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A INFLUÊNCIA DA MÍDIA TELEVISIVA NAS ATITUDES DE

VIOLÊNCIA FÍSICA INFANTIL

Manuella Barbosa Alves*


Verônica Maria Lima*
Vantuil Barroso Filho**

RESUMO

Neste trabalho investigamos as possíveis relações entre as atitudes de violência


física de crianças e os programas de televisão assistidos por elas. Como
instrumento de pesquisa nos utilizamos das entrevistas semi-estruturadas e da
observação direta. Foi preciso identificar e analisar os programas de televisão com
maior audiência entre os alunos pesquisados, observando o nível de violência
explícita e implícita contida nos mesmos. Os alunos e alunas pesquisadas são do
primeiro e segundo ciclo de uma escola pública municipal da cidade do Recife,
que atende a uma comunidade carente e com altos índices de violência. Partimos
da hipótese de que os alunos que assistem a mais programas violentos tendem a
ser mais agressivos. Como resultado, percebemos que a televisão se faz presente
na rotina diária das crianças, mas não é a atividade a qual as mais violentas
dedicam mais tempo. Observamos a presença marcante do incentivo e da
legitimação da violência implícita e explícita através dos programas citados e
analisados. Apesar desse dado, não estabelecemos uma relação direta e isolada
entre os programas televisivos e as atitudes violentas das crianças pesquisadas.

PALAVRAS CHAVES: violência infantil e mídia televisiva.

____________________
*Concluintes do curso de Pedagogia – Centro de Educação – UFPE
**Professor Doutor em Sociologia e Ciência Política pela Universidad de Deusto-Bilbao-Espanha.
INTRODUÇÃO

Na década de oitenta uma famosa atriz de novelas fez sucesso com uma
personagem que virou moda, influenciando muitas adolescentes da época. Anos
mais tarde, essa mesma atriz, em uma entrevista, quando questionada sobre o
poder de influência através da televisão, declarou que, em relação aquele
trabalho, houve uma decepção da sua parte porque a personagem citada, em sua
opinião, deveria ser vista pelo público como uma crítica a uma determinada forma
de comportamento de alguns jovens e adolescentes de então. O que houve, no
entanto, foi o contrário: milhares de meninas se vestindo e se comportando tal
qual um personagem fictício.
Eis um exemplo que pode corroborar a idéia de que “a juventude habita
uma comunidade de memória gerada pela mídia” (Mclaren, 2000, p.201). A grande
maioria dos telespectadores mostra-se, tanto incapaz de lançar um olhar crítico
sobre o que vê, como vulnerável ao interesse de massificação da mídia. Essa
relação nos remete a questões muito pertinentes quando nos propomos a estudar
e entender os fatores que podem influenciar no ambiente escolar.
Durante nossas experiências vividas nas escolas da rede municipal de
ensino da cidade de Recife, pudemos perceber que a comunidade escolar
enfrenta diversos problemas. Dentre eles, um que nos despertou interesse foi a
violência física expressada por alunos e alunas dentro da escola. A televisão é
apontada pelo senso comum entre pais e professores como um dos meios de
incentivo à violência para as crianças. Essa é uma visão que pode ser
compreendida através de uma simples observação da programação diária dos
canais abertos de televisão. Neles são exibidos muitos programas onde a
violência, em suas diversas formas, é o atrativo principal.
Desse conjunto de fatos e idéias colocados até aqui, surgiu a vontade de
investigarmos as relações entre a mídia e a violência física expressada pelas
crianças.
A percepção da violência na escola não é privilégio único dos sujeitos que,
de alguma maneira, estão inseridos no ambiente escolar, pois a própria televisão e

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a mídia em geral não se isentam da tarefa de divulgar o problema. O que não
acontece, porém, é o interesse dos meios de comunicação em promover a
reflexão sobre o assunto.
Sabemos que em relação à reflexão por parte da mídia sobre a violência na
escola, sua “ausência não é uma falha ou um defeito dos noticiários e sim um
procedimento deliberado de controle social, político e cultural” (Chauí, 2006, p.50).
Quando analisamos os verdadeiros interesses que estão por trás das mensagens
televisivas, é preciso que consideremos o fato de serem, os meios de
comunicação, antes de tudo, uma indústria, e como tal, estarem, inevitavelmente,
comprometidos com o capital.
A televisão, há mais de meio século, vem demonstrando a sua capacidade
de influenciar qualquer indivíduo nas suas tomadas de decisões ou no seu
comportamento em sociedade. É um dos veículos que vêm sendo colocados na
função de domesticar, principalmente aquelas pessoas que não possuem uma
educação voltada para a conscientização e a liberdade, ou seja, a grande maioria
da população.
O homem com liberdade e consciência deveria ser a “tarefa fundamental e
imprescindível da educação” (Guareschi i Biz, 2005, p.19). No entanto, esse não
seria o perfil adequado para o telespectador em potencial do que é apresentado
através da televisão. Os conteúdos dos programas televisivos não apresentam o
que deveriam ser os verdadeiros anseios de uma comunidade livre e democrática.
Ao contrário, transmitem, geralmente, o que é imposto pelo sistema econômico.
Foi estabelecida uma verdadeira parceria entre a mídia e o poder econômico na
tarefa de impedir avanços da conscientização popular.
Abrimos aqui um “parêntese” para emitir uma noção do poder da mídia
através de Bourdieu (1997: p.9), ao afirmar que “a televisão, através do diferentes
mecanismos (...) expõe a um grande perigo às diferentes esferas da produção
cultural, arte, literatura, ciência, filosofia, direito”. Essa citação nos remete a duas
questões importantes em relação à mídia televisiva. A primeira se refere ao que já
afirmamos anteriormente, que é o poder de influência da televisão sobre os
telespectadores. A segunda alerta para o fato de que a televisão, caracterizando-

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se como um tipo de mídia, tem a incrível capacidade de absorver várias outras,
como o cinema, a música, o jornal, a publicidade etc. Mesmo reconhecendo a
fusão de tipos de mídia também em outros meios de comunicação, temos que
considerar que o poder de absorção da televisão é muito maior que nestes outros
meios. A internet é um meio que poderia superar a televisão quanto a esse poder
de absorção de outras mídias, mas não podemos considerá-la ainda como um
meio de comunicação acessível à maioria da população.
Na maioria das vezes, o que está sendo transmitido pela televisão é uma
imposição. A falsa idéia de “liberdade de imprensa”, expressão tão utilizada nos
meios de comunicação, faz com que a população acredite nas “verdades”
transmitidas. A mesma população acaba também acreditando na televisão como
um meio que possa ser utilizado para reivindicar ou mesmo divulgar seus
verdadeiros direitos de cidadãos.
Apesar de tudo, concordamos com Orofino (2005), e pensamos que seria
um equívoco da nossa parte, ter uma visão unilateral sobre a televisão. É preciso
considerar o fato de que através dela, novidades interessantes são apresentadas.
Sabemos também que a população mais pobre, muitas vezes, só tem esse meio
de se manter “informada”, mesmo admitindo que estas “informações” cheguem às
casas dos telespectadores com a versão que interessa à minoria, ou seja, as
elites. A televisão é, portanto, um meio de comunicação capaz de gerar benefícios
para uns e prejuízos para outros, considerando-se as divisões de classe
estabelecidas na sociedade.
Esse aparelho tão presente e ativo na vida moderna, acompanhada de tudo
aquilo que é transmitido, sejam novelas, programas de auditório, desenhos
animados, filmes, telejornais, documentários etc., geralmente é classificado como
um passatempo, e os seus programas, apenas como meros companheiros da vida
diária. Mas essa relação não pode ser interpretada assim, de forma tão simples,
principalmente quando o tempo dedicado à televisão é muito superior ao que é
dedicado a outras atividades. Resende (1989, p.4) nos informa que “Milhões de
crianças, no Brasil, passam, em média, quatro horas diárias diante de um aparelho
de tevê. Tempo equivalente ao que passam na escola”. Mesmo que as crianças

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que investigamos nesse trabalho dediquem um tempo inferior ao que diz a autora
acima à atividade de ver televisão, ainda podemos considerar que a TV não pode
ser vista apenas como um mero passatempo.
Na realidade em que vivemos, crianças e jovens, na construção da sua
personalidade, dos seus costumes, ações e opiniões, tendem a imitar os adultos e
aquilo que assistem. Nesse contexto, elas se deparam com os programas de
televisão, muitos deles revestidos de diversas formas de violência que podem
servir como um modelo a ser imitado. A excessiva exposição de crianças e
jovens à banalização da violência pode ter conseqüências diversas. No entanto,
observamos que é consenso entre a maioria dos estudiosos do assunto que tudo
vai depender da realidade em que vivem essas crianças e jovens.
Ora, se a televisão produz e envia a programação visando uma maior
audiência; se os programas banalizam ou legitimam a violência, ou a tornam um
espetáculo, isso quer dizer que as pessoas, incluindo as crianças, se interessam,
por algum motivo, em assistir à violência.
Como exemplo de “espetáculo” de grande audiência na televisão Chauí
(2006: p. 20) lembra da “transmissão, ao vivo em cores, da Guerra do Golfo, em
1991, transformada em festa de fogos de artifício, sem mortos nem feridos, sem
dor e sem odor. Um entretenimento”. Como um exemplo de legitimação da
violência pela mídia, podemos citar alguns filmes onde o “herói”, com a justificativa
de que está na luta pelo bem, pode matar até um batalhão de pessoas em uma
única cena. Outro exemplo interessante, este afirmando a banalização da
violência é a recente reportagem de um telejornal, que exibia a matéria sobre um
determinado assalto seguido de morte. O assaltante entrevistado se defendia
diante da polícia, dizendo que matou a vítima porque ela reagiu. O telejornal,
simplesmente, tratou de colocar no ar depoimentos de parentes da vítima negando
que esta fosse capaz de reagir a um assalto. Fica implícito assim para o
telespectador que ser assaltado e morto já é coisa normal. O que passa a ser
motivo de discussão é a atitude das vítimas, que são induzidas a não reagir.
Todos os exemplos acima são programas ou matérias com garantia de
audiência na televisão. Tentando compreender essa atração pela violência, tanto a

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real quanto a fictícia, buscamos nos apoiar na explicação de Távola (1985: p.100)
que nos diz que o ataque, expressão da violência física, “não é a verdadeira
doença; é um sintoma no qual a verdadeira doença se disfarça”. Partindo da idéia
desse autor, poderíamos supor que a verdadeira doença seria a soma dos
distúrbios ocorridos em cada uma ou alguma das dimensões do ser humano. Fica
difícil então definir as exatas relações de causa e efeito nessa doença, já que as
dimensões do ser humano também se interrelacionam. Encontramo-nos no
mesmo grau de dificuldade para relacionar a violência à existência ou à essência
humana. Optamos por tentar entender esta questão sob a luz das teorias que
apontam o meio como um fator determinante na vida humana, tal como Spink
(1995) ao dizer que:
“Marx, com o conceito de alienação, instituiu a
irracionalidade humana diante da história; Freud,
com o conceito de inconsciente, instituiu à
,irracionalidade na intersubjetividade. Para
ambos, há uma irracionalidade operante que
interfere nas atitudes e nas compreensões do
homem” (p. 181).

Faz-se necessário identificar quais os fatores que contribuem na formação


do homem. Como isso demanda um amplo e detalhado estudo, definimos a família
como um objeto de interesse neste trabalho. É necessário que se explique aqui, o
que talvez não pareça óbvio, que é o interesse no cotidiano familiar. Para tal
explicação citamos Melucci (2005), quando sugere que uma proposta de análise
da influência da mídia deve considerar o contexto ambiental, e que no caso da
influência da televisão, esse contexto pode ser a situação familiar.
Ora, a família, independentemente do modelo estrutural, da situação
econômica ou outros aspectos observáveis, é ponto comum a qualquer criança,
pelo menos às que freqüentam uma escola regular. A família é de fundamental
importância na educação e consequentemente nas atitudes das crianças. No
entanto, é bem difícil isolá-las entre as quatro paredes de um lar, ou simplesmente
numa dimensão emocional restrita aos laços de convivência dos seus membros.
Dessa forma, elas absorvem todas as influências do meio mais geral, o que vai

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contribuir na qualidade de vida e na educação das crianças, ou seja, a família é a
expressão mais eficaz da ação do meio sobre a criança.
Sabemos que famílias bem “estruturadas” se constituem em fator positivo
na vida das crianças. Resta-nos dar uma definição do que seja uma família bem
estruturada. Para tal definição poderíamos nos utilizar de fatores econômicos,
sociais, culturais, religiosos e outros mais. Considerando todos eles, definiríamos
como família estruturada aquela em que seus membros convivam sob os
sentimentos de respeito mútuo e solidariedade, onde as crianças possam se sentir
seguras e se desenvolver de forma saudável.
Sabemos que um tipo de violência presente entre crianças e adolescentes é
aquela que se expressa pela agressão física e verbal. São elas o motivo de maior
queixa entre pais e professores. Portanto, é por esse tipo de agressividade, mais
especificamente, a agressão física, que nos interessamos para a realização deste
trabalho.
É importante ressaltar que nos referimos à violência representada pela
agressividade destrutiva, aquela que se expressa através do ataque, cujo objetivo
é a obtenção ou manutenção da superioridade de pessoa ou grupos em relação à
outra pessoa ou pessoas. Para alguns estudiosos, existe um tipo de agressividade
construtiva. É isso que diz Feilitzen (2002), quando cita, por exemplo, os ataques
aos males sociais ou a defesa contra a opressão.
Apesar de sentirmos a necessidade de esclarecer essa diferença,
entendemos que mesmo algumas atitudes “justificáveis”, como a autodefesa,
podem constituir-se em agressividade destrutiva. Essas atitudes “justificáveis”
podem funcionar como uma forma de legitimação da violência, gerando um
processo cíclico e crescente.
Ainda na tentativa de definir o tipo de violência que investigamos,
ressaltamos a diferença entre a violência na dimensão simbólica e corporal. Onde
poderíamos afirmar que a primeira se expressa no plano das idéias e a segunda
se expressa no plano físico. Essa última foi o objeto de investigação neste
trabalho.

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O interesse pela relação entre educação e televisão surgiu da compreensão
de que tanto uma quanto a outra são instrumentos de dominação. No entanto,
compreendemos e acreditamos que as mesmas poderiam também ser utilizadas
em favor de uma ação positiva por uma possível transformação social. Esta
possibilidade se mostrou para nós como ponto relevante no conhecimento gerado
pela análise da relação entre mídia e escola. De posse desse conhecimento, a
escola, poderia ter maiores indicadores para planejar ações educativas, não de
opressão, mas que tivessem como objetivo a formação de receptores mais críticos
e ativos em relação aos conteúdos da mídia, no caso específico deste trabalho,
em favor da não violência.
Sabemos que a luta “para que o que deveria ter se tornado um
extraordinário instrumento de democracia direta não se converta em instrumento
de opressão simbólica” (Bourdieu, 1997, p. 13), é uma luta perdida, visto o
comprometimento deste instrumento (a televisão) com o capital. No entanto,
sabendo da forte atração que o “ecossistema digital” (Mclaren, 2000) exerce sobre
as pessoas, principalmente jovens e adolescentes, torna-se necessário considerar
a televisão, sendo o principal meio de comunicação de massa entre essa faixa
etária da população, como mais um recurso na educação escolar. Quando
falamos em educação escolar é evidente que nos referimos àquela que visa o
educando na sua condição de ser coletivo e autônomo.
Para a realização deste trabalho partimos da hipótese de que os alunos que
assistem a mais programas violentos tendem a ser mais agressivos.

METODOLOGIA

A proposta metodológica para esta pesquisa foi predominantemente


qualitativa, porque a mesma proporciona uma observação direta e intensa do
problema, acompanhada de uma interpretação e análise dos dados coletados à
luz do conhecimento científico. Além da observação direta, nos utilizamos do
diálogo com os sujeitos envolvidos no processo, ou seja, alunos e professores, por

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meio de entrevistas semi-estruturadas. Obtivemos também alguns relatos através
de conversas informais com poucos pais. Além disso, identificamos e analisamos
os programas de televisão apontados como os de maior audiência entre os alunos
envolvidos na pesquisa. Resumindo, utilizamos como metodologia, a semi-
entrevista e a observação.
Na pesquisa, visamos abordar professores e alunos do primeiro e segundo
ciclo de uma escola da rede municipal da cidade do Recife que atende em 90% a
alunos do bairro do Coque. O foco da atenção esteve voltado para as práticas que
envolvem a expressão da violência física nos alunos e alunas e os programas de
televisão mais assistidos.
Para se analisar as relações entre mídia e violência escolar, poderíamos ter
optado por qualquer localidade urbana, pois sabemos que a televisão e a violência
são presenças marcantes em quase todas elas, mesmo que diferindo em maior ou
menor grau. Selecionamos uma escola que atende aos alunos do bairro do
Coque, por este ser apontado como uma das localidades com alto índice de
violência da cidade do Recife.
A primeira etapa da pesquisa consistiu em selecionar, com a indicação dos
professores, alunos e alunas que demonstrassem atitudes consideradas violentas
e não violentas. Na seleção, não foram considerados aspectos de gênero, religião
ou outros que pudessem redirecionar o foco de interesse. Não descartamos, no
entanto, a possibilidade de analisarmos estes aspectos que, possivelmente,
surgiriam durante a coleta e análise dos dados. A única ressalva foi quanto aos
alunos e alunas do primeiro e segundo ano do primeiro ciclo. Esses alunos foram
previamente excluídos da seleção para a entrevista. A explicação para isso é o
fato de que estas crianças, estando em sua maioria, entre os seis e sete anos de
idade, ainda não dispõem de uma linguagem clara o suficiente para responder às
questões necessárias.
Os alunos foram entrevistados individualmente com o objetivo de se colher
informações sobre os programas de televisão preferidos; a quantidade de tempo
que dedicam à televisão e sobre outras atividades realizadas fora da escola. Aqui,
a entrevista funcionou como um “suporte de exploração” (Leite, 2002). Com ela

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colhemos, também, informações, mesmos que superficiais, sobre a sua vida em
família. Foi necessário que nessa atividade tomássemos alguns cuidados, como
por exemplo, não induzir o entrevistado/entrevistada ou mesmo limitá-lo às
respostas monossílabas do tipo “sim” ou “não”. Leite (2002, p.261) ainda aponta
para o fato de que nem sempre o que falam os entrevistados é o que acontece na
realidade e que também não é “possível generalizar através de opiniões
pessoais”. Daí a necessidade de nos utilizarmos em alguns momentos da
observação direta do cotidiano escolar. Seria interessante a observação, tanto do
ambiente escolar como do meio familiar, mas essa segunda ação não foi possível,
porque temos que admitir o nosso receio de adentrar na comunidade para
observar e conversar com as pessoas sobre um tema como tão delicado como a
violência. Através das professoras, buscamos algumas informações que
pudessem enriquecer nossos conhecimentos acerca das famílias, visto o contato
escola/família que se mantém ao longo da rotina escolar.
De posse da lista dos programas, houve a necessidade de conhecê-los e
analisar o conteúdo dos mesmos. Nessa análise, buscamos a interpretação e
produção de inferências. Em se tratando de televisão, isso se torna ainda mais
necessário. E nesse sentido, concordamos com Bourdieu quando afirma que:
“A televisão pode, paradoxalmente, ocultar
mostrando (...) o que é preciso mostrar, mas de
tal maneira que não é mostrado ou se torna
insignificante, ou construindo-o de tal maneira
que adquire um sentido que não corresponde
absolutamente à realidade” (1997:p.24).

A próxima etapa da metodologia foi buscar, através de entrevista semi-


estruturada com os alunos, explicações que possam indicar a sua interpretação e
sentimentos construídos em relação aos programas assistidos.
Finalmente, como já foi dito antes, à luz de conhecimentos científicos e das
nossas próprias impressões, o resultado destas entrevistas se constituiu em
material para análise e conclusão. Nesta análise consideramos Melucci (2006: p.
198) quando lembra, a respeito da pesquisa sobre mídia, que “o esforço dos
pesquisadores é voltado para dar sentido ao modo pelo qual os atores dão sentido
para conteúdos ou fenômenos midiáticos, que, por sua vez, representam modos

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específicos de dar sentido ao mundo”. Não se trata de uma análise simples, mas
de uma teia de significados que devem ser tratadas com todo o cuidado, para não
haver o risco de interpretações e resultados falhos.
Pretendemos que este trabalho retorne para o local de origem, ou seja, a
escola, onde realizamos a pesquisa. Consideramos que esse retorno seja
essencial, tendo em vista a relevância social desta ou de qualquer pesquisa
educacional.

O CONTEXTO DA ESCOLA, FAMÍLIA E BAIRRO

A escola selecionada para a pesquisa trabalha com o primeiro e o segundo


ciclo do ensino fundamental e com algumas turmas de Educação infantil. Está
situada no bairro do Cabanga. Esse bairro não se caracteriza pela pobreza
generalizada, portanto não é dele que vêm os alunos da escola, salvo alguns que
não devem alcançar a porcentagem de 5%.
Junto ao bairro do Cabanga existe uma pequena favela denominada de
Fuxico, onde as pequenas casas se espremem uma nas outras e as ruas são tão
estreitas, que o único veículo capaz de transitar por elas é bicicleta ou motocicleta.
O Fuxico é um lugar marcado pela pobreza e de acordo com alguns relatos da
comunidade escolar, abriga algumas pessoas envolvidas com o crime. Alguns
alunos da escola são oriundos do Fuxico. Um quantitativo de 5%.
A grande maioria (90%) das crianças da escola onde realizamos nossa
pesquisa é moradora do Coque. O que separa geograficamente os dois bairros é a
Avenida Imperial, a Avenida Sul, uma linha do metrô e uma ferrovia. O coque está
situado na Ilha de Joana Bezerra e assim como o Cabanga, fica entre os dois
maiores centros comerciais da cidade do Recife: Boa Vista e Boa Viagem.
De acordo com a Empresa de Urbanização do Recife, o Coque tem 40 mil
habitantes, dentre os quais alguns são parcialmente atendidos nas necessidades
básicas de água, luz e saneamento e outros vivem no mais completo abandono.
57% da população sobrevivem com uma renda mensal entre meio e um salário

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mínimo. Esta é uma das áreas com maiores índices de violência no estado de
Pernambuco. Sabemos que o bairro não dispõe de praça, parque ou outro espaço
de lazer infantil.
O Coque possui outras escolas, municipais e estaduais, que atendem
estudantes da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, mas de acordo com
alguns relatos, alguns pais preferem se deslocar para o Cabanga porque
consideram que assim os filhos se manterão um pouco mais afastados das
situações de violência. Consideramos que diante das poucas possibilidades de
escolha das famílias, elas tentem o que lhes é possível. No entanto, as crianças
que estudam nessa escola não estão tão livres assim da violência, pois a mesma
já sofreu duas vezes a invasão de assaltantes armados: uma no horário de aula,
com todas as crianças vivenciando a cena e outra depois do horário de aula,
quando só restavam poucas crianças na escola. Além disso, o caminho que as
crianças percorrem de casa para a escola não está protegido de ações de
marginais que atuam na área e dos possíveis conflitos destes com a polícia.
Lembramos ainda que o tempo que as crianças passam na escola é bem inferior
ao que passam em casa.
A escola é pequena, com oito salas de aula, laboratório de informática, área
livre para brincadeiras, biblioteca, diretoria, sala de professores, cozinha e
banheiros. Os professores apontam como um dos maiores problemas enfrentados
na rotina escolar, a agressividade dos alunos. Essa característica está citada no
Projeto Político Pedagógico, com algumas ações planejadas com o objetivo de
minimizar o problema. Os alunos não têm aula de Educação Física por falta de
profissionais e de espaço adequado para a prática de esportes. A área livre não
oferece essa estrutura.
A equipe de professores valoriza o trabalho com arte e projetos que
envolvam a escola como um todo, acreditando que essa é uma maneira de
sensibilizar as crianças para a solidariedade e elevar sua auto-estima. Eles
acreditam que essa seja uma possível forma de minimizar o problema da
agressividade.

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De acordo com os relatos das professoras, as crianças violentas expressam
agressividade de maneiras diferentes. Uma delas é na hora das brincadeiras,
realizando o jogo simbólico, quando lutam, quando imitam ações de bandidos e
policiais ou personagens fictícios ou mesmo quando assumem uma posição de
poder em brincadeiras simples como pega-pega. A outra forma é nas relações do
dia-a-dia, quando entram em conflito entre elas. Geralmente, nesses momentos
não usam o diálogo para resolverem tais conflitos e praticam agressões físicas ou
verbais. As agressões verbais, por sua vez, são revidadas e o atrito muitas vezes
atinge o auge, que é a agressão física. Em algumas ocasiões, as próprias
brincadeiras agressivas passam do simbólico para a realidade quando alguma
ação ou reação não é tolerada.
Durante a coleta de material para análise, entrevistamos 10 crianças do
turno da manhã e 20 crianças do turno da tarde, num total de 30 crianças, entre as
quais, 16 são consideradas violentas e 14 não violentas. Como critério para
seleção dos alunos violentos e não violentos solicitamos às professoras que nos
indicassem alunos que praticam e não praticam agressões físicas.
As professoras indicaram como motivo da violência expressada pelas
crianças, a insegurança, a baixa-estima e a intolerância gerada pela educação da
família e o meio. Elas nos relataram que é comum ouvirem das mães que não
admitem que seus filhos sejam machucados por um colega e que a escola não
tome nenhuma atitude. Essas mães confessam que ensinam aos filhos a revidar
qualquer tipo de agressão. É comum entre muitas delas considerarem que deixar
o filho ou filha sofrer uma agressão sem revidar seja educar um fraco. Todas as
crianças identificadas como agressivas consideram esse argumento muito justo.
Destacamos aqui a importância da família como agente social em favor da
intolerância, que por sua vez é um dos fatores que pode vir a gerar violência.
Não é de se estranhar que a baixa-estima e a intolerância sejam marcantes
em crianças que vivem em um meio tão marcado pela pobreza e violência.
Justificando essa relação, Bourdieu (1998, p.49) nos diz que “segundo um
processo circular, um moral baixo engendra uma perspectiva temporal ruim, que,
por sua vez, engendra um moral ainda mais baixo”. Isso se percebe não apenas

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nas atitudes das crianças, mas nas dos adultos também. O mesmo autor avalia
que os ascendentes familiares devem ser considerados na análise de influência do
meio.
Nossas entrevistas com as crianças nos deram a indicação dos programas
assistidos, dos quais, a maioria é direcionada ao público infantil. Para uma análise
dos dados recolhidos, torna-se necessário citar alguns aspectos observados
claramente e outros inferidos a partir das falas das crianças.
Das crianças entrevistadas, 25 afirmaram que quando estão em casa
preferem brincar a ver televisão. Das cinco crianças que preferem ver televisão
nenhuma é violenta. As brincadeiras preferidas citadas são bem populares, longe
da imitação dos personagens de filmes e desenhos. Algumas, como pega-macaco
e pega-congelou foram mencionadas também pelas professoras como
brincadeiras realizadas na escola, e onde, às vezes, as crianças se utilizam da
agressividade. Não percebemos na fala dos alunos e alunas nenhuma referência
ao desejo de imitar personagens de televisão.
Outro dado importante nessa pesquisa é que no turno da manhã 2 crianças
participam do projeto social LAR (Legião Assistencial do Recife) que ocorre em
todas as tardes, de segunda à sexta, sendo uma violenta e outra não violenta.
Ainda neste turno, 1 criança considerada violenta relatou que trabalha durante 1
hora, todas as tardes, em uma oficina de bolsas de papel. Outras 4 crianças
participam de espaços de ampliação da aprendizagem (reforço escolar), todas as
tardes, fora do ambiente escolar, mas não sabendo quantificar o tempo. No turno
da tarde, 2 crianças consideradas violentas, participam do projeto social da LBV
(Legião da Boa Vontade) que ocorre durante todas as manhãs de segunda à
sexta. Outras 2 crianças não violentas deste turno participam de um espaço de
ampliação da aprendizagem que funciona na própria escola e que acontece 2
vezes na semana no horário da manhã, com a duração de 1 hora. Os projetos
sociais citados têm a duração de 4 horas diárias em cada turno e as crianças que
participam deles são autorizadas a ver televisão quando terminadas as atividades.

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Os dados apresentados acima nos dão a indicação de que a televisão não
é atividade principal realizada pelas crianças no horário em que estão fora do
espaço escolar.
As crianças conseguiram relatar mais ou menos a sua rotina, mas contar a
quantidade de tempo que passam diante da TV pareceu algo abstrato e difícil para
muitas. Não foi possível quantificar o tempo exato que cada criança dedica à
televisão, mas pudemos ter uma noção aproximada de acordo com os programas
assistidos de segunda à sexta-feira, conforme as tabelas abaixo:

TEMPO QUE AS CRIANÇAS VIOLENTAS FICAM DIANTE DA TV DE SEGUNDA À SEXTA-FEIRA


CRIANÇA A B C D E F G H I J L M N O P Q
TEMPO 20” 1’40” 1’10” 3’ 1’50” 1’40” 1’40” 3’ 1’40” 3’ 1’20” 1’ 1’20” 3’ 2’ 2’20”

TEMPO QUE AS CRIANÇAS NÃO VIOLENTAS FICAM DIANTE DA TV DE SEGUNDA À SEXTA-FEIRA


CRIANÇA A B C D E F G H I J L M N O
TEMPO 1’40” 20” 3’20” 4’40” 3’ 3’40” 4’40” 1’50” 1’ 4’ 2’ 1’20” 3’40” 3’

Diante dos dados acima pudemos dizer que a média de tempo que as
crianças violentas passam diante da TV (1’52”) é menor que a média de tempo
das crianças não violentas (2’43”). Apesar disso, percebemos também que nem
todos os programas assistidos são preferências das crianças, já que 3 crianças
afirmaram claramente que só assistem a determinado programa porque é o adulto
quem o escolhe. Além disso, o fato de 15 crianças afirmarem que assistem
televisão acompanhados de adultos, associado a um outro fator, que é o número
de aparelho de televisão em cada casa (média 1,5) nos faz pensar que as
crianças nem sempre assistem ao que preferem, mas é possível que muitas citem
apenas o que preferem. Esse é um dos aspectos que foi considerado na nossa
análise.
Consideramos importante analisar também a programação que as crianças
assistem durante o final de semana, visto que, mesmo que o tempo e os
programas sejam diferenciados, elas ainda estão no papel de receptores
influenciáveis da mensagem televisiva.

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TEMPO QUE AS CRIANÇAS VIOLENTAS FICAM DIANTE DA TV NO FINAL DE SEMANA
CRIANÇAS A B C D E F
TEMPO 3’20” 5’30” 5’30” 1’30” 1’ 1’

TEMPO QUE AS CRIANÇAS NÃO VIOLENTAS PASSAM DIANTE DA TV NO FINAL DE SAMANA


CRIANÇA A B C D E F G H I
TEMPO 4’30 1’ 1’30” 4’ 1’ 1’ 4’30” 2’ 1’50”

Pudemos observar que no final de semana a média de tempo (2’58”) que as


crianças violentas passam diante da TV é maior que a média de tempo (2’22”) das
crianças não violentas. Não conseguimos perceber o motivo que leva a essa
diferença. Outro ponto importante a ser destacado é que os programas assistidos
durante o final de semana contêm pouco conteúdo de violência física, conforme
mostra a seguinte tabela.

PROGRAMAS MAIS ASSISTIDOS DURANTE O FINAL DE SEMANA


PROGRAMAS NOVELA DOMINGO FILMES DOMIGÃO DO ZORRA TOTAL
LEGAL FAUSTÃO
QUANTIDADE 5 3 3 2 2
DE CRIANÇAS

Como a programação do final de semana é diferenciada e nem todas as


crianças disseram que assistem a essa programação, além de não haver
diferenciação entre os programas das crianças violentas e não violentas,
consideramos que não seria necessário fazer uma análise desses programas.
Existe ainda outro motivo que nos levou a essa exclusão. Pensamos que um
programa que é exibido todos os dias, de segunda a sexta, contabiliza mais tempo
do que aquele que é exibido apenas no sábado ou no domingo.
Conseqüentemente, esse programa tem maior poder de influência sobre a criança.

OS PROGRAMAS MAIS ASSISTIDOS DE SEGUNDA À SEXTA

Para melhor compreensão da relação entre as atitudes agressivas das


crianças e a televisão é preciso que se exponham aqui nossas próprias

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impressões e análise dos programas mais assistidos de segunda à sexta. A tabela
abaixo mostra esses programas mencionados por todas as crianças pesquisadas,
sem considerar as diferenças de comportamento.
PROGRAMAS MAIS ASSISTIDOS DE SEGUNDA À SEXTA-FEIRA
PROGRAMA TELENOVELAS TELEJORNAIS TV PICA- CHAVES BOM POWER SCOOBY
XUXA PAU DIA E RANGERS DOO
CIA
QUANTIDADE 12 8 8 7 4 3 3 3
DE CRIANÇA

É importante ressaltar que no programa TV Xuxa estão incluídos outros


desenhos que serão mostrados na tabela dos programas preferidos. Além disso,
consideramos como noticiário todos os programas de caráter jornalístico. Quanto
às novelas, não classificamos por nomes, já que todas seguem o mesmo padrão.
Nas entrevistas realizadas com as crianças, além de perguntar quais os
programas que assistem, procuramos saber quais os preferidos. Os resultados
obtidos aqui revelaram uma sutil diferença na preferência, de acordo com o
comportamento das crianças. Alguns programas mesmo que tenham sido citados
por apenas uma criança só aparecem em um grupo específico. O importante
nessa observação é o conteúdo dos programas aos quais estamos, ou seja,
crianças violentas tendem, na maioria das vezes, a preferir programas mais
violentos e vice-versa. Esses dados podem ser confirmados nas tabelas abaixo.

PROGRAMAS PREFERIDOS
PELAS CRIANÇAS VIOLENTAS DA MANHÃ E TARDE
PROGRAMAS QUANTIDADE DE CRIANÇAS
POWER RANGERS 6
TELENOVELAS 5
HOMEM ARANHA 2
TOM E JERRY 2
CHAVES 2
AS TRÊS ESPIÃS 2

TELEJORNAIS 2
ATOM 1
PICA-PAU 1
X-MAN 1
JACK SHAN 1
SUPER PODEROSAS 1
FLINTSTONES 1

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PROGRAMAS PREFERIDOS
PELAS CRIANÇAS NÃO VIOLENTAS DA MANHÃ E TARDE
PROGRAMAS QUANTIDADE DE CRIANÇAS
TELENOVELAS 4
PICA-PAU 4
BOB ESPONJA 3
CHAVES 2
SCOOBY DOO 2
JOGOS 1
TELEJORNAIS 1
AS TRÊS ESPIÃS 1
TV XUXA 1
MORANGUINHO 1

Para melhor compreensão da relevância em considerar programas que


aparecem em um grupo e no outro não é necessário a explicação do conteúdo dos
mesmos. Como neste trabalho não é possível analisar cada programa
individualmente buscamos analisá-los de acordo com características em comum.
Além disso, para descrever e analisar os programas citados, partimos do
pressuposto de que todos, além da inegável intenção de servir como
entretenimento, visto o interesse da industria cultural pela audiência, são
produzidos com a competência de quem sempre tem outros interesses, além de
divertir e informar. Sabendo que algumas mensagens televisivas são transmitidas
de forma indireta e do poder de alcance das mesmas, concordamos com Zuin
(1999, p. 96) quando este afirma que “as alusões podem ter um poder bem maior
do que as informações explícitas”.
Os programas Power Rangers, Homem Aranha, Atom, Jack Shan, X-man e
Super Poderosas só apareceram como preferidos das crianças violentas. Todos
eles seguem o mesmo padrão: os personagens principais, em nome do bem lutam
contra forças do mal e terminam sempre vitoriosos. A violência pelo bem é sempre
justificada.
Outros programas (Bob Esponja, Chaves, Scooby Doo, Os Flintstones e
Tom & Jerry) com certo teor de violência aparecem nos dois grupos, ou somente
no grupo das crianças não violentas. Esses programas não são caracterizados
pela luta justificada do bem contra o mal, mas os personagens, frequentemente,
se vêem em situações onde se acidentam, se machucam ou brigam entre si. Seus
corpos são desmanchados, cortados, inchados, esmagados sem que haja
conseqüências. Em questão de segundos, tudo volta ao normal.

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As telenovelas foram programas preferidos dos dois grupos, com maior
número no grupo dos alunos violentos. Isso comprova o que afirma Guareschi
(2005, p.182) sobre o fato de serem as telenovelas “os programas mais assistidos
pela população”. Estamos reafirmando que as crianças só assistem a alguns
programas porque os adultos assistem. As telenovelas, como já foi dito, seguem o
mesmo padrão. Algumas com um nível de violência explícita maior que as outras,
mas a maneira como determinam padrões de família, comportamento e
preferências, se convertem numa violência implícita.
Os telejornais foram apresentados como uma das preferências dos dois
grupos, sendo mais citado pelas crianças violentas, não em um número
significativo. Quando perguntamos sobre os programas assistidos, oito crianças
disseram assistir a telejornais. Dentre essas oito, seis assistem ao programa
Bronca Pesada. Mesmo os que assistem a outro telejornal, disseram claramente
que gostam porque passa muita coisa violenta.
Os telejornais, como já foi dito no início desse trabalho, assumem uma
postura de indignação diante da violência ao mesmo tempo em que a tornam um
espetáculo em busca da audiência ou a banalizam e a legitimam.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste trabalho analisamos a influência da mídia sobre as atitudes violentas


das crianças.
Considerando os dados analisados na pesquisa, podemos obter duas
conclusões. A primeira considera o tempo que a criança passa em frente à TV. A
segunda considera a preferência da criança por determinados programas. Com
relação à primeira conclusão, podemos pensar que, se as crianças violentas,
durante a maior parte da semana passam menos tempo diante da TV do que as
crianças não violentas, isso significa que só o fato de assistir à TV não é causa
para o aumento da agressividade.

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Quanto à segunda conclusão, essa diz respeito a uma diferença entre os
programas preferidos pelos dois perfis de criança entrevistada. Ressaltamos que
essa diferença acontece em relação à programação televisiva de segunda à sexta-
feira. É uma diferença sutil, considerando-se a análise cuidadosa de cada
programa, visto o grau de violência explícito e implícito, mas pode ser uma
indicação de que as crianças mais agressivas é que preferem os programas mais
violentos. A explicação para essa preferência pode ser buscada em uma outra
proposta de pesquisa, já que não é o objetivo deste trabalho.
De acordo com os resultados observados acima, podemos dizer que a
televisão funciona como um instrumento de legitimação da violência, colaborando
para um processo cíclico, o que não deixa de ser uma influência. Violência gera
violência e onde ela começa ou vai terminar é impreciso.
As mensagens consumistas da televisão que desconsideram as
desigualdades sociais e econômicas, em longo prazo, se constituem em uma das
formas de incentivo à violência, seja pela revolta de não poder ter o que,
supostamente, é essencial à vida moderna, seja pela vontade de ter a qualquer
custo.
De acordo com tudo o que já foi afirmado neste trabalho, não podemos
desconsiderar o papel deliberado da televisão em influenciar a população com
interesses econômicos da elite, mas talvez não seja seu interesse influenciar
diretamente a violência, já que a TV possui outros modos de ação, ou seja,
influenciar de forma indireta. Se a televisão atua há mais de meio século, isso
significa que gerações anteriores podem já ter sido influenciadas de forma mais
direta. Nesse caso é obvio que além da ação da televisão, as crianças sofrem
influencias diretas da própria família.
As crianças precisam de um referencial no processo educativo. Segundo
Silva (2004) nas situações de conflito, de impasse, a criança precisa de um adulto
para definir regras e limites. Na pesquisa realizada, concluímos que as crianças
que passam mais tempo diante da TV, ou seja, as não violentas, são aquelas que
têm um maior acompanhamento de um adulto. Isso significa que a família pode
ser mais estruturada, diferentemente daquelas que deixam os filhos entregues à

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liberdade sem limites das brincadeiras na rua. Essa idéia consiste numa hipótese
passível de ser ou não comprovada em pesquisas posteriores na educação.
Tanto a família como a escola só se preocupam com os programas onde a
violência é explicita e física, mas como essa não é predominante na programação
televisiva, é preciso que se tenha a consciência do que está implícito na maior
parte da programação. Por isso, concordamos com vários autores sobre a
necessidade de uma educação para a mídia, que deve começar na família e
continuar na escola, o que sabemos, esbarra no projeto de dominação das classes
populares pelas elites.
Para concluir, gostaríamos de afirmar nossa concordância com Bourdieu
(1998) sobre o fato de ser uma ficção a idéia de que os meios de comunicação de
massa teriam a capacidade de homogeneizar os grupos sociais. Sabemos que o
meio em que vivem as crianças é fator determinante na construção das suas
personalidades e que a televisão, sem dúvida, é uma parcela desse meio, com um
poder de influência claramente reconhecido, mas que age em conjunto com outros
fatores. O que não se comprovou nessa pesquisa é a influência direta em favor da
violência física.
A televisão, com seus interesses e comprometimento com o capital, decerto
é comandada por mentes muito mais sofisticadas e inteligentes do que aquelas
guiadas pela emoção que leva à “barbárie”. Portanto, não consideramos que seja
surpreendente o resultado da nossa pesquisa.

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REFERÊNCIAS

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Catani (organizadores). Petrópolis: Vozes, 1998.

_______. Sobre a televisão. Pierre Bourdieu; tradução, Maria Lúcia Machado.


Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

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2006.

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Feilitzen e Catharina Bucht; tradução de Patrícia de Queiroz Carvalho Brasília:
UNESCO, SEDH / Ministério da Justiça, 2002.

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saber sobre a mídia. Pedrinho Guareschi, Osvaldo Biz. Petrópolis: Vozes, 2005.

LEITE, Carlinda Maria Faustino. O currículo e o multiculturalismo no sistema


educativo português. Coimbra: Fundação para a ciência e a tecnologia, 2002.

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para o novo milênio. Peter McLaren. Trad. Márcia Morais e Roberto Cataldo
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Petrópolis: Vozes, 2005.

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participação e visibilidade. Maria Isabel Orofino. Guia da escola cidadã.
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RESENDE, Ana Lúcia Magela de. A tevê e a criança que te vê. Ana Lúcia
Magela de Resende e Nauro Borges de Resende. São Paulo: Cortez, 1989.

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SPINK, Mary Jane P. O conhecimento no cotidiano: as representações sociais


na perspectiva da psicologia social? Mary Jane P. Spink (org). São Paulo:
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TÁVOLA, Artur da. Comunicação é mito: televisão em leitura crítica. Rio de


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22
ZUIN, Antônio Álvares Soares. Indústria cultural e educação: o novo canto da
sereia. Campinas, SP: Autores Associados, 1999.

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