Você está na página 1de 5

BRUSKY: INCESSANTE RENOVAÇÃO NAS ARTES PLÁSTICAS

Por Rafael Oliveira | Fotos Thiago César

Paulo Bruscky sempre foi um artista a frente do seu tempo. Quando


ainda nem se pensava em comunicação em grandes redes, Bruscky
já experimentava formatos diferenciados para que houvesse um
diálogo a distância entre artistas de todo o mundo. Corajoso, sua
paixão por desenvolver intervenções urbanas incomodou até
mesmo a ditadura militar. Mas nada fez calar o artista cuja cabeça
não se cansa de brotar novas idéias. Aventureiro, Paulo Bruscky é
um artista plástico que tem uma relação muito intensa com o novo
e o efêmero, percebendo e recriando tudo o que o rodeia. Paulo
Bruscky é, sem dúvida, um dos mais importantes renovadores da
cena artística contemporânea do Recife. Nesta entrevista, além dos
novos livros e dos eventos em São Paulo e no Chile, Paulo Bruscky
fala sobre sua participação no 7º Festival Recifense de Literatura,
que acontece este mês.

Agenda Cultural – Você é um artista com uma característica


extremamente dinâmica. Sua arte sempre é inovadora, tudo porque você
sempre teve a coragem de experimentar. Sempre carregou esse espírito
aventureiro?
Paulo Bruscky – Sim, sempre. Mal acabo uma obra e eu já considero
ultrapassada. E já estou fazendo outras coisas. Eu tenho uns cadernos que
se chamam Banco de Ideias, com três volumes enormes. Tudo o que tenho
ali dava pra fazer em pelo menos duas vidas, pelo menos (risos). É claro que
mesmo assim eu continuo criando, pois todo dia eu estou pensando, sempre
anotando idéias. Por isso eu produzo muito. E sempre procuro me manter
informado, para não trilhar caminhos já percorridos. É claro que eu tenho
influência de tudo que vem para dentro de mim nessa área. É como Gilberto
Gil diz: “A Bahia já me deu a régua e compasso, meu caminho pelo mundo
eu mesmo faço”... (risos)

AC – Essa sua busca incessante pelo novo remete à efemeridade das


coisas, algo marcante em nosso universo contemporâneo. Quer dizer que a
arte também tem prazo de validade?
PB – A vida é efêmera, porque a arte não pode ser? O que fica em uma arte
é a idéia, a lembrança. É por isso que eu faço um trabalho mais conceitual,
porque ela necessariamente ela não tem que se materializar, como um
monumento, um mausoléu.

AC – Onde você busca inspiração para as suas instalações?


PB – Eu não tenho inspiração. É um exercício. Eu acho que o melhor
professor é você mesmo. A melhor coisa é estar sempre trabalhando, pois
vai saturando coisas que você está pensando, ao tempo em que vão
surgindo coisas novas. É como andar de bicicleta: se parar, cai. Eu trabalho
com várias mídias: uma coisa vai puxando outra, um vai alimentando o
outro. Isso é muito bem compartimentado na minha cabeça, e eu trabalho
de forma dispersa em vários níveis – mas isso dentro de um pensamento
organizado.

AC – Devido a esse espírito tão inovador, você sempre realizou sua arte
quase à margem da grande mídia, muitas vezes às vezes indiferente a
galerias e museus. Isso é algo que lhe incomoda?
PB – Não. A minha função é criar. Se eu não fizer arte, eu enlouqueço. Me
expresso independente do público apreciar ou não. E a gente sabe que o
público agora está tendo uma formação em relação mais conceitual com a
arte, algo mais reflexivo. Então, se eu me preocupasse com a reação do
público, eu tinha parado de fazer o que eu faço há muito tempo.

AC – Dentro dessa questão da formação cultural para a arte, você já passou


por vários lugares do mundo, e percebe que lá fora, a arte contemporânea
parece ser mais valorizada. Por quê? Quais são os fatores que poderiam
mudar essa situação?
PB – É tudo uma questão de educação. De formação. Vivemos ainda em um
país em que a educação é um problema seríssimo. E temos falta de espaço:
não só o espaço físico, mas como o espaço na própria imprensa. Não há
muito interesse na divulgação das artes plásticas na mídia. Tem melhorado,
mas ainda há muito a fazer, mesmo porque as pessoas ainda não têm o
costume de ir a espaços mais requintados. Grande parte dos locais para
exposições tem uma estrutura que inibe um pouco as pessoas. Por isso eu
sempre fiz um trabalho de rua desde os anos 60. Para criar uma
aproximação do público com a arte, é fundamental que o artista não use só
os espaços oficiais.

AC – Quais são os prós e os contras que o advento da internet e a evolução


tecnológica têm trazido para a arte contemporânea?
PB – Eu já era a internet antes da internet. Eu participei do movimento Arte
Correio no início dos anos 70, e nós éramos uma internet. O correio, além de
ser o único meio incontrolável de comunicação na época, era a grande rede
onde você recebia um trabalho e tratava minhas impressões, enquanto
outros respondiam ao que você fazia. Isso era uma grande rede de
comunicação. Sem contar que ainda utilizamos telegramas e telex. Até o
fax, que pra mim foi um grande marco na história da tecnologia, pois você
desmaterializa e rematerializa a obra em outro espaço. Em 1980, eu fiz a
primeira experiência aqui no Brasil, Recife-São Paulo, eu e Roberto
Sandoval. Então quando a Bienal de São Paulo muito tempo depois veio
discutir a questão da desmaterialização e rematerialização, isso pra mim já
era uma coisa passada. Então a Internet, pra mim, quem fez parte do Arte
Correio é uma conseqüência natural. A gente já era internet no início dos
anos 70.

AC – Qual é a sua relação com a recepção do público frente a sua arte?


PB – Atingir reações foi algo que eu sempre consegui, tanto é que eu
sempre fui perseguido na época da ditadura no Brasil, porque usava
intervenções urbanas. Se você trabalha na rua, você provoca algo nas
pessoas. Acho que uma das coisas mais importantes na arte é provocar uma
reflexão, um pensamento, mas não uma solução.

AC – Em se tratando de intervenções urbanas, como você avalia o espaço


que o artista tem no Recife?
PB – Desde o SPA das Artes, a valorização da arte contemporânea foi algo
que ampliou muito. Antes do SPA, havia uma intervenção ou outra, e
muitas vezes passavam despercebidas. Além de trazer um espaço maior
para o artista local, o SPA também mostrou Recife para artistas de todo o
Brasil.

AC – Qual foi a sua obra a mais prazerosa?


PB – As que mais trazem mais dificuldades geralmente lhe dão uma
satisfação maior pela luta que você teve de fazer, principalmente aquelas
que envolvem a participação do público. Meu trabalho é muito de razão, e
não de emoção. Mas quando há um envolvimento do público, há uma troca
de emoções. Isso é muito legal.

AC – E a mais difícil?

PB – Toda obra pra mim sempre tem uma dificuldade. Eu tenho até uma
pasta de projetos que considero irrealizáveis, por conta do custo e da
dimensão. Ultimamente tenho sido convidado para realizar projetos que eu
nunca havia feito antes. Eu passei um período viajando pelo mundo todo
quando eu ganhei a Bolsa Guggenheim de Artes Visuais, e eu gravei o som
de fontes de vários lugares do mundo, porque não se repete o som. E a
minha idéia era fazer um concerto com esses sons. Há dois anos, o Centro
Cultural Banco do Brasil, sob a curadoria de Felipe Chaimovich, bancou toda
a produção desse concerto. Existem sempre dificuldades quando a questão
do patrocínio para grandes projetos, principalmente quando envolvem
tecnologia de ponta.

AC – Sendo assim, como você avalia essa questão do investimento das


entidades públicas e privadas na arte?
PB – Hoje nós podemos contar com bons editais, nas várias esferas, e isso
facilita muito para que o artista possa desenvolver suas idéias. Se não fosse
assim, o artista teria dificuldades para tirar do próprio bolso, principalmente
porque a maioria dos projetos não existe retorno financeiro. A gente percebe
que há uma grande dificuldade de investimentos quanto à aquisição de
novas obras de arte para os museus brasileiros. O Brasil está defasado em
acervo artístico de uma forma impressionante.

AC – O que você achou da campanha “Doe-se ao MAC”, onde os artistas


doaram mais de 170 obras de arte para o museu?
PB – Eu não doei nenhuma obra para o MAC, porque eu acho que deve
existir uma política de aquisição por parte do governo. Se o artista ficar
doando obras, nunca vai ser valorizado como deve.
AC – Mas a campanha foi um protesto contra a falta de investimento na
aquisição de novas peças...
PB – Minhas peças que estão no MAMAM do Arte Correio foram doadas, tudo
bem. Mas ainda assim, acho que tem que existir uma política de aquisição
para estimular os artistas e valorizar a arte. Tem que existir uma
credibilidade por parte dos artistas.

AC – Vamos falar agora sobre seus próximos trabalhos. Como será a sua
participação no 7º Festival Recifense de Literatura?
PB – Vou participar de uma mesa que trata sobre o livro sem palavras: o
livro-objeto. O livro de artista, deslocado, desmaterializado, visual, onde o
leitor tem uma participação, podendo até alterar a sequência da leitura. Eu
achei extraordinária a abertura para este tema, já que essa é uma
oportunidade de discutir com o leitor uma outra faceta do livro, e sendo
dentro de uma livraria, isso é ainda mais genial. Geralmente esses livros são
bem servidos na área de fotografia, e há poucos na área de artes plásticas.

AC – Quais são seus próximos projetos?


PB – Muito trabalho. Há um livro que acabou de sair (falta ele enviar a
capa do livro e o release). Também será lançado outro livro importante
que está sendo escrito há quase cinco anos pelo espanhol Adolfo Monteiro,
um dos bons críticos de arte que existem por aqui: o Poesis Brusky. O livro
será lançado juntamente com uma grande mostra na galeria Nara Rosa, em
São Paulo, em novembro, com as minhas produções mais recentes e
inéditas, com instalações efêmeras, obras conceituais e trabalhos sonoros.
Inclusive vou fazer uma performance ao vivo na área de vídeoarte com
slides em linhas, que eu fiz em Nova York, onde vou fazendo uma
composição projetada na parede, e sendo documentado na hora.

AC – Soube que você também participará da Bienal do Mercosul, em


outubro...
PB – Sim, estarei sendo homenageado na Bienal, junto com outros artistas
como Edgardo Vigo e Clemente Padin que formava a resistência na América
Latina dos anos 70. Então, a curadoria está fazendo uma junção desses
artistas que tiveram uma atuação importante na América Latina nessa
época.

AC – Foi difícil fazer arte em plena ditadura?


PB – Muito. Enfrentamos muitas dificuldades. Eu e Padin fomos presos,
Horácio Zaballa foi exilado... Vigo, apesar de não ser preso, teve o filho
assassinado. Por coincidência, essas pessoas que serão mostradas na
Bienal, foram perseguidas, e vão ser expostas as correspondências que
tivemos entre nós naquela época. Eu estarei emprestando inclusive não só
as minhas obras como as de Viggo e outros artistas que fizeram parte da
resistência.

AC – Você tem algum projeto para fora do país?


PB – Tem a trienal do Chile, em outubro, que tem como tema Labirinto de
Visibilidade Audiovisual – Experiência e Ditaduras. É interessante essa
retomada em nível internacional para o assunto. Existem estudos, teses e
pesquisas sobre a arte na América Latina. Então, há uma preocupação com
a década de 70 e a ditadura, que tem recebido pesquisadores e respondido
para publicações no exterior. Eu tenho um dos maiores arquivos do mundo
sobre este tema, com cerca de 75.000 itens de arte contemporânea.