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Entrevista a Diogo Morgado

por Elisabete Pato. Fotografia de Rui Coutinho

http://dn.sapo.pt/revistas/nm/interior.aspx?content_id=1471664

Não é vaidoso. Liga pouco ao mediatismo: «Graças a Deus apareceram jovens


actores que preenchem um grupo de fãs histéricas no qual eu já não me insiro.»
É poupado, cresceu a andar na rua e poderia ter sido médico ou físico. Mas é
actor. E prepara-se para interpretar José, protagonista, na produção norte-
americana Mary, Mother of Christ, ao lado de Al Pacino. Diogo Morgado
comemora hoje 30 anos de idade. De carreira, já lá vão dezasseis.

Diogo Miguel Morgado Pinto nasceu em Lisboa a 17 de Janeiro de 1980. Aos 14


anos entrou na moda, aos 15 participou no seu primeiro projecto de televisão
Primeiro Amor, na RTP. Como actor, já conta com quatro mini-séries, quatro
longas-metragens e trinta projectos televisivos, na RTP, SIC e TVI. Tem contrato
de exclusividade com a SIC até 2012. No passado mês de Novembro participou,
com Rui Unas, no filme espanhol de humor Mapa. É Pancho, um dealer
sanguinário. Não terminou o curso de Artes e Espectáculos, na Faculdade de
Letras, na Universidade Nova de Lisboa.

Nasceu em Lisboa e tem uma grande ligação ao Alentejo.


Tenho. Cresci e fiz toda a escola na margem sul, na Grande Lisboa. O meu pai é
do Alentejo e tenho lá muita família. Quando havia aquelas férias grandes da
escola ia para lá longas temporadas. Acho que as férias grandes se reflectem
muito na formação de uma pessoa, ainda mais quando se está ligado à
criatividade. É a altura em que há liberdade, podemos sentir e experimentar
coisas, conhecer pessoas. A escola, obviamente, é uma missão a cumprir, é aí
que se criam todas as relações sociais e que se estabelece o carisma para a vida,
mas acho que o lado criativo está muito dentro daquilo que se faz nas férias
grandes.

Ainda vive na margem sul?


Sim. Vivi em Lisboa durante seis meses, e detestei. Adoro Lisboa mas não para
morar, preciso de mais paz e sossego.

Como é que foi a sua infância?


Toda a minha infância foi... É um bocado absurdo dizer normal, porque hoje em
dia a normalidade é diferente da normalidade de quando era mais jovem, mas,
por exemplo, cresci a brincar na rua.

Próprio de quem cresceu na margem sul ou no Alentejo.


Mas foi diferente crescer cá. O Alentejo deu-me coisas e valores que na margem
sul não se têm. A questão do prazer da família, o estar à mesa, as mezinhas, até
esfolar um coelho, uma galinha, um porco, tudo isso faz parte da vida. E
compreender isso, ver e sentir isso numa tenra idade, são experiências
altamente enriquecedoras. Andar na apanha da azeitona, sei lá, nem me recordo
de tudo o que faz parte da labuta.

Ainda vai ao Alentejo?


Não tanto, mas faço umas escapadelas. É importante reconhecer que o Alentejo
teve, para mim, uma importância naquilo que sou, sem dúvida. Acho que as
pessoas, hoje em dia, vivem numa euforia demasiado grande na procura de uma
coisa que nem sabem definir. As pessoas, principalmente na província – não só
no Alentejo – ensinam-nos a ser felizes com pouco e a compreender a essência
da vida.

Começou a trabalhar com 14 anos.


Sim, coisas de moda, soltas, mas depois fiz a minha primeira telenovela aos 15,
ainda estava a estudar. Andava ali um bocadinho perdido, sem saber para onde
me dirigir, fiz o agrupamento científico-natural. Os testes psicotécnicos diziam
que devia ser médico, mas não me identificava, sempre gostei de Física e
Electrónica. Por outro lado, também gostava de Desenho.

Como é que entrou na moda?


Através de um grande amigo, que era doido por moda, tinha desenhos e posters
das modelos no quarto. Houve um concurso juvenil na revista Super Jovem e ele
disse: «Tens de tirar-me umas fotografias», e eu, como gosto de fotografia,
respondi: «Não te preocupes que tenho uma grande máquina [risos], vou tirar-te
as fotografias.» E lá fui. A mãe dele era costureira, tinha um baú cheio de roupas
antigas, coletes de pele e coisas que nunca tinha visto a não ser no Carnaval.
Tirámos umas fotografias e às tantas vesti a roupa. Ele começou a tirar-me umas
fotografias e acabámos por enviá-las. Entretanto, fui chamado e ganhei o curso
de manequim. Fiz o curso e fiquei numa agência, a Elite.

A partir de que altura é que deixou a escola?


Quando acabei o 12.º ano, mas nunca senti que deixei a escola, sempre pensei
para mim mesmo «vou ver o que é isto, prefiro ganhar tempo a perdê-lo, e
depois se tiver uma definição volto». E voltei, mais tarde, para fazer um curso
que ainda não está acabado, na Faculdade de Letras, Artes do Espectáculo.

É o Diogo que define o rumo da sua carreira?


Por exemplo, posso dizer que declinei há poucos dias uma peça de teatro, e
queria muito fazê-la. Não faço porque quero ter tempo para outras coisas.

O que o leva a aceitar um projecto?


É o facto de ser diferente, é achar que não sou capaz. É o desafio. Se alguém me
disser alguma coisa como «ele não é capaz», para mim é a meta, sou o Nélson
Évora, enquanto não chego lá ao fundo… [risos]. Houve uma altura em que não
sabia o que é que queria, e então experimentei tudo. Pensei «tenho uma idade
em que posso falhar, em que posso errar, experimentar tudo», e assim foi.
Depois isso acaba por ser uma adrenalina e um jogo emocional, que é de certa
forma viciante. Já fiz trabalhos que envolviam muito dinheiro, com pessoas muito
capazes, que se traduziram num fiasco.

Liga muito ao dinheiro?


Não, sou muito organizado com as minhas contas.

É poupado?
Muito poupado.

É vaidoso?
Não, nada.

Que relação é que tem com as suas fãs? Há fãs que lhe dedicam sites.
Olhe, não sabia. Há muito pouco tempo, aderi ao Twitter. É engraçado porque no
Twitter é que começo a aperceber-me de que há coisas na net sobre mim, e isso
é giro.

Mas não liga a isso?


Não, sou discreto por natureza, não vou a tudo o que me convidam. E procuro
organizar a minha vida com o aspecto mais normal e quotidiano possível. Tenho
um bocado de sorte, apareceu uma camada de jovens actores que preenchem
um grupo de fãs histéricas no qual eu já não me insiro. Tenho consciência de que
as pessoas que apreciam aquilo que faço são já um bocadinho mais velhas. Se
perguntar a uma miúda de 15 ou 16 anos pelo Diogo Morgado não vai haver uma
grande reacção [risos], porque ela tem todo o elenco dos Morangos com Açúcar
para admirar.

É uma pergunta que devem estar sempre a fazer-lhe, mas como é que
surgiu a oportunidade de trabalhar com Al Pacino, numa produção
americana?
Sim, é por isso que me estou a rir, é a pergunta que mais me fazem, na rua ou
em qualquer lado onde vou: «Como é que foi isso do filme americano?»

É o primeiro actor português a contracenar com Al Pacino.


Por acaso ainda não aconteceu, mas se calhar é a primeira vez de muitas, não
comigo mas com outros actores. Tem a Daniela Ruah…

Sim, é verdade.
Tem o Joaquim de Almeida, o último filme que fez foi com a Kim Bassinger e com
a Charlize Theron. Eu trocava os «al pacinos» e ficava com elas, são muito mais
giras do que o Al Pacino [risos]. Gosto muito de realização, e acho que no dia em
que arrumar os meus botins gostava de contar histórias de outra maneira, por
detrás das câmaras, não necessariamente cinema, mas tenho um fascínio
especial por isso. Gosto dos bastidores. E então fui até Los Angeles fazer um
curso de realização. Nesse curso estavam screen writers, actores, produtores, eu
estava na turma de realização. Temos de trabalhar um bocado em conjunto, com
os sectores todos…

Eram formandos de todo o lado?


De todo o mundo. E depois fizeram-se amizades. Um dia, faço um casting para
um filme meu, num projecto de lá. Estavam actores e um agente de um deles,
metemos conversa, perguntou-me se sou actor, eu disse «curiosamente, sou».
Ele disse que andava à procura de alguém com o meu aspecto e trocámos
contactos. Achei aquilo muito estranho mas nada de especial. Uma porção de
tempo depois faço Star Crossed, o último filme antes do Salazar, que era
bilingue, e a minha personagem também falava inglês. O filme chegou lá a um
festival. Esse agente contactou-me, disse-me: «Vi o filme, a tua prestação teve
críticas fabulosas aqui.»

Foi assim um bocado com «pozinhos de perlimpimpim».


Sim, sem dúvida, foi obra de uma série de coincidências. Ele disse que queria
trabalhar comigo, mandou-me dois ou três papéis para fazer audições. Achei
aquilo esquisito, o único que me decidi a fazer e do qual gostei de facto foi este.
Foi o único, não foi ao fim da décima tentativa, foi one shot. Filmei a audição,
mandei-lhe, e deu nisto.

Mas já sabia na altura que era para contracenar com estes actores.
Só soube quando fui falar com o realizador.

Como é que vai ser o seu papel, é o protagonista?


Sou um dos protagonistas, sou José, num filme que se chama Mary, Mother of
Christ.

Que expectativas é que tem? Não deixa de ser um marco na sua carreira.
Sem dúvida, mesmo que não se traduza em nada.

Vai ser filmado em Marrocos.


Sim.

Quando começam as gravações?


Tenho de estar lá a meio de Fevereiro.

É tudo gravado lá?


Sim, estão a construir uma cidade cinematográfica e tem de ter aquele aspecto
do Egipto. É um filme bíblico, dos mesmos autores da Paixão de Cristo. É
exactamente o mesmo ambiente, o mesmo mood, só que é outra parte da
história.

Quanto tempo vai lá estar?


Se tudo correr bem, se não houver chuvas, se ninguém morrer, são dois meses e
meio.
O que sente em relação a tudo isso?
Vou ser muito sincero, não sinto nada. Enquanto não estiver lá...

Não sofre por antecipação?


Não, porque ainda não «me caiu a ficha» [risos]. Eu sou um «tuga» que estou cá
a fazer as minhas coisas, com as pessoas de quem gosto.

Ainda não acredita que está a acontecer consigo?


Todas as semanas falo com o realizador, mostro-lhe o que descobri, porque
estou a fazer pesquisa. Ele faz questão de mantermos contacto. Mas a verdade é
que ainda não estou a ver-me nesse filme. O tempo também ensina algumas
coisas e às vezes o que parece garantido não está. Quando se criam grandes
expectativas o tombo é muito grande, prefiro estar tranquilo, estou tranquilo. Se
acontecer, acontece, tudo indica que sim, mas o mundo pode acabar amanhã. O
que sinto é isso, tento manter-me tranquilo, não pensar muito nisso. Penso de
uma forma objectiva numa personagem como se estivesse a prepará-la para a
próxima telenovela.

Está confortável com o facto de ir trabalhar com pessoas com quem


nunca trabalhou e que não conhece?
Todos os dias faço isso.

Mas é diferente.
Em quê?

É outra dimensão.
Qual é a dimensão?

São actores norte-americanos e não só. Trabalhar com nomes grandes


do cinema americano para si é igual a gravar qualquer coisa?
Estou sempre a fazer isso. Deixa-me ansioso porque quero que corra bem. Ao
fim e ao cabo vamos ser duas pessoas a tentar fazer o melhor trabalho. Já disse
isto mais do que uma vez, por mais que ele [Al Pacino] seja top, ele tem mais
responsabilidades do que eu [risos].

Isso é verdade.
Basta que eu faça muito pouco para agradar. Ele vai ter de dar «o litro». Eu não
tenho nada para provar, ele tem de provar tudo. Ele, seja quem for, se for
conhecido. Se calhar no meio disto tudo se há alguém que tem de estar nervoso
é ele [risos], mas vou ter muito mais cenas com o Peter O’Toole. Tenho duas
cenas com o Al Pacino.

Gostava de ter uma carreira internacional?


Não faço questão. Se acontecer é simpático, mas não sou daquelas pessoas que
vão viver para fora porque lá fora é que está a dar. Prefiro uma grande vila a
uma pequena cidade, e se de alguma forma sinto que aqui posso fazer coisas
relevantes que tenham interesse para mim e para as pessoas, é muito mais
aliciante do que ir lá para fora e ser mais um. Aqui há muita coisa para fazer, e
ainda sou muito novo.

Mas o facto de ter essa oportunidade de gravar para uma produção


norte-americana não o faz pensar em objectivos mais altos?
Não, juro que não.

É ambicioso?
Sou ambicioso, mas dentro daquilo de que gosto e que acho que é possível. Não
vou ambicionar o que não posso ter, não. Se me dessem um iate eu dizia «não,
muito obrigado», porque aquilo não me satisfaz – e é um grande iate.

O que é que o satisfaz?


Gosto de ter uma boa casa, o frigorífico cheio e de me sentir confortável.

E ser pai, mudou-o?


Não me mudou em nada, potenciou-me, motivou-me, mas não mudou em nada,
pelo menos por enquanto. Nunca me pus em primeiro, e então não me vejo em
segundo plano. Estou mais motivado e tenho mais «pica» para as coisas de que
gosto e em que acredito, cada vez mais encontro razões para continuar a
defendê-las. E é isso que quero passar ao meu filho. Portanto, motivou-me quer
a nível pessoal quer a nível profissional.

Há pouco estava a dizer que é ambicioso mas tenta não pensar muito
alto, e que já se dá ao luxo de não aceitar tudo, mas já pensou no maior
objectivo da sua carreira?
Acho que o dia em que, daqui a vinte anos, conseguir realizar um filme, é o topo.
Apostei na formação como actor, em workshops, cursos. Não fui para o
Conservatório mas hoje em dia já há locais a formar actores, tão bem ou melhor
do que o Conservatório.

Portanto, a sua concretização é mais a nível da realização?


A minha concretização é ter prazer naquilo que faço, e entre fazer um filme de
bang-bang com o Tom Cruise e realizar um filme, uma história que me seja
pessoal, particular e que me diga muito, e ser eu a contá-la e a realizá-la... não
tem comparação possível.

A moda ficou um pouco de parte?


Acho que a moda nunca esteve... [risos].

Esteve, começou como modelo.


Foram coisas muito pontuais. Ganhava uns trocos para ir ao cinema com as
namoradas [risos].

Como é o seu dia-a-dia?


Acordo de manhã, faço os meus cereais, depois sou capaz de ver o que é que se
passa na televisão, ir à internet um bocado, mais da parte da manhã. Depois,
como gosto de cozinhar, sou capaz de fazer o almoço, se tiver sorte alguém fez o
almoço no dia anterior. Faço um reston porreiro, e depois durante o dia é
conforme, se tiver coisas para fazer, faço, se não tiver, invento. E é por aí,
depois à noite gosto de estar em casa, tranquilo, com chocolate e pantufas.

Tem muitos amigos?


Tenho poucos. Sou um bocadinho de andar sozinho, não me adapto muito bem a
multidões, a grupos grandes. Gosto muito de estar em casa com as pessoas mais
próximas, sou caseiro. E gosto de trabalhar em casa, de ler, de fossar.

Agora deve estar a ler a Bíblia...


Sim, desde excertos da Bíblia à analogia que fazem das imagens de santos.

Tem fé?
Fui baptizado pela Igreja Católica, mas não sou praticante. Sou mais ateu do que
outra coisa. Mas tenho muita fé, a minha fé, aquilo que entendo que deve ser a
fé.

O que é a fé, então, para si?


Acredito nas energias. Acredito que o bem compensa e que o mal é castigado.
Acredito que se uma pessoa quiser muito e se esforçar, consegue. Agora, se é
Jesus, se é um santo…

E apoia-se na sua fé...


Muito, muito, todos os dias.

Sozinho?
Sim, sozinho.

Este tipo de filme que vai fazer é um filme que naturalmente veria?
Sim.

Viu A Paixão de Cristo?


Vi. Mas não é só por isso, este ainda veria mais do que A Paixão de Cristo. A
Paixão de Cristo vi porque é a visão de um actor.

Há pouco falou que era o outro lado da Bíblia que não foi apresentado
n’A Paixão de Cristo. Que lado é esse?
Eles apoiam-se muito – e é por isso que gosto desta versão – nos escritos
bíblicos e naquilo que a Igreja Católica vê como acontecimentos históricos do que
se passou na vida de Jesus Cristo. É visto como o poder da família para com o
filho.

Mais do que o sofrimento?


Mais do que o poder divino, se calhar.

Também existe o sofrimento que há n’A Paixão de Cristo?


Não, esse campo não é abordado. É uma visão de paixão que chega a um
extremo físico, absoluto, tal é a sua intensidade. A metáfora que se tira daquele
filme é essa, até que ponto vai o amor de Cristo. É o poder da família. A energia
e o amor da família, o dar e o receber, mas de uma forma natural, sem estarmos
aqui com o lado abstracto do divino.

Sabe quantas pessoas estão incluídas nesse projecto?


Não, não faço ideia.

Para estarem a construir uma cidade....


Sim, mas com certeza que a cidade está a ser construída por marroquinos, não
está a ser construída por americanos [risos].

E quanto é que vai custar o filme?


Não faço a mínima ideia, é que nem quero saber.

Tem algum actor português que seja referência para si?


Armando Cortez.

E estrangeiro?
Tom Hanks.