DO "CREPÚSCULO DO DEVER" À "VALSA DAS ÉTICAS"1

Cristina Beckert
Universidade de Lisboa

I – “O crepúsculo do dever”
Se um final de século e, a fortiori, um final de milénio, se anunciam sempre
sob o signo da crise, ou seja, da cisão com uma mundividência em vias de
passar, mas que anuncia, no seu crepúsculo, uma abertura de novas
possibilidades, a situação da ética hoje não constitui excepção, sendo nosso
intento responder a duas questões fundamentais: em que medida vivemos
actualmente uma crise dos valores morais e, sendo esse o caso, qual a
resposta adequada para ela.
A maioria dos autores que se debruçam sobre esta questão está de acordo
quanto à existência de uma crise, nomeadamente, a que afecta a moral, de
cariz deontológico e proveniente da modernidade, diagnosticando, em
simultâneo, uma tendência generalizada para a sua substituição pela ética
ou, mesmo, por uma pluralidade de éticas, mas nem todos estão de acordo
quanto ao sentido dessa crise nem da própria ética, não só conferindo
múltiplos sentidos ao termo, como por vezes opostos. É, no entanto, possível,
destacar um ponto de referência comum, a saber, o conceito de democracia,
quer este seja encarado positivamente, como acréscimo das
responsabilidades individuais, quer negativamente como demissão das
mesmas2. Com efeito, historicamente ligado ao de moral, ambos pressupõem
a concepção de um sujeito autónomo, capaz de decidir por si mesmo, mas
segundo os parâmetros de uma razão universal, cuja expressão mais
acabada se encontra na moral kantiana, de tal modo que decidir por si não
significa atender à irredutível individualidade de cada um, mas, ao invés,
suspendê-la em função da capacidade inerente ao sujeito racional de
universalizar as suas máximas, de modo a torná-las válidas para toda e
qualquer entidade possuidora de razão3. Ora, o que sucede nos dias de hoje
é uma clara dissociação entre a esfera individual e a universal, dando origem
à crise simultânea da moral e da democracia.
Resta-nos, pois, tentar perscrutar as razões que presidiram ao fracasso do
ideal iluminista de uma moral universal e racional, socorrendo-nos, para isso,
da tese defendida por Alain Finkielkraut, na obra L’Humanité perdue.
Segundo a óptica do autor, no projecto de emancipação das Luzes, a razão
assume o papel fundador e legitimador de todos os discursos, ocupando o
lugar deixado vago pela figura de Deus, de tal modo que uma moral racional
1

O presente título resulta da justaposição dos títulos das obras de G. Lipovetsky, L e
crépuscule do devoir e de A. Etchegoyen, La valse des éthiques.
2
Os protagonistas desta dupla posição são, respectivamente, P. Ricoeur e G. Lipovetsky que
analisaremos adiante.
3
Esta exigência de universalização das máximas constitui o cerne da razão prática kantiana
(cf., a título exemplificativo, Kant, Grundlegung zur Metaphysik der Sitten, Ak., IV, 402-403).

teria sido a causa determinante do seu próprio fracasso. Finkielkraut. récuse le donné. 6 "Fou […]. non par plaisir mais par méthode. Il est l’homme qui. em particular. não por prazer. L’Humanité perdue. isto é." (A. assim. Suhrkamp. pp. “a violência nazi deve ser executada. tornado no discurso triunfal do progresso e da história que caminha para a libertação final do homem. a normatividade racional levada ao extremo deu lugar a uma razão paranóica que atingiu a sua expressão derradeira no projecto nazi de extermínio sistemático dos judeus6. não no desenfreamento das paixões selvagens e no abandono dos escrúpulos. introduz uma alteração irreversível na própria definição da razão prática. ayant tout perdu sauf la raison. Essai sur le XXe siècle. au profit d’une infalsifiable cohérence. p..e laica. “Industrialisierung und Kapitalismus” in Kultur und Gesellschaft. mas numa paixão em que nunca deixa de se ter a si própria como objecto. Frankfurt. Marcuse enquanto forma de dominação ideológica (cf. o predomínio da i n t e r p r e t a ç ã o e a ausência de 4 Cf. com uma competência de profissional e com a preocupação constante da obra a executar.. O discurso da razão ter-se-ia. denunciado por H. mas por método. não por sadismo.e todo o aparelho . enquanto faculdade de universalização das máximas. suportada pelos ideais da revolução francesa. Frankfurt am Main. onde nada surge ao acaso.de uma moral com obrigações e sanções. [. uma vez que esta deixa de constituir o meio de aferição da moralidade dos actos do sujeito. toujours déconcertant. na medida em que podemos facilmente surpreender. mas por excesso. L’Humanité perdue. Essai sur le XXe siècle. A. Esta extensão da razão a todas as esferas do real. p.." (A. mas por dever. [. tudo tem uma função própria e tudo é previsível5.et tout l’appareil – d’une morale avec obligations et sanctions. a tripla característica desta psicose: o delírio s i s t e m a t i z a d o . Finkielkraut. à maneira da ciência. Este último.70). A tese de Finkielkraut poderá. Paris. non dans le déchaînement des pulsions sauvages et l’abandon des scrupules mais au nom de scrupules supérieurs. le nazi n’est pas l’homme qui a perdu la raison. resumir-se na afirmação de que o nazismo. pela melhoria das condições sociais e pelo desenvolvimento técnico-científico4. tornando-as igualmente manipuláveis. L’Humanité perdue. Por isso.. anunciada pela expansão económica. 1965). constitui uma forma paradoxal de loucura. non par sadisme mais par vertu.91. para passar a razão normalizadora de comportamentos pela imposição de normas gerais que regulam a vida em sociedade. em última instância.] O poder hitleriano não instaurou o reinado do crime sobre as ruínas da moral: deu ao crime toda a aparência . Trata-se. em paixão. de transformar a realidade social num sistema.. avec une compétence de professionnel et dans le souci constant de l’œuvre à exécuter.. II. H."7 Uma análise da definição científica de paranóia virá confirmar esta tese de Finkielkraut. no fenómeno acima descrito. conferindo uma capa de moralidade (racionalidade) à violência instituída. em que a razão se transmuta no seu contrário. Essai sur le XXe siècle. mas por virtude. não por gosto.76-77). não por defeito. deste modo. 5 . por sua vez. enquanto pólo aglutinador da crise dos valores morais na contemporaneidade. Marcuse. ou seja. 1996. mas em nome de escrúpulos superiores.] Le pouvoir hitlérien [. Finkielkraut. Seuil. Este processo de “racionalização” da realidade social é proposto por Max Weber como aplicação da razão técnico-científica à ordem política e.] n’a pas instauré le règne du crime sur les ruines de la morale : il a donné au crime toute l’apparence . 7 “La violence nazie doit être accomplie non par goût mais par devoir. vem substituir a moral religiosa fundada na fé.

sendo a razão a faculdade por excelência. cf. mas.] ideological thinking becomes independent of all experience from which it cannot learn anything new even if it is a question of something that has just come to pass. transformando em dever moral. Harcourt. sistematicamente dirigida aos nossos próprios sentimentos e aos dos outros. desvenda o "verdadeiro" sentido da aparência que se encontra oculto. bem como a aparência de moralidade de todas as acções que. mas a própria ideologia enquanto tal. mas são da ordem do aleatório e do imprevisível. Arendt. dominating them from this place of concealment and requiring a sixth sense that enables us to become aware of it. Na verdade. sob a forma de uma conspiração contra ele arquitectada. 1967. they achieve this emancipation of thought from experience through certain methods of demonstration. tanto na doação de sentido como na organização sistemática do mesmo. não é de surpreender a sua hipertrofia na psicose paranóica em geral e no fenómeno do nazismo em particular. testemunha bem o mecanismo de “vítima emissária” a que estes estavam a ser submetidos e o processo de racionalização que lhe subjaz. sobretudo. por exemplo. it proceeds with a consistency that exists nowhere in the realm of reality. longe de se identificar com a crença ingénua nas aparências. não deixando que as coisas sejam na “inocência do seu devir”. distinto e mesmo oposto ao marxiano. aliás. Ideological thinking orders facts into an absolutely logical procedure which starts from an axiomatically accepted premise. é incentivada até ao limite. Este primado da interpretação sobre a realidade caracteriza. Pontalis.. em simultâneo. mas forçando-as a enquadrar-se em padrões pré-estabelecidos 9. de outro modo. B. tomariam a forma da pura gratuidade e da violência sem razão. and insists on a ‘truer’ reality concealed behind all perceptible things.enfraquecimento intelectual8. a noção de sistema é fundamental porque permite estabelecer as ligações causais que levam sempre até onde o paranóico quer chegar. that is. não só a ideologia nazi. 1994.. A derrota militar do regime nazi. pois permite dele excluir todo o elemento aleatório que venha perturbar a sua unidade e. […] Since the ideologies have no power to transform reality. [. que. Assim. 9 Este conceito de ideologia.” (H. aos judeus como responsáveis por todo o mal que possa advir ao povo alemão. na exacta medida em que não obedecem a um plano racional. Arendt. PUF. The Origins of Totalitarianism. consiste na negação destas e da contingência enquanto tal. . é defendido por H. pp. Por seu turno. A afirmação. “in [its] claim to total explanation.. sem que daí adviesse a mínima contradição. tudo o que aparentemente é violência e malignidade tem uma razão oculta de ordem moral que retira toda a afectividade ao mal e o legitima. a interpretação é essencial à própria inteligibilidade e coesão do sistema. no presente caso. Paris. ao instituir a crença numa explicação última e radical para tudo o que acontece. de que a descoberta da falsidade do Protocolo dos sábios de Sião constituiria a prova acabada da sua autenticidade e da "manobra" dos judeus para ocultarem desígnios conspiradores. deducing everything else from it. J L. Laplanche/J. por chefes de família exemplares. para quem o pensamento ideológico se caracteriza por uma “lógica implacável” e um consequente afastamento da realidade concreta. Dela depende a eficácia e a credibilidade ideológicas. Finalmente. Vocabulaire de la Psychanalyse. a denúncia mútua de pais e filhos ou a execução metódica de milhões de judeus. San Diego et al. por parte de Hitler. 470-471). fizeram 8 Para a caracterização da paranóia como psicose. o processo autofágico a que conduz uma razão que excede os seus limites e se torna paranóica. de tal modo que a suspeita. Hence ideological thinking becomes emancipated from the reality that we perceive with our five senses. uma vez que.

a segunda metade do séc.do nazismo a expressão derradeira do primado absoluto da razão como critério de moralidade. de son être ou de sa raison d’être. já a indiferenciação do objecto ou. se o estabelecimento de oposições – qualquer que fosse a sua origem . o excesso da paixão. en effet. O médico do mundo não vê neles senão a miséria e a doença. havia que procurar refúgio no seu oposto. Emocionado pelo sofrimento na sua contingência imediata. legitimando as distinções morais entre o bem e o mal.. o actor humanitário já não tem preconceitos. n’est pas moins réducteur que celui du militant. a saber. com o mundo para cuja construção ele quer contribuir. s’ils souffraient dans le bon sens ou à contre-courant […] Ému par la souffrance dans sa contingence immédiate. Vejamos o modo como o autor critica ambos os extremos. O militante apenas retinha dos homens o seu papel no drama da Razão. sem discriminação de raça. Sauver les vies : telle est la mondiale mission du médecin du monde . com o sentido que pretende dar à sua história e talvez à sua morte. Tal é a atitude das tendências humanitaristas actuais. s’ils étaient progressistes ou réactionnaires. se eram progressistas ou reaccionários. mais il n’a pas pour autant le souci de qui est l’individu souffrant. incarnados pelas figuras paradigmáticas do militante e do médico sem fronteiras: "o olhar do médico não é menos redutor do que o do militante. Salvar vidas: eis a mundial missão do médico do mundo. du monde qu’il veut contribuer à bâtir. mesmo.. l’acteur humanitaire n’a plus de préjugés. […] O que é evidenciado hoje pela absorção de todos os laços humanos num único sentimento de humanidade não é tanto a preocupação com os outros como uma invencível desconfiança relativamente à sua liberdade. com os motivos por que é perseguido ou com as causas da sua agonia. comenta ainda Finkielkraut.constituía o cunho próprio da razão. des motifs de sa persécution ou de son agonie. Le médecin du monde ne voit en eux que la misère et la maladie. está tão ocupado em encher de arroz a boca que tem fome que não houve a boca que fala. pois.]. credo político e religioso ou estatuto social. Il importait au plus haut point au militant de savoir à quel camp et à quel temps appartenaient les blessés. Importava altamente ao militante saber a que campo e a que tempo pertenciam os feridos. representa o traço distintivo da compaixão que ignora a polaridade axiológica do seu objecto. Le militant ne retenait des hommes que leur rôle dans le drame de la Raison. dado que uma paixão sem razão pode ser tão injusta ou cruel como uma razão sem paixão. pondo simultaneamente em causa a própria moral e exigindo novas fontes de avaliação para o agir. du sens qu’il entend donner à son histoire et peut-être à sa mort. il est trop occupé à remplir de riz la bouche qui a . II – “A valsa das éticas” Marcada pelos eventos da grande guerra. entre sujeito e objecto. Porém. numa paixão sem razão ou numa "solicitude que nada quer saber”. com o seu ser ou com a sua razão de ser. vocacionadas para atender à fragilidade e ao sofrimento alheio."10 10 “Le regard du médecin. cultura. enferma dos mesmos vícios do excesso da razão. se sofriam no bom sentido ou contra a corrente [. nem por isso mesmo se preocupa com quem é o indivíduo que sofre. XX caracteriza-se por uma dissociação entre a razão e a experiência moral: se a rigidez do dever ditado pela razão conduzira ao holocausto. ao excluir toda a actividade racional.

Finkielkraut. Lipovetsky. 160). os deveres apagam-se e nós herdamos o vazio. O que significa.13-14). p. 12 "Nous sommes aujourd’hui démoralisés. individualismo e pluralismo – e os traços dominantes de uma ética pós-moralista. na medida em que é reduzido à situação de total dependência em face dos cuidados que lhe são prestados. Com efeito. L’Humanité perdue." (A. Gallimard. outra. Essai sur le XXe siècle. sob outros enfeites e outras palavras. Ao oporem irremediavelmente a ética à moral. a da paixão indiferente. a universalidade do dever. Outros autores. Uma vez anunciado o “crepúsculo do dever” e o advento da(s) ética(s). por um lado. ao invés. que já não temos moral. Essai sur le XXe siècle. levam ao limite a crítica ao humanitarismo contemporâneo. Inutilité du XXe siècle ?" (A. de tal forma que só pode almejar à destruição daquele que ameaça a sua liberdade e o seu próprio ser. Etchegoyen. Paris. no dizer do autor. geradora de uma pluralidade de éticas regionais. [. Les éthiques se sont substituées à la morale. La valse des éthiques. pp. 127-129). As éticas substituem-se à moral. também. . tornando-se incapaz de descortinar nele qualquer sinal de fragilidade. Cf. A transição da moral singular para as éticas pluralistas é um sinal dos tempos"12.. Finkielkraut. jaillissant de sources très diverses. François Bourin. onde o outro conta apenas como indivíduo numérico. que nous n’avons plus de morale. a da razão paranóica. Encontrar-nos-íamos. Ce qui signifie. perante duas formas de ressentimento e de exercício do poder: uma. comme un succédané. Les repères ont disparu. a indiferença do médico que não quer saber a identidade do doente nem o porquê da sua situação destitui o outro da sua própria alteridade ou. provenientes de fontes diversas." (A. Enquanto a oposição paranóica do militante confere a máxima autonomia e poder ao outro. 13-14 e 17. da sua capacidade de falar ou de “dizer de sua justiça”. […] Ce qui manifeste aujourd’hui la résorption de tous les liens humains dans le seul sentiment de l’humanité. pp. 1991. de nouvelles paroles reviennent dans la confusion. onde os domínios da aparência e da realidade se confundem. les devoirs s’effacent et nous héritons le vide. como um sucedâneo. ici et maintenant.Como se pode observar. chegam a retratá-la em termos de desmoralização. destituído de identidade própria11. Lipovetsky procura estabelecer uma correlação entre. de tomar posse de si como sujeito livre. importa perscrutar o significado que esta(s) aufere(m) nos dias de hoje e os parâmetros por que se rege(m). as duas atitudes extremas representam outros tantos modos de encarar a alteridade.. aqui e agora. "estamos hoje desmoralizados. as características inerentes à época democrática que hoje se vive – laicismo. c’est moins le souci des autres qu’une invincible défiance envers leur liberté. Paris.. 1992. Os pontos de referência desapareceram. própria de uma democracia formal. baseando-a no conceito de democracia como demagogia e da ética como hipocrisia.] Desde há alguns anos. indolor e minimalista e faim pour écouter la bouche qui parle. como Gilles Lipovetsky e Alain Etchegoyen. assim. […] Depuis quelques années. Le crépuscule du devoir. pp. L’éthique indolore des nouveaux temps démocratiques. onde impera a equivocidade terminológica. e de uma experiência de vazio. novas palavras se juntam à confusão. G. L’Humanité perdue. sous d’autres atours et d’autres mots. no duplo sentido de negação da moral e daquilo que constitui o seu âmago. 11 As palavras finais da obra mostram o pessimismo com que o autor encara o futuro e a possibilidade de superação do ressentimento: “Le règne du sentiment et la défaite – qui n’est peut-être que provisoire – de l’idéologie n’ont pas mis fin à l’empire du ressentiment. conducente ao totalitarismo político.

p. para não pôr em causa o bem-estar próprio. depois de uma ética subordinada à religião revelada e de outra laicizada. Esvaziada de toda a dimensão de interioridade e universalidade. 14 Para a noção de “sentido dos sentidos” como inteligibilidade última de todos os sentidos particulares. a quem a acção se dirige. tendente à preservação do indivíduo nas melhores condições possíveis. o caso do “jogo ético”. jurídico. Philosophische Untersuchungen. isto é. É esta renúncia a todo e qualquer fundamento que define a ética como pós-moralista ou "ética do terceiro tipo". deve ser indolor e minimalista. dos meios de comunicação. para entrar nos diversos "jogos de linguagem" que lhe conferem sentidos distintos conforme o uso linguístico que dela é feito. porém. Wittgenstein. mas sem horizonte de sentido para os seus actos. Ferry. se formam por combinações aleatórias. a não ser a sua componente lúdica13. por sua vez. apresentando semelhanças com outros jogos (militar. L. capazes de balizar a sua vida. nomeadamente. distante e anónimo. profissional.regionalista. 16. agora. social etc. posta em causa pelo colapso dos valores morais durante a segunda guerra mundial. lei. longe de provocar qualquer tipo de má consciência. & 67). mandamento. dando-lhe um sentido. dever. cujo artifício se resume na persuasão da possibilidade de conciliar prazer e dever ou de obter prazer no exercício do dever. a razão deixou de ser una e universal. Paris. prescindindo dele ou travestindo-o de prazer. responsabilidade. é. doravante subordinada aos diferentes tipos de discurso que. garantir o mínimo de esforço e de dádiva. Tendo. L. dado pelo recurso a uma transcendência (Deus ou a Razão). a ética não passa de uma “estratégia de sobrevivência”. Grasset & Fasquelle. É. ou seja. precisamente. . não só respeitante aos fundamentos religiosos da moral. donativos anónimos e outras práticas fazem parte desta “lei do menor esforço e do maior prazer” para cada um que. não estando em causa a prática do bem para com o outro. nos tempos que correm assiste-se a uma dupla laicização. esse "sentido do sentido". 1996. justamente. que o lança no vazio e o torna presa fácil da eficácia retórica dos outros. mas sempre restrito à esfera particular de acção a que se refere. a falta de referências exteriores ao indivíduo. além da imediatez presente. à semelhança das parecenças familiares (cf. como foi mostrado. religioso) mas não se reduzindo a eles. por sua vez. não se esgota na arbitrariedade da minha escolha14. enquanto garante que o sentido que eu dou ao meu projecto tem de facto sentido. Se a vivência laica representa uma herança da racionalidade moderna que. culpa. É. shows televisivos onde se apela passivamente à afectividade do telespectador. Daí a necessidade de tornar o próprio dever objecto de prazer e o outro. formado por palavras como ordem. a razão pós-moderna só pode legitimar cada projecto existencial (pessoal. Trata-se. mas em que permanece a incondicionalidade religiosa. Por isso.). 13 A noção wittgensteiniana de “jogo linguístico” testemunha bem esta “regionalização” da razão. como aos seus fundamentos racionais. L’Homme-Dieu ou le sens de la vie. mas o auto-sacrifício que tal implica. "Filantropia mediática". também ela. Falta-lhe. cf. entrado em crise. Assim sendo. se a razão moderna fora capaz de fundar uma moral (universal e normativa). de uma ética que abdica da própria noção incondicional de dever. com o máximo de satisfação própria. tornando-se impossível descortinar o que há de comum entre todos eles.

frisson de la bonté live. Lipovetsky. como primado da aparência sobre a realidade. através da imagem que transmitem para o exterior.. as éticas regionais têm.] Ce qu’on appelle maintenant les reality-shows participe de la même logique postmoraliste. ela mesma. mas também recusa privar-se de um meio necessário ao desenvolvimento do saber e à utilidade colectiva. Por seu turno. nul renforcement de ses valeurs et de ses racines.] Et ce. dado que compromisso é.] La bienfaisance médiatique est post-moraliste. a função de potenciar a eficácia no funcionamento dos diversos sectores da sociedade. [.”16 Figura exemplar deste compromisso bioético é a do consentimento esclarecido. a bioética médica representa uma dupla hipocrisia. a ética verde e a bioética -. d’utilitarisme et de kantisme.. sans illusions ni effort. tomaremos esta última como objecto da nossa análise.reverte. através dela. Assim. verdadeiro e falso.] humanismo pragmatista que justapõe firmeza do princípio do respeito pela pessoa e flexibilidade exigida pelo progresso científico. para o bem-estar de um outro inacessível e sem rosto15. a única lei válida é a da eficácia da imagem. plus imprévu. tomado em contraste com a rectidão do dever.. d’impératif hypothétique et d’impératif catégorique qui caractérise ce qu’on peut appeler le postmoralisme bioéthique. mas subordinadas a dois princípios essenciais: o da eficácia e o da imagem pública. Le crépuscule du devoir. paradigma de realidade e verdade. [. mais spectacularisation des valeurs." (G. [. elle refuse de transformer l’homme en pur cobaye mais tout autant de se priver d’un moyen nécessaire au développement du savoir et à l’utilité collective.. De facto. aqui. la nouvelle charité les déculpabilise dans le divertissement. Ora.. Lipovetsky. e o termo procuração.. encarado como 15 “La morale rigoriste culpabilisait les consciences. imperativo hipotético e imperativo categórico que caracteriza aquilo a que se pode chamar o pós-moralismo bioético. 172-173). enquanto se constitui como uma ética do compromisso e uma ética por procuração. parce que nulle part le transport. C’est ce compromis de réalisme scientifique et d’idéalisme éthique. É este compromisso entre realismo científico e idealismo ético. L’éthique indolore des nouveaux temps démocratiques. exemplificarmos as categorias explicativas usadas pelo autor. a capacidade de tornar real e credível uma imagem. pelo contrário. a filosofia da investigação biomédica é identificada com um “[.. Embora Lipovetsky utilize três éticas regionais a fim de ilustrar a sua tese . Finalmente. L’éthique indolore des nouveaux temps démocratiques. ela recusa transformar o homem em pura cobaia.a “markética” ou ética empresarial. traduzindose na recusa do indivíduo em assumir-se enquanto sujeito autónomo de decisão. utilitarismo e kantismo. mas que se torna na única moral hipocritamente real. modelo. pp. . modelo e imagem. A travers la charité rock. isto é. precisamente. Le crépuscule du devoir. parce que là le réel est plus captivant. a renúncia a uma "ordem moral do mundo". l’impact n’y sont aussi grands. como se esta fosse. il n’y a nul réarmement idéologique de l’Occident. faz brotar uma pluralidade de mundos com as suas regras próprias de funcionamento." (G. de modo a. 16 “La philosophie de la recherche est un humanisme pragmatiste juxtaposant fermeté du principe de respect de la personne et souplesse exigée par le progrès scientifique. gadgétisation de l’engagement éthique. elle fonctionne comme nouvelle modalité de la consommation de masse. p. plus spectaculaire que les programmes du show-business lui-même.. 287). «petite joie» participative. conferindo uma aparência de moralidade ao que não é mais do que maximização da rentabilidade. se a ausência de um fundamento único para a acção dá azo à indistinção entre real e aparente. l’authenticité. característica da era moderna.

[. em vez de empenhá-lo na vida pública. faites sans soin et sans précautions. 293).forma de promover o bem colectivo e o progresso científico à custa de uma pretensa autonomia individual que desresponsabiliza médicos. esvaziada de conteúdo. c’est que soient rémunérées des expertises incompétentes. dans une ambiance frauduleuse. simultaneamente. p. contrariamente aos regimes que retiravam a sua autoridade de entidades anteriores ou superiores. de uma consciência universal do dever. a que se alia essa outra atitude hipócrita de optar pela não remuneração de tais experiências. mas. Maloine. L’éthique indolore des nouveaux temps démocratiques. Assim sendo. L’Homme bio-éthique. promover uma política de indemnizações17. ce qui est immoral.. a partir da categoria da responsabilidade. está continuamente em vias de se fundar.] O que chamamos declínio das ideologias e escalada do individualismo revela uma realidade mais profunda. desde já. O paradoxo aqui é que 17 A. os peritos que compõem as inúmeras Comissões de Ética. “o regresso da moral é. uma é t i c a tecnocrática que desmobiliza o cidadão comum. afirmando que a imoralidade não está na remuneração das experiências médicas.. Fagot-Largeault. a este respeito. p." (A. sobre a qual especulam muitos politólogos. a saber. notar. Lipovetsky. Paris. Uma remuneração transparente traduzir-se-ia." (G. quando afirma que “a procura de ética está directamente inserida numa crise da democracia representativa e numa participação insuficiente dos cidadãos na vida pública. transformando a ética numa técnica cuja complexidade exige a intervenção de profissionais. mesmo. à l’expansion de l’organisation «technocratique» des démocraties : la réaffirmation éthique est une éthique sans citoyen. que esta visão da bioética está dependente de um conceito de ética (como hipocrisia) e de um conceito de democracia (como demagogia). investigadores e a sociedade em geral pelas consequências que possam advir de experiências ou tratamentos de risco. Le crépuscule du devoir. . para aqueles que detêm o saber e a competência em assuntos do foro bioético. III – Uma outra ética do compromisso A única possibilidade de inverter a leitura pessimista de Lipovetsky acerca da ética contemporânea. a democratização das decisões éticas acarreta o efeito paradoxal de transferir o poder de decisão. uma ética por procuração [e] a reafirmação ética é uma ética sem cidadãos"18 ou seja. a fim de julgarmos a justeza da interpretação lipovetskiana. consiste em intentar outra leitura da relação entre ética e democracia. 18 "[…] Le retour de la morale est avant tout une éthique par procuration. a saber que a democracia. mas “ce qui est immoral c’est qu’on sous-estime l’expérimentation humaine au point de ne même pas la considérer comme un travail qualifié. Pour une déontologie de la recherche sur le vivant. É o que faz Paul Ricoeur. tornando-se imperativo questionar outros horizontes de sentido em que ambos se possam enquadrar. Ce n’est pas le moindre des paradoxes que de voir comment de nos jours les institutions incarnant l’éthique travaillent. num aumento de competência e numa diminuição da compulsão moral. elles aussi. Podemos. antes de mais. 1985. Por outro lado.145). à la reproduction de la démotivation individualiste. intrínseca a todo o sujeito de acção. à la promotion des spécialistes. dominada pelo império da imagem pública. Fagot-Largeault defende. uma política de transparência financeira.

ao voto). torna-se insuficiente um conceito de responsabilidade proporcional à liberdade com que cada um inicia o seu agir. para uma versão mais abreviada. onde a reflexão levinasiana sobre a alteridade do outro . múltiplos são os pensadores contemporâneos. Ricoeur não nega que a ética brote do paradoxo interno à democracia enquanto regime político. fazendo apelo à convicção íntima do sujeito como arbítrio último. Le paradoxe ici est que la moralisation de la vie politique se détache sur un fond problématique qui n’est pas tel par accident. de forma não-problemática. […] Ce qu’on appelle déclin des idéologies et montée de l’individualisme révèle une réalité plus profonde.. [. mas fá-las dialogar. é precisamente porque se vive em democracia que não existem soluções definitivas para os problemas que a assolam. ao “resolver” a crise. que a solução para esta crise da democracia esteja num hipotético regresso a uma forma de fundamentação ideológica e dogmática do poder político que. Pelo contrário. Paris. 255). 20 É preciso notar que Ricoeur. enquanto os demais se limitam à esfera das relações intersubjectivas. Assim. Mas. Embora ambas se completem. a coincidência dos interesses individuais e colectivos. Para a distinção entre ética e moral.. Paris. o autor defende o primado da ética sobre a moral. […] dans la mesure où chaque nouvelle zone de pouvoir est aussi une zone de responsabilité.. Paris. Arthème Fayard. Esta crise reage sobre todos os sectores da vida social." (P. não opõe. Na verdade. estudos 7º. poria igualmente em causa o exercício da actividade crítica inerente a todo o questionar dos fundamentos. Autour du Politique. A democracia é o regime para o qual o processo da sua própria legitimação está sempre em curso e em crise. Não entende. Seuil. P. “Ethique et Morale” in Lectures 1. mas por constituição.a moralização da vida política se destaca sobre um fundo problemático que não o é por acidente. ética e moral. Ricoeur. Soi-même comme un autre. est sans cesse en train de se fonder. à ética estaria reservada uma função crítica das normas morais. com o alargamento espácio-temporal das coordenadas da acção. à savoir que la démocratie. cf. ao passo que à moral caberia fornecer os fundamentos universais da vida em comunidade e a arbitragem dos conflitos entre indivíduos. 8º e 9º e. mais par constitution. 21 Além de Ricoeur. responsabilizando cada um pelas decisões individuais e colectivas. porquanto as consequências que possam advir desse momento primeiro ultrapassam em larga escala a esfera da acção imediata do sujeito quer espacial quer temporalmente21.] na medida em que cada nova zona de poder é também uma zona de responsabilidade [. segundo o qual a participação se anula na representação. ausente de uma moral que tinha como garantida. contrariamente a Lipovetsky e a Erchegoyen. pois as primeiras têm crescentes implicações nas segundas20. quando estas se tornam dogmáticas ou incompatíveis entre si. Cette crise réagit sur tous les secteurs de la vie sociale. Posfácio à obra Le temps de la responsabilité. La démocratie est le régime pour lequel le procès de sa propre légitimation est toujours en cours et en crise. Seuil. Daí 19 "La demande éthique est directement greffée sur une crise de la démocratie représentative et sur une participation insuffisante des citoyens à la vie publique. 1991. 1990.]”19 Como se pode verificar. porém. que professam uma ética da responsabilidade como a mais adequada para fazer frente aos inúmeros problemas do nosso tempo. ao reduzir-se a ela (em última instância. elas constroem-se a cada momento. de Sartre a Levinas e a Jonas. advoga uma problematicidade própria da democracia que traz consigo a constante necessidade de revitalizar a participação individual e a exigência de um acréscimo de responsabilidade tanto ética como política. Neste sentido. 1991.. tendo a ética a função prioritária de pôr em confronto as normas universais de conduta e os desejos e convicções individuais. sur laquelle spéculent maints politologues. de forma irreconciliável. Ricoeur. sempre que as normas se encontrem desajustadas ou se mostrem incompatíveis entre si. à la différence des régimes qui tiraient leur autorité des entités préalables ou supérieures. pp.

] o auto-sacrifício. 23 "[…] Je reste convaincu que nous ne vivons pas aujourd’hui le règne de «l’après devoir». só uma transcendência interior ao homem (não vertical como a relação homem-Deus. por sua vez. não vivemos numa era do pós-dever. Jonas alarga aquele conceito a entidades não-humanas que se encontram sob o poder técnico-científico do homem. por ele. Nele está presente um duplo movimento de humanização do divino e de divinização do humano. mas tem que ser construído na própria relação intersubjectiva. de tal modo que o "sentido do sentido" não é mais dado à partida. La définition de la vertu comme action désintéressée. L’Homme-Dieu ou le sens de la vie. resultante da laicidade instituída com a “morte de Deus”. e o essencial reside aí. no diálogo e na comunicação entre todos os homens.. à da diferença específica ou. H. onde se estabelece a confluência entre o sentido conferido por cada um à existência e o "sentido do sentido" que lhe dá legitimidade e justificação última. por outro. au-delà des apparences. en parallèle. mas criamos os nossos deveres a partir de nós mesmos e não de um padrão préestabelecido. responsável. plus attestée que jamais dans nos représentations de la . Le mouvement va désormais de l’homme à Dieu et non plus l’inverse. no interior da esfera humana. me semble. comme arrachement à l’égoïsme naturel de l’individu. tornando-se. como constituintes da natureza no seu todo. racial ou ocasionada por qualquer deficiência de ordem física. en s’imposant à l’individu. homem como objecto exclusivo da ética. desde a da diferença cultural.46). Razão). non cette dernière qui vient. Esta nova dimensão da responsabilidade permitirnos-á re-avaliar. mas como sentimento interior que se exterioriza no outro. hoje. expressa na relação homem-homem) lhe confere humanidade. como fundamento último do exercício ético.a necessidade de proclamar uma responsabilidade virtualmente infinita. porventura anónima e longínqua. Este é dado pelo amor que. Para Ferry. D’une part le «désenchantement du monde» ou. Ferry. por um lado. La seconde est qu’elles se nouent aujourd’hui sur la base d’un double processus. como sustenta Lipovetsky. mas transversal. Assim sendo. C’est l’autonomie qui doit conduire à l’hétéronomie. à l’encontre de ce que suggère Lipovetsky. atinge a máxima radicalidade. o significado do humanitarismo." (L. mas livremente consentido e experimentado como uma necessidade interior". mas por uma alteridade. a pertinência de éticas regionais. da qual o homem é parte integrante. 22 "La première hypothèse de ce livre est que la question du sens et celle du sacré […] sont inséparables. que c’est dans l’univers le plus laïc que la notion de devoir accède à sa pleine vérité. donde se segue ser a dimensão sagrada do sacrifício consequência do seu sentido ético e não o inverso23. já não é imposto de fora. que pode assumir as mais diversas figuras. mas pela qual tem também o dever de zelar. le vaste mouvement d’humanisation du divin qui caractérise depuis le XVIIIe siècle la montée de la laïcité en Europe. Quanto ao primeiro e à ausência de “sentido último” que tanto Finkielkraut como Lipovetsky surpreendem nas tendências humanitárias contemporâneas. “[. […] Mais. ao mesmo tempo que lhe restitui a dimensão do sagrado22. pour mieux dire. p.. não pode ser dissociado do acto com que cada um responde ao apelo de outrem. On pourrait même soutenir. Dever. a que concerne todas as entidades a-bióticas. respondemos com a proposta avançada por Luc Ferry de um humanismo fundado na universalização do amor. contredire la première. e. c’est aussi à une lente et inexorable divinisation de l’humain que nous assistons […]. mesmo. não enquanto mandamento proveniente de uma exterioridade (Deus. não apenas por mim próprio e pelas minhas acções.

Uma ética humanitária. Le crépuscule du devoir. são “efeitos colaterais” das preocupações éticas pelo ambiente. pelo respeito devido à pessoa do paciente. não só tornar o outro análogo a mim (e não só o outro próximo. apenas superável se compreendermos que a descoberta de que o outro é um eu se torna indissociável daquela segundo a qual o “eu é um outro”24. […] Le sacrifice de soi. beneficência e justiça -. 19842. considerado o primeiro "acto bioético". os animais e outros seres vivos. em relação aos quais o respeito véritable morale. outro de mim. “Jean-Jacques Rousseau. mas o distante). é identificada com um “humanismo integral”. pelo que o consentimento esclarecido. pp. Sem este duplo movimento cair-se-á na indiferença denunciada por Finkielkraut. isto é. entre os quais se contam as crianças. Lipovetsky. C. fondateur des sciences de l’homme” in Anthropologie Structurale II. de modo a rentabilizar a imagem que esta transmite para o exterior. 26 Desde o Código de Nuremberga (1948). Lipovetsky confunde o aproveitamento económico e pelos media de certas tendências e ideais éticos vigentes na sociedade actual com essas mesmas tendências e ideais. L’Homme-Dieu ou le sens de la vie. os deficientes profundos. onde a assunção da responsabilidade individual é a única forma de os garantir. do que um qualquer recurso de mercado para promover os seus produtos. faz do processo de recusa de si ou de “objectivação radical”. Indubitavelmente que a venda de produtos ecológicos. no contexto bioético. cf. n’est plus aujourd’hui imposé du dehors. Carta a Georges Izambard de 13 de Maio de 1871 in Poésies. p. 1973. mas não constituem o seu âmago25. et l’essentiel est là. o recurso ao compromisso.200). Illuminations. ditado por uma imagem paradigmática do humano. p. G. valores e projectos de vida numa sociedade democrática. ser “sacrificado” em nome de um qualquer bem-estar geral. pp. como tornar-me análogo a todo o outro. Paris. Da mesma forma. capaz de decisões autónomas. mas da necessidade de atender à pluralidade de interesses. não tanto o bem-estar e a dignidade daqueles que compõem o corpo de uma empresa. por isso. Une saison en Enfer. têm permanecido nas margens da consideração ética. liberto de todo o preconceito etnocêntrico (cf.49). a ser possível. 25 Para a posição do autor acerca da “consciência verde”. sobretudo. mas antes a maximização da performance dos seus membros. Quanto ao regionalismo ético. Ferry. tal como Luc Ferry o concebe. longe de constituir tão-só uma figura de retórica. 91-92). 273-281. até ao Relatório de Belmont (1978). mais librement consenti et ressenti comme une nécessité intérieure " (L. exige. Plon. sem que se ponha em causa o seu modo de produção. já aplicar a mesma ordem de argumentos à bioética médica ou à ética ambiental nos parece de todo abusivo. recorrendo à máquina publicitária. assistiu-se a uma evolução no sentido de substituir progressivamente a preocupação utilitarista. 24 “Je est un autre” (Rimbaud. é necessário ir ainda mais além e contemplar todos aqueles que. Gallimard. não podendo. por sua vez. Se constitui tarefa fácil tentar demonstrar que a ética empresarial tem como objectivo. por um preconceito antropocêntrico. Lévi-Strauss. No entanto. julgamos constituir mais uma consequência do alargamento da esfera da consideração ética. mais “verde”. consoante as suas especificidades próprias. Lévi-Strauss. sob o pretexto de uma vida mais saudável. dirigida para o bem-estar individual e. o cerne da Etnologia que. não é apenas sinal de hipocrisia. Paris. onde se consignaram os três princípios bioéticos fundamentais – autonomia. retomando esta fórmula e encontrando a sua origem e fundamentação em Rousseau. já presente no humanitarismo. social. representa o respeito pela autonomia da pessoa que tem uma palavra a dizer sobre o que lhe acontece26. bem como os lucros que resultam do culto hodierno do corpo. .

por conseguinte. ocorrida em meados do século XX. 1992. concessão ou hipocrisia. procura-se mostrar o laço entre democracia e ética. onde a etimologia de “com-promisso” remete para essa promessa de sentido que implica a responsabilidade radical de quem o produz. in the middle of the twentieth 27 L.pela autonomia se inverte em responsabilidade pelo que é mais frágil e. Deste modo. uma ética do compromisso não poderá ser sinónimo de fraqueza. enfatizando a importância de um compromisso dialógico. synthèse de matière brute et d’idées cultivées. l’animal et l’homme. Ferry. na sua dignidade própria27. Exister engage à cela. Para tal. Nancy. au sens où elle serait le sujet et le partenaire d’un contrat naturel – ce qui n’a guère de sens – mais parce que l’équivocité de certains êtres ne saurait laisser indifférents ceux qui tiennent aux idées qu’ils nous font le bonheur d’incarner. Équivocité est bien le terme qui convient : êtres mixtes.211-212). ils participent autant de la naturalité que de l’humanité.48). “non bien-sûr. Existir compromete-nos exactamente com isto. . encará-la. très exactement. mas é necessário considerá-las em si mesmas. Abstract This paper tries to analyse the way rational. en elle. p. Através do confronto entre as teses de Alain Finkielkraut. nós somos responsáveis pela desmesura e é-nos pedido que sejamos capazes de carregar e de regular com precisão e com prudência a ausência de toda a resposta dada e o eterno retorno do silêncio como resposta. a um outro."28 RESUMO O presente artigo pretende dar conta da passagem. Paris. au-delà d’elle-même. prescriptive and universal morals turns into emotional and charitable ethics. Le nouvel ordre écologique. da moral à ética ou de um modelo racional. em última instância. Le Monde. nous sommes comptables de la démesure. pp. Ferry recusa conferir direitos directamente a qualquer entidade natural. "Répondre de l'existence" in De quoi sommes-nous responsables?. 1997. Grasset. não é suficiente o recurso à analogia como fonte de deveres indirectos para com estas entidades. Il faudrait ainsi faire une phénoménologie des signes de l’humain dans la nature pour accéder à la conscience claire de ce qui. mais exposto ao exercício indiscriminado do poder humano. En dernière instance.-L. para conceber uma teoria dos deveres para com a natureza. Gilles Lipovetsky e Luc Ferry. et l’éternel retour de ce silence en réponse. mas da desmesura trágica entre a irredutibilidade da existência individual e a exigência cada vez mais universal de sentido. Trata-se da exigência mais rigorosa e mais severa. L’arbre. pautado pelo primado da emoção e da dádiva." (L. tornando-se necessário. "O que nos acontece hoje é sabermos expressamente [que]. la responsabilité d’une ultime irresponsabilité du sens. Paris. irredutível à hipocrisia ética denunciada por Lipovetsky. et il nous est demandé d’être capables de porter et de régler avec précision et avec prudence l’absence de toute réponse donnée. 28 "Ce qui nous arrive aujourd’hui. encore – de ceci que toute signification suprême signifie toujours. c’est précisément le savoir exprès – savoir du non-savoir. peut et doit être valorisé." (J. prescritivo e universal do agir.

. By means of confronting different positions like Alain Fienkielkraut’s. it shows the importance of the bound between democracy and ethics. through a dialogical commitment. thought as a sign of ethical hypocrisy by Lipovetsky.century. and Luc Ferry’s. Gilles Lipovetsky’s.

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