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Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
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Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Programa Ciência sem Fronteiras (CsF)

e Tecnológico (CNPq) Programa Ciência sem Fronteiras (CsF) RELATÓRIO FINAL DE ATIVIDADES Título: ESTUDO COMPARATIVO

RELATÓRIO FINAL DE ATIVIDADES

Título:

ESTUDO COMPARATIVO DO DIMENSIONAMENTO DE VIGAS DE CONCRETO ARMADO (ARMADURA LONGITUDINAL E TRANSVERSAL) SEGUNDO A NBR 6118 (2003) E SEGUNDO A NP EN 1992-1-1 (2010) - EUROCODE 2 -

Orientando: Philippe Barbosa Silva

Orientadora (Universidade Federal de Goiás/Brasil):

Rezende Fernandes

Professora Doutora

Gabriela

Orientador (Universidade Nova de Lisboa/Portugal): Professor Doutor Carlos Manuel Chastre Rodrigues

2013

SUMÁRIO

LISTA DE FIGURAS

 

vii

LISTA DE TABELAS E QUADROS

 

ix

1. INTRODUÇÃO

 

10

2. OBJETIVOS

10

3. METODOLOGIA

11

4. CRONOGRAMA

DE

EXECUÇÃO

E

DESCRIÇÃO

DO

PLANO

DE

TRABALHO

 

11

5.

CONCRETO ARMADO E REGULAMENTAÇÕES

 

12

5.1.

Enquadramento do tema 12

5.2.

Breve histórico da regulamentação de estruturas de concreto armado em Portugal

e implementação do EUROCODE 2 a nível europeu

14

6.

DIMENSIONAMENTO À FLEXÃO SIMPLES

15

6.1.

Hipóteses básicas NBR 6118 (2003)

15

6.1.1.

Domínios de deformação

17

6.1.2.

Armadura mínima

18

6.1.3.

Armadura máxima 18

6.1.4.

Armadura

de pele

19

6.2.

Hipóteses básicas NP EN 1922-1-1 (2010) 19

6.2.1.

Armadura mínima

21

6.2.2.

Armadura máxima

21

6.2.3.

Armadura de pele

22

6.3.

Dimensionamento à flexão baseado nos pressupostos da NBR 6118 (2003)

22

6.3.1.

Seção retangular com armadura simples

22

6.3.1.1. Equações de equilíbrio, momento resistente e dimensionamento de armaduras 22

6.3.1.2. Cálculo mediante uso de coeficientes tipo K (tabelas) 25

6.4.

Dimensionamento à flexão baseado nos pressupostos da NP EN 1992-1-1

(2010)

26

6.4.1.

Equações de equilíbrio, momento resistente e dimensionamento de armaduras

(seção retangular)

26

6.4.2.

Cálculo com recurso a tabelas

28

6.5.

Dimensionamento à flexão – Seção em “T” - baseado nos pressupostos da NBR

6118 (2003)

28

6.6. Dimensionamento à flexão – Seção em “T” - baseado nos pressupostos da NP EN

 

1992-1-1 (2010)

30

7.

DIMENSIONAMENTO AO CISALHAMENTO

31

 

3

iii

7.1.

Hipóteses Básicas NBR 6118 (2003)

31

7.2.

Modelo Simplificado para o comportamento da viga (treliça básica de Mörsch)

31

7.2.1.

Modelos de Cálculo

32

7.2.2.

Armadura transversal mínima

33

7.3.

Critérios de dimensionamento preconizados pela NBR 6118 (2003)

33

7.3.1.

Modelo de cálculo I (θ=45º)

33

7.3.1.1.

Verificação da compressão diagonal do concreto

33

7.3.1.2.

Cálculo da armadura transversal

34

 

7.3.2.

Modelo de cálculo II (30º≤θ≤45º)

35

7.3.2.1.

Verificação da compressão diagonal do concreto

35

7.3.2.2.

Cálculo da armadura transversal

35

7.3.3.

Armadura de ligação mesa-alma

36

7.3.3.1.

Mesa comprimida

36

7.3.3.2.

Mesa tracionada

37

7.4.

Hipóteses básicas NP EN 1992-1-1 (2010)

38

7.4.1.

Modelo de cálculo

39

7.4.1.1.

Verificações para estribos verticais

39

7.4.1.1.1.

Área efetiva máxima

40

7.4.1.2. Verificações para estribos inclinados

40

7.4.1.2.1.

Área efetiva máxima

41

7.4.1.3.

Armadura transversal mínima

41

7.4.1.4.

Armadura de ligação mesa-alma

41

8.

EXEMPLOS NUMÉRICOS

42

8.1.

Exemplo 1

43

RESOLUÇÃO

44

(a)

Armaduras de flexão

44

(a.1) Segundo NBR 6118 (2003)

44

(a.2) Segundo NP EN 1992-1-1 (2010)

45

(b)

Armaduras transversais

45

(b.1) Segundo NBR 6118 (2003)

45

(b.2) Segundo NP EN 1992-1-1 (2010)

46

8.2.

Exemplo 2

47

RESOLUÇÃO

48

(a)

Armaduras de flexão

48

(a.1) Segundo NBR 6118 (2003)

48

(a.2) Segundo NP EN 1992-1-1 (2010)

49

(b)

Armaduras transversais

50

(b.1) Segundo NBR 6118 (2003)

50

(b.2) Segundo NP EN 1992-1-1 (2010)

51

8.3.

Exemplo 3

52

RESOLUÇÃO

52

(a)

Momento resistente

52

(a.1) Segundo NBR 6118 (2003)

52

(a.2) Segundo NP EN 1992-1-1 (2010)

53

4

iv

(b)

Esforço cortante resistente

54

(b.1) Segundo NBR 6118 (2003)

54

(b.2) Segundo NP EN 1992-1-1 (2010)

55

8.4.

Exemplo 4

55

RESOLUÇÃO

 

56

(a)

Armaduras de flexão

56

(a.1) Segundo NBR 6118 (2003)

56

(a.2) Segundo NP EN 1992-1-1 (2010)

57

(b)

Armaduras transversais

58

(b.1) Segundo NBR 6118 (2003)

58

(b.2) Segundo NP EN 1992-1-1 (2010)

60

(c)

Armaduras de ligação mesa-alma

60

(c.1) Segundo NBR 6118 (2003)

60

(c.2) Segundo NP EN 1992-1-1 (2010)

61

8.5.

Exemplo 5

62

RESOLUÇÃO

 

63

(a)

Armaduras de flexão

63

(a.1) Segundo NBR 6118 (2003)

63

(a.1.1) Trecho 1

63

(a.1.2) Apoio B

64

(a.1.3) Trecho 2

65

(a.2) Segundo NP EN 1992-1-1 (2010)

66

(a.2.1) Trecho 1

66

(a.2.2) Apoio B

66

(a.2.3) Trecho 2

67

(b)

Armaduras transversais

67

(b.1) Segundo NBR 6118 (2003)

67

(b.1.1) Apoio A

67

(b.1.2) Apoio B (esquerda)

68

(b.1.3) Apoio B (direita)

69

(b.1.4) Apoio C

70

(b.2) Segundo NP EN 1992-1-1 (2010)

71

(b.2.1)

Apoio

A

71

(b.2.2) Apoio B (esquerda)

72

(b.2.3) Apoio B (direita)

72

(b.2.4) Apoio C

73

9. RESULTADOS E DISCUSSÕES

73

10. QUADROS COMPARATIVOS

75

11. CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS

84

12. REFERÊNCIAS

88

ANEXOS

 

93

 

5

v

A.1. Tabela de cálculo para Flexão Simples com Seções Retangulares UNIC

94

A.2. Tabela de cálculo para Flexão Simples em Seção Retangular Armadura Simples

(PINHEIRO, 2007)

95

LISTA DE FIGURAS

Figura 6.1 Diagramas tensões-deformações para o concreto

16

Figura 6.2 Diagrama tensão-deformação para o aço

16

Figura 6.3 Domínios de estado limite último de uma seção transversal

17

Figura 6.4 Diagrama parábola-retângulo para o concreto comprimido

19

Figura 6.5 Diagramas de tensões-deformações do aço das armaduras para concreto armado 20

Figura 6.6 Domínio admissível de distribuições de extensões no estado limite último

21

Figura 6.7 Distribuição de tensões e deformações em viga de seção retangular com armadura

23

simples

Figura 6.8 Distribuição de tensões de compressão segundo os diagramas parábola-retângulo e

retangular simplificado

24

Figura 6.9 Resistências e deformações na seção de concreto armado

27

Figura 6.10 – Seção em “T” falsa

29

Figura 6.11 – Seção em “T” verdadeira

29

Figura 6.12 Seção retangular de largura b ef

30

Figura 6.13 Seção retangular de largura b w

30

Figura 6.14 – Regiões da seção “T” verdadeira

30

Figura 7.1 Comparação entre a viga e o modelo idealizado

31

Figura 7.2 Treliça de Mörsch

32

Figura 7.3 Ligação mesa-alma: mesa comprimida

37

Figura 7.4 Ligação mesa-alma: mesa tracionada

38

Figura 7.5 Modelo de treliça EN 1992-1-1

39

Figura 7.6 Ligação mesa-alma EN 1992-1-1

42

Figura 8.1 Diagramas Exemplo 1

43

Figura 8.2 Diagramas Exemplo 2

48

Figura 8.3 Esquema de ensaio de viga Exemplo 3

52

Figura 8.4 Seção transversal de viga Exemplo 3

52

Figura 8.5 Diagramas - Exemplo 4

55

Figura 8.6 Diagramas - Exemplo 5

63

8

viii

LISTA DE TABELAS E QUADROS

Tabela 5.1 Desenvolvimento da regulamentação anterior ao Eurocódigo 2, em Portugal

14

Tabela 6.1 Taxas mínimas de armadura de flexão para vigas

18

Quadro 10.1 Comparação: valores de cálculo das ações

75

Quadro 10.2 Comparação: características do material aço

76

Quadro 10.3 Comparação: características do material concreto

76

Quadro 10.4 Comparação: disposições construtivas

77

Quadro 10.5 Comparação: dimensionamento à flexão

82

Quadro 10.6 Comparação: dimensionamento ao cisalhamento

83

1.

INTRODUÇÃO

O concreto armado é um dos materiais estruturais dotado de maior importância no cenário de engenharia do último século, o qual vem sendo vastamente utilizado em inúmeras áreas da engenharia civil, destinando-se à construção de diversas obras de portes variados.

Diversos estudos auxiliam na descrição do comportamento do concreto armado, no entanto, devido à sua complexidade não se chega a um consenso. Por tal fato, em termos práticos de dimensionamento e execução de estruturas de concreto armado, definem-se normatizações que visam uniformizar o processo; para o caso do Brasil, a ABNT foi incumbida de elaborar a NBR 6118:2003, norma que define os critérios gerais que regem o projeto de estruturas de concreto, sejam elas de edifícios, pontes, obras hidráulicas, portos ou aeroportos etc.

Nesse contexto, vê-se como boa oportunidade, o estudo comparativo entre a NBR 6118:2003 e normas internacionais, especificamente o EUROCODE 2 Design of concrete structures, norma europeia de referência internacional, recorrendo-se para esse estudo à versão portuguesa do referido regulamento, a NP EN 1992-1-1 (2010). Tal comparação possibilita a observação das diferenças e similaridades nas considerações, prescrições e filosofia de cálculo de ambas as normas.

Esse é um passo importante para a tendência de internacionalização das normas, agregando a experiência acumulada e contribuições de cada norma, ressaltando ainda que, tal internacionalização gera benefícios tais como, a harmonia entre diferentes Normas como condição essencial ao livre comércio entre as nações.

2. OBJETIVOS

Constitui-se por objetivo principal dessa pesquisa, a análise comparativa entre procedimentos de cálculo de vigas de concreto armado dispostos pela NBR 6118:2003 e os dispostos pelo EUROCODE 2.

Ainda tem-se como objetivos específicos:

Comparação das bases de cálculo de vigas de concreto armado armadura longitudinal e transversal- (NBR 6118 (2003) versus NP EN 1992-1-1 (2010));

Cálculo de armadura longitudinal e transversal de viga de concreto armado segundo a NBR 6118 (2003);

Cálculo de armadura longitudinal e transversal de viga de concreto armado segundo a NP EN 1992-1-1 (2010);

Comparação entre exemplos de dimensionamento de armadura longitudinal e transversal calculados mediante uso de ambas as regulamentações;

Análise crítica e conclusões.

3.

METODOLOGIA

Consistirá de metodologia o estudo da NP EN 1992-1-1 (2010) - EUROCODE 2 - e posterior identificação e comparação com a NBR 6118:2003 (para vigas). Na sequência realizar-se-á o dimensionamento de alguns exemplos de vigas de concreto armado (armaduras longitudinais e transversais). Seguindo ainda, far-se-á a comparação entre o dimensionamento de armadura longitudinal e transversal realizado segundo a NBR 6118:2003 e o dimensionamento de armadura longitudinal e transversal segundo a NP EN 1992-1-1 (2010) de exemplos de vigas de concreto armado. Por fim, procede-se com uma análise crítica dos resultados encontrados e conclusões.

4. CRONOGRAMA

TRABALHO

DE

EXECUÇÃO

E

DESCRIÇÃO

DO

PLANO

DE

1 Estudo da NP EN 1992-1-1 (2010) - EUROCODE 2 -, no que concerne ao dimensionamento de armadura longitudinal e transversal de vigas de concreto armado;

2 Execução de dimensionamento de exemplos de vigas de concreto armado segundo a NP EN 1992-1-1 (2010);

3 Redação do relatório parcial;

4 Execução de dimensionamento de exemplos de vigas de concreto armado segundo a NBR 6118 (2003);

5 Comparação entre resultados obtidos no item 2) e item 4);

6 Análise dos dados comparativos;

7 Redação do relatório final.

ATIVIDADE

 

2012

   

2013

 

Set

Out

Nov

Dez

Jan

Fev

Mar

Abr

Mai

Jun

Jul

Ago

Item 1

X

X

X

                 

Item 2

   

X

X

               

Item 3

       

X

X

           

Item 4

           

X

X

       

Item 5

               

X

     

Item 6

                 

X

   

Item 7

                   

X

X

5.

CONCRETO ARMADO E REGULAMENTAÇÕES

5.1. Enquadramento do tema

Remontando a história dos materiais utilizados nas construções antigas, constata-se que os primeiros materiais empregados foram a pedra natural e a madeira, dado sua disponibilidade natural. Demais materiais, tais como o aço e o concreto foram introduzidos apenas séculos adiante.

Nesse

contexto

pode-se

inferir

que

o

material

idealizado

para

o

emprego

nas

construções

é

aquele

que

detenha

boas

características

de

resistência

e

durabilidade

simultaneamente.

As construções antigas eram, via de regra, constituídas por pedras naturais, as quais proporcionam resistência à compressão e durabilidade muito elevadas, fato comprovado inclusivamente pela existência de obras antiquíssimas de pedra natural em condições de uso que perduram até os dias atuais; no entanto, esse tipo de material apresenta baixa resistência à tração.

Assim, o concreto armado emergiu da necessidade de conciliar a durabilidade da pedra com a resistência do aço, contando ainda com a vantagem do material ser moldável e por conseguinte, poder assumir qualquer forma (versatilidade arquitetônica), com rapidez e facilidade; e com o aço envolvido e protegido pelo concreto para evitar a sua corrosão.

“O betão é um material constituído pela mistura, devidamente proporcionada, de pedras

e areia, com um ligante hidráulico, água e, eventualmente, adjuvantes. A propriedade que os

produtos da reacção dos ligantes com a água têm de endurecer, confere à mistura uma coesão e resistência que lhe permite servir como material de construção.” (COUTINHO, 1988, p. 1)

Então, desde a invenção do concreto armado no século XIX, normalmente atribuída a Joseph-Louis Lambot e Joseph Monier, a indústria da construção civil é fortemente impulsionada. Isso se deveu ao fato de se proporcionar a combinação entre as tensões resistentes

à compressão do concreto e a tração do aço num mesmo material, o que revolucionou a forma de construção.

É cada vez mais crescente o emprego de concreto armado nas estruturas de edificações

e de uma infinidade de obras. Constitui-se por ser o material estrutural mais utilizado no mundo,

apresentando características interessantes do ponto de vista de seu comportamento estrutural e sua fabricação. A disponibilidade dos materiais constituintes do concreto armado é elevada, e tal

apresenta relativa facilidade no processo de produção, para além disso, suas propriedades permitem o atendimento de diversas exigências tanto do ponto de vista arquitetônico, já que é uma material que se molda à qualquer forma, quanto do ponto de vista estrutural. Tais fatores intervenientes associados levam a um custo baixo e projetam esse material para o topo do mercado da construção civil.

Atualmente, tanto no Brasil quanto em diversos países, tal como Portugal, o concreto armado é amplamente utilizado como material estrutural, sendo uma cultura assente nesses países, tendo assim, um papel fundamental para a construção, pelo que torna-se então, imprescindível o conhecimento e determinação do seu comportamento para que sejam

satisfeitas as condições em projeto ao nível de segurança, durabilidade, funcionalidade e estética.

Outrora, o dimensionamento das estruturas era baseado fundamentalmente na experiência, no empirismo, uma vez que as tecnologias existentes não possibilitavam a análise estrutural apurada, nem tampouco se conseguia prever o comportamento -próximo do real- da estrutura. No entanto, refere-se que, este procedimento é arriscado, por se basear em conhecimentos unicamente empíricos; e antieconômico, uma vez que correntemente levam ao sobredimensionamento de estruturas de maneira a conferir segurança à obra.

O concreto armado configura-se por ser um material não homegêneo e não linear, o que, mesmo com os mais modernos estudos e avanços, impossibilita prever seu comportamento tendo em conta todos os parâmetros que o influencia. A realização de uma análise próxima à realidade de um elemento ou sistema estrutural de concreto armado é uma tarefa árdua, no entanto, pelos aspectos favoráveis ao material (concreto armado) já mencionados, a prática de projetos em estrutura de concreto armado é cada vez mais recorrente.

Nesse sentido, em um mundo altamente globalizado e concorrencial, os parâmetros de tempo e custo são cada vez mais relevantes e decisivos no desenvolvimento de qualquer obra. O engenheiro projetista, deve, portanto, dominar muito bem os conhecimentos necessários ao dimensionamento de estruturas, nomeadamente as de concreto armado, e utilizar recursos e ferramentas que permitam reduzir o tempo de execução da obra, assim como seus custos, sem deixar de assegurar que tal cumpra seus requisitos no que tange à segurança, conforto e durabilidade.

Na busca de padronização e uniformização dos requisitos mínimos exigidos em estruturas, em especial nas de concreto armado, instituem-se normas, sejam elas regionais, nacionais ou internacionais. O intuito de tais regulamentações é que, através de estudos e contribuição de diversos engenheiros e investigadores, estabeleçam-se pressupostos que caracterizem o comportamento da estrutura o mais próximo da realidade, tendo em conta também a adoção de teorias e medidas simplificadoras, de maneira a possibilitar que a utilização das referidas regulamentações, conduzam a critérios exequíveis, uma vez que serão aplicados num projeto, o qual é de caráter prático e não se adequa a modelos e teorias extremamente complexas e morosas.

No Brasil, a normalização técnica é de responsabilidade da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), a qual busca fornecer a base necessária ao desenvolvimento tecnológico brasileiro. Nesse âmbito, a principal norma referente ao dimensionamento de estruturas de concreto armado é a NBR 6118 (2003) Projeto de estruturas de concreto Procedimento.

Em se tratando se dimensionamento de estruturas de concreto armado, a nível internacional, pode-se destacar duas normatizações que são de grande relevância, as quais são consultadas por diversos projetistas em todo o mundo. Uma delas é a norma americana produzida e sob responsabilidade do ACI (American Concrete Institute) e que apresenta como principal norma para o projeto de estruturas de concreto armado a ACI 318-08 (2005) Building Code Requirements for Structural Concrete and Comentary.

A outra normatização é a europeia, produzida pelo CEN (European Committee for Standartization), que são os Eurocodes, ou Eurocódigos em português. Far-se-á um breve

histórico da implementação e abrangência desses Eurocódigos na sequência. Desses documentos técnicos, resultou a norma mais relevante do ponto de vista de projeto e dimensionamento de estruturas de concreto armado: Eurocode 2 Design of concrete structures. Part 1-1: General rules and rules for buildings (EN 1992-1-1), ou ainda a versão portuguesa:

Eurocódigo 2 Projecto de estruturas de betão. Parte 1-1: Regras gerais e regras para edifícios (NP EN 1992-1-1) de março de 2010.

Nessa ótica, visando estabelecer parâmetros comparativos e que relacionam as referidas normatizações, vê-se como interessante o estudo comparativo entre a NBR 6118 (2003) e a NP EN 1992-1-1 (2010). Tal comparação possibilita observar as distinções e similaridades nas considerações, prescrições e filosofia de cálculo de ambas as normas. Esse se constituiu um passo importante para a tendência de internacionalização das normas, agregando experiência acumulada e contribuições de cada uma, ressalta-se ainda que, tal internacionalização gera benefícios, tais como a harmonia entre as diferentes normas como condição essencial ao livre comércio e prestação de serviços entre as nações.

Refere-se ainda que, no presente estudo tem-se por objetivo tratar apenas da comparação referente ao dimensionamento de vigas de concreto armado (armadura longitudinal e transversal).

5.2. Breve histórico da regulamentação de estruturas de concreto armado em Portugal

e implementação do EUROCODE 2 a nível europeu

Pode-se dividir a evolução da regulamentação de estruturas, inclusive as de concreto armado, em Portugal em alguns períodos significativos, a saber: anterior a 1960, anos 60-70 e anos 80; e ainda a implementação da regulamentação europeia nos anos 90.

Referindo-se apenas as normatizações de estruturas de concreto armado, tem-se a evolução apresentada na Tabela 5.1.

Tabela 5.1 Desenvolvimento da regulamentação anterior ao Eurocódigo 2, em Portugal

Período

Regulamentação

Anterior a 1960

Regulamento de Betão Armado RBA 35/43/60

Anos 60-70

Regulamento de Estruturas de Concreto Armado REBA

67/76

Anos 80

Regulamento de Estruturas de Betão Armado e Pré- esforçado REBAP 85

Em 1975, a Comissão da Comunidade Europeia adotou um programa no domínio da construção, cujo objetivo era a eliminação de dificuldades e entraves técnicos ao comércio, assim como a uniformização e harmonização das especificações técnicas.

Assim, num período de quinze anos a referida Comissão, com o apoio de uma Comissão Diretiva composta por representantes dos Estados-membros, orientou o desenvolvimento do programa dos Eurocódigos. Desse trabalho resultaram os primeiros regulamentos europeus, na década de 80.

Já no ano de 1989, mediante decisão da Comissão e dos Estados-membros, a publicação dos Eurocódigos passou a ficar a cargo do CEN (European Committee for Standartization), objetivando-se assim, conferir-lhes a categoria de Norma Europeia (EN). Dessa maneira, em 1990 iniciou-se a elaboração de Eurocódigos Estruturais, tendo a representatividade dos Estados-membros. Especificamente, em Portugal, o trabalho tem sido desenvolvido pela CT115 (Comissão Técnica Portuguesa de Normalização Eurocódigos Estruturais), sob coordenação do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).

6. DIMENSIONAMENTO À FLEXÃO SIMPLES

Tratar-se-á nesse capítulo do dimensionamento de vigas (elementos lineares) sujeitas a solicitações de flexão simples considerando-se o estado limite último (ELU).

6.1. Hipóteses básicas NBR 6118 (2003)

De acordo com a NBR 6118(2003), item 17.2.2, as hipóteses básicas admitidas na determinação dos esforços resistentes das seções transversais de vigas e pilares de concreto armado, submetida à flexão simples ou composta, são as seguintes:

Admite-se que as seções transversais mantêm-se planas após deformação;

A deformação das barras passivas aderentes ou o acréscimo de deformação das barras ativas aderentes em tração ou compressão deve ser o mesmo do concreto em seu entorno;

A distribuição de tensões no concreto se faz segundo o diagrama parábola- retângulo, apresentado na Figura 6.1, com a máxima tensão de compressão de valor igual a 0,85f cd , sendo f cd a resistência à compressão de cálculo do concreto. Tal diagrama pode ser substituído pelo retângulo de altura 0,8x, onde x é a profundidade da linha neutra, com a seguinte tensão:

- 0,85f cd no caso de a largura da seção, medida paralelamente à linha neutra, não diminuir a partir desta para a borda comprimida;

As

- 0,8f cd no caso contrário.

diferenças

de

resultados

obtidos

com

esses

dois

diagramas

aceitáveis, sem necessidade de coeficiente adicional.

são

pequenas

e

É relevante referir que, a multiplicação de um fator pela resistência de cálculo à compressão do concreto (f cd ) a fim de se obter a tensão de cálculo do concreto (σ cd ), deve-se essencialmente a três fatores:

a) Considera-se a perda resistência quando o material fica submetido à carga mantida (constante), o chamado Efeito Rush; pelo que se deve minorar a resistência de cálculo com o fator 0,72;

b) Admite-se que a forma cilíndrica do corpo de prova influencia na aferição da resistência, superestimando-a, pelo que se deve minorar a resistência de cálculo com o fator 0,96;

c) Tem-se em conta o ganho de resistência do concreto com o passar do tempo, motivo pelo qual afeta-se a resistência de cálculo com o fator 1,23.

Disso, resulta que:

cd 0,72x0,96x1,23xfcd 0,85fcd

(6.1)

 cd  0,72 x 0,96 x 1,23 xf cd  0,85 f cd (6.1) Figura

Figura 6.1 Diagramas tensões-deformações para o concreto

Onde:

fck resistência característica à compressão do concreto; f cd resistência de cálculo à compressão do concreto; σ c tensão à compressão no concreto; σ cd tensão de cálculo do concreto; ε c deformação específica do concreto; ε c1 deformação específica do concreto na borda inferior; ε cu deformação específica de ruptura do concreto comprimido.

O item 8.3.6 apresenta o diagrama tensão-deformação do aço para as armaduras passivas, pelo que a tensão nas armaduras deve ser obtida a partir do diagrama tensão-deformação indicado na Figura 6.2, para os aços com ou sem patamar de escoamento;

Figura 6.2, para os aços com ou sem patamar de escoamento; Figura 6.2 – Diagrama tensão-deformação

Figura 6.2 Diagrama tensão-deformação para o aço

Onde:

fyd resistência de cálculo do aço à tração; f yk resistência característica do aço; ε yd deformação específica de cálculo de escoamento do aço; ε s deformação específica do aço; σ s tensão normal de tração na armadura; E s módulo de elasticidade do aço.

O estado limite último é caracterizado quando a distribuição das deformações na seção transversal pertencer a um dos domínios definidos na Figura 6.3.

A NBR 6118 (2003) é aplicável apenas a concreto compreendido nas classes de resistência do grupo I, indicadas na NBR 8953, pelo que a classe máxima abrangida é C50, ou seja, resistência à compressão máxima de 50 MPa.

6.1.1. Domínios de deformação

O Estado Limite Último (ELU), correspondente ao esgotamento da capacidade resistente de uma seção transversal, pode ocorrer por ruptura do concreto ou por uma deformação excessiva da armadura. Admite-se a ocorrência do ELU quando a distribuição das deformações ao longo da altura h de uma seção transversal se enquadrar em um dos domínios da Figura 6.3.

transversal se enquadrar em um dos domínios da Figura 6.3. Figura 6.3 – Domínios de estado

Figura 6.3 Domínios de estado limite último de uma seção transversal

Reta a: tração uniforme;

Domínio 1: tração não uniforme (flexo-tração) sem tensões de compressão;

Domínio 2: flexão simples ou composta sem ruptura à compressão do concreto (ε c <3,5‰) e com o máximo alongamento permitido para as armaduras (ε s =10‰);

Domínio 3: flexão simples ou composta com ruptura à compressão do concreto e com escoamento do aço (ε s ≥ ε yd );

Domínio 4: flexão simples ou composta co ruptura à compressão do concreto e o aço tracionado sem escoamento (ε s < ε yd );

Domínio 4a: flexão composta com armaduras comprimidas;

Domínio 5: compressão não uniforme (flexo-compressão), sem tensões de tração;

Reta b: compressão uniforme.

6.1.2.

Armadura mínima

O item 17.3.5.2.1 da NBR 6118 (2003) estabelece que a armadura mínima de tração, em

elementos estruturais armados ou protendidos, deve ser determinada pelo dimensionamento da seção a um momento fletor mínimo regido pela expressão que se segue, respeitada a taxa mínima absoluta de 0,15%:

Md, min 0,8W 0 fctk, sup

Onde:

(6.2)

W 0 é o módulo de resistência da seção transversal bruta de concreto relativo à fibra mais tracionada; f ctk,sup é a resistência característica superior do concreto à tração.

Ainda como estabelecido na NBR 6118 (2003), o dimensionamento para M d,min é considerado atendido caso se respeitem as taxas mínimas de armadura da Tabela 17.3 da referida norma e que encontra-se a seguir.

Tabela 6.1 Taxas mínimas de armadura de flexão para vigas

Forma da

seção

Valores de ρ min (A s,min /A c ) [%]

ω min \

f ck

20

25

30

35

40

45

50

Retangular

0,035

0,150

0,150

0,173

0,201

0,230

0,259

0,288

T

(mesa

0,024

0,150

0,150

0,150

0,150

0,158

0,177

0,197

comprimida)

T

(mesa

0,031

0,150

0,150

0,153

0,178

0,178

0,229

0,255

tracionada)

Circular

0,070

0,230

0,288

0,345

0,403

0,460

0,518

0,575

Os valores de ρ min estabelecidos nesta tabela consideram o uso de aço CA-50, γ c =1,4 e γ s =1,15. Caso haja alteração de algum desses fatores, ρ min deve ser recalculado com base no valor de ω min dado. NOTA: Nas seções tipo T, a área da seção a ser considerada deve ser caracterizada pela alma acrescida da mesa colaborante.

6.1.3. Armadura máxima

O item 17.3.5.2.4 da NBR 6118 (2003) estabelece que a soma das armaduras de tração e

compressão não deve ter valor maior que 4% da área da seção transversal de concreto, A c , sendo calculada na região fora da zona de emendas:

As, max 0,04Ac

(6.3)

6.1.4.

Armadura de pele

O item 17.3.5.2.3 estabelece a necessidade de armadura de pele em vigas com altura superior a 60 cm. Tal armadura é lateral e deve ser 0,10% da área de concreto da alma (A c,alma ) em cada face da alma da viga, com espaçamento não maior que 20 cm.

6.2. Hipóteses básicas NP EN 1922-1-1 (2010)

A norma portuguesa NP EN 1992-1-1 (2010), referida recorrentemente como Eurocódigo 2 (EC2), na seção 6.1 estabelece que para a determinação da resistência à flexão última de seções transversais de elementos de concreto armado, deve-se ter em conta as seguintes premissas:

Admite-se que as seções mantêm-se planas;

A extensão nas armaduras aderentes, em tração ou compressão, é tida como sendo a mesma da do concreto envolvente;

Despreza-se a resistência à tração do concreto;

As tensões no concreto comprimido são obtidas por meio do diagrama de tensões-deformações, constante na Figura 6.4;

diagrama de tensões-deformações, constante na Figura 6.4; Figura 6.4 – Diagrama parábola-retângulo para o

Figura 6.4 Diagrama parábola-retângulo para o concreto comprimido

Donde a tensão de compressão no concreto (σ c ) é determinada por uma das seguintes expressões:

c

fcd

1

1

c

c 2

n

quando 0 c c2

c fcd quando c2 c cu2

Onde:

(6.4)

(6.5)

fck resistência característica à compressão do concreto; fcd resistência de cálculo à compressão do concreto; σ c tensão à compressão no concreto; ε c extensão do concreto à compressão; ε c2 extensão ao ser atingida a resistência máxima; ε cu2 extensão última; n expoente tabelado.

A classe de resistência à compressão do concreto é designada por Cf ck,cil /f ck,cube , onde expressa-se a resistência à compressão do concreto referido à provetes cilíndricos (f ck,cil ) e referido à provetes cúbicos (f ck,cube ). A classe C30/37, por exemplo, remete que f ck,cil é de 30 MPa e f ck,cube é de 37 MPa.

Conforme item 3.1.2 da NP EN 1992-1-1 (2010), a classe de resistência máxima (C max ) contemplada pela referida norma é C90/105, o qual tem resistência à compressão máxima (provete cilíndrico) de 90 MPa.

As tensões nas armaduras ordinárias são obtidas por meio do diagrama apresentado na Figura 6.5. Assim, para o cálculo corrente, pode-se admitir qualquer uma das hipóteses:

1) um ramo superior inclinado com extensão limite de ε ud e com uma tensão máxima kfyk /S para ε uk ;

um ramo superior horizontal sendo desnecessária a verificação do limite

2)

da extensão.

desnecessária a verificação do limite 2) da extensão. Figura 6.5 – Diagramas de tensões-deformações do aço

Figura 6.5 Diagramas de tensões-deformações do aço das armaduras para concreto armado

Onde:

fyd resistência de cálculo do aço à tração; fyk resistência característica do aço; ε yd deformação específica de cálculo de escoamento do aço; ε s deformação específica do aço;

ε uk valor característico da extensão do aço na carga máxima; ε ud valor de cálculo da extensão do aço na carga máxima; σ s tensão normal de tração na armadura; k ( ft / fy)k com valor mínimo tabelado;

E s módulo de elasticidade do aço.

O domínio admissível de distribuições é representado na Figura 6.6.

de distribuições é representado na Figura 6.6. Figura 6.6 – Domínio admissível de distribuições de

Figura 6.6 Domínio admissível de distribuições de extensões no estado limite último

Refere-se ainda que, o ponto A é designado por ser o limite para a extensão de tração do aço para concreto armado, enquanto que o ponto B é o limite para a extensão de compressão do concreto, e o ponto C é o limite para a extensão de compressão simples do concreto.

6.2.1. Armadura mínima

Conforme item 9.2.1.1 da NP EN 1992-1-1 a área armadura longitudinal de tração deve ser de no mínimo A s,min , expressa por:

Onde:

A

s, min 0,26

f ctm

f yk

b d

t

b d

0,0013

t

(6.6)

f ctm é o valor médio da tensão de rotura do concreto à tração simples; f yk é o valor característico da tensão de escoamento à tração do aço das armaduras; d é a altura útil da seção transversal; b t é a largura média da zona tracionada; no caso de viga em T com banzos comprimidos, deverá ser considerada apenas a largura da alma no cálculo do valor de b t .

6.2.2. Armadura máxima

Ainda conforme o item 9.2.1.1 da NP EN 1992-1-1, tem-se que a área máxima de armadura longitudinal, considerando tanto armadura de tração quanto armadura de compressão, não deve ser superior a 4% da área de concreto:

As, max 0,04Ac

6.2.3. Armadura de pele

(6.7)

O item 7.3.3(3) da NP EN 1992-1-1 enuncia que, no caso de vigas com altura total igual ou superior a 100 cm, em que a armadura principal está concentrada apenas numa pequena parte da altura, dever-se-á adotar armadura de pele adicional. Tal armadura deve ser distribuída uniformemente no interior dos estribos, entre o nível da armadura de tração e o eixo neutro. O valor da armadura não deve ser inferior a:

Ass kckfct, effAct

Quando se considera k igual a 0,5 e s fyk .

Onde:

(6.8)

A s é a armadura pele mínima;

A ct é a área de concreto tracionado;

s é o valor absoluto da tensão máxima admissível na armadura imediatamente depois da formação da fenda; fct, eff é o valor médio da resistência do concreto à tração na data em que se prevê a formação

das primeiras fendas;

k é o coeficiente que considera o efeito das tensões não uniformes auto-equilibradas;

k c é coeficiente que considera a distribuição de tensões na seção, imediatamente antes da fendilhação e da variação o braço do binário.

6.3.

Dimensionamento à flexão baseado nos pressupostos da NBR 6118 (2003)

6.3.1.

Seção retangular com armadura simples

Existem as mais variadas formas geométricas de seção transversal de viga, no entanto, as mais usuais são em seção retangular e com forma de T. Logo, abordar-se-á a forma genérica de uma seção retangular, pela qual, similarmente, desenvolve-se a resolução para demais seções transversais.

Define-se por viga com armadura simples a seção que contém apenas a armadura tracionada, e admite-se que a área de concreto comprimido é suficiente para resistir às tensões de compressão, não implicando na necessidade de uso de armadura na região comprimida.

6.3.1.1. Equações de equilíbrio, momento resistente e dimensionamento de armaduras

A formulação dos esforços internos resistentes da seção é feita embasada nas equações de equilíbrio das forças normais e dos momentos fletores:

N 0 M 0

(6.9)

(6.10)

A Figura 6.7 que se segue, ilustra a seção retangular de uma viga solicitada por momento fletor positivo, com largura b w e altura h, armadura A s e área A’ c de concreto comprimido delimitada pela linha neutra. A linha neutra é demarcada pela distância x, contada a partir da fibra mais comprimida da seção.

O digrama de deformações ao longo da altura da seção, com as deformações notáveis ε cd (máximo encurtamento do concreto comprimido) e ε sd (alongamento na armadura tracionada), além do diagrama retangular simplificado de distribuição de tensões de compressão, com altura y=0,8x, e, por conseguinte, as respectivas resultantes de tensão (R cc e R st ), também estão ilustradas na Figura 6.7.

e R s t ), também estão ilustradas na Figura 6.7. Figura 6.7 – Distribuição de

Figura 6.7 Distribuição de tensões e deformações em viga de seção retangular com armadura simples

Para melhor compreensão da forma de distribuição das tensões de compressão na seção, a Figura 6.8 mostra a seção transversal em perspectiva, com os diagramas parábola-retângulo e retangular simplificado, o qual leva a equações mais simples e com resultados aproximados àqueles obtidos por meio do diagrama parábola-retângulo.

Figura 6.8 – Distribuição de tensões de compressão segundo os diagramas parábola-retângulo e retangular

Figura 6.8 Distribuição de tensões de compressão segundo os diagramas parábola-retângulo e retangular simplificado

Admitindo-se que na flexão simples não ocorrem forças normais solicitantes, e que a força resultante das tensões de compressão no concreto deve estar em equilíbrio com a força resultante das tensões de tração na armadura A s , como indicadas na Figura 8, podendo-se chegar a:

R cc = R st

(6.11)

Recorrendo aos conceitos de Resistência dos Materiais, em que σ=R/A, a força resultante das tensões de compressão no concreto pode ser expressa da seguinte maneira:

Rcc (0,85.fcd).(bw).(0,8.x) 0,68.bw.x.fcd

(6.12)

E

a força resultante das tensões de tração na armadura tracionada é:

Rst sd.As

(6.13)

Fazendo-se a consideração de equilíbrio dos momentos fletores na seção, o momento fletor solicitante deve ser equilibrado por um momento fletor resistente, propiciado pelo concreto comprimido e pela armadura tracionada. Assumindo valores de cálculo, por simplicidade de notação ambos os momentos fletores devem ser iguais ao momento fletor de cálculo M d , tal que:

M solic = M resist = M d

(6.14)

As forças resistentes internas, proporcionadas pelo concreto comprimido e pela armadura tracionada, formam um binário oposto ao momento fletor solicitante, podendo ser escrito da seguinte maneira:

M d =

R cc . z cc

M d = R st . z cc

(6.15)

(6.16)

Onde:

R cc .z cc refere-se ao momento interno resistente, proporcionado pelo concreto comprimido;

R st .z cc refere-se ao momento interno resistente, proporcionado pela armadura tracionada;

Como z cc = d-0,4x, chega-se a nova configuração da equação (6.15):

Md 0,68.bw.x.fcd(d 0,4x)

(6.17)

O referido momento, M d é definido como o momento interno resistente proporcionado

pelo concreto comprimido.

o momento interno resistente proporcionado pela armadura tracionada é regido pela

expressão:

Md sd.As(d 0,4x)

(6.18)

Isolando convenientemente, obtém-se a área de armadura tracionada:

A

M

d

s

sd

.(d

0,4x)

(6.19)

As equações (6.17) e (6.19) são as necessárias ao dimensionamento das seções retangulares com armadura simples. Nota-se que se dispõe de sete variáveis contidas nas duas equações, devendo-se, portanto, inserir valores para cinco variáveis. Usualmente em projeto, fixa-se os materiais (concreto e aço), a seção transversal, o momento fletor solicitante, restando como incógnitas a posição da linha neutra (x) e a área de armadura (A s ).

Através da equação (6.17) determina-se a posição x para a linha neutra, fato que permite definir qual o domínio em que a viga se encontra. Nos domínios 2 ou 3 a tensão na armadura tracionada (σ sd ) é igual à máxima tensão possível, ou seja, f yd . Determinados x e σ sd , calcula-se a área de armadura tracionada (A s ) por meio da equação (6.19).

A flexão simples ocorre nos domínios 2, 3 e 4. Com intuito de melhorar a ductilidade

das estruturas nas regiões de apoio das vigas ou de ligações com outros elementos estruturais, a NBR 6118 (2003) (item 14.6.4.3) impõe que a posição da linha neutra obedeça aos seguintes limites:

1. β x = x/d ≤ 0,50 para concretos C35 ou de menor resistência (f yd ≤ 35MPa); ou

2. β x = x/d ≤ 0,40 para concretos superiores ao C35 (f yd >35MPa).

Com a adoção desses limites a norma quer aumentar a capacidade de rotação das vigas nas regiões de apoio ou ligação com outros elementos, ou seja, quer aumentar a ductilidade, que é a capacidade do elemento ou material deformar-se mais até a ruptura.

6.3.1.2. Cálculo mediante uso de coeficientes tipo K (tabelas)

Visando facilitar o cálculo manual, há muitos anos emprega-se o uso de coeficientes tabelados, chamados tipo K. Nesse método para diferentes posições da linha neutra, expressa pela relação β x = x/d, são tabelados coeficientes K c e K s , relativos à resistência do concreto e à tensão na armadura tracionada.

Considera-se a equação (6.17), substituindo x por β x .d encontram-se:

Md

Md

  0,68.bwx.d². 0,68.bwx.d.fcd(d fcd(1  0,4x) 0,4x.d)

Introduzindo-se o coeficiente K c , tem-se:

M

d

b

w

d ²

K

c

Sendo:

1

K

c

0,68.

x

.

f

cd

(1

0,4

x

)

(6.20)

(6.21)

(6.22)

(6.23)

Isolando adequadamente o coeficiente K c , chega-se a:

K

c

b

w

d ²

M

d

(6.24)

Vale ressaltar que, conforme pode-se observar na equação (6.23), K c depende da resistência do concreto à compressão (f cd ) e da posição da linha neutra, expressa pela variável

β x .

Obtém-se o coeficiente tabelado K s substituindo-se x por β x .d na equação (6.19), da seguinte maneira:

A

s

M

d

sd

.(10,4)

x

d

Sendo:

Ks

sd

(1

1

0,4

x

)

(6.25)

(6.26)

Deve-se observar que, K s depende da tensão na armadura tracionada (σ sd ) e da posição da linha neutra.

6.4.

Dimensionamento à flexão baseado nos pressupostos da NP EN 1992-1-1 (2010)

6.4.1.

Equações de equilíbrio, momento resistente e dimensionamento de armaduras

(seção retangular)

Exatamente da mesma maneira apresentada no item 6.3.1. acima, desenvolve-se o modelo para o cálculo do momento resistente da seção de concreto armado baseando-se nos pressupostos da NP EN 1992-1-1 (2010).

Admite-se então que, a situação última é atingida quando verifica-se uma das extensões últimas: (a) ε c =3,5‰ (deformação máxima de encurtamento do concreto); ou (b) ε s = ε ud (deformação máxima de alongamento nas armaduras ordinárias).

A Figura 6.9 apresenta o esquema idealizado de esforços que a seção está submetida e abaixo mostra o mesmo esquema, adotando-se, no entanto, uma aproximação retangular para o comportamento parábola-retângulo da distribuição da compressão do concreto.

da distribuição da compressão do concreto. Figura 6.9 – Resistências e deformações na seção de

Figura 6.9 Resistências e deformações na seção de concreto armado

Há de se reparar que, a única diferença entre o esquema apresentado na Figura 6.9 e o apresentado na Figura 6.7, é a tensão no concreto comprimido ser igual à resistência de cálculo à compressão do concreto (σ c =f cd ), conforme estabelecido na NP EN 1992-1-1 (2010).

Assim, para a determinação do momento resistente da seção, recorre-se aos seguintes

passos:

i) Admite-se que σ s =f yd (ε s ε yd ) as armaduras estão no patamar de escoamento (cedência);

ii) Determina-se a linha neutra (por meio do equilíbrio axial, F c =F s );

iii) Calcula-se o momento resistente, por meio do equilíbrio de momentos, através da

expressão:

MRd Asfyd(d 0,4x)

iv) Verifica-se a hipótese inicial (ε s ε yd ).

(6.27)

a. Se ε s ε yd a hipótese é válida;

b. Se ε s< ε yd trata-se de uma situação não desejável, uma vez que não se está sendo

feito o aproveitamento máximo da resistência do aço.

Ou ainda, para o caso do dimensionamento das armaduras, tem-se similarmente os seguintes passos:

i) Admite-se que σ s =f yd (ε s ε yd ) as armaduras estão no patamar de escoamento (cedência);

ii) Determina-se a linha neutra (por meio do equilíbrio de momentos);

iii) Calcula-se a área de armadura necessária, por meio do equilíbrio do equilíbrio axial,

através da expressão:

A

s

f

cd

.

b

.0,8

x

f

yd

(6.28)

iv)

Verifica-se a hipótese inicial (ε s ε yd ).

a. Se ε s ε yd a hipótese é válida;

b. Se ε s< ε yd trata-se de uma situação não desejável, uma vez que não se está sendo feito o aproveitamento máximo da resistência do aço.

6.4.2.

Cálculo com recurso a tabelas

A análise de seção a seção através das equações de equilíbrio por vezes é um processo moroso, pelo que na prática corrente de projetos recorre-se a programas de cálculo automático ou à tabelas de cálculo. Assim, a utilização de tabelas com parâmetros adimensionais e que são dotadas de grande praticidade, faz-se cada vez mais presente.

Os três principais parâmetros adimensionais são:

i) Momento fletor reduzido

M

b d

.

².

fcd

ii) Porcentagem mecânica de armadura

b A d f f

s

1.

yd

.

.

cd

iii) Posição da linha neutra adimensional

k

x

d

(6.29)

(6.30)

(6.31)

Dessa maneira, a utilização de tabelas é conveniente para: (a) determinar o momento resistente da seção, conhecendo-se as armaduras; e (b) determinar as armaduras, dado um momento solicitante.

6.5. Dimensionamento à flexão – Seção em “T” - baseado nos pressupostos da NBR

6118 (2003)

Para o dimensionamento à flexão de uma seção em “T”, deve-se primeiramente verificar o comportamento da seção através da comparação entre a altura comprimida, y (0,8x) e a espessura do flange (h f ). Caso y seja menor ou igual à espessura do flange (h f ), tem-se uma seção retangular com armadura simples, devendo ser calculada com uma largura b f . Caso contrário, ou seja, se y for superior à h f , a seção deve ser calculada como seção verdadeira.

A Figura 6.10 ilustra a situação em que tem uma seção em “T” falsa, ou seja, calcula-se como retangular.

em “T” falsa, ou seja, calcula -se como retangular. Figura 6.10 – Seção em “T” falsa

Figura 6.10 – Seção em “T” falsa

Já no caso de ter que se proceder com o cálculo de uma seção em “T” verdadeira, é conveniente dividir em duas regiões, conforme vê-se na Figura 6.11. Assim, o momento resistente da seção e a área de ao total correspondem à soma da contribuição de cada seção fictícia apresentada.

da contribuição de cada seção fictícia apresentada. Figura 6.11 – Seção em “T” verdadei ra Seguindo

Figura 6.11 – Seção em “T” verdadeira

Seguindo o raciocínio, resulta que:

MRd MRd1 MRd 2 0,85fcd(bf bw)hf .(d hf /2) 0,68fcdbwx(d 0,4x)

Onde:

A

s

A

s

1

A

s

2

z1 z2   d d   hf 0,4x /2

M

Rd 1

z

1

s

1

M

Rd 2

z

2

s

2

(6.32)

(6.33)

(6.34)

(6.35)

6.6.

Dimensionamento à flexão – Seção em “T” - baseado nos pressupostos da NP EN

1992-1-1 (2010)

Conforme descrito, caso 0,8xh f , tem-se o comportamento de uma seção retangular, pelo que corresponde a um dos casos (vide Figura 6.12):

i) Linha neutra no banzo (flange), caso este esteja em compressão seção retangular de largura b ef ;

compressão – seção retangular de largura b e f ; Figura 6.12 – Seção retangular de

Figura 6.12 Seção retangular de largura b ef

ii) Linha neutra na alma e o banzo tracionado seção retangular de largura b w ;

tracionado – seção retangular de largura b w ; Figura 6.13 – Seção retangular de largura

Figura 6.13 Seção retangular de largura b w

Já caso a seção se comporte como uma seção “T” verdadeira, recorre-se à divisão de regiões de concreto comprimido, conforme Figura 6.14.

de regiões de concreto comprimido, conforme Figura 6.14. Figura 6.14 – Regiões da seção “T” verdadeira

Figura 6.14 – Regiões da seção “T” verdadeira

Assim, observando-se a contribuição de cada região demarcada, resulta em:

MRd MRd1 MRd 2 fcd.hf .bef (d hf /2) (0,8x hf )bwfcd[d (0,4x hf /2)]

Onde:

A

s

A

s 1

A

s

2

f

cd

.

h

f

.

b

ef

(0,8

x

h

f

)

b f

w cd

. f

yd

d

x

cu

2

.

x

yd

1

(6.36)

(6.37)

(6.38)

7. DIMENSIONAMENTO AO CISALHAMENTO

7.1. Hipóteses Básicas NBR 6118 (2003)

7.2. Modelo Simplificado para o comportamento da viga (treliça básica de Mörsch)

O quadro de fissuração ocorrente na viga devido à ruptura, pressupõe um modelo em forma de treliça para a representação de seu esquema resistente, conforme vê-se na Figura 7.1.

de seu esquema resistente, conforme vê-se na Figura 7.1. Figura 7.1 – Comparação entre a viga

Figura 7.1 Comparação entre a viga e o modelo idealizado

Esta treliça é constituída por banzos paralelos ao eixo da viga (banzo superior comprimido de concreto e banzo inferior tracionado correspondente à armadura longitudinal de flexão), diagonais comprimidas de concreto inclinadas de 45º (bielas diagonais) e montantes correspondentes à armadura transversal. Tal armadura é normalmente constituída de estribos distanciados com espaçamento s e posicionados ao longo da viga, perpendicularmente ao seu eixo. O carregamento atuante na viga é substituído por forças concentradas equivalentes aplicadas aos nós da treliça.

Em síntese, a linha inferior sobre os apoios representa o banzo tracionado que é simulado na viga de concreto pela armadura longitudinal de tração, a linha superior representa o banzo comprimido onde atuam as forças compressivas, o qual é representado na viga de

concreto pela compressão do concreto. Já nos segmentos verticais, na analogia da treliça clássica de Mörsch agem forças de tração absorvidas pela armadura transversal (estribos). As linhas diagonais comprimidas, na analogia de Mörsch representam as bielas comprimidas de concreto após o fendilhamento no Estádio II. Assim, o fendilhamento provocado pelas forças cisalhantes culmina no efeito de treliça. No caso em que, devido o acréscimo de carregamento, as armaduras de cisalhamento atingirem sua capacidade de resistência máxima, ocorrerá sua ruptura por tração.

Os esforços atuantes na treliça múltipla podem ser determinados por meio de uma treliça dotada de maior simplicidade, isostática, denominada treliça clássica ou treliça de Mörsch, ilustrada na Figura 7.2. Cada montante nesta treliça representa (z/s) estribos da treliça original, semelhantemente ocorre com a diagonal comprimida.

original, semelhantemente ocorre com a diagonal comprimida. Cada montante Figura 7.2 – Treliça de Mörsch nesta

Cada

montante

Figura 7.2 Treliça de Mörsch

nesta

treliça

representa

(z/s)

estribos

da

treliça

original,

semelhantemente ocorre com a diagonal comprimida.

Em uma viga de concreto armado submetida à flexão simples, diversos tipos de ruína podem ocorrer, dentre eles destaca-se: ruptura por esmagamento da biela, ruptura por falha de ancoragem no apoio, ruptura da armadura transversal, ruptura do banzo comprimido (devido ao cisalhamento), ruína por flexão e ruína por flexão localizada da armadura longitudinal.

7.2.1. Modelos de Cálculo

A normatização apropriada, NBR 6118:2003, item 17.4.1, estabelece dois modelos de cálculo, os quais se baseiam na analogia com modelo de treliça de banzos paralelos, associado a mecanismos resistentes complementares, representados pela parcela adicional V c . Abaixo discrimina-se as considerações de cada modelo.

Modelo I (item 17.4.2.2)

- Bielas com inclinação θ=45º;

- Constância de V c , independendo de V Sd (força cortante de cálculo).

Modelo II (item 17.4.2.3)

- Bielas com inclinação θ variando de 30º a 45º;

- Ocorre diminuição de V c ao passo que V Sd aumenta.

A existência de condicionantes, condições de carregamento, nível de confiabilidade na segurança e economia de armadura, podem nortear o projetista aquando for optar por um modelo ou outro.

7.2.2. Armadura transversal mínima

Para ambos os modelos a NBR 6118 (2003), por meio do item 17.4.1.1.1 prescreve que

a armadura transversal mínima a ser empregue em elementos lineares sujeitos a força cortante, constituída por estribos, deve apresentar taxa geométrica, sw :

sw

A

sw

sen

.

b

w

.

s

0,2

f

ctm

f

ywk

(7.1)

Sendo f ywk a resistência ao escoamento do aço na armadura transversal, limitada a 500 MPa. Os demais termos tem o mesmo significado já referido.

7.3. Critérios de dimensionamento preconizados pela NBR 6118 (2003)

Conforme preconização da NBR 6118 (2003), faz-se a verificação do estado limite último de elementos estruturais fletidos considerando que a resistência do elemento, em certa seção transversal, é satisfatória, quando verificadas concomitantemente as condições a seguir:

Onde:

VSd VSd VRd VRd3 2 Vc Vsw

(7.2)

(7.3)

V

Sd é a força cortante solicitante de cálculo na seção;

V

Rd2 é a força cortante resistente de cálculo, relativa à ruína das diagonais comprimidas de

concreto;

V

Rd3 é a força cortante resistente de cálculo, relativa à ruína por tração diagonal;

V

c é a parcela de força cortante absorvida por mecanismos complementares ao de treliça;

V

sw é a parcela absorvida pela armadura transversal.

7.3.1. Modelo de cálculo I (θ=45º)

7.3.1.1. Verificação da compressão diagonal do concreto

O valor do esforço cortante referente à ruptura por esmagamento das diagonais comprimidas é dado pela expressão:

VRd 2 0,27v2 fcdbwd

(7.4)

Onde:

v2 é um coeficiente adimensional, que representa a fragilidade do concreto, sendo expresso por: v2 (1fck /250) , sendo f ck expresso em MPa; e

f cd é a resistência de cálculo à compressão do concreto, expressa em MPa.

Observa-se que v2 reduz-se com o aumento da resistência característica à compressão do concreto. É de se referir também que, VRd 2 independe do ângulo de inclinação da armadura transversal.

7.3.1.2. Cálculo da armadura transversal

Contribuição dos mecanismos complementares

A determinação de V c , força cortante absorvida por mecanismos complementares da treliça, é determinada conforme o tipo de solicitação a qual a seção esteja submetida, das seguintes maneiras:

Para o caso de elementos estruturais tracionados quando a linha neutra se situa fora da seção, tem-se V c =0;

No caso da flexão simples e na flexo-compressão com a linha neutra cortando a seção, tem-se: V c =V c0 ; e

Em se tratando de flexo-compressão, segue-se: Vc Vc0(1M 0 / MSd, máx) 2Vc0 .

Onde:

Vc0 0,6 fctdbwd

(7.5)

Sendo f ctd a resistência à tração direta de cálculo do concreto, expressa em MPa. Na ausência de ensaios, permite-se que seu cálculo seja procedido por meio das fórmulas do item 8.2.5 da NBR 6118 (2003):

Onde:

fctm 0,3fck

2 3
2
3

, f ck em MPa;

fctk, inf 0,7 fctm

f

ctd

f ctk , inf

c

(7.6)

(7.7)

(7.8)

f ctm é a resistência média à tração direta do concreto; f ctk,inf é o quantil inferior da resistência do concreto à tração; c é o coeficiente de ponderação da resistência do concreto no estado limite último em

combinações normais, conforme Tabela 12.2 da NBR 6118 (2003).

Esforço cortante absorvido pela armadura

A força cortante resistente de cálculo é resultante das duas parcelas apresentadas na

expressão abaixo:

VRd3 Vc Vsw

(7.9)

A força resistida pela armadura transversal é dada pela expressão:

Onde:

V

sw

  A s 0,9   d . f

 

sw

ywd

(

sen

cos)

(7.10)

Asw é a área da seção transversal dos estribos, em cm²; s é o espaçamento dos estribos, em cm, medido segundo o eixo longitudinal do elemento estrutural; b w é a menor largura da seção, compreendida ao longo da altura útil d; f ywd é a tensão na armadura transversal ordinária (passiva), limitada ao valor de f yd no caso de estribos e a 70% desse valor no caso de barras dobradas, não se tomando, para ambos os casos, valores superiores a 435 MPa; é o ângulo de inclinação da armadura transversal em relação ao eixo longitudinal do elemento estrutural, variando no intervalo 45º90º .

7.3.2. Modelo de cálculo II (30º≤θ≤45º)

7.3.2.1. Verificação da compressão diagonal do concreto

O valor do esforço cortante referente à ruptura por esmagamento das diagonais

comprimidas é dado pela expressão:

VRd 2 0,54v2 fcdbwd.sen²(cotgcotg)

(7.11)

onde cada símbolo tem o mesmo significado habitual já referido.

É de ressaltar que nesse modelo, VRd 2 depende tanto do ângulo de inclinação da

armadura transversal quanto do ângulo de inclinação das diagonais de compressão da treliça.

7.3.2.2. Cálculo da armadura transversal

Contribuição dos mecanismos complementares

A determinação de V c , força cortante absorvida por mecanismos complementares da

treliça, é determinada conforme o tipo de solicitação a qual a seção esteja submetida, das seguintes maneiras:

Para o caso de elementos estruturais tracionados quando a linha neutra se situa fora da seção, tem-se V c =0;

No caso da flexão simples e na flexo-tração com a linha neutra cortando a seção, tem-

se: V c =V c1 ; e

Em se tratando de flexo-compressão, segue-se: Vc Vc1(1M 0 / MSd, máx) 2Vc1 .

Onde:

i)

Se V Sd ≤V c0 , então V c1 =V c0 ;

ii)

Se V Sd =V Rd2 , então V c1 =0;

iii) Se são valores intermediários, então procede-se à interpolação linear.

Esforço cortante absorvido pela armadura

A força cortante resistente de cálculo é resultante das duas parcelas apresentadas na

expressão abaixo:

VRd3 Vc Vsw

(7.12)

A força resistida pela armadura transversal é dada pela expressão:

V

sw

   A

sw

0,9 d f

.

s

ywd

(cot

g

cot

gsen

)

(7.13)

onde os símbolos tem o significado habitual já referido.

7.3.3. Armadura de ligação mesa-alma

O item 18.3.7 da NBR 6118 (2003) determina que os planos de ligação entre mesas e

almas de vigas devem ser alvo de verificação aos efeitos tangenciais ocasionados pelas variações de tensões normais ao longo do comprimento da viga, tanto sob o aspecto de resistência do concreto, quanto das armaduras necessárias para resistir às trações decorrentes desses efeitos. Estabelece-se ainda que a seção transversal mínima dessa armadura deve ser de

1,5cm²/m.

Embora a referida norma não preveja expressões de cálculo, com frequência, recorre-se aos esquemas a seguir para realizar as verificações.

7.3.3.1. Mesa comprimida

O modelo de cálculo para o caso da mesa comprimida é apresentado na Figura 7.3.

Figura 7.3 – Ligação mesa-alma: mesa comprimida Assim, mediante o equilíbrio da seção transversal e

Figura 7.3 Ligação mesa-alma: mesa comprimida

Assim, mediante o equilíbrio da seção transversal e desenvolvimento do modelo, chega- se às seguintes expressões:

Onde:

f

0

V fd

h

f

0,9

d

V fd

b '

V d

b f

f

f 0

f

ywd

A

sm

h

f

(7.14)

(7.15)

(7.16)

f 0 são as tensões de cisalhamento na aba; f é a taxa geométrica;

Asm é a área de armadura transversal da aba por unidade de comprimento. Os demais símbolos tem o significado habitual.

Deve-se ainda realizar as verificações:

Compressão da biela diagonal de concreto:

Vfd 0,27v2 fcdhfd

Taxa mínima de armadura transversal:

f

0,2

f ctm

f ywk

7.3.3.2. Mesa tracionada

(7.17)

(7.18)

Para o caso da mesa tracionada, tem-se o modelo de cálculo apresentado na Figura 7.4.

Figura 7.4 – Ligação mesa-alma: mesa tracionada Assim, analogamente ao desenvolvido para mesa comprimida, obtém-se

Figura 7.4 Ligação mesa-alma: mesa tracionada

Assim, analogamente ao desenvolvido para mesa comprimida, obtém-se as expressões 7.14 e 7.16, já apresentadas, além da equação a seguir.

Onde:

V

fd

A

sf

A

s

V d

Asf é a área de armadura de flexão contida na aba;

As é a área total de armadura de flexão. Os demais símbolos tem o significado habitual.

Deve-se ainda realizar as verificações:

Compressão da biela diagonal de concreto:

Vfd 0,27v2 fcdhfd

Taxa mínima de armadura transversal:

f

0,2

f ctm

f ywk

(7.19)

(7.17)

(7.18)

7.4. Hipóteses básicas NP EN 1992-1-1 (2010)

A NP EN 1992-1-1 também utiliza a treliça generalizada de Mörsch no

dimensionamento ao esforço cortante em vigas de concreto armado, conforme vê-se na Figura

7.5.

Figura 7.5 – Modelo de treliça EN 1992-1-1 As notações da Figura 7.5 são: α

Figura 7.5 Modelo de treliça EN 1992-1-1

As notações da Figura 7.5 são:

α

ângulo formado pela armadura de cisalhamento com o eixo da viga (medido positivo);

θ

ângulo formado pela biela comprimida de concreto com o eixo da viga;

F

td valor de cálculo da força de tração na armadura longitudinal;

F

cd valor de cálculo da força de compressão no concreto na direção do eixo longitudinal do

elemento;

b w menor largura da seção entre os banzos tracionado e comprimido;

z braço do binário das forças anteriores, para um elemento de altura constante, correspondente ao momento fletor no elemento considerado. Geralmente utiliza-se o valor aproximado z=0,9d.

Para o caso de elementos para os quais é requerida armadura de cisalhamento tem-se o modelo de cálculo apresentado na sequência.

7.4.1. Modelo de cálculo

O Eurocódigo 2 apresenta apenas uma metodologia de cálculo, sendo definido no item 6.2.3(2) a limitação do ângulo θ conforme relação: 1cotg2,5 . O que permite ao calculista

a escolha do ângulo de inclinação das bielas comprimidas (θ) entre 21,8º e 45º.

A

inclinação

da

armadura

transversal

compreendida entre 45º e 90º.

(α)

também

é

variável,

podendo

estar

A NP EN 1992-1-1 prevê verificações de segurança tanto para o caso de armaduras de esforço cortante constituídas por estribos verticais (α=90º) quanto para estribos inclinados

(45º≤α≤90º).

7.4.1.1. Verificações para estribos verticais

Para o caso de estribos verticais, o item 6.2.3(3) da NP EN 1992-1-1, prevê as seguintes

verificações:

Resistência das armaduras

O valor do esforço cortante resistente referente à ruptura por escoamento da armadura

transversal, V Rd,s , é dado é regido pela expressão:

V

Rd , s

Em que:

A sw

s

zf

ywd

cot

g

(7.20)

Asw área da secção transversal das armaduras de esforço cortante; s espaçamento dos estribos; fywd valor de cálculo da tensão de escoamento das armaduras de esforço cortante; ângulo formado pela biela comprimida de concreto com o eixo da viga.

Resistência das bielas comprimidas

O valor do esforço cortante resistente referente à ruptura por esmagamento das bielas é

dado é regido pela expressão:

Em que:

V

Rd , max

cw

b z

w

1

f

cd

cot

g

tan

(7.21)

cw coeficiente que tem em consideração o estado de tensão no banzo comprimido, sendo igual à unidade no caso de estruturas não protendidas; 1 coeficiente de redução da resistência do concreto fendilhado por esforço transverso, sendo igual à , ou ainda, se o valor de cálculo da tensão da armadura transversal for inferior a 80% do valor característico da tensão de escoamento f yk , então, o 1 pode assumir os seguintes valores:

1 =0,6 para f ck ≤60 MPa; 1 =0,9-f ck /200 > 0,5 para f ck ≥60 MPa; Os demais termos tem o significado habitual já apresentado.

7.4.1.1.1. Área efetiva máxima

Ainda o item 6.2.3(3) estabelece a área efetiva máxima da seção transversal das armaduras transversais, A sw,max , conforme equação a seguir:

A

sw

, max

f

ywd

1

b s

w

  f

2

cw

1

cd

Onde a simbologia tem a significação habitual.

7.4.1.2. Verificações para estribos inclinados

(7.22)

Já em se tratando de estribos inclinados, o item 6.2.3(4) da NP EN 1992-1-1, prevê as

seguintes verificações:

Resistência das armaduras

O valor do esforço cortante resistente referente à ruptura por escoamento da armadura

transversal, V Rd,s , é dado é regido pela expressão:

V

Rd , s

A sw

s

zf

ywd

(cot

g

cot

)

gsen

(7.23)

Sendo α é o ângulo do estribo; os demais símbolos tem o significado já referido.

Resistência das bielas comprimidas

O valor do esforço cortante resistente referente à ruptura por esmagamento das bielas é

dado é regido pela expressão:

V

Rd , max

cw