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A criatividade do Movimento Feminista

Por Dirlene Marques


09 de junho de 2008

Como militante social desde os anos 60, tenho


acompanhado com muito interesse todo o debate sobre
1968. Ao mesmo tempo, surpreendida pela pouca
importância dada a revolução feminista. Enquanto feminista
e sendo parte desta história, resolvi dar minha contribuição.
Busquei refletir algumas das mudanças, das demandas, dos
enfrentamentos e das contradições do movimento.

Como militante social desde os anos 60, tenho


acompanhado com muito interesse todo o debate sobre
1968. Ao mesmo tempo, surpreendida pela pouca
importância dada a revolução feminista. Enquanto feminista
e sendo parte desta história, resolvi dar minha contribuição.
Busquei refletir algumas das mudanças, das demandas, dos
enfrentamentos e das contradições do movimento. Nesta
reflexão, fica impossível separar a minha vida cotidiana de
mulher militante dos meus desejos, frustrações e
expectativas sobre os rumos do movimento.

O feminismo é um movimento essencialmente moderno,


surgido no contexto das idéias transformadoras da
Revolução Francesa e da Americana, em torno da demanda
por direitos sociais e políticos, tendo seu auge na luta
sufragista. Conquistado o direito ao voto, o movimento
arrefece.

O livro de Simone de Beauvoir, “O Segundo Sexo”, com sua


síntese teórica de que "não se nasce mulher, torna-se
mulher", vai dar a fundamentação para o movimento que se
desenvolve nos anos 60 e 70. A grande bandeira levantada
de que "o nosso corpo nos pertence", questionava as visões
morais-religiosas e culturais limitadoras das possibilidades
de plena expansão e expressão própria. E de que “o pessoal
é político”, trazia para o espaço da discussão política as
questões até então vistas e tratadas como específicas do
privado, quebrando a dicotomia público-privado, base de
todo o pensamento liberal sobre as especificidades da
política e do poder político.

O movimento também colocou na agenda social o caráter


político da opressão vivenciada de forma isolada e
individualizada no mundo do privado, identificada como
meramente pessoal pelas mulheres. As feministas fincaram
o pé em mostrar como as circunstâncias pessoais estão
estruturadas por fatores públicos, por leis, pela divisão
sexual do trabalho no lar e fora dele, por políticas relativas
ao cuidado das crianças. E, ao trazer estas relações para o
mundo da política, questionavam a hierarquia, a
centralização, buscando novas práticas que pudessem
comportar o mundo das mulheres, e reafirmavam sua
autonomia frente a outros movimentos e ao Estado.

Além disto, enfrentávamos no Brasil e na América Latina as


ditaduras militares, que procuravam silenciar e massacrar
todos os movimentos sociais que apresentavam práticas
transformadoras. A repressão vai instaurar as marcas de
gênero na experiência da tortura, não apenas sexualmente,
mas, sobretudo, pela utilização da relação mãe e filhos.
Estes são anos difíceis, pois, de um lado, juntas com toda a
esquerda, enfrentávamos a violência da repressão, a
exploração enquanto trabalhadoras assalariadas e, de outro,
deparávamos com a discriminação na família, nos partidos,
nas diferentes organizações de esquerda, na igreja
progressista, vivendo sob permanente tensão.

Nos anos 70, proliferam grupos de mulheres em todo o


país, como os grupos de estudo e reflexão feminista e,
como os grupos populares vinculados ás associações de
moradores e aos clubes de mães, que começaram a enfocar
temas ligados a especificidade de gênero, tais como
creches, sexualidade, trabalho doméstico. Este é um
período de grande efervescência, florescendo inclusive uma
imprensa feminista, especialmente o Brasil Mulher e Nós
Mulheres.

De outro lado, na luta contra a ditadura, se estrutura o


Movimento Feminino pela Anistia, além da participação nas
organizações de esquerda.

Nestes vários espaços, denunciando a opressão, exploração


e a ditadura militar, as feministas construíram um
movimento autônomo. A defesa da autonomia como um
princípio organizativo não implicava uma prática defensiva
ou isolacionista que impedisse a articulação com outros
movimentos sociais que compartilhassem identidades, mas
apenas a definição de um espaço autônomo para
articulação, troca, reflexão, definição de estratégias.
Acreditávamos que nenhuma forma de opressão poderá ser
superada até que aqueles diretamente interessados em
superá-la assumam essa luta.

Nesse momento de autoritarismo militar, a discussão sobre


a autonomia em relação ao Estado, “o inimigo comum”, não
era sequer colocada.

Nos anos 80, cresce o processo de mobilização e novos


dilemas são colocados para o movimento. A eleição de
partidos políticos de oposição para alguns governos
estaduais e municipais, recoloca a questão da autonomia e
divide o movimento entre as que ficam apenas no
movimento, as que assumem os partidos e a participação
no aparelho do Estado, em especial, nos Conselhos da
Condição Feminina. No VII Encontro Nacional Feminista,
realizado em 1985, em Belo Horizonte, a grande polêmica
ficou por conta da participação das feministas no CNDM
(Conselho Nacional dos Direitos da Mulher). O temor de
todas nós, da perda de autonomia com a participação no
conselho não se concretiza porque as feministas que o
assumiram fortaleceram e garantiram a autonomia do
movimento.
A mobilização para a Assembléia Nacional Constituinte
marca bem este período. O trabalho conjunto entre o
movimento autônomo, o CNDM e as mulheres
parlamentares que agiram durante todo o tempo como um
bloco, sem intermediação dos partidos políticos. Isto
possibilita um grande envolvimento com grandes conquistas
na Constituinte, como a igualdade entre homens e mulheres
como direito fundamental. Esta conquista vai também
repercutir nos partidos, nos sindicatos bem como na grande
maioria dos movimentos sociais.

Esse compromisso do CNDM com o movimento de mulheres


e sua autonomia foi também o motivo de sua condenação.
No final dos anos 80, através de atos autoritários, o
governo Sarney vai paulatinamente retirando a força e
destruindo o CNDM.

Nos anos 90, na reordenação que passa a ter a sociedade


brasileira diante das drásticas mudanças impostas pelo
projeto neoliberal, o movimento se reconfigura
inteiramente, mudando a identidade da política feminista.
Ela agora vai ter sua visibilidade através do feminismo
negro, indígena, lésbico, popular, acadêmico, o
ecofeminismo, das assessoras governamentais, das
profissionais das ONGs, das católicas, das sindicalistas, isto
é, mulheres feministas que não limitam suas atividades às
organizações do feminismo autônomo.

Essa diversidade esteve muito presente nos preparativos do


movimento para sua intervenção na Quarta Conferência
Mundial sobre a Mulher, realizada em setembro de 1995,
em Beijing, na China. O processo preparatório para Beijing
trouxe novas energias ao movimento feminista brasileiro,
estimulou o surgimento de fóruns em locais que não
existiam ou que estavam desativados, de novas articulações
locais, de novos grupos ou departamentos em entidades de
classe etc.

Importantes setores das feministas autônomas vão agora


estar profissionalizadas nas ONGs e vão procurar a
crescente articulação ou entrelaçamento entre os diversos
espaços e lugares de política feminista através de uma
grande quantidade de redes, muitas vezes fomentadas por
organismos bilaterais e multilaterais. Estas feministas, na
tradição do movimento, tem a preocupação de manter o
vínculo com os diferentes movimentos sociais.

No Fórum Social Mundial em 2002, em Porto Alegre, as


mulheres se organizam e chamam a Conferência das
Mulheres Brasileiras, onde se elabora uma Plataforma
Política Feminista a ser entregue formalmente a todos os
candidatos à presidência da República, aos governos dos
estados, aos dirigentes partidários, deputados e senadores,
além de amplamente divulgada através da imprensa. O
candidato Lula, até pela história das feministas do PT,
assume toda a plataforma encaminhada. Mas, no governo,
a relação com o presidente Lula não tem sido fácil. Logo ao
assumir o governo, à revelia de toda a articulação e
mobilização do movimento de mulheres, Lula não indicou,
como se esperava, uma feminista para a Secretaria
Nacional de Políticas para Mulheres, agora com o status de
ministério. Para o cargo indicou uma senadora petista. Com
pouco mais de um ano, a substituiu por uma professora
universitária, também sem ligação com o movimento. Além
disto, o PT tem se mostrado extremamente conservador na
implementação de políticas; nem a lei de cotas, aprovada
no partido desde os anos 1980, estabelecendo um mínimo
de 30% de mulheres nos espaços de decisão foi aplicada no
âmbito governamental.

Quando olhamos para trás, nestas quatro décadas,


percebemos que os passos dados foram gigantescos.
Sabemos, também, que esta é “a mais longa das lutas”. Na
nossa tripla jornada, de dona de casa, profissional e
militante, continuamos organizando as mulheres para lutar
pelos seus direitos e contra toda forma de opressão e
exploração. O 8 de março de 2007 e o de 2008, mostraram
a retomada de sua organização popular, mais massiva. O
caminho não tem sido simples. Temos enfrentado
mudanças, dilemas, enfrentamentos, ajustes, derrotas e
também vitórias. O feminismo enfrentou o autoritarismo da
ditadura militar construindo novos espaços públicos
democráticos, ao mesmo tempo em que se rebelava contra
o autoritarismo patriarcal presente na família, na escola,
nos espaços de trabalho, e também no Estado. Descobriu
que não era impossível manter a autonomia - ideológica e
organizativa - e interagir com os partidos políticos, com os
sindicatos, com outros movimentos sociais, com o Estado e
até mesmo com organismos supranacionais. Rompeu
fronteiras criando, em especial, novos espaços de
interlocução e atuação, possibilitando o florescer de novas
práticas, novas iniciativas e identidades feministas. Agora,
surgem novas formas de organização, de expressão que
temos de fortalecer e participar.

Ao longo destes 40 anos, o feminismo democratiza a


sociedade e suas instituições. A luta pelo direito ao voto,
tornou a democracia mais democrática. Quando disse que
“o nosso corpo nos pertence” garantindo sua possibilidade
de escolha, estava democratizando a participação da
mulher. Quando lutou pelas cotas, estava tornando os
espaços públicos mais democráticos. Organizando o
movimento com formas menos hierarquizadas, democratiza
os movimentos sociais. Por fim, o movimento feminista
trouxe para o campo da política uma série de problemas
que não eram considerados políticos.

Analisar, entender, mudar e saber dar respostas às novas


situações é o grande desafio para os diferentes movimentos
sociais e que as feministas e os movimentos de mulheres
vão continuar enfrentando. Esperamos que seja com a
mesma criatividade que encontrou ao longo da história.