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flor do pântano

patrícia potter

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flor do pântano

(swampfire)

patrícia potter

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resumo:

um campo de batalha não era lugar para jovens ricas e mimadas. mas a dor e a revolta de perder o noivo instigaram em samantha chatam à vontade de lutar contra o próprio pai, lutar par vingar a morte do homem amado. determinada, vestiu-se de rapaz e juntou-se ao grupo rebelde que tentava libertar a carolina do sul do julgo dos ingleses. a cada dia crescia a admiração do major connor o'neil pelo "garoto" corajoso que não hesitava em arriscar a vida em missões perigosas. apegava-se ao jovem de modos estranhos sem suspeitar que sob os trajes rudes havia uma bela mulher, que se debatia no drama de não poder revelar sua identidade. principalmente a ele, que odiava a todos da família chatam, e a quem passou a amar desesperadamente .

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nota da autora

patrícia potter

a batalha de eutaw springs foi a maior de todas no conflito nas carolinas.

no norte, george washington derrotou cornwallis um mês depois, em yorktown, e a guerra, para todos os efeitos, estava terminada. yorktown foi à última batalha verdadeira, embora ainda acontecessem alguns confrontos de menor importância entre os ingleses e os espanhóis e franceses que haviam ido em socorro da jovem nação americana. charleston foi um dos últimos redutos britânicos a se renderem e sua queda deu-se no começo de

1782.

francis marion, um solteirão convicto, retornou à sua fazenda incendiada pelos ingleses e casou-se com uma prima distante, esther vídeau. muitos relatos sobre marion são falhos e contraditórios, mas todos concordam ao revelar que ele era tanto tímido como audacioso, duro e sentimental, esperto e também religioso. seu bando de rebeldes recebia rapazes de até catorze anos de idade e marion era conhecido pelo cuidado que dedicava aos jovens soldados. embora fosse um mestre da guerra, ele a desprezava, não hesitando em desligar de seu regimento qualquer soldado que cometesse atrocidades contra uma família tory ou um militar inimigo, jamais aceitando desculpas por atos de crueldade. muitas das aventuras narradas neste livro realmente aconteceram, como, por exemplo, a captura do general o'mara, o incêndio do forte motte, o ataque a georgetown e várias outras. algumas pessoas também existiram. peter horry e billy james foram companheiros de marion na vida real. para finalizar, devo dizer que procurei ao máximo ser fiel nas descrições do caráter de francis marion e dos costumes da época.

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prÓlogo

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samantha despertou de um sono inquieto, ouvindo o som de cascos batendo no chão crestado pelo calor intenso daquele verão. durante a noite debatera-se entre pesadelos causados pela preocupação e pelo medo, acordando várias vezes, desejando e ao mesmo tempo temendo que amanhecesse. afastando as sensações desagradáveis experimentadas na escuridão, deixou que cada parte de seu corpo fosse devagar recebendo energia. sorriu, pensando que aquele seria o dia de seu casamento. saiu da cama e correu para a janela, abrindo as cortinas verdes. tudo o que acontecesse nas horas seguintes teria importância decisiva: as condições de tempo, as entradas e saídas do pai, as tarefas dos escravos. escancarou a janela, deliciando-se por um momento com o odor de jasmim e de magnólia misturado à forte fragrância dos loureiros. o perfume da natureza parecia celebrar aquele recanto estuante de vida da carolina do sul. uma carruagem desaparecia numa curva da estrada poeirenta e samantha admirou-se ao ver que o pai saía tão cedo, imaginando o que o fizera contrariar seus hábitos. os primeiros raios de luz apenas tingiam o horizonte de rosa e dourado, prenunciando o nascer do sol. aquela aurora colorida era a primeira de sua nova vida, que compartilharia com brendan. respirou profundamente, enchendo os pulmões com o ar perfumado e ainda fresco. aos poucos, o dia se transformaria numa fornalha, mas nem aquilo a perturbaria quando estivesse junto de brendan, fugindo com ele. o coração da moça apertou-se de medo, mas aquela sensação desapareceu ao ser suplantada pela felicidade que a invadiu de repente. não devia pensar nas conseqüências do que faria, quando estava a um passo de realizar seu sonho de amor. seu pai ficaria furioso, certamente, mas teria de aceitar o casamento. não teria outra escolha. e, afinal, a união dos dois jovens poderia acabar de uma vez por todas com a inimizade de duas famílias. portanto, o ato de rebeldia acabaria por tornar-se benéfico para todos. os pensamentos de otimismo marcante conseguiram acalmá-la. tudo daria certo. iria ao encontro de brendan no lugar combinado e os dois viajariam para charleston, onde um amigo que era ministro os casaria. outro amigo lhes oferecera a casa que possuía na cidade por um mês: tempo suficiente para que a situação se definisse. o que aconteceria depois ia depender das atitudes de suas famílias, mas os noivos estavam preparados para enfrentar a vida sozinhos, se fosse necessário. encontrariam forças no amor que os

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unia para vencer todos os obstáculos. "para o inferno com a política", ela pensou. "que se danem todos os tories

e os whigs que dividiram a paróquia em duas e cavaram o abismo de ódio entre meu pai e os o'neill”. percebendo que pensamentos amargos ameaçavam anuviar sua paz de

espírito, ela os espantou. política e desavenças nada tinham a ver com ela e brendan, cujo amor florescera no decorrer dos anos, desde que eram crianças. afastou-se da janela e colocou-se na frente do grande espelho que pendia de uma parede, olhando-se criticamente. achava seu rosto pequeno demais e os lábios muito carnudos, mas gostava dos olhos imensos, de um tom escuro de azul. gostava também dos longos cabelos negros que brilhavam como o rico mogno que decorava todos os cômodos da casa-grande de chatham oaks.

o corpo era esguio, cheio de curvas, e o rosto refletia intensa vivacidade. brendan a chamava de "alegre fada dos bosques", mas samantha preferiria

ser chamada de "minha bela". de qualquer forma, fada ou bela, naquela noite já seria a sra. brendan 0'neill. colocando um ponto final nos devaneios, rapidamente trocou a camisola por um vestido azul e amarrou os cabelos com uma fita da mesma cor. depois de uma ligeira toalete, desceu a escada correndo, ansiosa por saber onde o pai fora tão cedo e a que horas pretendia voltar. talvez ficasse em monck's corner até a noite. pela barulheira de cascos com que fora despertada, ele fora acompanhado de guardas, porque desde o início da guerra o distrito de williamsburg tornara-se um lugar perigoso, tanto para os homens do partido tory como para os do partido whig. foi para a cozinha, seu lugar predileto na parte da manhã. a velha cozinheira, maudie, praticamente a criara e era sua principal fonte de carinho e também de informação. ao aproximar-se da porta, parou admirada com o tom de aflição que percebeu na voz da escrava.

— o que vou dizê à pobre menina?

angel, a filha de maudie, também não parecia muito tranqüila quando

respondeu à pergunta da mãe.

— nada. o sinhô disse que vai bate em quem fala quarqué coisa.

— o sinhô brendan é tudo na vida da menina samantha. ela precisa sabe.

— não sou eu que vou conta. intrigada, samantha entrou na cozinha abrindo a porta de repente.

— contar o quê, maudie?

o silêncio caiu na cozinha e as duas negras baixaram os olhos.

— maudie — insistiu samantha —, o que está acontecendo? o que é que eu

preciso saber? a velha escrava desmanchou-se em lágrimas e tomou uma das mãos de

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samantha. — seu pai sabe que a menina e o sinhô brendan

— interrompeu-se para

engolir o bolo que se formara na garganta. — os dois vão ter um duelo agora

de manhã. um grito involuntário, carregado da mais profunda dor, escapou dos sábios de samantha.

— não! papai o matará! brendan não tem a habilidade dele!

antes que qualquer das duas escravas pudesse abrir a boca para dizer alguma coisa, samantha saiu correndo pela porta da cozinha, indo em direção às cocheiras. rapidamente encilhou sua égua e subiu na cerca para montar. sundance, sentindo a inquietação da dona, não precisou de incentivo para lançar-se a galope.

a moça conhecia muito bem o local usado para duelos. era uma clareira

adorável, cercada por gigantescos ciprestes, a cerca de oito quilômetros da fazenda do pai. ela sempre considerara obsceno um lugar tão lindo ser destinado a receber inimigos que se enfrentavam em disputas que inevitavelmente terminavam com uma morte. sempre que passava pelo lugar era assaltada por um estremecimento de horror. todavia, dirigia-se para lá, correndo em desespero. inclinou-se sobre o pescoço da égua e incitou-a a galopar com mais rapidez. precisava impedir o pai de bater-se com brendan. o amor dos dois não podia terminar daquela maneira cruel e sangrenta. ela não tomava conhecimento dos galhos que lhe arranhavam as pernas e rasgavam a saia do vestido, assim como nem percebera que a fita escorregara dos cabelos, que esvoaçavam livremente a seu redor.

— mais rápido, sundance, por favor. você precisa ir mais rápido!

não demorou muito a avistar a clareira, tomada de esperança. chegaria a

tempo de interromper o duelo e evitar que seu pai assassinasse o homem que naquele dia ia tornar-se seu marido.

o barulho de tiros de pistola quebrou a quietude da manhã e quando

samantha desmontou, percebeu o estranho silêncio que caíra sobre a clareira. nem os pássaros chilreavam mais e ela não ouviu o farfalhar das folhas agitadas pelos saltos dos esquilos que infestavam os bosques da região. como se estivesse vivendo um pesadelo, aproximou-se da figura estendida no chão. os cabelos dourados de brendan brilhavam aos primeiros raios do sol e seus olhos, azuis como os dela, estavam abertos, fixos no céu. a camisa de linho branco ostentava uma mancha vermelha que se alastrava

pavorosamente. ela colocou a cabeça dele no colo, abraçando-a com desespero.

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— brendan — murmurou. — brendan, não me abandone. eu te amo! não me

deixe sozinha, por favor, querido. não sentia as lágrimas que lhe banhavam o rosto, nem via o ameaçador

vulto do pai. também não percebeu a aproximação do cavaleiro que chegara ao local alguns segundos depois dela. o homem desceu do cavalo e rispidamente agarrou-a pelo braço, fazendo-

a levantar-se e empurrando-a para longe. ajoelhando-se ao lado do morto, ele gentilmente fechou-lhe os olhos e depois fitou samantha com fúria e sofrimento profundo estampados no rosto pálido.

— está contente com o que fez? foi você quem o matou! você o matou pela

mão de seu pai! depois, vagarosamente, connor o'neill ergueu o corpo do irmão e atravessou-o na sela do cavalo. montando também, segurando o cadáver com uma das mãos, lentamente desapareceu no caminho que saía do bosque. samantha deixou-se cair ao lado da poça de sangue que a terra começava

a absorver, soluçando, sufocada por uma dor insuportável.

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capÍtulo i

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completamente desanimada, samantha permanecia sentada perto da

janela de seu quarto trancado, olhando para as árvores que pareciam chorar grossas lágrimas de musco cinzento-prateado. os velhos carvalhos tinham uma aparência lúgubre e ela imaginou como um dia pudera achá-los encantadores, como algo mágico que alimentava sua fantasia. como tudo a seu redor, eram tristes, monótonos e decadentes. o céu carrancudo, coberto de nuvens escuras, trazia à sua lembrança os olhos cinzentos e angustiados de connor 0'neill e a cruel acusação que ele lhe lançara ao rosto naquele dia terrível, um ano atrás.

— oh, brendan — ela falou baixinho na solidão que a rodeava como pesada

mortalha. — preciso de você, meu amor. debruçou-se na janela e suspirou. conservava a mesma beleza, mas no íntimo sentia-se vazia, como uma boneca. a magreza fizera desaparecer as curvas suaves, deixando-a com o corpo reto, muito diferente do de uma moça de dezenove anos, em pleno esplendor da juventude. os longos cabelos negros caíam em desalinho ao redor do rosto miúdo e pálido. o fulgor que sempre brilhara nos olhos azuis dera lugar a uma expressão melancólica e torturada. naquele dia tivera outra briga violenta com o pai, o que resultara em nova reclusão no quarto. era uma prisioneira em seu próprio lar. desde a manhã do duelo, quando ele a arrastara do local da morte de brendan, as discussões se tornavam cada vez piores.

naquele dia de dolorosa lembrança, quando chegaram em casa, erguera as mãos manchadas de sangue, para que o pai as visse, quase em estado de choque, trêmula e soluçante. — eu odeio você, pai. e o odiarei até o dia da minha morte — declarara com voz fria. o rosto do homem tingira-se de vermelho, e erguendo uma das mãos

pesadas, esbofeteara-a com tal força que a moça caíra ao chão. não desviara os olhos azuis do rosto enfurecido e seu olhar dolorido era frio e acusador. incapaz de continuar a encará-la, robert chatham virara as costas.

— eu a avisei, samantha. disse para ficar longe daquele imundo rebelde

irlandês. agora você destruiu sua reputação e pode perder a esperança de conseguir um bom casamento. tudo foi culpa sua, não minha.

não podia ser culpada de nada. ela e brendan haviam se amado com fervor ingênuo e apenas desejado estar juntos. ela deixara-se ficar no chão,

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escondendo o rosto entre as mãos, sentindo que sua vida se desfazia em mil pedaços.

a ira de robert chatham diminuíra ligeiramente, mas jamais a perdoaria por haver destruído seus sonhos de uma aliança vantajosa através do casamento da filha com um homem próspero e digno de confiança. uma reputação manchada nunca readquiria a pureza.

— vá para seu quarto — ele ordenara com aspereza. — e fique lá até aprender a respeitar seu pai. respeitar e obedecer.

— respeito! — ela cuspira a palavra. — nunca!

levantara-se do chão e saíra da sala olhando para o vestido que o sangue de brendan enodoara. só ao chegar ao quarto abandonara-se completamente

à dor, jogando-se na cama e gritando com a boca apertada no travesseiro. permanecera reclusa durante três semanas, sobrevivendo apenas a pão e água, conforme as ordens do pai que desejava obrigá-la a pedir perdão e a concordar em obedecer-lhe cegamente. maudie às vezes arriscava-se a

mandar alguma guloseima às escondidas, mas samantha nem as tocava. naqueles dias de luto e sofrimento, a comida não a atraía, servindo apenas para não deixá-la morrer de fome. até pensara em recusar qualquer alimento, mas o instinto de sobrevivência derrotara seu propósito. esmigalhar o pão entre os dedos e dar o farelo aos passarinhos tornara- se um exercício habitual, que a impedia de enlouquecer pensando demais no que acontecera.

o castigo terminara quando o pai vira como ela estava emagrecendo.

robert assustara-se com a aparência doentia e o silêncio teimoso da filha e ordenara que ela descesse para as refeições. ela obedecera, mas os momentos que passavam juntos haviam sido torturantes. durante os meses seguintes, acontecera uma espécie de trégua. samantha respondia o que lhe perguntavam e só. era cortês com os convidados do pai, mas nunca amigável. muitos afastavam-se dela, repelidos pela atitude distante e gelada, apesar da beleza de samantha ter aumentado, sua aparência tornando-se quase etérea.

a casa era cada vez mais visitada por oficiais britânicos e pelos amigos

tories de robert chatham. na guerra pela independência do novo país, os estados unidos da américa, charleston caíra no começo daquele ano de 1782

e os ingleses enchiam williamsburg, cometendo violências contra aqueles que

não se juntavam a eles na luta. samantha, ao recebê-los ao lado do pai, desprezava-os em silêncio, mantendo uma atitude de mera polidez. agindo daquela forma conseguira manter qualquer possível pretendente a distância, até que o coronel william foxworth apareceu em cena. ela passava por uma porta, quando ouviu alguém com sotaque inglês falando com o pai. ia continuar seu caminho, mas parou ao ouvir o nome da

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família o'neill.

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— o senhor será generosamente recompensado por esta informação — o

inglês prometeu.

— eu quero que eles morram. os dois — robert chatham respondeu.

— serão enviados para um navio-prisão. muitos dos prisioneiros morrem

logo. e é o que acontecerá com esses dois se não concordarem em lutar do nosso lado.

— os o'neill? — o pai perguntou com espanto. — nunca! são obstinados,

como todos os irlandeses. não são leais para com o rei, nem reconhecem

qualquer autoridade. são uns baderneiros.

— sabe que tem direito a receber alguma propriedade em troca de suas

valiosas informações — o inglês comentou. houve um instante de silêncio.

— a fazenda deles? — robert sugeriu em voz baixa.

— e sua. queremos a carolina do sul nas mãos de ingleses leais à coroa,

como o senhor. samantha não pôde mais conter-se. abriu a porta de repente e encarou o pai.

— não tem mais nenhuma honra? — acusou-o, ignorando o homem vestido

de vermelho. — não se satisfez matando brendan? quer mais sangue em suas mãos, pai?

o rosto de robert chatham ficou lívido, enquanto ele olhava do rosto enfurecido da filha para o do estarrecido inglês.

— saia já daqui! conversarei com você mais tarde. saia, samantha! — gritou, fitando a moça com raiva mal contida.

— por favor, papai. não faça mais nada contra os 0'neill. já não errou bastante?

— você se esqueceu? eles mataram sua mãe! agora saia, antes que eu mande um escravo arrastá-la para fora.

a moça sabia que ele não hesitaria em cumprir a ameaça. virou-se bruscamente e saiu da sala, batendo a porta atrás de si.

robert voltou-se para o oficial e ia pedir desculpas quando notou um lampejo de interesse nos olhos frios.

— que moça adorável! apenas um pouco impulsiva demais.

— e nada obediente — o dono da casa disse, irritado. — minha filha é jovem demais e reage exageradamente a tudo.

— um dom valioso, se bem dirigido — o inglês ponderou com crescente

interesse. — está comprometida? robert chatham pensou rápido. positivamente o oficial estava interessado

em sua filha e era bem apresentável, além de bem situado na vida.

— não — respondeu. — não há ninguém na vida dela.

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— gostaria de poder visitá-la moça concordar, é claro.

se isso lhe for agradável, senhor. e se a

— naturalmente. será uma honra.

— e quanto a sua filha? vai aceitar me ver? ela parece simpatizar com a causa dos rebeldes.

samantha não tem nenhuma definição política, mas teve uma paixão infantil por um rebelde.

— e o que aconteceu com ele?

— está morto — robert respondeu, laconicamente. william foxworth

olhou-o com curiosidade, mas não fez mais perguntas. desejava tornar a ver

aquela garota voluntariosa e tentar fazê-la aproveitar o gênio forte de maneira mais produtiva. encantara-se com a beleza frágil.

— estarei preso ao dever nos próximos dias, mas, se permitir, virei visitar a srta. samantha quando estiver livre.

— sim, sim, tem minha aprovação. mudando de assunto, e os 0'neill?

— serão presos hoje à tarde.

— Ótimo — robert chatham disse com um sorriso mesquinho. — talvez

com o desaparecimento deles consigamos estabelecer a ordem por aqui.

logo depois, os dois homens se despediam. robert chatham subiu ao quarto da filha. ela estava lendo e nem ergueu os olhos do livro quando o pai se aproximou. aquela atitude displicente o irritou e ele arrancou-lhe o livro das mãos.

— a despeito de seus modos deselegantes e de sua conduta imperdoável,

o coronel william foxworth deseja visitá-la de vez em quando — robert

anunciou.

— eu não o receberei. não receberei nenhum invasor assassino.

— receberá, sim, ou

— ou, o quê? já fez o máximo de mal que podia me fazer, pai.

— aí é que você se engana.

ela sentiu um arrepio de medo subir-lhe pelo corpo. subitamente, soube

que o homem que chamava de pai seria capaz de qualquer coisa se fosse contrariado.

— você receberá o coronel — ele decidiu. – e o tratará com gentileza,

ouviu bem? samantha mordeu o lábio, frustrada.

— sim — murmurou, finalmente.

— vai ficar neste quarto durante três dias, por causa do atrevimento de

hoje. — balançou o livro no ar. — e sem nada que a distraia. quero que pense no modo como vem agindo e que se decida a mudar de atitude.

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aquilo acontecera dois dias antes. teria de suportar mais um antes de ser

libertada, antes de poder novamente cavalgar contra o vento, galopando com fúria para esquecer seus tormentos. samantha mexia-se inquietamente, enquanto o coronel william foxworth apresentava seu convite para o baile dos oficiais no sábado seguinte. passara a desprezar a pedante arrogância do homem e sua persistência em tentar cortejá-la, algo que a repugnava. jamais soubera olhar com simpatia para um assassino, um incendiário como aquele. se no começo o tratava com indiferença, com o correr do tempo chegara a vê-lo como a um inimigo. era um homem bonito, de maneira fria e impessoal e provavelmente estava acostumado a brincar com os corações das mulheres. o uniforme vermelho tinha corte perfeito e ajustava-se insinuantemente ao corpo bem talhado. os olhos azuis pareciam desbotados e tinham uma expressão gélida, em nada comparáveis com os olhos da cor do mar profundo de brendan. o que mais detestava, porém, era dos cabelos cuidadosamente empoados e amarrados na nuca com uma fita de cetim. outras moças com certeza o achariam atraente, mas samantha sentia apenas repulsa. ele assemelhava-se a uma serpente, enrodilhada, sempre pronta a atacar inimigos e inocentes da mesma forma.

— seu pai deseja que você vá ao baile — ele dizia. — acha que deve sair mais, ver novas pessoas.

samantha encarou-o, reconhecendo uma ameaça velada em suas palavras. a atrevida autoconfiança do coronel crescera incrivelmente no decorrer dos meses, certamente com o encorajamento de robert chatham. o oficial sabia que ela não aceitava com agrado suas atenções, pois ela mesma o dissera, explicando que o recebia apenas por temer as ameaças do pai, mas não desistia de atormentá-la.

— não tenho me sentido bem, coronel! — replicou friamente, procurando

vencer a náusea que a tomava. — minha companhia não seria agradável.

— sua companhia sempre me agradará, srta. samantha. sua beleza supre a falta de gentileza em relação à minha pessoa. ele estendeu a mão e tomou uma mecha dos cabelos negros entre os dedos.

— seus cabelos são lindos e me encantam. ela afastou a cabeça num gesto brusco.

— coronel foxworth, o senhor age com demasiada liberdade. e penso que

devo recusar seu generoso convite. não tenho condições de ir ao baile, doente. o sorriso era forçado e um lampejo de raiva passou pelos olhos claros.

— veremos, samantha. talvez esteja melhor amanhã. mandarei o médico do regimento vir aqui examiná-la.

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— isso não será necessário, coronel. estarei ótima na segunda-feira.

ele ergueu-se, pálido de raiva. teria apreciado uma recusa desafiadora, mas desacatá-lo daquela maneira já era ir longe demais. por um momento imaginou se ela valia tanto esforço, mas logo afastou o pensamento, pensando na fazenda e na riqueza do pai daquela jovem renitente. era filha

única e herdaria tudo, logicamente com o marido. ele era o terceiro filho de um nobre inglês e nada possuía além de um título sem valor. com a morte do pai, quem herdaria tudo seria seu irmão mais velho, portanto era importante que se casasse com uma moça rica. engolindo a ira, tomou a mão delicada que ela lhe oferecia em despedida e beijou-a. — voltarei amanhã para vê-la. talvez já esteja melhor.

— duvido — ela respondeu com sarcasmo. — henry o acompanhará até a

porta.

sem mais uma palavra, samantha tocou a sineta para chamar o escravo e saiu da sala, deixando o pretendente fumegando de raiva e frustração. irritada com o encontro indesejado, foi para o quarto e trocou o vestido de seda por um de algodão leve e fresco, de mangas ajustadas até os cotovelos que depois se abriam num largo babado arrematado por rendas de linho. iria cavalgar e esquecer o pretendente pertinaz e o sofrimento intolerável em que sua vida se transformara. esperou até ver o antipático william foxworth sair da fazenda. não desejava correr o risco de tornar a encontrá-lo e ter de explicar sua miraculosa recuperação. depois, correu para o estábulo e ficou olhando hector colocar os arreios em sundance. desejava poder montar, como quando era criança, sem sela,

apertando as pernas contra o corpo do animal, livre como uma índia, mas o pai proibira tal procedimento indecoroso e ameaçara chicotear hector se o jovem escravo se submetesse aos caprichos dela. quando a égua já estava pronta, samantha a acariciou e deu-lhe uma maçã, admirando a pelagem ouro-pálido que cintilava ao sol.

a mãe de sundance fora sua primeira montaria de tamanho grande depois

dos vários pôneis da infância e samantha a adorava. chorara durante muitos dias quando a égua morrera ao dar à luz a bela potranquinha que se transformara naquele magnífico animal dourado. todo o amor que havia no coração da menina, já órfã, se transferira para sundance, que correspondia ao sentimento, sempre acompanhando a dona por todos os lugares e obedecendo-lhe com docilidade extrema, dando a impressão de captar seus

pensamentos.

a cada dia, depois da morte de brendan, passava mais tempo com a égua,

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escovando o pêlo luzidio, mimando-a e conversando com ela em voz suave. sundance era seu único objeto de afeto. com um tapinha carinhoso no pescoço do animal, ela montou, tomando a direção do rio. já estava no tempo de visitar a caverna, o lugar onde ela e brendan haviam se encontrado tantas vezes e onde se reuniriam para a fuga no dia em que ele morrera. evitara ir lá durante o ano que se seguira à tragédia, sabendo que não suportaria as lembranças, mas já se sentia com forças para recordar os doces encontros e os momentos em que haviam rido de bobagens, cheios de entusiasmo pela vida. a caverna ficava na unha demarcatória da fazenda chatham oaks, abaixo da propriedade dos 0'neill, glen woods, da qual era separada por duas outras fazendas. a floresta pantanosa onde corria o pee dee fora o refúgio das duas crianças amigas, que depois se haviam tornado dois jovens enamorados. fora o irmão de brendan, connor, quem lhes mostrara a caverna, pedindo segredo. aquele lugar fora o recanto favorito dos três e nenhum deles jamais sequer pensaria em revelar sua existência aos adultos. samantha adorara connor, na época. ele era bem mais velho que ela e brendan, mas embora já fosse um rapaz quando os outros dois só tinham dez anos de idade, mostrava-se gentil e carinhoso ensinando-lhes novas brincadeiras e contando histórias fabulosas de outros tempos e outras terras. nunca os tratava com ares de superioridade, mesmo quando lhes desvendavam os segredos da floresta, compartilhando com eles o conhecimento que possuía da natureza, que amava profundamente. um dia, connor decidira ensiná-los a atirar e rira muito quando samantha mostrara possuir mais aptidão que brendan, que não ficara zangado, mas aplaudira sua habilidade com genuína admiração. fora então que ela percebera que aquele menino era especial e que o amaria sempre. depois, a tragédia se abatera sobre suas vidas. a mãe de connor e brendan morrera e, não muito tempo após, a mãe de samantha também se fora. robert chatham culpara os o'neill pela morte da esposa e houve ameaças e tiroteios. os fatos que envolveram aqueles acontecimentos não haviam sido esclarecidos para samantha que, no entanto, fora proibida de tornar a ver os amigos. a briga dos adultos não afetou os dois jovens apaixonados que continuaram a se encontrar, desenvolvendo a arte de mentir e escapar à vigilância dos pais. quando se viam, costumavam explorar os bosques ou simplesmente sentar-se na caverna e conversar. brendan lhe dissera que o irmão concordara com o pai que toda a ligação com os chatham deveria ser cortada, de modo que samantha ficara sem falar com connor, apenas vendo-o por rápidos instantes quando se cruzavam na estrada ou se encontravam em georgetown. depois, ele fora para a inglaterra, de onde só voltara no início da guerra, para seguir quase que

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imediatamente para o norte.

fora só na manhã do duelo que tornara a vê-lo de perto e, apesar de sua rispidez, ela nunca se esqueceria de sua bondade e paciência com as duas crianças que o adoravam. assim, tornava-se muito difícil imaginá-lo encerrado num navio-prisão, de onde talvez não saísse vivo.

a caverna fora encoberta pelo mato e apesar de conhecer sua localização

muito bem, ela teve dificuldade em encontrá-la. finalmente descobriu a

entrada e afastou a cortina de vegetação que a vedava, penetrando naquele santuário de recordações.

o sol iluminava o lugar fracamente, mal atravessando as folhas e ramos

que se entrelaçavam na entrada. ela sentou-se no chão, observando o jogo de luz e sombra nas paredes de pedra. lágrimas formaram-se em seus olhos enquanto pensava nas horas felizes passadas ali, nos risos, nas conversas e nos planos para o futuro. sob o peso das lembranças, escondeu o rosto nas mãos e chorou longamente por brendan, por connor e por si mesma. muito tempo depois notou que as sombras tornavam-se mais espessas, sinal de que já entardecia. precisava voltar para casa antes que o pai mandasse grupos de homens à sua procura. olhou em volta e encontrou a pulseira de sementes que brendan fizera para ela. ficara feia com o tempo, mas uma de ouro puro não seria mais bonita a seus olhos. pegou-a, pensando em levá-la para casa, mas desistiu. o pai dera para entrar em seu quarto sem se fazer anunciar e ela desconfiava que até mexia em suas coisas. o bracelete ficaria mais seguro onde estava. havia também dois pacotes de roupas que ela e o namorado pretendiam levar na fuga. as peças estavam úmidas e cheirando levemente a bolor, mas achavam-se ainda em bom estado. ela encontrou a calça grosseira e a camisa que roubara do depósito da fazenda. os dois viajariam parte do caminho disfarçados, para não chamar atenção inutilmente. por fim, levantou-se do chão, relutando em sair daquele lugar querido, mas não havia alternativa. encontrou sundance pastando tranqüilamente e montou-a sem dificuldade, subindo numa pedra. sem olhar para trás, fez a égua retomar o caminho de volta a trote ligeiro. quando chegou aos portões da entrada de chatham oaks, desmontou e levou sundance para o estábulo sem pressa, dando tempo para que o corpo do animal esfriasse depois da corrida. fora um dia muito quente e haviam percorrido uma longa distância. hector falava com um mascate e não percebeu sua presença. rápida, samantha entrou pela porta dos fundos para não perturbar um momento de descontração tão raro para os escravos. tirou os arreios da égua e escovou-a até que o pêlo brilhasse. quando saiu do estábulo, admirou-se de ver hector ainda envolvido na conversa. de

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repente, ao ouvir o nome "marion", escondeu-se atrás da pesada porta.

— foi isso que maudie ouviu — hector dizia. — o coronel foxworth disse

ao patrão que tarleton estava preparando uma armadilha para o coronel

marion, na fazenda coursey.

— haverá algo mais que uma armadilha para tarleton, graças a você,

hector. tome cuidado, rapaz. voltarei na semana que vem.

o escravo virou-se para a porta do estábulo e, ao ver a moça, ficou visivelmente assustado.

— srta. samantha, eu

eu não a vi.

ela percebeu a perturbação do escravo e apressou-se em tranqüilizá-lo.

— não se preocupe, hector. não direi a ninguém o que ouvi. ele relaxou,

conseguindo sorrir. eram da mesma idade e, de certa forma, haviam crescido juntos. ela o ensinara a ler e a escrever, a despeito da proibição de alfabetizar os escravos. hector falava tão bem quanto ela mesma, embora muitas vezes adotasse o linguajar truncado dos outros negros como medida de proteção. um escravo com alguma cultura era visto com desconfiança pelos senhores, pois a educação podia fazer germinar neles idéias de subversão.

— você está ajudando a raposa do pântano, não é, hector? — ela

adivinhou.

o medo voltou ao rosto humilde.

— não, senhorita — ele respondeu, sem convencê-la da mentira.

— fique tranqüilo, hector. não tenho nenhum amor pelos ingleses.

guardarei seu segredo. ela começou a afastar-se, mas logo retornou. — sabe de uma coisa? também quero ajudar.

— a senhorita? mas é muito perigoso!

— menos perigoso para mim do que para você. quem suspeitaria da filha

de um dos tories mais fervorosos da carolina do sul? — sua voz tornou-se amarga. — quero ajudar, preciso. pelos o'neill e principalmente por brendan.

o escravo fitou-a, indeciso. ela teria valor inestimável para a causa e

todos na fazenda conheciam bem a coragem e determinação daquela moça delicada.

— terá de ser um segredo entre nós dois, senhorita — ele disse por fim.

— ninguém mais deverá saber. a senhorita me contará o que descobrir e eu passarei a informação para o coronel marion através do mascate.

— por que está fazendo isso, hector?

ele olhou para o chão e depois voltou a encará-la.

— sou apenas um escravo, senhorita, mas acho que, se as colônias se

libertarem da inglaterra, eu e os de minha raça teremos mais esperança de

liberdade.

a tristeza que viu nos olhos escuros a espantou. escravos faziam parte do

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mundo em que nascera e nunca lhe ocorrera que eles pudessem não estar contentes com sua condição. colocou uma das mãos no ombro dele, demonstrando compreensão.

— ajudarei em tudo que puder para que isso se torne realidade, hector. juntarei informações e as passarei para você. na hora do jantar, robert chatham estava irritado.

— o coronel foxworth me disse que você não aceitou seu convite para o

baile.

ela sorriu de forma encantadora, o que o surpreendeu.

— mudei de idéia, pai. diga-lhe amanhã, quando vocês dois saírem juntos para queimar mais algumas casas.

— samantha! não quero que fale comigo nesse tom! — procurou conter a

irritação. — fico contente em saber que concordou em ir ao baile. ele é um excelente jovem e possui um bom nome. será um marido digno de você.

— não. irei ao baile com ele, mas nunca o aceitarei como marido. nunca!

— pense nisso, samantha — o pai insistiu. — ele já deu a entender que

pretende pedir sua mão, se você o encorajar, pelo menos um pouco. era de seu interesse fingir que aceitava pensar no assunto, mas no fundo do coração samantha jurou que morreria, se fosse necessário, para não se casar com william foxworth.

capÍtulo ii

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connor achava que nunca mais na vida conseguiria tirar o mau cheiro do navio-prisão de sua pele, ou pelo menos de sua lembrança. aquilo o perseguiria enquanto vivesse, aquele odor fétido! os o'neill haviam sido presos duas semanas antes, sendo obrigados a assistir a destruição de sua casa por um incêndio quando se recusaram a juntar-se a um regimento tory e jurar fidelidade à coroa. com pulsos amarrados, foram jogados para dentro de um carroção juntamente com outros simpatizantes do partido whig. um pouco antes da partida, um dos criados leais introduzira uma faca no cinto de connor. aquilo apenas servira para complicar a situação. nem começara a cortar as cordas que o prendiam quando foi descoberto por um oficial vigilante que lhe tomara a faca e, na chegada a charleston, denunciara-o às autoridades britânicas como rebelde contumaz. pai e filho haviam sido separados dos outros prisioneiros e postos sob vigilância especial, depois de receberem argolas de metal nos tornozelos e serem amarrados juntos pelos pés. uma corrente pesada ligava-os a outros prisioneiros considerados perigosos e recalcitrantes. deitado no porão mais profundo do navio, connor ainda podia ouvir o som humilhante do martelo fechando a argola à volta de sua perna e ecoar-lhe na mente. suas dores eram constantes, por causa dos ferimentos causados pelo metal afundando em sua carne, mas aquele sofrimento era menor se comparado ao cheiro.

os navios serviam, na realidade, de moradias da morte. o ar viciado era cheio de emanações pútridas da febre maligna, de contaminação mortal e do odor horrível de suor, comida podre e dejetos. o calor sufocante tornava a respiração quase impossível, mas connor e o pai ainda conseguiam manter-se vivos naquele, inferno. estava sempre tão escuro que um mal podia distinguir as feições do outro. subiam ao convés apenas durante duas horas por dia, tempo suficiente até para que os prisioneiros conseguissem readaptar os olhos à luz e lavar-se rapidamente tentando escapar, em vão, à sujeira que lhes penetrava nos poros. não havia nem sabão e só dispunham da água do mar, cujo sal deixava a pele irritada e ardida. os alimentos eram nojentos. pão seco, carne de porco estragada, sebo e ervilhas visguentas. recebiam menos de dois terços da ração consumida por um homem normal e a fome tornava-se uma tortura constante. connor via o pai enfraquecer. a força de ânimo do mais velho dos o'neill ficara combalida quinze meses atrás, por ocasião da morte de brendan, e a miséria infinita do navio-prisão apenas lhe levava o que restava.

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connor às vezes se perguntava por que tentava continuar vivo. outros se rendiam à morte ou até a procuravam para fugir ao sofrimento desumano. mas o jovem 0'neill tinha metas a atingir. soubera por intermédio de outros prisioneiros que fora robert chatham quem os denunciara aos tories, recebendo em troca glen woods, a propriedade que lhes fora confiscada. mas o infame pagaria por todos os segundos de tormentos que connor e o pai passassem naquele inferno. e pagaria muito caro. connor contava os dias para não perder a noção do tempo. ficar perdido na solidão, sem nenhuma ligação com a realidade, seria resignar-se à loucura que rondava incessantemente os prisioneiros. já fazia quatro meses que haviam sido levados a bordo da prisão flutuante e, à medida que os dias intermináveis se sucediam, entregou-se à única atividade possível naquele chiqueiro. procurava lembrar-se, palavra por palavra, página por página, dos livros que lera. sempre possuíra memória prodigiosa e chegara o momento de usar o dom proveitosamente. conseguia lembrar-se de livros inteiros com detalhes preciosos e os recitava em voz alta, procurando distrair o pai e os companheiros de infortúnio. a distração os ajudava a agarrar-se à vida e inflava ânimo nos espíritos cansados e abatidos pela privação e pela brutalidade. e foi então que a varíola infestou o navio. o mau cheiro tornou-se pior que nunca quando o odor horrivelmente adocicado da moléstia misturou-se aos outros. os presos gritavam pedindo médicos, mas nenhum tinha permissão para entrar. a morte começou sua sinistra colheita e apenas os mais fortes resistiram aos golpes de sua foice. connor já ficara imunizado quando apanhara a doença no começo da guerra, durante um surto que caiu sobre o corpo de milícia onde ele servia, mas o pai, gerald 0'neill, estava à mercê da peste, e não tinha mais forças nem desejos de lutar contra a horrenda moléstia. morreu lentamente, lançando fracos gemidos que se perdiam no clamor de pragas e gritos dos outros moribundos e dos que continuavam sãos, embora exaustos e revoltados. a última palavra que murmurou foi o nome de brendan, e aquilo penetrou no coração de connor como um punhal de angústia. embora fosse o primogênito, sempre soubera que o irmão mais moço fora o favorito. gerald procurara disfarçar o sentimento, mas não havia como esconder o brilho de seu olhar quando fitava o filho loiro e radiante como o sol. connor não se ressentia com a preferência, porque ele próprio amara o irmão de modo especial. brendan nascera para o riso e para a alegria, como os pais. fora sempre cheio de humor travesso, mas nunca chegara à malícia ou ao desrespeito. naquele coração feliz existia apenas um amor irreprimível pela vida.

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connor, por outro lado, sempre fora sério e responsável e às vezes chegava a se indagar por que era tão diferente do resto da família. desde pequeno, olhara o mundo com solenidade e arvorara-se no afeiçoado anjo da guarda do irmão, doze anos mais novo. e os cuidados haviam se ampliado, abrangendo o pai e a fazenda, quando a mãe morrera e gerald passara a beber mais que o normal, procurando esquecimento para a sua dor. durante os últimos dez anos, connor fora, para todos os efeitos, o senhor de glen woods, uma das mais ricas plantações de índigo para a extração do anil usado no tingimento de tecidos, de toda a região do rio pee dee. contudo, aos trinta e dois anos, fora lançado num navio-prisão, depois de ver a casa da família queimada e a fazenda confiscada. não era mais dono de nada e ficara completamente só. segurando o corpo do pai nos braços, connor pensou que talvez o velho tivesse tido sorte, afinal. a morte era infinitamente preferível à vida desumana que levavam naquele porão imundo. passou uma das mãos pela cabeça de gerald, tentando dar algum aspecto de dignidade à cabeleira suja e arrepiada e sentiu enojado os piolhos que a infestavam, desrespeitando o horror que o homem sentira pela sujeira e pelos parasitas durante toda a sua vida. mal podendo mover-se, por causa das correntes que o prendiam aos companheiros e às paredes, connor continuava agarrado ao cadáver, sem coragem de comunicar a morte de gerald aos guardas. sabia do tratamento brutal dado aos corpos dos infelizes que ali morriam. eram atirados como lixo aos barcos que faziam o transporte de carregamentos entre o navio e a praia e depois enterrados na areia, a pouca profundidade. as tempestades geralmente desenterravam os cadáveres e não era fato incomum vê-los arrastados para o mar e depois devolvidos à praia incessantemente pelas ondas. connor pretendia implorar permissão para sepultar o pai de modo mais digno, embora aquilo ferisse profundamente seu orgulho. falaria com algum oficial quando subisse para o convés na hora de tomar sol. falar com os guardas que trabalhavam nos porões, bajuladores desavergonhados dos tories, seria inútil. sem a mínima piedade, divertiam-se em infligir todas as humilhações possíveis aos miseráveis prisioneiros. pensando em tudo o que acontecera, connor sentiu o ódio crescer em seu peito e dominar a tristeza. mais um o'neill morrera por causa dos chatham. nunca imaginara que o ódio pudesse transformar-se num sentimento tão obsessivo a ponto de ser a única razão para a sobrevivência, quando seria mil vezes melhor morrer. ele ficaria vivo apenas para poder destruir robert chatham e tudo o que lhe pertencia, depois de fazê-lo experimentar toda a agonia que ele próprio sofrera. no momento de subir para o convés ele esperou pacientemente que as

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correntes fossem soltas da parede e então ergueu o corpo de gerald nos braços, o que só foi possível porque o velho perdera muito peso, tendo ficado tão leve quanto uma criança. os guardas não fizeram nenhuma pergunta, acostumados a verem muitos prisioneiros necessitando da assistência dos companheiros. chegando em cima, connor franziu os olhos, ajustando-os à luz, ficando contente por o céu estar nublado e sem a claridade intensa que provocava uma dor aguda. amaldiçoou mais uma vez aquele inferno, onde até o sol maravilhoso era temido. com os olhos lacrimejantes, procurou um oficial

inglês. viu um fitando o fardo que ele levava nos braços e logo notou que o oficial encaminhava-se para seu lado.

— esse homem está morto — o oficial disse com raiva, dirigindo-se aos

guardas tories. — por que não foi retirado mais cedo? por que ainda está acorrentado aos outros?

um dos guardas tomou a si a tarefa de responder, enfrentando a irritação do soldado.

ninguém nos comunicou a morte, senhor.

o

inglês olhou com certa piedade para connor.

tirem as correntes do morto! — ordenou.

ia retirar-se, mas connor impediu-o, dando um passo à frente.

senhor

sim? — o oficial perguntou com impaciência.

ele é meu pai. poderia me dar permissão para enterrá-lo? na praia.

o

inglês estudou o prisioneiro demoradamente. as roupas achavam-se em

frangalhos, o rosto imundo e barbudo, mas havia dignidade no porte do infeliz. ele odiava trabalhar naqueles navios-prisões, mas fora mandado para um deles quando sua embarcação afundara deixando-o sem um posto por algum tempo. fazia três meses que estava ali e rezava todas as noites para ir embora. virou-se para os guardas.

— tirem as correntes dos dois. — depois, olhou para o prisioneiro. — seu nome?

— connor o'neill.

— vou permitir que vá para terra com o próximo grupo de serviço. pode enterrá-lo e marcar o lugar da sepultura.

— obrigado.

— não é preciso agradecer. acredito que você faria o mesmo por mim.

mais tarde, já na praia, connor encheu-se de repentina e louca esperança. era a primeira vez em quatro meses que se via sem correntes e pensou que

talvez houvesse uma chance, mesmo ínfima, de escapar. enterrou o pai numa colina suave, embaixo de um carvalho antigo e

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frondoso. tomou emprestado o machado de um dos prisioneiros que cortava lenha e fez uma cruz tosca. o esforço o deixou exausto e ele sentou-se à beira do túmulo, enquanto os outros se afastavam cortando e juntando lenha para os fogões dos navios. os guardas acompanharam os presos, e num gesto de bondade, deixaram connor alguns instantes sozinho junto à sepultura do pai. todos o achavam fraco demais para correr e fugir. connor descansou durante alguns minutos e depois começou a recuar para o bosque. já havia desaparecido por entre as árvores quando um dos guardas olhou para trás e descobriu que ele não se achava mais à vista. o fugitivo ouviu o grito de alarme e desistiu de qualquer idéia de ser discreto, começando a correr, fazendo os galhos secos estalarem sob seus pés. sua imensa vontade de fugir para vingar-se manteve-o à frente dos perseguidores durante algum tempo, até que suas pernas enfraquecidas dobraram-se sob o corpo, fazendo-o cair. arrastou-se para o meio das moitas e cobriu-se com folhas. passos soaram apressados, ultrapassando o lugar onde ele se escondera, voltando vagarosamente um pouco depois. um guarda revirava os montes de folhas secas com o mosquete, atirando de vez em quando. connor, porém, estava determinado a não voltar para o navio, preferindo morrer. quando o mosquete inevitavelmente atingiu-o com a ponta pesada do cano, ele virou-se rapidamente, empurrando a arma. mas o guarda já a disparara e uma bola de ferro incandescente penetrou-lhe o peito. o movimento todo desequilibrou o guarda e connor aproveitou-se para segurar a arma com todas as suas forças, acabando por arrancá-la das mãos do homem. erguendo-a no ar, atingiu o guarda na cabeça, com a coronha, deixando-o desacordado. antes de ir embora, pegou o embornal de pólvora que o guarda carregava e colocou-o no ombro. segurando a arma pesada como uma muleta, apoiando-a embaixo do braço, ele desapareceu na floresta densa. atormentado pela fome, pela exaustão e pela dor, connor cambaleava de uma árvore para a outra, até que sua força de vontade não foi mais suficiente para sustentá-lo. capturara alguns caranguejos na noite anterior, arriscando-se a ser visto na praia clara, mas seu estômago, debilitado pelos meses de comida estragada e insuficiente, recusara a carne adocicada. a fome tornara-se um inimigo feroz, minando sua energia, deixando-o tonto e esquecido da necessidade de andar sem cessar. competia em tortura com a dor lancinante do ferimento que o percorria como fogo líquido. ele sabia que a ferida não era fatal, mas temia o sangramento e a infecção que inevitavelmente adviria se não encontrasse alguém que o ajudasse. precisava de socorro urgente. aquela parte da região das carolinas abrigava tanto patriotas que lutavam pelo reconhecimento da independência do país, assinada em 4 de julho de

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1776, como de americanos ainda fiéis ao governo britânico, os tories, que

eram apoiados por soldados ingleses. ele precisava ser cuidadoso para não cair nas mãos das pessoas erradas. não sobreviveria a uma volta aos navios- prisões e na verdade preferia morrer a ser preso novamente. encontrava-se extenuado. usara toda sua resistência na tentativa de fugir e cada passo representava um esforço sobre-humano. não mais podendo manter-se de pé, desabou ao lado de um tronco caído e mergulhou em misericordiosa inconsciência. ele ouviu a voz que soava fracamente em seus ouvidos, como um eco repercutindo num vale distante. mal distinguindo as palavras, conseguiu mover-se o bastante para procurar o mosquete. não o encontrou.

— mãe! mãe! — dizia uma voz infantil. — mãe, encontrei um estranho. ele

está ferido. connor tentou livrar-se da nebulosidade que lhe toldava os olhos, procurando focalizar o rosto da pessoa que falava, mas a dor voltou em

ondas quentes e ele fez uma careta quando sentiu uma calosa mão tocando- lhe a face. gemeu, quase não podendo suportar a dor no lado do corpo.

— está tudo bem, senhor — disse uma voz de mulher. — descanse. eu o ajudarei.

lutando para readquirir consciência total, ele ouviu a mulher falar com outra pessoa.

— deve ser por causa deste homem que os malditos "lagostas" estão

revirando a floresta. bem, se depender de mim, não o encontrarão. johnny,

vá buscar cobertores, ataduras e um pouco de uísque de seu pai. e tome cuidado. fique de olhos bem abertos.

connor não conseguia ver a mulher. quis sentar-se, mas ela colocou a mão em seu ombro, impedindo-o.

— onde

onde estou?

— em santee — ela explicou. — se é quem estou pensando, não entendo

como chegou tão longe, fraco como está. — roubei um barco — ele respondeu devagar, sabendo que encontrara uma amiga.

— onde está?

— não era um barco muito bom — murmurou com um traço de ironia que não escapou a ela. — afundou.

— vamos arrumar-lhe outro. não pode ficar aqui muito tempo. estão

procurando pelo senhor por toda a extensão da costa e o que querem a todo custo. o garoto voltou com o que a mãe pedira e ficou olhando com ávida curiosidade enquanto ela tirava os trapos que haviam restado da camisa. ela tocou a pele intumescida e vermelha que circundava o ferimento provocado

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pela bala, fazendo connor soltar uma praga abafada.

— não está com bom aspecto, senhor, mas podia estar pior. vou lavar com

uísque, mas é melhor tomar um grande gole primeiro. ele sabia o que o esperava. seria uma verdadeira agonia quando o álcool caísse na ferida aberta. tomou então um longo trago da botelha de louça e

colocou o pedacinho de madeira que johnny lhe estendera, entre os dentes. a dor foi pior do que ele imaginara, mais violenta que qualquer outra que já sentira. era como se todo o lado de seu corpo explodisse em chamas, e ele mordeu o pedaço de madeira para não gritar.

— pronto — a mulher murmurou. — acabou.

ele olhou para cima, procurando concentrar-se no rosto dela e ignorar a

dor horrível que o transpassava. no meio do nevoeiro que insistia em envolvê-lo, viu uma mulher alta e ossuda com o rosto prematuramente envelhecido por duros trabalhos e muita preocupação. ela endireitou o corpo e passou as mãos pelo avental. — vou buscar algo para o senhor comer. procure ficar o mais bem escondido possível. johnny montará guarda.

— nem sei como poderei agradecer tudo o que está fazendo por mim,

senhora. não quero que entre em encrencas por minha causa, portanto vou-

me embora.

— as encrencas já passaram por aqui — ela disse com amargura. — os

"lagostas" levaram meu john há um ano. nunca mais tive notícias dele, nem sei se está morto ou vivo. dizem que muitos prisioneiros foram mandados

para exércitos ingleses que estão lutando em outros lugares. — ela cuspiu no chão. — nós nunca tivemos muita coisa, só uns acres de terra, mas meu marido era um homem bom e trabalhador. assim, tudo o que puder fazer para prejudicar aquela gente, farei. e johnny também. bem, vou buscar um pouco de ensopado. a comida estava deliciosa e connor comeu tudo, sentindo-se mais forte. conseguiu sorrir, embora com dificuldade. — gostaria de poder lhe pagar, senhora. ela esticou o corpo e seu porte orgulhoso de repente a deixou bonita.

— estarei paga se o senhor conseguir fugir deles. bem, acho que devia

dormir um pouco. eu o levaria para a nossa cabana se pudesse, mas os tories já estiveram aqui e desconfio que vão voltar. quando connor voltou a acordar, o céu estava escurecendo. as primeiras estrelas pálidas piscavam entre as nuvens pesadas e logo seria noite fechada. ele olhou ao redor e viu um pão e uma botija de água que a mulher deixara para ele. o ferimento ainda doía bastante, mas o alimento e o sono o

haviam fortalecido, deixando-o em melhor estado de ânimo. subitamente ouviu um ruído na água, logo além de onde ele repousava, e

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ficou tenso. suspirou aliviado ao ouvir a voz de johnny.

senhor?

ainda estou no mesmo lugar, johnny.

o

menino apareceu então num pequeno barco.

os "lagostas" estão espalhados por toda a parte. mamãe acha que o

senhor precisa partir. connor pôs-se a apalpar o chão com ansiedade e o garoto sorriu.

— se é a arma que está procurando, escondi-a numa moita logo atrás do

senhor. fiquei com medo que não fosse um patriota, mas só no começo.

o homem examinou o rostinho vivo do menino.

— gostaria de poder deixá-la para você, johnny, mas precisarei de alguma proteção. — pensou um pouco. — mas prometo, que lhe mandarei um rifle. darei um jeito. qual é o seu nome completo e o de sua mãe?

— meu nome é johnny brown e o de mamãe, ellie. não. esse é o apelido. o

nome dela é ellen brown. ellen não é um nome bonito? — o garoto perguntou

com orgulho.

— sim, e sua mãe também é uma mulher bonita. diga a ela que eu disse isso. e diga-lhe que serei eternamente grato a vocês dois. johnny desceu para a margem e ajudou connor a entrar no barco.

colocando o mosquete e o saco de pólvora perto da bolsa de comida que o garoto trouxera na pequena embarcação, connor pegou o remo.

— adeus, senhor — o menino sussurrou.

era uma boa coisa que a noite estivesse tão escura, com o céu nublado encobrindo o brilho do luar. connor ainda se sentia fraco, tendo perdido, calculava, uns dez quilos de peso nos meses de confinamento. a dor no flanco persistia, mas seu otimismo retornara. estava alimentado, tinha um barco ligeiro e um rio que o levaria até em casa. e, o mais valioso de tudo, era um homem livre. durante os dias seguintes, viajou nas horas noturnas, escondendo-se quando começava a clarear. percebia que diversas patrulhas corriam a área, mas até aquele momento tivera sorte em conseguir esconder o barco e a si mesmo com perfeição. durante o dia, quando era obrigado a ficar quieto, deitado em algum lugar, planejava as etapas seguintes da viagem e o que faria quando ela terminasse. iria juntar-se a francis marion que, ouvira dizer, estava em snow island, a ilha que ficava na confluência do rio pee dee e do riacho lynch. francis fora seu comandante na ilha sullivan e os dois haviam feito uma amizade sólida. connor acompanhara o amigo nos primeiros ataques contra os tories e do acampamento dele é que executaria sua vingança.

o desejo de vingar-se era a força que o impulsionava, diminuía seus sofrimentos físicos e amenizava a dor pela perda de tudo o que amara.

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tornara-se sua única razão de viver. já viajava pelo rio três dias seguidos e começava a ficar impaciente com a demora. contudo, não podia locomover-se a não ser durante a noite e mesmo assim precisava ir devagar e cautelosamente, pois, no percurso cheio de curvas do rio, arriscava-se a encontrar uma inesperada patrulha inglesa. sua provisão de alimentos terminara e o ferimento deixara de doer tão fortemente. esses dois fatores contribuíram para que ele relaxasse um pouco na cautela. além disso, sabia estar perto da fazenda que lhe pertencera, o que aumentava sua impaciência. apressando as remadas, deixou que os pensamentos divagassem e não viu o brilho de uma fogueira um pouco adiante. — alto! quem vem lá?

a interpelação ríspida despertou-o do devaneio e ele amaldiçoou sua falta de cuidado. não sabia se havia sido visto ou se a sentinela apenas ouvira o ruído do remo cortando a água. rapidamente levou o barco para a margem e apanhou a arma antes de desembarcar e desaparecer no mato rasteiro. sentiu-se como um animal caçado, mas o mosquete infundia-lhe alguma confiança. não hesitaria em atirar para defender-se. ele caçara nas margens do pee dee durante toda a sua vida e aquele bosque não apresentava mistérios. conhecia cada árvore daquele trecho, que

se estendia a menos de um quilometro e meio de glen woods.

ouviu passos correndo nas trilhas arenosas. seus perseguidores mostravam-se incautos, o que melhorava a situação. ele esperou pacientemente escondido atrás de um velho cipreste até que os passos de

apenas um homem aproximaram-se. viu de relance a cor vermelha de um uniforme e sorriu. estava com sorte. os tories da área conheciam os bosques tanto quanto ele, mas os soldados ingleses eram uns paspalhos naquela região e pagariam caro pela imprudência. quando o soldado chegou ao alcance de seu braço, ele desceu a coronha do mosquete sobre o inimigo, que caiu silenciosamente, enquanto um filete de sangue lhe escorria da cabeça ferida. connor esperou pela outra sentinela, pois de acordo com o som de passos que ouvira no começo, devia haver mais uma. um ruído atrás dele o fez virar com o mosquete apontado. ele e o segundo soldado viram-se ao mesmo tempo, mas connor foi mais rápido. atirou e ficou olhando o homem cair devagar, tendo no rosto uma expressão de surpresa e terror. naquele instante, o pé de connor foi puxado e ele perdeu

o equilíbrio, enquanto o mosquete que segurava bateu com força no

ferimento do flanco reabrindo-o e fazendo o sangue escorrer. debateu-se ao cair e uma das mãos atingiu o primeiro soldado que voltara a si e o atacara. viu o brilho de uma faca na mão do homem e teve tempo apenas de desviar o corpo para não ser atingido. sem parar para pensar como o soldado

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se recuperara tão depressa, começou a lutar pela vida. com força e agilidade extraordinárias, agarrou o pulso do inglês e apertou-o com violência. a faca voou para o meio do mato quando o soldado abriu a mão. os dois estavam feridos, mas lutavam igualmente pela sobrevivência, o que lhes dava maior força. rolaram por baixo das árvores, procurando golpear- se. connor sentiu-se zonzo com a nova perda de sangue e decidiu que precisava acabar logo com a luta. com uma das mãos, prendeu o inglês ao chão e com a outra procurou algo que servisse de arma. finalmente sentiu nos dedos o contato frio de uma pedra e segurou-a. ergueu o braço e o desceu, fechando os olhos ao ouvir o som horrível da pedra batendo na cabeça do adversário. o homem parou de lutar e ficou largado. connor sentou-se, envolvido pela vertigem. sua camisa estava empapada de sangue, mas ele precisava sair dali. examinou o corpo do soldado, certificando-se de que estava mesmo morto e depois considerou a situação. não podia adivinhar quando os dois sentinelas seriam rendidos, mas provavelmente não demoraria para que os colegas chegassem. o ferimento reaberto não permitiria que fosse muito longe, porque doía demais e o mínimo movimento aumentava a hemorragia. por outro lado, não podia ficar ali, pois os bosques fervilhavam de soldados e americanos tories. a caverna. nunca mais fora lá, depois que a mostrara a brendan e à garota chatham. de certa forma, dera o lugar de presente aos dois e renunciara ao direito de ir lá. escondida num enrugamento esquisito do terreno, a caverna jamais seria descoberta por quem não soubesse de sua existência. ele próprio a encontrara por acaso, quando um de seus cães perseguira um coelho e o bichinho entrara lá para esconder-se. naquele lugar que fora seu refúgio na infância e na adolescência, esperaria que suas forças voltassem. depois, iria ao encontro de marion.

capÍtulo iii

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samantha brincava com sundance, mas seu pensamento estava longe. escondeu a maçã atrás das costas e deixou que a égua a procurasse, esfregando o focinho em seus cabelos, bufando em seu pescoço e finalmente, com um suave relincho de satisfação, encontrasse a fruta. ficou olhando a maçã desaparecer na boca ávida, invejando a felicidade ingênua de sundance. se houvesse algo no mundo que pudesse devolver-lhe

um pouco da antiga alegria, já se daria por feliz, mas continuava mergulhada num poço fundo de tristeza. andara escutando novamente atrás das portas, uma atividade para a qual demonstrara um talento insuspeitado e o que a deixara profundamente aborrecida. aproximando a cabeça do pescoço da égua, esfregou o rosto na crina farta. o animal meneou a cabeça e relinchou baixinho, pressentindo que sua dona não estava bem. samantha suspirou, sem saber o que fazer. desempenhara o papel de espiã com perfeição e excitada com o que fazia, prestando ajuda aos rebeldes e ao mesmo tempo vingando-se do pai e de roxworth, mostrava no rosto corado e no brilho do olhar que algo mudara em seu íntimo. aquela animação, porém, fora mal interpretada pelo pretendente, que a julgara propensa a aceitá-lo como noivo.

o baile transcorrera tranqüilamente. bastava-lhe sorrir para que os

oficialmente ingleses tropeçassem uns nos outros para terem o prazer de falar com ela. discorriam sobre suas explorações, suas próximas "missões perigosas" e acabavam por pedir abertamente sobre os planos do coronel

tarleton para apanhar a maldita raposa do pântano e acabavam por implorar permissão para visitá-la. ela apenas sorria da corte cerrada e ocupava-se em decorar datas, nomes de lugares e números de regimentos, corando de vez em quando de pura excitação. excitação exagerada. no fim da noite, não pôde deixar de perceber o olhar intrigado que fuxworth lhe lançou, nem a expressão de surpresa no rosto do pai. então, naquele dia, quase uma semana depois do baile, ouvira os dois tramando novamente.

— quero uma definição — foxworth dizia irritado quando ela encostou-se à porta da biblioteca para ouvir.

— desejo esse casamento tanto quanto você — o pai respondeu. — dou

meu consentimento e juro que ela concorda. tenho meios para forçá-la.

— estou certo de que sim, meu caro robert, mas acredito que não será

necessário agir pela força. vejo interesse nos olhos dela. como todas as moças, está se divertindo um pouco antes de aceitar a proposta. — o oficial riu baixinho.

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— não está preocupado com outras coisas? 0'neill, por exemplo?

— oh, não creio que vá muito longe. acharam um bocado de sangue por

onde ele passou e o homem deve estar muito enfraquecido depois de passar

meses num navio-prisão. logo o encontrarão morto em algum lugar. o pai soltou uma exclamação de desgosto.

— como ele conseguiu fugir, afinal? você me garantiu que ninguém escapa de um navio daqueles. samantha ouviu o risinho sarcástico do homem que desejava ser seu marido.

— o pai dele morreu e um tenente de coração mole permitiu que ele fosse

à praia enterrar o velho. o oficial pagará caro por esse estúpido ato de piedade, pode crer. a moça estremeceu ao ouvir o relato de foxworth, mas recuperou-se depressa quando os dois homens caminharam para a porta. saiu correndo pelo corredor e invadiu a cozinha com a desculpa de querer pegar uma maçã.

connor estava vivo! gerald o'neill morrera! pensou no velho, como o

conhecera anos atrás. gentil, como connor, possuía fartos cabelos ruivos e um talento muito especial para contar histórias. sempre gostara de contar fábulas a respeito do povo pequenino que vivia nos bosques e de suas travessuras. uma lágrima rolou pelo rosto macio, embora ela imaginasse que nunca mais fosse capaz de chorar.

— por favor, ajude connor a salvar-se — ela rezou baixinho, dirigindo-se

ao seu deus particular, diferente daquele descrito pelos ministros da igreja, capaz de crueldades. ela não rezara muito nos últimos tempos, mas seu deus não deixaria de ouvi-la, porque não era vingativo, nem vaidoso. era um deus feito de amor. de repente, o resto da conversa voltou-lhe à mente. agarrada ao pescoço de sundance, suspirou desanimada.

— não posso me casar com ele — disse baixinho.

não sabia a que meios o pai recorreria para forçá-la, mas podia imaginar que, com sua maldade e prepotência, não hesitaria em usar coisas e pessoas que ela amava para chantagea-la. não havia mais dúvidas nem escolhas a fazer. precisava desaparecer antes que robert pudesse ameaçá-la, pois o pai, duro e severo como era, se sentiria na obrigação de cumprir as ameaças mesmo depois que ela sumisse. tinha de ir embora. mas para onde? não tinha parentes ou amigos. o pai a isolara do mundo e não hesitara em denegrir sua imagem para que ninguém a procurasse. quando desafiara brendan publicamente para o duelo, robert

chatham acusara-o de ser amante da filha na frente de vários homens, como mais tarde lhe contaram.

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ela ficara marcada aos olhos dos amigos de brendan, que a culpavam pela morte, e as poucas moças que freqüentavam chatham oaks com os pais haviam desaparecido, certamente temendo manchar sua reputação. não que aquilo a preocupasse. sua perda fora dolorosa demais para que lamentasse a evasão de falsos amigos, mas de repente via-se sozinha no mundo. tivera contato com os oficiais ingleses no baile, encantando-os, mas pedir qualquer ajuda a um deles estava fora de cogitação.

você — ela disse, beijando o pescoço da égua — é tudo o que me resta.

o

animal esfregou o focinho em seu rosto, retribuindo o carinho, mas

samantha nem conseguiu sorrir. uma mulher sozinha e sem dinheiro não tinha qualquer esperança de fuga, mas nada a deteria. e de forma nenhuma deixaria sundance. onde quer que fosse, sua amiga a acompanharia. se ela fosse um rapaz, poderia ir ao pântanos, juntar-se ao coronel marion e seus homens. o apelido de raposa do pântano fora dado a ele pelo adversário, tarleton, que o chamara daquele modo num momento de frustração por não conseguir apanhá-lo. o apelido pegara e os homens de marion, em vez de o acharem insultoso, haviam-no adotado com orgulho. os patriotas de toda a região gostavam de contar os feitos audaciosos da raposa, elevando-o quase ao nível de lenda, para desespero dos britânicos e do partido tory. samantha passou os dedos pelos longos cabelos. poderia disfarçar-se de rapaz e entrar para as fileiras de marion, onde, ela sabia, havia rebeldes que não passavam de meninos. um deles era filho do próprio coronel e já fora visto lutando ao lado do pai. vestida de homem, ficaria igualzinha a um jovem adolescente, se não fosse por aqueles cabelos exuberantes. seria possível colocar em prática aquela idéia louca? ela cavalgava tão bem quanto um homem e desde criança sempre tivera um dom notável para a representação e o disfarce, mas seria possível enganar um bando de soldados por muito tempo? animou-se quando pensou nas valiosas informações que tinha para passar ao coronel francis marion, porque hector ainda não tivera oportunidade de passar adiante tudo o que ela conseguira saber no baile. seria um bom passaporte. suspirou pensando nos cabelos longos e brilhantes. teria de cortá-lo e, tendo crescido numa fazenda de índigo, sabia que usando um pouco da planta para tingi-los, eles perderiam o brilho completamente. também passaria um pouco na pele, para deixá-la áspera. amarraria os seios e não precisava se preocupar com o resto do corpo, ainda bastante anguloso por causa do peso que perdera depois da morte de brendan, alimentara-se apenas para não morrer de fome, pois as refeições, como tudo em sua vida, já não lhe davam

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nenhum prazer. de repente, tomou uma decisão. iria embora naquela noite. primeiro, chegaria até a caverna, onde vestiria as roupas masculinas que já estavam lá.

depois, rumaria para snow island, o reduto da raposa do pântano. chegaria lá, de qualquer jeito. tinha de chegar. samantha pegou a tesoura e hesitou, olhando para sua imagem no espelho. por que seus cabelos pareciam tão maravilhosos naquela noite? talvez as coisas parecessem mais preciosas quando prestes a serem destruídas. as longas mechas brilhavam quando as escovava antes de dormir e a luz das velas apenas as deixavam mais encantadoras. pensou como brendan adorava seus cabelos e como costumava entrelaçar os dedos nos fios sedosos.

— brendan — ela murmurou. — por que você não está aqui comigo?

por mais que fizesse, nunca conseguia sufocar a dor surda e constante que a ausência dele lhe causava. criando coragem, inclinou-se por cima do tampo da penteadeira, aproximando o rosto do espelho e ergueu a tesoura. depois que começasse a cortar as mechas, não haveria volta. pensou em foxworth e no modo

possessivo com que ele tocara naqueles cabelos, poucas horas antes, quando fora visitá-la. quase gritara de repulsa, mas simplesmente afastara a cabeça, mantendo um sorriso gelado no rosto,

a admiração do oficial inglês pelos cabelos que brendan tanto amara

acabou por dar-lhe a coragem de que necessitava. agarrou um punhado dos fios brilhantes e, já sem nenhuma hesitação, começou a cortar. tosou as mechas deixando-as bem curtas, como as de um menino, ignorando a moda masculina que ditava cabelos pelos ombros, amarrados cuidadosamente na nuca. não podia imaginar quando faria novo corte e do modo como estavam, os cabelos demorariam bastante a crescer. deu-se por satisfeita. ia fazer papel de menino e um garoto não se importaria com a moda. o que restara dos cabelos magníficos continuava brilhante e lindamente ondulado, atribuindo à sua aparência muita feminilidade. pegou o frasco que enchera com uma mistura de índigo e água e esfregou o líquido marrom na cabeça. penteou os cabelos para trás e tornou a olhar-se no espelho, maravilhando- se com a transformação que sofrera. o rosto continuava delicado e finamente cinzelado, mas a bela pele macia também sofreria mudança radical. passou a líquido nas faces, no queixo e na testa, e daquela vez foi uma pessoa estranha que ela viu no espelho. não havia mais nada que lembrasse a jovem mulher de minutos antes. samantha se transformara num rapazinho do campo, de sorriso malicioso e pele morena e áspera. apenas as roupas destoavam, mas aquilo seria

remediado quando chegasse à caverna e trocasse o vestido rodado por calça e camisa.

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cuidadosamente apanhou os cabelos que caíram no chão, enrolou tudo num papel e colocou o embrulho na bolsa que levaria consigo. não podia deixar nenhuma pista de seus atos. depois, sentou-se à escrivaninha e preparou-se para escrever. mergulhou a pena no tinteiro e rabiscou palavras apressadas no papel fino e caro que tirara da gaveta.

"papai,

não posso me casar com o coronel foxworth. vou para o norte, onde pretendo ganhar a vida como governanta. não tente me encontrar. seria inútil.

samantha."

todas as outras pessoas da casa já se haviam recolhido muitas horas atrás. ela vestiu uma longa capa, colocando o capuz na cabeça tosada. olhou ao redor do quarto onde dormira durante toda sua vida até aquele momento. seu olhar caiu sobre um retrato em miniatura da mãe, pintado por um grande artista. sentiu-se tentada a levá-lo consigo, mas desistiu. se o vissem em seu poder, seria desmascarada. uma lágrima rolou pelo rosto artificialmente bronzeado, sem deixar sinal. a tintura aplicada sobre a pele resistia bastante à água. não havia tempo para recordações tristes. embrulhou-se na capa e abriu a porta do quarto silenciosamente.

não teve dificuldade alguma em sair da casa. conhecia cada centímetro do chão onde pisava e evitou as tábuas do assoalho que rangiam. em poucos instantes, achava-se no pátio dos fundos, de onde se dirigiu para as cocheiras. a lua cheia, como uma rainha, olhava friamente para a terra, iluminando tudo, enquanto as estrelas, aos milhões, rodeavam-na como súditos dedicados. normalmente, samantha pararia para admirar a beleza do céu, mas naquela noite desgostava-se com a luminosidade exagerada que clareava todos os caminhos, sem nenhuma discrição. devagarzinho, abriu a porta da cocheira onde deixava sundance e caminhou para a baia onde a égua, feliz por vê-la, relinchava baixinho. — quietinha — pediu num murmúrio, acariciando o focinho que procurava alcançá-la. — não tenho maçã, agora, sundance. começou a puxar o animal para fora da baia, consciente da imprudência de levá-la. todos nas redondezas conheciam a égua dourada, de raça pura, da fazenda dos chatham. mas seria impossível deixá-la. inventaria uma história qualquer para explicar a posse do animal.

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— onde vai com essa égua?

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a voz conhecida, mas inesperada assustou-a, deixando-a imóvel. os

tratadores de cavalos não passavam as noites nas cocheiras, a menos que um

dos animais estivesse doente.

— quem está aí? — hector perguntou, aproximando-se com um lampião que iluminou o rosto da moça.

— sou eu, hector! — ela gritou. — samantha.

ele estendeu a mão e puxou o capuz para baixo, expondo os cabelos curtos. soltou uma exclamação de espanto. reconhecia a voz da jovem, o

porte e a capa que vira tantas vezes, mas o rosto era estranho e a linda cabeleira desaparecera.

— srta. samantha! não posso acreditar!

ela sorriu satisfeita. se conseguira enganar hector, que crescera a seu

lado, enganaria qualquer outra pessoa. apagou o lampião com um sopro e pegou o escravo pelo braço, continuando a andar para a porta.

— sou eu mesma, hector. estou indo embora. não posso mais ficar aqui

com o homem que matou brendan e agora quer me forçar a casar com alguém

que desprezo.

— mas aonde vai?

— e melhor não saber. — de repente, ela preocupou-se com o jovem, — meu pai sabe que você está na cocheira a estas horas?

— não. damen estava inquieto e vim ver o que ele tinha. a senhorita sabe como gosto desse cavalo. ela sorriu.

— sei, sim. bem, se meu pai não imagina que você está aqui, não pode

saber que me viu, portanto não haverá perigo de represálias. — bateu com carinho no ombro do escravo. — preciso ir. sempre me lembrarei de você e maudie. diga a ela que eu a amo. temerosa de que a coragem a abandonasse, a jovem levou o animal para trás de um grupo de árvores e passou-lhe as rédeas pelo pescoço. jogou um cobertor no lombo da égua e olhou em volta, procurando um lugar para subir e montar. encontrou um tronco caído e, com um salto gracioso, montou. murmurando palavras de carinho para sundance, partiu em trote largo para a caverna. samantha calculou que faltavam cerca de três horas para amanhecer quando alcançou seu destino. ficaria na caverna apenas o tempo necessário para pegar as roupas escondidas ali havia mais de um ano e a pulseira de sementes que brendan fizera para ela. passando uma perna por cima do lombo de sundance, escorregou

cuidadosamente para o chão. sabendo que a égua não fugiria, amarrou as rédeas frouxamente a uma árvore, para que o animal pudesse pastar à

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vontade. tirou a capa pesada e pegou a bolsa de viagem que continha os

cabelos cortados, fósforos, velas e comida. a seguir, entrou na caverna escura. o luar não atravessava a cortina de vegetação que cobria a entrada e tudo estava imerso na mais completa escuridão. ela tropeçou e a bolsa voou de suas mãos. nervosa, abaixou-se para procurá-la e apalpou o chão. não podia perder tempo, pois planejava continuar viagem antes do nascer do sol. subitamente sua mão tocou algo macio e ela retraiu-se, assustada. a seguir, criando coragem, voltou a tocar o objeto e percebeu tratar-se de um corpo humano. pegou um pé que não se moveu, mas tinha calor, de modo que ela deduziu que a pessoa estava viva. continuou a procurar a bolsa e finalmente encontrou-a. mexeu no conteúdo até achar as velas e os fósforos e sem perda de tempo riscou um dos palitos de encontro à parede rochosa da caverna. encostou a chama no pavio de uma das velas, acendendo-a. cautelosamente, aproximou-se do corpo estirado no chão e quando se inclinou a luz bruxuleante bateu num rosto pálido e barbado. não conseguiu sufocar uma exclamação de espanto profundo ao reconhecer connor 0'neill. ajoelhou-se ao lado dele.

— connor — murmurou, desolada. — o que fizeram com você?

ela fez a luz da vela percorrer o longo corpo magro e coberto de trapos. a camisa estava empastada de sangue e no lado do tórax a mancha estava úmida e quente. ele ainda sangrava. quando a luz alcançou os pés, ela estremeceu vendo uma argola de ferro soldada ao redor de um dos tornozelos. ele gemeu, e ela levou uma das mãos ao rosto maltratado, acariciando-o levemente.

— connor?

sua pergunta ansiosa caiu no silêncio e ela percebeu que ele estava inconsciente. o rosto era gelado ao tato, apesar da temperatura razoavelmente quente daquele final de outubro. — oh, connor, o que devo fazer? ela procurou lembrar-se dos textos dos livros de medicina. como a maioria das senhoras das fazendas, muitas vezes fora chamada para dar assistência aos escravos doentes, mas seu conhecimento não passava de simples noções sobre o uso de ervas para a febre e de compressas para curar cortes. o pai sempre chamara o médico para tratar de ferimentos e doenças mais sérias. ela sabia, porém, que a queda de temperatura do corpo advinha depois de grande perda de sangue e que geralmente prenunciava a morte.

calor. era de calor que ele precisava. derramando um pouco de cera derretida no chão, fixou a vela e correu para fora. tirou o cobertor

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estendido de sobre o lombo de sundance e pegou todos os gravetos secos que pôde carregar. de volta ao interior da caverna, acendeu uma pequena fogueira e cobriu connor com o cobertor ainda quente do corpo de sundance. depois, procurou as duas trouxas de roupas ali guardadas para a fuga com brendan e vestiu

trajes masculinos, pensando o tempo todo no que poderia fazer para ajudar connor, finalmente resolveu que teria de voltar a chatham oaks e falar com hector. ele poderia pegar alguns remédios guardados por maudie e entrar em contato com um dos homens do coronel marion. talvez a raposa do pântano mandasse um médico e levasse o ferido embora. uma vez ouvira dizer que connor já cavalgara ao lado do chefe dos rebeldes e marion era conhecido por sua lealdade aos amigos. já transformada num rapazinho imberbe, ela ajeitou o cobertor ao redor do corpo de connor e soprou a vela. chegou a chatham oaks pouco antes da alvorada. amarrou sundance num lugar escondido e deslizou silenciosamente por entre as árvores, chegando às cabanas dos escravos. procurou a porta de hector e bateu de leve. o rapaz atendeu quase que imediatamente. pela segunda vez, em questão de horas, olhou-a assombrado. ela entrou depressa e encarou-o. — você precisa me ajudar, hector. encontrei connor o'neill. ele está

na caverna. quero que consiga remédios e faça chegar

um recado ao coronel marion.

gravemente ferido

falava apressadamente e seu rosto mostrava profunda angústia. subitamente, deixou-se cair sentada no chão e escondeu o rosto nas mãos.

— ele vai morrer, hector, e não posso suportar essa idéia. não posso. não agüentarei a morte de mais um o’neill. o jovem escravo estendeu as mãos para ela, ajudando-a a se levantar.

— não se desespere, senhorita. vou buscar remédios com maudie. fique aqui, quietinha. dentro de minutos, o rapaz retornava com um pacote nas mãos.

— não disse a ela que a senhorita estava aqui. apenas expliquei que havia uma pessoa doente. — obrigada, hector.

— e melhor a senhorita ir embora. quando seu pai acordar vai mandar

todos os escravos saírem à sua procura. vou mandar o recado ao coronel marion. não se preocupe. hoje à noite alguém irá à caverna ajudá-la. ela olhou para o rosto escuro, onde se via preocupação verdadeira. sorriu,

sabendo que podia confiar nele. explicou com precisão como se chegava à caverna.

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— hector — ela finalizou —, preciso de um balde e de sabão. ele não discutiu, pegando o próprio balde, onde colocou bastante sabão de cinza e o pacote com remédios que conseguira de maudie. — obrigada — ela murmurou, segurando o balde com as duas mãos. — nunca me esquecerei de você, hector. ele abriu a porta e ficou olhando o vulto miúdo desaparecer entre as árvores.

quando samantha chegou à caverna, a tímida luz do sol já se filtrava para dentro do lugar. um novo dia começava, e nas próximas horas a região ficaria tumultuada com as buscas que certamente seriam feitas. haveria grupos procurando por ela e outros perseguindo connor. deixar sundance fora seria o mesmo que sair gritando para chamar a atenção, de modo que ela levou a égua para dentro, contente por haver bastante espaço para todos. foi um pouco difícil fazer o animal passar pela entrada estreita, mas depois o lugar alargava-se, entrando pela colina. a fogueira que ela fizera reduzira-se a brasas e connor continuava deitado na mesma posição em que o deixara. tocou o rosto dele e sentiu a pele um pouco mais morna, o que lhe reavivou as esperanças. ela não atiçou o fogo, deixando as brasas se apagarem, pensando que a fumaça poderia ser vista à luz do dia. esvaziou o balde e foi até o rio buscar água, voltando rapidamente. aqueceu um pouco de água numa pequena vasilha, colocando-a sobre as brasas que morriam devagar e juntou cerca de uma colherada de goma extraída do tronco do álamo branco. rasgou um pedaço do vestido que usara naquela noite e fez uma compressa com o líquido grosso, aplicando-a sobre o ferimento nas costelas de connor. o corpo estremeceu sob o estimulo da dor e um gemido escapou dos lábios descorados. aos poucos, os músculos relaxaram e samantha percebeu que a poção já exercia um efeito sedativo sobre a ferida. com a claridade do dia, foi possível examinar melhor a figura do homem mergulhado na inconsciência. a moça nunca vira alguém tão sujo, mas aquilo não tinha importância. ela se lembrava do rosto bronzeado do sol, dos cabelos de um belo tom claro de castanho, dos olhos cinzentos e expressivos. as faces agora estavam emaciadas e a pele esticava-se sobre os ossos. o corpo que já fora robusto mostrava-se extremamente magro e coberto de cortes, arranhões e picadas de insetos infeccionadas. a argola de ferro ao redor do tornozelo lacerara a carne e enquanto ele vivesse carregaria as cicatrizes daquela humilhação. ela encheu-se de compaixão. como alguém poderia infligir tanto sofrimento a outro ser humano, esquecendo-se de todas as leis de amor ao próximo? e que força sobrenatural manteria um homem vivo depois de

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tantos reveses? pegou outro pedaço do vestido rasgado, o balde com água e um pedaço de sabão e sentou-se perto dele. delicadamente começou a lavá-lo, começando pelo rosto e descendo para o peito, limpando bem a área que contornava o ferimento. não se atrevia a esfregar muito, receando provocar dor, mas uma boa camada de sujeira saiu no pano molhado e ele se sentiria melhor quando acordasse.

aquele pensamento a fez imaginar o que aconteceria depois. não sabia o que lhe diria e nem como explicaria sua presença na caverna. lembrou-se das palavras duras que ele lhe dirigira no dia do duelo. ele certamente se tornara ainda mais revoltado e cheio de ódio depois que o pai morrera no meio de tormentos provocados por robert chatham, o mesmo homem que matara brendan e de quem ela tinha a infelicidade de ser filha. depois de limpá-lo da melhor forma possível, samantha encostou-se à parede da caverna. não dormira a noite toda e sentia-se exausta. dentro de alguns minutos, mergulhou em sono profundo. acordou ouvindo a voz de connor. ele remexia-se embaixo do cobertor e tinha os olhos abertos, mas sem nenhuma expressão. samantha compreendeu que delirava. tocou o rosto agitado e a pele estava gelada.

— chatham

eu vou matá-lo

destruí-lo

acabar com todos os chatham

oh, brendan. papai!

samantha sentiu-se vergastada pelo ódio que havia na voz dele, mas recobrou-se do choque. ele obviamente piorara muito e precisava de cuidados. o homem delirante tremia a despeito do calor do dia e do cobertor. não havia mais nada que ela pudesse usar para aquecê-lo, além da capa, que também não seria suficiente. com um pensamento repentino, decidiu que o aqueceria com seu próprio corpo. deitou-se ao lado dele, ignorando o mau cheiro que emanava dos trapos que o envolviam. abraçou-o e pôs-se a acariciá-lo, procurando acalmar sua agitação. aos poucos, o tremor diminuiu e ele relaxou. por sua respiração compassada, notou que ele caíra num sono normal. logo depois, dormia também. quando samantha despertou, viu que connor virara de lado e a apertava nos braços. olhou para o rosto mais tranqüilo, percebendo que ele não tinha consciência do que fazia, mas mesmo assim experimentou uma sensação perturbadora com sua proximidade. devagar e com cuidado, desvencilhou-se do abraço. a camisa se abrira no peito e seus seios apareciam. se ele acordasse e a visse daquela maneira, descobriria que não se tratava de um

rapaz. rasgou mais um pedaço do vestido e improvisou uma faixa, que passou ao

chatham pagará por tudo

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redor dos seios, achatando-os. vestiu a camisa de pano grosseiro marrom e deu-se por satisfeita com a silhueta esbelta de garoto. depois, juntou o que restara do vestido, as roupas de baixo, tão femininas, as mechas de cabelo e saiu da caverna. alerta, pronta a perceber qualquer ruído estranho, enterrou tudo. nada mais restava de samantha chatham.

capÍtulo iv

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connor acordou no meio da tarde e samantha logo percebeu seus movimentos cautelosos. virou-se a tempo de ver os olhos cinzentos se abrirem e vagarosamente examinarem a caverna. finalmente pousaram no

rapaz que o fitava com preocupação. o ferido quis virar-se e mordeu os lábios para não gritar de dor. todo o seu lado esquerdo ardia como fogo. fechou os olhos agoniados e quando a dor diminuiu, tornou a olhar para o rapazinho.

— quem é você? como encontrou este lugar?

— minha égua o encontrou — samantha improvisou. — veio para estes lados e escutei seus gritos. encontrei-o quase morto.

— o homem sacudiu a cabeça,

confuso. — devo ter sonhado.

— você

você cuidou de mim? pensei

— pensou o quê?

— nada. obrigado por ter me ajudado.

— não precisa agradecer. teria ajudado qualquer outra pessoa. ah, mandei recado para a raposa.

— mais uma vez, obrigado. eu não teria forças para chegar lá.

ele sorriu e ela sentiu uma onda de ternura ao ver como o sorriso se parecia com o de brendan.

— está precisando de um banho, senhor — ela disse para disfarçar a

emoção. — tentei lavá-lo, mas tive medo de machucá-lo. connor tornou a sorrir. — tem razão. estou cheirando mal. — apontou para o balde. — ainda há

água? ela concordou, balançando a cabeça e levou o balde até ele, juntamente com o sabão.

— encontrei algumas roupas aqui na caverna, senhor. pegou o pacote e

ofereceu-o a connor, cujo rosto se ensombreceu ao reconhecer as roupas do irmão. então, seu olhar captou a expressão prestativa e satisfeita do rosto do rapaz e sorriu aquecido.

— você vive fazendo milagres? — brincou. — como se chama?

— sam

— tem família?

sam taylor — ela gaguejou.

— estão todos mortos. os ingleses mataram minha família e agora vou me reunir ao coronel marion. connor examinou o rostinho solene.

— você é muito jovem, rapaz.

— mas atiro tão bem quanto qualquer homem. cavalgo bem e até roubei um

cavalo, na verdade uma égua, de um tory idiota e gordo. além disso, já ouvi

que há rapazes da minha idade lutando ao lado de marion e outros, mais jovens ainda, no exército de washington.

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a despeito do desconforto físico, connor estava se divertindo e precisou

refrear um sorriso para não magoar o garoto que se dava ares de soldado. uma coisa era certa, porém. o rapaz era esperto e sabia resolver problemas. cuidara dele com habilidade e conseguira fazê-lo melhorar. estivera bem doente e tivera crises de delírio. e em suas visões vira uma mulher perto dele, o que naturalmente era completamente impossível. no entanto, lembrava-se do doce calor de um corpo feminino junto ao seu. ele puxou o balde e o sabão e começou a lavar-se desajeitadamente, depois de tirar a camisa em farrapos. quando tentou tirar a calça, fez uma careta de dor e gemeu, percebendo que não seria possível curvar-se.

— sam — ele chamou.

o "rapaz" lhe dera as costas e ao ser chamado virou o rosto levemente, sem encará-lo.

— pode me ajudar a tirar a calça, sam?

— eu?

— não vejo mais ninguém aqui — connor respondeu com um sorriso.

com relutância, samantha aproximou-se dele e ajoelhou-se a seu lado,

começando a desabotoar as calças, contente por causa da pintura do rosto que disfarçava o intenso rubor que lhe subia às faces. depois, desviou o olhar quando o homem ergueu os quadris e ela começou a puxar a calça rasgada para baixo.

— tire a ceroula também, por favor. quero tomar um banho completo — ele pediu.

ela sabia que seu rosto devia estar em fogo e achou que nem mesmo a tintura de índigo conseguiria disfarçar a prova de sua extrema timidez.

— vai pegar um resfriado — ela avisou, com esperança de que ele

desistisse.

— você mesmo me disse que eu estava precisando de um banho, sam —

connor ponderou, entregando-lhe a faca que pegara depois da luta com os

soldados.

— não precisa tirar com tanto cuidado. corte o tecido e arranque tudo.

ela fechou os olhos e começou a cortar o pano, mas teve de olhar para evitar algum acidente e profundamente encabulada procurou pensar em outra coisa. mas não era possível ignorar os detalhes do corpo masculino e ela suspirou de alívio quando a ceroula foi atirada para longe. só que sua provação ainda não terminara. incapaz de virar-se e esfregar o corpo, connor pediu-lhe que o ajudasse no banho. ansiosa por acabar logo com a tarefa, ela tornou-se bastante diligente e mais rude do que pretendera. o doente resmungou várias vezes, quando esfregou com força demais a pele machucada e picada de mosquitos. cada minuto foi uma agonia. a despeito da magreza, o corpo refletia a disciplina

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de vários anos de trabalho árduo. os músculos continuavam rijos e quando se recuperasse dos horrores por que passara, ele iria readquirir o porte robusto e bem-feito. samantha não olhava para o seu sexo, morreria de vergonha se o fizesse. tinha noções rudimentares sobre as relações entre os sexos porque afinal crescera no meio de animais e assistira a muitos cruzamentos, mas nunca vira um homem nu. brendan e ela haviam decidido esperar até que estivessem casados para experimentar a maravilhosa aventura da entrega, e ela lamentava não haver cedido aos impulsos que a faziam desejar um relacionamento íntimo com ele. finalmente o banho terminou e ela ajudou-o a vestir as roupas de brendan. normalmente ficariam muito apertadas nele, mas pendiam soltas no corpo emagrecido e connor precisou amarrar um cordão na cintura para ajustar a calça. samantha tornou a sair da caverna com muita cautela e logo depois retornava com outro balde de água. lavou então os cabelos castanhos pacientemente, ensaboando e enxaguando repetidas vezes, até certificar-se de que tirara todos os piolhos. absorvida pelo que fazia, não notou os olhares intrigados que ele lhe lançava. finalmente, com um sorriso satisfeito, ela declarou-o apto a conviver com outros seres humanos e ele sorriu de prazer ao sentir-se razoavelmente limpo pela primeira vez em meses. coçou a barba crescida, mas ao pensar nos arranhões de sam, durante o banho, desistiu de pedir-lhe que o barbeasse. o ferimento ainda o incomodava bastante, mas já estava se sentindo melhor e acabaria por curar-se rapidamente. o mais importante de tudo, porém, era que estava livre e um dia vingaria a destruição da família 0'neill. a expressão de connor mudou e um músculo palpitava tenso em uma das faces. samantha notou-lhe a inquietação e até imaginou o motivo. aquele homem estava cheio de ódio. ela ergueu-se do chão e pegou o pão com carne que trouxera na bolsa. ofereceu a maior parte do simples jantar ao ferido, sabendo que ele precisava de alimento muito mais que ela. ele resistiu, exigindo que tudo fosse dividido em partes iguais. — você precisa engordar um pouco se deseja lutar ao lado de marion. ele não gosta de magricelas — connor brincou. percebendo que ele se recusaria a comer se ela não aceitasse uma divisão justa, samantha cedeu, apesar de não estar com fome. uma nova preocupação juntara-se às outras. a raposa do pântano não a aceitaria em suas fileiras por causa de seu corpo franzino? o que faria se não pudesse integrar o regimento rebelde? samantha olhou para connor, que dormia pacificamente. os cabelos

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grossos e ajeitados, castanho-claros, estavam crescidos demais para o gosto dele, que nunca os usara compridos, como ditava a moda. reclamara um pouco, mas como não havia jeito de cortá-los, acabara deixando que ela os amarrasse na nuca, usando um cordão. o rosto quase totalmente encoberto pela barba mostrava tranqüilidade e alívio. ele devia estar quase morto de cansaço depois de uma fuga de cinco dias pelo meio do mato. escorregando para o chão da caverna, encostada à parede, ela estudou sua própria situação. não tinha dúvidas de que naquela noite alguém do acampamento de marion chegaria à caverna. hector era de confiança e faria tudo para cumprir o que prometera. ela inclinou a cabeça para trás, apoiando-a na parede de pedra. o coronel marion não podia deixar de aceitá-la, porque ela desfizera todos os

caminhos de volta para a vida antiga. precisava continuar o que começara, embora soubesse que não seria fácil. haveria coincidências demais. samantha chatham desaparecera e sam aparecera na caverna que a moça conhecia. arrependia-se de não haver usado outro nome, mas "sam" aparecera em sua mente como sendo o mais lógico e já era tarde para trocar. e, depois, havia sundance. quando connor vira a égua, no fundo da caverna, depois que já se recuperara o bastante para concentrar-se no que se passava ao seu redor, ficara tenso, reconhecendo o animal imediatamente.

— onde você conseguiu essa égua? — perguntara, ríspido.

— num pasto, não muito longe daqui. e roubei as rédeas de urna cocheira,

mas não achei nenhuma sela. e nem preciso de uma. monto muito bem. naquele momento, sundance esticara o pescoço para roçar o focinho nas costas da moça e ele franzira a testa. — parece amigo e acostumado demais com você, para um animal que foi roubado. ele parecia intrigado, mas não desconfiado da verdade.

— sempre tive muito jeito para lidar com animais. papai vivia dizendo isso.

connor relaxara e um largo sorriso aparecera no rosto cansado. — sabe que essa égua é premiada e pertence ao maior tory, das carolinas? tem bom gosto, sam! — elogiara, rindo. samantha soltara um risinho zombeteiro, mas nada comentara, não desejando forçar sua boa sorte. sorte. era o que mais precisava, embora duvidasse que alguém pudesse associar a fina e bem-educada jovem, filha de um tory rico, com um rapazinho mal vestido ligado aos rebeldes. tentaria ficar longe de connor, o

único que a conhecera em sua vida anterior, mas pensando no encanto daquele homem e no seu sorriso simpático, percebeu que ia ser difícil.

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algo muito terno e suave despertara nela uma atração que pensara jamais voltar a sentir por alguém, mas talvez fosse apenas o velho sentimento de amizade que sempre dedicara ao irmão de brendan. pensativa, acabou por cochilar. quando tornou a abrir os olhos, samantha viu que a luz do dia fugia da caverna e que o dia aproximava-se do fim. dentro de algum tempo receberiam a visita de um enviado de marion.

ouviu connor mexer-se e foi até ele, oferecendo-lhe água. o homem sentou-se devagar, gemendo de dor. ela mal podia ver a expressão do rosto sofrido, já quase encoberto pelas sombras.

— quanto tempo dormi? — perguntou ele.

— a tarde toda. sente-se melhor?

— sim, graças a você. ainda sinto dor, mas estou mais animado. tem

certeza de que marion virá?

— não tenho certeza de nada. apenas mandei um recado. ele riu.

— franqueza é o que não lhe falta, não é, sam?

ela não respondeu e os dois ficaram em silêncio até que a noite caiu de

todo. samantha, então, saiu para esperar.

chegaram tão silenciosamente que samantha apenas os viu quando já estavam na frente dela. hector, ao lado de dois homens, fitou-a com

indiferença, não dando o mínimo sinal de reconhecê-la e a moça abençoou por ser tão bom ator.

— esse é o rapaz que me avisou sobre o sr. o'neill — o escravo explicou.

os homens vestiam calções até os joelhos, feitos de tecido grosso, e calçavam meias compridas e botinas que chegavam ao meio das canelas. as jaquetas desciam até os quadris e eram em couro, assim como os bonés, que ostentavam fitas brancas. enquanto samantha os examinava, eles também a inspecionavam cheios de

suspeita. haviam considerado a hipótese de uma armadilha, mas os dois eram amigos de connor e não queriam deixar de prestar-lhe auxílio, acabando por arriscar-se. o mais alto deles encarou-a de testa franzida.

— onde está 0'neill?

ela apontou para as moitas e trepadeiras que encobriam a entrada da

caverna.

— lá dentro.

— vá na frente — o homem comandou.

ela deslizou pela abertura e os homens a seguiram. um deles riscou um fósforo e ergueu o longo palito no ar, olhando em volta. a moça rapidamente pegou uma vela e acendeu-a no fósforo. a luz mais forte atingiu connor, que

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esforçava-se para sentar-se. o homem que falara com samantha sorriu e alcançou o amigo com duas passadas, colocando as mãos em seus ombros.

— connor! bom deus, pensávamos que você estivesse morto! nem imagina

como estamos contentes em revê-lo. você sabe como francis é durão. pois

até ele sorriu quando soube das novidades. todos achávamos que você não havia agüentado o horror do navio e no princípio receamos que o recado fosse uma armadilha — o homem despejou, excitado. o sorriso de boas-vindas do ferido murchou.

— eu agüentei, mas meu pai morreu. e eu teria morrido aqui nesta caverna

se não fosse pelo sam. estou contente em vê-lo, peter.

peter horry tomou a vela da mão e ergueu-a sobre connor. estudou o rosto pálido e o corpo magro.

— aqueles malditos ingleses — murmurou entre os dentes cerrados de

raiva. — desgraçados!

— e aquele maldito robert chatham! — connor completou com amargura.

— acho bom ele começar a tremer, porque minha vingança será cruel. a expressão de peter mudou. conhecera connor no início da guerra e

sempre respeitara seu autocontrole e seu temperamento calmo. aquele era outro homem, amargo e cheio de ódio, que ele não gostaria de ter como inimigo.

— não deixe que francis marion o escute. ele não gosta de atitudes

pessoais na luta contra nossos adversários.

— chatham destruiu tudo o que eu amava — connor justificou-se. — nada me deterá. peter sabia quando devia mudar de assunto.

— davey está comigo — explicou. — e trouxemos um médico também, que

ficou perto do rio enquanto vínhamos saber o que realmente se passava por

aqui. connor sorriu para o outro homem que se aproximava: nada disseram, mas

o forte aperto de mão que trocaram expressou a forte amizade que nutriam. peter desapareceu para voltar poucos minutos depois com um homem sobriamente vestido de preto.

— dê uma olhada nele, doutor, e veja se pode cavalgar. connor submeteu-

se ao rápido exame e mordeu o lábio inferior quando o médico tocou a área

ao redor do ferimento.

— você está em boa forma, considerando-se o tempo que passou naquele

inferno — o homem declarou espantado. — o ferimento ainda vai doer por algum tempo, mas se tomar bastante cuidado, poderá montar. o que puseram

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na ferida?

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o ferido sorriu e olhou para sam.

— pergunte a ele, doutor. foi sam quem fez o curativo. fez muito mais.

lavou-me, limpou minha cabeça, deu-me de comer e me manteve aquecido.

como sabia que devia mantê-lo aquecido, rapaz? — o médico perguntou.

já vi fazerem isso em outros feridos.

o

médico tornou a olhar para connor.

— o garoto salvou sua vida. depois de uma perda de sangue muito intensa, os pacientes geralmente apresentam queda de temperatura. se não são socorridos, podem morrer. você teve sorte.

— eu sei, doutor.

a seguir, o médico passou uma atadura limpa ao redor do corpo do

paciente, protegendo o ferimento e entregou-lhe um frasco de poção

destinada a acelerar o processo de cura. peter horry e davey ajudaram connor a pôr-se de pé.

— o que vamos fazer com ele? — peter perguntou, fazendo um gesto de cabeça na direção de samantha.

— quero ir com vocês — ela declarou, procurando não demonstrar ansiedade.

homem sacudiu a cabeça. sinto muito, rapaz, mas você é jovem demais. além disso, marion ficaria furioso se levássemos um estranho.

viu

profundo desespero nos olhos azuis. o garoto lhe salvara a vida e chegara o momento de retribuir o favor.

— ele vai comigo — disse simplesmente. — além de ser meu amigo, é um

endiabrado ladrão de cavalos. roubou a égua favorita dos chatham. É um

talento que podemos aproveitar. peter tornou a examinar o vulto franzino e depois olhou para sundance, meio escondida pelas sombras.

o

connor olhou para o rosto de sam, iluminado pela

luz da vela,

e

— se o levarmos, terá de ir vendado — disse, ainda em dúvida. connor concordou balançando a cabeça.

— trouxeram um cavalo para mim? — perguntou.

— claro. não íamos obrigá-lo a andar — peter respondeu rindo.

— sam pode ir na garupa do meu cavalo, para me ajudar, e levaremos a égua pelas rédeas.

o rosto de samantha iluminou-se num sorriso de agradecimento.

— os casacas-vermelhas estão por toda a parte — peter avisou. —

precisamos ter muito cuidado. — olhou para sam. — nada de conversas, sim?

connor sorriu divertido.

— não precisa se preocupar com ele, peter. meu amigo fala ainda menos

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que davey, quando já estavam fora da caverna, hector apareceu com quatro cavalos e todos ajudaram connor a montar no que lhe fora destinado. samantha esperou pacientemente que a venda fosse colocada em seus olhos e a seguir foi erguida para a garupa do animal montado por connor. observou hector amarrar sundance na argola que havia atrás da sela do cavalo deles e abraçou-se à cintura de connor para firmar-se. quando o grupo sumiu por entre os velhos ciprestes, hector silenciosamente retomou o caminho de chatham oaks. apesar da decisão de manter-se longe de connor, samantha estava adorando aquela proximidade que lhe dava segurança e calor. era uma experiência estranha, cavalgar com os olhos vendados, e aquilo a fazia concentrar-se mais em seus pensamentos. tinha a impressão de que ela e connor eram as duas únicas pessoas existentes no mundo e saboreava aqueles momentos sabendo que eles poderiam nunca mais repetir-se. nem podia pensar que um dia connor descobriria sua verdadeira identidade e a desprezaria, envolvendo-a no ódio que sentia por robert chatham. revoltava-se contra os atos do pai, mas, embora desejasse poder odiá-lo também, não conseguia. ele nunca fora um pai carinhoso e, quando criança, ela fizera de tudo para agradá-lo, sem nunca receber um beijo, um afago, ou uma simples palavra de elogio. imaginou o que ele faria a respeito de sua fuga. sem dúvida alguma, as buscas seriam mantidas em segredo, pois o orgulho de robert jamais permitiria que ele revelasse o atrevimento da filha. sem falar que procuraria manter o coronel william foxworth na ignorância do fato, para não correr o risco de arruinar seus planos de casamento para os dois. de qualquer forma, mesmo tendo certeza de que o pai seria discreto ao procurá-la, samantha teria de ser muito cuidadosa. já cometera erros perigosos, começando com aquela bobagem do nome. também fora negligente o bastante para não disfarçar os seios e connor poderia ter despertado e descoberto tudo. de repente, não suportou mais pensar em sua difícil situação. dormira muito pouco nos dois últimos dias e a fadiga começava a vencê-la. tentava manter-se ereta no lombo do cavalo, mas sua mente e seu corpo não eram mais capazes de obedecer-lhe. desistindo de lutar contra o sono, apoiou a cabeça nas costas de connor e cochilou. connor também sofria desconforto. ainda estava muito fraco e com dor, mas reanimava-se pensando que cada passo o levava para mais longe do perigo de ser novamente aprisionado. olhou para o céu e achou que nunca vira noite mais bela. a lua brilhava serena, um pouco velada por nuvens brancas que lembravam retalhos de renda. a brisa soprava murmurando na folhagem dos ciprestes enormes, trazendo o perfume da terra e dos

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bosques. finalmente voltara para o lugar que mais amava no mundo. sentiu as mãos de sam escorregarem para os seus quadris e o peso da cabeça pequena contra as costas. sorriu emocionado. era um rapaz estranho, solene e calado, tão determinado a ser um soldado. todavia, deixava transparecer uma grande bondade de coração e uma tristeza talvez ainda maior que a sua. devia a vida àquele garoto e sempre o protegeria. satisfeito com aquela decisão, concentrou-se na longa estrada.

capÍtulo v

samantha acordou sobressaltada com o assobio agudo e penetrante que cortou a madrugada. connor, que se largara na sela, também endireitou o

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corpo. ela tentou adivinhar as horas, mas a venda a impedia de ver a mais tênue claridade. pelo ar frio e pelo silêncio pesado que reinava no lugar, julgou que a noite chegava ao fim. mexeu-se inquieta e recolocou as mãos ao redor da cintura do companheiro de viagem. — logo amanhecerá, sam, e estamos chegando. as mãos dela crisparam-se nervosas e connor sentiu uma onda de piedade. por mais corajoso que sam se forçasse a ser, devia estar assustado ao chegar de olhos vendados num campo militar, sem saber o que se passava ao seu redor. sorriu de leve, pensando que o amigo se ofenderia se pudesse ler seus pensamentos. o sorriso, porém, transformou-se numa careta quando sentiu uma pontada lancinante no ferimento. a longa cavalgada tornara-se um pesadelo nas últimas horas e ele ansiava por vê-la terminada. já estivera no acampamento de marion. a base, em snow island, era amplamente protegida por grupos de patrulha que formavam dois grandes círculos ao redor da área. no círculo de fora, maior, os patrulheiros cavalgavam, e no de dentro andavam a pé. o lugar era cercado por um pântano e marion conhecia centenas de caminhos através dele, mas a maior parte do terreno mostrava-se impenetrável. os soldados ingleses sempre acabavam frustrados em suas tentativas de alcançar o acampamento.

connor seguiu os companheiros para o recesso mais escondido da ilha, sentindo que olhos invisíveis acompanhavam todos os seus movimentos. finalmente atingiram uma pequena clareira pontilhada por fogueiras já agonizantes e connor virou-se para desamarrar a venda dos olhos de sam, que olhou para tudo, espantado. o sol ainda não nascera e a fraca claridade da madrugada não atravessava as frondes espessas dos ciprestes ou o cortinado formado pelas plantas que subiam pelos troncos entrelaçando-se umas nas outras. a copa majestosa das árvores juntavam-se num abraço centenário e vistas de baixo pareciam as cúpulas das igrejas góticas que samantha vira em livros. a fumaça das fogueiras dançavam no ar acrescentando toques de mistério à beleza do lugar. com a sensação de estar num lugar ao mesmo tempo mágico e rude, ela desmontou e ajudou connor a descer, mas ele quase caiu ao colocar os pés no chão. ela o amparou e ficou abraçada a ele, dando-lhe apoio, até que um grupo de homens aproximou-se, liderado por um soldado que vestia uma túnica escarlate muito justa. um boné de couro preto ostentava uma lua crescente de prata onde as palavras "liberdade ou morte", apareciam gravadas. seu ar de autoridade fez samantha adivinhar que se tratava do coronel francis marion, a raposa do pântano, e olhou para ele com grande espanto. o

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homem não era muito mais alto que ela nem muito mais robusto. o corpo,

embora magro, dava a impressão de ser feito de ferro. a pele curtida era saudável e o nariz aquilino projetava-se sobre o queixo proeminente. porém, o que mais impressionava, eram os olhos. negros e penetrantes, irradiavam poder, e samantha compreendeu por que seus homens os seguiam sem vacilar, nas mais arriscadas e audaciosas investidas contra o inimigo. marion olhou de samantha para connor e um leve sorriso crispou os lábios finos, enquanto ele pegava o amigo pelos ombros.

— seja bem-vindo, connor.

percorreu o recém-chegado com seu olhar agudo e franziu a testa ao notar a argola de ferro presa a um dos tornozelos.

— vamos tirar isso daí e logo — disse. — depois, teremos de engordá-lo.

marion voltou a sorrir, mas aquela vez foi um sorriso gentil e aberto.

— e o rapaz aqui, o que faz?

— e um excelente ladrão de cavalos — connor explicou sorrindo. — e um

bom samaritano. roubou um dos animais de robert chatham e depois me encontrou, salvando-me a vida.

— então devo agradecer-lhe o trabalho que teve, rapaz — marion disse a

ela. — connor e eu somos amigos há muitos anos e fico feliz em vê-lo com

vida. o coronel voltou a olhar para o amigo, de maneira reprovadora. — por que trouxe o garoto para cá, connor?

— o pai de sam foi assassinado pelos ingleses. o rapaz pretendia vir

procurá-lo quando me encontrou, para alistar-se em suas fileiras. tudo o que ele quer é ser um rebelde sob seu comando, francis.

— É quase uma criança.

— você já tem alguns de apenas catorze anos. e posso jurar que sam é fantástico para lidar com cavalos. eu me responsabilizo por ele.

— sabe atirar, rapaz?

— sim, senhor.

marion virou-se para um dos soldados.

— entreguem um rifle ao garoto.

samantha pegou a arma que lhe apresentaram e examinou-a para ver se estava corretamente carregada. sopesando-a, para avaliar a força que teria de usar nas mãos para segurá-la na hora de atirar, olhou para marion, que apontou para um galho baixo de uma árvore a uns cinqüenta metros de distância. mirando cuidadosamente, puxou o gatilho. a clareira foi abalada pelo estampido e samantha viu, com satisfação e orgulho, o galho partido pender

para o chão. marion bateu-lhe no ombro.

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— muito bem, rapaz, mas se quiser me seguir terá de obedecer a minhas

ordens à risca. nada de inventar proezas por sua conta, entendidos?

— entendidos — ela replicou, lacônica.

o coronel francis marion continuou a fitá-la com seus olhos perguntadores.

— atirar num homem não é o mesmo que atirar num coelho. É um ato com

o qual você nunca se acostuma e que o perseguira pela vida inteira use a

arma com prudência e sempre com o objetivo de defender-se ou de proteger seus companheiros.

— sim, senhor.

— então, seja bem-vindo ao meu regimento — disse marion, virando-se

para connor. —vocês dois estão precisando dormir. vou mandar um ferreiro tirar essa argola do seu pé, mas antes tratem de comer. há batatas-doces assadas e carne salgada. sirvam-se logo ou ficarão sem. connor percebia que sua resistência se esgotara. quase não conseguia

manter-se de pé para saudar velhos amigos que chegavam para vê-lo. finalmente, cambaleou para perto de uma árvore e escorregou para o chão, apoiando as costas no tronco. samantha observava-o preocupada e quando outro homem ia aproximar-se dele, ela o impediu.

— connor precisa dormir. fale com ele depois.

o soldado entendeu e afastou-se. então, ela foi buscar algumas batatas e um pedaço de carne e levou tudo para o amigo, insistindo para que ele

comesse e depois dormisse. quando connor finalmente adormeceu na sombra da árvore, ela também se deitou e logo dormia, exausta.

o coronel marion observava os dois, divertido.

— parece que connor foi adotado — comentou com peter horry. — sabe

alguma coisa sobre o garoto?

— nada além do que connor lhe contou. o rapaz não disse uma palavra no

caminho até aqui.

— não sei o que é, mas existe algo estranho naquele jovem. algo que não

encaixa. fique de olho nele, peter. e peça a billy james para fazer o mesmo. são quase da mesma idade.

— certo, francis. eu não queria trazê-lo, mas connor insistiu e se não trouxéssemos o garoto, talvez ele não viesse também. marion suspirou.

— connor já passou maus bocados na vida, mas tem uma ótima intuição

sobre as pessoas. confio em seu julgamento.

— não creio que o rapaz vá causar problemas, mas connor vai.

— como assim? — marion perguntou intrigado.

— meteu na cabeça que tem de matar robert chatham. não sei se você vai

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poder mantê-lo sob controle.

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o rosto do coronel endureceu e seus olhos brilharam de contrariedade.

— vai ter que se esquecer disso, se quiser ficar comigo. não nos

envolvemos em brigas pessoais. nem mesmo por connor. samantha acordou a certa altura da tarde e observou ou arredores. sentia-se mais livre que nunca e achara delicioso montar sem estar apertada em corpetes, saias e anáguas que a haviam torturado desde que era uma garotinha. levantou-se do chão e viu os homens dormindo, espalhados pelo chão. procurou algum que estivesse acordado, mas não encontrou. francis marion lutava durante a noite e dormia durante o dia. aquele era um mundo estranho e ela passara a fazer parte dele. caminhou silenciosamente para o curral rústico onde estava sundance. ao vê-la, separou-se dos outros cavalos e foi ao encontro da dona, esperando ganhar uma maçã.

samantha acariciou-a murmurando desculpas e abriu a porteira para deixá-la sair. logo depois guiava a égua através da clareira e para dentro da floresta em busca de uma lagoa, que ouvira os homens mencionarem. não demorou a encontrá-la. a água tranqüila parecia negra à sombra das árvores

e nela flutuavam jacintos aquáticos e lírios do pântano. de vez em quando um

raio de sol infiltrava-se através da espessa folhagem e caía sobre a água,

fazendo-a brilhar. enquanto o animal bebia, samantha começou a pensar em sua nova e estranhíssima situação. alcançara o objetivo desejado, mas sentia-se confusa ao pensar no que viria a seguir. "atirar num homem não é o mesmo que atirar num coelho", o coronel marion dissera. ela nunca matara um coelho nem outro animal qualquer. seus alvos sempre haviam sido objetos inanimados, como toras de madeira, garrafas vazias e tábuas onde marcava

o local a ser atingido. quando fizera os planos, apenas pensara em escapar à

tirania do pai e às atenções de um pretendente antipático, sem pesar as conseqüências. em seus devaneios, vira-se cavalgando e correndo livremente, participando de uma aventura, nunca tirando a vida de um ser humano. também não sonhara em encontrar connor o'neill e sentir-se tão atraída por ele. julgara que seu coração secara para sempre com a morte de brendan, mas do seu íntimo ressequido surgiam as sementes de um sentimento suave e terno. todavia, não existia esperança para o florescer de algo profundo, porque connor lhe viraria as costas assim que descobrisse quem ela era. de qualquer modo, estremecia só em pensar nele. como pudera envolver-se tão depressa?

— e uma linda égua.

ela assustou-se. não ouvira som de passos e virou-se rapidamente para

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ver quem fizera o comentário.

— e, sim — respondeu apenas para o garoto que a fitava. o rapazinho não

podia ter mais de catorze anos e quase desaparecia no meio dos calções

fofos, da camisa de algodão e das botas altas.

— sou billy james — o menino explicou. — vi você vindo para cá e pensei

que pudesse se perder. ele estendeu a mão, que ela apertou depois de alguma hesitação. não podia permitir-se fazer amizade com ninguém, evitando cometer erros. voltou a olhar para a água, dando a entender que desejava ficar sozinha. billy ignorou a grosseria e sentou-se no chão.

— este é um lugar muito bonito, não é? costumo vir aqui para pensar.

— e um bom lugar para quem deseja ficar sozinho — ela respondeu, seca. o garoto franziu a testa diante da indireta, mas continuou sentado,

olhando o novo companheiro com aberta curiosidade. o coronel marion ordenara-lhe que travasse amizade com sam e mantivesse discreta vigilância sobre ele, mas seria uma tarefa mais difícil do que imaginara.

— nunca vi um cavalo seguir uma pessoa sem ser puxado, como fazem os cães — disse para quebrar o silêncio. samantha suspirou de desagrado, ignorando o comentário.

gostaria de ser seu amigo —- atacou billy, esperançoso.

não quero amigos. quero ficar sozinho,

as

palavras de rejeição contrariavam o que ela sentia por dentro. só deus

sabia como tinha necessidade de um amigo. olhou para o garoto e não pôde

disfarçar a solidão que lhe transparecia nos olhos azuis. foi apenas um breve lampejo, mas billy percebeu-o.

— nós, os mais jovens do regimento, cuidamos uns dos outros — explicou

sem irritação, temendo estragar aquela tênue promessa de comunicação

entre os dois. instantaneamente, samantha ficou alerta. fora imprudente e deixara que o menino percebesse seus sentimentos.

— estou acostumado à solidão — disse devagar. — e gosto dela. billy balançou a cabeça, concordando.

— está bem, mas se precisar de alguma coisa é só me pedir.

ela fez um gesto breve com a mão, mas os olhos já estavam frios novamente.

o rapazinho levantou-se e ela ficou olhando seu vulto engraçado

desaparecer no meio das árvores. um menino brincando de soldado. suspirou,

desalentada, perguntando em que espécie de confusão se metera. connor foi despertado por um dos homens, quando a tarde já ia bem avançada. o ferreiro chegara. o aro que lhe aprisionava o tornozelo enferrujara e o homem levou mais

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de uma hora limando e martelando para conseguir soltar o fecho sem machucar a perna de connor. mesmo assim, cada golpe era uma tortura, porque o metal batia contra a carne ferida, causando dores horríveis.

porém, quando a argola soltou-se, connor descobriu que valera a pena sofrer. estava livre da marca do poder dos ingleses, livre para a vingança. com quanto seu ferimento ainda doesse, ele já era capaz de movimentar- se muito melhor que no dia anterior. caminhou pela clareira por alguns minutos, gozando a plena liberdade, que aprendera a prezar como o bem mais precioso da vida. depois, sentou-se sob a árvore, no cobertor que lhe servira de leito, amarrou o tornozelo ferido e calçou as botas dadas por marion. precisava barbear-se para poder sentir-se completamente humano outra vez. olhando-se num pequeno espelho, considerou o rosto que nem parecia o seu. a barba crescera consideravelmente e era do mesmo tom claro dos cabelos. as faces mostravam-se encovadas e havia novas linhas ao redor dos olhos, que também pareciam diferentes. os olhos cinzentos, antes sempre calmos e ternos, exibiam dureza e fria determinação. com uma navalha emprestada por peter, rapidamente raspou o rosto e depois voltou a examinar as faces detidamente no espelho. a pele estava fina e pálida, mas as feições haviam adquirido nova firmeza, como se refletissem os novos traços de sua personalidade, nascidos do ódio e do desejo de retaliação. qualquer meditação sobre as mudanças operadas em seu íntimo seria inútil. jamais voltaria a ser o mesmo connor e tudo o que tinha que fazer era preparar-se para um futuro diferente do que idealizara. acabava de passar a navalha uma segunda vez pelo rosto, quando marion juntou-se a ele.

— melhorou bastante, connor.

— nunca pensei que fazer a barba desse tanto prazer. o coronel riu.

— foi bom ter você de volta. eu

— obrigado. eu também. marion, então, ficou sério.

— gostaria de falar sobre aquele rapaz

— sim? o que há com ele?

— o que sabe a respeito dele?

senti sua falta.

sam. connor olhou-o preocupado.

o outro ficou pensativo, admitindo que nada sabia sobre o garoto que lhe salvara a vida. sam taylor falara muito pouco sobre si mesmo.

— não muito — confessou. — só sei que se ele não aparecesse eu estaria

morto, agora. dividiu seu alimento comigo e levou horas tentando me lavar

sem me causar dores. — sorriu. — apesar de que me esfregou com uma força que me fez a pele arder. parou de falar e olhou para o rosto fechado do coronel.

— por que, francis? acha que pode ser um espião do lado inglês? se fosse,

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teria me entregado. existe uma recompensa prometida para quem me pegar,

— não — marion respondeu, confuso. — não é isso. mas gostaria de saber um pouco mais sobre ele.

— o garoto é do tipo calado, mas tentarei descobrir mais detalhes.

o coronel fez uma longa pausa, como se escolhesse as palavras que diria a

seguir.

— há mais uma coisa que gostaria de discutir com você, mas penso que

devíamos procurar um lugar discreto. sem acrescentar mais nada, ajudou o amigo a levantar-se e tomou o caminho do bosque. samantha ficou sentada à beira da lagoa durante horas, deixando sundance tosar o capim até fartar-se. quanto mais tempo ficasse longe dos outros, mais evitaria perguntas embaraçosas. aos poucos, deixou que a imaginação inventasse uma história completamente diferente da sua. até divertiu-se, criando pessoas agradáveis, um pai que a amava e um

estilo de vida com o qual sempre sonhara. a história de sam taylor delineou- se vagarosamente, detalhada e convincente. seu pai era um inglês que fora para a américa atrás de riqueza, um homem bom e trabalhador que fazia o filho participar de tudo. os dias felizes haviam terminado com a chegada dos casacas-vermelhas e o extermínio da família. finalmente, dando-se por satisfeita, deixou aquele recanto adorável e voltou para o acampamento. depois de colocar sundance no curral, foi procurar algo para comer. de repente, enquanto caminhava para o carroção que servia de despensa, ouviu as vozes de marion e connor vindas de algum lugar próximo, escondido entre as árvores. parou.

— não quero que persiga os chatham — o coronel dizia. — temos coisas

mais importantes a fazer. se cada homem estivesse aqui apenas para acertar diferenças pessoais, não faríamos mais nada. um dia, todos nós teremos de viver juntos novamente, sejamos whig ou tory. se nos confrontar de maneira limpa, no campo de batalha, isso será possível, mas se lesarmos

nossos compatriotas, matando suas famílias e incendiando suas casas, o ódio nunca será esquecido e não haverá convivência pacífica, que é o que desejamos para o nosso país.

— acha que eu poderei conviver pacificamente com os chatham, ou eles

comigo, depois de tudo o que houve? — connor perguntou com a voz cheia de raiva.

— isso é algo que apenas você pode decidir. temos ordens para destruir

estradas e impedir a comunicação entre os grupos inimigos. isso manterá os

ingleses ocupados demais aqui no sul, evitando que cheguem ao norte. somos menos de cem e não podemos nos arriscar a perder um homem sequer. fique

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com nosso regimento, connor. precisamos de você.

houve um longo silêncio até que connor respondesse.

— está bem. ficarei

por enquanto. mas a cada vez que sairmos para

lutar, rezarei para encontrar chatham entre os inimigos. e, então, juro que nada o salvará. — não posso censurá-lo.

— o outro começou, hesitante. — tem tido notícias da filha

de robert chatham? a voz do coronel soou áspera ao responder a pergunta.

— francis

— por quê? está pretendendo vingar-se nela?

— só quero saber o que foi feito dela.

— parece-me que foi para o norte, tomar conta de uma parente doente.

hector, o rapaz que me trouxe o recado de que você tinha sido encontrado,

é escravo de chatham. foi ele quem me falou da srta. samantha.

— ela se casou?

— não, mas ouvi rumores de que ia casar-se com um dos oficiais de tarleton.

— não demorou muito a esquecer meu irmão, não é verdade? — connor

disse, entre irado e desgostoso. marion, ignorando o fato de que samantha era uma das principais fontes de informação de hector, calou-se.

sentindo-se mal com o que ouvira, ela tornou a enveredar pelo bosque e, em certo ponto, deixou-se cair no chão, cheia de angústia. ficou escondida até que as sombras da noite caíram sobre o acampamento e a fome abrigou- a a voltar para o meio dos outros. as fogueiras estavam acesas e o ar recendia com o cheiro de batatas- doces assadas nas brasas. pensou nas mesas fartas da fazenda do pai, cheias de presunto, vegetais passados na manteiga, pães frescos e tortas dos mais variados tipos, mas afastou os pensamentos, considerando-os uma

tudo aquilo pertencia a um mundo de ambição desmedida e crimes,

um mundo a que pertenciam homens como seu pai e o coronel foxworth, dos quais felizmente se livrara. quando se aproximava timidamente de uma das fogueiras para pegar batatas, o som de um violino lamurioso cortou o ar tranqüilo e um dos soldados começou a cantar. aos poucos, a clareira foi ganhando vida com as palmas ritmadas, gritos e cantos desafinados, e até samantha, na depressão em que se encontrava, acabou sorrindo. sentada com as costas apoiadas num tronco de árvore, mordiscava o alimento quente demais para ser comido depressa,

traição

então, o violinista começou a tocar música de dança e vários homens não resistiram, pondo-se a rodopiar e a bater com os pés no chão, em animada

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quadrilha. no meio da alegria e do clima de camaradagem, samantha pensou que nunca se sentira tão só. connor chegou perto de sam, atravessando o tumulto do baile improvisado, e ficou atônito com a hostilidade que viu nos grandes olhos azuis. chegara a pensar que poderiam ficar amigos, depois da solicitude mostrada pelo rapaz, mas enganara-se. tudo em sam era estranho. fora diligente em livrar connor da sujeira, mas até aquele momento ele próprio não se banhara. o rosto miúdo estava sujo, o que acentuava a dureza da expressão amuada. a generosidade que ele adivinhara nos atos do garoto desaparecera atrás do olhar desconfiado e hostil. intimamente, connor desculpou-o, achando que devia ser muito difícil para alguém tão jovem manter uma atitude de independência e autoconfiança e

que momentos de tristeza eram normais em tais circunstâncias. compreensivo, por causa de sua natureza amorosa e pacífica, não iria revidar a frieza de sam na mesma moeda. natureza amorosa e pacífica. sim, até o ódio nascer como planta venenosa em seu coração. mesmo no começo da guerra, nunca agira com ódio, simplesmente lutando com um profundo senso de dever, ficando triste com tanta violência, lamentando que a liberdade de um povo devesse ser paga com sangue. fora um guerreiro relutante. mas tudo mudara depois da morte de brendan, quando ele sentira, pela primeira vez, o desejo de fazer justiça com as próprias mãos. pensou em marion e no que o povo diria se soubesse que o chefe dos rebeldes, um mestre na arte e estratégia, era no fundo um pacifista. como amigos, haviam trocado confidências e connor descobriu que o maior sonho do coronel era ver a guerra terminada para que ele pudesse voltar à vida tranqüila de fazendeiro. lutava pela justiça e pela liberdade, mas, como dissera naquela tarde, não devia haver ódio entre homens que seriam vizinhos quando a paz fosse restabelecida. seus pensamentos voltaram para sam. o rapaz era um triste produto da guerra como tantos outros garotos mais novos ainda, de onze, doze anos, que já eram soldados. alguns daqueles meninos corriam para um objetivo, enquanto outros fugiam de alguma coisa. connor imaginou qual seria o caso de sam. determinado a quebrar o gelo, sorriu de leve, procurando um assunto bem impessoal que não fizesse o rapaz retrair-se.

— sabe usar uma pistola? — perguntou.

— nunca tive uma.

surpreso ao ver que sam admitia uma desvantagem, connor reprimiu um

sorriso.

— então, amanhã, vou lhe ensinar.

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— Ótimo — o garoto respondeu sem sorrir. — você está com boa aparência — comentou, ainda distante.

— graças a você, meu amigo.

— não sou seu amigo! não foi mais possível refrear a vontade de sorrir. a voz beligerante não

combinava com a expressão solene dos olhos que o fitavam sem pestanejar.

— mas eu sou amigo, sam. até amanhã. afastou-se antes que o garoto pudesse protestar.

capÍtulo vi

o acampamento fervilhava de atividade na noite fechada. as fogueiras haviam sido extintas e os homens ocupavam-se em verificar os rifles, espadas e sacos de pólvora, à luz de lampiões. os novos companheiros de samantha moviam-se em silêncio e com eficiência, falando o mínimo indispensável e em voz baixa. ela continuava sentada embaixo da árvore, olhando fascinada para a cena que parecia saída do livro de robin hood, mal acreditando que fazia parte

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daquilo tudo. subitamente, alguém chamou-a, quebrando o encanto.

— sam

sam taylor!

ela olhou para cima e deparou-se com francis marion. o homem de baixa estatura de repente assemelhava-se a um gigante, cercado por uma aura de poder que a amedrontou. o homem era como um tigre, tenso e alerta, na hora de atacar. devia ser terrível tê-lo como inimigo. ele então sorriu e samantha percebeu que sua imaginação lhe pregara uma

peça, levando-a a estremecer de medo diante do homem que era o chefe dos rebeldes patriotas. estava mais abalada do que desejava admitir: solitária, longe de casa, numa floresta estranha e no meio de homens armados.

— fique aqui, sam, e cuide de connor para nós — ele disse. — billy james o ajudará se for preciso. ela quis objetar. não queria ficar sozinha com connor temendo encorajar uma familiaridade que não desejava entre eles. mas os olhos de marion estavam sérios e, temerosa, ela baixou a cabeça em obediência.

— estaremos de volta ao amanhecer — o coronel prometeu.

tão repentinamente como surgira, o homem desapareceu entre os outros soldados que pareciam sombras e o grupo todo enveredou pela floresta. logo depois, só se ouvia um único ruído, produzido por milhares de grilos e pelo coaxar rouco das rãs. o vento soprava nas copas das árvores e os cordões de musgo balançavam-se como dedos ameaçadores tentando agarrar quem passasse por baixo dos ciprestes. os sons da floresta tornaram-se assustadores e samantha ergueu-se de um salto quando uma coruja piou num galho próximo. no mato rasteiro, ela podia ouvir o rastejar de criaturas invisíveis. então, as ordens de marion voltaram à sua lembrança e a moça resolveu segui-las, aliviada. encontrou o lugar onde connor dormia placidamente. com muita delicadeza, tocou-lhe a testa com a ponta dos dedos. não havia febre.

satisfeita, ficou olhando para o rosto banhado pelo luar. voltara a ser belo como antigamente, sem a barba maltratada e suja. as feições eram bem definidas, desde o nariz reto e a boca bem desenhada, até o queixo forte e revelador de uma personalidade íntegra e voluntariosa.

o rosto demonstrava força, mas também humor e carinho. se ela não

soubesse, não poderia adivinhar que aquele homem guardava dentro de si um

ódio imenso.

a despeito de tudo o que decidira, não desejava sair de perto dele. foi

buscar seu cobertor e deitou-se a alguns metros do companheiro, onde ouviria se ele chamasse, ficando longe o bastante para não sentir a perturbação que a dominava quando estavam muito próximos. fechando os olhos, passou a imaginar um mundo onde não havia nem ódio

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nem dor. connor despertou muito cedo na manhã seguinte, com a chegada de marion e seus soldados de mais uma bem-sucedida excursão. ficou surpreso ao ver sam deitado ali perto, depois da hostilidade demonstrada na noite anterior. um leve sorriso aflorou-lhe aos lábios, quando ele percebeu que fora o medo da noite e seus mistérios que levara o garoto a procurar sua companhia. o rosto sujo do jovenzinho tinha expressão serena e inocente, apelando para o instinto de proteção do homem mais velho.

cumprindo o que prometera, connor passou a manhã ensinando sam a atirar com pistola e contou-lhe que o ataque de marion daquela noite, a uma base inimiga, suprira o acampamento com boas armas inglesas e bastante pólvora. iam ficar com a pólvora, mas trocariam os mosquetes por cobertores, com outro coronel rebelde, thomas sumter. connor mostrou a samantha como medir corretamente a carga de pólvora e colocá-la na pistola e depois ficou observando enquanto ela tentava

sozinha. compreendia as explicações com facilidade e aplicou a técnica perfeitamente, o que fez connor sorrir. por fim, ele apontou para um alvo e ela mirou, puxando o gatilho bem devagar, como ele ensinara. uma expressão de desapontamento e vergonha passou pelo rosto dela quando a bala passou longe do alvo.

— não se esqueça, sam, de que uma pistola não é um rifle. não tem a

mesma precisão, e o atirador precisa compensar essa falha. faça de conta que só tem uma baia e precisa desesperadamente acertar. não a desperdice, ficando longe demais do alvo. vamos, tente de novo! connor não perdeu a paciência nem uma vez e intimamente até aplaudiu o

rapaz que mostrava tanta habilidade em lidar com armas. sam já aprendera a avaliar a distância que lhe permitira matar alguém ou simplesmente passar raspando pelo alvo tornando-se apto a defender-se,

— muito bem, sam. estou orgulhoso de você — finalizou. ela sabia que

aquele era um grande elogio e não pôde deixar de sorrir de contentamento. subitamente, connor foi atingido pelo brilho dos olhos azuis e sentiu uma punhalada de dor e saudade. os olhos de sam lembravam os de brendan. seu rosto anuviou-se e os lábios se estreitaram. talvez não fosse recomendável apegar-se demais ao garoto. não suportaria perder outra pessoa querida? no entanto, havia algo naquele rapaz franzino que o fazia desejar cuidar dele com carinho. devia-lhe gratidão, naturalmente, mas não era só isso. precisava gostar de alguém para sentir-se vivo.

nas semanas seguintes ninguém teve tempo para pensar em ninguém. marion ordenara a mudança do acampamento, uma tática que usava para

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confundir os ingleses. mudava o regimento de lugar com bastante freqüência, deixando armadilhas preparadas nos acampamentos abandonados. eram armadilhas próprias para apanhar animais, e se durante uma inspeção posterior fosse descoberto que uma delas funcionara, o lugar não voltava a ser usado, pois fora descoberto. servindo na milícia, connor alcançara a patente de major e marion restabeleceu-a, elevando o amigo à posição de um de seus mais importantes

colaboradores. samantha, com seu jeito especial para lidar com cavalos, fora encarregada de cuidar dos animais, o que a deixara bastante feliz. podia ser útil e ocupar-se o dia todo, ficando longe de connor. qualquer dúvida que marion tivesse quanto à sua capacidade foi dissipada pela eficiência e entusiasmo com que ela executava suas tarefas. Às vezes passavam-se dias sem que a moça visse connor a não ser rapidamente. ela continuava a manter-se fechada e refratária a contatos amigáveis e sua principal distração era desaparecer com sundance nas horas de folga. ninguém mais se preocupava com ela, achando que seu desejo de solidão devia ser respeitado. era competente no que fazia e isso bastava.

o mês de novembro chegou e samantha foi obrigada a dividir uma barraca

com billy james quando as chuvas da época começaram a cair. tornara-se

polida ao tratar com o garoto, mas evitava longas conversas e deu-se por satisfeita quando compreendeu que billy passara a aceitá-la como era, nunca sendo indiscreto.

a rotina repetia-se quase sempre. quando havia um ataque, marion e os

soldados partiam assim que escurecia e voltavam ao amanhecer trazendo suprimentos tirados dos ingleses e às vezes patriotas resgatados das prisões inimigas. alguns desses homens ficavam por algum tempo no acampamento, mas outros tratavam de voltar depressa para suas casas. quando não havia ataques, todos cantavam e dançavam ao som do violino, contavam histórias e jogavam cartas. samantha sentia-se cada vez mais à vontade em sua nova vida, apenas ressentindo-se por ser obrigada a ficar longe de connor, temendo que ele descobrisse seu segredo. de qualquer forma, não tinham muitas oportunidades de se verem depois que marion escalou o major connor o'neill para ser seu contato junto ao exército do general greene, na carolina do norte, o que o obrigava a constantes viagens. aquelas ausências eram penosas para ela. apesar de manter distância, sentia-se atraída por ele por alguma inexplicável necessidade. no começo de setembro, as ruas das cidades e vilas ocupadas pelos ingleses haviam começado a exibir cartazes onde uma recompensa de mil

guinés era oferecida a quem desse informações valiosas para a captura de francis marion, chefe da milícia rebelde. menos de uma semana depois os

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cartazes haviam sido substituídos por outros, que ofereciam mil dólares

americanos a quem levasse os rebeldes à prisão de "um certo charles cornwalls, que se intitula general das tropas estrangeiras que se atreveram

a pisar no solo sagrado da carolina do sul". os cartazes eram assinado por

francis marion. furioso com o gesto atrevido do chefe rebelde, cornwalls formara uma guarda pessoal que não o deixava nunca e prometeu recompensas para quem entregasse qualquer homem sob o comando de marion. a recompensa oferecida pela prisão de connor era de setecentos guinés de ouro e samantha passou a viver aterrorizada com a idéia de que ele fosse preso em uma de suas viagens solitárias. o coração de samantha exultou de alegria quando ela viu connor entrar no acampamento no primeiro dia de dezembro. ele estivera fora durante quase duas semanas. ela percebeu que os olhos cinzentos procuravam alguém no agrupamento que se formara em volta dele. ao vê-la, sorriu, mas samantha desmanchou o próprio sorriso, recolocando no rosto a máscara de indiferença. connor pareceu não se incomodar com a mudança de atitude,

porque, ainda montado, foi direto até ela. desmontou com calma, examinando

a figurinha desalinhada à sua frente.

— trouxe um presente para você, sam. ela mudou a posição dos pés, inquieta.

— pensei que você não voltaria — disse por fim. ele deu um sorriso largo.

— então sentiu minha falta!

— eu não disse isso.

— pegue. — jogou um pacote para ela, — falo com você depois. preciso ver francis, agora. ela olhou desconfiada para o pacote.

— não precisava se incomodar.

ele, porém, não deixou de perceber o modo como o pacote foi apertado

contra o peito.

— não foi incomodo, sam. foi um prazer, mas se isso o deixa mais

tranqüilo, comprei isso aí para nós dois. em seguida, ele foi em direção à barraca de marion, de onde os dois homens saíram um pouco depois para entrarem pelo bosque. samantha continuava a olhar para o pacote até que finalmente escondeu- se num aglomerado de moitas para abri-lo longe de olhos curiosos. não pôde deixar de soltar uma risadinha quando viu o conteúdo: dois livros de alfabetização. certamente connor achara que ela não sabia ler e resolvera- se a ensiná-la. tão irônico! ensinar a ler a quem sempre fora um verdadeiro

rato de biblioteca, sempre procurando algo entre os livros do pai, que possuía uma das maiores coleções de clássicos e obras atuais de toda a

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colônia! livros, revistas, jornais, nada escapava à sua mente sedenta de conhecimento. parou de rir quando pensou em como lidaria com aquela situação. um

garoto envolvido nas conseqüências de uma longa guerra e ainda por cima ficando órfão, logicamente não teria freqüentado a escola. o raciocínio de connor fora correto. mas como faria para fingir estar aprendendo, sem parecer inteligente demais?

— inferno! — exclamou sem pensar.

assustou-se com a palavra, totalmente inadequada para uma moça fina e

educada. estava começando a assimilar os modos e jeito de falar dos companheiros. nunca, em toda a sua vida, praguejara. o absurdo da situação envolveu-a de repente e ela soltou uma risada totalmente desinibida. e o som daquele riso orientou connor em sua busca. encontrou-a no meio das touceiras e ficou parado à sua frente com uma expressão espantada. nunca ouvira o jovem rir e ficou esperando pela explicação de toda aquela alegria.

— não preciso de livros — sam declarou. — já sei tudo o que preciso.

ele irritou-se,

— eu sei que sabe lidar com cavalos e atirar. sei também que é capaz de

andar pelo mato como um índio, mas isso não basta. quando a guerra acabar, o país precisará de gente instruída. e você precisará de um emprego decente.

— eu sei do que preciso e não quero sermões. você não é meu pai.

os olhos dele brilharam perigosamente. decidira que ajudaria aquele garoto a ser alguém e era o que ia fazer.

— se eu fosse seu pai, garoto, lhe ensinaria um pouco de boas maneiras. vendo a expressão irritada no rosto de connor, sam preparou-se para

fugir. infelizmente, ele adivinhou suas intenções e foi mais rápido. as mãos fortes agarraram as dela, impedindo a fuga. samantha parou de lutar e ficou olhando para ele, assustada. imediatamente, ele a soltou, arrependendo-se do descontrole.

— os livros são para você, sam. quero que aprenda a ler. mas ela já se

fora, deixando-o erguer os livros do chão com um suspiro frustrado. connor dormiu durante várias horas e só acordou um pouco antes do anoitecer. naquela noite os homens tinham uma missão a cumprir. marion recebera a informação de que um carregamento de sal ia ser transportado e resolvera-se a conseguir o tempero indispensável que tanta falta fazia no acampamento. connor gostou da idéia de entrar imediatamente em atividade. seus pensamentos ficariam longe da família perdida e da decepção que

tivera com sam. os homens saíram assim que a noite caiu completamente. samantha e billy

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james foram deixados no acampamento, para cuidarem dos cavalos que não haviam sido usados para a excursão daquela noite. ela ainda não acompanhara os soldados uma única vez, o que a deixava contente. sabia que não seria capaz de atirar numa pessoa, mesmo que fosse um casaca- vermelha ou foxworth.

a noite estava clara e a lua passeava no céu sem nuvens. billy a estava ensinando a jogar cartas, quando uma série de assobios anunciou a chegada de um visitante. pelos sinais transmitidos, os dois souberam tratar-se de alguém de confiança, mas não pertencente ao regimento. ficaram prontos, puxando os rifles para o alcance das mãos.

samantha quase gritou de alegria quando hector entrou a cavalo na clareira, sorrindo para ela. o sorriso do escravo, porém, tornou-se impessoal quando o rapaz viu billy, a quem se dirigiu.

— o coronel marion está indo para uma emboscada — disse. — ouvi uma

conversa do meu senhor. o coronel tarleton forjou a informação a respeito do carregamento de sal. vocês têm de ir atrás deles.

sem perda de tempo, evitando perguntas inúteis, billy desapareceu no meio das árvores para ir avisar os sentinelas. voltou pouco depois e olhou para sam.

— É você quem vai, sam. sua égua é o animal mais rápido de todos e como

não deixa que ninguém a monte a não ser você, não temos escolha. eu o levarei para fora do pântano e de lá você vai atrás de marion. está indo para a fazenda de garrison. ela não precisou que lhe dissessem mais nada. connor estava em perigo, assim como marion, a quem ela passara a admirar incondicionalmente. enfiou uma pistola no cinto e rapidamente selou sundance. quando estava pronta, billy passou-lhe um rifle, que ela atravessou numa alça colocada na frente da sela. angustiou-se com a marcha lenta pelo pântano, mas descobriu que não podia ser diferente, porque havia trechos de areia movediça e trilhas falsas por toda a parte. finalmente chegaram a terreno firme e billy mostrou-lhe em que direção seguir. ela partiu a galope, lembrando-se da última vez que ela e sundance haviam se lançado por uma estrada tentando evitar uma tragédia, chegando tarde demais. porém, daquela vez, chegaria a tempo. tinha de chegar.

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capÍtulo vii

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francis marion, connor o’neill e peter horry lideravam a marcha. francis ia um pouco à frente dos outros, porque ninguém conhecia o terreno traiçoeiro como ele, que andava pelos pântanos como qualquer outra pessoa andava por estradas firmes e bem demarcadas. faziam aquela excursão com entusiasmo, pois a meta era conseguir sal, um produto mais importante que o ouro naquelas circunstâncias. os ingleses haviam tomado todas as fontes produtoras e os patriotas, além dos rebeldes, sentiam falta do sal que lhes era negado. dessa forma, a captura

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de alguns carroções do produto ergueria o ânimo de todos os moradores daquela região da carolina do sul. um dos espiões de marion ouvira, em georgetown, que um carregamento seria encaminhado para a fazenda garrison, cujo proprietário era um tory importante. o comboio não levaria guarda muito forte, pois a propriedade

garrison ficava um pouco distante de snow island e os ingleses sentiam-se seguros.

o regimento de marion acostumara-se às cavalgadas noturnas e

aventurava-se a ir cada vez mais longe. porém, o sal que conseguiriam valeria

todo o esforço. o horizonte já se tingia de dourado e rosa, anunciando a alvorada, quando

marion e seus homens avistaram a fazenda garrison. connor aproximou-se dos soldados que vinham logo atrás dizendo-lhes que ficassem ocultos entre as árvores até que os três do comando dessem o sinal para o ataque.

os carroções de sal achavam-se alinhados à frente da casa-grande, mas

tudo estava quieto. quieto demais.

marion observava tudo escondido atrás de uma árvore, procurando ver algum movimento. havia algo errado naquela situação. embora já estivesse quase amanhecendo, não se notava nenhuma das atividades comuns numa fazenda àquela hora. nem mesmo fumaça saindo por uma chaminé denunciava que a primeira refeição começava a ser preparada.

de repente, ele viu um rápido movimento atrás de um celeiro e distinguiu

algo verde. naquele momento, connor voltou de uma apressada ronda de reconhecimento da área.

— o lugar está cheio de homens de tarleton.

— e uma cilada — confirmou peter horry, voltando também. marion olhou para os dois homens. — vamos deixá-los acreditar que caímos na armadilha — decidiu. — connor, leve trinta homens para dentro do bosque. peter, leve outros cinqüenta e arme uma emboscada lá embaixo, na estrada. levarei o resto comigo e entrarei na fazenda. quando eu chegar perto da casa, você, connor, dispare o rifle, como se estivesse atirando num homem de tarleton que se antecipasse às ordens. meu grupo avançará e os tories irão atrás, espero. então, você se adianta com seus homens e rouba os carroções, enquanto eu e a turma de peter, na estrada, pegamos o inimigo. marion esperou vinte minutos, dando tempo para que peter horry e seus soldados preparassem a emboscada. então, fingindo completa ignorância da situação, ele avançou com seu grupo para a casa-grande.

um assobio discreto alertou os tories escondidos na casa e nos celeiros, que começaram a preparar os mosquetes. de repente, ouviu-se um tiro e

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tarleton, vestido de verde e postado numa janela do primeiro andar,

praguejou, observando marion virar rapidamente o cavalo e internar-se no bosque. voltou-se para william foxworth.

— vou atrás dele. fique aqui com dez homens, e guarde os carroções.

descubra o homem que deu aquele tiro. quero submetê-lo à corte marcial. tarleton estava cego de ódio e frustração e nem esperou pela resposta de foxworth. seus soldados, os dragões do exército britânico, já se achavam montados nos cavalos escondidos num dos celeiros e três minutos depois, sob o comando do coronel, partiram na perseguição de marion. connor assistia a tudo do seu posto de observação. recarregara o rifle e achava-se pronto para agir. sentia a impaciência dos homens atrás dele, mas era necessário que tarleton caísse na armadilha de marion antes que ele entrasse em ação. observou o movimento existente atrás das janelas da casa, percebendo que tarleton deixara uma guarda. desejou poder saber quantos homens havia lá dentro para poder decidir a melhor forma de proteger-se e aos seus homens, alvos fáceis para os que se escondiam na casa-grande. subitamente, tomou uma decisão. fazendo um sinal para que três homens desmontassem, desceu do cavalo. os quatro conversaram durante alguns minutos antes de desaparecerem entre as árvores tomando a direção da moradia. cuidadosamente aproximaram-se dos fundos da casa, correndo de árvore em árvore. finalmente, abaixando-se, rastejaram para a porta de trás sem serem vistos. connor experimentou o trinco enquanto os outros lhe davam cobertura. a porta abriu-se e eles entraram silenciosamente na cozinha. connor levou um dedo aos lábios, pedindo o máximo de silêncio e ergueu as mãos espalmadas indicando que deviam contar até dez antes de atacar. ele próprio e mais um rebelde subiram a escadaria. quando a contagem chegou a seis, estavam no topo e espiaram o interior de um cômodo. um

oficial inglês, com o uniforme verde dos dragões de tarleton, estava virado para uma janela, olhando para fora, enquanto três homens em trajes civis postavam-se atrás dele.

sete

oito

nove

dez!

connor e o companheiro entraram no quarto e, quando ouviram barulho no andar de baixo, engatilharam as pistolas. o ruído ecoou no pequeno aposento e os quatro homens de costas para eles viraram-se de súbito. um deles apontava uma arma para connor, mas ao ver as pistolas nas mãos dos invasores, deixou cair a sua.

— os outros cavalheiros devem fazer o mesmo — connor instruiu em voz baixa. — já! o oficial fulminou-o com um olhar, mas logo todos deixavam cair as

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pistolas e tiravam as espadas da cintura, jogando-as no chão. o ódio que

sentiam por terem sido apanhados tão facilmente era quase palpável, mas connor não perdeu o controle da situação nem por um segundo. recuou até a porta.

— daniel! mick! — gritou para baixo.

— está tudo em ordem, aqui — um deles respondeu. connor olhou para foxworth. — quantos homens há na casa?

— o suficiente para que você não escape — o oficial retorquiu.

— veremos.

a seguir, connor mandou que o companheiro amarrasse os quatro,

mantendo os prisioneiros sob a mira da pistola. três foram amarrados pelos

pés e pelas mãos e uns aos outros, mas quando chegou a vez de foxworth, connor interrompeu o amigo.

— amarre as mãos desse aí atrás das costas, apenas. tenho planos para

ele.

os

olhos do oficial brilharam de raiva. eu não ajudaria em nada, seu rebelde imundo! você não tem escolha, coronel coronel william foxworth. não se esqueça do meu nome, porque eu o

seu rebelde imundo! você não tem escolha, coronel coronel william foxworth. não se esqueça do meu
seu rebelde imundo! você não tem escolha, coronel coronel william foxworth. não se esqueça do meu
seu rebelde imundo! você não tem escolha, coronel coronel william foxworth. não se esqueça do meu

mandarei enforcar, nem que seja a última coisa que faça nesta vida!

— sua vida não será muito longa, coronel, principalmente se não me obedecer.

— posso saber quem é você? connor riu sarcasticamente.

— isso faz alguma diferença?

— gosto de conhecer meus inimigos.

— connor 0'neill, major da milícia da carolina do sul. ele não esperava ver o espanto que tomou conta do rosto de foxworth, mas o oficial recompôs-se depressa e não havia tempo para ficar tecendo conjecturas. tomando um dos braços do coronel inglês, empurrou-o para a porta.

— você e eu — esclareceu connor — vamos inspecionar a fazenda juntos.

foxworth quis reagir mas suas mãos estavam firmemente amarradas atrás das costas e os dedos de o'neill em seu braço pareciam de ferro. não tinha outra opção além de andar ao lado do inimigo, que amaldiçoava a cada passo. de maneira que aquele rebelde nojento era connor o’neill, o homem que robert chatham odiava com tanta violência! depois que os tories capturados no andar de baixo também já haviam sido amarrados e amordaçados, connor empurrou foxworth para fora, levando-o para um celeiro, enquanto fazia sinais para que os rebeldes escondidos no bosque se aproximassem. quando chegarem perto, connor disse-lhes para levarem os carroções carregados de sal. ele e os três que o acompanhavam

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encontrariam todos os ingleses que estivessem enfurnados por ali. os homens atrelaram quatro cavalos a cada um dos carroções e logo desapareciam na estrada. então o recalcitrante foxworth foi levado para dentro do celeiro, empurrado por connor e outro rebelde, enquanto os outros dois do grupo montavam guarda à casa. ao transporem a porta alta e larga de madeira, ouviram um tiro e connor viu mick cair. aproveitando-se da surpresa de seu captor, foxworth torceu o corpo e escapou da mão de connor. rolou no chão, deixando o adversário como um alvo fácil, completamente exposto. samantha chegou à fazenda garrison no momento em que connor levava

foxworth para o celeiro. de onde estava, podia ver o que ele não conseguia. um mosquete apontado para o grupo. viu mick cair e o atirador, agachado no sótão no celeiro, pegar uma outra arma. sem hesitar, agarrou o rifle e fez sundance disparar no galope. perdera o medo de atirar naquele momento em que precisava proteger connor do perigo. a atenção do tory, em cima, no sótão, estava presa ao homem abaixo dele. não viu o cavaleiro que se aproximava nem ouviu o tiro. apenas sentiu a bala que se encravava entre suas omoplatas. connor virou-se e viu a figura franzina montada na égua dourada. não pôde reprimir um sorriso apesar da dificuldade do momento.

— foi um tiro danado de bom — elogiou quando sam chegou perto. — mais

uma vez lhe devo a vida. ela não respondeu. sua atenção focalizava-se no oficial inglês deitado no chão. os olhos do homem lançavam faíscas de puro ódio e por um instante ela pensou ver neles um lampejo de reconhecimento. fez sundance virar e sem uma palavra desapareceu entre as árvores, deixando connor espantado. forçou foxworth a levantar-se e jogou-o para dentro do celeiro, que abrigava seis cavalos e o cadáver que despencara do sótão. amarrou o coronel firmemente a uma pilastra e amordaçou-o. pegou os cavalos pelas rédeas e dirigiu-se para o local onde mick, tonto, tentava se erguer segurando um ombro que sangrava profusamente. — vamos sair daqui. mick. assobiando para chamar os dois que guardavam a casa, ajudou o companheiro ferido a montar. quando os dois outros apareceram, cada um agarrou um cavalo e montou. puxando os cavalos sem cavaleiros pelas rédeas, saíram galopando pela estrada tomada pelos carroções de sal algum tempo antes. os grupos dos rebeldes de marion chegaram tarde da noite ao

acampamento. a emboscada tivera sucesso. tarleton, em seu desespero para capturar marion, cavalgara diretamente para a cilada e a perda dos tories

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fora grande, embora o coronel conseguisse escapar. e os arrogantes ingleses, incapazes de seguir os inimigos, ficaram no meio da estrada xingando suas tropas exaustas e jurando vingança. samantha estava entre os primeiros a chegar. nunca estivera tanto tempo em cima de uma sela e todos os músculos de seu corpo doíam. quando desmontou, escorregou e caiu entre as patas de sundance. embaraçada, deu uma risadinha nervosa, que logo transformou-se numa torrente de gargalhadas. ela, samantha chatham, filha de família tradicional e influente, encontrava-se deitada na poeira, no meio de um bosque, depois de matar uma pessoa. billy reconheceu o riso histérico. era o desabafo depois de um dia especialmente amargo, a explosão nervosa de alguém que matara pela primeira vez. reagira da mesma forma depois que matara o primeiro inimigo. estendeu as mãos, agarrando as de sam, ajudando o companheiro a levantar-se, admirando-se da leveza daquele corpo. um dos homens, que chegara um pouco antes de sam, já espalhara a história daquele tiro certeiro que salvara a vida de connor. já impressionado com a resistência do jovem companheiro, que passara praticamente vinte e quatro horas em cima de uma sela, billy intimamente renovou a promessa que fizera a si mesmo de transformar sam num amigo verdadeiro. samantha, porém, achava-se completamente exausta. e preocupada. não podia ter certeza, mas achava que foxworth a reconhecera. e nada poderia ser pior. também não !he saía da cabeça o pensamento de que matara uma outra pessoa sem nenhuma hesitação e sem ficar com o mínimo vestígio de remorso. pensara nas palavras de marion sobre o ato de matar e ficara chocada ao ter de admitir que não teria coragem de atirar num coelho, mas que agira com fria presteza ao fazer mira sobre o homem que ameaçava connor. na verdade, ela não quisera matar um tory, inimigo de sua causa, mas proteger o homem que ocupava seus pensamentos em todos os minutos do dia e da noite. lutando para compreender a si mesma e justificar sua falta de arrependimento, agradeceu a presença de billy que, silenciosamente, lhe fazia companhia naqueles momentos difíceis. logo percebeu que não era a única a estar exausta. todos encontravam-se tão cansados que se arrastavam, mal podendo mastigar as costumeiras batatas e os bolinhos de milho moído. no dia seguinte, grupos sairiam para caçar, pois já possuíam sal para conservar a carne. a despeito do cansaço, ninguém dormiu. todos estavam cheios de excitação pela aventura, extremamente tensos após horas de violência, para conseguirem descansar. juntaram-se em grupos, sentando-se ao redor das fogueiras, para comentarem os acontecimentos do dia, enquanto angus mclntyre tocava melodias alegres em seu violino.

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samantha pouco viu connor depois que ele entrou no acampamento ao lado

de marion e imediatamente começou a cuidar do ferimento de mick. quando acabou de fazer o curativo, ocupou-se em cobrir os carroções para proteger

o precioso produto da chuva que poderia cair a qualquer momento. mais

tarde, discutiu com marion e peter horry os planos para a distribuição do sal. ficou satisfeita em não precisar conversar com ele. não sabia como explicaria sua pressa em sair da fazenda garrison. porém, o que mais temia

era ouvir suas palavras de gratidão. ele não imaginava, mas por mais que ela fizesse, jamais poderia sanar todo o mal que seu pai fizera à família 0'neill, de maneira que as palavras de agradecimento que connor lhe dirigia apenas provocavam mal-estar. quando ele finalmente terminou seus afazeres e foi procurá-la, samantha

já se recolhera na tenda que partilhava com billy.

na manhã seguinte, ela saiu da barraca assim que o sol começou a surgir, ainda tímido e frio. o orvalho caído durante a noite cobria tudo e o ar fresco tinha perfume de mato e terra molhada. ela respirou fundo e foi em busca de sundance, que alimentou com milho seco. depois, sem colocar a sela, montou, agarrando-se à longa crina, que usou como rédeas para guiar a égua até o rio. embora tivesse a impressão de estar completamente só, cavalgando na margem arenosa, sabia que as sentinelas de marion já haviam percebido sua presença. parou num certo ponto para contemplar um salgueiro cujos ramos longos e pendentes caíam na superfície da água que começava a cintilar com a claridade da manhã. na quietude do amanhecer ela ouviu enternecida o trinado dos pássaros que esvoaçavam em busca de alimento. a atmosfera de pureza daquele lugar contrastava violentamente com a crueldade do cenário do dia anterior e ela sentiu o gosto salgado das lágrimas ,que começaram a escorrer por seu rosto. subitamente, marion apareceu à sua frente. chegara tão silenciosamente que ela, perdida em sua tristeza, não o vira.

— está chorando, sam? — ele perguntou gentilmente.

ela apenas continuou a olhar para ele, que, dando-lhe a mão, ajudou-a a descer. sentaram-se no chão, lado a lado. — você foi brilhante, ontem, sam. agiu como qualquer um dos outros homens agiria. viu o perigo que ameaçava um companheiro e não hesitou em atirar. não há motivo para tristeza ou remorso.

os olhos azuis pousaram no rosto do homem, mas desviaram-se depressa. era como se aquele soldado calejado tivesse o poder de ler sua mente e ela não desejava correr o risco de ver seus segredos devassados.

— está triste por haver matado aquele tory? — ele insistiu.

— não — ela replicou com honestidade. — ele ia matar connor.

marion suspirou. ninguém podia deixar de perceber o apego daquele rapaz

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por connor, assim como era impossível entender por que fugia de uma amizade mais profunda com o homem a quem evidentemente era tão afeiçoado.

— não quer me dizer o que o está perturbando, sam?

— não é nada, mas agradeço sua preocupação.

o coronel sentia-se confuso. apesar da evidente fragilidade do rapaz, ele mostrara-se eficiente, corajoso e forte. portanto, marion nunca esperava

descobrir aquela sensibilidade, aquela delicadeza de alma que o fazia chorar sozinho por algo que se recusava a revelar. ficou preocupado, sem poder atinar com o motivo. uma intuição inquietante, porém, alertava-o de que o coração do rapaz abrigava mistérios que o faziam sofrer.

— não sei você — o coronel começou, mudando de assunto — mas eu estou

com fome. alguns homens já caçaram alguma coisa e temos carne fresca.

ela olhou-o com um sorriso fraco.

— também estou faminto — confessou. novamente, a intuição de marion

alertou-o. a voz do rapaz, normalmente áspera e baixa, soara com modulações suaves de pessoa bem-educada. decidiu não apegar-se ao

pensamento. a maioria de seus homens tinha algo a esconder e o segredo daquele jovem não podia ser pior do que o dos outros. caminhando juntos de volta para o acampamento, marion não pôde deixar de admirar a maneira como a égua docilmente acompanhava o dono.

— gostaria que me ensinasse a treinar meus cavalos tão bem como treinou seu animal — observou com um sorriso. — leva tempo e é necessário que haja afeição.

— acho que não é tão simples assim. connor disse que você tem um jeito

especial para lidar com cavalos e vejo que é verdade. olhe, sam, pode ficar no acampamento cuidando dos animais quando sairmos em missão, ou ir junto, o que achar melhor. ela olhou para ele, sabendo que sua perturbação fora compreendida e que marion desejava dizer que a aceitava incondicionalmente e que respeitaria suas limitações.

— obrigado, coronel.

sentiram o cheiro de carne assada assim que se aproximaram da clareira. as armadilhas colocadas durante a noite haviam apanhado coelhos e quatis e um dos caçadores abatera um porco-do-mato que estava sendo limpo para a noite, quando seria realizado um verdadeiro banquete. marion esperou que samantha colocasse a égua no curral e os dois entraram juntos na clareira. o coronel percebeu que connor vinha ao seu encontro e com um gesto discreto indicou-lhe que se afastasse. por puro

pressentimento, sabia que o rapaz não estava pronto para conversar com o amigo.

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serviram-se de carne de coelho e de papa de milho. o coronel e sam sentaram-se bem juntos e embora o rapaz não falasse quase nada e evitasse cuidadosamente fazer confidências, havia uma grande compreensão entre eles. samantha tornara-se o centro das atenções desde o dia anterior. todos sabiam de sua chegada providencial à fazenda garrison e do tiro perfeito que acabara com um tory e salvara a vida de connor. mesmo aqueles que se afastavam dela por causa de seus modos reservados, começaram a rodeá-la naquela manhã, cumprimentando-a pela atuação impecável. ela aceitava as homenagens cheia de acanhamento e ganhou mais um amigo por sua modéstia. para fugir da notoriedade indesejável, foi para a tenda e dormiu o resto do dia.

capÍtulo viii

os dois homens encararam-se com fúria no escuro gabinete de paredes forradas de mogno de robert chatham. — eu quero saber onde ela está! —foxworth exigiu com rispidez. — não vou lhe dizer mais nada! você não tem o direito de fazer perguntas! chatham ficava mais furioso à medida que foxworth insistia sem cessar em interrogá-lo com arrogância. não tinha a mínima idéia de onde sua filha estava. fizera tudo o que fora possível para descobrir seu paradeiro, sem resultado.

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— você me disse, chatham, que ela foi para a casa de parentes cuidar de

uma tia doente, mas não estou acreditando nessa história. por que samantha não dá notícias?

— ela quis ir embora para refletir em paz antes do casamento. pediu-me para não revelar o lugar a ninguém.

— nem ao seu prometido? ao homem que vai ser seu marido? desculpe,

chatham, mas não acredito em você.

a raiva do pai de samantha aumentou.

— se quer saber, penso que você foi o motivo principal da retirada de

minha filha para um lugar tranqüilo. e estou começando a entender por que ela precisou de tempo para tomar uma decisão sobre o casamento. foxworth fitou robert chatham com olhos faiscantes.

— desconfio de que você não sabe onde sua filha está. na verdade, acho

que sei mais que você.

o coronel viu o involuntário olhar de espanto que o outro lhe lançou, mas

era difícil acreditar que chatham ignorava o paradeiro de samantha. pensou no dia anterior, quando tivera a impressão de reconhecer a moça nos trajes

do rapaz que atirara no tory escondido no sótão, mas aquilo era um absurdo. nenhuma garota de boa família saberia atirar daquela maneira. todavia, havia algo que samantha fazia muito bem, mesmo sendo mulher. montava com a segurança de quem subira ao lombo de um cavalo ainda muito criança e desenvolvera uma habilidade invejável. muitas vezes ele admirara o entrosamento perfeito que havia entre a jovem e sundance.

e fora justamente a égua montada pelo jovem rebelde que introduzira a

inquietante dúvida em sua mente. seria impossível haver dois animais idênticos e a égua só podia ser sundance. — o que aconteceu com a égua que pertencia a samantha? — perguntou de chofre.

chatham olhou-o surpreendido. o coronel nunca demonstrara especial interesse em cavalos. e esse fato era o único senão que via no pretendente à mão de sua filha, pois, como fazendeiro digno do nome, robert chatham apreciava esses animais, tratando-os até com certo carinho. a pergunta de foxworth devia esconder alguma armadilha.

— foi roubada logo depois que minha filha viajou — respondeu, cauteloso.

— acho que sei onde ela está.

— onde? — com marion. eu a vi na fazenda garrison, durante o ataque dos rebeldes. estava sendo conduzida por um rapazinho. — o coronel olhou atentamente para o velho. — e vi algo mais. chatham deu de ombros, como se as palavras do coronel não lhe

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interessassem.

— o’neill — continuou foxworth. — connor o'neill. e major do exército daquele canalha. o militar observou com prazer que chatham empalidecia.

— tem certeza?

— absoluta. alto, cabelos castanho-claros, frios olhos cinzentos. devo dizer que a prisão não parece tê-lo afetado demais.

— e você o deixou escapar?

— meu caro robert, o que mais eu podia fazer? o homem me apontava uma

arma. — os lábios de foxworth estreitaram-se quando ele pensou na humilhação que sofrera. — aqueles bandidos não lutam como cavalheiros. mas não se preocupe que eu os pegarei. e marion também. — sorriu de forma estranha. — e faço questão de prender o rapazola que anda com a égua que pertencia a samantha. chatham, porém, não estava mais interessado em sundance. só conseguia pensar em connor o'neill, que devia saber de sua participação no seu aprisionamento e no confisco de glen woods. teria de reforçar a guarda ao

redor da propriedade. subitamente desejou que foxworth fosse embora. detestava o modo que o militar tinha de olhá-lo, erguendo as sobrancelhas e mantendo um ligeiro sorriso de mofa nos lábios. aquela atitude antipática deixava claro que o inglês alimentava profundo desdém pelos habitantes da carolina do sul, fossem eles leais ao rei ou não. chatham começava a desconfiar que errara ao desejar que a filha se casasse com aquele tipo. de qualquer modo, não tinha mais paciência para aturar a presença de foxworth. tinha assuntos mais urgentes a tratar, precisava planejar formas de se proteger de connor o'neill, que certamente procuraria vingar-se.

— depois da dura experiência de ontem, acredito que deseje descansar

— disse ao coronel, sem importar-se com a expressão de desagrado que tomou conta do rosto do inglês. — pedirei a um dos escravos que o acompanhe até a porta. frustrado com sua incapacidade de vencer o silêncio de chatham e descobrir algo mais sobre a viagem de samantha, foxworth balançou a cabeça em assentimento.

— conheço o caminho, obrigado. espero que me avise se souber alguma coisa sobre sua filha.

se ela desejar falar com você — chatham respondeu, seco,

imaginando se ele próprio tornaria a ver samantha. depois que foxworth partiu, o fazendeiro andou pela casa, desnorteado. apesar de toda as desavenças com a filha, descobriu, surpreso, que sentia falta dela. quando a esposa falecera, oito anos atrás, jurara nunca mais amar ninguém. tinha consciência de que não suportaria outro sofrimento

— avisarei

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semelhante àquele. robert chatham tivera uma infância infeliz e cheia de restrições e acabara por se acreditar incapaz de nutrir sentimentos de ternura em relação a outra pessoa. sendo o mais jovem dos filhos, fora apenas tolerado numa casa abalada por conflitos. o casamento dos pais havia sido apenas um acordo de conveniência e o desafeto entre os dois crescia à medida que o tempo passava. a mãe tivera casos de amor e o pai inúmeras amantes, o que os levara a viver trocando acusações e palavras amargas. estavam sempre ocupados demais para pensar nos filhos e até mesmo para escolher com cuidado as governantas e professores encarregados da educação da prole, de modo que as primeiras lembranças de chatham eram dolorosas, envoltas nas marcas indeléveis provocadas pelos castigos e falta de compreensão. já rapaz, deixara a inglaterra e partira para a colônia, onde sua inteligência e tino para os negócios o haviam tornado próspero e admirado por todos. as cicatrizes permaneciam, porém. ele continuou a guardar sua independência zelosamente, fechando o coração a qualquer envolvimento amoroso. até que elizabeth matthews aparecera em sua vida. encontraram-se numa festa e chatham ficou fascinado com a bela jovem cheia de vivacidade e alegria que podia escolher um marido entre dezenas de pretendentes apaixonados. sabia que era amargo e maçante e ficou espantado quando a moça mostrou-se interessada. ele nunca saberia que o interesse de elizabeth fora motivado por ela tê-lo considerado um desafio e ficado curiosa a respeito de sua personalidade taciturna. aos poucos, a curiosidade transformara-se em amor e a moça, desprezando conselhos e comentários, casou-se com o reservado robert chatham. ele, por sua vez, sentia-se maravilhado e feliz. para ele, nada existia no mundo a não ser a bela, risonha e carinhosa elizabeth. quando a filha nasceu, ressentiu-se da intromissão e detestava cada minuto que a criança exigia do tempo da mãe. sua obsessão pela esposa crescia, seu ciúme doentio:

aumentava e fazia tudo para cercear a liberdade da mulher, restringindo suas amizades e o contato com outras pessoas. por amor, elizabeth aceitava suas imposições, com uma exceção. não abria mão da amizade de margaret 0'neill, que fora sua amiga desde a mais tenra idade. as duas mulheres amavam-se como se fossem irmãs e foi com satisfação que viram a afinidade entre samantha e brendan crescer tomando-os inseparáveis. brincavam sobre um possível casamento quando os dois crescessem e intimamente acreditavam que a brincadeira se transformaria em realidade. havia apenas uma sombra pairando sobre a amizade das duas. por causa do preconceito de robert chatham, que desprezava a origem irlandesa da família o'neill, as amigas freqüentemente mantinham suas visitas em segredo para não desgostá-lo.

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então, a febre maligna assolou a região e quase todas as casas receberam seu ataque nefasto. sabendo que margaret estava muito mal, elizabeth ordenou, sem hesitação, que aprontassem uma carruagem para levá-la à casa da amiga. encontrou a morte, já respirando entre estertores. os olhos verdes mostravam-se enormes no rosto pálido e emagrecido. o sorriso que conseguiu endereçar à outra foi apenas uma sombra do que fora. margaret 0'neill, maggie, como era carinhosamente chamada, morreu naquele mesmo dia e elizabeth voltou para casa, desesperada, para encontrar o marido furioso, que se recusou a ouvir explicações, trancando-a no quarto e indo dormir num outro aposento. sua raiva era tanta a ponto de não lhe permitir notar que a esposa tinha as faces afogueadas e que os lindos olhos mostravam um fulgor febril. quando uma das escravas levou o desjejum ao quarto da senhora, no dia seguinte, encontrou-a inconsciente. dois dias depois, elizabeth matthews chatham estava morta. robert manteve-se isolado no quarto que dividira com a mulher amada durante vários dias, sem alimentar-se, bebendo uma garrafa de conhaque após outra culpava-se por não haver notado os sintomas e chamado o médico

imediatamente, o que poderia ter salvado a vida da esposa querida. todavia o sentimento de culpa era insuportável e ele procurou alguém a quem culpar pela morte de elizabeth. cegamente jogou toda a responsabilidade de sua desgraça sobre os 0'neill. eles haviam contaminado sua mulher com a febre maldita. certa manhã, pegou uma arma e saiu de casa com destino à fazenda glen woods. a sede estava fechada e uma coroa de cetim negro decorava tristemente a porta de entrada. atiçado por todo o álcool que vinha ingerindo, não perdeu tempo em bater. empurrou a porta com brutalidade e invadiu a casa.

— o'neill! — ele berrou.

aquilo tirou gerald 0'neill do torpor angustiado em que caíra. ele também

procurara afogar o sofrimento numa garrafa de bebida e achava-se entorpecido. atraído pelo barulho que o invasor fazia, connor, que trabalhava no celeiro, entrou na casa correndo. gerald saiu do quarto no segundo andar aos tropeções e parou no alto da escada, confuso, encarando chatham que o olhava cheio de ódio.

seu rosto

contorceu-se numa careta de dor e ele calou-se, — sente muito, miserável? vocês a mataram! e agora eu vou matá-los também! devagar, ergueu a arma, mirando o peito de gerald, no momento em que connor entrava correndo pela porta da frente. num segundo, o jovem compreendeu a intenção de chatham. com presença de espírito notável, voou

— robert! soube da morte de elizabeth. sinto muito e

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na direção do agressor e segurou-lhe o braço, desviando o projétil, que se alojou no braço de gerald. furioso, connor jogou o homem mais velho ao chão e esmurrou-o até fazê- lo aquietar-se. depois, ergueu-o e segurando-o por um dos braços, atirou-o porta a fora. seguiu-o então, pelos degraus do alpendre e até o cavalo.

— eu devia matá-lo, chatham — disse baixinho, observando-o montar. —

mas não o faço em consideração à sua esposa falecida e à minha mãe. aviso-o

porém de que, se puser os pés novamente em nossas terras, nada me deterá. o rosto do outro homem deixou transparecer a raiva.

— seus malditos irlandeses! vocês mataram a minha elizabeth e eu os mandarei para o inferno por causa disso, connor olhou-o com frieza.

— tenho certeza de que o encontrarei lá também, chatham. só o demônio

poderá castigá-lo pelo que fez à sua mulher. pelo menos ela agora ficou livre

de você, mas tenho pena de sua filha. cego de ódio, o homem tentou atropelá-lo com o cavalo, mas connor estava alerta e pulou para o lado.

— fique longe de samantha. todos vocês, irlandeses sarnentos, fiquem

longe dela ou eu os matarei! — gritou robert chatham, esporeando o animal e saindo a galope. depois daquele dia, a vida de chatham terminou. ele apenas vegetava, indiferente a tudo o que acontecia a sua volta. samantha cresceu sob a tutela de estranhos, pouco vendo o pai, que não gostava de sua presença e nem dava por sua falta quando ela escapava para encontrar-se com brendan o’neill, ou para brincar com hector. então, espantado com o passar do tempo, ele descobriu que a filha estava com dezessete anos. precisava encontrar um marido para ela. o casamento o livraria da responsabilidade de preocupar-se com ela e lhe daria algo que muito desejava um herdeiro para a sua fortuna, um neto que um dia tomaria seu lugar. o marido de samantha não podia ser qualquer um. tinha de ser um inglês, com educação tradicional e leal à coroa. quando um escravo lhe contou que samantha se encontrava às escondidas com brendan o’neill, ficou tão enfurecido a ponto de esquecer-se de que podia macular a reputação da filha. procurou o rapaz e acusou-o publicamente de haver seduzido a namorada, espicaçando de tal forma o orgulho do jovem que um duelo se tornou inevitável. o resultado do confronto encheu-o de perversa alegria. sua satisfação porém se desfez quando ele se propôs a achar um marido

para a filha. descobriu que manchara a reputação da jovem, tornando quase impossível um "bom" casamento. ninguém queria uma leviana e os boatos

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haviam corrido toda a região. dessa forma, o interesse de foxworth por samantha caíra do céu. continuando a percorrer a casa com passos inquietos, ele se perguntava por que então sentia aquela espécie de repulsa pelo oficial inglês. e por que, depois de tantos anos, o fardo da solidão ameaçava tornar-se pesado demais para ser suportado?

capÍtulo ix

connor esfregou o flanco dolorido. fazia dois meses que fora ferido, mas o lugar ainda doía e uma longa cavalgada sempre aumentava o desconforto. desceu do cavalo e todo o seu corpo refletia cansaço. passara trinta horas montado e tanto ele quanto o animal estavam próximos da exaustão. até mesmo marion, que parecia incansável, quase cambaleava ao aproximar-se do curral. todos os outros homens desmontavam vagarosamente, esfregando os músculos doloridos. samantha aproximou-se do grupo, mas as sombras da madrugada escondiam a ansiedade de seu rosto. tomou as rédeas do cavalo de connor. — vou escová-lo para você — ofereceu-se. ele nem discutiu, cansado demais para falar. com vagar, aproximou-se de

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marion e os olhos dos dois homens se encontraram,

— demos uma lição em todos, desta vez. não se sentirão seguros em lugar nenhum — o comandante disse.

— o preço da vitória foi alto.

— sempre é. mas agora temos mais quinhentos americanos livres, que

ontem não passavam de prisioneiros. dentro em pouco, estarão engrossando as fileiras de greene ou de washington. além do mais, nosso feito reforçará a esperança de outros prisioneiros.

— podíamos ter recebido alguns em nosso regimento. estamos com falta

de homens.

— não daria certo. não são bons cavaleiros. preciso de homens que saibam montar como você. — marion presenteou o amigo com um de seus raros elogios. connor inclinou a cabeça, agradecendo o cumprimento.

— vou dormir, marion, e acho que você também devia descansar.

— descansarei assim que acabar de passar os piquetes em revista. agora,

todo cuidado é pouco. os ingleses ficarão mais ativos depois do que aconteceu esta noite. amanhã levantaremos acampamento. os dois se separaram e connor dirigiu-se para a barraca, mal podendo esperar para deitar-se. aquele começo de inverno estava sendo bastante frio e chuvoso e não era mais possível dormir ao ar livre, de modo que todos haviam passado a usar as barracas roubadas dos ingleses em ataques anteriores. arrastou-se para o espaço exíguo, ignorando a fome que fazia seu estômago dar voltas. nada era mais importante que algumas horas de descanso e sono. ao virar-se na enxerga, procurando posição para dormir, sua mão bateu num prato colocado no chão. apalpando, descobriu que continha comida e encontrou também uma caneca de vinho. sem pensar como o alimento fora parar ali, comeu o pão com presunto e bebeu o vinho, sentindo o estômago aquietar-se. quando já estava quase dormindo foi que pensou no anônimo bom samaritano. só podia ter sido sam. aquele rapazola estranho era sempre prestativo, mas nunca permitia que ele lhe desse algo em troca. quando acordasse, teria uma conversa com o teimoso e reservado sam taylor. apenas, mais uma vez, a conversa teria de ser adiada. quando, horas mais tarde, connor rolou para fora da tenda, o acampamento já fervia de atividade. sam e billy james já haviam ido na frente com os cavalos excedentes e connor recebeu a incumbência de ficar no acampamento que estava abandonado para supervisionar o preparo das armadilhas, fundas

covas cobertas de galhos de árvores e folhas secas, redes colocadas estrategicamente para envolver os curiosos, laços de corda que corriam e

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prendiam pés incautos. os homens já haviam adquirido grande prática naquele trabalho e não precisavam de supervisão, de maneira que connor percorreu o local procurando cuidadosamente algo que denunciasse a permanência do bando naquele recanto dos pântanos, como pedaços de pano, balas de armas de fogo, sapatos e até mesmo restos de refeições. estando tudo pronto, ele montou e guiou o grupo para o novo acampamento, às margens de um afluente do pee dee. como os outros locais escolhidos por marion, aquele ficava bem fora do caminho dos viajantes que desciam o rio de canoa e oferecia boa água e bastante caça. quando connor e os homens chegaram, equipes cavavam latrinas e outras erguiam as tendas. o estampido de tiros de rifle denunciavam o trabalho das turmas encarregadas de caçar. o risco de que o inimigo se guiasse pelo barulho era bem remoto. os pântanos abafavam e distorciam os sons e se alguém tentasse guiar-se pelos tiros acabaria por perder-se completamente nos labirintos perigosos do bosque. os pântanos eram realmente uma ameaça terrível para quem não os conhecia. as terras baixas abrigavam uma variedade enorme de cobras e esses répteis eram tão numerosos que os caçadores ouviam o ruído que produziam ao jogar-se no rio durante a noite. os porcos-do-mato representavam outro grande perigo. tinham pouco medo e atacavam sem provocação. a região era também o lar de panteras, ursos e lobos, que movimentavam-se à vontade num lugar onde o ser humano tinha grande dificuldade em orientar-se. se tudo isso não bastasse, havia o perigo tremendo das areias movediças. precisava-se de muita coragem para viver nos pântanos. a vida ali era solitária, perigosa e triste naquele cenário cheio de ameaças, embora encantador. a febre maligna pairava como eterno pesadelo sobre todos e marion bebia vinagre todos os dias, jurando que o hábito afastava a doença. de fato, parecia dar certo para ele porque, ao contrário da maioria de seus soldados, o comandante do regimento rebelde nunca adoecera. contudo, por mais que se esforçasse para induzir os companheiros a imitá-lo, ninguém conseguia engolir a bebida ácida todos os dias. connor perdia-se em pensamentos variados ao adentrar o território do novo acampamento. ficara surpreso ao constatar a facilidade com que sam adaptara-se àquela vida difícil sem queixas, apesar da dieta alimentar muitas vezes inadequada e das acomodações desconfortáveis. na verdade, sua calma resignação o distinguira dos outros homens, que viviam resmungando contra tudo. o rapazinho fora aceito rapidamente pelos companheiros, que admiravam sua habilidade em lidar com os cavalos e sua diligência em cumprir as mais variadas tarefas sem reclamações. sua façanha na fazenda garrison

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consolidara sua posição entre os soldados e connor ficara surpreso e satisfeito ao perceber o interesse de marion pelo jovem rebelde. sam não podia ter melhor mestre. porém, o comportamento esquivo do rapaz continuava a intrigar a todos. sam rejeitava as ofertas de amizade e não aceitava a ajuda de ninguém, principalmente de connor, a quem não perdia oportunidade de auxiliar de todas as formas. seus cuidados eram tão constantes que connor o comparava a um anjo da guarda. ao imaginar o rapazinho sujo e de rosto fechado envergando um par de asas e camisola imaculada, sorriu divertido. a necessidade de privacidade alimentada por sam tornara-se óbvia. ele nunca se banhava juntamente com os outros e costumava desaparecer por algum tempo todos os dias, voltando depois com os cabelos úmidos, a aparência refrescada, apesar das roupas sujas e amassadas. a princípio, os outros soldados brincavam com ele, provocando-o por causa do estranho comportamento, mas aos poucos foram aprendendo a respeitar seu modo de ser e agir. connor precisou sorrir outra vez ao lembrar-se da comida e do vinho colocados em sua tenda. nenhum presente poderia ter sido mais apreciado e desejava ver sam e agradecer a gentileza. queria também agradecer sua valiosa interferência na fazenda garrison, mas o rapaz fugia cada vez que ele tentava uma aproximação e francis marion lhe pedira para não pressioná- lo. parecia haver uma compreensão profunda entre o garoto e o calejado comandante, e connor sentia uma ponta de despeito por perceber que francis tivera sucesso onde ele fracassara completamente.

afastando os pensamentos desencontrados, connor colocou o cavalo no curral recém-construído e dirigiu-se para as fogueiras onde o alimento era preparado. viu postas de peixe: assando em cima das brasas e cortou um pedaço da carne branca e cheirosa. comeu rapidamente, aceitando uma caneca de vinho seco para acompanhar a refeição simples. a seguir, saiu à procura de sam, a quem ainda não vira. samantha evitava encontrar-se com connor, cujo rosto não lhe saía da mente nem de dia, nem de noite, quando surgiu em seus sonhos agitados. tentara convencer-se de que era uma reação ao sentimento de culpa que a tomara quando havia descoberto as atrocidades do pai contra os 0'neill, mas fora obrigada a reconhecer que havia algo mais. seu coração apressava as batidas quando ele lhe sorria, os lábios perdendo a costumeira rigidez. era difícil não corresponder à doçura daquele sorriso, então ela mantinha-se a distância, mesmo sabendo que assim agindo aumentava, a curiosidade de connor. o coronel marion a compreendia, jamais exigindo respostas, entendendo que ela temia alguma coisa. essa silenciosa solidariedade

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ajudava-a a encontrar forças para suportar o conflito que se agitava em seu íntimo. francis marion, fiel à promessa que lhe fizera, deixava-a tomar as próprias decisões e ela preferia ficar cuidando dos cavalos, onde seu trabalho era valioso. e ninguém contestava sua preferência.

o tempo tinha pouco significado nos pântanos, sendo marcado apenas

pelas expedições de ataque e as esperas angustiadas pela volta dos homens ao acampamento. a última missão havia sido torturante para ela, pois os soldados atacaram um grande destacamento de tropas inglesas que levava prisioneiros de kingstree para georgetown. ficara exultante com a volta deles e colocara o alimento e o vinho, que hector levara para ela, na tenda de connor. foi tirada dos pensamentos pelo cheiro desagradável que exalava de suas roupas e lhe atingia as narinas. ainda usava a mesma vestimenta que vestira para fugir de casa, complementada por uma pesada túnica inglesa muito maior que ela. não havia roupa sobrando no acampamento, principalmente do tamanho que se ajustasse ao seu talhe delicado, e ela temia tirar as que vestia para lavar e ser surpreendida despida. além disso, já estava frio demais para banhar-se vestida no rio, pois as roupas demoravam a secar e, assim, ela sofria em silêncio, apenas consolando-se com a idéia de que não estava sozinha no meio daquele desconforto todo. encontrava-se entre homens rudes que acreditavam que um banho completo por ano já era suficiente e que limpeza demais deixava o organismo debilitado. limitavam-

se a lavar os pés, o rosto e as mãos. e somente marion, connor, horry, james e o jovem billy faziam questão de tomar banhos freqüentes. um sorriso matreiro iluminou as feições delicadas. sua escrava, angel, reclamava sempre dos banhos diários da patroa e das constantes trocas de roupas, alegando que aquilo ainda acabaria mandando-a para a sepultura precocemente. portanto, de acordo com os vigentes padrões de higiene, ela nunca gozara de tanta saúde como naquele momento. voltando a pensar em connor, considerou que não conseguiria fugir dele para sempre. quando ele estava no acampamento, olhava-a demais, parecendo querer ler seus mais íntimos pensamentos e ela já se aperfeiçoara no jogo de esquivar-se às suas tentativas de aproximação. mas aquele era um jogo perigoso, que o deixava cada vez mais determinado a vencer a resistência do jovem sam, que fugia à sua amizade.

e ela teve uma prova daquela determinação quando connor aproximou-se

dela e de billy na primeira noite no novo acampamento. — preciso falar com você, sam — ele disse de rosto fechado, não permitindo discussão. billy rapidamente se erguera, mas sam agarrara-o pelo braço e o jovem

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soldado olhou confuso para o major 0'neill, um superior a quem devia obediência.

— volto depois, sam — disse billy, escapando da mão que o prendia.

enquanto o garoto se afastava, connor sentou-se ao lado dela no chão.

— quantos anos você tem, sam? — perguntou com voz mansa.

— tenho idade suficiente para estar aqui.

— você nunca responde uma pergunta de modo direto?

sam deu de ombros, fazendo um muxoxo de enfado. percebia que o homem se irritava e procurava controlar a paciência.

— alguém pós a comida na minha tenda ontem à noite. foi você?

— sim — respondeu sam, surpreendendo-o pela falta de relutância em admitir o fato.

— de onde veio aquilo? não temos pão e presunto no acampamento.

por fim, sam encarou-o timidamente.

— um rapaz que queria falar com o coronel deu para mim.

— e por que me deu?

— você precisava mais. estava cansado e faminto. — baixou a cabeça,

desviando os olhos azuis. — além do quê, ainda está muito magro. connor não pôde reprimir um sorriso divertido. ninguém era mais esguio que sam e nas últimas semanas o corpo esbelto ficara ainda mais miúdo.

— não faça mais isso, sam — advertiu com gentil severidade. — uma vez já lhe disse que marion não gosta de soldados magricelas. se não se alimentar melhor acabará sendo expulso do regimento.

amigos. o homem colocou uma

das mãos no ombro frágil do rapazinho.

— gostaria que você também me considerasse um amigo — disse com uma

ponta de mágoa na voz. sam olhou-o diretamente e o azul daqueles olhos atingiu-o dolorosamente. lembrava-se da cor dos olhos de brendan, o irmão a quem tanta amara. o sentimento não passou despercebido de sam, que viu a nuvem de dor que toldou os olhos cinzentos. compreendeu o motivo, lembrando-se de que ela e brendan muitas vezes haviam brincado a respeito de terem a mesma cor de olhos, profunda e brilhante. quase involuntariamente sua mão pousou no braço do homem num gesto de conforto e compreensão. porém, tudo foi tão rápido que connor achou que imaginara aquilo. depois, todavia, percebeu que uma nova corrente de simpatia os unia. temeroso de que uma palavra apressada pudesse arruinar o começo daquela amizade, nada revelou sobre seus planos de adotar aquele garoto de espírito forte e independente. quando a guerra acabasse reclamaria suas terras de volta e

daria um lar de verdade a sam.

— conheci um menino em santee — disse depois de longa pausa. — o nome

— o coronel não faria isso. ele e eu somos

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dele é john. ele e sua mãe me ajudaram a fugir e eu prometi que daria um rifle de presente ao garoto. francis não está planejando nada para os próximos dias, de modo que pensei em ir até lá. quer ir comigo? — sorriu. — preciso de um protetor. sam sabia que seria imprudente aceitar, mas a vontade de passar alguns dias ao lado de connor venceu a prudência. assentiu, olhando para o chão. connor levantou-se. — partiremos ao alvorecer.

capÍtulo x

colocando os arreios num cavalo castanho, samantha censurava-se pela decisão de acompanhar connor até santee. tentava ignorar o contato do focinho de sundance em seu pescoço, mas depois que a égua a empurrara diversas vezes chamando sua atenção, parou o que estava fazendo para acalmar o animal. sundance era linda demais para empreender a viagem, que devia transcorrer o mais discretamente possível. quando connor aproximou-se do curral, viu sam falando com a égua dourada. sempre fora exímio cavaleiro, mas jamais tivera o dom de comunicar-se com os animais. todos os cavalos do regimento aquietavam-se na presença de sam e docilmente deixavam-se tratar, mesmo quando estavam feridos ou doentes. o ferreiro do bando dissera que sam

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enfeitiçava os cavalos, mas nada supersticioso, connor achava que o

rapazinho possuía uma habilidade incrível que não deixava de ser intrigante. samantha virou-se e espantou-se ao ver o estranho atrás dela. demorou alguns instantes para reconhecer connor. um trapo sujo enrolava-se ao redor do pescoço musculoso e um retalho de couro preto, sustentado por duas tiras finas tapava o olho esquerdo. pelo jeito, ele também conhecia a arte de tingimento. os cabelos castanho-claros exibiam uma tonalidade escura de marrom e o rosto arroxeado parecia o de um homem viciado em bebida. mancando, ele aproximou-se dela com uma expressão maliciosa.

— pode ajudar um aleijado, ferido a serviço de sua majestade, o rei da inglaterra? — a voz bem modulada disfarçava-se em sotaque grosseiro. samantha sorriu, divertida. — por que não se finge de mudo? e mais fácil — ela o provocou.

— vou pedir a fazenda que me prometeram em recompensa dos meus

serviços — ele continuou com voz pastosa. ela reprimiu uma risada, mas não resistiu ao desejo de fazer uma observação insolente. - tenho certeza de que os britânicos estão loucos para dar-lhe uma recompensa por seus serviços, mas duvido que seja uma fazenda. connor riu, deleitado com a pronta resposta, e deu-lhe um tapinha nas costas. por mais que tentasse, samantha não podia conter a alegria quando saíram do acampamento. os primeiros raios de sol anunciavam a manhã e cores suaves tingiam o horizonte. sentindo-se leve, respirou o ar fresco da floresta, agitada pela revoada de pássaros e pelos saltos graciosos dos esquilos que passavam de uma árvore para a outra em divertida algazarra. connor percebeu que o jovem companheiro endireitava os ombros e que os olhos azuis absorviam todas as cenas, cheios de embevecimento e entusiasmo. poucas pessoas eram capazes de sentir o doce mistério dos pântanos e de reconhecer a beleza empolgante da natureza majestosa. moviam-se em quase completo silêncio, acompanhando o curso do pee dee a alguma distância. os ingleses usavam o rio como rota de transporte apesar das constantes arremetidas de francis marion, de maneira que precisavam ser prudentes para não denunciarem sua presença. pouco falavam também. connor concentrava-se em seguir a trilha, sempre alerta a possíveis perigos, mas às vezes quebrava o silêncio para apontar um arbusto e dissertar sobre suas qualidades medicinais ou seu papel no ciclo vital da floresta. sam encorajava-o demonstrando grande interesse nas explicações. ao meio-dia, pararam perto de uma pequena lagoa e dividiram uma frugal refeição de peixe seco. apesar da camaradagem partilhada durante toda a

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manhã, samantha conservava os olhos baixos e respondia às perguntas do

companheiro apenas por monossílabos. um mau pressentimento lhe tirava a paz de espírito.

— tenho algo a fazer em georgetown — declarou connor repentinamente.

— e quero que fique escondido na floresta.

— não — sam rebelou-se. — você me trouxe e vou junto. connor suspirou

resignado e sorriu. — muito bem. mas vamos andar separados porque alguém pode me reconhecer.

— isso é impossível.

— não discuta, sam. você vai andar um pouco atrás de mim. — suavizou a ordem com um sorriso. — seu major está mandando. — sim, senhor! — sam replicou em tom zombeteiro. connor deu uma

gargalhada. o garoto realmente não tinha modos nem senso de obediência.

— você, seu pestinha, ainda vai encontrar quem lhe ensine boas maneiras. levantou-se e estendeu a mão para sam ajudando-o a erguer-se, espantando-se com a leveza daquele corpo franzino.

— vamos embora. chegaremos a georgetown no meio da tarde.

chegando a georgetown, connor franziu a testa desgostoso com a visão de

um forte de madeira construído na estrada principal que adentrava pela graciosa cidadezinha, sua favorita entre todas as outras da região. e aquele forte, povoado por homens vestidos de vermelho, zombava da dignidade da vila americana. passou pelos guardas mancando e reclamando com voz disfarçada, pedindo para ver uma das autoridades. samantha ficou para trás, esperando que connor desaparecesse. só então seguiu caminho também passando pela guarda. seu coração batia forte no peito e ela chegou a temer que algum soldado notasse sua inquietação e suspeitasse dela.

— o que veio fazer aqui, garoto? — perguntou um guarda.

— meu pai mandou-me pedir proteção contra os rebeldes.

o soldado fez um gesto com a mão, liberando-a e ela desajeitadamente esporeou o cavalo, quase caindo da sela quando o animal lançou-se para a frente, o que provocou uma onda de riso entre os guardas. seguindo as orientações de connor, chegou a uma imponente casa de tijolos vermelhos rodeada por uma cerca de ripas pintadas de branco. no alpendre havia lampiões a gás e ela maravilhou-se, imaginando quem viveria naquela casa. os donos tinham de ser muito ricos porque iluminação a gás era um luxo tremendo.

ela já estivera em georgetown várias vezes e percorrera a área comercial, assim como visitara diversas mansões que alinhavam-se ao longo

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do rio e da rua principal, moradias de amigos de seu pai. porém, nunca estivera naquela ruazinha quieta, limpa e tranqüila. talvez ali morassem patriotas notórios, mas se assim fosse as propriedades já teriam sido confiscadas pelos britânicos. sacudiu a cabeça, espantando a confusão. connor não a teria mandado encontrar-se com ele ali se o lugar não fosse seguro. com renovada confiança, escorregou da sela e entregou as rédeas ao escravo vestindo libré que se aproximara do portão. correu pelo jardim e subiu os degraus que levavam à varanda. depois de um segundo de hesitação bateu à porta de carvalho. ficou admirada por ela ser aberta por uma mulher e mais ainda quando

observou-lhe os trajes incomuns, que deixavam o corpo quase todo à mostra. samantha nunca vira uma mulher com tão pouca roupa, pelo menos em público.

a moça era bela, não havia dúvida. os cabelos ruivos e brilhantes

cascateavam pelas costas abaixo e emolduravam um rosto de traços clássicos e perfeitos. os sorridentes olhos verdes fitavam o rosto

espantado de samantha, que não conseguia acreditar que a outra vestia uma camisola reveladora e sensual. quando conseguiu encarar o rosto risonho, samantha percebeu que a mulher não era tão jovem como parecera à primeira vista. havia linhas sutis ao redor da boca e dos olhos verdes.

— você deve ser sam — a outra disse com voz calorosa. — connor está esperando por você. e ansiosamente, devo dizer.

subitamente, notando a surpresa e acanhamento do visitante, a mulher riu baixinho.

— connor me contou alguns minutos atrás e nem tive tempo para trocar

de roupa. mas venha, entre. não pode ficar aí plantado. os ingleses poderiam estranhar. extremamente confusa, samantha entrou num vestíbulo decorado com exagero. o interior mostrava uma estranha combinação de peças de bom gosto e outras horríveis, mas o que mais chamava a atenção era a profusão de espelhos e sofás espalhados por todo o ambiente. quem seria aquela mulher e qual seria sua ligação com connor? seguiu a mulher até uma espaçosa cozinha, onde encontrou connor sentado a uma mesa, comendo presunto com ovos. ao perceber os passos que se aproximavam, ele ergueu a cabeça e sorriu.

— sam

não teve problemas?

os olhos de samantha estreitaram-se e percorreram o amigo, a mulher e a

cozinha bem equipada. nem o cheiro gostoso da comida conseguia aliviar o nó que se formara em seu estômago e sufocar o ímpeto de rebeldia que

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ameaçava dominá-la. o sorriso de connor desapareceu quando ele notou sua confusão.

— esta é annabelle — ele apresentou. — É minha amiga há muito tempo.

samantha não pôde refrear o desgosto que colocou um lampejo de raiva em seu olhar límpido. os outros dois perceberam o que se passava e a mulher apressou-se em apaziguar o rapaz. —todos nós trabalhamos para o general greene e para o coronel marion — disse amigavelmente, colocando uma das mãos no ombro de sam. — não há motivo para preocupar-se, garoto. as vibrações de antagonismo emitidas por sam eram tão fortes que annabelle não pôde deixar de senti-las. se viessem de outra mulher ela não se espantaria. estava acostumada ao desprezo e à raiva das mulheres, mas não entendia por que um rapazinho estranho a repelia com tal vigor. aquilo não fazia sentido. ela suspirou e chamou uma escrava.

— venha comigo. preciso trocar de roupa.

saiu da cozinha depois de lançar um sorriso muito íntimo em direção a

connor,

— quem é ela? — perguntou sam com rudeza assim que ficaram sozinhos.

pensativo, connor observou o jovem companheiro. durante os dezessete anos em que mantivera amizade com annabelle nunca vira um homem ficar imune ao seu encanto. a mulher não procurava fingir ser o que não era e orgulhava-se de dirigir o melhor bordel de georgetown. ele encontrara nela uma boa amiga, sincera, espirituosa e cheia de coragem, a quem muito estimava. fora levado ao bordel de annabelle pelo pai, quando completara quinze anos, "para que aprendesse a arte do amor com boas mestras". — se você quer ser carpinteiro — gerald o'neill dissera —, precisa começar como aprendiz numa carpintaria. se deseja tratar de cavalos precisa aprender com o dono de uma estrebaria. o amor não foge à regra. deve ser aprendido junto de quem sabe o que faz. assim, connor fora parar nas mãos suaves de annabelle que na ocasião estava com vinte anos e era, sem dúvida alguma, a principal atração do "salão para cavalheiros apple". quando a estimada proprietária se aposentou para casar-se com um dos clientes, vendeu o estabelecimento para annabelle que imediatamente trocou o nome do bordel e adicionou toques de sofisticação ao lugar que passara a ser conhecido simplesmente como "casa número dois, rua cherry". connor jamais se esquecera da noite em que annabelle, gentil, carinhosa e compreensiva o iniciara nos ritos do sexo e no correr dos anos continuara a

freqüentar o lugar. ele e a mulher tornaram-se amigos além de amantes até que, sem que nada demarcasse o início daquela mudança, haviam deixado de

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relacionar-se intimamente para permanecerem simplesmente amigos. connor confiava tanto nela que segredava-lhe suas atividades, esperanças e seus desgostos, e ela, depois que ele se tornara um rebelde, oferecera-se para, juntamente com as meninas do bordel, captar informações valiosas para a causa dos patriotas. como recebiam os oficiais ingleses, eram espias de valor inestimável. mas nada daquilo ele podia explicar a sam, que permanecia atônito naquele ambiente estranho. de repente, lamentou a idéia de levar o garoto para lá, mas não havia nada a fazer a não ser tentar remediar a situação. ocorreu- lhe que poderia dar a sam o mesmo presente que seu pai lhe dera dezessete anos atrás, oferecendo-lhe a iniciação nos mistérios do amor. hesitou, porém, ao pensar em como o rapaz era teimoso recusando-se a aceitar qualquer coisa dele. um pouco mais tarde, sam sentou-se e ficou beliscando o prato de comida que o amigo colocou à sua frente. connor observou-o em silêncio, resolvido a falar com annabelle sobre o problema do rapazinho. a pouca atenção que samantha dispensava ao alimento dispersou-se totalmente quando a cozinha foi invadida por uma horda de jovens mulheres vestidas espalhafatosamente. os vestidos ou eram agarrados ao corpo ou mostravam decotes exageradamente baixos, que expunham os seios fartos quase por completo. o mais desconcertante contudo foi o modo desinibido e animado com que cumprimentaram connor. algumas até se debruçaram sobre ele, depositando beijos molhados em suas faces. samantha teve um desejo enorme de esbofetear todas elas e seu companheiro também, que permanecia sentado, sorrindo e dirigindo frases a cada uma delas com chocante familiaridade. ele obviamente não censurava o modo de vestir escandaloso daquelas mulheres. ela empurrou o prato, incapaz de comer. annabelle certamente era uma mulher perdida. nenhuma outra receberia um homem em trajes íntimos. samantha já lera muito, mas não tinha nenhuma experiência de vida. assim, demorou a perceber que connor a levara para uma "casa suspeita". corou até a raiz dos cabelos e desejou desaparecer. seu querido connor não era um cavalheiro, afinal de contas, se tivera coragem de levá-la a um lugar daqueles. então lembrou-se de que era "um rapaz" e o ridículo da situação ameaçou fazê-la romper em gargalhadas. quase engasgou para sufocar o riso. connor, que se distraía cumprimentando as mulheres, olhou para o jovem companheiro e franziu as sobrancelhas intrigado. sam parecia à beira de um ataque e as bochechas mostravam-se infladas como se o rapaz estivesse se esforçando para não rir. sam querendo rir? que milagre era aquele? samantha viu o olhar dele e redobrou os esforços para se conter. com

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uma repentina inspiração, fingiu ter engasgado e imediatamente connor começou a bater-lhe nas costas. aos poucos, ela dominou-se e o perigo passou. como explicaria um ataque, de riso quando nada acontecera de engraçado?

— não estou acostumado com tanta pimenta — explicou assim que pôde

falar com clareza, embora ainda reprimisse a vontade de rir. felizmente, connor não percebeu a encenação e olhou-a preocupado.

— acho que você precisa descansar um pouco, sam.

ela concordou, ansiosa por sair dali e fugir de todos aqueles olhares concentrados em seu rosto. seguiu-o para fora da cozinha e subiram uma escada circular. ela notou enciumada a familiaridade que ele demonstrava ao percorrer a casa. andaram por um longo corredor com portas enfileiradas dos dois lados e chegaram a outra escada que levava ao terceiro andar, onde havia apenas dois quartos. connor abriu a porta do que ficava à esquerda. obviamente tratava-se do quarto de um homem, com decoração sóbria e

de bom gosto, em tons de bege e marrom. no aposento o que mais chamava a atenção eram as estantes lotadas de livros, e só depois de alguns instantes ela notou a bela cama que combinava com uma escrivaninha e um armário de valiosa madeira entalhada a mão. aquele ambiente refletia o caráter de connor e ela sentiu novo golpe de ciúme.

— até parece que você vive aqui — comentou com aspereza involuntária. ele sorriu, apreciando a sagacidade do rapaz.

— annabelle e eu sempre temos negócios a tratar e eu fico aqui quando venho à cidade. É bastante seguro.

— todas aquelas mulheres sabem que você é um rebelde? suspeito que

recebem muitos casacas-vermelhas aqui. o sorriso dele aumentou.

— e recebem mesmo. o que é muito bom para francis marion. quanto mais entrarem em contato com os ingleses, melhor para nós.

sam virou o rosto, desgostoso, mas connor viu a expressão de censura e riu. o rapazinho logo aprenderia a apreciar annabelle. no entanto, nada comentou e dirigiu-se para a porta.

— fique aqui. aconteça o que acontecer, não saia deste quarto. a casa

logo se encherá de clientes e haverá ingleses e alguns americanos tories entre eles. quero que prometa que vai me obedecer. sam continuou com o rosto virado para a parede.

— É mais arriscado para você do que para mim — observou sem fitar connor.

— tenho assuntos a resolver, sam. mas não se preocupe porque sou

cuidadoso. e, então, promete ficar aqui? ela sabia que não tinha escolha e balançou a cabeça, concordando.

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— diga isso com todas as palavras, sam.

— prometo ficar aqui.

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— muito bem. outra coisa: não abra a porta para ninguém a não ser para

annabelle, ouviu? no instante seguinte, ele já saíra do quarto, deixando samantha a olhar sombriamente para a porta fechada. connor ajeitou-se numa grande poltrona de couro no escritório de annabelle e sorriu para sua anfitriã.

— finalmente conseguiu livrar-se das minhas garotas — ela brincou,

sorrindo também. — elas sempre fazem apostas sobre quem conseguirá levá-lo para a cama primeiro. ele riu do comentário picante. annabelle gostava do som daquele riso franco e honesto. ao vê-lo, sempre sentia uma ponta de tristeza por não serem mais amantes, mas a amizade entre eles era muito importante para que se arriscassem a perdê-la por algum desentendimento no terreno sentimental e por um acordo tácito haviam cessado suas relações íntimas. connor fora o único homem a tratá-la com respeito e a admirar sua inteligência, quando todos os outros viam apenas seu corpo e sua habilidade na arte do amor. muitos anos atrás ele lhe emprestara dinheiro para

comprar o bordel e depois daquilo haviam se associado em algumas aventuras comerciais. quando os ingleses invadiram a carolina do sul ele lhe dera uma grande soma de dinheiro para que ela investisse em seu nome, sabendo que seria um dos primeiros alvos dos britânicos depois que lutara contra eles na ilha sullivam em 1776. e realmente seus bens acabaram sendo confiscados, mas o dinheiro administrado por annabelle estava a salvo. ela olhou-o detidamente. mesmo vestido daquela maneira pobre e tendo um dos olhos tapado, ele não conseguia disfarçar a atraente virilidade.

— com essa aparência, connor 0'neill, é melhor ficar escondido. nenhum

dos meus clientes vai acreditar que você tem dinheiro para pagar uma noite

em minha casa. na verdade, nem vão entender por que o deixei entrar.

— a senhora me magoa profundamente, madame — ele respondeu com um

sorriso. — tiffany e as outras garotas não demonstraram nenhuma repulsa por minha pessoa. annabelle riu. — elas não têm juízo, meu amigo. falando em juízo, fale-me sobre o garoto que veio com você. ele pareceu apavorado quando me viu.

— sam dá a impressão de ter medo de tudo e é um rapaz muito estranho e

fechado. a única pessoa em quem confia, e talvez não totalmente, é o coronel marion.

— por que o trouxe? sabe o quanto pode ser perigoso para você, para mim e para as garotas da minha casa.

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ele inclinou-se para a frente, sério e compenetrado.

— annabelle, você sabe que eu nada faria que pusesse você ou sua casa

em perigo. sam salvou minha vida duas vezes. encontrou-me quando fugi do navio e cuidou de mim como se eu fosse seu irmão. depois, durante um ataque a uma fazenda tories, matou um dos homens de tarleton que tentava me alvejar do sótão do celeiro. ele não tem muita educação, é rude e teimoso, mas também é corajoso e cheio de bondade. não tenho mais família

e desejo fazer alguma coisa por ele. talvez o adote, se ele concordar, mas primeiro preciso ganhar sua confiança, o que me parece quase impossível. pensei que viajando comigo ele começasse a acreditar que realmente quero ser seu amigo. annabelle olhou-o com um sorriso terno nos lábios.

— sempre preocupado com os pobres e abandonados, não é? muito bem.

em que posso ajudar? connor sorriu. —- lembra-se de minha primeira visita a esta casa?

— como poderia esquecer? — ela perguntou, rindo. — nunca tive aluno

mais aplicado que você, meu caro. — ela parou de rir e encarou-o. — quer

dizer que

quer

— exatamente.

— quem será a professora?

— deixo a escolha por sua conta, minha amiga.

— preciso pensar. — ela fez uma pausa. — talvez tiffany. e muito jovem mas tem bom coração. não o humilhará. os dois se olharam em silêncio e annabelle suspirou.

— seu jovem amigo não gostou de mim. nem um pouquinho. quando me viu

de camisola ficou acanhado e atônito. talvez não esteja pronto ainda,

connor.

o homem sorriu, lisonjeiro.

— tenho a maior confiança no seu estabelecimento, annabelle. agora, mudando de assunto, que novidades tem para francis?

a mulher foi até o cofre num dos cantos do escritório e tirou algumas folhas de papel.

— anotamos tudo o que achamos importante — esclareceu. — agora leia e grave as informações na sua magnífica memória.

— annabelle, meu companheiro e eu precisamos de novas roupas. um brilho divertido passou pelos olhos verdes da mulher.

— nesse ponto concordo com você plenamente.

ele riu. conhecia bem o gosto dela por belas roupas.

— pode mandar alguém comprar alguma coisa? nada elegante demais, por favor. roupas sóbrias que não chamem a atenção de ninguém.

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— não se preocupe. farei tudo de acordo.

— mais uma coisa. preciso de um rifle para dar de presente.

— está certo. amanhã de manhã já estará tudo aqui. o que vai fazer

depois?

— preciso visitar algumas pessoas aqui em georgetown. ela sabia que não

devia questioná-lo mais. quanto menos soubesse das atividades do amigo, melhor para todos. — você e sam terão um bom tratamento aqui — ela assegurou. — sabe que minha casa é sua, ele ergueu-se da poltrona e os dois caminharam para a porta. annabelle admirou a elegância do andar daquele homem encantador. connor a marcara de forma indelével e ela não conseguia amar homem algum. porém, talvez aquela incapacidade já viesse de muito tempo atrás quando, aos catorze anos, sem um centavo e solitária, batera à porta da sra. apple procurando abrigo. apple não era o nome real da dona do bordel, que achava sarah wentworth muito sem graça para atrair fregueses, decidindo adotar um pseudônimo. a decisão fora acertada. em pouco tempo a casa da rua cherry era conhecida num raio de muitos quilômetros. annabelle nunca se arrependera de haver entrado naquela vida, exceto quando pensava que se as coisas fossem diferentes ela poderia ter alguma chance de conquistar connor. tornara-se rica e independente e ate mesmo famosa. não atendia mais clientes, a não ser quando ela mesma decidia dormir com algum homem, e selecionava muito bem as moças que trabalhavam para ela, tratando-as com gentileza e justiça. os clientes também sabiam que se maltratassem uma das mulheres seriam para sempre banidos da casa e essa ameaça bastava para mantê-los na linha. para os homens da região não poderia haver desgraça maior do que não ter mais acesso à casa de annabelle. com um sorriso, livrou-se dos pensamentos e dirigiu-se ao vestíbulo para receber os primeiros clientes da noite. depois de passar alguns momentos conversando com eles, entregou a tarefa a mary jo, sua recepcionista. voltou para o interior da casa, mandou que um escravo esquentasse água para um banho e que outro levasse uma banheira para o quarto de connor.

depois, subiu os lances de escada e bateu à porta do quarto do amigo, onde sam ficara fechado.

— quem é? — o garoto perguntou com voz sonolenta.

— annabelle.

depois de um longo silêncio, a porta abriu-se e sam encarou-a de modo apreensivo. a mulher olhou-o de alto a baixo imaginando como um fiapo de

gente daqueles podia ter salvado a vida de connor duas vezes. não era diferente de nenhum dos rapazes sem lar, frutos da guerra, que vagueavam

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pelas cidades aos bandos. algo porém sobressaía naquele rosto franzino de

maneira impressionante. os olhos, annabelle imaginou como não os notara antes. eram os olhos maiores e mais azuis que ela já vira e cintilavam com o brilho de uma inteligência viva. de repente, ele desviou o olhar. — por que não me encara, sam? de que tem medo?

— e falta de educação encarar as pessoas — o rapaz respondeu com insolência.

annabelle tossiu para disfarçar o riso. realmente aquela era uma criatura estranha. — não gostaria de tomar um banho? — perguntou cautelosa, afastando-se para um lado para o escravo entrar com a banheira de metal de pés torneados. logo em seguida, entraram mais dois negros carregando fumegantes baldes de água. samantha observava o movimento, achando que nunca ansiara tanto por um banho. connor poderia entrar no quarto e apanhá-la na água, mas estava disposta a correr o risco para sentir-se limpa finalmente.

— connor saiu e não voltará tão cedo — annabelle explicou como se

houvesse lido seus pensamentos. samantha olhou para a bela mulher de cabelos vermelhos que a olhava

quase com compaixão. estaria connor apaixonado por ela? o pensamento causou-lhe uma dor angustiante no coração. logo, porém, a água convidativa na banheira redonda que parecia uma tina a fez esquecer-se da tristeza.

— obrigado — murmurou com voz suave.

não viu o olhar surpreso da dona do bordel que com um leve sorriso a observava, achando que nem tudo era como parecia. o garoto podia estar simplesmente fingindo ter modos grosseiros e ser avesso à amizade. subitamente, o sorriso desapareceu. connor podia muito bem estar sendo traído por aquela criatura enigmática. pensativa, annabelle saiu do quarto acompanhada dos escravos. samantha rapidamente tirou as roupas sujas e a faixa que lhe apertava os seios. no instante seguinte, entrava na água quente e perfumada, deixando- se invadir por alegria intensa. fechou os olhos e deixou-se envolver pelo calor delicioso, permitindo que a mente descansasse e o corpo relaxasse.

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capÍtulo xi

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samantha desligou-se tão completamente de tudo que não ouviu a porta abrir-se. — trouxe toalhas — annabelle anunciou entrando no aposento. deu alguns passos em direção à banheira e parou espantada. debatendo- se, tentando ficar de pé, a mocinha procurava algo com que cobrir-se, sem nada encontrar. os maravilhosos olhos azuis estavam cheios de medo. — connor não costuma cometer erros — a mulher disse começando a rir. — mas você o enganou direitinho. pensara que sam fosse um pequeno traidor, quando na verdade não passava de uma garota fingindo-se de rapaz. querendo dar à moça apavorada algum tempo para se recompor, annabelle

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virou-se e trancou a porta. sam não sairia dali até que lhe desse algumas respostas convincentes. samantha afundara novamente na água e mantinha os braços cruzados sobre os seios com uma expressão mortificada e ansiosa.

— está tudo bem, garota. não vou magoar você. só quero ter certeza de

que não está com connor para traí-lo.

traí-lo?

o

espanto na voz da moça era tão genuíno que annabelle não podia duvidar

de sua sinceridade. os olhos verdes estudaram a figura da surpreendente

hóspede. conhecia mulheres melhor que ninguém e tinha a habilidade de descobrir verdadeiras belezas mesmo quando ocultas sob trapos e sujeira. examinando sam, admirou-se por não haver percebido antes os traços perfeitos. estava na presença de uma mulher belíssima.

— fique de pé — pediu.

samantha obedeceu e, a despeito da vergonha e da ansiedade, ficou orgulhosamente ereta. "bravo", annabelle aplaudiu. a garota possuía espírito forte e coragem, como dissera connor. não havia sombra de lágrimas nos olhos magníficos, nem se ouviam desculpas esfarrapadas. apesar de estar magra demais, o corpo mostrava linhas precisas e curvas que ficariam irresistíveis se engordasse um pouco. os seios eram redondos e firmes e os quadris bem moldados. não fora à toa que sam escolhera roupas

largas de trabalhador. apenas elas poderiam disfarçar um talhe tão feminino. a pele mostrava partes lisas e claras e outras escuras. os olhos de annabelle subiram para o rosto de cor morena. — tingiu a pele?

a moça assentiu e uma centelha de humor passou pelos olhos azuis,

— só tinha tinta para pintar o rosto e as mãos. o resto ficou branco.

nunca imaginei que alguém fosse me ver despida e, se fosse surpreendida, o curioso pensaria que eu estava com algum tipo de peste e fugiria correndo. annabelle riu. a mocinha era espirituosa e subia em seu conceito a cada instante. os experientes olhos verdes continuaram a inspeção. os cabelos eram de um castanho opaco, mas não combinavam com a cor da pele do corpo. estava tosado quase rente à cabeça, mas as mechas curtas encaracolavam-se ao redor do rosto mimoso. a mulher estendeu-lhe uma toalha e a garota enrolou-se nela, voltando a encarar a dona da casa.

— e os seus cabelos? tingiu-os também? samantha deu uma risadinha

nervosa. lá estava ela, a recatada samantha chatham, nua num bordel,

interrogada pela proprietária, como se estivesse à procura de um emprego.

— passei uma solução de índigo, mas por natureza são negros.

— pode me dizer a razão dessa farsa toda, garota?

— eu não tinha para onde ir. sei montar e atirar e queria me juntar ao

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bando do coronel marion. não aceitariam uma mulher e assim

a suspeita que annabelle ainda pudesse alimentar formou-se em

admiração. então percebeu que a moça falava com classe e que a voz possuía

modulações educadas e suaves.

— quem é você?

— meu nome é mesmo sam — a jovem respondeu. annabelle levou-a até a cama, onde a fez sentar e ocupou uma cadeira em frente.

— você vai me contar tudo, menina. tudo. samantha perscrutou o rosto da

mulher. Àquela altura nada mais tinha a perder. se não contasse toda a

verdade annabelle procuraria a ajuda de connor. eram amigos, inevitavelmente amantes.

annabelle notou a expressão de desespero que transparecia no rosto miúdo e seu olhar enterneceu-se.

— você ama connor, não é, sam?

a moça balançou a cabeça afirmativamente e grossas lágrimas formaram-

se nos olhos. a outra mulher encheu-se de profunda tristeza. algo lhe dizia que aquela jovem estava destinada a ser de connor.

— então por que tem tanto medo de dizer a ele quem é?

— porque meu pai é um tory. connor me expulsaria e eu não suportaria ser mandada embora. annabelle sentiu uma onda de medo, que tratou de disfarçar,

connor entenderia, sam.

os

olhos da mocinha estavam tão desesperados e infelizes que a mulher,

que pensara ter o coração enrijecido, sentiu-se tocada pela agonia que viu neles. num gesto de consolo ergueu a mão e acariciou os cabelos curtos e ásperos. emocionada, samantha decidiu contar toda a verdade, que tornara um fardo muito pesado.

— meu pai — disse com voz firme — é robert chatham. annabelle retirou a mão, empalidecendo.

— oh, meu deus — murmurou chocada.

não podia desviar os olhos da frágil jovem à sua frente. connor nunca fizera segredo do seu ódio pelos chatham e ela já ouvira seus juramentos de vingança e seus desabafos cheios de ameaça. e ele não era homem de palavras vazias, já o ouvira amaldiçoar o nome de robert chatham e de sua filha samantha. sam. pela expressão aturdida de annabelle, samantha compreendeu que a mulher sabia de tudo. mais uma prova de que era amante de connor. e fora tola o bastante para confiar nela. annabelle perguntava-se por que artimanhas do destino assumira um papel

naquele assunto trágico. amava connor, mas sabia que seu amor jamais seria correspondido. ele amaria apenas uma vez na vida e sua intuição lhe dizia

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que samantha era a mulher destinada a ele. mas era samantha chatham, a filha de um inimigo odiado.

— você vai contar a ele? — samantha perguntou, suplicante.

— descobrirá sozinho, minha cara. connor não é estúpido e sabe muito bem a diferença entre um homem e uma mulher. e o que vai acontecer

quando ele descobrir?

— talvez até lá eu tenha provado que sou diferente de meu pai e que não tive culpa no que aconteceu.

— pelo que ele me disse — annabelle sorriu com tristeza —, já a admira muito. mas o que vai acontecer quando ele descobrir quem você é realmente? há muito ódio entre vocês. samantha procurou o olhar da mulher.

ele venha a

me amar tanto que a verdade não importe. annabelle olhou-a em dúvida. connor era teimoso, como todos os homens

que conhecia. era carinhoso, tolerante e geralmente bem-humorado, mas os céus tivessem piedade daqueles que o traíam ou a quem ele amasse. desejava saber mais sobre samantha chatham. pelo que connor dissera em sua ira, a moça era mimada e egoísta e levara seu querido irmão à morte. aquela descrição não combinava em nada com o que dissera sobre sam, o corajoso rapaz que o salvara da morte por duas vezes. — conte-me tudo, samantha. fale-me sobre brendan, diga-me como encontrou connor. o que faz no regimento de francis marion?

— eu amei brendan desde que tinha dez anos de idade. amava-o de todo o

coração e ele era meu único amigo. depois que nossas mães morreram nossas

famílias passaram a se odiar. — as lágrimas começaram a cair pelo rosto amargurado. contou sobre o triste acontecimento no dia que era para ser o de seu casamento com brendan e falou durante quase uma hora, entregando-se à

emoção e ao alívio da confissão

descreveu tudo o que lhe acontecera nos

meses passados e de como ficara confusa ao perceber que estava se

apaixonando por connor, mesmo sabendo que aquele seria um amor impossível.

quando terminou, o silêncio caiu entre as duas. annabelle não encontrava palavras adequadas, completamente aturdida. depois de um longo tempo, inclinou-se e tomou samantha nos braços.

— se eu tivesse uma filha — disse baixinho — gostaria que fosse

igualzinha a você. o rosto manchado de lágrimas da mocinha refletiu incredulidade. a mulher

estava sendo bondosa com ela!

— juro que tentei ficar longe dele, mas não consegui. talvez

— então não vai contar a connor?

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— não, samantha, não vou contar. mas compreenda que ele vai descobrir e que o modo dessa descoberta vai depender o futuro de vocês dois.

— não terei futuro se não puder ficar ao lado dele.

annabelle olhou para a jovem apaixonada e uma dúvida surgiu em sua mente. estaria traindo a confiança de connor não lhe contando o que

descobrira? de qualquer forma valia a pena arriscar-se naquele desafio. se ele conseguisse esquecer o passado àquela jovem o faria muito feliz.

— por que está fazendo isso por mim? — samantha perguntou enxugando

novas lágrimas. os olhos de annabelle também estavam molhados pela primeira vez em muitos anos.

— porque eu também o amo e você salvou-lhe a vida. não uma vez, mas duas. e também porque acredito que você lhe possa dar tudo o que eu jamais poderia. ele é meu amigo e desejo que seja feliz. samantha estendeu a mão e pousou-a sobre a de annabelle.

— ele tem bastante sorte por possuir uma amiga como você.

as duas mulheres fitaram-se, conscientes de que, apesar de todas as diferenças entre elas, haviam iniciado uma amizade que seria longa e sincera.

— você deve se vestir — disse annabelle de repente. — vou tirá-la deste

quarto antes que connor volte. planejei colocar vocês para dormirem na mesma cama, mas vejo agora que não foi uma boa idéia. estamos com falta de camas, mas darei um jeito.

a mulher sorriu e ficou contente ao ver que samantha retribuía o sorriso. — onde pretende me pôr para dormir, annabelle? a outra riu sem nenhuma reserva.

— connor queria que uma das minhas meninas iniciasse sam nas maravilhas

do amor. direi a ele que você aceitou a oferta e que dormirá em meu quarto. poderá ficar à vontade, porque estarei muito ocupada lá embaixo.

— e o que lhe direi pela manhã? — samantha perguntou entre divertida

com a idéia de connor e aborrecida por ele ter tomado tal liberdade.

— diga qualquer coisa, menina. desde os tempos de eva as mulheres são

mais astuciosas que os homens. as duas sorriram em perfeita compreensão. samantha aconchegou-se na enorme cama de colchão de penas, deliciando- se com a maciez dos lençóis de cetim e do fofo acolchoado cor-de-rosa. aquele fora um dia incomum. a manhã havia sido maravilhosa, mais gratificante que qualquer outra desde a morte de brendan. recordou os sorrisos de connor, suas descrições das aventuras ao lado de marion, os comentários cheios de entusiasmo a respeito das belezas da floresta. ele conversara com ela não com o jeito pretensioso de um superior dirigindo-se

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a um subalterno, mas como um amigo que dividia impressões e apreciava as idéias de um companheiro sensível e inteligente. ela passara a admirá-lo ainda mais e sentia um arrepio ao pensar que ele estava no quarto do outro lado do corredor, bem perto dela. então pensou em annabelle e sorriu. nunca, nem nas fantasias mais loucas,

imaginara vir a admirar e a gostar de uma prostituta e, muito menos, acabar dormindo numa casa de bordel. quando annabelle a levara para aquele quarto não conseguira reprimir uma exclamação de deleite. o aposento era de extremo bom gosto e beleza. decorado em tons de cinzento-azulado e rosa, assemelhava-se a um recanto do paraíso. a mulher sorrira ao notar sua reação.

— este é o meu cantinho particular. não precisa se preocupar com a

possibilidade de alguém entrar aqui. ninguém, nem mesmo connor, entraria sem ser convidado.

— É lindo!

— considere-o seu.

— obrigada — samantha murmurara. a mulher afagara-lhe o rosto e saíra. o bordel fervilhava, superlotado e barulhento. uma das salas era destinada a jogos de azar e em outra funcionava um bar onde os homens bebiam e petiscavam enquanto escolhiam as companhias para a noite. apesar da preocupação de annabelle com a descuidada aparência de connor, não houve problemas. sua casa era talvez o território mais neutro em toda a cidade de georgetown. ninguém questionava ninguém, e annabelle proibia conversas sobre política nas salas destinadas ao público. os infratores, sem nenhuma exceção, eram convidados a se retirar. os ingleses e tories que freqüentavam a casa tinham muito cuidado em não ofender annabelle. o bordel era um lugar onde podiam relaxar e esquecer-se das escaramuças da guerra e das hostilidades do povo da cidade que os viam com crescente rancor. portanto, ela não estava nem um pouco preocupada ao cumprimentar os velhos fregueses e observar os novos. falava com cada um deles e sempre rindo dispensava suas atenções amorosas, sugerindo uma ou outra garota que poderia satisfazer suas preferências. como tudo estava tranqüilo, tinha bastante tempo para pensar em connor e samantha chatham. nem ela mesma sabia por que resolvera calar-se sobre a descoberta que fizera, ajudando a moça a manter sua farsa. aquilo poderia facilmente destruir a amizade que ela prezava tanto. desconfiava que uma das razões era a própria samantha. a mocinha era

uma irresistível mistura de vulnerabilidade e força, de gênio esquentado e delicadeza. annabelle não sabia se ela própria teria a coragem suficiente

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para viver num pântano, entre homens rudes que compunham, em sua maioria, o pequeno regimento de marion. imaginava como connor ficaria abismado se pudesse ver samantha como ela realmente era e não como o retrato de moça fútil e egoísta que dela pintara. perdida em pensamentos, não viu a figura alta, vestida de verde, que

entrou no vestíbulo causando um marulhar de cochichos entre as moças, até que mary jo correu para ela.

— o coronel tarleton está aqui, annabelle. quer falar com você.

tarleton já visitara a casa várias vezes, sempre requisitando seus favores. ela sempre se recusara e o mandara para darlene, a mais bonita e inteligente de suas garotas. de todas as vezes, darlene conseguira valiosas informações. mas naquela noite, queria que ele estivesse longe dali. "tarleton

sanguinário" era comandante da cavalaria inglesa e sua principal tarefa era a de tentar capturar marion. ganhara o apelido horrível depois que seus homens haviam matado cento e treze americanos a baioneta e ferido mais duzentos antes que a bandeira de rendição fosse erguida. talvez fosse o mais temido e odiado britânico da colônia.

o coronel banastre tarleton atravessou a sala exibindo o imaculado

uniforme verde que acentuava a força de seus músculos e a cor de fogo de seus cabelos que nunca empoava, desprezando a moda. fez uma reverência

para annabelle. o desejo insaciável do coronel por mulheres era talvez sua única fraqueza, sem considerar a obsessão que alimentava a respeito da captura de marion.

— está sempre adorável, bela dama. e sempre distante.

— estou apenas um pouco cansada, coronel. o que o traz a georgetown? pensei que estivesse acampado perto de monck's corners.

ele abriu um sorriso que seria encantador se annabelle não o conhecesse.

— parece que marion afundou-se nos pântanos e aproveitei a trégua para

descansar um pouco da caça àquela raposa velha.

— continua escapando ao senhor, coronel? isso me surpreende — lisonjeou a mulher, lutando para esconder a nota de satisfação na voz.

os olhos de tarleton fulguraram.

— ah, mas eu o apanharei e terei o maior prazer em vê-lo enforcado,

juntamente com peter horry e connor o’neill.

— o’neill? — annabelle fingiu espanto. — não estava na prisão?

— estava — o homem respondeu com aspereza, odiando seu fracasso com

os rebeldes, mas atiçado pelo interesse dela. — escapou há alguns meses e agora é um dos oficiais de marion. há uma recompensa polpuda por sua

captura, mas duvido que ele se atreva a sair dos pântanos sozinho. vamos pegar todos juntos.

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— acha que ainda vai demorar?

— não. vai ser mais cedo do que se espera. tenho meus truques.

— acredito que sim — ela usou sua habilidade dramática para fingir

admiração. — mudando de assunto, coronel, com quem vai querer ficar esta noite? tarleton inclinou-se e tocou o rosto levemente pintado de rouge de annabelle.

— com a mais linda de todas — disse, com um sorriso. ela escondeu a

repulsa e devolveu o sorriso.

— desculpe, coronel, mas não me sinto bem. além disso, o senhor deve

saber que não me permito mais tais prazeres. — chamou mary jo — sabe se

darlene está disponível?

— acabou de ficar livre.

annabelle olhou para o inglês, esperando que ele demonstrasse ter aceitado a sugestão. ele olhou-a desejoso e sorriu melancólico.

— se não posso ficar com o diamante, contento-me com a pérola.

ela não reprimiu um sorriso diante do elogio extravagante e por um momento desejou que ele não fosse o homem cruel que era.

— quanto tempo pretende ficar em nossa cidade?

— estarei indo para o norte ao amanhecer.

— visite-nos sempre que passar por georgetown, coronel. será bem-vindo.

observou o homem subir a escada seguindo mary jo e cobriu o rosto com o leque para esconder seu sorriso. no quarto do terceiro andar, samantha não conseguia dormir. seu corpo parecia repousar numa nuvem, mas sua mente não encontrava descanso. depois de virar-se na cama por várias horas, resignou-se a ficar acordada, pensando no dia seguinte. ficaria sozinha com connor e ele certamente faria perguntas sobre a experiência na casa de annabelle. de repente, achou que seu corpo se desacostumara do conforto de uma cama e com um gemido irritado levantou-se. estendeu um lençol no assoalho e deitou-se. em poucos instantes, dormia profundamente. annabelle andava nervosa pela casa. no começo da noite tinha mandado um escravo comprar as roupas e o rifle que connor pedira. não seria a primeira vez que um comerciante era tirado da cama para atender um pedido dela e nenhum deles reclamava porque o incomodo era recompensado com visitas gratuitas à casa de annabelle. sabia que connor voltara muito antes da chegada de tarleton ao bordel e que, como de costume, estaria de pé antes do amanhecer, querendo partir bem cedo. precisava estar alerta para evitar que os dois homens se

encontrassem. carregando a muda de roupas que comprara para o ex-amante, subiu os

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dois lances de escada e ficou ouvindo à porta dele antes de bater de leve.

ele abriu prontamente e apareceu à luz da vela, bem desperto. ela deslizou para dentro do quarto.

tarleton está no andar de baixo. connor olhou-a contrariado. devia selecionar melhor seus clientes, mulher. ela encarou-o com um esboço de sorriso nos lábios.

— devia, não é?

ele voltou-se e caminhou para uma cadeira onde sentou-se cruzando as pernas longas.

— só deus sabe como eu teria prazer em agarrá-lo — disse pensativo.

— mas não vai — annabelle respondeu severa. — seria o fim de todos nós. só queria avisá-lo para que esperasse a partida dele antes de descer.

— e sam?

com tiffany. nenhum de vocês dois vai aparecer antes

que eu diga que o caminho está livre.

— sim, madame — ele respondeu com fingida humildade. sabia quanto

aquela mulher se arriscava para ajudá-lo e não desejava causar-lhe

problemas.

com indisfarçada afeição, admirando o corpo

musculoso vestido apenas com ceroulas até os joelhos. nunca vira homem de físico mais atraente. em apenas três meses depois de evadir-se da prisão

ele já recuperara o bronzeado da pele e a rigidez dos músculos. o peito e os braços indicavam força e flexibilidade. a branca cicatriz no flanco apenas acentuava sua masculinidade.

— você está muito bem, connor. os ingleses não conseguiram prejudicá-lo demais. o rosto másculo contraiu-se numa expressão dura e os olhos cinzentos adquiriram uma frieza que ela nunca vira neles.

— está a salvo

annabelle

olhava-o

— deixaram sua marca, annabelle. aquilo é um inferno.

— oh, connor — ela murmurou, arrependida do comentário irrefletido. — desculpe. com esforço ele tentou sorrir.

— um dia

— um dia, o quê?

— ele começou e interrompeu-se.

— talvez, quando eu puser certas coisas em ordem, quando tiver matado chatham, conseguirei expulsar o ódio que trago dentro de mim. a mulher olhou-o com ar de compaixão.

— esse desejo de vingança não combina com você, connor.

— talvez não, mas terei prazer em vingar-me.

— e sam?

— sam? o que ele tem a ver com isso?

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— ele precisa de você. ele também sofreu e suas perdas foram tão amargas quanto

— quanto as minhas? como sabe? ele nunca fala do passado.

percebendo que falara demais, annabelle procurou remediar a situação.

— o sofrimento aparece nos olhos dele e você também teria percebido se

não estivesse tão absorvido pela sua dor e pela determinação de vingar-se. ele permaneceu em silêncio, avaliando as palavras da amiga. ela tinha razão, em parte. procurara diversas vezes penetrar o mundo do rapaz, mas o fizera ao seu jeito, sem tato, talvez.

— você também conseguiu fazer amizade com ele? — perguntou por fim.

— como assim?

— sam torna-se amigo de todos, menos de mim. francis, billy, e agora você, romperam sua reserva. — já pensou que pode haver um motivo para isso? — ela perguntou, enigmática.

— o que está insinuando, annabelle?

— acho que ele sente o ódio que há em você. talvez não possa confiar em

quem odeia tanto. — que diabo, annabelle! você precisa ser tão racional sobre tudo o que acontece? isso até irrita. ela riu.

— e você precisa ser grosseiro quando a verdade não o agrada?

ele riu também e o humor sombrio dissipou-se. annabelle saiu alguns instantes depois e foi para o próprio quarto. assustou-se quando viu a cama vazia. freneticamente, seus olhos percorreram o aposento até pousarem na pequena forma enrodilhada num canto. sorriu, percebendo por que samantha preferira dormir no chão. analisou o rosto adormecido, admirando os longos; cílios que sombreavam as faces de contornos delicados. decidiu que deixaria a moça dormir mais um pouco, enquanto mandava preparar o desjejum. depois, esperaria que tarleton fosse embora. rapidamente, samantha vestiu as roupas novas, olhando com gratidão para annabelle. estavam perfeitas. largas, disfarçavam completamente as formas femininas. e, melhor que tudo, eram roupas limpas. a mulher sorriu para ela, satisfeita por vê-la contente. era inacreditável que a filha de um rico e poderoso fazendeiro pudesse ficar tão feliz por causa de vestimentas tão simples e feias. — coma — disse num tom maternal, apontando para a bandeja que levara para cima.

— onde está connor?

— comendo no quarto dele. disse-lhe que você ainda estava dormindo.

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samantha descobriu que estava terrivelmente faminta. comera pouco no dia anterior e o prato que sua nova amiga lhe preparara mostrava-se tentador: ovos, presunto, pão quente com manteiga e mel. enquanto ela comia, annabelle conversava.

— disse a connor que você passou a noite com tiffany.

— mas a moça

— ela não vai dizer nada. disse-lhe que você era um rapaz muito tímido e

que preferia dormir sozinho, mas que não queria que connor soubesse para não desapontá-lo.

— connor fará perguntas.

— tive uma conversinha com ele. avisei-o para não ser indiscreto porque

qualquer relacionamento desse tipo é assunto íntimo que nem todo mundo gosta de discutir.

— pensou em tudo — comentou samantha rindo, alegre, a outra ficou séria

e quando voltou a falar havia uma nota de severidade em sua voz.

— saiba controlar a situação, garota, porque se não souber vai arruinar

mais que uma vida. connor não gosta de mentiras e é incapaz de perdoar

deslealdade. conte-lhe logo toda a verdade. não o deixe descobrir sozinho.

— por que resolveu não revelar meu segredo, annabelle?

— desejo que você tenha uma oportunidade de conquistar connor. seria

bom para vocês dois. deus queira porém que eu não me arrependa, o que vai

acontecer se ele descobrir nossas mentiras e não souber compreender. houve um breve silêncio entre as duas e annabelle levantou-se da beira da cama, repentinamente apressada.

— connor estará esperando por você, lá embaixo. a propósito, tivemos um visitante importante, ontem. o coronel tarleton. samantha empalideceu.

— tarleton?

— não se preocupe. já partiu. mas tomem cuidado da mesma forma.

acredito que ele esteja nos arredores da cidade tramando alguma perversidade. samantha levantou-se e abraçou a mulher, beijando-lhe o rosto.

— muito obrigada por tudo, amiga.

— espero ter agido com acerto, querida.

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capÍtulo xii

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era um daqueles dias lindos de dezembro, um mês que parecia favorecer a região sulista. o sol brilhava radiante num céu de safira, aquecendo a terra com seus raios generosos. apesar de faltar apenas uma semana para o natal, ainda estava relativamente quente e o inverno que espreitava só era denunciado pela brisa fria. samantha desabotoou o casaco novo, deleitando-se com a carícia morna do sol e com o sopro brincalhão do vento suave. ela e connor haviam tomado os mesmos cuidados do dia anterior. ele partira primeiro, esperando-a no bosque e já fazia uma hora que viajavam em silêncio. — annabelle é muito bonita — ela tentou iniciar uma conversa. connor surpreendeu-se. aquelas eram as primeiras palavras de sam naquela manhã. era difícil, mas ele procurava seguir o conselho de annabelle e esforçava-se para não se impor ao taciturno rapaz. nada sabia da noite que o companheiro passara com tiffany e a única pista que tivera fora a maliciosa piscada que a moça lhe dera ao vê-lo de manhã. voltou-se e olhou diretamente para sam, que estava um pouco atrás dele.

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— sim, é muito bonita.

— gentil, também.

— sim — foi a resposta lacônica.

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samantha mordeu o lábio, frustrada. queria saber mais sobre connor e annabelle, descobrir que tipo de relacionamento mantinham, mas não via jeito de abordar o assunto. e connor não estava colaborando em nada.

— você a conhece há muito tempo? — tentou novamente.

— muito tempo.

connor agia de forma deliberada. sabia que sam estava curioso, mas ia

provocá-lo mais, forçando-o a falar e sair do costumeiro mutismo, cavalgaram em silêncio por alguns minutos, enquanto samantha reprimia a crescente curiosidade.

— aposto que muitos homens estão apaixonados por ela — comentou com astúcia. connor ampliou o sorriso. aquele era um novo sam, sem dúvida.

— tive a impressão de que você não gostou dela, sam.

— enganou-se.

connor deu uma risadinha, divertido com o grande interesse que o companheiro não desejava admitir. sentiu-se bem, relaxando um pouco a tensão que sentira por saber que tarleton não devia estar muito longe, naquele momento. viajaram calados até o meio-dia, quando pararam numa pequena clareira ao lado da trilha. desmontaram e alimentaram os cavalos antes de abrir o

pacote com o almoço. annabelle preparara um verdadeiro banquete para eles. havia frango frito, pão fresco, manteiga, queijo e até uma garrafa de vinho. vinho francês. comeram com prazer, pouco falando. então connor esticou-se no chão, apoiando as costas numa árvore. samantha assustou-se com o repentino desejo de aproximar-se dele e beijá-lo.

— sam? — ele chamou baixinho, cortando o devaneio. controlando-se, ela procurou olhar para ele com indiferença.

— o que é?

— se um dia você ficar sozinho, se alguma coisa me acontecer, procure

annabelle. ela o ajudará.

— por que o faria?

— muitos se dizem amigos, sam, mas poucos realmente o são. amigos são

aqueles que morrem por você, ou você por eles, são aqueles em quem se pode confiar completamente. e raro termos a sorte de encontrarmos um verdadeiro amigo. eu tive muita sorte, pois encontrei dois. annabelle e francis. annabelle o ajudará porque seria o mesmo que estar me ajudando. além disso, ela gostou muito de você. samantha sentiu um aperto no peito ao

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considerar as palavras de connor. amizade, honra e honestidade eram, sem

dúvida, fundamentais para ele. pensou em annabelle e no risco que corria de desagradá-lo para esconder seu segredo sem entender por que a mulher agia daquela forma.

— você a ama? — atreveu-se a perguntar.

— de certa forma — ele respondeu devagar. — talvez não do modo que

está pensando, mas existem muitos tipos de amor. confio nela, algo que não

posso dizer de muita gente.

— você dorme com ela?

a pergunta saíra quase que involuntariamente e samantha apavorou-se com sua audácia. surpreendeu-se com a risada espontânea de connor.

— essa, meu caro sam, é uma pergunta que um cavalheiro não faz a outro.

— não sou um cavalheiro. o homem controlou o riso. não queria magoar o rapaz quando uma tímida confiança começava a brotar entre os dois.

— espero que tenha aprendido algo sobre o amor a noite passada. pelo

menos, sobre a parte física do amor. aprenda mais uma coisa. nunca o

misture com negócios ou amizade. e uma combinação mortal.

— quer dizer que duas pessoas não podem ser amigas e fazer amor?

ela verdadeiramente desejava compreender aquele conceito em que ele acreditava. brendan e ela haviam sido os melhores amigos do mundo e a amizade não diminuíra o desejo que nutriam um pelo outro.

— digamos que isso é muito raro — o homem respondeu parecendo pouco à

vontade.

— mas annabelle

— chega de falar de annabelle. basta que saiba que poderá procurá-la a

qualquer momento que precisar de ajuda. connor ficou admirado com a tristeza que viu tomar conta dos olhos azuis. samantha estava pensando nas palavras de annabelle. "connor não gosta de

mentiras e é incapaz de perdoar uma deslealdade." ela e seu segredo poderiam estar destruindo a amizade de connor e annabelle. as mentiras se avolumavam, uma puxando outra. ela acabaria por afogar-se nelas. sem saber a que atribuir a expressão conturbada de sam, o outro procurou algo para dizer, esperando ajudar o companheiro.

— você deve ter saudade de seu pai — tentou. — sei como se sente. perdi

meu pai e meu irmão. sabe, sam, seus olhos lembram os de meu irmão. samantha levantou-se e começou a correr sem destino. precisava de um refugio, qualquer que fosse. a aventura que começara sem medir as conseqüências estava se transformando num pesadelo. cada palavra tornava-

se uma mentira, uma traição. ouviu passos atrás dela e correu com mais desespero, embrenhando-se na

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floresta.

connor gritou seu nome e os passos aproximaram-se. então ela sentiu os braços dele ao redor de seu corpo, amparando-a quando seus joelhos se dobraram.

— que diabo aconteceu, sam? o que foi que eu disse? atônito, o homem

viu o rapazinho começar a chorar como se seu coração se estivesse partindo. apenas aquele pranto não era o de um rapaz. ajudou a criatura a sentar-se no chão, sentindo o frágil corpo feminino sob as roupas grossas. praguejou baixinho. samantha sabia que se traíra e nova torrente de lágrimas banhou o rosto atormentado. odiava-se por estar desmoronando daquela forma, mas nada conseguia deter os soluços angustiados. connor observava-a sem saber que atitude tomar. as emoções desencontradas refletiam-se em seu rosto em rápida sucessão. confusão, interesse, piedade, raiva. aos poucos, todas fundiram-se numa só:

compaixão. nunca presenciara tamanha explosão de sofrimento. estendeu cautelosamente a mão num gesto que oferecia consolo e ao mesmo tempo pedia uma explicação. tomou o pequeno queixo nas mãos e ergueu o rostinho banhado em lágrimas.

— não chore mais, pequena. nada pode ser tão ruim, que mereça tanto desespero.

os olhos azuis encontraram os dele e mostravam-se cheios, de infelicidade. ele não conseguia desviar o olhar daquele rosto transfigurado por dolorosas emoções.