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CAPÍTULO 7

SUMÁRIO

7 – PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS

7.1

INTRODUÇÃO 7.1.2 Estudo histórico

 

7.2

PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA À DOUTRINA DOS MUNDOS HABITADOS

7.2.1

Encarnação de Deus sobre a Terra

 

7.2.2

A criação dos astros na génese bíblica

7.2.3

A descendência adâmica

 

7.2.4

A parada do Sol e da Lua

 

7.2.5

Salvação da humanidade pelo sangue de Jesus

7.3

MUITAS

MORADAS

NA

CASA

DE

MEU PAI

7.4 TRANSMIGRAÇÕES PROGRESSIVAS

7.5 UNIVERSO INFINITO – Evidência racional da existência de outros mundos habitados

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Pluralidade dos Mundos Habitados

7 – PLURALIDADE DOS MUN- DOS HABITADOS

7. 1 INTRODUÇÃO

Allan Kardec pergunta aos espíritos se os globos que se movem no espaço são habitados, ao que eles respondem que sim, que o homem terreno está longe de ser, co- mo supõe, o primeiro em inteligência, em bondade e em perfeição. Entretanto, há ho- mens que se têm por espíritos muito fortes e que imaginam pertencer só a este pequeni- no globo o privilégio de conter seres racionais. Orgulho e vaidade! Julgam que Deus só criou para eles o Universo. Deus povoou de seres vivos os mundos, concorrendo todos esses seres para o objectivo final da Providência. Acreditar que só os haja no planeta que habitamos, seria duvidar da sabedoria de Deus, que não faz coisa alguma inútil. Certamente, a esses mundos há-de ter dado um destino mais sério do que o de nos recrearem a vista. Aliás,

56 - O nosso sistema solar
56 - O nosso sistema solar

nada há, nem na posição, nem no volume, nem na constituição física da Terra, que pos- sa induzir à suposição de que ela goze o privilégio exclusivo de ser habitada, com ex- clusão de tantos milhares de milhões de mundos semelhantes. As condições de existência dos seres que habitam os diferentes mundos hão-de ser adequadas ao meio em que lhes cumpre viver. Se jamais tivéssemos visto peixes, não compreenderíamos que pudesse haver seres que vivessem dentro da água. Assim acontece em relação aos outros mundos que, sem dúvida, contêm elementos que desco- nhecemos. Não vemos na Terra as longas noites polares iluminadas pela electricidade das auroras boreais? Que há de impossível em ser a electricidade, nalguns mundos, mais abundante do que na Terra e desempenhar neles uma função de ordem geral, cujos efei- tos não podemos compreender? Bem pode suceder, portanto, que esses mundos tragam em si mesmos as fontes de calor e luz necessárias aos seus habitantes.

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A RETER

1 – Deus povoou de seres vivos os mundos, concorrendo para o objectivo final da Pro- vidência.

2 – Acreditar que só o nosso planeta seja habitado, é duvidar da sabedoria de Deus, que não faz coisa alguma inútil.

3 – As condições de existência dos seres que habitam os diferentes mundos, são ade- quadas ao meio em vivem.

7.1.1 ESTUDO HISTÓRICO

57 - Pirâmide do Egipto
57 - Pirâmide do Egipto

Esta crença íntima que nos mostra o Universo como um vasto império em que a vida se desenvolve sob as formas mais variadas, em que milhares de nações vivem simultaneamente na extensão dos céus, parece contemporânea do estabelecimento da inteligência humana sobre a Terra. Todos os povos, principalmente os hin- dus, chineses e árabes, conservaram até aos nos- sos dias tradições teogónicas, em que se reco- nhece, entre os dogmas antigos, o da pluralidade das habitações humanas nos mundos que bri- lham por cima da nossa cabeça; e, remontando às primeiras páginas dos anais históricos da hu- manidade, encontra-se esta mesma ideia: ou religiosa, pela transmigração das almas e seu estado futuro; ou astronómica, simplesmente pela habitabilidade dos astros. Os livros mais antigos que possuímos,

dos vedas, génese antiga dos hindus, relatam a doutrina da pluralidade das habitações da alma humana nos astros. Para nos atermos à doutrina da pluralidade dos mundos e à antiguidade histórica e clássica, que é a única que podemos estudar com algum fundamento de certeza, notaremos, primeiramente, que o Egipto, berço da filosofia asiática, tinha ensinado aos seus sábios esta antiga doutrina. Talvez os egípcios não a estendessem, então, senão aos sete planetas principais (4) e à Lua, que chamavam de terra etérea; seja como for, é notório que professavam altamente esta crença. A maior parte das seitas gregas ensinaram-na; ou abertamente, a todos os discí- pulos sem distinção; ou em segredo, aos iniciados da filosofia. Os filósofos da mais antiga seita grega, a seita jónica, cujo instituidor, Thales, acreditava que as estrelas eram formadas da mesma substância que a Terra, perpetuaram no seu seio as ideias da tradição egípcia, implantadas na Grécia. Anaximandro e Ana- ximenes, sucessores imediatos do chefe da escola, ensinaram a pluralidade dos mundos, doutrina que foi mais tarde espalhada por Empédocles, Aristarco, Leucipo e outros. Anaxágoras ensinou a habitabilidade como artigo de crença filosófica. Partidário famo-

(4) Os antigos conheciam apenas sete planetas, pois Neptuno foi descoberto no dia 23 de Setembro de 1846, por Johann Gottfried Galle e Plutão em Março de 1930, por C. Tombaugh, do observatório Lo- well, em Flagstaff, Arizona.

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so do movimento da Terra, é notável que a sua opinião suscitasse em redor dele invejo- sos e fanáticos e que, por haver dito que o Sol era maior que o Peloponeso, fosse perse- guido e quase assassinado. O primeiro dos gregos que teve nome de filósofo, Pitágoras, ensinava ao público

a imobilidade da Terra e o movimento dos astros em redor dela, e aos seus adeptos pri- vilegiados declarava a sua crença no movimento da Terra como planeta e na pluralidade dos mundos. A escola de Epicuro ensinou a pluralidade dos mundos; e a maior parte dos seus adeptos não só compreendiam os corpos planetários debaixo do título de mundos habi- táveis, como acreditavam ainda na habitabilidade de uma multidão de corpos celestes disseminados no espaço. Metródoro de Lampsaque, entre outros, achava que seria tão absurdo reconhecer um só mundo habitado no espaço infinito como dizer que não pode- ria crescer mais do que uma espiga de milho num campo vasto. Anaxarque dizia a mesma coisa a Alexandre, o Grande, admirando-se, quando havia tantos mundos habi- tados, de ter ocupado, com a sua glória, somente um. Um grande número de sectários da escola epicurista, entre os quais citaremos Lucrécio, acreditou não só na pluralidade como, ainda mais, na infinidade dos mundos. Ele afirmava que todo este universo visível não é único no Universo e que devemos crer que há, em outras regiões do espaço, outras terras, outros seres e outros homens. E que se as inúmeras ondas criadoras se agitam e nadam sob mil formas variadas e através do oceano do espaço infinito, não teriam produzido, na sua luta fecunda, só o orbe Terra e

a sua abóbada celeste. Que não é crível que além deste mundo uma vasta aglomeração

de elementos se condene a um ocioso repouso. Que se os princípios geradores deram nascimento às massas donde saíram o céu, as ondas, a Terra e seus habitantes, devemos convir que, no resto do vácuo, os elementos da matéria engendraram um sem número de seres animados, de mares, de céus e terras e semearam o espaço de mun- dos semelhantes àquele que se balan- ça debaixo dos nossos passos, nas ondas aéreas. Em seguida, e isto durou um milénio e meio, a Religião Católica, vitoriosa, deveria estabelecer a Terra, conforme os ensinamentos de Ptolo- meu, como centro do Universo, cer- ceando o aprofundamento das teorias da multiplicidade dos mundos habi- tados. Foi o grande astrónomo polaco Nicolau Copérnico quem, depois de

haver derrubado o sistema de Ptolo-

meu, demonstrou, pela primeira vez,

à humanidade o verdadeiro lugar que

lhe competia. Estando a Terra colo-

cada no seu devido lugar, a possibi- lidade de vida noutros planetas pas- sava a ter um fundamento científico. As primeiras observações feitas com

o auxílio do telescópio, com as quais

Galileu inaugurava uma nova era para a Astronomia, inflamaram a imaginação dos con- temporâneos. Tornou-se claro que os planetas eram corpos celestes bastante parecidos

58 - Nicolau Copérnico
58 - Nicolau Copérnico

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com a Terra. E isto levava naturalmente à formulação da pergunta: Porque haveria o nosso Sol de ser o único astro acompanhado de um séquito de planetas? O grande pen- sador Giordano Bruno exprimiu essas audaciosas ideias revestindo-as de uma forma clara e inequívoca, dizendo que existe uma infinidade de sóis e terras girando em torno de seus sóis, tal como os nossos planetas giram em torno do nosso Sol e que seres vivos habitam esses mundos. Foram cruéis as represálias da Igreja Católica; declarado herege pelo Santo Ofício, Bruno morreu queimado, em Roma, no Campo dei Fiori, no dia 17 de Fevereiro de 1600. Na segunda metade do século XVI, e durante o século XVII, sábios, filósofos e escritores consagraram um bom número de livros a esse problema do Universo. Enume- remos Cyrano de Bergerac, Fontenelle, Huygens e Voltaire, entre outros. Vejamos o sábio russo Lomonossov, Kant, Laplace, Herschel e haveremos de observar que a ideia da pluralidade dos mundos habitados se difundiu por toda a parte, sem que ninguém, ou quase ninguém, nos meios científicos e filosóficos, se atrevesse a levantar a voz contra ela. Na segunda metade do século XIX, o livro de Camille Flammarion ”A Plurali- dade dos Mundos Habitados” atingiu enorme popularidade; somente na França, foi trin- ta vezes reeditado em vinte anos, tendo sido traduzido para vários idiomas. Partindo de

posições idealistas, Flammarion admitia ser a vida o objectivo final da formação dos planetas. Revelando um apurado senso de humor e redigidos em estilo muito vivo, em- bora algo rebuscado, os seus livros causaram excelente impressão aos seus contemporâ- neos. O leitor actual impressiona-se, sobretudo, pela desproporção existente entre a quantidade insignificante de conhecimentos exactos sobre a natureza dos corpos celestes (a Astrofísica mal acabara de nascer) e o tom incisivo adoptado pelo autor para afirmar a pluralidade dos mundos habitados. Flammarion dirigia-se mais à sensibilidade do que ao raciocínio.

O russo Constantin Tsiolkovski, pai da Astronáutica, foi um ardoroso defensor

dos mundos habitados. Reproduziremos apenas algumas das suas frases: “Será lícito imaginar uma Europa povoada e as outras partes do mundo não?”. E de seguida: “Os

diversos planetas apresentam as diversas fases da evolução dos seres vivos. O que foi a humanidade há alguns milhares de anos, o que virá a ser dentro de alguns milhões de anos, tudo isto poderemos aprender interrogando os planetas”.

A história da pluralidade dos mundos habitados está intimamente ligada à das

concepções cosmogónicas. Assim, durante a primeira terça parte do século XX, quando tinha livre curso a hipótese cosmogónica de Jeans, segundo a qual o Sol devia o seu

cortejo de planetas a uma catástrofe cósmica extremamente rara (o semichoque de duas estrelas), a maioria dos sábios considerava a vida como um fenómeno excepcional no Universo.

A nossa galáxia conta mais de cem biliões de estrelas: parecia bastante imprová-

vel, portanto, que nela não se encontrasse pelo menos uma - sem falar no Sol - que não contasse com um sistema planetário. A derrocada da teoria de Jeans, depois de 1930, e a ascensão da Astrofísica, têm grandes probabilidades de nos levar à conclusão de que existem na nossa galáxia sistemas planetários em grande quantidade, constituindo o sistema solar mais uma regra do que uma excepção no mundo dos astros. Contudo, ain- da não está suficientemente demonstrada esta tão provável suposição. A, então, União Soviética, ao colocar em órbita, no dia 4 de Outubro de 1957, o primeiro satélite artificial da Terra, Sputnik, inaugurou uma etapa inteiramente nova na história da ideia da pluralidade dos mundos habitados. A partir de então foram rápidos os progressos obtidos no estudo e na conquista do espaço circum-terrestre, coroado pe- los voos dos cosmonautas soviéticos e, posteriormente, pelos americanos. Os homens

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tomaram subitamente consciência do facto de habitarem um minúsculo planeta solto na imensidão do espaço cósmico. Todos, é claro, tinham aprendido um pouquinho de As- tronomia na escola e, teoricamente, ninguém ignorava a situação da Terra no Cosmos; a

actividade prática, no entanto, continuava dirigida por um geocentrismo espontâneo. Por este motivo, nunca será demasiado insistir em recordar a revolução esperada na consci- ência dos homens nesta fase inicial de uma nova era da história humana, era do estudo directo e, algum dia, da conquista do Cosmos. Assim, o problema da existência de vida em outros mundos saiu do campo da abstracção, para adquirir uma significação concreta. Estará resolvido experimentalmen- te, dentro de alguns anos, na parte referente aos planetas do sistema solar. A partir de Copérnico e Galileu, as velhas cosmogonias deixaram para sempre de subsistir. A Astronomia só podia avançar, não recuar. A História fala das lutas que esses homens de génio tiveram de sustentar contra os preconceitos e, sobretudo, contra

o espírito de seita, interessado em manter erros sobre os quais se tinham fundado cren- ças supostamente firmadas em bases inabaláveis. Bastou a invenção de um instrumento de óptica para derrocar uma construção de muitos milhares de anos.

A RETER

1 – Desde sempre, todos os povos, e principalmente os hindus, chineses e árabes acredi- taram na pluralidade dos mundos habitados.

2 – O Egipto, berço da filosofia asiática, tinha ensinado aos seus sábios esta antiga dou- trina.

3 – A maior parte das seitas gregas ensinaram-na; ou abertamente, a todos os discípulos sem distinção; ou em segredo, aos iniciados da filosofia.

4 – Thales, Anaximandro, Anaximene, Empédocles, Aristarco, Anaxágoras, Leucipo, Pitágoras, Epicuro, Metródoro de Lampsaque, Anaxarque, Lucrécio e outros, ensi- naram a pluralidade dos mundos habitados.

5 – Com Nicolau Copérnico, que derrubou a teoria da Terra como centro do Universo, abriu-se a possibilidade de vida noutros planetas de cunho científico.

6 – Com o auxílio do telescópio, verificou-se que os planetas eram corpos celestes bas- tante parecidos com a Terra e Giordano Bruno afirmou que seres vivos habitam es- ses mundos.

7 – Nos séculos XVI e XVII sábios, filósofos e escritores consagraram bom número de livros ao problema da vida no Universo.

8 – O russo Constantin Tsiolkovski, pai da Astronáutica, foi um ardoroso defensor da pluralidade dos mundos habitados.

9 – A, então, União Soviética, ao colocar em órbita, em 1957, o primeiro satélite artifi- cial, inaugurou uma etapa inteiramente nova na história da ideia da pluralidade dos mundos habitados e da conquista do Cosmos.

7.2

PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA À DOUTRI- NA DOS MUNDOS HABITADOS

Para tolher o progresso da Ciência, coibir a liberdade de pensamento e combater

a doutrina da pluralidade dos mundos habitados, que vinha colocar em descrédito a in-

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terpretação literal dos livros sagrados, a Religião tomou como estandarte as palavras de Tertuliano: “Não temos necessidade de nenhuma ciência depois do Cristo, nem de ne- nhuma prova depois do Evangelho; quem crê nada mais deseja; a ignorância é boa, em geral, para que não se chegue a conhecer o que é inconveniente.”

59 - Santo Ofício, o tribunal da Inquisição
59 - Santo Ofício, o tribunal da Inquisição

A interpretação errónea dos livros sagrados sobre a imobilidade da Terra, que já

cobria com um véu espesso os olhos dos homens desejosos de conhecer, e a aceitação

tácita do pensamento de Tertuliano, reverenciado por muitos como sentença, encobriu a doutrina da pluralidade dos mundos habitados durante séculos e séculos.

A religião oficial tinha necessidade de um ferrenho combate a essa doutrina por-

que contrariava os seus dogmas.

Analisemos esses dogmas.

A RETER

1 – A interpretação errónea dos livros sagrados sobre a imobilidade da Terra e a aceita- ção dogmática do pensamento de Tertuliano, encobriram durante muitos séculos a doutrina da pluralidade dos mundos habitados.

2 – A religião oficial tinha necessidade de combater essa doutrina, porque contrariava os seus dogmas.

7.2.1 A ENCARNAÇÃO DE DEUS SOBRE A TERRA

Essa doutrina traria aos teólogos enorme dificuldade para responder à questão: A Terra que habitamos, não sendo mais do que um átomo insignificante na universalidade

dos mundos, porquê o privilégio com que a gratificaram de ter sido o objecto especial da complacência divina, de haver recebido na sua habitação o próprio Eterno, que não desdenhara descer a encarnar-se num pouco de poeira terrestre?

O homem, criatura que Deus fez à sua imagem, peca e cai logo no primeiro dia

da sua existência; Deus, cheio de uma bondade compassiva, desce, Ele próprio, para levantá-lo. Eis aí uma crença muito doce e consoladora para o homem, que pode apre- sentar, sem demasiados mistérios, o que os espíritos mais simples podem aceitar e com- preender. Porém, já não é assim desde que a revelação astronómica faz perder à Terra e

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ao homem todo o seu prestígio, ao mesmo tempo que eleva Deus a uma altura inacessí- vel. Esta Terra privilegiada, ou antes, esta Terra única, estava outrora envolvida numa auréola resplandecente; porém, um belo dia os nossos olhos abriram-se, olhámo-la na face, esta Terra cercada de glória e, repentinamente, a sua auréola brilhante dissipa-se. O palácio dos homens perdeu a sua riqueza aparente, afundou-se na obscuridade e logo uma multidão de outras terras apareceram atrás dele, enchendo espaços sem fim. Desde então o aspecto do mundo modificou-se e com ele crenças que até então pareciam estar solidamente fundadas. Desde a época de Copérnico e Galileu sentira-se, em toda a sua profundidade, as dificuldades que o novo sistema do mundo ia suscitar contra o dogma do Verbo encar- nado. Não se deve ver somente um negócio de ciúme ou de jesuitismo no memorável processo de Galileu. Não foi a pessoa do ilustre toscano que tiveram em vista, porém os princípios que ele defendia. Uma vez demonstrado o movimento da Terra, a Igreja de- veria desde então interpretar num sentido figurado as passagens das escrituras que lhe são contrárias.

A RETER

1 – Não sendo a Terra mais do que um átomo insignificante no conjunto do Universo, por que teria o privilégio de haver recebido o próprio Deus, que não desdenhara descer a encarnar-se num pouco de poeira terrestre?

7.2.2 A CRIAÇÃO DOS ASTROS NA GÉNESE BÍBLICA

A doutrina da pluralidade dos mundos habitados viria trazer inúmeros problemas para a interpre- tação do “Génesis”, de Moisés, que afirma terem sido os astros criados somente no quarto dia da criação, para iluminar a Terra e marcar-lhe o tempo e as estações do ano. “E disse Deus: Haja lumi- nares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e para anos.

E sejam postos luminares na

expansão dos céus, para alumiar a Terra. E assim foi.

E fez Deus os dois grandes

60 - A Terra
60 - A Terra

luminares; o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas.

E

Deus os pôs na expansão dos céus para alumiar a Terra.

E

para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas.

E viu Deus que era bom.

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E foi a tarde e a manhã do dia quarto.” (Génesis, Moisés, Cap. I, vv. 14 a 19) A Terra, deixando de ser privilegiada de entre as demais obras da criação uni- versal, colocaria em posição difícil aqueles que ainda lutavam para que os livros sagra- dos fossem interpretados segundo a letra, e não conforme o espírito, que vivifica. A Astronomia demonstrando que os mundos se sucedem ao infinito e que a Terra gravita em torno do Sol, como conciliar a ideia de que só depois de formar este planeta, no quarto dia, teria o Criador criado o Sol e a Lua? Surgiu, então, a necessidade do comba- te sem tréguas da religião dogmática à doutrina dos mundos habitados.

A RETER

1 – A doutrina da pluralidade dos mundos habitados viria trazer problemas para a inter- pretação do livro de Moisés, que afirma terem sido os astros criados somente no quarto dia da criação, para iluminar a Terra e marcar-lhe o tempo e as estações do ano.

2 – Deixando de ser a Terra o privilegiado centro do Universo, como conciliar a ideia de que só depois de formar o planeta é que, no quarto dia, teria o Criador formado o Sol e a Lua?

7.2.3 A DESCENDÊNCIA ADÂMICA

61 - Adão e Eva
61 - Adão e Eva

A RETER

Com a pluralidade dos mundos habitados cairia por terra a doutrina de um único casal, cria- do à imagem e semelhança de Deus, para povoar toda a Terra e únicas criaturas do Universo. Tam- bém a doutrina do pecado original estaria invali- dada.

Havendo outros mundos e outros habitan- tes longe da Terra, por certo não descenderiam de Adão e, como tal, Deus houvera criado, noutros lugares e noutro tempo, as suas criaturas que tam- bém deveriam lutar, sofrer, aprender, progredir na grande marcha evolutiva, que se constitui lei do Universo. E essas criaturas nenhuma ligação teri- am com o pecado original do casal primitivo, que afirmam ser herança inesgotável dos viventes da Terra.

1 – Com a doutrina da vida em planetas incontáveis cairia por terra a doutrina de um único casal, únicas criaturas do Universo, criado à imagem e semelhança de Deus para povoar a Terra.

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2 – Havendo outros mundos e outros habitantes longe da Terra, por certo não descende- riam de Adão e, como tal, Deus houvera criado, noutros lugares e noutro tempo, as suas criaturas, sem ligação alguma com o pecado original do casal primitivo.

7.2.4 A PARADA DO SOL E DA LUA

“Então Josué falou ao Senhor no dia em que o Senhor deu os amorreus na mão dos filhos de Israel, e disse aos olhos dos israelitas: Sol, detém-te em Gibeão, e tu, Lua, no vale da Aijalom. E o Sol se deteve, e a Lua parou, até que o povo se vingou dos seus inimigos. Is- to não está escrito no livro de Reto? O Sol, pois, deteve-se no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro.” (Josué, Cap. 10, vv. 12 e 13) As observações da Astronomia, que contrariam a passagem acima, comprovando que a Terra é que se move ao redor do Sol, só poderiam gerar revoltas e perseguições, como as sofridas por Giordano Bruno e Galileu Galilei. Desaparecendo o suposto privilégio da Terra, por ser igual a milhões e milhões de mundos, também desapareceria a ideia de um povo eleito, em detrimento de outros, e mesmo girando a Terra em redor do Sol, o Senhor não poderia parar este para que o dia se prolongasse até que a batalha fosse vencida. Tais argumentos colocariam em risco a credibilidade das Sagradas Escrituras. Daí as perseguições às teorias heliocêntrica (a Terra gira em torno do Sol) e da plurali- dade dos mundos habitados.

A RETER

1 – Desaparecendo o suposto privilégio da Terra, por ser igual a milhões e milhões de outros mundos, também desapareceria o interesse de Deus em quinhoar um povo em detrimento de outros.

2 – Girando a Terra em torno do Sol, como poderia Deus parar este, para que o dia se prolongasse?

3 – Tais argumentos colocavam em risco a credibilidade das Sagradas Escrituras, sendo perseguidas as doutrinas heliocêntrica e da pluralidade dos mundos habitados.

7.2.5 A SALVAÇÃO DA HUMANIDADE PELO SANGUE DE JESUS

Diz este dogma que Jesus deu a sua vida em holocausto para que o seu sangue lavasse a alma do homem, manchada pelo pecado original. Com a doutrina da pluralidade dos mundos habitados, existindo, então, humani- dades que não estariam vinculadas ao pecado original cometido pelo primeiro casal da Terra, já não haveria lógica na salvação do sangue derramado pelo Cordeiro Divino. Para que esse dogma continuasse a vigorar entre os crentes, não poderia haver outro mundo habitado além da Terra e toda a humanidade deveria descender do casal inicial e trazer consigo a mácula da desobediência perpetrada por eles à ordem do Se- nhor e necessitar do sangue de Jesus para redimi-los.

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A RETER

1 – O dogma afirma que Jesus deu a sua vida em holocausto para que o seu sangue la- vasse a alma do homem, manchada pelo pecado original.

2 – Com a doutrina da pluralidade dos mundos habitados, existindo, então, humanidades que não estariam vinculadas ao primeiro casal da Terra, esse dogma não faria senti- do.

3 – Para que esse dogma continuasse a vigorar entre os crentes, não poderia haver outro mundo habitado além da Terra.

7.3 HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DE MEU PAI

“Não se turbe o vosso coração. Crede em Deus, crede também em mim. Há muitas moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse já vo-lo teria dito, pois me vou para vos preparar o lugar.” (S. João, Cap. XIV, v. 1) A casa do Pai é o Universo. As di- ferentes moradas são os mundos que cir- culam no espaço infinito e oferecem, aos espíritos que neles encarnam, moradas correspondentes ao seu adiantamento. Os espíritos dizem que são muito diferentes umas das outras as condições dos mundos, quanto ao grau de adianta- mento ou de inferioridade dos seus habi-

tantes. Há entre eles, os que são inferiores

à Terra, física e moralmente; outros, da

mesma categoria que o nosso; e outros que lhe são mais ou menos superiores em

todos os aspectos. Nos mundos inferiores,

a existência é toda material, reinam sobe-

ranas as paixões, sendo quase nula a vida moral. À medida que esta se desenvolve,

diminui a influência da matéria, de tal maneira que, nos mundos mais adiantados, a vida é, por assim dizer, toda espiritual. Nos mundos intermediários misturam-se o bem e o mal, predominando um ou

outro, segundo o grau de adiantamento da maioria de quem os habita. Embora se não possa fazer uma classificação absoluta dos diversos mundos, podem, contudo, em virtu- de do estado em que se acham e da destinação que trazem, tomando por base os matizes mais adiantados, dividir-se, de modo geral:

62 - O Universo
62 - O Universo

1. Mundos primitivos, destinados às primeiras encarnações da alma humana;

2. Mundos de expiação e provas, onde domina o mal;

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3. Mundos de regeneração, nos quais as almas que ainda têm que expiar hau- rem novas forças, repousando das fadigas das lutas;

4. Mundos ditosos, onde o bem se sobrepõe ao mal;

5. Mundos celestes ou divinos, habitações de espíritos depurados, onde reina

exclusivamente o bem. A Terra pertence à categoria dos mundos de expiação e provas, razão por que aí vive o homem a braços com muitas misérias.

A RETER

1 – As diferentes moradas são os mundos que circulam no espaço infinito e oferecem, aos espíritos que neles encarnam, moradas correspondentes ao seu adiantamento.

2 – São muito diferentes umas das outras as condições dos mundos, quanto ao grau de adiantamento ou de inferioridade dos seus habitantes.

3 – Nos mundos inferiores, a existência é toda material, reinam as paixões, sendo quase nula a vida moral.

4 – À medida que a vida moral se desenvolve, diminui a influência da matéria e nos mundos mais adiantados a vida é espiritual.

5 – Nos mundos intermediários misturam-se o bem e o mal.

6 – Sem fazer uma classificação absoluta, os mundos podem ser: primitivos, de expia- ção e provas, de regeneração, ditosos, celestes ou divinos.

7 – A Terra pertence à categoria dos mundos de expiação e provas.

7.4 TRANSMIGRAÇÕES PROGRESSIVAS

A vida do espírito, no seu conjunto, apresenta as mesmas fases que observamos na vida corporal. Ele passa, gradualmente, do estado de embrião ao de infância, para chegar, percorrendo sucessivos períodos, ao de adulto, que é o da perfeição, com a diferença de que para o espírito não há declínio, nem decrepitude, como na vida corporal; que a sua vida, que teve começo, não terá fim; que imenso tempo lhe é necessário, para passar da infância espiritual ao completo desenvolvi- mento; e que o seu processo se reali- za não num único mundo, mas vi- vendo em mundos diversos. A vida do espírito, pois, compõe-se de uma série de existên- cias corpóreas, cada uma das quais representa para ele uma ocasião de

progredir, do mesmo modo que cada existência corporal se compõe de uma série de

63 - Transmigrações progressivas dos espíritos
63 - Transmigrações progressivas dos espíritos

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dias, em cada um dos quais o homem obtém um acréscimo de experiência e instrução. Mas, assim como na vida do homem há dias que nenhum fruto produzem, na do espírito há existências corporais que nenhum resultado colhe, porque não as soube aproveitar. Ninguém, por um proceder impecável na vida actual, poderá transpor todos os

graus da escala do aperfeiçoamento e tornar-se espírito puro, sem passar por graus in- termediários.

O que o homem julga perfeito está longe da perfeição. Há qualidades que lhe são

desconhecidas e incompreensíveis. Poderá ser tão perfeito quanto o comporte a sua na-

tureza terrena, mas isso não é a perfeição absoluta. Dá-se com o espírito o que se verifi- ca com a criança que, por mais precoce que seja, tem de passar pela juventude, antes de chegar à idade madura; e também com o enfermo que, para recobrar a saúde, tem que passar pela convalescença. Além disso, cumpre ao espírito progredir em ciência e mo- ral. Se somente se adiantou num sentido, tem necessidade de adiantar-se no outro, para atingir o extremo superior da escala. Contudo, quanto mais o homem se adiantar na sua vida actual, tanto menos longas e penosas lhe serão as provas que se seguirem. Nas suas novas existências, um homem poderá descer mais baixo do que esteja na actual somente do ponto de vista social, mas não como espírito.

A marcha dos espíritos é progressiva, jamais retrograda. Elevam-se gradualmen-

te na hierarquia e não descem da categoria a que ascenderam. Nas suas diferentes exis- tências corporais podem descer como homens, não como espíritos. Assim, a alma de um potentado da Terra pode mais tarde animar o mais humilde obreiro e vice-versa; é por isso que, entre os homens, as categorias estão, frequentemente, na razão inversa da elevação das qualidades morais. He- rodes era rei e Jesus carpinteiro. Aquele que pensa em perseve- rar no mau caminho, baseado na possi- bilidade de melhorar-se noutra existên- cia, que poderá corrigir-se mais tarde, está equivocado; não acredita em nada

e a ideia de um castigo eterno não o

refrearia mais do que qualquer outra,

porque a sua razão a repele e semelhan-

te ideia induz à incredulidade a despeito

de tudo. Na Terra, os homens são desi- gualmente adiantados. Uns já dispõem de experiências que a outros faltam, mas que adquirirão pouco a pouco. De- pende deles acelerar o progresso ou retardá-lo indefinidamente. O homem que ocupa uma posi- ção má deseja trocá-la o mais depressa possível. Aquele que se acha persuadi- do de que as tribulações da vida terrena são consequência das suas imperfei- ções, procurará garantir para si uma nova existência menos penosa e esta ideia desviá-lo-á mais depressa da sen- da do mal do que a do fogo eterno, em que não acredita.

64 - Como encarnado, o espírito não se lembra de
64 - Como encarnado, o espírito não se lembra de

suas vidas anteriores

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Curso Básico de Espiritismo

Pluralidade dos Mundos Habitados

Se o homem tivesse uma única existência e se, extinguindo-se-lhe, a sua sorte fi- casse decidida para a eternidade, qual seria o mérito de parte do género humano, que morre na infância, para gozar, sem esforços, da felicidade eterna e com que direito se acharia isenta das condições, às vezes tão duras, a que se vê submetida a outra parte? Semelhante ordem de coisas não corresponderia à justiça de Deus. Com a reencarnação, a igualdade é real para todos. O futuro toca a todos, sem excepções e sem favor para quem quer que seja. Os retardatários só deles mesmo se podem queixar. É forçoso que o homem tenha o merecimento dos seus actos, como deles tem a responsabilidade. Chegado ao termo da vida na erraticidade, o próprio espírito escolhe as provas a que deseja submeter-se para apressar o seu adiantamento, isto é, escolhe meios para

adiantar-se e tais provas estão sempre em relação com as faltas que lhe cumpre expiar. Se delas triunfa, eleva-se; se sucumbe, tem que recomeçar.

O espírito goza sempre do livre-arbítrio. Em virtude dessa liberdade é que esco-

lhe, quando desencarnado, as provas da vida corporal e que, quando encarnado, decide fazer, ou não, uma coisa e procede à escolha entre o bem e o mal. Negar ao homem o livre-arbítrio seria reduzi-lo à condição de máquina. Mergulhado na vida corpórea, o espírito perde, momentaneamente, a lembrança de suas vidas anteriores, como se um véu as cobrisse. Todavia, conserva algumas vezes vaga consciência dessas vidas que, mesmo em certas circunstâncias, lhe podem ser reve- ladas. Esta revelação, porém, só os espíritos superiores lha fazem, espontaneamente, com um fim útil, nunca para satisfazer a vã curiosidade. As existências futuras, essas em nenhum caso podem ser reveladas, pois depen- dem do modo como o espírito se sair na existência actual e da escolha que ulteriormente faça.

O esquecimento das faltas praticadas não constitui obstáculo à melhoria do espí-

rito, pois embora não se lembre delas com precisão, a circunstância de as ter conhecido

na erraticidade e de haver desejado repará-las, os bons espíritos, por intuição, transmi- tem-lhes a ideia de resistir ao mal, ideia que é a voz da consciência, tendo a secundá-la os espíritos superiores que o assistem, se atende às boas inspirações que lhe dão.

O homem não conhece os actos que praticou nas suas existências pretéritas, mas

pode saber sempre qual o género de faltas de que se tornou culpado e qual o cunho pre- dominante do seu carácter. Bastará, então, julgar o que foi, não pelo que é, mas pelas suas tendências. As vicissitudes da vida corpórea constituem expiação das faltas do passado e, simultaneamente, provas em relação ao futuro. Depuram-nos e elevam-nos, se as supor- tamos resignados e sem murmurar.

A natureza dessas vicissitudes e das provas que sofremos também nos podem

esclarecer acerca do que fomos e do que fizemos, do mesmo modo que neste mundo julgamos os actos de um culpado pelo castigo que a lei lhe infringe. Assim, o orgulhoso será castigado no seu orgulho, mediante a humilhação de uma existência subalterna; o mau rico, o avarento, pela miséria; o que foi cruel para os outros, pelas crueldades que sofrerá; o tirano, pela escravidão; o mau filho, pela ingratidão de seus filhos; o pregui- çoso, por um trabalho forçado, etc.

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Curso Básico de Espiritismo

A RETER

Pluralidade dos Mundos Habitados

1 – A vida do espírito compõe-se de uma série de existências corpóreas.

2 – O espírito tem existências corporais que nenhum resultado colhe, porque não as soube aproveitar.

3 – Ninguém, por um proceder impecável na vida actual, poderá transpor todos os graus da escala do aperfeiçoamento e tornar-se espírito puro, sem passar pelos graus in- termediários.

4 – A marcha dos espíritos é progressiva, jamais retrógrada.

5 – O próprio espírito escolhe as provas a que deseja submeter-se para apressar o seu adiantamento. Se delas triunfa, eleva-se; se sucumbe, tem que recomeçar.

6 – Durante a vida corpórea, o espírito perde a lembrança das suas existências anterio- res. Conserva, algumas vezes, vaga consciência delas. Podem, em dadas circunstân- cias, ser reveladas, sempre com um fim útil.

7 – As existências futuras nunca podem ser reveladas, pois dependem do modo como o espírito se sairá na existência actual e da escolha que ulteriormente faça.

8 – O esquecimento das faltas praticadas não constitui obstáculo à melhoria do espírito, pois embora não se lembre delas com precisão, a voz da consciência dá-lhe a ideia de resistir ao mal.

9 – As vicissitudes da vida corpórea constituem expiações das faltas do passado e, si- multaneamente, provas em relação ao futuro. Depuram-nos e elevam-nos, se as su- portarmos resignados e sem murmurar.

7.5 UNIVERSO INFINITO – Evidência racional da existência de outros mundos habitados

65 - A Terra não é o único planeta habitado
65 - A Terra não é o único planeta habitado

Buscando argumentos racionais que jus- tifiquem a doutrina da pluralidade dos mundos habitados não se pode olvidar a vastidão do Universo, com os seus incontáveis planetas, sistemas solares, galáxias, etc. Com o avanço da Astronomia e da As- trofísica evidencia-se um Universo infinito e afirmar que só a Terra teria o privilégio de pos- suir uma humanidade seria condenar essa hu- manidade a ser excepção dentro da Lei Divina ou Natural. A ideia de o Universo ser infinito surgiu com Filipo Giordano Bruno, um ex-monge do- minicano, que foi queimado publicamente, de- pois de passar sete anos no cárcere por causa das suas ideias heréticas e por se recusar a abju- rar as suas crenças diante da Inquisição Roma- na.

Ao contrário de Galileu Galilei, que, al- quebrado, alguns anos mais tarde abjurou a teoria de Copérnico (continuando, porém, a

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Curso Básico de Espiritismo

Pluralidade dos Mundos Habitados

desenvolver com os seus discípulos uma moderna Cosmologia, no seu exílio em Arce- tri, perto de Florença), Giordano Bruno não se deixou convencer pela Inquisição a abju- rar as suas teorias. Estas não se resumiam apenas na defesa do sistema de Copérnico, que irritava a Igreja, mas incluíam também a sua opinião de que o Universo não era limitado por um invólucro, mas sim formado por uma quantidade infinita de estrelas, sendo incomensuravelmente grande. No capítulo VI de “A Génese”, de Allan Kardec, temos um trecho da comunica- ção de Galileu a Camille Flammarion.

Com efeito, a Via Láctea é uma campina mati-

zada de flores solares e planetárias, que brilham em toda a sua extensão. O nosso Sol e todos os corpos que o acompanham fazem parte desse conjunto de globos radiosos que formam a Via Láctea. Mau grado as suas proporções gigantescas relativamente à Ter- ra, e à grandeza do seu império, ele, o Sol, ocupa inapreciável lugar em tão vasta cria- ção. Podem contar-se por uma trintena de milhões os sóis que, à sua semelhança, gra- vitam nessa imensa região, afastados uns dos outros mais de cem mil vezes o raio da

órbita terrestre. Por esse cálculo aproximado se pode julgar da extensão de tal região sideral e da relação que existe entre o nosso sistema planetário e a universalidade dos sistemas que ela contém. Pode-se igualmente julgar da exiguidade do domínio solar e concluir do nada que é a nossa pequenina Terra. Assim, fica-se a conhecer a posição que o nosso Sol ou a Terra ocupam no mundo das estrelas. Ainda maior peso ganharão estas considerações se reflectirmos sobre a própria Via Láctea que, na imensidade das criações siderais, não representa mais do que um ponto insensível e inapreciável, vista de longe, porque não é mais do que uma nebulosa estelar, entre os milhões das que existem no espaço. Se ela nos pare- ce mais vasta e mais rica do que as outras é pela única razão de que está mais próxima e se desenvolve em toda a sua extensão sob os nossos olhares, ao passo que as outras, sumidas nas profundezas insondáveis, mal se deixam entrever. Ora, sabendo-se que a Terra nada é, ou quase nada, no sistema solar; que este nada é, ou quase nada, na Via Láctea; esta, por sua vez, nada, ou quase nada, na uni- versalidade das nebulosas, e essa própria universalidade bem pouca coisa dentro do incomensurável infinito, começa-se a compreender o que é o Globo Terrestre”.

Nele, encontra-se o seguinte:

A RETER

1 – Devemos ter em conta a vastidão do Universo, que se torna cada vez mais amplo à medida que o homem vai melhorando a técnica de explorá-lo, descobrindo novos planetas, sistemas solares, galáxias, etc.

2 – Com o avanço da Astronomia e da Astrofísica evidencia-se um Universo infinito. Afirmar que só a Terra poderia ser habitada seria afirmar que a humanidade é uma excepção dentro da Lei Divina ou Natural.

3 – Allan Kardec, em “A Génese”, tratando da Orografia Geral, mostra quão insignifi- cante é o papel da Terra no Universo infinito, para ser o único planeta a servir de encarnação às criaturas.

4 – Sabendo-se que a Terra nada é, ou quase nada, no sistema solar; que este nada é, ou quase nada, na Via Láctea; esta, por sua vez, nada, ou quase nada, na universalidade das nebulosas, e essa própria universalidade bem pouca coisa é dentro do incomen- surável infinito, começa-se a compreender o que é o Globo Terrestre.

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Curso Básico de Espiritismo

BIBLIOGRAFIA

Pluralidade dos Mundos Habitados

Allan Kardec:

“O Livro dos Espíritos”, Parte Segunda, Cap. V, Questão 191; Cap. VII, Questão 399; Parte Primeira Cap. III, Questões 55 a 58; 44.ª Edição, Federação Espírita Brasileira; “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Cap. III, 77.ª Edição, Federação Espírita Brasi- leira; “A Génese”, Cap. V, item 13 e Cap. VI, itens 32 a 36, 19.ª Edição (Popular), Federação Espírita Brasileira.

Camille Flammarion, “A Pluralidade dos Mundos Habitados”, Livro 1, Cap. 1 e Apêndice A, Edição B.L. Garnier.

Isaac Asimov, “O Universo”, 3.ª Edição, Edições Bloch.

Joachin Herman, “Astronomia; O Universo é Limitado”, pág. 278, 1.ª Edição, Editora Círculo do Livro S/A.

João Ferreira Almeida, “A Bíblia Sagrada” (tradução), Génesis de Moisés, Cap. 1, vv. 14 a 19, Josué, Cap. X, vv. 12 e 53, 31.ª Impressão, Imprensa Bíblica Brasileira.

Louis Pauwels e Jacques Bergier, “O Homem Eterno”, Terceira Parte, Cap. I, Edição Difusão, Europeia do Livro, São Paulo.

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Curso Básico de Espiritismo

Minigrupos

MINIGRUPOS (apoio bibliográfico)

Leia com atenção o apoio bibliográfico e faça um resumo para cada tema:

MINIGRUPO 1: TRANSMIGRAÇÕES PROGRESSIVAS

1 – Transmigrações progressivas Allan Kardec, “O Livro dos Espíritos”, 2.ª Parte, Cap. IV, Questões 189 a 196.

2 – Ideias inatas Allan Kardec, “O Livro dos Espíritos”, 2.ª Parte, Cap. IV, Questões 218 a 221 a.

3 – Reencarnação e esquecimento do passado Allan Kardec, O Livro dos Espíritos”, 2.ª Parte, Cap. VII, Questão 399.

Um elemento do grupo funcionará como secretário para posteriormente apresentar as conclusões.

MINIGRUPO 2: PLURALIDADE DOS MUNDOS

1 – Pluralidade dos mundos Allan Kardec, O Livro dos Espíritos”, Cap. III, Questões 55 a 58.

2 – Mundos de expiações e de provas Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Cap. III, N.º 13.

3 – Mundos regenerados Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Cap. III, N.º 16.

Um elemento do grupo funcionará como secretário para posteriormente apresentar as conclusões.

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Curso Básico de Espiritismo

Minigrupos

MINIGRUPO 3: RESUMO HISTÓRICO DA PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS

1 – Resumo Allan Kardec, A Génese”, Cap. IV, Itens 11 a 14.

2 – O Universo infinito Allan Kardec, A Génese”, Cap. IV, Itens 32 a 36.

3 – Progressão dos mundos Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Cap. III, N.º 19.

Um elemento do grupo funcionará como secretário para posteriormente apresentar as conclusões

MINIGRUPO 4: DIFERENTES CATEGORIAS DE MUNDOS HABI- TADOS

1 – Diferentes categorias Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Cap. III, N.º 3.

2 – Mundos inferiores e mundos superiores Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Cap. III, N.º 8.

Um elemento do grupo funcionará como secretário para posteriormente apresentar as conclusões

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Curso Básico de Espiritismo

Minigrupos

MINIGRUPOS

Depois de ter estudado este capítulo, responda, por escrito, às seguintes questões:

MINIGRUPO 1: INTRODUÇÃO – Estudo histórico

1 – Os globos que se movem no espaço são habitados? Porquê?

2 – As condições de existência dos seres são iguais? Explique.

3 – Faça um apanhado dos povos que admitiam a pluralidade dos mundos habitados.

4 – Qual foi o astrónomo que derrubou a teoria egocêntrica da Terra e que abriu novos campos ao pensamento?

5 – Quem foram os dois astrónomos que contribuíram decisivamente para o avanço da Astronomia?

MINIGRUPO 2: PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA

1 – Porque teve a Religião necessidade de combater esta doutrina?

2 – Como contrariava a encarnação de Deus sobre a Terra?

3 – A doutrina da pluralidade dos mundos habitados traz problemas para a interpretação da criação dos astros na génese bíblica. Como?

4 – Que interpretação poderia dar à descendência adâmica?

5 – E à parada do sol e da lua?

MINIGRUPO 3: HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DE MEU PAI

1 – O Espiritismo afirma que existe vida noutros mundos. Porque?

2 – Comente: “São muito diferentes as condições dos mundos”

3 – Faça uma divisão dos mundos, de acordo com a Doutrina Espírita.

4 – Caracterize um mundo inferior.

5 – Onde colocaria a Terra?

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Curso Básico de Espiritismo

Minigrupos

MINIGRUPO 4: TRANSMIGRAÇÕES PROGRESSIVAS

1 – Faça um paralelismo entre a vida do espírito e as fases da vida corporal.

2 – A marcha de um espírito pode retrogradar? Justifique.

3 – Justifique a irracionalidade da crença em uma única existência.

4 – Será um obstáculo à melhoria do espírito o esquecimento do passado?

5 – O que significam para o espírito as vicissitudes da vida corpórea?

MINIGRUPO 5: UNIVERSO INFINITO – Evidência racional

1 – Qual o contributo de Giordano Bruno para a ideia do Universo infinito?

2 – E Galileu Galilei?

3 – Faça um comentário ao trecho da comunicação de Galileu a Camille Flammarion.

4 – Que posição ocupa a Terra na nossa galáxia?

5 – Comente: “A Terra é insignificante na vastidão do Universo.”

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Curso Básico de Espiritismo

TESTE

NOME:

DATA:

Teste

/

/

1 – MARQUE A ALTERNATIVA CORRECTA COM UM “X”.

1.1 – O Espiritismo afirma que existe vida em outros mundos, porque:

(

) a – Os espíritos assim o crêem;

(

) b – Quando transmigramos, é necessário haver alguém que nos receba;

(

) c – Nos foi revelado e a lógica assim o determina, já que Deus nada cria sem um obje- tivo útil;

(

) d – Olhando para o firmamento, vemos estrelas com brilho diferente.

1.2 – As condições de existência dos seres que habitam os diferentes mundos hão- de ser:

(

) a – Muito melhores do que as nossas, nos planetas maiores e muito piores, nos pla- netas menores;

(

) b – Como as nossas, ou seja, pouco adequadas ao meio em que lhes cumpre viver;

(

) c – Adequadas ao meio em que lhes cumpre viver;

(

) d – Piores do que as nossas, visto que há planetas inferiores à Terra.

1.3 – Desde a antiguidade, reconheceram a doutrina da pluralidade dos mundos habitados:

(

) a – Os romanos, que pensavam que os espíritos mortos em combate transmigravam para mundos melhores;

(

) b – Todos os povos, principalmente os hindus, chineses e árabes;

(

) c – Todos os povos, excepto os hindus, chineses e árabes;

(

) d – Os orientais, porque também aceitavam a reencarnação.

1.4

– A doutrina da pluralidade dos mundos habitados contrariava a religião dog- mática porque:

(

) a – Colocava em descrédito a interpretação dos livros sagrados, segundo a letra;

(

) b – Era uma doutrina fantasiosa para enganar os crentes;

(

) c – Vinha reforçar a letra dos livros sagrados;

(

) d – Contrariava a criação da Terra no 4.º dia da Génese Bíblica.

1.5 – Os espíritos ensinam que os mundos são classificados, de acordo com o seu grau evolutivo, em:

(

) a Primitivos, de expiação e provas, de regeneração, ditosos e maravilhosos;

(

) b – Primitivos, de expiação e provas, de recreio e descanso, celestes ou divinos;

(

) c – Primitivos, de expiação e provas, de regeneração, de purgação, celestes ou divi- nos;

(

) d – Primitivos, de expiação e provas, de regeneração, ditosos, celestes ou divinos.

1.6 – A vida do espírito é composta por:

( ) a – Uma única existência corporal, se conseguir não errar;

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Curso Básico de Espiritismo

Teste

(

) b – Uma série de existências corpóreas, com avanços e retrocessos;

(

) c – Poucas existências corporais, se forem muito inteligentes;

(

) d – Uma série de existências corpóreas, cada vez mais evoluídas.

2

– ASSINALE COM “V”, SE VERDADEIRO, OU “F”, SE FALSO.

(

) a – Quando Jesus disse que havia muitas moradas na casa do seu Pai, referia-se tam- bém a algumas habitações.

(

) b – Deus criou planetas mais para nosso deleite visual do que para que tenham um objectivo similar ao da Terra – albergar a humanidade.

(

) c – “Há muitas moradas na casa de meu Pai” significa os múltiplos planetas onde os espíritos podem encarnar, bem como os múltiplos lugares no mundo espiritu- al, onde os seres se encontram e vivem em comunidade.

(

) d – A Terra é insignificante na vastidão do Universo.

3

– NUMERE A 1.ª COLUNA, DE ACORDO COM A 2.ª.

(

) Mundos primitivos,

(1) onde o bem se sobrepõe ao mal.

(

) Mundos ditosos,

(2) habitações dos espíritos depurados.

(

) Mundos de expiação e provas,

(3) destinados às primeiras encarnações.

(

) Mundos de regeneração,

(4) onde domina o mal.

(

) Mundos celestes ou divinos são

(5) onde as almas em expiação vão aurir novas forças.

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