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DO FETICHISMO ODONTOLÓGICO

Foto de Sebastião Salgado

À UTOPIA DA SAÚDE BUCAL

Gustavo de Oliveira Figueiredo


I

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO


NÚCLEO DE TECNOLOGIA EDUCACIONAL PARA A SAÚDE
NUTES/ UFRJ

GUSTAVO DE OLIVEIRA FIGUEIREDO

DO FETICHISMO ODONTOLÓGICO
À
UTOPIA DA SAÚDE BUCAL

Dissertação apresentada ao curso de Mestrado em


Tecnologia Educacional para as Ciências da Saúde do
Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUTES/
UFRJ), como requisito parcial para obtenção do grau
de mestre. Área de concentração: Educação em
Saúde.

Orientadora: Dyla Tavares de Sá Brito (Drª em Educação)


Co-orientador: Carlos Botazzo (Dr. em Saúde Coletiva)

Rio de Janeiro
Março - 2002
II

Figueiredo, G.O. (2002)

FIGUEIREDO, Gustavo de Oliveira∗

Do Fetichismo Odontológico à Utopia da Saúde Bucal – Núcleo de Tecnologia


Educacional para a Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUTES/UFRJ),
Rio de Janeiro - RJ, Março, 2002, 186 p. [Dissertação de Mestrado]

1. Odontologia. 2. Saúde Bucal. 3. Saúde Coletiva. 4. Saúde Bucal Coletiva.


5. Ensino de Odontologia. 6. Prática odontológica. 7. Política de Saúde.


Contato: ovatsug.figueiredo@gmail.com
III

AGRADECIMENTOS:

À Deus.

Aos meus pais: Vera e Antonio, pelo amor, dedicação e carinho com que se constituem em meus
mais orgulhosos referenciais de vida. Agradeço pelo que sou.

Aos meus irmãos e minha tia: Maria Julia, Tony, Tatiana e Maria José, pelas experiências que
vivemos juntos, pelas trocas, e pelo que representam para mim. Especialmente à Tati, minha
melhor amiga, minha irmãzinha caçula, pela nossa história de vida juntos.

Ao Leonardo, pela força que me deu para a realização deste trabalho, pelas discussões, os
embates teóricos e as gargalhadas. Mas principalmente pelos sonhos que compartilhamos de um
mundo melhor. Às amigas Michelle e Liandra pela grande pessoa que são e por sempre estarem
por perto.

À Dyla, orientadora neste estudo, ou ‘tia Dyla’, por me desvendar os olhos, me fazer acreditar
em uma nova sociedade, me fazer crer que é possível um mundo melhor, repleto de utopias.
Agradeço pelo carinho, pela atenção que tem aos que trabalham junto, pela paciência, pelas
discussões acaloradas, mas principalmente, pelo amor com que se dedica para a construção de
uma sociedade mais justa. Esse trabalho é nosso!

Ao Botazzo, pelos dilúvios de idéias, pelo acolhimento, pelos fragmentos poéticos, pelas risadas,
pela espontaneidade, pelos engastalhos, pelos embates teóricos e pelos pontos de contato.
Agradeço de coração, por tudo que representa para a Saúde Coletiva, sem o qual, este trabalho
não seria possível.

À Mirella Giongo, minha professora de Trabalho de Campo em Odontologia, que me despertou


para uma realidade diferente daquela fantasia vivida dentro da Faculdade de Odontologia,
plantou a primeira semente, hoje uma grande amiga, parceira em projetos de vida. Valeu!

Ao Paulo Capel Narvai, Jorge Cordón e Marco Manfredini, pela atenção com que me receberam,
pela espontaneidade nas entrevistas concedidas, mas também por me fazerem crer na luta pela
Saúde Bucal Coletiva.

Ao Heitor Werneck, à Aline Bressan e à Andréia, que se expuseram em entrevistas que não
utilizamos aqui de forma explícita. Também à Soraya pelo excelente material que me emprestou.
Agradeço pelo conforto de encontrar pessoas com as mesmas inquietações que as minhas e,
certamente, parceiros na luta por um futuro melhor.

Aos professores do NUTES/ UFRJ, pela dedicação e por contribuírem para a formação de
cidadãos mais críticos. Especialmente à Eliane Falcão, pelos comentários sinceros, oportunos e
enfáticos. Aos colegas de turma, pelos momentos que compartilhamos. Principalmente à
Adriana, Taís, Márcia, Martha e Viviane. E aos funcionários, especialmente à Lúcia e à Jane.

A todos que contribuíram de alguma forma para a realização deste estudo. Especialmente à
CAPES, pela bolsa concedida.
IV

A todos que acreditam na utopia de uma nova sociedade,


e que lutam para torna-
torna-la realidade.
V

RESUMO

FIGUEIREDO, Gustavo de Oliveira - Do Fetichismo Odontológico à Utopia da Saúde Bucal –


Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(NUTES/UFRJ), Rio de Janeiro - RJ, Março, 2002, 180 p. [Dissertação de Mestrado]

O estudo discute a proposta da Saúde Bucal Coletiva para a formação e prática


profissional do cirurgião-dentista dentro de um novo modelo de atenção em saúde bucal. A
Saúde Bucal Coletiva é um movimento contra-hegemônico que luta por sua legitimação como
política pública de saúde e como fundamento político-filosófico dos cursos de formação em
odontologia. A partir de uma análise dos contextos sócio-cultural, político e econômico do Brasil
de hoje e, com base numa reflexão sobre o ensino em odontologia, a prática clínica do cirurgião-
dentista e algumas categorias como fetiche, ideologia e utopia, o trabalho discute as limitações
que o modelo atual de política pública de atenção em saúde apresenta para a promoção da
qualidade de vida da sociedade brasileira. Para isso foram reconstruídas, de forma crítica, a
origem e a prática política do movimento, analisamos também algumas experiências de
organização dos serviços públicos de saúde e, ainda, as mudanças, articulações políticas e
compromissos ideológicos que fundamentam a Saúde Bucal Coletiva, propondo um projeto para
a reconstrução do modelo de atenção em saúde bucal (prática e formação profissional) e da
própria sociedade brasileira.
VI

ABSTRACT

FIGUEIREDO, Gustavo de Oliveira - Do Fetichismo Odontológico à Utopia da Saúde Bucal –


Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(NUTES/UFRJ), Rio de Janeiro - RJ, Março, 2002, 180 p. [Dissertação de Mestrado]

The aim of this task is to discuss a new propose of Collective (Public) Oral Health to
professional development of Brazilian dentists. This study is inside of a new model of attention
in oral health. The Collective Oral Health is a hegemonic against movement that is fighting for
yours own legitimation as public health politics and philosophic bases to dental schools.
Fundamented in a analysis of social, cultural, political and economical contexts of contemporary
Brazil, and based in a critical reflection of dental education, clinical practice of dentistry and
some concepts like fetish, ideology and utopia, the study discuss about limitations that the actual
model of public politics employed brings to health promotion and life’s quality for Brazilian
society. For that, we reconstroyed the beginning of the movement and also analyze some
experiences in organization of public health services. The project of collective oral health
propose changes in health attention and new compromises and political articulations for the
reconstruction of the Brazilian society.
VII

IDEALISMO
Cecília Meireles

Oh! Que animal idealista é o homem...

Para além de todos os limites rudemente impostos à sua condição, a


tentativa dos sonhos é a expressão contínua daquele infinito poder que
dentro dele se oculta como o seu mais fiel retrato.

Fracassamos a cada instante nas mais simples e modestas iniciativas.


Nosso progresso tem sido feito dolorosamente, à custa de um sem-número
de derrotas, renovadas por esperanças enérgicas, até os dias de fugitiva e
insatisfeita glória.

Mas estamos sempre sonhando um bem mais alto. Mas estamos sempre
colocando o coração num plano mais impossível. Mas estamos sempre
transpondo a fatalidade das aventuras perdidas, construindo o projeto
daquela aventura definitiva que não realizaremos talvez, mas que nos
sustenta a vida, com uma constante ansiedade.

A sombra triste da realidade não consegue mutilar a luz idealista de que


vivemos. Podíamos parar. E às vezes se pára. Mas, então, é a morte,
mesmo em vida.

O destino do homem é este: ir andando. Contraditório, às vezes.


Desditoso, muitas outras. E por quê? Por que ao seu caminho se opõem
muralhas que se podem vencer, mas que gastam as forças que poderiam ir
elevando os sonhos necessários.

[in: Crônicas de educação vol 1, obra em prosa, p: 97]


VIII

SUMÁRIO

1. O PROBLEMA DE ESTUDO

1.1 Apresentação 01
1.2 Objetivo e relevância do trabalho 08
1.3 Questões de estudo 08

2. A SAÚDE BUCAL NO CONTEXTO DA ATENÇÃO EM SAÚDE NO PAÍS

2.1 A realidade brasileira de atenção em saúde bucal 09


2.2 A contra-hegemonia lutando contra a violência e a exclusão 19

3. FORMAÇÃO DO DENTISTA NA ATUAL REALIDADE DO ENSINO NO BRASIL

3.1 A Reprodução Histórica... e a Resistência! 23


3.2 A Formação Universitária dos Profissionais de Saúde 28
3.3 O Ensino Superior em Odontologia 29
3.4 Uma Discussão Sobre o Currículo 32
3.5 A Decoreba... 37
3.6 A Produção em Série de Cirurgiões-Dentistas 38
3.7 O Mecanismo de Identificação 40

4. FETICHE, IDEOLOGIA & UTOPIA 44

5. METODOLOGIA 61
IX

6. ORIGEM DO MOVIMENTO DA SAÚDE BUCAL COLETIVA 66

6.1 Movimento da Reforma Sanitária 67


6.2 Encontro Científico dos Estudantes de Odontologia (ECEO) 71
6.3 Movimento Brasileiro de Renovação Odontológica (MBRO) 72
6.4 Conferência Nacional de Saúde Bucal (CNSB) 75

7. PRÁTICAS POLÍTICAS DA SAÚDE BUCAL COLETIVA 79

7.1 Encontro Nacional de Administradores e Técnicos do Serviço


Público Odontológico (ENATESPO) 81
7.2 Associação Brasileira de Saúde Bucal Coletiva (AÇÃO COLETIVA) 83
7.3 Federação Interestadual dos Odontologistas (FIO) e Sindicatos 86

8. EXPERIÊNCIAS DE ORGANIZAÇÃO DOS SERVIÇOS 99

8.1 Município de Santos 103


8.2 Município de São Paulo 104
8.3 A Guisa de Comentários 106

9. SAÚDE BUCAL COLETIVA: FUNDAMENTANDO UMA PROPOSTA PARA


A (RE)CONSTRUÇÃO DA ATENÇÃO EM SAÚDE BUCAL NO BRASIL 111

10. CONSIDERAÇÕES FINAIS:


A UTOPIA NA DIREÇÃO DE UMA NOVA SOCIEDADE! 134

11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 149

12. ANEXOS 167


1

1. O PROBLEMA DE ESTUDO

“Cada história de vida, cada percurso, cada processo de formação é


único. Tentar elaborar conclusões generalizáveis seria absurdo. Assim, ler
o geral a partir de uma singularidade radical exige um esforço que se
quer profundo.”
(Maria da Conceição Moita in: Nóvoa, 1995.)

1.1. Apresentação

A opção por apresentar o problema a partir de uma reflexão sobre minha própria história de vida
deve-se ao fato de reconhecermos que só uma história de vida permite captar o modo como cada
pessoa, permanecendo ela própria, se transforma. Só a história de uma vida põe em evidência o
modo como cada pessoa mobiliza os seus conhecimentos, os seus valores e suas energias, para ir
construindo e re-construindo as suas identidades num diálogo com os seus contextos. Podemos
considerar que a odontologia - inserida na conjuntura política, econômica e social brasileira -
seja um dos contextos onde minha identidade foi (ou é) cotidianamente construída. Neste
contexto torna-se relevante a minha formação como um sujeito do trabalho odontológico, a
prática profissional que adquiri e meus conflitos na busca por uma identidade crítica e
comprometida com a realidade social brasileira.

Reconhecemos que, neste caso, os dados vêm das minhas próprias proposições sobre os fatos, e
não dos fatos em si. São reflexos de minhas subjetividades e das representações que fiz do
percurso que percorri. Desta forma, de acordo com Nóvoa (1995), o passado constitui menos
uma realidade do que uma série de idéias sobre esta realidade, idéias que se modificam
imperceptivelmente com o tempo. Para o autor, com isso, o que há de mais coerente a se fazer é
estar consciente destes limites. E, reconhecendo os limites que o formato escolhido nos confere,
lembremo-nos: “ler o geral a partir de uma singularidade radical exige um esforço que se quer
profundo”1. Um esforço que consideramos necessário durante a leitura desta reflexão.

1
Nóvoa (1995)
2

Como eu cheguei até aqui ?

Rio de Janeiro. O ano é 1995. A despeito de toda alienação política, social, histórica,
econômica... fui aprovado no vestibular da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal
do Rio de Janeiro. Já me sentia quase um profissional da saúde. Meus primeiros dias na
faculdade foram um grande terror. O trote era violento, sofríamos humilhações incompatíveis
com um estado de saúde, que para mim, naquela época, restringia-se à ausência de doenças.
Todavia aquela violência me agredia, trazia um certo mal estar que me levava a questionar, ainda
que precariamente, a formação daqueles alunos do último ano que vinham nos aterrorizar.

No primeiro período, tive contato com a disciplina de Trabalho de Campo em Odontologia, já


usava branco, e ia para uma escola municipal próxima à faculdade para “educar em saúde”. Meu
grupo de trabalho teve dificuldades em se comunicar com aqueles adolescentes pobres e que
adoravam funk. Precisávamos conquista-los, educa-los, mas como? Aprendi então que se não
descesse do meu pedestal de doutor (sim, doutor, afinal era a primeira vez que vestia branco e
me sentia o senhor cirurgião dentista) e me aproximasse, se não abandonássemos o poder oculto
embutido no branco, não adiantaria estar ali. Foi este então o meu primeiro contato com um
mundo com o qual não havia ainda convivido (ou na verdade, que não havia percebido e
questionado) mas que se constituiria no desafio de toda a minha formação. Decidimos então
fazer um teatro onde a personagem principal procurava o posto de saúde para tratamento e o
dentista lhe dava uma bela lição de moral. Educação para mim era ditar regras, sanitizar,
higienizar, limpar, esfregar a pele até que toda a falta de higiene impregnada no corpo daquelas
pessoas pobres pudesse sair.

Alguma coisa naquele dia incomodou o grupo e decidimos nos unir para formar um núcleo de
trabalho: “CACS – Conquiste Alguém Com um Sorriso”, e fomos parar em um orfanato sob a
tutela da professora de trabalho de campo. Era fantástico ver aflorar em nossos corações aquela
outra realidade e, a responsabilidade por ela. Percebi que não adiantava ensinar técnicas de
escovação àquelas crianças, elas estavam carentes de carinho, de amor. Descobri que saúde era
algo que ia muito além da boca, ouvi então pela primeira vez a palavra "holístico" – Saúde é
mais que não ter doenças, é o completo bem estar físico, mental e social. A definição da OMS
mudou minha percepção, mesmo que tenha absoluta certeza hoje de que o “completo bem estar”
é impossível e tenha algumas restrições ao termo “holístico”. Naquele momento, sofria junto
3

com as crianças a dor da ausência de saúde bucal. O grupo continuou a visitar o orfanato por um
ano inteiro e, não fosse a distância do local, toda influência técnica dos períodos que se seguiram
e, a falta de apoio da universidade ao trabalho, talvez tivéssemos continuado. Depois dessa
experiência o grupo continuou realizando pesquisas, mas agora já não mais trabalhava no campo
e, exatamente por isso, foi perdendo suas características iniciais. Por fim, já não passávamos de
mais um grupo que estudava e testava materiais odontológicos para implantes dentários ou
técnicas estéticas. Absorvemos uma odontologia voltada para o mercado... Muito longe da
realidade que iríamos encarar ao terminar a faculdade!

No terceiro período entrei para o centro acadêmico, confesso que por forte pressão de um de seus
integrantes, que já estava quase se formando e não via a menor perspectiva de um sucessor.
Aceitei muito mais porque queria conhecer algo novo do que efetivamente porque
compreendesse o que se discute em um centro acadêmico. Foi a partir daí que encontrei os meus
pares, comecei a questionar o mundo, o que representava a faculdade e os professores, com mais
maturidade e menos medo. Passei a freqüentar as reuniões de departamentos e de congregação,
aprendi a conviver com as malícias políticas. Fui usado diversas vezes, mas também encontrei
alguns parceiros e, com o passar dos tempos, fui me envolvendo cada dia mais nos problemas da
universidade e batalhando pelos direitos dos alunos. Queria realmente um ensino digno. Algumas
pessoas se aproximaram, participaram, mas a completa “alienação” em que vivemos durante a
formação faz com que acreditemos que se não concluirmos o curso em quatro anos e formos
perfeitos, seremos os piores profissionais do mundo.

O contato com as disciplinas do ciclo profissional foi surpreendente, já que fui “adestrado” a
realizar os procedimentos em manequins, que não representam muitas vezes nem mesmo uma
boca, mas um único dente. Cheguei então ao sexto período, quando iniciei os atendimentos
clínicos em “manequins de alto luxo” - pacientes pobres - que sentem dor, falam e sangram, e,
portanto, são capazes de reproduzir fielmente características do paciente de consultório
particular.2 Esta percepção me incomodava, mas não sabia como reagir. Falando de consultório
particular, é necessário entender a relevância deste termo dentro da faculdade: o ensino, que
deveria ser direcionado para a sociedade, formando profissionais de saúde conscientes de seu
papel de cidadãos, e com interesse pelo campo social, forma profissionais de saúde que ao

2
Diria Botazzo (1999, p.158): “Nem se assuste o burguês com as novas técnicas de trabalho em saúde, elas foram
testadas antes em corpos dotados de menor valor e se pôde, assim, aperfeiçoar sua eficácia e segurança”.
4

terminar a faculdade têm ainda a perspectiva única do consultório particular como sonho para a
carreira. Os professores da faculdade, em quase toda a sua totalidade, trabalham em consultório
particular e são símbolos de sucesso e prosperidade em uma odontologia de alto luxo.
Professores e alunos são provenientes da mesma classe social, compartilham da mesma ideologia
e preocupam-se muito pouco com processos de mudança. É como se a faculdade de odontologia
fosse uma ilha, isolada da humanidade, auto-suficiente e gestora de suas próprias leis. Como se o
contato com o mundo externo fosse pernicioso, indesejável. Assume-se uma visão idealizada da
sociedade. O ensino é tradicional, tecnicista, conservador, desinteressado pela política,
desengajado das lutas sociais e totalmente desarticulado com as outras unidades da universidade.
Mas há também professores, que mesmo isoladamente e sem conseguir uma grande expressão
dentro da faculdade, discutem ética profissional e aspectos da realidade social.

Ao mesmo tempo, fazia por minha iniciativa, estágio extra-curricular não-remunerado no


Hospital Municipal Souza Aguiar, e convivia de perto com a realidade dos serviços de saúde.
Uma realidade muito mais complexa que aquela idealizada na faculdade. Tive dúvidas se o que
eu queria era realmente fazer odontologia. Já não tinha interesse em assistir as aulas de prótese,
elas pareciam sem o menor sentido, já que eram pura técnica e que eu sabia que o paciente de
quem eu extraía o dente no hospital de emergência, dificilmente usaria uma prótese, já que o
serviço público historicamente não assume esta responsabilidade, e o paciente, não tem condição
de comprar. Na clínica, cada dente que eu tratava do meu paciente valia alguns pontos,
valorizando uma relação mercantilista, de troca. Para ser aprovado precisava somar muitos
pontos e cada ponto, era um dente restaurado que o paciente comprava, pagando para a clínica.
Tinha que atender depressa, em equipamentos sujos e funcionando muito mal, muitas vezes sem
professores. Não tinha tempo de conversar com meu paciente e era pressionado pelos professores
para cumprir a produção. Os pacientes eram “leiloados”, quando no meio da clínica, trocávamos
os pacientes de acordo com a nossa necessidade de produção (Quem troca uma resina por uma
restauração metálica fundida? – Frases como esta eram corriqueiras)3. Tive que tratar de dentes e
não de pessoas... Esta crise me consumiu de tal maneira que resolvi tomar alguma atitude. Eu

3
Também era comum entre alguns alunos a “extensão para produção” - quando dentes hígidos são preparados e
restaurados com o objetivo de cumprir a produção mínima de restaurações dentárias exigida pelas disciplinas na
clínica. A frase foi criada em analogia à frase: extensão para a prevenção - uma manobra já em desuso na
odontologia que desgasta uma parte de dente hígido ao redor do tecido cariado e restaura, acreditando que a região
restaurada seria menos susceptível à cárie.
5

passava por uma crise de identidade. Precisava parar o ritmo frenético em que o atendimento aos
pacientes era conduzido.

Parei. Resolvi trancar quatro disciplinas e cursar apenas três naquele período, estendendo o
tempo da minha formação. Agora já tinha tempo de estudar, mas sem parar de viver e de fazer o
que eu acreditava, o que me dava prazer. Já podia atender os pacientes com calma, conversar
com eles. Não me importava com minha produção, queria tratar dos meus pacientes como seres
humanos. Enquanto todos os colegas já estavam com seus motores e brocas em punho, eu estava
conversando, ensinando, conhecendo a pessoa que iria atender. Curiosamente, minha produção
no final do período foi alta. Ninguém entendia como alguém que “perdia” tanto tempo
conversando podia ter uma produção tão alta. Eu percebi que enquanto meus pacientes
raramente faltavam, os dos meus colegas faltavam, chegavam atrasados, retardando o tratamento.
A relação que estabeleci com as pessoas que atendia era tão forte, que nos respeitávamos: eles
sabiam que eu precisava realizar o seu tratamento para me formar e, portanto, nunca faltavam;
eu, por outro lado, simplesmente os tratava como merecem ser tratados todos os seres humanos.
Com diálogo, respeito e amor.

Em janeiro de 2000 eu me formo. Candidato-me já em fevereiro do mesmo ano ao mestrado do


NUTES, queria ser professor, queria mudar o contexto da formação; entretanto, um mestrado em
odontologia parecia-me muito técnico; eu queria mudar o mundo... O mestrado, portanto,
precisava ser algo diferente, talvez fosse uma boa se partisse para a educação. Fui aprovado no
processo seletivo, mal podia acreditar que haviam me aceitado, eu tinha apenas 22 anos. No
mestrado, estudo sociologia, filosofia e leio Paulo Freire. Era exatamente o que eu sonhava.
Neste momento começo a creditar que somente a educação pode trazer saúde para a sociedade; e
não pode ser com autoritarismo, mas com amor, autonomia, prazer, significado, criticando,
lutando.

Ainda no curso de mestrado, me interesso por ideologia, quero fazer um estudo aprofundado
sobre o tema, mas minha pouca experiência nas disciplinas das ciências humanas dificulta as
coisas. Quero criticar a ideologia do ensino de odontologia no país, quero abordar a frustração de
cada colega de profissão que é formado para ficar rico em um consultório particular e acaba
tendo que participar de uma batalha por uma vaga no disputado serviço público. Quero lutar por
6

um país melhor, quero mudar o mundo, quero tirar a venda dos olhos de tantas pessoas quanto
for capaz, quero tira-las da escuridão, do anonimato, da dominação.

Faltava, entretanto, uma experiência que me proporcionasse o contato com uma prática mais
próxima da teoria que eu estava aprendendo. Fui convidado então por aquela professora de
trabalho de campo a participar de um grupo que acreditava na educação em saúde dentro de uma
perspectiva crítica, como uma alternativa ao modelo curativo de ensino odontológico. Era um
projeto interdisciplinar nas escolas da rede pública do município do Rio de Janeiro 4 .
Compreendo na prática, e com ela, que saúde depende de condições de vida como trabalho,
salário, moradia e lazer. Estava próximo à sociedade, podia colocar em prática a filosofia de
Paulo Freire e os conteúdos da sociologia que estava apreendendo. Entendi assim que as relações
de poder se estabelecem na sociedade de forma assimétrica e, indubitavelmente, fazem parte do
processo saúde-doença.

Neste momento descubro também a Saúde Bucal Coletiva, uma proposta que se opõe ao
tecnicismo dominante na profissão e propõe uma outra inserção do profissional na sociedade.
Começo a acreditar que os profissionais da área da saúde podem se organizar para atuar através
de parcerias, alianças, unindo forças para que se possa consolidar na prática novas propostas para
o setor saúde. Para tal, é preciso considerar que a promoção de saúde é resultado que depende do
processo de apropriação do poder de cada cidadão e da sociedade como um todo. A promoção da
saúde é construída a partir de relações entre sujeitos sociais mediadas por uma práxis educativa
para a autonomia e liberdade.

Percebo desta forma que há movimentos contra-hegemônicos, mas que eles não conseguem
expressão nas faculdades de odontologia e nem nas políticas públicas de atenção à saúde. Grande
parte da população continua sem assistência, e parte deste problema deve-se ao fato dos
movimentos que trazem propostas alternativas não conseguirem surgir no contexto oficial. São
propostas críticas que não conseguem expressão nas políticas educacional e de assistência. As
relações de poder que se estabelecem na sociedade em forma de conflitos fazem parte de um
contexto mais amplo, a própria história, que não é uma seqüência sucessiva de fatos
predeterminados que ocorrem naturalmente, mas exatamente o resultado destes conflitos. Para

4
Projeto Escolas Promotoras de Saúde – Convênio entre a Faculdade de Odontologia da UFRJ, Secretaria de Saúde
do Município do Rio de Janeiro e Fundação BIO-RIO.
7

Santos (2000) “a gestação do novo, na história, dá-se freqüentemente, de modo quase


imperceptível para os contemporâneos, já que suas sementes começam a se impor quando ainda
o velho é quantitativamente dominante”. É exatamente por isso que para santos a ‘qualidade’ do
novo pode passar despercebida. Mas, ressaltando a relevância das utopias, o autor afirma que “a
história se caracteriza como uma sucessão ininterrupta de épocas, e essa idéia de movimento e
mudança é inerente à evolução da humanidade”. Será com esta perspectiva que tentaremos
compreender a Saúde Bucal Coletiva. Não somente como um referencial teórico-político-
metodológico, mas também como a proposta de uma nova odontologia, sustentado por um
movimento que reúne forças para disputar espaço no contexto político da saúde no Brasil.
8

1.2. Objetivo e relevância do trabalho:

O objetivo deste estudo é discutir uma proposta contra-hegemônica - a Saúde Bucal


Coletiva – e a luta por sua legitimação como política pública de saúde e como fundamento
político-filosófico dos cursos de formação em odontologia. Com base numa reflexão sobre a
formação e a prática profissional do cirurgião-dentista dentro de uma análise dos contextos
sócio-cultural, político e econômico do Brasil de hoje, pretende-se estudar e discutir a proposta
que, acredita-se, seja capaz de superar as limitações do modelo de atenção à saúde bucal
prevalente hoje no país.

1.3. Questões de estudo:

Para desenvolver o trabalho foram levantadas as seguintes indagações:

1) Como se caracteriza hoje a política de atenção em Saúde Bucal no país e que limitações o
modelo prevalente apresenta para a promoção da qualidade de vida da população brasileira?

2) Qual a práxis dos grupos que estão trabalhando com a filosofia da Saúde Bucal Coletiva e
como eles operam para adotar uma postura de resistência frente ao caráter hegemônico do
modelo de odontologia de mercado existente no país?

3) Quais são as mudanças, articulações e compromissos propostos pelo referencial teórico-


metodológico da Saúde Bucal Coletiva e a que projeto de sociedade sua ideologia está
vinculada?

4) Como o movimento da Saúde Bucal Coletiva pode trazer subsídios a uma “nova
odontologia”?
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2. A SAÚDE BUCAL NO CONTEXTO DA ATENÇÃO EM SAÚDE NO PAÍS

”o riso não veio,


não veio a utopia,
e tudo acabou e tudo fugiu,
e tudo mofou,
e agora, José?”

(Carlos Drumond de Andrade)

2.1 A realidade brasileira de atenção em saúde bucal:

De acordo com informações do IBGE, cerca de 30 milhões de brasileiros (18,7% da população)


nunca consultaram um dentista até o ano de 2000. Destes números, as maiores proporções se dão
em crianças menores de 4 anos e na população residente em áreas rurais. E ainda, 46 milhões de
pessoas, 28% da população, tiveram a última consulta com um dentista feita há mais de três
anos. De acordo com Silva (2000) “o severo quadro epidemiológico encontrado reflete a
inadequada distribuição de recursos em saúde bucal à população adulta brasileira,
particularmente à parcela produtiva, historicamente excluída dos grupos de atenção prioritária.”
O que ocorre, de acordo com Botazzo (1994), é que mesmo após tantas modificações, avanços e
retrocessos no SUS, ainda a criança e a gestante são clientelas preferenciais, podendo-se admitir
que: “as antigas políticas de odontologia do escolar sobreviveram e se ampliaram na atualidade
da Reforma Sanitária. Uma ideologia puericultora, ancorada no âmago da profissão emerge em
arranjos programáticos nos sistemas loco-regionais”.

A odontologia historicamente não assume a sua parcela de responsabilidade em prover saúde


bucal à população. Atualmente existem no Brasil cerca de 160 mil profissionais inscritos nos
conselhos regionais e formados nas 130 faculdades do país. Nelas, a cada seis meses, cerca de 11
mil novos dentistas recebem o diploma. Mesmo com estes números, as políticas públicas
adotadas, a má distribuição dos profissionais e o próprio modelo técnico-cirúrgico-mutilador de
odontologia predominante no país fazem com que persistam os elevados índices de doenças
bucais. Estima-se que 75,5% da população brasileira dependa do atendimento público ou pague
consultas em estabelecimentos privados de saúde; enquanto que 24,5% da população do país
10

possui algum plano privado de saúde. Apesar de todos estes dados, o governo edita em 25 de
Novembro de 1999 a medida provisória nº 1.908-20, que dispõe sobre os planos privados de
saúde, excluindo a assistência odontológica do plano referência (básico) obrigatório a ser
prestado pelas empresas de planos de saúde. (Brasil, 1999)

Analisando esta relação, Pinto (1999) salienta que o quadro epidemiológico brasileiro, em termos
de saúde bucal, reflete com nitidez algumas das principais características da nossa sociedade:
“economia em crise prolongada; agudas desigualdades salariais e sociais, sistema educacional
com ênfase na formação de nível superior; produção agrícola voltada para exportação e grande
número de pessoas de baixa renda em estado de pobreza relativa ou absoluta”. Ainda para Pinto
(1999), a influência desses fatores sobre a área odontológica pode ser percebida no “acesso
inviável às clínicas particulares para pelo menos 104,5 milhões de pessoas (cerca de 67 % do
total) situadas no extrato de renda baixa e muito baixa”.

Contraditoriamente, para atender esses 67 % da população, estima-se que somente cerca de 15%
do total de cirurgiões-dentistas (inscritos nos Conselhos Regionais) estejam lotados no serviço
público. Apesar do atendimento público e gratuito estar previsto também em Constituição
Federal, estima-se que cerca de 70 % dos serviços odontológicos produzidos no Brasil sejam
financiados em âmbito privado e que a renda familiar de cerca de 30% da população seja inferior
a dois salários mínimos. É também uma realidade o fato de que no país existe um grande número
de pessoas em estado de pobreza e indigência e que a maioria da população carece de assistência
social e atenção à saúde.

Discutindo a constituição desta crise e contextualizando o problema, Botazzo (2000) analisa que
“não seria difícil, desdobrar essa ‘crise’ em seus elementos constituidores” e neles localizar “sua
biopolítica ou a face pública da Odontologia (lugar onde melhor se entenderia o que tantas vezes
foi afirmado como sua ineficácia epidemiológica)”; também “as relações da Odontologia com as
demais profissões de saúde (e o diálogo permanentemente canhestro que mantém com as
ciências sociais)” e, finalmente, “a crise do seu modelo pedagógico (que não é outra coisa que a
5
crise permanente da sua clínica e do seu existir separado)” .

5
Grifos no original
11

A odontologia absorve, também sem desenvolver uma reflexão, fenômenos como o da


globalização dos serviços, das informações e das técnicas; a mercantilização da saúde, a
fragmentação do corpo humano em micro estruturas relacionadas às especialidades médicas e o
estímulo incessante ao lucro e ao consumo compulsivo e alienado de bens e mercadorias.
Portanto, reproduz com insistência técnicas, valores e atitudes que respondem à ideologia do
poder dominante e acaba assumindo um compromisso com a elite em detrimento da maioria da
população, já que oferece somente uma intervenção mutiladora sobre os corpos de quem não
pode pagar suas tecnologias. Sendo assim, o papel da odontologia no modelo capitalista de
globalização, de acordo com Bernd (1992), seria “contribuir para manter este corpo em
condições de produzir e de diminuir as tensões sociais, já que o corpo dos indivíduos da classe
trabalhadora seria considerado numa sociedade de classes, simplesmente como uma unidade
produtiva”.

Para Botazzo (2000): as atuações da odontologia, colocadas da metade do século XIX em diante,
tiveram por efeito constituir a boca e os dentes como objetos de intervenção, e posteriormente
como objetos de controle social, “na mesma vertente do controle estatal sobre os corpos, tal
como Foucault teria apresentado no Vigiar e punir.” E o autor enfatiza: “se há esse controle, ele
se daria pela negação à população adulta e trabalhadora dos benefícios das suas tecnologias, à
qual historicamente reservou a mutilação e a prótese”6.

Embora essa seja a realidade predominante, há vozes dissonantes, que vêm ao longo dos anos
clamando por um redimensionamento na assistência odontológica, o que pode ser observado no
documento que registra a 7ª Conferência Nacional de Saúde, em 1980, onde chegou-se à
conclusão de que o modelo da prática profissional em odontologia era ineficaz por não conseguir
responder às exigências dos problemas de saúde bucal da população; ineficiente, por ser oneroso
e de baixo rendimento; descoordenado, tendo em vista a multiplicidade de órgãos que sobrepõem
funções normativas e operacionais; mal distribuído, por localizar a assistência nas áreas
desenvolvidas, deixando desassistidas as demais; de baixa cobertura, por não prestar assistência
adequada nem mesmo à demanda espontânea; de grande complexidade, por utilizar tecnologia
sofisticada dependente de amplo treinamento; de enfoque curativo, por relegar as ações
preventivas; de caráter mercantilista, por considerar a saúde bucal como um “bem de troca”; de
caráter monopolista, por haver resistência no repasse de conhecimento aos técnicos e auxiliares

6
Grifos no original
12

em saúde bucal; inadequado na preparação de recursos humanos, uma vez que não existe
correlação com as reais necessidades nacionais e por valorizar especialistas e não generalistas.
Numa observação final, o relatório considera haver por parte dos segmentos mais conservadores
da sociedade, e da própria odontologia, sérias resistências ao processo de ‘desmercantilização’ da
saúde oral. [CNS (7: 1980: Brasília)]

Alguns autores, equivocadamente, quando analisam a força de trabalho em odontologia afirmam


que a concentração de dentistas em uma região invalida o esforço de anos de formação frente à
frustração da fixação em um local já saturado. Como por exemplo Pellegrino (1999) quando
afirma: “nestes locais existe a necessidade cada vez maior da elitização de atuação, através de
um trabalho cada vez mais especializado, tendo como solução a formação de grupos de
trabalho.” Segundo esta proposição, “somente uma perfeita distribuição de profissionais com
formação eficiente propiciará que se alcance os verdadeiros objetivos a que se propõe à
profissão: o profissional livre, autônomo, economicamente independente e, principalmente,
socialmente responsável”. Ora, seriam estes os objetivos a que se propõe a profissão? Ao menos
não é o que se afirma no próprio Código de Ética Odontológico CFO (1998) onde no artigo
segundo das disposições preliminares consta que “a Odontologia é uma profissão que se exerce,
em benefício da saúde do ser humano e da coletividade, sem discriminação de qualquer forma ou
pretexto”.

No sentido de responder àquela indagação e, revelando o conteúdo ideológico das críticas que
não questionam as condições de possibilidade (ou de existência) da formação profissional,
Botazzo (2000) afirma que esta percepção acaba por manter presente a “ ‘odontologização’ da
vida genérica”. Segundo o autor, o questionamento mais importante a ser feito não é sobre a
distribuição de profissionais pelo país, mas sobre a prática destes profissionais. Ainda para
Botazzo, não há como deixar de admitir que, com isso, a experiência odontológica foi
interrogada mais a fundo, para que se fosse em busca da sua condição de existência: “as relações
promíscuas com o mercado não evitaram que ela fosse vergastada e finalmente condenada pelos
seus custos, iatrogenicidade, elitização e ineficácia epidemiológica; de ser anti-democrática e
anti-popular”. Ao tentarmos responder a que se propõe a odontologia, ou como propõe Botazzo a
sua “condição de existência”, podemos perceber que esta questão envolve a sua própria relação
com a sociedade.
13

A ‘crise’ atinge também a força produtiva, e os cirurgiões-dentistas atualmente não possuem


mais as mesmas condições de trabalho às quais estavam habituados, ou seja, a relativa
tranqüilidade financeira e o status social proporcionados pelo atendimento em consultório
particular. O empobrecimento de grande parte da população, reflexo da política econômica
adotada no país; o grande número de profissionais competindo pelo escasso mercado de trabalho
no atendimento clínico privado; a política agressiva dos planos de saúde e o baixo valor pago
pelos procedimentos nos convênios odontológicos fizeram com que o modelo liberal desse lugar
ao modelo assalariado de profissional. A maioria dos profissionais, das associações de classe e
das instituições de formação, continuam alheias às transformações demográficas, sociais e
econômicas pelas quais passa a sociedade brasileira e que impactam as condições de vida e saúde
da população.

De acordo com Assada (2001) “o trabalho autônomo, ideologicamente mais valorizado, vem
sendo substituído pelo trabalho assalariado de forma direta (contratação) ou indireta
(credenciamento)”. Enquanto os profissionais mais antigos estão perdendo clientes de seus
consultórios e resistindo a duras penas através de credenciamentos, os recém formados estão
atuando em clínicas ‘populares’ onde trabalham como assalariados, muitas vezes em condições
deprimentes, sem contrato de trabalho e recebendo uma percentagem de cerca de 30 % sobre o
valor que o seu paciente paga. O subemprego acaba ocorrendo de duas formas: em uma delas os
dentistas atuam em tempo parcial involuntariamente e, na outra, não há total uso da sua
capacidade profissional, exercendo funções simplificadas para seu nível de especialização. A
situação faz com que duvidem até mesmo de sua escolha profissional. Em pesquisa sobre o perfil
profissional dos cirurgiões-dentistas, Oliveira (1993) detectou que 30% dos profissionais
entrevistados têm tendência a se dedicar a outra atividade que não a odontologia como forma de
obter seu rendimento mensal. Muitos retornam então à escola onde se formaram para uma
"corrida armamentista” onde os primeiros a se especializar conseguem a disputada fatia do
mercado capaz de pagar. Outros prestam concurso para o serviço público, que paga um salário
menos humilhante que a clínica popular e proporciona, por enquanto, estabilidade.

Os profissionais que alcançam uma das poucas e disputadas vagas no serviço público sentem-se
não adaptados, já que não se identificam com a realidade cotidiana do atendimento à população,
seja pelo conflito sócio-cultural, seja pelas precárias condições de trabalho, fruto de políticas
públicas que não contemplam a área da saúde, e principalmente devido à precariedade da sua
14

própria formação. Como trabalhar com atendimento coletivo, carência de recursos materiais e
humanos, pessoas de baixo nível social e econômico, se foram capacitados somente a utilizar
caras e complexas técnicas no tratamento cotidiano de seus pacientes? Para Garrafa & Moysés
(1996) o cirurgião-dentista acaba fatalmente robotizando-se com manobras terapêuticas repetidas
e cotidianas, perdendo paulatinamente sua referência com o mundo real dos homens e mulheres,
dos prazeres e dores, de questões que tratam da qualidade de vida da sociedade. Pina (1992)
aponta para o fato de que o serviço público cresceu mais que o setor privado de saúde,
principalmente por conseqüência das políticas descentralizadoras, e que é responsável por mais
da metade das oportunidades de trabalho. Afirma ainda que devido à notória importância do
setor público como mercado de trabalho, os cursos de formação não podem se esquivar de
questionar a sua prática atual.

Fazendo exatamente um questionamento sobre a prática odontológica no setor público, Botazzo


(2000) afirma que “sendo o setor público o lugar do atendimento ‘sanitário’ dos pobres, nele a
odontologia encontra campo para exercer aquela que julga ser sua ‘função social’, reduzida na
maior parte dos programas a uma prática caritativa e assistencialista”. Para o autor, o cuidado
odontológico sofre abrupto encolhimento quando se trata de aplica-lo às amplas massas já que
então, junto a elas, são mais escassas as possibilidades de ser apropriado como mercadoria. Para
Botazzo (2000) este é o significado fundamental que deve ser buscado na crítica à reprodução do
modelo privado no setor público, seja nas instituições de formação ou numa reflexão – e
discussão - realizada pelos sujeitos no próprio serviço.

Dentre as inúmeras transformações ocorridas no mercado de serviços odontológicos, o


desenvolvimento das operadoras tem sido um dos mais debatidos e polêmicos. De acordo com
Assada (2001) a percepção econômica de que estes sistemas são fenômenos mundiais
decorrentes dos movimentos de privatização, terceirização e quarterização, que visam à redução
de custos, deve ser clara. As operadoras são atores que atuam dentro do cenário, ocupando um
nicho onde existe uma demanda crescente e reprimida, ou seja, o acesso ao serviço. Nesta tensão
entre o público e o privado é criada a Agência Nacional de Saúde suplementar (ANS). A ANS é
um órgão subordinado às diretrizes do conselho de saúde suplementar (CONSU) e que integra a
estrutura do Ministério da Saúde. A agência, de acordo com publicação da ANS (2000) “tem
poder regulador definido por lei, podendo regular, controlar, fiscalizar e punir; e foi criada com o
objetivo de regulamentar o setor de saúde suplementar no país”. O CONSU é um conselho
15

ministerial, formado pelos ministros da saúde, da casa-civil, da fazenda, planejamento,


orçamento e da justiça. À sociedade coube apenas integrar a Câmara de Saúde Suplementar, de
caráter exclusivamente consultivo. Segundo Montone (2000) é parte da missão da ANS “criar as
condições para um crescimento saudável do setor de saúde suplementar, sem contradições com a
construção do SUS”. Ora, o crescimento do setor da saúde suplementar não estaria em
contradição com o SUS?

Assada (2001), avaliando o impacto da criação da ANS, afirma que se por um lado trouxe
benefícios, promovendo a normalização do mercado, por outro tornou evidente o direcionamento
da política de saúde para a transferência de responsabilidades do Estado para a iniciativa privada.
Segundo o autor: “cada vez mais os Governos estão se deparando com graves crises políticas, na
tentativa de diminuir seu ônus e compartilhar seu papel na provisão de diversos serviços”.
Entretanto, para Werneck (1994), através dos incentivos como o desconto integral no imposto de
renda para os gastos com saúde o Estado está financiando, de forma indireta, o setor privado. De
acordo com o autor, a municipalização dos serviços de saúde tem sido atrasada pelo escasso
investimento e disponibilidade de recursos financeiros, além das naturais dificuldades de
implementação de uma nova cultura, insuficiências e precariedade de equipamentos e instalações
físicas, pela falta de um sistema confiável de informação, pela ausência de uma política eficaz de
recursos humanos e pela ainda tímida participação da sociedade civil. Tudo isso em
concomitância com a precária política de financiamento do setor. A conjugação de interesses
entre a tecnoburocracia estatal, os produtores de serviço (empresas médicas), e os produtores de
bens, indústrias de medicamentos e equipamentos faz prevalecer um modelo médico privado em
detrimento da saúde pública. E Exatamente por haver essa disputa ideológica é que podemos
afirmar que o fortalecimento do SUS é incompatível com o crescimento do setor da saúde
suplementar.

Podemos facilmente perceber então, que a responsabilidade pela saúde bucal da população não
depende exclusivamente da classe odontológica ou dos cursos de formação, mas também, é
conseqüência das políticas públicas no Brasil, como afirmam Garrafa & Moysés (1996, p.12):

“Os problemas bucais da população brasileira vão muito além da


limitada fronteira de influência de um setor técnico-científico como
é a odontologia. Por isso, enquanto não se incluírem nas suas metas
16

a politização e democratização das suas propostas clínicas,


continuaremos registrando os mesmos resultados sanitários de hoje:
ou seja, um dos mais vergonhosos índices mundiais de doenças
bucais.”

Após um longo processo de reivindicação pelo movimento da reforma sanitária, em 1990 foi
regulamentado no Brasil o Sistema Único de Saúde (SUS). Neste modelo, a saúde é um direito
fundamental do cidadão brasileiro, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu
pleno exercício. De acordo com esta legislação, a saúde tem como fatores determinantes, entre
outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a
educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais. A saúde bucal não pode
ser desvinculada da saúde geral do indivíduo, da sua auto-estima e da sua qualidade de vida.
Portanto, também é de responsabilidade do Estado formular e executar estratégias que assegurem
acesso universal e igualitário às ações e aos serviços de odontologia, viabilizando a expansão da
cobertura dos serviços públicos e tornando-os hegemônicos no sistema de prestação de serviços.

Em outubro de 1996 é instituída a Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão


de Valores e de Crédito e Direitos de natureza Financeira – CPMF. De acordo com Brasil (1996),
“o produto da arrecadação da contribuição de que trata esta Lei será destinado integralmente ao
fundo nacional de saúde, para financiamento das ações e serviços de saúde”. Para Manfredini
(2001d) a análise da execução orçamentária do Ministério da Saúde comprova que os recursos da
CPMF foram prioritariamente para a saúde, mas “só que ao mesmo tempo, recursos
orçamentários do Ministério da Saúde foram transferidos para outros ministérios”. Como
resultado desta política, em 1999, o gasto público com saúde foi de 3,17% do PIB e representou
apenas 4,6% do gasto Federal total. O investimento proporcional em procedimentos
odontológicos em relação ao total de investimentos do SIA/SUS no Brasil foi de somente de
5,39%, ou seja, dos R$4.884.516.036,14 destinados à saúde, somente cerca de R$
263.227.761,03 foram reservados para o setor odontológico. Mas vejamos o que essas coisas
representam. No caso dos grevistas do setor de saúde de São Paulo, como destacado por Narvai
(2001a), “entre as melhores condições de trabalho não estão confortos como ar condicionado,
música no ambiente ou flores à vista. Mas gaze, esparadrapo, instrumentos e equipamentos
básicos, medicamentos essenciais, material didático, iluminação adequada, entre outras”. Ao
discutir o modo como a distribuição de recursos da política pública adotada pelo governo
17

prioriza a área econômica em detrimento da área social, é ainda Narvai que usa uma instigante
metáfora:

“cadê o pão? Por que está faltando pão? Se todos trabalham,


produzem... onde está o pão? Ah! Alguém que não está na metáfora
mas que tem existência real está fazendo o pão desaparecer. Entre
nós, em pleno ano 2000, o pão está assumindo a forma de modelo
econômico: o pão desaparece travestido de juros e serviços da
dívida externa, remessa de lucros para acionistas estrangeiros de
empresas operando no Brasil, sonegação fiscal, privatizações
cercadas de segredos e mistérios, isenções tributárias, auxílios
oficiais para banqueiros falidos e para especuladores no sistema
financeiro...” Narvai (2001a, p.2)

Para Manfredini (2001d), os administradores e técnicos de serviços públicos odontológicos


defrontam-se com um grave problema neste momento: “como manter programações em uma
situação onde o Estado brasileiro atravessa uma de suas piores crises de financiamento?”. Com
os escassos recursos que recebe, a política de saúde na área de odontologia privilegia o
atendimento individualizado, reproduzindo um modelo de prática profissional já esgotado. Como
conseqüência direta, tanto do modelo adotado quanto da falta de financiamento, constatamos a
exígua cobertura populacional. Em 1999, o investimento total em procedimentos coletivos foi de
R$ 82.951.669,04, e o percentual de cobertura populacional de 5 a 14 anos foi de 16,55%,
(PAB). Já o investimento em procedimentos individuais foi de R$ 180.276.091,99 (em 1999) e a
cobertura foi de somente 12,78% da população brasileira.

Para Narvai (2001e) a partir do início dos anos 90, a inclusão dos procedimentos coletivos (PC)
no rol dos procedimentos odontológicos pagos pelo Ministério da Saúde (MS) impulsionou
fortemente a expansão das ações preventivas dirigidas a grupos populacionais. Entretanto, para
Narvai “vivemos, atualmente, um momento decisivo para a continuidade desse rumo. Com as
mudanças no sistema de pagamentos dos serviços básicos de saúde pelo MS, agora baseada em
critérios demográficos, há sérios riscos de inversão na tendência de expansão dos PC”. Ainda
segundo o autor, constatou-se que os PC corresponderam a 41% do total de procedimentos
odontológicos em 96 e 97 e que, em 98, foram apenas 33%. Em alguns Estados, a queda foi
superior a 50%: “a nova modalidade de financiamento tem levado alguns municípios a se
desinteressarem por Saúde Bucal, agora que os PC não são mais instrumento útil para lhes
carrear recursos. Em 1999, os procedimentos coletivos já corresponderam a somente 30% dos
18

procedimentos odontológicos realizados pelo SUS. Aumentam, ao mesmo tempo, as notícias


sobre demissões de CDs e THDs em municípios que até então diziam priorizar a Saúde Bucal."

A ineficiência do Estado e do próprio modelo científico em garantir o direito à saúde bucal da


população brasileira vai de encontro ao artigo 25° da Declaração Universal dos Direitos do
Homem produzida pela Organização das Nações Unidas:

“Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe


assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente
quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência
médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito
à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na
velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por
circunstâncias independentes da sua vontade.”

Garrafa & Moysés (1996) em seu artigo ‘Odontologia brasileira: tecnicamente elogiável,
cientificamente discutível, socialmente caótica’ apresentado na I Conferência Nacional de Saúde
Bucal afirmam que as discussões já não estão mais centradas nos efeitos que a presença do
mercado está produzindo para a saúde, mas no estabelecimento do mercado como valor absoluto.
Fazendo uma caracterização onde discutem uma ética para a odontologia, afirmam que a ciência
odontológica disponível no Brasil está sendo utilizada de forma profundamente discutível, não só
do ponto de vista científico, como também sob o prisma da moral individual e ética coletiva. Os
resultados práticos da utilização dos frutos das descobertas científicas continuam teimosamente
inaparentes e epidemiologicamente imutáveis no contexto coletivo. Os autores concluem que
uma política de saúde para a maioria da população, atualmente, tem posição revolucionária:

“Nesta política, a saúde bucal ganha relevância. Dada sua ampla


inserção social e capilaridade com o concreto da vida das pessoas, o
setor saúde deve assumir sua responsabilidade (e suas impotências),
pois está claro que ele não conseguirá sozinho alterar estruturalmente
a sociedade. Mas pode e deve contribuir para o debate, para a
formulação de projetos setoriais e societários, numa agenda
intrincada por um processo de lutas complexas, em que o
fundamental seja a atenção das maiorias desassistidas”. Garrafa &
Moysés (1996, p.16)
19

É justamente nesta perspectiva revolucionária, de garantir qualidade de vida de forma universal à


população que, a seguir, discutiremos a proposta da Saúde Bucal Coletiva.

2.2 A contra-hegemonia lutando contra a violência e a exclusão:

A conformação dos princípios e propostas dos principais movimentos contra-hegemônicos no


campo da saúde bucal, segundo Serra (1998), teve origem na (UNEO) União dos Estudantes de
Odontologia em 1954, numa época de grande ebulição na história do movimento estudantil
brasileiro e, adquiriu consistência no período que coincide com o adensamento na formulação de
críticas à ditadura, nos Encontros Científicos dos Estudantes de Odontologia (ECEO), a partir de
1974, e no Movimento Brasileiro de Renovação Odontológica (MBRO) e Encontros Nacionais
dos Técnicos e Administradores do Serviço Público (ENATESPO), ambos iniciados em 1984
como reflexo do movimento da Reforma Sanitária brasileira. Essas propostas fizeram-se ouvir na
histórica VIII Conferência Nacional de saúde, em 1986, quando também realizou-se a I
Conferência Nacional de Saúde Bucal.

Destes movimentos o MBRO e o ENATESPO foram os que mais se destacaram. As principais


propostas do MBRO eram a luta pelas liberdades políticas e a posição contrária a
mercantilização da prestação de serviços odontológicos. Alguns dos objetivos do MBRO eram a
expansão dos serviços pelo Estado com a responsabilidade do poder público pela
municipalização do atendimento, o controle das instituições pela população organizada e a
democratização das entidades odontológicas. Os ENATESPO, para Narvai (1994), tornaram-se
pelo nível de discussão e das decisões tomadas a cada encontro, o instrumento mais importante
para a compreensão e análise das práticas odontológicas no país, em virtude da pouca ou
nenhuma reflexão sobre estas práticas nos Congressos de Odontologia, onde são priorizados
praticamente os aspectos biológicos e tecnológicos.

Com base em todo o processo das lutas contra-hegemônicas no campo da odontologia, e


considerando que a produção e a superação das contradições são processos históricos em
permanente construção, pode-se perceber que alguns destes movimentos se dissolveram, como o
MBRO, e que outros continuam existindo, como o ENATESPO. Convém ainda salientar a sua
relevância para a existência atualmente de alguns espaços contra-hegemônicos, que têm o
objetivo de dar continuidade à luta pelos ideais políticos que vêm sendo construídos. Os
20

intelectuais representantes deste movimento construíram um referencial teórico-metodológico


denominado Saúde Bucal Coletiva, que caracteriza-se fundamentalmente por questionar a ordem
estabelecida e apresentar propostas alternativas ao modelo de atenção em saúde prevalente no
país. Segundo Narvai (1994):

“buscava-se construir uma referência teórica para as ações a serem


desenvolvidas, que mantendo o vínculo com a ‘saúde bucal’
extrapolasse os estreitos limites do meramente assistencial. Por isso
não poderia ser a mesma coisa falar em ‘odontologia coletiva’ e
‘saúde bucal coletiva’. Assim, foi sendo gradativamente firmada a
expressão ‘Saúde Bucal Coletiva’ para afirmar uma prática
sanitária que compreendia as atividades de assistência, mas implica
além disso, também ações sobre as causas das doenças, sejam elas
de natureza biológica, social, econômica ou política. Essas ações,
situando-se num campo extra-clínica são englobadas por práticas
de saúde que poderíamos chamar Saúde Bucal Coletiva”. (p.70)

É ainda Narvai (1994) quem afirma:

“a Saúde Bucal Coletiva apresenta como característica fundamental


uma proposição de práxis que pretende a negação dialética da
odontologia, a qual produz uma teoria-prática desenvolvida à luz
dos pressupostos da odontologia de mercado”. (p.77)

O referencial teórico-metodológico da Saúde Bucal Coletiva igualmente sustentaria a prática


política da Federação Interestadual dos Odontologistas (FIO), uma entidade que congrega os
sindicatos progressistas da categoria. Ainda neste campo ocorreu a criação da Associação
Brasileira de Saúde Bucal Coletiva (AÇÃO COLETIVA), que de acordo com Cordón (1998) foi
uma entidade criada “para congregar cidadãos que vivem sua prática e teoria no campo da saúde
pública, entendida como todas as formas de prática social que se relacionam com o processo de
saúde e qualidade de vida na totalidade brasileira”.

Fundamentado na experiência social concreta e cotidiana da maioria da população, não seria


difícil aferir que diferente de um profissional especializado somente em técnicas, o que a
sociedade brasileira necessita é também um dentista sensibilizado pelas questões sociais,
capacitado em ciências humanas e, competente para se comunicar com indivíduos de diferentes
origens culturais. Nesta perspectiva, seria urgente a formação de profissionais que pensem a
saúde de forma ampla (num equilíbrio entre as condições biológicas, culturais, históricas,
21

econômicas e políticas) e que sejam capazes de perceber que as doenças acontecem nas relações
entre as pessoas, na disputa pelo poder e na produção incessante de miséria pela política de
concentração de renda e preservação das diferenças sociais.

Narvai (2001d), avaliando a crise gerada pela falta de planejamento na formação de recursos
humanos e questionando a responsabilidade social da odontologia, em seu artigo ‘Mais
dentistas?’, afirma que:

“não é nada inteligente endossar a "bandeira" do "contra a abertura de


novos cursos de odontologia". Em linhas muito gerais, ouso afirmar
que o Brasil, ao contrário de alguns países, tem os dentistas que
precisa e precisa dos dentistas que tem. Não interessa à população e ao
país dispor de um pequeno número de dentistas — assim como não
faz o menor sentido dispor de um número descomunal... E também
não interessa à população e ao país não poder contar com o máximo
do potencial profissional, técnico e científico, dos dentistas brasileiros
— e isso constitui um desafio ao adequado planejamento e
organização dos serviços de saúde em todos os cantos do país. Tais
serviços precisam cumprir sua função social: atender a todos, sem
privilégios, sem discriminação, rompendo com todo tipo de
monopólio. Por essa razão, entre outras, faz sentido sim pensar em
novos cursos. Basta considerar que em alguns Estados (Acre e
Tocantins, por exemplo), as universidades públicas não formam um
único dentista. Como ser contrários a que o façam?” (p.02)

A ação dos profissionais de saúde para estimular a participação da população no movimento de


luta por uma boa qualidade de vida ocorre em dos níveis: com as instituições oficiais e as
lideranças locais. O desafio de transformar uma abstração utópica em medidas práticas, por meio
de ações técnicas e políticas com objetivo de se alcançar o preceito da materialização da saúde
como um direito de todas as pessoas, pode se constituir em um importante instrumento de critica
e da construção de um modelo de sociedade diferente deste hegemônico (pro)posto pelos
detentores do poder. Para isso, faz-se necessário já não mais somente a construção de modelos
alternativos, mas que outras propostas sejam colocadas em prática. Botazzo (1999), vendo na
Saúde Bucal Coletiva um movimento com perspectiva política e considerando o Estado um
órgão de dominação de classe através da criação de uma ordem, afirma que:

“Se o Estado é uma criação da ordem, se poderia cogitar se esta ordem não seria a que rege a
vida social e econômica, a que rege as relações de trabalho e as relações de produção. Se aí não
estariam os códigos e as leis, a ética e os costumes, o regime de trabalho, a lei da saúde, o código
22

sanitário, o modo como fábrica e presídios devem ser construídos, quanto deve durar a jornada
de trabalho, quanto tempo o sentenciado ficará preso, quanto dura a internação, quanto custa o
pão e o leite, quantos, e como, devem ascender à educação, e mesmo o modo como iremos
adoecer e morrer”. (Id.: p.82)

Segundo o autor, essas são todas formas de ordenamento da vida social e esse ordenamento é
atravessado pela opressão e pela violência. Lutamos contra o modo como essas relações são
ordenadas e será exatamente contra essa opressão que a saúde Bucal Coletiva irá lutar
persistentemente. A relevância deste estudo está em discutir a busca da Saúde Bucal Coletiva -
que acredita-se seja uma proposta contra-hegemônica - por sua legitimação como política pública
de saúde e pela inclusão de sua filosofia nos cursos de formação.

3. FORMAÇÃO DO DENTISTA NA ATUAL REALIDADE DO ENSINO SUPERIOR


NO BRASIL
23

“Brasil,
Mostra tua cara,
Quero ver quem paga,
Pra gente ficar assim.
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do seu sócio?
Confie em mim”.
(Cazuza, e Nilo Romero)

3.1 A Reprodução Histórica... e a Resistência!

A discussão sobre a qualidade e a função da educação superior fica evidente nos dias atuais
devido à grande procura dos cursos universitários no país. Segundo o INEP (1999) cerca de 270
mil alunos se matricularam em algum curso de graduação somente no estado do Rio de Janeiro
no ano de 1999. Ao discorrer sobre o ensino superior no país não se pode deixar de abordar todo
um contexto histórico marcado pela exclusão da maior parte da população, pelo autoritarismo
centrado na figura do professor e pelo predomínio de um tipo de conhecimento que se faz único
e inquestionável. Uma história da educação caracterizada pela ausência de diálogo, pela suposta
desvinculação com a política e pela reprodução da ordem hegemônica.

Analisando por uma retrospectiva histórica a subordinação da Educação ao modelo industrial,


Schraiber (1989) afirma que será a partir dos anos 40 que o desenvolvimento industrial do país,
alterando o padrão da qualificação do trabalho, produzirá novos requerimentos de qualificação
do trabalhador. Portanto produz também uma mudança na área da educação, que irá culminar
com o processo de industrialização do país durante os anos 60 e 70, quando tornou-se necessário
a formação urgente de técnicos e era necessário que a população brasileira aumentasse o seu
nível educacional para que o país pudesse acompanhar o ritmo do crescimento econômico
mundial. Na década de 80, a tecnificação do ensino teve o seu apogeu como resposta às
exigências de um modelo capitalista mais liberal que se instalava no Brasil. Desta forma, a
educação no país priorizou o conhecimento útil para a atuação específica num ofício, as
informações técnicas foram supervalorizadas, estimulando a formação de uma reserva de
trabalhadores treinados para o trabalho mas com pouca consciência crítica da realidade do país e
da sua inserção no modelo produtivo. Seguindo as mesmas características, poucas mudanças na
24

filosofia educacional ocorrem nos anos 90. Com a globalização proporcionando uma
internacionalização da produção, a formação de empresas transnacionais, a disseminação da
informação pela internet e a adoção pelo país de uma política neoliberal, cresce a exigência de
técnicos mais bem capacitados. Essa exigência faz com que as universidades se transformem em
centros produtores de técnicos. O número de vagas na rede pública aumentou por decreto federal
sem que tivessem ocorrido reformas na infra-estrutura física e de pessoal. Houve um crescimento
vertiginoso das vagas e da oferta de cursos nas universidades particulares, muitas funcionando no
horário noturno, para que a classe operária pudesse trabalhar durante o dia e estudar a noite. Tem
continuidade o processo da tecnificação do ensino, agora no ensino superior.

Abordando esta questão da tecnificação do ensino, Aronowitz (Apud Giroux, 1986) assegura que
a tendência do capitalismo moderno é “industrializar a mente”, da mesma forma que o
capitalismo industrializou a produção de bens durante sua ascensão. O pensamento humano com
isso se torna mecanizado e a mente corresponde à máquina – um instrumento tecnizado,
segmentado e degradado, que perdeu sua capacidade para o pensamento crítico; especialmente
sua capacidade de imaginar outro modo de vida. Neste mesmo contexto de expansão dos lucros,
ocorre a criação das especialidades e o fracionamento de tarefas que segundo Rezende (1989),
citando Maglin, “leva ao idiotismo profissional”. De acordo com o autor, um homem que passa
toda sua vida a executar algumas operações tão simples que não tem oportunidade de usar a
inteligência, “torna-se em geral tão estúpido e tão ignorante quanto possa tornar-se uma criatura
humana. (...) destrói-lhe até a energia do corpo e torna-o incapaz de usar a sua força, a não ser na
ocupação fragmentada à qual foi destinado.” O que está de acordo com Schraiber (1989)
quando cita Marx in ‘O Capital’:

“a especialização de manejar uma ferramenta parcial, uma vida


inteira, se transforma na especialização de servir sempre a uma
máquina parcial. (...) A habilidade especializada e restrita do
trabalhador individual, despojado, que lida com a máquina,
desaparece como uma quantidade infinitesimal diante da ciência,
das imensas forças naturais e da massa de trabalho social,
incorporadas ao sistema de máquinas e formando com ele o poder
do patrão”. (p. 38)

Esta relação demonstra a alienação provocada pela tecnificação do ensino e pela especialização
irracional das áreas do saber. A situação é de tal forma complexa e desfavorável à sociedade que
25

Botazzo (2000) denuncia que o ensino de graduação ministrado não está formando o produto que
a população necessita, uma vez que estes profissionais recebem uma formação essencialmente
tecnicista, se caracterizando por uma ênfase maior no curativo, em detrimento das atividades
preventivas e de promoção de saúde. É ainda Botazzo (2000) que discutindo a fragmentação do
conhecimento na odontologia, constata que “o especialismo, e o seu elevado custo, tornou o
acesso `a odontologia restrita aos que podem comprar seu conhecimento científico e tecnológico,
utilizando sua prática como instrumento de discriminação social.”

Fruto desta história de subserviência da educação ao modelo produtivo capitalista, não seria
inferência afirmar, baseado na experiência social, que o ensino superior no país tem um caráter
fortemente conservador, alienado da política e desengajado das lutas sociais. As críticas que se
fazem ao modelo de educação vigente, principalmente desde o fim da ditadura militar, refletem
uma preocupação em se redimensionar o padrão clássico das intervenções educativas, com sua
tendência a modelos autoritários e tecnicistas.

A este modelo de educação que vem sendo desenvolvido no país, além das numerosas críticas,
surgem também propostas alternativas. Neste sentido, a pretensão seria buscar um afastamento
do tecnicismo dominante no ensino universitário em direção a um reconhecimento e valorização
do saber do aluno; ao atendimento de suas expectativas e as da sociedade; ao estímulo à crítica e
à reflexão; além da valorização do conhecimento do universo cultural dos educandos. Neste
modelo, a educação deixaria de ser um processo de persuasão ou de transferência unilateral de
informação e passaria a ser um processo de diálogo, com a capacitação de indivíduos e grupos
para a transformação da realidade. Além das técnicas, é necessário estimular uma prática social
que contribua para a formação e desenvolvimento da consciência crítica a respeito dos problemas
que acometem hoje a sociedade brasileira, estimulando a busca de soluções e a organização para
ação coletiva e reivindicações sociais. A universidade assim não seria apenas um espaço para
formação técnico-científica, mas também, como afirma Tavares (1997), “para se pensar a vida”.

Uma ambição seria o projeto socialista descrito por Marcuse, apud Loureiro (1999), em que a
ciência e a técnica estão voltadas para a ‘pacificação da existência’. Nesta proposta, as
necessidades, os desejos e as aspirações deixam de ser regidos pelos interesses privados que
visam o domínio e a perpetuação das formas destruidoras de relação do homem com a natureza.
Para o autor, ainda, uma sociedade livre requer a ruptura do vínculo estabelecido entre técnica e
26

dominação de tal modo que “se houvesse uma mudança na direção do progresso que rompesse o
vínculo entre a racionalidade da técnica e da exploração, haveria igualmente uma mudança na
estrutura mesma da ciência – no projeto cientifico.” Desta forma, poderia o projeto científico ser
um projeto de emancipação social, que para Marcuse significa “a libertação da natureza interna e
externa do homem e por conseguinte uma relação não exploradora, mas fraterna e solidária com
a natureza e com outros homens. Isto não significa retornar à uma pobreza sadia, à pureza moral,
à simplicidade”. Ao contrário, para o autor, se acabasse o desperdício de que alguns se
aproveitam, aumentaria a riqueza social que pode ser distribuída. Desta forma:

“A teoria Marxista será refutada quando o conflito entre a nossa


riqueza social crescente e seu uso destrutivo for resolvido no
interior do capitalismo; quando o envenenamento do meio
ambiente for eliminado, quando o capital puder se expandir de
maneira pacífica; quando o abismo entre ricos e pobres for
continuamente reduzido, quando progresso técnico for criado para
servir ao crescimento da liberdade humana – e tudo isso, no interior
do capitalismo.” (Loureiro, 1999: p. 62)

O modelo como o Brasil historicamente se insere no capitalismo é contraditório. Atualmente, ao


mesmo tempo em que há uma adequação do país às regras do Fundo Monetário Internacional,
existe uma necessidade cada vez maior de programas sociais eficazes que consigam diminuir as
diferenças sociais e atendam minimamente as necessidades da população. Analisando a função
da universidade na discussão sobre o modelo de inserção do país no capitalismo, Tavares (1997)
constata que:

“Todas as formas de acumulação de capital inventadas neste país são


desequalizadoras. Não é só o estatuto colonial, a origem escravista
que produz essa cultura miserável dos senhorios. O problema é do
modelo de acumulação, é a modalidade de inserção do país no
capitalismo, que sempre foi dinâmica, mas excludente. (...) a
universidade vai muito mal. É uma absoluta ausência de debates. Os
movimentos sociais ficam com toda a responsabilidade, como se nós,
os intelectuais, não tivéssemos nada a ver com isso.” (p. 17)

Como destaca Tavares, papel fundamental no processo educativo têm os intelectuais e, Giroux
(1986), já considerando professores como intelectuais, atribui-lhes suma relevância no processo
de manutenção/transformação da realidade presente. Os professores são modelos, e da mesma
forma, o seu discurso, que influencia na formação da identidade pessoal e particularmente, de
27

forma mais acentuada, na identidade profissional de seus alunos, por meio de mecanismos de
identificação positiva ou negativa, transferindo valores e visões de mundo, repletos de
ideologias.

A educação formal, no papel da escola e dos professores, transmite os modelos de


comportamento que prevalecem numa sociedade. A reprodução das relações humanas
interpessoais por meio de sistemas ideológicos é muitas vezes incorporado ao discurso dos
professores de forma imperceptível, num mecanismo de reprodução ideológica e de dominação,
restringindo o seu potencial transformador. O conceito de habitus, proposto por Bourdier (1994),
representa muito explicitamente o mecanismo de funcionamento da reprodução acrítica da visão
de mundo hegemônica predominante na maioria das instituições de ensino do país:

“são sistemas de disposições duráveis, estruturadas, predispostas a


funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador e
estruturador das práticas e das representações que podem ser
objetivamente “reguladas” e “regulares” sem ser o produto da obediência a
regras, objetivamente adaptadas a seu fim sem supor a intenção consciente
dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-los e
coletivamente orquestradas, sem ser o produto da ação organizadora de um
regente.” (Id., p 15)

A universidade, o sistema político e a economia, como pudemos observar, se adequam às novas


relações com o capital. A educação superior no país é portanto reflexo destas contradições.
Severino (1986) chama atenção para o fato de que o resultado da educação brasileira não foi
apenas a manutenção, sustentação e reprodução das condições econômico-sociais adversas da
sociedade classista brasileira e da ideologia dos segmentos dominantes. No interior de seu
próprio processo, dirigido no sentido da elaboração de um discurso ideológico com vistas à
reprodução das condições sociais, provoca resultados não diretamente esperados, e pode
desenvolver também um discurso contra-ideológico. Reconhecendo que o próprio processo
educativo é ideológico, Freire (1997), exprime seus desejos pessoais e cautelas tomadas para não
reproduzir a ordem hegemônica: “ Para me resguardar das artimanhas da ideologia, não posso,
nem devo, me fechar aos outros. Nem tampouco me enclausurar no ciclo de minha verdade”. E
afirma ainda qual seria o melhor caminho para a tomada de consciência crítica: “o melhor
caminho é recusar posições dogmáticas, em que me admita como proprietário da verdade.”
28

A dominação não elimina a ação humana nem a resistência, uma vez que o sujeito constituinte
simplesmente não pode ser reduzido aos ditames do modo de produção da vida material, à lógica
da dominação ou às agências de reprodução social. Segundo Giroux (1996) o processo
educativo é dialético e contraditório, e exatamente por este motivo abre espaço para discursos
distintos, antagônicos, ideológico-mantenedores do status quo, ou um esforço contra a inércia,
com um discurso contra a ideologia predominante.

A partir de agora entraremos mais especificamente no campo da saúde, analisando como estes
fenômenos de reprodução ideológica ou de resistência convivem no interior dos cursos de
graduação, influenciando diretamente na formação dos profissionais de saúde.

3.2 A Formação Universitária dos Profissionais de Saúde:

Uma questão geradora, ou senão potencializadora, de distorções na formação de profissionais da


saúde é o fato de eles serem formados para cuidar das doenças e não do doente. A maioria dos
currículos é impregnada pelo estudo das patologias em detrimento das complexidades humanas e
sociais. Na maioria dos cursos não há um questionamento mais aprofundado dos problemas que
são efetivamente causadores dessas patologias. Como o profissional não é despertado para
questionar a realidade social, já que na própria faculdade não há um questionamento e não é
discutida a responsabilidade da sua profissão para as condições de saúde da população, a sua
reação, quando se forma, é sentir pena e assumir uma postura paternalista e assistencialista em
relação aos pobres. O aluno que nunca foi estimulado a criticar, somente foi estimulado a
competir, a acumular dinheiro e a consumir, não crê que as condições de saúde estão diretamente
associadas à situação social, às lutas de poder, à concentração de renda e às discrepâncias sociais
que existem no país.

O aluno que ingressa no curso de odontologia tem uma condição sócio-econômica e cultural
diferenciada se compararmos com o quadro geral da população. São provenientes em grande
parte de uma elite econômica, o que pode ser comprovado pelos dados do Exame Nacional de
Cursos. Segundo o INEP (2000), a área de odontologia foi a que respondeu pelo maior índice de
graduandos, 33.9%, com renda familiar entre R$ 3 e 7 mil; cerca de 79.5% dos graduandos
declararam não exercer atividade remunerada na maior parte do tempo do curso e 71,4% cursou
o ensino médio exclusivamente em escolas particulares. Um outro dado, que no Brasil torna-se
29

relevante, por ser retrato do contraste social e indicar a discriminação racial no país, é a
porcentagem de pessoas pardas e negras que se formam nos cursos de odontologia. Dados do
Ministério da Educação 7 revelam que a carreira de odontologia é a que apresenta o maior
contraste racial: dos alunos que hoje estão concluindo o curso, em faculdades públicas ou
privadas, 85.8% são brancos, 8.4 % pardos e somente 0.7% são negros. O curso de odontologia
expressou uma desigualdade maior até mesmo que carreiras como a medicina (curso em que
81.6% dos formandos são brancos) e a engenharia (onde 79.8% dos alunos que concluem o curso
são brancos).**

3.3 O Ensino Superior em Odontologia

As deficiências no ensino universitário na área de odontologia não são objeto de reflexão


recente, Brito (1968) observando o desenvolvimento dos planos de curso das disciplinas que
constituem os currículos das faculdades de odontologia no Brasil, verificou que, em sua grande
maioria, as aulas expositivas não tinham participação dos alunos, que simplesmente ouviam e
anotavam o que os professores falavam. O restante do tempo era utilizado para demonstrações e
treinamento “daquilo que viram os professores fazerem”. Já naquela época questionava-se o
caráter demonstrativo da formação de cirurgiões-dentistas. Persistindo nesta reflexão, Adelson
(1972) relata sua experiência como aluno de odontologia assegurando que na faculdade de
odontologia a filosofia prevalente é centrada no conceito de infalibilidade. O professor e o
currículo estão impregnados da atmosfera de certeza absoluta.

Ainda sobre as críticas à formação de dentistas, vejamos que em 1978, Menezes (apud Costa
1999) apontava graves deficiências do sistema de educação odontológica, entre elas, os
currículos, inadequados à realidade epidemiológica, social e econômica da população. As críticas
se somam durante os anos e Mendes, em 1981, apontava as seguintes características do ensino
nas faculdades de odontologia: a docência, o serviço e a pesquisa são tratados isoladamente; os
conteúdos do ensino são definidos a partir do conhecimento existente e com critérios do senso
comum; o plano de curso é estruturado em microdisciplinas orientadas por especialidades
odontológicas; o currículo é dirigido para a doença ou lesão, e enfatiza o tratamento curativo e
reabilitador em detrimento do preventivo; o ensino é centrado no uso e difusão de tecnologia

7
Jornal O Globo - domingo, 26 de agosto de 2001, 3ª edição, seção O País, pg 3.
30

sofisticada; com uma relação professor/aluno autoritária ou paternalista. E é Marco, em 1984


(Apud Pinheiro 1995), que conclui: “não há, com raras exceções, uma única hora dedicada à
reflexão sobre a profissão na sociedade”.

A grande maioria das escolas que formam os cirurgiões-dentistas tem demonstrado


descompromisso social diante dos problemas de saúde bucal da população brasileira, tendo como
característica marcante uma postura de neutralidade de seu discurso. Ao se afirmarem neutros,
os tecnocratas negam-se a uma opção política, enquanto estão dissimulando o sentido político do
seu poder e transmitindo uma imagem falsa. A ilusão de que se pode ser neutro, de abster-se de
idéias próprias e a não tomar partido, não deslegitima valores ou o próprio comportamento
político. Na verdade, a não exteriorização de críticas é em si uma opção política de
descompromisso social e carregado de ideologias – conservadoras e mantenedoras da ordem
predominante. A tendência que rege por décadas o ensino superior em odontologia parece,
muitas vezes, ser a preocupação em manter o “status quo” do sistema de vida excludente que
predomina no país.

Atualmente, as condições do ensino continuam da mesma forma. No ano de 2002, o projeto


pedagógico da maioria das faculdades de odontologia ainda privilegia a formação de técnicos
elitistas, o que pode ser ilustrado pela reportagem ‘Odontologia exige habilidade manual e muito
estudo’ da Folha de São Paulo:

“R. R., aluno de pós-graduação da Faculdade de Odontologia da


Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), diz que as atividades
práticas para quem está na faculdade chegam a ser mais importantes do
que a teoria. ‘Não existe teoria sem prática em nossa profissão’, disse.
Uma das atividades de aprendizagem mais comuns entre os alunos é a
reconstituição de partes da boca e dos dentes, confeccionando próteses em
manequins. Quem está pensando em seguir a carreira de odontologia deve
ter muita habilidade psicomotora como pré-requisito. ‘O bom trabalho do
dentista depende da precisão do movimento das mãos o tempo todo, tanto
no equipamento utilizado quanto nas manobras que executa dentro da boca
do paciente’, disse E. D., professor da Faculdade de Odontologia de
Piracicaba, ligada à UNICAMP”8.

8
Odontologia exige habilidade manual e muito estudo - Fernando Tadeu Santos (Folha de S.Paulo). disponível via
www.uol.com.br em janeiro de 2001.
31

Na grade curricular, as matérias do ciclo básico são totalmente desconectadas da prática; no ciclo
profissional, as aulas práticas demonstrativas e de treinamento chegam a representar cerca de
70% do curso. Além disso, esta prática é voltada para materiais e métodos de alto grau de
sofisticação. Deste modo, os pacientes – quando existem – não são percebidos em sua
individualidade e muito menos em sua subjetividade. Trata-se geralmente de pessoas pobres, que
recorrem à faculdade em busca de oferta de serviços de baixo custo – em casos de extração
dentária, até mesmo gratuito – e que na verdade representam um manequim de alta sofisticação,
capaz de sentir dor, de ter medo, de sangrar, ou seja, capaz de ter reações semelhantes às reações
dos pacientes dos consultórios. Botazzo (2000) afirma que “a destacabilidade do dente, não
sendo coextensiva aos outros órgãos bucais, coloca a odontologia na posição de ter de lidar com
os conteúdos sistêmicos que se acham além das fronteiras do seu domínio, os confins do
território bucal, o corpo do homem exatamente”.9

Este modelo de formação acaba por reproduzir a concepção ideológica de igualdade social dos
corpos criticada por Schraiber (1989) quando afirma que:

“Reproduzindo o conjunto de conhecimentos e técnicas, a


educação médica caracteriza-se pela capacitação do profissional em
conhecimentos relativos ao corpo normal e patológico e, em
técnicas de intervenção no corpo, diagnósticas e terapêuticas. Para
tanto, terá que conduzir o seu conteúdo na direção de várias
ciências naturais, além de necessariamente acoplar, como parte de
sua orientação de conteúdo, o ensino de técnicas de intervenção no
corpo, enquanto constituindo o currículo normal. Ao mesmo tempo,
reproduzindo os valores dominantes, irá fundar a capacitação
profissional essencialmente, e restritivamente cada vez mais,
naquelas ciências e habilidades técnicas, em progressiva
desqualificação da formação em conhecimentos humanísticos ou
filosóficos.” (p. 98)

O saber acadêmico odontológico, caracterizado por um enfoque reducionista e fragmentado do


objeto boca, separando-o do restante do corpo, apenas reforçou a reprodução desses valores
dominantes, compreendendo por cavidade bucal apenas os seus aspectos biológicos, deixando de
lado aspectos sócio-culturais e antropológicos que, poderiam contribuir para uma melhor
percepção do indivíduo sobre seu próprio corpo e sobre o uso que o sistema produtivo faz dele.
Deste modo, manter e recuperar o corpo, para Schraiber (1989), adquire agora um significado

9
Grifos no original.
32

peculiar, na medida em que são transformados em necessidades sociais homogêneas para o


conjunto da sociedade: “passam a ser formulados como direito social igual a todos os cidadãos,
que se expressa fundamentalmente na extensão do acesso individual à recuperação do corpo,
possibilitando aos corpos realizarem-se em seus particulares usos socialmente adequados”.

Questionando a responsabilidade do poder público no estabelecimento de diretrizes para a


formação de cirurgiões-dentistas no país, Narvai (1994) afirma que o poder público não deve se
eximir do estabelecimento de diretrizes para a formação e desenvolvimento dos recursos
humanos odontológicos no país, sob risco de causar prejuízos à população. Tais diretrizes, para
o autor, devem se centrar na ênfase à formação e utilização do pessoal auxiliar como elemento
estratégico de uma política de transformação da prática hegemônica de odontologia no país, com
vistas a adequa-la às necessidades do conjunto da população; ou seja, uma prática orientada à
promoção de saúde bucal. Isto pressupõe, para o autor “ajustar o número e alterar as
características científico-técnicas dos cirurgiões-dentistas graduados anualmente no Brasil”.
Narvai afirma ainda que: “quanto ao número, deve estar adequado à dinâmica populacional e
não à mercantilização do ensino. Já as características científicas e técnicas devem ter como
referencia as demandas do conjunto do nosso sistema de saúde”. Nesse sentido, assume grande
relevância a função desempenhada pela universidade. Para Narvai ainda, mais do que com a
simples quantidade de profissionais que se forma, tem a universidade que se capacitar para
vencer o desafio da qualidade dos profissionais que prepara para a sociedade. Assim: “desvendar
o que significa qualidade para a comunidade, para cada classe social, para cada brasileiro, é
tarefa da Universidade livre, pluralista e democrática”.10

3.4 Uma Discussão Sobre o Currículo

Em novembro de 2001, visando cumprir a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB)11
que trata também da reforma do ensino superior no Brasil, o Ministério da Educação e Cultura
(MEC) aprova através do Conselho Nacional de Educação o parecer que trata das Diretrizes
Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Odontologia12. Segundo Costa (1999) a

10
Todos os grifos encontrados neste parágrafo estão no original.
11
Lei nº. 9.394/1996, capítulo IV, Art. 53, Parágrafo único, inciso III.
12
Ministério da Educação/ Conselho Nacional de Educação. Processo nº: 23001.000318/2001-75, Parecer nº:
CNE/CES 1300/01 – Trata das Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Farmácia e
33

nova LDB garantiu às universidades o exercício da sua autonomia didático-científica na


elaboração de seus próprios currículos, fundamentados em diretrizes estabelecidas.

As diretrizes curriculares do MEC constituem orientações para a elaboração dos currículos que
devem ser necessariamente adotadas por todas as instituições de ensino superior. Neste
documento foi estabelecido o perfil desejável dos egressos dos cursos de Odontologia:

“Cirurgião dentista, com formação generalista, humanista, crítica e


reflexiva, para atuar em todos os níveis de atenção à saúde, com base no
rigor técnico e científico. Capacitado ao exercício de atividades referentes
à saúde bucal da população, pautado em princípios éticos, legais e na
compreensão da realidade social, cultural e econômica do seu meio,
dirigindo sua atuação para a transformação da realidade em benefício da
sociedade”. (MEC/ CNE, 2001)

Na proposta elaborada pelo MEC a formação do cirurgião dentista deverá contemplar o sistema
de saúde vigente no país, a atenção integral da saúde num sistema regionalizado e hierarquizado
de referência e contra-referência e o trabalho em equipe. De acordo com o documento os
conteúdos essenciais para o curso de graduação em odontologia devem estar relacionados com
todo o processo saúde-doença do cidadão, da família e da comunidade e integrado à realidade
epidemiológica e profissional. Caracterizando as diretrizes curriculares a serem desenvolvidas no
processo de criação das habilidades anteriormente explicitadas, o parecer indica os conteúdos a
serem contemplados pelas escolas:

“I) Ciências Biológicas e da Saúde – incluem-se os conteúdos


(teóricos e práticos) de base moleculares e celulares dos processos
normais e alterados, da estrutura e função dos tecidos, órgãos,
sistemas e aparelhos, aplicados às situações decorrentes do
processo saúde-doença no desenvolvimento da prática assistencial
de Odontologia. II) Ciências Humanas e Sociais – incluem-se os
conteúdos referentes às diversas dimensões da relação
indivíduo/sociedade, contribuindo para a compreensão dos
determinantes sociais, culturais, comportamentais, psicológicos,
ecológicos, éticos e legais, nos níveis individual e coletivo, do
processo saúde-doença. III) Ciências Odontológicas – incluem-se
os conteúdos (teóricos e práticos) de propedêutica clínica, onde
serão ministrados conhecimentos de patologia bucal, semiologia e

Odontologia - aprovado em 06/11/2001. (Disponível na INTERNET via www.mec.gov.br. Arquivo consultado em


janeiro de 2002).
34

radiologia; clínica odontológica, onde serão ministrados


conhecimentos de materiais dentários, oclusão, dentística,
endodontia, periodontia, prótese, implantodontia, cirurgia e
traumatologia buco-maxilo-faciais e odontologia pediátrica, onde
serão ministrados conhecimentos de patologia, clínica
odontopediátrica e de medidas ortodônticas preventivas”. (MEC/
CNE, 2001)

Apesar das diretrizes curriculares elaboradas pelo MEC representarem alguns avanços
percebemos que uma simples mudança curricular, isoladamente, não é capaz de modificar a
situação do ensino, já que isto só ocorreria se fosse acompanhada de profundas transformações
na prática clínica, nos serviços e nas relações sociais e de produção. Para Paim (2000) a revisão
e o desenvolvimento curricular podem ser medidas necessárias para a re-atualização das
instituições de ensino, face à reorganização das práticas de saúde, porém insuficientes para
alterar o modo de produção dos agentes. O autor afirma que: “a difusão de ideologias
modernizantes e inovações curriculares, ainda que relevantes para o componente cultural de um
dado projeto ético-político de transformação do ensino, tem sido insuficiente para promover
alterações significativas e continuadas na formação de recursos humanos em saúde”. Em Silva
(1999) iremos perceber que o currículo está estritamente relacionado às estruturas econômicas e
sociais mais amplas. Portanto, não é um corpo neutro, inocente e desinteressado de
conhecimentos. A seleção que constitui o currículo é o resultado de um processo que reflete os
interesses particulares das classes e grupos dominantes, e de acordo com Silva, as seguintes
questões devem ser realizadas: “Quais interesses guiaram a seleção desse conhecimento
particular? Quais as relações de poder envolvidas no processo de seleção que resultou nesse
currículo particular?”

Partindo do princípio que o currículo é um campo social onde se trava uma luta em torno de
valores, significados e propósitos sociais, é fácil compreender o que aponta Giroux (1986)
quando afirma que subjacente à lógica do currículo está um silêncio estruturado a respeito da
relação entre classe social e cultura. Embora as escolas sejam espaços culturais marcados por
relações complexas de dominação e resistência, o discurso oficial da escola despolitiza a noção
de cultura e descarta a resistência, ou pelo menos a significação política da resistência.

Ainda na discussão sobre o currículo, é importante ressaltar que todos os aspectos do ambiente
escolar que, sem fazer parte do currículo oficial, explícito, contribuem, de forma implícita, para
35

aprendizagens sociais relevantes constituem de acordo com Silva (1999) o currículo oculto.
Nesta perspectiva, o que se aprende no currículo oculto são fundamentalmente atitudes,
comportamentos, valores e orientações que permitem um ajuste dos indivíduos às estruturas
hegemônicas. Ensina, em geral, o conformismo, a obediência e o individualismo, por meio de
rituais, regras, regulamentos e normas implícitas.

Mas é importante ressaltar que existem mediações e ações no nível da escola e do currículo que
podem trabalhar contra os desígnios do poder e do controle. A vida social, assim como o
currículo, não são feitos apenas de dominação e controle, há espaço para a oposição e a
resistência, para a rebelião e a subversão. O currículo é em suma, um território político. É
imprescindível que fique explícito portanto a existência de dois currículos: o primeiro é o
currículo formal, aquele que é protocolado, está escrito em algum papel, é lei, seus objetivos
ficam, ao menos teoricamente, explícitos. O outro currículo é oculto, e este de acordo com
Giroux (1986), é composto por normas, valores e crenças imbricadas e transmitidas aos alunos
mediante de normas subjacentes que estruturam as rotinas e relações sociais no espaço da escola
e na vida da sala de aula.

Por isso, mesmo que a CNS (10: 1996) afirme que o Conselho Nacional de Saúde e o Ministério
da Saúde devem gestionar junto ao Ministério da Educação, aos Conselhos de profissionais da
área da saúde e às universidades e outras instituições de ensino superior, públicas e privadas,
processos de revisão curricular, com o objetivo de humanizar a relação entre a equipe de saúde e
os usuários do SUS, se a visão de mundo daqueles que estão no cotidiano da formação, no dia a
dia das salas de aula, não entrarem nesta discussão, as alterações curriculares terão um poder de
transformação quase nula, já que atuariam exclusivamente no currículo formal.

Tentando se aproximar de um desenvolvimento curricular fundamentado no campo da Saúde


Coletiva, Paim (2000) afirma que “o desenvolvimento curricular não decorreria de uma
deposição acrítica de conteúdos ou disciplinas, mas de uma prática centrada em um tripé que
contempla análises de situações concretas, produção científica e reflexão teórico-
epistemológica”. Apesar do tripé proposto pelo autor, talvez para que a área da Saúde possa
efetivamente formar profissionais críticos e comprometidos com a realidade social da população
brasileira, seja necessário uma discussão política mais elaborada e, para isso certamente é
necessário decodificar criticamente os elementos do currículo oculto da escola.
36

Voltando a discutir a questão da insuficiência das reformas curriculares isoladamente para que
ocorram mudanças no ensino e reconhecendo a importância da contextualização da prática
profissional, Scraiber (1989), numa análise do caso da medicina que pode ser tomada também
para a odontologia, afirma que será exatamente na esfera do trabalho e da organização social dos
serviços que ocorrerão as transformações. A autora afirma que há fortes barreiras políticas e
econômicas para a reorganização direta da produção e distribuição dos serviços médicos e
constata que o problema que tem acontecido de fato é que as propostas para que se transforme as
situações de prática profissional terminam sendo reformas curriculares, alianças do ensino
escolar com a realidade dos serviços da rede assistencial comum ou novas metodologias
didáticas de motivação e de reorientação do interesse do aluno. Todas ações com poder de
transformação restrito.

Pires Filho (1995) afirma também que a inadequação entre a formação de cirurgiões dentistas e
as expectativas da sociedade vão além da questão de redefinição de um perfil profissional.
Segundo o autor, a solução não está exatamente no perfil do egresso, mas na concepção que se
tem a respeito do que seja currículo e do papel que se atribui à escola. Numa certa perspectiva a
escola pode ser pensada como uma mera transmissora de saberes neutros, isto é, de valores
incontestáveis, sem referência a seus contextos de produção ou de aplicação. Saberes
cristalizados, anteriores à experiência, acima e à parte das relações sociais. Sob esta ótica, a
escola não é vista como campo de construção e re-elaboração crítica do conhecimento, mas
como um local de consumo dos mesmos, produzidos fora dela, e sobre os quais ela não tem
responsabilidades éticas ou morais.

Talvez uma grande prova da veracidade das palavras do autor seja o fato de que a qualidade na
formação dos profissionais continua questionável. A ênfase continua sendo dada no modelo de
atendimento do consultório privado e na prática de uma odontologia de mercado. O que
freqüentemente podemos observar é que uma característica comum entre os odontólogos é a
dificuldade de se enquadrar na equipe como profissional de saúde e, ainda, na sociedade como
cidadão. Esta não-relação entre os profissionais de saúde é criada ainda nos cursos de
graduação, quando as disciplinas são cursadas isoladamente e não existem atividades de extensão
que valorizem a vivência interpessoal e, muito menos, a vivência interdisciplinar. Raramente há
37

dentro da universidade um estímulo a esta troca de saberes e a integração entre as áreas. Este é
um dos problemas que denuncia a grave deficiência na formação. O ensino técnico é valorizado
em detrimento ao ensino crítico, humanizado e, o destaque nas atividades clínicas e curativas em
detrimento das atividades de promoção de saúde, faz com que se perpetue durante toda a vida
profissional uma crise de identidade que surge ainda no curso de graduação. Para compreender
melhor este processo é necessário que nos reportemos ao ingresso dos estudantes na
universidade.

3.5. A Decoreba...

Ao ingressar na faculdade, esses jovens se deparam com as disciplinas do ciclo básico, onde o
ensino privilegia a memorização. Entre as disciplinas do primeiro período, ministradas sem se
evidenciar qualquer relação com aquelas do ciclo profissional, encontramos as da área biomédica
(Anatomia, Histologia, Genética...), disciplinas da área de humanas (como Sociologia e
Psicologia) e ainda, em algumas universidades, uma disciplina de atenção primária em
odontologia, geralmente ministrada pelo departamento de odontologia social e representando o
primeiro contato com a realidade social. Para Giongo (2001), durante a formação acadêmica, a
carência de projetos de extensão que promovam o estímulo dos alunos às práticas sociais, os
quais priorizam o contato com a comunidade, é tão grande, que se forma um “abismo”, causando
no aluno um certo desinteresse do compromisso social. Isto acontece, segundo a autora, porque
os requisitos curriculares relacionados com o atendimento à comunidade, existem apenas nos
primeiros períodos e depois somente nos últimos. Além disso, essas disciplinas deveriam ter
ação multidisciplinar, tendo a atuação de todos os departamentos.

As disciplinas biomédicas, assim como as humanas, são ministradas com total ausência de
problematização. Os alunos aguardam ansiosamente para compreender a relação das disciplinas
do básico com a odontologia e na maioria das vezes não são estimulados a exercitar o seu senso
crítico, acreditam fielmente na instituição pela qual optaram. Segundo Thiollent (1979),
freqüentemente observa-se comportamentos ostentatórios por parte do professor, que elabora o
programa mais em função do brilho de sua formação e do prestígio da bibliografia do que de
qualquer critério didático: “para alunos de primeiro ano, recém-saídos do vestibular, não é raro
encontrarmos programas que propõem exclusivamente a discussão das sutilezas dos mais difíceis
trechos das obras dos clássicos”. Terminado o primeiro período, os alunos continuam as matérias
38

do ciclo básico, que apresentam as mesmas deficiências. Para Bruno (1994) é uma característica
dos cursos de odontologia que os alunos realizem monitorias nas disciplinas com as quais se
identificam e, com isso vão se delineando os perfis profissionais.

3.6 A Produção em Série de Cirurgiões-Dentistas

No ciclo profissional a atividade odontológica extra-curricular é procurada pelos estudantes em


sua busca por aprimoramento técnico. É ainda nesta ocasião que se iniciam os estágios em
hospitais ou ambulatórios, e se convive mais de perto com a realidade dos serviços de saúde. Nos
últimos períodos, se iniciam as atividades clínicas na denominada clínica integrada. Na clínica,
cada dente que se trata do paciente vale alguns pontos. Para ser aprovado é preciso somar muitos
pontos. Não há tempo dentro deste modelo de conversar com o paciente e com os professores. O
aluno é insistentemente pressionado a cumprir a produção. Nesta fase trata-se de dentes e não de
pessoas. Essa clínica reúne somente algumas especialidades, além de permanecer com o sistema
de pontuação por restauração realizada, não sendo levadas em consideração as características de
cada paciente, suas necessidades. É preciso produzir rápido, inclusive porque quanto mais
pacientes atendidos, maior será a receita da clínica. Para Botazzo (2000) “devemos verificar se
existe conflito entre as disciplinas dos tecidos duros e a dos tecidos moles, posto que ambas
essas vertentes deveriam compor o que seria, entre nós, denominado clínica odontológica”13. Se
não houvesse conflito entre estas disciplinas, por que então a clínica integrada somente ocuparia-
se em restaurar dentes?

Enquanto isso, nas aulas de orientação profissional são descritos os impostos a serem pagos
quando se montar o consultório. Aprende-se como cobrar, marketing para atrair pacientes,
ergonomia, administração de consultório. É extremamente raro haver debates sobre a situação da
profissão. O modelo do consultório privado permanece intocado. A solução muitas vezes
ensinada é adotar a odontologia simplificada, para pobres, ou ir para o interior do país, onde
existem menos consultórios. Não há estímulo no currículo formal para questionar a política
social ou econômica. O sistema de saúde, a universidade, nada é questionável. Em trabalho
realizado por Pretto (1989), os alunos entrevistados questionaram: “Por que nos consultórios
públicos se fazem exodontias e nos consultórios particulares fazem coroas e pontes, tratamentos

13
Grifos no original
39

mais caros?”, e ainda: “nossa formação é técnica, pouco voltada para a prevenção e para o social,
ensina a doença ligada ao rendimento econômico que poderemos obter dela.”

Seguindo o curso, os estágios extramuros são realizados sem contextualização do sistema de


saúde, em universos paralelamente criados pela universidade. São escolas ou clínicas para
atendimento da população. Muitas vezes a única modificação que se faz é o local da clínica, que
sai dos muros da faculdade e vai para um outro muro qualquer. Os pacientes continuam sendo
vistos como objetos de aprendizagem, com bocas desleixadas e seus dentes podres. Os estágios
também são direcionados para o atendimento restaurador, o aluno não participa quase nunca das
etapas de planejamento estratégico das atividades, sejam elas de educação em saúde ou de
prevenção às doenças. Sociedade, o que é isso? O aluno de odontologia passa a atender em mais
um “ambiente asséptico”. Ainda nos últimos períodos as disciplinas técnicas prevalecem, o
paciente continua dividido em partes, estimulando o tratamento mutilador. Os futuros
profissionais procuram estágios em empresas privadas ou instituições como o Serviço Social do
Comércio (SESC), onde trabalham como mão de obra barata, e são adestrados, onde há um
refinamento técnico, onde se “pega mão” e velocidade. É preciso atender um paciente em meia
hora, independente do caso, os materiais são simplificados, o ciclo de esterilização questionável
e o risco de agravar a doença do paciente enormemente aumentado 14 . Os alunos não são
obrigados a trabalhar nestas condições, mas induzidos, são condicionados passivamente a vê-las
e aceita-las, a não denunciar, a ignorar. A formatura então se aproxima. A pretensão de abrir
seu próprio consultório particular logo ao se formar atinge segundo o INEP (2000) cerca de 22%
dos formandos e 95% pretendem entrar imediatamente para cursos de aperfeiçoamento,
especialização ou mestrado na área de odontologia. Dentre os formandos, 42% relataram pouco
ou nenhum interesse por odontologia coletiva, enquanto que 80% dos entrevistados tinham forte
interesse por dentística restauradora.

A educação dos profissionais de saúde deveria ser orientada para os problemas da sociedade,
com ênfase especial à comunidade próxima. Esta todavia não foi a realidade constatada por
Ribeiro (2000) onde, os alunos de graduação, em sua maioria, continuam saindo da faculdade
direcionados a fazer cursos de especialização que apenas irão atuar na doença já instalada, e

14
Não é raro nestes casos aparecerem, por exemplo, surtos de herpes em vários pacientes simultaneamente. Prova da
contaminação cruzada que ocorre por freqüentes “falhas” nos ciclos de esterilização dos instrumentais.
40

portanto, de alto custo. Quanto a este aspecto, Cordón & Belaciano (1994) nos lembram que a
especialização profissional não é natural como aparenta ser, mas social, resultado decorrente da
divisão técnica e social do trabalho.

A faculdade age como uma máquina, produzindo dentistas em série. São modelos elitizados de
profissionais, incapazes de perceber as dicotomias do mundo e desinteressados pelas lutas sociais
travadas no cotidiano. De acordo com Bourdier (1982), na verdade, os indivíduos programados,
quer dizer, dotados de um programa homogêneo de percepção, de pensamento e de ação,
constituem o produto mais específico de um sistema de ensino. Este é o sistema de ensino
odontológico.

3.7 O Mecanismo de Identificação

O serviço e as associações de classe estão em consonância com a escola que forma os recursos
humanos, e estão todos envolvidos com a ideologia prevalente. O corporativismo também é
responsável pela manutenção desta postura elitista, o que é facilmente observável nos órgãos de
classe da categoria - dentre eles CRO, ABO’s e Sindicatos - que se rendem facilmente à indústria
farmacêutica e às indústrias de materiais odontológicos. Para Narvai (1999) o vertiginoso
aumento do número de dentistas em atividade no Brasil produziu, ao longo deste século, o
surgimento de uma categoria profissional de estrutura complexa e com razoável poder
corporativo. Garrafa (1993) esclarece bem as atitudes corporativas dos órgãos de classe do
odontólogo ao revelar que, na organização dos congressos e reuniões científicas da categoria, os
espaços de discussão e reflexão são ocupados quase que exclusivamente com demonstrações
sobre fetichismo de novos materiais, medicamentos, aparelhos e técnicas que possam
supostamente render mais lucros aos participantes destes eventos. Para o autor “apesar dos
discursos de preocupação e algumas medidas isoladas, estas associações recebem forte apoio de
grandes laboratórios farmacêuticos e outras poderosas empresas do setor para o patrocínio de
megacongressos especializados”. Uma ilustração da constatação de Garrafa pode ser observada
na entrevista com Luival Reis de Oliveira, presidente do 11º Congresso Internacional de
Odontologia de Goiás, pelo jornal do Sindicato dos Odontologistas de Goiás encontrada em
SOEGO (2000, p.07):
41

“Jornal: - Que novidades o 11º Ciogo traz em sua programação


científica?
Presidente do congresso: - Neste Congresso nós teremos uma
odontologia ao vivo, onde serão executados procedimentos
odontológicos num ambiente cuidadosamente preparado e transmitido
em telões para uma sala. Nós teremos sete edições de odontologia ao
vivo que cobrirão as áreas de microscopia para tratamento endodôntico,
laser, cirurgias avançadas em implantes e restaurações estéticas nas
áreas de dentística e prótese. Nós teremos também um procedimento
onde o dentista fará um treinamento clínico”.15

Ora, o fetiche assume agora a versão de um ‘reality show’ onde as mercadorias literalmente
tomam vida própria. É possível agora observar o funcionamento do novo material e até fazer um
‘test drive’. Não que técnicas e procedimentos “avançados” sejam dispensáveis, mas o custo
desta “odontologia ao vivo” é inacessível á grande maioria da população. Mesmo assim,
constitui-se em um atrativo, uma novidade, um marketing prestigioso para o evento que vai
sediar a demonstração.

Permanecendo na discussão sobre a industrialização da odontologia, constatamos que além do


atendimento, o ensino também se tornou uma indústria. O relatório final do ENATESPO (XIII –
1998), discute o papel da indústria do ensino e sua relevância para a formação e capacitação de
recursos humanos para o SUS e afirma que, neste sentido, uma ação mais ampla deve existir para
se criarem condições gerais favoráveis a construção de um modelo de formação profissional
orgânico ao SUS. Sobre este modelo, Garrafa & Moysés (1996) observam que, ao contrário do
que se deveria, as faculdades “estão se transformando perigosamente em empresas milionárias
que oferecem cursos especializados a custos estratosféricos”16. Segundo o relatório final da II
CNSB (1993) existem mais de 50 cursos de mestrado e de doutorado concentrados nas regiões
de maior desenvolvimento econômico e “cada vez é mais restrito o acesso dos brasileiros aos
avanços tecnológicos oriundos destas superespecializações oferecidas quase sempre por
universidades públicas.” E critica: “A pós-graduação para a saúde bucal dá ênfase a
especializações que confirmam o modelo mercantilista e elitista da odontologia no país e, em
nível de mestrado o doutorado, ratifica um tipo de prática já há muito demandada e cada vez
mais alienada da realidade nacional.” A mercantilização do ensino dificulta a construção de uma

15
Grifos meus.
16
É importante ressaltar que estes cursos não são oferecidos exclusivamente pelas faculdades, mas as próprias
associações de classe utilizam o dinheiro arrecadado nos cursos para se capitalizarem.
42

política de formação de recursos humanos coerente com os interesses da saúde coletiva. Isto
porque a lógica do setor privado17 difere do interesse da maioria da população.

Sabe-se que a identidade profissional é resultado da interação de diversos fatores aos quais os
alunos estão submetidos: seu grupo sócio-econômico, seus valores pessoais, suas experiências
prévias, mas também os sistemas ideológicos diversos que o ambiente universitário e
profissional proporcionam. É desta forma que os congressos e as associações de classe têm
contribuído para a formação dos novos profissionais.

Da visão de mundo, fazem parte as experiências, a cultura, a formação profissional, a origem


sócio-econômica, a religiosidade, o gênero, a sexualidade, o ambiente familiar e a determinação
política. Ou seja, sistemas de valores eleitos pelos indivíduos, adotados, e que determinam as
suas atitudes. A eleição e adoção de valores dependem do indivíduo, num processo de
identificação pessoal, mas também da sociedade em que ele vive, das condições impostas pelo
tempo e pelo contexto histórico. Segundo Guimarães (1999) o encontro e a união com os pares,
pessoas que compartilhem idéias e ideais semelhantes, caracterizarão o grupo e suas posições
frente aos fenômenos ideológicos.

As faculdades de odontologia são formadas, em sua maioria, por professores provenientes das
classes de elite, com visões de mundo bastante semelhantes às dos alunos, e que por serem bem
sucedidos no consultório particular, passam a ser símbolos de sucesso e prosperidade. A maioria
não possui capacitação didática, a não ser aquela acumulada pelo tempo. Não realizam cursos
preparatórios para que sejam supridas as necessidades de um educador. Em sua maioria não
revelam preocupações pedagógicas ou políticas. Somente agora, com a realização de concursos
públicos, é que este perfil tende a mudar. A educação nos cursos de odontologia continua com a
ilusão de uma neutralidade; quando na verdade é reprodutora da ideologia dominante. É todo um
sistema de valores, idéias e prescrições não explicitadas formalmente, que penetram educandos e
educadores. Há uma concordância entre eles de que nada têm a ver com esta situação social e de
saúde da população do país. Como as divergências são raras, o modelo é sustentado.

17
Aqui considerando também os cursos pagos como uma face privatizada da universidade pública, que neste caso
deixa de ser gratuita e, por isso mesmo, também deixa de pública.
43

No entanto, Matos (2000) acredita que em outro patamar estão os professores preocupados com
o excesso do tecnicismo que envolve a profissão e, sensibilizados pela falta de conteúdos ou
disciplinas que trabalhem o lado humanístico, buscam encaminhar os alunos não apenas para o
aprendizado de conteúdos cognitivos e psicomotores, mas também para aqueles relacionados ao
domínio emocional. Para a autora, quando desenvolvemos nosso trabalho com este último
componente, certamente estamos um pouco mais preparados para enfrentar os atuais desafios da
profissão: “teremos um senso crítico mais apurado, uma maior capacidade de abstração diante
dos dogmas criados tanto na profissão, como nos serviços”. Estaremos tendo ainda um maior
respeito pelo ser humano que busca nossa atenção e exercendo com mais dignidade a nossa
cidadania.

É necessário que haja diálogo entre professor e aluno, e entre os alunos. Isso muitas vezes não
acontece porque os professores se apresentam como modelos distantes e impõem uma barreira
muito grande para a aproximação dos alunos. É uma barreira natural, digo, é uma barreira que é
encarada como natural. Um limite encarado como natural porque o professor teria o saber
absoluto, inquestionável, e desta forma o aluno é meramente um receptáculo destas informações.
Como na ‘educação bancária’18, onde segundo Freire (1970), o professor deposita as informações
e os alunos apenas as recebem, passivamente. Muitos professores, ainda, assumem uma postura
paternalista e criam um ambiente de cumplicidade duvidoso, estabelecendo uma relação de
corporativismo, baseada no velho modelo “eu finjo que ensino e você finge que aprende”.

4. FETICHE, IDEOLOGIA & UTOPIA:

18
A educação bancária expressa uma visão que concebe o conhecimento como sendo constituído de informações e
de fatos serem simplesmente transferidos do professor para o aluno. O conhecimento se confunde com um ato de
depósito bancário, sendo interpretado como algo que existe fora e independentemente das pessoas envolvidas no ato
pedagógico. Neste caso, o educador está sempre num papel ativo, enquanto o educando está limitado a uma
recepção passiva. Por isso a analogia com um depósito bancário.
44

“Utopias tem sido considerado planos de sociedades funcionando mecanicamente,


estruturas mortas elaboradas por economistas, políticos e moralistas, mas
elas também têm sido o sonho vivo dos poetas”.
(Marie Louise Berneri emn: Journey Through Utopia,1950)

“quem foi que no meio das grandes agitações da sociedade,


entre a alegria e a tristeza, o prazer e a dor, o sorriso e a lágrima,
em face das grandes lutas da humanidade,
tendo em vista os incompreensíveis arcamos do coração
e as produções admiráveis do pensamento
alguma vez não sentiu-se poeta?”
(Farias Brito em: A finalidade do mundo, 1905)

Neste capítulo pretendemos caracterizar três conceitos essenciais que são utilizados no estudo, a
saber: fetiche, ideologia e utopia. Ao abordar o termo fetiche, tomaremos como fundamento o
conceito elaborado por Marx sobre o fetichismo da mercadoria, e partiremos então desta
perspectiva para caracterizar a expressão ‘fetichismo odontológico’, que, num momento inicial,
provavelmente tenha causado no leitor um certo estranhamento. Após uma contida análise da
expressão, e já, talvez, mais acostumados a ela, partiremos para uma reflexão sobre ideologia,
um conceito carregado de historicidade e, por isso, polêmico. Não temos a intenção de tratar aqui
da gênese do termo 19 , tentamos apenas desenvolver uma breve análise do uso do vocábulo
segundo diferentes concepções, partindo já da visão dialética marxista, quando Marx & Engels
(1965) re-significaram o que seria ideologia. Terminaremos então o capítulo analisando o
conceito de utopia, que iremos considerar no sentido sociológico, como a expressão de grupos
contra-hegemônicos. Será então quando focalizaremos a “utopia da saúde bucal coletiva” como
um movimento que constrói propostas alternativas no sentido de transformar a realidade.

Para iniciar essa discussão, tomaremos a proposição de Debord (1997), quando caracteriza a
sociedade moderna como a sociedade do espetáculo e, portanto, “o reino do fetichismo e do
consumo, um mundo fragmentado, separado”. O autor elabora uma interessante discussão sobre
o fenômeno da ideologia na sociedade contemporânea e a denomina ‘sociedade do espetáculo’.

19
Para os que estiverem interessados em conhecer o processo de construção histórica do termo, sugiro consultar:

a) CHAUÍ, Marilena – O que é ideologia? (coleção primeiros passos: 13) – São Paulo: Brasiliense, 38º ed, 1994.
b) MANNHEIM, Karl – Ideologia e Utopia – Zahar ed., 4 ª edição, Rio de Janeiro, 1982.
c) CCCSUB [Centre for Contemporary Cultural Studies da Universidade de Birmingham] (Org.) – Da Ideologia -
Zahar ed., 2 ª edição, Rio de Janeiro, 1983.
45

Esta sociedade, segundo Debord, sustenta-se como uma grande acumulação de espetáculos, de
representações. Gradualmente, o indivíduo, como ser pensante e ator de sua realidade, passa a ser
diluído por um mundo de representações e “pela generalização do fetichismo da mercadoria20
que invade a vida cotidiana”. Neste sentido, a crítica da vida cotidiana se tornaria o fundamento
da crítica à sociedade moderna.

A relevância desta discussão amplia-se, ou se torna mais séria, quando contextualizada no


quadro socialmente caótico em que vivemos no Brasil, ou seja, na nossa vida cotidiana. Dados
divulgados pelo IBGE (2000) sobre os indicadores sociais mínimos no país revelam uma
carência social crônica. A taxa de analfabetismo é de 13,3% para indivíduos com mais de 15
anos de idade. A média do tempo de estudo da população varia em torno de 5,7 anos. A renda de
31,1% das famílias é inferior a dois salários mínimos, 23,8% da população não possui água
canalizada, enquanto que somente 52,8% da população brasileira tem esgoto e fossa séptica e
apenas cerca de 80% tem coleta domiciliar de lixo. Mesmo com estas demandas o país insiste
em adotar um modelo de produção científica e tecnológica incompatível com a nossa realidade.
A ciência na área de saúde é quase sempre voltada para a testagem de hipóteses, testagem de
novos produtos, de novas técnicas, cedendo muito facilmente, tanto no meio acadêmico como na
prática cotidiana, à pressão das grandes indústrias de fármacos e equipamentos médicos. Esta
postura, historicamente, não vem auxiliando na solução dos problemas de saúde. Ao contrário,
este modelo tem agravado as diferenças sociais e estimulado o crescimento do setor privado em
detrimento do setor público de saúde. Tem, portanto, favorecido a venda e o consumo de um
bem que vem sendo considerado uma mercadoria: a saúde.

A tecnificação da ciência, como resultado da forma que o modo de produção capitalista toma nos
dias atuais, não transforma somente a saúde em mercadoria, mas também o próprio corpo dos
indivíduos. Berlinguer, apud Iyda (1998), falando sobre o uso do corpo como mercadoria,
considera que, na medida em que o corpo é cada vez mais freqüentemente concebido enquanto
ser biológico, as técnicas tendem a ser aplicadas sobre ele com a exclusão do sujeito. Segundo o
autor, isto está inscrito em relações sociais que podem ser aquelas do dinheiro ou do poder:

“A ameaça adicional à integridade da pessoa decorre da


fragmentação do corpo. A introdução de órgãos humanos num

20
Grifos meus
46

sistema comercial, dada a separação dos componentes de um corpo,


pode fazer desaparecer a percepção da pessoa: o corpo se torna um
conjunto biológico para o qual, e do qual podemos transferir
elementos de acordo com uma lógica unicamente técnica”. (idem,
p. 12)

Sobre o processo de mercantilização no campo da saúde, Narvai, Botazzo, et al (1990) afirmam


que “o modo de produção capitalista, hegemônico, transforma serviços odontológicos em
mercadorias 21 passíveis de serem adquiridas no mercado, pelos indivíduos que dispõem de
recursos financeiros para fazê-lo”. Garrafa (1993) afirma que partes do corpo humano
transformam-se em mercadorias, que são negociadas em um processo vulgar de compra e venda.
A subsunção da mercadoria parece evidente em todos esses autores, de maneira que então nos
permitiria aqui discorrer sobre ela.

Discutindo o conceito de mercadoria, Marx (1983) afirma que a mercadoria é qualquer coisa de
necessário, útil ou agradável à vida, objeto de necessidades humanas, um meio de subsistência
no sentido mais amplo do termo. E ainda demonstra que qualquer mercadoria se apresenta sob o
duplo aspecto de valor de uso e de valor de troca. O tempo de trabalho materializado nos valores
de uso das mercadorias é ao mesmo tempo a substância que faz delas valores de troca, logo
mercadorias, e também é o padrão para medir a grandeza precisa do seu valor. Neste sentido,
Marx (1983) afirma que a relação entre as mercadorias enquanto valores de troca é antes uma
relação entre as pessoas e a atividade produtiva recíproca. E, afirma ainda que “todas as ilusões
do sistema monetário resultam de não se ver que o dinheiro, sob a forma de um objeto natural de
propriedades determinadas, representa uma relação social de produção”. Assim, para Marx:

“Os valores de troca das mercadorias tornam-se pois valores de uso


ao permutarem-se de forma universal, ao passarem das mãos em
que são meios de troca para as mãos em que são objetos de uso. Só
em função desta alienação universal das mercadorias, o trabalho
que elas encerram se torna trabalho útil”. (Marx, 1983: p.45)
A forma de conhecimento decorrente do modelo capitalista de ciência, de acordo com Iyda
(1998), “exclui da odontologia (produção, organização e formas de trabalho) o que há nela de
essencial: sua humanidade (o trabalho e as relações sociais) e sua historicidade”. Não se trata de
uma simples questão técnica, mas econômica e política, produzindo inclusive formas ideológicas

21
Grifos meus
47

que legitimam a prática hegemônica, transformada em mercadoria. Pois, ainda para Iyda (1998),
não é a boca ou, mais estritamente, a arcada dentária que constitui o objeto da odontologia senão
o homem, seu produto e produtor:

“ a boca, ingestora de alimentos, emissora de sons, da transmissão


verbal dos símbolos, guarda hoje os séculos dessa práxis social.
Neste sentido, as estruturas dentárias não são fenômenos naturais
mas resultam de um processo da produção e reprodução dos
homens de suas condições materiais e de sua inserção nesta
produção e são, portanto, socialmente investidos, apresentando-se
diferentemente entre as classes e categorias sociais”. (Iyda, 1998:
p.131)

Articulada à questão proposta por Marx sobre o valor de uso das mercadorias, Iyda (1998) afirma
que o valor de uso dos serviços odontológicos está condicionado por aquelas contradições sociais
descritas anteriormente, e também pela capacidade dos serviços de responder adequadamente à
questão do atendimento, produzindo e inculcando um conjunto de idéias, valores e
comportamentos favoráveis a uma estrutura de necessidades, legalmente reconhecidos como o
consumo mínimo de saúde para todos os “indivíduos-cidadãos”. Revendo Marx (1971), agora in
“O Capital”, constatamos que “a mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma
coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades22 humanas, seja qual for a natureza, a
origem delas, provenham do estômago ou da fantasia”.23

A constituição da saúde bucal enquanto necessidade é portanto uma produção social e, segundo
Martins (1999), está relacionada com as condições sociais de vida das pessoas, as tradições
históricas, o hábito social e as suas representações sobre o corpo e sobre o fenômeno
saúde/doença. Ainda para a autora, a saúde bucal enquanto necessidade se articula diretamente
com a ampliação da cidadania política e social, principalmente quando afirma que “a demanda
por saúde bucal parece concorrer com questões que estão relacionadas diretamente com a
sobrevivência das pessoas. Parece que saúde bucal se torna necessidade quando um nível mínimo
de sobrevivência e cidadania já foi alcançado”. As necessidades de saúde são historicamente
produzidas, dependendo das relações sociais e dos conflitos gerados pelo poder.

22
Grifos meus
23
Nota reproduzida do original: “Desejo envolve necessidade; é o apetite do espírito e tão natural como a fome para
o corpo. A maioria (das coisas) tem valor porque satisfaz as necessidades do espírito”. Marx usa esta expressão
como carência (carenciamento), isto é, a percepção (sensação) do que falta, daquilo que faz falta, que é essencial
ou de que se “necessita”.
48

Voltando a Marx (1971) constatamos que a mercadoria, ou “coisa” que satisfaz as necessidades
humanas, é misteriosa simplesmente por encobrir as características materiais e propriedades
sociais inerentes aos produtos do trabalho; por ocultar, portanto, a relação social entre trabalhos
individuais dos produtores e o trabalho total, ao refleti-la como relação social existente, à
margem deles, entre os produtos do seu próprio trabalho. Sendo assim, “a forma da mercadoria e
a relação de valor entre os produtos do trabalho nada têm a ver com a natureza física desses
produtos nem com as relações materiais dela decorrentes”, mas sim com o tempo de trabalho
humano dispensado na produção da mercadoria. Ainda segundo Marx (1971) é desta forma que
“uma relação social definida, estabelecida entre os homens, assume a forma fantasmagórica de
uma relação entre coisas”. Kosik (1976, p.174) analisando exatamente o intercâmbio de pessoas
e coisas, afirma que:

“Na economia capitalista, verifica-se a personificação das coisas e


a coisificação das pessoas. Às coisas se atribuem vontade e
consciência, e por conseguinte o seu movimento se realiza
consciente e voluntariamente; e os homens se transformam em
portadores ou executores do movimento das coisas. A vontade e a
consciência dos homens são determinadas pelo movimento das
coisas.”24

Para compreender bem esta relação invertida recorreremos novamente a Marx (1971) quando
propõe a análise de uma situação equivalente e recorre “à região nebulosa da crença”. Para Marx:
“aí, os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria25, figuras autônomas que
mantêm relações entre si e com os seres humanos”. Concluindo este diagnóstico, Marx afirma
que é exatamente “o que ocorre com os produtos da mão humana no mundo das mercadorias”.
E a isto chama “fetichismo26, que está sempre grudado aos produtos do trabalho, quando são
gerados como mercadorias”. Para Marx (1971) ainda: “esse fetichismo do mundo das
mercadorias decorre do caráter social próprio do trabalho que produz mercadorias. Objetos úteis
se tornam mercadorias, por serem simplesmente produtos de trabalhos privados, independentes
uns dos outros”. De acordo com Iyda (1998), se a divisão social do trabalho, de um lado,
possibilitou à odontologia aspectos positivos, por outro lado, o desenvolvimento das forças

24
Grifos no original
25
Grifos meus
26
Grifos meus
49

produtivas e sua especialização, acarretaram também aspectos negativos, como “a alienação


fundamentada na autonomização e no fetichismo de sua prática”.

A odontologia tem tratado o reparo dos dentes como uma mercadoria. Percebendo a mercadoria
como a satisfação de necessidades humanas, a profissão transforma a restauração de dentes na
satisfação de uma necessidade humana. Assim, para Botazzo (1994), a prótese, que devia ser,
considerada a evidência do fracasso de uma determinada odontologia, é erigida como totem,
como elemento propiciador da realização pessoal e profissional que todos devem atingir. Não
significa com isso negar a necessidade da prótese bucal, mas destacar a iniqüidade de um modelo
assistencial que se beneficia do fato de ¾ da população em torno de 60 anos de idade estar
desdentada, total ou parcialmente. Ainda para o autor: “a perda dos dentes serve para demonstrar
nosso avanço tecnológico e aqui reside parte da ambigüidade: extrai-se para depois reabilitar”.

Esta pode ser considerada uma relação ambígua, ou até mesmo invertida, na medida em que a
necessidade de reparo passa a ser maior que a própria necessidade de ser saudável. É neste
sentido que afirmamos existir um fetichismo odontológico, quando consideramos, assim como
Marx, que os produtos da mão humana parecem dotados de vida própria no mundo das
mercadorias, ou seja, os produtos da odontologia - a restauração de corpos, fruto de suas
técnicas – ao se tornarem privados, acabam também por se tornarem mais importantes que o
próprio sujeito humano no qual as intervenções práticas são realizadas. Daí o fetiche, que leva a
perceber como naturais as relações sociais objetificadas.

Analisando ainda esta relação que denominamos de fetichismo odontológico, cabe ressaltar que
para Marcuse, apud Giroux (1986), as marcas mais penetrantes da repressão social são geradas
na história íntima dos indivíduos, nas “necessidades, satisfações e valores que reproduzem a
servidão da existência humana”. Essas necessidades são mediadas e reforçadas por meio de
padrões e rotinas da vida diária. É desta forma que as ‘falsas’ necessidades que perpetuam o
trabalho duro, a miséria e a agressividade tornam-se ancorados na estrutura da personalidade
como uma segunda natureza; isto é, a natureza histórica é esquecida, e ela se reduz a padrões de
hábitos. O fetichismo odontológico age assim, nesta história íntima, criando falsas necessidades.
Botazzo (1994) considera que para atuar dessa forma a odontologia considera que o paciente que
não sabe ou não quer se cuidar. Assim: “ele é que é pobre, desmotivado, que não dá valor aos
50

seus dentes, que não tem ‘cultura odontológica’. O paciente com seu diagnóstico desqualificado
é o paciente mudo cuja história não pode ser ouvida”27. Contando parte da história de muitos
pacientes, Botazzo (2000, p.58) nos demonstra a perversidade deste fetichismo:

“à restauração das superfícies sucedem-se as obturações dos


condutos radiculares; às grandes reconstruções plásticas sucedem-
se as próteses articuladas ou parciais e destas __ passos sempre
mediatizados esses passos pela presença nada discreta da exodontia
__
às próteses completas. Nem importa que se busquem implantes
ou que se atinjam novas possibilidades de reabilitação bucal; do
começo ao fim sempre se estará diante do esforço de propor um
sucedâneo artificial, uma construção fabricada, em substituição a
uma parte nossa que se foi de nós, assim, como se não pudéssemos
fazer muito, o afastamento deste brilho tão incerto quanto
bruxuleante, que a alguns lhes custa mais perdê-lo e a outros bem
menos”.28

A construção da saúde bucal enquanto valor, e não da intervenção odontológica, para Martins
(1999), está relacionada à conquista dos direitos sociais, a condições dignas de vida, trabalho,
moradia e também ao acesso aos serviços de saúde bucal de boa qualidade. Nesta mesma
perspectiva, Campos (2000) afirma que o valor de uso de um serviço ou um bem é socialmente
produzido. Sendo assim, necessidades e valores de uso são constituídos por uma luta de
influência entre saberes, interesses econômicos, interesses e necessidades da população, a prática
política e profissional, a mídia. É com toda esta multiplicidade de determinantes que se
constroem valores de uso e necessidades sociais.

Enquanto tecnologias se multiplicam no atendimento às partes do corpo, como lidar com estas
questões é uma polêmica que abre espaço para debate do tema na área da saúde. Para Arendt
(1983), o mundo de experimentação científica sempre parece capaz de tornar-se uma realidade
criada pelo homem; e isto, “embora possa aumentar o poder humano de criar e de agir, até
mesmo de criar um mundo, a um grau muito além do que qualquer época anterior ousou
imaginar em sonho ou fantasia”, torna, infelizmente, a aprisionar o homem: “e agora com muito
mais eficácia, na prisão de sua própria mente, nas limitações das configurações que ele mesmo
criou”.

27
Grifos no original
28
Grifos no original
51

Esse fetichismo se transforma em um sistema ordenado de idéias e representações de normas ou


regras, existente como algo separado e independente das condições materiais, portanto,
considerado por Marx & Engels (1965), como ideologia. A ideologia surge quando há
desvinculação da força produtiva de trabalho com o pensamento intelectual e é entendida como
uma forma de controle e repressão da classe operária, num domínio silencioso garantido pela
alienação da história como um fato social. Ainda para os autores, a noção progressista da história
forja uma estabilidade inexistente no sistema de relações sociais; omite o poder dos que
produzem a matéria, evocando entidades totalizadoras para reger o mundo, como um mecanismo
de representação da classe dominante. Assim, as idéias construídas pelo homem sobre o mundo
deixaram de ser meras interpretações para serem assumidas como verdades absolutas.

Neste sentido as idéias precedem a praxes, autolegitimam-se, são externas, predominantes, uma
força metafísica capaz de controlar e dirigir a ação dos homens, de determinar relações materiais
e estagnar classes sociais. Ideologia é exatamente o sistema que faz com que os trabalhadores
acreditem ser homens inferiores e menos providos que os intelectuais. Para Marx & Engels
(1965), em A Ideologia Alemã, as idéias nascem da atividade material. Não significa, entretanto,
que os homens representem nas idéias a realidade de suas condições materiais, mas, ao contrário,
representam o modo pelo qual a realidade lhes aparece na experiência imediata.

Por esse motivo, as idéias tendem a ser uma representação invertida do processo real, colocando
como origem aquilo que é conseqüência e vice-versa. Somos postos então diante da “idéia” do
fato, e não diante da realidade histórico-social do fato. A idéia passa a representar a própria
realidade, autônoma e generalizadora, assumindo ideologicamente o papel da classe dominadora;
ocultando a dominação real de uma classe sobre a outra e as possibilidades de luta. De acordo
com Marx & Engels (1965) as verdadeiras condições da existência dos homens enquanto
sociedade não são percebidas como fruto de suas próprias relações interpessoais e com o
universo concreto. As relações de trabalho não são, como deveriam ser, compreendidas como um
modo de produção. A realidade da classe dominada é percebida de forma estática, pré-fixada,
independente da atividade de seus membros – fatalidade do destino – natural. A ilusão de que a
história é um progresso linear e espontâneo, ao invés de lutas entre classes, faz com que a classe
dominada se veja como objeto e não como sujeito ativo no processo de mudanças. Quantos de
52

nós já não percebemos a realidade desta forma, como pré-existente à própria sociedade e estática,
imutável?

Quanto à concepção de realidade, é impossível compreender a origem e a função


da ideologia sem compreender a luta de classes, pois a ideologia é um dos
instrumentos da dominação e, também, uma das formas de luta. Segundo Chauí
(1994, p.75) a luta de classes não é apenas o confronto armado, mas:
“está presente em todos os procedimentos institucionais, políticos,
policiais, legais, ilegais de que a classe dominante lança mão para
manter sua dominação, indo desde o modo de organizar o processo
de trabalho e o modo de se apropriar dos produtos (pela exploração
da mais-valia e pela exclusão dos trabalhadores do usufruto dos
bens que produziram), até as normas do direito e o funcionamento
do Estado. Ela está presente também em todas as ações dos
trabalhadores para diminuir a dominação e a exploração, indo
desde a luta pela diminuição da jornada de trabalho, o aumento de
salário, greves, à criação de sindicatos livres e a formação de
movimentos políticos”.

Portanto, revendo Chauí (1994), podemos perceber que enquanto não houver um conhecimento
da história real, enquanto a teoria não mostrar o significado da prática imediata dos homens,
enquanto experiência comum de vida for mantida sem crítica, sem pensamento, a ideologia se
manterá.

Discutindo o fenômeno da ideologia e as disputas de poder na sociedade moderna, Nogueira


(1999) assegura que a dimensão “classe social” não tende a desaparecer, mas sua efetivação
como agente político provavelmente estará mesclada com fatores religiosos e culturais; e que a
oposição específica proletariado X burguesia será substituída por outra: exploradores e
explorados, ricos e pobres. Sempre que houver um fator cultural ou ideológico unificador, a ação
política será mais motivadora. O que se pode constatar é que a individualidade exacerbada pelo
capitalismo moderno vem ocultando as relações de trabalho dividindo os homens não mais por
suas classes, mas por seus interesses subjetivos: negros, gays, moradores de favelas, de
condomínios ou evangélicos. Assim como Chauí (1994), acreditamos que as classes sociais não
são coisas nem idéias, mas são relações sociais determinadas pelo modo como os homens, na
produção de suas condições materiais de existência, se dividem no trabalho, instauram formas
determinadas da propriedade, reproduzem e legitimam aquela divisão e aquelas formas por meio
53

das instituições sociais e políticas, representam para si mesmos o significado dessas instituições
por meio de sistemas determinados de idéias que exprimem e escondem o significado real de
suas relações. E assim, ainda para a autora, “as classes sociais são o fazer-se classe dos
indivíduos em suas atividades econômicas, políticas e culturais”.

Nesta perspectiva, toda ideologia, segundo Rodrigues (1988), é uma verdade parcial, já que é a
verdade de um grupo ou classe, mas que não é assumida como verdade parcial. Os grupos
detentores de uma visão de mundo querem que ela seja necessária, isto é, que seja desejada e
assumida como verdadeira, como universal por todos os outros grupos ou classes. Deste modo,
aquilo que inicialmente se constitui como verdade de um grupo tende, uma vez tornado
ideologia, a se converter em verdade de todos. No instante em que isso ocorre, e se assim
pudesse ocorrer, haveria a garantia da manutenção de uma ordem social , ou predomínio de uma
visão de mundo, da forma em que se encontra estruturada pelo grupo que detém o seu controle.

A distinção entre ideologia e mentira, realizada por Giroux (1986), é essencial, porque sublinha o
caráter inconsciente dos enunciados ideológicos: a passagem da concepção particular à
concepção total (sistema unificado de pensamento de um grupo que está implícito no juízo de
seus membros) de ideologia leva ao problema da falsa consciência. Já Ricoeur (1983) conceitua
tal processo como inversão: “trata-se de uma distorção, de uma formação do real operada pela
consciência dos sujeitos. (...) a ideologia é um fenômeno insuperável da existência social, na
medida em que realidade social sempre possui uma constituição simbólica e comporta uma
interpretação, em imagens e representações, do próprio vínculo social”.

O conceito de ideologia não pode ser reduzido a um simples dualismo de idéias contrapostas à
realidade material. Giroux (1986) afirma que por um lado a ideologia pode ser vista como um
conjunto de representações produzidas e inscritas na consciência humana e no comportamento,
no discurso e nas experiências vivenciadas. Por outro lado, a ideologia afeta, e se concretiza, nos
vários ‘textos’, práticas e formas materiais. E conclui: “Daí o caráter da ideologia ser mental,
mas sua efetividade é tanto psicológica como comportamental; seus efeitos não são apenas
enraizados na ação humana, mas são também inscritos na cultura material”.

Ainda de acordo com Giroux (1986), percebemos que a ideologia, enquanto localizada no
inconsciente, é um momento de autocriação bem como uma força de dominação. Desta forma o
54

alicerce inconsciente da ideologia não é apenas enraizado nas necessidades repressivas, mas
também em necessidades que são por natureza emancipatórias. Por isso é que devemos
reconhecer o grau em que as forças históricas e objetivas da sociedade deixam sua impressão
ideológica sobre o próprio psiquismo. O que emerge desse lócus de necessidades contraditórias
são tensões tanto dentro da estrutura da personalidade quanto dentro da sociedade maior.

Vemos assim a ideologia das classes ou da classe dominante chegar às classes subalternas por
vários canais, por meio dos quais a classe dominante constrói a própria influência ideal, a própria
capacidade de plasmar as consciências de toda a coletividade. De acordo com Gruppi (1978) “os
intelectuais são os ‘persuasores’ da classe dominante, são eles quem elaboram as ideologias, são
os ‘funcionários da hegemonia da classe dominante”. Os intelectuais não são um grupo social
autônomo, mas cada grupo social, afirmando uma função específica na produção econômica,
forma intelectuais que se tornam os técnicos da produção. Esses intelectuais não se limitam a ser
apenas os técnicos da produção, mas também emprestam à classe economicamente dominante a
consciência de si mesma e de sua própria função, tanto no campo social quanto no campo
político. Dão homogeneidade à classe dominante e à sua direção. Desta forma, ainda para
Gruppi, “o capitalismo industrial cria essencialmente os técnicos, os cientistas, ligados à
produção. São esses os intelectuais orgânicos ao capitalismo”.29

Os canais de dominação fazem com que as classes sociais dominadas participem de uma
concepção do mundo que lhes é imposta pelas classes dominantes. O fenômeno de manutenção
das idéias dominantes, mesmo quando se está lutando contra as classes dominantes, é para Chauí
(1994) o aspecto fundamental daquilo que Gramsci chama de hegemonia. 30 Uma classe é
hegemônica não só porque detém a propriedade dos meios de produção e o poder do Estado,
mas ela é hegemônica sobretudo porque suas idéias e valores são dominantes, e mantidos pelos
dominados até mesmo quando lutam contra essa dominação.

29
Grifos no original
30
O termo hegemonia deriva do termo eghestai, que significa ‘conduzir’, ‘ser guia’, ‘ser líder’; ou também do verbo
eghemoneuo, que significa ‘ser guia’, ‘preceder’, ‘conduzir’, e do qual deriva ‘estar a frente’, ‘comandar’, ‘ser o
senhor’. Por eghemonia, o antigo grego entendia a direção suprema do exército. Trata-se portanto de um termo
militar. Hegemônico era o chefe militar, o guia e também o comandante do exército. Na época das guerras do
peloponeso, falou-se de cidade hegemônica para indicar a cidade que dirigia a aliança das cidades gregas em luta
entre si. (Gruppi, 1978)
55

Raymond (1997) afirma que a dominação essencial de uma determinada classe na sociedade não
se mantém somente através do poder ou da propriedade, mas também, inevitavelmente, pela
cultura do vivido. Considerada pelo autor como aquela saturação do hábito, da experiência, dos
modos de ver, sendo continuamente renovada em todas as etapas da vida, desde a infância, sob
pressões definidas e no interior de significados definidos, de tal forma que o que as pessoas vêm
a pensar e a sentir é , em larga medida, uma reprodução de uma ordem social profundamente
arraigada, a que elas podem até achar que de algum modo se opõem, e a que, muitas vezes se
opõem de fato. Ainda segundo o autor, há um trabalho muito importante a ser feito em relação
aos próprios processos de hegemonia cultural. As pessoas mudam, é verdade, através da luta e da
ação. Algo tão arraigado quanto uma estrutura dominante de valores, sentimentos e atitudes só
muda por meio de novas experiências ativas. Para Bourdieu, apud Silva (1999), a dinâmica da
reprodução social está centrada no processo de reprodução cultural. É através da reprodução
cultural que a reprodução mais ampla da sociedade fica garantida. Desta forma, como afirma o
autor: “na medida em que a cultura dominante tem valor em termos sociais, na medida em que o
indivíduo que a possui obtém vantagens materiais e simbólicas, ela se constitui como capital
cultural”.31

Para Ricoeur (1983) a definição do fenômeno ideológico é uma questão repleta de armadilhas e é
preciso escapar ao fascínio exercido pelo problema da dominação para considerarmos um
problema mais amplo, o da integração social, de que a dominação é uma dimensão, e não a
condição única e essencial. Assim, o fenômeno ideológico está ligado à necessidade, para um
grupo social, de conferir-se uma imagem de si mesmo, de representar-se, no sentido teatral do
termo, de representar e de encenar. Avançando nesta discussão, Touraine (1997) afirma que o
sujeito se coloca por oposição à lógica do sistema, e, portanto, a sociedade não pode mais ser
definida como um conjunto de instituições ou como o efeito de uma vontade soberana: “ela não é
a criação da história, nem de um príncipe; ela é um campo de conflitos, de negociações e de
mediações entre a racionalização e a subjetivação, que são as duas faces complementares e
opostas da modernidade”.

É neste sentido que procuramos compreender a globalização atual como um processo reversível,
já que é o resultado de uma ideologia restritiva estabelecida. De acordo com Santos (2000) todas

31
Grifos no original.
56

as realizações atuais, oriundas de ações hegemônicas, têm como base construções intelectuais
fabricadas antes mesmo da fabricação das coisas e das decisões de agir. A intelectualização da
vida social, segundo o autor, vem portanto acompanhada de uma forte ideologização que
descarta outras idéias possíveis, não significando contudo que elas não existam. Ainda para
santos (2000), além das múltiplas formas com que, no período histórico atual, o discurso da
globalização serve de alicerce às ações hegemônicas dos Estados, das empresas e das instituições
internacionais, o autor afirma que “o papel da ideologia na produção das coisas e o papel
ideológico dos objetos que nos rodeiam, contribuem, juntos, para agravar essa sensação de que
agora não há outro futuro senão aquele que nos virá como um presente ampliado e não como
outra coisa.”

Se ressaltarmos algumas das principais características da época presente, de acordo com Marcos
(2001), constataremos: supremacia do poder financeiro; revolução tecnológica e informática;
guerra; destruição/despovoamento e reconstrução/reordenamento; ataques aos Estados
Nacionais; a conseqüente redefinição do poder e da política; o mercado como figura hegemônica
que permeia todos os aspectos da vida humana em todas as partes; maior concentração de
riqueza em poucas mãos; maior distribuição de pobreza; aumento da exploração e do
desemprego; milhões de pessoas sem-teto; delinqüentes que integram o governo e desintegração
de territórios. Em resumo, uma “globalização fragmentada”. Portanto, num mundo onde a
barbárie tornou-se cotidiano, é preciso reconhecer a responsabilidade dos intelectuais que
resistem. Segundo Marcos (2001):

“Depende da ação deles saber se o protesto se esgotará em


denúncia sem perspectiva, ou ao contrário, levará à formação de
novos atores sociais e, indiretamente, a novas políticas econômicas
e sociais. (...) o intelectual em seu papel é um crítico da
imobilidade, um promotor da mudança, um progressista. No
entanto, este comunicador de idéias críticas está inserido em uma
sociedade polarizada, confrontada entre si mesma de muitas
maneiras e com diferentes argumentos, mas dividida
fundamentalmente entre os que usam o poder para que as coisas
não mudem e os que lutam pela mudança”. (p. 1; 3)

Discutindo também o papel do intelectual na sociedade moderna, Touraine (1997) afirma que
este papel deveria ser o de ajudar na emergência do sujeito, aumentando a vontade e a
57

capacidade dos indivíduos de serem atores de sua própria vida. O sujeito se choca com a lógica
dominante do sistema que o reduz ao papel de consumidor e de defensor de seus interesses em
um ambiente mutável; ele está igualmente ameaçado pela fuga para fora do campo social e de
sua diversidade, para a homogeneidade fictícia de uma tradição comunitária ou para uma fé
religiosa. Os intelectuais têm por tarefa principal construir a aliança entre o sujeito e a razão, 32
entre a liberdade e a justiça: “Como não falariam eles em nome da razão sendo que ela é a sua
única força frente ao dinheiro, ao poder e à intolerância?” e também: “como não defenderiam
eles o sujeito, movimento de reflexão do indivíduo sobre si mesmo, contra as ordens impostas, as
proibições transmitidas e todas as formas de conformismo?”

A separação entre o trabalho intelectual e o trabalho manual liga-se, pois, à posse e monopólio
do saber, enquanto forma de apropriação da ciência pelo capital. Para Schraiber (1989),
avaliando que o saber que se encontra valorizado é um saber que se apresenta como neutro,
enquanto técnico e científico. a separação entre o trabalho manual e o intelectual está
condicionada diretamente à relação entre o trabalho intelectual e a reprodução das relações
ideológicas próprias do capitalismo. Na mesma perspectiva, Demo (1998), afirma que ideologia
mais inteligente é a que se traveste de ciência, por isso, seu arquiteto típico é o intelectual, figura
importante na justificação do poder. Estes são os intelectuais orgânicos aos capitalismo a que
Gramsci se refere. Por outro lado, como chama a atenção Marcos, em texto já citado, há os
intelectuais que resistem e que, com sua crítica, contribuem para a elaboração da contra-
ideologia, com vistas a mudar a história dominante.

Ricoeur (1983) destaca a importância da crítica à ideologia no processo de emancipação. Mas é


importante ressaltar que a questão não é substituir uma ideologia por outra. Segundo Chauí
(1994) cometemos um engano quando imaginamos ser possível substituir uma ideologia ‘falsa’
por uma ideologia ‘verdadeira’, primeiro porque uma ideologia que dissesse tudo já não seria
ideologia, e também porque falar de ideologia dos dominados é um contra-senso, visto que a
ideologia é um instrumento de dominação. Podemos, isto sim, contrapor ideologia e crítica da
ideologia, e podemos contrapor ideologia ao saber real que muitos dominados têm acerca da
realidade da exploração, da dominação, da divisão social em classes e da repressão a que este
saber está submetido pelas forças repressivas dos dominantes.

32
grifos meus
58

Entretanto, é mesmo Chauí (1994) que alerta para o fato de que a teoria não está encarregada de
‘conscientizar’ os indivíduos, não está encarregada de criar a consciência verdadeira para opô-la
à consciência falsa e com isso mudar o mundo. Para a autora, cabe à teoria desvendar os
processos reais e históricos enquanto resultados e enquanto condições da prática humana em
situações determinadas, prática que dá origem à existência e à conservação da dominação de uns
poucos sobre todos os outros. Entretanto não é a teoria, mas a práxis humana fundamentada nesta
teorização crítica que será responsável pelo processo de emancipação a que se refere Ricoeur.
Neste sentido, torna-se relevante reconhecer que a práxis do homem não é a atividade prática
contraposta à teoria; é a determinação da existência humana como elaboração da realidade.
Assim, para Kosik (1976) a práxis compreende, além do momento laborativo, também o
momento existencial e portanto:

“se manifesta tanto na atividade objetiva do homem, que


transforma a natureza e marca com o seu sentido humano os
materiais naturais, como na formação da subjetividade humana, na
qual os momentos existenciais como angústia, a náusea, o medo, a
alegria, o riso, a esperança etc... não se apresentam como
‘experiência’ passiva, mas como parte da luta pelo reconhecimento,
isto é, do processo da realização da liberdade humana.” (p. 204)

Ainda para Kosik (1976), “conhecemos o mundo, as coisas, os processos somente na medida em
que os ‘criamos’, isto é, na medida em que os reproduzimos espiritualmente e intelectualmente”.
Essa reprodução espiritual da realidade só pode ser concebida como um dos muitos modos de
relação prático-humana com a realidade, cuja dimensão mais essencial é a criação da própria
realidade humano-social.

A crítica à ideologia, e a práxis, levam à necessidade de se construírem utopias. Entretanto,


vários são os significados de utopia. Segundo Japiassu & Marcondes (1990) utopia é um termo
criado por Tomas Morus no ano de 1516, em sua obra “Utopia”, significando literalmente ‘lugar
nenhum’, para designar uma ilha perfeita onde existiria uma sociedade imaginária na qual todos
os cidadãos seriam iguais e viveriam em harmonia. A alegoria de Tomas Morus serviu de contra-
ponto através do qual se criticou a sociedade de sua época, formulando um ideal político-social
inspirado nos princípios do humanismo renascentista. Ainda para os autores, em um sentido mais
amplo: “utopia designa todo projeto de uma sociedade ideal, perfeita. O termo adquire um
sentido pejorativo ao se considerar esse ideal como irrealizável e portanto, fantasioso. Por outro
lado, possui um sentido positivo quando se defende que esse ideal contém o germe do progresso
59

social e da transformação da sociedade”. Esse sentido de ideal de transformação é essencial para


Mannheim (1982), quando afirma que: “a utopia, aspira por outra realidade, ainda inexistente,
tem portanto uma dimensão crítica ou de negação da ordem social existente ou se orientam para
sua ruptura, apresentando função subversiva e, em alguns casos, função revolucionária”.

A concepção de utopia por nós utilizada procura levar em conta o caráter dinâmico da realidade,
na medida em que não assume como ponto de partida ‘uma realidade em si’, mas antes, uma
realidade concreta, histórica e socialmente determinada, que se acha em um constante processo
de mudança. Assim como Mannheim (1982) iremos considerar utópicas somente aquelas
orientações que, transcendendo a realidade, tendem, caso se transformem em conduta, a abalar,
seja parcial ou totalmente, a ordem de coisas que prevaleça no momento. Mannheim (1982)
afirma que “cada época permite surgir (em grupos sociais diversamente localizados) as idéias e
valores em que se acham contidas, de forma condensada, as tendências não-realizadas que
representam as necessidades de tal época. Estes elementos intelectuais se transformam, então, no
material explosivo dos limites da ordem existente, deixando-a livre para evoluir em direção à
ordem de existência seguinte”.

O objetivo deste capítulo foi constituir uma base de conhecimento que - mesmo tenhamos
conciência, seja bastante limitada - permita analisar a realidade a partir de um ponto de vista
alternativo àquele que estamos habituados, para que assim possamos compreender que o que se
faz necessário não são mudanças em métodos ou instrumentos, ou ainda, em maneiras de agir,
mas sim, a compreensão de uma história mais real e menos natural. Ou seja, que possamos
perceber uma realidade que é construída por meio de conflitos entre os sujeitos, suas idéias e
suas ações, e que estes conflitos fazem parte da realidade concreta. Vendo utopia como propõe
Mannheim, um ideal orientado para a transformação da realidade presente, é que consideramos o
conceito como parte necessária, interante e indispensável a uma proposta de mudança, uma vez
que aponta os rumos da transformação a partir do real.

De acordo com Santos (2000) às visões oferecidas pela propaganda ostensiva ou pela ideologia
contida nos objetos e nos discursos opõem-se as visões propiciadas pela existência. Para o autor:
“é por meio desse conjunto de movimentos, que se reconhece uma saturação dos símbolos pré-
60

construídos e que os limites da tolerância às ideologias são ultrapassados”. É neste sentido que
tentamos compreender a Utopia da Saúde Bucal como uma realidade a se construir, mas
também, como uma proposta que busca romper com o aspecto de naturalidade que assumem as
políticas públicas e busca assumir para si, um sentido que muitas vezes se perde, o da construção
histórica da realidade, desmistificando o fetichismo odontológico e ressaltando a
responsabilidade dos sujeitos como atores sociais que atuam nesse processo; com a capacidade, e
possibilidade, de mudar o status quo.

5. METODOLOGIA:

“A academia muitas vezes prioriza


a racionalidade que esvazia o sujeito,
a cientificidade que congela o tempo
61

e a interpretação que esfria a vida”.


(Daniel Monteiro em: Antropologia e seus espelhos)

Antes de assumirmos uma abordagem teórico-metodológica foi preciso reconhecer que as


ciências humanas são ideológicas (portanto veiculam visões de mundo historicamente
construídas) e se submetem, ou resistem, aos limites dados pelos esquemas de dominação
vigentes. A visão de mundo do pesquisador, e dos atores sociais que são sujeitos deste estudo,
estão implicadas em todo o processo de construção de conhecimento para o qual este trabalho se
propõe a contribuir. Minayo (1996) afirma que toda investigação social deve contemplar uma
característica básica de seu objeto: o aspecto qualitativo. Segundo a autora “isso implica
considerar o sujeito de estudo como gente, em determinada condição social, pertencente a
determinado grupo social ou classe com suas crenças, valores e significados.”33 Reconhecer o
caráter qualitativo das investigações sociais, segundo ainda a autora, implica considerar também
que o objeto das ciências sociais é complexo, contraditório, inacabado e em permanente
construção.

As correntes de pensamento têm a sua história, veiculam uma visão de mundo e têm a ver com a
realidade social complexa onde foram geradas e que tentam expressar. Neste estudo optamos
pela abordagem dialética, que se propõe a abarcar o sistema de relações que constrói o modo de
conhecimento exterior ao sujeito, mas também, as representações sociais que traduzem o mundo
dos significados. Segundo Minayo (1995) a dialética considera que o fenômeno, ou processo
social, tem que ser entendido nas suas determinações e transformações dadas pelos sujeitos.
Assim, compreende uma relação intrínseca de oposição e complementaridade entre o mundo
natural e social, entre o pensamento e a base material. Para a autora: “advoga também a
necessidade de se trabalhar com a complexidade, com a especificidade e com as diferenciações
que os problemas e/ou ‘objetos sociais’ apresentam.”

É essa mesma concepção da realidade que tomamos neste trabalho, considerando-a um processo
histórico, mutável, composto de condições objetivas e subjetivas e que é construída a partir da
relação do homem com a realidade social. Tentamos manter a coerência, a consistência, a

33
Grifos no original
62

originalidade e a objetivação, buscando alcançar não somente uma qualidade formal como uma
qualidade política, contextualizando historicamente o problema do estudo. Desta forma, iremos
explorar a prática social que emerge dos conflitos de interesse e das relações de disputa pelo
poder e a construção da consciência social, onde, partindo do diálogo sobre os conflitos sociais e
as dimensões ideológicas objetiva-se a internalização de uma realidade concreta em construção
que poderá despertar o interesse pela participação política.

Trata-se de um estudo qualitativo, que segundo Thiollent (1987), tem o objetivo de “captar
representações e valores simultaneamente no ‘campo dos processos sociais’ e no ‘campo dos
processos subjetivos individuais’.” Utilizamos a técnica da entrevista não-diretiva, tal como se
usa em sociologia, uma vez que a mesma permite a apreensão de valores e representações dos
entrevistados a partir da exploração pelos mesmos das questões que lhes são oferecidas. Para
Michelat (1987) o que se espera das entrevistas não-diretivas é realmente reconstituir modelos
culturais de nossa sociedade.

Utilizamos a entrevista individual e não-estruturada onde o informante aborda livremente o tema


proposto facilitando o acesso às informações em níveis mais profundos. As entrevistas foram
integralmente gravadas em fitas de áudio e posteriormente transcritas ipis litteris para a
realização da análise. De acordo com Minayo (1995) a entrevista em profundidade possibilita um
dialogo intensamente correspondido entre entrevistador e informante. Permite ao informante
retomar sua vivência de forma retrospectiva, com exaustiva interpretação. Nele podemos
encontrar o reflexo da dimensão coletiva a partir da visão individual. Neste tipo de entrevista,
privilegia-se o diálogo, a profundidade e a interpretação exaustiva das experiências vivenciadas.
Ou seja, busca-se alcançar “um reflexo da dimensão coletiva a partir do individual”.

Foram sujeitos entrevistados neste estudo o Prof. Dr. Paulo Capel Narvai (Faculdade de Saúde
Pública da USP), o Prof. Dr Jorge Cordón (Faculdade de Odontologia da Universidade Federal
de Brasília) e o cirurgião-dentista Marco Manfredini (chefe do gabinete do vereador Carlos
Neder – PT/SP).

Segundo Thiollent (1987), na pesquisa qualitativa deve-se fazer a escolha de um pequeno


número de pessoas diversificadas e representativas do assunto estudado. Não se trata portanto de
amostragem, mas sim uma seleção de sujeitos, que pela sua história de vida, representam uma
63

relevante força contra-hegemônica dentro do campo da odontologia e, portanto, pessoas


importantes para a construção do referencial teórico-político da Saúde Bucal Coletiva, foco
principal deste estudo. De acordo com Minayo (1996), é preciso compreender que o sujeito das
ciências sociais não é neutro, já que “o ‘objeto’ dentro das ciências sociais é também sujeito e
interage permanentemente com o investigador.” Desta forma, podemos concordar com
Manheim34 quando afirma que: “está claro que uma situação humana só é caracterizável quando
se tomam em consideração as concepções que os participantes têm dela, a maneira como
experimentam suas tensões nesta situação e como reagem a essas tensões assim concebidas”

Para Minayo (1995) a entrevista é uma técnica que o pesquisador utiliza para obter dados
objetivos e subjetivos e ela não significa uma conversa despretensiosa e neutra, uma vez que se
insere como meio de coleta de dados dos fatos relatados pelos atore, enquanto sujeitos-objeto da
pesquisa, que vivenciam uma determinada realidade, que está sendo focalizada. Podemos afirmar
assim, que o relato ouvido pelo entrevistador é um discurso no qual o sujeito fala da
representação que tem da sua vida, segundo suas categorias de valores e seus códigos
temporais, portanto, um campo onde a visão pessoal e subjetiva vai determinar desde a seleção
dos fatos até o significado atribuído a eles.

Minayo 35 afirma que as representações sociais se manifestam em palavras, sentimentos e


condutas e se institucionalizam. Portanto devem ser analisadas a partir da compreensão das
estruturas e dos comportamentos sociais. Segundo a autora, por serem ao mesmo tempo ilusórias,
contraditórias e “verdadeiras”, as representações podem ser consideradas matéria-prima para a
análise do social e também para a ação político-pedagógica de transformação, pois retratam e
refratam a realidade segundo determinado segmento da sociedade. Entretanto, ainda segundo a
autora: “é importante observar que as representações sociais não conformam a realidade, já que
seria uma ilusão reduzir a realidade à concepção que os homens fazem dela”. Com o objetivo de
alcançar a maior fidelidade possível na reconstrução da realidade a qual nos propusemos estudar,
foi realizada ainda uma extensa revisão de literatura sobre o tema, consultando não só
publicações científicas como documentos que fazem parte da história da odontologia e da
construção do paradigma da Saúde Bucal Coletiva. Este último, um referencial que se propõe a

34
Apud Minayo (1996).
35
Em: Guareschi & Jovchelovitch (1995).
64

ser uma força contra-hegemônica dentro do cenário político atual da saúde na sociedade
brasileira.

Muitas são as críticas que podem ser feitas à abordagem qualitativa. Para Minayo (1996) as mais
freqüentes seriam:

“a) o empirismo de que são acometidos muitos pesquisadores que


passam a considerar ciência a própria descrição dos fatos que lhes
são fornecidos pelos atores sociais; b) a ênfase na descrição dos
fenômenos em detrimento da análise dos fatos; c) o envolvimento
do pesquisador com seus valores, emoções e visão de mundo na
análise da realidade; d) dificuldade em si de trabalhar com ‘estados
mentais’.” (p. 36)

Entretanto, a autora constata que as críticas em relação à abordagem qualitativa na verdade são
constatações das falhas e das dificuldades na própria construção do conhecimento. Algumas
limitações de caráter metodológico, referente à representação dos fatos na abordagem qualitativa
podem ser superadas, segundo Bertaux (1981), com a construção progressiva de uma
representação do objeto sociológico focalizado.

Isto pode ser conseguido através do trabalho de interpretação dos dados, com uma análise
detalhada que prossegue durante toda a pesquisa. Buscamos coletar informações e desencadear
uma investigação relacionada com os fatos polêmicos da situação destacada para o estudo.
Tentamos desenvolver um tipo de discurso diferente dos discursos oficiais a cerca da
odontologia, entretanto, não estamos pressupondo uma maneira acabada do que seria o ideal,
mas simplesmente evidenciando as tensões enfrentadas nas situações reais por meio da discussão
coletiva. Será a partir destas concepções que construiremos as argumentações deste estudo,
reconhecendo que ele não representa uma verdade absoluta e acabada, mas ao contrário,
representa uma das visões possíveis sobre o processo histórico em que se constrói
cotidianamente a realidade social.
65

6. ORIGEM DO MOVIMENTO DA SAÚDE BUCAL COLETIVA

“O homem é um ser político, quer queira ou não.


Portanto não existe homem neutro, ele pode no máximo,
ser neutralizado”. (Zanetti,1998)
66

O movimento da Saúde Bucal Coletiva guarda suas referências históricas na Reforma Sanitária
Brasileira que, segundo Narvai (1997) “se vinha gestando na sociedade brasileira desde meados
dos anos 70 a partir de núcleos de oposição política ao regime militar com atuação no setor
saúde”. Os anos de ditadura marcaram profundamente o país e produziram efeitos em todas as
dimensões da história do Brasil. A repressão fez surgir na sociedade uma luta pela democracia,
com o seu auge na campanha das diretas já. A organização em torno da campanha política
fortaleceu e ajudou a impulsionar um vigoroso movimento na área da saúde, que conseguiu
articular diferentes segmentos sociais em torno de um conjunto de proposições sintetizadas na
consigna pela democratização da saúde e da sociedade, denominado Reforma Sanitária.

Segundo Werneck (1994) este é um momento em que o paradigma da medicina científica, diante
da crise econômica e social por queatravessa o país, da falência do Sistema Nacional de Saúde e
da desigualdade observada entre oferta e acesso aos serviços de saúde, começa a ser questionado
por núcleos de intelectuais. E especificamente no campo da odontologia “vão surgir movimentos
aglutinadores dos núcleos progressistas, já existentes, e formadores de um novo público.” Nesse
contexto, o movimento estudantil em odontologia se organiza em torno dos ECEO (Encontro
Científico dos Estudantes de Odontologia). Já os cirurgiões-dentistas, formam um movimento
denominado MBRO (Movimento Brasileiro de Renovação Odontológica), também caracterizado
por uma ampla ação política. É também neste conjunto que surgem os ENATESPO, (Encontro
Nacional de Administradores e Técnicos do Serviço Público Odontológico) fóruns de discussão
que se caracterizam até hoje como um importante espaço de debate do modelo da prática
odontológica, com o objetivo de encontrar caminhos para a sua adequação de forma coerente
com a realidade brasileira, além da construção de modelos de políticas públicas de saúde
alternativos aos adotados no país.

6.1 Movimento da Reforma Sanitária

A atenção em saúde no Brasil, é historicamente influenciada pelos modelos higienistas que


persistem amplamente até hoje. Estes modelos não só restringem as suas propostas ao exercício
de um certo controle social e ambiental, ou à vigilância sanitária sobre específicas doenças, como
também, propõem regras de vida. São pasteurizados modelos de comportamento que, se
seguidos, pelos indivíduos, poderiam garantir saúde. Este modelo traduz-se exclusivamente pela
responsabilidade individual em evitar o adoecimento, como se o indivíduo fosse o único
67

responsável. É dever do indivíduo ter cuidados para não adoecer, precisa se vacinar, precisa
tomar banho e escovar os dentes. Nesta perspectiva cada um é responsável pela sua saúde e a
realidade concreta, caótica, do meio ambiente onde se vive, acaba tendo pouca, ou nenhuma
influência sobre a qualidade de vida. A população assume sozinha a culpa do seu adoecer e o que
temos observado é que o estado historicamente não assume a responsabilidade; o setor saúde,
também não. É fácil constatar que ainda hoje, prevalece o individualismo do modelo higienista.
As metas coletivas são ineficazes, são formuladas com ausência de debates entre os segmentos
envolvidos. O governo estabelece as metas coletivas de forma autoritária e centralizada, mais
uma herança de como elas eram estabelecidas durante o período da ditadura militar.

O movimento da Reforma Sanitária brasileira se inicia com uma discussão em torno da


municipalização da saúde. A tese de que a descentralização das ações de saúde facilitaria a
gestão e o controle social local começa a ser construída na III Conferência Nacional de Saúde,
anterior ao golpe militar de 64, sendo uma das chamadas reformas de base que o governo de João
Goulart pretendia promover. A III Conferência Nacional de Saúde36 partiu da premissa de que a
efetiva melhoria do estado sanitário de uma coletividade não poderia ser alcançada sem a
orientação de uma infra-estrutura sanitária local, capaz de executar e dar continuidade aos
programas de saúde pública, com o aproveitamento integral e realista dos recursos humanos e
materiais de que se pudesse dispor de fato. Segundo o relatório da Conferência, afirmava-se que
conhecendo e aproveitando a experiência de países capitalistas e socialistas, cabia portanto fixar
a própria diretriz brasileira no campo da assistência médico-sanitária e ficou definido naquele
momento que a participação financeira do município nas atividades locais de saúde constituiria
condição precípua para sua credenciação ao auxílio e cooperação por parte dos Governos Federal
e Estadual. Ou seja, pretendia-se portanto a municipalização dos serviços de saúde. Ainda
segundo o relatório, a municipalização teria como principal finalidade despertar o interesse dos
municípios por uma atividade de grande importância para as suas populações e determinar a
organização de serviços de assistência médico-sanitária onde estes não existiam. De acordo com
essa proposta, ao município competiria realizar as seguintes atividades:

“Medidas primárias de saneamento do meio; Fiscalização dos gêneros


alimentícios, das habitações e dos estabelecimentos que lidam com a produção e
comércio de alimentos; Imunização contra as doenças transmissíveis; Prestação

36
CNS (3: 1963: Rio de Janeiro) - Dados obtidos do relatório final da III Conferência Nacional de Saúde realizada
no Rio de Janeiro em 1963.
68

dos primeiros socorros de assistência médica; levantamento dos dados de


estatística vital”. (CNS 3: 1963: Rio de Janeiro, p.18)

Em 1964, após o golpe militar, há uma ruptura neste pensamento e durante a ditadura no Brasil
houve um sucateamento do sistema de saúde. O governo abriu a concessão de verbas diretamente
para o setor privado, que investiu na construção de hospitais. As instituições de formação dos
profissionais de saúde também faziam parte deste processo distorcido. A ausência de
planejamento em âmbito nacional, o privilégio dado ao atendimento no setor privado, o
autoritarismo empregado nas escassas políticas públicas e a restrição no acesso à saúde de
amplas camadas da população por um sistema que privilegiava somente os trabalhadores
contribuintes do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) provocou uma crise do setor no
país. Como um grande contingente da população estava desempregada ou inserida no mercado
informal de trabalho, lhes restavam duas opções de atendimento: pagar do próprio bolso ou
recorrer ao atendimento nos precários ambulatórios dos estados e municípios.

No final dos anos 70, vai ser retomado com certo rigor político o debate em torno das condições
de saúde da população brasileira, com realizações objetivas em Belo Horizonte, São Paulo,
Curitiba e Campinas, das chamadas semanas de estudo de saúde comunitárias. Narvai afirma
durante a entrevista que: “essas semanas foram momentos de discussão política sobre saúde
comunitária. Isso era o que, no momento, o regime permitia. Eram encontros de desagravo,
aconteceram três ou quatro semanas dessas ao longo de três anos. Isso envolvia o setor
acadêmico e um ou outro sanitarista”. Paralelamente, começava a se desenvolver um
movimento de municipalização da saúde com a idéia de que o poder municipal é o poder
político mais próximo das pessoas e, ainda Narvai, diz em entrevista, que não tinha
absolutamente nenhum sentido que num país continental como o Brasil as medidas a serem
tomadas, desde as relacionadas à política de saúde ou às operacionais e administrativas, em
alguns casos ligados até ao funcionalismo da saúde, fossem decididas na sede do INAMPS do
Rio de Janeiro, ou em Brasília, no Ministério da Saúde. Tal fato era absolutamente inadequado
num país com as diferenças e contradições que o Brasil apresentava e ainda apresenta.

Portanto, desde a redemocratização do país, quando essas discussões começaram a ser retomadas
numa perspectiva mais política vinculada à saúde pública e coletiva, o movimento da Reforma
Sanitária se fortaleceu e ganhou adesão desde especialistas até parlamentares. Um segmento da
população brasileira com interesse na questão da saúde começou a construir um projeto político
69

que garantisse uma ação de Reforma Sanitária. Para Botazzo (1999) o movimento sanitário
buscava entrar na gerência de uma instância do aparelho de Estado – a saúde. Procurava uma
transformação social, que como fato social total dependeria de uma nova consciência social de
transformação. E é neste sentido que o autor afirma que “poder-se-ia dizer que o movimento
sanitário é um sujeito plural – ou movimentos; que em seu conjunto movimento sanitário e
movimentos sociais expressavam um projeto de transformação social”; e, por último, “esse
projeto adquiriu um desenho político-ideológico polimorfo, que por meio de uma vaga
consciência social de transformação buscou constituir-se por referência a um sujeito histórico
que lhe pudesse dar conseqüência prática”. Para o autor, a esse sujeito histórico não se conseguiu
ainda dar-lhe objetivação, e só por este viés, o desta ausência prolongada, é que podemos
entender a orfandade do movimento sanitário. “Condenado por esse abandono, o movimento
sanitário ora se percebe melancólico, ora exaurido, ora maníaco ou triunfalista e esses estados de
espírito vêm refletidos em sua produção teórico-prática atual e em sua compulsão permanente
em discutir o que considera sua crise”. Botazzo (1999) afirma ainda que o que despiu a Reforma
Sanitária de seu potencial contra-hegemônico foi a insuficiente sustentação social.

De acordo com Narvai, em entrevista, existe uma grande contradição, além da insuficiência da
sustentação social, porque principalmente “a partir da 8ª Conferência de Saúde, se começa a
implementar um sistema de saúde democrático, por outro lado, se institucionaliza uma política
de governo que é totalmente neoliberal”. Ou seja, o que se observa é que ao mesmo tempo em
que é incorporado à Constituição Federal o direito à saúde para todo cidadão brasileiro como um
dever do estado, há uma adequação da agenda pública nacional ao Consenso de Washington37 e
o setor saúde amarga a herança de décadas sem investimentos. Com o objetivo de reestruturação
econômica, as verbas para o setor permanecem reduzidas e abrem mercado para uma expansão
das empresas privadas de saúde, sejam elas clínicas populares de baixo custo, ou planos privados
de saúde, que funcionam por meio de convênios com clínicas e hospitais privados e com
profissionais liberais. Esta postura representa um afronte direto ao compromisso assumido pelo

37
Foi denominado de “Consenso de Washington” as conclusões oriundas do encontro realizado em 1989 na capital
dos Estados Unidos entre funcionários do governo norte-americano, representantes dos organismos financeiros
internacionais ali sediados – FMI e BID e economistas latino americanos. Sob o título “Latin American Adjustment:
how much has happened?”, o evento tinha como objetivo avaliar as reformas econômicas empreendidas nos países
da região e propor diretrizes. As propostas do Consenso de Washington convergem, segundo Nogueira (1999), para
dois objetivos básicos: por um lado, a drástica redução do Estado e a corrosão do conceito de Nação; por outro, o
máximo de abertura à importação de bens e serviços à entrada de capitais de risco. Tudo em nome de um grande
princípio: o da soberania absoluta do mercado autoregulável nas relações econômicas tanto internas quanto externas.
70

Estado na garantia de saúde à população brasileira, já que de acordo com a Constituição


brasileira:

“A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a


alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho,
a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços
essenciais. Os níveis de saúde da população expressam a organização
social e econômica do País. Dizem respeito também à saúde as ações que,
por força do disposto no artigo anterior, se destinam a garantir às pessoas e
à coletividade condições de bem-estar físico, mental e social.” BRASIL
(1990)

A falência econômica dos municípios ameaça diretamente a descentralização do SUS pois os


municípios não têm condição de investir em saúde ou em outros projetos e programas sociais.
Para compensar o desequilíbrio macroeconômico de taxas de juros altas e câmbio
sobrevalorizados, foram aprovadas reformas constitucionais. As empresas estatais são
privatizadas, há demissão de funcionários públicos, greves. A crise na área da saúde é
conseqüência direta do modelo político-econômico adotado. O Setor público de saúde é
insistentemente sabotado. Desde a redução do orçamento dos Estados e municípios, destinados
pelo próprio governo ao setor, até as empresas privadas de saúde fraudando o Sistema Único de
Saúde, desviando verbas e exercendo pressão política contrária à democratização da saúde.

De acordo com Zaidan Filho (2000), uma das tendências observadas seria a terceirização dos
serviços médicos no Brasil. “tendência aliás já posta em prática pelo enorme atendimento
suplementar dos hospitais e empresas privadas de saúde, que já cobre 47% dos 32 milhões de
brasileiros, apropriando-se de 35% do faturamento da seguridade social”. A terceirização dos
serviços médicos é a faceta mais evidente da profunda crise do modelo clássico de assistência
social. Primeiro porque desobriga paulatinamente o Estado de prestar serviços de saúde de boa
qualidade à população; segundo pela excludência, pela intermitência e a baixa qualidade dos
serviços prestados. Para Manfredini, em entrevista, mesmo com todas as questões do avanço do
desmonte do Estado e de privatizações, se compararmos a situação que temos hoje e a que
tínhamos em 1988, a oferta de serviços públicos de saúde é maior. Assim, mesmo que do ponto
de vista geral tenha havido um sucateamento e um desmonte de setores públicos estratégicos o
autor afirma que “a oferta de serviços aumentou. Eu tenho, portanto, uma visão otimista destes
13 anos de SUS. Conseguimos muita coisa. É certo que poderíamos ter conseguindo muito mais
dentro de um outro modelo político-econômico, mas conseguimos muita coisa”. Segundo
71

Manfredini, é possível destacar esse avanço em algumas áreas como “as de política de
imunização, assistência para HIV-soropositivos e até mesmo em saúde bucal. Portanto, existem
uma série de indicadores positivos que tenho dúvidas se teríamos se não tivéssemos um sistema
com as características do SUS.”

A partir destas análises, é possível concordar com Botazzo (1999) quando ressalta que sendo o
Estado dividido e lugar de conflitos, existindo hegemonia e coerção nele a partir de alguns
sujeitos, seu contrário já encontra condições de emergência: outros sujeitos buscarão a contra-
hegemonia e se rebelarão contra a opressão que o Estado organiza e mantém. Isto nos remete às
relações entre movimento sanitário e movimentos sociais. A conformação dos princípios e
propostas dos principais movimentos contra-hegemônicos no campo da saúde bucal, as
diretrizes, as afirmações e as contradições da categoria odontológica, se confundem pois com o
próprio movimento da Reforma Sanitária brasileira, como se evidencia a seguir.

6.2 Encontro Científico dos Estudantes de Odontologia (ECEO)

A discussão sobre a realidade de saúde e a luta política dos estudantes de odontologia no Brasil
teve origem na (UNEO) União dos estudantes de Odontologia em 1954 e adquiriu consistência
nos Encontros Científicos dos Estudantes de Odontologia (ECEO), a partir de 1974. Os
estudantes têm um papel muito importante nesse processo, na medida em que formam um
movimento que questiona a situação do ensino, as práticas que terão como profissionais e a
capacidade de empenho em compreender o país, discutindo seus problemas e intervindo na cena
política em uma perspectiva mais ampla. Narvai constata, durante entrevista, que os estudantes
de odontologia no Brasil, diferentemente de estudantes de outras áreas, têm altos e baixos na sua
participação e na sua intervenção. O movimento estudantil ganhou um novo fôlego, no final da
década de 60, depois teve um grande recuo até meados dos anos 70, quando os estudantes
tiveram um papel fundamental na retomada das discussões sobre as políticas de saúde bucal no
Brasil, questionando as práticas odontológicas. Esse período culminou com a organização dos
ECEO. A retomada do movimento estudantil coincide com o período de fortalecimento da
Reforma Sanitária, como afirma narvai, “foram momentos extremamente ricos, de debate, de
questionamento da prática odontológica, de formulação de críticas”.
72

Para Werneck (1994) citando Zanetti, Narvai e Toledo, os ECEO significaram a conquista
gradual, porém consistente, de um espaço de politização no âmbito da Saúde Bucal, tornando-se
“canais embrionários de comunicação social sobre questões políticas relevantes”, notadamente a
democratização do país. Para Werneck, os ECEO são fundamentais na formação de uma geração
de dentistas preocupados com a saúde pública, com capacidade crítica e com uma atuação mais
voltada para a problematização das questões da Saúde Bucal, situando-se no esforço de
rearticulação da categoria odontológica no contexto geral de redemocratização brasileira. Essa
visão coincide com a idéia que Manfredini tem do mesmo processo, revelado quando afirma na
entrevista que grande parte das pessoas que participaram do Movimento Brasileiro de Renovação
Odontológica (MBRO) acaba se tornando celeiro para outras áreas de luta política, seja a
universidade, o sindicato ou os próprios serviços públicos. Nas palavras de Manfredini, “essa
geração que hoje está à frente desses setores, a grande maioria é egressa dos ECEO e é a que de
certa forma pegou o fim da ditadura., um período em que já se tinha uma certa flexibilidade de
ação, possibilidade de fazer a luta política, diferentemente do que acontecia no final dos anos
sessenta”.

6.3 Movimento Brasileiro de Renovação Odontológica (MBRO)

Segundo Barbosa (2001) a criação do Movimento Brasileiro de Renovação Odontológica


(MBRO), como ficou conhecido nacionalmente, serviu de elo organizativo do chamado setor
progressista que atuava na odontologia. Os avanços ocorridos na odontologia brasileira
correspondem ao fortalecimento da cidadania e aos avanços da democracia em nosso país e o
MBRO contribuiu para estes avanços. O reconhecimento público do movimento, ajudado por
haver expoentes da categoria nas lutas por Reforma Sanitária, liberdades democráticas, um novo
governo e um novo poder no Brasil, aproximou-o, por meio das pessoas que dele participavam,
de todas as lutas dos demais trabalhadores brasileiros. Serra (1998) aponta que a proposta do
MBRO era incorporar-se à luta geral dos trabalhadores, atuando basicamente junto aos sindicatos
da categoria, conselhos e associações profissionais, bem como junto a faculdades de odontologia
e centros acadêmicos. Segundo Serra, esta atuação era sempre pautada em sua carta de
princípios, na qual estavam explícitos os objetivos permanentes do movimento. Alguns destes
objetivos eram:

“lutar pelas liberdades políticas; assumir uma posição contrária à


mercantilização da prestação de serviços odontológicos e a sua
73

expansão pelo Estado; estruturar o processo de municipalização


garantindo o controle das instituições públicas pela população
organizada; aumentar os recursos da União destinados para a
assistência odontológica, criar condições para a formação de
recursos humanos adequados à realidade sócio-econômica e
epidemiológica do país e construir entidades odontológicas mais
democráticas”. (Serra, 1998: p. 25)

A expectativa de ampla inserção do MBRO nas instituições de ensino e prática profissional da


área odontológica seria entretanto dificultada, ou mesmo inviabilizada, pela ideologia prevalente
naquele contexto. Acostumadas historicamente à subserviência ao Estado, encontravam-se
encasteladas nas entidades odontológicas, em sua maioria, pessoas comprometidas com o
Regime, algumas das quais tendo chegado à condição de dirigente classista pela intervenção
política do Estado autoritário. Nesse contingente encontravam-se localizados também
professores universitários, em sua maioria conservadores, e profissionais liberais com influência
política junto a diversas autoridades dos poderes executivo, legislativo e judiciário. Barbosa
(2001) diz que, se considerarmos a boa localização de todos no mercado de trabalho, é fácil
compreender que se constituíam em referência profissional para uma parcela considerável da
categoria. Sobretudo para os novos cirurgiões dentistas que acabavam de se formar.

Manfredini diz, em entrevista, que o MBRO era articulado e fazia luta política. Era um conjunto
de forças que lutava pelo fim da ditadura, pela democracia e pela cidadania. Congregou durante
sua existência, estudantes, dentistas, protéticos, auxiliares, mas era marcadamente composto por
dentistas. Um dos princípios era fazer com que o setor público assumisse a questão da saúde
bucal. “Se nossa cobertura hoje é muito pequena, há quinze anos atrás era menor ainda e nem
tinha serviços públicos organizados. Grande parte da assistência pública naquele momento era
feita pelo Inamps. Uma prática mutiladora, feita à base de extrações de dentes”, destaca o autor.
O MBRO foi também muito importante para assegurar a consolidação da equipe de saúde bucal,
substituindo o trabalho isolado do dentista.

Além da luta política direta no movimento de Reforma Sanitária, o MBRO preocupava-se com a
prática odontológica e o modelo de exclusão da maioria da população, discutindo os índices
epidemiológicos que demonstram alta prevalência de doenças bucais e as deficiências de uma
74

atuação profissional mutiladora e preocupada exclusivamente com a reabilitação do corpo.


Analisando esta realidade, afirmavam que a odontologia é:

“construída sob os olhos do capital, para responder aos interesses


das classes dominantes, representadas aqui pelas indústrias, pelo
grande comércio de equipamentos e materiais (...) e de certo modo
pelo Estado, que por sua omissão na prestação de serviços
determina o modelo vigente na prática odontológica”.38

Apesar das críticas consistentes ao modelo de prática profissional prevalente na odontologia


brasileira e da percepção da realidade social como fator importante na busca pela aquisição de
saúde, Cordón afirma, em entrevista, que de certa forma este movimento não cresceu ainda mais
porque as suas lideranças não se engajaram num processo de formação para participação política
e se uniram no ativismo, que exigia para um engajamento nos movimentos populares dos
partidos políticos que estavam emergindo no Brasil. Este engajamento político se da a partir do
momento em que o Partido dos Trabalhadores assume o poder, o que requer a participação de
todo pessoal que estava construindo modelos que permitiam uma resposta coletiva, que é uma
necessidade na orientação das massas populares como uma resposta aos indicadores de saúde
bucal e de qualidade de vida. “Na busca deste modelo, os integrantes do MBRO se dispersaram
porque partiram para a defesa de modelos que permitissem saídas objetivas para a situação
brasileira”, desde então, continua Cordón “o grupo de cirurgiões-dentistas do MBRO sai e se
dispersa para trabalhar em Brasília, São Paulo e Goiás, engajando-se nos partidos políticos e
participando da construção de novos padrões sociais”. Já para Manfredini (entrevista), do
conjunto de pessoas que fizeram parte do MBRO, um contingente importante foi para a
universidade, outro acabou indo para as entidades sindicais e de representação da categoria e
ainda um outro foi para o setor de serviços.

O MBRO, já em 1985 estava começando a discutir a questão da descentralização do sistema de


saúde com um apoio grande aos municípios. Então, mesmo antes do final da constituinte e de
toda a legislação que passou a embasar o SUS, o movimento trabalhava com a perspectiva de
apoio ao processo de municipalização. Manfredini relata durante entrevista a experiência do
grupo de São Paulo, onde o trabalho foi notoriamente marcado por uma presença nos serviços,
importando-se com a questão da formação de recursos humanos. “Na hora que você senta com

38
MBRO, apud Serra (1998, p. 29).
75

um grupo de dentistas para discutir com eles sobre a importância da incorporação do pessoal
auxiliar, isso não é uma discussão técnica, é marcadamente política. Era uma capacitação técnica
e política, em defesa da democracia”, destaca o autor. Como fruto de organização do MBRO,
acontece em 1986 a primeira Conferência Nacional de Saúde Bucal (CNSB). Grande parte das
resoluções dessa conferência emergiu do MBRO, que também teve muita participação na 8ª
Conferência Nacional de Saúde, ocorrida no mesmo ano. Manfredini afirma em entrevista que
“esse movimento vai, de certa forma, num processo de crescimento até 1988, que é justamente o
período em que se consegue, dentro do ponto de vista político, colocar dentro da Constituição
uma série de princípios e diretrizes sociais democratas”. Para Narvai (1994) o campo no qual o
MBRO se colocou foi inequivocamente o campo da saúde coletiva: “é o entendimento de que a
saúde depende das condições de vida das pessoas, de fortalecimento do setor público, e da
construção de um Sistema Único de Saúde contrário aos que fazem da cura uma mercadoria
vendida com altos lucros”.

6.4 Conferências Nacionais de Saúde Bucal (CNSB)

A luta pela democratização da odontologia inicia-se assim num quadro em que o setor saúde
brigava por universalidade, equidade e integralidade na atenção à saúde no país como dever do
Estado e direito do cidadão. Na primeira Conferência Nacional de Saúde Bucal se fazem críticas
consistentes ao modelo de assistência odontológica praticado no país, e associa-se o caótico
quadro de saúde bucal da população ao modelo excludente e mutilador de atendimento do
INAMPS. Portanto, podemos constatar que no relatório final da I CNSB consta a seguinte
afirmação: “Já é momento da odontologia amadurecer social, técnica e politicamente, dando o
seu salto definitivo do individual para o coletivo e assumindo também sua parcela de
responsabilidade no combate aos caóticos índices epidemiológicos constatados em todas as
regiões do país.” 39

Na 1ª CNSB apresenta-se um diagnóstico de Saúde Bucal no Brasil, no qual constatou-se que o


modelo de prática odontológica cobria as necessidades de somente 5% da população. No
relatório final do evento afirmava-se a ineficiência da odontologia, caracterizando-a por seu

39
I CNSB apud Serra (1998)
76

aspecto monopolizador, de altos custos, de tecnologia densa, elitista, iatrogênico e mutilador.


Neste documento denuncia-se ainda que:

“a ineficiência dos serviços públicos é devida a uma política


deliberada que privilegia os serviços privados, em detrimento da
manutenção e ampliação dos órgãos públicos; inexistência de uma
política nacional de saúde bucal voltada para os interesses da
maioria da população; falta de uma política de produção de
equipamentos e insumos odontológicos nacionais; inexistência de
dados epidemiológicos fidedignos e outras informações sobre a
saúde bucal da população e descumprimento da legislação vigente
no que se refere à fluoretação das águas.” (CNSB 1ª:1986: Brasília,
p. 04)

Esta conferência teve um papel fundamental no questionamento da responsabilidade social da


própria odontologia e também do Estado quanto à saúde bucal da população brasileira. Fica claro
para alguns grupos da comunidade odontológica a necessidade de pensar outros modelos de
prática profissional, mas também a importância de uma ação política para a resolução de
problemas em nível coletivo. É nesta conferência portanto que se decide afirmar que a saúde
bucal é parte integrante e inseparável da saúde geral do indivíduo e está relacionado diretamente
com as condições de saneamento, alimentação, moradia, trabalho, educação, renda, transporte,
lazer, liberdade, acesso e posse da terra, aos serviços de saúde e à informação.

Em 1993, já com a contradição da lenta implantação do SUS e numa difícil conjuntura nacional,
ocorre a Segunda Conferencia Nacional de Saúde Bucal. Nesse momento, os delegados e
participantes deixaram claro a sua indignação com o projeto neoliberal em curso no Brasil que,
segundo Swedenberger Barbosa, coordenador geral do evento, “é responsável pelo desmonte do
Estado, da seguridade social e pela piora das condições de vida”. A partir das discussões
ocorridas, na carta da II CNSB surge uma reivindicação política pela saúde bucal da população:

“O pensamento e a prática neo-liberais modernistas, que assolam o


mundo, atingem de maneira drástica o Brasil. A recessão, o
desemprego, o arrocho salarial, a fome, a miséria, a falta de
saneamento e moradia são resultados da política do ‘Estado
Mínimo’ que vem desmontando os serviços públicos e
comprometendo brutalmente as garantias mínimas de cidadania.
(...) No momento em que a violência institucional ou não, tira a
vida de centenas de trabalhadores, crianças, aposentados e idosos,
seja por meio do assassinato direto, seja pela falta de mecanismos
adequados de proteção social, a minoria dirigente deste país busca
77

aprofundar ainda mais o aparthaid social, concentrando mais


dinheiro e poder.”40 (CNSB, 2ª :1993: Brasília, p.05)

A partir desta correlação entre saúde bucal e qualidade de vida ocorre também a associação entre
a saúde bucal e a cidadania ou ainda entre saúde bucal e políticas publicas. Continuando essa
discussão, e ainda, aprofundando-a, faz-se nesta conferência uma crítica ao modelo capitalista
que cria uma diferenciação entre sociedade e social:

“A sociedade reage e age pela via do dinheiro, guia-se pela voz dos agentes
econômicos, pelo equilíbrio de mercado, pelas reservas cambiais, pela base
monetária, etc... É ainda moderna e produtiva e, afina-se pelo diapasão da
economia. Já o Social, no conceito do governo brasileiro, indica as carências e o
ônus do Estado para com o povo e tem sido interpretado como perdulário, arcaico
e empecilho ao progresso que aterra o governo às dificuldades, e ao imobilismo.
Mais modernamente vem sendo acusado de ser a grande via da corrupção no
país”41. (CNSB,2ª :1993: Brasília, p. 06)

A Sociedade passou a ser interpretada como ativa enquanto economia, e passiva enquanto vida
social e se desvincula a economia da realidade social, como se uma não implicasse a outra. E
assim conclui-se que no campo especifico de saúde bucal da população, a conquista da cidadania
vai muito além da capacidade limitada e das restritas fronteiras da odontologia, exigindo para sua
concretização a co-responsabilidade da própria sociedade. Portanto, políticas de saúde bucal
deveriam favorecer a transformação da prática odontológica por meio da incorporação de pessoal
auxiliar, de novas tecnologias e do desenvolvimento de ações coletivas de saúde, sem as quais
não será possível obter impacto na cobertura a população e nem alterar suas características
epidemiológicas. De acordo com a II CNSB (1993) a viabilização de uma nova prática em saúde
bucal depende do desenvolvimento concreto de um modelo de atenção à saúde bucal para a
“dignificação da vida e a conquista da cidadania”, que incorpore os compromissos da Reforma
Sanitária e aponte para a construção de um novo modelo de atenção orientando pelas propostas
da universalidade do acesso, da integralidade e da resolutividade das ações. Tendo sempre como
pré-requisito básico a efetivação do processo de municipalização da saúde, na construção do
Sistema Único de Saúde.

40
Carta da II CNSB aprovada pela Plenária Nacional realizada no Distrito Federal em 27 de setembro de 1993.
41
Fragmento da parte de introdução do Relatório final da II CNSB realizada em Brasília de 25 a 27 de setembro de
1993.
78

Apesar dos grandes avanços representados por essas duas conferências podemos constatar que o
movimento de crítica ainda não é legitimado, o que podemos afirmar, pela existência de somente
duas Conferências Nacionais de Saúde Bucal num espaço de tempo de 16 anos (desde 1986 até
2002), ocorrendo sem uma sistemática regular que possa legitimar esses encontros. Esta
constatação também é feita por Cordón, quando afirma em entrevista que é preciso adotar uma
freqüência mais regular para os encontros e avaliar as dificuldades encontradas nos últimos anos
para a melhoraria da qualidade de vida da população. Para o autor, “Já urge que todos discutam
uma política pública de saúde que contemple a saúde bucal e por isso se faz necessário a
realização da III Conferência Nacional de Saúde Bucal. Imprescindível à esta altura para
discutirmos o futuro da odontologia no país, onde nem sequer foi factível realizar um
levantamento epidemiológico nacional, o SB-200042”.

7. PRÁTICAS POLÍTICAS DA SAÚDE BUCAL COLETIVA

“Não importa que se estejam tendo inúmeros interesses equívocos


correndo secretamente e traiçoeiramente por debaixo deste mar.
Se não houvesse resistências, qualquer deles poderia dominar,
e a passividade se estabeleceria, perdidas todas as inquietudes,
no abandono das coisas inutilizadas.

Mas há resistências. E daí vêm as lutas.


E seja qual for o aspecto da vitória mais próxima,
o futuro guarda em si uma certeza admirável da vitória mais justa.
A vitória mais justa tem de ser a que ofereça ao homem a mais superior liberdade.
A que o liberte de outros homens, e a que o liberte de si”.

(Cecília Meireles em Crônicas de educação vol 2, obra em prosa, p: 271)

42
O SB-2000 é um levantamento epidemiológico nacional para avaliar as condições de saúde bucal da população
brasileira. O SB-2000, como o próprio nome indica, deveria ter ocorrido no ano de 2000, para se avaliar a política
nacional de saúde bucal e verificar se as metas da OMS para o ano de 2000 teriam sido cumpridas. Segundo Cordón,
em entrevista: “o SB-2000 não acontece porque o Estado não quer”. E Cordón ainda questiona: “a essa altura, num
ano eleitoral (2002), quem é que vai trabalhar SB-2000, que já passou? Será necessário o levantamento? e responde:
“Não sei. Somente para dizer que temos um levantamento? Para que vai servir? Você faria um levantamento de risco
estando no poder? Esse é o modelo neoliberal, que vai escalteando, distanciando”.
79

Na odontologia, historicamente, a política não tem feito parte da prática. Como a profissão vem
se questionando somente a partir da perspectiva das especializações e da diversificação dos
modelos de atendimento, continua desprezando o debate em torno das políticas públicas e se
restringindo somente a pensar novas formas de intervir em partes de corpo, independente do
sujeito a quem o corpo pertence; sua identidade, sua realidade concreta e sua existência como ser
social. A grande maioria dos dentistas permanece isolada em seu ambiente de trabalho e
“neutros” frente às questões sociais – inclusive políticas – que os cercam, como se não
importasse o mundo concreto e dialético do qual fazem parte. Arendt (1983) afirma que “o
isolamento destrói a capacidade política, a faculdade de agir. É aquele impasse no qual os
homens se vêem quando a esfera política de suas vidas, onde agem em conjunto na realização de
um interesse comum, não é contemplado.”

Contemplado ideologicamente, porque espaços de resistência existem e são relevantes para a


discussão política sobre a saúde bucal. O Encontro Nacional de Administradores e Técnicos do
Serviço Público Odontológico (ENATESPO) é um destes espaços. São encontros científicos que
reúnem o segmento crítico do serviço odontológico que não pensa a saúde bucal de forma
compartimentalizada, mas como parte integrante da vida dos sujeitos, e portanto em íntima
relação com a realidade sócio-cultural e econômica do próprio país. Os encontros permanecem
até hoje como um dos mais relevantes fóruns de debate sobre saúde coletiva dentro da
odontologia, e por isso mesmo, é no seu interior e como reflexo de muita discussão que surge a
Associação Brasileira de Saúde Bucal Coletiva – AÇÃO COLETIVA - uma associação que tem
o papel de divulgar a ideologia do movimento de Saúde Bucal Coletiva por meio da edição da
revista Ação Coletiva, hoje denominada Revista Brasileira de Odontologia em Saúde Coletiva, e,
também, tem o papel de apoiar a própria realização dos ENATESPO, constituindo-se, ou
tentando constituir-se como um movimento organizado em torno das questões referentes à Saúde
Bucal Coletiva.

Entretanto, a política, que é ao mesmo tempo teoria e prática, não apenas interpreta o mundo,
mas transforma o mundo com ação e onde há poder há resistência. Existem núcleos críticos
dentro da profissão que partem para uma ação política institucionalizada: a luta sindical, que por
muitas vezes é uma “queda de braços” com o governo ou com a própria categoria profissional. A
luta sindical deve ser uma luta por democracia nas instituições de representação e uma luta
80

contra as formas de domínio econômico, criticando e atuando com uma postura política diferente
das de órgãos nitidamente comprometidos com a manutenção do status quo.

É neste contexto que podemos perceber a Federação Interestadual dos Odontologista (FIO) como
uma instituição que reúne os sindicatos mais críticos da categoria, que busca democracia, que
busca cidadania e que representa uma força de resistência em meio ao caos das entidades
representativas da classe odontológica, ditatorialmente governadas e altamente alheias a
realidade da saúde bucal da população brasileira.

É assim que partimos para este capítulo, fazendo uma análise da prática política da odontologia
por meio do discurso das instituições sindicais e de representantes do movimento da Saúde Bucal
Coletiva, destacando as reflexões teóricas e também as ações dos núcleos mais críticos. Estes
poderiam ser considerados os legítimos operários da Saúde Bucal Coletiva, pessoas que
disseminam no cotidiano, outras formas de interpretar o mundo, com menos naturalidade e mais
historicidade, buscando mostrar à categoria e à sociedade a importância de uma mobilização em
torno das políticas públicas de saúde bucal. Uma das atuações possíveis é pressionar
politicamente os representantes do governo por um financiamento adequado ao setor e construir
a viabilização de propostas alternativas ao modelo neoliberal, tendo como utopia uma sociedade
com universalidade, equidade e integralidade no acesso aos serviços que possam proporcionar
melhor qualidade de vida para todos. Valorizando a participação política, Manfredini (2001a),
conclama que os dentistas participem mais ativamente de entidades, sindicatos, movimentos
sociais, organizações do terceiro setor e partidos políticos. Ou seja, que exerçam criticamente a
sua cidadania por meio da ação política.
7.1 Encontro Nacional dos Técnicos do Serviço Público Odontológico (ENATESPO)

Os ENATESPO são fóruns de discussão que ocorrem anualmente congregando profissionais


ligados ao serviço público, incluindo os privados e os estatais, seja pela sua prática profissional
nos serviços, por sua vinculação à institutos de pesquisa ou à universidade. De acordo com
Narvai apud Serra (1998) os ENATESPO tornaram-se pelo nível de discussão e das decisões
tomadas a cada encontro, o instrumento mais importante para a compreensão e análise das
práticas odontológicas no país. Os encontros discutem a responsabilidade da odontologia pela
saúde bucal da população brasileira, seja por meio da crítica à inadequação do modelo de prática
profissional prevalente, seja pela luta no cumprimento da legislação brasileira no que se refere à
81

saúde, ou ainda, e principalmente, discutindo propostas alternativas de gestão, de prática e


mesmo de concepção sobre o campo teórico da Saúde Bucal Coletiva

Exemplificando esta tendência do ENATESPO, Serra (1998) reproduz parte do relatório final de
um dos eventos, onde se criticava a política neoliberal adotada já na época do governo Collor e
as dificuldades na implantação definitiva do SUS:

“a política econômica governamental, consoante com a tendência


mundial de consolidação do liberalismo econômico, conduz a
economia brasileira a uma profunda recessão e estagnação, gerando
desemprego, arrocho salarial e acentuando o quadro de miséria e
fome da população, com notada incidência na situação de saúde do
povo. (...) Essa tendência privatizante determina uma completa
deteriorização do serviço público e a ausência de políticas públicas
que atendam às necessidades e demandas sociais. Nesse contexto,
não é de todo assegurado que o sistema de saúde tal qual como
desenhado no decorrer da história do movimento sanitário, venha a
ser implementado.” (Id., p. 44)

Desde o primeiro ENATESPO, realizado em 1984, quando a carta final do evento demonstrou a
disposição dos participantes de lutarem para realizar a Reforma Sanitária, passando por outros
eventos, o ENATESPO sempre enfatiza a necessidade da formação de pessoal auxiliar em
odontologia, alertando para a necessidade de ocorrerem mudanças urgentes tanto no campo
social como no modelo de prática odontológica, onde a implementação da integralidade da
atenção deveria ser vista como medida prioritária a ser tomada para a superação da dicotomia
curativo/ preventivo. Conclamando a categoria para atuar junto às forças políticas e estruturas de
poder e participando das discussões sobre a descentralização da gestão em saúde e da
municipalização, os encontros buscam discutir a formação de recursos humanos e a construção
de um SUS real, onde o controle social possa efetivamente ser feito pelos conselhos de saúde. O
VIII ENATESPO, que segundo Serra (1998), permitiu que se possa perceber claramente que o
pensamento político sanitário odontológico havia incorporado ao seu discurso de crítica ao
modelo hegemônico de prática odontológica, não só experiências programáticas bem sucedidas
no setor, como também as diretrizes da Reforma Sanitária já transformadas em leis, isto com um
explícito objetivo de consolidar as mudanças propostas.

Outro exemplo de atuação firme do ENATESPO (XIII - 1998) foi exigir o cumprimento da Lei
6.050 que estabelece a obrigatoriedade da fluoretação das águas de abastecimento público no
82

Brasil, já que considera o seu descumprimento um procedimento juridicamente ilegal,


cientificamente insustentável e socialmente injusto. Ou ainda, no evento seguinte, ENATESPO
(XIV – 1998), quando se impetrou uma moção de repúdio ao Ministério da Saúde e à política do
atual governo que “ao incentivar o Programa de Saúde da Família (PSF) e o programa de
Agentes Comunitários de saúde (PACs) definiu estas estratégias como únicas formas de
organização dos serviços”. Segundo o documento, definir estes incentivos como forma única, e
exigir dos níveis locais a implantação desses programas, impostos verticalmente, sem observar as
peculiaridades locais e regionais do nível municipal, traz enormes transtornos à condução mais
adequada à política municipal e dificulta a implantação desta segundo os princípios e objetivos
do SUS.

Mas para Narvai (em entrevista), apesar do ENATESPO ser um espaço importante, há vários
outros espaços de construção, formulação e de intervenção nesse processo de luta. O
ENATESPO, segundo o autor, tem um poder transformador que não é pequeno, mas acaba sendo
um espaço restrito, do ponto de vista, por exemplo, da luta sindical. Os sindicalistas, da área
odontológica, embora não estejam proibidos de participar, certamente têm questões e temas de
natureza sindical para os quais precisam de fóruns pra sua discussão, elaboração e proposição de
intervenção política. Portanto, conclui Narvai: “o ENATESPO é um espaço que poderia ser
ainda melhor utilizado”.

7.2 Associação Brasileira de Saúde Bucal Coletiva (AÇÃO COLETIVA)

A Associação Brasileira de Saúde Bucal Coletiva é uma entidade que congrega cidadãos que
vivem sua prática e teoria no campo da saúde pública. Reúne dentistas e não dentistas que têm
interesses na saúde com uma perspectiva social e compreende todas as formas de prática que se
relacionam com o processo de saúde e qualidade de vida na sociedade brasileira. A Associação
brasileira de Saúde Bucal Coletiva, foi criada no ENATESPO de Fortaleza em 1998 e, segundo
Narvai afirma durante entrevista, pode ser caracterizada uma ONG. Para o autor, atualmente, por
força do próprio estatuto, a finalidade é apoiar material e politicamente a realização do
ENATESPO.
83

De acordo com Cordón (em entrevista) a Ação Coletiva se caracteriza por ser aberta a qualquer
pessoa, e congrega os que estão nos partidos, os que lutam nos sindicatos, a academia, “e até
mesmo aqueles que adotam a saúde coletiva porque é novidade, porque é diferente, e não porque
têm uma ideologia progressista, de engajamento político”. Quanto ao objetivo, Cordón difere em
parte de Narvai e coloca a preocupação como o Povo e com a Saúde Bucal Coletiva como
importantes metas, mas destaca veementemente que a ONG tem uma intenção política, publicada
no estatuto, que é de negação ao modelo neoliberal e sua política pública que desprestigia as
questões de cunho social. Portanto, segundo Cordón, além de apoiar os ENATESPO, buscaria
formar especialistas em odontologia em saúde coletiva e editar a revista ação coletiva como
estratégia para consolidação dos objetivos a que se propõe. Para Cordón (entrevista) “esse
processo ideológico e político tinha que colocar o pensamento e a estrutura da Saúde Bucal
Coletiva em discussão em todo o Brasil” e desta forma a Ação Coletiva assume a vanguarda de
divulgar os conceitos das pessoas que estão trabalhando na Saúde Bucal Coletiva. Portanto, a
revista tem o objetivo de discutir o que se está fazendo na prática e debater o que as pessoas
estão pensando, consolidando-se assim o marco conceitual. Para Cordón “a função da revista é
ser um elo de ligação onde as pessoas de pensamento progressista iriam, sem necessariamente ter
uma postura marxista, mas sim uma postura eclética, partir para ataque ao neoliberalismo e para
a construção de saídas diferentes para o desenvolvimento humano.” No editorial do primeiro
número da revista, Cordón (1998a, p.02) apresenta a Ação Coletiva:

“Neste momento em que o país se desgasta com a qualidade de vida cada


vez mais difícil de se obter, em que a miséria e o desemprego aumentam,
apesar dos cínicos olhos dos poderosos, se exige dos trabalhadores da
saúde coletiva um esforço maior na criação de consciência política,
melhor comunicação sobre o que realmente acontece no Brasil e sobretudo
uma mobilização permanente para perceber, atuar estrategicamente e
vislumbrar caminhos para o conturbado espaço social em que estamos
inseridos. (...) um instituto, uma Associação, uma reunião de jovens,
maduros e velhos lutadores pela saúde coletiva pode permitir um estímulo;
uma voz perante os incrédulos olhos dos que dominam a saúde, a nível
institucional privado, a nível corporativo e sobretudo a nível institucional
público; que acreditam ser capaz de poder se mobilizar pessoas, num
momento conjuntural de globalização da economia e portanto de definição
externa das políticas internas e das possibilidades reais da população vir a
ter acesso universal, eqüitativo e gratuito à saúde.”

Somente desta forma, os trabalhadores, assumindo novos padrões de ação coletiva, podem fazer
do cotidiano um acontecimento histórico. Um espaço de luta e resistência, marcado de pequenas
84

conquistas que lhe dão novo sentido, cuja história é construída a partir de suas experiências
adquiridas da sua presença no campo social e político. Touraine (1997) considerando os
movimentos sociais como portadores da afirmação do sujeito afirma que a razão, a prática e o
sujeito, que podem realmente tornar-se estranhos ou hostis um ao outro, mas podem também
unir-se, e que o agente desta união é o movimento social. Isto é, a transformação da defesa
pessoal e cultural do sujeito em ação coletiva dirigida contra o poder. Desta forma se encontra
reanimado um espaço social que parecia esvaziado de todo o seu conteúdo, entre uma economia
‘mundializada’ e uma cultura privatizada. Ainda para Touraine “a sociedade que é ao mesmo
tempo técnica e poder, divisão do trabalho e concentração de recursos, torna-se cada vez mais
estranha aos valores e às demandas dos atores sociais.” Arendt (1983), interpretando a condição
humana frente a política e a seu próprios valores afirma que: “no momento em que se começa
algo novo por meio de uma ação política, a preocupação passa a não ser mais com o eu, mas com
o mundo”

Em 1999, segundo Cordón (em entrevista), tem início uma disputa de poder dentro da ação
coletiva, quando o movimento academicista começa a crescer dentro da ação coletiva,
Fundamentalmente como fruto dos doutores da London Universitypian. “É um grupo muito bom,
mas ideologicamente incorretos, diria eu. Apesar das suas teses estarem ligados a problemas
nacionais, se distanciaram da realidade do Brasil. Eles têm uma postura progressista, entretanto,
é funcionalista, respondendo aos interesses não da maioria da população e sim de uma
corporação, a odontologia”. Segundo Cordón há uma postura diferente à postura neoliberal, mas
que só se difere no sentido da construção das políticas sociais especificamente sobre saúde bucal
e não de políticas amplas sociais. Cordón afirma que este movimento academicista “admite que
há a necessidade de uma construção diferente para as políticas de saúde bucal43 e dentro desta
perspectiva de saúde bucal admitem que tem que ser integralizadores e holísticos, mas não
assumem uma ruptura com o neoliberalismo total”.

Já Narvai (em entrevista) não consegue identificar uma divisão entre representantes da Saúde
Bucal Coletiva e do academicismo dentro da Ação Coletiva e apresenta que um dos temores que

43
Cordón durante a entrevista enfatiza a palavra “bucal” destacada no texto como forma de demonstrar que esta
perspectiva restringe a atuação da Saúde Bucal Coletiva a uma atuação exclusivamente odontológica. O autor,
ironizando, afirma que: “um dos problemas é que eles não vêm a totalidade social, e se o neoliberalismo não dá
opção para trabalhar, vamos falar somente do açúcar e como ele influencia na qualidade de vida.”
85

se tinha sobre a criação da entidade é exatamente que essa entidade viesse a ser objeto de disputa
política, por entender que essa vontade de participação deviria se dar disputando o espaço
político nas entidades odontológicas e de saúde pública coletiva “e não nós lutando conosco
mesmos, disputando politicamente entre nós. Isso me parece um desgaste inútil, pouco
construtivo”. Mas será Peres (2000) que trará a público estas questões no editorial da própria
revista:

“Caros leitores, em setembro de 1999, no Rio de Janeiro, durante o


encontro nacional de Administradores e técnicos do serviço público
odontológico (ENATESPO) e Congresso brasileiro de Saúde Bucal
Coletiva, ocorreu uma assembléia dos sócios da Associação Brasileira
de Saúde Bucal Coletiva. Dentre os pontos discutidos mereceu
destaque o dedicado à revista Ação Coletiva. Na oportunidade, fez-se
o balanço da suas atividades enfatizando-se o êxito da mesma, fruto da
dedicação de muitos associados. Considerou-se entretanto que a
revista deveria ser reformulada, passando de um órgão de divulgação
para um periódico (...) A escolha do novo nome, Revista Brasileira de
Odontologia em Saúde Bucal Coletiva, é justificada por termos como
objetivo principal editarmos uma revista destinada a divulgar a
produção científica da especialidade Odontologia em Saúde Coletiva”.
(p. 04)

Ao deixar de ser um órgão de divulgação da associação brasileira de Saúde Bucal Coletiva e


passar a ter como objeto principal a divulgação da produção científica da especialidade
Odontologia em saúde Coletiva, faz-se também uma opção ideológica, que inevitavelmente é
contraditória à proposta da Ação Coletiva. Não se trata absolutamente de meras questões de
sintaxe, já que é mesmo Narvai (1994) que nos demonstra a diferença entre saúde bucal e
odontologia: “Saúde bucal e odontologia são expressões aparentemente muito próximas mas que
não se referem, absolutamente ao mesmo objeto”. Assistência odontológica refere-se ao
conjunto de procedimentos clínico-cirúrgicos dirigidos a consumidores individuais, doentes ou
não. A atenção em saúde bucal é constituída, por outro lado, pelo conjunto de ações que,
incluindo a assistência odontológica individual, não se esgota nela, buscando atingir grupos
populacionais por meio de ações de alcance coletivo com o objetivo de manter a saúde bucal. E
explicando a necessidade da construção de uma nova referência teórica, afirma que “não se
poderia ser a mesma coisa falar em ‘odontologia coletiva’ e ‘Saúde Bucal Coletiva’.” Assim, foi
sendo afirmada gradativamente a expressão Saúde Bucal Coletiva para afirmar uma prática
sanitária que reivindicava origem distinta das odontologias, bem como outras articulações e
86

compromissos”. Será que não haveria, conforme sugere Cordón, uma disputa de poder e, mais,
uma disputa de paradigmas com ideologias diferentes?

7.3 Federação Interestadual dos Odontologistas (FIO) e Sindicatos

Nos anos 80, com a redemocratização do Brasil e o desaparecimento do controle autoritário


sobre as entidades sindicais, os sindicatos foram ganhando uma maior independência política e já
no começo dos anos 80 foram criadas importantes centrais sindicais como a CUT e, mais no final
dos anos 80 foi criada a Força Sindical, além de outras centrais que também passaram
posteriormente a existir como a CGT. Foi nesse cenário de liberdades sindicais e democráticas
que o dentista também se organizou de forma sindical.

A Federação Interestadual dos Odontologistas (FIO) é uma entidade que agrega os sindicatos
mais combativos da categoria. Surgiu a partir de uma ruptura com a Federação Nacional dos
Odontologistas (FNO), a partir de um grupo que discordava do caráter pouco democrático da
Instituição, mas já surgiu com um objetivo diferente, além de defender os interesses dos
cirurgiões dentistas, a FIO está atuante nas lutas mais gerais da sociedade, unindo os dentistas
em torno das lutas dos demais trabalhadores. Filiada à CUT, a Federação é atualmente um
importante instrumento de luta pela Saúde Bucal Coletiva.

Segundo Manfredini afirma em entrevista, a FIO teria tido origem a partir do MBRO e refletia a
luta dos trabalhadores em saúde bucal que buscavam a democracia naquele momento no país.
Para o autor: “tínhamos setores ligados ao PT, ao antigo PCB, ao PSB, ao MDB, que tinha uma
formação bem diferente da que tem hoje e setores ligados ao que hoje é o PSDB. Mesmo assim,
com toda essa divergência política mais geral, companheiros dos dois campos conseguiam
conviver dentro da FIO”. Segundo Narvai (em entrevista), nos anos 80 se discutia muito em
entidades de odontologia o que seria um sindicalismo odontológico dentro de um contexto
democrático. E vários sindicatos que foram criados durante esse processo eram entidades que
não praticavam e não concordavam com as práticas autoritárias das entidades existentes e,
sobretudo, não se viam reconhecidos pela Federação Nacional dos Odontologistas. Esgotadas
todas as possibilidades de democratização da FNO e fechadas todas as portas, algumas lideranças
87

odontológicas entenderam que a FNO deveria ser deixada de lado e deveria ser construídas uma
outra federação, essa sim democrática, com um estatuto e práticas política e sindical
democráticas, foi então criada a FIO.

Narvai, comentando em entrevista esse processo, identifica que havia uma certa ilusão de que as
entidades odontológicas sindicais autoritárias, seriam entidades que também se democratizariam
e que convergiriam para a nova federação, abandonando a velha entidade, que não representaria
mais algo relevante. Essa avaliação, no entanto, segundo o próprio autor, era equivocada. É fato
que setores expressivos da odontologia são conservadores, isso quando não são abertamente
reacionários e que, portanto, certos tipos de entidades e de dirigentes expressam esses tipos de
interesse, que segundo ainda Narvai, não são lideranças artificiais, mantém seus poderes porque
legitimam os interesses de parte da categoria profissional.

A FNO portanto sobreviveu, tem uma importante força política e representa os interesses de
sindicatos de diversas partes do Brasil. Do outro lado está a FIO, tentando se viabilizar
politicamente e representar outros tipos de interesses, não expressos na FNO. Ainda que a FIO
não tenha se constituído como a única federação, como constata Narvai, ela é muito importante
para a representação dos interesses de parte da categoria profissional dos dentistas, que não tem
nenhuma identidade com FNO: “a FIO representa de modo adequado esses interesses.
Particularmente eu me vejo representado na FIO e acho que é uma das mais importantes
entidades odontológicas do Brasil. Tenho apoiado a instituição e suas medidas desde a criação,
ela conta com a minha confiança, o meu apoio político e é a entidade de classe com a qual eu
mais me identifico”.

A FIO vem tendo, portanto, um papel decisivo na luta pela democratização da saúde bucal na
sociedade brasileira já que considera o processo de estruturação do SUS uma luta do movimento
contra-hegemônico a um modelo político econômico predominantemente excludente. Fazendo
um balanço desde a VII Conferência, é a própria FIO que avalia as conquistas alcançadas e os
seus desafios atuais. Para a FIO (2000) passados quartoze anos da VIII Conferência Nacional de
Saúde, inicio do processo de construção do SUS, é possível constatar avanços: é significativa a
transformação sanitária e a criação do arcabouço jurídico institucional ocorrida”. Com a garantia
legal conquistada, o desafio passou a ser a transição do sistema desintegrado e centralizado para
um outro com comando único em cada esfera de governo.
88

Na avaliação da FIO a política neoliberal adotada pelo governo compromete a busca da


universalidade e a equidade no SUS, condenando a maioria da população brasileira a um sistema
de saúde precário:

“Nesse momento, o desemprego, a péssima distribuição de renda


(50 milhões de pessoas em estado de miséria), a fome e a
desnutrição e outros agravos, interferem nas condições de vida e de
saúde ressurgindo antigas e surgindo novas formas de adoecer e
morrer, caracterizando um quadro epidemiológico da maior
perversidade. Enquanto isto, os governos investem em saúde, no
setor público (universal, para toda a população), apenas R$ 300,00
per capita ano.” (FIO, 2000: p.02)

É importante ressaltar, que apesar das restrições apontadas pela FIO, “a luta pela implantação do
SUS está crescendo e tem alcançado vitórias, graças à ação decisiva de milhões de cidadãos
usuários, trabalhadores e gestores comprometidos com um projeto político popular e democrático
em defesa da vida.

A FIO participa ativamente da XI Conferência Nacional de Saúde 15 a 19/12/2000 – Brasília/DF


se apresentando por meio de faixas com mensagens que explicitavam a defesa do SUS e da
Saúde Bucal, com exposição de material e com expressivas intervenções nos debates, em
especial nos grupos de trabalhos, disseminando sua concepção sobre vários temas e apresentando
Propostas Gerais para o setor saúde e também algumas específicas da odontologia44. Segundo a
FIO (2001) foi avaliado que o SUS, apesar de todas as dificuldades em sua efetivação, significa
um grande avanço como política pública, tendo como princípios a universalidade, equidade,
integralidade da atenção à saúde, confrontando-se com o atual modelo econômico, cuja
racionalidade é voltada para o lucro e não para as necessidades sociais. E ainda que: “Malgrado
os avanços, avaliou-se que o gerenciamento do sistema ainda é precário, pois as decisões e ações
são muitas vezes vinculadas a interesses políticos”. Na plenária final da XI Conferência Nacional
de Saúde, os delegados representantes da odontologia conseguiram ver aprovadas várias

44
No boletim especial da FIO, lançado em Dezembro de 2000 para a XI Conferência Nacional de Saúde, a entidade
publica uma “Tese da área de Saúde Bucal” com o título “Saúde Bucal: um Direito de Cidadania”, onde apresenta
propostas para a democratização da saúde bucal, a efetiva incorporação do atendimento odontológico no SUS e a
elaboração de uma política de atenção universal em saúde bucal pelo Estado. (A publicação encontra-se disponível
para consulta nos anexos deste trabalho).
89

propostas na área de Saúde Bucal propostas pela FIO e discutidas durante o evento. Segundo a
FIO (2001a):

“O Relatório final da XI CNS passa a incluir bandeiras de luta da odontologia,


entre elas:
1) Fluoração das águas de abastecimento
A primeira delas diz respeito a fluoração das águas de abastecimento, em
todos os estados e municípios, como bens públicos essenciais à promoção da
saúde bucal. É necessário também que os órgãos de vigilância sanitária
controlem a qualidade da água, dos cremes dentais e de todos os produtos que
contenham flúor.
2) Programa Saúde da Família
Para que a incorporação da equipe de Saúde Bucal ao Programa Saúde da
Família seja efetiva, é necessário que cada equipe do PSF conte com um CD,
um THD e um ACD trabalhando em tempo integral (40 horas por semana), na
relação de uma equipe de Saúde Bucal para cada equipe do Programa. É
também fundamental que essa equipe de SB assuma a responsabilidade pelo
atendimento integral a todos os membros de todas as famílias atendidas.
3) Assistência em todos os níveis
Criar novas estratégias de atenção que não limitem a atuação dos sistemas de
saúde, locais e regionais, apenas a crianças em idade escolar é uma exigência
de cidadania. Para isso é necessário criar centros de referências de
especialidades. É fundamental a universalização do acesso aos serviços e, para
isso, é imprescindível aumentar a capacidade instalada da rede pública e
definir, em cada sistema local de saúde, as responsabilidades de cada uma das
instituições que o integram, montando adequados sistemas de referência e
contra-referência.
4) Equipamentos
Incentivar e promover todas as etapas da produção, no Brasil, de
equipamentos e insumos odontológicos de qualidade, capazes tanto de atender
à demanda interna quanto de competir no mercado mundial.
5) Novas faculdades
É necessário estabelecer critérios que considerem qualidade, estrutura física, a
necessidade social da população para abrir ou não novas faculdades, bem
como avaliar de fato as faculdades existentes, fechando-se aquelas que não
satisfaçam a formação profissional com qualidade.
6) Integração docente-assistencial
Estimular a colocação de convênios entre as universidades e as secretarias
estaduais e municipais de Saúde, garantindo que a integração docente-
assistencial se processe em consonância com as metas dos planos municipais
de saúde aprovados pelos respectivos conselhos e proporcionando o contato
direto dos estudantes da área de saúde com a realidade social”. (Id., p.03)
90

A FIO está ainda presente em momentos tensos de negociação entre forças progressistas e
representantes do capital. Apresenta propostas em simpósio sobre a regulamentação das
operadoras de planos privados de saúde e pressiona parlamentares para que avaliem bem as
conseqüências da MP nº 1.908-29, de 25 de novembro de 1999, que excluiu a odontologia dos
planos de referência à assistência à saúde: “os planos de saúde faturam mais de US$ 15 bilhões e
conseguiram derrubar a obrigatoriedade de inclusão da odontologia para não diminuírem sua
margem de lucro, deixando a população desamparada no seu direito constitucional de assistência
integral à saúde” (FIO, 2001b).

Uma importante reivindicação conquistada pela FIO (nesta ocasião representante de todas as
entidades de classe da odontologia) foi a criação pela Agência Nacional de Saúde Suplementar
de câmaras técnicas que tratarão de questões específicas da Odontologia, dentre elas: “o rol de
procedimentos, recorrências, registro das operadoras, relação com os prestadores de serviços,
revisão das faixas etárias e outras”. Outra presença marcante da FIO foi na assembléia Nacional
de especialidades odontológicas (ANEO) ocorrida entre 6 a 9 de setembro de 2001. Nesse
processo de discussão, a FIO entendeu que não seria interessante a criação de novas
especialidades, pois isso traria maior fragmentação da profissão odontológica. Outra
preocupação levantada e que norteou a posição assumida pela FIO tratou do papel do clínico
geral frente a possibilidade de surgimento de novas especialidades. Entretanto a criação de cinco
novas especialidades é aprovada na ANEO, que para CFO (2001b) foi avaliada “unanimemente
como um marco democrático na profissão”. Contudo essa percepção não parece ser unânime, já
que Narvai (em entrevista) apresenta críticas sobre a forma como a assembléia foi promovida
visto sua importância para discutir assuntos de relevância nacional:

“As assembléias preparatórias foram muito mal organizadas e


divulgadas, muitos ficaram sabendo das assembléias estaduais
depois que elas foram realizadas. Em SP, algumas contribuições
que foram concedidas à ANEO foram desconsideradas. Nós,
professores da faculdade de saúde pública encaminhamos uma
proposta em relação a saúde coletiva e a comissão organizadora da
assembléia simplesmente desconsiderou essa proposta. Aqui em
SP, não posso dizer que essa foi uma assembléia democrática. O
problema é que quem tomou conta da ANEO foram essas
associações mais conservadoras. Eu tive informações de que em
91

alguns estados, com o Paraná, essa falta de democracia na


condução das discussões foi marcante. Portanto, é evidente que
uma assembléia nacional, cujas etapas estaduais foram marcadas
pela exclusão e pela falta de democracia, está visceralmente
comprometida.”45

O Sindicato dos Odontologistas do Distrito Federal também não concorda com esta
unanimidade, já que em seu jornal SODF (2001) publica uma matéria com o título “Democracia
comprometida” onde o Sindicato critica à direção do Conselho Federal por ter definido critérios
pouco democráticos para escolha dos participantes: “as assembléias tiveram o direito de eleger
apenas um representante por estado e o CFO poderá convidar quantos profissionais quiser. É
óbvio que a correlação de forças será significativamente desigual, comprometendo a democracia
do processo”.

Os sindicatos filiados à FIO se diferem da preocupação principal da maioria dos sindicatos da


categoria, que ainda é a promoção de cursos, especialização, assessoria jurídica, o que segundo
Manfredini (em entrevista) foge da questão considerada por ele mais importante que é a luta
sindical da categoria. Para Cordón (em entrevista) os sindicatos filiados à FIO são compostos por
uma série de odontólogos que estão trabalhando dentro de uma perspectiva ideologicamente
progressista; “Não diria marxista porque não teve aquela formação e capacitação política que se
necessitava” afirma o autor. Essa capacitação política veio acontecer no ano de 2001 por meio
da Federação Interestadual dos Odontologistas (FIO) e sindicatos filiados e a partir do
engajamento da Saúde Bucal Coletiva dentro da CUT. Segundo Cordón, o curso formou pessoas
em diversos estados brasileiros e de acordo com a própria FIO (2001), “este curso de capacitação
de lideranças sindicais capacitou os atuais dirigentes da FIO e dos sindicatos filiados para uma
atuação mais profissional à frente das lutas da odontologia”. Segundo Cordón (em entrevista) os
temas fundamentais eram: “o papel do sindicato; a conjuntura atual brasileira e os processos
sociais em evolução; como se insere e qual o papel da odontologia nos meios sociais de
produção; quais são as características da prática de saúde bucal dentro da conjuntura nacional; e
ainda um estudo das políticas sociais do Estado e a construção de propostas de envergadura
diferente”. Segundo Cordón a intenção desse curso “é discutir e capacitar pessoas no pensamento
Marxista, para que possam interpretar o mundo, interpretar a realidade, a cultura social,

45
Paulo Capel Narvai em entrevista ao autor deste estudo.
92

levantando uma discussão sobre as políticas sociais, sobre o que é o sindicato, como ele é
formado e qual é a sua força e sua relevância dentro da sociedade”.

Fazendo uma ampla análise do sindicalismo no Brasil e, portanto, contextualizando as lutas


sindicais da categoria odontológica no âmbito sócio-político e econômico atuais, ainda
Manfredini opina:
“Acho que de maneira geral os sindicatos no Brasil ainda estão
muito centrados nas lutas específicas e pouco nas lutas gerais. No
fundo o sindicato tem que ser corporativista, tem que defender o
agrupamento, mas o sindicato no Brasil é muito centrado na
questão de fazer essa a defesa e muitas vezes não trabalha questões
mais gerais, como por exemplo, a redução da jornada de trabalho. É
importantíssimo que se façam lutas mais gerais também, como a
defesa de qualidade de vida. Por exemplo a gente vê pouquíssimas
ações de sindicatos de trabalhadores em defesa do SUS. Vejo que o
movimento sindical tem trabalhado muito pouco cm as questões
gerais. Mas também é preciso considerar que desemprego, arrocho
salarial sempre são fatores que contribuem com o desmantelamento
dos sindicatos. Esse é um fenômeno que a gente está observando
aqui no Brasil. A redução da influência política dos sindicatos
também tem relação com esses fatores mais gerais.”46

Alguns sindicatos no Brasil mantêm ainda hoje um grupo minúsculo que comanda
ditatorialmente, como é o caso do sindicato dos dentistas de São Paulo. Para Manfredini (em
entrevista) o sindicato dos dentistas de São Paulo é muito conservador, basicamente não
representa os segmentos assalariados da categoria, tem uma representação de cunho liberal. E
Narvai (em entrevista) remontando o processo histórico lembra que este grupo está lá desde antes
do golpe militar: “é um grupo minúsculo que se alterna na presidência e que ultimamente nem
tem se dado ao trabalho de alternar a presidência. É um processo vergonhoso de apropriação de
entidades por parte de meia dúzia de elementos cuja qualificação é muito questionável mas que
por articulações políticas vêm se perpetuando.” É importante todavia ressaltar que isso não
acontece só nos sindicatos de dentistas, acontece em muitos outros, onde alguns elementos de
determinada categoria profissional viram burocratas sindicais, profissionais do sindicalismo.

Entretanto não podemos desconsiderar a complexidade da sociedade brasileira, e portanto carece


agora apresentar sindicatos da categoria odontológica que têm uma história de luta pelos valores
democráticos e que permanecem firmes na tentativa de construir um futuro com melhor

46
Marco Manfredini em entrevista ao autor desse estudo.
93

qualidade de vida para a população. Pudemos identificar ao menos três sindicatos relevantes,
todos filiados à FIO. São eles o SODF, o SOEGO e o SINODONTO, cujas ações vamos analisar
daqui por diante.

De acordo com o Sindicato dos Odontologistas do Distrito Federal (SODF) a história da entidade
passa pela formulação de políticas de saúde bucal; luta pela implantação e defesa dos serviços
públicos odontológicos; organização dos convênios e credenciamentos e da equipe de saúde
bucal; participação na organização das Conferências de Saúde Bucal e Conferências Nacionais
de Saúde; participação no movimento das Diretas Já, impeachement do Collor; luta pela reforma
agrária, Gritos dos Excluídos, dentre outros movimentos que visam fortalecer sociedade
brasileira e a Odontologia. Segundo o SODF (2001a) constituem-se no principal objetivo do
sindicato: “a conquista permanente de novos espaços, buscando dignificar a profissão e fazendo
a nossa história na construção de um país em que todos tenham direito a uma vida de qualidade”.

Um dos seus mais importantes meios de divulgação é o jornal do sindicato, que se constitui
também em um instrumento de pressão nas prefeituras em defesa de princípios do SUS, como
podemos verificar no trecho de uma matéria do jornal (SODF, 2001b): “o Sindicato insiste que a
Secretaria de Saúde finalize os contratos temporários em vigor e contrate os cirurgiões-dentistas
aprovados em concurso. A prioridade de atuação na rede deve ser dos profissionais concursados,
e não dos contratados para retribuir favores políticos”. Ou ainda, quando denuncia a falta de
equipamentos e material de consumo para se trabalhar nos postos de saúde, uma realidade
constante em diversos municípios do país: “por mais inacreditável que pareça, ainda não foi
concluído o processo de licitação para a compra de cadeiras e outros equipamentos em falta na
rede. A licitação começou há dois anos e meio e não há justificativa convincente para tanta
demora. Mais grave ainda é a falta de material de consumo, provocando a suspensão do
atendimento na rede.”

Com uma práxis um pouco mais corporativista e partindo desta concepção para a defesa dos
direitos da população, O Sindicato dos Odontologistas do Estado do Espírito Santo
(SINODONTO 2001) apresenta os seus objetivos: “promover a melhoria nas condições de vida e
de trabalho dos seus representados; defender a independência e autonomia da representação
sindical; atuar na constituição, manutenção e defesas das instituições democráticas brasileiras;
94

bem como estimular e promover a formação político sindical dos seus representados; apoiar a
organização e luta dos trabalhadores pelos seus objetivos imediatos e históricos, na perspectiva
de construir uma sociedade mais justa e solidária”. Esta é uma entidade em busca de sua função
social e da construção de uma identidade crítica, o que podemos perceber na reflexão encontrada
na coluna de opinião do SINODONTO realizada por Oliveira (2001):

“O momento atual impõe reflexões profundas e decisões rápidas


acerca dos problemas da classe. Necessitamos de uma entidade
representativa da classe, com poder de negociação e decisão. Esses
momentos difíceis exigem questões que merecem reflexões:
Quanto nos custa manter a estrutura de um CRO? Qual o
orçamento dos Conselhos? O que pode fazer o CRO? Nada, a lei
não permite fazer absolutamente nada. Permite apenas punir o CD.
Sobre estas e outras perguntas devemos refletir e também mudar
nossa atitude. Afinal, tudo muda!”47

É um limite muito tênue o existente entre o corporativismo de classe e o sindicalismo, devemos


partir das lutas da classe para as lutas mais amplas na sociedade, ou ao contrário? Independente
de por onde se inicie, p importante é ter definido muito claramente qual o papel dos sindicatos e
sua relevância para a sociedade. Para Barbosa (2001) são inúmeras reivindicações da categoria
odontológica, as quais não podem ficar subordinadas a eventuais disputas que sejam para atingir
objetivos externos a Odontologia: “Enfim, é a sua participação que irá construir com força a
verdadeira cidadania odontológica. Somente a participação de todos é que pode garantir o
respeito à nossa profissão e atingirmos novas conquistas”. Desta forma o autor associa o termo
cidadania odontológica a uma luta coorporativa, pelos direitos da classe odontológica. Quais são
as novas conquistas? Conquistas limitadas à classe odontológica?

Quando prioriza as reivindicações dos dentistas em detrimento às disputas para atingir objetivos
externos à odontologia Barbosa revela uma percepção fragmentada do universo social,
diferenciando o cidadão cirurgião dentista do cidadão brasileiro. Este ‘gap’ não existe somente
para o autor, mas é presente no discurso de muitas entidades de classe, que utilizam o poder de
sua organização para servir aos parcos interesses da própria odontologia, em detrimento da
totalidade social. Os objetivos externos à odontologia deveriam ser considerados prioridades de
luta, principalmente no que tange a saúde bucal da população brasileira. Aliás, de quem é a

47
OLIVEIRA, Carlos – Mudança de atitude – captado da coluna de opinião, disponível via
www.sinodontoes.org.br/opina.htm em outubro de 2001.
95

responsabilidade pela saúde bucal da população brasileira senão em primeira mão da própria
odontologia, mesmo que obviamente dependa de fatores externos a ela? Quem vai alavancar a
luta por saúde bucal enfim, senão a odontologia?

O sindicato é uma organização corporativa, que tem a intenção de defender os direitos dos
cirurgiões dentistas, mas o que podemos observar, é que se o sindicato deveria ter uma
preocupação também com a população e representar tanto os profissionais liberais como os
assalariados, principalmente no serviço público. O sindicato deveria estar lutando por um país
melhor, pois está participando no cotidiano da construção do Sistema Único de Saúde. Neste
caso, os interesses da odontologia passam a ser o interesse da maioria da população, já que
fundamentalmente está buscando atendimento de melhor qualidade para a população e percebe
que sua responsabilidade social vai muito além dos limitados campos da odontologia, mas faz
parte de uma totalidade social, e assim se unem a luta geral dos trabalhadores, atuando
ideologicamente como instrumentos de resistência diante da dominação.

E é neste mesmo perfil que atua o Sindicato dos Odontologistas do Estado de Goiás, mostrando a
importância da política no fazer cotidiano. Podemos constatar essa afirmação por meio do
editorial do jornal SOEGO (2000a): “ao contrário do que muitos brasileiros propagam, por pura
desilusão, temos sim, tudo a ver com política. Da mesma forma a odontologia, que depende de
decisões dos poderes Executivo e Legislativo para ser viabilizada”.. E ainda o editorial de 2001,
denominado “a hora da mudança” onde buscam fazer uma reflexão sobre as dificuldades
impostas pela política neoliberal ao movimento sindical e afirmando que:

“É exatamente por isso que o movimento sindical vive um


momento de recuo estratégico no Brasil e no mundo. Como
resultado das políticas nefastas da globalização, que exacerba a
competitividade e visa somente o lucro, temos a precarização das
relações de trabalho e a imposição aos trabalhadores do terror de
perder seu único meio de sustento: o trabalho. Nós, cirurgiões-
dentistas sonhamos com o dia em que a população tenha acesso
universal e integral à saúde bucal. A concretização desse sonho
passa pela luta em defesa dos interesses nacionais, das riquezas
naturais, do patrimônio público e de uma justa distribuição de
renda. O sindicato é um instrumento importante nesse processo,
bem como para defender a odontologia pública, com valorização
profissional, salários justos e condições dignas de trabalho e pela
viabilização da odontologia privada. É preciso acreditar na
96

mudança, mas antes de tudo é preciso lutar por ela!” (SOEGO,


2001: p. 02)

A despeito de todas as dificuldades encontradas, o SOEGO consegue avançar em alguns pontos,


como a iniciativa de discutir a situação de saúde bucal no serviço público em Goiânia, visando
garantir a universalidade e a integralidade do atendimento de saúde bucal, conseguindo a
incorporação da Saúde bucal ao documento final da 5ª Conferência Municipal de Saúde de
Goiânia, que norteará o plano diretor da saúde na gestão municipal. Uma outra iniciativa foi
participar da formação dos futuros dentistas nas faculdades de odontologia. Segundo o próprio
SOEGO (2000b) para: “pincelar um pouco da realidade da odontologia e preparar para a luta os
futuros cirurgiões-dentistas” abordando assuntos como a quantidade de dentistas que se formam
todos os anos, luta por salários dignos, formação profissional, grade curricular, desafios do
mercado de trabalho, convênios e credenciamentos e planos de saúde. Ainda para SOEGO
(2000b) “os alunos participaram com perguntas e se mostraram surpresos com a realidade do
setor público e do setor privado.”

Ainda segundo SOEGO (2000b), foi criado pelo sindicato o “Fórum de Odontologia no Serviço
Público”, formado por integrantes de entidades odontológicas, conselhos de saúde, universidades
e movimento popular. O fórum foi criado com os seguintes objetivos: “contribuir para a
desmonopolização do saber e contextualização da formação profissional; estimular pesquisas que
atendam as necessidades dos serviços e subsidiar a elaboração de políticas públicas de acordo
com os princípios do SUS”.

Vimos, portanto, que política e odontologia não estão, ou ao menos não deveriam estar
dissociados, porque se a preocupação da odontologia for, como deveria ser, a saúde bucal da
população, é impossível hoje não intervir politicamente, já que a saúde bucal vai muito além do
que pode a odontologia fazer sozinha. Depende da engenharia, depende dos sanitaristas, depende
dos políticos, depende da distribuição de renda, da melhor qualidade de vida da sociedade
brasileira, porque saúde bucal é somente um reflexo da qualidade de vida, é tão impossível ter
qualidade de vida sem saúde bucal como ter saúde bucal sem qualidade de vida. Sobre esta
relação Cordón & Garrafa apud Narvai (1994) afirmam que: “a questão da saúde bucal da
população brasileira tem sido deliberadamente reduzida a uma mera questão odontológica.
97

Quando significa muito mais do que isso: um problema social coletivo e, portanto, de
responsabilidade da própria sociedade e não um monopólio dos cirurgiões-dentistas.”

De acordo com Santos (2000), a tirania do dinheiro e a tirania da informação são pilares da
produção da história atual do capitalismo globalizado. Assim: “a associação entre a tirania do
dinheiro e a tirania da informação conduz, desse modo, à aceleração dos processos hegemônicos,
legitimados pelo ‘pensamento único’, enquanto os demais processos acabam por ser deglutidos
ou se adaptam passiva ou ativamente, tornando-se hegemonizados”. O autor conclui afirmando
que os processos não hegemônicos tendem seja a desaparecer fisicamente, seja a permanecer, de
forma mais subordinada, exceto em algumas áreas da vida social e em certas frações do território
onde podem manter-se relativamente autônomos, isto é, capazes de uma reprodução própria.
Entretanto, analisando a possibilidade (e a necessidade) de intervenção em nível de aparelho de
Estado como parte de uma estratégia de transformação da sociedade brasileira, Botazzo (1999)
ressalta que: “o aparelho de estado é constituído por formas organizacionais e instituições tão
dispares como são os sindicatos 48 e os partidos políticos, os bancos, a fábrica, o hospital, o
hospício e a prisão, o tribunal, o juiz e a justiça, o parlamento, o executivo e a administração
pública, toda a saúde etc, etc.”

Assim, se poderia também admitir, segundo o autor, citando Gorender, que “não é o Estado,
como pensava Hegel, que cria a sociedade civil; ao contrário, é a sociedade civil que cria o
Estado”. De acordo com Touraine (1997) a vida social é constituída por lutas e negociações que
se organizam ao redor da realização social e das orientações culturais cujo conjunto forma o que
se chama de historicidade. Todavia, Santos (2000) afirma que “uma filosofia banal começa por
se instalar no espírito das pessoas com a descoberta, autorizada pelo cotidiano, da não-autonomia
das ações e dos seus resultados”. Segundo o autor, este é um dado comum a todas as pessoas,
não importa a diferença de suas situações, mas outra coisa é ultrapassar a descoberta da diferença
e chegar à sua consciência. “Isso todavia não é tudo”, afirma Santos, pois “a consciência da
indiferença pode conduzir simplesmente à defesa individualista do próprio interesse, sem
alcançar a defesa de um sistema alternativo de idéias e de vida”.

48
Grifos meus
98

Um desafio que portanto se coloca para o movimento sindical, inclusive em odontologia, é


ultrapassar as soluções imediatistas e alcançar a busca política genuína e constitucional de
remédios estruturais e duradouros para a sociedade brasileira. Narvai afirma, em entrevista com
o autor deste trabalho, que “muitas pessoas não querem participar do processo político pra não se
contaminar, aspas, ‘com a corrupção’, ‘com essas coisas hediondas que os políticos fazem’ e
acham que não se envolvendo com a política, se mantendo apolíticos ou neutros, estão
preservados.” E tenta desconstruir esta idéia apontando que na verdade as pessoas participam por
ação ou por inação no processo político, mesmo quando elas não agem, mesmo quando
pretendem essa neutralidade ou essa não participação. Para Narvai “a não participação política é
uma forma de participação política, porque somos seres políticos por natureza, e estamos sob
poder político sempre, e esse afastamento das pessoas faz com que muitos dentistas vejam a
política como coisa feia”. De acordo com o que Narvai coloca na entrevista, é uma tarefa política
permanente dos que se identificam com a Saúde Bucal Coletiva desmontar essa ideologia e
chamar as pessoas, inclusive os dentistas, para participação política e para que assumam os seus
compromissos e suas responsabilidades de cidadãos.

8. EXPERIÊNCIAS DE ORGANIZAÇÃO DOS SERVIÇOS

“Às vezes nós nos supomos donos do mundo, e temos a coragem de tentar
erguer uma aspiração capaz de atingir toda a humanidade. Construímo-la
com as forças mais puras do nosso espírito, animamo-la com o sangue das
mais nítidas esperanças, e apresentamo-la como a melhor parte de nós
mesmos, edificada no silêncio e na sombra, fortalecida de todos os
impulsos excelentes, digna de aparecer na vida sem vacilações. Porque
temos a boa-fé imensa dos que acreditam que a humanidade deseja
evoluir, e recebe com alegria todas as oportunidades de progresso”.
(Cecília Meireles em: Diário de Notícias, 6 de Janeiro de 1931)

Vamos agora apresentar algumas experiências práticas construídas a partir do referencial teórico
da Saúde Bucal Coletiva. A tentativa é mostrar a viabilidade de um outro modelo de organização
dos serviços, e uma proposta de inclusão da assistência odontológica no contexto da atenção em
saúde bucal. Ficarão expostas ainda as dificuldades e resistências encontradas às mudanças
99

sugeridas, mas principalmente o caráter coletivo da construção deste modelo, ou melhor, que não
se dogmatize como um modelo, mas como uma experiência a mais dentre as dezenas que estão
sendo democraticamente construídas em todo o país.

O que queremos demonstrar é que a práxis do homem, na sua essência, não é atividade prática
contraposta à teoria; é determinação da existência humana como elaboração da realidade, uma
construção histórica. É nesse sentido que se torna essencial para a defesa da proposta da Saúde
Bucal Coletiva registrar alguns resultados desse novo projeto, ilustrando, embora sem chegar a
detalhes de sua construção49, a diversidade de mudanças observadas nos serviços, as tendências
de construção de modos de gestão mais democráticos e uma prática profissional mais coerente
com a realidade. Embora com muitas falhas e limitações, é certo, essas experiências representam
para Narvai (1994) uma proposição de práxis que pretende superar uma odontologia
desenvolvida à luz dos pressupostos de mercado. Partindo do princípio de que saúde bucal é uma
categoria muito distinta de odontologia, o movimento da Saúde Bucal Coletiva toma a saúde
bucal como determinante para a implantação e desenvolvimento de práticas coletivas de saúde,
capazes de operar a ruptura com o modelo hegemônico de prática odontológica, afim com
projetos neoliberais. Como destaca Narvai (1994): “é explícita a vinculação da Saúde Bucal
Coletiva a projetos de sociedade opostos aos projetos neoliberais”.

Entretanto, para Botazzo (1994), estabelecer esse referencial e essa ‘outra prática’ é o desafio
que está posto ao conjunto dos trabalhadores da saúde e aos da saúde bucal de modo particular.
Para o autor este é um desafio que “historicamente só poderá ser resolvido no campo da Saúde
Coletiva.” Talvez o primeiro grande desafio constitui-se em romper o monopólio da boca, que “a
odontologia tomou exclusivamente para si”. Continuando com Botazzo (1994) percebemos que
romper esse monopólio implica propor simultaneamente a divisão técnica do trabalho
odontológico e substituir o trabalho individual do dentista pelo da equipe de saúde bucal. Ainda
deve ser considerado que conteúdos odontológicos devem não apenas ser incorporados por

49
Para os que tiverem interesse em detalhes na construção da proposta ver:
a) MANFREDINI, Marco – Abrindo a boca: Reflexões sobre bocas, corações e mentes – in: Campos,F.;
Henriques, C. Contra a Maré à Beira-mar. Scrifta Ed., p: 51-60, 1996.
b) MANFREDINI – Relatório de Gestão: Saúde Bucal no município de Santos (1993/ 1996) – Grupo Técnico de
Saúde Bucal, p: 01-07, Secretaria de Higiene e Saúde do Município de Santos, Santos, dezembro, 1996.
(mimeo) [Disponível para consulta nos anexos desse trabalho.]
100

outras práticas de saúde mas também dissolvidos na cotidianidade das práticas que se dão nos
espaços socialmente reconhecidos.

Para Botazzo (1994) isto não significa a descaracterização da odontologia enquanto prática de
saúde específica, significa apenas: “aproximar-se das outras práticas, significa ‘perder-se’ no
turbilhão do movimento sanitário para encontrar-se revitalizada, fertilizada por outros saberes e
reaparecer não mais como odontologia, mas como parte da saúde coletiva, no interior da qual
deverá ser operacionalizada a modernidade da sua prática”. Cabe ainda explicitar a relevância da
técnica, contanto que esteja sempre dentro de um contexto mais amplo, inserida de forma
coerente numa política pública de saúde que se preocupe em partir da realidade concreta da
população brasileira para a transformação da própria prática odontológica. É novamente Botazzo
que nos traz a este debate quando caracteriza qual seria a responsabilidade da saúde bucal
coletiva neste contexto:

“A saúde ‘bucal’ coletiva deve direcionar-se para o social como o


lugar de produção das doenças bucais e aí organizar tecnologias que
visem não a ‘cura’ do paciente – naquela relação individual-biológica
– mas sim a diminuição e o controle dos processos mórbidos tomados
em sua dimensão coletiva”. (Botazzo, 1994: p. 58)

Segundo o mesmo autor, “não faz sentido curar um paciente hoje, o qual demandará ‘curas’
sucessivas, se entendermos que o risco de adoecer é social e não biológico”. Não se pretende
negar a evidência de que as pessoas necessitam de ajuda do especialista em suas carências, mas
tão somente sinalizar para uma mudança no enfoque do problema. A saúde ‘bucal’ coletiva, por
isso, não nega a especificidade da odontologia como prática de saúde. O que está sendo
considerado por Botazzo (1994) é que, “ao abrir-se para outros saberes e incorporar outras
práticas à sua – e simultaneamente sendo incorporada por outras práticas - a prática
odontológica deixará de ser campo restrito e exclusivo de intervenção do cirurgião-dentista”.50

O que vamos analisar a seguir, são experiências de uma prática odontológica e práticas de gestão
da saúde bucal numa linha de promoção da saúde e construídas coletivamente, a partir do
referencial teórico e metodológico da Saúde Bucal Coletiva. Narvai afirma, em entrevista, que
destacam-se as experiências dos municípios de Santos e São Paulo. Segundo o autor, ambos com
uma trajetória interessante em relação aos serviços. Também para Cordón (1998), ganha

50
Grifos no original
101

destaque, pela natureza do desafio técnico político, a experiência na área de saúde bucal, do
município de São Paulo no período de 1989 à 1992 e a do município de Santos de 1989 à 1996.
Botazzo (1994) afirma que este foi um período extremamente fértil e criativo e lembra que
“esses movimentos todos ecoavam nos serviços, alimentavam polêmicas e práticas de
resistência/aderência à mudanças e retornavam como desafios político-organizativos”.

Segundo Narvai, também em entrevista, alguns exemplos de municípios que trabalham segundo
o referencial da Saúde Bucal Coletiva são: São José dos Campos-SP, Blumenau-SC, Chapecó-
SC, Recife-PE, Goiânia-GO e Mauá-SP. Além das coordenações estaduais de saúde bucal do
Acre e do Rio Grande do Sul. Para o autor: “há vários municípios que trabalham basicamente
segundo o referencial da Saúde Bucal Coletiva, ainda que, claro, não o explicitem, ou mesmo
não o conheçam”. Considerando a diversidade dos processos históricos dos municípios
brasileiros em relação à construção do SUS, Cordón (1998b) afirma que alguns municípios
apresentam maior desenvolvimento que outros. “Alguns têm realizado avanços conceituais e
práticos em Saúde Bucal Coletiva que outros não têm conseguido”. Para o autor, isso cria um
mosaico de processos em andamento, difícil de serem avaliados comparativamente, sob pena de
desrespeitar momentos conjunturais ou históricos diferentes para cada espaço social onde se
constrói o SUS, e, deste modo, ergue-se o marco conceitual da Saúde Bucal Coletiva.

Cordón (1998b) afirma que “não se trata mais de esperar que Brasília decida o que cada
município deve ou não fazer”. Portanto o maior desafio posto pela política àqueles que têm de
tomar decisões em âmbito municipal é, ainda para o autor: “pensar com o próprio cérebro sua
própria realidade, identificando e organizando forças políticas capazes de dar sustentação às
propostas de políticas públicas que incluam entre os seus objetivos alterar a situação de saúde
bucal”. Neste sentido, uma experiência relevante que vem se desenvolvendo atualmente é o caso
do município do Rio de Janeiro, onde em fevereiro de 2001 tem início uma nova coordenação de
programas de saúde bucal. Após um ano desta gestão é possível verificar alguns avanços que
vêm sendo consolidados dentro da perspectiva da Saúde Coletiva, construindo de forma criativa
uma nova forma de organização dos serviços e mesmo da atenção em saúde bucal.
102

Algumas metas desta coordenação, segundo Giongo 51 , são: estabelecer junto à vigilância
sanitária, câmara de vereadores e instituições de interesse mecanismos de controle e
acompanhamento dos teores de flúor na água de abastecimento público; e implantar o programa
interdisciplinar de saúde bucal – Dentescola - para alunos da rede municipal de educação,
incluindo creches e escolas (cada Unidade Básica de Saúde fica responsável por 10 escolas e 5
creches em sua região), realizando atividades de promoção, prevenção e controle das doenças
bucais, como escovação supervisionada, fluorterapia, tratamento restaurador atraumático 52 ,
educação em saúde e cidadania e distribuição trimestral de escova, creme e fio dental. Ainda
segundo Giongo, com a diminuição da demanda de atenção às crianças, haverá uma ampliação
no acesso às ações programáticas de saúde bucal aos grupos até então não prioritários, ou mesmo
excluídos, como os adolescentes, os adultos e os idosos. Para esta expansão de atendimento serão
criados centros de referência de média complexidade de forma descentralizada. Com a mudança
das características do público alvo atendido (que deixa de ser o materno-infantil e passa a ser de
adultos) torna-se necessário a realização de um curso de capacitação com todos os profissionais
da rede para o atendimento do adolescente, adulto e idoso na perspectiva da promoção de saúde,
o que está programado para acontecer ainda no primeiro semestre de 2001.

Além do caso atual do município do Rio de Janeiro, tomaremos como exemplo neste trabalho, as
experiências do município de Santos e do município de São Paulo, mencionados por Narvai e
Cordón, e que na realidade se constituem no primeiro movimento de organização de serviços
construído a partir do referencial da Saúde Bucal Coletiva.

8.1 Município de Santos:

O processo de construção da política municipal de saúde bucal em Santos no período de 1989 a


1996, para Manfredini, (1996) guarda relação, fundamentalmente, com dois eventos: a

51
Entrevista realizada em 06/02/2002 com Mirella Giongo, gerente de saúde bucal do município do Rio de Janeiro desde
fevereiro de 2001, na qual a mesma apresenta os resultados alcançados no primeiro ano de gestão e o processo em construção
para alcançar as metas programadas. [O texto do Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro que cria o programa dentescola
e as metas da Coordenação de Saúde Bucal do município podem ser consultados nos anexos deste trabalho.]
52
O tratamento restaurador atraumático – TRA – consiste na remoção do tecido dental cariado com instrumentos manuais e a
inclusão de uma substância contendo flúor (ionômero de vidro) que irá paralisar o crescimento da lesão, substituindo a
necessidade de restauração imediata.
103

estruturação do marco teórico-conceitual da Saúde Bucal Coletiva e a implantação de um sistema


público municipal na cidade. Houve em Santos naquele período, um grande investimento na
recuperação física da rede, com a instalação de novos consultórios e a criação de módulos
odontológicos. Com a aquisição de novos consultórios e a introdução de novos equipamentos
houve o aumento da capacidade resolutiva da rede. Anteriormente a rede tratava somente de
crianças e gestantes, mas naquele momento houve o início do atendimento à população adulta, o
que contribuiu para que houvesse uma maior pressão social no sentido da ampliação da rede
assistencial. Apesar de a pressão por saúde bucal na sociedade brasileira ser difusa e quase
sempre se restringir a reivindicação de acesso ao dentista, no caso de Santos, isso significou um
crescimento dos serviços especializados, fato que guarda relação direta com o ingresso do adulto
na rede de assistência.

Um elemento importante para a mudança da prática de trabalho em Santos foi a formação de


equipes de saúde bucal, onde o cirurgião-dentista não trabalhava mais isoladamente, mas com
Técnicos e auxiliares. Foi constatada a necessidade de se investir na capacitação desses
profissionais, devido a sua grande dificuldade de trabalhar em equipe e de compreender a
responsabilidade social de sua prática profissional. É relevante destacar a atitude dos auxiliares,
que, ao discutir a sua prática, e mudar a sua conduta profissional, redefinem sua inserção,
abandonando uma postura de subserviência e se assumindo como trabalhadores das equipes de
saúde bucal. Citam-se também como iniciativas inovadoras pelo poder público em Santos, a
implantação do sistema municipal de vigilância sanitária da fluoretação das águas em 1990 e a
realização de um programa preventivo que beneficiou 55 mil crianças e que assegurava a cada
uma delas distribuição gratuita de escovas e cremes dentais. Para Manfredini (1996) num país
em que são comercializados anualmente apenas 110 milhões de escovas dentais, para um
mercado anual potencial de 600 milhões, fornecer gratuitamente os insumos necessários para a
prevenção torna-se uma exigência para o sucesso de programações educativas.

Alguns dos resultados alcançados são mensuráveis e apresentados por Manfredini (1996a) no
relatório ao final da sua gestão frente à gerência de saúde bucal de Santos53. Nesse documento o

53
O relatório encontra-se disponível na íntegra junto aos anexos deste trabalho.
104

autor faz questão de deixar claro que ao optar pelo direito de acesso universal à assistência
odontológica, a Prefeitura de Santos assumiu diversas contradições inerentes ao próprio sistema,
como por exemplo a incapacidade de expansão dos serviços para atender a demanda real. Antes
de relacionar os dados com as conquistas alcançadas em Santos, Manfredini acrescenta o
seguinte comentário: “a lógica do sofrimento individual infelizmente some de nossas
estatísticas”. A despeito de todas as contradições, observam-se, de acordo com o relatório,
inúmeras realizações no período de 1989 à 1996, como: redução da prevalência de cárie (em
56% aos 5 anos e em 66% aos 12 anos de idade); manutenção do nível adequado de flúor nas
águas de abastecimento público; realização de campanhas para prevenção do câncer bucal; cerca
de 14 mil procedimentos efetuados por técnicos em higiene dental no período de 1994 a 1996;
implementação de diversos programas de formação de recursos humanos em serviço foram
implementados e, ainda, estimulou-se o controle social do sistema de saúde.

8.2 Município de São Paulo:

A Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo desenvolveu o processo de construção de uma


nova concepção de saúde bucal de acordo com Schneider; Peres & Calvo (1992). A opção pela
descentralização e por um planejamento ascendente a partir de algumas diretrizes políticas fez
com que esse processo guardasse relação intrínseca com diferentes realidades e possibilidades
loco-regionais. As equipes loco-regionais vêm sendo apreendidas como coletivos odontológicos
na medida em que se caminha para a direção da idéia de sócio-grupo. Para Botazzo (1994): “a
capacidade instituinte dos grupos sugere a imediata politização dessa existência, que uma
tecnocracia reivindica neutra”. Explicando o caráter transformador desta proposta, Botazzo
continua: “é nesta região em que o grupo se dá como micro-física que as macro-políticas –
expressão dos movimentos sociais e coletivos mais gerais – vão adquirir significado prático, vão
ser desenvolvidas e apoiadas, ou obstaculizadas e infertilizadas.”

Schneider; Peres & Calvo (1992) afirmam que ainda que esse fato gerasse desigualdades nos
diversos estágios de implementação da política de saúde nos vários distritos, a construção
coletiva junto à população e aos trabalhadores da saúde possibilitou maior consolidação dessa
concepção junto aos mesmos. De acordo com Cordón (1998b), configurou-se inicialmente um
modelo assistencial geral, para ser discutido em nível dos distritos sanitários, que seriam
105

implementados e onde se daria o espaço para idealizar, participativamente, um modelo para todo
município.

A partir desse processo democrático de discussão, chega-se à conclusão da necessidade de


intervenção sobre diversos determinantes das condições de saúde bucal em São Paulo. As
medidas requeridas extrapolavam a clínica odontológica e atingiam: os espaços coletivos; a
formação e desenvolvimento dos recursos humanos; a ação intersetorial, intersecretarial; o meio
ambiente e as relações sociais que, em última análise, determinam as condições de vida dos
grupos sociais. Para buscar atingir tais objetivos e dar resolução aos problemas levantados, foram
realizadas as seguintes ações: criação do sistema municipal de vigilância sanitária da fluoretação
de águas de abastecimento público; realização de ações coletivas em saúde bucal nas UBS;
realização de levantamento epidemiológico em saúde bucal, criação do sistema municipal de
informações em saúde (SIMIS); formação de recursos humanos de nível elementar e médio,
realização de concursos públicos para equipe de saúde bucal, convênios com faculdades de
odontologia oferecendo estágio; preocupação com um sistema de manutenção de equipamentos,
assistência odontológica ao adulto, criação do programa de saúde bucal do trabalhador e ainda
outras propostas que integravam os trabalhadores da saúde bucal nas discussões mais amplas
sobre saúde que aconteciam nos fóruns de discussão da Secretaria Municipal de Saúde de São
Paulo.

8.3 A Guisa de Comentários:

Ressaltam-se nestas experiências a articulação entre a política de gestão da saúde bucal e as


políticas públicas mais gerais. O reflexo desta articulação pode ser observado através da
integração da equipe de saúde bucal com outros setores nos próprios serviços. Um outro ponto
importante destas experiências é a própria formação das equipes de saúde bucal, incorporando e
valorizando a presença de técnicos e auxiliares no trabalho coletivo com os dentistas. O caráter
coletivo e aberto da construção das propostas de gestão, evitando modelos padronizados,
valorizam a discussão e a troca de saberes e o planejamento descentralizado nas unidades de
saúde, o que favorece a multiplicidade de idéias e iniciativas além da formação de grupos de
discussão que refletem sobre a própria prática e buscam uma forma de articulação com a
106

sociedade. Segundo Frazão (1994) é exatamente através da articulação intersetorial e do trabalho


com equipes interdisciplinares que se deve buscar permanentemente “a promoção de saúde, a
prevenção de enfermidades, o autocuidado e a participação comunitária na identificação de
problemas e definição de prioridades”.

Pudemos observar também com estas experiências, que manter uma rede aberta, com
resolutividade e qualidade, é o desafio posto para os municípios continuarem a caminhar em
direção à universalidade de atenção proposta pelo SUS. Com os baixos padrões de consumo de
serviços odontológicos privados no país, não será possível ao setor público, num curto espaço de
tempo, universalizar a assistência. E exatamente por esses motivos Manfredini (1998) salienta
que a defesa do SUS não pode ser apenas de natureza retórica ou composta por discursos onde se
juntam belas palavras de ordem, mas faz-se necessário a construção, na prática, de propostas
alternativas. Assim, afirma: “acredito no SUS pois já participei de momentos históricos em
localidades onde ele foi construído. E nestes locais, a saúde não foi tratada como mercadoria”. O
autor reafirma a importância, nesta perspectiva, do trabalho coletivo: “para a construção de nossa
prática todos são fundamentais já que a credibilidade do setor público, marca principal do nosso
esforço, não pode ser arranhada, afinal, se alguém não se envolve com o trabalho, a população
fica sem atendimento.”

Segundo Manfredini (1998) em vários municípios e estados, diversos programas inovadores têm
sido destruídos no momento de mudanças político-institucionais e isto ocorre devido à ausência
de movimentos sociais externos ao aparelho de Estado, que faz com que as programações de
saúde bucal sejam extremamente dependentes da política institucional.

De acordo com Frazão (1998), a implementação de distritos sanitários que respondam às


necessidades da população implica em organizar uma rede básica de saúde que possa resolver
70% a 80% dos problemas de saúde-doença das pessoas que procuram o SUS. Caberá a esta rede
participar de ações intersetoriais e desenvolver ações coletivas em saúde. isto no interior de
espaços e equipamentos sociais, na abrangência de cada Unidade Básica de Saúde. E afirma que:

“não há como deixar de admitir que somente com sistemas de


trabalho do tipo modular e a incorporação de pessoal auxiliar
odontológico, se obtém maiores chances de viabilizar em níveis
orçamentários suportáveis padrões mínimos de resposta aos 77% da
107

população que tem os serviços públicos como única possibilidade


de acesso”. (Id., p. 170)

O sistema de trabalho do tipo modular prevê a substituição do trabalho odontológico em


consultório isolado, realizado exclusivamente pelo dentista, pelo trabalho de uma equipe de
saúde. O sistema modular geralmente organiza de quatro a seis equipos (cadeiras) odontológicos
de forma concêntrica e o trabalho é dividido entre dentistas, técnicos de higiene dental (THD) e
auxiliares de consultório odontológico (ACD), aproveitando melhor o espaço físico e
compartilhando a responsabilidade do atendimento entre toda a equipe de saúde bucal. Esta
medida aumenta a produtividade e expande a capacidade de atendimento da rede. Para Araújo
(1994), esta mudança no perfil de organização do atendimento é essencial para a transformação
da prática odontológica, já que muitas propostas vêm limitando-se, muitas vezes, a reproduzir
mecânica e acriticamente, nas atividades dirigidas a grupos populacionais, o modelo utilizado no
setor privado ao produzir serviços destinados a consumidores individuais. Para a autora essa é a
concepção da prática da odontologia de mercado: “pode-se dizer que este modelo decorre de uma
concepção de prática centrada na assistência odontológica ao indivíduo doente, realizada com
exclusividade por um sujeito individual, o cirurgião-dentista, no restrito ambiente clínico-
cirúrgico”.

Continuando esta discussão e criticando os gestores do sistema nos diversos níveis,


Barbosa (1993) afirma que não se pode continuar admitindo que eles se eximam da
responsabilidade em garantir os serviços de assistência odontológica. E continua
dizendo que “tão pouco, pode-se aceitar passivamente que programas
odontológicos de clientela fechada e/ou dirigidos a segmentos populacionais
restritos sejam o limite das ações de saúde bucal no SUS”. Para o autor se tem
confundindo prioridade de assistência a uma parcela da população com
exclusividade e desta forma muitos municípios tem deixado de atender a população
adulta, especialmente os trabalhadores. Neste sentido também, houve uma
realização importante em Santos, quando o sistema passou a sofrer mais pressão
para a expansão da rede na medida em que atendia um maior contingente da
população adulta, com maior possibilidade de exercer uma pressão social.
108

Ainda sobre a responsabilidade dos gestores do sistema, o relatório final da 10ª Conferência
Nacional de Saúde (CNS: 10: 1998) afirma que: “os gestores do SUS devem priorizar as
atividades preventivas em saúde bucal, bem como exigir dos Governos Estaduais e Municipais a
fluoretação das águas de abastecimento público, conforme deliberações da 2ª Conferência
Nacional de Saúde Bucal”. Para tanto, o relatório indica que as secretarias municipais de saúde
devem organizar ações a partir da concepção da promoção de saúde e do controle das doenças,
implementando medidas coletivas e, conforme legislação vigente, em resolução nº 142/94 do
Conselho Nacional de Saúde, implantar um sistema de vigilância e avaliação dos níveis de flúor
na água para consumo humano. Entretanto, para Schneider; Peres & Calvo (1992) a postura
tradicionalmente passiva dos serviços em relação ao processo saúde/doença; a força do
corporativismo e dos interesses de grupo suplantando o interesse coletivo; a relação
profissional/paciente alienada e alienante devido ao perfil da maioria dos profissionais hoje
formados nas universidades e o caráter excludente dos serviços não se transformam por decreto
ou por medidas administrativas, sendo possíveis somente quando construídos através de políticas
articuladas no todo da sociedade.

Na busca de viabilidade para implementar ações coletivas, além da gestão dos serviços e da
prática política institucional, cabe mencionar que um cargo no legislativo pode auxiliar o
movimento da Saúde Bucal Coletiva, porque passa a se constituir um espaço legítimo de atuação
sobre os determinantes sociais do processo saúde-doença. É possível através do Legislativo atuar
basicamente sobre três aspectos: a produção legislativa, a atuação junto ao executivo e o apoio às
lutas sociais. Um exemplo atual da importância do legislativo, Segundo Manfredini (em
entrevista) é a melhoria das formas de gestão. Exemplificando, o autor cita a Secretaria
Municipal de Administração de São Paulo que está lançando um projeto de lei na Câmara que
cria a figura das autarquias para o gerenciamento dos hospitais municipais. De acordo com o
autor “algumas pessoas poderiam achar que de certa forma isso acaba enfraquecendo o SUS, mas
não, na realidade, o problema do SUS não está em quem executa a política. O problema do SUS
é uma luta ideológica”.

Entretanto, é importante lembrar que no meio legislativo existem os representantes da


corporação da odontologia e, que seus objetivos, são essencialmente distintos dos objetivos dos
representantes da Saúde Bucal Coletiva. Vejamos os dois exemplos a seguir. O primeiro é
109

retirado do jornal do sindicato dos odontologistas de Goiás, Soego (2000b), com o título de
‘Vitória da Odontologia’:

“O Cirurgião-dentista Mauro Rubem é vereador pelo PT e tem


como compromisso de campanha a luta pela viabilização da
odontologia na área privada e a intensificação da luta pela
valorização profissional dos cirurgiões-dentistas. Entre as bandeiras
de luta estão os direitos ao duplo vínculo no serviço público,
aposentadoria especial, direito à constituição de microempresa e o
acesso à saúde bucal. A eleição do dentista é uma vitória para a
odontologia, que agora passa a ter um representante legítimo no
legislativo municipal.” (Id., p. 08)

O segundo exemplo é uma fala de Marco Manfredini, atualmente chefe de gabinete do vereador
Carlos Neder do PT de São Paulo, que em entrevista afirma:

“No momento, pelo fato de estar aqui no Legislativo, nossa


atividade maior passa a ser no plano de produção de
legislação.Temos uma produção muito grande nas áreas de saúde,
educação, geração de emprego e renda fizemos um projeto que
cuidava da transição do PAS54 para o SUS, até porque a gente tinha
um entendimento de que na realidade houve um desmonte da
estrutura de saúde pública aqui no município. Um outra atuação de
nosso mandato consiste no sentido de ajudar na organização de
movimentos populares de saúde aqui na cidade. Em 97 foi fundada
a União dos Movimentos Populares de Saúde, que congrega vários
movimentos de SP e a gente vem dando um apoio ao trabalho feito
por essa instituição, pelas eleições dos conselhos populares de
saúde.”55

Não é difícil perceber que existe uma divergência nas intenções. Enquanto no primeiro exemplo
a vitória é realmente da odontologia, já que o vereador eleito assume compromissos com a
corporação em detrimento da saúde bucal da população, enquanto que no segundo caso, a
atuação no legislativo é mais abrangente, atuando efetivamente ao nível da atenção em saúde e
auxiliando a viabilização das ações coletivas propostas pela Saúde Bucal Coletiva. Daí a
importância de se situar a prática odontológica no campo da saúde coletiva, procedendo uma

54
O PAS foi um sistema de gestão do SUS proposto pelo então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, que transferia a
responsabilidade da gestão dos recursos materiais e humanos do SUS municipal para cooperativas. O Programa foi extensamente
criticado por desviar recursos públicos para setores privados e por inviabilizar o controle social do sistema de saúde, além de
outras fraudes constatadas. Segundo Manfredini (2001) estas eram falsas cooperativas, uma vez que tinham donos que
contratavam os outros profissionais.
55
Marco Manfredini em entrevista concedida ao autor deste estudo.
110

ruptura conceitual e metodológica com os marcos estabelecidos, ruptura que deve se dar na
crítica ao saber odontológico e na superação dos seus instrumentos de trabalho. Segundo
Botazzo (1994) “o campo da Saúde Coletiva é o campo onde a prática odontológica deve
assumir-se vinculada a outros saberes e práticas sociais e no qual novas tecnologias devem
emergir”. Neste sentido, os princípios que nortearam as experiências de Santos e São Paulo são
um referencial (não um modelo) relevante para municípios que buscam concretizar uma
experiência de gestão democrática e uma organização da rede de atendimento que seja capaz de
proporcionar acesso universal ao sistema, e de estabelecer uma relação mais politizada entre os
trabalhadores da saúde e a sociedade.

De acordo com Narvai (entrevista), essa mudança inovadora no serviço público odontológico,
indicada pela Saúde Bucal Coletiva, deve estar articulada também, e requer mudanças em
profundidade, na própria sociedade. Ao se referir a essa mudança o autor afirma que a
organização da gestão de serviços deve priorizar a transformação de uma prática mutiladora
institucionalizada para uma prática de manutenção ou preservação da saúde. Ainda segundo
Narvai, essa mudança nos serviços e na prática induz inclusive à mudanças na formação.

9. SAÚDE BUCAL COLETIVA: FUNDAMENTANDO UMA PROPOSTA PARA A


(RE)CONSTRUÇÃO DA ATENÇÃO EM SAÚDE BUCAL NO BRASIL

“a realidade é, além disso, tudo aquilo em que ainda não nos


tornamos, ou seja, tudo aquilo que a nós mesmos nos projetamos
como seres humanos, por intermédio dos mitos,
das escolhas, das decisões e das lutas”.
(A. Schmidt, 1971)56

Neste capítulo estaremos tratando da Saúde Bucal Coletiva, um marco teórico-metodológico


capaz de reconfigurar o campo social da Odontologia e que sustenta a proposta de uma nova
política pública de atenção à saúde bucal no Brasil e com isso também uma nova prática
profissional. A proposta guarda referência na Saúde Coletiva e, portanto, antes será preciso

56
Em: The Concept of Nature in Marx (Apud Santos, 2000: p.168)
111

compreender esse campo; suas questões e seus enigmas. A Saúde Coletiva surge com a negação
do modelo científico da Saúde Pública institucionalizada e, também como núcleo conceitual e
político da Reforma Sanitária brasileira, momento em que se faz necessário novas orientações
para as políticas públicas no setor.

Para Paim & Filho (2000), no caso específico da América Latina, a construção nos últimos 20
anos do movimento da Saúde Coletiva tem permitido um diálogo crítico e a identificação de
contradições e acordos com a saúde pública institucionalizada, seja na esfera técnico-científico,
seja no campo das práticas. Os determinantes sociais do processo saúde doença passam a ser
incorporados nos debates do setor saúde. Neste sentido surgem as teorias de multicausalidade,
quando o homem passa a ser entendido como uma unidade bio-psico-social. Para Botazzo et al
(1988), nesta visão, frequentemente o social é compreendido como sendo um conjunto de
condições relativas apenas ao ambiente e à família, e não como sendo as relações dinâmicas e
contraditórias que os homens estabelecem entre si ao trabalharem. Nessa concepção: “os três
elementos (o biológico, o psicológico e o social) têm o mesmo peso e a mesma importância,
sendo o homem sempre compreendido isoladamente”.57 A partir das contradições reveladas por
esse isolamento, foi acrescido o termo Coletivo à saúde, incorporando a categoria sociedade no
universo das suas complexas estruturas.

De acordo com Botazzo et al (1988) “por isso, fala-se na determinação social do processo
saúde/doença. Ela é entendida como um conceito que permite explicar não só a produção das
doenças como também sua distribuição e localização enquanto causa específica de morte para os
vários grupos populacionais” 58 . As práticas de saúde derivadas desta concepção teórica
denominam-se Saúde Coletiva, termo que segundo Nunes, apud Campos (2000), passou a ser
utilizado no Brasil em 1979 para denominar um campo científico com uma orientação teórica,
metodológica e política que privilegiava o social como categoria analítica. Portanto, ainda
segundo Paim & Filho (2000), há que se destacar que a saúde coletiva surge como esforço
orgânico ao processo da Reforma Sanitária. Neste sentido, a Saúde Coletiva se caracteriza pelo
encontro de produção e formação acadêmicas originários de três áreas já existentes e até então
não reunidas: a tradicional saúde pública brasileira; as medicinas, odontologias, nutrição etc.

57
Grifos no original.
58
Grifos no original.
112

preventivas e as ciências sociais e suas diversas disciplinas. Originalmente o marco conceitual


proposto para orientar o ensino, a pesquisa e a extensão em Saúde Coletiva no caso brasileiro,
segundo os mesmos autores, foi composto pelos seguintes pressupostos básicos:

“A saúde, enquanto estado vital, setor de produção e campo do


saber, está articulada à estrutura da sociedade por meio das suas
instâncias econômica e político-ideológica, possuindo, portanto,
uma historicidade; as ações de saúde (promoção, proteção,
recuperação e reabilitação) constituem uma prática social e trazem
consigo as influências do relacionamento dos grupos sociais. O
objeto da Saúde Coletiva é construído nos limites do biológico e do
social e compreende a investigação dos determinantes da produção
social das doenças e da organização dos serviços de saúde, e o
estudo da historicidade do saber e das práticas sobre os mesmos.
Nesse sentido, o caráter interdisciplinar do objeto sugere uma
integração no plano do conhecimento e não no plano da estratégia,
de reunir profissionais com múltiplas formações. O conhecimento
não se dá pelo contato com a realidade, mas pela compreensão das
suas leis e pelo comprometimento com as forças capazes de
transforma-la.” (Paim & Filho, 2000: p. 60)
Avançando na discussão sobre o campo de saber onde se encontra a Saúde Coletiva, Bottazo
__ __
(2000) afirma que “em seu conjunto e como campo polar a saúde coletiva incorpora o
sujeito cognocente (movimentos sociais, movimento sanitário), o Estado (relações de poder,
políticas de saúde, políticas de produção e consumo etc), a desmedicalização da saúde, a
dissolução das fronteiras disciplinares e o desarranjo de sua hierarquia.” Sendo assim, podemos
considerar que as ações de saúde coletiva proclamam uma zona de conflito entre Estado e
sociedade, entre individualidade e coletividade, entre o bem público e os interesses privados.
Será no cotidiano das relações sociais, nos conflitos diários de poder, nas articulações,
congruências e incongruências de ideais, mas principalmente na política, que se dará sua atuação.

A idéia de Saúde Coletiva se confunde com a idéia de movimento social, já que representa um
processo de luta pela liberdade e justiça social e, em sua constituição, agrega todos aqueles que
acreditam na cidadania como um direito a conquistar, por meio do exercício sistemático da
democracia e da mobilização da sociedade. Busca-se com isso romper com o modelo
hegemônico de saúde, onde a intervenção clínica restrita torna-se mais importante que a
realidade da vida cotidiana dos grupos sociais. Mas como nos demonstra Campos (2000) não há
como pensar a superação do paradigma biomédico sem a contribuição da própria clínica,
113

somente com aportes da epidemiologia e das ciências sociais. E afirma: “nem somente com o
biológico e o subjetivo se podem pensar modelos e políticas de atenção integral à saúde. A
clínica tem muito a ser criticada, mas tem também muito a dizer”. Para Paim & Filho (2000) a
Saúde Coletiva privilegia nos seus modelos ou pautas de ação quatro objetos de intervenção:
políticas; práticas; técnicas e instrumentos. Contudo, em Campos (2000) encontramos uma
importante advertência: “à promessa de objetivação asséptica do positivismo é preciso contrapor
a subjetividade dos agentes sociais, em todas as fases do processo saúde/doença/intervenção,
inclusive quando da elaboração de conhecimentos e tecnologias”.

Segundo Paim & Filho (2000) constata-se a afirmação de um campo interdisciplinar dinâmico,
renovado e recomposto a partir de uma produção teórica ousada e consistente, ainda enfrentando
diversas interrogações e dilemas. Reconhecendo a tendência da saúde coletiva em confundir-se
com todo o campo da saúde, Campos (2000) afirma que para alguns a saúde coletiva se constitui
uma espécie de metadiscurso supostamente capaz de criticar e reconstruir saberes e processos
concretos de produção de saúde. Neste sentido, ela forneceria metaexplicações auto-suficientes
sobre a tríade saúde, doença e intervenção. Por outro lado, seu discurso constitutivo tenderia a
hipervalorizar a determinação social dos processos saúde/doença, desqualificando os fatores de
ordem subjetiva e biológica.

Campos (2000) observa que tem havido um crescimento de prestígio do objetivismo na


produção acadêmica da área e afirma que isto pode estar ocorrendo quer pela insuficiência do
pensamento social incorporado à saúde coletiva para impulsionar práticas e projetos sanitários
concretos, quer pela pressão exercida pelas agências financiadoras e pela própria instituição
universitária no sentido de que a saúde coletiva adote, em sua construção teórica, normas e
procedimentos padrões bastante assemelhados aos da medicina em particular ou aos da
tecnociência em geral. Ainda segundo o autor, o modo como vem ocorrendo esta
institucionalização, “tem bloqueado a reconstrução crítica de seus próprios saberes e práticas,
provocando uma crise de identidade manifesta em sua fragmentação e diluição como campo
científico.”
114

Não se limitando às críticas, Campos (2000) assinala uma forma de reconstrução do campo da
Saúde Coletiva. Para o autor isto se daria por um deslocamento de ênfase: “antes fora a doença,
depois as estruturas, agora se trataria também de valorizar o fortalecimento dos sujeitos
individuais e coletivos” e justifica sua afirmativa:

“O poder hegemônico é o dominante e não o único. Os dominados


também interferem na dinâmica social, particularmente quando se
trata da alteração de valores. Ora, valores são os alicerces das
estruturas e as estruturas são produtoras e garantidoras de valores.
A alteração de valores ressalta a inadequação social e histórica de
estruturas ultrapassadas, aumentando as possibilidades de mudança.
(...) valeria um esforço concentrado da Saúde Coletiva objetivando
tornar mais democrática e participativa a definição de valores de
uso e de necessidades sociais”. (Id., p. 229)

Esta perspectiva, ainda segundo Campos (2000), foge à antidialética positivista de medicina que
fica com a doença e descarta a responsabilidade com a história dos sujeitos concretos. O
fortalecimento dos sujeitos supera o estruturalismo da saúde pública tradicional que delega ao
estado e ao aparato técnico, quase toda a responsabilidade pela produção de saúde. Campos
(2000) aponta a necessidade de que todas as profissões de saúde - sejam elas nucleadas na
clínica, na reabilitação ou no cuidado - incorporem em sua formação e em sua prática elementos
da saúde coletiva. Segundo o autor a missão da saúde coletiva seria a de influenciar a
transformação de saberes e práticas de outros agentes, contribuindo para mudanças do modelo de
atenção e da lógica com que funcionam os serviços de saúde em geral.

Inicialmente, parece ser na perspectiva proposta por Campos que a odontologia poderia
incorporar na sua formação profissional e em sua prática elementos da Saúde Coletiva. Para
Botazzo e Freitas (1998) o discurso odontológico vai encontrar-se, neste caso, submetido ao
olhar das ciências sociais, mas não emerge como a simples atualização de uma Odontologia
Social que descobriu novos parceiros. Assim, segundo os autores, “esta Saúde Bucal pode ser
apropriada como coletiva e não mais assunto específico de sua corporação”59. O que se pretende
é evidenciar a necessidade de considerar a saúde bucal como apropriação no campo da saúde
coletiva. Esta proposta se constitui no que foi denominado de Saúde Bucal Coletiva. Trata-se de
uma conversão da odontologia para a saúde bucal, vista como a possibilidade de que sobre ela ou
dela vários atores possam pronunciar seus discursos

59
Grifos no original.
115

A proposta da Saúde Bucal Coletiva é diferente das propostas que colocam a necessidade de dar
uma ênfase maior à prevenção e em aumentar a cobertura usando tecnologias simplificadas. Para
Botazzo, Narvai, et al (1988) “os estudiosos que se preocupam com esta situação costumam falar
em odontologia simplificada ou odontologia integral”60. Para alguns ela seria a integração das
atividades educativas, preventivas e curativas. Genericamente, para os autores, os que defendem
esta posição são chamados de “preventivistas”61, que reconhecem a debilidade do curativismo
colocando a necessidade de incorporar medidas preventivas individuais e “de massa” (de alcance
coletivo) como forma de equacionar os problemas de saúde bucal mais agudos. Para outros, as
interpretações da odontologia integral vão além da simples integração entre prevenção e cura, já
que reconhecem uma grande importância, também, na racionalização do trabalho odontológico,
tornada possível por meio da simplificação, da utilização de tecnologia apropriada, da
incorporação de recursos humanos auxiliares e da desmonopolização do saber. Independente da
concepção de odontologia integral que adotarmos, será preciso reconhecer, e considerar, que esta
é ainda uma proposta de prática profissional centrada na restauração ou preservação dos corpos,
já que não reconhece os determinantes sociais do adoecimento, ou, simplesmente, não se propõe
a atuar sobre eles.

Numa perspectiva mais abrangente, Cordón (1998b) considera que existe uma monopolização da
ciência e da tecnologia por diferentes categorias profissionais. Analisando este monopólio, o
autor afirma que “isto faz com que a reprodução do modelo científico seja feita centripetamente,
para seu próprio desenvolvimento e interesse, e não para coloca-lo ao serviço da sociedade para a
satisfação das suas necessidades fundamentais”. Ainda segundo Cordón (1998b), foi assim que
surgiram novos conhecimentos e tecnologias, produzidos não unicamente por grupos
interessados no bem estar da sociedade, mas também pela indústria odontológica, geralmente
interessada no lucro e na manutenção do modelo dominante. De acordo com o autor, a
odontologia integral, por meio da tríade desmonopolização, simplificação e prevenção da prática
odontológica, foi geradora de um processo de inserção da prática profissional no modelo macro
industrial. Isto, para Cordón (1998b), na tentativa de superar sua vetusta e conservadora visão do

60
Grifos no original.
61
Segundo Garrafa (1993), até mesmo a prevenção, que continua se mantendo como o caminho mais sólido para a
sustentação de uma política integral de saúde bucal, vem sofrendo sérias distorções conceituais, sendo reduzida por
meio de manobras mercantis em mais um simples objeto de consumo. Para o autor, “nos últimos tempos foi lançado
no mercado um arsenal de novidades preventivas de uso individual como verdadeira solução mágica. Nascendo
assim, o mercado e o lucro a partir da prevenção: e a isso chama-se preventivismo”.
116

mundo, considerada artesanal e de pouca funcionalidade para o sistema capitalista em


desenvolvimento. Entretanto, para Novaes (1998), é preciso considerar as inovações tecnológicas
na medicina (e as suas condições de incorporação e utilização) como elementos construídos pelas
condições históricas gerais articuladas aos processos específicos do saber e das práticas, não se
constituindo em benefícios ou malefícios em sí. O mesmo processo ocorre na odontologia e é
fato que as inovações tecnológicas vieram para ficar, cabendo avalia-las permanentemente, para
que os resultados do seu uso possam ser os mais favoráveis possíveis, necessariamente
integrados às contínuas transformações por que passa a sociedade brasileira.

Seria, portanto, impossível desvincular, de acordo com Narvai (1994) os paradigmas, ou modelos
em que a prática odontológica se realiza, dos avanços tecnológicos (equipamentos, materiais,
cremes dentais, escovas, etc...). Para o autor, existe uma relação mercantilista e ideológica que
prioriza o lucro e que em última instância, é fruto do desenvolvimento do capital e da sua
reprodução. Citando Cordón e Garrafa (1991), Narvai afirma ainda que a questão da saúde bucal
da população brasileira tem sido deliberadamente reduzida a uma questão odontológica, quando
significa muito mais do que isso um problema social coletivo e, portanto, de responsabilidade da
própria sociedade e não um monopólio dos cirurgiões-dentistas. Talvez, desmonopolizando a
responsabilidade pela saúde bucal, e compartilhando-a com a sociedade, os modelos de prática
deixassem de ser subservientes ao desenvolvimento do Capital, passando a priorizar ao invés do
lucro, as necessidades da própria sociedade.

Aqui está provavelmente a essência da questão, já que para Botazzo, Narvai, et al (1988) a
“assistência odontológica (ou médica etc)” às pessoas compreende ações clínicas e cirúrgicas,
limitadas ao atendimento individual. Esta é a prática odontológica tal qual ocorre atualmente. Ao
mesmo tempo, ainda que se reconheçam os limites da assistência odontológica para produzir
melhores níveis de saúde bucal no conjunto da população, a ninguém ocorre de, por isso,
considera-la não importante. Para os mesmos autores, a “atenção à saúde bucal” compreende,
por outro lado, também as atividades de assistência individual, mas implica, além disso, uma
ação sobre as causas das doenças, sejam estas de que natureza for (biológicas, sociais,
econômicas e/ou políticas). Estas ações são englobadas por práticas de saúde não mais restritas
117

ao campo da assistência odontológica individual, mas num campo que poderíamos chamar Saúde
Bucal Coletiva.

De acordo com Botazzo, Narvai, et al (1988), seria preferível, portanto, se concordamos que o
processo saúde/doença é socialmente determinado, falar em práticas de saúde bucal – o que
inclui a prática odontológica, mas não se restringe a isto, já que as ações necessárias à
manutenção da saúde bucal têm como sujeito não apenas os profissionais da área (cirurgião-
dentista, THD ou ACD), mas também incorpora outros sujeitos sociais desenvolvendo práticas
que repercutem na saúde e não são práticas clínicas. Assim, a odontologia deve ser entendida
como um conjunto de práticas que objetivam promover, recuperar e manter a higidez dos tecidos
e estruturas anátomo-funcionais da cavidade bucal ou a ela relacionados. Nesta perspectiva, as
práticas odontológicas seriam responsáveis pela cura do corpo biológico. Mas isso, ressalta
Araújo (1994), como parte inseparável da saúde coletiva, onde a saúde bucal deve ser
compreendida não apenas a partir dos processos mórbidos, localizáveis biológica e
individualmente, mas também e, fundamentalmente, a partir das relações que os homens
estabelecem entre si ao viverem em sociedade e que determinam as condições concretas de
existência nas quais o fenômeno doença é produzido. Portanto a Saúde Bucal Coletiva contribui
para a politização deste corpo, promovendo saúde a partir de ações coletivas e da remodelação
da própria prática odontológica.

Compreendendo que romper com os paradigmas vigentes não significa recusa pura e simples,
mas impõe movimentos de crítica, elaboração e superação é que, após as críticas que realizamos
nos capítulos anteriores sobre a situação de saúde bucal da população brasileira e sobre o modo
como é prestada a assistência odontológica, chegamos às propostas que visam superar essa
situação. Trata-se de uma dupla reconstrução: no plano epistemológico e na esfera da práxis.
Não há dúvida de que o modelo de assistência à saúde bucal centrado no indivíduo já esgotou as
possibilidades de dar resposta eficiente à demanda crescente da nossa população. Mas não basta
mudar o modelo de pratica profissional se não houverem transformações profundas na qualidade
de vida do cidadão. De acordo com Cordón (1998b), quando o problema da saúde bucal assume
características sociais, sua resolução fica contida na construção de novas relações na sociedade.
Assim sendo, para este autor “existe uma práxis social, orgânica à construção de um modelo de
saúde caracterizado pela universalidade, a equidade e a integralidade da atenção em saúde
bucal”.
118

Não se pode dizer que hoje tenhamos uma fórmula para um novo modelo assistencial em saúde
bucal. O que se denomina hoje como o modelo da Saúde Bucal Coletiva é uma estratégia ainda
em construção que, segundo Oliveira (1999), é centrada nos princípios do SUS, com ênfase no
paradigma da promoção de Saúde, mas sem uma matriz programática definida como tinha o
modelo escolar sespiano. 62

É partindo desta percepção que Botazzo (1991) afirma que “a Saúde Bucal Coletiva é
inseparável das ações que organiza junto ao coletivo e com o coletivo, mais que aquelas que
organiza sobre o coletivo”.63 Segundo o autor, o melhor modo de conceituar ações de natureza
coletiva em saúde é entende-las como expressões de relações políticas que se estabelecem entre
os vários atores sociais, isto é, que se manifestam por meio das trocas entre os cidadãos,
paritariamente conduzidas pelo poder público e pela sociedade civil. Ainda para o autor, é neste
sentido preciso que diferem, em essência, das ações controlistas direcionadas a certos grupos
populacionais, tais como as que a saúde pública organiza desde seus primórdios. As ações
implicam, para sua operacionalização, na incorporação de dois conceitos: a politização dos
agentes etiológicos e a interdisciplinaridade no trabalho. Para Botazzo apud Narvai (1994) as
ações de natureza coletiva a serem organizadas pela Saúde Bucal Coletiva assumem as seguintes
características:

“(1) apóiam-se na atividade grupal, tendo no grupo de orientação e


discussão, variante do grupo operativo, a modalidade mais eficiente
da atuação; (2) interagem nos espaços socialmente reconhecidos,
isto é, nos espaços com existência social, o que equivale dizer nas
organizações e instituições (escolas, creches, associações,
sindicatos, casas paroquiais, etc...); (3) são o campo por excelência
da desmonopolização do saber ou da democratização do
conhecimento e, simultaneamente, da destecnificação do cuidado;
(4) são por fim – e por tudo isso – o campo privilegiado onde uma
certa cidadania encontra espaço para ser exercida no
desenvolvimento da relação entre os trabalhadores da saúde,
tomados como produtores coletivos, e os cidadãos-usuários, na
direção da participação popular e do controle social do SUS”. (Id.,
p. 75)

62
Nota reproduzida do original: “a expressão ‘escolar sespiano’ foi cunhada por Zanetti (1996) no intuito de ilustrar
o modelo preconizado pela Fundação SESP que incorporava a lógica programática do incremental em uma clientela
definida, que eram os escolares”.
63
Grifos no original.
119

Melhores condições de saúde bucal para a população não serão alcançadas com medidas técnicas
isoladas, mas com os avanços políticos que forem conquistados pela sociedade. Para isto, faz-se
necessário, segundo Araújo (1994), que a sociedade se engaje às propostas e assuma o efetivo
controle social do SUS, não bastando apenas garantir a presença numérica da população nos
Conselhos de Saúde, ou em eventos como as Conferências de Saúde. Uma participação efetiva
da população pressupõe informação, conhecimento e educação. Cordón (1998b ) julga ser
necessário para isso considerar todos os espaços sociais e seus respectivos movimentos, para que
com ênfase coletiva, se possa alcançar a qualidade de saúde bucal desejada pela sociedade, de
acordo com as suas necessidades.

Discutindo as diferentes compreensões que se tem acerca das necessidades de saúde bucal da
população, Botazzo (1994, p. 47) afirma que:

“A tecnologia do cuidado odontológico, entendida como saber


operante, ao se defrontar com a face social de um processo cuja
compreensão lhe escapa, fica reduzida à sua aparentemente única
possibilidade básica, primária, determinando desse modo o recorte
pelo qual o paciente será atendido. Assim, confunde necessidades
odontológicas básicas da população com a prática básica que
julga realizar. Não é, portanto, acidental o fato de que a oferta de
serviços odontológicos no setor público conduza a uma prática
mutiladora. Com certeza, vindo lá dos tempos do cirurgião-
barbeiro, a coisa mais básica e primária na atividade do dentista
seria arrancar dentes” 64.

Assim, concordamos com Botazzo (1994) quando assegura que “a odontologia é exercida de
modo diferenciado segundo as classes sociais e as equivalentes possibilidades de consumo,
exercendo-se em sua plenitude como ato lá junto aos segmentos que a ele agrega valor,
possibilidade distante de ser realizada junto ao segmento queixoso que freqüenta os centros de
saúde”.

É neste sentido que podemos, assim como Botazzo (1991), 65 considerar que “definitivamente
bocas proletárias não se assemelham a bocas burguesas, por mais estruturas anatômicas

64
Grifos meus
65
Apud Narvai (1994)
120

comuns que possam ter, se entendermos que a subjetividade, contida na consciência, é ela
também social e historicamente determinada”66. Botazzo (1994), analisando esta relação, afirma
que “bocas também podem ser vistas como sinal de classe, estatuto de classe”. E exemplificando
esta afirmação, traça um perfil: “há, com certeza, uma estética bucal popular, mostrando seus
dentes encavalados, superfícies proximais escurecidas, gengivas entumescidas e resíduos
dentários à mostra”. Ainda segundo o autor, concluída a devastação “há sempre como apelar para
a prótese, a dentadura estandardizada saída das muflas67 das clínicas “populares”. Ou fica como
está: banguela é palavra de amplo uso nacional.”

Segundo Martins (1999) a relação entre paciente e profissional de saúde bucal, no caso de nossa
realidade, é uma relação que traz no seu bojo um caráter de dominação que envolve sujeitos que
têm interesses e visões de mundo distintos. Mas nem tudo pode ser explicado pelos extremos
desta relação. Segundo Foucault (1989) 68 , o poder não age somente de maneira negativa,
repressiva como se fosse um imenso superego. O poder profissional não estaria ligado
restritamente à repressão e à manipulação do corpo do outro de forma autoritária. Se assim o
fosse, seria tão frágil que se tornaria insustentável. O poder profissional é forte porque produz
efeitos positivos ao nível do desejo dos pacientes. O ato da extração dentária encontra
ressonância na expressão da necessidade colocada pelos pacientes. O alívio imediato de sua dor é
também compatível com sua condição de vida que o exclui do acesso aos serviços de atenção em
saúde bucal de melhor qualidade. Para Garrafa (1993), os problemas de saúde já são tão graves
no Brasil, que a situação dos tecidos bucais das pessoas passa a ter uma prioridade secundária
para a população; pessoas que muitas vezes não têm o que comer, “não podem” preocupar-se
com seus instrumentos mastigatórios, fonéticos ou estético-faciais...

Narvai (2001b), tentando definir saúde bucal afirma que esta é uma expressão muito presente no
discurso odontológico atual, mas a define como “um conjunto de condições objetivas
(biológicas) e subjetivas (psicológicas), que possibilita ao ser humano exercer funções como
mastigação, deglutição e fonação e, também, tendo em vista a dimensão estética inerente à região
anatômica, exercitar a auto-estima e relacionar-se socialmente sem inibição ou
constrangimento”. Narvai (2001b) continua, considerando adequado conceituar “incapacidade
bucal” como uma condição definida pela impossibilidade, transitória ou permanente, de exercer

66
Grifos meus.
67
Aparelho utilizado no processo laboratorial de confecção das dentaduras.
68
Apud Martins (1999)
121

uma ou mais funções de mastigação, deglutição ou fonação e, também, pelo comprometimento


estético.

Entretanto, Martins (1999) traz à discussão uma importante questão: “Como estão sendo
encarados os problemas de saúde bucal por parte das classes populares?” Nesta mesma
perspectiva, Botazzo (2000) faz uma importante reflexão sobre a bucalidade, categoria
fundamental para a compreensão do que poderia ser considerado saúde bucal: “Começarei
interrogando acerca do objeto da Odontologia. É possível afirmar um objeto tão insólito quanto
este denominado boca? O que ele significa exatamente ou que rede de significados se
entrecruzam neste território singular? É possível falar de um objeto que não seja tão
exclusivamente hegemonizado por uma única disciplina? Cuja emergência nas desdobraduras da
vida cotidiana se dê pela elisão do desejo?”.

Partindo desses questionamentos, não poderíamos considerar que tentar definir saúde (ou
“incapacidade”) bucal como a possibilidade (ou impossibilidade) de exercer funções como
fonação, mastigação, deglutição e fonação seria uma visão cientificista fundamentada quase que
com exclusividade na anatomia ou fisiologia? É ainda Botazzo (2000) que responde quando
afirma que:

“Falamos, então, de um território cuja constituição, pelas regras do


seu aparecimento, designa também um objeto que se inscreve nos
planos da cultura e do psiquismo humano. Mais que isso, ainda, da
interligação e indissociabilidade entre a produção da existência, o
existir e o falar, ou o trabalho, a vida e a linguagem, tal como
nucleadas por Foucault”. (p. 41)

O autor, citando Foucault, continua, ressaltando a subjetividade do local:

“ ‘a boca é Vênus’, dirá Foucault, ‘pois que por ela passam os


beijos e as palavras de amor...’. Esta formulação, entretanto,
contempla as possibilidades da realização amorosa, que estão longe
de esgotar as possibilidades todas do objeto. A boca que beija,
morde e escarra; as palavras que dela saem ferem e maltratam, e
por debaixo da sua abóbada ‘seres de podridão e de viscosidade
fervilham’.” (Id.: p. 46)
122

Assim, de acordo com Botazzo, “a boca é objeto de discurso e enunciam sobre ela, sem ordem de
sucessão, os mitos e as histórias populares, a literatura, o cinema, a odontologia, a psicanálise, a
paleantropologia, a medicina, a gramática, a religião, a puericultura, a pedagogia”. Para Maritns
(1999) a constituição da saúde bucal enquanto necessidade é uma produção social e, está
relacionada com as condições sociais de vida das pessoas; as tradições históricas; o hábito social
e as representações dos sujeitos sobre o corpo e sobre o fenômeno saúde/doença. Neste sentido,
não poderíamos correr o risco de definir saúde ou “incapacidade” bucal somente na perspectiva
da biologia, correndo ainda o risco de reduzirmos novamente a boca a uma mera estrutura
anatômica, ou um “campo” exclusivo da odontologia. Cordón & Paes (2000) afirmam que o
significado dos termos saúde ou doença bucal depende da sua relação com o ambiente social.
Procura-se então compreender que saúde e doença são reflexos da vida social no corpo dos
indivíduos. Desta forma: “busca-se sair da análise abstrata de saúde como equilíbrio perfeito e de
doença como desordem para um enfoque nas crenças individuais de como e porquê se adoece”69.
Segundo Cordón & Paes (2000) a idéia de que podemos partir da autopercepção do que a
comunidade sente e pensa para construir uma participação popular mais efetiva parece viável e
necessária; entretanto, é fundamental ressaltar nesta abordagem que a autopercepção de saúde é
apenas um elemento na busca da melhoria do estado de saúde de uma comunidade, pois saúde é
uma responsabilidade tanto individual como social que é mais bem assegurada por ações
colaborativas em todos os níveis da sociedade.

Os modos de produção dos sujeitos da área da saúde encontram-se determinados pelo modo de
produção dominante na sociedade e condicionado ao confronto de projetos políticos entre os
grupos sociais. Dentro desta percepção, para Botazzo (1994), um importante aspecto para se
romper com o monopólio que a odontologia exerce sobre a boca implica em superar o referencial
teórico-metodológico que sustenta essa prática, propondo a substituição do trabalho individual
do dentista pelo da equipe da saúde bucal e construindo a Saúde Bucal Coletiva. O trabalho do
Técnico de Higiene Dental (THD) e do Auxiliar de Consultório Dentário (ACD) agilizam o
tempo de atendimento e aumentam a produtividade, já que realizam procedimentos de um nível
de complexidade tal, que não necessita de intervenção cirúrgica. Para Cordón & Belaciano

69
Grifos meus
123

(1994) “numa prática assim organizada a produtividade surge mostrando como a quantidade
contém, também em si uma qualidade - atender bem a muitos é diferente de atender poucos.”

Constatando que as ações coletivas em saúde bucal realizadas pelas equipes de saúde bucal, ao
invés do cirurgião-dentista trabalhando isoladamente, têm implicado mudanças nos sujeitos do
trabalho odontológico Narvai (1999) afirma que as discussões sobre recursos humanos
odontológicos convergem para a necessidade da prática odontológica orientar-se no sentido de
prevenção e para o reconhecimento de que as ações requeridas para esta prática sejam ações
realizadas por pessoal auxiliar de níveis médio e elementar. A incorporação de pessoal auxiliar
na odontologia e a redefinição das práticas odontológicas dependem, entretanto, daquele
confronto entre os grupos sociais para definição dos modos de produção na sociedade, como já
mencionado anteriormente. Atualmente, segundo Pezzato (1999), podemos perceber grande
resistência das forças hegemônicas a estas mudanças, já que a atuação do ACD e THD é quase
que exclusivamente restrita ao setor público que organiza os serviços de saúde bucal de acordo
com as propostas contra-hegemônicas. Entretanto, ainda segundo Narvai (1999), a
monopolização do processo de trabalho continua sendo um dos principais desafios a serem
enfrentados nas próximas décadas quanto aos recursos humanos odontológicos no Brasil. Mesmo
que esta desmonopolização já tenha sido objeto de reivindicações na II Conferencia Nacional de
Saúde Bucal (1993) quando foi afirmado que para assegurar o adequado equilíbrio entre os
procedimentos de atenção individual, de prevenção e de educação em saúde, além de uma maior
cobertura populacional, fazia-se necessário a aprovação na íntegra do Projeto de Lei 53/93 que
trata da regulamentação das profissões de THD e ACD.

A discussão entre as finalidades das práticas de saúde e o seu objeto, meios de trabalho e
atividades, bem como a análise das relações técnicas e sociais do trabalho em saúde como via de
aproximação entre os modelos assistenciais e de gestão, constituem desafios teóricos e práticos
não só para a odontologia, mas segundo Paim & Filho (2000) para toda a saúde coletiva. De
acordo com os autores, os atuais desafios da saúde coletiva não se limitam à formação
profissional, à produção de conhecimentos ou à renovação conceitual e epistemológica dentro do
campo institucional presentemente ainda conhecido como saúde Pública. Tais desafios
atravessam toda a organização social, desde a produção, distribuição e consumo de bens e
124

serviços até as formas de organização do estado e dos seus aparelhos nas relações com a
sociedade e a cultura. A partir desta perspectiva, a crise da saúde é parte de uma crise social mais
ampla e profunda da sociedade brasileira. É uma disputa ideológica pelo poder. Política,
portanto.

Narvai (entrevista) afirma que os problemas existentes no país têm uma importância tamanha,
que um dentista, um profissional de nível universitário, não pode se permitir ao luxo te ter uma
posição neutra frente a essas questões todas que as pessoas enfrentam no seu dia-a-dia: o
desemprego, a precária educação, a violência etc... Para o autor, a participação política requerida
implica num compromisso de transformação dessa realidade: “quando eu estou falando de
política, eu estou falando da ação cidadã que cada envolvido nesse processo deve ter. Isso requer
uma participação ativa nas estruturas da própria sociedade com potencial de transformação,
sejam as organizações comunitárias, organizações sindicais, os movimentos sociais de qualquer
natureza ou os partidos políticos”.

Ianni (1996) afirma que tem surgido em todo mundo novos movimentos sociais convergentes
com relação a questões específicas, tais como o ambientalismo, o feminismo e o pacifismo. Estes
são movimentos que, segundo o autor, expressam o outro lado da formação da sociedade global e
esboçam alguns lineamentos de um novo contrato social, de uma nova cidadania.
Exemplificando esta tendência de organização social para reivindicação por direitos, Narvai, em
entrevista, afirma que “no Brasil, mais recentemente, tem havido um fortalecimento muito
grande dos chamados movimentos de doentes”. E ressalta que é importante a capacidade de
organização e de pressão no Estado que hoje há dentro dos movimentos de doentes. Para Narvai
“esses movimentos tem adquirido contorno de articulação social pela sua amplitude, pela
capacidade de organização e pelo impacto que muitos conseguem na formulação e organização
de políticas públicas”. Esta organização tem ocorrido no Brasil em relação a algumas doenças
crônicas como os doentes renais crônicos, os diabéticos, hansenianos, e principalmente os
portadores do HIV.
Todavia, Narvai afirma também na entrevista, que não existe uma associação nacional dos
cariados ou dos desdentados porque a cárie não é percebida como doença, mas como um mero
problema nos dentes. Segundo o autor, o ‘poder’ que os problemas bucais têm de contribuir para
que as pessoas se organizem pra mudar a sua própria situação acaba sendo pequeno se
125

compararmos com outras doenças, e afirma: “detecto com lamento que essas pessoas não se
organizem em torno dos problemas bucais para reivindicar profissionais nas unidades de saúde e
reivindicar outras práticas que não sejam essas as quais elas acabam se submetendo e se
deixando muitas das vezes mutilar”.

Santos (2000) entretanto, afirma que sem dúvida, os brotes individuais de insatisfação podem
não formar uma corrente, mas também, que os movimentos de massa nem sempre resultam de
discursos claros e bem articulados e nem sempre se dão por meio de organizações conseqüentes
e estruturadas. Para o autor, o entendimento sistemático das situações e a correspondente
sistematicidade das manifestações de inconformidade constituem um processo lento, “o que não
impede que, no âmago da sociedade já se estejam, aqui e ali, levantando vulcões, mesmo que
ainda pareçam silenciosos e dormentes”. Ainda segundo Santos (2000), percebemos que a
organização social é importante, como um instrumento de agregação e multiplicação de forças
afins, se constituindo em um meio de negociação necessário a vencer etapas e encontrar um novo
patamar de resistência e luta. Neste caso, para o autor, os movimentos organizados devem imitar
o cotidiano das pessoas, cuja flexibilidade e adaptatibilidade lhe asseguram um autêntico
pragmatismo existencial e constituem a sua riqueza e fonte principal de veracidade.

No entanto, nos últimos anos, para Frazão (1998), ocorreu também a chamada ‘modernização’
das práticas e expectativas com relação à saúde. Por esta perspectiva, atribui-se o mesmo
significado a idéias distintas, considerando-se como sinônimos saúde e serviços de saúde.
Segundo o autor, “esta compreensão tem contribuindo para que a busca por saúde tenda a se
converter em procura por medicalização: o ‘direito à saúde’ passa a ser entendido como o
‘direito à assistência médica individual’.” E conclui assegurando que “esse processo social,
costurado com fortes componentes ideológicos e movido por interesses econômicos, acelerou a
correspondência que se terminou por estabelecer entre saúde e consumo de serviços médicos:
este último passou a assumir papel principal quando deveria ser secundário”.

Santos (2000) nos auxilia na compreensão deste processo quando afirma que a política dos
pobres é baseada no cotidiano vivido por todos e é alimentada pela simples necessidade de
126

continuar existindo.70 Surgem simultaneamente comportamentos contraditórios, que, alimentados


pela ideologia do consumo, transformam os serviços médicos em produto, suscitando
expectativas e desejos, e se constituindo num fetiche. Posteriormente, com a impossibilidade de
satisfação, ou compra, destes anseios, o fetiche acaba se transformando em desilusão. Para
Botazzo (1999) a Saúde não irá sozinha processar a morte da economia neoliberal e da ideologia
do consumo, mas pode propô-la todos os dias, em todos os espaços sociais, em toda
oportunidade que surgir, sempre que compreender a necessidade da desmedicalização do
processo saúde-doença. De acordo com Cordón (1999), entretanto, tem-se constatado falta de
formação e capacitação política para os profissionais de saúde. De acordo com o autor: “falta
compartilhar o saber, aprendendo a ser solidário numa prática social tão pragmática e
tecnologista, evitando o comércio do corpo”.

Torna-se relevante destacar a importância dos profissionais de saúde na canalização destas


inconformidades para a constituição de movimentos sociais que não serão apenas um grupo de
pressão que procuram fazer valer os seus interesses. Isto, segundo Cordón (1999), “dentro de um
agir ético-social e humano, dentro de uma visão ideológico-política orgânica ao projeto histórico
que o povo constrói na sua resistência ao capital excludente, injusto e desigual”. Para Pego
(1992) a reivindicação é um momento que por si só não dá conta dos alcances e limites destas
expressões de luta, capazes de produzir efeitos concretos que são políticos e afetam os aparelhos
burocráticos de dominação, não numa relação de oposição, onde um ganha e outro perde, e sim
de estímulo recíproco, onde os diferentes atores envolvidos sofrem transformações pela interação
com os demais. Ao lado disso, a resposta do Estado à pauta de reivindicações contribui para a
ampliação de sua visibilidade e para um crédito positivo ao movimento. Segundo Cordón (1977),
Gramsci chamou a atenção para o fato de que cabe aos intelectuais revolucionários manterem,
sem arrogância, um diálogo com seus interlocutores das camadas populares. Isto para “ajuda-los
(e a si mesmos) a superar, pelo fortalecimento do bom senso (o senso crítico e autocrítica), os
limites estreitos do senso comum, isto é, as fronteiras que dependem da ampliação dos horizontes
teóricos para serem ultrapassadas”.

Para Botazzo (1999) a expressão das relações políticas que se estabelecem entre os vários atores
sociais e que se manifestam por meio das trocas entre os cidadãos, paritariamente conduzidas
70
Apresentamos aqui uma relevante consideração sobre o processo de tomada de consciência crítica pelas classes
populares proposta por Santos (2000): “Para isso, é fundamental viver a própria existência como algo unitário e
verdadeiro, mas também como um paradoxo: obedecer para subsistir ou resistir para poder pensar o futuro”.
127

pelo poder público e a Sociedade civil, podem ser consideradas ações de natureza coletiva. É
ainda o mesmo autor que conceituando o que seriam as ações de natureza coletiva em saúde
afirma que:

“No momento em que penso em ações de natureza coletiva, penso em


parcerias, penso grupos em dinâmica, a desmonopolização do conhecimento, a
politização dos nexos, a interdisciplinaridade, o reconhecimento do outro. E
penso que essas falas socialmente liberadas fertilizariam essa parceria e a
conduziriam na direção de uma anamnese coletiva, processo por meio do qual
grupos de pacientes ou grupos de trabalhadores – ou quaisquer outros grupos
sociais – retomariam a memória do seu processo de existência social, que é o
seu processo de trabalhar e viver, a objetividade e a subjetividade nele, fonte
primária de patogenicidade dessa existência”. (Id., p. 223)

Para Botazzo (1999) a politização dos agentes etiológicos e a interdisciplinaridade no trabalho se


dão como práticas de interação nos espaços socialmente reconhecidos. Isto é, nos espaços com
existência social, o que equivale dizer nas organizações e instituições quaisquer que sejam:
sindicatos, associações, escolas, fábricas, etc. tomam o grupo em dinâmica como micro-
organização social, cuja atividade é um modo altamente eficiente de atuar. Para o autor, os
grupos são o campo da desmonopolização do saber ou da democratização do conhecimento e, na
área da saúde, simultaneamente, são o campo da destecnificação do cuidado. As ações de
natureza coletiva são portanto o campo onde certa cidadania encontra espaço para ser exercida
no desenvolvimento da relação entre trabalhadores da saúde, tomados como produtores
coletivos, e os cidadãos-usuários, na direção da participação popular e do controle social do
SUS.

Para Narvai (entrevista) a compreensão da natureza política dos problemas que envolvem a
saúde bucal é um fator imprescindível para os trabalhadores dos serviços odontológicos, mas
também, para os cursos de formação. Alertando para o fato de que a discussão em torno da
política publica de saúde historicamente rejeita a discussão sobre a formação de recursos
humanos, Belaciano (1996) sinaliza que as iniciativas têm que ser múltiplas e sincrônicas. Isto é:

“só teremos um novo modelo acadêmico para a educação dos


profissionais de saúde se ele for tratado em consonância com a
construção do novo modelo assistencial do SUS e, por
128

conseqüência, uma consolidação na capacitação gerencial, dos


serviços, na sua operacionalização e no processo participativo
compromissado de todos os trabalhadores de saúde. A
interdependência é de tal magnitude que um não será construído
sem o outro e sem a participação ativa da comunidade. Parcerias
mito fortes entre ensino-serviços-comunidades são fundamentais
para o sucesso na busca de novos modelos”. (id., p.03)

Entendendo o processo educativo como forma de libertação e como um importante instrumento


para a formação de cidadãos críticos e capazes de realizar modificações substanciais na
sociedade, Cordón afirma em entrevista que, apesar de ser imperioso o trabalho com a
universidade, “não tem projeto nenhum no mundo em que a universidade se tenha engajado num
projeto de liberdade. Nem mesmo os cubanos. A odontologia cubana luta pela liberdade?” e
ressalva: “O que precisamos discutir é o papel dos intelectuais no processo de luta revolucionária
e como engaja-los cada vez mais dentro de um processo de libertação, de organicidade dos
processos populares.” Além disso, para Cordón, considerando esta como a melhor possibilidade
histórica de mobilização, de reivindicação e de libertação popular, o desafio não seria formar um
cirurgião-dentista, “é formar politicamente quem já está nos serviços, porque são estes que estão
perto do povo.” Desta forma fica claro a ênfase dada pelo autor à formação dos profissionais nos
serviços, ao mesmo tempo em que faz-se necessário a construção de uma nova ideologia nos
órgãos de formação, onde a transformação se daria por meio de intelectuais e acadêmicos
envolvidos no processo de libertação da sociedade.

Discutindo a interdependência dos serviços e do ensino, Narvai , em entrevista, conclui que o


ideal seria que o próprio processo de formação se desse, não como é atualmente, centrado em
situações artificiais de ensino, mas que o próprio ensino se desse já com íntima articulação com o
serviço público. Para o autor, dessa forma ocorreria ao mesmo tempo a mudança dos serviços e a
mudança dos órgãos formadores de recursos humanos. É importante ressaltar que para Narvai o
serviço é mais estratégico, apesar de também ser imprescindível que ocorram mudanças nas
faculdades. Para o autor: “se essas mudanças se isolam no órgão formador elas não produzem a
articulação necessária com os serviços que a meu ver, é imprescindível para que as mudanças se
produzam com maior eficácia, com consistência e que possam ter continuidade.” É ainda Narvai
(em entrevista) que afirma:
129

“tem sido muito freqüente no Brasil experiências com inovações


curriculares, com novas opções pedagógicas que duram no máximo dez
anos em certas faculdades e muitas vezes não passam das primeiras
turmas. Isto ocorre porque rapidamente a fragmentação por disciplinas
impõe a força do corporativismo e do apelo das diferentes especialidades,
assim, o que percebemos é que muitas iniciativas inicialmente inovadoras,
numerosas, instigantes do ponto de vista da formação, acabaram se
esgotando ou se desvinculando por não estarem ocorrendo paralelamente
transformações nos serviços.”71

Analisando os obstáculos que historicamente têm sido colocados como uma oposição às
mudanças substantivas na formação dos recursos humanos para o SUS, Teixeira & Paim (1996)
afirmam que os adversários do SUS são relativamente bem conhecidos. Para os autores estão
atuando na política de formação de recursos humanos determinantes externos (interesses
capitalistas médico-industriais, organização dos serviços de saúde, mercado de trabalho e política
de saúde do Estado) e internos (desintegração básico-profissional, biológico-social, especialismo,
domínio da ideologia liberal, conservadorismo docente, desarticulação ensino-serviço. etc).

Segundo Narvai destaca durante entrevista, quem adota a perspectiva da saúde bucal coletiva
precisa ter uma perspectiva histórica e conter a ansiedade transformadora. Assim, afirma que: “a
gente tem que administrar essa ansiedade, ter uma certa paciência histórica, e agir, forçando as
transformações na política social, econômica etc. que no nosso entender são necessárias, porque
sem ação nada vai acontecer”. Para que estas transformações ocorram, segundo o autor, será
necessário portanto uma ação em todas as dimensões, já que “não dá pra imaginar que essas
mudanças possam ocorrer se elas se isolam, se elas ficam encapsuladas e ilhadas no serviço ou
no órgão formador, ou ainda nos serviços e no órgão formador, enquanto todo o resto da
sociedade, continua o seu curso de exploração”.

A II CNSB (1993) recomenda que “os recursos humanos devem ser preparados ao mesmo tempo
para os compromissos políticos e os sociais, sendo capacitados a desenvolver técnicas e
atividades que permitam a politização e a educação permanentes dos usuários, dentro dos
princípios da reforma sanitária brasileira”. Entretanto Manfredini, durante a entrevista, é mais
objetivo e coloca: “não vamos ter ilusões, não vamos imaginar que um médico ou um dentista,
além de trabalhar naquelas 4 ou 8 horas que lhe são dadas, que ele vai fazer muita política. Vai

71
Paulo Capel Narvai em entrevista ao autor deste estudo.
130

ser muito distante a gente conseguir um situação desse tipo. Só vai fazer isso quem tem algum
compromisso ideológico”. O autor afirma ainda que de certa forma se superestima e coloca nesse
profissional uma série de exigências que eles não vão conseguir cumprir. Assim, para
Manfredini, não podemos ter a visão de um pretenso profissional de saúde tal qual a gente
gostaria que fosse, e continua: “hoje, se a gente conseguisse um profissional bom naquilo que
faz, naquele momento do trabalho, um profissional que trate corretamente as pessoas, que tenha
uma responsabilidade cm seu trabalho, já seria um enorme avanço para SUS”.

Entretanto, é preciso considerar que ao admitirmos somente um profissional ‘bom naquilo que
faz’ conforme propõe Manfredini, corremos um sério risco de manter a situação de saúde da
população inalterada, já que a ação exclusiva sobre os corpos, como vimos já anteriormente,
pouco tem modificado a situação de saúde da população. Para Menéndez & Cordón (2000), o
que se espera da atuação dos recursos humanos é que dominem conhecimento e tecnologia para
resolver problemas considerados da “odontologia” e que dominem sobre a realidade nacional,
assim como possuam valores e atitudes favoráveis para contribuir satisfatoriamente na resolução
dos problemas bucais concretos da população total do país, em qualquer de seus espaços sociais.
E esperançosos afirmam que o dentista do futuro será um recurso humano que atuará além do
dente e da boca; enfocará a coletividade tendo interesse em trabalhar com a sociedade como um
todo; será habilitado a trabalhar com outros recursos humanos, a fim de fazer um enfoque
integral, multidisciplinar, multiprofissional e multisetorial; terá capacidade técnica, política e
operacional , além de consciência, para intervir em diversas estratégias de saúde coletiva em
diversos espaços sociais; constantemente adquira, desenvolva e pratique habilidades intelectuais.

Segundo Botazzo & Freitas (1998), examinando com atenção a vida real, verificamos que há
uma enorme distância a percorrer para se alcançar uma integração ensino-serviços propícia à
construção de um novo compromisso ético e político entre profissionais, alunos e população de
acordo com a realidade epidemiológica local. Mas não descartando uma boa perspectiva para o
futuro, os autores afirmam que as características do processo de formação e capacitação
derivadas das relações técnicas e sociais que esta integração ensino-serviços propiciará nos
permite afirmar que seu produto será capaz de impactar os dois setores e também a sociedade”.
131

O futuro da Saúde Bucal está vinculado à questão dos diferentes projetos de sociedades que,
nessa fase da sociedade brasileira, disputam o poder. De acordo com Narvai, em entrevista,
existe uma certa hegemonia política no país que tem imposto à sociedade brasileira um
determinado projeto de sociedade, e há no interior da nação, outras concepções, outros projetos
de sociedade que até o momento não têm conseguido se impor. Para o autor esses são projetos
que vêm sendo politicamente derrotados nas últimas décadas. Há momentos, segundo ainda
Narvai, em que essa derrota política assume um contorno historicamente mais definido, como foi
o golpe de 64 e, em outros momentos, isso não é tão nítido. Há ainda momentos em que as
questões políticas embora derrotadas do ponto de vista formal, tiveram vitórias políticas, como a
campanha das “diretas já”. Apesar de uma derrota técnica, a campanha foi vitoriosa pelos efeitos
e pelos desdobramentos políticos que aquele movimento produz na sociedade brasileira até hoje.
Analisando a relação entre as conformações ideológicas contemporâneas e a organização das
políticas públicas de saúde bucal, Narvai, também na entrevista, afirma que

“o projeto neoliberal, a meu ver, só nos dará a odontologia de mercado, essa


concepção de saúde, de baseada na compra e venda de serviços e na crença de que
nessa área tudo pode se resolver com base no controle de mercado. Acho que o
dever dos que estão identificados, e que assumem um compromisso, com uma
outra referência ideológica para a prática odontológica deve ser o de buscar e
desenvolver mesmo novas atitudes no plano imediato da ação social e ao mesmo
tempo se vincular organicamente às forças políticas que querem transformações
em profundidade na ordem econômica, política e social do país. Portanto, eu não
vejo futuro para a Saúde Bucal Coletiva desvinculado da vitória de forças
políticas que disputam o poder na sociedade brasileira e propõe outros projetos,
que não são apenas alternativos, mas são de oposição frontal ao projeto
hegemônico hoje, ou seja, ao projeto neoliberal”72.

Nesta mesma perspectiva, Cordón, em entrevista, afirma que todo este processo é dialético e
exemplifica demonstrando que a sociedade luta por um sistema de saúde que tem a filosofia da
reforma sanitária e ao mesmo tempo elege um partido neoliberal. Para o autor, o SUS e a própria
educação são áreas em que existe uma resistência à política de privatizações porque estão
dispostas a aproveitar os escassos recursos que o neoliberalismo destina para em cima deles
construir uma postura de resistência. Concluindo esta análise Cordón afirma: “acho que não tem
saída, tem que haver uma ruptura com o modelo neoliberal. A saúde enquanto isso? Tudo igual.
Vamos ter recurso para ir fazendo alguma coisinha...”

72
Paulo Capel Narvai em entrevista ao autor deste estudo.
132

De acordo com as colocações de Narvai durante a entrevista, o SUS tem alguns princípios que
são irrecusáveis e inegociáveis, que estão na Constituição brasileira, e que os militantes da saúde
coletiva defendem e defenderão até as últimas conseqüências. Os princípios são a integralidade
da atenção em saúde, a equidade e a universalização. Este último, segundo o autor
exemplificando a questão, um princípio que colide com o da focalização proposto pela proposta
neoliberal ao Estado brasileiro. Para Narvai, ao se contrapor, ou se propor uma ruptura com o
neoliberalismo, também se está defendendo um sistema público de qualidade para todos os
brasileiros, independente de sua condição sócio-econômica, independente de sua classe social.

Entretanto, para Manfredini, em entrevista, essa defesa é ainda muito frágil e, construir socialmente essa
vontade política de trabalhar com a idéia do SUS é um fator importante para a qualidade de vida da
população. O sistema público de saúde no Brasil é um processo coletivo ainda em construção. Os avanços
na melhora do atendimento à saúde são inquestionáveis, mesmo com a política neoliberal adotada pelo
governo. Neste sentido o SUS é uma conquista da democracia. Para que realmente o atendimento seja
integral, universal e equitário para toda a população, para que haja cada vez mais postos de atendimentos,
um maior número de profissionais e uma capacitação deles para um atendimento com qualidade aos
usuários, será preciso entretanto fortalecer o controle social do sistema e promover, como propõe
Berlinguer (1999), uma transição paradigmática na concepção fisiogênica das doenças - que tinham
origem preponderantemente natural - para uma concepção antropogênica das doenças, cuja origem, “se
deve buscar em nós mesmos, seres humanos, em nossas ações e/ou omissões, na falta de concepções
previdentes e solidárias”. Portanto, sendo as doenças fenômenos antropogênicos, não são fatais nem
irreversíveis: podem ser modificados. A pergunta proposta por Berlinguer torna-se portanto pertinente:
“pode-se deixar de agir quando, apesar da incerteza de alguns desdobramentos, há certeza de que em caso
de inação esses desdobramentos serão irreversíveis?”
133

“Defender uma idéia nova é imensamente mais grave que apresenta-la.


É garantir-lhe a vida, assegurar a sua esperança;
demonstrar aos idealistas que acreditam nas iniciativas generosas
que não foi traída a sua confiança em acompanha-las;
permitir, finalmente,
que se possa realizar aquilo que deve constituir
a parte profunda de qualquer reforma:
a transformação necessária de um ambiente ou de uma época.

Numa obra de reforma há a considerar duas fases: a inicial,


em que se coloca o problema nos seus devidos termos,
e a da efetivação, em que esse problema
começa a palpitar no interesse dos que o compreenderam.”

(Cecília Meireles em: Crônicas de educação vol 2, obra em prosa, p: 109)

10. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A UTOPIA NA DIREÇÃO DE UMA NOVA SOCIEDADE

“É muito difundida a idéia segundo a qual o processo e a forma


atuais da globalização seriam irreversíveis. (...) No entanto, essa
visão repetitiva do mundo confunde o que já foi realizado com as
perspectivas de realização. Para exorcizar esse risco, devemos
considerar que o mundo é formado não apenas pelo
que já existe (aqui, ali, em toda parte), mas pelo que pode
efetivamente existir (aqui, ali, em toda parte).”
(Milton Santos, 2000: p.160)
134

É um desafio construir um modelo pedagógico crítico diante da atual formação profissional,


integrando a técnica à percepção do universo social e da subjetividade de cada pessoa,
alcançando uma formação capaz de satisfazer as necessidades individuais e também sociais,
melhorando a qualidade do atendimento clínico especializado mas também a qualidade de vida
da população. O que estamos propondo é uma formação integrada ao sistema de saúde, onde o
aluno possa conhecer também os problemas da profissão e ter consciência crítica de sua
formação acadêmica e da realidade em que se encontra a sociedade. Não se trata de inserir
acadêmicos no SUS como mão-de-obra barata, mas proporcionar uma vivência prática dos
serviços de saúde e da relação profissional-paciente e de ambos com a comunidade. Para isso se
faz necessário fomentar uma discussão não só sobre o contexto presente, mas a responsabilidade
da ciência e de cada profissional com a realidade social, cultural, econômica e política do Brasil.

O papel da universidade não se resume em desenvolver habilidades técnicas (apesar de ser


incontestável sua importância) nos alunos. Ela também deve estimular o pensamento, a emoção e
a crítica. As relações humanas não podem ser desvinculadas do seu contexto social. Precisam
existir relações de afeto e solidariedade. Começam a entrar em cena, desta forma, todos os
aspectos sociais que participam da saúde do ser humano. A boca funciona, portanto, em conjunto
com todo o organismo, isto é, a saúde da boca é parte da saúde do corpo, saúde esta que também
depende das condições de vida como trabalho, salário, moradia e lazer. As críticas ao modelo
hegemônico da prática e formação profissional vem de um grupo ainda restrito pois as ideologias
não são exclusivamente geradas na universidade, mas sim, reproduzem um comportamento
enraizado na sociedade. Com as características da atual formação superior no país, o
posicionamento crítico que se poderia esperar de uma elite, que conclui o terceiro grau,
raramente é evidenciado. Tal situação torna-se ainda mais grave quando os alunos se formam em
uma universidade pública que, possui uma responsabilidade social acentuada, por ser custeada
por toda sociedade

Enfim, o aluno deve ser estimulado a refletir. É importante que se crie o hábito entre os
universitários de pensar, e o pensamento crítico só existe com diálogo. Grupos que acreditam na
educação dentro de uma perspectiva crítica, como uma alternativa ao modelo curativo de ensino,
começam a encontrar espaço dentro da odontologia. São novas propostas, fundamentadas em
conceitos como cidadania, pedagogia crítica, e saúde como um processo social. A cavidade oral,
privilegiada no modelo tecnicista, é posicionada como mais uma parte do corpo físico do
135

indivíduo, um aparelho, que faz parte de um sistema, que formam os seres humanos, que juntos,
formam a sociedade. De acordo com Botazzo (2000) na medida em que a Odontologia define-se
pela sua autonomia, é impositiva a seguinte questão:

“É possível definir o homem saudável pela sua boca? Podemos


admitir, ao menos teoricamente, a possibilidade de que um homem
venha a ter uma boca hígida, isto é, que conserve a integridade das
suas estruturas bucais, dentes, mucosas, glândulas salivares etc,
que não apresente nem cáries, nem má-oclusão, nem infecções ou
tecidos inflamados, ou formações císticas ou teratogênicas ou
degenerativas. Ainda assim seria possível?” (Id., p. 280)

O autor conclui assegurando que a definição do homem saudável pela sua boca é impossível,
porque isto implica definir de modo separado a normalidade do lugar. Sendo assim, Cordón &
Belaciano (1994) afirmam que “Não basta integrar as partes do corpo ou dividi-lo em sistemas se
não integrar o próprio homem, em sua condição de saúde-doença, no contexto em que vive,
adoece e morre”. Neste sentido o uso das técnicas para a reabilitação do paciente é
contextualizado no universo social onde ele se encontra.

A proposta deste trabalho é que os alunos e profissionais da área comecem a se perceber como
profissionais de saúde responsáveis pela qualidade de vida da população. E, acima de tudo, como
cidadãos que são responsáveis, quer pela manutenção, quer pela reforma do sistema dominante.
Por isso, dentro das faculdades de odontologia, conflitos ideológicos tornam-se inevitáveis.
Revendo Botazzo (1998), percebemos que a dificuldade reside exatamente em romper os marcos
de uma fisio-patologia estreita e, ao mesmo tempo, perceber que a sua norma não pode ser
contida nos termos de uma única função: para além da manducação fisiológica, a boca é também
um dos nossos aparelhos de prazer. Segundo o autor, “a doce boca que suga o doce seio é a
mesma que tritura e consome o mundo. Isto a põe imediatamente articulada, mais que qualquer
outra víscera, com o mundo do trabalho e da cultura, com as estruturas psíquicas e com o terreno
da representação”.

À esta reflexão soma-se a crise de mercado e a hegemonia de uma prática voltada para o
atendimento privado, que impera por décadas. Assumindo uma perspectiva contra-hegemônica, a
proposta de uma “nova odontologia” começa a despertar o interesse e a formar parcerias para a
construção de um novo modelo. Como observamos nos capítulos anteriores, as necessidades de
136

mudança na educação e nas finalidades do trabalho são constatações generalizadas e


reconhecidas. Entretanto, é preciso reconhecer que por essas mudanças passam relações de
interesse, embates políticos e disputas de poder. Segundo Schraiber (1989) à escola capitalista
compete moderar o potencial subversivo inerente à educação, escamotear a luta de classes e
inculcar o fetichismo dos valores burgueses. O sistema de produção da modernidade não só é
insuficiente para promover alterações significativas, como absolutamente inadequado, já que
exige da escola a formação de trabalhadores diretamente utilizáveis em curto prazo e adequados
às necessidades das empresas e dos monopólios. Entretanto, como nos demonstra Giroux (1995),
as escolas são espaços tanto de dominação como de contestação e “embora não haja dúvida de
que as escolas são ligadas à política educacional, interesses e recursos que carregam o peso da
lógica e das instituições do capitalismo, elas também propiciam espaço para o ensino, o
conhecimento e as práticas sociais emancipatórias”. Segundo Foucault73 “o poder deve ser visto
como uma força que opera tanto sobre as pessoas como por meio delas”. Portanto, o poder não é
um fenômeno estático, é um processo que está sempre atuando” através do discurso e das
práticas dos sujeitos.

Para Giroux (1995) os alunos e professores não se conformam simplesmente com as


características opressivas da escolarização, em alguns casos, os dois grupos resistem. Neste
sentido é importante destacar a importância das ideologias que, para Giroux (1986) - citando
Aronowitz e Gramsci - “mobilizam os sujeitos humanos e criam o terreno sobre o qual os
homens se movimentam e adquirem consciência de sua posição”. Assim, a ideologia enquanto
crítica pode ser utilizada não apenas para entender como a cultura dominante exerce o seu poder,
mas também, pode ser usada para desenvolver um modo de conhecimento que permita aos
professores e alunos entender e criticar a sua prática e o mundo dos significados que relega as
escolas a uma determinada relação com a sociedade dominante. Para Giroux (1986), uma das
formas de se questionar o fetichismo dos valores burgueses é atuar sobre os currículos, explícito
e oculto, colocando as noções de crítica e conflito no centro dos modelos pedagógicos. Nesta
proposta “a crítica deve se tornar um instrumento pedagógico vital, não apenas porque rompe
com as mistificações e distorções que ‘silenciosamente’ operam por trás dos rótulos e rotinas da
prática odontológica, mas também porque ela propicia uma forma de resistência e de pedagogia
de oposição”.

73
Apud Giroux (1986)
137

É neste sentido que buscamos na Saúde Bucal Coletiva fundamentos para a crítica da
odontologia dominante, confrontando os alunos com a realidade. A intenção não é transformar o
curso de odontologia num curso de saúde bucal coletiva, mas construir um ambiente de diálogo
entre a clínica individual e a saúde coletiva, evitando rupturas entre os campos e, ao contrário,
perceber as complexas relações entre os mesmos; ambos com sua história, seus valores e suas
funções. O que se propõe é constituir o curso de formação em odontologia em um ambiente
menos asséptico e mais complexo e, desta forma, poder proporcionar ao aluno diferentes visões
de mundo para que ele possa optar - a partir de uma vivência concreta no contexto histórico da
sociedade, e, se percebendo como um ator social – pela maneira como ele irá atuar na construção
cotidiana da realidade.

Botazzo & Freitas (1998) afirmam que a educação em odontologia “precisa se questionar,
começando pelas perguntas: ‘para quem’ estamos desenvolvendo a odontologia? e ‘que escola’
queremos instituir?” Se estamos pensando na formação de cirurgiões-dentistas com qualidades
específicas para a realidade cultural e sócio-econômica brasileira é preciso reconhecer, como
afirmam os autores, que “essa tarefa é coletiva e vai além do pedagogismo reformista, vai em
busca de uma pedagogia do necessitado; daquele excluído que sem voz, também não tem
alimento, também não tem dentes”. Teixeira & Paim (1996) acreditam que iniciar processos
mesmo em conjunturas desfavoráveis, porém tendo em conta seus limites e possibilidades - o
reconhecimento de um cenário restritivo de crise econômica, social e sanitária aliado à
hegemonia política de um bloco conservador - não invalida o crescimento de um processo
político participativo no interior das instituições de ensino. Segundo os autores, sinérgico à luta
maior pela democratização da saúde na sociedade brasileira, esse processo político poderá
ensejar o aparecimento de segmentos inovadores e novas lideranças, “mesmo em instituições
formadoras dominadas por grupos retrógrados. Afinal, “liderança e militância emergem da luta”.

Portanto, como propõe Botazzo74, em contra-ponto à Odontologia Flexneriana, o paradigma da


Saúde Bucal Coletiva surge como um grande desafio para as Faculdades de Odontologia no que
tange à sua operacionalização, uma vez que tem como principais características: “a determinação
social das doenças bucais; o objeto coletivo; integração das atividades promocionais, preventivas
e curativas; descentralização da atenção odontológica, formação de uma equipe de trabalho,
tecnologia apropriada e participação comunitária.” Acreditamos que para vencer este desafio o

74
Apud Narvai (1994)
138

compromisso ideológico deve ser instigado nos profissionais de saúde; afinal, ele não ocorre por
geração espontânea, mas por uma politização dos indivíduos. Como afirma Giroux (1986), a
consciência e a experiência do sujeito humano é o ponto de referência a partir do qual se
explicam as origens dos eventos, bem como as formas culturais que esses sujeitos deixam para
trás. Portanto, para a redefinição da própria odontologia, é necessário que, além do seu trabalho,
o médico, o dentista, ou qualquer outro profissional de saúde, tenham uma atuação política.

Para isso, há necessidade de um esforço conjunto dos profissionais de saúde nas unidades
Básicas e dos órgãos de formação, já que a esfera pública se torna um ponto de reunião, e um
referente teórico, para se entender a natureza da sociedade atual e a necessidade de se criar
cidadãos criticamente informados que possam lutar por estruturas fundamentalmente novas na
organização pública da experiência. Esta compreensão de que o campo da Saúde Bucal encontra-
se organicamente fincado no espaço político da formação social e numa luta pela transformação
da realidade atual está de acordo com Paim & Filho (2000), quando, citando Harnecker, afirmam
que a “política não é a arte do possível mas sim a arte de construir força social capaz de mudar a
realidade, tornando possível, no futuro, o que hoje parece impossível”.

Identificar os aliados atuais e potenciais, ao tempo em que se iniciam processos visando a


constituição dos sujeitos sociais capazes de construir viabilidades para tais políticas ainda
representa um dos grandes desafios da Saúde Bucal. Entretanto, para Cordón (1999), “a fonte
coletiva, popular, é inesgotável em exemplos de novas formas de relação para procurar novos
caminhos. Deve-se entender que o tecido social é muito dinâmico, e é nessa fonte que se recria
constantemente a solidariedade”. Desta forma, para o autor, é dever dos trabalhadores de saúde
bucal proporcionar condições objetivas para que a família, os novos movimentos de bairro,
ecológicos, étnicos, gênero, esportivos e quaisquer outros movimentos sociais tenham
possibilidade de expressão na construção da saúde, no SUS e, portanto, na condução do processo
histórico da sociedade brasileira. Sendo assim, poderíamos afirmar que a prática odontológica e
o ensino, ao incorporarem ao seu campo de significados a Saúde Bucal Coletiva, trazem à tona as
relações de poder na sociedade onde as doenças são geradas e propõem simultaneamente o
reordenamento da atenção em saúde bucal e uma mudança de paradigma na filosofia do ensino
de odontologia.
139

Campos, apud Botazzo (1999), reconhecendo a dificuldade desse processo político que visa a
transformação, aponta a solução pela via do estabelecimento de micro-políticas que,
privilegiando o tratamento dos micro-conflitos, em sua multiplicidade, pudessem assim estar
combinadas às disputas mais gerais, as pretensamente “mais estratégicas”. De acordo com
Cordón (1997) com decisão política e sobretudo com apoio popular, é possível realizar mudanças
gradativas, estabelecendo novos vínculos ou relações entre governo, centro de saúde, estrutura
sanitária e sociedade. Isto, segundo o autor, sem escravizar espaços, mas abrindo os maiores
espaços sociais que possam ser fonte de energia para conseguir resultados ou mudanças
qualitativas. Isto para que se crie uma referência mais positiva do trabalho que se faz em
odontologia.

Além do atendimento à saúde a ser conquistado com a efetiva implementação do Sistema Único
de Saúde, segundo Nutbeam, apud Cordón & Paes (2000), é requerido ainda, o acesso à
informação e ao desenvolvimento de habilidades pessoais e sociais, cognitivas e materiais que
permitam às pessoas controlarem e dirigirem suas vidas, desenvolverem a capacidade de
conviver com seu meio, de modifica-lo e até transforma-lo para elevar a qualidade de vida
coletiva. Ou, como propõe Botazzo: “Tomar o Freio nos dentes” 75 - como a luta pela conquista
do direito de “escolher entre longevidade e prazer”76, direito dos sujeitos de controlarem a
própria vida, a partir também da percepção crítica e da ação contra a dominação exercida sobre
nosso cotidiano pelos sistemas ideológicos e de representação, que ocultam a realidade. De
acordo com Cordón & Paes (2000) qualidade de vida seria a percepção por parte dos indivíduos
ou grupos em satisfazer suas necessidades, aproveitando as oportunidades para alcançar um
estado de felicidade e realização pessoal.

Desta forma: “ter qualidade de vida implica na oportunidade de fazer escolhas que garantam
satisfação em viver”, já que estamos de acordo com Campos (2000) quando afirma que a
participação na administração das relações entre desejos, interesses e necessidades sociais é
condição sine qua non para a democracia e para a construção de sujeitos saudáveis. Ainda

75
Expressão cunhada por Carlos Botazzo e pronunciada em palestra conferida no III ciclo de revisão em Saúde
Bucal - atualização em Saúde Bucal Coletiva realizado pela Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo em
29/10/2001.
76
Expressão proposta por Campos (2001) na afirmação: “Escolher entre longevidade e prazer é um direito ialienável
da pessoa humana”.
140

segundo Campos, apud Botazzo (1999), nesta perspectiva, “curar alguém seria sempre lutar para
a ampliação do coeficiente de autonomia dessa própria pessoa... para melhorar seu entendimento
do próprio corpo, da sua doença, de suas relações com o meio social e, em conseqüência, da
capacidade de cada um instituir normas que lhe ampliem as possibilidades de sobrevivência e a
qualidade de vida”. É exatamente esta compreensão do processo saúde-doença que sustentará a
filosofia desta “nova odontologia”, que ao incorporar a dimensão proposta pela Saúde Bucal
Coletiva contribuirá para a melhoria da qualidade de vida da população, não só com técnicas,
mas também com uma ação no campo político da realidade cotidiana, desmonopolizando a boca
e compreendendo a saúde bucal como um campo interdisciplinar, onde a odontologia tem sua
atuação, mas que não lhe é exclusiva.

O modelo de desenvolvimento adotado pelo país deve ser conscientemente questionado nos
cursos de graduação, nas associações de classe da categoria e pelos próprios profissionais
individualmente, já que segundo Cordón & Belaciano (1994) ele é economicista, consumista e
nos faz criar expectativas na tecnologia chamada de ponta, sem importar se ela é pertinente e útil
à população total ou à sua maioria. É nesta conjuntura que o fetichismo odontológico é gerado
- na disputa pelo capital dentro da perspectiva da ‘livre concorrência’ do mercado privado -
quando a intervenção no corpo do paciente significa remuneração imediata pela parte do corpo
recomposta, e a propaganda, portanto, torna-se necessária para a venda do produto. Quando os
meios de produção são gerados pelo Estado, essa propaganda tende a diminuir, já que se
desvincula a intervenção no corpo do pagamento pelos serviços prestados.

Para Zanetti (1998) a idéia fabricada de que só uma pequena parte das instituições públicas
(algumas empresas estatais) é capaz de operar no mercado e produzir riquezas (gerar valor) é
uma questão importante para compreender os relacionamentos do Estado com a esfera privada, já
que nesta concepção, todas as demais instituições do Estado, ao operar com anti-mercadorias,
são incapazes de produzir valor. Daí surge o entendimento de que o sistema público de saúde
deva ser predominante na produção de serviços e, ao mesmo tempo, surge um lobby das
empresas afirmando a falência do setor público, com o objetivo de obter lucros na venda de
planos privados de saúde. Utilizamos um artigo de jornal para exemplificar esta questão:

“Na opinião do Superintendente Estadual de Saúde do Rio, Oscar


Berro, há mais de dois meses está em curso uma campanha de
141

degradação da imagem dos hospitais públicos. Segundo o


superintendente, criar um clima de crise e fazer, por exemplo,
alguém tirar um filho do hospital público, significa abrir caminho
para segmentos da medicina privada que não têm interesse em
manter o sistema público funcionando”77

Se concordarmos que o sistema público de saúde deve ser predominante na produção de serviços
e que existe uma pressão do setor privado contra esta idéia, porque este conflito não é discutido
na universidade? Não seria então um paradoxo continuar formando dentistas exclusivamente na
perspectiva do mercado privado?

Superar a dicotomia Estado-mercado implica um novo estilo de gestão governamental e um novo


padrão de articulação Estado-sociedade, reformulando as práticas mais convencionais de
administração pública. O objetivo da consolidação democrática deve, segundo Nogueira (1999),
ser pensado em conexão com o tema da reforma do Estado, o que requer que a ação deste último
esteja afinada com um projeto coletivo global. Sob uma concepção estreita, predomina a
tendência a se entender eficiência estatal como decorrência direta do grau de clareza e precisão
pelo qual se definem as metas a serem alcançadas. Entretanto, democracia envolve justamente a
problematização do processo de constituição dos fins, necessariamente múltiplos e mesmo
antagônicos, sobretudo em uma sociedade complexa e diferenciada como a brasileira. A
democratização da saúde no Brasil só foi alcançada em teoria. Para que se torne realidade, será
preciso redirecionar os esforços para garantir uma administração pública e um modelo de
desenvolvimento que priorizem as metas coletivas e sociais. De acordo com Matos (1999),
quanto mais aprimorada a democracia, mais ampla é a noção de qualidade de vida, do grau de
bem-estar da sociedade e do igual acesso a bens materiais e culturais: “a força da democracia é o
fator de resistência à redução de todas as esferas da vida ao fator econômico”. Para a autora,
“viver é mais do que sobreviver, é excluir a violência, não sofre-la nem aplica-la, aproximando
os sujeitos sociais, reconciliando desejos com vida. Os homens não querem só viver, mas viver
bem, sem medo da dependência ou da miséria”78.

Para Konder (1992), embora tenhamos testemunhado o fracasso do socialismo no mundo


contemporâneo, e a conseqüente hegemonia do pensamento liberal na estruturação político-

77
Jornal ‘O Dia’, pg.3, Geral, Rio de Janeiro, segunda-feira, 04/06/2001.
78
Grifos meus.
142

social-econômico planetária, nada indica na atualidade, especialmente para as populações


excluídas dos fóruns decisórios, que estejamos no caminho da democratização. Assim, mais do
que nunca necessitamos de ações que favoreçam o desenvolvimento de uma nova consciência
social, baseada na compreensão dos cidadãos como os principais sujeitos do processo de
mudança das sociedades. De acordo com o autor, somente por esta via de socialização do poder
poderemos realizar o salto qualitativo que poderá transformar toda e qualquer ação em meio de
defesa de vida. De acordo com Ianni (1996) a superação do capitalismo pelo socialismo envolve
um processo histórico-social de amplas proporções, atravessado por rupturas e acomodações,
progressos e retrocessos, guerras e revoluções, revoluções e contra-revoluções. Trata-se de uma
revolução simultaneamente lenta e pacífica, parcial e geral, abrupta e violenta, dependendo das
condições prevalecentes no lugar; sempre no contraponto das forças sociais movendo-se em
escala nacional, regional e mundial. Aos poucos, ou de repente, atinge todas as esferas da vida
social, compreendendo a economia, a política, a cultura, a religião e a língua, bem como as
relações raciais, de gênero e com a natureza.

Talvez possamos considerar que os desejos de viver eternamente, com prazer, sem dor, e de ser
belo são hoje inerentes à subjetividade humana, e, provavelmente o sejam, desde que se associou
saúde à qualidade de vida e ao prazer. Entretanto, o sistema capitalista se prevalece disso,
transformando estes anseios em produtos, que anuncia, coloca à venda e “exige” a compra. Esta
transformação do desejo humano em mercadoria é o que caracteriza então o fetichismo. É nesta
perspectiva que afirmamos que o sistema capitalista alimenta o consumo dos serviços de saúde
(ou a medicalização da vida), não como a realização de um desejo humano, mas para a realização
de um fetiche, uma fantasia criada pelo próprio sistema, exatamente por considerar os serviços
de saúde como um produto privado. A partir desta análise, poderíamos então ponderar que não é
o desejo de ser belo e de viver com prazer, sem dor e eternamente que se constituem no fetiche,
mas sim a fantasia sustentada pela propaganda de que estes desejos podem ser satisfeitos ao se
comprar o “produto saúde”. É claro que não podemos desconsiderar que também a própria
fabricação desses desejos na subjetividade humana é em grande parte um reflexo dos valores
produzidos no contexto cultural da sociedade capitalista. Para Minayo (2001) o sujeito coletivo
da saúde é a própria sociedade que, por meio das condições objetivas e subjetivas que gera,
define tanto seu conceito sanitário, como níveis e padrões de qualidade de vida que pretende
alcançar.
143

Constitui-se portanto em uma utopia ‘desfetichizar’ a saúde – e também a saúde bucal - que
obviamente continuaria sendo uma necessidade humana, mas passaria a não ser mais considerada
uma mercadoria. Santos (2000) afirma que muito falamos hoje nos progressos e nas promessas
da engenharia genética, que conduziriam a uma mutação do homem biológico, algo que ainda é
do domínio da ciência e da técnica. Segundo o autor, “pouco, no entanto, se fala das condições,
também hoje presentes, que podem assegurar uma mutação filosófica do homem, capaz de
atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa e, também, do planeta”79. Assim, é papel
da Saúde Bucal Coletiva tornar consciente essa relação saúde/mercadoria, o que certamente irá
auxiliar na desconstrução do fetiche e na recriação das necessidades humanas. Para Campos
(2000) a saúde coletiva pode auxiliar no fortalecimento dos sujeitos ao co-participar da produção
de necessidades sociais.

Certamente, construir uma “pedagogia radical” na saúde é uma das formas de contribuir para
diminuir o grau de alienação dos sujeitos, já que segundo Giroux (1986), a pedagogia radical
deve se dirigir à tarefa de fornecer as condições para mudar a subjetividade, como ela é
construída nas necessidades, impulsos, paixões e inteligência do indivíduo, e também para mudar
os fundamentos políticos, econômicos e sociais da sociedade. Botazzo (1999) considera que a
saúde pública vive hoje uma crise sem precedentes. O autor afirma que “esta é a crise do Estado,
crise de uma sociedade que, ao produzir sua existência, expropria selvagemente seus
produtores”. De acordo com Schraiber (1989), a proposição de novas práticas como tentativa de
resposta a contradições reais da prática como é hoje, só pode ser buscada no reconhecimento das
próprias contradições, no interior das situações concretas em que são realizadas. Assim, um
reconhecimento das contradições é que permitiria propor novas práticas, que desenvolvendo os
paradoxos, podem levar ao encontro de formas de sua superação. Para Cordón & Belaciano
(1994), a superação dessas contradições passa também por uma transformação da escala de
valores, com o resgate do humanismo e o desenvolvimento da ética na Saúde. Sua superação
pretende, entre outras coisas, substituí-la por uma escala de valores da saúde, da resolutividade
de seus problemas, da cidadania, da participação no coletivo e da busca da satisfação social
desenvolvendo práticas solidárias, não egoístas e que valorizam os atores da saúde (profissionais
e população) como sujeitos partícipes de um mesmo processo.

79
(Idem, Pág. 174). Grifos meus.
144

É neste sentido que a Saúde Bucal Coletiva pode constituir-se também como um importante eixo
de estruturação para a construção de uma pedagogia radical, fazendo da saúde a condição eleita
para o desenvolvimento da consciência crítica da população e para sua alfabetização política.
Para isso, seria preciso estimular junto à população no cotidiano dos serviços e nas universidades
o questionamento do sistema social, das políticas públicas e das necessidades subjetivas dos
próprios indivíduos, e a partir destes questionamentos poder sugerir soluções e organizar ações
coletivas.

Segundo Iyda (1998) desvendar os fatos e ultrapassar uma visão dominante da odontologia é
considerá-la além de sua aparência, e além das suas práticas utilitária e técnico-científica. É
superar a exclusão das classes populares que pode ser percebida na restrição do acesso, na
seletividade e no tratamento diferencial dos serviços odontológicos. Neste sentido, para a autora,
politizar a odontologia é perceber que o ato odontológico é um fenômeno social (econômico,
ideológico e político). É necessário portanto segundo Iyda inteirar-se de que a realidade social
não é uma massa de fatos fragmentados e desligados entre si, mas é complexa e contraditória,
compreendendo relações, processos e estruturas nem sempre visíveis, mas que devem ser
desvendados, “para que esta realidade seja captada em sua totalidade, em movimento, e para que
se busque a resolução de suas contradições, criando uma nova realidade e reinventando a saúde
bucal”80. Segundo Paim & Filho (2000) uma das formas de enfrentar os desafios da Saúde com
equidade será constituir sujeitos sociais comprometidos com novas utopias, estabelecendo
canais de comunicação com outros sujeitos sociais que passem da condição de usuários passivos
ou destinatários de serviços públicos e de políticas de saúde para um patamar de parceiros e
cidadãos.

Além dos espaços da vida cotidiana, os conselhos municipais de saúde, os centros comunitários,
os sindicatos, ou os partidos políticos são espaços para essa discussão e construção de uma nova
realidade. É fundamental que se crie um ambiente de diálogo, fomentando debates não só sobre o
contexto presente, mas sobre a responsabilidade do Estado, da ciência e de cada cidadão para que
ocorram transformações substanciais na realidade brasileira. Para isso se faz necessário que
ocorram mudanças estruturais na universidade, no sistema de saúde, nas formas de acumulação

80
Grifos meus
145

de renda, nos meios de produção, nas relações de trabalho, nas políticas públicas e em todo
contexto social. Sendo assim, a construção de um futuro saudável está intimamente relacionado
com a sedimentação da democracia e com o exercício da cidadania na sociedade brasileira.
Segundo Mannheim (1982) somente quando a concepção utópica do indivíduo se impõe a
correntes já existentes na sociedade, dando-lhes uma expressão, quando, sob esta forma, reflui de
volta ao horizonte de todo o grupo, sendo por este traduzida em ação, somente então pode a
ordem existente ser desafiada pela luta de outra ordem de existência.

De acordo com Santos (2000) o mundo definido pela literatura oficial do pensamento único é,
somente, o conjunto de formas particulares de realização de apenas certo número de
possibilidades. No entanto, um mundo verdadeiro se definirá a partir da lista completa de
possibilidades presentes em certa data e que incluem não só o que já existe sobre a face da Terra,
como também, o que ainda não existe, mas é empiricamente factível. Segundo o autor tais
possibilidades, ainda não realizadas, já estão presentes como tendência ou como promessa de
realização. Por isso, situações como a que agora nos defrontamos parecem definitivas, mas não
são verdades eternas. É somente a partir dessa constatação, fundada na história real do nosso
tempo, que se torna possível retomar, de maneira concreta e pertinente, a idéia de utopia como
projeto.

Nesta perspectiva, acreditamos que para a construção deste projeto de uma “nova odontologia”
(tanto no âmbito da prática como do curso de formação) algumas transformações serão
necessárias, dentre elas:

1) É preciso haver uma desmonopolização da boca, onde a odontologia faria parte de uma
equipe interdisciplinar de saúde bucal;
2) O universo social deve ser percebido pelos dentistas em toda sua complexidade,
incorporando a saúde bucal na lista de prioridades das políticas públicas de saúde;
3) Contemplar a subjetividade humana e ter uma atuação coerente com as necessidades
dos sujeitos sociais;
146

4) A prática clínica deve usar técnicas coerentes com a realidade social brasileira, que
sejam eficientes e viáveis economicamente e, principalmente, deve enfocar a promoção de
saúde e não somente atuação sobre as doenças já instaladas no corpo dos indivíduos;
5) O curso de formação deve proporcionar uma vivência no cotidiano dos serviços
públicos e a constituição de uma relação de cumplicidade entre profissionais e comunidade;
6) É preciso que tenha ainda uma atuação no campo da política, compreendendo as
relações ideológicas de dominação e participar dos movimentos de luta pela democracia e luta
pelo SUS. As reflexões sobre estas questões e a construção prática destas propostas, podem ser
consideradas como desafios que precisam ser conquistados para que se constitua uma
odontologia coerente com a realidade brasileira e comprometida com a vida humana.

O Sistema Único de Saúde (SUS) com seus princípios de igualdade e participação popular é uma
conquista do modelo democrático e tem que ser defendido, apesar da população só conseguir ver
um sistema de saúde falido pela incompetência do governo em promover políticas públicas que
assegurem a sua implantação. É urgente que se desenvolva a capacidade de escuta e o
reconhecimento do direito de voz e decisão da população a respeito de seus problemas e
necessidades de cuidados, trabalhando a especificidade das demandas dos grupos sociais, como
forma de não incidir na generalização e homogeneização das questões da saúde, freqüentemente
observadas em algumas práticas. Estaríamos assim “dizendo não à violência do não sorrir”81,
entendendo o sorriso como um gesto de expressão do prazer. É possível sorrir com dentes ou
sem dentes, com a boca aberta ou com a boca fechada, com a mão na frente num gesto contido
ou ainda dar uma bela gargalhada. Cada gesto guarda em si a expressão enigmática de um
sujeito: suas lembranças, seus desejos, suas esperanças, mas também, guarda os conflitos, as
dores e as alegrias. Somente a história de uma vida poderia revelar o uso social que se fez desse
corpo.

O “não sorrir” assume, para nós, não somente a ausência ou a “podridão” dos dentes, porque
ainda assim é possível sorrir. Jamais saberemos o que esconde o sorriso de Monalisa da tela de
Leonardo da Vinci, jamais saberemos também, o que significa o sorriso enigmático da velha
senhora na foto de Sebastião Salgado que ilustra a capa deste trabalho. Portanto, independente de
dentes, o não-sorrir significa a ausência de prazer, a voz sufocada e abafada de quem é

81
Expressão criada por Mirella Giongo em junho de 2001 durante apresentação e discussão das metas para o quadriênio 2001-
2005 pela Coordenação de Programas de Saúde Bucal da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro (Secretaria Municipal de Saúde/
Superintendência de Saúde Coletiva)
147

explorado, de quem é mutilado, de quem perde sua capacidade de usar a boca para gritar, para
mastigar ou para sentir prazer. Muitas das raízes e das motivações das formas de violência,
individual e coletiva, estão na intolerância e no desprezo pelo valor da vida humana. É
exatamente o valor da vida humana que desejamos resgatar e é nisto, fundamentalmente, que se
constitui a utopia.

Assim como Berlinguer (1999) reconhecemos que as formas de violência são hoje em grande
parte “antropogênicas”, isto é, não se devem à natureza ou ao acaso, mas se devem às opções
humanas. Reconhecemos também que as opções são modificáveis com base em atos de vontade,
hoje impostos pela consciência e pela necessidade de transformação que presenciamos em nossa
vida cotidiana e que tanto nos incomoda. Por isso que para o autor “é difícil admitir que quando
há violência em alguma parte do mundo alguém possa pensar ‘isso não é problema meu’, e que
possa isolar-se, ainda que tente proteger-se com uma dupla couraça de insensibilidade”. Como
entretanto existem pessoas que incorporam esses problemas como sendo seus, é possível
concordar com Santos (2000) que: “o futuro são muitos; e resultarão de arranjos diferentes,
segundo nosso grau de consciência, entre o reino das possibilidades e o reino da vontade”.

Talvez aqui valha a pena resgatar um pouco da minha própria história de vida. Como já
apresentei anteriormente, ao entrar no curso de odontologia, fui cooptado por um sistema
hegemônico, uma cultura institucional que me fez ter como perspectiva única de trabalho o
consultório particular. Em alguns momentos do curso, porém, também vi que havia outras
propostas, outras intenções, visões de mundo diferentes daquela prevalente. No contato com um
contexto mais real, me confrontei com as divergentes possibilidades de projetos que existem para
a odontologia e para a sociedade brasileira. Neste confronto, em contato com a vida cotidiana das
classes populares e refletindo sobre a realidade que via, acabo construindo e incorporando uma
visão crítica da sociedade, que muda minha visão de mundo e me permite optar pela
transformação. Este estudo já é certamente reflexo deste amadurecimento, que só foi possível
pela reflexão sobre o mundo em que vivemos, sobre todas as formas de violência e exclusão, mas
também pela indignação, pela vontade de mudança e pela percepção clara que estamos
diariamente envolvidos numa disputa pelo poder e que, como em um tabuleiro de xadrez, cada
peça tem sua importância. Para o resultado final, tudo dependerá da forma como cada uma das
peças foi articulada. É assim, que hoje, percebo que somos freqüentemente amordaçados, temos
os olhos vendados e os ouvidos tapados, e ainda, somos fantasticamente e espetacularmente
148

dominados por uma ideologia, que funciona como um mundo fabricado e imperceptível aos
nossos olhos, um mundo irreal que somos aliciados a consumir.

Se acreditarmos que um outro mundo é possível, que podemos escrever nossa própria história,
nos daremos conta de que também precisaremos construir novas propostas e lutar por elas, e isso,
só será possível, se nos unirmos com a população excluída, sem medo de nos tornarmos nós
mesmos excluídos, mas com uma certeza, quase indubitável, e incorruptível, de que nós mesmos
ressurgiremos renovados, e que construiremos um mundo melhor. Mais democrático, mais
coletivo e menos fantasioso. Muitos acharão que são apenas sonhos, fantasias. Digo que não: -
São utopias! E são delas que devemos nos abastecer e nos suprir, pois construindo projetos para
o futuro estaremos já modificando este futuro, porque agora ele já tem uma outra possibilidade
de ser, e certamente muitas pessoas que acreditarão nele. Não estamos propondo a substituição
do capitalismo pelo socialismo, ou de um modelo por outro, como muitos poderiam pensar, mas
organização social ainda a ser construída, onde, independente do nome que venha a ter, o poder
possa ser distribuído de forma democrática pela sociedade, onde as necessidades sociais sejam
construídas a partir da negociação das carências individuais e subjetivas de cada sujeito,
reconciliando desejo com vida,e, onde o lucro, ou o capital, não seja o centro do universo, mas
que este centro seja a própria sociedade, como um todo, coletivamente e democraticamente
constituída.

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12. ANEXOS:

I. Relatório de Gestão do Grupo Técnico de Saúde Bucal da secretaria de higiene e


saúde do município de Santos – 1993/ 1996.

II. Decreto lei que cria o programa DENTESCOLA - Diário Oficial do Município do
Rio de Janeiro em 30/07/2001.

III. Objetivos e metas para o quadriênio 2001 /2005 da superintendência de Saúde


Coletiva - Coordenação de programas de Saúde Bucal da Secretaria de Saúde da
Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro.

IV. Cartaz do programa DENTESCOLA abrindo a inscrição para estágio remunerado na


Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro. As vagas estão
distribuídas entre estudantes de 13 áreas distintas com o objetivo de alcançar a
interdisciplinaridade no programa de saúde.

V. Boletim especial da FIO, lançado em Dezembro de 2000, para a XI Conferência


Nacional de Saúde - Tese da área de Saúde Bucal – Saúde Bucal: um Direito de
Cidadania.