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Elmano d’Argus

Acúrsio

Évora, 1992
ACÚRSIO.

Diálogo entre
um astrólogo,
um discípulo,
um doido com certificado
e um alveitar e etólogo.
PARTE PRIMEIRA.

O meu amigo e indispensável mestre Damião nunca


me aparece só. Companheiros seleccionados com todo o
esmero do seu critério lúcido, todavia um tanto anacrónico,
são atraídos para a sua órbita prosélita mas liberal e tornam
sempre inesquecível e surpreendente o encontro fortuito.
Um ambiente conspirativo de solidariedade distinta
e sábia adensa-se sempre à sua roda, o que faz com que os
papalvos se afastem e a polícia finja que não vê, conquanto
desconfie.
Numa tarde amena de fins de Março, com o
vermelho sanguíneo a invadir a abóbada, passeava eu em
meditação junto a uma bica refrescante no bosque do palácio
do Venturoso, tentando localizar no arvoredo o pio
dilacerante de qualquer pássaro ferido ou nostálgico e na
memória a referência breve de um mitógrafo à sensibilidade
acústica de Édipo já cego, quando me surpreendeu um
murmurejar.

- Já te disse que um cavalo louco é para mim um


paradoxo, enquanto não qualificares com rigor aquele que o
não é. Posso imaginar um cavalo absolutamente inapto para
ser montado mesmo pelo melhor dos equitadores, que
todavia espera dele um comportamento que prefigurou. Um,
até, que insiste em puxar uma carroça fincado na retaguarda,
ou em mover uma nora tomando o vector contrário à posição
do seu eixo.
Eis então um cavalo incapaz de harmonizar a sua
conduta com a expectativa de um homem que nele
reconheceu uma presumida aptidão natural para satisfazer
um capricho. A não ser pelo chicote, jamais convencerás um
cavalo de que do seu esforço tractor e do seu suor há de,
irremediavelmente, decorrer que o teu cântaro se encha ou o
ardor da tua sede se apague.
Terias ainda que me propor uma nomenclatura para
a sua loucura; um cavalo esquizofrénico, um cavalo com um
complexo... para cavalo louco, basta um alveitar aplicado a
florear a sua condição com modernices.

- Ora, meu velho Damião, só porque te ufanas do


teu capote guadanho de sarrubeco, hei eu de ter preconceitos
contra tudo o que te cheire a vento fresco e cabeça arejada?
Olha aqui para o nosso Aníbal, não dizes, como todos, que é
doudo? Dize-lo porque esperas dele uma conduta.

- Ouve lá então, meu doce e ingénuo Acúrsio, não


digo que o Aníbal seja doudo, senão que, uma vez que existe
psicologia e ideia de normalidade, ele é louco e uma vez que
o é, anseias tu por ser psiquiatra nem que seja de um cavalo.
Mas eu não o sou, antes paraPsicólogo e Astrólogo.

- Não decifrara ainda, se não fosse teu amigo e te


conhecesse as manhas, qual o sentido das tuas arremetidas
contra a psicologia.

- Nada confere sentido às minhas arremetidas,


senão que sou paraPsicólogo.
A minha crítica à psicologia orienta-se para dois
campos, que tive que tratar de distinguir para não confundir
o meu próprio pensamento e discurso.
Trata-se de, em primeiro lugar, identificar com
precisão as práticas sociais do psicólogo, que são o que lhe
confere estatuto e poder. O psicólogo assumiu cada cidadão
como paciente clínico efectivo, pelo que pode exercer sobre
todos uma vigilância quotidiana.
Domina o sistema de ensino, porque controlou a
forma e através dela os conteúdos da transmissão da cultura
e da reprodução ideológica da sociedade, ao identificar
pedagogia com psicologia. Vigia de forma envolvente a
prática pedagógica do professor e estabelece os critérios da
normalidade para o seu exercício. Através de uma vigilância
apertada sobre os adolescentes e jovens nas escolas, fiscaliza
ainda o exercício da paternidade e intromete-se na intriga
das relações familiares.
Domina o sistema repressivo do estado, porque
substituíu o juiz no diagnóstico do crime e na sua avaliação.
Conseguiu de tal forma confundir o acto com o contexto,
social ou psíquico, que todo o processo criminal é já
simultânea e predominantemente um processo clínico. É o
psicólogo que dita os critérios da construção da intriga que
dá sentido à narrativa de um caso criminal.
Vigia a sexualidade e a afectividade dos cidadãos
para lhes formar a consciência individual e colectiva,
constitui os novos tabus e abate os que possam atrapalhar a
sua intromissão. No exercício desta prática é o nó axial de
toda a produção normativa e fabrica os paradigmas para os
comportamentos.
Interessa-me depois a disciplina, o seu estatuto, os
seus critérios e o seu objecto. Como já terás adivinhado,
penso que foi na determinação do objecto que se constituíu,
reconhecida a aptidão e legitimidade para as práticas e o
poder que conferem, o sujeito.
E finalmente, na fronteira liminar entre estes dois
campos, interessa-me reconhecer que as práticas, na sua
rigorosa coerência, decorrem da ignorância. A maior parte
dos psicólogos nem chega a reconhecer, ao nível de uma
consciência clara, o poder que a sua prática lhes confere.
Domina um elenco elementar de técnicas, inculcadas como
se foram o decurso irremediável de um axioma, e nem sabe,
nem quer ser apto para interrogar os fundamentos da sua
sabedoria, como um cabo de esquadra que nem imagina a
ideia de moralidade pública que subjaz às normas que tem
que fazer cumprir.
Ainda há uns dias pude verificar que uma notável
psicóloga, com créditos ainda no foro da psiquiatria, minha
amiga nem sei a qual propósito, não sabia que Édipo cegara
para espiar a anormalidade da sua conduta, nem imaginava o
que disso decorre para a configuração do pensamento de
Freud enquanto retransmissor do mito. E um outro, que
participava quase mudo no diálogo, deu-me a ideia de pensar
que o velho rei helénico fora paciente do sábio vienense.

- Ainda voltaremos a esse assunto, mas insisto em


que me respondas. Assentemos em que não existe a loucura
entre os cavalos, mulas, jericos e outras azêmolas. E homens
doudos?

- Já te disse que os doudos são o objecto fictício da


psicologia, psiquiatria e outras bruxarias, como os cavalos
loucos a razão de um alveitar deixar de tratar da esgana e
passar a uma condição mais especulativa.
Nem me interessa que existam ou não doudos, pois
ninguém me encarregou de atribuír um sentido à existência.
Interessa-me que, se o conceito de doudo não pudesse ser
extenso através de uma qualquer ficção a todo o género
humano, a psicologia, tal como te a enunciei, não teria
objecto. Como tal, ninguém se proporia para sujeito.

Senti-me na obrigação de aparecer, a simular


surpresa e embaraço. Fi-lo tropeçando com ênfase cénica na
raíz emergente de um cedro mal plantado e cumprimentei
esfuziante ao meu velho mestre e à sua companhia.

- Este é o Acúrsio, alveitar com afeição pela


etologia e já nem sabe ferrar uma besta e este o Aníbal,
doudo com certificado, assistência e público fixo na Praça
do Giraldo. Este é o Elmano d’Argus, que pelo nome se vê
ser homem instruído mas discreto e não faz nada de notório.
Apresentou o Damião com gestos frugais e fala
atabalhoada, como se interrompera um negócio inadiável.
Passadas as manifestações sempre parcimoniosas de
Damião, sinceramente empenhado em denunciar com
cortesia um certo bem estar por me reencontrar, foi o doudo
o que mais se interessou por mim.

- Pois o caríssimo amigo intrometeu-se e suspendeu


um colóquio paradoxal mas profícuo. Tratavam estes dois de
saber se a minha doudice reside em mim, ou foi constituída
pelos psicólogos e psiquiatras para se ocuparem de qualquer
coisa concreta. Para dar sentido a esta disputa, havia que
saber se o cavalo do Acúrsio enlouquecera para que o dono
tivesse uma justificação, melhor do que a ignorância, para
lhe não tratar da esgana.

- Pensaríamos que o entendimento que um doudo


tem daquilo que ouve ou que vê houvera de distinguir-se
irremediavelmente do de qualquer outro. Quem tivera da
loucura uma tal ideia preconcebida, Damião, pudera até
incorrer em corroborar a ideia paradoxal de um cavalo
desaparafusado. Ora, devo confessar que segui atentamente
o desenrolar do fio sinuoso do vosso colóquio, emboscado
entre as árvores e inibido, não fosse surpreender alguma
confidência. E só porque constatei que a matéria era
puramente especulativa, resolvi mostrar-me e intrometer-me,
pois como sabes a psicologia reclama-me toda a curiosidade
e tem sido o motivo de muitos amuos e intrigas entre nós.

- Ora muito bem, mas especulativa é que a matéria


não é. Eu tenho um cavalo que ensandeceu e nós os três um
sócio que, pelo menos, não é bom da cabeça.

- Talvez eu seja mesmo doudo e já nem soubera ser


outra cousa, mas tu achas que eu o sou pelas mesmas razões
que o pensas do teu cavalo. Quiseras que andasse à tua roda
a ladear, a botar passo de piafé e a fazer geometrias e
piruetas de picadeiro. - Atalhou o Aníbal, com a razão bem
couraçada pela argumentação do Astrólogo.

- Estava pois emboscado e em posição de poder


escutar com mais serenidade do que vós o colóquio que o
nosso astrólogo enovelara nos seus ardis. Pareceu-me
evidente que do beco estreito para onde o Damião o arrastara
jamais sairia, porque ele tinha ditado os axiomas e vós
próprios o concluiríeis em seu proveito.
O desejo de contrariar ao meu mestre trouxe-me em
vosso auxílio e com o vosso concurso haveremos de o trazer
a terreiros mais iluminados, para que o Aníbal possa
serenamente cumprir a sua doudice e tu, Acúrsio, aplicares-
te com diligência às manias do teu equídeo liberto de
preconceitos e dúvidas especulativas. Insisto em que,
admitindo todavia que o teu cavalo possa ser maluco, o
assunto em si, de que tratavam, é absolutamente
especulativo.
Ouve, Damião, não poderia qualquer um pensar que
discorres de cabeça para baixo, quando queres negar a
loucura e os doudos só porque negaste a psicologia?
Admitamos que a psicologia é tal e qual como a retrataste e
que, por ser assim, os doudos que concebe existem por ela e
só para ela.
Seria, porventura, legítimo concluír daí que os
doudos não possam existir, para lá e quiçá com outra
natureza daqueles que a psicologia identificou e qualificou?

- De forma nenhuma. Existem tantos universos de


doudos, quantas as ideias de normalidade que quiseres
enunciar e o que pretendo é que o Aníbal, uma vez que deva
ser considerado louco, possa serenamente cumprir com toda
a liberdade a sua doudice e cada um de nós a sua condição
de atilado, prudente ou qualquer outra coisa com que queiras
qualificar a tua vontade de parecer igual a tantos outros.
Tudo o que sabes da dialética de Platão e da lógica de
Aristóteles fui eu quem te o ensinou e o método dedutivo
que te parece poder levar à luz mergulhar-te-á nas trevas.
Porque eu não te digo que os doudos existam ou
não, nem me interessa, pois me aplico a constatar que dizem
que existem e que este o é e aquele não. E importa-me saber
quem o diz e que ideia tem de um doudo e de que critérios
usa para o qualificar.
Se me perguntares se existe Deus, eu dir-te-ei que
sou um daqueles que pensa que pode existir. Mas proponho-
te que te preocupes com as condutas que podem decorrer de
alguns pensarem que existe, não apenas Deus, mas um dado
Deus e rigorosamente qualificado. Para esses, todo o que não
crer na Sua e naquela existência ficará discriminado na
condição de ateu, que ainda há tempos era, enquanto
possessão demoníaca, uma forma de loucura expurgável pelo
fogo. Porque a maioria, conquanto não cresse, submetia-se,
em toda a extensão da sua sociabilidade, à Sua existência.

- Então, para ti, a loucura vale exclusivamente


como disciplina do foro da sociologia. Uma espécie de
sociologia da maioria e das minorias. A loucura não é nada
em si, senão uma relação entre naturezas diferentes? -
atalhei eu, para o obrigar a ser mais preciso.

- Quase que disseras o que já devera ter dito. Não


apenas uma relação, mas uma relação de poder.E já te disse
que a loucura para mim não é nem deixa de ser nada. A
psicologia é que é uma relação de poder.
Uma coisa é a psicologia, outra a doudice.

- Mas o Aníbal é doudo ou não?

- Basta que tu o digas, para que o seja. De quem se


pode dizer que é doudo? Disseram-no de Sócrates; imagina
tu os que reputas de doudos, que constituem já por si um
universo nebuloso e difuso em que não identificas qualquer
ordem se houveres de identificar uma natureza em que
comumguem. Mistura na canasta o Joaquim de Fiore, São
Francisco porventura, Miguel Ângelo e Bosch, Napoleão,
Nietsche, Hitler e Salvador Dali. De qualquer um destes
alguém disse que foi doudo.
Diz-me agora, o que é a doudice?
Eu digo-te, para que mastigues e daqui a pouco me
possas interpelar de novo, que doudo é uma forma de dizer.
E psicologia uma forma e razão de agir.

- Antes mastigara, com muito melhor proveito, um


naco bem aviado desse paio com esplêndido aspecto que não
tiveste a cortesia ainda de me propor. De certo que o seu
forte paladar nos trará para esferas mais chãs do
pensamento, por forma a que o discurso não se distancie
irremediavelmente da necessidade, real e não imaginária, de
o Acúrsio adestrar ou corrigir o seu cavalo. É que me parece
ser este o único sentido profícuo de tão anacrónica disputa.
Quanto ao axioma que acabas de enunciar, está
mais que deglutido e recordo-te algumas ideias de Bergson,
em cuja hermenêutica exaustiva quiseste sintetizar grande
parte dos ensinamentos que me ministraste e aos meus
companheiros, tendo ainda em conta um hermético conceito
que tanto te deleita, o de indizível.
A linguagem transmite ordens ou avisos. Prescreve
e descreve. No primeiro dos casos, trata-se de chamar à
acção imediata e no segundo de assinalar a coisa ou alguma
das suas propriedades, tendo em vista uma acção futura.
Dizia Bergson e qualquer comentador adiantava que a
linguagem só distingue na medida em que as suas distinções
implicam a realização de actos diferentes. De modo que o
recorte da realidade pelas palavras reflectiria apenas as
categorias da acção humana.
O prosseguimento desta ideia, agora no sentido que
lhe atribuímos pois não és nada que se pareça com um
bergsoniano, associando ao conceito de indizível os de uno e
de doudo, levar-me-ia a concluír que dizendo doudo não me
proponho senão agir sobre um qualquer com quem, sendo
outro, uno e por tal indizível, não pudera sequer comunicar.
Haveria, todavia, de te apelar para que,
paradoxalmente, o meio nuclear da acção do psiquiatra é o
coloquiar com o doudo, o que parece indicar que, conquanto
num horizonte remoto, o universo do dizível de um e o
indizível de outro podem dialogar.

- O sentido exacto da psicanálise, tal como se


exerce hoje e como distorção grosseira das propostas de
Freud, é de facto esse. Mas o que Freud dizia era, em última
análise, que a doudice não era dizível e que o doudo quando
monologava usava, ainda que pudesse recorrer a signos
comuns, de sentidos e significados incomunicáveis, os quais
ele, psicanalista, só podia tentar descodificar - não sei se
devera dizer codificar ou recodificar - com recurso à
mimesis e ao mythos. Na nomenclatura que propunha para as
doudices, Freud introduziu o termo complexos para indicar
que se tratava de aproximações a universos todavia
indizíveis, consciente do seu etnocentrismo.
Freud compreendera que o que dava sentido à
doudice, como pressuposto para a acção prescritiva ou
normativa, integradora ou repressora, ou meramente
cognoscível no horizonte do dizível, era a eventualidade de
ser narrada mesmo sob a forma complexa do mito, que era a
melhor forma de se dizer.
A aproximação de Freud ao universo indizível dos
doudos era mediatizada pelos próprios pacientes, pois eles
próprios eram quem enunciava e transportava para o
universo do dizível as suas doudices. Está, conceptualmente,
o colóquio excluído da psicanálise e o doudo comunicando a
sua doudice, mesmo sob a forma cifrada do mito, transporta-
a para o universo do dizível, quero dizer que a esconjura no
que tem de mais substancial, no indizível. Deixa de ser
doudo, porque se transportou para o universo do dizível.
Para indicar que a psicanálise se representa como um acto
demiúrgico, que estabelece a comunicação entre o dizível ou
as possibilidades do dizer e o indizível, o doudo é
hipnotizado como que em referência à catarse dos mistérios
antigos.
O que te quero dizer é que um doudo, em si, é
inacessível à psicologia.
Mas devo advertir-te de que Freud, conquanto
homem eloquente, cultíssimo e de astúcia sublime, enunciou
doudo ainda do ponto de vista daqueles que não reconhecem
a uma coisa o direito de existir tal como é, alheia à vontade
de alguns a dizerem como deve ser ou importa que seja. E
este é o ponto de vista da psicologia, enquanto disciplina que
presume um objecto para se envolver numa acção
determinada.
Concluindo, não me importa que os doudos existam
ou não, mas que a psicologia diz doudo para se propor um
conjunto de práticas que, elas próprias, fazem presumir um
sujeito e um objecto.

- E não seria a altura de distinguir agora, para que


possas ser mais rigoroso, entre psicologia, psiquiatria e
psicanálise?

- Nenhum rigor adviria dessa distinção, depois do


que te disse. O acto fundador de qualquer das três, mesmo
que as concebas distintas, é dizer doudo. A acção que daí
advém pode representar-se como uma ciência e sistema de
conhecimento e procura, ou como uma prática clínica, ou
experimental e consequentemente nomear-se de psicologia,
psiquiatria, ou psicanálise. As distinções de contexto entre
estas três representações não importam ao assunto que tenho
tentado ordenar, tão só a reclamarei quando tiver que passar
a distinguir as configurações explícitas da prática
psicológica. E então, importar-me-á distinguir sobretudo a
neurologia.

- Deixemos pois a neurologia que ainda me há de


interessar. Como há o Acúrsio, maravilhado todavia com as
montanhas de saber a que apelaste para levar esta disputa ao
terreiro que te é próprio, de fazer pleno uso de um cavalo
que é seu e o não serve?

- Uma vez que não nos é dado, por razões sobre as


quais não conto discorrer, recensear as queixas que o animal
de certo formularia contra o nosso alveitar, que alegue o
Acúrsio as razões do seu desencanto.

- Imagina tu um cavalo da melhor estirpe lusitana,


herdeiro, na graça dos movimentos e padrão das proporções,
daqueles que as lendas reputavam de filhos próprios do
vento Favónio, que no Promontário da Lua galopava entre os
penhascos em perseguição do odor acridoce das éguas com
cio. O peito erguido e largo, sublime a curvatura do pescoço
e da cabeça, soberbo e meticuloso nas posturas, são-lhe
naturais os passos e piruetas que em outros anos de trabalho
árduo no picadeiro não conseguem realizar. Não seriam tais
os centauros?
Este cavalo foi alvo de um adestramento esmerado
e de uma educação rigorosa. Preparado para o toureio e a
cortesia, aliou a um temperamento intrépito e corajoso, mas
sereno, a delicadeza todavia viril do sedutor e a astúcia do
que se habituou a escutar a respiração de uma praça inteira
suspensa de um passo, de um arremesso ou de uma finta.

- Esse cavalo, Acúrsio, mais parece uma pessoa. E a


própria referência ao antropomorfismo dos centauros me
indica que se manifesta nele um desvio patente ao padrão
que espero confirmar quando penso numa azêmola apta a
servir a humildade e o quotidiano do meu amigo alveitar.
Manifestou-se-me, de súbito, que talvez não o teu
cavalo mas tu tenhas perdido o sentido harmonioso da vida e
andes alucinado, representando-te quiçá como um rei ou o
próprio Alexandre emergindo das brumas da memória.
Acaso não se passou que esperaste que o teu cavalo
desatasse a falar, a fazer contas e a tocar piano?

- Não. Passou-se que ele próprio dá indícios de


poder desatar a fazer tudo isso.
Um dia dei-me conta de que ninguém já conseguia
montá-lo e era eu quem rodopiava à sua roda como se me
exibira num picadeiro. Por vezes convenço-me de que me
quer botar os arreios ao espinhaço e meter-me o freio aos
dentes. Fica especado à minha frente, nervoso, a bater os
cascos no lajedo, a escabecear de narinas dilatadas e orelhas
cozidas às crinas e a assoprar-me para cima, os beiços
arregaçados a mostrar a dentadura fina e empurra-me para as
baias da cocheira.
Basta que me encontre a ler o jornal ou algum dos
teus almanaques, para que se me finque na rectaguarda a
espreitar as letras, com ar meditabundo por vezes e outras de
escárnio, como se me reputara de analfabeto. Amua quando
insisto em impor-lhe a vontade ou lhe nego um obséquio,
sempre atento às disposições do meu humor, que quer cortês
e reverente. Ainda anteontem atirou com um par de coices
no cachorro que se esquecera de ladrar e abanar a cauda à
sua passagem.
Não consente em ver-me arrimado à mulher e aos
filhos, que logo vem intrometer o cachaço de permeio, com
o nervoso miudinho a ranger-lhe nos dentes. Por vezes
ameaça morder.
Trabalho, nem vê-lo, passa pelas carroças com
desdém e nem uma cesta com ovos lhe posso botar aos
costados.
Passeia-se com ar melancólico ao sol pôr, com os
movimentos cadenciados, o pescoço a balançar e o relincho
timbrado e melódico, como se recitara um soneto ou uma
ode. E disto não passa.

- Continuo, Acúrsio, a pensar que me é difícil


distinguir, na tua bem composta exposição, entre aquilo que
é o resultado de um registo objectivo e o que possa ser a
representação que tu próprio edificaste do teu cavalo.
Consigo imaginar, com rigor, as indicações que o bicho te dá
da sua indisposição para o trabalho que lhe impões, mas
como não quero imaginar sequer um cavalo com inclinações
poéticas, não atino de que condutas ou atitudes inferes que o
zoilo do bicho possa desatar a recitar uns vilancetes.
Mas diz-me se a estranha conduta do teu amigo se
manifestou repentinamente, de um momento para o outro,
sem que nada fizesse presumir qualquer alteração eminente
dos seus humores.

- Agora e porque me perguntas, me recordo das


condições quase fabulosas em que me ocorreu que o animal
se preparava para ensandecer. Mas antes de iniciar uma
narrativa que decerto te surpreenderá e talvez te obrigue a
arredar alguns preconceitos com que partiste para esta
disputa, faço-te uma proposta.
Não seria prudente, caso o nosso amigo nos
quisesse dar a honra de provarmos a nossa hospitalidade,
irmo-nos chegando ao deserto de onde partimos porque a
viagem é longa e acidentada? Pelo caminho, que a lua cheia
e exultante nos alumiará, esgotaremos o assunto desta
contenda. E quando chegarmos a nossas casas, na calma
repousante do Maranhão, decerto inventaremos tema e razão
para qualquer outra, que nos propicie o ambiente para uma
lauta ceia. O amigo Elmano fica já por meu convidado e
revesar-se-á entre a arreata e o cómodo costado da minha
azêmola.

- Seja, então.
Disse lacónico o Damião e passámos a dispor os
aprestos para a odisseia, quando o horizonte se começava a
tomar de um verde cristalino apenas raiado de um vermelho
breve, que anunciava o estertor do crepúsculo e a súbita
ocorrência das trevas. O fulgor estonteante da lua em
plenitude insinuava-se então a Oriente e inundava de
reflexos prateados e fogos fátuos bem uma metade da
abóbada.
Bem montados em duas soberbas mulas de estampa,
arreadas com sobriedade mas conforto, o velho Damião e o
Acúrsio distinguiam-se do doudo, que cavalgava
descontraído e satisfeito um jerico de aspecto renitente e
bacoco, que levava como adereços um chapéu de palha e
uma manta de cores garridas a servir de assento. Para o
dirigir, uma vez que nem lhe botara uma cabeçada a enfeitar
as orelhas, o tonto dava-lhe ordens lacónicas mas incisivas,
sem contudo parecer fazer questão de ser obedecido. De
resto, o desejo do asno de usufruír do cómodo da palha
macia na cocheira aliviava ao alienado da responsabilidade
de lhe transmitir qualquer direcção.

- Conjunção mais sublime de destinos e vontades


seria porventura imaginável? Puderas tu, Acúrsio,
harmonizar-te tão absolutamente com o teu corcel, como se
a mútua posição relativa fora configurada desde a criação.

Sussurrou o Damião, como se quisera concluír a


primeira parte da disputa e traçar o rumo e confinar o tema
para a segunda.
PARTE SEGUNDA.

- Antes que nos deleites com a novela fantástica que


anunciaste, peço-vos que ouçais, ainda que vos mace, uma
história verídica que atesto com o meu testemunho e que,
esta sim, me fez vacilar durante muito tempo nas minhas
convicções.

Conhecia de há muito esta manha do Damião.


Quando se enxergava no horizonte difuso destas nossas
disputas qualquer desfecho, conquanto lhe não interessasse,
rebuscava com diligência na memória prodigiosa e sempre
encontrava uma história paradoxal com que lançava o
assunto no caos inicial.
O astrólogo fez uma pausa matreira, a espiar do
lombo sobranceiro da mula a disposição dos circunstantes,
inspirou deleitado o ar que a lua tingira de um azul metálico
e esfumado, pigarreou e continuou.

- Tive há muitos anos um amigo muito chegado,


companheiro de estudos e diatribes, sereno e rigoroso como
um juiz mas sábio e vivo como um poeta, que um dia, sem
mais aviso, ensandeceu. Cheguei a convencer-me, para não
admitir uma evidência dolorosa, que todos houveram
ensandecido à sua volta e que não tinha mais que procurar a
profunda razão da sua diferença. Mas foi na exaustão da
procura que tive que concluir o que era inevitável, o meu
amigo ensandecera.
Tudo aconteceu de rompante, quando numa noite
gélida e luarenta de Janeiro me bateu ao ferrolho, entrou
conspirativo e agitado com as mãos tremulentas e os olhos
febris e se sentou ao borralho a remexer as cinzas, para me
sussurrar que tinha morto um homem. Nem mais nem menos
do que o próprio pai, que falecera uma boa dúzia de anos
antes mirrado por um cancro pulmonar.
Tanto se mostrava nervosíssimo e conturbado, que
não pude inverter no momento o estado do seu espírito.
Consenti em admitir a confissão e confortei-o, com a
expressão de cumplicidade que pensei própria a provocar
qualquer confidência que iluminasse a minha perplexidade.
Ora, foi por isso que me condenei.
A partir de então, não era mais o cúmplice de um
homicídio, senão de uma loucura. E da complicada intriga
que a alucinada mente do meu amigo enovelaria até ao
absurdo, porque, de súbito, todos os que privavam com ele
estavam envolvidos, como peças de um jogo, numa história
rocambolesca mas construída com um sentido rigoroso de
verosimilhança.
No essencial, o fio condutor da história era este:
Desde que o seu pai morrera, que o meu amigo
vinha a registar o progressivo estado de alucinação da sua
mãe, uma mulher pálida e vulnerável, reservada mas afável,
em quem todos veneravam a humildade e o espírito de
imolação. Na opinião do filho, recusara-se a crer na morte
do companheiro, que encerrara secretamente no seu quarto e
vigiava nervosamente, pois soubera, por qualquer revelação,
que alguém que nunca nomeara o decidira assassinar.
Agravara-se progressivamente o próprio estado de
decrepitude física da santa mulher, trancada agora em casa e
espreitando por entre as cortinas surradas, desgrenhada e
reduzida ao esqueleto. E atingido o limite de uma tolerância
tenaz, o meu amigo decidiu confrontá-la, por qualquer meio,
com os factos consumados.
Entrou um dia em casa decidido a invadir a
intimidade do quarto conjugal e forçar a mãe a reconhecer o
seu estado alucinatório. Acossada pela eminência da
verdade, a velha defendeu a cidadela da sua fantasia com
todos os meios que pôde opor à determinação do filho. E
esgotados todos os outros, revelou-lhe com toda a crueza de
uma verdade inesperada, que aquele que venerara durante
tantos anos como um santo e terno pai não o era; e que
tivesse por certo que todo o seu terror decorria da certeza de
que ele haveria de matar ao seu padrasto.
Abandonou a casa materna e todos os vizinhos,
parentes e amigos se consumiram com ele na tristeza e no
afã para o confortar. Uma secreta conspiração policial
organizou-se à sua roda e todos vigiavam o estado e a
conduta da velha, tentando por um lado controlar os
acontecimentos, por outro enxergar uma pista que
iluminasse o mistério da paternidade do meu amigo. Ele
próprio ia reforçando a vigilância de todos, com as
conjecturas que, dia após dia, emaranhavam os fios do
novelo.

De súbito, o astrólogo que abria a comitiva parou,


desmontou com movimentos ritmados e lentos e o olhar
suspenso na paisagem inebriante, que a sombra
rigorosamente marcada dos sobros e azinheiras, a formarem
um bosque esparso mas quase geométrico, tornavam num
espectáculo ora grotesco, ora mágico, e caminhou meio
absorto para um poço emboscado entre silvados. Sentou-se
no bordo e enrolou um cigarro.
Os outros dois imitaram-no e eu, que caminhava à
arreata da mula do alveitar, prendi as montadas a uma
oliveira e fui também disfrutar o repouso da contemplação.

- A história que tens vindo a contar e que de forma


nenhuma julgo rocambolesca, mas manhosa, levou-me de
súbito a imaginar que, conquanto evites sempre dizê-lo,
pensas como todos os outros que sou doudo.

O tom de convicção firme mas cautelosa com que o


doudo interrompeu o silêncio sepulcral, só perturbado pelo
bater ritmado dos maxilares das alimárias que mordiam
alguma erva húmida, soou como a voz cavernosa de um
oráculo inesperado e todos, involuntariamente, nos
sobressaltámos. O Damião, de sobrolho carregado, ficou
estático, hesitante a olhar o doudo surpreendido, como um
lince que não sabe se deve atacar, ou vai ser atacado.

- Em verdade, Aníbal, tiveras que falar tu para me


surpreenderes e me deixares sem resposta. Por que razão, tu
próprio que pareces tão firme na convicção de que és doudo
houveras de esperar que eu te tivesse por atilado?

- Ele não o esperou, mas, de toda a tua conduta e


discurso, eu próprio inferira que a razão de ser desta disputa
não a devia identificar no meu cavalo, mas na tua vontade,
ou mania, de contemplar um génio onde todos julgam um
tolo. Disputavas comigo sobre um cavalo, para nos impores
e a ti próprio o doudo como semelhante.

Atalhou o alveitar para aliviar a pressão sobre o


Aníbal.

- Disputava contigo sobre um cavalo, para te impor


e a mim um cavalo como semelhante. A ideia, todavia
arguta conquanto o não entendas, de que o teu cavalo se
assemelhava, na sua conduta, cada vez mais a ti próprio foi
tua. O que te quero dizer é que, quando tentamos qualificar
um doudo ou um tolo, que são universos inqualificáveis,
operamos por semelhança. Identificamos a sua conduta com
todas aquelas que em nós próprios em cada momento
inibimos, ou pelo menos ocultamos. Nem desejaras tu outra
coisa do que inverter a tua posição com o teu cavalo, tal
como o representas. Tens uma espécie de complexo de
centauro.

O genial remate do astrólogo teve a magia de


descomprimir o ambiente, rimo-nos todos e rebolámos com
toda a liberdade pelo prado banhado pelo luar, a que a
proximidade do poço dera alento e mantinha viçoso. A
sensação de bem estar e repouso foi tão inebriante que nos
decidimos por passar a noite mesmo ali, embrulhados nas
mantas ao redor de uma fogueira crepitante que o doudo era
mestre em acender e acalentar. O céu pleno era agora
rasgado de quando em quando por uma estrela corredora,
que o atravessava fulminante e célere com o ruído subtil da
abrasão, como se alguém acendera um fósforo. E a própria
lua parecia imobilizada e estática no zénite, como se nos
vigiara a consciência.

- Leve eu, então, a minha história ao seu termo,


para que o Acúrsio nos possa deleitar com a sua, pois, quer
queirais quer não, o estado fantástico do seu cavalo é o tema
nuclear deste colóquio. E tu, Aníbal, descansa e mantém-te
bem atento, que ainda me pronunciarei de forma cristalina
sobre a tua condição. Porque notei sem que o esperasse que
tens em maior conta do que pensaras a minha opinião. Quem
imaginara um doudo tão nostálgico na sua solidão, tão
desejoso de participar enfim do universo da infelicidade dos
atilados e responsáveis? Ou de que eles participassem no
seu?
O homem é sempre um ser gregário e sociável e o
doudo um homem votado ao ostracismo, para que a sua
solidão não se comunique.
Abandonara então o meu amigo a casa materna e
deambulava nervoso e conspirativo pelas redondezas,
buscando conforto para o seu infortúnio e uma pista que
fizesse luz sobre o mistério da sua paternidade.
E uma velha alcoviteira e injuriosa, que todavia
sempre o desmentiu, convenceu-o de que um esbelto prior
da vila próxima seduzira na juventude a sua mãe e da união
consumada ele era o fruto. O velho padrasto recolhera-a por
piedade e certa concuspicência e acabara por se lhe dedicar
com empenho terno e porventura apaixonado. Do safado do
sacerdote não havia rasto, expulso da diocese, acumuladas
reincidências várias.
Entre os mais idosos todos se apressaram a jurar
testemunho em confirmação, convictos de dar alguma trégua
à consciência atormentada do infeliz.
Consumada pela solidão e pela desconfiança que
lhe rondava a casa, reduzida a uma carcaça curvada e
periclitante, a santa mulher apareceu uma manhã morta, com
o rosto a transbordar serenidade e ternura. E foi na noite
posterior ao seu funeral que o meu amigo me irrompeu em
casa a confessar o homicídio.

- Não enxergo, até ao momento, porque razão essa


história é diferente de tantas outras que se contam todos os
dias. Senão que adivinho que com ela queres provar, agora,
que eu sou doudo. Mas diz-me qual dos pais, afinal, o teu
amigo pretendia ter morto?

- Já te disse que, a seu tempo, saberás se provo ou


não que tu és tonto. O pai que o meu amigo confessava ter
assassinado era o único, naturalmente, aquele que quisera
que todos tomassem por padrasto.

- Mas se ele já morrera, havia tanto tempo?...

- É aí que o assunto se complica, porque ele vinha


agora confessar tudo ter inventado, mesmo a revelação da
velha alcoviteira. Pusera, num acesso de cólera que não
conseguia justificar, termo à vida do seu pai haviam doze
anos e mantivera a velha mãe isolada na sua reputação de
alucinada e senil, para proteger o seu segredo.
Tão grande era o afecto de que gozava entre as
gentes na proximidade, que ninguém lhe aceitou a confissão
e fingiam, no entanto, a maior credulidade para não o
contrariar, em abono das difíceis provações por que passara.
Não fosse de qualquer modo e porventura a lebre
levantar-se e alguém aparecer a querer inculpá-lo e
condená-lo, todos nos redobrámos em esforços e diligências
para entrar na pista do velho cura, que confirmasse a
história.
De súbito estávamos tão envolvidos na nova intriga,
como estivéramos na anterior. E numa posição ambígua,
umas vezes crendo fervorosamente e outras hesitando na sua
confissão, ele próprio lançava na atmosfera as conjecturas
que nos impunham o sentido e direcção das averiguações e
nos despistavam.

- Insisto em que essa história, pese todavia o


esforço que fazes para a complicar, é igual a todas as outras
que se contam por aí. Com a ressalva de que nunca vi tanto
parvo junto, de uma assentada.

- Não tenho outro objectivo.

- Como? Estás então a mangar comnosco.

- Nem penses. Quem qualificarias de doudo no


meio desta trapalhada toda?

- Para ser rigorosamente justo, não qualifico


nenhum de doudo, senão quem a conta.

- Ora fora isso mesmo o que eu pensara. E diz-me a


quem qualificas de louco na história que o Acúrsio contava
sobre o seu cavalo e se preparava agora, redobrado no
esforço, para complicar conquanto e enquanto o
consentíssemos? Não direi já que é quem a conta, senão
quem a ouve.

- E contaste-nos tu uma história tão longa e


engenhosa, simplesmente para que nos reconheçamos como
três papalvos pasmados com uma história tonta?

- Não, Aníbal. Contei-a porque me apraz, tanto


quanto ao Acúrsio, contar histórias. Ela é tonta,
rigorosamente, porque esperáveis que o não fosse. Quero
dizer que é tonta porque não é a que esperáveis para intervir
nesta disputa e aclarar o seu sentido.

- Queres-nos dizer que podemos esquecer a tua


história e retomar a nossa disputa sobre a tontice?

- Não. Quero-te dizer que, conquanto não tenha em


nada contribuído para alumiar a nossa disputa, não podes
retomá-la esquecendo-te de que eu contei esta história. E de
que o Acúrsio contou a do seu cavalo.

- Ora, essa é ainda a maior das charadas.

- Imagina que tanto eu como o Acúrsio fomos os


mais loucos das histórias que contámos e que tanto como
nós, só vós que as ouvístes. Parece-me que o louco que
procurávamos, fosse cavalo ou um amigo, residia fora e não
dentro de cada uma das histórias.
Agora imagina um psiquiatra confortavelmente
sentado numa poltrona, sem outra ocupação momentânea
que não seja ouvir uma história, que o paciente, deitado no
divã, sem outra ocupação que não seja contá-la, enovela
sempre que desconfia que o clínico intenta decifrá-la. O
psiquiatra tenta reconhecer algures um louco e uma loucura
e o louco, porventura consciente do seu estado, revelar uma
loucura que o médico não enxerga. Um e outro parecem
convencidos de que uma história basta para revelar uma
loucura, todavia qualquer um sabe que uma história se basta
como história.
Não dirias então que a loucura não reside senão na
relação de expectativa que se intrometeu entre os dois e é
exterior à história?
Tão pouco me interessa que o cavalo do Acúrsio
esteja senil ou decrépito, nostálgico e apaixonado ou
simplesmente doudo, ou que ele próprio sofra de um
complexo de centauro. Interessa-me que os quatro
disputamos há umas horas sobre a loucura, apenas motivados
por uma história, cheia de magia porventura e de poesia,
mas tão tonta como os seus dois protagonistas. Eu devo
confessar que o fiz, só porque julguei poder surpreender, não
a loucura do animal, mas um estado alucinado, embora
poético, no Acúrsio. Por fora da sua história e tanto que ele a
complicava, eu construía a minha que muito mais me
satisfazia.
E tu próprio, Aníbal, no cruzamento destas duas
histórias, tentavas decifrar o julgamento definitivo que viria
a fazer ou já fizera sobre o teu estado e condição psíquica.
Segundo o que fizesse, tu próprio me julgarias.
Agora recorda-te de que já disse há pouco que
doudo é uma forma de dizer. E junta-lhe que é uma forma de
ouvir, passando a ser uma relação entre ouvir e dizer.
Só que é uma relação que se mantém exterior a
tudo o que foi dito e a tudo o que se ouviu. Porque nada do
que foi dito se ouviu, nem o que se ouviu foi dito.
Só então alguém pode dizer, este é doudo. Porque
tem o poder para decidir o que foi dito e o que se ouviu.
E eu digo-te que isto é a loucura.
E não podes dizer mais que não sabes se eu penso,
ou não, que és doudo.
Bem arrimado a um penhasco que despontava na
planura, como que para assinalar o poço, e me
proporcionava um abrigo confortável contra a brisa em
rodopio que, com o adiantado da noite, começara a correr a
campina para dar à noite luarenta um ar de bruxedo mais
verosímil, notei que a minha consciência se afastava
progressivamente do círculo dos meus companheiros. As
vozes soavam longínquas, como se a própria aragem as
trouxera dos confins do horizonte, ainda que o fio do
colóquio não se rompesse.
Pareceu-me de súbito, como me ocorrera durante
muitas outras disputas com o Damião quando frequentara o
seu magistério, que as três personagens houveram saído dos
lastros mais profundos do tempo e pareciam coevas de toda
a gente ilustre que povoava os milénios da minha memória
cultural.
Ora aí estava um tema que pudera ter organizado
uma disputa de Platão ou de Sócrates com os Eleatas,
retransmitida, a propósito de qualquer instituição oratória
por Aulo Gélio, que a remetia para o contexto de um serão
hospitaleiro e despreocupado de Cícero atacado de um
achaque de tédio ou nostalgia. E que ainda, a propósito de
Sócrates, dos Eleatas, de Cícero e de Aulo Gélio servira de
pretexto a uma troca epistolar entre Marsilio, Lourenço Vala
e Pico de Mirandola.
Hesitei entre adormecer ou contribuir para que o
paradoxo se aproximasse do zénite e espicaçar o Damião
para provar a sua aptidão para, torneando todos os esforços
de quem quer que fosse para arrimar uma disputa a coisas
concretas e verosímeis, se firmar num contexto de tal forma
especulativo e desligado das formas concretas de vida da
galáxia, que só ele acompanhava já o discurso do seu
raciocínio. Resolvi contradizê-lo.

- Conseguiste, Damião, discorrer sobre a loucura, os


doudos, a psicologia e as histórias, como se cada uma destas
coisas fossem números, quero dizer sinais a que tu podes dar
o valor e o sentido que entenderes e ainda inverteres e
operares como quiseres, somando ou multiplicando,
subtraindo ou dividindo, porque são seres da tua consciência
e da tua vontade. E porque não dizem respeito a nada de
concreto, podes tomá-los como termos ou factores das
operações com que quiseres provar o brilho da tua
intelegência para lhes dar o destino que te apraz.
E todavia quando dizes que doudo é uma forma de
dizer e queres reconhecer o doudo naquilo que ele diz ou
não diz, ou no que se diz ou não diz dele, o que estás a
omitir é que o doudo não é só palavra mas acto.
E quero que fales nos doudos e na psicologia como
referindo práticas específicas e actos concretos, que
permitem ao senso comum identificar os doudos e
reconhecer na psicologia um meio eficaz para a sociedade
conviver e se relacionar com a loucura. E que tenhas em
conta que ela não nos serve necessariamente para tratar dos
doudos e determinar as causas primeiras e últimas da ou de
uma loucura ou a forma concreta como se configura, mas
também para ordenar o relacionamento entre os sãos.
Quero enfim que nos fales não nos doudos que
decidiste que não existem, mas naqueles com que todos os
comuns tropeçam no quotidiano e tu, porventura por
liberalidade ou desejo de contrariar o que já há muito
identificas como uma alucinação da cultura dominante pelo
concreto, sempre acoitaste no círculo prosélito da tua cultura
anacrónica.

- A minha cultura anacrónica?

- Ora, Damião, sabes bem ao que me refiro. Quero


dizer que cultivas géneros e frequentas leituras, discursos,
temas e assuntos que para a maioria não têm simplesmente
contexto no mundo em que vivemos. E todos sabemos que o
fazes como meio radical de crítica e rejeição da cultura
dominante, por pensares que assim evitas que toda a cultura
e pensamento redunde no objecto e salvas do afogamento o
sujeito. Todos sabemos que o teu programa de vida é fazeres
e dizeres tudo o que os outros não fazem nem dizem, como
alguém que quer violar todos os tabus culturais.
Se há alguém que rejeitou radicalmente o
modernismo e vive para denunciar as ficções que os
modernos introduziram no objecto para lhe conferir a
verosimilhança do rigor, és tu. O que quero, por isso, é ver-
te refutar o concreto, não que o iludas para te recolheres no
sujeito e na consciência.

- Finalmente dás a este colóquio um destino


profícuo, porque denunciaste rigorosamente a minha manha.
E no entanto pedes-me algo que até agora me parecera
paradoxal, porque sempre quis denunciar e rejeitar o
concreto e o objecto dos modernos rigorosamente iludindo-o
e provando a mim próprio que a sua verosimilhança só
resistia enquanto não pudesse ser iludida. Porque era
ilusório, podia iludi-lo. E agora impões-me que o tome como
um dado irrefutável e que mesmo assim posso iludir, o que
quer dizer que, sendo irrefutável, posso todavia ordenar a
minha conduta e o meu pensamento como se o sujeito o
pudesse iludir.
Não te exprimiste, nem tinhas que te exprimir com
rigor, mas é isto que me pedes, pois não me podes pedir que
refute o irrefutável.
Só posso então iludir o irrefutável ou refutar o
ilusório. Até aqui tenho-me conduzido como se refutasse o
ilusório, conquanto o não fizesse senão mediatamente e
provando que o podia iludir. Agora vou tomar o objecto por
irrefutável e continuar a iludi-lo, para provar afinal que ele
em si não constitui um obstáculo a que a consciência e o
sujeito se determinem a si próprios.
E isso não é mais, nota-o bem, do que aquilo que tu
próprio, enquanto depósito do senso comum, qualificas de
loucura.
O que farei então é a exibição e o elogio da loucura.

- Ora, Damião, não faças isso apenas. Pelo menos


fala-nos das coisas que existem, não apenas das que te
interessa que existam.

- O que te vou provar de seguida, meu caro amigo,


é que, sendo embora irrefutável que há doudos, tenho
todavia que me comportar como se os não houvesse ou como
se ignorasse que existem. Porque no momento exacto em
que decida que existem passo a refutá-los, por incapacidade
de os qualificar. E porque no próprio processo de
qualificação não faço senão negar a possibilidade da sua
existência, ou porque cada qualificação que procuro atribuir-
lhes não lhes cabe em rigor, ou porque não tenho meios de o
demonstrar, ou porque qualquer qualificação que caiba aos
doudos pode caber também aos que o não são.
É irrefutável que há doudos, apenas enquanto a
minha consciência não me exigir que o refute. Ora, nota bem
que decorre daqui, não que não existam doudos, mas tão só
que é irrefutável que existem enquanto ninguém decidir que
pode refutar todas as possibilidades de existirem.

- Basta, Damião. Isso é uma charada ainda mais


escolástica do que todas as outras.

- Já te disse, vezes sem conto, que não sou


escolástico. Sou o que sou e comporto-me em face da
evidência com a liberdade daquele que a tem que registar e
pode todavia refutar.
O que conferia no passado legitimidade a que se
reconhecesse que havia doudos e às condutas que a
sociedade determinava para conviver, integrar e se proteger
da loucura era a evidência, que nem importava questionar,
de que os doudos existiam. Não era necessário que algum
filósofo ou sábio os qualificasse, porque a própria sociedade
se encarregava de os remeter para a sua condição, usando aí
de critérios discricionários mas que decorriam de
mecanismos de intuição inquestionáveis, porque se bastavam
a si próprios.
Incapaz ou mesmo pouco interessada em conferir
significado às condutas e discurso dos doudos, todavia
reconhecendo no seu universo um hermetismo que não podia
senão sacralizar, desenvencilhou-se de atropelos filosóficos
conferindo à loucura a natureza de todos os transcendentais.
Foi esta atitude que tornou o doudo apto a adivinhar e o
consagrou como oráculo, com a legitimidade para dizer
todas as verdades, mesmo contrárias à fé e às ficções da
maioria.
Nada se podia dizer sobre os doudos, senão que
eram os que a sociedade reconhecera como tal e portanto
aptos a se investirem em todas as condutas socialmente
inadmissíveis.
Foi esta a ordem e o paradigma que os modernos
subverteram, quando tomaram o doudo como objecto
passível de todas as operações a que sujeitavam todos os
objectos, a observação, a experiência e a reprodução das
condições de observação, a demonstração, a quantificação
enfim.
A evidência subverteu-se em ficção, não porque
deixasse de haver doudos, mas porque a entidade que os
sábios construiam, observavam, demonstravam e mediam
era uma ficção que não reconhecia, na sua simplicidade, a
evidência.
Esta ciência, que intentara desde o início curar aos
doudos porque se representava como uma medicina, incapaz
de registar grandes avanços sequer na identificação do seu
objecto, reestruturou-se em vista a observar, demonstrar e
medir as condutas dos sãos e orientou-se para operar com
eles e sobre eles.
Já pudeste observar, creio, que a psicologia, mesmo
que se exiba como psiquiatria, há muito que optou pelos sãos
e não trata dos doudos senão por acidente. E julga enxergar a
doudice e identificá-la, nos estados patológicos dos sãos. E
ainda quando cura aos sãos, fá-lo por acidente.
Porque a psicologia é, sobretudo, uma ciência
normativa que dita os critérios da normalidade. Não diz
doudo senão para agir sobre os sãos e representar o
paradigma da normalidade.

- Tento compreender e acompanhar o que dizes,


embora me pareça um dogma como qualquer outro. Mas,
afinal, o que propões?

- Proponho-te que sejas lúcido e não te preocupes


muito com os doudos, se existem ou não e porquê. Porque
sempre existiram sem que ninguém tivesse que questionar a
evidência e, porventura, assumiram na sociedade um papel
esconjuratório insubstituível.
Preocupa-te então com os que te ditam os critérios
da normalidade, porque a eles também pouco interessam os
doudos, senão para te impor a eventualidade de cada um de
nós, eu ou tu e todos, o podermos ser. E, portanto, ser o
objecto da sua acção terapêutica ou integradora.
Proponho-te que tomes os doudos como evidência
irrefutável, sem que por isso mais imponhas à tua
consciência senão criticar a ideia de normalidade e de doudo
que a psicologia te quer propor, para te impor uma conduta
normativa e, quiçá, a acção terapêutica.
Porque eu não refuto o doudo, que é uma evidência
irrefutável. Refuto o doudo como objecto da psicologia,
porque como demonstrável não consigo senão refutá-lo.
- Ah! Essa já é uma calçada mais sólida para
caminhar para qualquer sítio. Então o Aníbal é, pela
evidência irrefutável, um doudo?

O meu velho Mestre, dando já sinais de claudicar,


levantou-se e ficou à contra-luz a esperguiçar-se, com a lua
em declínio sobre o horizonte mesmo por detrás das suas
costas. Passou a mão pela testa levantando o cabelo em
desalinho e foi encolher-se junto ao doudo, que ressonava
pesadamente com a boca aberta e um ar estupidificado mas
sereno, tanto quanto o crepúsculo lunar cuja luz tépida
acariciava agora as copas atarracadas das árvores, para
adormecer os pássaros nocturnos.

- Não vês que é? E daí? Obriga-te a tua consciência


a dizeres que é doudo? Não te esqueças de que, se o dizes,
pode-te obrigar a consciência a ultrapassar, pela acção que
possa decorrer do acto de dizer, a mera evidência.
Ninguém precisou de dizê-lo para que ele o fosse. E
ele próprio disse-o hoje e interrogou-me porque nós lhe
fizémos notar a importância de dizer. E pode ocorrer que
tenhamos subvertido a sua e a nossa consciência.

- O teu mal, Damião, é que não sabes distinguir


entre sabedoria e impertinência. Por vezes chego a pensar
que não sabes nada, senão que contrarias tudo.

- O que queres dizer é que orientei toda a minha


sabedoria para contrariar todas as ideias comuns. Pode-te
parecer, concedo-te, que não sei nada. No fundo, sei aquilo
que sei e do que sei faço o que quero, não o que o saber me
impõe ou devera impor. Não posso nem sei demonstrar nada,
porque me interessa demonstrar que todas as coisas e
princípios são refutáveis, tanto mais quanto evidentes. Só
quando posso refutar uma coisa, posso reconhecer que existe
pela simples razão de ser evidente e por isso indemonstrável,
porque todo o demonstrável exclui o evidente.

- Não, Damião, não retrocedas no caminho que


trilhávamos, agora que começáramos a enxergar uma luz ao
fundo, no horizonte. Sei que é irreprimível, para ti, falares e
discorreres sobre ti, mas proponho-te que não abandonemos
o tema de que tratávamos. Mas antes de tudo tenho que te
perguntar se já imaginaste que alguém, ou muitos podem
pensar que és doudo.

Damião não respondeu nem deu sinais de vir a


responder. Levantou-se de novo com movimentos lentos,
deu alguns passos trôpegos para junto do lume pois
começava a arrefecer, remexeu as cinzas para avivar a
chama e largou um bocejo profundo e ruidoso que assustou a
bicharada. Alguns pássaros acomodaram-se no seu poiso e
um mocho velho que permanecera imóvel durante as últimas
horas, atento e compenetrado como se escutasse a nossa
arenga, volteou durante momentos à roda de Damião, como
se o repreendesse com pios lancinantes.
De seguida, o velho estirou-se junto do doudo com
os braços em cruz, como um palhaço imita uma morte súbita
e adormeceu profundamente, com a respiração cadenciada e
serena de quem vive em paz consigo próprio.
PARTE TERCEIRA

O diálogo ficou interrompido quando parecia poder


desenvolver-se num sentido, embora mais paradoxal, capaz
de obrigar o Damião a revelar aspectos surpreendentes da
sua personalidade.
Como era de esperar, no dia seguinte e na
tranquilidade contagiante do Maranhão, perdemo-nos a
gozar com a plenitude dos sentidos a proximidade do imenso
ror de água da lagoa e de noite, silenciosamente
estupefactos, venerámos a lua que se namorava espelhada
nas profundidades entre as cintilações dos pequenos
cardumes.
O alveitar ocupava-se da cozinha e o doudo espiava
com ar grave, despeitado e céptico todas as atitudes do
astrólogo, como se esperara subitamente surpreender um
gesto ou uma expressão velada que confirmasse algumas das
suas suspeitas.
Só na segunda noite, quando saboreávamos
deleitados alguns peixes que o Acúrsio cozinhara
soberbamente, rebentou uma pequena tempestade soprada
dos lados da instabilidade emocional que se insinuava na
expressão martirizada do Aníbal. O Damião levantara-se
para sacudir algumas migalhas do regaço e desculpou-se
porque a brisa as dispersara sobre a mesa. Nenhum de nós
ouviu bem o que ele disse literalmente, ou pelo menos não
lhe demos a atenção devida para que o fixássemos na
memória. Mas tenho a certeza que não se referiu nem ao
doudo, nem a qualquer cavalo.

- Já esperava que não pudesses concluir, depois de


assediado pela argumentação falaciosa do teu palavroso
amigo no diálogo que prosseguiram os dois depois de nós
adormecermos, senão que eu e o cavalo do Acúrsio somos
doudos.

Um naco imenso de pão que acabava de meter à


boca, ainda por mastigar, escorregou-me pelas mucosas da
garganta e ficou bloqueado mesmo à entrada do esófago,
como se fora uma rolha comprimindo o ar. Dei um grito
lancinante de dor, que tornou o momento mais
desconcertante.

- Raios, Aníbal, mas que bicho te mordeu agora? A


que propósito vem a tua mente verrinosa perturbar a nossa
digestão com um coice tão inesperado?
O desabafo do astrólogo, ainda que desusadamente
violento, parecia sincero.

- Todos ouvimos o que disseste.

- Mas eu não disse nada, senão que me desculpei de


vos ter importunado com as minhas migalhas.

- Eu ouvi exactamente o que murmuraste entre


dentes. "Pior que um cavalo doudo, ou um doudo doudo, só
um velho tonto e desajeitado."

- Ora, Aníbal, eu não disse nada disso. Tu é que me


ouviste dizer algo com que, já há um dia, ansiavas
presentear-me.

- Pois. Eu sou doudo e já te ouço dizer cousas que


tu nem sequer imaginaste...

- Raios! Eu nunca disse que tu não és doudo! És


doudo e não é pouco. E nem nunca tu imaginaste que não
eras, senão que agora te começa a incomodar a ideia de
enfermares do mesmo que o cavalo do Acúrsio.
Só quis dizer que o cavalo do Acúrsio não é doudo,
é cavalo. Doudo é o Acúrsio.

- Ainda ontem negavas a psicologia e hoje já te dá


para desatares a chamar doudos a todos os que te rodeiam.

- Eu não neguei a psicologia, porque não costumo


negar as cousas que existem. Nem neguei os doudos. Neguei
que exista alguma relação entre a psicologia e os doudos, ou,
pelo menos, a relação que se espera.
- E quem és tu para negar tudo aquilo que convém
aos outros que exista tal como crêem que existe? Acaso te
importuna muito que a psicologia se relacione com os
doudos?

Na sua ingenuidade cruel, o doudo lançara o repto


para o desenvolvimento da disputa e traçara-lhe um novo
caminho. Mas o Damião era linear na sua intenção.

- Incomoda-me porque sou paraPsicólogo.

- E que quer isso dizer?

- Quer dizer que acredito na vida, tal como é, com


doudos, sem que seja necessário fingirmos que devera ser de
outro modo. E todavia que possamos acreditar que devemos
mudar o nosso destino e o das coisas, conquanto saibamos
que qualquer destino satisfatório é um programa de
pensamento e de crítica e o digamos de forma explícita. A
minha maneira e razão de ser paraPsicólogo é realizar a
utopia à minha volta. Da minha utopia fazem parte os
doudos, mas não os psicólogos.
E quando digo utopia, quero dizer que conservo a
minha liberdade de pensar que as coisas não são
irremediavelmente como os modernos as construíram. As
coisas existem, tal como eu, e no meu trato com uma coisa
traçamo-nos mutuamente o destino. De seguida os
psicólogos, após medirem, dissecarem, quantificarem e
reproduzirem a nossa relação, dir-me-ão e a ti também se foi
normal segundo os critérios normativos que se impuseram a
si próprios para ajuizarem.
Quando te digo que sou paraPsicólogo, quero-te
dizer que conspiro com a vida e com as coisas contra os
juízos deles.
É por isso que eu te digo que és doudo. E os
psicólogos que nos digam porquê ou como e nós lhes
diremos que então não és.
Como vês, reclamo-te como doudo para poder
disputar que não o és.

- Façamos então, Damião, essa experiência. Se o


Aníbal é doudo, deve-o ser em confirmação das
qualificações que os psicólogos atribuíram aos doudos. Só
por desejo de disputar contigo, caber-me-á o papel de o
demonstrar.

Desafiei o astrólogo, sabendo à partida que a


disputa se enovelaria mais ainda para não atingir o seu fim
aparente.
Ele reflectiu um momento, sem que se pudesse
adivinhar se aceitaria o repto, para acabar por confirmar a
minha suspeição.

- Mas antes disso, meu caro Elmano, deixa-me


propor-te um assunto que verdadeiramente me interessa,
quiçá mais do que todos os outros. Já em 1614, quando
Rodrigo de Castro, sobre quem se têm dito inúmeras
asneiras, publicou em Hamburgo um livro sempre mal
avaliado, Medicus Politicus, introduziu na árida retórica
latina dois esquivos mas prespicazes capítulos sobre a
simulação da loucura. É claro que a loucura, neste sentido,
interessava-lhe como instituição de mendicidade e de outros
comportamentos e atitudes marginais e ao sábio médico
competia conferir à medicina legitimidade para denunciar e
distinguir a falsa loucura. Capítulos antes, discorrera sobre a
falsa virgindade das mulheres. Não imaginas o que me
ocorre, quando penso que a loucura possa ser tratada com o
mesmo estatuto da virgindade das mulheres.
A virgindade, a falsa virgindade e a confirmação
clínica da sua perca como vestígio quer da violação, quer da
consumação do matrimómnio, são peças fundamentais de
qualquer intriga ou conspiração satisfatoriamente construída.
Não foi raro na história que tivessem contribuído para a
perca de reis e ruína de dinastias.
Não é difícil a qualquer mortal pronunciar-se sobre
a virgindade de uma mulher e confirmá-la, não sendo
necessário mais do que reconhecer sintomas físicos ou
comportamentais evidentes. O que te quero dizer é que a
virgindade é tanto uma evidência quanto a loucura.
Mas desperta-me a curiosidade o facto de que a
legitimidade para confirmar socialmente essas evidências
possa dotar alguns de um poder insuspeitado.
O que te quero manifestar com estas observações é
que, digas o que disseres, estou mais atento a este horizonte
do problema do que a qualquer outro. Dito isto, o que
faremos de seguida não será mais do que um exercício de
retórica. Tu, meu amigo, é que és anacrónico.

- O que acabas de anunciar já o insinuaste várias


vezes e de diversos modos no decurso do nosso colóquio,
sem todavia lograres que eu desista de tentar que discorras
sobre coisas que interessam aos comuns mortais. Por mais
subtil e por mais sábia que seja essa associação da simulação
da loucura à simulação da virgindade, o que é verdade é que
trazes a terreiro um assunto novo, não sei a que propósito.
Ninguém se referira até agora à simulação da loucura. Não
sei o que mais inventarás, para não disputares sobre o que
nos interessa.
O que é para ti a loucura, uma vez que, antes
mesmo de enunciares o que é a loucura para os psicólogos,
anunciaste já que o não é para ti?
E o que devera ser a psicologia, já que parece teres
dela uma ideia contrária à dos demais?
- E voltas tu a questionar-me sobre coisas que me
não dizem respeito, para me reclamares que decida como
hão-de ou devem ser.
Já te disse que me não interessa o que há-de ou
deva ser a psicologia porque não sou nem quero ser
psicólogo. Limito-me a verificar que existe e de um certo
modo e não serei eu que lhe determinarei que seja outra
coisa, pois nem sei bem o que seria, nem lhe imporia que
deixasse de ser o que é para ser outra coisa, ou a mesma de
outro modo.
Quanto aos doudos, apenas te digo que não sei o
que sejam, nem me interessa, pois basta-me distinguir que o
são. E isso também tu, ou qualquer o distingue.
Ao que me recuso, para me distinguir de ti e dos
psicólogos, é a agir para com os doudos e sobre eles de uma
forma pré determinada que me possa socialmente distinguir
como são e se constitua como paradigma de sanidade, ou de
normalidade.
Mas para que não vás por aí dizer que me recuso a
disputar sobre as coisas que te interessam, ou que sou
lunático e falo sobre tudo sem o enunciar previamente,
passaremos em revista os critérios de que a psicologia usa
para qualificar os doudos e propor a normalidade aos sãos. E
para fundamentar muitas outras práticas, sociais e
disciplinares.
Faremos ainda a história e o percurso das ideias
luminosas de que a psicologia decorre, para sabermos
porque veio a ser como é e não de outra forma.

- Sabia, Damião, que em última análise não és tão


cabeçudo como pareces e podes ser inesperadamente
condescendente e liberal.

- Não te precipites a observar na minha disposição


condescendência, pois serás surpreendido quando verificares
que não procuro senão um novo modo de te propor o que
sempre te propus, desde que te conheço.
Como sabes a psicologia, tal como é hoje estudada
e definida disciplinarmente, teve origens dispersas e difusas.
Há uma parte da psicologia que deve o que é ao esforço dos
filósofos para distinguir as diversas fases, formas e
operações do conhecimento, se falarmos do ponto de vista
dos fenomologistas ou dos materialistas, ou para qualificar a
alma e a mente se falarmos do ponto de vista dos idealistas.
Esta psicologia consagrou-se como teoria do
conhecimento, mas não deixou de se intrometer em todas as
práticas em que se intrometeram todas as outras. As suas
propostas insinuam-se sempre como formativas e
representou-se como a mais adequada ao exercício
normativo, afirmando-se com particular autoridade como
psicologia educativa ou pedagogia.
E há uma parte da psicologia que decorre, em
percurso próprio e de certo modo autónomo, da tentativa de
construir um campo de exercício da clínica médica, no
contacto e relação operacional com o doudo ou a loucura
como objectos próprios ou apropriados.
Neste último domínio havemos ainda de distinguir
os campos que consagram as práticas rigorosamente
operatórias, cirúrgicas ou farmacológicas, que vieram a
constituir o que disciplinar e distintamente chamamos
neurologia.
Fixemo-nos aqui para registar uma curiosidade. Tu
sabes, tanto como eu, que Vesalio e muitos outros não
resistiram à tentação de propor a vivissecação do cérebro de
condenados para qualificar e confirmar com o rigor da
observação material a loucura, a doudice e a fábrica do
espírito.
Para estes, a loucura tivera que ser um dado dos
sentidos, antes de um dado da sua ciência. E não lhes bastara
identificar, com todos os outros, o doudo nas suas atitudes,
manias ou tiques, senão que em alguma assimetria ou
imperfeição que pudessem registar no suporte material do
seu espírito.
E eu digo-te, para afrontar o teu senso comum, que
os médicos haveriam de ter razão quando representaram
Vesalio como o fundador dos paradigmas da modernidade.
Nenhum, antes nem depois dele, foi arrojado ao ponto de
alvejar tão certeiramente com a artilharia dos seus desaforos
o núcleo sacralizado dos presumidos preconceitos e tabus da
antiguidade. Ao lado de Vesalio, Galileu parece-me um
potro na desmama.
E digo-te que, como fundador dos paradigmas da
modernidade, Vesalio não me interessa nas suas atitudes e
práticas científicas, nem nos seus resultados, que cada um
representa como quer uma vez que omita o resto. Interessa-
me nos precedentes que abre a sua relação profana com o
mais sacralizado dos objectos. Interessa-me na prepotência
displicente com que se propõe esfolar mortos e vivos,
representando todavia todas as barbaridades como o decurso
irreversível de um humanismo militante.
Aqueles que celebram em Vesalio o fundador
militante do modernismo e o propõem como modelo das
atitudes científicas que promovem, o que omitem é a
reflexão sobre a sociedade e sobre o exercício do poder na
sociedade que tolera arbitrariamente, por parte de alguns, a
prepotência que subjaz às suas práticas disciplinares. Não se
colocam no contexto e na posição de observação das vítimas
exangues da medicina, pelo que os posso denunciar, quando
o reclamares, como cúmplices de um exercício
discricionário do poder, como qualquer outro.

- Se não te interpelar, já não deixarás Vesalio até


que nos cansemos do tema deste colóquio. Porque me parece
que encontraste aí uma nova forma de fazer reverter a
disputa em favor dos argumentos em que te refugiaste desde
o seu início.
- Ora, meu caro e ingénuo amigo... Quando
chegarei a convencer-te de que não pretendo mais do que
demonstrar-te que, qualquer que seja o teu esforço para o
impedires, é deste ponto de vista que quero disputar contigo?
E que dirias tu se te fossem contar que o Damião
das Bróteas, Astrólogo e paraPsicólogo, fora obrigado a
discutir a validade e os resultados de uma ciência ou
disciplina, como se ela e eles próprios fossem a consumação
de um destino inscrito nos desígnios divinos desde a criação,
em nome de qualquer ideia de progresso? Sem interrogar as
condições concretas em que a disciplina se exerce e o
estatuto do seu exercício e as razões porque se legitimou e
legitima como discurso dominante?
É a ti e não a mim que compete tomar a ciência
como um dogma, em nome do teu modernismo militante.

- Qualquer um diria que não pretendes reconhecer a


nenhuma das ciências validade que não seja a do estatuto
que a sociedade lhes confere, ou aos seus agentes. Mas diz-
me, que ciência é a tua e como consegues propô-la sem
questionar a sua validade, com a lógica impertinente e
repetitiva de que usas para questionar a validade das de
todos os outros?

- Não te deste ainda conta de que não tenho nem


uso de qualquer ciência, nem proponho nenhuma das que
não existem, senão que me divirto a especular sobre a
irreversibilidade das suas existências?
Se quisera usar de alguma, fá-lo-ia com tanto
esmero quanto qualquer outro. E dar-te-ia uma satisfação
inegualável, pois irias dizer, muito mais pacificado com a
tua consciência, que foste meu discípulo.

- Sinto-me inteiramente pacificado com a minha


consciência e com a tua e não deixo de ser teu discípulo, tal
como és e não fingindo que és de outro modo. E todavia, se
há uma parte de mim que desejara ser tal qual tu és, há outra
que me reclama que só o seja depois de esgotada a
possibilidade de ser como os outros.

- E eu digo-te que o maior paradoxo da loucura é


que raros são os doudos que conseguem mover-se,
bloqueados nesse limiar. São as eventualidades que se
deixam imaginar nesse bloqueio, quando o doudo luta contra
si próprio para não cair no abismo, que abrem os precedentes
para a psicologia como prática clínica e reintegradora.
Observa com toda a atenção o nosso tolo amigo, para
identificares nele esse conflito.
Observa, ainda, com atenção o Acúrsio. Alucinado
porventura no desejo de poder vir a ser cavalo, que é um
modo de distinção e uma proposta de ruptura com os
paradigmas que a cultura dominante lhe propõe, tem que
deixar em aberto um horizonte liminar em que um cavalo
possa ser também objecto de uma prática clínica e
reintegradora.
Quando terminarmos esta função do nosso
colóquio, pois penso ainda satisfazer a tua curiosidade
quanto ao modo como vou desenvolver o discurso que
iniciei sobre a psicologia, ainda lhe pediremos que termine a
história que interrompeu quando intrometi a minha.

- Pese no entanto a convicção com que me


desempenhei do papel de tonto que me atribuiste nesta
disputa, posso prever com todo o rigor a forma como
desenvolverás o teu discurso. Seria um bálsamo para o meu
espírito poder ouvir-te fazê-lo, pois fá-lo-ias com um
desempeno difícil de prever.
Temos todavia uma eternidade pela frente para
cavaquearmos e proponho-te que aproveitemos a feliz
conjunção que nos reuniu aos quatro para ouvirmos o
Acúrsio.
O alveitar e o doudo coloqueavam despreocupados,
estirados e descompostos no cascalho que bordejava a água,
para onde lançavam a intervalos regulares pedras pequenas
que enchiam a superfície de ondulação suave. Não nos
sentiram aproximar e quando os pudémos escutar com
nitidez era o doudo que falava com entoação agastada.

- Não deixo de sentir uma estranha sensação de


inibição, pois passei a sentir-me junto do Damião como se
estivera no consultório, debaixo do olhar crítico e analítico
do psiquiatra. Ele diz-se paraPsicólgo, mas parece-me fazer
sobre todos nós os juízos e tirar as ilacções que fazem e
tiram todos os outros. Quando o arrelio, já o tenho por capaz
de me aperrear dentro de um colete de forças.

Fiquei convencido e quase o juraria, de que o tonto


elevara o tom da voz para que o ouvíssemos. O Damião,
porém, fez de contas que o não ouvira e dirigiu-se ao
alveitar sem cerimónias.

- Vamos lá a ouvir, Acúrsio, o resto da tua história.


Quero dizer, a parte dela com que nos aliciaras quando
resolvi interromper-te.

O Aníbal virou-se num só movimento mas com


uma expressão serena e provocadora, o sobrolho franzido
num jeito interrogativo e olhou certeiramente o Damião que
ficou imobilizado.

- Acaso, ilustre astrólogo, não desejarás também


ouvir a minha? Porque para ti não sou mais do que uma boa
história de loucura, daquelas que tanto servem para
disputares hoje que há doudos e amanhã que não há, pois as
intrigas és tu sempre quem as constrói.
- Ouvi-te dezenas de vezes contar a tua história, que
todavia foi diferente de cada vez que a começaste e estou
convencido que cada uma delas te satisfaz tanto quanto outra
qualquer. Todas elas servem para que, no mesmo momento e
contexto, eu possa crer e duvidar da tua doudice. E para me
manteres na expectativa de poderes ser, ou não doudo.
Porventura, algumas vezes desejaras convencer-me de que
doudo sou eu.
E eu disse-te ainda há pouco que, desde o século
XVII, se pode afirmar que existe na sociedade um discurso
sobre a simulação da loucura. Um discurso coerente e
sistemático, que faz presumir que a loucura preocupa menos
aos psicólogos, do que a sua simulação.
Há muito que deixou de me interessar se és ou não
doudo, mas irrita-me por vezes que gozes do privilégio de
ser e não ser ao mesmo tempo. Foi talvez para controlar essa
ambiguidade, que era um factor de precariedade do poder
universal e envolvente em nome do qual se exercia, que à
psicologia interessou, em dado momento, ter o privilégio de
identificar com todo o rigor da referência quantitativa a
loucura. Se hoje os psicólogos representam a simulação da
loucura como sendo ela própria uma loucura, é para
controlarem, com mais eficácia, aos doudos fingidos.
O que te quero dizer é que a tua loucura é uma
forma, mal assumida, de narrares o teu instinto de rejeição
dos paradigmas culturais dominantes. Porque é mal
assumida, construiste a ambiguidade de poderes ou não ser
doudo.

- Tenho a certeza de que dizes tudo isso,


convencido de que exerces sobre o meu espírito atormentado
uma terapia suave disfarçada de colóquio.
Não me espantaria se não tivesses outro fim, senão
o de exercer sobre mim e sobre o Acúrsio uma clínica
oblíqua.
Uma vez mais o Damião fingiu que não ouviu o
doudo e sentou-se despreocupado junto do Acúrsio, para
afirmar a sua determinação, na expextativa de ouvir a
história.

- Ora, estava eu numa noite ventosa de Março a


dormir, quando a mulher me despertou em sobressalto, numa
berraria frenética, os olhos ramelosos quase lhe cobriam a
carantonha inteirinha, batendo com o pé ossudo no tabuado
como se espantasse almas danadas. Alevantava o olhar para
os tectos espichando o garganil onde as veias pareciam
rebentar e jurava-me que o cavalo andava em galopadas por
cima dos telhados, a assoprar e resfolegar de raiva.
A ventania enchia toda a casa de uma aragem de
arrepiar, sibilava nas frestas e pelos ares troavam estrondos e
ruídos, como se todo o universo andasse num rodopio. Eu
próprio distinguira, entre três ou quatro estalos do
madeiramento fustigado, o riso sarcástico e cavo de um
diabo e a lenga-lenga de uma bruxa que pareciam disputar.
Tentei serenar e consolá-la, mas logo mergulhei
entre os cobertores, mudo de pânico, porque uma galopada
desenfreada correu o telhado de ponta a ponta. Por cima dos
tectos ouviu-se uma restolhada, como se a batida seca dos
cascos desmembrasse elementos vários dos vigamentos e das
telhas.
Inspirei de uma golfada todo o ar que os bofes
podiam conter, com as costelas quase a estalar e corri
desenfreado à cocheira. O cavalo, que mastigava relaxado
uma bocarra cheia de palha e meneava a cabeça ao som de
uma qualquer valsa imaginária, olhou-me de lado, com ar
matreiro, como se comentasse:

- Parece tonto.

Perdi absolutamente a calma e descontrolei-me.


Lancei a manápula, a tremer de raiva, ao chicote e atirava-
lhe uma tremenda chicotada, quando, ao encarar de novo
com o seu olhar escancarado mas displicente, caí em mim
para reconhecer a figura de parvo que fazia.
Recolhi aos lençois humilhado e até a mulher, que
continuava histérica e perdida às voltas pelo quarto de
orelhas espetadas, me parecia que mangava comigo.
Quando o Sol despontou e a tempestade amainava,
com o odor dos campos e penedias molhadas a fustigar-me
as ventas, já me rebolava a rir do incidente. Não conseguia
todavia encarar de frente o animal, que me espreitava de
soslaio desconfiado sempre que me abeirava.
Quanto mais sentia a sua desconfiança, mais me
inibia e o inibia a ele. Alguns dias depois andávamos já os
dois ensimesmados, mediamo-nos mutuamente com cautela
e desempenhávamo-nos mecanicamente das mútuas
obrigações. Jamais uma carícia ou uma expressão de afecto.
O próprio bafo do bruto me parecia agora frio e desprovido
do odor intenso e palpitante com que um cavalo nos cativa.
Aconteceu então que numa tarde, quando passava
cheio de garbo quase pelo meio de um grupo de ceifeiras
mocetonas, empinou-se de súbito e sacudiu-me. A cilha que
trago sempre folgada desprendeu-se com um estalido seco e
e empastelei-me pesadamente no restolho, como um pateta.
Enraiveceu-me o ar convencido com que olhava para as
raparigas, de cabeça erguida e bem colocada, os peitos e
pescoço bem vincados e as narinas abertas num trejeito de
desafio, como se exibira a sua virilidade. Desapertei o cinto
e desenfiei-o das presilhas e com a fivela espanquei-o.
Desapareceu a galopar desenfreado no horizonte
remoto, enquanto as moças, brejeiras e sempre prontas à
chalaça, me mimavam com gargalhadas e dichotes.
Quando cheguei a casa, esperava-me à porta,
nervoso e com ar de querer tirar vingança, a picar com os
cascos no lajedo, a levantar e baixar a cabeça como se
dissera:
- Vem cá agora...

Evitei-o entrando pelas traseiras, ceei em sossego e


nem lhe fiz a cama, nem lhe aconcheguei a paparoca.
E foi assim, nem mais, nem menos. Com o passar
dos dias fomos serenando, sem que todavia o estafermo do
bicho desse sinais senão de que os seus tiques e manias se
iam vincando.

Ficámos todos mudos e quedos sentados entre os


caniços que, após o cascalho, riscavam uma coroa em torno
da imensa taça de água que parecia a lagoa, agora batida
asperamente por um sopro rebelde de brisa que a fazia
gurgulhar contra as bordas. Todos ponderavam, com
prudência, o comentário que haveriam de fazer sobre uma
história tão obtusa quanto pusilâmine.

- Ora. E que queres tu que te diga dessa história?


Ainda não disputáramos sobre a distinção entre um louco e
um tonto.

Desabafou o Damião, que porventura esperara do


alveitar uma história astuta e provocadora que fornecesse
pretexto para recomeçar todas as disputas que já
encerráramos.

- Pois a mim aproveitou-me sobremaneira a história


do Acúrsio, muito mais do que a tua, que não veio a servir
senão para retardares esta.
Porque as dificuldades que se foram avolumando na
comunicação entre o Acúrsio e o seu cavalo parecem-me as
mesmas que se intrometeram entre nós.
Talvez que em algum momento que não consigo já
restituir, também tu me sentiras galopar desenfreado pelos
telhados da tua imaginação alucinada, a relinchar e a
escavar-te com os cascos nos miolos.
Quando te certificaste que repousava serenamente
na cocheira e para pacificares a tua própria consciência,
decidiste que enlouquecera e perfidamente me dissimulava.

O Damião ergueu-se, sereno mas como que absorto


e longínquo e dirigiu-se vagarosamente para casa, um tanto
alquebrado e com as pernas a arrastar por entre as ervas.
Mas antes que atingisse a distância a que já não pudera ser
ouvido, ainda resmordeu um resmungo que me pareceu:

- Pois se o não sabíeis, agora perguntai a vós


próprios. E ide dizer que ao Damião das Bróteas nem
interessa saber o que é a loucura, nem os doudos, basta-lhe
que alguém continue a disputar e a teimar que os há.

O velho astrólogo refugiou-se durante dias na sua


biblioteca desalinhada e parecia trabalhar com afã para
escrever qualquer coisa e nunca cheguei a saber o quê. Saía
circunspecto às horas das refeições que tomava ao fresco por
debaixo da latada, mudo e atento às nossas conversas, que
agora versavam sobre os momentos de indizível recreio que,
ainda durante duas semanas, nos extenuaram. Pescávamos,
rebolávamo-nos descompostos por entre os caniçais e,
quando o suor nos alagava, atirávamo-nos para dentro da
água gélida de onde saíamos a tiritar mas refeitos.
Damião prestava um cuidado especial a observar
dissimuladamente o doudo, que simulava nem o notar. A
mim, parecia-me um jogo ambíguo, de sedução e ameaça
mútuas, como se cada um fizesse crer ao outro que fazia
uma avaliação rigorosa.
Quando concluí que me afastara perigosamente das
minhas obrigações e que começara a por em risco a
disposição para as voltar a encarar, despedi-me de todos com
intermináveis promessas de promover em breve um encontro
que nos reunisse, para disputarmos sobre qualquer coisa,
conquanto fosse algo sobre que fosse possível formular uma
conclusão de consenso. Disse então o Damião:

- Então será sobre a loucura, de novo.

Todos nos rimos, excepto ele. E o doudo, quando


notou que se ria e o astrólogo não, mudou de catadura e
ficou sisudo, preparado para recomeçar de imediato.
Afastei-me com cortesia mas decidido, talvez
mesmo um tanto atabalhoado, e o Damião demorou-se ao
meu lado para me dizer:

- Vai-me fazer da vida um martírio, a tentar


obrigar-me a tratá-lo como a um doudo. E talvez até inverta
os papéis, para me convencer que passou a vigiar-me como a
um velho sandeu.

Ali ficaram os três, plantados no centro do


horizonte e oprimidos pela magnitude da planície, já
indistintos entre as manchas esparsas dos sobreiros. Por
detrás da casa, que se esvaía na paisagem, a superfície
polida da lagoa espelhava o céu esverdeado que se inundava
de luz da madrugada.
Um calafrio breve trepou-me pelo espinhaço,
demorou-se uma eternidade dolorosa entre as espáduas e
parei um pouco para receber no rosto os primeiros raios do
Sol.
Pudera bem ser a última vez que privara tão
intensamente com o meu velho e querido mestre. Se assim
fora, o meu próprio mundo ruía e sepultava-se. Era o homem
mais antigo do Universo, mas também o único indispensável
ao futuro.