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ANTONIO MACHADO A agitação que conta é a das tratativas para 2015, não o funk
ANTONIO MACHADO A agitação que conta é a das tratativas para 2015, não o funk

ANTONIO MACHADO

A agitação que conta é a das tratativas para 2015, não o funk da periferia dos mercados

Problemas não contratam crise, mas um período longo de crescimento medíocre e desgaste dos indicadores, inclusive sociais, sem influenciar o voto este ano

22/1/2014 - 01:47 - Antonio Machado

A abertura de um ano de eleição presidencial e parlamentar, entre os eventos sérios,

e de Copa do Mundo, entre os lúdicos, com o tal rolezinho de jovens em shoppings

ocupando a atenção do noticiário, dos políticos, ministros e subintelectuais, sugere

tempos de ócio, eventualmente quebrado pela previsível troca de desaforos entre os candidatos, o que também expressa ociosidade, mas da inteligência.

As atenções desviadas importam ao governo e à campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff, ambos desinteressados em discutir as questões relevantes para o desenvolvimento no próximo quadriênio em ano eleitoral, até pela impossibilidade de ação do Congresso quando os parlamentares também estão voltados à renovação de mandatos.

A continuidade implica o reconhecimento do que está feito e acenos de algo mais, não

a discussão de problemas, exceto se o continuísmo for desafiado pela oposição - algo

ainda tão incerto quanto prever o resultado da Copa. Ela parece contar mais com o cansaço de parte do eleitorado com 12 anos de governos federais petistas, sobretudo da classe média tradicional, e os sinais de obsolescência do modelo social esteado

pelo consumo interno, que em expor um projeto novo.

Os dois principais pretendentes à cadeira presidencial, o senador Aécio Neves, do PSDB, e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB, congestionam o meio de campo empresarial, aproveitando-se do mal estar do capital não bem só com

o voluntarismo de Dilma, mas com a dificuldade de acertar programas para acelerar o

investimento e recuperar a exportação, condições básicas para conter a inflação, o déficit das contas externas e a solvência fiscal de longo prazo.

As incursões de Aécio e Campos ao empresariado têm encontrado boa receptividade, mas elas pouco valem enquanto não demonstrarem que também gozam de preferência até maior entre a massa dos eleitores - em especial aos 40% deles que estão na base da pirâmide de renda e, em grande parte, integram os cadastros de assistência social.

Para eles - e são muitos, cerca de 76 milhões entre os atendidos pelas políticas sociais -, Dilma tem desde Lula o que mostrar, além de contar com a percepção disseminada entre os mais pobres de que a estabilidade da inflação foi o único mérito social prévio ao PT.

Expectativa imprudente

Os críticos de Dilma se iludem caso esperem tirá-la do Palácio do Planalto sem que um naco da população emergente em termos de renda se some à parcela do eleitorado tradicionalmente avessa ao petismo. Só com desemprego alto e inflação aberta. Não há nada que indique tais riscos.

A inflação de 2013, de 5,91%, surpreendeu não por vir maior que a de 2012 (5,83%),

mas porque o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, criara essa imprudente expectativa.

Quanto ao desemprego, o novo índice do IBGE, baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNDA) - com maior cobertura que a métrica atual em seis regiões metropolitanas, embora trimestral e não mensal -, o situa em 7,7% da população ativa, nível maior que o corrente, 5,4%, mas insuficiente para molestar o placar de Dilma.

Fetiche da moeda fraca

O que há a refletir é sobre a capacidade de a economia criar novos empregos, função

do crescimento econômico. No ano passado, foram abertas 730,6 mil vagas, sem ajustes, ou 1,1 milhão, com ajustes, o pior resultado desde 2003. Essa perspectiva é cadente ou no melhor cenário estável. Só muda com a aceleração do investimento privado e público, ambos limitados pela baixa poupança nacional. Esse é o nó.

O funding para expansão da infraestrutura e da produção industrial é suprido, com

riscos, pelos recursos externos das multinacionais e pelo capital financeiro de curto prazo à falta da poupança privada e fiscal, esta oriunda do que o governo não gasta com seu custeio e com os programas sociais. Além disso, tal cenário pressupõe déficit em contas correntes e juros que atraiam o hot money.

No limite, sem um equilíbrio entre tais contas, ou entre o gasto corrente e o devido ao investimento, recria-se a dependência externa e o fetiche da moeda fraca - o ajuste dito “progressista” para retroceder a renda real.

Rolé de Dilma em Davos

Tais problemas da economia não contratam uma crise, mas um período longo de crescimento medíocre e desgaste dos indicadores, inclusive sociais. É um fenômeno já em curso, mas não ao ponto de influenciar o voto este ano. A oposição não sabe como falar disso nem indica as alternativas. Cria alarmes sobre a situação fiscal, que não está em risco, agravando o pessimismo que só tem feito inflar os juros.

O governo espera que simbolismos, como a ida de Dilma ao fórum dos ricos em

Davos, Suíça, sirvam para ganhar tempo e levar a discussão para 2015. Na prática, sabe que terá de fazer mais, e já começou ao escolher o ministro Aloizio Mercadante para chefiar a Casa Civil. É esse o rolezinho que importa, não o funk da periferia dos mercados.

Mais do mesmo sem vez

Ao governo coordenado por Mercadante enquanto Dilma vai à luta nos palanques, despontam três prioridades: dar sentido à massa disforme da coalizão de partidos da base governista, pegar a burocracia e os novos concessionários de ativos públicos no pé para que os projetos aconteçam e desbloquear a interlocução com o empresariado. Com ele na Casa Civil, o seu ex-assessor no PT Guido Mantega, desgastado na Fazenda, será mais útil a Dilma e a Lula na corrida eleitoral.

E as ideias novas? Melhor não esperá-las para não se desapontar, o que não implica

que estejam descartadas para depois das eleições. É com elas que se pode viabilizar a

preservação das políticas sociais durante o período de ajuste fiscal que deverá vir. Isso é certo com qualquer presidente. Os seus contornos dependem da coalizão que vai emergir das urnas. Mais do mesmo é que deixou de ser solução.