Paris, 20 de Fevereiro 2010 Sobre Artigo: Inês, a deputada “emigrante” de Lisboa Exmo Senhor Humberto Costa Já não sei

se foi na quarta ou na quinta-feira passada que me cruzou nos corredores da Assembleia da República e que, com um ar levemente incomodado, me disse que tinha de escrever sobre o “caso” das minhas viagens. Perguntou-me se eu me importava de falar consigo sobre isso. Não entendi se “tinha” de o fazer por ser um imperativo de consciência ou por estar sujeito a qualquer “pressão” de qualquer força oculta, para usar uma expressão muito em voga na última semana no parlamento. O que sei é que até lhe agradeci que o fizesse pois, e desculpe a linguagem mais prosaica, já estava farta que esta história ou “caso”, como lhe quiser chamar se arrastasse indefinidamente. E expliquei-lhe qual era o famoso “caso”. Pelos vistos não fui suficientemente clara por isso volto a fazê-lo agora aqui e até com mais detalhes circunstanciais. No primeiro dia em que entrei na Assembleia da Republica, não foi para debater no plenário, foi para ir para a bicha juntamente com todos os outros deputados e fazer a “inscrição”. Ou seja preencher uma serie de papéis para mim, absoluta estreante, totalmente abstrusos. Não fosse a paciência e a gentileza dos funcionários da Assembleia penso que ainda lá estaria. Desde logo a questão do meu regresso a casa ao fim de semana se pôs pois é um direito que assiste a todos os deputados segundo o Regimento. Eu não o sabia mas fiquei a saber e a informação que me deram foi muito clara: “Os serviços vão contactá-la.” E assim foi. Ao fim penso que de um mês, durante o qual fui a casa pelos meus próprios meios, os serviços contactaram-me, disseram-me que as minhas viagens ficariam a cargo da Assembleia da Republica e indicaramme o nome das agências pelas quais deveria obrigatoriamente passar. E assim passou a ser. Não houve portanto nenhum pedido especial da minha parte. Como sabe certamente, até o refere no seu artigo, tanto os vencimentos como as ajudas de custos dos deputados não dependem de uma qualquer negociação individual, - eu não assinei nenhum contrato com o Sr. Presidente da Assembleia da Republica - mas dependem exclusivamente da lei. Depois de eu lhe explicar tudo isto, falou-me na possibilidade de eu ter dado uma morada errada quando preenchi os formulários de candidatura a deputada. Para que não restassem dúvidas sobre esse assunto pedi-lhe que me acompanhasse ao meu gabinete, imprimi-lhe uma cópia do dossier de

candidatura, que tinha digitalizado, e entreguei-lhe em mão. Por três vezes nesses documentos está claramente escrito que a minha residência é Paris. Qual não é pois o meu espanto quando ao comprar hoje o Expresso , leio num artigo assinado por si esta extraordinária frase, que passo a citar: “Só que a parlamentar residindo efectivamente na capital francesa deu como morada a que consta do seu bilhete de identidade (…) Lisboa”. Dei? Onde? Quando? Pois nas suas mãos estão todos os papeis que entreguei na altura e dizem exactamente o oposto, e no meu bilhete de Identidade também está claramente escrito que a minha residência é em França. Sr. Costa, que nome daria a alguém, e neste caso especifico a um jornalista, que tem entre as mãos documentos oficiais e que escreve exactamente o oposto do que lá está? E já agora porque “teve” de faltar tão escandalosamente à verdade que conhecia. Foi também um imperativo da sua consciência? Tal como também lhe disse e mostrei, o único documento que de facto ainda tem uma morada em Lisboa é o cartão de eleitor. Crime ou falta sem dúvida muito grave que me vou apressar a corrigir. Se ainda não o fiz foi, tal como lhe disse e tal como o escreve, por razões sentimentais. Por gostar de votar em Santa Catarina. Mas perante a hombridade do seu texto pode um deputado ter motivos sentimentais? A perturbação que causa o facto de eu residir em Paris e partilhar a minha vida entre a capital francesa e Lisboa nos jornais e, a ter fé no seu texto, até entre bancadas parlamentares é tanto mais surpreendente para mim que, para o bem ou para o mal, eu já era uma figura pública antes de ser deputada e sempre o disse claramente. Se bem me recordo até foi essa uma das razões que levou o Professor Vital Moreira a convidar-me para ser sua mandatária nacional nas passadas eleições europeias. Penso que não houve uma única entrevista ou comício durante a campanha eleitoral em que eu não o referisse. Após uma semana a debater na comissão de Ética, da qual não sou coordenadora (aproveito para corrigir outro leve erro presente no seu jornal mas desta vez não assinado por si), o exercício da liberdade de expressão em Portugal e ouvir o rol de putativas vitimas que por lá passou, só me resta concluir que eu devo ter uma vida de uma miserável banalidade. Desde que cheguei ao parlamento não há semana em que não surja uma notícia mais ou menos insinuante sobre mim mas apenas referindo evidências de todos conhecidos. Nem todas apareceram no seu jornal mas já agora passo enumerá-las para lhe poupar trabalho para próximas edições e aproveito para responder directamente: Sim, tenho a família em Paris.

Sim, fui programadora/curadora de uma mostra de cinema português e fui apresentar o projecto aos patrocinadores entre os quais a PT. Sim, tal como consta na minha declaração de interesses, faço entrevistas há mais de um ano para a belíssima revista “Relance”, infelizmente de pouca tiragem, dirigida pela mulher do Rui Pedro Soares que conheci nessa altura. Sim entreguei a minha declaração Constitucional a tempo e horas de rendimentos ao Tribunal

Sim, tenha a morada da minha infância no meu cartão de eleitor. Não, não tenho ajudas de custo especiais e absurdas como corre pela internet. O pouco que tenho a justificar quase me envergonha mas se quiser posso dizer-lhe o meu grupo sanguíneo, o nome dos meus sogros, parte menos conhecida da família, as maternidades francesas em que tive os meus filhos, etc… Se me permitir não lhe direi como correram os partos, a menos que a lei em breve o exija.

Não sei se este texto corresponde aos requisitos legais de um direito de resposta. Mando-lhe a si, ao seu director e aos directores adjuntos. Farão dele o que entenderem ou o que os imperativos de consciência lhes permitir fazer. Quero no entanto deixar muito claro que este email se dirige a si e não a toda a classe jornalística. Desculpe dizer-lhe, Sr. Costa, que não tenho nenhuma vontade de o cumprimentar e que por isso não o faço.

Inês de Medeiros

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