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COLEC!

O POPULAR DE FORMAÇÃO ESPIRITUAL


IX

As Três Ave-Marias
P. BERNARDO GASPAR HAAN APPEL, C. 88. !t.

II edição

1948
EDITORA VOZES LTDA. - PETRôPOLIS, R. J.
RIO DE JANEIRO - SÃO PAULO
IM P R IM I P OT E ST
RI O D E J AN EIRO, 13 D E AB RI
L
D E 1939. P. CAET A NO B RAAM,
C. SS. R. SUP . V. PR OV.

I M P R I M A - S E
DI AM ANTIN A , 13 DE AB RIL D E
1939. t SE RAFIM, A RCE BISP O DE
D AM
I ANTIN A.

TODOS OS DIREITOS RESE RV ADOS


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DUAS PALAVRAS

Meu caro irmão em Jesus e Maria, lem­


bras-te ainda dos dias de tua meninice, como
tua piedosa e cuidadosa mãe, de manhã ce­
dinho, quando lhe pedias a bênção e ias to­
mar teu café, perguntava às vezes : "Filhi­
nho, não te esqueceste de. rezar de joelhos
as três ave-Marias?" E o hesitares por vezes
na tua resposta, era-lhe confissão da tua omis­
são, e ela não te teria permitido assentar­
te à mesa para tomares teu café com bis­
coito e bolacha sem que tivesses antes repa­
rado a tua negligência.
Quanta coisa sucedeu e mudou-se desde
aqueles anos felizes, anos de brinquedos e
inocência ! Quanta mudança de domicílio e
ambiente, de estado e condições de vida !
Quanta aflição, cuidado e tristeza, desaponta­
mento e desconcerto ! Muita coisa do que an­
tigamente nos foi caro, do que naquela época
praticávamos diàriamente, já o temqs esque­
cido talvez há muito; já não entra mais na
prática da vida. Porém, daqueles dias ditosos
não são apenas lembranças e saudades que
nos acompanham, não; também conservamos
uns bons hábitos. E entre esses, suponho eu
confiadamente, pertence também o rezares
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8 As três · Ave-Marias

diàriamente, de manhã e à noite, com devo­


ção, as três A ve-Ma rias em honra da Imacu­
lada Conceição e da pureza de Maria san­
tíssima.
Se não me engano nesta hipótese, eu te
felicito ; pois como é salutar este pequeno
exercicio de devoção a Maria!
E' nossa intenção tratar neste livrinho so­
bre as três A ve-Marias. Não como se fosse
um exercício ainda pouco conhecido; graças
a Deus, inúmeros são os católicos que, ao
levantar e ao deitar, piedosamente e de joe­
lhos rezam as três Ave-Marias em honra
da conceição imaculada de Maria. Porém, es­
peramos que esse exercício, mediante estas
páginas singelas, se torne mais geral ainda,
e, se alcançarmos nosso objetivo, isto nos há
de ser um título mais para agradecermos a
Deus e à sua excelsa mãe. Precípuo escopo,
porém, é fazermos com que estimem mais esse
exercício os que já o praticam e se afervore
ainda mais a sua devoção e zelo. Conseguin­
do o que anelamos, teremos levado a cabo
obra sobremodo salutar, de vez que, à me­
dida que esse exercício se praticar mais per­
feitamente, haverá de produzir frutos mais
abundantes.
O exercício das três A ve-Marias merece
ser recomendado e propagado mais que nun­
ca, especialmente em nossos dias. E ' certo,
a impureza, a concupiscência da carne, em
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Duas palavras 7

todos ·os séculos tem sido o grande mal da


humanidade. Mas desde que Jesus Cristo, com
palavras e exemplos, ensinou a combater esse
mal e remiu o mundo das suas cadeias, tem­
se o vício alguma vez manifestado mais es­
candalosa e impudentemente do que em nos­
sa época? A sedução já foi antigamente mais
geral e mais satânica do que em nossos dias
para toda e qualquer idade e estado ? Ah !
quantos gemidos essa praga da impureza não
arranca do peito dos sacerdotes e os faz en­
carar o futuro com receio e ânsia ! Ora, con­
tra essa enxurrada de imundícies melhor pro­
teção não se pode idear do que a da Virgem
imaculadà. Por isso, não padece dúvida que,
mormente agora, merece ser recomendado o
exercício das três Ave-Marias, pelo qual in­
vocamos a Virgem sem mancha exatamente
para conservar a pureza. Ademais, a expe­
riência provou a eficácia deste exercício para
tal fim.
Além disso, esse exercício obteve por di­
versas vezes a aprovação da suprema auto­
ridade eclesiástica. Assim,. Leão XIII, no dia
8 de Fevereiro de 1900, concedeu uma indul­
gência de 200 dias a todos os que, cotidia­
namente, de manhã e à noite, rezassem três
vezes a Ave-Maria com a jaculatória : "O'
minha mãe, preservai-me do pecado mortal!"
Em seguida, o Papa Pio X, de santa memó­
ria, aos 5 de Dezembro de 1904, outorgou uma
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8 As três Ave-Marias

indulgência de 300 dias que poderia ganhar


toda manhã e toda noite quem rezasse ao me­
nos três vezes a saudação angélica, acrescen­
tando a cada saudação : "Pela vossa imacula­
da Conceição, ó Maria, purificai meu corpo e
santificai minha alma".
Suplicando à Virgem imaculada queira im­
plorar sobre C$te livrinho a bênção de seu Fi­
lho e o faça contribuir para propagar e tor­
nar apreciado cada vez mais o exercício que
lhe é tão caro e que aos fiéis é tão salutar,
oferecemo-lo humilde e confiadamente a todos
os devotos filhos de Maria santíssima.

O autor

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CA PIT ULO I

HISTóRIA DO EXERCICIO

§ 1. Os primeiros \'estígios

Rezar todos os dias três A ve-Ma rias em


honra de nossa Senhora não é daqueles exer­
cícios que a devoção excessiva de algumas .
pessoas piedosas veio em nossos dias ajuntar
às diversas e muitas práticas que nos legaram
nossos antepassados. Não, já existe há secu­
los ; consequentemente é uma veneranda prá­
tica de devoção. Já antes de 1250 descobrimos
vestígios dela na gloriosa Ordem de são Fran­
cisco (1 ) .
Foi no principio do século XIII. Entre
os inúmeros filhos que junto a seu pai será­
fico, São Francisco de Assis, rivalizavam em
amor a Jesus e Maria, ocupou lugar de hon­
ra um jovem portuguê.s, Antônio de Lisboa ;
chama-o a posteridade também Antônio de
Pádua, pela cidade privilegiada que mereceu
ser o cenário da sua última atividade e a
sentinela do seu santo corpo.
Que sabem nos contar seus biógrafos

1) Cf. P. Jea n B apti ste O. F. M. Cap., "


La
dévotion aux Troi s A ve Maria" , pág. 22-26 .
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10 As três Ave-Martas

sobre o seu amor para coin Maria santís­


sima?
Todos os dias santo Antônio rezava três
vezes a A ve-Maria, para honrar a pureza
perfeita de Maria, mas ao mesmo tempo para,
pela sua infercessão, conservar ele próprio a
pureza. A cada Ave-Maria acrescentava uma
das três seguintes invocações : "O' Maria, vir­
gem antes do teu parto, conserva puros meu
espírito, meu coração e meu corpo" . -"O'
Maria, virgem em teu parto divino, conserva
puros meu espírito, meu coração e meu cor­
po". - "O ' l\Iaria, virgem depois do teu par­
to, conserva puros meu espírito, meu coração
e meu corpo".
Graças a essa oração perseverante, graças
à mortificação contínua do corpo, Antônio
conseguiu conservar em seu pleno brilho a
açucena da pureza, de sorte que mereceu ser
proposto a todas as gerações futuras como
modelo dessa virtude. E' por isso que a de­
voção dos fiéis, da mesma forma que ao an­
gélico Luís Gonzaga, costuma representá�lo
com um ramo de açucena na mão. Foi por
isso também que seu proceder agradou imen­
samente ao divino Redentor, o qual com ta­
manha predileção pasce entre as almas puras
e castas ; agradou tanto, que ele, qual meni­
no, quis descansar nos braços de nosso popu­
lar santo .
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Hl1t6rla do exercicio 11

Cheio de reconhecimento pela poderosa pro­


teção que recebia de nossa Senhora em sal­
vaguardar-lhe a santa pureza, costumava por
toda parte aconselhar aos fiéis, para os quais
partia o pão divino, o piedoso exercício das
três Ave-Ma rias como meio excelente e pro�
digioso para, até no meio das seduções do
mundo, guardar sem nódoa a virtude dos an­
jos.
Onde foi que o grande taumaturgo de Pâ..
dua tinha aprendido esse exercício valioso ?
Tinha-o recebido diretamente do céu duma
maneira que mais ou menos faça pensar nu­
ma intervenção extraordinária ? ou então foi­
lhe legado por um ou outro servo devoto de
Maria, que já antes dele o tivesse exercido ?
A história silencia a respeito ; revela-nos, po­
rém, um fato da vida dum dos primeiros com­
panheiros de São Francisco, coetâneo também
de Santo Antônio, fato esse que, pelo menos
aparentemente, se relaciona com o piedoso
exercício das três Ave-Marias .
Quero vo-lo comunicar em toda a singeleza,
que é o cunho caracteristico das Crônicas da
Idade Média.
Havia, mormente nos primeiros anos, uma
familiaridade íntima entre a Ordem de São
Francisco e a de São Domingos ; repetidas ve­
zes encontravam-se os filhos de uma e outra
família religiosa. Assim, certa feita, encon­
tramos em casa do bem-aventurado Egídio um
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12 As três Ave-.Marlu

membro da ordem dos pregadores que deplo­


ràvelmente era vexado por uma dúvida acerca
da virgindade de nossa Senhora. Convencido
de que os que são esclarecidos pelo céu sa­
bem remediar as tentações contra a fé me­
lhor do que os que se apóiam apenas em
ciências humanas, o pobre homem foi procu­
rar socorro junto ao irmão iletrado. Não pre­
cisou, porém, revelar-lhe a tentação, pois já
ao entrar, o bem-aventurado Egídio lhe gri­
tou com convicção cordata e resoluta : "Irmão
pregador, Maria foi virgem antes do parto
do divino menino ! " Ao mesmo tempo bateu
no chão com uma bengala e de súbito brotou
ali um lírio de brancura maravilhosa. "Irmão
pregador", falou outra vez, "Maria foi vir­
gem no parto do divino menino ! " E de novo
.

bateu com a bengala no chão e apareceu um


lírio tão cândido como o primeiro. Pela ter­
ceira vez o irmão Egídio ergueu a voz : "Ir­
mão pregador, Maria foi virgem depois do
parto do divino menino!" Acompanhou es.qas
palavras com mais uma bengalada no chão e
fez brotar mais uma açucena, não menos bela
do que as duas precedentes.
Será preciso indicar mais a conexão entre
as frases do bem-aventurado irmão e o pie­
doso exercício do santo t�umaturgo ? A evi­
dência, pelo que nos parece, é palmar.
Não muito tempo depois, começou na Ale­
manha semelhante exercicio em honra de nos-
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História do exercido 13

sa Senhora. No convento das beneditinas de


Rodersdorf e mais tarde no de Helfta, na
vizinhança de Eisleben, vivia na segunda me­
tade do século XIII uma virgem devota, cha­
mada Mectilde. Ao lado de sua santa discí­
pula Gertrudes, ela pertence à categoria das
mais elevadas almas contemplativas da Idade
Média ; não menos terno e intenso do que o
de Gertrudes era seu amor para com a excel­
sa Mãe do Senhor, de modo que nlereceu re­
·
ceber dela os mais assinaladqs favores. Inspi­
rou-lhe esse fato a ousadia de rezar à Rainha
do céu : Oxalá ela lhe ensinasse um meio para
com toda certeza alcançar uma boa morte !
Durante bastante tempo já tinha rezado con1
esse objetivo, quando afinal Maria santíssima
se dignou aparecer-lhe em todo o brilho
de sua glória celestial e de dirigir-lhe este
conselho : "Se quiseres obter com certeza a
graça duma boa morte, então reza cada dia
três A ve-l'Ylarias, a fim de agradecer às trê.s
pessoas da adorável Trindade os privilégios
inefáveis de que me cumulou" . Além disso
a Bem-aventurada Virgem ensinou-lhe uma
curta meditação que a cada Ave-Maria devia
acrescentar. Depois da primeira Ave-Maria
havia de acrescentar : "O' minha santa Se­
nhora, Maria, de vez que Deus Padre pela
sua onipotência vos tornou poderosíssima, eu
vos peço que me assistais na hora de minha
morte e afasteis de mim todo poder inimigo".
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As três Ave-Marias

Depois da segunda Ave-Maria : O minha " '

santa Senhora, Maria, de vez que Deus Filho


vos julgou digna de tanto esplendor, que cla­
reais o céu inteiro, eu vos rogo que na
hora de minha morte ilumineis minha alma
com o conhecimento da fé e da ciência e
de tal modo me fortaleçais que ela não seja
iludida por erro ou ignorância alguma" .
Após a terceira Ave-Maria, afinal, terás
que suplicar : "O ' minha santa Senhora, Ma­
ria, de vez que o divino Espírito Santo vos
infundiu a plenitude do seu amor, comunicai­
me na hora da morte uma gota da doçura do
amor divino, pela qual toda amargura se con­
verta para mim em doçura" ( 1) .
Foi assim que no século XIII em dois luga­
res inteiramente diversos principiou o piedoso
exercício das três A ve-Marias.
A irmã privilegiada sentia-se constrangida
por Deus a manifestar, a duas co-irmãs, re­
velações que lhe foram feitas, em benefício
das almas. Uma dessas confidentes foi Santa
Gertrudes. Anotou os segredos que lhe foram
confiados e quando Santa Mectilde mais tarde
ouviu da existência daquele livro, mandou que
lhe fosse lido, para que nada, senão a pura
verdade, fosse veiculado às gerações vindou­
ras.
Desta forma o exercício das três Ave-Ma-

1) Cf. "Summa Aurea ", t. 5, c o l. 869.


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15
Hlet6ria do exercfoio

rias tornou-se primeiramente conhecido por


meio das religiosas de Eisleben.
Originado dentro das paredes dum mostei­
ro, espalhou-se o devoto exercício bem depres­
sa entre os seculares. Assim se deu na Alema­
nha, enquanto os irinãos espirituais de S.
Antônio de Lisboa, por onde quer que via­
jassem, em pregações, ensinavam. aos fiéis
esse exercício que o grande pregador e tau­
maturgo praticara com tanto proveito para
sua própria alma e ensinara a outros com
êxito tão visível de perseverança ou de con­
versão.
O certo é que, nos séculos que seguiram,
esse exercício estava em voga em diversos paí­
ses. Os compiladores de milagres marianos da­
quela época alegam mais duma vez prodígios
operados pela Santíssima Virgem em favor dos
seus ·servos, que se acostumaram a rezar co­
tidiamente algumas Ave-Marias. Que nessas
"algumas" Ave-Marias muitas vezes se devem
entender três, apenas padece dúvida : enquan­
to um autor fala de "algumas", outro escre­
ve determinadamente "três". Assim, p. ex.,
no seguinte exemplo que também s. Afon­
so nos comunica em suas "Glorias de Maria" .
Por mais maravilhoso que o fato pareça, mes­
mo assim merece toda fé. Testemunha da
verdade apresenta-se o Bem-aventurado Ri­
cardo, que no ano de 1622 morreu mártir no
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16 As três Ave-Marias

Japão (2) . Conheceu as pessoas em questão


e, pelo que parece, atribui ele próprio a esse
acontecimento sua vocação à ordem seráfica.
A história, dum lado, patenteia-nos os juízos
rigorosos da justiça vingadora de Deus e, dou­
tro lado, mostra-nos o poder da intercessão
misericordiosa de Maria para os que cada dia
lhe prestam a pequena homenagem das três
A ve-Marias .
Pelo ano de 1604 viviam nu1na cidade de
Flandres dois jovens estudantes, que, deslei­
xando os estudos, se entregavam a orgias e
devass idões. Uma noite, entre outras, foram
a certa casa de tolerância. Um deles, depois
de algum tempo, retirou-se para casa, e o ou­
tro ficou. Chegando o primeiro a casa, es­
tava para acomodar-se, quando se lembrou
que não havia rezado umas Ave-Marias, como
era de seu costume fazê-lo em honra da ss.
Virgem_. Acabrunhado pelo sono, sem nenhu­
ma vontade de rezar, fez, contudo, um pouco
de esforço a rezou as Ave-Marias, embora
sem devoção e por entre bocejos de sono. Dei­
tou-se depois e adormeceu. Mas não tardou a
ouvir bater à porta com muita força. E ime­
diatamente, sem ele a abrir, vê diante de si
seu companheiro de farras, desfigurado e me­
donho.

2) Cf. P. Jean Baptiste, "La dévotion au trols


Ave Maria," pg 81 e seg.
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Ht.tórla do exerctcio 17

"Quem és tu ?, perguntou aterrorizado.


"Não me conheces ?" , respondeu o outro.
"Mas como mudaste tanto ? tu pareces um
demônio ! " .
"Ai, pobre de mim!." exclamou o infeliz, "ao
sair daquela casa infame, veio um demônio e
·

me sufocou. O meu corpo ficou no meio da


rua e a minha alma está no inferno. Sabes,
pois, - acrescentou, - que o mesmo castigo
tocava também a ti. Mas a Bem-aventurada
Virgem, pelo teu pequeno obséquio das Ave­
Marias, te livrou dele. Ditoso de ti, se soube­
res aproveitar deste aviso, que a mãe de Deus
te manda por mim" . Depois destas palavras
o condenado entreabriu a capa e mostrou as
chamas e as serpentes que o atormentavam,
e desapareceu. Então o colega, chorando co­
piosamente, com o rosto em terra, deu graças
a Maria, sua libertadora. Enquanto pensava
como mudar de vida, ouviu tocar matinas no
convento dos franciscanos. Logo pensou : E'
aí que Deus me quer para fazer penitência.
E foi pedir aos frades que o recebessem.
Cientes de sua má vida, não queriam eles .acei­
tá-lo. Contou-lhes então entre lágrimas o que
havia acontecido. Dois religiosos foram à rua
indicada, achando efetivamente o cadáver do
companheiro, sufocado e negro como carvão.
Depois disso foi o antigo amigo admitido e
levou uma vida penitente e exemplar. Mais
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tarde foi como missionário pregar nas lndias
e em seguida no Japão, onde teve finalmente
a graça de morrer mártir, queimado vivo por
amor de Jesus Cristo.

§ li. S. Leonardo de Porto Maurício

Por séculos inteiros já era conhecido o pie­


doso exercício das três A ve-Marias, mas foi
aos séculos XVIII e XIX que ficou reservado
torná-lo mais universal. Para tal fim a san­
tíssima Virgem se serviu de dois sacerdotes,
dois religiosos, missionário um .e outro, agora
elevados à honra dos altares.
O primeiro pertencia à Ordem Seráfica, on­
de, como vimos, se praticou primordialmente
aquela prática piedosa: S. Leonardo de Por..
to Maurício. :B,oi porque entre os filhos de
S. Ji.,rancisco ainda continuava em vigor o
piedoso e;xercício do grande taumaturgo e pre­
gador de Pádua? Ou, então, foi porque o jo­
vem religioso, que no século X VIII ergueu
por toda parte sua voz com o mesmo ardor
eloquente que no século XIII santo Antônio,
ouviu falar daquele exemplo e se sentiu im­
pelido a se tornar praticante e zeloso propa­
gandista da devoção 'f Seja como for, o certo
é que ele mesmo colheu daquele exercício os
frutos mais salutares e preservou ou salvou
n1uitas almas da impureza.

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ptórl& do exercfcio 19

Que foi que S. Leonardo teve em mira?


Por meio desta prática quis ora comemorar
em geral os privilégios da santíssima Virgem ,
ora em particular uma ou outra prerrogati­
va, especialmente a sua pureza virginal ou sua
Conceição imaculada. Ele próprio praticava
de manhã e à noite o exercício e fê-lo pra­
ticar também p or outros ; de manhã, para pe­
dir à Santíssima Virgem ficasse preservado
0 dia inteiro de pecado mortal pela sua in­
tercessão ; à noite, para não ofender a Deus
nas horas do descanso, sobretudo com faltas
contra a santa pureza.
Portanto, a devoção das três A ve-Marias,
assim como S. Leonardo de Porto Maurício
a entendia, correspondia perfeitamente à sua
vocação. Pois, sendo missionário, devia esten­
der a mão aos que tinham caído no lamaçal
dos pecados e preservar os justos da queda
no vício por meios salutares. Assim, sobretudo
como missionário, procurava propagar esta
devoção. Nas pequenas práticas e sermões que
nas missões costumava fazer sobre a devoção
à Santíssima Virgen1, recomendava esse exer­
cício com toda a energia e zelo apostólico.
Numa dessas alocuções, ele narra o exemplo
dum fidalgo, a cuja espreita o demôl'J.io já há
muito tempo estava, para arrastá-lo ao infer­
·
no no primeiro dia em que tivesse omitido a
Ave-Maria, que costumava rezar diàriamen­
te. Eis como concluiu aquele sermão : "Sim,
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As três Ave-Marlaa

Maria há de vos socorrer e de vos acudir


para vos salvar, contanto que vós a honreis
como ela o merece. Se não quiserdes fazer
mais, fazei então ao menos com grande ardor
este exercício salutar : Cada dia, de manhã
e à noite - prestai bem atenção, pois é coisa
de suma importância, - cada dia, de manhã
e à noite, deveis rezar três Ave-Marias, em
honra da Conceição imaculada de Maria ; em
seguida excitai em vossos corações um ato
de contrição com a firme resolução de nunca
mais pecar. Oh! que santo exercício de pie­
dade ! E' esse um meio sobremaneira eficaz
para ass egurardes a vossa salvação. Vós me
entendestes? Mas, tende cuidado de nunca vos
esquecerdes deste exercício : esquecê-lo uma
vez poderia ser motivo de vossa perdição eter­
na. Acabais de ouvir o que haveria de ser
daquele fidalgo, se tivesse omitido sua Ave­
Maria diária, mesmo se fosse apenas uma
única vez !" ( 1).
Tratando sobre a oração da manhã e a da
noite e sobre a obrigação de agradecer a Deus
os seus benefícios e de pedir perdão pelos
pecados cometidos, o santo aconselha : "Pa­
ra este fim reze-se a oração seguinte que é
tão breve que não se pode alegar o pretexto

1) Cf. Oeu vres de St. Léon . de P. M. " E n­


tre tiens sur la Dé votion en vers Ia tr. S. V ierge
Marie".
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História do exerctcio 21

comum de difícil. Quem não se importa com


ela, tem que forçosamente reconhecer : eu não
me incomodo com a minha salvação eterna,
porque não me quero ligar nem sequer ao
menor exercício. Eis aqui o exercício a que
me refiro : De manhã e à noite deveis rezar de
joelhos e prolundamente inclinados três vezes
a A ve-Maria em honra da Conceição imaculada
da SS. Virgem. Em seguida rezai ainda um
ato de gratidão por todos os benefícios de
que Deus vos cumulou, por fim fazei um ato
de contrição por todas as mágoas que cau­
sastes a Deus pelos pecados cometidos".
A fim de inculcar ainda melhor em seus ou­
vintes esse costume salutar, fala nele três ve­
zes consecutivas, insiste em que fiquem fiéis,
chama-lhes a atenção sobre isto, que desta
prática pode depender uma boa morte. "Eis
aí a espada com que haveis de travar a luta
contra o demônio. Quem sabe se um ou outro
dentre aqueles que agora não se incomodam
com o meu conselho, não haja de ser derro­
tado no combate fatal que na hora da morte
terá de sustentar, precisamente porque não
aprendeu a manejar esta espada? ! "
Como tantos outros missionários, quis tam­
bém S. Leonardo pregar não apenas pela.
palavra falada, mas ainda pela palavra es­
crita. Ora bem, também em seus manuscritos
procurava propagar o exercício das três A ve­
Marias. Assim se exprime na sua regra de
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22 As três Ave-Martas

vida para pessoas do mundo : "Reza ( de ma­


nhã) três vezes o Glória ao Padre à santís­
sima Trindade, um Padre-Nosso a Jesus e
três A ve-Ma rias a nossa Senhora, para que
ela te conserve debaixo da sua proteção" . E
para a noite ele avisa: "Depois das orações
con1uns reza ainda três vezes a Ave-Maria
,
em honra da santíssima Virgem , (2) . Em
outro lugar onde o santo h·ata dos exercícios
de piedade dos servos fiéis de Maria, torna a
falar sobre as três A ve-lrfarias e diz : "Quem
tiver verdadeira devoção a Maria, há de pe­
dir toda manhã ao acordar a bênção de sua
mãe celeste ; nem deixará de rezar três vezes
a A ve-Maria em honra da sua pureza ilibada,
de consagrar-lhe os seus sentidos e todas as
faculdades de sua alma, para que ela as con­
serve quais propriedades suas. Deve implorar­
lhe também a graça de durante o dia não
cair em pecado" .
Destarte o santo procurava tanto pela pa­
lavra como pela pena propagar o exercício
a ela tão caro das três A ve-Marias . Mas não
lhe bastava o zelar ele próprio ; pelo que es­
timulou ainda outros padres e religiosos a se­
guirem-lhe o exemplo. Escreve a um co-ir­
n1ão: "Aconselha a todos aqueles com os quais
entras em contacto, a rezarem as três A ve-Ma-

2) Cf. Oeuvres de St. Léon. de P. M. "V ote du


Par adl s , Reg léme n t d e Vie".

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Hhrtória do exerclclo 23

rias todas as manhãs e. todas as noites, prá­


tica essa que com tanto empenho recomendei
com o fim de honrar a imaculada Conceição
e de agradecer à santíssima Trindade as gra­
ças outorgadas à nossa excelsa rainha ; man­
da-lhes em seguida rezar um ato de contrição
pelos pecados do passado com a firme reso­
lução de, no futuro, não mais pecar".
Deste modo S. Leonardo de Porto Maurí­
cio na zona septentrional da Itália e nos Es­
tados Pontifícios, durante a primeira metade
do século XVIII, se empenhou para tornar
comum e universal entre os fiéis o exercicio
das três A ve-Marias. Ainda ressoava em toda
a sua vibração a voz de S. Leonardo, quan­
do no sul da Península Apenina se fez ouvir
outra voz que, se fosse possível, com mais
eloquência e convicção ainda, aconselhava e
inculcava o mesmo exercicio às massas. po­
pulares que se aglomeravam em redor do seu
púlpito : a voz do grande panegirista de nossa
Senhora, do zeloso e fervoroso doutor da
Igreja, S. Afonso Maria de Ligório.

§ m. S. Afonso Maria

Talvez não haja ninguém que tenha mais


contribuido para espalhar e tornar comum en­
tre o povo católico a prática das· três A ve­
Marias do que o santo bispo e doutor da Igre­
ja, Afonso Maria de Ligório.
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As três Ave-Marias

O que esse santo apregoava a outros, tinha


ele mesmo já posto em prática desde a mais
tenra meninice. Cada manhã, quando inter­
rompia seu breve sono muito antes do rom­
per da aurora, ajoelhava-se, profundamente
se inclinava, o rosto em terra, e nesta atitude
humilde prestava a homenagem das três A ve­
Marias à imaculada, toda pura mãe do Se­
nhor, sempre virge1n, suplicando-lhe se dig­
nasse preservá-lo durante o dia de todos os
pecados. E à noite, antes de estender seus
m.en1bros cansados no duro catre, queria pres­
tar outra vez a mesma homenagem a Maria,
para colocar-se durante a noite debaixo da
sua proteção, a fim de que ela afastasse para
longe dele tudo quanto pudesse prejudicar-lhe
a pureza. E não foi em vão que escolhera a
toda Imaculada por tutelar da sua castidade,
pois viveu puro qual anjo e morreu com a
alma livre de toda imundície, apesar de du­
ros e penosos combates.
O que a própria experiência lhe tinha en­
sinado, participava-o a outros. Este exercicio
piedoso era, a seu ver, uma das melhores ho­
menagens que se podiam prestar à Rainha do
céu. Excitando os fiéis a cultuarem Maria
santíssima e enumerando-lhes, com aquele es­
pírito prático que o caracteriza, os principais
exercícios dos servos fiéis de Maria, termi­
nava : "Ainda há um sem-número de outras
práticas de devoção de que os que amam a
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História do e:ir.erclcio

Maria costumam usar, mas o exercicio mais


útil é recomendar-se amiúde a essa divina
mãe. Não deixeis passar manhã alguma sem
rezar três A ve-Marias e pedir-lhe que vos
preserve durante o dia de todos os pecados".
Depois de desvendar aos infelizes escravos
da impureza a sua condição desgraçada, que­
ria ao mesmo tempo indicar-lhes os meios
para se levantarem daquele precipício e se
preservarem da recaída. Para esse fim incul­
·
cava-lhes: "Nunca deixeis de rezar, ao levan­
tar, três Ave-Marias em honra da purez a de
Maria; fazei o mesmo à noite ao vos deitar­
des".
Desta forma procurava no púlpito ensinar
aos outros a prática, à qual ele próprio vo­
tava tanta estima. Ocasião mais favorável
ainda era-lhe o confessionário. Ah ! quantos
milhares de pessoas de todo estado e condi­
ção, as quais o pecado contra a castidade in­
felicitara profundamente, não viu o santo a
�eus pés ! Então. o seu coração terno ficava
comovido ; então sabia tirar da sua compai­
xão palavras que arrancavam lágrimas aos
olhos até dos nlais empedernidos ! Que felici­
dade não era a sua, libertá-los das cruéis al­
gemas da impureza e reconciliá-los com Deus !
Mas queria ainda fazê-los perseverar e por
isso, antes de despedir o arrependido - fosse
ele doutor ou militar, fidalgo ou roceiro, prin­
cesa ou criada, velho ou criança, - dizia :
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26 As três Ave-Marias

Querendo daqui em diante perseverar e não


mais cair, reza então, diàriamente, de manhã
ao levantar-te e à noite antes de te deitares,
de joelhos e com grande reverência, três A ve­
fr1 arias em honra da pureza e da Conceição
ilnaculada de tua doce mãe Maria; acrescenta
esta breve jaculatória : "Maria, minha mãe,
assisti-me para eu hoje não cometer pecado" .
Muitas vezes impôs esse ·exercício por algum
tempo aos convertidos e também aos que
eram horrivelmente tentados contra a casti­
dade.
O acréscimo desta jaculatória merece aten­
ção particular. Um autor francês, o venerável
Padre Capuchinho Jean Baptiste, diz a respei­
to : "Como en1 toda parte, assim também aqui
Afonso imprime à prática de devoção uma
nota que o caracteriza, e isso tem, antes de
tudo, uma tendência prática. S. Leonardo
m.andara rezar de manhã e à noite as três
A ve-Marias, para não se cometer pecado mor­
tal nem de dia nem durante a noite ; S.
Afonso, por sua vez, quer éxternar determi­
nadamente tal propósito e exprime-o por ·uma
·

jaculatória" (1) .
Assim procedeu S. Afonso no púlpito, as­
sim o fez no confessionário ; assim ainda o
aconselha em inúmeros lugares nas suas obras,
pois o santo doutor da Igreja, que desema-

1) .Jean B ap tiste, o. e., pág. 32.

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História do exerclcto

ranhou com ciência admirável as questões


mais intricadas da moral e esclareceu niti­
damente os problemas mais obscuros da teo­
logia dogmática, é, antes de mais nada, ho­
mem prático, também em seus escritos.
No ano de 1904, quando o mundo católico
celebrou o jubileu de ouro da definição dogmá­
tica da Conceição imaculada de Maria, sua
eminência o Cardeal Guilherme Van Rossum
C. SS. R. editou em Roma um memorial (2)
em que, com piedade filial, colecionou tudo o
que seu pai espiritual, S. Afonso, escrevera
em defesa da Conceição imaculada de Ma­
ria e em propagação do seu culto. Cita S.
Em. das obras do santo doutor da Igreja os
múltiplos lugares onde recomenda as três A ve­
Ma rias. O Cardeal introduz aqueles lugares
com estas palavras : "O piedoso exercício de
rezar de manhã e à noite três A ve-l.f arias
com a invocação da Virgem concebida sem
mancha de pecado, a fim de se guardar a pu­
reza do corpo e do espírito, S. Afonso to­
mou-o muito a peito ; ele próprio o recomen­
dou a todos e, além disso, mandou a outros
o aconselhassem da mesma farma" . Tiramos
as nossas citações de S. Afonso, em gran-

2) S. A lfonsus M. de Lig. e t Imm. Cone. B .


M. V ., auc tore G. M. van Rossu m C. SS. R.
Romae Polygl. S. C. Prop. F.

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28 AB três Ave-Martas

de parte do memorial do preclaro e inolvidá­


vel Cardeal Van Rossum (3).
Em seu livro sobre as "Glórias de Maria" ,
1 ivro este que é um arsenal de tudo quanto
as gerações escreveram e pensaram sobre nos­
sa Senhora e que ao mesmo tempo não deixa
de estar cheio de santa unção, escreve S.
Afonso : ''Quanto à prática desta homenagem
( a Ave-Maria) observe-se o seguinte : Reze-se
cada manhã ao levantar e cada noite antes do
deitar, com o rosto em terra, ou pelo menos
de joelhos, três vezes a A ve-Maria e acrescen­
te-se a cada Ave-Maria esta breve oração :
Pela vossa imaculada Conceição, ó Maria, pu­
rificai o meu corpo e santificai a minha al­
ma".
Indicando as práticas de devoção em honra
de Maria para os que desejam levar vida ge­
nuinamente cristã, ele assim se exprime : "Fa­
lemos aqui apenas sobre as práticas que po­
deis observar para vos ass egurardes a pro­
teção desta excelsa rainha : Rezai cada ma­
nhã e cada noite, ao despertar e ao deitar,
três A ve-Marias e acrescentai esta breve ora­
ção : Pela vossa pura e imaculada Conceição,
ó Maria, purüicai o meu corpo e santüicai

3) E ste célebre e i ncansá vel Promotor das


Missões E strangeiras e estimadissimo Prefei to
da Congregação de Propaganda Fide faleceu em
1932.

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Hlat6rta do eserclclo 29

a minha alma. Colocai-vos em seguida de­


baixo do manto dela, a fim de que durante o
,,
dia e a noite vos preserve de pecados .
Quereis ainda outras provas da grande im­
portância que o santo ligou a esta pequena
prática de devoção ? Durante treze anos go­
vernou a diocese de Santa Ãgueda dos Godos.
O Bispo deixou bom número de avisos saluta­
res para seu clero e seu povo. Ora, também
aqui volta a falar sobre a sua devoção predi­
leta: "Cada um faça este pequeno exercício
de rezar toda manhã três vezes a Ave-Maria
em honra da Madona, acrescentando a cada
Ave-Maria : Pela vossa pura e imaculada Con­
ceição purificai o meu corpo e a minha alma ! "
Inculca-o mormente aos confessores de seu
bispado, seculares e religiosos, exortando-os :
"Não omitais inculcar a todos, sejam fiéis
ou pecadores, a devoção à Santíssima Virgem

pela oração do terço, pelas novenas e sobre-


tudo pelo recomendarem-se de manhã e à
noite à santíssima Virgem pelas três Ave­
Marias, para que Maria os preserve do pecado
mortal".
Desta maneira S. Afonso zelou pela pro­
pagação desta prática que lhe era tão queri­
da ; desta forma também recrutou os propa­
gadores dela. Sobretudo foram-lhe apoio na
divulgação desse exercício seus filhos espiri­
tuais, os missionários da Congregação do San­
tíssimo Redentor, por ele fundada. Nada de
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30 As três Ave-Marias
�������

mais natural: pois não somente lhes dera o


exemplo desta devoção, mas sempre com o
maior empenho lha recomendara. Entre os
conselhos principais para a perseverança, que
deviam deixar aos fiéis no encerramento duma
missão, figurava também este: ºRecomendai
à família inteira a reza em comum do terço
e a cada um em particular as três A ve-Marias
ao levantar e à noite ao deitar, junto com
uma oração pela santa perseverança".
Os padres redentoristas sempre seguiram
escrupulosamente o exemplo do seu fundador,
levando à prática o seu conselho como se fos­
se ordem. Onde quer que se apresentassem,
ensinavam no púlpito e no confessionário o
piedoso exercício das três A ve-Marias. Em
milhares de lugares ensinaram-no a milhões
e milhões de fiéis. Em cada missão costumam
ainda numa breve instrução expor a sua efi­
cácia e a sua força. Na le1nbrançazinha das
santas missões, que distribuem no rnomento
da despedida, podeis ler: "Principia o dia
com o sinal da santa cruz. Nunca onlitas a
tua oração da manhã e acrescenta-lhe três
vezes a Ave-Maria em honra da pureza de
Maria . . . Ajunta à tua oração da noite, como
à da manhã, três vezes a A ve-Ma ria em honra
da pureza de Maria" .
O que ern suas missões fazem por pregações
e adrnoc.stações particulares, trilhando cami-

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Hlstdrta do exerclclo 31
�������

nhos batidos por chefe tão iluminado, fazem­


no também em livros e tratados aqueles ligo­
ristas que em seus escritos publicam e eluci­
dam a doutrina de seu fundador em benefí­
cio do clero e do povo. Assim já procedeu um
dos primeiros companheiros do santo, o ve­
nerável Januário 1-Iaria Sarnelli. No livro so­
bre as "Grandezas e glórias da Mãe de Deus"
indica umas piedosas práticas a se observa­
rem diàriamente. A primeira é: "Reza cada
manhã ao deixares o leito e cada noite ao
procurares o descanso indispensável, três Ave­
Marias em honra da pureza de Maria; coloca­
te debaixo do seu manto protetor; suplica-lhe
queira vigiar-te e defender-te durante o dia
ou à noite que vai começar" ( 4).
Assim fizeram, para omitir outros entre
os posteriores, os dois autores duma 'l1eologia
Moral conforme os princípios de seu funda­
dor, Padres Clemente Marc e José Aertnys;
da mesma forma ainda o piedoso e erudito
Cardeal Deschamps na sua obra célebr.e "La
nouvelle Eve", cap. 30, e o autor popular dum
sem-número de livrinhos de devoção, Padre
Saint-Omer, no seu "Enfa:at de Marie".
Sem receio de exagero nos é lícito chamar
geral e universal em nossos dias a prática das

4) Cf. "Les grandeurs et les gloires de la.


Mere de D ieu" par le vén. Janvier Sarnem
(trad. H. Sai n train), pág. 33.
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S2 Aa três Ave-Marias

três A ve-Marias. Os filhos de S. Francisco,


em cujo meio desabrochou, por toda parte se
empenharam e se empenham ainda continua­
mente pela sua propagação. No princípio des­
te século foi o Revmo. Padre Jean Baptiste,
capuchinho, que neste particular se destacou
na França. No congresso mariano de Friburgo
e no de Lião ele apareceu como defensor in­
trépido deste exercício ou antes como seu pa
negirista ; em folhe tos e boletins que foram
espalhados em centenas de milhares e tradu­
zidos em diversas línguas, e em livrinhos, re­
comendava-o ao povo ; foi o primeiro a pro­
curar obter uma indulgência para esta práti­
ca. Com os filhos de S. Francisco colaboram
inúmeros sacerdotes, inúmeros frades, mon­
ges e religiosas que se dedicam à educação
da infância.
Incontestàvelmente todos eles fizeram mui­
tissimo para espalhar, divulgar, propagar en­
tre o povo este exercício, mas maiores, sem
a menor dúvida, do que os de outros, são sob
este respeito os merecimentos do doutor ze­
losissimo S. Afonso Maria de Ligório. Pelo
seu exemplo, pelos seus escritos, alcançou para
esta prática a mais alta aprovação, a aprecia­
ção geral ; no púlpito e no confessionário, pe­
los avisos repetidos nos seus livros para to­
das as classes, para sacerdotes, para re­
ligiosos, para leigos; enfim, principalmente
por meio de seus filhos espirituais, contri-
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Hlat6rla do exerci.cio 18

buiu, mais do que qualquer outro, para tornar


conhecido o exercício das três A ve-Marias.
Que hoje em dia pelo mundo inteiro diària­
mente, de manhã e à noite, milhares de
fiéis dobrem os joelhos para com respeito
rezarem três vezes a Ave-Maria em honra da
Virgem toda pura e imaculada e lhe imploren1
força na luta pesada pela castidade, é mor­
mente a S. Afonso que isto se deve. A su­
prema autoridade da Igreja reconheceu bas­
.
tas vezes os merecimentos de S. Afonso neste
particular. Quando Pio X, por ocasião das
festas cinquentenárias da definição dogmá­
tica da imaculada Conceição de 1vfaria (em
1904), concedeu uma indulgência de trezentos
dias aos que observarem a prática das três
A ve-Marias segundo o método ensinado e
recomendado por S. Afonso, Sua Santidade
chamou-lhe "prática louvável de Afonso : Lau­
dabilem Allonsi praxim". Além disso, a Santa
Sé elogiou o insigne doutor com os seguintes
dizeres : "Santo Afonso Maria de Ligório não
foi apenas vigoroso defensor da Conceição
imaculada da Santíssima Virgem M aria, mas
também incansável promotor do culto da Vir­
gem concebida sem mancha. E em particular
estimulou entre os fiéis o uso de rezar dià­
riamente, de manhã e à noite, três vezes a
saudação do anjo, acrescentando a cada uma
a invocação : "Pela vossa imaculada Conceição,
ó Maria, purificai o meu corpo e santificai a
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As três Ave-Marias

minha alma" . Afirmou que este exercício tem


eficiência e força extraordinária para conser­
var a pureza contra os assaltos do demônio.
Portanto, foi só ao exercício como S. Afon­
so o praticou e ensinou, logo às três A ve­
Mar ias com a jaculatória acima mencionada,
que Sua Santidade o Papa Pio X, de inesque­
cível memória, ligou a indulgência.
Qual o serviço inestimável que o santo dou­
tor da Igreja prestou por seu empenho em
inculcar a prática das três A ve-Marias, quão
poderosa a influência que ainda hoje continua
a exercer assim na vida religiosa de todos os
povos e gerações em prol da salvação das al­
r.aas, os capítulos que seguem no-lo querem
demonstrar.

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CAPlTULO II

EXCEL:8;NCIA E EFICÃCIA DA PRÃTICA

O zelo dos dois grandes missionários, S.


Leonardo de Porto Maurício e S. Afonso
Maria, e de centenas de outros apóstolos que
lhes seguiam as pegadas em inculcar por toda
parte o pequeno exercício das três A ve-Ma­
rias, é, fora de dúvida, prova cabal da sua
excelência. Não : os dois santos não o teriam
recomendado com tanto empenho e convicção
a seus discípulos, nem estes por sua vez aos
missionários mais novos, às levas que os su­
cediam nas trilhas apostólicas, se a experiên­
cia não lhes tivesse ensinado a sua extraor­
dinária e portentosa eficiência.
Estranha-vos, porventura, o valor, a impor­
tância, que eles ligam a um exercício tão pe­
queno, aparentemente tão insignificante ? Re­
fleti então um instante na sua essência e no
seu caráter.
Praticando esse exercício, rezais em primei­
ro lugar a A ve-Maria . Ora bem, quem nos
fará avaliar bastantemente a saudação angé­
lica, a Ave-Maria ? Aqui nem nós mesmos te­
mos a ousadia de falar, mas deixemos a pa­
lavra aos santos · que, por causa do seu amor
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36 As três Ave-Marlaa

filial para com Maria, mereceram ser escla­


recidos particularmente por Deus.
Vem à frente S. Luís Maria Grignion de
Montfort, que no seu tratado sobre a ver­
dadeira devoção à Santíssima Virgem fala :
"Almas eleitas, sabei que após o Padre-Nosso
a Ave-Maria é a mais bela de todas as ora­
ções. E' a saudação mais perfeita que podeis
dirigir a Maria, de vez que é a saudação que
o Altíssimo lhe mandou levar por intermédio
dum arcanjo, a fim de conquistar-lhe o cora­
ção. Tão poderosa foi essa saudação pelos
encantos ocultos que encerra, que Maria, não
obstante sua profunda humildade, deu o seu
consentimento à encarnação do Verbo eterno.
Por ess a saudação vós também haveis de con­
quistar o seu coração, se a pronunciardes co­
mo convém. A Ave-Maria rezada bem, i. é,
com atenção, devoção e recolhimento, é, na
frase dos santos, a inimiga do demônio que
ela afugenta, é o martelo que o esmaga e des­
pedaça. A Ave-Maria é a santificação da al­
ma, a alegria dos anjos, o hino predileto dos
escolhidos, o "Cântico dos cânticos" do novo
testamento, o beneplácito de Maria e a glória
da Santíssima Trindade. A Ave-Maria é um
orvalho casto e amoroso que se dá a Maria,
uma rosa purpurina oferecida, uma pérola
preciosa presenteada a ela, um cálice de néc­
tar divino que se lhe apresenta. Todas essas
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Excel�ncla e eficácia da prática 37

comparações são tiradas dos escritos dos san­


tos" ( 1) .
"Os verdadeiros servos de Maria, portanto,
assim observa ainda S. Luis Maria Grignion
de Montfort, devem fomentar uma grande
devoção pela Ave-Maria, da qual só pou­
cos cristãos, por mais esclarecidos que de res­
to sejam, sabem o valor, o mérito, a excelên­
cia e a necessidade.
"Por isso, foi indispensável que a santíssi­
ma Virgem repetidas vezes aparecesse a al­
guns grandes santos, quais S. Domingos, S.
João Capistrano e outros, para lhes demons­
trar o valor dessa oração. Compilaram livros
inteiros sobre os milagres e sobre o vigor des­
ta oração para a conversão das almas ; em
alta voz apregoaram abertamente : Visto que
a salvação do mundo principiou pela Ave-Ma­
ria, fica a ela ligada também a salvação de
cada indivíduo em particular. Foi esta oração
que fez com que esta terra árida e infecunda
produzisse o fruto da vida ; esta mesma ora­
ção, rezada bem, tem que fazer germinar em
nossas almas a palavra de Deus e produzir a
Cristo que é o fruto da vida" .
Ao passo que S. Lufs Maria Grignion de
Montfort desta forma compila em geral

1) Cf. "Tratado sobre a verdadeira devoção à


SS. Virgem", de S. Luís Maria Grignion de
Montfort. (Editora Vozea), nº 249-254.

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38 As três Ave-Marias

os elogios dos santos sobre a Ave-Maria, S.


Afonso cita as próprias palavras deles, a fim
de provar a excelência da Áve-Maria. "A san­
tíssima Virgem" , assim se exprime o ilumi­
nado doutor da Igreja, "aprecia muitíssimo
e,ssa saudação. Que não lhe podemos dirigir
saudação mais agradável, do que com a Ave­
Maria, disse-o a Virgem a S. Mectilde. Por
ela será também saudado todo aquele que a
saúda. S. Bernardo, certa ocasião, ouviu de
uma estátua da Senhora as palavras : "A ve,
Bernardo: Eu te saúdo, Bernardo ! ' ' Ora, a
saudação de Maria consiste sempre em algu­
ma nova graça, ·diz Conrado de Saxônia. Per­
gunta Ricardo : E' possível que Maria recuse
mais uma graça a quem dela se aproxima e
lhe diz : Ave, Maria ? A S. Gertrudes pro­
meteu a mãe de Deus tantos auxílios na hora
da morte, quantas Ave-Marias lhe houvesse
recitado em vida. Alano a Rupe afirma que,
ao ouvir essa saudação angélica, alegra-se o
céu, treme o inferno e foge o demônio. Com
efeito, atesta isso Tomás de Kempis, que, com
uma Ave-Maria, pôs em fuga o demônio que
lhe aparecera" .
A prática das três A ve-Marias, por conse­
guinte, há de ser eficaz já por este motivo,
que nos faz rezar oração tão excelente toda!
as manhãs e todas as noites. Além disso re·
petimos essa oração para venerar em noss�
Senhora a sua pureza ilibada e a sua Concei·
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Excelência e eficácia da prática 39

ção imaculada, dois privilégios que lhe são


particularmente queridos.
A sua pureza ilibada, que nem sequer por
causa da dignidade de mãe de Deus quisera
perder. Foi por isso que deliberou consigo e
hesitou na hora que o arcanjo Gabriel lhe
trouxe a notícia alegre daquela elevação ; foi
por isso que falou : "Como é que isso há de
ser, visto que por um voto consagrei a minha
pureza a Deus ?" Foi por isso ainda que pro­
nunciou o seu Fiat : "Faça-se em mim segun­
do a tua palavra" . "Assim patenteou" , diz
S. Afonso, "que deu seu consentimento sô­
mente debaixo da reserva de que, conforme
lhe assegurou o anjo, não houvesse de ser
mãe doutra forma senão pela operação do san­
to Espírito" (3) .
A sua Conceição imaculada, prerrogativa
qµe entre todos os filhos dos homens foi con­
cedida unicamente a Maria e lhe trouxe a
maior abundância de graças, prerrogativa essa
que Maria, especialmente em nossa época, quer
ver venerada por seus filhos. Foi por isso que
a própria santíssima Virgem no ano de 1830
mandou a irmã S. Catarina Labouré fizesse
cunhar uma medalha que trouxesse a sua ima­
gem com esta legenda : "O' Ma ria, concebida
sem pecado, rogai por nós, que recorremos a

2) C!. S. Agost. Lib. de S. Virginitate, e. 4;


S. Thom. III, 28, IV.

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40 As três Ave-Marta.a

vós" ; e prometeu inúmeras graças de escol a


quem trouxesse ao pescoço a medalha. Foi por
· isso ainda que em 1854 ela esclareceu o espí­
rito e moveu o coração do representante de
seu Filho, o pontífice romano, para propor aos
fiéis como dogma de fé essa sua prerrogativa.
Foi por isso, afinal, que no momento em que
se revelou naquele lugar donde pouco depois
havia de derramar torrentes de graças sobre
a França e sobre o mundo inteiro, em Lour­
des, se chamou a si mesma : "Eu sou a Ima­
culada Conceição" .
Ainda há um terceiro motivo por que o
exercício das três A ve-Ma rias deve ser caro
a Maria e poderoso sobre o seu coração. "Por
que três Ave-Marias e não quatro ou cinco ?"
perguntou uma vez a algumas crianças um
padre que se esforçava muito pela divulgação
dessa prática. A resposta soou mui acertada­
mente : "Porque não há mais de três pessoas
na Santíssima Trindade" .
Efetivamente, nós nos limitamos ao número
três para honrar as três pesaoas divinas e
agradecer-lhes as assinaladas prerrogativas
da imaculada Conceição e da pureza ilibada
e intacta, com as quais o Pai quis privilegiar
sua filha, o Filho sua mãe, o Espírito Santo
sua esposa muito amada. Ora, seria desconhe­
cer o caráter do coração humilde e grato de
Maria, se ousáesemos duvidar que o n()SS() re-.
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Excelência e eftcâcta da prê.Uca

conhecimento ao seu benfeitor lhe fosse agra­


dável ou não. Lança ela um olhar de com­
placência sobre seus filhos, que se congratu­
lam com ela pela graça extraordinária da sua
elevação, mas ao mesmo tempo com ela agra­
decem àquele que de tal forma a privilegiou.
Ademais, é verdade, esta prática é pequena,
leve, e tão pouco custa que ninguém poderá
fingir pretexto de impossibilidade, mas mes­
mo assim . . . fará com que cada dia fique
.

compreendido entre duas vezes trê.s Ave-Ma­


rias. Pois bem, S. Afonso diz : "Feliz a ação
que ficar encerrada entre duas Ave-Marias ! "
Com insignificante modificação podemos con­
cluir com o mesmo direito : Feliz o dia que se
encontrar entre duas vezes três Ave-Marias ! ''
Tal dia tem que ser ditoso !
Essa nossa prática, não há dúvida, é leve,
m.as não o ignoramos : Maria é tão boa que
tem por costume outorgar-nos os maiores be­
neficios até pela menor homenagem que lhe
prestamos.
Por fim, esse exercício parece tão peque­
nino e tão fácil ; é por isso que se tem tornado
tão universal, e entretanto . . . Jamais refle­
tiste quantas Ave-Marias deste modo ofereces
a Maria ? Três A ve-Marias cada manhã e cada
noite, i. é, seis por dia, quarenta e duas cada
semana, ou então cento e oiten ta por mês,
ou, por outra, duas mil cento e sessenta Ave-
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42 As três Ave-Marias
-- - ----- ----- -------

Marias, diga-se e escreva-se : mais de quaren­


ta e três terços por ano. Leitor, suponho eu,
tens agora trinta e quatro, trinta e cinco
anos. Criancinha de três ou quatro anos apren­
deste este exercício de tua piedosa mãe -
Deus a conserve em vida ou a recompense já
no céu ! - e desde aquele tempo não deixaste
passar manhã nem noite alguma sem prestar
a nossa Senhora este obséquio. Já sabes que
nesse caso, tudo junto, deixando de lado to­
das as outras orações e rosários, rezaste qua­
se mil e qua trocentos terços, mais de setenta
mil vezes a Ave-Maria ? Oh, quantas graças
destarte deves ter recebido pela intercessão
de Maria. E isso por meio desse exercício pe­
quenino, quase diria insignificante ! Deveras,
ele tem todas as aparências duma pia fraude !
Até agora, porém, calei um dos motivos por
que a prática das três A ve-'/darias é tão exce­
lente e eficaz ; talvez seja o principal. Rezas
de manhã e à noite três A ve-Marias, a fim
de te assegurares a proteção poderosa de nos­
sa Senhora, mormente para ficares, por sua
intercessão, preservado de pecados. Ora, pedir
a Maria que te preserve de pecados, não é
isso mesmo uma renúncia aos pecados, uma
resolução de não cometê-los ? Não se objete
que com o pecador apegado às ocasiões e aos
hábitos ruins de certo isso não se dá ; mesmo
assim é para ele, caso reze de coração sin-
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Excelência e eficácia da prática 48

cero, um reconhecimento da sua fraqueza, uma


prova do seu desejo de um dia rmnper com
o pecado, uma prece para obter forças ; con­
�equentemente um propósito ainda fraco, po·
rém ainda em gern1e. Não quisesse emendar­
se de forma alguma, não rezaria. A oração
já é tentativa, esforço, luta. Por isso S.
Agostinho atesta · da sua vida, antes de sua
conven:;ão, que não tinha coragem de rezar :
"Receava eu que vós, ó meu Deus, me ouvís­
seis e me atendêsseis depressa, me curásseis
cedo das doenças, da má concupiscência, à
qual eu preferia satisfazer a ver extinta" .
Tal oração, por conseguinte, já é algum pro­
pósito de emenda. E' isso que essa prática
sempre encerra em si, mas, particularmente,
se se fizer pelo método que é ensinado prática
e psicologicamente por S. Afonso e que pelo
Santo Padre é enriquecido de indulgências :
i. é, acrescentando a cada uma das três A ve­
Marias o suspiro : "Pela vossa imaculada Con­
ceição, ó Maria, purificai o meu corpo e
santificai a minha alma" .
Por causa d o amor em que Maria arde pa­
ra com Deus, é inegável que ela não almeje na­
da com mais ardor do que ver que todos os ho­
mens o amem, e, consequentemente, se domi­
q.em e não pequem. Além disso, ela tem com­
paixão muito terna dos pecadores, seus filhos
infelizes. Ela os vê na profundeza das suas
misérias de que querem, mas não podem le-
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Ae três Ave-M&rlu

vantar-se ; ouve-os clamar a ela e suplicar com


insistência a fim de se desembaraçarem das ca­
deias do inferno e não mais ofenderem a seu
14,ilho : Julgas que a Santíssima Virgem pode­
ria ficar indiferente a tudo isso ? Não, seria
esse pensamento uma injúria ao seu coração
compassivo. Essa pequena prática, logo, deve
ser eficaz e forte, deve alcançar graças pre­
ciosas para os que a observam fielmente.
São especialmente três graças que o exer­
cício das três A ve-Marias alcança para os ser­
vos de Maria : a pureza, a conversão, uma boa
morte. Consideremos cada um destes favores
em particular.

§ 1. A pureza
Não há pecado tão múltiplo e geral, como
a impureza. Traze:nos dentro de nós mesmos
o germe desse pecado, a má concupiscêneia ;
continuamente a carne quer revoltar-se con­
tra o espírito. Sabendo disso, o demônio ataca
o homem de preferência deste lado fraco. O
n1undo se compromete com ele e lança mão
de amigos que não prestam, de livros imorais,
divertimentos desonestos, cinemas pouco de­
centes, peças de música levianas que a rádio­
düusora transmite, tudo isso para seduzir os
que são castos. Quão poucos no meio dessa
luta e desses perigos chegam à idade varonil
sem ficarem feridos ! E, infelizmente, uma vez
ferido, o homem sara com tanta düiculdade,
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Excelência e eficAcia da prática

custa tanto ! Tão difícil é desemaranhar-se dos


laços da impureza, quando se caiu neles uma
vez ! Tão difícil neste particular manifestar a
sua miséria aos que unicamente podem res­
tituir-lhes a saúde, curar a ferida ! Daí é que
o homem tantas vezes neste hábito se encra­
va, falta-lhe a coragen1 de romper definitiva­
mente, até que assim chega ao leito de morte
e se perde para sempre. O que os santos nos
revelam a respeito, o que a triste experiência .
ensina aos que são os confidentes dos segre­
dos mais íntimos dos corações, é capaz de nos
fazer estremecer e arrepiar. Deveras, S. To­
más d'Aquino tinha razão ao chamar a im­
pureza a maior alegria do demônio e atestou
que o homem se afeiçoa, se apega a ess e pe­
cado mais do que a qualquer outro ( 1) . Quan­
tas queixas não proferem milhões de corações
infelizes que experimentam toda a dureza da
escravidão da desonestidade e se sentem im­
potentes para sacudir esse jugo ; quantos la­
mentos dos que a seus pés vêem escancarado
o abismo do inferno e quase não se podem
suster no declive da impureza pelo qual es­
tão escorregando ! E o que é mais triste ain­
da, milhões há que arrastam o pesado jugo
de servidão, mas continuam tão atordoados
pelos prazeres vergonhosos que não lhes pesa
o fardo que os oprime, nem notam o próprio

1) Summa Theolog. I-II, q. 73, v.

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48 As três Ave-Marias

aviltamento ! Ah ! se todos, particularmente


os que ainda não conhecem a desgraça da im­
pureza, quisessem praticar o exercício das três
A ve-Marias! Que remédio excelente, que pre­
servativo vigoroso não haviam de nele encon­
trar contra a impureza !
Aqui apelamos primeiro que tudo para a
autoridade dos dois santos que com tanto zelo
se empenharam pela divulgação desse exer­
cício. Ouçamos em primeiro lugar a S. Leo­
nardo de Porto Maurício : "Verificando que as
tuas orações nas tentações de impureza não
acertam, aproveita a mediação da Santíssima
Virgen1 ; recorre a ela com grande confiança ;
recorda-lhe que é tua advogada em quem pu­
seste toda a tua confiança, e a fim de como­
vê-la a interceder por ti, deves rezar diària­
mente, de manhã e à noite, as três A ve-Ma rias
em honra da sua imaculada Conceição, coisa
que tantas vezes se recomenda. Hás de tirar
dessa prática um proveito maravilhoso ! ! "
Após essas palavras o santo cita uns exem­
plos e conclui : "0' meus irmãos, aceitai tão
belo e tão sólido exercício de piedade e ficai
fiéis a ele até à vossa morte ! ! "
S. Afonso exortava a todos rezassem dià­
riamente as três A ve-Marias, porém de mo­
do especial àqueles que no combate pela
pureza tinham sucumbido. Ao infeliz que es­
tivesse com vontade de se emendar, falava
com insistência : "Ora, não deixes de rezar
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Excelência e eficácia da prática. 47

de manhã, logo ao te levantares, três A ve-Ma­


rias em homenagem à pureza de Maria ; faze
o mesmo à noite antes de te deitares para
repousar ! "
Assim falaram esses santos que pela expe­
riência aprenderam alguma coisa ; ainda sem­
pre a mesma experiência continua a provar
a eficácia desta oração. Eis uns fatos dentre
muitos outros. Está visto, a maior parte das
provas que aqui poderíamos citar são de mol­
de a nos ditar a maior prudência em veiculá­
las. Ademais, fica fora de dúvida que a maio­
ria das conversões que se alcançaram por meio
desta prática, são conversões do pecado de
impureza. Mais claro do que a luz do dia pro­
vam-nos os fatos seguintes a eficácia das três
A ve-Marias pela conservação da castidade.
Certo rapaz resolvera abraçar a vida reli­
giosa e já começara a executar o seu propó­
sito, porém, como o demônio esperasse demo­
vê-lo da sua santa resolução, assaltou-o com
diversas tentações contra a santa virtude. O
infeliz jovem rezou, continuou a rezar com
mais fervor, porém, por mais que quisesse e
fizess e, parecia que nada adiantava ; por fim
estava a ponto de desistir dum estado que o
obrigava a observar castidade perpétua. Foi
felicidade dele que não cessou de perguntar
por remédios e de procurar exercício que de
vez o livrasse dos assaltos contínuos do de­
mônio. Eis que a Providência lhe mete nas
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48 As três Ave-Martas

mãos um livrinho pelo qual trava conhecimen­


to com a prática das três A ve-Marias, con­
forme S. Antônio a cumpria e ensinava
para salvaguarda da pureza. Sem demora co­
meçou a experimentar a eficiência deste meio ;
desapareceram as tentações e pouco depois
abraçou a vida religiosa, na qual perseverou.
Certa feita, assim nos narra um missionário,
exortei uma moça a rezar cada manhã e cada
noite as três A ve-Ma rias em honra da Rainha
das virgens. "Padre", retorquiu, "é supérflua,
inútil, essa sua recomendação. Aprendi essa
prática de vovó e nunca deixo de cumpri-la.
Ou antes, para falar a verdade tal qual é, al­
gum tempo a omiti e por isso caí em graves
pecados contra a castidade ; mas, graças a
Deus, mais tarde tornei a fazer esse pequeno
exercício e daí para cá emendei-me completa­
mente daquele vício" .
Oxalá observassem todos fervorosa e con­
fiadamente eese pequeno exercício em obsé­
quio da pureza e Conceição imaculada de Ma­
ria ! e todos permaneceriam puros e castos,
ou pelo menos bem cedo sacudiriam as ca­
deias da escravidão da impureza.
§ II. A conversão
O preclaro panegirista holandês de Maria,
o piedoso e sábio Dionísio Cartusiano, chama
a Maria "o refúgio especial dos extraviados,
a. esperança dos miseráveis, a advogada de

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Excelência e eficácia da prática

todos os pecadores que a ela recorrem" . São


Bernardo pronuncia uma palavra mais apta
ainda para inspirar coragem e confiança
aos desditosos que se acham enlaçados no peca­
do : "O' Senhora" , assim apostrofa ele Maria,
"vós não aborreceis pecador algum, por mais
imundo e hediondo que seja aquele que a vós
se dirige : logo que ele vos implora socorro,
não recusais estender a vossa mão compassi­
va para levantá-lo do mais fundo báratro de
desespero" .
Com efeito, são essas palavras que nos hão
de alentar e encorajar, a nós, pobres pecado­
res, fracos, incapazes de suportar a luta, tan­
to mais porque a experiência de cada dia nos
afiança a verdade desse asserto. Ora, um meio
sobremodo excelente para participar da in­
tercessão misericordiosa e onipotente de nos­
sa Senhora em prol dos pecador�s, é a prá­
tica das tres A ve-Marias. Desta vez toda a
nossa argumentação há de consi�tir em fatos
e testemunhos de sacerdotes e missionários.
Comecemos por uma história que tiramos
dum autor hodierno.
Certo homem, que tinha passado a vida in­
teira no escândalo e notoriamente era conhe­
cido como mação, adoeceu perigosamente . A
sua família era religiosa e insistiu para que
recebesse os santos sacramentos. Satisfazendo
a esses desejos, mandou chamar um Padre e
recebeu os confortos da santa Igreja. Outro
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As trés Ave-Marias

sacerdote, porém, que, não muito tempo de­


pois, o visitou como amigo confidente da fa­
mília, chegou bem cedo à descoberta de que
toda a conversão não fora senão hipocrisia.
Confessou, realmente, o enfermo que apenas
aparentemente, para não desagradar à sua
família, tinha recebido os santos sacramentos,
inas que interiormente ficara completàmente
o mesmo.
Após essa declaração, o sacerdote zeloso en­
vidou todos os esforços para persuadir o
doente a que fizesse uma comissão contrita,
e . . . afinal saiu-se bem. Desta vez a con­
trição foi evidentemente sincera. O próprio en­
fermo revelou ao Padre a que coisa julgou
dever atribuir essa graça extraordinária. "Re­
verendo" , disse, "em toda a minha vida recebi .
a sagrada comunhão só duas vezes : uma vez
foi comunhão boa, foi a primeira, sendo crian­
ça ainda, e uma vez foi malfeita, a saber, on­
tem. Porém, pron1eti à minha mãe, à cabe­
ceira do seu leito de morte, que rezaria to­
dos os dias três A ve-Marias . A ess a promes­
sa fiquei fiel ; só duas vezes falhei, a saber,
no dia em que oficial e solenemente me iniciei
na loja, e ontem, depois de comungar indigna
e sacrilegamente" .
Outro exemplo é dum jornalista francês, ro­
mancista e poeta, Armando Silvestre. Como
literato alcançou grande renorae, porém a sua
pena.- envenenada quase não soube editar se·
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Excelência e eficácia da prática 61

não obras levianas, dissolutas e imorais. Mor­


reu em Fevereiro de 1901, em Tolosa, depois
de receber edificante e humildemente os san­
tos sacramentos e garantir em absoluto a sin­
ceridade da sua conversão. Ora, também esse
convertido deve a graça ao exercício das três
A ve-Ma rias . Pois, com poucas exceções, · ti­
nha-as rezado diàriamente, e foi isso o único
bem que praticara durante tantos e tantos
anos.
O Padre capúchinho, que na França se ti­
nha esforçado tanto pela propagação das três
A ve-Marias, atesta : "Nós mesmos podería­
mos alegar um sem-número de exemplos que
temos testemunhado, mas impõe-nos silêncio
a circunspecção que nosso cargo exige de nós.
Citemos, porém, com a devida prudência, al­
guns fatos.
Uma pessoa que se confessava diversas ve­
zes no ano, sempre ocultava ao sacerdote al­
guns pecados. Desde uns seis meses, porém,
vexava-a e atormentava-a a consciência com
remorso invulgar e sentia-se ela como que açu­
lada a consertar as confissões precedentes.
Afinal ela se nos apresentou. Auxiliei-a a des­
carregar a consciência e acrescentei o conse­
lho de rezar cotidianamente as três A ve-Ma­
rias . Que foi que respondeu ? "Meu pai, já as
rezo desde que ouvi um dos vossos Padres
pregar sobre o assunto" . "E quanto tempo
faz ?" "Mais ou menos seis r.aeses ! Bem evi-
"

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62 As tr�s Ave-Marias

dente foi, portanto, o favor da Santissima


Virgem que, para recompensá-la por esse
exercicio de devoção, lhe obtivera a graça
preciosa duma boa confissão geral, sem a qual
não houvera para ela possibilidade de salva­
ção.
Sabemos muitos outros exemplos semelhan­
tes a este ; um, porém, merece atenção parti­
cular.
Uma pessoa que queria passar por piedosa,
profanou repetidas vezes, para sua desgraça,
os sacramentos da confissão e comunhão, ca­
lando propositalmente pecados mortais. Por
fim, de moto próprio, veio reparar as suas
confissões e disse : "Meu pai, desde algum
tempo rezo as três Ave-Ma rias e tenho toda
a certeza que foi por causa disso que a san­
tíssima Virgem me conduziu até aqui. Não
aguento mais, sinto-me muito infeliz ; venho
manifestar-vos t�dos os meus pecados e dou­
vos licença de publicar, por toda parte, que
devo a minha conversão às três A ve-Marias" .
No dia seguinte veio comunicar-me a sua feli­
cidade e outra vez estimular-me a que publi­
casse a sua conversão.
"Eis aqui", assim continua o mesmo autor,
"outra espécie de conversão que nos foi co­
municada por um religioso verídico e fide­
digno. Certo homem toca a campainha do
convento e pede um sacerdote para ouvi-lo
de confissão. Fazia já bastantes anos que não
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Excelência e eficâcl& d& �râtica

mais se tinha reconciliado com Deus. "Senhor


Padre", afirma o homem, "graças às três A ve­
M arias me acheguei do senhor. Desde algum
tempo rezo-as e daquele instante para cá sen­
ti-me estimulado a fazer confissão bem fei­
ta" .
Outra pessoa estava em sumo desespero e
pouco faltava para que não se tirasse a vida.
Lembra-se de chofre que certa pessoa lhe ti­
nha aconselhado rezasse diàriamente as três
A ve-Marias. Reza, recupera sem demora o
sossego interior e desiste do seu intento peca­
minoso.
Mas talvez não haja ninguém que mos­
trasse maior confiança na eficácia deste exer­
cício do que o redentorista francês, o P.
Prouvost, homem de virtudes �crisoladas e
energia e operosidade incansáveis, que do
ano de 1860 até 1894 em aldeias e cidades,
através da França inteira, fez ressoar a sua
palavra eloquente ; talvez ninguém por meio
desta prática conseguisse registar conversões
mais consoladoras. A sua confiança nesta ora­
ção chegou a tal ponto que num sermão so­
bre nossa Senhora exclamou : ''Desafio-vos a
não vos converter, se me prometerdes rezar
ainda esta noite, antes de vos deitardes, trê:;
A ve-Marias com o desejo de vos reconciliar
com Deus" .
Certa feita achava-se entre seus ouvintes
um homem miserável, abismado em vida cri-
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As três Ave-Marias

minosa, que, ao ouvir aquelas palavras, falou


consigo mesmo : "Eu quero experimentar ! "
Chegado que foi a casa, reza três vezes a
Ave-Maria e . . . , repentinamente, sente-se
completamente transformado ; não pode mais
parar, continua rezando Ave-Marias até alta
noite. Na manhã seguinte quer ir ao traba­
lho mas detém-no, a seu ver, uma força in­
visível. "Ah ! fala consigo mesmo, "são aque­
las três A ve-Marias!" Torna a rezá-las, mas
agora é-lhe impossível : não pode mais resis­
tir ao impulso de ir confessar-se. Dirige seus
p assos para a igreja, mas encontra o confes­
sionário do P. Prouvost assediado por pe­
nitentes. Falta-lhe a paciência para esperar
inuito tempo, acotovela-se por entre a multi­
dão, cai no confessionário e exclama : "Pai,
eis aqui o convertido de nossa Senhora ! " O
Padre lhe pede o ob�équio de falar em voz
baixa e deseja explicação de suas palavras.
No fim da confissão o convertido contrito
pediu ao padre publicasse por toda parte
que a Santíssima Virgem cumprira a palavra
dada, que ele tinha aceito o desafio da vés­
pera e se vira constrangido a se confe•­
sar. O Padre procura informar o homem que o
::mcerdote não pode revelar nada do que ou­
viu na confissão. "Logo, o senhor não quer
divulgá-lo ? ! " perguntou o feliz convertido ;
"pois bem, ness e caso sou eu quem o revela­
rá ! " Sai do confessionário e grita a todos os
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Excelência e efic,cia. da prática 55

que se acham na igreja : "Eu sou o conver­


tido de Maria. Conheceis minha vida escan­
dalosa. Não queria me converter, mas ontem
à noite rezei três A ve-Ma rias e em seguida
vi-me obrigado a me dar por vencido. Sim,
sou e.u o convertido de Maria, proclamai-o em
toda parte ; daqui em diante hei de viver como
verdadeiro cristão ! ''
Pode-se imaginar a alegria do missionário ;
maior, porém, ainda foi a alegria que lhe es­
tava re.servada ao voltar um ano mais tarde
à mesm� localidade. O primeiro que encontrou
foi o convertido de Maria. O Padre aproxi­
mou-se dele, perguntando simplesmente : "Mui­
to bem, e como vai ?" "Como vai ? Padre, já
sei o que o senhor quer dizer ; como vai mi­
nha alma. Pois bem, posso declarar-lhe que
desde as missões não cometi mais nenhum
pecado mortal, nenhuma blasfêmia, nada de
embriaguez, nada, nada de pecado grave. Cada
dia fico mais convencido do benefício que
Deus me prestou. E ' Maria que vigia sobre
mim e eu fico-lhe fiel" .
Não foi essa a única vez que o P . Prou­
vost teve a coragem de fazer desafio tão ou­
sado, nem a única vez que experimentou duma
maneira tão milagrosa a eficácia das três A ve­
Marias. Uma vez, num sermão sobre o res­
peito hum ano, falara de novo : "Há entre os
meus ouvintes alguém que viva em sacrilé­
gios, alguém que não tenha a força de con-
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56 As três Ave-Marlu

fessar seus pecados na confissão ? pois bem ,


eu o desafio a rezar três A ve-Marias em hon­

ra de nossa Senhora e a continuar no atre­


vimento de não confessar os seus pecados.
Sim, desafio tal pessoa que experimente ! "
Apenas o pregador desce do púlpito, uma mu­
lher dele se aproxima soluçando : "Senhor Pa­
dre, tenho a desgraça de viver já há anos
em sacrilégios ; aceitei o seu desafio, rezei as
três A ve-Ma rias e sinto-r.ae agora bastante­
mente alentada a fazer minha confissão. Pa­
dre, o senhor me quer atender ?"
Um colega do grande missionário procurou
uma vez imitar esta confiança intrépida. Na
manhã seguinte achegou-se dele uma senhora
e lhe falou : "Há cinco anos que vivo em
sacrilégio, nunca tive coragem de confessar
o número dos meus pecados contra a santa
virtude. Ontem, porém, ouvi o seu desafio e
o aceitei ; rezei as três Ave-Marias. Senhor
Padre, queira agora ouvir-me de confissão ;
vou ser sincera e completa" .
Espero eu que nenhum de meus leitores
precise de tão descomunal graça de conver­
são como os desgraçados ou antes os agracia­
dos, os favorecidos, cujos exemplos acabo de
alegar ; se este livrinho, po.rém, cair nas mãos
de alguém que for infeliz ou até ainda mais
infeliz, então eu suplico : Por amor de tua
alma e tua salvação eterna, sobretudo por
amor de Jesus e �Iaria, experimenta uma vez
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Excelência e eficácia da prática 57

a eficácia deste meio ; reza também tu fiel·


mente cada manhã e cada noite as três A ve­
Marias em obséquio a Maria, com o desejo
de te reconciliares com Deus ; e ouso confiar
que também tu daqui em pouco pertencerás aos
muitos que, ao rezarem piedosamente as três
A ve-Marias, lhe devem a graça de uma con­
versão assombrosa !

§ III. Uma bo1!. 1norte


Não é verdade, leitor, afinal de contas só
um negócio é que te preocupa : terminar tua
passagem efêinera por este vale de lágrimas
com uma morte boa, edificante e consoladora.
Pois daquele instante é que depende a tua
salvação eterna ! Dizes : Ah ! não posso pen­
sar na morte, nem sequer na palavra "mor­
rer" sem estremecer ! Graças a Deus, pois se,
não obstante todos os horrores que acompa­
nham a última hora, tens a coragem de re­
fletir naquele momento decisivo, é sinal que
seriamente tomas a peito a tua salvação.
Nesse caso, porém, almejas também qual­
quer abono duma morte boa. Sentir-me-ia fe­
liz, se pudesse dar-te uma garantia inteira­
mente certa, mas isso é coisa de todo impos­
sível. O bom Deus, por motivos dignos da sua
sabedoria infinita e paternal amor, quis que
nós, enquanto vivêssemos nesta terra, nunca
tivéssemos certeza completa de nossa eterna
salvação. Cada garantia que nos possa tran-
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58 As três Ave-Marias

quilizar dalgum modo, seja lá como for, nos


é, pois, cara, tanto mais cara quanto maior
certeza ela oferecer. Também por essa razão
te recomendamos instantemente a prática das
três Ave-Marias.
Primeira razão encontramos na promessa
que a Santíssima Virgem fez a S. Mectil­
de, promessa que, como já no princípio ( pág.
13) noticiamos, é um dos primeiros vestígios
do exercício das três A ve-Marias.
• Ademais, cogita um pouco, de como é po­
derosa e eficaz essa prática para que os ser­
vos de Maria perseverem na virtude. A im­
pureza é o grande motivo por que a maior par­
te dos homens tanto se apartam do caminho
da virtude. O santo doutor da Igreja, Afonso
Maria, pôde, após tantos anos de experiência
obtida em missões e em outras ocasiões, ates­
tar : "E' por isso que o maior número de al­
mas se perdem ; sim, até não hesito em afir­
mar que todos os que eternamente se perdem,
perdem-se por causa deste pecado, ou, pelo
menos, nunca sem esse pecado" ( 1) . Quem,
portanto, lograsse banir do mundo a impure­
za, mudaria esta terra num paraíso, numa pa­
ragem de quase completa santidade e virtude
sem mescla, seria a causa de todos per'..,eve­
rarem, asseguraria a salvação de cada indi­
víduo. Pois bem, que meio excelente para

1) Theol. Mor. III, n. 413.


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Excelência e eficácia da prá.tica 69

guardar essa virtude espinhosa e delicada não


possuímos nas três A ve-Ma rias ! acima já o
expusemos ; quantos não há que já o experi­
mentaram !
Esta prática, além disso, reúne em si dois
grandes, quase diria, os dois inaiore.s meios
de perseverança. Em primeiro lugar, wn pro­
pósito que diàriamente, de manhã e à noite,
se repete, de não cometer pecado. De certo,
propósito ainda não é realização, mas, mes­
mo assi m, é começo, primordial e eficaz meio,
é estímulo para usar-se de prudência. As três
A ve-Marias que acompanham esse propósito
são o laço que, cada manhã e cada noite, nos
liga a Maria. Ora bem, os laços que nos ligam
a nossa Senhora são laços de salvação e feli­
cidade. Por que, assim pergunta S. Louren­
ço Justiniano, por que é que Maria liga ou
::egura os seus servos, se não é para eles não
se desviarem pelos caminhos do pecado ?
As três A ve-Marias, por conseguinte, tiram
em primeiro lugar a grande causa do pecado
e da infidelidade a Deus e afeiçoam-nos ainda
a nossa Senhora ; logo, dificiln1ente deixarão
a senda da virtude os que observam essa prá­
tica convenientemente.
Os fatos históricos vêm apoiar aqui a con­
fiança. Eis o que um missionário francês nos
narra :
Numa das paróquias na França Central, na
qual a perversid.ade e imoralidade reinam na
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GO As três Ave-Mariu

mais espantosa escala, encontrei-me com um


velhinho que devia ter uns oitenta anos, e
que, no meio da corrupção e indiferentismo
em redor de si, sempre ficara fiel aos seus
deveres de cristão. Perguntei-lhe a que coisa
ele julgava dever essa dita e ter que atribuir
aquela graça assinalada. "Desde há uns ses­
senta anos" foi a resposta, "rezo cada manhã
'
e cada noite com devoção três A ve-Marias
em honra de Maria Santíssima. Aprendi essa
prática num sermão e fiquei-lhe sempre fiel.
A Santíssima Virgem me recompensou e me
fez perseverar no caminho da virtude" .
Sessenta anos . . . - continua o missioná­
rio ; - não nos podíamos lembrar de exem­
plo de alguém que por tantos anos com tan­
ta fidelidade tivesse observado esta prática.
Mas umas semanas depois encontramo-nos com
uma senhora de oitenta e três anos, que des­
de a idade de doze ou treze anos, logo por
espaço de setenta anos, tinha ficado fiel à
mesma prática. Também ela tinha persevera­
do na virtude a vida inteira e foi-lhe dado ex­
perimentar na sua extrema velhice as provas
mais evidentes da predileção do céu.
A perseverança na virtude há de ser, con­
sequentemente, a recompensa ordinária e regu­
lar da fidelidade a esse exercício ; os que o
praticam como convém, cada manhã e cada
noite, hão de experimentar com quanta razão
S. Afonso aplica a nossa Senhora as palavras
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Excelência e eficácia da prática 61

do Eclesiástico : "Os seus vínculos são vínculos


de salvação ; nas tuas últimas haverás �e
,,
achar descanso nela ! A morte deles há de
ser boa. Como serão felizes no leito de mor­
te, ao experimentarem a doce proteção de Ma­
ria naquele transe decisivo ! Qual mãe cuida­
dosa, Muia há de vigiar sobre seus filhos no
leito de morte, até à hora da agonia ; há de
afastar os demônios que ainda quiserem as­
saltar a alma ; há de alentar os seus servos,
há de fortalecê-los nas tentações, consolá-los
nas ansiedades, sossegá-los no receio do juízo,
sugerir-lhes palavras de paz, de calma e
de esperança ! Como há de ser suave o de­
senlace destes privilegiados ! Maria, porém,
nem no próprio morrer, os abandonará, mas
os acompanhará ao juízo, passando-lhes à
mão, por assim dizer, o salva-conduto para o
paraíso de bem-aventuranças. Por inumerá­
veis que sejam os pecados, por mais pesados
que possam ser, quando nossa Senhora no ou­
tro prato da balança põe o peso da sua inter­
cessão, não há mais dúvida sobre que lado a
balança há de inclinar-se. E é isso o que os
fiéis observadores das três A ve-Marias podem
esperar ! Hão de ficar fiéis a Deus, fiéis a Ma­
ria Santíssima ; experimentarão no seu leito
de morte o que S. Jerônimo prmneteu à de­
vota filha de S. Paula, Eustóquio : "Ma­
ria não assiste apenas a seus servos na hora
do desenlace, mas vem-lhes até ao encontro
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62 As três Ave-Martas

na passagem para a outra vida, acompanha-os


perante o tribunal de seu Filho a fim de ser­
lhes advogada" . Assim escreve aquele Santo
Padre da Igreja. Maria mesma o P.rometeu a
S. Brígida : "Eu, que sou a amada rainha
e mãe de meus servos, ir-lhes-ei ao encontro
a fim de lhes proporcionar consolo e alívio".
Contudo, é fato inegável que nem todos os
que praticam fielmente esse exercício perse­
veram na virtude. Uns â.frouxam, deixando-o
aos poucos ou rezando cada vez mais desma­
zeladamente. Outros não o conhecem senão
depois duma vida passada em crimes e desor­
dens. Será que também a esses fica prometida
uma boa morte ?
Não exageramos. No último capítulo have­
mos de tratar ainda sobre a maneira de pra­
ticar bem este exercício ; pois só os que o
praticam bem podem requerer as vantagens
prometidas. Muitos há que o conhecem só de­
pois duma vida em pecados ; para estes torna­
se bastas vezes o meio de conversão e ser­
lhes-á, contanto que continuem a praticá-lo
fielmente, meio de perseverança, e, portanto,
garantia duma boa morte.
Mas, até para quem pratique o exercício
com desleixo e sem fervor e destarte se afaste
do caminho do bem, as três A ve-Marias hão
de alcançar-lhe, não obstante isso, uma boa
morte. Ba43tante gente não tinha guardado
nada da sua primitiva devoção, a não ser as
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Excelência e eftcâcla da prática 63

três A ve-Marias, e acabou devendo a elas boa


morte e salvação eterna.
Que é que vemos suceder não raras vezes
ao derredor de nós ? Sem dúvida haveis de co­
nhecer certas famílias em que todos os filhos
procedem bem, são religiosos, porém um deles
é causa das lágrimas do pai e da mãe, de seus
irmãos e irmãs ! Conselhos acertados, avisos
prudentes e paternais, orações da mãe e co­
munhões das irmãs, nada, nada adianta ; o in­
feliz continua indiferente. Há apenas uma
criatura que ainda o impressiona : ele fica co­
movido às vezes por uma palavra terna, um
aviso, uma lágrima que ela derrama ; é sinal
de. que ainda não está endurecido de todo.
Essa única pessoa é as mais das vezes : a mãe
do jovem. Mãe, tira o teu proveito ; pois,
aposto eu, o teu filho salva-se ! pode levar
tempo, pode exigir paciência eterna ; espreita,
porém, o momento propício 'duma doença, dum
desapontamento esmagador ou seja o que for,
em tal ocasião arrisca um assalto ao coração
de teu filho com toda a ternura de que só tu
tens o segredo e . . . . o rapaz se salva ; tu e os
teus não havereis mais de chorar.
Quantas vezes não se verifica o mesmo pela
intercessã o de nossa carinhosa mãe celestial,
Maria ! Ela não perderá de vista o cristão que
se tornou indüerente por tudo, até por seu
Filho que dele é mestre e Senhor ; que ape­
nas conservou no coração algum sentimento,
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.A.s três Ave-Martas

alguma afeição para com ela, mas que ainda


lhe presta cada dia uma pequena homenagem,
de manhã e à noite. Ela espreita as ocasiões
em que o coração desse infeliz esteja mais
suscetível, procura tocá-lo por provas de amor
ou por contrição. Particularmente no último
instante ela redobrará os seus esforços para
salvá-lo. Desta forma alcança uma boa morte
ainda aquele que de virtude e devoção não re­
servara mais nada senão a prática das três
A ve-Miarias, qu� tinha aprendido nos dias
felizes de inocência e virtude. Nas páginas
precedentes já citamos exemplos. Eis ainda de
sobra mais uma prova desta proteção mila­
grosa :
Certo rapazola tinha recebido no colégio de
Olot educação primorosa. Acabados os estu­
dos foi para Barcelona, caiu nas mãos de ami­
gos devassas e libidinosos e entregou-se ao
vício de tal forma que em breve solapou por
completo a saúde. Já não estava longe da
morte, quando foi reconduzido à sua família.
O superior do colégio soube da sua triste con­
dição e resolveu visitá-lo na esperança de fa­
zê-lo entrar em si. Efetivamente, apenas o jo­
vem reconhecera o seu professor de outrora,
desfez-se em soluços e confessou a sua vergo­
nha e tristeza por não ter observado melhor
as lições que recebera. Estava muito abatido
e receava ser repelido por Deus depois de
tantos pecados e tantas ingratidões. "Então
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Excelência e éflc!cla da prática

você negligenciou mesmo todos os avisos e


conselhos de seus mestres ?" perguntou o sa­
cerdote, "não praticou nada éie tudo quanto
eles lhe aconselharam ?" "Nada, nada ! " retor­
quiu, "com exceção duma ninharia, as três
A ve-Marias de manhã e à noite. Vossa Revma.
tanto tinha insistido nisso que não pude omi­
ti-las" .
Ora, foi esse pequeno exercício em honra
de nossa Senhora que se tornou o meio para,
ao moribundo à beira do desespero, inspirar
de novo coragem e confiança. Poucos dias de­
pois faleceu reconciliado com Deus e cheio de
confiança em Maria, o refúgio dos pecadores
na última agonia.
Assim é que a prática das três A ve-Marias
causa uma boa morte até para os que se afas­
taram. para longe de Deus e abandonaram
todos os demais exercícios de piedade e toda
a prática da virtude.

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CAPITULO I II

MANEIRA DE PRATICAR O EXERCICIO.

PARA QUEM E' ?

§ 1. Maneira de praiticar o exercício

Não estranharia se um ou outro de meus


leitores, após ter lido com atenção este opús­
culo, raciocinasse consigo mesmo : "Ora, é·

exagero ! Impossível que esteja ligada tanta


eficácia a essa prática insignificante. Eu cá
por mim pratiquei fielmente este exercício
como o aprendi quando criança, de minha sau­
dosa e boa falecida mãe : porém nunca expe­
rimentei que tanta eficiência nele se achasse"
Não obstante essa objeção, sustento o que
no capítulo precedente escrevi ; cabe-me defen­
der minha tese com dupla resposta perentó­
ria.
Dizes : "Não, tanta eficácia não há nessa
prática" . Mas pelo teu próprio exemplo pro­
vas cabalmente o contrário ! Durante tantos
anos, desde a meninice até aos quarenta, cin­
quenta ou mais anos talvez, rezaste diàriamen­
te, de manhã e à noite, as três A ve-Ma rias
e, além disto, pai ou mãe, ensinaste esse exer­
cício a teus filhos. Ora, então não é assinala -
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Maneira de praticar o exercicio 67

do fruto duma prática de devoção o fato de


ela se tornar tão querida, tão própria, que o
homem se vê impossibilitado de omiti-la e
constrangido a ensiná-la àqueles sobre os
quais pode exercer alguma influência ? E' isso
mesmo próprio à nossa prática de piedade :
quem começou uma vez, fica-lhe fiel, como se
fora a coisa mais natural do mundo. Não é
raro encontrar velhos de setenta, oitenta anos,
que há cinquenta, setenta anos travaram co­
nhecimento com o exercício nas inolvidáveis
missões dos Padres lazaristas ou redentoris­
tas e de então para cá dia a dia o praticam.
Efetua e realiza a prática que se comece e
se finde o dia em sentido genuinamente cris­
tão. E não será isso de inestimável utilidade ?
Talvez hajas de reconhecer : "Sim, é verda­
de, mas este exercício não pôde realizar que
eu sempre fosse vencedor sobre a paixão es­
candalosa que faz tantos escravos e escravas,
mormente nos anos da puberdade ! "
Lastimo-te, mas a tua objeção não é capaz
de me determinar a retratar o que escrevi
sobre a força da nossa prática para salva­
guarda da pureza. Opõem-se a teu triste
exemplo tantas provas e enunciados que ale­
guei para provar a influência e o efeito salu­
tares do exercício. Dizes que, não obstante
a prática das três A ve-Marias, não chegaste
a triunfar por completo sobre o espírito satâ­
nico da impureza. Mas, por favor, não jul-
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68 As trê8 Ave-Mariu

gues ter sido para ti infrutuosa e baldada a


prática. Reflete e1n que precipícios terias
caído, se não tivesses praticado o exercício
das três A ve-Ma rias "? ! Quem sabe se então
a mão vingadora de Deus não se teria aba­
tido sobre ti, ao passo que agora Maria, a
quem com tanta fidelidade invocas duas vezes
por dia, soube de ti desviar aquela vingança.
Dizes que, apesar da tua fidelidade à prá­
tica das três A ve-Ma rias, caíste no pecado
contra o sexto mandamento. Permite-me a
pergunta : Observaste o exercício como con ..
vém ? Com certeza não andas julgando que
eu sou tão louco para asseverar : Quem quer
que reze de manhã e à noite, seja lá como
for, três A ve-Ma rias em honra da pureza de
nossa Senhora, nunca, mas nunca mesmo, há
de cometer falta -contra a castidade, há de
se converter com toda a certeza, há de ter
uma boa morte. De forma alguma, só para
os que observarem a prática convenientemen­
te, ela surtirá todos os efeitos salutares que
lhe atribuímos, só para os que a observarem
com constância, com reverência e com boa
vontade ou sincero deseio de viver vida ho­
nes ta .
Em primeiro lugar, querendo colher todos
os frutos possíveis, deves rezar o exercício
das três A ve-Ma rias com constância ; jamais,
nem um só dia, nem uma só vez, podes omi­
u 10 voluntàriamente. Sem dúvida, é fácil pra-
..

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Maneira de praticar o exerclcio 69

ticar esse exercício fielmente, mas mesmo as­


sim há uns que o omitem de vez em quando,
ora por este, ora por aquele pretexto. Simu­
la-se, às vezes, não ter tempo. S. Leonardo
de Porto Maurício antecipa e frust_ra essa di­
ficuldade ; repitam-se aqui suas palavras. Fa­
lando sobre a oração da manhã e a da noite,
ele exprime-se assim : "Para tal fim faça-se
a seguinte oração, que é tão breve que não
se pode alegar o pretexto comum de difícil.
Quem a omite, não se pode valer de outra
evasiva senão da simples confissão : Eu não
me incomodo com a minha salvação eterna,
de vez que para ela não me quero ligar a
trabalho algum, por mais insignificante que
seja". - Com efeito, essas três A ve-Ma rias
exigem, de manhã e de noite, apenas um úni­
co minuto ; para isso todos têm tempo ; irra­
zoável será negá-lo.
E' precisamente a constância que torna a
nossa prática de piedade tão agradável a Deus
e a Maria Santíssima. São João Berchmans,
a quem se perguntou no leito mortuário o que
se havia de fazer para se salvar por intermé­
dio de Maria, respondeu : "Quidquid minimum,
dummodo sit constans : Por pouco que seja,
contanto que se faça com constância.
Então, se, por vezes, de manhã ou de noite,
por preguiça ou sonolência, te sentires sedu­
zido a saltar as três A ve-Marias, cuidado, cui­
dado ! E' estratagema do diabo que talvez te-
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70 As três Ave-Marias

nha preparado para esse dia ou para essa


noite uma tentação veemente, um assalto pe­
rigoso. Quer que, daí a pouco, quando o com­
bate estiver iminente, não estejas assegurado
do socorro de Maria, contra o qual ele se
sabe impotente. Em tais emergências, se qui­
seres proceder ajuizada e prudentemente, tens
que rezar as tuas três A ve-Ma rias com mais
fervor ainda do que de comum. No caso de
te teres desleixado e te lembrares da tua
omissão, considera essa recordação como avi­
so e admoestação de tua Mãe celestial para
reparar a tua negligência. Nem desprezes tal
conselho maternal ! Talvez prepare ela copio­
sa recompensa pela tua fidelidade. Mais de
um caso serve aqui de prova cabal do que
acabo de declarar.
Um estudante piedoso tinha prometido à
sua mãe moribunda não omitir nem um só
dia as suas três A ve-Marias. Com fidelidade
cumpria a palavra dada ; porém uma noite
omitiu a prática. Acordado após umas horas
de sono, lembra-se da sua omissão, levanta­
se e se ajoelha para reparar a omissão. Ape­
nas se acha de joelhos, a fim de rezar com
respeito as três A ve-Marias, quando, de re­
pente, se abre a cortina da cela e entra um
sonâmbulo. Coloca-se diante da cama e . . .
enterra um punhal até aos copos no colchão !
Não se tivesse levantado o estudante, não pa­
dece dúvida, teria sido transpassado. Com toda
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Maneira de praticar o exercf cio 71

a razão considerou ele e também seu superior


considerou que sua salvação era devida a uma
proteção mui particular de sua Mãe celestial,
por causa da pequena homenagem que lhe ia
prestar.
Primeira condição, portanto, para participar
·

dos efeitos preciosos da prática das três A ve­


Ma rias é a constância. Ser-nos-á fácil per­
manecer fiéis e constantes a este exercício,
se tomarmos a peito o segundo requisito e se
cuidarmos de rezá-lo sempre com respeito e
atenção .
S. Afonso Maria aconselha rezar as três
A ve-Marias de joelhos, com o rosto em ter­
ra ; S. Leonardo requer que se faça essa
oraÇão de joelhos e com profunda inclinação.
Não há nenhuma outra prática para a qual
os santos aconselhem tal testemunho externo
de reverência. Por que então o fazem aqui, se
não é por motivo de estarem convencidos da
grande e relevante importância deste obséquio
e quererem por esta humilhação externa cons­
tranger-nos à atenção e ao respeito interior ?
Com o mesmo fim há outros que aconselham
rezar as três A ve-Marias de joelhos e com os
braços estendidos.
Sirva isso de resposta aos que perguntam :
"Por que não posso rezar essa oração ao me
lavar e vestir ? por que é preciso mesmo me
ajoelhar?" Por quê ? Para rezares com maior
respeito e reverência, para não praticares es-
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72 As três Ave-Marias

sa devoção como de passagem e por há­


bito.
Há entre os católicos quem não se deixe
mover a tal, quem o julgue mesquinho e ridí­
culo ! Oh, que gente de vistas curtas ! Então
essa humilhação externa não dispõe ao res­
peito interior ? e será deferência exagerada
impor-se este sacrificiozinho em honra da Rai­
nha dos céus ? Neste caso restou mesmo muito
pouca coisa, nessas almas, dos conceitos e da
compreensão genuinamente católica, do "sen­
tire cum Ecclesia : do conformar-se ao es­
pírito da Igreja" .
Ademais, esta prova externa de respeito não
passa de meio para o fim, deve nos dispor
ao respeito interior. Os quatro santos que
nos recomendaram a prática, acrescentaram
ainda um meio para promover a reverência
interna ou a devida atenção, a saber : uma ou
outra meditação.
Santo Antônio nos aconselha, já o expu­
semos no primeiro capítulo, a ligar a cada
Ave-Maria uma invocação pela qual come­
moremos a pureza de nossa Senhora antes de
dar à luz seu Filho divino, no momento de
dar à luz e depois de ter dado à luz.
A S. Mectildes coube a felicidade de apren­
der da própria Virgem a maneira de fazer
este exercício com devoção. Já noticiámos co­
mo ela, por ordem de nossa Senhora, devia
lembrar-se dos benefícios com que a Santís-
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Maneira de praticar o exercf cto 73

sim.a Virgem fora enriquecida pela onipotência


do Pai, pela sabedoria do Filho e pelo amor
do divino Espírito Santo.
S. Leonardo de Porto Maurício e, mais
acentuadamente ainda, S. Afonso exigem que
acompanhe a prática de devoção um fir­
me propósito de não cometer pecado algum,
em particular nenhum pecado de desonesti­
dade, nem em �ções, nem em pensamentos ou
desejos. E' esse e unicamente esse o objetivo
por que S. Afonso repetidas vezes acon­
selha rezar após cada uma das três A ve-lUa­
rias : "Pela . vossa imaculada Conceição, ó Ma­
ria, purificai o meu corpo e san tificai a mi­
nha alma !" ou então : "Minha mãe, livrai-me
do pecado mortal!". Exigem, pois, boa von­
tade ou, pelo menos, desejo sincero duma vida
proba e honesta .
Tivéssemos sempre diante dos olhos esse
conselho dos santos, acompanhasse a prática
continuamente tal propósito, e não rezaría­
mos sempre as três A ve-Marias com fervor e
insistência? Não seria consequência inelutá­
vel que estivéssemos animados, cada vez de
novo, pelo menos de algum esforço para afas­
tar o pecado, para emendar a vida ?
E ' assim que os santos exigem se faça
nosso exercício ; é apenas à prática observada
desta maneira que eles atribuem e que atri­
buem, ao exemplo deles, os propagadores das
três A ve-Marias, a incomparável força e efi-
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74 As três Ave-Marias

cácia e os efeitos salutares que ela tem. Não


deve, pois, estranhar que eles nutram tama­
nhas esperanças ; porém nem tão pouco estra­
nha que aqueles que a observem só por hábito,
sem respeito, sem atenção, sem desejo de
emenda da vida, permaneçam sempre os mes­
mos, quase nunca se tornem melhores. Digo :
quase nunca, pois que a história ensina que
Maria Santíssima por vezes remunera com fa­
vores extraordinários este exercício feito ape­
nas afrouxada e superficialmente. Contudo,
será certa a sua eficácia só no caso de ela
se realizar com constância, com respeito ex­
terior e interior, com a resolução ou, pelo
menos, com o desejo de emendar a vida. Seja
muito embora tal desejo inicialmente ainda
fraco, ( como as mais das vezes é o caso com
os escravos de costumes e paixões escandalo­
sas) , oh ! contanto que tenham a coragem de
usar dessa pequena prática fiel e reverente­
mente cada noite e cada manhã ! O desejo há
de tornar-se mais ardente, a vontade mais
firme ; uma vez, até bem cedo, há de seguir
a resolução vigorosa : Nada mais de pecado,
custe o que custar, aconteça o que acontecer !
E, ficando-se fiel a esta prática excelente, Ma­
ria há de ajudar a executar à risca tal reso-
1uçao .1 .
-

Praticando-se destarte o exercício das três


Ave-Marias, ela será deveras salubérrima !

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Maneira de praticar o exerclcio 75

§ II. Para quem é?


Mas quem é que poderá almejar os efeitos
assinalados da requena prática diária das três
A ve-Marias em honra da Conceição 'imacula­
da e da pureza de Maria San tíssima ? Res­
pondemos : A todos, sem exceção alguma, re­
comendamos este obséquio, a todos promete­
mos os seus frutos mais profícuos ! Com toda
a sinceridade o afirmamos : é um exercício
para todos.
Antes de mais nada, para as crianças . E '
de grandíssima importância que as crianças
aprendam esse obséquio já bem cedo. klma
infantil, que fica toda pura, isenta de qual­
quer nódoa, é algo de belo, de sublime ! A
branca neve, a açucena alva e nítida nem de
longe a ela se comparam em pureza ; ficam
arrebatados os anjos do céu ; até o próprio
Deus, contemplando-a, fica como que encan­
tado de sua formosura. Mas ai ! quantas ve­
zes não se viola, bem depressa já, tanta be­
leza ! Mãe cristã, que lágrimas amargas ha­
vias de chorar, se pudesses ver a lastimável
mudança que o primeiro pecado efetua no co­
ração de teu filhinho ! a mor parte das vezes
é o pecado funesto de impureza que vem ar­
ruinar tanta beleza ! A princípio, mãe, ainda
não notas a reviravolta, a mudança fatal ; aos
poucos, porém, vens a descobrir que teu filho
não é mais tão alegre e gentil, que o seu
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As três Ave-Marias

olhar já não é livre nem inocente ; em breve


reparas que teu mimo não obedece mais de
boa mente, a cada hora te responde mal e
te falta ao respeito, já não é tão recolhido
na oração. Indagas pelo motivo ? Mãe, receio
eu que a impureza com seu hábito pestüero
tenha manchado a alvinitente açucena da ino­
cência da alma de teu filho. Por conseguinte,
olha bem, redobra agora de atividade, senão
teu filho dentro em breve estará corrompid o
. irremediàvelmente. Melhor, porém, é prevenir
esse mal ; para tal fim, segue o conselho dum
santo, dum homem de �periência, dum após­
·
tolo de grande pulso : ensina quanto antes a
teu filho a rezar de manhã e à noite as três
A ve-Marias . S. Afonso, batendo sempre na
meama tecla, inculca aos confessores ensi­
narem essa prática às crianças. Mãe, ante­
cipa o sacerdote e cuida de que teu filho, já
muito antes de ir confessar-se pela primeira
vez, tenha aprendido a recomendar de manhã
e à noite a virtude angélica à imaculada e
puríssima Virgem, rezando as três A ve-Marias
e acrescentando a cada Ave-M:aria : "Pela vos­
sa pura e imaculada Conceição, ó Mar ia, pu­
rificai o meu corpo e santificai a minha al­
ma".
Mãe, tu sabes quantos inimigos estão à es­
preita para roubar a teu filho essa pérola
preciosa ; poderás achar melhor . protetora do
que a Toda-imaculada? Oh ! com que ternura
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Ma.neira de praticar o exerdcio 77

ela tomará conta de teu inocente filhinho que


de manhã e à noite se ajoelha diante de sua
imagem e tão suplicante lhe confia o seu te­
souro mais precioso ! Não há lugar onde a
inocência de teu filhinho fique abonada e abri­
gada com maior segurança nem mais bem de­
fendida. Portanto, mãe, toma cuidado para
que tua criança aprenda cedo esse exercício
e o pratique fiel e respeitosamente.; vigia e
indaga a respeito ! Essa reza que a mãe apre­
cia tanto, há de inspirar bem cedo a estima
pela virtude da castidade ; essa estima há de
suscitar zelo e desvelo em guardar cuidado­
samente tesouro tão precioso. O que alguém
em criança soube apreciar e estimar, homem
feito não deixará roubar fàcilmente.
"De pequenino se torce o pepino", diz o
anexim popular. O que teu filho aprende na
infância, sobre os teus joelhos, fará mais tar­
de. Daqui a pouco talvez deixe a casa pater­
na e tope com milhares de perigos : feliz da­
quele que aprendeu a amar e a praticar se­
riamente esse obséquio piedoso ! Talvez ha­
ja de esquecer teu filho ou tua filha uma
porção de boas lições e bons hábitos ; essa
prática, porém, guarda-a fàcilmente. Ah !
quantas vezes não dá o padre com infelizes
que de todos os seus exercícios de devoção
conservaram apenas as três A ve-Marias : é a
elas que, afinal, devem a sua salvação !
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78 As três Ave-Marias

Eis o que certo missionário narra : Certa


feita estava eu na igreja atendendo às con­
fissões ; aproximou-se de mim uma senhora
muito distinta, fez confissão geral da sua vida
inteira, patenteando arrependimento fora de
comum. Depois de confessada contou de moto
próprio a sua história e pediu-me explicita­
mente a outros notificasse, para maior glória
de Deus e de Maria, a misericórdia de que ela
fora alvo.
"Meus saudosos pais", assim principiou,
"me proporcionaram educação aprimorada ;
daí é que, em criança, fui muito piedosa. Na
idade de dezess ete anos, porém, entrei infe­
lizmente em contacto com pessoas corruptas,
ficando papai e mamãe inscientes disso. Pelas
conversas que ouvia, e mais ainda pelos li­
vros que me emprestaram, enfraqueceu-se em
mim, cada vez mais, a fé. Depois da morte de
meus pais o negócio ainda piorou. E ' verda­
de, de vez em quando assistia à missa, aos
olhos dos homens ; mas já havia muito, não
recebia mais os sacramentos.
"A única coisa que de meus dias melhores
tinha conservado, era a reza diária das três
A ve-M·a rias. Não queria omiti-las, visto que
prometera à minha mãe, antes de ela morrer,
que não deixaria passar dia sem rezá-las.
Quanto mais, porém, satisfazia às mi­
nhas paixões, tanto mais se esvaziava o meu
coração ; a vida me ficou sendo carga pesada
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:Maneira de praticar o exercfclo 79

e cheguei a tal extremo que certa vez, à tar­


dinha, me dirigi ao rio para me afogar. Es­
tava a ponto de me arrojar na água, quando
ouvi bater o sino do "Angelus" . Maquinalmen­
te pus as mãos e rezei. Ora, no mesmo instan­
te sumiu meu desespero, sumiu o desejo de
suicídio. A carinhosa mãe de Deus, o refúgio
dos pecadores, me salvou ; a minha vida in­
teira quero ficar-lhe grata" .
Tu também, mãe, que lês estas paginas,
cuida de que teus filhos aprendam no teu
colo a prática das três A ve-Marias ; deixa­
lhes, ao mudarem-se da casa paterna ou,
quando a impiedosa morte te arrebatar dos
corações de teus entes queridos, por herança
o conselho de nunca se esquecerem das três
A ve-Marias, para que, quando tu não puderes
mais tomar conta deles, Maria, qual terna
mãe, vigie sobre teus filhos. Desempenha-se
ela de modo perfeito da sua tarefa para com
os que permanecem fiéis à prática das três
A ve-Marias.
Teus filhos precisam, enquanto pequenos, do
desvelo maternal de nossa Senhora ; muito
mais ainda talvez hajam de necessitar dele,
quando já rapazes ou moças .
Maior beleza não se pode idear do que ver
jovens de vinte anos que souberam conser­
var a inocência. Essa frase é de Jean-Jacques
Rousseau, aquele corruptor-mor. Com efeito,
um jovem, uma donzela,. no verdor dos anos,
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80 A.s tres Ave-Marias

em cuja face se mescla o rubor da saúde com


a candura da inocência sem nódoa, tem algo
de encantador. Infelizmente, começam a ra­
rear ! E' isto de estranhar ao crescerem inin­
terruptamente as seduções do mundo hodier­
no ? O rapazito, que acaba de deixar a escola
para ser aprendiz na oficina ou para ganhar
na fábrica o pão de cada dia, ouve ali lingua­
gem que dentro em pouco lhe desvenda todos
os segredos do pecado ; à mocinha revela-se
o mesmo pelas conversas lascivas na loja de
modas ou nos ateliers de costura. Pelas ruas
afora, em tantos negócios expõe-se-lhes a
corrupção em imagens, figuras e quadros. Que
dizer ainda daquelas leituras baratas, bem
vezes imorais, daqueles teatros levianos, da­
quelas exibições de fitas obcenas nos cinemas ,
filmes que descrevem cenas eróticas ou de­
fendem o adultério e o amor livre ? Acrescen­
tai-lhes as diversões que tão raras vezes são
isentas de perigos. Assim é que a mocidade
operária e a classe média dos cidadãos se
corrompe. Quem é mais abastado topa com a
corrupção, talvez camuflada, aparatosa, ao en­
trar no mundo chique, em bailes e saraus, ca­
barés e clubes, abertamente no teatro e ci­
nema, ou nos romances. Quantas vezes não
se lhe propina o veneno da depravação nas
intimidades '1as férias, dos passeios de bici­
cleta ou de carro, nos pique-niques, etc., quan­
to moço e moça em dias de folga saem da ci-
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Maneira de praticar o exerclcio 81

dade, aparentemente em inocentíssima amiza­


de ! Além disso, a rapaziada de todos os esta­
dos e condições, e, consoante as leis do país,
de todas as camadas da sociedade, tem que
sustentar a prova do quartel, o qual consti­
tui perigo incontestável para a moral e o pu­
dor.
Não é, pois, de espantar que em nossa so­
ciedade rareiem os jovens de dezesseis para
vinte anos que continuem incondicionalmente
puros e inocentes, livres da escravidão das
paixões baixas e solapadas. Guardar a casti­
dade intemeratamente é coisa bem difícil . . . ,
porém, mesmo assim, se nossos rapazes fiel e
reverentemente rezassem toda manhã e toda
noite as três A ve-Marias com a jaculatória
anexa, em obséquio à Conceição imaculada e
à pureza sem mancha de nossa Senhora, ha­
veriam de começar o dia com cautela e cuida­
do, haveriam de continuar debaixo do manto
daquela que é triunfadora de pecado e de in­
ferno ! Seriam ainda tão fracos, vendo-se na
obrigação inevitável de lutar contra a hidra
da luxúria ? arriscar-se-iam ainda com teme­
ridade tão injustificável aos perigos, como
procedem agora ? Não ; pois, o que se propõe
repetidas vezes e seriamente, o que é objeto
de repetições diárias, não se arranca fàcilmen­
te da alma, a tal ninguém se aventura.
Moços, que ledes estas páginas, especial­
mente se tendes a dita de ser ainda perfei-
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82 As três Ave-Marias

tamente puros, observai à risca e com o maior


respeito, dia a dia, de manhã e à noite, a prá­
tica das três A ve-Ma rias. Então vos é permi­
tido nutrir a esperança de guardar inviolado
o lírio da castidade ; então, o que não seria
de admirar, resolveis, quiçá, a conservar essa
flor mimosa em sua primitiva beleza por toda
a vida, resolveis um dia prometer a Deus
castidade perfeita, seja no sacerdócio, seja no
convento ou mosteiro. Quantos não há que
devem tão sublime resolução à prática das
três A ve-Marias !
Um superior dos irmãos das Escolas Cris­
tãs testemunha : "Desde que este obséquio está
em voga em nossos institutos, aumenta con­
sideràvelmente entre nossos alunos o núme­
·
ro de vocações para os nossos noviciados e
para outras instituições de religiosos e de pa­
dres" .
A donzela no mundo S. Afonso recomenda
insistentemente a prática das três A ve-Marias.
"De manhã, ao levantar-se, ela agradeça a
Deus e em seguida lhe consagre tudo quanto
naquele dia haja de sofrer e de fazer. De­
pois suplique por três A ve-Marias à San­
tíssima Virgem a guarde debaixo do seu man­
to e a preserve de todo o pecado. A noite,
antes de ir para a cama, ponha-se outra vez
sob o manto da Virgem imaculada, rezando
três A ve-Marias". As jovens que ficam fiéis
a esse exercício, podem esperar de Maria o
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Maneira de praticar o exerclclo 83

necessário socorro para conservarem a pure­


za, que em particular para elas é tão indis­
pensável, é sua jóia mais preciosa. Também
bastantes donzelas lhe deveram a vocação re­
ligiosa.
Eis alguns exemplos :
O Padre Jean Baptiste, capuchinho, insigne
e incansável apóstolo das três A ve-Marias
,
narra como certa vez tinha aconselhado este
obséquio mariano a uma jovem, na qual de
vocação religiosa não se observava prognósti­
co algum. Passou-se um ano antes de ele tor­
nar a encontrá-la. Uma das primeiras per­
guntas foi : "Como é que vai com as três A ve­
Marias ?" "Senhor Padre, não as esqueci dia
algum, nem de manhã nem à noite. Creio que
a esta prática tenho que atribuir a minha vo­
cação" . "Vocação ? ! " foi a minha pergunta in­
crédula. "Sim, Padre, estou resolvida a partir
para as missões estrangeiras" . E, efetivamen­
te, partiu.
Outra jovem já estava entabulando negocia­
ções para chegar a um bom casamento, quan­
do, sem intenção secundária de desaconselhar­
lhe o matrimônio, se lhe recomendou o exer­
cício das três A ve-Marias com jaculatória após
cada Ave:Maria. Principiou ; foi fiel e exem­
plar. Observou-se nela uma mudança notável,
um grande progresso ; dentro em breve não

havia mais questão de compromissos de casa-


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As três Av e-Marias

·n1ento e não passou muito tempo que resol­


vesse abraçar a vida religiosa.
Além disso, a prática das três A ve-Marias
é sobremodo salutar para nossa mocidade ; ·
ajuda-a a se preparar ao matrimônio por um
proceder de todo em todo puro.
Os casados, por sua vez, não devem aban­
donar o bom costume que aprenderam nos
anos de meninice e à qual deveram no verdor
da juventude e nos dias do noivado a conser­
vação da castidade. Ainda, depois de casados,
correm perigo de se deixar arrastar pelas pai­
xões e pecados, ainda não susceptíveis de se­
duções. Além disso , aquele receio de que o
número da prole os impossibilite de ganhar o
sustento para todos ou a arranjar para cada
um colocação conveniente, ou de que a vida
da mãe esteja a1Tiscada num parto novo !
Quanta desconfiança na Providência de Deus,
causa de tantos pecados que clamam vingan­
ça, pecados que em nossos tristes dias au­
mentam de maneira assustadora e trazem para
as famílias, OE$ lares e a sociedade consequên­
cias desastrosas ! Ah ! rezam as mulheres e os
homens católicos cada manhã e cada noite as
três A ve-Marias, com a exatidão da mocidade
e sobretudo com a resolução séria de guar­
darem a pureza do seu estado, a fim de que
fique desviada da nossa sociedade brasileira
aquela maldita praga da imoralidade degra­
dante de muitos casados !
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Maneira de praticar o exerclclo

Salubérrhna, deveras, é a nossa prática para


os casados e em geral para todos os adultos
que vivem no meio dos perigos do mundo.
Numa missão, um homem, que estava muito
bem intencionado, queixou-se a um padre de
que era quase continuamente atormentado pe ­
las mais abomináveis tentações e que, infeliz­
mente, não raras vezes sucu1nbia. O missio­
nário aconselhou-lhe a prática das três A ve­
Marias. Ainda na mesma noite começou a se­
guir o conselho e pouco depois não cabia em
si de feliz, atestando : "O pequeno exercício
·

já me fez muito bem. E' verdade, voltam as


tentações, até com maior violência do que an­
tes, sinto-me, porém, mais reforçado para
opor-lhes resistência" .
Certo capitão piedoso certificou desta prá­
tica : "Desde que rezo as três A ve-Marias,
acho-me ma.is pontual e mais cuidadoso no
cumprin1ento dos meus deveres de estado. Di­
versas omissões de que antigamente me fazia
culpado, desapareceram por completo. Expe­
rimentei esse resultado desde o dia, em que
principiei a usar fielmente desta prática. Eis
aí por que a ela ligo grandíssimo valor, voto-.
lhe toda a estima possível e procuro propa­
gá-la entre os meus companheiros" .
A devoção das três A ve-Marias é um exer­
cício para todos, até, também, para religiosos.
Fizeram voto de castidade ; estão, por con3e­
guinte, ainda mais ligados do que os munda·
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86 .A.s três Ave-Marias

nos. Assim mesmo, também o religioso tem


más inclinações e paixões, também o religioso
está exposto às tentações do demônio ; tam­
bém o religioso tem de recear a sedução do
mundo, muitas vezes até na hora em que
os cargos e serviços, que lhe impõe a sua vo­
cação, o põem em contacto com o mundo. E'
por isso que S. Afonso, no seu manual para
religiosos, aconselha : "Reza cada manhã ao
levantar-te e cada noite ao ir descansar três
A ve-Marias à pureza de Maria, ajuntando :
"Pela vossa pura e imaculada Conceição, ó
Maria, purificai o meu corpo e santificai a
minha alma" .
E quantos religiosos não deveram à nossa
prática a vitória no certame pela castidade e
destarte a perseverança na sua devoção !
Nem menos obstritos à pureza perpétua es­
tão os sacerdotes. A queda do sacerdote no
vício oposto tem por via de regra as conse­
quências mais tristes e lastimáveis, e causa as
mais das vezes o escândalo mais espantoso.
Ora, tamb·ém o Padre é homem, também ele
pode conservar a pureza unicamente por meio
de luta e vitória. Quantos perigos não insi­
diam a sua honra e a sua virtude ! E' por este
motivo que também aos sacerdotes S. Afon­
so recomenda a devoção à Santíssima Vir­
gem e mais em particular a prática das três
A ve-Ma rias, como a arma por excelência na
salvaguarda da pureza. "Entre outros exerci-
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Maneira de praticar o exercido 87

cios para . a conservação da castidade" , assim


admoesta ele ao clero, "é utilíssima a devo­
ção à Santíssima Virgem que é chamada Ma­
ter pulchrae dilectionis et custos virginitatis :
Mãe do belo amor e conservadora da virgin­
dade. Em particular é de suma utilidade e
proveito a devoção de rezar de manhã ao le­
vantar e à noite ao deitar três A ve-Ma rias
em honra da pureza de Maria" . Em outro
trecho, onde o santo doutor trata sobre os
exercícios que convém ao sacerdote praticar
em honra da Santíssima Virgem, aconselha a
mesma prática. Igualmente o recomenda na
sua Regra de vida para o sacerdote. Sim, o
santo doutor, que tantas vezes pregara exer­
cícios espirituais aos eclesiásticos, estava con­
vencido pela experiência de como é salutar
essa prática para os sacerdotes ; consequente­
mente inculca a seus Padres, a quem cabe
cumprir essa tarefa de tão inconfundível im­
portância, que recomendem a seus ouvintes
essa prática de piedade em obséquio a Maria.
Com efeito, evidencia-se que rezar de ma­
nhã e à noite, de joelhos, três A ve-Marias em
honra da pureza de nossa Senhora acrescen­
tando uma jaculatória, é uma prática que ser­
ve para todos . A todos, sem exceção de nin­
guém, aconselhou-a o santo e apostólico dou­
tor da Igreja, Afonso Maria de Ligório, o
incomparável propagandista desta prática ; é
cunho característico que impregna os seus
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88 AJJ três Ave-:Mariu
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avisos melifluos a qualquer classe de almas.


Todos os que a executam, fiel e devotamente,
hão de experimentar que é eminentemente sa_.·
lutar, mormente que é "de _assinalada eficiêri�
eia para se guardar a castidade contra 08
assaltos e tentações do dem6nio".
Oxalá entre em voga e se propague mat1r e
mais entre os nossos católicos ; oxalá todta· a
pratiquem consoante o método que o zelosfs­
simo doutor pregou e ensinou. As indulgên.i.
cias, com que sua santidade o papa Pio X
enriqueceu o exercício, incentivam-nos mais
ainda a nunca omitirmos prática tão pro­
veitosa, prática que para tantos descerrou as
portas do paraíso e que há de nos alcançar
também a nós feliz passagem para a terra da
promissão.
"Os seus vínculos são vínculos de salva­
ção ; nos teus últimos momentos haverás de.
nela . achar descanso ! " ( Ecli 6, 31) . .

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