava dentro dela, e que todas as pessoas o possuíam. No entanto, algumas (a maioria) simplesmente apenas faziam questão de não se valer disso – por conta daquele velho contexto social: a falsa devoção. Mentindo para si mesmo até acreditar que o que dizem é a mais pura verdade. Em determinado período da vida, Rebeca sentia-se absolutamente iso-

lada, como em uma praia deserta talvez, na qual possuía tudo o que necessitava a sua volta, porém, com o detalhe de não haver nenhum tipo de entretenimento. Mesmo com sua amiga Anna ao lado na maior parte do tempo, ela preferia

Mesmo que esse fosse um fato um tanto con-

permanecer inerte, na escuridão

traditório e intrigante. Pois assim poderia pensar, marteladamente nos revezes de sua vida. E sua válvula de escape, sempre que possível, era o sexo.

| Rebeca

Conheceu então uma pessoa que satisfazia suas necessidades naquele momento; resumindo mais uma noite de sua vida em mais um momento con- flitante em si.

O questionador

― E você se acha especial fazendo isso?

― Especial? Penso que devo ser tudo, menos especial. Mas nunca parei um minuto para pensar a respeito, digo, profundamente.

― Então pense.

― Agora? Você quer que eu pare para pensar em minha vida justo ago- ra? Quero dizer, nesse exato momento? – indagava Rebeca.

― E porque não? O que mais temos para fazer? – perguntava o rapaz.

Já fizemos tudo o que tínhamos para fazer essa noite. O que mais você quer? Já bebemos, transamos, bebemos e transamos mais.

― É mesmo. A noite já está terminando e nós estamos aqui ainda, sem saber mais o que fazer.

― Então ?

― Eu não sei por que faço isso, tá legal? Não sei. E também nunca

pensei que isso pudesse ou não ser errado. O conceito de certo e errado está muito distante da realidade. Não posso dizer que sim ou que não com tamanha certeza.

― Mas você se deita comigo há anos, e sempre acontece à mesma coisa

no final, depois de três ou quatro orgasmos e os lençóis encharcados. Sempre existe alguma coisa te incomodando.

Pare com isso. – dizia Rebeca. Como se você estivesse

mesmo preocupado. Nós viemos para cá, bêbados, transamos e bebemos ainda mais. Você não está contente com isso? Não é isso o que você precisa, o que

você quer? Transar a noite toda e me fazer gritar, mesmo que sem vontade; não é o que você planejou para essa noite?

Bom, na verdade tran-

sar com você sempre foi muito bom, e é uma coisa que sei que você gosta, e que também me satisfaz. Mas, às vezes, fico preocupado com você, sincera-

Marco Buzetto |

― Ora, vamos

― Rebeca, eu não estou preocupado com isso

27

mente. – continuava o rapaz. Sempre que você se deita sobre mim, parece que

eu sinto sua tristeza, ou algum tipo de remorso que pesa encima do meu corpo.

Eu não sei o que fazer nessas horas

― Você não precisa fazer nada. – respondeu ela. Você e eu fazemos o

que escolhemos fazer, e o problema não está em você, se é que há problema

algum. Estamos aqui, agora

Pois já conversamos muito.

Não se preocupe com nada.

― É um pouco difícil, sabe.

― Que tal transar um pouco mais? Ainda não estou tão cansada assim

A noite fora um pouco monótona para Rebeca, sexualmente falando.

Mas o fato é que aqueles poucos minutos de conversa, internamente, claro, fi- zeram com que essa jovem garota infeliz volta-se por um minuto o pensamento para si mesma. Mas não de maneira desatenta, pois, era a primeira vez que alguém que não fosse sua amiga Anna questionava sobre ela daquela forma, de maneira tão prestativa e preocupada. Porém, como dissera Rebeca: foi só mais uma transa. Ainda mais com uma pessoa tão desconhecida como era aquele tal “questionador”. Às vezes escapava da boca de Rebeca algo do tipo “menos

conversa e mais pressão”. Uau, isso rasga os ouvidos

estranhamente.

― Rebeca conte-me mais sobre suas aventuras. – pediu uma outra ga-

rota, conhecida em um daqueles bares imundos que mais pareciam um zooló- gico, ou algo do tipo.

― Certo, lá vai. Certa vez eu estava com um amigo, amigo mesmo, e

saímos para comer umas pizzas. Encontramos no local uma pessoa conhecida

por ele, um amigo da época de escola, acompanhado pelo que poderia ser uma namorada. Porém, bem mais velha que ele, uns dez anos no mínimo. Mas isso eu fui saber alguns tempo depois, quando chegou sua filha com o namorado. Eu fiquei de boca aberta, pois a mulher parecia ter no máximo uns vinte e

poucos anos

Mas quando a filha chegou, minha visão mudou completamen-

te, pois a menina estava com dezessete anos, completando dezoito algumas semanas mais tarde.

― E o que aconteceu? Vocês fizeram uma puta orgia sexual? – pergun- tou a garota, brincando.

― Bom, orgia sexual deve ser o que sua mãe faz com o cachorro quan-

do seu pai está num motel qualquer com um travesti. – respondeu Rebeca, sem gostar da piada desafiadora daquela menina. A noite se passou maravilhosa-

mente, e no final, ainda na mesa, estávamos apenas em quatro pessoas: a mãe e

a filha, o namorado da filha e eu. Terminamos a comilança e a bebedeira, mas

a mulher, uma tal de Gi, queria ficar um pouco mais, e quem sabe tomar outro

drink. Tudo bem, ficamos mais um pouco por ali. Um drink a mais, outro, ou- tro, risadas, piadas, brincadeiras com os pés e as pernas por debaixo da mesa Coisa de bêbado. Era o que eu pensava. A perna dessa tal Gi, que eu nunca descobri o nome correto, começou roçar na minha perna sem parar, como se possuísse vida própria. Eu ria, e fazia o mesmo. De repente ela estava passando as duas pernas nas minhas, de cima para baixo, vai e vem, coisa e tal. Mas eu percebi que uma daquelas pernas vinha de um caminho um pouco diferente Então era a do namorado da garota, pensei eu. Mas não! Era exatamente o contrário: a garota; a tal de Nathália, a filha. Eu não acreditei na hora, claro. Mas o olhar daquela menina de dezessete anos entregou totalmente o ouro, não podia negar. Engoli seco, e matei a sede com uma virada firme numa dose de gim sem gelo.

― Beca

É assim que todos te chamam? – indagou Gi.

― Pois é, a maioria. Mas prefiro deixar essa liberdade só para os mais chegados, os mais íntimos, sabe.

― E o fato de nós duas estarmos nuas na minha cama não nos torna ainda mais íntimas?

– dizia Beca, enquanto continuava beijando a

mãe da garota. No entanto, penso que existam coisas tão mais pessoais do que um corpo penetrando outro, sabe, mesmo com os dedos e a língua. Apensar de isso ser o ápice da intimidade.

― Não entendi. – respondeu Gi. O que você quer dizer, já que isso o que estamos fazendo é o ápice da intimidade?

― Bom, quando duas pessoas transam, por exemplo, é um ato amoroso,

disso eu não tenho dúvida (claro, caso as pessoas em questão estejam interes- sadas nesse sentimento uma pela outra). No entanto, acho que um beijo, ou

― Você pode ter razão

Marco Buzetto |

29

30

melhor, um abraço é muito mais íntimo. Não que as pessoas devam sair por aí transando uma com as outras ou com todos descaradamente, sem o mínimo de pudor ou respeito próprio. Mas acredito que um abraço transmita muito mais sentimento do que uma noite de sexo, que é apenas um meio de descarregar-

mos as baterias, sabe

explicar o que penso.

― Sim, está sim. Estou entendendo perfeitamente. – respondeu sua

companheira momentânea de cama. Você está dizendo que o sexo serve para isso mesmo: sexo e pronto, por mais que exista sentimento. Já, um abraço,

além do beijo, possui sentimento real, que não necessita de sexo para se mos- trar ao outro.

― Exatamente! – exclamou Beca. Você entendeu melhor do que eu

consegui explicar.

― Às vezes penso assim também, mas normalmente esqueço, pois não

tenho com quem conversar a respeito. – dizia Gi, acariciando o corpo de sua nova amiga íntima enquanto esta a beijava o pescoço e os lábios, todos os

lábios. Além do mais, você tem pensamentos bastante voltados para a intros- pecção, não apenas ao cérebro como um pedaço esponjoso e nojento de carne. Rebeca e Gi continuaram seu ato misturando filosofia e sexo em uma só

coisa. E aquela mistura funcionava muitíssimo bem, tanto no âmbito do instin- to quanto no desenvolvimento do diálogo intelectual. A conversa durou a noite toda; mas, é claro, não somente a conversa em seu contexto verbal, também o

corporal, artístico

beca sobre uma nova experiência estava ali lançada, meio a um bando de gente se embriagado, enchendo suas caras de um modo completamente impróprio e imoral, se é que exista algum tipo de etiqueta para se poder tomar um porre. Uma história repleta de conteúdo a ser aprendido. Porém, o que omitiu de seu conto fora a nunca-esperada manhã seguinte; pois, normalmente Rebeca se

Sabemos bem como é. E mais uma história pessoal de Re-

Não sei se está claro para você, se estou conseguindo

sentiria um lixo, por conta daquela velha história de sentir-se culpada, incom- pleta e infeliz depois do sexo.

― Parece que dessa vez foi diferente, então, Beca. – dizia Gi, sua nova experiência pessoal, física e intelectual.

Transamos

― Parece mesmo diferente. Transamos, conversamos

| Rebeca

enquanto conversávamos e conversamos enquanto transávamos, e eu não me

sinto como em qualquer outro caso agora que paramos. – respondeu Beca.

Essa experiência. Que, para dizer

a verdade, foi muito boa. Eu nunca havia tido uma experiência lésbica como

essa. Normalmente as outras garotas querem enfiar coisas em mim: pintos de

borracha, controle remoto do rádio

ter havido nada disso, me senti muito bem, bastante à vontade. Não digo pela experiência sexual, pois já tive algumas, como já disse. Mas pela experiência

Mas com você foi diferente. Além de não

Sabe, creio que seja por causa da novidade

pessoal com você. Você é uma excelente pessoa, bastante centrada, inteligente,

respeitosa

entende

Mas, como se eu estivesse beijando dinamite. Se é que você me

― Então foi assim? – perguntava uma das garotas no bar, querendo

saber o final da história sobre outra experiência sexual de Rebeca, que pudesse lhes servir de estímulo, de exemplo.

― E vocês não acham que está bom? – questionou a dona das palavras.

Quando comecei falar sobre isso, só havia uma de vocês escutando, além de

Anna. Agora estão em duas, três

boa história, então. Não acham? O que acha, Anna? ― Acho que já está bom por hoje. Essas garotas precisam ir para cama, sozinhas, de preferência. – respondeu sua amiga, sorrindo. Além do mais, já beberam e ouviram bastante sobre sexo. Foi experiência demais para uma noi- te. Terão muito sobre o que conversar e fazer nas próximas semanas. As novas “seguidoras” de Rebeca fizeram então o que Anna propôs, e rumaram para fora do bar, deixando as duas amigas novamente na companhia uma da outra apenas. Mais um copo de vodka para Anna, agora com maçã ao

Quatro garotas a mais. Deve ter sido uma

31

invés de limão, o que seria uma extravagância pessoal ao momento, e um velho whiskey para Beca.

― Beca eu posso estar enganada, mas lembro-me aquela história tinha

outro final. – disse Anna.

― Bom, eu não disse que só descobri o nome inteiro dela alguns meses

depois. Mas acho que isso não tem importância., não é? A moral da história é uma só. Se é que uma história dessas tem moral, ! E

Marco Buzetto |

― Não estou falando disso, minha amiga. – continuou Anna. Porém,

mesmo assim, você não contou como descobriu o nome certo dessa tal de Gi.

― Você é muito boa de cama.

― Não sou boa apenas na cama. – respondeu Rebeca.

― Tenho certeza que não. Mas gostei muito do que fizemos hoje. Eu nunca havia tido uma experiência como essa, para ser sincera.

Nunca com

outra garota? Eu pensei que

― Como assim? Você

Digo, você não, nunca

Sabe

Você pareceu tão

Sabe

Sabe

― Pensou que eu fosse como a Giovana?

― Como quem? – indagou Rebeca, sentando-se à beirada da cama.

32

― Como a minha mãe, Beca. – respondeu Nathália com h. Só porque

ela faz este tipo de coisa, dormindo com quem aparece na frente, ou por trás, ou com quem paga uma porra de uma dose de gim, quer dizer que também faço o mesmo? Quer dizer que sou também uma mulher sem respeito?

― Não Nathália. Eu não disse nada desse tipo. – respondeu Rebeca. Eu

nunca falei nada assim sobre sua mãe, tampouco sobre você. Além do mais,

eu não fazia a menor idéia de que você sabia o que andou acontecendo entre a gente. Mas não me arrependo. Muito menos de ter acontecido também com

Não que

todas as mulheres já tenham tido uma experiência lésbica. Mas isso não me passou pela cabeça, pois você estava tão certa de querer transar comigo. Logo notei, naquele dia em que nos conhecemos. Além do mais, Nathália com h, eu nunca iria querer magoar você. Essa jamais foi minha intenção. Desculpe-me.

você. Eu só pensei que você já tivesse tido esse tipo de experiência

Eu levei um puta susto. – continuou Rebeca en-

quanto gargalhava ao se lembrar de alguns dias depois do encontro com Gi. Quando ela falou Giovana eu fiquei pensando “quem será essa vagabunda”?

Mas daí ela falou que era a mãe

― Ainda bem que você não contou esse final para as meninas. Seria um

puta choque. A maioria delas tem a idade da Nathália hoje: pouco mais de vinte anos. De duas, uma: ou elas te mandariam tomar naquele lugar onde o sol não bate, ou logo flertariam com você. – completou Anna, também gargalhando.

Rá, rá, rá

Puta que pariu, que cena

| Rebeca

Bem, como se já não flertassem o suficiente.

Para Rebeca nada disso era motivo para se orgulhar. Ela tinha em mente os erros que cometia em sua vida, e vários acertos também. Possuía nítida no- ção do que fazia, mesmo às vezes sobre efeito do volume alcoólico das “águas de malte”. Sabia bem que dormia com homens e algumas mulheres. E, por mais que aquele velho sentimento pesado não tenha aparecido quando conhe- ceu Giovana, isso não queria dizer que estaria livre de suas culpa e infelicidade perseguidoras. Para ela, a melhor forma de não sentir qualquer tipo de pesar era a pura e reconfortante solidão. Dito isso, vamos para outra parte desta história infeliz

33

Marco Buzetto |

34

Parte II

― Porque me sinto assim? – indagou Rebeca a um psicólogo. Porque

sinto esse sentimento de pesar em minha mente, ou em o que poderia ser meu espírito?

― Os problemas com seu espírito eu não posso resolver, pois sou um

homem de ciência, não um guia religioso. – disse ele. No entanto, acredito que você se sinta assim por conta das atitudes que toma sobre si mesma.

― Está dizendo que o que eu faço interfere diretamente em meus senti- mentos sobre mim mesma?

― Teoricamente sim. – respondeu ele. Veja: se você não tiver controle

sobre si, em relação ao que faz e fala, e saber que isso tudo não está errado, ou que você é culpada por alguma coisa, então tudo vai fazer você se sentir dessa maneira, ruim. Você escolhe sentir-se assim ou não, pois, vez ou outra você acredita estar errada, ou fazendo algo errado, e isso faz com que aquele sentimento de culpa e infelicidade reapareça.

― E eu estou pagando você para me dizer isto? – indagou Rebeca. Isso

qualquer bêbado de sarjeta pode me dizer, antes que um cachorro lamba sua boca. Além do mais, isso eu já sei faz tempo; e até prefiro às vezes acreditar que estou mesmo errada em alguma coisa. Do contrário, que graça teria minha vida? Preciso de novos questionamentos, novas verdades, novos pontos de vis- ta, novos vícios.

Mais uma noite, não é mesmo Rebeca? Então é assim que sua vida se

auto-resume: sexo; não importa em qual ocasião, não se importando com quem ou onde; ou sobre o quê. Como um trovão que soa nítido transpassando todo

o céu

dos agudos deitada com outra mulher. Importa-se apenas com fato importante para si mesma: o cenário. Sempre dizendo: está tudo bem, sempre está tudo na mesma, tudo absolutamente normal nessa porra de lugar. A cidade de pessoas imaginárias tornou-se palco de mais uma história “exemplar” para com seus conterrâneos amaldiçoados, seus filhos do atraso e da falsa esperança. Donos

| Rebeca

Assim são seus gritos de prazer sob o corpo de um homem, ou gemi-

da falsa devoção. Como se não bastasse um assassino degenerado, agora tam- bém uma devota ao sexo, mesmo que não possamos chamá-la de prostituta; pois realmente não o é. Rebeca é apenas uma garota que gosta de dar murros na cara das pessoas e do sistema moral e hipócrita onde, de alguma maneira, vive. Encontrando-se com um psicólogo, teoricamente um possuidor do con-

trole sobre si, Rebeca, apesar da gota de preocupação sobre si, fez-lo enxergar que não passa de um simples mortal, uma pessoa qualquer que se resume em instintos animais, e vontades bizarras em seu corpo sobre o próximo. E mesmo que sua noite tivesse terminado daquela mesma e batida forma, lá estava outro membro do clube de ensinamentos de Rebeca, um clube no qual só entravam aqueles que realmente mereciam, alguns porcos do sistema, que gostavam de vangloriar-se por serem eles mesmos, fantoches de si mesmos, mentirosos de cara dura que apontam o dedo no nariz de todos e todas, e esquecem seu re- flexo no espelho. E era isso o que Rebeca fazia: apontava-lhes o dedo; de preferência, o médio. ― Você é só mais um saco de carne podre. – dizia ela ao psicólogo ain- da despido. Não passa disso, e mente dizendo que não. Pensa ser um homem

Que nostalgia. Tenho dó de gente como você. Sendo que, quando

menos espera, mostra sua verdadeira face de merda, de hipocrisia. Falando

nisso, você não é casado? Claro que é

que a minha. Como alguém como você tem coragem de se chamar de profis-

Uma vida infeliz. Talvez ainda mais

de ciência

35

sional, querendo auxiliar as pessoas em suas dificuldades e problemas, quando não consegue ao menos resolver seus próprios conflitos? Saco de carne podre Nesse caso, Rebeca pegou sua vítima em um ponto fatal para os ho- mens: agarrou-o pelas bolas. Um ato que acontece muito com as pessoas. Po- rém, poucos desses conseguem omitir o que realmente acontece. Casados, por exemplo, mentem para seu arredor por pouco tempo, pois, suas amantes se alertam, quando alguém não o faz, lembrando que se um homem, ou mulher, trai seu parceiro, o que impede este de também ser traído com uma terceira ou quarta pessoa? Daí para a revelação é apenas uma questão de tempo, ou de cansaço. As pessoas saem por aí atirando seu amor, e acabam manchadas de sangue em um documento de divórcio. Ninguém, para Rebeca, valia mais nada

Não que a garota se sentisse o centro do universo. Ela realmente

ao seu redor

Marco Buzetto |

via no rosto de cada um seus verdadeiros pecados. Pois, ninguém pecava por acaso por detrás dos muros. A cama de pesadelos constantes, do sonhar acor- dado, sempre fora palco de histórias pessoais que marcam uma década na boca de seus moradores. Histórias ruins, e outras péssimas, que servem de exemplo, mas que sempre aparece um copista para reproduzi-la. E aqui está outro destes copistas, descrevendo um pouco mais da histó- ria de uma garota qualquer. Sendo assim, vamos a um pouco mais disso. Um

copo de vodka, outro de whiskey, e está aí a receita necessária para uma nova composição.

― E se você ousasse fazer algo diferente, minha amiga? – indagava a

bebedora de vodka. Por que você não muda sua técnica?

― Do que está falando, Anna?

― Estou dizendo que você deveria tentar mudar sua linha de raciocínio.

continuou a amiga. Ou seja: porque você não tenta parar com suas aventuras,

e

não se atém a uma única pessoa?

36

― E você quer que eu faça isso antes ou depois de assinar meu nome no

obituário? – brincou a bebedora de whiskey sem gelo. Você deve estar louca,

isso sim. Eu não vou fazer isso. Seria um verdadeiro suicídio. Existe tanta gen-

E nem estou falando sobre sexo.

Seria um puta egoísmo passar o resto dessa minha vida desgraçada com uma pessoa só. Até mesmo egoísmo de minha parte querer que alguém permaneça comigo por toda vida.

― Vou fingir que não ouvi isso. Pode ser? – brincou Anna. Além do

mais, que mal há em tentar? Você poderia muito bem conseguir qualquer pes- soa que quisesse, onde quisesse. Você sabe muito bem.

― Esse lugar mesquinho não precisa de mais uma metida à conser-

vadora. Precisa de uma vigarista, isso sim. Uma brincalhona como eu. Uma

verdadeira trapaceira das mentes e sentimentos. As pessoas daqui só têm uma coisa a mais que eu: têm mais é que se foderem. Eu acho que sou para essa cidade fantasma o que estranhamente o número dezesseis é para mim: um per- seguidor. O que você acha?

― Do quê? – perguntou Anna, com os olhos já avermelhados. Desculpe

Beca, eu estava distraída aqui com minha vodka. Isso aqui é mesmo bom

te nesse mundo que eu ainda não conheci

| Rebeca

Olha

que coisa. Maçã

Maçã. – respondeu Beca. E existem pessoas que preferem con-

versar com outras pessoas, enquanto há maçãs por aí precisando de um pouco de atenção, precisando ser misturadas a vodka.

― Sabe Beca, às vezes penso que você está mesmo certa. Não que eu

viva pensando que você esteja ou deixa de estar errada. Não é isso. É que em alguns momentos eu paro para pensar a respeito de tudo isso que acontece com você, coisas que você busca. – dizia Anna, já um pouco alta. E realmente

acredito que você esteja certa. Você não deve satisfação de sua vida a ninguém, toma conta do seu próprio nariz, depende apenas do seu trabalho, e se diverte sempre que procura se divertir, sobre todos os pontos de vista possíveis. Às

vezes eu tenho inveja de você

― Pois não tenha, minha amiga Anna. – respondeu Beca. Eu sou uma

pessoa muito difícil de lidar, seja como amiga ou uma pessoa dentro de um relacionamento. Às vezes canso a mim mesma; você já dever ter percebido

Para se ter uma idéia de como sou chata sobre tudo. Por que acha que só tenho você como minha verdadeira companheira?

– brincou

Anna. Ah, mas é claro que eu sei disso. Mesmo assim, eu admiro você em todas as circunstancias. Além de tudo, se é que nesse “tudo” tem algum pro- blema, você é uma pessoa verdadeira, íntegra. Você não é como todos estes sonhadores interioranos, por exemplo, sempre fingidos, falsos como aquelas fruteiras de plástico. Você não fica de papo furado fingido tudo estar bem a sua

volta, fingindo que sua vida está ótima só para não ter o trabalho de cair na real

e mudar o que precisa ser mudado.

Ainda mais com maçã verde. Porque eu não pensei nisso antes? Maçã

quem diria

― É

Não! Às vezes não. Eu tenho inveja de você.

― Pensei que fosse porque eu vivo pagando a conta do bar

37

Aqui então está outra das histórias e experiências de vida de Rebeca,

a jovem do copo de whiskey. Podemos começar lembrando-nos que essa é

uma garota que gosta de novas aventuras conjugais, mas que também se pega acariciando seu corpo em dias solitários. Não como uma pessoa frustrada, mas como alguém que prefere momentos de pura privacidade, em termos gerais da palavra, dos dedos, dos pelos pubianos que nos lembram que ela não é

Marco Buzetto |

mais uma criança, e de tantos detalhes que deliciariam qualquer espectador procurando momentos de prazer em um tremendo voyeurismo. A receita era a

mesma de todos os tempos, e caso ainda não se tenha decorado, excelentíssimo

e

atento leitor, aqui está: whiskey sem gelo, entre alguns pensamentos febris.

E

nesses momentos de solidão passiva e ativa ao mesmo tempo, Rebeca gri-

tava “fogo!, fogo!

de canhões: poww

FOGO!”, como se seus gemidos fossem balas disparadas

Um orgasmo atrás do outro, e lá estava ela, Rebeca, ge-

mendo, chorando, sussurrando seus prazeres em voz alta dentro do quarto, em uma casa alugada; pois há tempos não morava com seus pais. Poww!, poww

E mais alguns gritos e gemidos de orgasmos extasiados

Fogo!, Fogo! FOGO!

e

valorosas gotas daquele mel dos deuses por entre duas pernas: um verdadeiro

e

possuidor striptease de uma alma juvenil e faminta. Rebeca fantasiava todos

38

os verdadeiros homens e mulheres com os quais havia tido certa relação íntima

de introspecção e prazeres

sões com sua nova lembrança, Giovana; mas, que ao invés de jorros de prazer por conta do calor de sua língua ou dedos, esta fazia Rebeca gemer de fome por seus diálogos acalorados pela vida e pela realidade. Rebeca sentiu-se possuída pela inteligência naquele momento, com Giovana. Não era a língua propria- mente dita daquela mulher que fazia Rebeca gemer de prazer, era sua filosofia de vida que tirava lágrimas vaginais do interior de nossa jovem. Fogo! Fogo!

E também se lembrava nitidamente de algumas vi-

FOGO!, pensava Rebeca iniciando mais alguns orgasmos, e virando outra e ou-

tra dose do velho e bom envelhecido dezoito anos dourado. Enquanto isso, as pessoas lá fora conversavam com seu dinheiro, desesperadamente, alucinada-

Sem ao menos saber o motivo pelo qual corriam tanto em busca disto,

daquilo, deste papel essencialmente mais valioso enquanto ainda era árvores. Ah pequena Rebeca, pequena garota, você quebra as regras o tempo todo

Pena que essa noite tenha sido apenas um mísero sonho discreto dentro de uma mente embriagada. A única coisa real o bastante nesse momento fora apenas

mente

o

hálito de álcool por conta da noite anterior. Sendo assim, de banho tomado

e

um novo rosto não marcado pelas dobras do travesseiro, bom-dia, Rebeca.

É

bom ter você conosco mais uma vez. Esse lugar, esse planeta agradece sua

existência, garota: com murros na cara dessa sociedade imunda.

| Rebeca

― Rebeca, o que aconteceu com seus pais? – perguntava outra garota

que admirava seu comportamento.

― Mas que merda você quer saber sobre meus pais, garota? – questio-

nou ela. O fato de eu estar aqui já não é o bastante? Ninguém precisa saber de onde eu vim ou por quais orifícios eu saí.

― É que você mora sozinha desde quando ouso falar seu nome. E achei

estranho o fato de nenhuma de suas histórias não se passar na casa dos teus

pais. É isso. Não que eu esteja me intrometendo

Mas em nenhum momento

ouvi coisa parecida, com referência a eles, ou a algum parente. Ou transas es- condidas na madrugada, enquanto eles dormiam.

― O que você acha, Anna? – brincou Rebeca olhando sua amiga com

um sorriso nos lábios, como quem dissesse “já vi este filme, e sei como ter- mina”.

― Bom, para ser sincera acho que não custa nada falar a respeito.

Aconteceram várias coisas das quais me lembro com muita alegria naquela

época. Além do mais, isso não vai prejudicar ninguém Beca

outra coisa: ninguém melhor que você para contar uma história assim.

Você sabe. E

― Traidora! – brincou sua amiga Beca.

― Mas que droga! Porque vocês não param de brigar um minuto? –

questionava Rebeca a todo tempo. Vocês estão casados há mais de vinte anos,

já deveriam ter se entendido

― Sua mãe é insuportável. Essa que é a verdade. – dizia o ejaculador do

único espermatozóide fecundado. E tem mais, mocinha: a briga entre a gente é por culpa sua, tá legal?!

― Vocês não se entendem e a culpa é minha por quê, posso saber? – questionou Rebeca, filha do ejaculador.

― Quem mandou você trazer aquele rapaz aqui, Rebeca? Você não

pode fazer isso. – dizia sua mãe, naquele tom de julgamento e repressão que só ela sabia. O que mais você anda fazendo por aí que seu pai e eu não sabemos?

Você pode até estar grávida e a gente não faz idéia

― Puta que pariu! – exclamou Rebeca. Você só abre a boca para falar

besteira. Não é à toa que o papai não te suporta mais. Eu vim com meu namora-

Merda!

Irresponsável!

Marco Buzetto |

39

40

Qual é o problema? Eu não trouxe um bando de macho para minha

cama, se é isso o que você está pensando que aconteceu.

― Eu não disse isso, Rebeca. – esclareceu sua mãe. Mas você não pode

ficar trazendo seu namorado aqui quando está sozinha. O que vão falar de você?

― Falar de mim? De mim? É isso o que você está preocupada que acon-

teça. – continuava sua filha. E quanto a minha felicidade, minha privacidade com a pessoa que escolhi? Os outros que morram se quiserem. E tem mais:

você e o pai brigam o tempo todo e não é só por minha causa. Eu vou continuar trazendo meu namorado aqui o quanto eu quiser, a hora que for melhor para nós dois. Se vocês pensam que estamos gravando um filme pornô em cada se- gundo que ficamos sozinhos, então que pensem, e que se acostumem.

― Eu não vou aturar você falando assim comigo, Rebeca. – disse aque-

la mulher de estatura mediana, que gostava às vezes de pensar que havia uma adolescente presa dentro de seu corpo. Se você quer ser tratada como uma prostituta, então que seja; é o que você está merecendo mesmo. Mas eu não

dei educação para uma filha minha virar uma puta, não debaixo do meu teto. Enquanto Rebeca contava parte dessa história passada entre ela e seus pais às ouvintes de queixo caído, em cada palavra sua ela se lembrava de todos os detalhes daqueles momentos de troca de carícias paternais. Mas o trem con- tinuava rodando, e mais uma vez as discussões e palavras acaloradamente alu- cinadas tomavam conta do recinto, daquela cozinha apertada no final do corre- dor, com vista para a rua. Uma família qualquer, com sobrenome qualquer, sem muita importância para qualquer um. Um casal normal, comum a toda gente, coisa que estamos cansados de ver nos manuais e nas novelas: uma gravidez não planejada, e bang!, lá estava a primeira filha, que um dia se tornaria nossa bebedora de whiskey número um. Alguns anos mais tarde, bada bim!, nascera sua irmã, que ficara com a casa somente para si depois que Rebeca fora embo- ra. Pois, se aquele teto não era confiado a uma “prostituta”, então de que adian- taria continuar por ali ouvindo todas aquelas brigas imundas e desnecessárias, do tipo que ninguém sabe por qual motivo começaram quando tudo se termina. Nessa época, Rebeca possuía seus vinte e um, talvez vinte e dois anos de idade. Possuía também um namorado íntegro o bastante para meter-lhe na cabeça um

do para cá

| Rebeca

famoso par de chifres, um atrás do outro, penetrando outras mulheres e dando- -lhe o pênis para um oral ou dois na varanda enquanto seus pais assistiam TV na sala. E em relação à velha água de malte, Rebeca aprendera beber por conta de uma garrafa de whiskey barato encima da geladeira, coisa que seu pai queria guardar para fazer pose (como se isso fosse grande coisa; como se possui-se alguma moral para manter). O fato é que todas aquelas merdas que aconteciam dentro de sua casa, com seus pais, faziam sua cabeça balançar tanto que a única coisa que a brecava era uma bela bebedeira solitária. Sendo assim, agora: uma prostituta alcoólatra. Isso sim era o que faltava para completar mais um roteiro de vida criado na cidade dos sonhos e dos pesadelos reais da hipocrisia; coisas que o maldito lugar estava cansado de ver brotar de seu ventre podre e imoral.

― Então você foi embora de casa com vinte e um anos de idade? –

surpreendia-se uma das ouvintes da história enquanto bebericavam já em outro bar.

― Fui! Isso mesmo! Um pouco atrasada, não acham? – confirmou Re-

beca. Eu já não aguentava mais aquela situação desprezível

claro que eu fiz algumas besteiras, principalmente ao deixar os ouvidos dos vizinhos antenados em meus gritos de prazer; mas, isso não justifica uma vida

toda de incessantes discussões entre meu pai e mãe. Passei alguns dias na casa de uma amiga, bebedora de vodka, e outros dias na casa daquele meu namo- rado. Mas as coisas não ficaram muito boas também para nós dois, e a melhor foi nos separarmos. Eu estava praticamente terminando meus estudos, e não estava com cabeça para toda aquela merda que as pessoas fazem umas às ou- tras e também à si mesmas.

Tudo bem, é

41

― Mas a história não termina por aí Beca. – lembrou Anna.

― Tem razão. Tive que voltar para a casa de meus pais, a pedido deles

Alguns meses depois de eu tê-los deixado. – continuou. Eu pensei: oras, que se dane, isto não vai deixar de acontecer mais uma vez. E eu estava certa, mas de maneira diferente. Alguma coisa iria acontecer, e eu tinha certeza disso. Foi então que, acho que no segundo dia, por aí, que eu estava de volta, meus pais anunciaram, em outra discussão, claro, que iriam se divorciar. Meu pai iria mo- rar em uma cidade vizinha, minha irmã disse que iria junto. Minha mãe insistiu

Marco Buzetto |

42

Na

verdade um pretendente ao casamento

Casamento! Isso mesmo! Rebeca passou a corda no pescoço e estava

tentando amarrá-la no galho mais alto da árvore da vida, ou, nesse caso, da morte. Nenhuma das garotas ao seu redor naquela narrativa acreditaram no que Rebeca disse. Casamento? Mas que merda é essa? A jovem Rebeca, arauto da liberdade, inspiradora de sonhos e esperanças em si mesma um dia pensou

em se casar? “Putz

estar mesmo de cabeças para baixo”. Sim! E realmente estavam. Rebeca iria se casar com um qualquer. O cara era praticamente dono da casa agora: chegava do trabalho na madrugada, tirava suas roupas sujas, deixava-as em qualquer canto, e roncava seus pulmões na cama de Rebeca, depois de consumar um pouco de sexo noturno, que, diga-se de passagem, uma coisa sem graça, sem

exclamavam as garotas ao seu redor, “as coisas deviam

para que eu ficasse por lá, junto dela, mesmo agora tendo outro namorado

Como eu era inocente. Nojento!

,

essência, um ato frio, quase que obrigatório por um agradecimento de qualquer

coisa

camente aquela: Rebeca sozinha em sua casa, pois a mãe havia aprendido a

sair para caçar homens, libertando aquela adolescente enrustida dentro de si, enquanto o maldito passava parte de sua noite trabalhando, e outro pedaço, bastante rápido e sorrateiro, trabalhando um pouco mais dentro de alguma va- gabunda que lhe desse um sorriso no fim do expediente. Todos sabiam disso, até Rebeca sabia, que preferia não sofrer pensando a respeito.

― A verdade é que parecia algum tipo de vodu, isso sim. – disse Anna,

Sabe-se lá o que. Pois na maioria das sextas-feiras a cena era prati-

tomando a frente da narrativa. Eu não consigo acreditar que tanta coisa ruim poderia acontecer em tão pouco tempo.

― É a mais pura verdade. – confirmou Beca. Além do mais, estou de

volta já há bastante tempo, e entendo que aquela minha vontade de casar era

coisa de gente que havia sido frustrada, coisa de desesperado. Ainda bem que fui salva pelo gongo

― Pelo gongo mesmo! – continuou Anna a gargalhar, interferindo no-

vamente. Um “gongo” de uns dezoito centímetros direto de um réveillon em Copacabana; um badalo musculoso, de carne viva. Viva!

Beca e Anna começaram incessantemente a rir, mas dessa vez não por conta do volume de whiskey e vodka no sangue, mas sim por conta daquela

| Rebeca

história que marcou uma época, e que rendera várias lembranças. Alguns ho- mens aqui, uma experiência homossexual acolá que havia colocado fim na

Reprodução alienada de padrão so-

Mas isso é coisa comum

também em qualquer realidade. Nessa cidade, um vagão de um trem louco rumo a lugar nenhum, talvez ao fim da linha se der sorte; com a cabeça numa parede de concreto. E seus moradores, “simpáticos” sonhadores de falsa devo-

ção adoravam histórias de vida que os remetessem à suas próprias frustrações. Rebeca era um anjo incompreendido; não uma prostituta de pernas abertas. As coisas aconteciam ao seu redor, e em grande parte afetando sua vida, e ela

simplesmente abraçava sua própria causa

― De lá pra cá eu prefiro passar minha vida viajando por uma pessoa a

outra, até encontrar alguém em quem eu possa acreditar por alguns minutos até que no dia seguinte tudo não passe de uma mentiras mal contadas. – finalizou Rebeca. Aqui no reino da alucinação, esse tipo de coisa é fundamental: uma cidade infeliz, cheia de histórias que se tornam inéditas a cada vez que são repetidas. Uma cidade mesquinha.

O Educador

vontade alienada de Rebeca em se casar

cial. Bom, na verdade não apenas uma experiência

Mesmo dando as costas a tudo.

43

― Eu sei o que você está fazendo. Está tentando ganhar algumas pala- vras minhas para outra de suas lembranças.

― Bom, você não está totalmente errado sobre isso. Mas também não

está completamente certo. – dizia Rebeca enquanto conversava com o tal “edu- cador” em um lugar qualquer. E se eu estiver mesmo querendo algo para mar- car ainda mais minha vida?

― Você pode querer o que quiser. Apenas não quero que coloque meu

nome em uma das tuas experiências sexuais. – disse ele. Além do mais, esta-

mos aqui conversando, pois você parece ter sentido minha falta. Estou errado? Pois tanto tempo se passou desde nossa última conversa.

― É verdade, você está errado. – respondeu ela. Já disse que não procu-

rei por você por conta de minha “falta” de uma companhia diária, ou por sau- dade, ou por qualquer coisa que pense. Vim apenas, pois ouvi falar de você, e

Marco Buzetto |

que as coisas não estavam muito bem. E, apesar de eu não me importar, sempre

fui uma boa pessoa, que sabe escutar os problemas e talvez, com meu silêncio e atenção, ajudar de alguma maneira.

― Estamos em outro tempo, Beca, outro lugar em nossas vidas, sepa-

radamente. – continuava o “educador”. Você já está formada e eu também. Já

passamos por boas coisas juntos, e acredito que muitas também separados. Se você quer um pouco de minha companhia, sinto muito, pois tenho mais com que me preocupar no momento

― Deixa de ser convencido. Eu já disse que não estou aqui para isso.

Você é mesmo um idiota.

― Idiota eu? – indagou ele. Por querer uma vida tranquila ao lado de

uma só pessoa, enquanto você fica passando de mão em mão, como se fosse

Não preciso

de você, como antes você também não precisou de mim.

uma nota sem valor de mercado. Sim, Rebeca, estou feliz agora

― Tenho inveja de você! – exclamou ela.

― Pare de debochar, mandita verdadeira. – disse ele.

44

― Não estou debochando. – respondeu Rebeca. Estou falando sério.

Tenho inveja de você. Eu não conseguiria, hoje em dia, sequer pensar em me unir à outra pessoa dessa maneira tão íntima. Um casamento é coisa muito

séria, e que envolve muitas responsabilidades, além de um saco de paciência de tamanho extragrande. Eu, por outro lado, faço exatamente o que você dis- se: passo de mão em mão, sem nenhum valor. Mas não sei se procuro algum,

Sei quais são

minhas qualidades. E o fato de eu fazer exatamente tudo da minha maneira é algo de que posso ter orgulho.

― Não quero julgá-la ou contestá-la, mas, qual é seu valor, Rebeca?

Que legado, ou o que você vai deixar para o mundo? – perguntava o “educa- dor”. O que você vale? Quanto você vale?

― Mas eu preciso valer alguma coisa? Isso é algum tipo de regra uni-

versal que eu tenho que manter como tradição e levar comigo para o túmulo? – respondia ela. Por um acaso, então, caso eu não faça nada para me inserir nesse sistema ridículo de sociedade, eu não valho nada? É isso o que essa sua mente limitada pensa à respeito da vida de um ser humano? Você é que precisa ser

sinceramente. Não necessariamente um valor para os outros

| Rebeca

reeducado, com toda pressa. Pois, se alguém não pode desfrutar da liberdade que buscou e alcançou para si mesmo, de que valeria a vida, então? Não quero passar meus dias trabalhando, mostrando para as mulheres qual é a última no- vidade de uma moda que vai ficar esfregando em suas bundas e se manchando de menstruação. Não quero perder meu tempo e meu valor me preocupando com contas mensais e prestações de algo que ao menos me trazem algum estí- mulo ou benefício real. Não sou diferente, vocês é que são todos iguais! Não quero me sentir culpada por mentir para mim mesma o tempo todo, em uma droga de clichê de vida que mais parece um falso rótulo de caixa de cereais. Não quero fazer parte dessa corrida para lugar nenhum, na qual as únicas pa- radas são utilizadas para me tornar ainda mais infeliz, em uma porra de falsa realidade e falsas esperanças que podem ser compradas pelo telefone, ou em caixinhas coloridas em uma farmácia. Estas eram pesadas e, por vezes, sábias palavras saídas da boca de Re- beca, claro, se pudermos enxergar dessa maneira, como ela mesma enxerga por sua própria conta e risco. Sim, risco: risco de tornar-se exatamente como é, pois é isso o que acontece quando se mata a ignorância e a inocência. O cha- mado “educador” não havia conseguido fazê-la pensar à respeito de sua vida de um ponto de vista descordenardo, pois ela mesma sabia que isso não era possível, tendo completo controle da situação de si. Na verdade, o contribuinte desse diálogo apresentado havia aprendido mais com Rebeca do que com suas próprias moralidades extintas nelas mesmas. Palavras mortas desde o nasci- mento. Essa é a realidade da moralidade. Um moralismo natimorto.

45

Aí estavam histórias reais que Rebeca fazia questão de nos demonstrar a cada diálogo de curto período. Não era necessário um tempo muito longo para tomarmos mais uma lição vinda daqueles lábios. A verdade é que Rebeca fazia de cada história saída de sua boca uma lição de vida, de vida real, levan- do-nos a pensar seriamente em nosso papel perante nós mesmos, não em rela- ção ao planeta, aos animais, ou, como ela mesma dizia, “em relação à puta que pariu que seja”. Devemos voltar-nos a nós mesmos, isso sim é o que pode nos ajudar, nos “salvar” de alguma maneira a entendermos nossas próprias e reais

Marco Buzetto |

necessidades momentâneas e as de longo prazo. É isso o que devemos levar conosco quando fechamos um livro e guardamo-lo em um lugar qualquer: uma

lição, uma noção de mudança

a verdadeira mestra da sabedoria, independente de sua filosofia. Pois, ninguém precisa ser versado em qualquer arte para entender que “uma mudança bené- fica em nossa vida é sempre bem-vinda”. Devemos, então, parar de enxergar tudo à nossa volta como um problema. Pois quando fizermos isso, daí sim nós encontraremos uma solução. Chega daquela coisa de sabedoria do além. O que reina aqui é a sabedoria da realidade.

A falsa devota

E Rebeca fazia esse papel muitíssimo bem. É

46

― Porque você faz questão de não gostar de mim, Rebeca? – indagava

outra sonhadora da falsa realidade, mais conhecida como Falsa Devota. Por

qual razão suas palavras são tão amargas para falar à respeito de mim, e de tantos outros iguais a mim?

― Exatamente por conta disso: vocês são todos iguais. – respondeu a

garota. Gosto de atirar minhas armas contra vocês, pois são a escória social que pretendo, de alguma maneira, inútil, póstuma talvez, modificar. Não quero ser mártir, ou fazer seus corpos valerem à pena; quero apenas mostrar-lhes seus próprios erros. Quem sabe assim esse lugar pare de viciar ainda mais pessoas em seus costumes podres, tóxicos e letais.

― Mas você é também uma de nós: uma sonhadora pesadelesca. Ou es-

tou enganada? – continuava a Falsa Devota. Pois, nasceu de um ventre também nascido aqui. Dos montes mais altos.

― Isso não faz de mim uma igual. – respondeu. Pois sou contrária a

essa vida exatamente por isso: enxerguei a realidade daqui, e todos os entor- pecentes que esse lugar tentou me oferecer. Percebi os erros de todos e todas à minha volta, e resolvi não cometê-los. Percebi a fala de cada indivíduo desse lugar, e o quanto é meticulosamente treinada na arte da ignorância. Isso mes- mo, treinados: pois parecem pensar muito antes de falar algo que não condiz com a realidade, ou que não traz nenhum proveito ao diálogo; e muito menos

| Rebeca

um prazer momentâneo que instigue a continuarmos a conversa, por exemplo.

― Você é uma sonhadora, Rebeca. Uma mulher que acredita fazer a di-

ferença no mundo, ou em uma sociedade. Mas que, na verdade, vem da mesma

carne-moida que todos. – disse a Falsa Devota da cidade dos sonhos amargos.

― Isso mesmo. Sou também uma carne-moida, mastigada por todos. –

replicou. No entanto, não sou proveniente dos mesmos matadouros imundos e impiedosos que vocês. Sou uma carne-moida de qualidade, se é que existi al-

guma assim. Ou minha diferença está exatamente em tentar ser diferente. Pois, como eu já disse: não sou diferente; vocês é que são todos iguais.

― Então é justamente por isso que você não consegue se afastar daqui.

– continuou a Falsa Devota. Pois, procura superar ainda mais as pessoas a cada momento. Mesmo que isso não seja nenhum pouco difícil. É por isso que se aproximou tanto de mim, uma igual a todos os outros, e que acabou em minha cama. É assim que você gosta de passar suas noites Rebeca: ensinando muito de perto suas palavras pesadamente ácidas.

― Nada disso! – respondeu Rebeca prontamente. Como todo ser hu-

mano eu tenho minhas necessidades gerais e básicas. O que faço é escolher a dedo uma pessoa que satisfaça estas minhas necessidades, uma pessoa sempre acima da média.

― Me dê mais exemplos de sua aversão aos homens dos montes menos

altos falsamente devotos. – pediu a mulher com Rebeca em sua cama.

― Vocês mentem o tempo todo. – simplificou a garota. Mentem e me-

tem, acreditam no que dizem, acreditam em uma análise errada sobre si mes- mos. Querem a todo custo pensar que o que fazem e dizem é correto, quando no fundo sabem que estão mentindo, mesmo que todos a sua volta também saibam que o que sai da boca dos sonhadores destes montes é pura mentira. Vocês têm medo da realidade, medo de si mesmos, de enfrentar a si mesmos. Vocês possuem esse medo, e por isso mentem o tempo todo; pois tem medo

o tempo todo. Eu sinceramente não consigo enxergar nada de bom em vocês,

por isso os chamo de falsos devotos: pois não possuem devoção alguma, a

não ser sobre a hipocrisia à ignorância, à falsa crença na realidade e em vocês mesmos. Por isso são falsos devotos. Pois possuem falsas crenças. Ou talvez

a única coisa boa, no fundo de tudo sobre vocês, é o fato de saberem que são

Marco Buzetto |

47

48

assim: falsos devotos. Fico me perguntando como conseguem, sinceramente.

Como conseguem viver dessa maneira: mentindo o tempo todo em todas as cir- cunstâncias. Se forem pegos em uma mentira, no mesmo milésimo de segundo

Como conseguem? Ao invés de saírem

dos problemas, se enfiam ainda mais na merda que vocês mesmos cagam. Essa que é a verdade de suas vidas, falsos devotos dos montes dos sonhos, sem o mínimo de dó em minhas palavras. Lembro-me agora também de como é fácil para vocês, falso devotos, acreditar em si mesmos, abraçando causas perdidas; e um exemplo disso é o casamento. Mas vou explicar o que quero dizer, pois de alguma forma passei por isso e soube enfrentar esse monstro: o desespero. Digo que as pessoas tomam decisões desesperadas também o tempo todo. Algo lhes acontece inesperadamente, e em pouquíssimo tempo vocês se apegam, por exemplo, a um relacionamento acreditando que este sim é o verdadeiro amor. Mas na verdade, essa é apenas mais uma ilusão, pois tomaram a decisão e analisaram o contexto de forma desesperada. Assim nada pode ser compreen- dido em sua essência. Ao pensar que as coisas estão muito ruins, e que vocês,

falsos devotos, devem conseguir se desafogar o quanto antes, se afogam ainda

inventam outra, como um dom divino

mais, pois estão cegos. E se tornam mais uma marca nas estatísticas, divorcia- dos, depressivos, infelizes. Bom, mas é claro que esses são exemplos fáceis de serem apresentados e esquecidos. Vamos mentir também sobre isso, e fingir que nada foi dito. A ignorância é mesmo um dom do ser humano. Ao invés de entendermos o que está errado sobre o ser humano, vamos dizer que a culpa é da matemática, e dos dados que ela apresenta em relação a tudo.

― Você gosta dessa lição sádica de realidade, pelo o que posso perceber

em suas palavras amargas. – disse a falsa devota. No entanto, também gosto de escutar-lhe divagando sobre esses temas, que em sua maioria parecem repeti- tivos, mas que possuem alto grau de ensinamentos. Repetitivos sim; e percebo isso, pois tamanha é sua aversão a essa realidade. Agora entendo perfeitamen- te, Rebeca, minha parceira de cama e de doutrina. Aí está mais uma coisa que gosto em você, além dos orgasmos múltiplos que saem dentre minhas pernas:

você também faz meu cérebro gozar de prazer. Você é um martelo que não se cansa.

― Sou um martelo de pensamentos, minha frágil sacerdote de prazeres.

| Rebeca

Sou um martelo pesado, coberto de certezas e punições sobre mim mesma por conta disso. – dizia Rebeca. Sou a salvação e a minha própria extinção.

― E como você pretende fazer com que nós não nos extingamos? Acre-

dita em nosso futuro, de alguma maneira positiva? – indagou a falsa devota envolta em orgasmos sexuais e intelectuais.

― É claro que todos continuarão suas vidas, pois ninguém será extin-

to. Ao menos que aconteça um colapso mundial de proporções mortais. Mas

acredito que não tenhamos tanta sorte assim. Talvez o ser humano seja esse tal colapso que irá devastar o futuro conhecido. – dizia Rebeca. A única maneira de todas as pessoas aprenderem a viver melhor é por meio do conhecimento

, do conhecimento sobre si. Só assim vocês podem enxergar o que é bom ou

ruim, mesmo que tudo esteja bem debaixo dos seus narizes, ou escondido em palavras minúsculas. Isso não é um mal fatal; falo sobre seu modo de vida. No

entanto, as coisas poderiam ser melhores para todos e todas, caso estes todos e todas aprendessem a conviver com a realidade. Por qual razão vocês, pequenos sonhadores iludidos, não param um minuto para analisar suas vidas, e o quanto estão prejudicando uns aos outros?

― Talvez as pessoas estejam ocupadas demais. – tentou a falsa devota. Talvez não dê tempo

― É verdade. Você está coberta de razão. As pessoas não têm tempo de

49

serem inteligentes. A ignorância é mais rápida e prazerosa. E de tanto viver sob

a sombra da mentira e da ignorância, vocês se acostumaram, e nada procuram

fazer para tomar o controle da situação. – respondeu. Vocês, eu repito, já estão viciados demais, intoxicados demais em sua própria peçonha para consegui- rem se salvar. E digo mais: a esperança sobre as novas gerações está ainda mais acabada. Nesse caso eu repito meu clichê pessoal: a esperança é a única que morre.

― E porque diz que essa esperança na juventude está morta? – interes-

sou-se a falsa devota, enquanto continuava beijar o corpo nu de Rebeca.

― Porque todos estão viciados. – respondeu ela. O que acontece quan-

do manipulamos uma quantidade determinada de medicamentos em uma pes- soa, e após algum período essa quantidade não faz mais efeito?

― Acredito que se deva aumentar a dose.

Marco Buzetto |

50

― E é justamente isso o que acontece com as novas gerações. Elas es-

tão tão acostumadas ao próprio veneno, que estimulam a si mesmas a fabricar e precisar de quantidades maiores. – confirmou Rebeca. Você não percebe o quanto a juventude está abandonada? Abandonada porque não possui capa- cidade de tomar conta de si mesma, e seus responsáveis estão ocupados com

outras coisas ainda mais supérfluas, ou estes não conseguem mais controlar a situação dentro de suas próprias casas, com seus filhos. Todos abandonaram uns aos outros. Por isso, a esperança não está mais na juventude.

― E onde você acredita que ela esteja, se é que está em algum lugar? –

insistiu a falsa devota enquanto se preparava para mais um orgasmo, falando em sussurros e gemidos soluçados.

― Não existe esperança real; apenas uma falsa sensação da mesma. –

respondeu a jovem. No entanto, as respostas estão em nosso próprio tempo. Não há como deixarmos para que os outros, futuramente, pensem em solu- cionar os mistérios. Devemos começar daqui por diante, essa é a verdade. Por exemplo, posso citar o caso da tão especulada falta de água potável em nosso

planeta no futuro. Caso não façamos nada para impedir esse problema hoje,

nós não teremos água, não apenas nossos filhos e netos. Todos parecem possuir um julgamento futurista dos problemas, e por isso as coisas não se resolvem; quando devemos, na verdade, julgar as questões necessárias de maneira ime- diata, em tempo real. Aqui, e exatamente agora.

― Entendi o que você quis dizer, Rebeca, mesmo enquanto beijava

meus lábios inferiores. – disse a falsa devota. A questão é que não estamos cuidando do hoje, de nós mesmos e dos nossos projetos embrionários futuros, os famigerados filhos. Não estamos dando a devida importância ao todo, e pen- samos apenas individualmente, em nosso próprio e momentâneo prazer, um prazer que é falso, fictício, e que no final das contas deixa-nos ainda mais infe- lizes. Por isso mentimos o tempo todo, para acreditarmos em nossas próprias mentiras, criando uma falsa noção da realidade e da felicidade. E justamente por isso você nos chama de falsos devotos. A mulher falsa devota finalmente havia compreendido a filosofia de Rebeca. Porém, enquanto falava à respeito para que a garota se orgulhasse de seu entendimento, esta estava imersa nos prazeres da carne de tal maneira que

| Rebeca

não deu ouvidos as palavras de sua companheira de cama. A falsa devota, mas ao mesmo tempo gemia, sussurrava e gritava de prazer, enquanto Rebeca a

açoitava com a língua em seus seios e orifícios. A verdadeira poesia estava ali retratada. O nascimento da verdade pela filosofia vaginal das duas mulheres. Por todos os cantos e bocas saiam jorros de palavras sábias, de Rebeca e sua aprendiz, e todas essas palavras mostravam-se puramente reais, condizentes com as necessidades do ser humano. A cada orgasmo que saia de suas vaginas, novos diálogos também estavam a caminho, e uma nova seção de discussões começava. Mas tudo terminou, mesmo havendo se passado uma dezena de horas, quando duas garrafas de whiskey e uma de vodka secaram misteriosa- mente; mesmo que o hálito das mulheres sobre a cama às entregasse.

Porém, com algumas marcas,

mordidas e arranhões sobre a pele, e os lençóis visivelmente encharcados Sabe-se bem pelo o que, é claro.

No dia seguinte, tudo voltava ao normal

Rebeca dizia que as pessoas, principalmente no reino dos sonhos per- didos, cidade na qual vivia e vivenciava experiências tortuosas em relação às pessoas, essas se comportavam de maneira avessa as suas próprias inten- ções. Isso significa que os indivíduos daqui geravam industrialmente formas de combater a si mesmos. Dissecando ainda mais essa teoria, Rebeca tentava nos mostrar com suas palavras e gestos que as pessoas destruíam a si, sem ao menos entender, perceber ou criticarem-se em meio minuto de realidade que fosse. Isso não acontecia. Elas criavam um tipo de doença social dentro de si mesmos, inalterável, forçando-as a manter-se firmes em suas excentricidades em relação à ignorância, por exemplo. Essa “doença social” que se mostrava frente aos olhos de Rebeca tornava coletivamente mínima a possibilidade de uma verdadeira noção do que é a realidade, do conhecimento sobre ela. Porém, ao mesmo tempo em que Rebeca nos mostra a total falta de moral, pudor, interesse, respeito pelo si mesmo de cada um, a falsa devoção, as mentiras, a insistência complexa nos erros sendo que o acerto na maioria das vezes é ainda mais fácil; a tortura individual sobre cada um por eles mesmos para en- tender suas próprias necessidades, enfim, tudo o que havia de ser combatido, Rebeca possuía dentro de si, e pregava o contrário. Como ela mesma dizia:

Marco Buzetto |

51

52

“dar murros nesse sistema sociocultural, na cara de cada um” era a solução. E isso a garota estava fazendo muitíssimo bem. Com seus erros ensinava outras pessoas, escolhidas a dedo, minimamente acima da média, a perceberem os contras por dentro e por detrás de suas próprias máscaras. Em fazer exatamente o contrário do que pregava, Rebeca aprendia ainda mais: aprendia a manter-se fora do caminho, mesmo querendo prosseguir e ajudar quem merecia. Mesmo contorcendo-se completamente por dentro tentando não se meter na vida das pessoas. Mesmo sabendo que não se pode ajudar quem não quer ser ajudado Mesmo assim, com a ignorância fatal sobre a cabeça de cada um, por suas próprias escolhas insistentemente incorretas e degenerativas, Rebeca dava o braço a torcer para si. Por esse motivo é que vez ou outra encontrava-se acor- dando na cama de outro, ou outra, ou vendo o sol nascer pela janela de um bar, semi-acordada, conversando com ouvintes que mais pareciam groupies, fãs incondicionais, seguidoras, etc. Rebeca, a jovem mulher contestadora dos sistemas, no fim das contas, das noites, dos orgasmos, sempre se encontrava sozinha, novamente assim, ro-

deada de um infinito cosmo de puro e aterrorizante vazio. Mas a cada momen- to, a cada dia em que acordava, Rebeca se acostumava com essa vida de fria solidão. Por certos momentos até mesmo se orgulhava disso, de seu isolamento

De sua morte da inocência. Ela aprendia

social, intelectual, introspectivo

consigo mesma, isso sim é verdade. E percebia também, dolorosamente contra sua vontade, ou não, que não havia nada errado em relação às pessoas viverem daquela maneira tão vazia, tão marcantemente contrária ao que poderia ser uma realidade muito mais feliz para todos. Pois, Rebeca percebia nos olhos de cada um que individualmente suas realidade eram tidas como absolutas; sendo que, acreditando nelas piamente, se tornavam felizes, pois não conhe- ciam o resto dos pensamentos, os limites que poderiam ser ultrapassados para melhorar suas vidas. Dessa maneira, Rebeca caia novamente em sua teoria que virava clichê em cada página da vida, e dizia: “a ignorância é um dom do ser humano”. E realmente o era. Ninguém reclama de absolutamente nada, mes- mo que isso atrapalhasse fortemente, caso mantenham-se alienados, mendigos do sistema social, ignorantes a qualquer preço. E talvez essa seja a realidade que Rebeca não conseguia enxergar, por ser extremamente difícil de entender

| Rebeca

como os problemas podem trazer tanta felicidade à vida das pessoas. Rebeca não entendia isso: que os problemas, de alguma maneira, motivavam as pesso-

as a continuar suas vidas, por mais medíocres que fossem. Por isso procuravam

e inventavam cada vez mais problemas, dificuldade, infelicidade

gosto em suas vidas. Aquele sabor delicioso que ninguém sabe de onde vem. E Rebeca, por escolher em seu sangue o caminho da busca pelo buscar, da míni- ma sabedoria, ou da tentativa, acabara por corromper sua ignorância, matando- -a por completo (não a chamada inocência, pois essa é facilmente perdida;

sendo que a ignorância, é dificilmente controlada). Esse fora o erro de sua vida,

e no qual continuava por insistir, pois jamais conseguiria voltar a ser como

todos: apenas seres humanos. Realmente, ser igual a todos, para Rebeca, era

a tarefa mais difícil de sua vida, mesmo tentando constante e dolorosamente.

Isso dava

53

Marco Buzetto |

Parte III

O falso oportunista

Rebeca, a jovem dedicada à sua filosofia elaborada, da destruição, dos falsos valores, encontrava-se vagando pelas ruas com seus comentários inter-

nos à respeito das pessoas. Fazia questão, também, de não olhar para o rosto de ninguém, pensando sempre que uma simples linguagem corporal nunca era

tão simples assim, e que mostrava muito de cada um

olhares tradicionalmente vagos. Rebeca acreditava que ao ver qualquer pessoa pelas ruas, em uma manhã, por exemplo, o resto do dia seguiria com visões exatamente iguais às de qualquer outro: repleta de gente insuportável e auto- martirizada. E em uma destas visões sobre o cotidiano social, eis que surge um bípede já conhecido, um velho espírito sanguessuga. Rebeca sentiu-se à vontade para olhar, porém, mesmo não gostando muito do que vi, trocou al-

Além de seus rostos e

54

gumas palavras e imediatamente o passado tomou conta de seus pensamentos.

Lembrou-se de alguns instantes de prazer, de sofrimento, de angústias e sorri- sos, e acabou por sentir certa necessidade de outro momento assim, para uma reflexão mais profunda que aquele ato proporcionaria. E para manter a tradi-

Sim. O sexo a ajudava

ção, lá estavam eles, em uma cama redonda de motel

pensar melhor, enxergar melhor, a compreender melhor.

― Sanguessuga! Isso mesmo! – exclamava Rebeca. Você não se cansa

de me procurar, e também de se deitar comigo mesmo sabendo que não o con-

sidero ao menos uma lixeira vazia? Pois, para ser uma, você precisaria evoluir bastante

― Não sei por que você me considera uma sanguessuga. Talvez por

sugar seus fluidos corporais até o fenecimento? – dizia o velho conhecido.

― Você sabe por que te chamo de sanguessuga, e também de falso

oportunista. – continuava a jovem nua sobre a cama redonda de motel. Você

Sabe como gosto de ofender

Você não

| Rebeca

e ensinar quem passa por mim, ou está a minha volta. Mas você

conhece muito bem meus métodos e doutrina

está a minha volta, e sabe tanto quanto eu sobre a falta de devoção das pesso- as. Conhece meu discurso de cabo a rabo, e ainda assim insiste em manter-se próximo a mim.

― Gosto de vigiar você, Rebeca. E gosto também de manter minhas

relações físicas contigo, uma mulher que conheço bem, e sei mais do que nin- guém, suponho, excitar e levar ao mais fervoroso orgasmo.

― Pois supõe errado, meu velho fantasma. – disse Rebeca. Existem

outras pessoas melhor aplicadas nessa arte. Desculpe-me pela sinceridade. No

entanto, insisto que você sabe muito bem o que penso à respeito de tudo. Pois, já ouviu bastante disso e daquilo saindo de minha boca, e também de meus orifícios. Sendo assim, é um falso oportunista; pois, procura mentir sobre sua necessidade de perguntas e respostas. Não precisa de nenhuma, pois já as co- nhece bem, tendo me conhecido muito bem. É um falso oportunista, pois esta tentando se aproveitar de algo, de mim, que já o conheço tão bem quanto você mesmo. Você não tem como me enganar, pois, sabemos muito um sobre o ou- tro. Sei quais são suas perguntas, e você sabe bem quais são minhas respostas Até mesmo quantas são até o momento em que eu me fecharei por completo, te deixando sozinho no quarto. Poucos conheciam Rebeca muitíssimo bem, e muitos a amaram nas pri- meiras palavras, no primeiro susto que levaram, no primeiro murro. O chama- do falso oportunista, por exemplo, é um daqueles poucos que a conheciam, e por isso mesmo mantinha devida distância. Mas, em suas horas de necessidade, Rebeca se tornava um ponto fixo no qual o falso oportunista podia focar seu olhar e sua genitália.

― Você sabe que estou aqui apenas para me divertir, Rebeca. – confes-

Não é isso? Estou satisfa-

sou ele. Estou fazendo apenas o mesmo que você

zendo minhas necessidades humanas, já que não encontro ninguém a minha

Ainda mais aqui, nesse lugar podre

altura: para o sexo qualquer um serve

onde essa pequena palavra erótica é considerada primordial na vida de todos.

― Então, você está dizendo que se tornou um igual à mim? – indagou

a jovem nua e excitada. Você diz que tudo o que faz é para tentar ser como a mim, imitando meus atos para com os outros

― Exatamente! – expressou ele. Mas, não me considero um copiador

Marco Buzetto |

55

barato. Aprendi procurando seus ensinamentos; e aprendi também que as pes- soas daqui não valem nada, assim como eu também não valia. Mas, agora, ago-

ra estou um nível acima de todo esse lixo social incrivelmente descontrolado

e não-reciclável. Aprendi a ser você, Rebeca: o seu Eu masculino. Um falso

oportunista que colheu todos os frutos necessários e agora também planta as sementes. Sou um falso oportunista, como você mesma diz, pois reconheço saber tudo o que você havia de ter me ensinado, e mesmo assim continuo pre- sente em sua cama, em seu útero. Rebeca havia encontrado, enfim, um igual à ela. Uma pessoa que pa- recia se importar com si mesmo, e também com a necessidade de evolução do ser humano. Essa pessoa conhecia seus mistérios, conhecia seus ensinamentos, suas teorias, seus sentimentos pelas pessoas que aos dois rodeavam, e também sua degeneração: sua vontade de mostrar-se contrário as atitudes cotidianas da falsa verdade, da medíocre vaidade anti-racional da utilização do pensamento.

56

A causa e Efeito

da sensação de liberdade

― Eu entendo perfeitamente, Rebeca. – dizia Anna, sua velha amiga.

Mas você não tem vontade de fixar raízes, permanecer um pouco em uma só pessoa, em um só lugar? ― Você está querendo que eu me estagne, é isso? – indagou Rebeca. Você quer que eu me torne uma rocha, algum tipo de dona-de-casa que não possui sangue nem vontade o bastante para saber que existe um mundo além do supermercado, da padaria, do hospital e da sua minha própria casa? Alguém

que olha para fora do portão, por cima dos muros, e vê apenas uma calçada suja precisando ser varrida?

― Ah Rebeca, você faz parecer tão ruim. Não foi isso o que eu quis

dizer. – respondeu sua amiga. Só imagino que você precise, um dia talvez, de um pouco de sossego nessa vida. Sabe, um tempo para não se preocupar, algo

a fazer que não lhe ocupe tantas energias. Você não acha possível?

― Eu não quero me prender a nada, Anna, minha amiga. – disse ela.

| Rebeca

Não quero perder esta, no mínimo, sensação de liberdade. Sinto-me muito bem assim; e só de pensar em deixar uma pessoa tomar conta de mim, ou se preocu-

par, ou de eu dever explicações e satisfações a alguém já me assusta. Mas não

um susto que me mete medo

liberdade. E simplesmente não quero isso para mim. Não quero que minha

mente se preocupe com bobagens do cotidiano das pessoas, coisas sem valor, sem o menor e devido crédito.

― Não digo que você deva perder essa noção de liberdade, ou a liber-

dade em si. – continuava Anna. Mas acredito que você deveria, um dia, pensar à respeito. Todos necessitam de uma companhia, Rebeca.

― Todos? Essa é conversa de gente fraca. De gente que não tem capa-

cidade, ou não conhece suas capacidades, de ser feliz sem precisar de alguém a

seu lado. Essa é a fala de uma pessoa derrotada por suas próprias expectativas e medos. De alguém que anseia por uma felicidade que não está conseguindo ao menos saber de onde pode vir. Daí procura essa tal felicidade em outra pessoa, e quando menos espera, descobre que não está vivendo a sua, e sim a felicidade do outro. – explicava Rebeca. Além do mais, sei o que significa a liberdade, ao menos a minha, e isso não está ligado a mais ninguém, apenas ao meu próprio bem-estar, o qual eu mesma posso ou não gerar em qualquer circunstância.

― Entendo o que você quer dizer. – confessou Anna, a amiga do copo

de vodka, agora com uvas-passas mergulhadas na bebida. Você não quer que os conflitos irrelevantes tomem conta de sua capacidade

― Exatamente! – exclamou. Não quero que alguém tome minhas ca-

pacidades como irrelevantes. Ou pense que sou limitada de alguma maneira,

Quero dizer que isso intimida, ameaça minha

por ser mulher talvez, ou por estar à procura de alguém que me satisfaça em um relacionamento duradouro. Não quero fazer de mim uma pessoa desmere-

cida, sabe

convicções. Filiar-me a alguém é demonstrar que não possuo o domínio sobre eu mesma, e não tenho capacidade de encontrar a “felicidade” que todos pro- curam. Apesar de eu não procurar esta felicidade comercial, esperançosa que todos procuram. Não quero um contrato assinado. Não quero tornar minha existência um produto contratado com oficialidades. Minha felicidade não vem dentro de um carro zero quilômetro, ou em uma casa mobiliada, ou em roupas

Quero continuar mostrando meu potencial, minhas forças, minhas

58

da moda e eletrônicos de ultima geração. Porque as pessoas querem tanto de uma vez só, quando ao menos possuem a si mesmo? Pergunte a alguém, por exemplo, o que ele representa a si mesmo. Aposto alto que a pessoa em questão

irá vagar muito entre adjetivos e palavras sem cabimento, até olhar sem graça e dizer “sei lá; para quê isso?”, dando as costas logo em seguida.

― Então, você acredita que haja necessidade de sentir-se em liberda-

de

― Não só acredito, como já lhe disse isso em outras horas, Anna. – in-

terrompeu ela. Existe um motivo para eu me sentir livre. Não quero me sentir de mãos atadas, ou como se tivesse uma bola de ferro limitando meus pés em alguns metros quadrados. As pessoas precisam de motivos para se sentir em liberdade. Do contrário, de que valeria suas vidas? Aquela conversa sobre suas contas mensais, ou centenas de falsos problemas mundanos e pessoas, demonstram que as pessoas precisam de motivos reais para se sentir felizes. Não quero dizer somente que todos são cegos a isso, mas é essa uma parte da realidade de suas vidas. Não encontram a felicidade, pois, estão preocupadas

demais procurando problemas

Como já disse anteriormente. Além do mais,

tenho motivos o bastante para querer me sentir livre. Um deles, por exemplo, é saber que não devo minha vida a ninguém. Outros montes estão ligados a mi- nha necessidade de buscar diálogos nos quais eu encontre uma hora ou mais de boas palavras para debater à respeito do mundo, das pessoas e de suas neces- sidades reais, e de como se alimentam de propagandas medíocres e mentirosas que as façam sentir como em um filme de prosperidade forjada. A coisa toda é

mais profunda

― Mas você conhece bem todos os efeitos que estas sensações trazem

consigo, não é mesmo, Rebeca? – perguntava Anna. Você sabe muito bem, sente na pele o quão difícil é para alguém valer-se do orgulho de ser além da média.

― Conheço bem esse infortúnio. – respondeu a jovem. Tornei-me uma

pessoa completamente solitária, apesar de sempre haver alguém ao meu lado, ou em minha cama entre minhas pernas e meus seios. É sempre difícil encon- trar alguém que supra minhas necessidades reais, intelectuais. E quando en- contro, confesso que me prendo tanto a essa pessoa, que tenho medo de querer

– tentava ela, Anna.

Do tipo: reflexão e realidade.

| Rebeca

permanecer ao seu lado. Ou, talvez, medo que ela queira permanecer ao meu por muito tempo.

― Rebeca, então você está dizendo, literalmente, que em sua procura pela felicidade você acabou encontrando a infelicidade?

― Não digo que isso tenha acontecido em relação a minha procura,

pois, pouco procuro a felicidade. Sei que a felicidade está dento de mim, então pouco preciso procurá-la. Mas sim, encontrei a infelicidade, pois conheci tanto as pessoas, tão profundamente a mim mesma e a elas mesmas, que percebi que tudo o que posso fazer para me tornar feliz é me tornar uma pessoa infeliz,

sendo igual a todos os outros. E já que isso eu não consigo realizar, quero dizer, ser mais um qualquer meio a massa, então sim, eu encontrei a infelicidade, e

a abracei com os braços e as pernas. – continuou Rebeca. É bastante triste ser uma pessoa alguns em degraus acima, pois vivo meio a um bando de gente

inferior. Pior ainda é a sensação de acreditar ser superior. Para ser feliz ple- namente, eu precisaria estar em convívio social de pessoas iguais a mim. E já

Mas, tenho você, minha

que isso, aqui, é pouco provável de acontecer, então

amiga Anna, que completa parte de minha necessidade. Além do mais, você

sabe, eu sei e todos sabem que é muito bom ser simplesmente mais um meio

a um bando de quaisquer

Isso torna todos e todas iguais, e é a melhor coisa

a ser feita. É melhor sofrer tentando ser igual a todos do que sofrer afirmando ser diferente.

Marco Buzetto |

59

O Eu mesma

60

A infância perdida

― Essa é uma conversa comigo mesma; bom, um tipo de monólogo in- fame, se preferir. Às vezes me pego assim, sabe, conversando comigo mesma. Mas caso alguém escute, sinceramente não faz diferença. Penso que quando conversamos sozinhos, essa é uma maneira de extravasarmos os sentimentos, de maneira verdadeira, e com a possibilidade de encontrarmos respostas e imobilizarmos ansiedades que nos façam mal. Gosto de conversar com minha amiga Anna, mas às vezes prefiro uma amiga diferente, eu mesma: uma amiga despedaçada, como um quebra-cabeça que eu possa montar sobre uma grande mesa de madeira crua. Um quebra-cabeça difícil, para ser sincera. E em minhas conversas solitárias, gosto também de pensar sobre infância, uma demonstra- ção de humanidade que pouco possuí e desenvolvi. Na verdade, eu estava ocu- pada demais tentando parecer adulta para não ter que resolver problemas de criança, enquanto eu era apenas uma; e dessa forma perdi um pouco desse período tão importante. Eu queria estar longe das tragédias que envolvem essa fase: os conflitos com os familiares, por exemplo, que estão sempre presentes. Assim, resolvi me afundar em problemas maiores, e acabei descobrindo a inte- ligência, a intelectualidade, o questionamento, as dúvidas reais que poderiam mudar o mundo e as pessoas caso fossem respondidas. Assim eu perdi parte de minha juventude. Exatamente assim: querendo explicá-la a mim mesma. Acabei perdendo minha grande festa no jardim, minha meninice. Queria tanto me sentir adulta, que me perdi no meio do caminho, e agora não aguento mais essa realidade. Ser adulto é um porre, uma grande merda fedorenta na verdade. Repletos de responsabilidades que nos são empurradas pelo sistema, com as pessoas nos dizendo a todo o momento o que devemos e o que não podemos fazer, e com quem devemos nos relacionar; e também que a coisa certa a ser feita é nos casarmos, constituirmos uma família normal, com no máximo dois filhos, não mais que isso: cristãos, corretos, educados, que irão trabalhar alie- nadamente sem conhecer outro tipo de realidade que não a mentira e a certeza de derrota por detrás dos salários. Uma criança perdida: um filha esquecida

| Rebeca

É isso o que sou. Esquecida e perdida por mim mesma. E não sei mais voltar para segurar minhas mãos, fazendo, talvez, tudo diferente. É tarde demais para dizer eu te amo; tarde demais para viver o hoje e tentar novamente sem erros profundos. Falo sobre minha vontade de ser melhor. Pois, se pudesse, talvez escolhesse o caminho da facilidade: da ignorância. O caminho das massas. Mas não foi isso o que quis para mim, e também para as pessoas ao meu lado. Estou perseguindo palavras e ideais às quais não consigo mais me fixar. Estou me tornando à contradição de mim mesma; e apesar dessa iniciativa partir exata- mente de mim para comigo, confesso que não me aguento mais. Tornei-me um peso sobre meus próprios ombros, por mais que estes pareçam fortes o bastante para suportar quantos homens se for necessário a me fazerem um orgasmo real. Cansei-me de mim mesma, de gozar com meus próprios dedos, mesmo que

essa experiência seja cada dia mais prazerosa, pois, aprendo novos tatos dentro de minha carne uterina. E quanto mais me conheço por dentro, melhor enten- do as pessoas a minha volta. Entendo que suas felicidades não necessitam de

verdades. As pessoas gostam de falsas realidades, falsas realizações

Gostam

de verdades contadas por bocas mentirosas. E sentem-se felizes por acreditar em um monte de mentiras, mesmo sabendo que é exatamente isso. Foi o que chamei de acomodação das mentes, o que chamei de preguiça intelectual. Pois, parece que ninguém possui um minuto de seu tempo para raciocinar. Estou absolutamente cansada daqui, e às vezes me sinto uma tirana. Porém, dona de uma tirania a qual ninguém dá a mínima atenção. Sou uma falsa comemoração da sabedoria. Uma ilusão, ou uma versão real do que não é necessário para se alcançar a alegria, por exemplo, ou se entristecer ainda mais.

61

Apesar de sua intuição sempre negativa sobre as pessoas, principal- mente de sua sociedade – mais próximos de uma análise –, Rebeca permanecia rodeada por falsos amigos. Sempre havia alguém para lhe pagar uma bebida, ou um sexo oral. Suas frustrações se tornavam cada vez mais reais, e também seu pesar sobre si mesma. Mas, nada que um velho e bom costume de whiskey sem gelo não resolvesse. ―Você se lembra de mim, amiga? ― Como eu poderia ter esquecido? – indagou Rebeca. Você aparece

Marco Buzetto |

62

sempre que não preciso. Mas, tantas vezes precisei e você não estava presen-

te

― Eu sou mais um qualquer em sua vida, Rebeca. Porque faz questão

de ter-me por perto? Eu, sinceramente, não preciso de você!

― E o que vai acontecer agora? Pode me dizer ao menos isso? Ou irá

mudar de assunto, fingindo que veio até aqui só para encher de álcool essa sua cara suja, e transar comigo feito um animal divinizado?

― Não quero que você se sinta mal, Beca. Mas, não vim aqui para levá-

-la mais uma vez para cama sacia mais minha sede.

― O que vai ser então? Por qual experiência você procura? – pergunta-

va Rebeca. Eu quero saber hoje?

― Vim para lhe trazer um pouco de sabedoria, velha amiga, Rebeca,

senhora dos copos vazios. Vim para fazer de você, novamente, uma pessoa além da normalidade.

― Então faça isso rápido, e meta uma bala na minha cabeça quando

terminar. Pois estou cansada de minha inútil vida moralmente imoral. – pedia a jovem garota. Estou genuinamente exausta de mim, e procuro algo que me traga de volta algumas esperanças, por mais falsas que sejam. Por mais que sejam as falsas esperanças que todos abraçam com suas virilhas.

― Perceba Rebeca: você está rodeada por moscas, como se fosse um

Ande. Qual das delícias da vida você quer provar

Um milhar de vezes, talvez. Tanto faz. Você não

Então desisti.

punhado de estrume ainda quente. Você está se jogando penhasco abaixo, do mais alto pico de humanidade que uma pessoa pode se enfiar. Porque não se levanta e mostra, antes de tudo para si mesma, que você pode nascer novamen-

te e levar às pessoas um pouco de suas velhas palavras, dolorosas e uniforme- mente cansativas? Pensa que todos já se cansaram de ouvir à respeito? Pois, saiba que ainda não. Muitos querem ouvir suas palavras.

― Você pensa que sou algum tipo de profeta, então? É isso? – indagava

Rebeca. Não sou uma droga de doutrinadora, ou possuidora da verdade absolu- ta que nem ao menos pertence a um merda de deus fajuto. Ninguém mais quer ouvir meus vícios, por mais verídicos e carregados de ensinamentos que sejam. Estou ultrapassada; isso sim é verdade.

| Rebeca

― Pelo contrário, Rebeca. Você não está ultrapassada, e sim, se inven- tando novamente. Pois, essa é a verdade por trás dos fatos. Você é um ser natu-

ral, e na natureza nada se extingue, pois, tudo está em constante transformação. Não é esse mais um clichê? Você não pode se dar por vencida agora, Rebeca, no auge de sua sabedoria e excitação. Você tem ainda muito pela frente, mui-

E muitos pênis

e vaginas para fazer ejacular de inveja e vontades ocultas sobre suas vidas

indignas. Faça isso, Rebeca: ressuscite em si mesma. Você não pode se unir

Sabe

que é maior que tudo o que está a sua volta. ERGA-SE! REAJA! Não deixe seus fantasmas derrubarem-na. Deixe sua vaidade de lado, Rebeca, e volte a ser o que era; o que você realmente é. Você tem muito o que ensinar à estas pessoas medíocres e desvalorizadas por suas próprias piadas.

à massa alienada e duvidosamente desesperada. Você sabe muito bem

to que contar, muitos ouvidos para fazer prestar-te atenção

Lá estava mais uma de suas verdades, das verdades de Rebeca que con- versavam com ela através do espelho. Era como um monólogo, agora com

perguntas e respostas. Assim a coisa toda se tornava ainda mais fácil de lidar,

Um bom tapa na cara dado

por suas próprias mãos. Rebeca insistia em si, mas não sabia como reagir,

como levantar-se daquela lona de tristeza por pensar que nada mais poderia ser aprendido. Era bem verdade: as pessoas não se importavam com suas teorias

e instigações de novas verdades. Mas havia quem queria escutar ainda suas

histórias. Ainda mais se estivessem rodeados de um belo carnaval repleto de orgias sexuais e doenças mentais, doenças que consumiam a razão e a moral das pessoas. Todos gostam de tragédias, e ninguém desiste de ouvir um pouco mais sobre o grande deboche que é a vida. E a garota Rebeca passou a odiar a si mesma profundamente, mesmo sabendo que seu amor por si também aumenta- va gradativamente. Coisa difícil de entender, mas fácil de acreditar. É só pen- samos com o coração, com a ingenuidade, por exemplo. Caso pensemos com a razão, nunca entenderemos a mesma razão por trás das palavras de Rebeca. Para entendermos sua razão, precisamos deixar a razão de lado. Devemos pos- suir algo em que possamos acreditar. Contradição! Rebeca, talvez.

e um pouco mais difícil de engolir. Mas ajudava

Marco Buzetto |

63

Sophie

64

Essa conversa começou há anos atrás, antes de tudo acontecer. No en-

tanto, Sophie era apenas uma, como tantas outras. E como várias, sem motivo, ela também sentia-se esquecida de alguma maneira, rejeitada e indefesa. Re- beca a re-conheceu enquanto o ano de 2010 ainda estava em seu primeiro mês.

― É sempre bom ver você, Sophie. Por onde andou por todo esse tem-

po? – perguntava Beca.

― Estava por aí, em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa e ganhando

um pouco, bem pouco. – respondeu. Mas, você parece ter mudado bastante

― De maneira alguma. Estou mais parecida comigo mesma a cada dia

que se passa. Continuo mudando e me tornando sempre a mesma pessoa. – brincou Beca.

― Eu, por outro lado, estou cada dia mais afastada da realidade desse

lugar. Parece que as pessoas daqui, de algum jeito, têm medo de mim de rir da primeira imagem. São um bando de desgraçados, isso sim.

– concordava Rebeca, sorrindo e tiran-

do suas roupas, pronta para mais um pouco de filosofia despida.

― Tive uma pessoa ao meu lado, mas parece que ele estava apenas es-

perando um bom motivo para continuarmos juntos. Tudo se tornou cansativo,

estreito demais, e eu não conseguia passar pelos obstáculos que o desgraçado colocava em minha frente, obstáculos que ele mesmo inventava. Lá estava ela, Rebeca, novamente pela contramão, abraços, carícias, e tudo mais o que duas boas fêmeas desejosas poderiam fazer juntas, nuas. As

Os lábios superiores

mãos se encontravam, os dedos, os seios, os glúteos

Gostam

― Cuidado. Esse papel é meu

encontravam-se com os inferiores em uma limpeza maravilhosamente erótica a qualquer um que um dia pudesse ter visto a cena. Porém, uma coisa que não

acontecia, e isso Rebeca já havia vivenciado muitas vezes, era que sua parcei- ra, Sophie, em momento algum permitia um beijo. Isso mesmo, um simples e apropriado encontro de lábios bucais. As línguas pressionavam a carne e os músculos do pescoço uma da outra, penetravam os orifícios auriculares como

ondas quebrando sobre os rochedos

Mas nenhum tipo de beijo que envol-

| Rebeca

vesse a boca das duas garotas. Sophie dizia, e Rebeca aceitava e compreendia muito bem, que em um beijo havia muita emoção e sentimentos, assim como em um abraço, e que seria melhor que aquele ato sexual prosseguisse sem eles, sem os beijos, para que as duas não se iludissem, pois era exatamente isso o que normalmente acontecia. O medo de se apaixonar perdidamente. A nega- ção do fato. O beijo das duas era monstruosamente divino, e qualquer um se

apaixonaria facilmente, e seria impossível se disfazer desse sentimento, dessa

tudo!

Menos beijo na boca”. Era mais do tipo: menos sentimento penetrável, e mais penetração! E dessa maneira não ficariam ligadas por muito tempo, não esta- riam presas em laços ilusórios. Rebeca tinha seu cabelo escravizado pelas mãos de Sophie, em um aperto tão firme que arrancava alguns fios facilmente, enquanto seu pescoço ganhava dentes molhados próximos à jugular, marcando a circunferência labial e finalizando uma marca erótica e depravadamente arroxeada. Estavam por

quase prisão perpétua. Não era como as prostitutas costumam dizer:

toda parte, transando como loucas, feito animais extasiados e instintivamente famintos.

― Como é, Beca, as palavras desapareceram de sua boca? O que hou-

ve?

― Estou cansada, Sophie, sinceramente! – respondeu. Estou verdadei-

ramente cansada de reclamar de tudo, de toda a baixaria medíocre, insensata. Estou cansada de reclamar e nunca conseguir fazer algo de verdade. Só con-

Sabe muito

bem; em cada linguada que dou em sua vagina, você com certeza sente meu

sofrimento. Fiz tudo o que quis na vida, e entreguei minha alma ao diabo. Mas ele não aceitou. Nem ao menos o diabo quer minha presença, minhas premis- sas. Não aceitou, e tentou-me vender a dele.

― Transe e morra! – explodiu Sophie. Esse é meu lema: transe e morra!

sigo me tornar cada dia mais infeliz, isso sim. E você sabe bem

65

Pois é isso o que somos, minha apaixonada Rebeca. Somos apenas animais, ou um aglomerado de matéria que luta consigo mesma tentando se reproduzir. A vida é puro sexo, e não podemos negar. Hoje temos gosto por isso, e entende- mos que temos prazer enquanto realizamos esse ato, que em sua essência é a pura busca pela sobrevivência e proliferação das espécies. E já que aprende-

Marco Buzetto |

66

mos que todo sexo é bom, prazeroso, que mal há em transarmos bastante, como estamos fazendo, e emendarmos uma boa conversa a cada intervalo? Mas, em relação ao que você disse, querida Beca, concordo plenamente: essa cidade já está morta. É nojenta. E também sinto certa frieza de minha parte. Pois, de

que me adianta tentar lutar por algo que já está acabado, como é o caso dessas pessoas?

― Creio que somos bastante parecidas, Sophie dos olhos de esmeralda.

– dizia Rebeca. Você também está cansada das mesmices do mundo, e de todos

os conflitos irresponsáveis que cada pessoa daqui e dali gera em si mesmos. Somos parecidas até no modo como sentimos raiva e desafeto. Gostamos de

nos livrar do sofrimento e da solidão, e da falsa sensação de culpa, gerando ainda mais de tudo isso.

― Você ainda sente aquela velha sensação, Beca? Aquela tristeza re-

pentina que vem de não se sabe onde e devasta seu coração, se é que possui

algum? Você ainda tem vontade de matar a todos, e depois a si própria por conta da solidão evoluída?

― Não posso responder de outra maneira. – concordou a garota. Sou

vítima de mim mesma

Da tão sonhada liberdade. De meus próprios olhos

torturados pela visão do que é único em mim, fazendo-me contemplar minha própria vontade de ser mais, de ser maior que todos e todas. Consegui! Tornei- -me, talvez, quase isso. E daqui de cima, tudo fica ainda mais distante. Deve ser assim, exatamente assim que o tal deus onipotente se sente

― O que um dia será de nós, minha companheira de língua e de cama?

– questionou Sophie, a jovem e bela, a segunda mulher mais bonita. O que

um dia nós faremos, ou deixaremos que nos façam que talvez mude o rumo de tudo o que sentimos e passamos querendo: o bem comum, a facilidade no cotidiano das pessoas, a sinceridade de suas vidas? O que será, obviamente,

infelizmente, se essas perguntas forem somente retóricas? Pois é exatamente o que parecem. O que acontece caso sejam respondidas?

― Estamos em um universo repleto de insatisfações, Sophie, minha

usurpadora de suspiros prazerosos. – continuava Rebeca. Claro que digo uni- verso me referindo a essa nossa sociedade pós-moderna, ou talvez pós-si-mes-

ma. Pois, não concordamos com nada do que está rodando pelas ruas imundas

| Rebeca

e vazias desse lugar. Eu, e tampouco você, não suporto mais a sombria face de alegria desses sonhadores das alturas. Sombria, pois seus sorrisos mentem em todos os momentos; seus dentes refletem os verdadeiros sentimentos: a

infelicidade, a tristeza, a derrota, o medo, a tortura. Estamos aqui, nessa cama de voluptuosidade, fazendo o que devemos fazer; não apenas em relação ao sexo, mas também aos nossos discursos e questionamentos. É isso o que so- mos nesse momento, é isso o que sai de nossas vulvas úmidas: a filosofia da destruição do si mesmo em nós para entendermos e concertarmos os outros. Nascemos para perder.

― É puro pesadelo, Beca. Isso sim! É puro pesadelo. – sussurrava

Sophie, ao ouvido. Não seria esse pesadelo, então, fruto de nossas próprias vontades? Pois, se preferimos buscar o entendimento em relação aos porquês de todos esses indivíduos ausentes, não estaríamos também perdendo nosso tempo? Eles continuam suas vidas, mesmo que mergulhados até os olhos em

sua própria ignorância. E nós, aqui, com ou sem este sexo extravagante, marte- lamos ainda mais a ignorância, mesmo que não em nossas cabeças.

― Sua visão não está equivocada. – respondeu Beca. No entanto, já

tentei ser igual a todos e a todas. Mas nunca consigo por muito tempo. Pois, acabo caindo diante de mim mesma, por minha própria espada em minha pró- pria derrota. Tudo me cansa a ponto de me cansar de mim mesma. Então, é

inútil tentar me igualar em ignorância, ou em processos diários que me levem para longe da realidade. É como se eu recebesse um soco na cara, ou um sexo doloroso que machuc meu útero, me puxando de volta a toda essa invenção da inteligência.

― Você está fazendo minha vagina secar, querida Rebeca. Pois, ao in-

vés de excitação, meu corpo está se enchendo de insatisfação. – disse Sophie em tom dramático. Está me fazendo imaginar, e não sem querer, claro, que existem várias realidades. Pois, existem vários tipos de pessoas; mesmo que estas pareçam todas iguais. E esse pensamento me traz a distância em minhas certezas sobre estes sonhadores infelizes.

― Várias realidades? – indagou Rebeca com semblante de quem sou-

besse bem o que sua amiga dizia, mas tentando disfarçar. Você quer dizer que para cada indivíduo existe uma realidade determinada, ou até mesmo indeter-

Marco Buzetto |

67

68

minada?

― Digo que existem várias realidades, pois, reconheço que em cada

indivíduo existe uma crença diferente sobre si mesmo, e também sobre como agem suas expectativas, esperanças, dúvidas, dádivas, necessidades, medos,

etc. Entendo que dessa maneira, existindo diferenças entre os indivíduos, suas realidades também sejam diferentes, diferenciando-as umas das outras, conse- quentemente.

― Me encanta conversar com você, Sophie. – dizia Rebeca. Então,

cada indivíduo existe em uma realidade específica. Porém, o que faz com que

todos estes coexistam em uma realidade próxima? Talvez a alienação, a neces- sidade?

― É bem provável. – tentou Sophie. Penso que cada pessoa viva sua

própria realidade, pois, cada um é um ente individual, possuidor de si mesmo.

No entanto, o meio social, é claro, interfere e influencia o individual: o meio externo influencia o interno. A alienação faz parte de um contexto generaliza- do, que faz parte do cotidiano de uma sociedade. Um indivíduo não inserido na sociedade em questão não pode ser considerado alienado ou não, pois, é independente deste próprio conceito de alienação, não fazendo sentido em sua vida. O mesmo acontece com o que falei anteriormente sobre várias realida- des coexistindo ao mesmo tempo. Cada pessoa possui sua própria realidade, porém, como pertencem ao mesmo meio social, essa realidade se torna cole- tiva. A realidade coletiva, então, é o que mantém as pessoas inseridas em um contexto onde todas as realidades individuais se encontram, e por sua vez se comunicam, se transformando, se misturando e se confundindo.

― Essa nossa conversa está tomando tons bastante distintos. Um de-

les é científico, do tipo que duas pessoas conhecedoras da matéria permitem- -se falar. O outro tom é mais além, talvez: conversa de quem está de porre Conversa de bêbados. – brincou Rebeca. No entanto, apesar de não estarmos bêbadas, a não ser pela embriaguez de nosso suor e fluidos vaginais, sinto que estamos indo bem longe nessa filosofia. A realidade coletiva, então, é vivida pela massa inserida em suas próprias realidades individuais, sendo que cada uma delas compõe o todo, confundindo-se uma com as outras. Isso, então, faz com que possamos considerar uma única realidade de modo geral: chamada

| Rebeca

apenas de realidade em si.

― Sim, isso mesmo! – concordou a sábia Sophie. Todas as realidades

individuais compõe a realidade única, cuja qual conhecemos como realidade propriamente dita, no campo de visão geral: A Realidade. Porém, essa também

é uma ficção, assim como um livro interior qualquer – meu qualquer interior. Pois, o que vem a ser a Realidade? O que a determina, Rebeca?

― O real! – exclamou Beca, a ouvinte interrogada. O real deve deter-

minar a chamada Realidade. Pois, as pessoas tomam como verdadeiro o que podem ver, sentir, ouvir, imaginar dentro dos padrões físicos.

― Você está indo bem, amiga nua. Então, pode-se dizer que se eu ima-

ginar algo como uma casa gigantesca, que alcança o céu e tem como quintal metade do planeta, esta seria também uma realidade?

― Não! Seria loucura. – respondeu ela. Pois, como eu disse anterior-

mente, “imaginar algo dentro dos padrões”. Ou seja, não se pode ter como

realidade algo que ainda não tenha sido visualizado e construído. Quero dizer:

as pessoas tomam como real o que já lhes é determinado como realidade. O que já foi ou está à sua volta. Não algo indeterminado, como, por exemplo, essa sua casa gigantesca.

― Então, as pessoas baseiam o que é real, o que é realidade, usando

como referências o que já está determinado como realidade? – continuava a mulher novamente excitada, Sophie. Esse é seu resumo?

― Sim. Não é óbvio o bastante? – indagou Rebeca. As pessoas não

baseiam suas realidades em algo que ainda não existe, e sim, em tudo o que já lhes foi demonstrado e ensinado. Por isso se apegam às realidades dos seus

iguais: pois já lhes é algo conhecido e aceito como realidade. O resto é apenas imaginação do desejo.

― Finalmente entendeu. Mesmo eu acreditando que você já conhecesse

muito bem estas questões e respostas, pois como eu, você também possui dois cérebros, estando um deles no lugar do coração. – respondeu Sophie. As pesso-

as apóiam suas vidas e a si mesmas uns nos outros, e caso um deles esteja fora

Parecem não acreditar em

do conjunto, a sociedade se vê desfragmentada

si mesmos enquanto indivíduos. Não enxergam seu potencial enquanto estão sozinhos. Acreditam precisar uns dos outros para ser felizes. E você Rebeca,

Marco Buzetto |

69

você sabe muitíssimo bem, até melhor que eu, o quão dolorosa é a solidão, pois escolheu ser assim: liberta; um espírito livre; solitária mesmo com vários ao seu lado.

Este sim era o melhor momento entre tantos que ocorreram ao lado de tantas outras pessoas na vida de Rebeca, nossa mulher de lábios embebecidos em álcool e lágrimas vaginais, suor e gemidos. Nestes momentos, quando a mulher deixa de ser mulher e se torna simplesmente animal, honrando seus

instintos, os diálogos filosóficos acerca dos problemas e questões sobre o ser humano se tornavam deliciosos ingredientes estimulantes para prosseguir o

Inebriante, subversivo, vulgar e ao mesmo tempo respeitoso. São mo-

mentos nos quais as duas mulheres deixam sua natureza social, civilizada de lado, e ascendem as chamas da soberania de suas essências, desejosas, oriun- da dos primórdios de seus corpos; mas enquanto estes corpos estão em uma batalha quase sangrenta pela preservação dos desejos sexuais, suas mentes funcionam e atingem o ápice do pensamento, permitindo-as dissecar todos os

sexo

70

pontos de vista sobre a humanidade, e, aqui, suas múltiplas realidades. Rebe- ca e Sophie encontravam-se mergulhadas até os cabelos uma na outra, com seus dedos e línguas percorrendo toda a extensão de suas vaginas, por vezes

Permitindo deleites, derramamento

de prazer, enquanto evocam Sócrates, Platão, Aristóteles, Heidegger, Scho-

penhauer, Nietzsche, e tantos outros mestres da filosofia, deixando-os brotar

de seus corpos molhados

esteve tão próxima dos seres humanos como nestes momentos. Aí uma coisa que ninguém conseguiria ou tentaria imaginar: pensar o mundo sem a filosofia, sem o sexo, durante o sexo; o sexo durante o pensamento e vice-versa. Um junto do outro, inseparáveis. Não era possível! Estava lá; em todos os lugares Espalhada pela cama juntos dos toques de sexualidade muitíssimo afloradas e

perpetuados. ODE AO SEXO E A FILOSOFIA!

Aborto filosófico em seus úteros. A filosofia nunca

lambendo seios, bocas, costas, barriga

― Andamos bem até aqui, Rebeca. – finalizava Sophie, terminando também os beijos em todos os lábios no corpo de sua companheira de cama e sexo. Temos mais alguns dias pela frente, dias sem glória, se bem me lembro. Dias que mais parecem os sinos do inferno soando em nossas cabeças, nos

| Rebeca

lembrando do sofrimento que é este lugar podre de gente sem essência e sem razão. Meus melhores momentos de corpo e mente eu passei com você minha

amiga sedutora de lesbianismo e bebedora de whiskey. Sua filosofia foi incrí- vel para mim, e muita coisa eu aprendi e reaprendi sobre o mundo e as pessoas enquanto beijava sua boca inferior. ― Me esgotei de tanto utilizar seu corpo como copo para minha saliva

e mesa para sobrepor minha carne e minhas tendências do pensamento. – res- pondeu Rebeca, aceitando a finalização do dia e da cama. Além do mais, não

Real-

há ninguém com pensamento semelhante ao teu em minha história

mente você compreende minhas contradições, e sabe interpretar minhas de-

cisões egoístas e unânimes sobre a ignorância e degeneração do ser humano, principalmente aqui, na cidade sonhadora, cidade dormitório; cama de ratos

e víboras. Falamos muito enquanto nossos corpos também se comunicavam.

E aprendi novamente que a melhor filosofia veio de dentro para fora de nos- sas belíssimas vulvas úmidas e intelectualizadas. É isso o que somos afinal:

espíritos livres, repletos de insatisfações e incertezas sobre tudo o que está a nossa volta. É isso o que também é o ser humano. E de tanto pensar à respeito, tentando ao máximo estar contra essa existência, é realmente nela que nos en- contramos, pois não paramos de contestá-la.

71

Por mais que a vida de Rebeca não se baseasse apenas nestas festas de adoração a Baco, ela e suas companheiras, e por vezes companheiros, al- cançavam picos de refexão sobre a vida nos quais muitos nunca passariam

perto. Uma filosofia da destruição; filosofia de vaginas e prazeres, de sexo e demência; como costumavam dizer, era o que fazia com que os conflitos e acertos sobre as questões valerem à pena. Os muitos momentos nos quais Re- beca e seus parceiros de cama encontravam-se desnudos, faziam valorizar sua inteligência e não-limitações dos porquês e poréns em relação ao ser humano

e suas respectivas problematizações. E como Rebeca mesma concordava em

pensar, por mais distante que ela e sua filosofia estivessem da realidade dos “ignorantes”, na verdade também se encontrava inserida nesse campo; pois, de tanto imaginar-se fora, por tantas vezes tentando se afastar e se diferenciar, esta

Marco Buzetto |

sua concepção de superioridade distante a fazia estar presente o tempo todo à realidade alheia: pois, não conseguia encontrar-se em um contexto no qual não reclamasse de tudo o que pensava ser incorreto. Por isso mesmo estava inseri- da: por tanto tentar e querer se afastar.

― É isso o que me tornei, então: a contradição de mim mesma?

72

| Rebeca

Parte IV

O Eu mesma

Voltando à escuridão

Antes de imaginar o quanto Rebeca pendia a si mesma para o lado do pensamento acerca das grandes e puras necessidades do ser humano, principal- mente voltada à realidade de seu local, ela, mulher, tentava por todos os modos iniciar-se na pura ignorância do ser. Rebeca tentou por várias vezes, sim, real-

mente tentou ser “igual” a todos e todas. Mas é sempre tão difícil esquecer tudo

o que se sabe. A ignorância, nesse sentido, é mais difícil que a inteligência.

Pois, torna-se mais difícil, a beira da impossibilidade, esquecer o que se sabe, do que nunca haver aprendido. Por isso a chamada felicidade dos ignorantes.

― Certa vez, Anna, eu me fechei para tudo o que era da estância do

saber, tudo o que me trazia algum tipo de informação necessária para alimentar minha mente. Por mil vezes, dia após dia, fechei minha mente e abri apenas o

Tornei-me uma verdadeira estação ferroviária, um

porto de embarque e desembarque de tudo o que pode ser considerado da pior

qualidade. Mas, minha dor, meu sofrimento tornava-se ainda maior, justamen-

te por saber que nada daquilo seria necessário.

― Mas Beca, você não pode fugir, tampouco fingir ser o que não é. Não

pode fugir de sua realidade individual; você sabe muito bem, pois está à frente de tudo o que se pode imaginar em sobre essa massa desesperada por alegrias e sorrisos degenerados. – dizia Anna, a velha amiga de Rebeca, bebedora de destilado de batatas. Você está se tornando uma contradição de si mesma, Re- beca. Sinto muito em dizer isso. Mas é a pura verdade. Você ama suas picadas

Mas isso parece estar

acabando com você.

de amor, e também a verdadeira forma de filosofia

meu corpo, e como abri

73

― Não acredito que você esteja de todo correta. – respondeu Beca. Não

acho que eu esteja me acabando em mim mesma. Mas sim, creio estar contra- dizendo minhas próprias palavras o tempo todo, pois não consigo mais nada ao

Marco Buzetto |

74

que eu possa agarrar para saciar essa sede. Então, agarro-me em mim mesma.

― E isso é o mais certo de se fazer, então? – indagava Anna. É assim

que quer acabar consigo mesma: destruindo seus verdadeiros ideais, voltando

seu olhar à sua própria cabeça a ponto de não enxergar mais nada ao seu redor, contradizendo, investigando, voltando-se contra sua própria vida?

― Se for isso, seria errado? – retrucou. Estaria de todo errado eu fazer

assim? Nada mais me atrai tanto a atenção para que eu possa manter minha mente trabalhando. Ninguém mais é parcialmente necessário; ninguém mais faz por merecer minha atenção destrutiva. Não sobrou ninguém, além de eu mesma. Todas as pessoas estão e são fáceis demais para ser compreendidas e

analisadas por minha língua e suposições pesadas. De que valeria, então, eu continuar tentando, buscando novas coisas em velhas pessoas?

― Talvez você tenha mesmo se cansado das pessoas ao seu redor. Você

pode estar certa. Todos parecem não ser mais nada, nesse mundo que você

parece ter criado ao seu redor

― Ao meu redor? Minha volta, Anna? Do que você está falando? – in-

dagava ela, Rebeca. O que quer dizer? Parece que você está me condenando

por enxergar as pessoas em sua essência. É o que está fazendo? Está me con- denando?

― Absolutamente não! – respondeu Anna. Mas acredito que você esteja se valorizando demais, e desvalorizando ainda mais as pessoas

― Você mudou muito, Anna. O que aconteceu? – esbravejou a pensado-

ra por natureza. Você parece ter virado o jogo para o lado de todos, e esqueceu- -se que dias atrás você fazia o mesmo que eu. Porque agora defende a realidade injuriada, falsa e desnecessária destas pessoas, desta sociedade medíocre?

– dizia Anna.

Anna queria dizer que sua amiga havia desistido de continuar sendo a velha Rebeca, com pensamentos evoluídos e ideais à frente dos pensamentos pequenos dos outros indivíduos. Rebeca, na visão de Anna, sua melhor e talvez única verdadeira conhecedora, havia deixado a si própria de lado, passando a mendigar respostas por todos os campos sobre problemas aos quais as pessoas não davam a mínima importância. E essa era uma das verdades do mundo: a massa não se preocupa com pensamentos minimamente superiores – mas que,

| Rebeca

na realidade, fazem parte fundamental de suas vidas.

― Percebe minha preocupação? – indagava Anna. Não entende o mo-

tivo por eu desabafar tudo isso contigo, fazendo-a parecer contrária a mim

mesma?

Rebeca deixou a si própria de lado para viver apenas como ela mesma.

E mesmo esta idéia sendo abstrata ou complexa demais, podemos entender que

a garota deixou se levar por seus próprios paradigmas, intolerâncias, questio- nando agora sua própria existência. Afinal, para que tanta sabedoria em uma só pessoa, por menor que fosse a possibilidade de vários possuírem apenas um décimo desta? Para que um dom tão imenso como estes, a razão, a sabedoria,

a vontade de evolução, sendo que a proporção de pessoas que nunca saberão

ao menos um nome de qualquer pensador é infinitamente maior? Tão igual aos que não sabem que podem utilizar seus cérebros para pensar. Mesmo que Rebeca pensasse que a apostila acadêmica não fosse necessária, pois os indiví- duos deveriam ao menos prestar contas com sua própria evolução, utilizando de seus cérebros para tornar a vida humana um tanto qualquer melhor. Não é necessário, em sua visão, decorar a medicina, a filosofia, a química, a metafí-

sica, a matemática, a história, as artes, etc. Porém, afinal de contas, não há mal algum em tentar caminhar um pouco mais além de nossos próprios limites, que parecem nos puxar tanto para baixo como uma gravidade aumentada. Mas também, talvez, qual o mal em não se fazer nada disso?!

― Não consigo mais ter paz comigo mesma. Não consigo, Anna. – di-

zia Rebeca, com o que poderia vir a ser um início de lágrima em seus olhos. Não consigo ter paz; e não a consigo exatamente por eu mesma estar ao meu

lado. Cansei-me de mim

o tempo inteiro

Literalmente. Fatalmente! Não consigo ser alegre

Por mais que eu não seja dona destas palavras simples e

completas. Sinto-me uma mísera personagem de uma história medíocre criada por alguém ainda mais medíocre. Sinto dizer a mim mesma que não possuo

nenhum valor de realidade

A menos que me levem a sério, ou tomem minha

vida e meus sofrimentos e desilusões como exemplos a não serem seguido.

― Pelo jeito a depressão sentou em seu colo hoje, minha amiga. – brin-

cou Anna. Você parece puro sofrimento. Nunca imaginei vê-la assim: grega,

75

tão dramática sobre sua própria vontade de ser ou não o que é

Ou não. Ou

Marco Buzetto |

sim

Talvez.

― Tenho dó da depressão. Coitada dela se passar perto de mim. – res-

ponde Rebeca. Mas você sabe que eu vivo de realidade, Anna. E esse é meu

sofrimento

ou idealizar-me como o jovem Werther, mas essa também é minha palavra-

-chave. Esta merda de situação irônica que tanto procurei e me preocupei. Puta

que pariu!

A maldita realidade

Não que eu tenha a presunção de pensar-me

O que há? Todos abandonam a si mesmos no final?

― Você parece dar adeus às ilusões de sua própria natureza.

76

― Não que eu goste de haver me tornado uma pessoa sabiamente à

frente de tantas outras, ou da maioria. No entanto, não há nada que me faça desgostar disso. – dizia Rebeca ao vento, em seus pensamentos. É muito difícil

tentar ser o que não sou, pois já sou o bastante para não conseguir voltar para casa. Acho que odeio tanto esta montanha e as pessoas daqui que tudo o que faço é e ficará na memória deles. Deve ser uma espécie de tributo maldito que

Não sei se para ficar na história, o que seria besteira. Mas talvez,

tento prestar

para fazer com que esta montanha entre para a história dela mesma. Por mais

estranho que isso possa parecer. Não preciso ser lembrada. Definitivamente!

― Você precisa voltar, Rebeca. Precisa gerar seu próprio renascimento,

isso sim. – tentava sua amiga. Você precisa de novas experiências, novas atitu-

des, novas ilusões e desilusões, talvez. Novas aventuras, ou novos sofrimentos.

― Preciso de uma nova vida! – respondeu. Talvez seja mais fácil do

que tentar me encontrar em mim mesma. A verdade é a mesma que um dia eu

já lhe disse: estou cansada de mim. E ao menos sei o motivo dessa detestada alucinação. Não tenho medo de ficar sozinha, ou de começar tudo de novo em

minha vida. Mas já não sei mais o que falo

Não reconheço em mim minhas

próprias palavras. Será verdade, Anna? Estou fora de mim, trancada do lado

de fora? Será a maldita verdade do início da loucura caminhando ao meu lado

de agora em diante? O número dezesseis volta a me perseguir

É isso o que

preciso: nascer novamente! Preciso dar a luz a mim mesma, saída de meu pró- prio útero. É isso o que todos deveriam aprender a fazer, ou no mínimo tentar:

Fica aqui a lição para uma vida.

nascer novamente em si mesmos. Está aí Nascer novamente em nós mesmos.

| Rebeca

Mulher de sabedoria invejável. Talvez a nova filósofa de

um milênio escroto. Mesmo que tentemos nos comparar um pouco com sua pessoa, mesmo que tentemos chamar a nós mesmos Rebeca, por mais que be- bamos até desmaiar com a cara no balcão, nunca será o bastante para alcan- çarmos sua supremacia de palavras e destemidas investidas contra o sintoma do pesar: o ser humano; o pesar humano. O pesar. Por mais que compremos as melhores garrafas de vinho, nunca em nossas vidas teremos o mínimo de ânimo ou graduação intelectual, pequena dos lábios alcoolizados. E essa é uma conversa direta, sim! Uma conversa a uma personagem que por muitas vezes toma nossa respiração e nos torna completamente submissos. Isso sim! Inter- locução. Essa é a verdade. O escritor se torna escravo de suas criações. E isso não pode não ser um clichê maldito, ou bendito. É apenas um fato. Uma lição de casa dada por uma professora maluca, para sempre, interminável. Estamos aqui, planeta, mundo imundo, esfera suspensa em sua própria agonia, azulada,

poluída e prostituída. Estamos aqui: o leitor, as palavras indiscretas escritas

por um alucinado medíocre, e a personagem

Talvez a mais real de todos. É isso Rebeca, minha filha, amiga, mulher

gole de whiskey agora adocicado; a taça tardia de vinho. Mas começo a pensar

Ou pelo copo sujo há uma semana e esquecido,

que seja por sua falsificação

Talvez a mais lúcida dos três.

O

Ah Rebeca

77

escondido. Tome conta de nossas vidas, de nossos deuses, Rebeca, mais uma vez. Faça-nos valer a pena, a sopa, o cuspe, as lágrimas – lembre-nos para que serve o gozo, o esperma, o óvulo.

― Sabe Anna, é como tentar desvendar o vácuo, algo nulo. – dizia Rebeca. Assim eu estou me sentindo. É assim que me sinto quando tento olhar para dentro, sentir meu sangue correndo na tentativa de irrigar meus pequenos vasos conectados ao cérebro. Sinto-me explorando um terreno em completa hostilidade; ou dançando o mais possante tango argentino em um campo mi- nado de ponta a ponta sem tirar os pés do chão. Como se eu apontasse o obus de um panzer à minha face, sem medo algum de atirar. Talvez a pansofia de mim mesma. ― Acho que estou entendendo, Beca. – tentava Anna. Porém, como é que se pode parar um tanque de guerras, este seu panzer, com apenas uma res-

Marco Buzetto |

78

posta? Como você procura entender a si mesma em um momento tão crítico, um momento de desencontro em sua própria natureza?

― Talvez este seja um problema natural de todos, de todas, da massa.

Talvez seja isso o que as pessoas tentam entender, ou um dia se perguntam. Não sei como, ou quando, mas um dia encontraremos as respostas necessárias; as mínimas? Talvez. Será exatamente aqui que caio de boca e quebro meus

dentes: entender e explicar primeiramente a mim, depois aos outros? Não con- sigo entender, ou ao menos explicar a mim mesma para que eu própria entenda. Como vou, pertinentemente, explicar o que está a minha maldita volta? Penso

Quero mesmo é con-

tinuar enchendo a cara, isso sim. Droga de whiskey falsificado.

― Beca, tenho certeza que você conseguirá se entender, se encontrar, antes que tudo se torne ilusão.

― Ilusão, Anna? Como assim? O que é real para você, ou para mim,

afinal? Já conversamos à respeito, toda essa besteira que nunca nos leva a lugar nenhum. Não quero mais repetir tanto assim uma merda de frase, mesmo que

Somos apenas personagens

que tentam ensinar quem nos vê a como lidar com suas próprias frustrações,

refletindo ou acreditando nas palavras de uma invenção. – continuava a garota/ mulher. A verdade é que preciso urgentemente de emoção, de alguma coisa que eu possa me lembrar de alguma maneira, seja ela boa ou ruim, e também algo que todos estes imbecis que um dia souberam de mim possam comentar ao curso de suas vidas; o que chamam de vida. Preciso de uma grande ação nesta porcaria de história nostálgica. Nesta minha vida estagnada, estrangulada.

― O que você querendo, Beca? Um assassinato? Violência? Estupros?

Loucuras e alucinações de qualquer tipo escritas em paredes ou papeis? É as- sim que você acaba por entregar seus pontos de originalidade, sua identidade? Em uma história patética sobre um lugar qualquer que ninguém ao menos ou- viu falar, na qual seus moradores possam esquecer seu nome? – dizia Anna. Não! Isso não. Você precisa mesmo de algo, de uma boa idéia escrita por seu criador das linhas do destino. Mas nada de clichê, por favor. Quanto menos, melhor. Quanto pior, melhor. Você é mais que isso. Todos nós somos! Apenas não nos demos conta de nossa capacidade. Lembra? Não é bem isso o que você

eu não controle minha existência. Sabe como é

ser melhor não tentar mais nenhum tipo de abordagem

| Rebeca

costumava dizer? E eu, em minha reencarnação.

― Não sei se consigo escapar disso tudo. Principalmente das paranóias,

alucinações, embriaguês e coisas do tipo. Não estou conseguindo mais nada que me emocione, por exemplo, ou que me empolgue, ou me inspire. Sabe Coisas do tipo. Não consigo mais ao menos dar uma droga de risada por algum

motivo, por mais engraçada que seja a piada, ou por mais que meus maxilares tremam de vontade. Pareço não querer esboçar qualquer tipo de reação por

coisa alguma

Mesmo sem saber quando me sinto assim. É como uma música

triste que se repete em minha mente, em minha atual vida sem fundamentos.

― O que você acha de viajar? – indagou Anna. Uma bela viagem Talvez ajude em algum sentido.

― Desculpe-me, Anna, mas você sabe que prefiro apenas ficar na bebi- da. Sem cogumelos, por favor.

― Não estou falando de drogas, Beca. – gargalhou ela. Estou falando

de uma viagem de verdade. Porque você não dá um tempo fora, longe daqui. No campo, talvez.

― Campo? Parece bom. Mas acredito que não seria uma boa coisa.

Nem as árvores topam estar comigo no mesmo ambiente. Você deve concordar:

o ser humano é mesmo um saco. Tire a mim como base.

79

E lá fora ela, Rebeca, mais uma vez. Não ao campo. Porém, agora em uma viagem pela imensidão de sua própria inexistência. Seu pensamento está longe, revestido por uma lúcida vontade de satisfazer seu sofrimento. Rebeca quer insistir em sua vontade, e tentar voltar à medíocre realidade de ingratidão. Essa viagem dizia respeito ao ato simples de tentar se relacionar novamente, pois, como de costume, seus pensamentos faziam-se cercados de problemati- zações sobre o ser humano, dos sacos de ossos e fezes. Tentava mais uma vez voltar para casa. Essa era sua questão no momento: acreditar que havia uma casa para a qual pudesse voltar. Seu cérebro. Sim, essa era sua caverna, sua morada sombria e eterna. Um oceano de insatisfações e questionamentos que fazia Rebeca afogar-se sem ao menos conseguir bater os braços desesperada- mente gritando por socorro.

Marco Buzetto |

O andarilho imaginário

Uma pessoa chamada Exceção

80

― Procurando um pouco de ação, garota? – indagou um idiota qual-

quer com um cigarro entre o indicador e o polegar. Não acha que está no lugar errado?

― Lugar errado? – questionou Rebeca, retrucando a presunção do mais

novo conversador. A questão é: o que você está fazendo tão longe de casa, estranho macaco falsamente evoluído?

Solitária Rebeca. Você não

sabe mais sobre o que conversar, ou no mínimo com quem conversar. Você não

se aguenta mais, isso sim. Não consegue sair da quarta parte de sua vida. Não consegue sair do abismo no qual escolheu se meter, ainda na adolescência. Porque não seguiu os passos de todos, e se tornou um rato de indústria, ou um manequim de loja, quem sabe? Não! Você não. Ao invés disso, você escolheu

ser alguém. Mesmo conhecendo as dificuldades e armadilhas que lhe foram impostas como sacos de papel em sua cabeça; como algemas de flores sem espinhos ao redor de seus pulsos.

― De onde você vem, estranho homem? – questionou ela, curiosamen-

te. Por qual lado você vem? Esquerda? Direita?

― Meio! – respondeu ele. Venho pelo meio. Mas não o de sua vagina,

como todos estão acostumados a sair e entrar não importa o tempo, faça faz sol ou chuva sanguínea. Venho pelo meio de sua cabeça; o que chama de cérebro. Você me pôs aqui Rebeca, diante de seus olhos. Mas talvez eu seja mais real que você mesma. Pois, sou fruto da imaginação de uma personagem. Isso não me faz real?

― Ou ainda menos. – respondeu ela. Como você pode ser real, se é

apenas fruto da imaginação de algo já imaginado?

― Como você, Rebeca, pode acreditar ser real o bastante para me ques-

tionar? Pois, não foi o que você resolveu deixar para trás: a discussão sobre a realidade?

― Xeque! – respondeu ela. Esse foi um bom início. Um ponto para

― Conheço sua atual frustração, Rebeca

| Rebeca

você, estranho imaginário que me apanha desprevenida. Não quer mesmo fa-

zer parte de minha lista de trens e pessoas que entram e saem entre minhas pernas?

― Já fizemos isso, Rebeca. Pois, quantas vezes você imaginou seus

dedos como pênis, tocando fundo seu útero cheio de desejo? Quantas vezes você gemeu sozinha, desejando um homem ou uma mulher fazendo-a ter nove orgasmos numa mesma transa?

― Parece que você tem razão, meu amigo desconhecido em mim mes-

ma. Xeque novamente. Então, nos resta apenas o velho e bom discurso: o que queremos de nós mesmos, afinal? O que você pretende, e o que eu posso ou não

aceitar ou colaborar, talvez. Talvez seja isso o que você procura; algo assim.

― O que você pretende, Rebeca? Diga-me você, afinal.

Bom, realmente é difícil resumir a opera

dessa maneira. – tentou ela responder.

― Pelo que me lembro, você quer tentar explicar coisas sobre as pesso-

as. Não é? – perguntava ele. Sua tentativa de resumir ou desvendar a vida da- queles que você chama de medíocres. Parece algo que apenas uma pessoa em especial pode fazer; uma pessoa com uma vida ímpar, sem igual, uma pessoa chamada exceção talvez. Talvez você mesma, Rebeca. Este é seu sobrenome:

exceção?

― Contradição, talvez. Não é essa a verdade das pessoas? – brincou

ela, tornando-se novamente repetitiva em seus assuntos. Não é isso, então, o que você vem me mostrar novamente, sem deixar que eu ao menos imagine o que há frente aos meus olhos, ou por detrás de minha nuca? Não é isso, meu homem de folclore pessoal, uma realidade melhor ou mais concreta que a sua?

― Diga-me de uma vez por todas, Rebeca: o que diabos você quer de si

mesma, ou de todos a sua volta? MALDIçãO, MULHER! Você ao menos conhece a si mesma. Como quer, no mínimo, escutar o que todos têm a dizer em seus

ouvidos que nunca escutam? INFELIz! Infeliz de você, Rebeca. Por todos os deuses e deusas, ou por qualquer saco de estrume em que qualquer um acre- dite. Diga-me, diga a você, mulher infeliz: O QUE DIABOS VOCê QUER DE SI MESMA? Pois não é exatamente essa a questão essencial?

― Não sei! Está bom assim, desgraçado perguntador? – indagou ela

― Quero apenas

Quero

Marco Buzetto |

81

82

violentamente. Não faço mais a menor idéia do que quero nesse momento, pois não tenho mais vontade alguma de saber algo sobre as pessoas. Essa é a

questão, a maldita questão, seu animal miserável. Não quero mais questionar. Tento não fazer mais isso; no mínimo tento. Pois não quero mais me preocupar com tudo o que está a minha volta, e ainda ser chamada de louca. Cansei-me de tentar manter uma conversa séria com as pessoas, sendo que, mesmo antes de terminar, estas já estão debochando de meus pensamentos, como se eu esti- vesse errada. MALDIçãO. Grande maldição. Nesses momentos, tudo se resume

em dizer que eu permaneço errada

que eu possa descobrir o caminho mais fácil do entendimento racional por parte das pessoas? E eu que sou tomada como diferente. Mas a verdade não é essa! MALDIçãO! Não sou eu a diferente. Os outros que são todos iguais. Iguais

demais. TODOS IGUAIS, EU Já DISSE!

Este era o sentimento de uma pessoa perturbada, sim. Porém, sua per-

turbação vinha de fora para dentro, e depois para fora novamente. No entanto, muitíssimas vezes mais refinada, purificada. Onde estariam, por onde anda- riam as possuidoras das verdades, das pequenas coisas bonitas? Onde estariam às prostitutas, às vagabundas de esquina? Estaria este se tornando mais um inigualável amontoado de páginas escritas sem nexo, sem sexo? É isso? Sopa pública recém fabricada nas mesmas panelas imundas de séculos atrás? Onde estão vocês, queridas amigas de sabedoria e respeito? Onde está a violência, o número dezesseis que não se cansa nessa linha, e que tamanho opróbrio traz aos olhares alcoolizados? É isso então, um clichê repleto de enigmas e desen- tendimentos em todas e quaisquer palavras que não se encaixam, que não se acomodam em nenhuma frase.

― Deve ser mesmo verdade o que dizem por aí. – continuava a garota/

mulher. No final do dia, não fazemos a menor idéia sobre o motivo pelo qual lutamos.

― Você está saindo do assunto novamente, minha dona de imagina-

ções. Por favor, mantenha o foco no diálogo. – pedia o homem imaginário.

Onde está a razão, o maldito segredo para

― Não consigo. Você ainda não percebeu?

― Claro que sim. Percebi muito além disso, na verdade. – respondeu.

Percebi que você, Rebeca, repleta de supremacia, não consegue me dizer algo

| Rebeca

que seja relevante nessa conversa ilusória. Dê uma golada seca nesse seu whiskey vagabundo, pois ao menos se prestou a comprar um de qualidade, e

sinta o pesar amargo e alcoólico de sua vida adormecendo seus lábios. Faça

isso, Rebeca

FAçA!

― Rebeca? Rebeca, com quem você está falando? BECA?!

― Com um

Havia um homem

Deixa pra lá! – respondeu.

― Acho que você bebeu um pouco além essa noite, minha amiga. –

respondeu Anna. O que acha de irmos para casa? Já está mais do que na hora.

Eu te levo

E não havia homem algum diante dos olhos de Anna. Não havia ho- mem, nenhuma palavra dita em voz alta. E também não havia solidez nos pés da garota. Bom, talvez, em nenhum dos lados, na verdade. A partir de agora, era apenas ela, Rebeca, sozinha em sua casa; deixada pela melhor amiga, para que talvez pudesse