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Crocodilos Espirituais

Elder Boyd K. Packer


Do Conselho dos Doze Apóstolos

Perigos espreitam por toda a parte na vida dos jovens – mas existem guias para advertir e
ajuda-los.

Falo, hoje, à juventude da igreja, ao Sacerdócio Aarônico e moças e a estes maravilhosos jovens do
nosso coro. A fim de ensinar-vos uma lição não muito fácil de se aprender, vou contar-vos uma
experiência.
Sempre tive grande interesse por animais e aves; quando ainda garotinho e as outras crianças queriam
brincar de “cowboy”, e eu queria fazer um safári na África e fingir que estava caçando animais
selvagens.
Quando aprendi a ler, procurei livros que falavam de pássaros e animais, e cheguei a aprender bastante
a respeito deles. Ao chegar à adolescência, eu conseguia identificar a maioria dos animais africanos,
diferenciando o orangotango de um impala ou o órix de um gnu.
Sempre desejei visitar a áfrica para ver os animais, e finalmente surgiu a oportunidade. A irmã Packer e
eu recebemos a designação de percorrer a Missão da África do Sul em os o desapontamento de ficar ali
o dia inteiro. Nosso único dia no parque estava estragado, e para mim, se fora o sonho de uma vida
inteira.
Conversando com um jovem guarda-florestal, ele ficou surpreso pelo fato de eu conhecer tão grande
número de pássaros africanos. Então ele se prontificou a nos ajudar.
Estamos construindo um novo abrigo de observação acima de uma cacimba, a uns trinta e cinco
quilômetros do alojamento. Não está pronto ainda, mas é seguro. Eu os levarei até lá com um lanche, e
hoje à tarde, quando seu carro chegar, mandarei busca-los. Assim poderão observar tantos animais ou
mesmo mais do que andando de carro por aí.
A caminho do abrigo de observação, ele se ofereceu para nos mostrar alguns leões. Saiu de estrada, e
não muito depois, localizou um grupo de dezessete leões, todos estirados em pleno sono, e dirigiu-se
diretamente até eles. Paramos perto de um aguadouro, a fim de observar os animais que vinham ali
matar a sede. Era época de seca e pouca água; na realidade, apenas umas poças de lama. Quando os
elefantes pisavam na lama mole, a depressão da pegada se enchia de água, era ali que os animais iam
beber.
Os antílopes mostravam-se particularmente ariscos. Aproximavam-se da poça e logo fugiam
apavorados. Como não conseguia ver nenhum leão por perto, perguntei ao guia porque eles não
bebiam. Sua resposta foi: Crocodilos.
Eu sabia que ele devia estar brincando e perguntei sério:- Qual é o problema?
Crocodilos – voltou a responder.
Bobagem, repliquei : Não há nenhum crocodilo por aí. Qualquer pessoa pode ver isso.
Pensei que ele estivesse se divertindo à minha custa, o pretenso perito em caça africana, e finalmente
pedi-lhe que nos dissesse a verdade. Devo lembrar-vos de que eu não era tão ignorante assim; tinha
lido uma porção de livros a respeito da África. Além disso, todo mundo sabe que não se pode esconder
um crocodilo numa pegada de elefante.
Percebendo que eu não lhe dava crédito. Resolveu, suponho, dar-me uma lição. Dirigiu o carro até
outro local onde ficamos sobre um barranco acima da cacimba lamacenta.
Ali, apontou. Veja por si mesmo.
Eu não conseguia ver nada além da lama, um pouquinho d’água, e os animais nervosos à distância.
Então, de repente, eu vi! Um enorme crocodilo aninhado na lama, à espera de um incauto animal
suficientemente sedento para vir beber.
Subitamente passei a acreditar! Quando percebeu minha disposição de dar-lhe crédito, ele prosseguiu
com a lição: Há crocodilos espalhados pelo parque inteiro, explicou; Não só nos rios. Não temos
nenhum bebedouro sem que haja um crocodilo por perto, disso podem estar certos.
O guia foi mais bondoso do que eu merecia. Minha atitude de “sabe – tudo” diante de sua resposta
“crocodilos” poderia ter provocado o desafio: Bem, então vá lá e veja por si mesmo!

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Eu podia ver por mim mesmo que não havia crocodilos. Eu estava tão certo disso, que bem poderia ter
saltado só para ver o que havia lá. E tal gesto arrogante poderia ter sido fatal! Ele, porém, teve
paciência o bastante para me ensinar.
Meus jovens amigos, espero que sejais mais sensatos diante de vossos guias do que eu fui nessa
ocasião.Aquele convencimento de pretender saber tudo realmente era indigno de mim, como também
não é digno de vós. Não me orgulho disso e acho que teria vergonha de falar-vos a respeito, se não
fosse como possível ajuda.
Aquele que vos precederam na vida já experimentaram um pouco as tais cacimbas e levantam a voz de
advertência sobre os crocodilos. Não só quanto aos grandes répteis cinzentos que vos podem fazer em
pedaços, como os crocodilos espirituais, infinitamente mais perigosos, ainda mais falsos e menos
visíveis que aqueles tão bem camuflados répteis na África.
Esses crocodilos espirituais podem matar ou mutilar vossa alma. Podem destruir vossa paz de espírito e
a paz de espírito daqueles que vos amam. É contra eles que devemos adverti-los. Atualmente, em todo
o mundo mortal, dificilmente existirá um bebedouro que não esteja infestados deles.
Noutra viagem pela África, discuti essa experiência com um guarda florestal de outra reserva. Ele me
assegurou que é de fato possível esconder na pegada de um elefante um crocodilo de tamanho
suficiente para partir um homem em dois pedaços.
Depois, mostrou-me o local de uma tragédia. Um jovem inglês estava trabalhando no hotel durante a
temporada, e a despeito dos constantes e repetitivos avisos, ele passou pela cerca do alojamento para
verificar alguma coisa do lado oposto de uma poça d’água tão rasa, que não chegava a cobrir seus tênis.
Ele não tinha dado dois passos na água, - contou o guia, quando foi pego pelo crocodilo e não pudemos
fazer nada para salvá-lo.
Parece contrariar a nossa própria natureza, principalmente quando somos jovens, aceitar muita
orientação dos outros. Porém, meus amigos, há ocasiões em que, não importa o quanto pensamos saber
ou o quanto desejamos fazer uma coisa, nossa própria existência depende de darmos aos nossos guias.
Bem, é horrível pensar naquele moço que foi devorado pelo crocodilo. Mas isto não é, de forma
alguma, a pior coisa que pode acontecer. Existem coisas morais e espirituais muito piores do que
pensar em ser feito em pedaços por um réptil monstruoso.
Felizmente, existem na vida guias suficientes para impedir que tais coisas aconteçam, desde que
estejamos dispostos a, de vez em quando, aceitar um conselho.
Alguns de nós fomos designados a servir de guias e guardas agora, como vós o sereis num futuro
próximo. É verdade que não costumamos usar tais títulos. Somos conhecidos pelos títulos de pais – pai
e mãe, de bispo, líder, supervisor. Nosso encargo é assegurar que passeis pela mortalidade sem serdes
feridos por esses crocodilos espirituais.
Todas as instruções e atividades na Igreja têm como principal propósito o desejo de ver nossa
juventude livre, independente e segura, tanto espiritual como temporalmente.
Se escutardes os conselhos de vossos líderes enquanto sois jovens, podeis aprender como seguir o
melhor guia que existe – O sussurro do Espírito Santo. Isto é revelação pessoal. Há um processo pelo
qual somos advertidos em caso de perigo espiritual. Exatamente como fui avisado pelo guia, podeis
receber sinais de alerta sobre os crocodilos espirituais que estão à espreita.
Se vos pudermos ensinar a escutar essas comunicações espirituais, estareis protegidos desses crocodilos
da vida. Podeis aprender como é ser guiado do alto. Essa inspiração pode surgir em todas as vossas
atividades, na escola, ao namorar – não só nas designações da igreja.
Aprendei a como orar e como receber resposta para vossas orações.
Quando orardes a respeito de alguma coisa, é preciso esperar pacientemente muito, muito tempo até
que venha a resposta. Algumas orações têm quer ser respondidas imediatamente para vossa própria
segurança e certos influxos do Espírito virão mesmo sem terem orado.
Desde que estejais realmente decidido a seguir esse guia, vosso testemunho crescerá, e ao longo do
caminho, haveis de encontrar provisões em lugares inesperados, como evidência de que alguém sabia
que seguiríeis aquela trilha.
O exercício fundamental durante vossa juventude, para que vos torneis espiritualmente fortes e
independentes, reside na obediência a vossos guias. Se os seguirdes e o fizerdes de boa vontade,
aprendereis a confiar nesses delicados, sensíveis influxos espirituais. Aprendereis que eles sempre,
invariavelmente, vos levarão ao que é certo.

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Agora, meus jovens amigos gostaria de referi-me a outra experiência, da qual me lembro
constantemente, mas pouco falo. Não vou contá-la em detalhes, apenas referir-me a ela . Aconteceu há
muitos anos, quando talvez não era tão jovem quanto vós agora, e teve a ver com minha decisão de
seguir esse guia.
Eu sabia o que era o arbítrio e sabia quão importante é ser independente, ser livre. Sabia de alguma
forma que uma coisa da qual o Senhor jamais me privaria, e esta era meu livre arbítrio. Não cederia
meu arbítrio a nenhum outro ser a não ser senão a Ele! Decidi dar-lhe a única coisa que Ele jamais me
tomaria – meu arbítrio. Decidi, sozinho, que daquela hora em diante, eu faria as coisas à sua maneira.
Foi uma provação difícil para mim, pois achei estar desistindo da coisa mais preciosa que eu possuía.
Moço ainda, não tinha sabedoria bastante para saber que por ter exercido meu arbítrio e decidindo por
mim mesmo, eu não o estava perdendo. Estava-o fortalecendo!
Aquela experiência ensinou-me o sentido desta Escritura: “Se vós permanecerdes na minha palavra,
verdadeiramente sereis meus discípulos”.
“E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. (João 8:31-32)
Desde aí, os crocodilos espirituais não me têm feito tanto medo, pois em muitas ocasiões tenho sido
alertado sobre onde espreitavam.
Fui mordido uma ou duas vezes, e certa ocasião precisei de primeiros-socorros espirituais, mas tenho
sido salvo em geral por estar prevenido.
Afortunadamente, existem primeiros socorros espirituais para os que foram mordidos. O bispo da ala é
o guia encarregado de prestar os primeiros socorros. Ele está igualmente em condição de tratar os que
foram moralmente atacados por tais crocodilos espirituais – e vê-los totalmente recuperados.
Aquela experiência na África foi mais um lembrete para eu seguir o Guia. Eu o sigo, porque quero.
Através da outra experiência, vim a conhecer o Guia. Presto testemunho de que Ele vive, que Jesus é o
Cristo. Sei que possui um corpo de carne e ossos, que dirige esta Igreja, e que seu propósito é guiar-nos
a todos seguramente de volta à sua presença. Em nome de Jesus Cristo. Amém