Marco Buzetto

Verecundia
Cinco Textos em Oposição à Violência Contra as Mulheres

Acrílico e óleo, 1m x 60cm – Marco Buzetto/2013

Novembro/2013

Verecundia
Cinco Textos em Oposição à Violência Contra as Mulheres

Resumo

Este trabalho consiste em uma coletânea de textos que possuem como objetivo tratar sobre as diferentes formas de violência exercidas contra as mulheres. Baseados em fatos estatísticos e depoimentos reais de mulheres que já sofreram algum tipo de violência, este ensaio pretende contribuir para a luta incessante e supranecessária contra a violência feminina, seus formatos e níveis, seja no dia a dia sexista no qual as mulheres estão inseridas, seja na consciência de que uma em cada quatro mulheres será vítima de violência em alguma fase de sua vida, seja também em relação ao pós-ato, sob o estigma e trauma dos quais estas mulheres sofrerão em continuidade de suas vidas. _______

Texto 1

Aqui, o relato de uma garotinha.
_______ É tudo muito bonito aqui. Minha mãe disse noutro dia que tem gente que não gosta de onde a gente mora. Mas eu gosto. É calor, a gente pode brincar na rua, eu tenho um monte de amigos que brincam comigo. Tem os primos e as primas. Tem os tios e tias da escola. Tem bastante gente. Quando minha mãe vai trabalhar, eu fico em casa, faço o serviço, lavo louça, varro o chão... Tem gente que fala que menina de 10 anos não devia fazer serviço de casa. Mas eu faço... Ajudo em tudo aqui. Mas primeiro eu faço a lição da escola, depois o serviço de casa, aí depois vou brincar, quando minha mãe chega do trabalho. Aí ela me deixa sair pra brincar aqui na rua até a noite... Até começar a novela. Aí eu entro, porque minha mãe fala que já está tarde pra ficar na rua. Quando eu crescer, quero ser médica de bicho. Eu gosto de bicho, de cachorro, de gato, de cavalo, de tartaruga, de peixe, de elefante... Mas eu nunca vi elefante de verdade. Só na televisão. Mas eu gosto mesmo assim. É bonito, e a gente tem que cuidar dos bichos, não matar eles. No meu aniversário eu ganhei uma boneca de presente da minha mãe. Eu brinco com ela todo dia. Troco a roupinha dela, dou banho pra ela não ficar sujinha, passo xampu, sabonete... Depois eu jogo a água da banheira lá no quintal, pra limpar. Minha mãe falou que a gente tem que economizar água. Aí no aniversário vieram todos os parentes aqui de perto, meus amiguinhos da escola, teve bolo, brigadeiro... Eu gosto de brigadeiro. Comi um monte de brigadeiro. Aí veio um tio meu lá de outra cidade e dormiu aqui em casa. Ele é muito legal; me dá doce, bela, compra suco pra mim... Aí no aniversário ele deu outra boneca pra ser irmãzinha da minha. Agora ela brinca junto e dorme na mesma caminha da boneca que minha mãe me deu. É irmãzinha dela. Minha filhinha também.

No outro dia eu fui pra escola de manhã com a minha mãe, aí ela foi pro serviço, que é lá do outro lado da cidade. A tia lá da escola ensinou pra gente o nome de uns animais diferentes, e como eles vivem na natureza, que o menor vira comida do maior, e assim vai. Que uns comem plantas e outros comem carne de bicho também, igual à gente. Mas eu tenho dó de matar bicho. Aí no recreio eu fiquei brincando com minha amiguinha que mora perto da minha casa. A gente desenhou uma amarelinha no chão e ficou brincando, depois chegou mais gente pra pular também. Depois eu fui pra casa com a minha mãe, pra ela fazer almoço e depois voltar pro trabalho. Aí meu tio chegou lá pra almoçar também. Falou que tinha que fazer um serviço de pedreiro lá perto. Então ele comeu macarrão que minha mãe fez. É gostoso macarrão com molho. Eu como duas vezes. Aí eu lavei os pratos e fui fazer lição de casa. Depois meu tio deitou no sofá pra dormir um pouco ante de ir embora. Mas como minha mãe tinha que voltar pro trabalho, ela falou pra ele tomar conta de mim e ficar lá até ela chegar mais tarde.

Eu terminei de fazer a lição de casa e meu tio já tinha tomado banho. Ele é muito legal, meu tio. Vive me dando presente quando ele vem pra cá. Aí ele saiu pelado do banheiro e sentou aqui no sofá comigo. Ele fazia isso sempre. Nem molhava o sofá por que já tinha se secado com a toalha. Na primeira vez que ele fez isso eu fiquei com vergonha, porque minha mãe sempre fala que a gente não pode ficar pelada na frente dos outros e nem na frente de menino. Mas ele falou que não tinha problema porque a gente era parente. Então é, né. Aí ele ficou lá sentado, e pediu pra eu fazer massagem no pipi dele. Ele pegou minha mão, colocou no pipi dele e ficou passando. Aí ficou maior do que tava. Aí eu parei e ele falou pra eu ficar passando a mão daquele jeito, que era assim mesmo que ficava quando ele tava gostando. Ele falou que não era pra eu contar pra ninguém, que ele ia me dar uma roupinha nova pra minha boneca. Aí eu falei que eu não ia falar. “Mas nem pra mamãe”. Aí eu falei que não, porque ele falou que se eu contasse pra alguém eu não ia mais ganhar presente dele e ia ficar de castigo. Aí ele falou que o pipi dele tinha gosto de sorvete de chocolate, que era pra eu chupar pra sentir o gosto. Mas não tinha não. Tinha gosto do sabonete lá do banheiro, não de chocolate. Aí ele falou que era pra eu continuar chupando, que ia sair leitinho. Mas não cabia direito na minha boca. Então ele forçava minha cabeça devagarzinho pra caber. Aí

ele falou pra eu não parar de chupar por que já ia sair leite, e era gostoso. Eu fiquei chupando do jeito que ele falou, e ele ficou pegando minha cabeça e fazendo pra cima e pra baixo com ela, até que saiu leite do pipi dele, e ele falou pra eu tomar que era pra ficar forte. Aí o que escorreu um pouco ele falou que eu tinha que lamber. “Mas não vai contar pra ninguém, nem pra mamãe!”, disse eu meu tio. Aí eu falei que não ia contar pra ela, porque ele ia me trazer a roupinha nova da minha boneca.

Depois disso meu tio não apareceu mais. Só no outro dia que ele levou o presente que ele tinha falado. Mas depois ele não voltou mais. Só na outra semana. Aí ele falou pra eu fazer de novo. Ficou passando a minha mão no pipi dele, até pedir pra eu chupar. Mas dessa vez tinha gosto de chocolate mesmo, porque ele passou uma aguinha que deixava com gosto de chocolate. Aí era mais gostoso pra ficar chupando até sair leitinho de novo. E sempre falava pra eu não contar nada pra ninguém, se não ele parava de vir aqui em casa e ia parar de me dar presente.

No outro dia eu fui embora da escola com a minha mãe de novo na hora do almoço, e quando ela já tinha voltado pro trabalho o meu tio apareceu lá em casa de novo, sem avisar, e bateu palma pra eu abrir a porta e o portão pra ele entrar. Aí ele tinha trazido um pente pra eu pentear o cabelinho das minhas bonecas, e deu um espelhinho de brinquedo também. O meu tio falou que queria fazer um negócio. Aí ele tirou minha calcinha e ficou passando a mão na minha pombinha, que ele falou que era gostoso. Aí eu falei que não, mas ele falou que era só uma vez, que era pra eu deixar. Ele ficou passando a mão, e perguntava se era gostoso. Eu respondia que era, mas que eu queria parar. Mas ele falava que não. Aí ele perguntou que gosto que tinha a minha pombinha, se era de chocolate também, ou se era de moranguinho. Aí ele ficou passando a língua dele na minha pombinha, pra ver que gosto que tinha. Mas eu acho que não tinha gosto de moranguinho nem de chocolate. Aí ele ficava passando a língua mais forte, e passava o delo dentro da minha pombinha. Aí eu falei que tava doendo pra ele parar, mas ele falava que não ia parar porque tava gostoso, mas tava doendo. Aí ficou saindo sangue, e eu comecei chorar, por que tava doendo e saindo sangue da minha pombinha. Aí ele

falou que já ia parar de sair sangue, que era só um pouquinho, que não ia sair mais. Ele falou pra eu chupar o pipi dele de novo, que ia sarar. Ele falou que tinha um jeito de fazer parar de sair sangue da minha pombinha, que era pra esconder o pipi dele lá dentro. “Não tio, vai machucar”. Mas ele falou que não ia, e que ia sarar a minha pombinha. Mas aí quando ele começou esconder o pipi dele na minha pombinha, ficou doendo mais ainda, e eu comecei chorar. Ele ficava escondendo e tirando de dentro da minha pombinha até parar de sangrar. Aí ele falou que ia passar o leitinho pra sarar, mas que tinha que ficar fazendo daquele jeito lá. Aí ele falou pra eu ficar encostada no sofá pra ele ficar atrás de mim pra eu não ver, pra não dor mais. “Fica de cachorrinho no sofá pro titio ver. Aí não vai dor mais”. Mas ficava machucando. Aí ele falou que ia sair leitinho já, e era pra eu parar de chorar que ele ia me dar outra boneca. Mas eu ficava chorando,... mas eu queria outra boneca também. Mas aí ele tirou o pipi dele de dentro da minha pombinha e falou pra eu chupar mais pra sair mais leite. Aí eu fiquei chupando até sair, e depois ele passou o leitinho na minha pombinha pra sarar. Depois ele falou pra eu ir tomar banho, pra lavar bem a minha pombinha e pra não deixar minha mãe ver, e que no outro dia ele ia trazer a outra boneca, mas eu não podia falar nada pra ninguém. Mas aí ele não veio mais aqui em casa. _______

Texto 2

Aqui, o relato de uma adolescente.
_______ Certo, que menina nunca sonhou como seria a primeira vez? Todas. Aposto que sim. Minha segunda vez foi terrível, assim como a terceira, a quarta, a quinta... As coisas só começaram melhorar depois da vigésima, eu acho. Parei de contar a certa altura, e só tentava não pensar no assunto. Fazia sexo com pouquíssima frequência. Minha primeira vez? Saí com umas amigas da escola num final de semana pra assistir um lançamento no cinema lá do outro lado da cidade. Um filme bem legal. Então conheci um menino no cinema, lá da escola mesmo. Eu já o conhecia de vista, mas ali a gente ficou conversando, e ele falou que queria me dar um beijo. Foi legalzinho. Um beijinho meio desastrado. Eu já tinha beijado outros meninos. Mas parecia que ele não. Estava com a boca tremendo... Talvez pelo friozinho do ar condicionado.

Na outra semana a gente se encontrou de novo no mesmo lugar, e rolou uns beijinhos. Dessa vez com menos medo da parte dele. Foi uma noite muito legal. Até saímos pra tomar um sorvete; duas amigas e eu, mais ele, um primo mais velho e outro amigo. A noite teria sido perfeita... se naquela noite alguém não tivesse me estuprado.

O primo mais velho desse meu amigo falou que ia me levar pra casa junto com minhas amigas. Realmente levou. Deixamos minhas amigas na casa de cada uma e eu fiquei por último. Era caminho, íamos a pé mesmo. Mesmo sendo um pouco longe, mas aproveitávamos pra dar uma volta pelas vitrines. Ele veio com uma conversinha, dizendo que queria falar comigo sobre o primo dele, e que gostava mais de mim do que o primo e tal. Me arrastou para um beco escuro no fim de uma rua perto de casa, tentou me beijar e eu não quis. Mas ele forçou, apertou meu braço e disse que se eu não desse um beijo, ele não me deixaria ir embora. Mas eu neguei de novo. Ele apertou mais forte

meu braço. Já estava doendo muito. Roubou um beijo de mim e enfiou a língua na minha boca. Tentei escapar... Então veio um tapa no meu rosto. Na sequência já estava abrindo o zíper da calça e pedindo pra eu chupar o pinto dele. Claro que eu disse não e tentei fugir de novo. Mas ele me empurrou forte contra a parede. Era um lugar muito escuro e separado das casas de um jeito que não adiantava nem fazer barulho ou gritar, que ninguém ouviria. E realmente não ouviram. Gritei por socorro... Nada. Ele me encheu de tapa puxou minha calcinha pra baixo. Eu estava de vestido, um vestidinho bonito. Não era curto... Abaixo dos joelhos. Eu não estava pedindo pra ninguém me estuprar. Era só um vestidinho qualquer. Mas minha calcinha já estava no chão. Não deixei de ser virgem por que ele enviou o pinto em mim. Tive o hímem rompido pelos dedos anelar e médio da mão direita dele, não pelo pinto. Senti uma dor violenta. Nunca esquecia aquela dor. Eu chorava aos soluções; tanto soluço que não conseguia gritar, só fazer ruídos pausados que não davam em anda. E ele lá, socando dos dedos em mim. Depois me virou de costas e enfiou o pinto, dizendo que depois iria me comer por trás, que adorava “cu de menina nova”. Falava que ia me comer do jeito que via nos filmes pornôs. E já com o pinto rasgando as paredes da minha vagina com agressividade, socou dois dedos no meu ânus, e eu gritei mais ainda. Muita dor por todos os lados, e vários tapas na minha cara, em minhas pernas e bunda. Eu nem conhecia direito o desgraçado. Só sabia que ele existia por que o via com os meninos lá da rua. Me empurrou com raiva no chão e falou pra eu ficar de quatro. Estava com raiva por que eu tentava desesperadamente, a todo instante, fechar as pernas e não deixá-lo me violentar daquela maneira. Mas não adiantava. Foi tudo em vão. Ele me deflorou assim, em um beco escuro, com os dedos, depois com o pinto e toda aquela selvageria verbal que me gritava nos ouvidos. Não consegui ficar de quatro. Que jeito? Apanhando daquela forma, com meu ânus e vagina sangrando e doendo mais que tudo o que eu já havia sentido... Como eu ter forças pra segurar o corpo parado? Cai deitada de barriga no cimento. Bati o queixo no chão e senti o calor do sangue escorrendo... agora por minhas pernas, meu ânus e meu queixo. Ele arrancou o pinto da minha vagina tão rápido que dei um berro de dor, e em um piscar de olhos, deu uma cuspida grossa na mão, passou no pinto e socou com toda força na minha bunda. Estendi o berro anterior ao máximo. Foi uma dor que me deixou

totalmente sem energia. Senti a pressão do pinto dele dentro de mim, o calor, o entra e sai seco e rasgado, o meu corpo sendo empurrado contra o cimento sujo do chão e as coisas asquerosas que ele me falava: “eu quero gozar na tua boca, sua putinha”. Então ele começou socar o pinto em mim com mais força, mais velocidade, mais pressão... E empurrava bem fundo o pinto no meu ânus. Uma dor inigualável. Dor de humilhação. Não só no corpo. Dor de ficar lá jogada enquanto ele me comia feito um animal. Então ele arrancou o pinto de dentro de mim novamente com muita velocidade, e soltei outro grito aterrador de tanta dor. Realmente não sei como ninguém me ouviu gritar naquele beco. Me virou de costas pra baixo, um tapa ainda mais forte no meu rosto que me atordoou... enviou o pinto na minha boca e gozou. “Agora limpa essa sujeira que teu cu fez no meu pau, vaca. Deixa tudo limpinho. Engole essa porra”. Sufoquei com o pinto e a porra dele na minha boca. Não conseguia respirar direito, sem forças pra nada. Fiquei deitada, chorando copiosamente, pedindo ajuda, gritando enquanto ele saia correndo e erguendo as calças ao mesmo tempo. Minha boca seca, meu corpo todo doendo muito... Desmaiei.

Foi assim minha primeira vez. Assim perdi a virgindade. Assim começou minha vida sexual. Ou melhor: minha não-vida sexual. Foi assim que tive meu hímem rompido por um homem. Assim pus as mãos em um pinto pela primeira vez. Foi assim que fui tocada pela primeira vez... Assim senti a textura de uma ejaculação pela primeira vez. Foi assim, violentada em um beco num dia de semana a poucas quadras da minha casa. Não perdi só a virgindade e a inocência naquela noite. Na verdade, elas me foram arrancadas, tomadas aos tapas. Foi assim que um bilhão de pensamentos tomou de assalto minha cabeça. Coisas que não tive tempo de filtrar. Foi assim que minha primeira vez marcou minha adolescência. Com lágrimas, sangue, violência, a boca cheia de gozo e o rosto esfolado no cimento. _______

Texto 3

Aqui, o relato de uma jovem mulher como todas as outras.
_______ Era tarde da noite. Bom, não tão tarde. Meia noite e quarenta; mais ou menos. Quase uma hora da manhã, se bem me lembro. Estávamos saindo de uma festinha, como em todos os finais de semana. Eu era calouro na faculdade. Primeiro ano de nutricionismo. Sempre gostei de nutricionismo, alimentação saudável, dietas... esse lance mais natural, sabe. Mas sem aquele lance bitolado de vegetarianismo fanático, ou os tipos carnívoros rebeldes, sabe, que não querem nem saber de respeitar sua própria alimentação. Enfim, primeiro ano. Muita coisa acontecendo. Novos ares. Novas experiências. Até namorei um rapaz no primeiro semestre. Sei lá se tive razão em fazer isso. Deveria ter esperado, não sei. Talvez no segundo semestre. Tive boas amigas, bons professores, ótimas notas. O fato é que saí mais cedo de uma das festinhas. Não pela manhã, como era de costume. Não quis ver o sol nascer naquele dia, e fui para casa um pouco antes. O problema é que outro cara resolver pegar o mesmo caminho que eu. Ele não estava na festa com a gente. Nunca havia visto aquele rosto. Ele parou o carro, disse que queria conversar, e logo de cara respondi que não. Mas esse cara era do tipo que não aceitava “não” como resposta, sabe. Nem ele, nem os quatro amigos que estavam dentro do carro. Me cercaram em um círculo entreaberto. Me empurravam um encima do outro, e este me empurrava de volta. Uma brincadeira infantil de um mau gosto tão inacreditável quanto o que vinha depois. Me jogaram dentro do carro com uma mordaça na boca e as mãos amarradas nas costas com algum tipo de fita adesiva. Claro que eu estava chorando, gritando aos prantos. Tantas lágrimas saindo dos meus olhos que mais pareciam torrentes, tempestades tropicais sobre a selva. Um deles, depois de pedir várias vezes para eu calar a boca, me deu um soco tão forte no rosto que desmaiei na hora. Acertou no maxilar, no lado direito. Três dentes quebrados neste local, só por causa do soco de “cala a boca”. Acordei com um deles me segurando pelos braços e outros dois puxando minhas calças pelos pés. Sequer tiraram meus tênis. Puxavam minhas calças com pressa por cima dos tênis, e sacudiam minhas pernas como folhas de papel. Créditos. Sequer sabiam tirar um

par de tênis. Eu gritava. Claro que gritava, desesperadamente. Freneticamente. Tão assustada e consciente sobre o que viria a seguir, que mal conseguia pensar o que gritar em socorro. Se gritasse “estupro”, ninguém viria. “Assalto” então, nem pensar. Pensei em gritar “fogo”... Mas tomei outro tapa no rosto que me abriu o supercílio. Tudo girou como uma roda-gigante, uma espiral infinita de medo. Queria que me socorressem, que alguém me ajudasse. Mas, ao mesmo tempo, eu não queria que ninguém me visse naquele estado deplorável de violação da minha humanidade feminina. Queria pedir socorro, mas não queria que me vissem humilhada daquela maneira. Cheguei pensar em ir para casa como se nada tivesse acontecido quando aquilo tudo terminasse, sei lá. Sem contar pra ninguém. Rasgaram minha calcinha como cães famintos rasgando um pedaço de bife de quinta qualidade. Um puxou para um lado, outro para outro lado. Pude sentir as linhas do tecido daquela minha calcinha nova rasgando uma a uma... uma calcinha tão linda, de renda, delicada, elegante... Nunca mais tive uma calcinha como aquela. Na verdade, todos os modelos me fazem lembrar aquela noite. Noite não tão escura. Uma noite qualquer. Nada de noite sem lua, noite super escura e misteriosa que não tem ninguém na rua. Não. Foi uma noite qualquer... Mas não para mim. Para parar meu choro, um deles disse que ia enfiar o pau na minha boca. E fez isso. Enfiou o pau na minha boca de tal maneira que pude sentir a cabeça do pinto na minha garganta. Vomitei na hora. Foi nojento. Vomitei todo o jantar e as duas taças de vinho que eu havia tomado algumas horas antes. Ele ficou com tanta raiva que me bateu com abundância. Os outros três riram, riram muito da situação, dizendo que ele havia levado um vômito no pau. Que horror. Imagine a cena, quanta brutalidade, que cena repugnante. Quando pensei que não seria nada de mais, socaram o pinto em mim. Fundo. Tão fundo que senti os testículos dele apertados contra meu corpo. E começou a meter forte em mim. Enfiava e tirava aquele pinto sujo dentro de mim, sem camisinha, é claro. Quem vai se preocupar com segurança quando se está cometendo um ato incomparavelmente criminoso quanto a este? Nada disso. Sem nenhum cuidado. Outro deles disse que queria comer meu cu. Comer forte meu cu. Então me puseram em pé novamente enquanto um deles deitava no chão, e me empurraram novamente, agora

sobre este que estava deitado. Meteu novamente o pinto em mim. Outro veio por trás, e enviou o pau no meu ânus. Sem dó, nem piedade. Sem lubrificação. Sem saliva. Enviou com tamanha violência que me rasgou de imediato. Eu só conseguia gritar e chorar. Parecia uma eternidade. Não via a hora de um deles tirar uma faca ou um revolver da cintura e acabar logo com a minha vida para eu parar de sentir aquela dor e tamanha humilhação. Estranhamente implorei em minha mente para eles não gozarem dentro de mim, e para nenhum deles ter qualquer doença sexualmente transmissível. “Por favor, seu desgraçado”, pensei eu falando com deus, “se você realmente existe e não provou até agora, não os deixe gozar dentro de mim”. Não pensei isso por maldade. Não quis desafiar nenhuma lei mística ou religiosa. Na verdade, duvidei da existência de deus ali mesmo, naquela hora. Que deus permitiria um estupro coletivo? Minha revolta, então, tinha fundamento. Fizeram em mim uma dupla penetração com uma agressividade generosa. Nunca imaginei meu corpo sendo violado daquele jeito. E quando eu implorava para pararem, ainda com a mordaça na boca, me batiam ainda mais. Tomei tantos socos, chutes e tapas que meus sinais motores já não respondiam. Perdi no mínimo um litro de sangue naquela noite. Pressão baixa. Minha visão variava segundo a segundo entre tons escuros e claros. Escuros e claros. Como luzes apagando. A cada estocada que levava daqueles pênis em meu ânus e vagina ao mesmo tempo, cada flash de outro pinto sendo socado em minha boca, cada instante me levava a implorar pela morte. É difícil querer sair dessa depois que já não resta mais o que fazer. Minhas roupas, eu não fazia idéia de onde estavam. Meus tênis, finalmente conseguiram arrancar, mas eu também não os via. Tudo o que eu reconhecia diante de mim eram aqueles quatros seres estranhos me estuprando, tornando minha vida um martírio, tornando o ato sexual a coisa mais repugnante e indesejada do universo. Nunca mais consegui transar. Tive dois ou três namorados há muitos anos depois de tudo acontecer, mas, o cheiro do ser masculino me dava náuseas. Fiquei eternamente traumatizada. Até hoje não saio de casa sozinha. Tudo o que faço é acompanhada. Sempre com uma amiga, sempre avisando meus pais, sempre vigiada por pessoas que podem cuidar de mim (talvez), e que sabem onde vou; pessoas que recebem minhas ligações avisando que irei demorar mais dez, quinze, vinte minutos para voltar pra casa.

Nunca imaginei ser vítima de um estupro, quanto mais um estupro coletivo. Nunca me imaginei chorando com tamanha decepção quanto a existências de seres humanos capazes de tamanha covardia. Nunca me imaginei olhando desconfiada para todos os lados antes de sair pela porta de casa para ir à padaria da esquina comprar algumas baguetes. Nunca imaginei que pelo resto da vida teria de tomar dezenas de remédios diariamente para combater as doenças que me transmitiram naquela noite. Nunca pensei que um dia fosse ter AIDS, e ter minha expectativa de vida diminuída por ser vítima de um estupro coletivo. E em todo momento naquela noite, mesmo implorando, não imaginei que eu fosse sobreviver. Minha vida mudou drasticamente daquela noite em diante. Nunca mais fui a mesma. E todos à minha volta nunca mais foram os mesmos, pois desconfio de todos a todo instante agora. Nunca mais tive certeza sobre nada. Nada, alem de que existem pessoas capazes de cometer tamanha brutalidade com outro ser humano. Não há um dia no qual eu não chore. _______

Texto 4

Aqui, o relato de uma mulher que não se esquece.
_______ Não faz muito tempo. Na verdade, para mim parece que foi ontem. Todos os dias são parecidos com aquele dia. Sempre que fecho os olhos enxergo a mesma cena, sem escapatória; ouço meus gritos, meus gemidos altos de dor. Vejo em terceira pessoa, fora do meu corpo, meu próprio sofrimento. Saí de casa naquela terça-feira a tarde, como sempre fazia. Era de costume eu caminhar no final da tarde. Sempre as terças e quintas-feiras, e também aos sábados e domingo pela manhã. Uma horinha de caminhada era o bastante. Quando estava inspirada, duas horas sem intervalo. Nada que uma boa música no fone de ouvido e uma garrafinha de suco de laranja não resolvessem. Meu kit de caminhada. Às terças-feiras, eu caminhava sozinha. Minhas amigas não podiam ir comigo, pois tinham outros compromissos neste dia. Era rotina, no mínimo há dois anos, se bem me lembro, sem pecar sequer um dia. Em uma destas terças-feiras, fui pega desprevenida por uma pessoa que pedalava rápido ao meu encontro de bicicleta. Foi como um relâmpago. Na verdade, ele havia passado por mim unas três vezes; eu que não reparei. Sempre na contramão a minha direção. Quando chegou perto na quarta vez, me deu um golpe tão forte no nariz que desmaiei no mesmo instante. Só me lembro da mão dele chegando próxima ao meu rosto, cada vez mais perto, e uma dor nauseante que me levou ao chão. Não era tarde da noite. Nada disso. Final das dezenove horas no horário de verão; final claro de tarde. Pensei que estas coisas só acontecessem na calada da noite, na madrugada, em bairros violentíssimos, em países miseráveis. Mas não. Aconteceu ali, comigo... Nem vinte horas ainda não eram. Fui arrastada para trás de um tapume. Bom, sei que fui arrastada pois desmaiei na calçada, e quando acordei, estava toda ensanguentada da cintura para baixo, com o nariz quebrado, atrás desse tapume. Minha calcinha rasgada, ainda nos

meus tornozelos. A calça jogada longe. Minha camiseta enrolada amarrava minhas mãos juntas em minhas costas. Minhas pernas esfoladas no cimento. Dezenas de pedrinhas ainda coladas e meu corpo pela pressão que meu peso exercia sobre elas. Meu rosto doía muito. Muitas marcas de mão em minhas bochechas. Devo ter tomado vários e vários tapas na cara. Quando fecho os olhos para dormir, vejo esta cena se repetindo e repetindo. Durmo a base de remédios mais fortes a cada mês. Quando acordo, de instinto levo as mãos à minha cintura, checando se minhas roupas ainda estão lá. Quando entro no banho, tudo certo até ter de lavar a cabeça. Ao fechar os olhos, aquela cena agressiva novamente, em fragmentos. Não consigo me lembrar do rosto do estuprador, mas me lembro nitidamente dos gemidos. Um filme de terror oitentista. Sinistro. Tão real ainda hoje como no dia em que aconteceu. Quando me acordaram e me socorreram na manhã do dia seguinte, atrás daquele tapume, de me assustei novamente e tive vontade de sair correndo para muito longe. Eu ainda estava em estado de choque, tão intenso que tentei agredir um dos socorristas. Só depois entendi o que estava acontecendo, já na ambulância. No hospital, fui sedada com doses cavalares até me acalmar. Me deram pontos. Quinze pontos na vagina e nove no ânus. Me deram um coquetel de medicamentos para combater HIV e AIDS; inúmeras coletas de sangue. Os médicos disseram que o estuprador não usou preservativos, e também gozou dentro de mim. Havia esperma no meu útero e na minha boca. Minha reação foi perguntar imediatamente se eu estava grávida. Que susto tomei. Que horror. Imaginar estar grávida de alguém que abusou sexualmente de mim, me agrediu de todas as formas... Por mais compreensiva que julgo a mim mesma, eu não conseguiria olhar no espelho e saber que dentro de mim cresce um filho concebido de um estupro, de um ato tão bárbaro, tão asqueroso. Não que eu não fosse amar esta criança, mas, não sei explicar... Olhar para ela e lembrar que seu pai foi um estuprador que sequer foi preso?! Não. Prefiro não passar por isso. Prefiro não mentir para este filho quando, um dia, ele me perguntar quem é seu pai. Que trauma seria este para ele! Se fosse uma menina, então? Trazer ao mundo uma menina, uma mulher, mais uma mulher que um dia pode ser vítima de violência sexual, além de centenas de outras violências diárias que poderia sofrer? Nunca! Como explicar a ela que um dia poderia ser vítima de estupro? Mas, por alivio presente e futuro – realmente não sei se por alegria –, eu não estava grávida. Eu chorava, chorava e chorava. Chorava muito. Horas e horas aos prantos, desidratando

tanto meu corpo em lágrimas que bolsas de soro eram constantemente reconectadas em minhas veias.

Mais uma terça-feira. Uma garrafinha de suco de laranja que minha mãe havia acabado de espremer para mim. Boa música nos fones de ouvido. Algumas centenas de metros de distância de casa. Uma caminhada suave, mas com ritmo acelerado e constante. Algumas pessoas conhecidas me cumprimentando. Mais alguns metros no fim da tarde. O soco no nariz. O desmaio. O tapume. Minha calça atirada ao longe. Minha calcinha rasgada protegendo apenas meus tornozelos. Minha camiseta transformada em corrente prendendo minhas mãos sem movimento. Um pinto entrando e saindo de dentro de mim com tamanha brutalidade que rasga as paredes de minha vagina seca, de tanto medo. Um jorro despudorado de esperma em meu útero. Não o bastante, este mesmo pedaço de carne e músculo esfola meu ânus e rompe algumas pregas. Sangue e mais sangue. Fazer qualquer coisa no banheiro ainda me faz chorar. Há anos sem transar. Há anos sem me deitar com alguém. Há anos não sei o que é tocar intimamente um homem. Tive algumas experiências lésbicas para tentar me relacionar e quebrar o trauma, mas, mesmo sendo uma mulher a me tocar, meu coração ainda pulsa com receio, com amargura, com aquelas lembranças que me agridem. Mesmo o filho da puta tendo me deixado viva, sabe-se lá por que, me sinto morta por dentro e por fora. Não sou mais ninguém. Não vivo. Não morro. Apenas sofro. Apenas choro.

Às vezes, pela rua, observo todas as meninas, jovens mulheres e senhoras a minha volta, me perguntando quantas delas já passaram ou passaram pelo mesmo, por menos ou por coisa pela qual eu passei. Me perguntar “por que eu?” é um exercício constante, uma realidade diária. Mas me traz uma resposta catastrófica, lamentável, que me causa ânsia. Sim! “Porque eu?”. Pelo simples fato de ser mulher. De ser mais uma estatística. De ser um objeto para o prazer masculino... um objeto, um símbolo para a sociedade. Um produto qualquer a ser consumido. Tudo isso pelo simples fato de ser mulher. _______

Texto 5

Aqui, o relato de uma mulher que não quer que os outros se esqueçam.
_______ Tudo aconteceu muito rápido. Eu era jovem: vinte e sete anos. Mulher jovem e bonita como todas as outras. Último ano de faculdade. Cursava jornalismo. Me formei. Porém, uma semana antes de completar o curso, já com a data da formatura marcada, fui agredida dentro do prédio da faculdade. No começo, não pensei que fosse sofrer abuso sexual. Infelizmente, pensei que fosse apenas um assalto e uma agressão física. Digo “infelizmente”, pois, eu realmente não esperava ser estuprada. Não me vinha à cabeça que algumas pessoas ainda eram capazes de cometer estupro, ainda mais em um ambiente universitário. Durante o assalto, apeie muito. Meu rosto ficou desfigurado, tamanho o inchaço. O sangue escorria da minha boca, do meu nariz; enxergava tudo desfocado, embaçado por conta dos socos e tapas que o agressor me dava a todo o momento. Os tapas e socos duraram pouco mais de três minutos, mas foram o suficiente para acabar comigo. Ele disse que queria o dinheiro, o celular e tudo mais de valor que eu tivesse. Uma cena tensa, repulsiva, totalmente desnecessária. Era só anunciar o crime que eu entregaria tudo. Não precisa tanta violência, ainda maior que o próprio assalto. Mas, não contente, continuou a me bater depois que viu minha carteira quase vazia. Final de mês; eu não tinha muito. Cerca de cem reais para voltar de taxi para casa e passar o fim de semana. Quase nada. O indivíduo ficou com tanta raiva que me dava pontapés e socos ainda mais fortes. Tive o fêmur da perda direita quebrado, de tantos chutes que levei. O pulso direito também, quebrado em três lugares, tentando me defender.

Depois de me bater ainda mais forte, descontente com o assalto que não lhe rendia muito dinheiro, comigo já quebrada por fora e estirada ao chão, ele resolveu ganhar um pouco mais de outra forma. Eu estava de saia, uma saia longa, rodada, linda, que havia ganhado da minha mãe como presente de aniversário há dois meses. Deve ter

despertado ainda mais o fetiche de garotinha colegial no desgraçado. Claro, com o mercado pornográfico, a televisão e a sociedade alimentando grotescamente alguns estereótipos femininos, qualquer peça de roupa se transforma em um convite para o sexo violento. Cheguei a me sentir culpada por estar usando aquela saia justo naquele dia. Ele arrancou minha calcinha como um leão rasgando a pele de um animal abatido, procurando carne fresca, sentindo o cheiro de sangue quente. Comecei gritar. Urrei por socorro. Supliquei religiosamente para que ele não fizesse aquilo. Nada disso adiantou. Me deu outro tapa no rosto, sempre muito forte, e tapou firme minha boca. É impressionante o fato de eu não ter encontrado forças para tirar a mão dele da minha boca. Estava tão concentrada em fechar minhas pernas, que perdi as forças nos braços. Mas também não adiantou. Eu não queria me entregar, mas ele foi muito mais forte. Senti o peso sobre mim. O barulho do cinto dele se abrindo e batendo no chão: barulho metálico. Cuspiu em uma das mãos, passou no pinto e enfiou ele dentro de mim. Senti uma dor vergonhosa, aterradora. Pronto. Eu estava quebrada por fora, por tantos socos, chutes e tapas, e agora por dentro. Feriu meu corpo e minha alma. A partir dali, eu já não existia enquanto ser humano, enquanto mulher. Era apenas um objeto, um deleite, um gozo repulsivo de um sádico.

― É assim que você gosta, sua putinha? Hem, é assim? ― Por favor, não me estupre! – implorava. ― Não tem grana pra me dar, então vai ter que dar essa buceta mesmo. Tá me ouvindo?! ― Para, por favor! Socorro! – eu gritava. ― Tá pensando o que? Você não serve pra nada. Só pra isso mesmo... só serve pra gente comer. Para de gritar, puta. Vai dizer que você não tá gostando?! Você tem cara de quem gosta de fuder. ― Por favor, para com isso, eu já te dei o dinheiro... – insistia eu, aos gritos, aos prantos, chorando feito uma criança machucada, soluçando, com muita dor.

― Agora vira. VIRA! – gritou ele. Vou comer teu cu, e você vai gostar. Tá gostando do tamanho da minha rola, num ta?!

Foi tudo tão rápido, e ao mesmo tempo um sofrimento eterno. Não demorou mais que cinco minutos me estuprando. Eu só sentia dor. Depois que ele tirou o pinto da minha vagina e enfiou no meu ânus, eu quase desmaiei de dor. Minha boca seca, meu coração batendo a milhão. Aquilo tudo foi a pior humilhação que um ser humano pode passar, tenho certeza. Eu estava morrendo de medo de ele me matar bem ali. Começou me estrangular, apertava forte meu pescoço. Primeiro pensei que fosse para eu calar a boca e parar de gritar por socorro. Depois percebi que não. Me sufocava por prazer.

― Tá gostoso, né putinha?! Gosta que eu te sufoco, eu sei. – sussurrava ele. Agora geme alto pra eu gozar.

Sacou o pinto do meu ânus e enfiou de novo na minha vagina, com ainda mais brutalidade. Perdi a noção da realidade por alguns segundos. Ele começou com gemidos ainda mais ofegantes, dando sinal de que iria gozar dentro de mim. Implorei novamente para que ele não fizesse aquilo. Mas, quanto mais eu implorava, mais ele apertava meu pescoço. O pinto dentro de mim parecia uma faca quente me dilacerando. Eu não parava de chorar. Respirou fundo, gemeu mais alto feito um animal gruindo, gozou dentro de mim e jogou todo o peso do corpo sobre o meu, mas ainda não soltava as mãos do meu pescoço. Comecei soluçar de choro com mais desespero, e quando ele tirou o pinto aliviando o peso do corpo, vomitei.

― Isso é pra você aprender, piranha. Vocês não valem nada. – finalizou.

O estuprador saiu correndo enquanto subia as calças. E eu, depois de vomitar de dor, medo e desespero, em um ato instintivo e ao mesmo tempo confuso e irregular, comecei

a enviar os dedos dentro da minha vagina, tentando tirar a porra daquele animal de dentro de mim, tentando me livrar do mal que ele me causou, gritando e implorando por socorro. O esperma dele misturado ao sangue que arrancara de mim.

Me levantei depois de alguns minutos e corri em busca de socorro. Um taxista me levou para o hospital, onde fizeram todos os exames do mundo. Remédios, injeções, pontos, calmantes, soro. Alguém chamou a Polícia. Registraram um boletim de ocorrência ali mesmo, no hospital. Me perguntaram se eu conhecia o estuprador; respondi que não. Eu realmente não o conhecia. Mas, não era muito diferente de qualquer homem jovem em período universitário. Me pediram uma descrição do sujeito; passei, mas sem precisão alguma. É difícil ter certeza de algo quando se está sendo estuprada. A única certeza que tinha era de que seria brutalmente violentada, e que possivelmente morreria ali mesmo. E foi o que aconteceu. Morri ali mesmo, no chão. Morri enquanto ser humano, enquanto mulher. Meu corpo e minha alma morreram. Tudo foi arrancado de mim naquele instante. Minha vida, até ali, não significava mais nada. Enquanto que o futuro seria representado apenas pelo medo, a vergonha e o desespero. Medo traumático de acontecer de novo, de acontecer com alguém que eu conheça. Vergonha por ter passado por isso. Vergonha do ser humano, por ainda existir pessoas capazes de cometer tamanha atrocidade e selvageria. Vergonha de ser mulher, de ser uma vítima préfabricada da violência cotidiana. Desespero do consciente e do inconsciente. Imagens, sons e odores que me voltam constantemente à memória.

Minha vida nunca mais foi a mesma depois daquele dia. Hoje, mais de vinte e cinco anos se passaram. Criei uma ONG de combate à violência feminina e auxílio a vítimas de estupro. Decidi, para meu próprio bem, não me esquecer do que aconteceu, para que eu possa fazer com que as pessoas também não se esqueçam que, diariamente, centenas de pessoas são estupradas, mortas, agredidas, violentadas, pelo simples fato de serem mulheres. Saber que crianças, adolescentes, jovens, adultos, mulheres de todas as idades e situações são constantemente abusadas em suas próprias casas, seus ambientes de trabalho e estudo, nas ruas, em espaços públicos, me faz perder o sono. Não quero mais perder o sono sozinha. Quero que todos prestem atenção no que está acontecendo

debaixo de seus narizes. Não quero mais que as mulheres sejam vítimas de sexismo, de preconceitos... Não quero mais ver a imagem das mulheres sendo exploradas como objetos, vendendo produtos machistas, servindo de apoio para que homens, empresas e governos machistas enriqueçam e se permeiem no poder. Não quero me esquecer do que sofri e sofro diariamente, não quero me esquecer por que tantas lágrimas ainda escorrem dos meus olhos. Não vou me esquecer, para que eu possa fazer com que todos também não se esqueçam. _______

Nota: Este trabalho foi realizado pelo escritor e professor Marco Buzetto para a semana de Combate à Violência contra as Mulheres, iniciada no dia 25 de Novembro, Dia Internacional da não-Violência contra a Mulher.

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