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FUNDAÇÃO EDUCACÌONAL DR.

RAUL BAUAB
FACULDADES ÌNTEGRADAS DE JAÚ
PRÌSCÌLA DE BARROS FRÌCHE
ABUSO SEXUAL ÌNFANTÌL E SUAS CONSEQUÊNCÌAS NA VÌDA
ADULTA: UMA PERSPECTÌVA PSÌCOLÓGÌCA
Curso: Psicologia, 5º ano ÷ noturno. Pré-Projeto da disciplina Seminário de
Pesquisa Ì e ÌÌ e Elaboração de TCC.
Orientadora: Ms. Glaura Maria Sajovic Verdiani
Jahu
2013
SUMÁRIO
1 – Objetivo Geral...............................................................................................................03
2 – Capítulo 1: Breve histórico sobre o abuso sexual inantil............................................0!
3" Capítulo 2: Co#preen$er co#o ocorre a rela%&o incestuosa 'intraa#iliar(..................0!
3.1" )iscutir o peril $o abusa$or e *uais os #otivos *ue o leva# a pr+tica $o ato abusivo
contra #enores $e i$a$e.....................................................................................................0!
3.2" ,vi$enciar a exist-ncia $e atores *ue contribue# na proxi#i$a$e $a viv-ncia
a#iliar...............................................................................................................................0!
!" Capitulo 3: Co#preen$er as con$utas típicas $e crian%as abusa$as............................0!
!.1" Conse*u-ncias na vi$a a$ulta $e #enores abusa$os..................................................0!
!.2"Contribui%.es psicoló/icas para $ia/nóstico e trata#ento..........................................0!
0eer-ncias Biblio/r+icas............................................................................................... 01
1 - Breve histórico sobre o abuso sexual infantil
O abuso sexual infantil é um tema bastante complexo e polêmico, que
permeia toda a humanidade, ou seja, se faz presente em toda a sociedade
independente de classe econômica, grau de instrução, escolaridade, contexto
cultural ou religião, envolvendo desde relações heterossexuais, bissexuais e
homossexuais (Susan Forward,1989).
Azambuja (2004) descreve que por ser frágil tanto física quanto
emocionalmente, ao longo da história a criança se destaca como vítima,
submetendo-se ao poder do adulto. Ainda para a autora, apenas recentemente
houve um interesse por parte do homem e das ciências sobre os efeitos físicos,
morais, espirituais e sociais que a violência traz como consequência para a vida
adulta do indivíduo.
Bass e Thornton (1985) citado por Labadessa e Onofre (2010) enfatizam
que no período bíblico através da lei Talmúdica meninas a partir de três anos de
idade eram utilizadas para fins sexuais, com a condição de que o pai recebesse
alguma quantia em dinheiro que julgasse equivalente ao quanto sua filha valeria.
Sendo assim, o ato sexual com crianças não era passível de punição na lei
Talmúdica, pois tanto mulheres quanto crianças eram consideradas mercadorias
sexuais que possuíam um proprietário.
Complementando a ideia anterior as autoras descrevem que embora não
houvesse punição para adultos que cometessem o ato sexual com crianças essa
lei condenava severamente o sexo entre homens adultos.
Carter Lourensz e Johnson - Powell (1999) citado por Aded (2006) et al.,
resgatam a história do abuso sexual destacando que essas práticas são
realizadas desde a antiguidade, citando o exemplo do imperador romano Tibério
que possuía desejos sexuais por crianças. De acordo com registros ele havia
levado várias dessas crianças para a ilha de Capri com o objetivo de obrigá-las a
satisfazer suas perversões sexuais.
Neste sentido Suetônio (1998 traduzido por Garibaldi, p.216) ao narrar à
vida do imperador Tibério permite-nos entender que essas práticas eram
realizadas desde os mais remotos tempos, afirmando que:
Tibério ao que parece ensinava crianças de tenra idade, as quais costumava
denominar "seus peixinhos¨, a brincar entre suas coxas, enquanto nadava e a
pegar seu órgão genital com a língua e os dentes. Ensinava também a crianças
já fortes, mas não ainda desmamadas, a lhe sugar o pênis tal como fariam com
o seio da sua ama ao leite, gênero de perversão a que o inclinava, sem dúvida,
sua natureza e sua idade. (Suetônio, traduzido por Sandy Garibaldi,p.216).
Sanderson (2008) citado por Cogo, K.S et al, (data) contribui acerca do
assunto enfatizando que na antiguidade (Séc.ÌV) na Grécia e em Roma as
meninas raramente apresentavam seu hímem intacto, e os meninos tinham o
papel de serem entregues a homens mais velhos após os sete anos de idade até
a puberdade com o objetivo de sujeitar-se aos atos abusivos desses.
O período de expansão do catolicismo não foi suficiente para que
houvesse grande mudança sobre o tema abuso sexual infantil, uma vez que a lei
católica aumentou de três para sete anos a idade mínima para estabelecer
contatos sexuais com adultos, porém continuou a consentir o ato. Bass e Thornton
(1985) citado por Labadessa e Onofre (2010).
Para Masson (1984) citado por Aded (2006)

et al, antes do século XVÌÌ
as crianças não possuíam papel de destaque, uma vez que quando essas faziam
referências sobre algum tipo de abuso sexual sofrido, não eram compreendidas
pelas autoridades judiciais, que acreditavam serem fantasias ou mentiras
utilizadas para prejudicar os acusados e obter algum proveito da situação, contudo
Áries (1981) citado por Aded (2006) et al, destaca que no final do século XVÌÌ as
crianças começaram a desempenhar papel relevante diante da sociedade.
No século XVÌÌÌ aconteceram grandes transformações quanto ao abuso
sexual infantil através das reformas humanísticas, religiosas e políticas
relacionadas à Renascença, contribuindo para o controle dessas práticas, que
passaram a ser inaceitáveis pela sociedade. Após esses movimentos surgem
alguns conceitos fundamentais, o carinho, a compreensão e a educação para com
a criança, ou seja, esta passa a ser vista como alguém que necessita de respeito
Sanderson (2008) citado por Cogo, et al (2011).
Houve muitos avanços com relação à proteção da criança e do adolescente
no Brasil especificamente através do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)
÷ Lei 8069/90, torna-se evidente a preocupação do cumprimento dessa lei tendo
em vista o amparo do vulnerável em caso de qualquer tipo de violência.
Jane Felipe (2006) faz uma observação muito pertinente quanto ao abuso
sexual infantil, demonstrando que na sociedade atual embora se crie leis para
proteger a criança e o adolescente, também há uma contradição, uma vez que
ocorre a banalização dos corpos infanto-juvenis que são expostos de forma
erotizada por intermédio de publicidades, novelas, programas de humor, músicas
e filmes, ou seja, pela mídia de modo geral.
Um exemplo destacado pela autora é a música denominada E Porque Não?
Do grupo Bidê ou Balde, que embora negado pelo compositor, sugere tratar-se de
uma apologia ao incesto devido à ambiguidade apresentada. Após forte censura
houve pequenas modificações em sua letra, porém será apresentada a letra
original para análise.
Eu estou amando
A minha menina
E como eu adoro
Suas pernas fininhas
Eu estou cantando
Pra minha menina
Pra ver se eu convenço
Ela entrar na minha
E por que não?
Teu sangue é igual ao meu
Teu nome fui eu quem deu
Te conheço desde que nasceu
E por que não?
Eu estou adorando
Ver a minha menina
Com algumas colegas
Dela da escolinha
Eu estou apaixonado
Pela minha menina
Ouve o jeito que ela fala
Olha o jeito que ela caminha.
E por que não?
Teu sangue é igual ao meu
De acordo com Azevedo, M.A e Guerra, (1989) considera-se abuso sexual
infantil qualquer relação heterossexual ou homossexual envolvendo adultos e
crianças menores de idade, com o objetivo de provocar estimulação sexual na
criança ou utilizá-la para promover prazer sexual para o abusador.
Kristensen (2001) citado por Adelma Pimentel e Lucivaldo da Silva Araujo,
(2006), define abuso sexual como agressão que envolve crianças e adolescentes
sem maturidade suficiente para compreender ou consentir seu contato em
atividades sexuais, resultando em uma relação de autoridade e controle do
agressor para com a vítima.
Ainda de acordo com a autora há várias formas de abuso sexual infantil,
são elas:
• Incesto- qualquer relação de caráter sexual entre um
adulto e uma criança ou adolescente, entre um adolescente e
uma criança, ou ainda, entre adolescentes, quando existe um
laço familiar, direto ou não, ou mesmo uma mera relação de
responsabilidade.
• Estupro- do ponto de vista legal, é a situação em que
ocorre penetração vaginal com uso de violência ou grave
ameaça.
• Sedução- situação em que há penetração vaginal sem uso
de violência em adolescentes virgens, de 14 a 1 anos
incompletos.
• Atentado violento ao pudor- circunst!ncia em que há
constrangimento de alguém a praticar atos libidinosos, sem
penetração vaginal, utili"ando violência ou grave ameaça, sendo
que, em crianças e adolescentes de até 14 anos, a violência é
presumida, como no estupro.
• Assédio sexual- propostas de contrato sexual# na maioria
das ve"es, há posição de poder do agente sobre a v$tima, que é
chantageada e ameaçada pelo agressor.
• Exploração Sexual- é a inserção de crianças e
adolescentes no mercado do sexo. %nclui a pornografia infantil e
a prostituição.
• Diante desse breve histórico será abordado inicialmente
o conceito de incesto de maneira geral até a atualidade.
Susan Forward (1989) contribui destacando duas definições de incesto:
1°) Ìncesto Legal : Ocorre quando existe uma relação sexual limitada
em que o abusador possui parentesco próximo da vítima, nesse caso há um grau
de consanguinidade, como pai, mãe e irmãos, resultando na dificuldade da criança
perceber que está sendo abusada, por conta de não conseguir diferenciar um ato
de carinho para comportamentos libidinosos ou maliciosos.
2°) Ìncesto Psicológico: Termo mais amplo do que o anterior e aceito
pela maioria dos profissionais, uma vez que inclui qualquer grau de parentesco
sendo consanguíneo ou não como padrasto, madrasta, meio irmão e avós por
afinidade. Nesse caso há uma relação de confiança que pode ser rompida a partir
do momento em que a criança é abusada.
Para Foward e Buck (1989) ao se falar de incesto, normalmente a
discussão é direcionada para o tabu do mesmo, enquanto que o ato do incesto e
os efeitos devastadores que esse ocasiona para a vida das pessoas tornam-se um
pouco esquecido. A palavra incesto tem sua origem em incestum, cujo significado
está atrelado a Sacrilégio, sendo assim incestus em sua etimologia faz menção a
algo impuro e sujo. (Cromberg 2001).
Embora o incesto seja um tema polêmico e rodeado de tabus, sendo
compreendido pela nossa sociedade como algo proibido e profano, Solano (2009)
et al, demonstra que essa prática foi utilizada desde a antiguidade por várias
culturas e em diversos contextos.
Durante a trajetória da humanidade ocorreram diversos casos de
incestos, como os realizados pelos imperadores que eram considerados "deuses¨
por algumas religiões. A eles era concedido esse poder, pois tinham o seu sangue
considerado puro devido a sua origem supostamente sagrada, o que os tornavam
imaculados ao realizarem tais feitos. Cohen (1993) citado por Matias (2003).
Relatando ainda fatos históricos no Egito Antigo os faraós cometiam
relações incestuosas com seus irmãos acreditando estar homenageando os
deuses Ísis e Osíris. Esta prática foi realizada até a dinastia dos Ptolomeus, tendo
como caso mais famoso o casamento de Cleópatra com seu irmão Ptolomeu ÌÌ.
Durante o reinado do Ìmpério Persa, também não poderia ser diferente, uma vez
que os povos fenícios tinham por costume aceitar que o pai casasse com a filha.
Convergindo com as ideias expostas anteriormente Foward e Buck (1989)
descrevem que em Sierra Madre (México) é muito comum o incesto entre pai e
filha em tribos indígenas. Ìsso ocorre porque ao trabalhar em terras distantes o
índio necessita de alguém para lhe ajudar em suas atividades, sendo assim, esse
leva uma de suas filhas enquanto que a esposa fica em casa cuidando do restante
da família. Por questões financeiras geralmente ele tem apenas um cobertor que
passa a ser dividido com a filha, resultando em contato físico e intimidade
causando inevitavelmente o incesto.
Os autores continuam contribuindo com o assunto relatando que:
Os Kalangs de Java acreditam tradicionalmente que o incesto com suas mães vá
lhes trazer prosperidade. Os povos tribais do Malawi acreditam que relações
sexuais com suas irmãs os deixarão à prova de balas. Os Cucis se casavam
sem dar atenção ao parentesco, com a única exceção de casamentos entre o
filho e a mãe. Os Veddahs costumavam pensar que o casamento com uma irmã
mais velha era deplorável. Em Bali, gêmeos de sexos diferentes nascidos na
casta superior eram automaticamente casados. Na África Oriental, entre os
membros do povo Taita, os homens muitas vezes se casavam com as mães ou
as irmãs por razões financeiras ÷ fora da família, as esposas precisavam ser
compradas. Os Ossetes consideram honroso casar-se com uma tia materna,
mas as tias por parte de pai estão fora de questão. Entre os Yakuts da Sibéria,
considera-se que os irmãos de uma noiva terão azar se permitirem que ela se
case virgem, de modo que eles mesmos se encarregam de tirar-lhe a virgindade.
(p.22).
Diante do conteúdo abordado faz-se necessário enfatizar que o incesto teve
um significado diferente em diversas épocas, haja vista que em outros tempos tais
condutas eram aceitas ou até mesmo glorificadas chegando até os dias atuais
onde é considerado um ato repulsivo que causa revolta. Contudo alguns livros
sagrados, como a bíblia e o alcorão, bem como algumas tradições religiosas
(grega, judaica e católica) consideravam o incesto inconcebível. Cohen, (1993)
citado por Matias, (2006).
Como ocorre a relação incestuosa
Dias (2006) compreende o fenômeno incesto como um crime cometido
no seio familiar onde à sociedade finge não existir ou pelo menos insiste em não
enxergar essa alarmante realidade que vem assolando a uma significativa parcela
de crianças de modo geral. A palavra incesto ao ser mencionada gera certo
desconforto e repulsa, uma vez que a população atribui a esse temo o sentido de
algo proibido, que não pode ser ao menos pronunciado ou discutido, fortalecendo
ainda mais o aumento dessa prática e a conivência com essa situação.
Segundo a autora o ato incestuoso "é um segredo guardado a sete chaves¨
pela família envolvida, e é também cometido gradativamente no silêncio do lar,
dificultando ainda mais para que se tenha uma real estatística das ocorrências.
Quanto a esse tema Dias (2006) enfatiza que há alguns mitos que são
contestados, por exemplo, o vínculo de sangue e a orientação sexual não são
suficientes para conter a prática do incesto, isto é, as crianças são sempre
ensinadas a não se aproximarem de estranhos ou aceitar nada que advenha
deles, contudo muitas vezes o maior "estranho¨ é aquele com quem essas
crianças fazem suas refeições e dividem o mesmo espaço, permitindo que o
ambiente familiar torne-se um local de perigo.
Fornecendo uma maior atenção para os meios de comunicação a autora
entende que essas tecnologias quando não utilizadas de maneira sensata tornam-
se ferramentas que influenciam para o abuso sexual infantil e sua difícil detecção:
Sequer as inadequadas cenas de sexo explícito que invadem diariamente a
televisão são aproveitadas para fins educacionais. Fica um clima de
constrangimento, um silêncio embaraçoso, e a cena é chancelada como
aceitável. Como a criança não tem capacidade para estabelecer limites, não
consegue reconhecer quem são os atores que podem participar dessas
encenações na vida real. (Dias, Ìncesto: Um pacto de silêncio,2006).
Forward (1989) atenta para a dinâmica das famílias incestuosas entendendo
que esse tipo de violência é extremamente poderosa e devastadora e também
maior que as outras violências não-incestuosas, por exemplo, uma criança
molestada diariamente pelo pai ou outro familiar, pensando pela lógica dos fatos
terá uma maior probabilidade de sofrimento e uma significação mais dolorosa do
que outra criança que fora abusada por um estranho uma única vez.
Esse tipo de violência é considerada poderosa porque abala as estruturas
familiares gerando conflitos e envolve questões emocionais, tendo como efeito
devastador o terror da criança que ao invés de sentir-se protegida em seu lar
considerando-o um "porto seguro¨ acaba por ficar vulnerável aos desejos do
abusador. Sendo assim, a autora destaca que:
(...) Não há um estranho de que se possa fugir, não há uma casa para
onde se possa escapar. A criança não se sente mais segura nem mesmo
em sua própria cama. A vítima é obrigada a aprender a conviver com o
incesto; ele abala a totalidade do mundo da criança. O agressor está
sempre presente e o incesto é quase sempre um horror contínuo para a
vítima. (Forward, pág. 30).
A respeito do incesto, Forward (1989) classifica-o como uma violência
mascarada devido à imensa coerção psicológica que perpassa a relação pai-filha,
ou seja, a criança é manipulada constantemente, não sendo necessário o
emprego de força física, pois essa é ensinada a obedecê-lo, caso contrário será
ameaçada de punições, logo esperando sempre uma orientação moral, acredita
que se ele relata estar tudo certo, não há o que se contestar tornando-se então
uma verdade. Dessa maneira o ciclo mantenedor incestuoso continua
estabelecido sem que a criança tome consciência da sutilidade da coerção que lhe
é imposta, bem como de sua gravidade.
Há diversas formas de reagir frente a essa situação polêmica, sendo que é
muito comum a criança sentir que proporciona prazer ao abusador e também que
recebe um tratamento e atenção diferenciada, ao mesmo tempo em que sente
prazer físico e passa a gostar dos "atos carinhosos¨. Em contrapartida existem
aquelas que em relações com penetração e estimulação dos órgãos genitais ou
sexo oral sente-se enojadas e amedrontadas compreendendo de uma vaga
maneira a "sujeira¨ dessa conduta.
Muitas vezes a vítima silencia-se diante do incesto porque tem medo de não
ser compreendida, de ser expulsa de casa, de ser surrada ou rotulada como
mentirosa. Mergulhada em sua vergonha sente-se também receosa de que os
demais achem que fora sua culpa, somando-se a isso teme que seu pai seja preso
e a família fique sem amparo.
Seja qual for a razão, a vítima se encerra num mundo de segredo ÷ um
mundo de vergonha, desespero e culpa -, onde se sente isolada de todas
as outras pessoas. Não há ninguém a quem possa recorrer, ninguém em
quem possa confiar, ninguém a quem possa pedir ajuda. A criança jovem,
vulnerável, inexperiente precisa lidar sozinha, num meio familiar frio, que
não lhe dá apoio, com os conflitos explosivos e com a culpa extrema
gerados pelo incesto. No meio de sua necessidade de amor, de seu
envolvimento aparentemente voluntário, do possível prazer que sente e
de sua cumplicidade no acobertamento do incesto, a vítima sai do incesto
com sentimentos esmagadores de responsabilidade e de culpa.
(Foward,pág.32)
Perfil do Abusador e quais os motivos que o levam a prática do ato abusivo
contra menores de idade
Ìnicialmente será abordado o tipo mais comum de abusador, cujas
características são basicamente parecidas com os outros perfis de agressores, ou
seja, o modelo destacado refere-se ao pai incestuoso. Embora as pessoas o
considerem um monstro abominável, um louco rotulado como psicopata indigno de
viver, um ser desprezível, isto é, este é considerado o pior tipo de criminoso que
deveria morrer e causador de revolta por toda a sociedade, porém não é o que a
literatura científica comprova (Foward,1989)
Compactuando com as idéias expostas, Francis (1967) citado por Saffioti
(1980) corrobora a respeito do mesmo descrevendo que em uma pesquisa
realizada na Ìnglaterra e no País de Gales em 1980, somente 2 % dos
condenados foram diagnosticados com algum transtorno psiquiátrico, sendo assim
o velho argumento de que apenas os portadores de alguma perturbação mental
cometem crimes sexuais cai por terra. Ainda convergindo com a mesma análise há
também uma forte contestação e resistência quanto à "teoria¨ de que os homens
não podem adiar suas necessidades sexuais, pois se assim fosse realmente, o
impulso sexual não poderia ser contido o que os levariam a satisfazer seus
desejos independente de lugar, situação ou de qual pessoa fosse, podendo ser a
filha de um amigo ou sua própria filha (Amir 1971 citado por Saffioti em pesquisa
feita por L.R.C.C ÷ London Rape Crisis Centre 1979). É também possível observar
que nos casos de abuso sexual infantil há um momento oportuno para praticá-lo
onde a mãe não está presente ou ocupada com outros afazeres, portanto este ato
é considerado estrategicamente planejado (L.R.C.C 1984 citado por Saffioti)
Segundo Forward (1989) o sujeito que comete esse tipo de crime não
possui aquele típico perfil que habita o imaginário da população, mas sim é um
homem de família, trabalhador, "que procura respeitar as leis¨ e religioso, isto é,
um ser humano como qualquer outro que leva uma vida aparentemente normal,
portanto ao abordar-se o incesto não se trata especificamente de uma conotação
moral, onde a sociedade acredita que suas ações devem-se a falta de "vergonha
na cara¨, de moral, escrúpulo, valores, princípios e, sobretudo considera-os "sem-
vergonhas e safados¨ haja vista que existem muitas mulheres para se
relacionarem enquanto que procuram crianças indefesas.
Segundo a autora entre os pais incestuosos sarcasticamente existem uma
significativa parte de frequentadores dos ambientes religiosos nos quais essas
crenças favorecem para que não sejam motivados a satisfazerem seus desejos
em relacionamentos extraconjugais, procurando então ater-se mais ao ambiente
familiar, como no exemplo citado: "Um agressor católico, quando a polícia lhe perguntou por
que seduziu a sua filha em vez de ter um caso com outra mulher ou procurar uma prostituta,
respondeu incrédulo: O quê? E enganar minha mulher?¨ (Foward,pág.43).
Ainda para a autora os desejos incestuosos são inerentes ao ser humano, o
que o diferencia dos demais pais, é que em certo nível de sua vida este não é
capaz de controlar seus impulsos, logo acabam por colocar os seus desejos em
prática. Entretanto é comum que diante dessa conduta adotada sintam-se
assombrados consigo mesmo.
Uma vez estabelecido o relacionamento incestuoso este é motivado por
diversos desajustes emocionais mal resolvidos durante a vida do abusador,
portanto cometê-lo não significa apenas satisfazer o sexo propriamente dito, ou
seja, é uma problemática que vai além desse parâmetro. Algumas vezes o incesto
é praticado revelando um exercício de poder, no qual o pai sente-se decepcionado
por não tê-lo em sua vida social, resultando em uma sensação de domínio em seu
lar, contudo na maioria dos casos há um relacionamento matrimonial conflituoso e
abalado, onde não há manifestação de afeto, proporcionando para que o abusador
busque em uma tentativa absurda em meio a esse profundo desajuste o que lhe
falta em seu casamento. Outro fator bastante presente nesse modo de reagir é o
sentimento inconsciente de vingar-se de sua mãe ou de sua esposa por ter sido
exposto ao que ele acredita ser uma série de crimes emocionais.
Relacionando a mãe nesse contexto, quando se procura fazer uma
trajetória da infância do típico perfil de abusador, no caso o pai incestuoso
discutido até o presente momento, é comum descrevê-la como uma figura fria,
agressiva e apática enquanto que em sua lembrança permanece uma infância de
sofrimento marcada por maus-tratos emocionais e físicos, sem que a mãe nada
tivesse feito para mudar essa situação, de modo geral, raramente essas pessoas
conheceram um ambiente familiar saudável.
Forward (1989) ainda compreende que os indivíduos que recorrem ao
incesto como forma de poder muitas vezes são pessoas violentas, embora no
início não utilize esse método, pois preferem induzi-las ao ato sexual, caso
fracasse em sua tentativa respalda-se no empreendimento da violência. Outras
características muito peculiares a esse modelo de agressor é o alto índice de
alcoolismo, dificuldade de se manterem empregados e conseguirem preservar
amizades. Estes por sua vez utilizam mecanismos que oprimem a família sendo
considerados tiranos que procuram provar para si mesmos seu potencial e sua
masculinidade através desses instrumentos de ameaças físicas ou maus-tratos,
todavia existem os agressores cujos perfis não são violentos, uma vez que podem
até desempenhar uma boa paternidade em outros sentidos do relacionamento pai-
filha, porém praticam o incesto como forma de reação frente à solidão e ao
abandono emocional, quando há resistência por parte da vítima recorrem a
chantagens para conseguir seu objetivo, sendo assim suas ações quando
comparada com as do agressor violento torna-se atenuadas, o que não significa
estar diminuindo sua culpa nesse processo.
Em seus longos anos de experiência e prática a respeito do tema
Forward (1989) permite-nos entender que há uma reação clássica desses
indivíduos, isto é, a crença de que a responsabilidade pelo incesto não é somente
sua, nos poucos casos em que são admitidos, ou a negação da culpa projetando-a
na vítima ou em sua esposa.
Partindo do mesmo pensamento Saffioti descreve que:
(...) Com frequência, as vítimas são responsabilizadas por outros
familiares e pelo próprio agressor de tê-lo seduzido ou imaginado ataques
sexuais que nunca existiram. Desta sorte, o desejo da criança de se
relacionar sexualmente com o pai geraria fantasias neste sentido. A
criança, sobretudo quando se trata de menina, é frequentemente acusada
de seduzir o "ingênuo" e "cândido" adulto. (Abuso Sexual Pai-Filha,
pág.15,16).
atores que motivam a coniv!ncia da mãe
Condutas t"picas de crianças abusadas
Segundo Sanderson (2005) o abuso sexual infantil (incesto), embora seja
um crime cometido no seio familiar que ocasiona consequências arrasadoras para
a vida da vítima, normalmente apresenta sinais e sintomas que não se restringem
apenas ao lar, isto é, a criança que está sendo ou foi abusada poderá denunciar
esta prática de diversas maneiras, revelando seus medos e angústias nos vários
ambientes em que frequenta, por exemplo, na escola.
Neste dilema ganha destaque o papel dos pais e educadores, uma vez que
são essas pessoas que passam maior parte do tempo com a vítima podendo
detectar algum comportamento atípico que a mesma venha a apresentar, contudo
para um mesmo fenômeno há varias respostas, ou seja, o fato de ser abusado
não significa que todos apresentarão as mesmas condutas, podendo algumas ou
a maioria não ser capazes de revelarem essa prática por medo de suas
consequências, enquanto que mergulhadas em seu sofrimento permitem escapar
atos tão sutis ao ponto de não serem percebidos ou opostamente tão evidentes
passando a ser ignorados pelos demais.
Como já destacado anteriormente os sintomas do abuso podem variar de
uma criança para outra, surgindo outro problema, a dificuldade por parte dos
cuidadores, professores e outros profissionais que convivem diretamente com a
criança em saber quais os sinais e sintomas que estão procurando com o objetivo
de protegê-la utilizando-se de cautela para não tratar do assunto como se fosse
"conferir uma listinha de compras¨, haja vista que existe uma ampla variedade de
sinais de manifestações do abuso que deve ser consideradas.
Ainda para a autora outro fator importante a ser levado em conta para esse
diagnóstico é que um único evento não determina a ocorrência do abuso sexual
infantil intrafamiliar, pois muitos sintomas individuais podem estar relacionados a
outros problemas que a criança esteja vivenciando naquele momento. A partir
dessa concepção torna-se crucial a observação acurada do adulto sempre
contextualizando a criança em sua dinâmica familiar, em seu mundo social, para
posteriormente associar esses itens aos sintomas e sinais apresentados.
É necessário também o equilíbrio dos professores para que a criança possa
sentir-se protegida, assim como evitar julgamentos precipitados que possam gerar
um equívoco no diagnóstico que cause traumas para toda família. Sendo assim,
mesmo quando a hipótese de abuso se confirme muitas vezes à criança pode
fazer de tudo para negar tal fato.
Para agravar ainda mais a situação Sanderson (2005) enfatiza que é
possível perceber em crianças com menos de cinco anos uma incapacidade de
verbalizar a experiência, sendo constantemente treinadas para acreditarem que o
contato sexual é algo natural em sua vida, enquanto que crianças com faixa-etária
de até doze anos também encontram dificuldade de comunicar diretamente sobre
o acontecimento por sentir-se constrangida em estar envolvida neste ato, assim
acabam procurando maneiras indiretas de fazê-lo.
Neste sentido Sanderson (2005) enfatiza que frequentemente as crianças
mais mostram do que relatam para os adultos o que as perturba, sendo de
fundamental importância que todos estejam atentos a possíveis mudanças de
comportamento como, comportamento sexual inadequado com objetos e
brinquedos, adoção de postura de isolamento e retração, mudanças na
personalidade, insegurança, regressão de comportamentos, por exemplo, fazer
xixi na cama, apresentar ataques de raiva, ter pesadelos ou distúrbios do sono,
tornar-se cheia de segredos, receber presentes e dinheiro sem justificativas, sentir
dores e apresentar feridas nos órgãos genitais, ter medo de pessoas e lugares
específicos de modo inexplicável. Stop Ìt Now! Uk and Ìreland (2002) citado por
Sanderson (2005).
Entre os efeitos emocionais causados pelo impacto do abuso o mais
comum é a vergonha. Esta é geralmente apreendida desde a infância para que o
indivíduo cumpra normas de comportamento impostas pela sociedade, ou seja, a
criança é instruída a esconder seus órgãos íntimos devendo sentir-se
envergonhada caso os exponha ou manipule-os em público. Dessa maneira
quando a mesma passa a ser coagida a uma prática sexual, instantaneamente
ativa-se o sentimento de envergonhar-se pelo que está fazendo, e é por meio
dessa sensação que a vítima é incitada a manter o sigilo e pressionada a guardar
segredo, haja vista que a conotação segredo pressupõe haver algo de errado e
vergonhoso, embora o abusador garanta o contrário, fazendo com que este item
torne-se uma ferramenta poderosa para esconder essa prática, resultando em
uma percepção fragmentada do eu, diminuição da autoestima e imagem do corpo
extremamente precária. (Sanderson, 2005).
Como se não bastasse a vítima sentir-se envergonhada, a esse sentimento
somam-se outros, por exemplo, ansiedade em relação a si mesmo, à
sobrevivência aos outros, timidez, sensação de estar desamparada,
inferioridade,aversão a si mesma, confusão, humilhação, perplexidade e desgosto,
sentir-se culpada e com raiva por ser incapaz de resolver esse problema gerando
desconfiança de tudo e de todos
Segundo a visão da autora nessa problemática a vítima sente-se incapaz
de controlar o mundo externo e o eu caótico mundo interior julgando-se inútil,
patética e estúpida sem conseguir equilibrar suas emoções em meio a tentativas
de se acalmar e se reconfortar.
O medo também passa a ser um sintoma persistente nesses casos, mesmo
quando inicialmente a criança não demonstre, acabará temendo sua revelação e
consequências, assim como medo da perda da relação "especial¨ que possuía
com o abusador. Sanderson (2005) argumenta que crianças bem pequenas
podem demonstrar receio na hora de trocar a fralda diante da presença da figura
abusadora, medo de ficar sozinha e desenvolver em alguns casos fortes reações
de fobia a qualquer coisa associadas ao abuso sexual.
A vítima também poderá apresentar uma profunda mágoa que será
externalizada através de hostilidade, crises de raiva e violência, culpando os
outros por sua situação, ou em outro extremo voltar-se para si ocasionando
depressão, recolhimento, tristeza e autoculpa, portanto toda sua estrutura
emocional estará profundamente desajustada.
Com relação às condutas típicas de crianças com histórico de abuso, há
uma tentativa, por parte da mesma, em comunicar suas experiências através do
comportamento. Para que este possa ser compreendido torna-se necessário que o
adulto mergulhe em um mundo lúdico que será desbravado por meio do brincar,
como descrito por Sanderson (2005):
Brincar é um modo natural e criativo pelo qual a
criança obtém signifcado a partir da sua experiência
e dá sentido ao mundo. Brincar é um modo de adotar
diferentes papéis e experimentar como é ser um
personagem em particular. Brincar também é um
modo de a criança reencenar a própria experiência,
compreendê-la e obter uma sensaço de dom!nio.
Brincar ainda pode ser uma expresso purifcadora e
um al!vio para a perturbaço, a confuso e as
ansiedades internas. "lém disso, brincar pode
revelar muito sobre o mundo interno e as
experiências de uma criança sexualmente abusada.
# Sanderson, Abuso Sexual em Crianças,2005, Cap.7 pág 5).
O brincar proporciona que a vitima atribua a ele uma natureza sexual, por
exemplo, a criança estando sozinha pode externalizar sua raiva em bonecos,
bichos ou brinquedos, atitude esta que demonstra sua fragilidade diante do
abusador por não poder reagir da mesma forma. Também é necessário que
durante as encenações o adulto esteja atento ao relato da criança para que possa
compreender as atitudes do abusador e como funciona a dinâmica entre ambos.
Outros comportamentos típicos de crianças abusadas revelam-se através
de desenhos e pinturas por meio de pessoas, nas quais há a inserção das
genitálias detalhadamente denunciando quais objetos são utilizados nessa pratica
e como ocorre, entretanto há exceções em que a vítima poderá sentir-se
desconfortável em desenhar os órgãos sexuais utilizando outras partes do corpo
como mãos e bocas desproporcionais significando beijos desagradáveis, sexo oral
e carícias e até mesmo monstros horríveis representando o abusador, enquanto
que raramente crianças não abusadas ao desenhar expõe esses detalhes, atendo-
se apenas " bonecos de pauzinhos¨ representados por pessoas significativas.
Ainda nesses casos tornam-se comum a manifestação de distúrbios
comportamentais, por exemplo, ataques de ódio e raiva em que a criança
demonstra irritabilidade e agressividade. De modo geral possuem a tendência de
serem intimidadoras tanto de adultos quanto de crianças desenvolvendo um
sintoma mais grave, atear fogo nos objetos, como no relato abaixo:
Tim, um garoto pequeno e frágil de 6 anos, interno em um abrigo, não
sabia realmente por que estava sendo tirado dos pais. Ele sabia que, às
vezes, os pais eram horríveis com ele e faziam coisas de que, na verdade,
não gostava, mas não conseguia lembrar eatamente o que era. !
assistente social vivia fazendo perguntas, mas Tim não sabia responder.
Tudo o que sabia " que se sentia eno#ado quando tinha de fazer essas
coisas. $empre que pensava no que os pais o obrigavam a fazer, ele se
escondia em seu quarto e brincava com f%sforos. &a realidade, sentia'se
bem melhor quando podia p(r fogo em cobertores e len)%is, mas não
entendia por que isso o aliviava. Tamb"m não entendia por que agia assim
em seu quarto. Todo que o sabia era que adorava ver as chamas ardendo
e a sensa)ão boa que esse fato lhe proporcionava. * Sanderson, Abuso
Sexual em Crianças,2005, Cap.7 pág 7).
#$1- Consequ!ncias na vida adulta de menores abusados
Segundo Jehu e Gazan (1983) apud Azevedo (1989), as vítimas de abuso
sexual na infância apresentam diversos problemas de adaptação psico-social,
sendo que esse problema se divide em três categorias, dificuldades de adaptação
afetiva, dificuldades de adaptação interpessoal e dificuldades de adaptação
sexual.
Quanto à parte de adaptação afetiva para Azevedo (1989) as vítimas ao
tornarem-se adultas trazem consigo sentimentos de culpabilidade e auto-
desvalorização considerando-se inferiores a outras mulheres (Azevedo,1989),
compactuando com o mesmo pensamento Herman (1981) citado pela autora,
descreve que essas mulheres apresentam uma auto-imagem deteriorada julgando
se más, referindo-se a si mesmas como " cadelas, putas e bruxas¨ , identidade
essa construída através das marcas do incesto, ocasionando portanto em quadros
depressivos.
Outras conseqüências peculiares ao incesto são os comprometimentos nos
relacionamentos interpessoais que a vítima estabelece com os demais,
geralmente recusam manter relações com homens e quando conseguem esses
relacionamentos costumam ser poucos duradouros, em contrapartida em casos
extremos possuem uma tendência a supersexualizar essas relações.
Recusar essa aproximação significa ter "medo da intimidade¨, isto é, essas
mulheres apresentam dificuldades em manter laços afetivos, depositarem
confiança, não permitindo uma reciprocidade de atenção, responsabilidade e
respeito. Esse medo pode ocorrer quando um relacionamento começa a tornar-se
íntimo ao ponto de a vítima temer reviver suas experiências traumáticas ou nascer
de uma profunda desconfiança para com as pessoas de modo geral, haja vista
que foram abusadas pelo pai sem que mães as defendessem.
Relacionado a tendência que essas vítimas possuem em estabelecer
relações transitórias com homens observa-se que em muitos casos elas tornam-se
prostitutas, de acordo com pesquisa realizada por Herman (1981) citado por
Azevedo (1989), a explicação para esse fato é que o pai ao abusar de sua filha
força-a a pagar utilizando seu corpo, pelo carinho e cuidados que lhe deveriam ser
gratuitos, praticando tal crime é destruído esse elo de proteção existente entre pai
e filha, iniciando-a no comércio do próprio corpo, contudo em muitos casos a fuga
do lar torna-se um escape restando-lhe apenas a prostituição como modo de
sobrevivência.
Outro fator bastante predominante na vida de adultos que sofreram incestos
é a tendência a supersexualizar as relações com os homens tendo como possíveis
explicações para tal fato, o que o autor acima citado descreve como
comportamento aprendido visando buscar por meio de ardis sexuais uma forma de
chamar atenção. Courtois (1979) apud Azevedo (1989) contribui a respeito do
mesmo, interpretando essa supersexualização como uma busca de provar que
são amadas para sentirem-se adequadas.
Esse modo de procurar carinho demonstrado em estudos antigos, também
é defendido em pesquisas atuais como descrito por Sanderson (2005) no caso
abaixo:
+arlos tinha sido abusado seualmente pelo irmão mais velho dos , aos
-. anos. $abia que se tratava de abuso seual. /os -. anos, +arlos
conheceu um homem mais velho que lhe ofereceu dinheiro para
acompanhá'lo at" seu quarto de hotel. +arlos concordou. 0epois de t1'lo
violentado brutalmente o homem se mostrou muito amável, abra)ando,
acariciando e afagando o menino e dando lhe bastante aten)ão. +arlos
adorou esse aspecto do encontro e sentlu que isso, mais do que o
dinheiro, fora sua recompensa por ter deiado o homem violentá'lo. Esse
foi o início da carreira de +arlos como garoto de programa e prostituto.
0urante os .2 anos como profissional do seo, seu estímulo foi mais o
afeto do que o dinheiro que recebia. /l"m disso, a viol1ncia que
acompanhou o primeiro contato seual por dinheiro ficou misturada com o
amor e o afeto que recebia depois. 3sso significava que +arlos poderia
sempre participar de atividades seuais de etremo sadomasoquismo em
que apanhava muito, era chicoteado e violentado antes de ser abra)ado e
conseguir ter orgasmos. 4uando come)ou a terapia, +arlos estava certo
de que sua primeira eperi1ncia como garoto de programa não tinha sido
um caso de abuso seual em crian)as porque ele consentira em trocar
seo violento por afeto. *Sanderson, Abuso Sexual em Crianças,2005,
Cap.7 pág 10).
Conforme dividido anteriormente o último tópico a ser abordado por
Azevedo (1989) trata das dificuldades de adaptação sexual como consequência
para a vida adulta do abusado, sendo esta a área da sexualidade mais afetada.
Os problemas de adaptação sexual estão relacionados a uma negação de
qualquer relação sexual ou a incapacidade da vítima estabelecer relacionamentos
sexuais satisfatórios, ou seja, são frequentes os relatos de casos em que as
mulheres perdem parcial ou completamente o interesse sexual, tornando esse
comportamento justificável como comprovado em pesquisas conduzidas por
Becker, Skinner, Abel e Treacy (1982) apud Azevedo (1989). Para os autores esse
tipo de atitude pode ocorrer devido a fortes reações fóbicas que provocam medo
intenso e irracional frente às relações sexuais, esse medo, por sua vez, bloqueará
o desejo causando o aparecimento de sintomas fisiológicos, por exemplo, a vítima
demonstrará estar anestesiada, não reagindo a qualquer estimulação erótica ou
sentirá náuseas, diarréias, arritmias e sensação de vomitar causando-lhe repulsa
e pavor.
Bagley no período de (1978-1982) citado por Azevedo (1989) dedicou-se a
estudar as possíveis seqüelas causadas pelo abuso sexual infantil identificando
que cerca de 5% das vitimas cometeram alguma tentativa de suicídio e em casos
mais graves apresentaram problemas de personalidade como psicose, obesidade
induzida, automutilação, anorexia, adotando também um estilo de vida
autopunitivo. Outros fatores predominantes são abusos de drogas e álcool,
causando a dependência e problemas de saúde, desordens de personalidade,
agressividade, delinqüência, prostituição, retração ou falta de confiança nos
relacionamentos.
Para Azevedo (1989) ao se tratar de abuso sexual feminino o que
permanece na vida dessas mulheres é o aprisionamento na trama do desamor, ou
seja, ao sentirem-se más, ocorre o desamor a si próprias e ao ser humano de
modo geral, que passa a ser considerado indigno de confiança, capaz de
estabelecer relações baseadas apenas em interesses e favores, quanto ao
desamor aos homens, este se origina juntamente com a "morte do desejo¨.
Somando-se todos esses fatores é possível chegar ao núcleo da violência
psicológica que está centralizada na questão abuso sexual, o roubo da
capacidade de amar, gerada graças ao exercício do "amor-poder¨ praticado pelo
abusador.
Divergindo parcialmente com os conceitos anteriores Sanderson (2005)
defende que não necessariamente as vítimas trarão para suas vidas
conseqüências tão radicais, ou seja, alguns adultos podem demonstrar
pouquíssimos danos, enquanto outros arrastam para sua vida uma historia
conturbada por problemas de saúde mental e psiquiátrico ou até mesmo repetem
o comportamento abusivo com outras crianças. Ainda para a autora as pesquisas
psicológicas não dão conta de responder com precisão todos os tipos de
respostas que perpassam essa temática, entretanto há variáveis que poderão
ajudar para essa compreensão.
De acordo com a autora pesquisas atuais comprovam que uma em cada
oito vitima ao tornar-se adulta ou apresentar mais idade cometerá o abuso em
outras crianças, demonstrando que essa estatística é apenas a ponta do iceberg,
uma vez que muitos abusadores nunca serão identificados e punidos, sendo
assim, torna-se impossível elaborar uma real avaliação de quantas crianças estão
sendo sujeitadas a esse crime, contudo estudos atuais realizados por Sanderson
(2005) concordam com o exposto anteriormente por Azevedo (1989) em pesquisas
mais remotas, isto é, as vitimas que não cometem tal comportamento são
predispostas a tornarem-se dependentes de álcool e drogas ou apresentarem
problemas de saúde mental e psiquiátricos .

#$%-Contribuiç&es psicoló'icas para dia'nóstico e tratamento
Ao resgatar a história da atuação dos psicólogos (Pinheiro e Fornari) 2011
descreve que foi-se o tempo em que a ciência psicologia limitava-se apenas ao
exercício da profissão de forma isolada das outras áreas dos saberes em clínicas
particulares onde a relação nesse ambiente era marcada apenas pela díade
terapeuta-paciente.
Na atualidade esse método arcaico não condiz com a realidade,
principalmente se tratando de qualquer tipo de violência contra a criança, isto é,
independente do local que o psicólogo desempenhe seu papel, necessitará
trabalhar de modo articulado com outras equipes. Esse novo conceito no Brasil
originou-se devido à ratificação da "Doutrina de Proteção Ìntegral¨ onde essa
categoria profissional começa a integrar-se a uma "rede de proteção¨ às crianças
e aos adolescentes visando resguardar seus direitos garantidos pelo Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA).
Falar porque é importante trabalhar em equipe pg.302
Em casos de abuso sexual infantil torna-se necessário incluir a família no
tratamento psicológico proporcionando a todos a oportunidade de falar e escutar,
uma vez que outrora imperava o silêncio para calar a crueldade. Sendo assim, o
espaço em que essa problemática se revelará, deverá ser apropriado tanto física
quanto emocionalmente para experienciar os eventos traumáticos (Pinheiro e
Fornari) 2011.
Ainda para as autoras o setting terapêutico, ou seja, o ambiente físico e o
clima emocional contribuirão para marcar as diferenças que o sistema familiar não
fez, haja vista que nestas famílias a criança não consegue discernir se o adulto é
digno de confiança ou não o que pode lhe apresentar riscos. Quanto ao papel do
psicólogo são fundamentais as características descritas abaixo:
Honrar seu fazer, comportar-se como uma pessoa madura, que não
julga, não toma partido, não é vingativa, mas é capaz de relacionar e
discriminar entre fantasia e realidade são algumas das características
essenciais que se espera desse profissional. (Violência sexual contra
crianças e adolescentes, 2011, pág 312)
Segundo Sanderson (2008) em casos de abusos sexuais tanto a vítima
quanto o abusador necessitam de tratamento e apesar das dificuldades de se
tratá-lo por questões que envolvem excitação no comportamento sexual, há sim
como ajudá-lo a reconhecer seu comportamento abusivo e aprender a controlar
seus impulsos e sua excitação sexual, como defendido em pesquisas realizadas
por Salter (2003) apud Sanderson (2008) onde dois terços dessa população
respondem bem ao tratamento.
Na atualidade a maioria dos tratamentos para o abuso sexual infantil é
oferecido ao abusador enquanto ainda está na prisão, sendo que menos de 5%
quando vão a julgamento são condenados, dificultando chegar a uma estatística
mais precisa da eficácia do tratamento, pois os agressores que não foram
sentenciados não recebem essa prestação de serviço, quando inseridos
novamente na sociedade com a libertação cessa-se o tratamento, é importante
ressaltar que muitos voltam a cometer esses crimes, para Sanderson (2008) se
esse processo de recuperação ultrapassasse os limites prisionais poderia ter uma
maior eficácia.
A autora ainda defende que o acesso a programas de tratamento antes de
ocorrer o abuso sexual torna-se um grande aliado para evitar tal ato, citando o
exemplo 5ome !ffice and 0epartment of 5ealth do Reino Unido que juntamente
com algumas instituições de caridades britânicas financiaram um projeto para
ajudar pessoas preocupadas com seu interesse sexual por crianças antes de
executarem tal perversidade. O programa denomina-se "Stop it Now! UK and
Ìreland, onde sujeitos da comunidade podem fazer ligações pedindo ajuda para
lidar com seus desejos e prevenir consequentemente o abuso. Por meio desses
atendimentos, há uma maior compreensão sobre abuso sexual infantil e de quem
os cometem, sendo que muitos desses casos seriam imperceptíveis se não
fossem revelados pelos próprios indivíduos.
Sendo assim para Sanderson (2008) a solução para essa problemática não
é apenas trancafiá-los numa prisão,isto é, através desse ato não ajudará na sua
reabilitação, pelo contrário, o estresse de ficar fechado na cadeia sem nenhum
tratamento, o levará a ter tempo para se masturbar e fantasiar novos abusos que
poderão ser cometidos após sua liberdade.
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