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Missão Cro-Magnon

O HOMEM É ESSENCIALMENTE BIOLÓGICO


Cientificamente falando, nada comprova, analisando a natureza, que exista um foco
diferenciado sobre o ser humano, que faça dele uma categoria divina ou espiritual. O
que constatamos nas pessoas é que elas são essencialmente biológicas e buscam
interesses próprios e materiais. Precisamos aprender a pensar sobre nós mesmos sem as
fantasias da cultura. O homem é um ser limitado aos padrões da espécie humana. A
posse do raciocínio lógico ou da razão não faz do ser humano uma categoria especial na
natureza. O que deduzimos é que as diferenças entre as espécies são apenas qualidades
diferentes numa lista de qualidades naturais: o pássaro voa, o peixe nada, o homem
raciocina, o morcego é guiado pelo eco do som que emite...
O foco da vida é sobre a própria vida e não sobre o homem. A vida visa a própria
vida. O objetivo da vida é ela mesma. Por mais carinho que uma mãe tenha por seu
filho, o foco da vida não é diretamente sobre aquela criança, mas sobre a espécie. Ela
não é um anjo e nem vai virar um anjo. Ela é um ser humano e não recebe tratamento
especial da natureza. O esforço da natureza é pela sobrevivência indiferenciada de todas
as espécies. O foco da vida é pela espécie e não por um exemplar.

A FÊMEA É A CATEGORIA PRINCIPAL DA ESPÉCIE


Além disso, a categoria principal nas espécies é a fêmea e não o macho, e a fêmea é
um ser potencialmente coletivo. Em se tratando da espécie humana, o ser criado é a
humanidade e não o indivíduo. Na natureza, a vida que importa é a da coletividade e
não a de um exemplar. Em sociedade também. A história de um homem está encadeada
na história da humanidade, mas a história da humanidade não está encadeada na história
de um único homem. Logo, a mulher como ser potencialmente coletivo, é a categoria
principal da espécie humana. O projeto biológico da humanidade é uma mulher.
Geração após geração, os homens e mulheres nascem e morrem. A humanidade,
entretanto, está sempre viva. Do mesmo modo, geração após geração os pardais e as
pardocas nascem e morrem. Mas a “pardanidade” está sempre viva.
O indivíduo não tem outra função na vida a não ser reproduzir, para que a espécie
continue. Razão pela qual na natureza nascem mais fêmeas que machos e nascem mais
pessoas do que morrem. È necessário que existam muitos exemplares para que a espécie
não desapareça.

O OBJETIVO PRIMÁRIO DA VIDA É A REPRODUÇÃO


Assim sendo, podemos reduzir os objetivos do indivíduo a dois itens existenciais:
1) - O primeiro é o “acasalamento” com o intuito de reproduzir e garantir a
sobrevivência da espécie humana. O objetivo coletivo, seu compromisso com a espécie,
e que é o objetivo primário da existência.
2) - O segundo objetivo da existência, que consideramos secundário, é a luta pela
sobrevivência de si mesmo, cuja atividade abre um leque de atividades que chamamos

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de vida social: trabalho, segurança e conforto. Trata-se da vida pessoal. Viver a vida,
desfrutando dos prazeres, já que seus dias de qualquer ser vivo podem terminar a
qualquer momento. Seria preencher o tempo enquanto estamos vivos e desempenhamos
nossa função primária. Embora o objetivo pessoal de um homem seja possuir um carro
último tipo e uma bela conta bancária para seduzir uma boa quantidade de mulheres, o
objetivo principal da natureza é a reprodução da espécie, e não está nem aí para as
fantasias do sujeito. Mesmo assim, na fantasia dele está implícita a fecundação da
mulher.
O homem é mortal. A humanidade é imortal, não como medida de tempo, mas como
continuidade. A sensação de que vamos deixar de ser o que somos e de que vamos
mudar o objetivo da existência, é falsa. Porque nascemos como fruto da reprodução e
toda a nossa existência se afunila no objetivo de reproduzir.
O objetivo secundário da existência é apenas uma conseqüência do objetivo
primário. Mas a lógica de justificar a existência individual como uma função de
manutenção da continuidade da espécie através da procriação, tem a compensação do
prazer de viver para si mesmo.
A imortalidade da espécie humana, no entanto, é uma abstração porque a
imortalidade só existe em função da continuidade da reprodução dos indivíduos. Logo,
concluímos que a reprodução é a própria imortalidade enquanto um fenômeno existente.
E os indivíduos de uma espécie, consequentemente, são os fabricantes da imortalidade
da espécie. Os indivíduos fabricam a imortalidade da humanidade quando se
reproduzem. A reprodução é em si um ato de busca da eternidade.
Por isso as famílias valorizavam o nome, a árvore genealógica, o nome, numa
pretensão de fundamentar-se numa história que representaria um tempo, uma tradição,
uma quase eternidade.

A BUSCA DA ETERNIDADE
Essa sensação de evoluir para algo maior e de alcançar a eternidade, ela existe em
função de que somos realmente algo maior e eterno. Logicamente que estamos falando
da humanidade. Estamos continuamente em contato com algo maior e eterno: a
humanidade.
Todavia nunca alcançamos, fisica e plenamente, essa eternidade. O indivíduo fica
pelo meio do caminho, na história, como se fosse um pneu furado que não serve mais
para rodar e levar a humanidade adiante. Assim acontece com todos os animais das
diferentes espécies que habitam nosso planeta.
A certeza de que a humanidade não morre, deixa na pessoa a sensação de que pode
evoluir para algo maior e eterno, como se fosse uma provocação existencial,
estimulando um vir a ser, que é fantasiado pela imaginação, e produz a teoria de que
podemos alcançar o espírito e nos transformar em divinos.
Podemos sim nos transformar em animais controlados, adaptados, generosos,
dominar a violência natural e desenvolver a inteligência a tal ponto que nos
transformamos em gênios em alguma área do conhecimento, fato que acontece
rotineiramente na sociedade. Mas isto ainda é um alcance humano.
A eternidade não é um espírito e nem vem de um espírito. Ela é a abstração da
humanidade como ser que continuará a existir indefinidamente depois que morrermos.

UNIDADE E MULTIPLICIDADE DA ESPÉCIE HUMANA


A humanidade não é eterna, porque está sempre acabando e se renovando na roda de
nascimentos e morte dos indivíduos. Mas é eterna no movimento da continuidade das
partes. Uma pessoa substitui outra. Aliás, todo corpo compacto é um conceito falso.

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Se, por um lado, a vida do indivíduo é finita para si mesmo. Ela, no entanto, por
outro lado, representa a eternidade da raça. A minha vida que acaba, impulsiona a vida
eterna da humanidade.
Todo e qualquer esforço na sociedade é pela sobrevivência da humanidade e não pela
sobrevivência do indivíduo, visto que sabemos que o indivíduo não vai sobreviver por
muito tempo.
Por isso que a mulher, como micro-humanidade e pessoa potencialmente coletiva,
sempre foi mantida numa cristaleira, num altar, preservada, protegida e diferenciada.
Sabemos que o homem vai acabar mesmo. Ela, a mulher, precisa ser resguardada como
micro-humanidade. Ela é a espécie.
Nosso foco, portanto, quando reforçamos o pacto social e a vida dentro das regras da
lei, visando limitar a violência natural e diminuir a taxa de mortalidade ocasionada pela
criminalidade social; nosso foco é a humanidade e não o cidadão. Embora a lei atinja
todos, o objetivo do pacto social e do direito civil é a segurança da mulher e da
coletividade.
No princípio, o ataque principal sempre foi sobre a sexualidade da mulher, e as leis
nasceram em decorrência disso. Era preciso conter a violência natural sobre a
sexualidade feminina. E surgiram as leis e a sociedade organizada.

A MULHER É UM SER COLETIVO


Na natureza não existe um autor da criação ou uma entidade separada que criou
todas as espécies. Cada espécie é autora de si mesma. Cada espécie é um produto do seu
próprio esforço para chegar aonde chegou.
A mulher é um ser coletivo, o homem é um ser individual. A mulher é eterna, o
homem é mortal. Assim como a família é a micro-sociedade. A mulher é a micro-
humanidade.
De dentro de uma mulher sai toda a humanidade. De dentro de uma mulher sai outra,
e sai outra, e sai outra. Antes de morrer, a mulher sai de dentro de si mesma várias vezes
e continua sobrevivendo naquilo que chamamos de filha. No entanto, aquela pessoa que
saiu de dentro dela não é uma filha, é ela mesma. Os filhos são a mulher que saiu de
dentro dela mesma. Depois ela sai de dentro da filha na forma de netos. Ela nunca
morre. Uma mulher é a mãe, é a avó, é a bisavó e toda uma linhagem, que, se pudesse
ser contada, chegaria lá ao começo da humanidade. A mulher, portanto, é a humanidade.
A eternidade da mulher é física. De dentro do homem não sai nada. Quando chega a
morrer, a mulher já está na terceira geração ou mais. Ela é a filha, é a neta que saiu de
dentro da filha e é a bisneta que saiu de dentro da neta, e assim vai se eternizando. Isto é
a humanidade: a mulher saindo de dentro de si mesma.
A eternidade, portanto, neste caso do universo humano, não é um ato contínuo do
tempo ou do movimento cósmico, mas uma seqüência de continuidade da existência da
mulher ou humanidade. Conclui-se, portanto, neste caso, que a eternidade não se mede
pelo tempo (movimento), mas pela existência da mulher.
Em suma, a fêmea de qualquer espécie é potencialmente um ser coletivo e eterno. A
gatinha antes de morrer sai de dentro dela e vai saindo indefinidamente. Uma mulher é a
própria filha, depois a própria neta, depois, bisneta, etc., e cria uma linhagem de si
mesma.
Assim como todo ponto é o centro do universo, considerando-se a infinitude do
espaço, do mesmo modo toda mulher é a origem e o centro da humanidade,
considerando-se que uma sai de dentro da outra indefinidamente e que qualquer mulher
é o centro de origem da humanidade. Logo, cada mulher é a autora da humanidade e da

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eternidade, pensando-se na eternidade real, que é a humana, e não na suposta eternidade
de uma suposta alma.
Pois o único ser que sobrevive indefinidamente na Terra é a mulher ou a fêmea.
Enquanto a mulher é o fenômeno da materialidade do ser continuo (a eternidade
humana), o homem só existe em função de acasalar para que a mulher engravide e saia
de dentro dela mesma. O grande plano da vida biológica animal é garantir a eternidade
da fêmea.

ATINGINDO A MATURIDADE INTELECTUAL


O ápice da evolução do pensamento alcança-se através da compreensão da espécie e
não do que acontece fora da espécie. As respostas que o ser humano procura estão na
compreensão da espécie a que pertence e não num suposto Deus ou numa suposta
eternidade cósmica.
Questões como eternidade da alma ou do espírito são pensamentos masculinos
inventados para competir com a eternidade humana que a mulher possui e à qual o
homem não tem direito. O que é mortal não evolui para a eternidade. O que é eterno não
se transforma em mortal, nem o que é mortal se transforma em eterno. O ser humano
tenta fugir de si mesmo e inventa que é uma alma.
Enfrentar-se como ser humano e procurar desenvolver-se como ser humano é
questão de maturidade. Fugir de si mesmo para tentar ser uma alma, que não passa de
uma abstração da imaginação, é imaturidade. O indivíduo não é um ser ôco com uma
alma lá dentro. O ponto de partida da engenharia física e psíquica do indivíduo é o ser
humano e o ideal é que todo pensamento sobre si mesmo seja começado a partir do
homem.
O homem é o homem e não uma alma. Mas se existir uma alma, esta é ainda o
homem. Tudo o que acontece no homem é um fenômeno humano. O homem é um
conjunto de órgãos e partes. Não existe espírito, existe o homem. A questão de entender
e ter uma visão do conjunto, é importante.
Na questão de considerar a humanidade como o ser eterno, podemos analisar que o
homem participa da eternidade física da espécie unindo-se a uma mulher, mas não é
essa eternidade. A mulher, por sua vez, é a própria eternidade física e não participa da
vida mortal do homem.
Quando a mulher engravida e sai de dentro de si mesma, desenvolve também uma
cumplicidade psíquica com os filhos. Então ela já não é mais completamente aquela
mulher anterior. Ela se dividiu em duas ou três, conforme a quantidade de filhos que
teve. Torna-se, a seguir, uma abstração para o homem, porque o objetivo dela como
fêmea já foi alcançado. Ela se tornou uma pessoa coletiva, psiquicamente coletiva, e
antes era individual.
Ao passo que o homem continuou como o mesmo homem de antes. Com ele não
aconteceu nada. O homem cuida dos filhotes não por causa dos filhotes, mas por causa
da mulher. A mulher, ao contrário, cuida dos filhotes como se fossem as próprias unhas
e o próprio corpo.