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Bianca contemplava rachaduras e teias de aranha no teto acizentado pelos

anos(teto de seu quarto,onde um dia foi branco, tao branco quanto a pureza
de quem ainda sonha sem remorssos, de quem ainda acredita que as gotas
da chuva são lágrimas de Deus). “Foi então neste instante que algo, não se
sabe exatamente o que, talvez um espírito, ou coisa semelhante, parecia
soprar-lhe ao ouvido; ‘‘as pessoas são muito melhores em nossa
imaginação”.Até me espantou tal afirmação.Explico...não foi a primeira vez
que compartilhei tal ideia.Uma amiga que escrevia cartas de genuína
sensibilidade endereçadas a este pobre diabo,havia dito exatamente o
mesmo.Seu nome é preferível ocultar, porém sua graciosidade e sua rápida
presença na cidade mais cinza de todas as cidades deixaram marcas
inocultáveis...(desconfio se esta palavra existe mas é bem provável que sim),
e o fato dela ter um amigo imaginário chamado alex e me narrar suas
peripécias e desventuras nas cartas, tambem.Embora a tal frase pareça ter
sido constituída de confusa e duvidável maneira para qualquer um que bata
os olhos a estes caraceres entre aspas, bianca instantaneamente traçou um
paralelo entre pessoas e discos escolhidos a dedo em prateleiras dos
hipermercados , que pareciam maravilhosamente singulares , mas apenas
ate a faixa dois.Bianca não compreeendia a razão pela qual idealizava
filmes-pessoas-canções-e ou livros(talvez nessa ordem
necessariamente).Concluir o aspecto romantizado de suas expectativas a
entediava, tornando-a contra sua vontade , um clichê moldado perfeitamente
dentro de uma saia xadrez, envolto de tranças milimétricas, num corpo
medindo um metro e setenta de pura insatisfação e ar demodê perante o
resto do mundo(sendo que o resto do mundo para nossa ema bovary solteira
e pós moderna significava nada muito além do que um bairro de aspecto
londrino no centro de uma grande cidade qualquer).
''Engraçado como a insatisfação latente em mim é a mola para grandes
saltos,engrenagem de círculos de mudanças''.O novo antes de aparecer gira
gira gira e nos consome ao ser consumido.Roda gigante? carrossel...parece
jamais ter fim...vanguarda hoje é retornar a tudo o que antes ja foi feito,
melhor ou pior...o termo CLÁSSICO dilui a tudo, a exemplo do que ocorre
com as pessoas que tentaram fazer a diferença e se tornaram aquilo o que
mais odiavam...ah, me assusto ao identificar tanta arrogância e ceticismo
exalando de meu corpo-espírito-ser..."
Após tais divagações,bianca virou para o lado , fechou os olhos ...luzes então
apagadas e formigamento no pé direito.Imagens em sua tela mental tornam-
se confusas e incapazes de serem descritas por ela...porém posso tentar
arriscar-me a descrevê-las, mas não agora.Ainda é cedo demais.
Amanheceu cinza, como um início de fim de nublado dia. Mendigos
reviravam os lixos enquanto Bianca caminhava rumo ao trabalho, com o
animo de uma criança frente uma travessa de gilós.
TIC TAC TOE... anoiteceu,e o céu, ao contrário do que costumava ser,ficou
vermelho...acizentado até,mas porém tão somente e redundantemente
vermelho.
E foi este anoitecer pouco usual o único fato esplêndido em meio a mais um
dia comum na vida de Bianca. Saturada de rotinas-conveniências-
compromissos, a insatisfação a fez ir ao mais próximo boteco sem classe e
deselegante, bem próximo ao “bairro da descrença”. Este bairro carregava
em si toda a vibração e o famoso epíteto de “o refúgio dos perdedores”, por
agregar de fato a maior quantidade de derrotados e frustrados (as) por metro
quadrado. A luz escassa, as mesas de sinuca desbotadas, e a variedade de
tipos até certo ponto, exóticos, entre tantos outros até comuns,
representavam dramaticamente um “remake” do clássico de Tarantino (the
motherfucker Quentin Tarantino) “Um drink no inferno”.
Porém tratava-se da vida real (ou pseudo-vida como costumava proferir
Bianca após algumas doses de uísque sem gelo e sexo casual em um quarto
qualquer onde poucos trocados são suficientes), a vida de Bianca e de tantos
outros de sua geração, conhecida como a geração dos sonhos quebrados.
Algo atraí-ra Bianca para aquele cenário grotesco, algo além da bebida
barata e do cigarro vendido avulsamente por 0,10 centavos. Talvez fosse a
música...alguém colocou uma canção chamando imediatamente a atenção de
nossa garota...(uma de suas favoritas, Love Will tear us apart , na voz de Ian
curtis, um símbolo do suicídio pré Kurt Cobain).
A música então ecoava por todo torpe ambiente, enquanto garotas de trajes
provocantes e cinta-liga agarravam-se por todos os cantos junto de casais e
solitários. Outros tantos se aglomeravam no balcão do bar, quando Bianca
acendeu um cigarro barato e notou a presença de alguém se
aproximando...cabelos desalinhados,olheiras visíveis apenas quando o foco
das luzes apontavam em sua direção, e um certo ar rebelado a todos os
clichês, embora fosse ele mesmo um clichê do que se convencionou nomear-
se por rebeldia. Este certo alguém um tanto quanto misterioso proferiu a
seguinte frase direcionada á nossa modelo da não perfeição social-humana:
“já sabia que você viria aqui. Na verdade, fui eu quem lhe induzi, você tem
uma missão e eu fui designado a orientar seus passos”.
Perplexidade foi o adjetivo que melhor definiu Bianca no momento, sem nada
a compreender. O rapaz desajeitado e nunca por ela antes visto, nem em
seus mais remotos e surreais sonhos após doses extras de prozac e Jean
Paul Sartre ao som de Mars Volta mais litros de café gelado, prosseguiu: “eu
li o seu diário, eu escutei seus pensamentos, mas não serei seu salvador, e
não me veja como o novo messias, quem sabe eu até tenha vindo para lhe
ajudar... até gostaria, mas não há garantias muito menos certezas, talvez eu
torne tudo um pouco mais complicado para você no início, exatamente por
você não suportar o peso real do que se convencionou chamar de verdade.”
A música ecoava aos ouvidos de Bianca. Vislumbrava Ian curtis
entoando”dance, dance, dance,dance to the radio”, completamente aturdida,
se atirou na pista acompanhada de um copo de whisky com gelo.
Caro leitor, se você estiver desatento nem se deu conta de que o tempo
passou, nô saberei dizer o quanto, mas o suficiente para encontrarmos agora
outro cenário o qual notaremos Bianca, estirada no sofá de sua casa. As
roupas espalhadas e peças íntimas jogadas dão a impressão de momentos
de voluptuosidade recente. Duas taças de vinho barato pela metade decoram
agora o ambiente. Bianca então abre os olhos, percebe um corpo junto ao
seu, um misto de perfume e suor, um híbrido de algo selvagem porém
adocicado pela luxúria. Era Raquel. Uma amiga de infância que por motivos
ignorados por mim e provavelmente por ela mesma, se encontrava ali, nua,
de ressaca e com algo de penúria envolvendo-lhe o olhar.
Rebeca bate à porta. 10 horas antes do meio dia. Domingo. Dia o qual a
depressão pós moderna de Raquel retrocedia à uma melancolia
perfeitamente moldada pelos personagens ingleses da era elisabetana;
Raquel era o que poderíamos chamar de ninfa da fossa shakespeariana.
Sua juventude e sedução típicas da inocência de quem não sabe nada sobre
si mesma contrastavam com seu rosto já dotado de um ar severo, mas que
dispensava a piedade alheia. Enquanto isso Rebeca insiste em bater. Bianca
olha Raquel com ternura. De maneira suave desliza as mãos pelos seios
rosáceos e desnudos de sua melancólica amante de uma noite confusa...
“não sei o que houve. Aquele homem, a música, agora você, não entendo...”.
Alguns passos mal calculados, e Bianca abre finalmente a porta. Rebeca
mostrava-se ainda mais decadente em relação as outras garotas recém
amantes. Sonhava em ser como Dean, o personagem central e porra louca
de “on the Road”. 16 anos, cabelos claros com moicano, camiseta do Black
flag, saia escocesa xadrez e a maior quantidade de ódio por metro cúbico de
sangue entre os presentes naquela sala. A típica rebelde classe média alta, a
desfilar sua causa vazia pelas ruas da cidade cinza.
Agora ela apenas observa, puxa do bolso um maço de cigarros amassados,
senta na velha cadeira de balanço, pertencente a algum antepassado de
Bianca, abre “o esboço para uma teoria das emoções” em uma página
qualquer e começa a divagar sobre o sentido da vida:
_um dia você acorda, após uma noite mal dormida, e sente o peso da vida
desabando sobre ti, quebrando todos seus ossos. Como se você tivesse
vivido mais de 40 anos tendo apenas 16... sei que agora não fará sentido o
que estou dizendo...mas...eu vim apenas me despedir...me despedir de
vocês, das alegrias e tristezas já vividas juntas, e também daquelas que
jamais iremos viver. Despedir de todos nossos planos, viagens, porres e
noites de loucura em hotéis baratos da av. são João ou caríssimos da av.
paulista. Do livro de memórias de toda nossa curta e descrente vida.
_ o que aconteceu? Indagou Bianca. Raquel ainda sob os efeitos das drogas
e do álcool, visivelmente embriagada, se vestia aos poucos, lentamente e
alheia a tudo o que acontecia. Apenas se apoiava na parede e observava
tudo girar enquanto procurava suas peças de roupa pelos cantos da casa.
Até que seu olhar fixou-se num disco de vinil atirado ao chão e começou a
cantarolar: “chorando não é que se sente, pois até mesmo um triste olhar nos
mente”. Enquanto isso, Rebeca vira as costas sem proferir uma única palavra
ou qualquer geste que significasse algo semelhante. Apenas seguiu rumo à
porta e partiu perifericamente pelas ruas do bairro. Transitava com os olhos
apagados, quase sem vida. Feito aquele vídeo clipe do“ the verve”,
caminhava em linha reta sem se preocupar com os demais transeuntes,
colidia com os pedestres, era xingada mas não ouvia, esbarrava e não sentia.
Agora estamos todos numa sala pouco iluminada, iluminação feita por raras
velas espalhadas, aspecto sombrio de uma semi escuridão. A trilha sonora é
feita por choro, lágrimas escorrendo das faces e ranger de dentes.
“se eu tivesse corrido atrás dela, se insistisse um pouco mais e não me
portado de maneira tão indiferente, estaria ela noutro lugar que não este
caixão?”-pensava Bianca em um incontrolável monólogo interior, enquanto a
algumas quadras dali Raquel estava em seu quarto, envolta em poças de
sangue após cortar os pulsos e deixá-los sangrarem até desfalecer-se.
Caribedes, alcunha do misterioso jovem de cabelos bagunçados que havia
abordado Bianca naquela noite em que os anjos não ousavam adentrar no
antro da decadência humana, pousou lentamente a mão sobre o ombro de
Bianca. Imediatamente ela teve a visão de Raquel agonizando. Pouco
depois, como quem desperta de um pesadelo, olha e percebe a presença do
rapaz...
_como veio parar aqui? O que você quer de mim?
_não respostas, minha cara... respondeu Caribedes, e prosseguiu:
_pois o que me questiona não são as perguntas direcionadas para a pessoa
certa. Você me faz lembrar de uma garota, tão bela quanto você... minha
primeira grande paixão, digamos assim. Sei que o momento não se
apresenta como o mais adequado para rememorar paixões adolescentes e
desenfreadas, mas a incoerência é meu único vício.
Dito isto, Bianca sentou em um túmulo qualquer, olhou dentro dos olhos de
Caribedes e nada disse... olhos nos joelhos e lágrimas escorrendo.
Caribedes contemplava aquela cena, para ele perfeita, dentro do cenário
mais que melancólico e prosseguiu:
_pois bem, oxalá pudesse ter a experiência de hoje num passado remoto...
eu de fato construí com tijolos de areia movediça um castelo que vislumbrava
atingir as nuvens. Eu criei a dicotomia romântico-simbolista, existente apenas
platonicamente em um pedaço de papel escrito “eu te amo” e após uma
negativa posterior, ao ter meus anseios contrariados, fez com que visse no
espelho minha imagem despencando junto com os tijolos, um por um, e me
afundando num abismo, sem ter onde me apoiar. E eu perguntei para ela,
objeto maldito de meu dissabor, “porque tem que ser assim?”.
Nesse instante Bianca tinha os olhos arregalados, e já sentia uma forte
empatia por aquele rapaz, que ao contar sua história parecia falar sobre ela
mesma.
Ele continuou: “_a resposta dela me intriga até hoje... ela disse que nada nos
é impossível, porém, nem tudo nos convém, e eu jamais pude me esquecer
disso...”.
A pseudo mulher Bianca agora nada mais era do que um ponto de
interrogação. E uma força sobrenatural atraía a garota para Caribedes. Ele
sugava todas as memórias, idéias, pensamentos, e a energia de Bianca.
_”venha, este é o caminho...” disse Caribedes. E ela o seguiu, atraída feito
um imã. Ambos seguiam pela estrada dos sonhos destroçados e esperanças
perdidas, também conhecidas como estrada de tijolos amarelos. Na estrada
era possível observar vultos de poetas arruinados, viciados em paixões e
roubar almas. Viam-se também pequeninos pontos de luzes.
Uma tempestade desenhava-se no céu e Bianca lembrou-se de quando
criança, acreditando que as gotas de chuva eram lágrimas de deus, que
estava triste com as pessoas... ou então que as pessoas, ao morrerem,
viravam estrelas... após estas divagações um tanto sublimes, Bianca estava
a um passo da queda fatal... Caribedes nada mais era do que um abismo,
convidando-a para a infinita crise existencialista na qual Bianca estava
debruçada. E quando Bianca pensou ter todas as respostas, mudaram as
perguntas.

Fim
[Luis Roberto perossi]