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artigo original 15 Além do Princípio da Vida Silvia Waisse Priven* Cultura Homeopática • p.
artigo original
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Além do Princípio
da Vida
Silvia Waisse Priven*
Cultura Homeopática • p. 15-20 • jul-ago-set • nº 12 • 2005
Resumo
Abstract
A “vitalidade” é um conceito-chave em Homeopatia.
Entretanto, sua conceitualização no universo homeo-
pático não tem acompanhado a evolução científica dos
conceitos associados de matéria, força e energia. A au-
tora discute o conceito de vitalidade de Hahnemann
em função das condições de contorno estabelecidas pe-
los conceitos científicos de sua época. A seguir, apresen-
ta algumas concepções contemporâneas a respeito do
estatuto do vivo, que afirmam que a vida implica em
processos de comunicação. Essa tese é sugerida por um
amplo espectro de pesquisadores, desde os represen-
tantes do establishment das ciências da vida, até aborda-
gens mais polêmicas, como a biosemiótica e a homeo-
pática. A tese do caráter semiótico – interpretativo da
vida pode estar na base da validação da Homeopatia
dentro do framework da ciência convencional.
“Vitality” is a key-idea in Homeopathy. Yet, its formulati-
on in the homeopathic milieu has not kept up with the sci-
entific development of related notions – matter, force and
energy. The author discusses Hahnemann’s conception of
“vitality” according to the scientific framework of his time.
This is followed by an analysis of contemporary concepti-
ons concerning the status of living things, which state that
life amounts to communicative processes. This notion is
held by a wide range of scholars, from the biological esta-
blishment to more polemical biosemioticians and homeo-
paths. Life as a semiotic-interpretative process may point
to the path for Homeopathy’s validation within the fra-
mework of regular science.
Palavras-Chave
Keywords
Vitalidade - Semiótica - Biologia - Homeopatia
Vitality - Semiotics - Biology - Homeopathy
A doutrina homeopática, tal como formulada por
Hahnemann, pode resumir-se nas seguintes afirmações:
“Embora todas as partes componentes do corpo
Saúde = equilíbrio da vitalidade.
Doença = alteração da vitalidade.
Medicamento = substância capaz de agir sobre a vitalidade.
Cura = re-equilíbrio da vitalidade.
humano encontrem-se em outras partes da natureza,
agem juntas em sua união orgânica para o desenvolvi-
mento pleno da vida e demais determinações humanas
numa forma tão divergente e singular (para a qual só se
tem o termo vitalidade – Vitalität), que essa forma es-
pecial (vital – vitale) de reação das partes entre si e com
o mundo externo não pode ser julgada nem explicada
por nenhuma outra regra além da que a própria vida
fornece
(HAHNEMANN, 1808: 502-3)
Portanto, é imprescindível ter-se uma idéia acurada
acerca do que é a “vitalidade”.
“As substâncias materiais de que o organismo huma-
no está composto não mais seguem nesta combinação vi-
*
Médica homeopata; mestre e doutoranda em História da Ciência – PUC-SP – silvia15@terra.com.br

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va as leis a que estão sujeitas as substâncias materiais mor- tas; mas seguem apenas às particulares à vitalidade (Vita- lität), estão animadas e vivificadas assim como o sistema todo está animado e vivificado. Aqui reina uma força 1 fun- damental onipotente, sem nome, que suspende toda ten- dência das partes componentes do corpo a seguirem as leis da pressão, do impulso, da força da inércia, da fermenta-

ção, da putrefação, etc., e as coloca sob as leis da vida ex-

nem por isso acredito em que há que se descartar as leis que go- vernam as forças que estão fora do corpo animal; sugi- ro que nunca sejam transferidas para nossas máquinas corporais animadas, a não ser que os experimentos concordem.” (Ibid.: 97) A estudiosa Shirley Roe explica esta aparente con- tradição, dizendo que Haller era mecanicista, mas não

muito diferentes das leis mecânicas comuns

clusivamente

(HAHNEMANN, 1813: 639) 2

Hahnemann é enfático em sua insistência acerca de que não é necessário – nem possível – se ocupar da for- ça vital, e afirma:

“Portanto, tudo quanto o médico pode saber a respeito de seu objeto, o organismo vital, e tudo quan- to precisa saber, está sintetizado naquilo que os mais sábios entre nós, como um Haller, um Blumenbach, um Wrisberg, compreenderam e ensinaram sob o tí- tulo de fisiologia e que podemos chamar de o conhe- cimento empírico da vitalidade. (HAHNEMANN, 1808: 505) 3 O que ensinavam “os mais sábios entre nós”? Albrecht Von Haller (1708–1777), segundo os estu- diosos, foi um estrito defensor do mecanicismo newto-

niano. Para ele, a fisiologia era a ciência do movimento nos corpos vivos, movimentos esses baseados em forças mecânicas. Portanto, a tarefa do fisiologista consistia em explicar as forças

reducionista. Vale dizer, não tentou reduzir a fisiologia à mecânica, mas propôs-se a criar uma mecânica ani- mal específica, cujas leis operariam da mesma forma que as leis físicas, entretanto, não teriam que ser neces- sariamente as mesmas. Nos organismos vivos poderia haver forças que não se encontram na matéria bruta, contudo, operariam mecanicamente igual que as físi- cas. (ROE, 2002: 97) Essas forças não eram próprias da matéria, mas te- riam sido impostas a ela pelo Criador. 4 Igualmente, era impossível se conhecer a natureza íntima das forças do movimento. Estas teses refletem a influência de Newton sobre o pensamento de Haller. Newton explicava que o méto- do correto em ciência consistia na observação e expe- rimentação sem se “imaginar hipóteses”. Isto é precisa- mente o que Haller fez, insistindo na importância de observação e experimentação, ao mesmo tempo em que guardava absoluto silêncio a respeito das eventua-

 

através das quais as formas das coisas recebidas

pelos sentidos são apresentadas à alma; através dos quais os músculos, governados pelas ordens da mente, têm força por sua vez; as forças através das quais o ali- mento é transformado em tantos tipos diferentes de su-

is causas das forças nos seres vivos. Entretanto, elas er- am constatáveis, assim como a gravidade, através de seus efeitos:

para os quais, além do mais, é desnecessário

atribuir causa alguma, assim como nenhuma causa

cos; e através das quais, finalmente, destes líquidos tan- to nossos corpos são preservados, quanto a perda nas gerações humanas é substituída por nova descendên- cia.” (Haller apud ROE, 2002: 96–97) Em síntese, “uma descrição daqueles movimentos através dos quais é ativada a máquina animada”. Fisio- logia é “anatomia animada”. (Ibid.: 97). Embora reconhecesse que

provável da atração ou a gravidade é atribuída à maté-

descoberta através de experi-

mentos, que são evidência suficiente para se demons- trar sua existência.” (Haller apud ROE, 2002: 99) Roe explica que a analogia com a gravidade era comum entre os fisiologistas, mas no caso de Haller, este uso é mais específico, ultrapassando a mera ana-

ria. É uma causa física

na máquina animal há muitas coisas que são

logia: a matéria só possui o princípio passivo de inér- cia, portanto, precisa do acréscimo de forças. Essas

1. “Kraft”, no original. Infelizmente, a tradução de Dudgeon, “power” (DUDGEON: 617) pode sugerir que Hahnemann não utilizava nesta época ainda o conceito de “força”. Esse mal entendido e duplamente esclarecido: neste mesmo artigo, Hahnemann utiliza explici- tamente o termo Lebenskraft - força vital , Cf. p. 640, sendo corretamente traduzido desta vez por Dudgeon (DUDGEON: 618). O fato que Hahnemann afirme uma vez que se trata de uma força “sem nome” e outra vez “força vital”, sugere que este último termo é utiliza- do para se referir, de forma genérica, a uma força característica da vida, diferente das forças constatáveis na matéria bruta, e não para lhe dar um estatuto ontológico definido.

2. Hahnemann editou uma segunda versão do “Espírito da Doutrina”, “Geist der homöpatischen Heil-Lehre”, publicado em 1833 na 3ª parte da Matéria Médica Pura. Neste texto, mantém ambos os termos, “namenlos” e “Lebenskraft”. (HAHNEMANN, 1833: 842-843).

3. No mesmo artigo menciona o arqueu de Van Helmont e a alma corporal de Stahl como produtos da fantasia. Cf. p. 503.

4. Este argumento aparentemente bastaria para qualificar Haller como vitalista: a matéria orgânica seria movida por forças superim- postas a ela. Entretanto, esta tese é, precisamente, o argumento principal do Mecanicismo clássico, tal como formulado pelo próprio Descartes. Margulies & Sagan explicam que o problema fundamental do Mecanicismo sempre foi justificar a origem primeira do movi- mento e que sempre se viu obrigado a recorrer ao Criador ou a outras entidades sobrenaturais. (MARGULIES & SAGAN, 2000: 7-8)

 

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forças, tanto para Newton quanto para Haller, têm origem no Criador. Estas idéias de Haller geraram um ardente debate com Caspar F. Wolff (1734–1794). Este autor serve ain- da como ponte com Blumenbach, como veremos daqui

pouco. Wolff estava firmemente convencido de que a vida não se reduzia a princípios mecânicos. Mas, do outro lado, também não era explicável através da alma, tal co- mo concebida por Georg E. Stahl e o também animista, Robert Whytt. Para explicar os fenômenos vitais, apela

a

 

O

historiador da ciência Robert J. Richards explica

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que, inicialmente, Blumenbach havia concebido a Bil- dungstrieb como agente vital independente, que dotava a matéria de propriedades vitais especiais, uma concepção

similar à de Wolff. Entretanto, mais tarde a reformula co- mo o paralelo orgânico da força de atração de Newton.

 

A

chave é dada por referência explícita de Blumen-

bach à Óptica de Newton, em que escreve: “Portanto

utilizo este termo, atração, para ser universalmente en- tendido como qualquer força pela qual os corpos ten- dem naturalmente uns para outros, sem importar qual

para uma vis essentialis. Ciente de não ter explicado sua natureza, afirma:

“Basta para nós saber que está lá e reconhecê-la a

a

causa atribuída a esta força”. (Newton apud RI-

CHARDS, 2000: 24) Vale dizer, Blumenbach afirma, categoricamente, que a Bildungstrieb é uma força real, existente, com a ressalva de que não podia ser conhecida diretamen- te, nem em suas causas, mas apenas através de seus efeitos: “É propriamente uma força (eigentümliche

Kraft) cuja existência incontestável e seus efeitos ex- tensivos são aparentes na natureza inteira e revelados através da experiência”(Blumenbach apud RI- CHARDS, 2000: 24)

neste contexto 5 – como o próprio Hahnemann

É

partir de seus efeitos

No nome que lhe damos, há ain-

da menos, só devo lembrar vocês que é através desta força que todas as coisas acontecem no corpo vegetati- vo, motivo pelo qual lhe atribuímos vida; com base nis- ”

so chamei-a de força essencial desses corpos

apud ROE, 2002: 114) Anos mais tarde, lançou um concurso patrocinado pela Academia de Ciências de S. Petersburgo, que foi vencido por Johann F. Blumenbach (1752–1840) e Carl F. Born: “Qual é a natureza desta força? Em primeiro lu-

(Wolff

explica – que se deve compreender sua própria concei-

 

gar, é a mesma que a força atrativa universal dos corpos,

tualização da força vital, tal como expressa na 6ª edição do Organon:

e

se não, como difere dela e é exclusiva da substância vi-

va? Se for certo isto último, quais são seus efeitos parti- culares, quais propriedades a distinguem da força atra- tiva universal?” (Wolff apud ROE, 2002: 115) Para Blumenbach, a organização biológica não era devida à ação de uma força sui generis acrescentada à matéria, mas define as forças vitais (já que ele reconhe- cia várias) como um tipo de força newtoniana, especí- fica do mundo biológico:

“Considero supérfluo lembrar a maioria dos leitores de que a palavra Bildungstrieb, como as palavras atra- ção, gravidade, etc., deve servir, nem mais nem menos, que para representar uma força cujo efeito constante é reconhecido através da experiência, mas cuja causa, as- sim como as das forças mencionadas acima e as forças naturais reconhecidas habitualmente, é para nós uma

O serviço prestado pelo estudo de tais

qualitas oculta

“O organismo material, pensado sem força vital, é incapaz de qualquer sensação e função*; só o ser imate- rial que anima o organismo material (o princípio vital,

força vital) lhe confere toda sensação e realiza suas funções vitais. * Está morto e submetido, exclusivamente, ao poder do mundo físico exterior, apodrece e se decompõe em seus componentes químicos.” (HAHNEMANN, 1995: #10) “O que é influência dinâmica? [Fenômenos que percebemos através de nossos sentidos], mas que não percebem de quê modo ocorrem. Sem dúvida, não acontecem através de instrumentos materiais nem dis-

a

posições mecânicas

vemos

ao nosso redor, muitos

outros acontecimentos como resultado do efeito de uma substância sobre outra, sem que possamos reco- nhecer uma relação causa – efeito perceptível. [Exem- plo: o ímã.]” (HAHNEMANN, 1995: nota ao #11) “Sendo, porém, o organismo o instrumento mate-

rial da vida, ele tampouco é concebível sem a animação

forças consiste em que se possa, apenas, determinar mais cuidadosamente seus efeitos e reuni-los sob leis ge- rais.” (Blumenbach apud RICHARDS, 2000: 24) O historiador da ciência Timothy Lenoir reconhece neste texto a linguagem do Scholium Geral dos Principia Mathematica de Newton e conclui que o objetivo de Blu- menbach era fazer pelos corpos orgânicos o que Newton havia feito pela matéria inerte.(LENOIR, 1989: 21)

pela Dynamis instintiva

tanto quanto a força vital sem

o

organismo; portanto, ambos constituem uma unida-

de (Einheit), embora no pensamento separemos esta unidade em dois conceitos a fim de facilitar sua com- preensão.” (HAHNEMANN, 1995: #15)

5.

A hipótese da orientação newtoniana da concepção de Hahnemann já foi comentada por M.A. Bessa (1996: 10).

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a)

Porque foi possível explicar em termos físicos e

O leitor pode se perguntar “Muito interessante, mas para quê é necessário se estudar um debate tão

químicos todos os fenômenos que de acordo com os vi-

talistas “exigiam” fatores desconhecidos e incognoscíveis.

antiquado?”

b)

Porque se rejeitou a versão grosseira do Mecani-

Justamente por ser antiquado. Outros autores já têm ressaltado a permanência de anacronismos no pensamento homeopático. O fato é que, em pleno século XXI, partes do mundo homeopá- tico continuam conceitualizando a autonomia da vida tal como se fazia no século XVIII, indiferentes a todas as mudanças produzidas nos conceitos básicos de ma-

téria, força e energia nos últimos dois séculos. Este é um dos motivos que tornam a homeopatia epistemologica- mente discutível. Como mero exemplo: ouvimos freqüentemente homeopatas falarem que o medicamento homeopáti- co é “energético”, como se a diluição, trituração e su- cussão transformassem a matéria em energia (e ape-

cismo, segundo a qual os animais são meras máquinas. Os biólogos reconhecem que os organismos são di- ferentes da matéria inanimada. Nada há nos processos, funções e atividades dos seres vivos que esteja em con- flito com as leis físicas e químicas nem fora delas. En- tretanto, nos organismos há muitas características que inexistem no mundo dos objetos inanimados. De for-

ma que o aparelho explicativo das ciências físicas é in- suficiente para dar conta de seres vivos complexos. Os fenômenos da vida têm um escopo muito mais amplo que o dos fenômenos relativamente simples com que lidam Física e Química. 6 (MAYR, 2000: 32–76)

la-se para justificar isto à

equação de Einstein!). Se

Qual seria uma abordagem científica autônoma dos processos da vida?

 

A

descoberta da estrutura do DNA em 1953 e o

 

assim fosse, a Homeopatia não teria descoberto ape- nas uma nova forma de medicina, mas forneceria a resposta ao problema das fontes de energia no mun- do contemporâneo. Não mais petróleo, não mais rea- tores nucleares, mas laboratórios homeopáticos. Um interessante jogo, imaginar todas as conseqüências

políticas, sociais e econômicas, etc. se fosse certo que

posterior decifrado do código genético produziram o breakthrough (descoberta chave) na compreensão do caráter semiótico da vida. O código genético é habitu- almente referido como uma linguagem. Explicam Be-

adle & Beadle em seu The Language of Life: An Introduc- tion to the Science of Genetics:

 

o deciframento do código do DNA revelou que

 

a manipulação homeopática é capaz de transformar, de forma tão barata e ecologicamente limpa, a maté- ria em energia. A questão acerca de por que alguns objetos da na- tureza são inanimados enquanto outros são vivos e quais são as características especiais dos organismos vivos, foi colocada desde a Antigüidade. Ao longo da história, perfilaram-se duas tendências básicas a esse respeito: de um lado, aquela que sustentava que essa autonomia não existe, vale dizer, que todos os fenô- menos, tanto os da matéria viva quanto os da bruta, podem ser abordados e conceitualizados da mesma forma, e aquela que defendia a irredutibilidade abso- luta dessa autonomia. Ambas as abordagens coexisti- ram ao longo dos diversos períodos históricos, ora si- multaneamente rivais, ora alternando-se no que diz

respeito à hegemonia.

possuímos uma linguagem muito mais antiga que os hieróglifos, uma linguagem tão antiga quanto a própria vida, uma linguagem que é a linguagem mais viva de

todas, mesmo que suas letras sejam invisíveis e suas pa- lavras estejam profundamente enterradas nas células de nossos corpos.” (apud SEBEOK, 1999: 389) Todos os processos na natureza animada, em qual- quer nível, da célula ao ecossistema, são processos de significação. Isso não implica em negar suas bases físi- cas e químicas, mas apenas em que os processos da vi- da têm uma dinâmica semiótica. (HOFFMEYER, 1997) Receptores celulares, o sistema imune, o sistema nervoso, a integração neuro – endócrina, o sistema ner- voso. Todos estes elementos têm que “interpretar sig- nos”, que podem ser de natureza química, elétrica, tér- mica ou mecânica.

 

O

metabolismo é uma forma de código em que

 

A partir do século XVII, essas linhas tomam a for- ma do debate Mecanicismo – Vitalismo: ou os organis- mos são meras “máquinas” e podem ser explicados através das leis da Física e da Química, ou há processos nos seres vivos que não obedecem às leis da Física e da Química, mas a leis próprias da vida. Para os biólogos contemporâneos, o conflito Meca- nicismo – Vitalismo foi resolvido na metade do século XX, aproximadamente:

uma molécula intracelular específica efetora relaciona acontecimentos intra e extracelulares. É o signo intra- celular de um estado particular do ambiente extracelu- lar. O exemplo paradigmático é o AMPc, que aumenta dentro da célula da maioria dos micro-organismos quando há uma depleção de carbono. Portanto, é ao mesmo tempo um agente químico que conduz infor- mação metabólica e um sinal (representa outra coisa):

6.

Negrito da autora.

 

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age como um mediador numa situação triádica, todo processo triádico de mediação implica em semiose. 7 O biosemiótico Jesper Hoffmeyer explica que há uma diferença entre o conceito matemático e o concei- to semiótico de “informação”. Na matemática, a infor- mação é uma entidade objetivamente existente e men-

surável (bytes, etc.). Aplicada à biologia, essa tese diz que a informação é uma propriedade objetiva de certas moléculas “informacionais” (DNA, RNA, proteínas), vale dizer, a informação está ligada à matéria e é “tran- sportável”. (HOFFMEYER, 1997) Do ponto de vista biológico – semiótico, isto não é assim: a informação biológica é inseparável de seu contexto, e precisa ser interpretada para ser operati- va. 8 E menciona como exemplo, o fato de que não há relação direta entre as mensagens codificadas no DNA

rais”, hipótese que permitiria entre outras coisas, explicar

mecanismo de ação do medicamento homeopático, de

acordo com a lógica dos significados concretos que rege os sistemas de informação. (LAGACHE, 2004: 11) Com diferenças fundamentais, também o pesquisa- dor Jacques Benveniste apontava para a natureza semi- ótica dos processos da vida:

“A vida depende dos sinais trocados entre molécu-

las. Por exemplo, quando você está zangado, a adrenali-

Na Biologia, as palavras “si-

nal molecular” são utilizadas muito amiúde. Mas se

você perguntar até para o mais eminente dos biólogos

na “fala” para seu receptor

o

respeito de qual é natureza física deste sinal, ele pare- cerá nem ter compreendido a questão, e olhará para vo- cê com os olhos bem abertos. De fato, eles se inventa-

ram uma física rigorosamente cartesiana, própria deles,

a

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e

a construção do organismo. O DNA descreve a se-

qüência de aminoácidos do esqueleto da proteína. Mas

tão longe da realidade da física contemporânea quanto ”

A percepção de que o vivo implica em comunicação

possível

(BENVENISTE, 1998)

mesmo antes desse esqueleto se ensamblar, há “proces- sos de edição” realizados pelo RNA que podem mudar

contexto do processo. Além disso, as proteínas têm es- trutura tridimensional, que não é codificada pelo DNA. Também não é codificado o lugar certo que cada prote- ína ocupará na complexa arquitetura celular. E muito menos nem quando nem como se dividem, diferenci- am e migram as células nos tecidos embrionários. (HOFFMEYER, 1997) Ainda segundo Hoffmeyer, a tarefa de uma Biolo- gia unificada é dar conta de como o mundo virou um lugar para os seres humanos: como a vida se originou

o

exprime-se em todas as áreas da ciência e da cultura, as- sim o psicanalista Jacques Lacan enunciou que “o incon- sciente estrutura-se como uma linguagem” (LACAN, 1988: 25) e o historiador da ciência Georges Cangui- lhem, “mensagens, informações, programas, códigos, instruções, decodificações: estes são os novos conceitos nas ciências da vida.” (apud ROSENBAUM, 2000: 135) Inclusive, no pólo epistemologicamente duro da Biologia, o consenso atual afirma a natureza essencial- mente informacional dos processos da vida. Tão aceita

essa tese que o químico biofísico Manfred Eigen dis-

é

 

de um mundo não vivo e evoluiu até o tipo atual de en- tidades vivas de todo nível de complexidade, incluindo

cute aspectos dos processos da transmissão da informa-

o

ser humano. Nesse sentido, a Biologia é o ponto de

ção, sem precisar justificar a tese básica. Reações quími- cas e seleção natural são recursos para gerar, conservar

encontro entre a Física e as Ciências Humanas. Pergun-

ta: “Por que se deve considerar a Biologia parte das Ci- ências Naturais?” E responde: “A Biologia virou uma es- pécie de terra de ninguém entre a Física e a Semiótica.

transmitir informação. (EIGEN, 1997: 19) “Para poder fixar a informação, do ponto de vista

estrutural, classes definidas de símbolos são necessárias,

como as letras de um alfabeto

Além disso, precisamos

e

A

Biologia deve ser enxergada como a ciência da inter-

das conexões entre os símbolos das palavras em forma-

face onde essas duas ciências se encontram.” (HOFFMEYER, 1997) De acordo com a pesquisadora Agnès Lagache, “O ser vivo é uma estrutura informada – informan- te, uma rede de relações entre o interior e seu redor. Conseqüentemente, alguns elementos biológicos não devem ser abordados como coisas materiais, mas como objetos semânticos. Um objeto semântico cumpre as condições de mediação.” (LAGACHE, 2004: 8) Essa é a base utilizada por ela e Madeleine Bastide para construírem o “paradigma dos significados corpo-

ção e as regras de sintaxe que arranjam as palavras cri- ando sentenças. Facilidades para ler as sentenças são ”

também necessárias

Conclui explicando que o mais revolucionário na descoberta da estrutura do DNA é que a interação me- ramente química dos pares de bases permite transcen- der a química, pois as unidades químicas agem essen- cialmente como símbolos de informação. E por se falar na descoberta do DNA, James Wat- son e Francis Crick reconheceram que foi a antecipa- ção de Erwin Schrödinger – acerca de que o cromosso-

(Ibid., p. 19)

7. Relação triádica é aquela em que dois elementos são relacionados por um terceiro. A relação triádica é característica da semiose, na qual sempre há um terceiro elemento, o intérprete, que relaciona o veículo e o conteúdo do signo. (PEIRCE, 2003: 9-18)

8. Negrito da autora.

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mo era uma mensagem escrita em código – que os per- suadiu a abordar essa área de estudos, e sob essa hipó- tese diretriz. (GOULD, 1997: 36) Os biólogos John Maynard Smith e Eörs Szathmáry assumem como fato que a essência da here- ditariedade dos seres vivos consiste na transmissão de informação e, novamente, que essa é a base sine qua non da ação da seleção natural. Tal é sua convicção que afirmam sem qualquer ressalva que: “Se alguma vez en- contrarmos, em qualquer outro lugar da galáxia, seres vivos com uma origem distinta da nossa, poderemos ter certeza de que eles também possuirão hereditarie- dade e uma linguagem que transmite a informação he- reditária.” (SMITH & SZATHMÁRY, 1997: 83) Insiste-se em lembrar que este último grupo de au- tores citados não representam abordagens “alternati- vas” na Biologia, mas, precisamente, a linha hardcore hegemônica.

Chama a atenção a concordância, a este respeito, en- tre autores das linhas mais dissimiles quanto possível, tanto da Biologia hegemônica, radicalmente materialis- ta e darwinista, quanto das abordagens consideradas “al- ternativas”. Tudo indica que esse consenso legitima a concepção do vivo como processo de significação (infor- mação, semiose, comunicação, ou o nome que se queira dar). Essa tese já vem sendo colocada na Homeopatia, na medida em que o vivo implica em produção de signifi- cados e a terapêutica objetiva-se através de processos de ressignificação. (ROSENBAUM, 2004: 5) 9 Vislumbrar- se-ia o caminho da validação da Homeopatia, já não co- mo medicina “alternativa” ou “complementar”, mas fir- memente embasada nas concepções biológicas dominantes no campo científico contemporâneo.

Data de recebimento: 16/01/2005 Data da aprovação: 08/03/2005 Não foi declarado nenhum conflito de interesse.

 

9.

Sob a expressão, “Vitalismo da Palavra”, esta idéia constitui o objeto da pesquisa de doutorado desse autor. Tese de qualificação, FMUSP, dezembro de 2004.

Referências Bibliográficas

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Agradecimentos ao Prof. Dr. Robert J. Richards pela disponibilização de seu artigo, à Dra. Maria Thereza C. G. do Amaral pela revisão do original, e ao Dr. Paulo Rosenbaum por seus comentários e o acesso a sua tese de qualificação.