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Pat Roy Mooney .

o escândalo das sementes

o domínio na produção de alimentos

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o Escândalo das Sementes

LEIAI UM PAis SE FAZ COM

HOMENS E LIVROS

GN SEBO

Sebogordoemogro.Uvronouta com br WWoN .eslantevl rtual.com. br/gnsebo

FONE: [53) 84040356 Pelotas. RS

Dados de Catalogaçao na Publlcaçllo (CIP) InternaCional

(Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

M812e

81.0394

Mooney, P.uicl< Roy, 1947.

o e,tindllll du

lem""lC" o domÚli" na proJução de a1irr,,:moJ/

1'.1 Roy Mooncy; ltl<lUç£o c prefkio AdillOll D. Pucho.:l: Ipn:o:enLaçlo

10m A. Luuenberget. -Si" 1'.".]0: Nobel, 1987.

ISBN 8S.213-0470-6

1. P1aml' • aaroCOl de genes 2. 1'Lo.nlu _ Mo1lKnmallo

gen&,ioo

J. Sc:m"nl~4. Semente. -1nd~llri. c ~fÇio S. Scmenle,_

Patentes I. TfLulo. lI. TlUlIo: O dornln,o na produçlo de &1irnenu•••

CDD-6JI.S21

-338.171521

-631.S2Ill272

-6JI.S

,"dlee. par. catálogo .rsteméllco:

I.

BMOUIde &""CI~ Plllnlas: Agriwllu •.•.631.53

2.

Indústria de lemon!el : Economia 338.111521

3.

Dom!nio ••• produçIo de .lin'enlos : Ágric:u.hu •.•. 631.S210272

4.

PllJlun: Me1hor&nienlO &I:!l!lico: Arncuhur. 631.53

5.

Semenlc:&: Ágricullu •.•. : PucnLU 63 .s210m

6.

~cnla : Produçlo: AgrirolwI'I 631.521

l':quipe tU P,odllÇ<1o:

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M.ri. Vie;tI de FfÇ;las. Luiz Roberto de Godoi Vida!. He1dco"G&rmco.Mlri. Aparecida Amatal.

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PAT ROY MOONEY

Membro e porta-voz oficial da Jlltem,llional CoaJitioo for Dcvclopmem Acuon _ IeDA

o Escândalo das Sementes

o domÚlio na produção de alimentos

Traduçao e Prefácio

Adilson D. Pasehoal Professor Adjunto da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queirozw • USP Ph. D. em Ecologia e ConservaÇllo de Recursos Naturais

Apresenlaçâo

José A. Lutzenberg

Engenheiro AgrÔnomo Ecologista

l!i edição

1~reimpressão

1987

Nobel

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Publicado originalmente em inglês sob o título:

SEBOS DF THE EARTH - A Private ar Public Resource7

Cc) 1979 Canadian Council for Intemational Co-operation

(c) 1986 Livraria Nobel S.A.

Direitos

para a ll'ngua portuguesa reseIVados para:

Livraria Nobel S.A. R. da Balsa, 559

02910 - São Paulo - SP

É PROIDIDA A REPRODUÇÃO

Nenhuma pane desta obra poderá ser reprodu~ida sem a penniss~o por escrito dos editores alravés de qualquer melO: .xerox, fotoc6~la, fotográfico, fotomecânico. Tampouco (lOderá sc:r ~oplada ou lr~scnta, nem mesmo transmitida através dos me~os eletromcos ou gravaçoes. Os infratores serão punidos através da Lei 5.988, de 14 de dezembro de

1973, artigos 122-130.

Impresso no BrasiVPrinted in Brazil

Agradecimento

Várias centenas de pessoas estiveram envolvidas neste projeto. O grupo de trabalho gostaria de mencionar as contribuições de Bob SeDU e Ross Mountain, na Europa; Gary Nabhan e Terry Murphy, nos EUA;

Tim Broadhead (Inter Pares) e Nelson Coyle (Ceie) em Ottawa;

Robert Morrisson, Ocaham Simpson, Lee Anne Hurleberl, Laurie Beingessner e Helmut Kuhn do SCIe em Re~ina; e Maureen Hc.llingwonh, que publicou o documento. Agrad'SClmentos especiais são também devidos ao Graham Centre - em Wadesboro, Carolina do Norte, EUA - pela publicação do notável e muito recomendado Diret6rio de Sementes, de CarY Fowler.

Contudo, esta é uma publicação não encerrada. N6s agradeceríamos quaisquer comentários, observações e/ou contribuições. Por favor, escreva:

NC PlU R. Mooncy

R.R. /I I Brandon

ManilOba, Canadá.

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I

Apresentação

Prefácio

Sumário

Introdução

Parte 1 • A Situação das Sementes

Copfrufo 1 • As Nações "Ricas" e as

Nações 11 Pobres" de 1.1 Origem comuns

1.2 O grau de interdependência

Copltu102 • A Erosão Genética

2.1 O processo de "erosão"

2.2As liçõesda Hist6ria

2.3 As lições continuam

2.4 Espécies silvescres

Capftulo 3 - Conservação Genética

Genes

3.1

A "rede"de conservação

3.2

Armazenagem, prisão ou túmulo?

Parte 2 - A Revolução das Sementes

CapftuJo 4 - A Revolução

Verde

4.1 História e finalidade

4.2 Críticas

Capftulo 5 - A Revolução das Sementes

5.1 Elementos da fase 11

Capftulo 6 - Os Novos Donos das Sementes

6.1 O "romance dos comcfcradores"

6.2 Quem são os novos anos das sementes?

6.3 Significado dos direitos dos melhoristas de flantas

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62

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Parte 3 - Legislação Varietal Restritiva

capftu/o 7 - Implicações da Legislação Varietal Restritiva

7.10 elo dos recursos genéticos

7.2 Melhoramento público versus melhoramento privado

7.3 A confusão nonnativa

Capftu/o 8 - Tendências no Melhoramento Corporativo

8.1 A tendência "PUP" (Produtividade, Unifonnidade Processamento)

82 A tendência pelo híbrido

&.3 A tendência das patentes

8.4 A tendência química

Capftulo 9 - Aprendendo com a Experiência

das Companhins

9.1 Aprendendo com a experiência agroqufmica

9.2 Aprendendo com a experiência fannacêulica

Resumo

Post.scriptum

Apêndice A

Apêndice n

VIa

75

, .~",Apresentação

77

77

A indústria dos agrotóxicos gosta de alardear que lhe custa até cem

milhões dólares e que leva até dez anos para colocar no mercado um único de seus pesticidas novos. Apresenta este fato como prova de seu altruísmo, de sua disposição ao sacrifício, diante da tremenda tarefa que

94 a humanidade hoje enfrenta para alimentar os bilhões que já somos e os que estão por vir.

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101

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lOS

109

Mas esta pretensão é uma mentira infame. As verdadeiras soluções para o problema da fome são simples, baratas, acessíveis e quase tmediatas. Por isso mesmo, não interessam à tecnocracia. Esta, para sobreviver e ampliar constantemente seu poder, precisa criar depenncias. Necessila de produtores e consumidores inseridos em imensa infra.estrutura tecnol6gica, da qual dificilmente escapam.

118

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Aquelas imensas somas e o tempo investidos na preparação dos

agrotóxicos nada têm a ver com idealismo. O que a indústria procura, não são soluções fáceis para o agricultor, ecologicamente harmônicas,

baratas e sãs para o consumidor. O que ela procura são produtos

patenteáveis. Para isso não importa gastar milhões. Uma vez patenteado

e registrado, o agrotóxico pennite faturar bilhões.

.

142

Vejamos um exemplo concreto:

Em plantações de café, banana, seringueira, pomares cítricos e

e

outros, vamos deixar de lado o herbicida que promove erosão

prejudica a microvida do solo. Vamos também substituir os adubos sintéticos solúveis, que igualmente pisam a microvida e que afetam o metabolismo da planta, por adubos minerais insolúveis, tais como fosfatos naturais, escórias, cinzas, ou mesmo rochas moídas. Em vez de manter o solo nu. vamos manter uma boa cobertura verde de ervas nativas, entremeadas de leguminos:4s, como ':-evos, tremoços, vicas e outras. Aplicaremos também, se çossível, uma boa adubação orgEi':\::l>. bem humlficada. Em alguns casos a cobertura verde poderá ser mantida curta pelo pastoreio de ovelhas ou gansos ou mesmo de gado, no ;;aso de árvores grandes, como seringueiras ou nogueiras. Verificamos, então, que nossas' plantas serão mais sã!:, mais produtivas com menos -.:::cm.iO, as frutas serão mais gostosas, t~rão mais dil'ra.ção e, como por • encanto, as pragas estarão desaparecIdas ou reduzidas a um mvel

insignificante.

IX

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o técnico que aconselha0 agricultor neste sentido, terá seu salário,

se for do Estado, ou honorário. se for autônomo, viverá bem, mas não ficará rico. Os agricultores acabarão passando adiante, entre eles,

gratuitamente. a informação. Este tipo de informação não é patenteável.

E claro que métodos Como estes, para a grande tecnocracia, são

subversivos, precisam ser combatidos. Observe~se o élao com que a

indústria qUlmica procura ridicularizar e combater a agricultura biológica. melhor definida como agricultura regenerativa.

Os adubos sintéticos solúveis e os herbicidas são excelentes

ou

diminuição da microvida do solo, a planta se desequilibra metabolicamente. Assim, ela se toma presa fácil das pragas que procuram,justamente, plantas fracas. O agricultor se torna então cliente

instrumentos

de criação de dependência.

Com a destruição

de sempre

mais química

- inseticidas,

fungicidas, acaricidas,

nematicidas

e outros biocidas. As doenças crônicas e agudas na

população, conseqüência do ambiente e do alimento envenenado, aumentam também o consumo de remédios. Tudo isto é fornecido pela grande indúsu;a química.

Esta mesma indústria se prepara agora para apenar ainda mais o cerco da dependência. Começa a açambarcar as sementes. São poucas as empresas de produção de sementes que ainda não estão sob controle da indúsu;a dos agrot6xicos. O alvo é claro. O que se pretende é controlar a pesquisa genética, conlrOlar os cultivares, a ponto de gammir mercado total para a agroquímica.

estão sendo apresentadas

variedades de soja resistentes

a

determinados herbicidas. Herbicida e soja são produtos da mesma firma! Não tardará, aparecerão variedades de soja que não mais nitrogenada aceitarão o riz6bio na raiz, que, por isso, necessitarão de boa adubação

Caso a indústria dos agrot6xicos consiga controlar completamente a indústria de sementes e impor legislação que lhe penruta patentear cultivares, ela terá quase o controle tOlal da agricultura, que é o que almeja. Imporá, então, à agricultura seus "pacotes tecnol6gicos" fechados. Algo semelhante ao que acontece com os tristes campos de concentração de galinhas, muitos dos quais já proibidos de usar ração pr6pria, produzida e formulada pelo agricultor. O dono do aviário só tem a ilusão de ser empresário autônomo; na realidade, é empregado sem garantia de salário e sem previdência social, todos os riscos estão com ele, todas as vantagens com o frigorífico.

x

Se a química conseguir controlar a semente, .não, tar:darão a ap~r

tendências no semido de unir agroqufmica com mdustna de maqum a agrícola

Não podemos deixar que isto aconteça. Esta~ tendências de,:e~ ser abafadas na raiz. Pat Mooney tem o g:-ande ménto de ter pesqUls o ~ que está acontecen~o ~ de ter denunciado ao ~unfdoA~i1t;~~~ai~~o~1 tecem Para n6s sao Importantes as que o ro. apont~ em seu prefácio e que, felizmente, foram debeladas, mas que poderão ressurgir a qualquer momento.

O caro o das sementes, agora entrosado com a agroquímica, ~

apenas umPdoscampos da. tecnologia modeb"a n3 qU~ ~~n:~~c~~~r;ãO

o confronto das tecnologiaS duras com as f3.!l a.s.

importa se nacional ou multinacipnal, se C~Pltallsta ou CO~U~l:~SS à

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rocura impor técmcas que Cimentam seu po e .

~~~fendad;~à ~obreViVê!lCiada espéc;ie r h~m~nan~~~~;fd~d~~e~i~n~cd~ concebidas e desenvolVidas para satIS açao e entrosamento ecológico.

.

'm,',',v,s O que importa neste

ma

técnica dura pode ser primitiva e uma branda altamente complexa. O qde

importa é o alvo que a técnica procur~ alcançar. Em c4:a~as?g~~~:nt~ nos perguntar - a quem benefic}a. ?em quem p . importante é perguntar - será sustentavel.

. contexto não é a maior ou a menor sofistlcaçao tecno gtca.

Isto não significa volta a t nlcas pn

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O que hoje acontece na agricultura, além de socialmente injusto d é

~~bf~;;;~á~el~l~ã~tE~~~~s p~â~:,~a~O~~i~~~~mCe:: :s~~~j~~~nnt~

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pecáveiS e nao podemos continuar

~~~~~~e:Jo ~~~~~ell~:~ o capital genético de nossos cultivares.

. venha a desencadear a necessária ação polftlca.

está acontecen o e que es eJam

Precisamosdde bons po,l!tiCOdS"qspU~s~~~~abrigc:f.E~~::g~e ~~~eo1i~~~

].o.neiro/1987

J. A. Lutzcnbcrger

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Fevereiro de 1977. Pelos corredores do Instituto Agronômico de Campinas (SP), uma das mais tradicionais e renoQladas instiluições de pesquisa agrícola do país, principalmente na área de melhoramento de plantas, uma estranha circular, não protocolada. passa pelas mãos de uns poucos pesquisadores. No seu conteúdo o anteprojeto da "Lei de Proteção aos Cultivares", elaborado pela Sociedade Brasileira de Produtores de Sementes (Abrasem), para o qual eram solicitadas opiniões, críticas e sugestões como subsídios para a realização do documento final a ser c;ncaminhado ao Congresso Nacional para aprovação com a maior urgência possível. Certamente a manifestação favorável do Inst.ituto Agronômico ao anteprojeto dos cultivares era fundamental para o êxito do seu encaminhamento e da sua aprovação sem grandes percalços em Brasl1ia, haja vista a conhecida e memorável contribuição do IAC à produção de novas variedades de plantas para a agricultura brasileira. Havia, também, de certa forma, dentro da instituição, interesses individuais pela aprovação da lei, que se acreditava pudesse. em muito, beneficiar o setor em que o IAC era mais forte, ou seja, o do melhoramento de plantas, caso viesse a ocorrer, como pretendiam alguns, a sua transformação em empresa. Ao que tudo indica, procurou-se também o aval de algumas outras organizações proeminentes do setor.

o acesso à restrita documentação por pessoas não diretamente envolvidas com melhoramento vegetal, nem beneficiáveis por uma tal lei, deu-se de maneira inesperada e quase casual nos corredores do Instituto. A detenninação, clarividência, perspicácia e, sobretudo, o espírito patriótico de alguns pesquisadores do Agronômico, dentre os quais o Dr. Carlos Jorge Rosseuo, entomólogo de renome e estudioso da resistência das plantas às pragas, fizeram logo ver que sob a égide do atraente lÍ!ulo de "Lei de Proteção aos Cultivares" escondia-se o poderoso instrumento do patenteamento de variedades, com o qual as gigantescas indústrias sementeiras multinacionais dominaram o mercado de sementes em muitos países, inclusive em seus próprios países de origem.

Sob o título "ReIa:tório da Comissão de Acompanhamento à Criação da Lei de Proteção aos Cultivares", o documento da Abrasem trazia não só a lei de proteção às variedades, incluída no anexo I, como também. já pronta, toda sua regulamentação, no anexo 2. Recomendava-se, nesse trabalho, que: I, a legislação era necessária ao país; 2, a le- gislação brasileira deveria obedecer ao sistema europeu. embora um

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hlbrido com o sistema americano parecesse mais adequado ao país; 3, a

legislação deveria ser promulgada tão cedo quanto poss(vel e de maneira

tal que possibilitasse a criação de mecanismos adequados para a sua

imedi~ta implantação - a promulgação da legislação protetora deveria

logo após a aprovação, pelo Congresso, da nova lei de

sementes (sobre inspeção e fiscalização da produção e do comércio de sementes e mudas), em substituição à Lei 4727 de 13/07/65. regulamentada pelo Decreto 57061 de 15/10/65; 4, a lei não deveria inc!uir todas as espécies. de imediato, mas apenas o trigo e a soja, e maiS tarde a cevada e o arroz, estabelecendo-se o prazo máximo de seis

ser feita

anos para a elegibilidade dessas culturas-posteriormente. o Ministério da Agricultura, por sugestão da futura "Comissão Nacional dos Direitos dos Melhoristas de Plantas", prevista na legislação, elaboraria um

de

Cultivares", também prevista na nova lei, deveria ser independente da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), e o Cenargen (Centro Nacional de Recursos Genéticos) deveria ser desvinculado dessa empresa e tomar.se autônomo ou ligar.se ao Ministério da Agricultura ou à própria "Unidade de Registro de Cultivares". não devendo tambéI~.fiscalizar a legislação; 6. fosse criada a "Assoc-iação

cronograma para Outras espécies; 5, a "Unidade de Registro

Nacional de Melhoristas de Plamas", organizada sob diferentes critérios daqueles que regiam a Abrasem, com a finalidade de defender os interesses dos melhoristas de plantas e de montar em um sistema de alTeca~ação sobre cuhivares objeto de proteção; 7, de posse deste relatóno e de outros preparados pelas organizações ouvidas, o Ministério da Agricultura promovesse reuniões, nos meses de março, abril ~ maio de 1977 (o documento havia sido publicado dia 24 de revere,lro de 1977), com representantes das organizações ouvidas,

mcluslve

a Abrasem, para a redação do documento final sobre o

aSSunto, possibilitando a aprovação de um projeto de lei definitivo até o mês de julho. Supunha-se que dur<lnte esse mês a nova lei de sementes já estivesse aprovada pelo Congresso Nacional, quando então o projeto da e aprovação. legislação protetora aos cultivares seria encaminhado para discussão

As ambições da Abrasem e do grupo muItinacional envolvido, que depois se descobriu, de conseguirem que a lei do patenteamento de variedades fosse aprovada em curto espaço de tempo e de maneira subterfúgia. sem alardes e sem discussões amplas, começaram a se desfazer. esmorecendo os ânimos assim que a Assembléia Legislativa de São Paulo assumiu posição unânime contra a lei, aprovando a Moção n{l6 do deputado Antonio Rodrigues dos Santos lr., em sua sessão de 2 de março de 1977. A Moção iniciava-se assim: "Está havendo grande pressão por parte da Sociedade Brasileira de Produtores de Sementes. para ser encaminhado ao Congresso Nacional projeto de lei visando proteger a semente produzida com finalidade de pesquisas e

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aprimoramento do fornecimento de sement~s de alta qualidade. No

fundo, o que a Abrasem almeja não é outra cOisa se~ão o ,pate_nteamento

quer ~ desnaclOnahza.çao do. s~tor

de produção de sementes no país. Essa SOCIedade,que se diz brasllerra,

quer. a todo custo, patentear as sememes prod~zidas e eSlab:lecer

preços a fim de aniquilar os trabal.hos desen~olvIdos pelC?sInsututos Agronômicos existentes no Brasil e demaIS estab:lecJmentos de pesquisas estaduais que trabalham no campo da produç:ao de sementes,

para fornecê-Ias, por preços módicos, aos nossos agncuItores (

~. O

patenteamento, com uma polftica d.e fixação de preços altos. sena a maior fatalidade para os nossos agncuItores. e os grandes lucros para os produtores de sementes".

de sementes no

Brasil. Em suma. ela

O documento citava o exemplo da indústria de s~menles Rei~ de Ouro autenticamente nacional, com mercado de 150 mIl sacos de mIlho

híbrido por ano. e que estava sendo. adquirida pela ~fizer por US$ 5 milhões. Se a transação se concretizasse, provocana o colapso dos plantadores de milho, que ficariam à mercê e sob as garras poderos~s dessa companhia americana, que, com o p~tenteam~nto, aC~,bana

impondo o preyo que bem entendesse ~ esse tIpo d~

alimento.

.Essa

I ela s6 possui o nome, ~as, no fundo, faz a.po~ítica das multlOaclOnals, que são as maiores Interessadas na cnaçao de patentes para as

semenles" (Mais adiante: liA agricultura

sementes de boa qualidade produzidas pelos estab~leclmentos de pesquisas mantidos pelo governo estadual, e o baixo preço das sementes selecionadas pelos cientistas est~tais está inco~odando, em

de São Paulo cresc~u graças às

sociedade - diZia a Moção - não é autemlcamente nacIonal; ~e n,,:clo~al

" muito as multinacionais mas tem garantido uma política de preços

" basta~te razoável em fa~or de nossos agricultores". E. co,ncluindo:

"Proteger as sementes, com patent~amento, é _ pJ1?teger mter~sses comerciais de grandes grupos econômicos de naçoes ~esenvolvldas. em detrimento dos verdadeiros interesses dos nossos agncuhores e dos

) Pelos_ motivos . ~xpostos ("')'. a

Assembléia Legislativa do J?stado de Sao ,Pa.ulo dmge seu apelo ,ao Excelentíssimo Senhor PreSidente da Repubhca, por todos o~ meios possíveis, proibir que sejam pat~nteadas' as semente.s produzI~as em terras brasileiras, para a nossa a~cultura, te~do e~ Vista o movlmen~o existente para a elaboração de l~gJslação .nessesentld?, com ~ qual nao concordam os cientistas brasileirOS, por Julgá-lo nOCIVOaos mteresses

grupos privados nacionais (

i nacionais".

~ , A Moção do deputado Antonio Rodrigues dos Santos Ir., pa:a a qual também muito contribuiu o ~r. Ross~tto e. alg~ns outros téCnICOS do Instituto Agronômico de Camp~nas. fala pnmelfO.gr!lnde ~vés da lei do patenteamento. Uma CÓpia do docu~e~to. ~e~,e!1~'l3da ao Presidente Geisel, juntamente com um requerlménto, solicitando o

, ,

XV

envio de cópias da. Moção a todas a~ assembléias legislativas dos

Estados. com o pedido de que se manifestassem contrárias à lei do patenteamento. Também receberam a Moção o MinislTo da Agricultura Allyson Paulinelli, e os líderes da ARENA e do MDB no Senado e n~ Câmara Federal. Iniciava-se, assim, uma das mais memoráveis campanhas nacionalistas envolvendo a classe agronômica brasileira.

Pouco. depois, em abril, a AEASP - Associação de Engenheiros AgronômIcos do Estado de São Paulo, sob a presidência do engenheiro agronõmo Walter Lazzanni Filho e contando com uma diretoria de eminentes jovens idealistas, que tão bem souberam conduzir a Associação nos anos de 1976 a 1981, tomando-a o baluarte de defesa das grandes causas ecológicas e conservacionistas da época, contra os abusos dos agrotóxicos e da agricultura industrial, a ocupação irracional da Amazônia, o aeroporto de Caucaia do Alto, o Proálcool, o Programa Nuclear Brasileiro e tantos outros, posiciona.se frontalmente contrária à lei do patenteamento de variedades, assumindo a liderança do movimento a nível nacional. O Jornal do En~enheiro Agrônomo (JEA) com uma tiragem de dez mil exemplares, Circulava em maio de 197'7 com uma manchete de capa onde se lia: "AEASP é Contra Projeto de Lei de Sementes"; dois meses depois, em julho, o JEA saía com uma edição especial sobre as questões das sementes.

A.posição da AEASP foi decisiva para destronar o ambicioso projeto de lei do patenteamentode variedades no Brasil. Constituiu-sedenttode sua Comissão Técnica de Assessoria uma Subcomissão de Sementes, com a finalidade de examinar o anteprojeto de lei, consultar pessoas ligadas ao setor de sementes e colher as infonnações necessárias sobre a matéria. Após vários estudos e um debate entre vinte pesquisadores e técnicos ligados à pesquisa e à produção 'de sementes, realizado nas dependências do Instituto Agronômico de Campinas, a Subcomissão chegou à conclusão de que a lei de proteção aos cultivares só traria conseqUências negativas ao setor. devendo, por isso. ser combatida.

Foi ~ntão que a AEASP divul~ou uma nota à imprensa. com parecer contrário à aprovação da lei, propondo o sustamento do trâmite do projeto de lei das patentes e uma discussão mais ampla do assunto por todos os setores interessados, além do estudo de fonnas de canalização de recursos para a pesquisa. O projeto de lei de proteção aos cultivares, também conhecido como de proteção aos direitos dos melhoristas ou de. patente de sementes, segundo a nota, visava fundamentalmente "assegurar aos melhoristas de plantas de novos cultivares a exclusividade de sua multiplicação e comercialização no país para fins de semeadura e plantio". Pretend~a, ainda, "que toda nova variedade. criada ou introduzida, somente poderia ser multiplicada e comercializada pelo seu criador, pessoa física ou jurídica, que lhe detivesse a patente;

XVI

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quanto a terce@s' ap~ej Iq"e. decorressem 15 anos da concessão da patente, só pod~i~in.dé ~ $e'i~tiliz.ar mediante pagamento de taxa ao respectivo melh6H.shi"~ Cl:irhJessa nota à imprensa e com a pub1ica~ão peloJEA da íntegra do anteprojeto, a malfadada lei (Ornou-se conhecida do público.

A posição da AEASP. resumida em sete tópicos, era clara e precisa:

I, o Estado deve ser o responsável pelas pesquisas de sementes básicas;

a iniciativa privada deve continuar a contribuir {'ara a produção e

comercialização de híbridos; 2, o projeto de lei de proteção aos cultivares provocará a desnacionalização do setor, dada a desigualdade competitiva entre as empresas brasileiras e as multinacionais; 3, a produção de sementes básicas pelo Estado permite menor preço de venda ao agricultor e, conseqüentemente, ao consumidor final; 4, o projeto de lei em questão. ao vincular a produção e a comercialização ao melhoramento, implicará a extinção dos campos de coopera~ão; 5.a centralização da produção de sementes poderá não garanur o seu volume e a sua qualidade em níveis exigidos para todo o país e a preços acessíveis, como no sistema em vigor - as grandes empresas

produtoras de novas variedades poderão simplesmente exportar as suas sementes para áreas subdesenvolvidas, sem a preocupação da observância das peculiaridades de cada região; 6. o patenteamento cercará de sigilo as pesquisas e as novas variedades, acarretando sérios prejuízos à comunidade científica e à própria sociedade. as quais se verão privadas da livre divulgação dos conhecimentos e da circulação das idéias; 7, as novas variedades, descobertas ou não em nosso país por empresas estrangeiras, poderão ser registradas em seu país de oriçem - para a multiplicação e a comercialização de sementes dessas vanedades serão necessários pagamentos de direitos (royalties) à empresa e tal fato redundará em mais uma inaceitável forma de remessa de recW'Sos para o exterior.

A partir da nota da AEASP, o "escândalo das sementes'> c~m~o podena ter ficado conhecido, passou a ser manchete dos pnnclpals órgãos de comunicação escrita do país, principalmente em São Paulo:

"Patente de Sementes Ameaça a Agricultura" (Folha da Tarde); "Agrônomos Contra Projeto de Sementes" (O ESlado de S. Paul?); "Agrônomos Contra a Semente Patenteada" (gazeta Mercanul); "Agrônomos Paulistas Acusam: Patente de Sementes s6 Ben~ficla Multinacionais" (Terra); "Os Agrônomos Paulistas Contra a Lei ~os Cultivares" (Correio Agro-Pecuário); "A Semente é Nossa" (Veja); "Aumenta a Oposição dos Agrônomos aos Cultivares" (Diário do Comércio e Indústria); "Patente Encarece Sementes (Folha de São Paulo); "Pro~eto de Sementes: AEASP Compra a Briga" (Revista dos Criadores); 'FAESP Contra a Lei de Patentes de Sementes" (DCI); "Agrônomos Paúlistas Contra a Lei que Protege Cultivares" (ProvínCia

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do Pará); "Sementes Com Direitos Autorais" (O Estado de S. Paulo)' "Sementes: Controle Multinacional?" (Diário do Comércio e Indústria) .•

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Descoberto a tempo, 7 quase por a~aso, o ign6bil projeto de lei pass(;1U a receb~r fogo acurado por vários meses e por várias fremes P?lfttcas,. ass0,clauvas. e ac~dêmicas. O espírito de brasilidade e de cIvismo, Jamais de~fel~o. Ul1;1Ua classe agronômica em luta apoteótica por u~a.c:ausa mC!1t6na, cUJa honra esteve prestes a ser maculada pela InsenSIbIlidade e Interesses .ocultos de uma minoria sem escrúpulos. F:'ltos totalmente ,desconhecidos do povo brasileiro começaram a ser dIvulgados p~la Imprensa, cO~tribumdo para desvelar toda a trama montada p.ara Impor .ao país a lei do patenteamento de variedades, objeto de do~fmo do mais Importante recurso ligado à sobrevivência da

human!dade;, a sememe. "Se você domina as sementes, você controla a hum~mdade - e.screve Pat Roy Mooney no livro que você irá ler em segUIda. Nunca mnguém escreveu nada tão verdadeiro!

Confrontan~o infor~ações colhidas de depoimentos atuais de pesso~s que estiveram diretamente envolvidas no episódio das sememes e anahsando ~ocu~entos e todas as informaçõcs relatadas pela imprensa da época, fOI posslvel fazer a reconstituição histórica que está sendo relatada ao ~fv~l ?~detalha,mento que interessa ao leitor deste livro e, certamente, a hlstona da agricultura brasileira.

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no Brasil da IPB _

I Intemauonal Piam Breeders', uma gigantesca indústria sementeira
I contTol.?da pela R.oyal D.utdy'Shell, multinacional de capital inglês e holande~, q~e detem o prImeuo lugar no mundo na venda de sementes (ver Apendlce A e Tabelas 10 e 12 do livro). A IPB estabeleceu-se no sul do país com o objetivo de negociar no Rio Grande do Sul e no Paraná c,?m sementes de trigo e soja, cujas variedades domina no mercado mternacional (ver Tabela 9), e de introduzir a legislação do pat~meamento de sementes para garantir o monopólio da venda dos cultivares dessas duas culturas. A idéia de transferir o controle a

Tud~ começou com o estabelecimento

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pc.squisa ~ a produção de. se,?entes básicas, do Estado para o seior prIvado fOI lançada pela pnmeua vez no BraSil por essa multi nacional.

I No documento entitulado "Four Unes Plan for Brazilian Agriculture" entregue ao ministro Paulinelli em 31 de maio de 1974, a IPB apresemo~ um esboço da legislação específica a ser criada no Brasil.

I , Tal fato fOi conQnnado pelo relatório do ~rof. José Pastore, membro do

C~nselho TécOlc? ,da Embrapa, ao preSidente da entidade, Dr. José Inncu Cabral. DJZla. ele, em certo trecho do relatório: "Esse grupo (IP~), como se sab;e, Já apresentou uma p~posta ao senhor ministro da AgrIcultura para ajudar a montar todo. o SIstema brasileiro. Acho que vale a pena aproveit~r esse. tipt? ~e •.,a~siStência técnica. Eles têm acompanhado todo o sistema mgles. 'Tem a experiência do usuário do

IJ";:xvm

sistema". Mais adiante, afumava: "O documento apresentado pela IPB

parece ser bastante lógico

ter um papel ativo na elaboração da legislação e delineamento de todo o sistema, Talvez uma comissão de três membros, incluindo necessariamente um melhorista, deveria ser constituída para elaborar

uma primeira versão da lei dentro de noventa dias". E, concluindo: "A Embrapa poderia aceitar a oferta de um assessor da IPB para ajudar nas "

questões de legislação e implantação do

" Prosseguindo: "Acho que a Embrapa deve

sistema

.,

Com a proposta da IPB em mãos, o ministro da Agricultura acionou a Embrapa que, por sua vez, encomendou o estudo ao Prof. Pastare. Cinco meses depois, em outubro de 1974, ficava pronto o relatório, que foi então encaminhado à presidência da empresa, com as considerações vistas e que apontavam pela conveniência de se aprovar no país o projeto da IPD. Tal relatório, acompanhado do projeto da IPB, voltou ao Ministério da Agricultura, de onde foi enviado para debate na Associação Brasileira de Produtores de Sementes (Abrasem). Formou- se aí, nessa Associação. no dia 23 de julho de 1976, a tal comissão sugerida por Pastore dois anos antes, e que se denominou "Comissão de Acompanhamento à Criação da Lei de Proteção aos Cultivares", presidida por Carlos Vechi, diretor da IPB no Brasil e membro da Associação Paulista de Produtores de Sementes, tendo como titulares Antonio Eduardo Loureiro e Silva, da Associação dos Produtores de Sementes do Rio Grande do Sul, e Gualter Barcellos Gonçalves, da Associação Paranaense dos Produtores e Comerciantes de Sementes. Após quatro reuniões realizadas em Londrina, Porto Alegre, Curitiba e São Paulo, ficou pronto o já referido "Relatório da Comissão de Acompanhamento à Criação da Lei de Proleção aos Cultivares", contendo a lei e sua regulamentuyão. Assim, portanto, a lei dos cultivares foi elaborada por uma comissão cujo presidente era o diretor, no Brasil, da Intemational PIam Breeders', tendo sido constituída dentro da Associação Brasileira de Produtores de Sementes, cujo presidente, Nei Bittencourt de Araújo, era superintendente da Agroceres, companhia responsável pelo maior volume de vendas de sementes híbridas no Bmsil.

Pressionada em diversas frentes, a Abrasem procurou defender.se,

fazendo circular um documento, onde se eximia da culpa da elaboração do anteprojeto da lei de proteção aos cultivares, apesar de o estar apoiando mtegralmente. Segundo a versão dessa Associação, a comissão que elaborou a lei só foi formada depois que a Embrapa e o Ministério da Agricultura tomaram conhecimento do relatório Pastore,

SQmente depois disso, e

encomendado por essas mesmas entidades

através do Dr. Lourival Mônaco, diretor ~o,I.n.st

Campinas, é que a Abrasem foi convidada a dlS.Ç.YtiJ;~lk~çl:Q.e,sementes.

Uma minuta do anteprojeto da lei de proteçãQ.'~Çl"ç,w!iv~~",segundo a

i!~~oA~r()nô:mico de

XIX

Associação, havia sido enviada

pelo !v1inistério. da Agricultura à

Embrapa, Abrasem e Conpater (Comissão Nacional de Pesquisa Agropecuária e de Assistência Técnica e Ex.tensão Rural), solicitando que se manifestassem, informando as opiniões, críticas e sugestões ao conteúdo do documento. "No âmbito da Abrasem, dada a importância do assunto, foi criada uma comissão especial para elaborar o trabalho." Embom o Ministério da Agricultura nunca tivesse dado a entender que encomendara tal lei, seu apoio a ela parecia óbvio, pois seu ministro teria dito, num programa da TV Record, levado ao ar no dia 14 de julho, que tinha "absoluta convicção de que o país que possa estabelecer

uma proteção ao cultivar é um país que tem sua agricultura protegida".

A posição da Embrapa favorável à lei parece ler ficado clara na carta-

resposta de 03/12f76 à Abrasem, onde estaria escrito que "a posição oficial da Embrapa é a de que a lei é necessária e que deve ser adotada tão logo sejam lomadas as providências necessárias à sua aprovação".

O comprometimento da Abrasem, na época, com as duas grandes in- dústrias sementeiras, a IPB e a Agroceres, diretamente interessadas na aprovação da lei de patenleamento, foi suficienle para o descrédito da sua versão simplificada sobre os acontecimentos que redundaram na

elaboração da lei. Novas criticas e manifestações contrárias sucederam-

se no terceiro quartel do ano. Duas moções contra a lei, uma da AEASP

e outra do Dr. Rossetto, tiveram aprovação unânime na Assembléia Geral da 29' Reunião Anual da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Também manifestaram.se contrários à lei a FAESP - Federação da Agricultura do Estado de São Paulo,ll OCESP

- Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo, a FAEAB-

Federação das Associações de Engenheiros A~rônomos do Brasil, as Associações de Engenheiros Agrônomos de várIOSEstados, a FEEAB _ Federação dos Estudantes de Engenharia Agronômica do Brasil, a Sociedade de Agronomia do Rio Grande do Sul, o secretário da Agricultura do Mato Grosso, Maçao Tadano, além de vários deputados estaduais e federais, como Jayro Maltoni, Hélio de Almeida.-Amaral Furlan, Aurélio Campos, Edson Tomaz de Lima, Siqueira Campos e outros.

Ao mesmo tempo que crescia o movimento antagônico à lei do patenteamento elaborada pela Abrasem e aumentava a pressão sobre o Ministério da Agricultura, onde o anteprojeto aguardava melhor ocasião para ser encaminhado ao Congresso, descobriu-se um fato novo e alannante. Tramitava no Congresso Nacional, sem que quase ninguém soubesse, o Projeto de Lei n ll 3072, de 1976, elaborado pelo deputado paranaense Oswaldo Buskei, do MDB, que tratava exatamente do mesmo assunto, ou seja, do patenteamento de sementes, só que de uma maneira totalmente diferente e in'usitada: por modificação da Lei nll

5772, de 21 de dezembro de 1971', que trata das patemes industriais.

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Projeto Buskei,',~,q~é~r~{siibecomo se originou e sob a influência de .quem foi élll~d.~}o~ecónizava que os melhoristas de novas vél:"~ades agríêt:ihll{,°'el.'ffi:irestaispassassem a gozar dos mesmos pnvtlégi<?s dos proprietários das patentes industriais, através do C6digo de Propnedade Industrial, regido pela Lei n ll 5772, modificada em alguns dos seus artigos para acomodar as sementes.

<? esdJ:úxulo projeto de lei, por não ter condiyões de ser aprovado deVIdo à Intensa mobilização da classe agronôrmca e política do país contra o patenteamento de variedades, acabou sendo retirado, com o MDB fechando questão pela não-aprovação da lei. Para esse episódio também contribuiu o deputa~o paulista Dr. Antonio Rodrigues dos Santos Ir., que voltou à carga, desta vez contra o Projeto Buskei, recomendando ao então líder da bancada do MOB na Câmara Fedeml, deputado Freitas Nobre, a retirada do referido projeto, por ser ele nefasto à agricultura brasileira.

~ela repercussão fav~rável que tR;!medida teve na opinião pública nacmnal e na classe polítIca de Brasfila, e pelas constantes pressões das mais significativas e variadas fontes, inclusive militares. o Ministério da Agricultura não pôde mais continuar a defender o anteprojeto de lei elaborado pela Abrasem. Em agosto de 1977 anunciava, de maneira lacônica, que, por sugestão da Embrapa, adiara o encaminhamento do projeto de lei, adiamento este que perdura até hoje. Pouco tempo depois, frustrada e derrotada, a International PIam Breeders fecha seu escritório no Brll:sil e volta para a Inglaterra. Estava encerrado, assim, com um final feliz para a agricultura brasileira, um dos fatos hist6ricos mais marcantes da classe a~ronômica no nosso país. pela perseverança ~ detenninismo de uma plêlade de verdadeiros patriotas c, o que é mais Importante, numa época em que vigorava o autoritarismo e o arbítrio.

Muitas outras pessoas. afora as aqui citadas, estiveram envolvidas no episódio das sementes, exercendo sua maior ou menor influência e tempo para sep'ultar a lei do patenteamento de variedades. A todas elas devem o Brasil e sua agricultura as mais meritórias reverências, com a esperança de que assim novamente ajam em situação semelhante, caso venham a ocorrer novas tentativas espúrias de domínio das companhias multinacionais sobre o nosso recurso çenético mais significativo: as sementes. Tal esperança de responsabilidade também é de todas as gerações, presentes e futuras.

Se o episódio do patenteamento de sementes no Brasil tivesse sido conhecido por Pat Roy Mooney, o autor deste livro, certamente teria sido incluído no texto, pela singularidade dos fatos e pelo desfecho de recusa que teve a lei de proteção aos cultivares em nosso país.

XXI

,Oslargument9~.que leraram. à derrota d~ lei do patenteamento das

semen~es nO;_1~.r~~,d,!o{fH.TI.~p~slc~me~le ~OlS:.? re.ceio justificado do

dom(m~ mqnopo!lza~or!,d~s mul.tmaclOnals no a!UbllOdas sementes e o encarecImento do 'CU~[O'desses Insumos caso viessem a passar para o

controle do ~etor priva90'. V~os outros fatos igualmente graves

não

eram conhecidos pela malOna daqueles que lutaram contra a lei dos

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cultiyares. ,pois na época em que os acontecimentos se desenrolaram no

Brasil o h~ro de Mooney ainda n,ào havia sido publicado, o que

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somente velO a ocorrer em 1979. E por isso que O EsclJndalo das

Semelltes é_ de gran~e importância para nós. complementando a argumentaçllo contrária ao patenteamento das variedades com fatos

I novos e dramático~, como aqu~le que mostra a relação das sementes patc~~eadas, genetlca.mente umfonnes, com o uso dos agroquímicos (f~rtI!lzantes, agrot6xlcos e produtos veterinários), que envenenaram os alimen~os e encareceram sob~maneira as atiVIdades agrícolas e pecuárias no mundo todo, para o benefício de apenas uma minoria poderosa ligada à indústria química.

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II O. livro de Mooney é um alerta geral sobre as implicações negativas

,

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da leI do patenteamento de variedades, principalmente para os países do Tercciro Mundo, que detêm o germoplasma natural de quase todas as

culturas alimentícias de que o homem se utiliza. O texto encerra uma

análise detalhada e bem conduzida sobre cinco tópicos atuais cujo

conheci!TIento nos é de importância transcendental, mostrando' quão estrategI~amente se relacionam a erosão genética, a Revolução Verde, a Revoluçao d~ Sementes, o envolvimento da indústria agroqu:mica.nó chal1:1~do pac(:lte sementes-insumos qurmicos e a legislação varietal restrlt1va ou lei do patenteamento de variedades,

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No que se refere à erosão genética, O Escândalo das Sementes

mos~ que os Centros de Orif?em das Culturas, ou Centros de Vavilov, ou a!nd.a centros de ,gr~nde variabilidade genética, localizam~se em áreas tropicais c subtropICaIS dos países em desenvolvimento e que por isso

desenvolvidos dependem desses centros para os seus

programas de melhoramento (Tabelas I e 2). No caso do Brasil, por ext;mplo. o amendoim e a laranja con~tituem as fontes de germoplasma maIS ~mportantes para os Estados Umdos. Mostra, também, que, desde os I?nmórdios da agr~cultura, cerca de 500 tipos de vegetais foram cultivados e que em. m,ll anos houve redução para 200, dos quais apenas 80 .foram comercializados, Alua.lmente, apenas 20 vegetais são cultlv~dos, representando 90% da dIeta humana: desses, o trigo, o arroz e o milho representam mais de 75% do consumo de cereais.

os países

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A seleção feita pelos antigos agricultores do Terceiro Mundo permitiu uma fantástica diversidade .de culturas, necessária à sobrevivência. Por outro lado, a seleção moderna, feita pelos países

desenvolvidos, eliminoti.a'dl{l~idade em favor da maior produtividade e uniformidade genéti~a:;~ia~i:rielltandoa vulnerabilidade às pragas. doenças e condições físicas 'c 'químicas do ambiente, amea9ando de fome a humanidade (Tabela 3). Devido a essa maior suscetibihdade das variedades modernas, há necessidade constante de busca de novos materiais genéticos para compensar as mUlações e os freqüemes desequilíbrios biológiCOS de pragas e pat6genos. A procura é feita diretamente nos Centros de Origem ou, indiretamente, nas estações experimentais de outros países.

A redução da diversidade genética nos Centros de Origem do Terceiro Mundo (erosão genética), por destruição dos ecossistemas naturais e pela substituição das variedades locais por variedades geneticamente unifonnes dos países desenvolvidos. deverá ser o embrião de uma crise universal de alimentos, não s6 nas nações desenvolvidas, que dependem do Terceiro Mundo como suporte genético, como também naquelas em desenvolvimento. obrigadas, pelo truste internacional, a importarem sementes selecionadas dos países desenvolvidos. muitas vezes originárias dos seus pr6prios gennoplasmas. A. crença generalizada de que o gennoplasma em extinção esteja sendo guardado em segurança nos bancos de ~ermoplasma regionais e globais é utópica, pois, na realidade, tais

mstitUlções são parcamente subvencionadas. sendo grandes os riscos de

nos

perdas de preciosos recursos genéticos devido a falhas

equipamentos, como já ocorreu em vários países. Também não pode haver substitutos para os Centros de Vavilov. Mutações do gennoplasma, induzidas por radiaçõcs artificiais, não constituem alternativas ao processo 16gico de conservação e utilização racional das fontes naturais de germoplasma; a engenharia genética jamais conseguirá se igualar à natureza na produção de variabilidade.

Os bancos de gennoplasma, em número crescente nos países desenvolvidos, e as estações internacionais de melhoramento localizadas nos Centros de Origem (~lapas 2, 3 e 4), controlados pelo IDPGR, uma organização particular subvencionada pelos países do Primeiro Mundo e pelo Banco Mundial, pelas fundações Rockefeller. Ford e Kellogg e pela ONU, representam grave ameaça para os países em desenvolvimento do Terceiro Mundo, devido não apenas à perda contínua e irreparável do seu precioso tesouro genético, annazenado e manipulado pelos países ricos, como também pela dependência, a que ficam submetidos. de acesso ao seu próprio ~ermoplasma. no exterior. O maior prejudicado é o agricultor, que se ve roubado em sua herança mais significativa, equilibrada e barata: as variedade locais, cultivadas por milênios.

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Mooney retrata muito bem em seu livro os percalços da Revolução Verde. Sob o prele)tto da explosão populacional, diz ele, e da fome no Terceiro Mundo. as fundações Rock~felIer. Ford e Ke~lt:?g~.com o suporte financei:o do Banco Mundial e d~ ONU, lm~taram tal revolução, nas decadas de 40 e 50, com as vanedades seleclO~a~as de I)lilho e trigo no México (pelo CIMMY'I) e de arroz nas Fillpmas e Jndia (pelo IRRI). Com a Revolução Verde consolida-se no mundo a agricultura industrial de base química.

Apesar de ter contribuído para o aumento da produção de alimellt?s, a tecnologia revolucionária da Revolução Verde resultou em sénos

problemas para a humanidade, '?Orno a substituição dos ~ultivares tradicionais e de seus ancestrais silvestres nos Centros de Ongem por variedades geneticamente unifonnes, reduzindo, dessa maneira, as fontes básicas para fmuros melhoramentos, além de tornarem os

agricultores dependentes de cultivares excessivamente

de insumos. Possibilitou, também, notável desenvolvimento das companhias de fertilizantes minerais e de agrotóxicos, transforma~as rapidamente em multinacionais milionárias, gra~as à c~cterístlca peculiar das variedades modernas: a de só prodUZIreI? mal? ~o que as tradicionais em função de pesadas doses de adubos Inorgamcos e de herbicidas e outros agrotóxicos, direta ou indiretamente dependentes do petróleo.

caro~ e exigentes

Outras conseqUências negativas da Reyoluç~o V~rd~ para os países em desenvolvimento foram: 1, vultosas e inflaciOnárias Importaçoes de insumos (produtos agroquímicos, implementas, máquinas, equipamentos de irriga9ão, seme~t::s. e outrps). dos lla/ses

desenvolvidos com drásticas consequenclas economlcas, SOCiaiS e ecológicas; 2: desaparecimento da prática tradicional de .cultivo

múltiplo, com conseqüente ~xpansão das monocu!turas, devJ';!o aos melhoristas não terem conSIderado as características vegetais que favorecem as consorciaçõcs de plantas, selecionando para incompatibilidade; 3, perda do valo! nutritivo d~s ~Iimemos e ~~ sua sanidade, devido aos resíduos químiCOS;4, substUulç~o da tradiCiOnal fonte protéica dos povos do Terceiro Mundo. as legummosas, c~m 20 a 30% de proteína, por graIIÚneas de baixo,teor protéico (entre 7 e.14%); 5, êxodo rural, com conseqUente processo acelerado d: urbaOlzação, miséria e violência nas grandes metrópoles. A Revoluçao Verde nada fez, também, em benefício da grand~ 1J1.assade peq~e~os agricultores dos países em desenvolvimento; somente uma I?IEona J~abastada dela se beneficiou. O problema da fO~~,e da subnutnçao contmua, não tanto pela falta de alimentos, mas J>Ç.loseu elevado custo.

O aparente sucesso da R~~&íi:içãoVerde levou à Revolução das Sementes, com a industrialização desse importante insumo, que passou

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a ~er controlado Por "poclérosas multinacionai~ de caráter privado. aglgantadas pela 'iI\t:brpór'àção de companhiaS pequenas e de cooperativas locais que aos poucos, foram desaparecendo. Protegidas pela legislação d~s p~rentes e dos direitos adquiridos sobre as variedades, tais indústrias procuram cada vez mais conseguir o COntrole total dos germoplasmas e dos principais mercados, inclusive no Terceiro Mundo. Setores públicos de melhoramento de plantas são forçados às pesquisas básicas, nos interesses das companhias dominantes. Assim é que, das 562 patentes conferidas pelo U S Variety Protection Office em março de 1974, nos Estados Unidos, mais de 46% foram para as multinacionais dominantes; apenas 9% foram para universidades estaduais e estações experimentais; 72% das patentes foram para seis culturas dominadas pelas multinacionais (Tabela 9).

A grande exigência em insumos das variedades altamente produtivas levou várias muhinacionais do setor agroquímico a ingressarem na comercialização de sementes e a montarem centros de pesquisa genética para o melhoramemo de variedades mais exigentes em produtos químicos. A grande suscetibilidade às pragas e doenças das variedades melhoradas pelas companhias privadas, bem como sua pequena competitividade com ervas invasoras, obrigamo uso de agrotóxicos; o menor desenvolvimento vegetativo, principalmente do sistema radicular. obriga a aplicações localizadas de ndubos minerais solúveis e concentrados; 'O. ma saúde das raças animais selecionadas para alta produção e criação em regime de confinamento e alimentação com . forragens pouco nutritivas obriga o empre~o de produtos veterinários. Isso explica o porquê da compra de mdústrias sementeiras por companhias que produzem e vendem produtos químicos de uso agrícola e veterinário (Tabelas 11 a 13 e Apêndice A).

Os. pacotes tecnológicos

de sementes

+ produtos químicos,

subsidiados pelos governos, resultaram em sistema gfobal de

distribuição e comércio voltado exclusivamente para os imeresses das

e nunca para o lucro dos agricultores e a nutrição e saúde

do povo.

multinacionais

Finalmente, as implicações do patenteamento de variedades para o agravamento da situação que acabamos de descrever são óbvias. Os requerimentos legais dos direitos dos melhoristas de plantas ou da lei de patenteamento exigem unifomlidade genética dos cultivares, para que possam ser reconhecidos e identificados. Tal unifonnidade aumenta a vulnerabilidade das culturas e elimina as variedades locais. A proteção das patentes e os conseqüentes pacotes de sementes + produtos químicos são condições suficientes para a garantia de lucros certos, o que encoraja as multinacionais a ingressarem no ramo das semenres. Para maximizarem os lucros, lais corporações gigantescas investem

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grande capital no desenvolvimento de hlbridos e assim aumentam ainda

mais a unifonnidade e a vulnerabilidade genética. Por fim, para

compensar o capital investido. as multinacionais comercializam suas sementes, melhoradas e patenteadas, nos países do Terceiro Mundo. aumentando a erosão genética nos Centros de Vavilov e provocando aí verdadeiros desastres econômicos, sociais e ecológicos. típicos da Revolução Verde.

O Escl1ndalo das Sementes é um livro que deve ser lido por lodos os brasileiros que têm verdadeiro amor pelo seu país e não querem vê-lo entregue aos embustes dos trusles internacionais. As informações que nos traz devem ser divulgadas e discutidas, principalmente na classe agronômica brasileira, para quem poderão se constituir importante subsídio; a1é mesmo, talvez, para a necessária formulação dos pr6prios princípios da agricultura.

!'ror. Adilson Dias Paschoal Universidade de Silo Paulo Escola Superior de Agnculrura "Luiz de Queiroz w

Introdução

Logo após a Quarta Sessão da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Nairóbi, 1976), onde dominaram os assuntos sobre prodUlOSagrícolas, a IeDA -I nternationaI Coaljrion for Deve/opment Action (Liga Internacional para Ação Desenvolvimentista) promoveu, no Canadá, um pequeno simpósio para pes~uisadores Internacionais da área de alimentos, Tal encontro foi realizado em Qu'Appelle Valley, próximo de Regina, Saskatchewan, Canadá, em novembro de 1977. Os participantes identificaram certo número de assuntos centrais sobre alimentos, que mereciam maior atenção internacional. Em destaque na lista estava um assunto referido simplesmente como "Sementes", gue surgiu da preocupação de que a base genética do suprimento mundial de alimentos estava rapidamente desaparecendo e que a legislação restritiva estava tomando possível, para o comércio agrícola, adquirir o controle deste segmento vital de todo o sistema alimentar.

A ICDA designou um grupo de trabalho para examinar o assunto,

em dezembro de 1977, que incluía Cary Fowler, de ChapeI HiII, Carolina do Norte, EUA, que, pela primeira vez, levantou o problema e

já havia desenvolvido considerável [tabalho inicial; Jean-Pierre Berlan,

de Paris, França, que havia participado da reunião de Qu'Appelle e fornecido infonnações substanciais sobre a situação européia; Dan McCurry, de Chicago, EUA, outro participante de Qu'Appelle, com amplo conlato en[te os grupos de agricultores americanos; e PaI Roy Mooney, de Brandon, Manitoba, Canadá, que, como membro do Grupo Coordenador da ICDA, organizou a sessão de Qu'Appelle, tendo responsabilidades especiais 'na' rede da ICDA com o monitoramento das empresas multi nacionais.

Pesquisas iniciais revelaram que a legislaç,ão varietal restritiva _ direitos dos melhoristas de plantas (PBR):.::" seria in[toduzida na Aus[tália, Irlanda e Canadá, em futuro pr6ximo, e que o governo

americano pretendia expandir essa legislação. A atenção voltava.se para

o Canadá, onde debates antecipados eram esperados no Parlamento.

Em março de 1978, o SClC - Saskatchewan Counci/jor InterlU1rional

Co-operarion (Conselho para Cooperação" I~!ernacionaI de Saskatchewan), fonnado por 30 agências voluntáriasintemacionais dessa província, apresentou um resumo, "Alimentos páfa iJ Povo", para os Conselheiros de Saskalchewan. Este resumo L~xpressava forte

XXVII

oposição à legislação proposta. Por todo o ano de 1978, o sele trabalhou junto com o grupo internacional da IeDA na elaboração de uma posição quanto aos direitos dos melhoristas. No outono, o Sele, em colaboração com a ICDA, pnxluziu um relatório preliminar, Genelic

Resources and PIam Breeders' Righrs (Recursos Genéticos e os

Direitos dos Melhoristas de Plantas), que foi amplamente divulgado. tomando-se foco de intenso debate nos círculos agrícolas e políticos no

Canadá e na Europa.

Ap6s o Encontro Geral da IeDA em Genebra, em 1978, concordou-

se que um estudo detalhado, com objetivos mais internacionais, seria muito útil. O grupo de trabalho continuou a pesquisar o assunto,

coordenado pelos membros canadenses da IeDA, do ceIe - Canadian

Council for lnternarional' Co-operalion (Conselho Canadense para a Coopemção Internacional) intimamente apoiado por Tim Broadhead, do

Grupo Coordenador da ICDA. Nesse ponto, tornou-se clara

necessidade de uma pessoa para juntar o crescente volume de material e

dirigir o estudo. Pat Roy Mooney foi solicitado para tal fim e O EsctlndaJo das Sementes foi produzido, finalmente, no verão de 1979.

a

O propósito deste livro tem sido chamar a atenção e estimular . discussões e ações neste assunto vital agricultura/desenvolvimento. Pouquíssimas pessoas. nas áreas política, agrícola e científica parecem compreender a dimensão total do assunto "Sementes". O público em geral está cena mente mal informado sobre a situação e os dignitários do poder não parecem desejar uma discussão abena sobre os assuntos relacionados.

A julgar pelas reações ao livro, desde que foi impresso pela J;lrimeira vez no último verão, nós fomos bem.sucedidos em nosso objeuvo. Em países onde a legislação de sementes está sendo ~omumente considerada, sérios debates têm sido estimulados. Grupos ligados às

pessoas do governo e Jornalistas têm

sustentado os princípios básicos do livro ou têm sido encorajados a defender o assunto em um contexto político-social mais amplo. De acordo com agências ligadas às Nações Unidas, uma atenção mais séria deve ser dada às conseqUências agrícolas, ambientais e econômicas das tendências atuais na área de controle e uso de sementes. Os povos do Terceiro Mundo estão começando a ver tais interesses globais em termos da sua pr6p~a segurança agrícola e autooeterminação.

fazendas, cientistas, legisladores,

. Reações iniciais, por pane dos representantes das corpo ra 9 ões envolvidas na indústria de sementes, foram - sem surpresa _ negatIvas; houve até mesmo tentativas de questionar os motivos das pesquisas. Desde então, a atitude das corporações tem sido, aparentemente, a de mostrar pouco interesse, na esperança de que o assunto seja esquecido.

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Com muitos governos de países industrializados "do seu lado", através do apoio à legislação do PBR, as corporações provavelmente não

para o.s se~s

envolVimentos. Contudo, quando ocorrem debates, a tese báSica nao terr. o;idorefutada.

quere~

dar at~nç5:o a esse assunto

e, é claro,

Entrementes, Pat Mooney continua ativo na área, realizando.novas pesquisas e discussões sobre o assunto na Europa e na Aménca. do NC'rte. Como principal pona-voz da ICDA, tem tido contato com mUltas pessoas dos setores agrícola, financeiro, governamental e de comunicações. Por exemplo, na Irlanda, divulgou publicamente o assunto imediatamente após a legislação das patentes ter dado entrada no Parlamento irlandês; e nos EUA foi convidado a apresentar suas idéias a um subcomitê da Câmara dos Deputados sobre as repercussões da legislação norte-americana de patentes.

O que começou menos de três anos atrás como uma preocupação

discutida por algumas pessoas, tomou-se

sérios em escala ~Iobal. Este fenômeno demonstrou a capaCidade das agências voluntánas chamarem a atenção para um importante assunto universal, esquecido pelas instituições mais formais da nossa sociedade. Em fevereiro de 1975, o Corpo de Diretores do cCle

aprovou, por unanimida~e, uma re~olução ~olicitando uma cafl.lpan~a universal pela conservaçaodo matenal genénco e pelo fim da leglslaçao restritiva canadense. O CCIC e a ICOA permanecem dispostos a

assunto catalisador ~e debates

sustentar os assuntos discutidos neste livro e a desafiar as tendências

de

aumento do controle sobre os recursos das sementes e de diminuição segurança dos alimentos.

da

XXIX

Riçhard Harmston

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Maio de 1980.

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I,

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Parte 1

A Situação das Sementes

OS ANTIGOS CENTROS DE DIVERSIDADE DE CULTURAS DO

QUAL A

SERIEDADE DO PROBLEMA? O QUE ESTÁ SENDO FEITO A ESSE RESPEITO? ISSO FAZ ALGUMA DIFERENÇA PARA O FORNECIMENTO GLOBAL DE ALIMENTOS? QUAIS SÃO SUAS IMPUCAÇÓES PARA AS NAÇÓES "POBRES" DE GENES DO PRIMEIRO MUNDO?

TERCEIRO MUNDO ESTÃO DESAPARECENDO

!

U ,

I

Capitulo 1

'.

<

As Nações "Ricas" e as Nações "Pobres" de Genes

St liv/sumos de CDn1QTapenas com os rtcursos gtrrilíals alutJ1mollt disponlvtis nas Estadas Unidos. para as gt~ 11 rucmbirlQl1/llsdt gt~ fIIlCt.lSdriospcva millimiuv Q vu/nnabiJidok gtrriliea de lodas a.r cull<ua.r110fUIUTO,logo u~rinw1larlant03 ptrda.r iguais 0loI maUwI!S qUt a.r causlUla.rptla doença da.rfolhas do milho no Sul. Ito:l algUM anos; 02 wno t= rapid~Nt aultrlUla por lodo o IlSptclro d4s Cu/luros. (Df. I. P.

,drick K

Ir., Univmidadc da Calif6mia. D.vil. EUA. 1?77.)

1.1 Origens comuns

.".

Praticamente tudo o que se pode comer teve sua origem em menos de uma dúzia de centros de eXU'ema diversidade genétiq _ os chamados Centros de Vavilov -, assim denominâdos em homenagem ao grande cientista russo que dominou a Botânica na década de 20 '. Após anos de pesquisa, N. 1 Vavilov concluiu que uma combinação de diferentes topografias, climas e métodos de cuhivo resultpu em que quase todas as culturas principais se originassem em menos de uma quarta parte das terras do mundo. As áreas principais são o Mediterraneo, o Oriente Próximo, o Afeganistão, a Indo-Birmânia, Malásia-Java, a China, Guatemala-México, os Andes Peruanos e a Etiópia 2.

Com exceção de uma pequena área ao redor do Med.ilerrJneo, o mundo industrializado está fora dos centros de diversidade. O motivo para essa pobreza botânica explica-se pela era glacial, isto é, enquanto os recursos vegetativos das zonas temperadas eram congelados, os climas tropicais floresciam em diversidade genética. As diferenças resultantes na vida vegetal são facilmente constatadas.

O Dr. Nonnan Myers, de Nairóbi, refere-se a um pequeno vulcão filipino. o monte Nakiliang, em cujas escarpas crescem mais espécies de árvores que as encontradas em todo o Canadá. A Bacia Amazônica contém oito vezes mais espécies que o sistema do Mississípi e dez vezes mais que as que se encontram em toda a Europa J.

3

'1'1

'I"

Menos de 10% das 300 mil categorias de plantas su')eriores da Terra passàfam por exame científico, mesmo superficial. Mênos de três mil foram estudadas dctalhadamcnte 4 . Noventa e cinco por cento da nutrição humana derivam-se de não mais que 30 plantas, oito das quais perfazem três quanas partes da contribuição do reino vegetal para a energia humana. Três culturas - trigo. arroz e milho _ são responsá~eis por 75% de nosso consumo de cereaiss.

Mo"" I Centros de Vavilov.

Foole:FAO. Getll!/U:Consen~iOll. Programa de Treinam~lo em CllnServaçlo Genética

da FAO. Unidade de Ecologia de Culturas c RccurSO$ GcnéJ.icos. PiIF 7460.

Mas não foi sempre assim. Os povos pré.históricos encontravam alimentos em mais de 1 500 espécies de plantas silvestres e pelo menos 500 vegetais principais foram utilizados na agricuhura antiga. No

espaço de mil anos a diversidade dos nossos alimentos vegetais reduziu- se às 200 espécies cultivadas pelos pcquen~~ horticultores e às .80

espécies preferidas pelos produtores comerCIa

vegetais são utilizadas em cultivo d~ ca~lpo 6. A ipodema ~lst6na agrícola é, ao menos em parte, uma hlstóna de reduçao de vanedades

4

ls.

Apenas 20 es~écl:S

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:~:'-:alimentícias, porquanto mais e mais pessoas são alimentadas cada vez -~ menos por espécies vegetais7.

O resultado é um assombroso grau de interdependência em alimentos. Todos nós procuramos reservatórios genéticos comuns para nossa segurança alimentar, panicularmente a Oceania e a América do Norte, que dependem grandemente dos recursos genélicos do Terceiro Mundo. Por exemplo. o presidente pard Ciências Agrícolas da Universidade da Califórnia, Dr. 1. P. Kendrick Jr., apresentou um número especial da publicação California Agriculture com o comentário que, das 200 culturas comerciais do seu Estado, nenhuma era nativa da Califórnia. Na verdade, das mil culturas prinCipais colhidas a cáda ano na América do None. apenas alcachofras-de-jerusalém. girassol e cerejas.silvestres podem se dizer naturais deste continente8.

'j' .~

Os agricultores de subsistência do Terceiro Mundo cultivam as ,,:. principais plantas alimentícias atuais há mais de dez mil anos. Pela observação do processo natural de mutação e por cuidadosa seleção de sementes através dos séculos, tais agricultores desenvolveram espantosa variabilidade de culturas9 . Tal diversidade tem sido necessária para a sobrevivência. Nenhuma variedade de trigo ou arroz pode dar proteção adequada contra a falha das monções, pragas e doenças. Agricultores práticos cultivam pelo menos uma dúzia de

,

'f

'

em seus campos, pOJS venha seca, enchente ou

femtgem. uma pane pelo menos chegará a ser colhida. A despeito dos impressionantes avanços recentes na engenharia genética, a maioria dos agrônomos continuará a argumentar que a ciência não poderá produzir variabilidade comparável àquela da natureza e que não existe substituição tecnológica adequada para os Centros de Vavilov. Mesmo a Agência Imernacional de Energia Atômica, em seu relatório de 1971,

aconselha que as mutações induzidas no germoplasma, através de .

radiação, não constituem alternativas para a conservação e a seleção de

fontes naturais de germoplasmalO.

variedades de trigo

.

Não há, ou pelo menos assim se acredita. referência alguma identificando completamente a origem de cada cultura principal. Na verdade, a origem de uma cultura e de seu real centro de diversidade pode não ser apenas uma. As plantas, às vezes. dão-se melhor em um local adaptado do que em seu habitat original. Não obstante. a Tabela 1 nos dá um resumo aprox.imado dos Centros de Origem das principais culturas do mundo. No entanto, a "pátria" genética de uma cultura principal poderia ser melhor identificada pela área na qual os antigos agricultores a têm cultivado com maior sucesso.

5

Tabela 1

Culturas mundiais: Origens

CULTURA

CENTROS

PRINCIPAIS

GRÃOS:

Alfafa

Ásia Menor

Cevada

Ásia Menor

Eliópia

Painço-Brommoorn

Ásia CenIJai

Trigo-mourisco

China

Millio

América Centra!

"""

Linho

Etiópia

Painço.Fo~lail

Ásia Menor Sudeste da Ásia

Moswda

Ásia Central

Aveia

Ásia Menor

Arm,

Mcdill'n'ânoo África Ckidc.ntal

lndo.l1irmârlia

Centeio

Sudeste da Ásia Ásia Menor

Trigo

Eli<lpia

VEGETAIS:

Ásia Menor

Aspargo

McditClTinoo

Belerraba

Ásia Menor

Fava

Ásia Central

Brórolis

Mcdi!aTâneo

R"",lho

Ásia Menor

Medilerrâneo

Cenuura

Ásia Central

Ásia Menor

Couve-flor

McdilcrTãnco

Feijão

América Central

Pepino

lndo-Ilirmânia

Malásia

Berinjela

Indo-Ilirmânia

Ch"

Arr~

Árriea Mediterrâneo

Alho

Ásia Central

Fciji<>-lirna

Á$ia Menor América do Sul

6

CULTURA

CENTROS

PRINCIPAIS

Cebola

Eti6pia

Cenoura.branca

Ásia Central Ásia Menor Mediterrâneo

Er.rilha

Ásia Menor

Batata

Ásia Central And~

Rabl!J1cte

China

Espinafre

Ásia Central

Abóbora

Amériça Central

Tomale

And~ América Central

N.oo

And~ Mediterrâneo

Feijão alado

Papua Nova Guín~

J."IWT AS E NOZES:

Amêndoa

Ásia Menor

Moç'

China Ásia Cenual

Abric<l

Ásia Central

Banana

China Etiópia

Caslanha-do.pari

SudeSle di Ásia BrasiVUruguai

Cereja

Ásia Menor China/Jap!o

C~o

Sudesle da

Ásia

Tàmara

ÁJia Menor

Figo

Ásia Menor

U"

Áli .•

Central

Toranja

Ásia Menor

SudeSle da

Ásia

Um"

Indo.Birmânia

Melão

ÁJia Central

Indo.Birmãnia

Manga

Indo.Birmânia

Azeilona

Mediterrâneo

Ásia Menor

COlllinua ••.

"

TABELA I (Continuação)

Culturas mundiais: Origens

CULTURA

CENTROS

CULTURA

CENTROS

 

PRINCIPAIS

 

I'RINCU'AIS

Laranja

China Indo-Birmânia Sudeste da Ásia América Central

BClcrraba-açucarcit'a

E=,.

Melancia

Ásia Central

M~"

DIVERSOS:

And"

CllC8U

América Central

Pêssego

China

Camba

Mediterrâneo

Pêra

Ásia Menor

Chicória

McdilClTâneo

Ásia Ccnlral

C",,

Etiópia Ásia Central Indo-Birmânia América Central América do Sul Ásia Central Indo-Birmânia Indo.Birmânia

Amendoim

BrasillUlUguai

A!godilo

Romi

Ásia Menor

Abóbora-moranga

América CenLra!

América

do Sul

Abacaxi

América

CenlJal

Cinhamo

Ruibarbo

BrasiVUruguai Mcdilcrríinco China Etiópia . Á!;ia G:nlral Sul du Chile Indo-Birmãnia Sudesle da Ásia

lo.

Sisal

América

Central

Sésamo

Tabaco

Amêriça Central

Ch'

crun.

Morango

 

Cana Je.açúcar

crun.

r'Oll1el: A. ínfunnlçllel fOl1m ,ec<>lhíd•• de díve,," enciclupédi •• botinic ••• m •• li fonle~i- r.í~ fonm pubtiCOÇÕ'OIdo IBI'GR •• um mlp' oS••.,.,I. de refcrêneil prepa •• do pel. S

.~-

Me,

Através da história, todo agricultor de subsistência tem sido um melhoristaefetivo de planta~. A tendência atual entre alguns melhoristas de plantas de desvaloriz.arem as históricas contribuições dos agricultores do Terceiro Mundo é, quando muito, decepcionante. Entre os mais experientes em coletas internacionais, o Dr. Jack Harlan. da

Universidade de IlIinois, e o Dr. Garrison Wilkes, da Universidade de

,

Massachusetts, mostraram-se impressionados com o planejamento de coleta de sementes posto em prática por cultivadores tradicionais tl . Os governos têm também se envolvido por milhares de anos. A primeira expedição internacional que se tem notícia; iniciada em 1570 A.C., pela " rainha e~ípcia Hatshepsut, foi ao país de Punt (Somália), em busca de incensaI. No longínquo século XI, os imperadores ~e Sung, na

China, estiveram melhorando arroz de cuna maturação lf!lponado da

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Indo-Birmânia, tendo reduzido o período de crescimemo de 180 para

100 dias. Há um século e meio atrás. os melhoristas chineses reduziram

o período de crescimento do arroz para 35 dias (após o transplante) e diversas variedades de arroz de haste curta foram desenvolvidas13.

1.2

O grau de interdependência

A interdependência global de culturas pode ser melhor verificada

através de uma estória a respeito do trigo. contada pelo Df. Jack Harlan:

"A origem poderia ser traçada da Galícia, na Polônia, até a Alemanha, Escócia e Canadá, onde uma única seleção, feita por David Fife, de Ontário, produziu a variedade ~ed Fi/e.Foi C. E. Sauders. tarnbéJl1 ~o Canadá. quem cruzou a Red Fife com a Hard Red Calcuua, da India, originando a Marquis 14 As pradarias canadenses nunca poderiam ter-se tornado um celeiro mundial se não tivesse acontecido a introdução do trigo Marquis na virada do século. No ano passado, os triticultores do Canadá semearam mais de 55% dos seus campos com outra variedade (Neepawa). contendo uma introdução conhecida como Kenyan Farmer. No total. 76% do trigo para panificilÇão é atualmente, ao menos em parte. derivado dessa intnxiução da Africa Oriental15. Mas tal situação não é exclusiva do trigo. A aveia Harmon, do Canadá. contém genes do Egito, Sibéria e França; a cevada Banama'deriva da Mandchúria. Turquia e Finlândia.

No começo da década de 70, o. USDA

. US Department o/

Agricu/ture (Depanamento da Agricultura dos EUA) informou, em breve relato, sobre a dependência da América do Nane para com o germoplasma do Terceiro Mundo l6 . Pepinos, ~r exemp)o, afiara dependem em muito de introduções da Coréia. Bmnânia e Indial . O Canadá depende paniculanneme de três linhas de cruzamento da Birmânia. O alface Buuerking do Canadá deriva de Israel, ao passo que muitas variedades americanas procedem da Turquial8. O feijão-eomum cultivado nos Estados Unidos contém tipos de resistência a doenças do México, Síria. Turquia, China e El Salvadorl9. A resistência a doenças em ervilhas. por outro lado. chega à América do Nane proveniente do Peru. Irã. Turquia. Grécia e Irália. Confprme informou o D~p~a!l1ento da Agriculwra dos EUA: "Em resposta às urgentes eXIgenClas da indústria", equipes de explora9ão percorreram o mundo entre 1969 e 1970 à procur~ de erv~lhas reslst:nte;' a? frio, ~ seca e a d~nças~, O mesmo relatóno menCiOna que a mdustna amencana de espmafre tem ~ido repetidament.e salva do d~~astre" atra.vés de novas introduções _da India. Irã. TurqUia, Mandchuna c .B~lgl~a. Como exemplo, a r.!. /40467 do Irã é a base para a reslstencla a doenças na cultura de espinafre-da -califórnia 21.

'i'8

',.:

~:' Não foi por acaso que os agricultores do Terceiro Mundo efetua-

:~ ,'ram melhoramentos para as doenças endêmicas da ,,\ustrália ou _da ':¥" América do Norte. mas porque a limitada base ~en~u,:a das naçocs

\ ocidentais oferece pOucas oponunidade~ para reS1S~encla a doenças.

. Novo material genético toma-se necessárIo para conUnuar a luta contra

as pragas e doenças. em constante ",!utação, material que ~ão.vem.s6 dos Centros de Origem 22 . A Austrália. por exemplo. fez Significativa contribuição à indústria nane-americana de tomates, embo~a o centro de

'-c. diversidade esteja no México. Os tomates norte;amencanos ,~ne- C ficiaram-se também de genes da URSS e de Pano RICoD. A mctena da , murcha do fumo, na Virgínia, finalmente foi bloqueada com uma

e o luxuriante capit? Bennuda, que ~ecora

';:~' nossos gramados, campos de golfe e cemitérios, vem da África do

;:' iptrod.ução da Colômbia

":!. , Sul

2S

24

. Nossas principais culturas de cereais ilustram, de modo

:~" panicular, a fraqueza da base genética da América do Norte. Em 19'?3, ~'l. <lI> pesquisadores da Universidade de Purdue .encontr~m o re;qu~sIto .1i~;qpe precisavam para o sorgo através ~e duas I.ntroduçoes da. Etiópla26. ~;.lit;.t:{ão, fosse pela P J. 178383, um tngo traZido da TurqUia para o

f,

rl9roeste do Pacífico por Harlan, em 1948, os triticuhores americanos

:~ perderiam no mínimo mais uns US$ 3 milhões por ano para se livrarem da ferrugem 27 . Igualmente, a variedade AWPX3 da alfafa tem 32 clones oriundos de nove países, inclusive a Arábia .Saudita e o

',;' Afeganistã02 . Quando a ferrugem atacou a cultura de. aveia no Canadá.

há poucos anos. os cientistas da Universidade de Manltoba encontraram a solução em material novo do norte da Africa29.

8

"

., ':';:, Fonles de germoplasma dos F.slados Unidos Tabela 2 ' lll' CULTURA FONTES PRINCIPAIS
.,
':';:, Fonles de germoplasma dos F.slados Unidos
Tabela 2
'
lll' CULTURA
FONTES PRINCIPAIS DE GERMOPLASMA
~;
Milho
_~i£ Soja
\'f:~
Grlos nativos (lndian Com). desenvolvimento in si/li.
Norte
e leste da Oin •• Coréi", Iapio
V;-,' Alfafa
Chile, Alemanha,
URSS. Índia, Frllllfa, PClU, Egito
'::,: Trigo.
I". Algodão
Norte da Europa. tooia, URSS. Itália, Austrália
Mixico, Bahamas, fgllO
11 Fumo
L.
Sorgo
América do Sul.1ndias Ocidentais
Egito, Sudio. África do Sul
'!' Batata
E~",
Laranja
Açores. Brasil. in suu
Am>,
HondUlU, Iapiio, Filipinas. Madagas<:ar
Tomate
Inglaterra. França. in si/li
Amendoim
Aveia
Espanha, Brasil
Méxko. UruguaL URSS. Austrália
Cevada.
México. Esc6cia, Alemanha. URSS, B.ílcls. Turquia
Belem\ba.
j,
açucareira
iFou,,, In. J~k HMlm M~""", •••• p,bIi<odo.
j!t~r
9

"

A cultura da cevada. nos Estados Unidos, 'tem .ddogrande difi~

10.

OlDAElD, M.L Tire UlüiUJlion and Con.<ervalion of GtMlic Rtsourcu: An

culdade

principalmente da Argélia, mas as atuais variedndeS.1lambém contêm

material genético do Egito. URSS e China. A resistência ao míldio, no centeio. provém da Mandchúria, ao passo que o "anão amarelo do centeio" - uma nova doença - é bloqueado apenas pela introdução de um gene da Etiópia. Se o "anão amarelo da cevada" se tomasse um problema maior, toda a cultura do mundo ficaria dependente deste único gene eúope 30 .

Quando você se sentar para jantar hoje à noite, não haverá nada em

seu prato que não tenha vindo, direta ou indiretamente, do Terceiro

em se adaptar ao novo continente. A resistêll.cia a doenças vem

Mundo.

Nosso sistema alimentar é imensamente mais interdependente que

a maioria de nós poderia ima~inar. Se acontecesse algo que viesse a

reduzir severamente a diversIdade genética do Terceiro Mundo ou tomasse impossível para o Primeiro Mundo obter o germo~lasma vital

a

possibilidade de uma crise mundial de alimentos seria mUito grande. E

evidente que as nações "pobres" de genes, fora dos Centros de Vavilov,

continuarão a procurar apoio no Terceiro Mundo.

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[6. EUA. Departamento da Agricultura. TIIe NaI;onal Program fe»' lhe ConrtrwJliDn of

C'ap Gemi Pla.rm. Junho de 1971, p. 9.

17:

lbid.,

p.

47

18. Ibid., p. 47.

19. Ibid., p. 46.

20. Ibid,

p. 52.

21. Ibid.

p. 56.

22. HARLAN, 1.R. Op. cil.

23. EUA 1kplIrtamento da A&ricullUla. Tht NaJi()Ilal Program. for lhe COll5ervalion of

Crop Germ Plaw Junho de 1971, p. 56.57.

24. lbid., p. 43,

25. IbM., p. 60.

26. ECKHOLM,

E. Op. dr., p. 12.

27. EUA. Departamento da Allricuhura.

CrQp Gtrm Pla.rm. Iunho di! 1971, p. 40.

28. Ibid., p. 42.

Tht NaJ;onal Program for lhe ConstrvaJwn of

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Saskatchewan. Canadi, 19n.

,I. !

.~:

~:

~;

30. SCHALLER,

Cuhivm. Ca/i/ornia IIgricuilW't. SelCmbro dc 1977, p. 18-19.

C.W. Ulililing

GeneLic Diversily on thç lmproven1l!nt

11

of Barll!Y

,

,\

CapÍlulo2

A Erosão Genética

Rcpc,lliruurllm1e, na dlieado de 70, thscobrinws agrkullores mo.icaJIQS cwtivaMo miJho hllNido de uma firma de sem£nJCS do Meio OCSlt, agricll1toru lihe/anos plano tando cevada de ••ma ~taçdo de m£/haramenJo da Escandifldvia e plamadores rW'cos

cu/filiando trigo do pn)grama mexicano. Cada uma deS$GS áreas clássicas de djver:'id.w~

genilica espedJka esJá se tornando f(1{>idiJmenJewna áreo:l de uniformidade tU sent.enles.

(Or. Garrison Wilkcs, lloston, Mass., EUA, 1977.)

o p'cx:cs.so rep'csenJa lU7l f'<Vadoxo no desenvoivimollo

social e econiim.il:o,

no

sentido de que o produ/o da ttcnologia (rru:llwTamenJopara produtividade e uni.for- midade) desloca o recurso sobre o q~l SI! baseia a lecnologill. (Academia Nacional de

Ciências dos EUA, 1972.)

2.1 O processo de "erosão"

Confonne foi mencionado no capítulo anterior, a diversidade genética do Terceiro Mundo diminuiu grandemente. A destruição continuada dos Centros de Vavilov resultará, finalmente, no aumento da uniformidade genética e da vulnerabilidade das culturas em todo o mundo. O Dr. J. G. Hawkes, da Universidade de Birmingham, referiu- se a material genético secular sendo sumariamente "varrido"l; o Dr. Jack Harlan chamou esse processo de "extinção genética''2. Mais moderada em sua terminologia, a FAO falou em "erosão"]. Os alarmes a respeito dessa situação têm soado desde a Segunda Guerra Mundial, embora ninguém tivesse dado ouvidos, até que a murcha atingiu

subitamente a cultura do milho nos Estados Unidos, em 1970, deixando os Estados sulinos com apenas metade das suas safras. De repente, a pobreza genética do Primeiro Mundo tomou-se clara para todos. O Dr. WiIliam Caldwell, do USDA, comentou: "Estávamos sentados, gordos,

mudos e felizes

os hlbridos estavam indo bem e, subitamente, a

doença che~ou. Não acreditávamos que isso pudesse acontecer, mas aconteceu."~ Uma doença, constatada primeiramente nas Filipinas oito anos antes, atacou repentinamente o Citoplasma Texas (T), comum a quase todos os híbridos cultivados no Su1 5 . A prolifçração .de m.arcas comerciais de variedades de milho lem acobertado a umfomudadc genética das sementes comerciais do cereal. Agricultores irados e frustrados levaram diversas companhias às barras dos tribunais desde cntã0 6 .

'12

I

.-oi' :~ A diversidade genética vegetal está sempre criada e destruída. . , ~ Não deve alarmar ninguém o falo de que algum materi.al genético, que

l!!i~poderia tCFsido de alguma utilidade para cultura~ importantes, tenha , .:1'"' desaparecIdo ou esteja em processo de desaparecimento. O que deve

,~~. causar preocupação é a erradicação maciça, em grande escala, de U:~material de melhoramento ins~bstitufvel, nos !l1!~hares?e quilômetros

I , <, quadrados de solo arável. É a ISSOque a "erosao genética se refere. O

;. ~Ii' biólogo Thomas Lovejoy estima uma perda de um sexto das espécies :~:,r_vivas do mundo até o final deste século? O biólogo George M.

l~-"Woodwell descreve a "erosão" genética como "um dos grandes

) ~o mesm? nível da proliferação nuclear

(~~:)-e o ultImo recurso é o bIOta - nao há outro. E nós o estamos

,"'{ assuntos ~o.nosso tempo (

I - .: destruindo"8- O diretor do Jardim Botânico do Missouri, Peter Raven,

;,J~::calcula .que cada varied~de de pla~ta que .des~parece leva com ela entre

fi)t, dez e tnnta outras espécies vegetais ou al11maISque dela dependem para W sua sobrevivência 9 . As "espécies ameaçadas" já perfazem dez por cento I;f- da vida vegetal nativa da América do Norte - e a situação não é menos ~. ~~tica na Europa lO .

~:t:.t A "erosão" genética significa muito mais que uma perda teórica

- para os cientistas do futuro: "Literalmente, a milenar diversidade ,f~"genética de uma determinada variedade pode desaparecer num simples ~¥.'prato de millgau"lI. Isso foi o que aconteceu com incontáveis

variedades de tri~o no Afeganistão, quando programas de auxilio

alimentar encorajavam os agricultores a comerem suas antigas Íí'!." sementes 12 . A Dra, Ema Benneu, da Unidade de Ecologia de Cuitur<,s ~e.Agrícolas da FAO, conta outm estória sobre o trigo, ocorrida na Grécia, ~i~',onde novas variedades de alto rendimento, cultivadas nos vales, ti,'. elimi~aram do mercado os agric,ultores tradicion.ais da~ e!1coslas. tfi.' Matenal de melhoramento de valor II1calculável-de ImportancIa para a ~. Austrália, Argentina, França e América do Norte - simplesmente

1 "

~

~fdesapareceu

13

. Numa entrevista para a revista

Ceres, há poucos anos

;jn atrás, o Dr. Jack Harlan relatou sua própria experiência na Turquia, {< o'nde encontrou milhares de variedades de linho crescendo na planície i,'- da' Cilícia. Quando voltou, vinte anos mais tarde, só uma variedade restava - e havia sido importada da Argentinal4.

2.2 As lições da História

A uniformidade genética de uma cultura é um convite para uma epidemia devastadora. A unifonnidade pode resultar de pressões inerentes ao mercado (colheita mecânica, processamento etc.), bem como da ausência de variedade genética num programa de melhoramento. À medida que a "erosão" se espalha pelos Centros de ~.J Vavilov, aumenta o perigo de epidemias em cultivo no mundo

j>,

~

13

industrializado. A murcha da folha do milho, nO.lHemisfério Sul, é apenas a mais recente de uma longa história de epidemias comuns a

todos os continentes.

. ,::.,

Historicamente, o exemplo mais dramático no mundo ocidental foi a fome da batata na Irlanda, em 1840. Num simpósio europeu sobre melhoramento vegetal, no verão de 1978, o Dr. lG. Hawkes analisou a desastrosa doença da batata desde a sua origem, na América do Sulls. Exploradores ingleses retomaram da costa do Caribe, no século XVI, com apenas uma variedade de batata. Cultivada por toda a pane na Europa Setentrional, o 31?arecimento da doença nos cultivos geneticamente uniformes fOI apenas uma questão de tempo. Num

espalio de tempo muito curto, os irlandeses perderam sua principal fonte

de alunentação, o que acarretou, no mínimo, dois milhões de mortos e a

emigração de mais dois milhões de pessoas 16 . Apesar dos significativos esforços feitos no sentido de diversificar as variedades de batata, a Europa ainda permanece vulnerável, necessitando de material genético adicional.

A ferrugem do café destruiu culturas em Sri Lanka, fndia, Java, Malásia, Filipinas, e em vários países africanos. Na verdade, as epidemias são muito comuns nas lavouras do Terceiro Mundo, onde se

cultiva para exportação através de companhias ocidentais: a "doença da banana do Panamá" grassava nas fndias Ocidentais na virada do século;

o "vírus do mosaico" atingiu a cana-de-açúcar na década de 20,

devastando os cultivos na Luisiana, em 1926, até que se encontrou a

solução com a introdução da cana-de-açúcar selvagem de Java; a "floração das bruxas" destruiu culturas de cacau, até que material silvestre novo pudesse ser usado nos cruzamentos; o "vírus do mosaico" atingiu plantações de fumo repetidas vezes, até que se descobriu a imunização na Colômbia l1

No entanto, a "erosão" interna não afeta apenas as culturas de exportação do Terceiro Mundo. No Ecologisl de 1974, P. loho descreveu o impacto, em Zâmbia, do milho híbrido de alto rendimento e uniformidade. Os agricultores empresariais desse país usualmente cobrem cerca de 90% das necessidades da nação. Em 1974, um novo fungo atacou a cultura do milho; 20% dos híbridos ficaram infestados, mas o impacto nas variedades tradicionais, cultivadas pelos cam. poneses, foi insignificante l8 • Um ano após a doença da folha do milho ter atingido o sul dos Estados Unidos, uma "epidemia" muito mais devastaâora tomou conla da cultura do painço-pérola na India. Mais uma vez, o painço.pérola era um híbrido altamente uniforme e de alto rendimento. Quando o citoplasma macho estéril foi atacado por uma forma de mOdio, não houve defesa e, desde 1971, a epidemia tem dizimado partes da cultura do painço a cada ano. Narrando a tragédia

14

em um simpósio de 197.7 o Dr K.M. Safeeulla, de Misore, afumou que "enquanto a doença .d~ milho desencadeou uma reação em cadeia qu~ resultou na etevação dos preços", o aparecimento da doença do pamço-pérola na lndia "levou à inanição, à importação de grãos e à depleção das divisas"19.

No Ocidente, o desastre mais bem conhecido é a "doença do olmo holandês". Os nane-americanos a conhecem por esse nome porque as companhias m:tdeireiras imponaram árvores doentes da França e da Holanda 20 . A vulnerabilidade genética das videiras causa preocupações idênticas a europeus e nane-americanos. Por exemplo, os franceses têm sofrido epidemias sucessivas em seus vinhedos nos últimos 150 anos. A uniformidade tem sido aculpada21.

O trigo.tem um legado especialmente longo de vulnerabilidade. O deus Robigus era invocado da mitologia já em 700 A.C., para proteger da ferrugem os campos romanos de trigo. A ferrugem do trigo devasta os cultivos franceses há séculos, podendo gerar condições de fome pelo menos uma vez a cada década. Na América do Norte, a ferrugem da haste destruiu dois milhões de bushels* de trigo americano e um milhão do canadense em 1916; isso levou à instituição de dois dias por semana "sem trigo", em 1917 22 . O trigo Ceres foi desenvolvido em Dakola, em 1926, como defesa contra a ferrugem do [figo vernlelho duro de primavera. Por volta de 1934, o Ceres ocupava 35% da área americana cultivada com tri:fi0 de primavera. Em 1935, uma mutação no fungo destruiu a cultura . A ferrugem da haste voltou aos Estados Unidos e ao Canadá em 1953, eliminando 65% da safra de lrigo-duro. Em álgumas partes da América do Nane, até 75% do cultivo de trigo- duro desapareceram no início e em meados da década de 70, juntamente com cerca de 25% do trigo de panificaçã0 24 . Michael Allaby' escreveu: "Da noite para o dia, a extrema resistência foi substituída pela extrema vulnerabilidadc"25. A ferrugem rajada atacou no vale do Sacramento em 1974, causando perdas de até 100% no trigo de primavera. O CIMMIT-

lnternarional Maize and WheaI Improvemenl Centre (Centro In-

ternacional de Melhoramento de Milho e Trigo), do México, tornou-se o centro principal de material de melhoramento para os agricultores da Califórnia combaterem 3 ferrugcm 26 . Hoje em dia, tanto o Canadá como os Estados Unidos cultivam as variedades de trigo Pilic, inicialmeme desenvolvidas no México.

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' li!

2.3 As lições continuam

Como resultado da doença do milho, a Academia Nacional de Ciências dos EUA (NAS) elaborou dois estudos. Em 1972 surgiu o

(i) I bushel '" 35.239 liLros (NoT.)

15

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,

I ,ii"'~1"' "

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,

Genetie Vu/nerabUiJy of Major Crops (Vulnerabilidade Genética das Principais Culturas), um relatório preparado por uma comissão chefiada pelo Dr. Janles D. Horsfc1l 27 . O relatório concluía que as culturas norte- americanas eram "de modo impressionante t;;eneticamenre uniformes e impressionantemente vulneráveis". A Comissão observou ainda que "essa unifOffilidade deriva de poderosas forças econômicas e legislativas"28. A vulnerabilidade de cenas culturas americanas, bem como culturas de grãos canadenses, é ilustrada pela Tabela 3; aparentemente, números semelhantes vaIem para a Austrália:

Tabela 3 Vulnerabilidade Genélica das Culturas

CULTURA

Trigo

Linho

Colza

Aveia

Cevada

Centeio

EANADÁ

VARIEDADES

4

4

4

4

3

4

ESTADOS UNIDOS

%

75,9

92,3

95,8

65.1

63.7

80~

!li

~~f'

0i

d

Em 1978, a Academia publicou um se$Undo relatório,

Conservation of Germ Plasm Resources: An lmperatlVe (Conservação

:i:t dos Recursos de Gennoplasma: Uma Necessidade). A Comissão '., responsável lançou um poderoso ataque, alertando a comunidade

:}~'

,

científica sobre os perigos da "erosão", reafirmando as descobertas do relatório anterior. Conlalada um ano ap6s a publicação do relat6rio, a presidente, Ora. Elizabeth Russell, mostrava-se cautelosamente otimista a respeito da situaçã02 9 ; enquanto isso, o Dr. Horsfell comentava. no

início de 1979, não ter havido "nenhuma alteração discernível"30.

pior em relação às culturas

.:;.: para exportação, tão imponantes para as economias das nações do

~'i; Terceiro Mundo. Michael Allaby afirma que a Easl Malling Research ,f Station e o Wye College (Universidade de Londres) estão ativamente

t', { clonando coqueiros para apressar s~a multiplicação. Em futuro

i. h,próximo, plantações de coco na Asia poderão conter árvores

*>,s. geneticamente idênticas, o que as tornarão altamente suscetíveis às

llf" doenças !. Trabalho semelhante está sendo feito para gerar palmeiras

menor porte e de crescimento mais rápid032. Nos de 1977, as companhias de pneus Goodyear e a

Firestone estimularam a plantação, em larga escala, de novas l~ seringueiras de alto rendimento, em culturas espalhadas do Brasil à ;;~~' ,Indonésia. As muhinacionais, que possuem e comercializam essas culturas. podem beneficiar-se substancialmente. desde que mantenham algumas fontes de fornecimento. como as plantações de coco na

~1,produlOras d~ 61eo de . ,. ~"'seus relat6rios anuais

'~1,

De fato, a situação está, sem dúvida,

3

CULTURA

Painço

Algodão

Soja

Feiji\().scco

Feijno-verde

Ervilha

Milho

Batata

Batata-doce

VARIEDADES

3

3

6

2

3

2

6

4

1

Fome:

TM Praúie Pocls: Crop Ácreage Repor/, 1978. Academia Nacional de Ciências do~ EUA. 1972.

\' Malásia, Indonésia e 5ri Lanka. porque uma epidemia num raís não

j{' afetará, necessariamente, a colheila em outro. No entanto, ta tipo de

~ . seleção vegetal geralmente não beneficia os países do Terceiro Mundo 100 k~{:envolvidos.

%

'3

56

60

76

96

11

72

69

'I'~;':;~ Que eventos se juntaram, no último quanel do século XX, para

essa

indagação, o Dr. C. Dorsman, do Banco de Genes de Wageningen, da

~!;>.Holanda, culpou a urbanizayão, o desmatamento, o pastoreio excessivo

to! e a introdução de novas vanedades de alto rendimento pela Revolução

~i; Verde 33

t'( parece estar ameaçad03 4 . A "erosão" no trigo ocorreu com tal

'l'-

~ Li •.causar a destruição dos Centros de Vavilov? Respondendo a

. Por exemplo, o trigo - o mais imponanle cereal do mundo-

't. tntensidade no Oriente Próximo, com o avanço da Revolução Verde,

entre meados das décadas de 60 e de 70, que a Dra. Bennett e outros técnicos da FAO prevêm a perda completa do "centro" naquela região

no final da década de 8()35. Tal perda poderJ ter terríveis implicações

para as culturas mundiais de trigo já no começo do próximo

século .

16

17

C,

,

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I

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2,4 Espécies silvestres

Os agricultores mundiais poderiam ficar mais confortados se

soubessem quais espécies vegetais estão sendo eliminadas. mas infelizmente não é assim. Para complicar o problema, o mundo está

perdendo cenlenas de milhares de espécies silvestres, algumas das quais são parentes proltimas das variedades cultivadas. Suas perdas poderão

causar impacto direto sobre a viabilidade alimentícios.

de futuros recursos

No planalto da Guatemala. o engenheiro florestal Thomas Veblan verificou que uma das poucas florestas de coníferas tropicais está prestes a desaparecer, antes mesmo que o seu potencial econômico possa ser estudado. Num estudo de 1976, Adrien Somer concluiu que uma área florestal equivalente ao território de Cuba é destruída a cada ano e que 40% das florestas tropicais úmidas do mundo foram eliminadas 36 Operações implacáveis de abate de árvores - fre- qüentemente conduzidas por grandes companhias - foram reconhecidas por alguns funcionários da FAO como a causa principal. Numa severa palestra feita no American Paper Institute, em 1975, o Diretor Geral Assistente da FAO, Dr. K. F. S. King, falou sobre a legítima ira dos

eles têm

visto gigantescos dividendos serem declarados por firmas que operam em seus países e não puderam observar qualquer desenvolvimento comparável de seus povos; notaram que alguns poucos estrangeiros devastaram e pilharam implacavelmente suas florestas e outros recursos naturais, deixando os países mais pobres do que quando para eles vieram. Não inventaram essas acusações. Há exemplos em quase todos os países em desenvolvimento"37. Cônscios de que a antiga Babilônia caiu não pela guerra mas pela derrubada de suas árvores, nações ricas em florestas, como a Malásia, a Indonésia e o Brasil, estão começando a reconsiderar seus recursos "supostamente" renováveis3 8 . O mundo volta os olhos para as espécies silvestres não s6 para alimento e abrigo, mas também para medicamentos modernos. Um estudo norte-americano de 1967 revelou que 25% dos remédios vendidos no mercado ame. ricano são derivados diretos de material vegetal. Isso representa US$ 3 bilhões por ano. Um levantamento sobre o mesmo assunto, feito em 1978, sugeriu que tal porcentagem não deverá diminuir neste século39. Incluindo-se micróbios e animais, mais de 40% dos remédios são derivados da natureza 40 . Um relatório indicava que "a mais humilde bactéria pode sintetizar, no curso de sua breve existência, mais compostos orgânicos que todos os químicos do mundo reunidos"41. Para surpresa de mUitos, a moderna medicina pennanece muito dependente de material vegetal.

países do Terceiro Mundo contra a indústria madeireira: "

18

"

,

:;;,: ::

Tabela 4 Plantas Comumente Usadas na FnrmacoloI!ia

PLANTAIDROGA

ORIGEM

Raiz de ipeca

Brasil

Mirra

Etiópia

Sementes de Colchicum

Itália

Crócus de OUINlO

Itália

Bálsamo-do-peru

EI Salvador

Raiz de ruibarbo

índia

sementes de P~lIium

índia

Alo<!,

Caribc

Cáscara-sagrada

EUA

Folhas-de-sena

Egito

Semente de abóbora-rasteira

China

PMayapple R (l'odophyllum

peita/um)

EUA

Pervinca.de.madagascar Raiz de Rauwolfta

índia índia

Coca

África América do Sul

C"""e

América do Sul

QlIabain (SlropillJnlUS gralus)

África

FeijCleS-de-calabar Mamona Trepadeira de feijllo-vellldo

África Ocidenlal EgitO

(Stiz%bium deeri"gia"um)

Egito

Dedaleim-roxa (Digita[js)

Ingl<lterra

Faslwrn

Nigéria

Beladona

Oriente-Médio

HenbMe (Ilyo:scyamus nigcr)

Oriente Médio

MandtágOOl.

Oriente Médio

Pilriteiro

Oriente-Médio

Arbusto de haste verde

China

Efedrina

China

Cinchona

Andes

FINALIDADE

discnteria arnebiana induz ao vômito adslringente, cura irrit.ações bucais gou

gota

cura úlceras de pele e hemorróidas laxativo laxativo .••• analgésico laxativo laxativo vermífugo. esquistossomose

contra o câncer doença de Hodgkin lranq(lilizante hipertensão analgésico rclaxanle muscular em cirurgia estimulante cardíaco conlta glaucoma óleo de rícino

doença de Parkinson estimulante cardíaco problemas estomacais rclaxante oftálmico rclaxante oftálmico relaxante oflálmico rclaxante oflálmico

"ma

febre do feno, hipotensllo cura da malária

Fonte;

AIKMAN, L. Naturc's Girts 10 Mcdicinc. Naliontl[ G~og'ophic. Setembro de 1974.

19

Dependência de plantas significa dependência do Terceiro

Mundo. Plantas contendo aIcal6ides OCorremduas vezes mais nos

trópicos que nas zonas temperadas. Os alcal6ides, de vital importância para a medicina, têm sido estudados em apenas 40% das plantas conhecidas. A Tanzânia conta com mais de 500 plantas atualmente utilizadas na medicina chinesa que não foram avaliadas amplamente no Ocidente. Reconhecendo que plantas úteis para a medicIna estavam especialmenre ameaçadas nas Filipinas. agências internacionais começaram a trabalhar, no verão de 1978, para coletar mais de mil plantas benéficas sob o ponto de vista médiCO. A imponância desse trabalho pode ser exemplificada pela erva-dos~cachos (Phyro//aca americana). A composição qu(mica dessa planta parece oferecer ao mundo ~ solução para a esquistossomose, uma enfermidade que Terceiro atualme:tr,e Mund042, afeta a saúde de mais de 200 milhões de iíldivíduos no

A Revolução Verde aumentou enormemente a capacidade produtiva de algumas culturas imponantes, No entanto, a consery-ação genética deveria também ter sido incorporada aos diversos esquemas de desenvolvimento agrícola, uma vez que a riqueza genética de uma área pode simplesmente desaparecer em poucos anos, sob a pressão de produção de uma única variedade Importada, Antes de examinar algumas das causas legislativas e comerciais da "erosão", olharemos para o trabalho atualmente em andamento, que está temando amenizara desaparecimemo do gennoplasma vegetal.

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,~ .;'22. Ibid., P. 18.

.--;j-

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f~.:,

rI' 24. WIUES,

Ji

,

G. Dp. cú., p. 15.

 

~~

25.

All.ABY, M. Op. cit~p. 181.

5. All.ABY, M. Mir;ICle Rice Brecds Miracle locusts. EcO/OguI, p. 181.

;;t

6. Enll"e as fU11l1lS envolvidas

Broo.

7. ECKHOLM,

8. Jbid., p. 18.

E. Op. dI., p. 7.

incluem.se

a Andcrson

20

Clayton,

Dckalb

c Pionccr

Hi-

'

1,

I

26. QUAL'õET,

C.O.

Iil ai. Brccding

Successes

Cu.liforniaAgriculllUe. Selembro de 1977, p. 27.

1:1. NAS. GefU'/ic Vulnerabili/y 01 Major Crops.

EUA.

28. Ibid~ p. I.

29. De enlrevisla telefônica com o Dr. Ruuell, em m~

21

with Spring

Whcat Gemi

Plasmo

Academia Nacionul de Cimcias

dol

de 1979.

30. De enllevisl.l rclefônic. com o Or. Russell, em mlll'ÇO de 1979.

31. AlLABy, M. Op. cil~ p. 181.

32. HMUN, J.R. Op. cit~P. 330.

33. De cOlTCSpOndêncimpessoal. dalJda de 24 de oUNbro de 1978.

34. COlAR. Prwritiu tlmoIIg Crops anti R~gibns. 1976, P. 6.

35. De converEl telefônica com E. Benneu,. em 26/06fl8.

36. ECKHOLM, E. Op. ril~ p. 10.

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38. ECKHOlM, E. Op. rit., p. 36.

39. NAS. COflS~rvaljOlloi Gom PllU11IRcsourult: ti,. /mp~ralive. Academia Nacional

de Ciências dos EUA, 1978, p. 33.

40. ECKHOlM, E. Op. tit~ p. 21.

41. lbid., P. 17.

42. Ibid., p. 17.18.

22

Capítulo]

Conservação Genética

S~rin agradliw:l p~ns(U q~ toda a diw:rsidatk genilita de que ainda V<JmOItpr«isar está gUiVdado. tom segurança ~m btW:os tk geJll!s para llSOfuturo. /rifefizmOlU isso tido i W!rdDde.O National Seed Storage Laboratory tem reubido t(alQmLtIlOd~ ~tIl~ado, Um qualquu QUI1lit!t1l0~m s~u orçamt:tIlo o~raticnaf /lOS mais tk /5 anos tJpÓs sua

fundaç6t>. (Or. Jacl:; Harlan. Universidmde de Illinais, EUA, 1975.)

TmtOIt erw:OIIJradotOlUlanJu difICuldades devido d /J'IIJrtanJefalia de flPOWjinanteiro. OJ r«urros fiflOllC~iros de qu~ n«tssitamoJ sl1D tk ordem inflnittsimal, tomparados com lU somas que a llllm<lnidade d~lIOla a fins muilo /MN» tonsfrUI,IIOS. (Sir .QUo Frankcl, Canbctra, AU$llália, 1969.)

No.ssos gQW!rMS, pruvjnciais ~ federal, aJ.i agora 1Itlo demonstrcuam preocupaçfJo

apreciável, p/Ua 1Itlofalar de encorajamt:nro " opoio fillanu;ro, para a pesquisa na área

de tknktu de iJmOslrrJgem. co/ela, tons •

W!g~fais.(Or. S. lana, Universidade de Saskalchewan. Canadá, 1979.)

rvaç6t>

~ manejo de r~cIUSOS gen/ficos

3.1 A "rede" de conservação

Superficialmente, os recursos genéticos do mundo parecem estar protegidos por uma fonnidável rede internacional de bancos de genes, centros de pesquisa de cuhuras, superlaboratórios de sementes e dólares para pesquisa. O centro dessa rede é o IBPGR -Internacional Boardfor Plant Genecic Resources (Conselho Inlernacional para Recursos Genéticos Vegetais). Sediado em Roma, o Conselho busca coordenar o trabalho regional efetuado por oilo estações internacionais de pesquisa de culturas, estrategicamente localizadas nos principais Centros de Vavilov. Há também cerca de sessenta bancos de genes controlados por diversas nações, cujo trabalho o IBPGR tem de avalij!fl. O IBPGR, as e~tações e os bancos recebem apoio do NSSL _ Nacional Seed Slorage .Laboracory (Laooral6rio Nacional de Annazenagem de Sementes), nos Estados Unidos. O NSSL goza de uma silUação especial junto ao IBPGR, uma vez que "mantém material como coleção básica para os l&ados Unidos e para toda a rede de centros de recursos genéticos"2. Suas cok.ções globais incluem milho, sorgo, trigo e arroi:"Comparável

1.\, ao

NSSL, é o Banco de Genes N. I. Vavilov, na URSS _ centro esse

. ~. CJ.ueprovavelmente possui uma coleção mais diversificada de material

silvestre e cultivadoJ,

23

Os dólares envolvidos na agricultura global poderiam também parec~r substa~ciais à primeira vista. Na preparação pard a Conferência Mundial de Ahmentos de 1974. a FAO decfarava que o total investido

em pesquisa agrícola em lodos os países era

4

de 1 56 bilhões de

d6}ares , Entr~tanto, 85% desse vJlor são gastos de~tro do mundo ocidental e mUito pouco dessa porcentagem vai para programas básicos

de coleta e conservação S . Como as políticas e orçamentos governamentais impõem restrições reais, o lBPGR atreve-se a falar apenas de uma rede de conservação "emergente"6.

Conselho Internacional para Recursos Genéticos Vegetais (lBPGR)

. O destino gené!ico do mundo I'0de estar se apoiando sobre os coraJosos mas frágeIS ombros do BPGR. Com um secretariado composto por seis pessoas e um orçamenlo inferior a US$ 3 milhões em 1979, o ~BPGR de,:,e sua existência ao CGIAR _ Consultive Group on In.ternanonal AgTlcullw:a/ Research (Grupo Consultivo sobre PesquIsa Agrfcola InternaCIOnal), um grupo cujos 34 govemos~ membros, mais as fundações Rockefeller, Ford e Kellogg, operam sob o. olhar benevolente do Banco Mundial e do Programa de Desenvol- vimento das Nações Unidas 7.

O obj7tivo fundamental do IBPGR é criar uma rede internacional. Nesse íntenm, o Conselho está criando um banco internacional de informática, conhecido por Programa de Infonnação Cientí- ficaIRecursos Genéticos (IS/GR); um programa de treinamento; um programa de conser,vação,. isto é, de apoio às instalações para arm~zenagem e pesquJsa báSica pa.ra conservação; e iniciativas especiais relativas à conservação de determinadas culturas e programas regionais de conservação. Grande parcela desse trabalho volta-se para os Centros de Vavilov, de div~rsidade .genética, e para programas de exploração e ~azenagem rela~lvos a taiS centros. Através de um grande número de entidades consultivas, o IBPGR estabeleceu também um sistema prioritário de coleta para variedades ameaçadas. Como pOnto de Interesse, o trigo encabeça a lista 8.

. O IBP9R. ~ um órgão independente, sendo os seus membros

eleItos comO,IndlVlduos, não como representantes. Geograficamente, há

três conselheiros da América do None, seis da Europa e cinco do Terceiro Mundo - mais dois membros ex-officio, que representam a FAO e o UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente). O Conselho reúne-se duas vezes por ano, enquanto que seu Comitê Executivo encon!fa.se quatro vezes no mesmo período. O Conselho dispõe de dois comitês consultivos: um relaCiona-se à função de

24

l, infonnação e o outro a. culturas específ}cas 9 . As ~mpresas. estão

t:f International), que preside. o importante Conute. Consu1~lvo de

~' Germoplasma Vegetal, e o Dr. L. r;r. Bransc0J!l~ (Vlce-p:esldente e " Cientista Chefe da IBM), que preSide o Comlte Consultivo para o Sistemade Comunicações, Informação e Documentação sobre ~ecursos Genéticos (GRlCIDS)ID. Grunde confiança també';11 é depo~ll~a no Serviço de Ecologia de Culturas e Recursos Genéucos. da DIVIsa0 de Produção e Proteção Vegetal da FAO.

t

" representadas pelo Dr

W. I."Brown (PreSidente ~a~ PJOneer I:Il~Bred

~"'"; j, O IBPGR foi fundado em 1974, c:om o orçam~nt? muito modesto ',M de 570 mil dólares e ainda operava abaiXO de um mtlhao de dólares em 1~ ,1976. Dado o seu papel de coordenação, o Conselho. não destinava

,,; .grandes somas para si, alocando-se uma q~antia anual ao redor de US$

.

l.,J:nove governos e o UNEP. o.os nov~ governos, seis são europeus. e os

são dos EUA, Arábia Saudita e Can~dá. As doações totaIS em

'.: 3.milhões,

0,:

~ i«estantes

em 1981 11 . As doações provem de dez grandes fontes -

1977 alcançaram os US$ 932 654, dos qUaIS 65,8% (US$ 613 791)

~' ).;foram

para as nações industrializadas. A t1!aior parte destinou-se aos

:;:::~;'Estados Unidos (U5$ 416 050) para apoiO ao programa de docu4

do NSSL. Ul!la vez que o~ E.UA contribuíram apenas com

~-,,' :mentação

;, '~fl.US$ 200 mil em 1977, tIveram lucro liqUido no mesmo anol2.

~;::;

'~ .Tabela 5 "~?JFinanci<ldores do IllPGR em 1977 .i :, .' Financiador Moeda ! .
'~
.Tabela 5
"~?JFinanci<ldores do IllPGR em 1977
.i
:, .' Financiador
Moeda
!
. :~Bélgica
Franco belga
'll:in»dá
Dólar canadense
:'~Fedcrnl
Marco alemao
~,Holallda
Dólar americano
: Noruega
Coroa norueguesa
'.Âlábia Saudita
Dólar americano
SUécia
Coroa sueca
, Reino Unido
UNEP
Libra esterlina
Dólar americano
EStados Unidos
Dólar americano

Fonte; Rcl.ll6rio Anual do IDPRC, 19n.

Contribuição

2000000

95000

100 000

100 000

500 000

10 000

1400 000

45000

100000

200000

Laboratório Nacional de Armazenagem de Sementes (NSSL)

" ;.

Intimamente ligado ao I.BPGR, o Labora~ório Nacional de

'_':Armazenagemde Sementes localiza-se em Fort Colhns, Colorado~ EU~

:.t: o annazém mundial das principais culturas. O Laboratóno

fOI

25

inaugurado em setembro de 1958, com o orçamento de US$'450 mil13,

Não houve aumento em seu orçamento operacional até '.meados da década de 70, continuando ainda hoje com fundos insuficientesl4. Toda a instalação, construída acima do nível do solo, encontra.se agora a meio caminho 1S entre as maiores fábricas de munição dos EUA e um

realor nuclear

protegido o banco central mundial de genes vegetais? As portas são fechadas à noite e a polícia do campus da Universidade Federal do Celorado vigia o edifício. Um funcionário descreveu o laboratório como "um pato pousado" e enfatizou a "proteção nula contra bombas ou radiação" 16 .

, Além dessas duas desventuradas negli~ências. como é

Ainda que seja pouco menos que um Fort Knol( das plantas. o Laboratório é ainda muito estimado pelas principais finnas de sementes, que "mostram o mais ativo interesse e preocupação"l7. E devem estimá. lo mesmo, pois 25% do espaço de armazenagem do banco mundial de genes estão ocupados com "material tipo ornamental", com alto potencial de lucro. Em outubro de 1978, o Diretor do Laboratório, Dr. Louis N. Baas, escreveu: "Não creio 9.ue qualquer governo tenha

destinado fundos suficientes para realizar toda a

necessidade de um programa para o caso de um desastre é muito grande no caso de algumas sementes. Por exemplo, a situação que OCorreu com as variedades de trigo"18. O DT. Baas goza de alto conceito junto à comunidade internacional, por sua preocupação .ressoai a respeito da "erosão" genética e seus próprios esforços para manter as coisas em andamento".

tarefa ( ). A

Estações internacionais de pesquisas de culturas

Com o mesmo tipo de vínculo do IBPGR com o Banco Mundial e o CGIAR, as oito estações internacionais de pesquisa de culturas têm sido consideradas como ligadas à função primordial de coleta e catalogação de material encontrado nos Centros de Vavilov. No entanto, apesar da importância desse papel, as estaçõcs contribuíram inad~ vertidamente para o mito prevalecente de que os programas de conservação estejam bem desenvolvidos.

Por muitos anos, os melhoristas de plantas da Nova Zelândia, da França e de outras regiões desenvolveram seus trabalhos presumindo que grandes coisas estava.m sendo feitas nesses centros, enquanto que, na verdade, já existiam dificuldades para a realização dos seus objetivos principais, que eram os de desenvolver novas variedades de culturas . .como um todo, os programas de coleta têm sido muito específicos, com ênfase nas características de rendimento e uniformidade. Harlan notou que "a maioria das nossas chamadas coleções mundiais são

lamentavelmente deficientes em espécies silvestres (

) Isso deve ser

26

~apa 2

Principais estações Internacionais de pesquisa de culturas

.•

,.

,

ReJal6rio Anual do illPGR, 1977.

27

I"

corrigido de imediato, ou então será muito tarde para muitas culturas"!9, Este ponto de"vista é compartilhado pela Academia Nacio- nal de.Ciências dos EUA, cujo estudo, de 1978, deplorava "a tendência de. mUitos aSsuntos imponantcs em cair entre as fissuras de obrigações eXistentes, las"20, de modo que ninguém toma a responsabilidade de enfrentá-

Em parte, as lacunas surgem com estações de monoculturas operando em centros de diversidade de plantas. Os le~umes e outras culturas de subsistência, excluindo-se os grãos principaiS, tendem a ser considerados não-prioritários. No entanto, mesmo as culturas principais necessitam de mais fundos. Na Indonésia, por exemplo, o Dr. S. Sastrapradja relatou ao IBPGR que diversas variedades econo- micamente importantes de arroz e sorgo não haviam sido coletadas em seu país, estando em perigo de desaparecerem21. Uma das mais notáveis perdas foi a da madeira para esculturas utilizada em Bali, exaurida pela demanda do comércio tunstico22.

Em levantamento de 1973, para a FAO, especialistas de renome catalogaram espantosa lista de coletas necessárias23. O Dr. E. Kielluviet referiu-se à perda do trigo Einkorn na Turquia 24. Revendo o trigo na área do Mediterrâneo, a Ora. Ema Benneu comentou que todos os cereais "eslão em posição muito precária". No Iraque, variedades locais foram substituídas por outras importadas do Méxlc026. A situação dos "cereais" na Síria foi definida como muito séria27. Kielluviet obscivou que a situação da cevada na Turquia requeria medidas urgentes e admitiu que, embora a situação da aveia não fosse tão séria naquele país, os melhoristas do Canadá e da Escandinávia estavam ansiosos por

outras coletas

urgência na ESl?anha, onde os hibridos comerciais estavam substituindo material tradiclOna12 9 . Mais coletas de milho eram necessárias no México e Guatemala, apesar do CIMMYT estar operando no México desde a Segunda Guerra Mundiapo.

Bancos nacionais de genes

28

. Novas coletas de milho foram também exigidas com

Na base da escada da conservação

genética estão af.roxi.

madamente sessenta bancos nacionais de genes, formados para co etar e preservar tesouros nacionais e para colher, dos recursos mundiais, qualquer material que possa ser solicitado por melhoristas locais. Há vários anos o UNDP e a FAO vêm trabalhando sem sucesso com os curadores dos bancos de genes da Europa para estabelecer uma estratégia continemal de conservação. Muitos países, inclusive o Canadá, acreditam que os norte-americanos têm um sistema modelo. Desde que o sistema de coleções tornou-se oficial, em 1898, o governo norte.americano subvencionou rnaisde 150 expedições ao exterior, que

28

país mais de 350 mil novas plantas31. O relatório de

,.

r~.}plantas32. ASSim como o IBPGR, os americanos falam de um sistema

'~.4Iue tende a se ~fletir mais em mapas e gráficos que : .'~er:tavos. Com CInCOa sete expedições ao exterior por

:" , '~estao bem aquém das suas próprias

em d6lares e ano, os EUA

íJ~;78.do."Sistema Nacional de Germoplasma Vegetal" identificou onze .:'pnnclpals ban.cos de genes, com um total de 276 124 introduções de

t~b:ouxeram para o

necessidades33. O Dr. Desmond

},p'~lan, do banco de genes de Geneva, Nova Yorle, estima que a dotação

,~~e:~~~~ra colela' eslejano máximoentre US$ 35 mil e US$ 40 mil

'

opa 3 "o rincipnis bancos de genes

l~.

FAO, GOW'Jic CfNlStrY(Jlion. FAO Genc:lic Conservation Training ProgTlunmc, Crop EcoJogy .wl Gcnetic Rcsol.1l'Ces Uni!, PIiF 7460.

~ A Çomissão Nacional de Recursos Genéticos Vegetais reuniu.se

,~; em Washmgton, em maio de 1978, após ter sido suspensa pelo governo

.: -.çarter,

de julho de 1977 a fevereiro de 197835 . Seus membros enfa~

~ ttzaram que a revisão política trouxe.os de volta à existência. O Dr. ~ •.Charlc~ Adamson, do banco de genes Savannah, Geórgia, mencionou .ter haVido aumento de reconhecimento dentro do USDA, mas também

:laIenou que "a agência sofreu sério declínio. Acho que os esforços do

-:governo nessa área sofrerão sempre com a má. vontade em se admitir a

29

,,-!.

.

.

Incapacidade para estabelecer prioridades"36, PareCia/pois, imprudente para os outros palses confiarem tão-somente\ nos EUA para Conservarem os recursos genéticos do mundo.

Entretanto, em comparação com seu vizinho do Norte o sistema americano chega a ser bril~ante. Encarregada pelo iBPGR de salvaguardar os recursos mundiais de cevada, a Comissão de Peritos em Recursos Genéticos Vegetais do Canadá reuniu-se em novembro de 1977, para revisar seu programa, As discussões, em ~{vel de urgência, versaram sobre a neceSSIdade de uma nova unidade de armazenamento na E~tação de Pesquisa de Ottawa, para acomodar novas aquisições do extenoe, bem como de recursos locais. A Comissão teve de mostrar seu esforço de três anos para persuadir os mais altos escalões da agricultura canadense, com o fim de conseguir os fundos necessários, Meio desesperados, os membros da Comissão propuseram incrementar os contatos com a CIDA - Canadian Internariana/ Devefopmellt Agency (Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional) ou com o IDRC - Internarionaf Devefopment Research Centre (Centro Inter. nacional de Pesquisa e Desenvolvimento), Foi também sugerido um contato com o IBPGR, até que se mencionou que um pedido de 25 mil

Mnpa4

Sistema nacional de germoplasma vegetal americano

Fonte; USDA,19n.

30

,"'"

r~~ • dólares canadenses poderia ser considerado embaraços037. No entanto, ~i" em outu~ro de 1978, o Dr, Roland Loiselle, do banco de genes de

:;" Ot~awa. tn~o~ou

que as autoridades estavam prontas a aprovar a

. Unidade

adlCJOnal de armazenagem, bem como a subvencionar um

programa d,e conservação, "embora nenhuma ação imediata seja poss(vel deVido às restrições orçamemárias"38.

Canadá parece funcionar com cerca de

-.,' 60 mJl dólares c~nadenses por ano, com um corpo de funcionários de &~uma pessoa e meIa em Ottawa 39 , Além de Ottawa, há 36 outros bancos ~;/,de ge~es no Canadá, variando desde unidades de armazenagem ;.: l apropnadas, até congeladores do tipo doméstico. A maioria está ao ,:?~;n(vel ~e coleções mu~toyequenas 40 . A despeilo dos melhores esforços ~ i;;- ,de LOIselle e sua corrussao, menos de um terço das pessoas possuidoras ,t;I.',de coleções respondeu aos pedidos de infonnações da AgricuJture

, O programa nacional do

ç'Canada à época do seu relato à comissão. no final de 197741, Está claro :.'que ninguém ~o Canad~ sabe qu~nto está sendo $'asto, ou por quem, ';ém conservaçao genétIca; ou. amda, o que eXiste disponível nos

Quanto às expedições ao exterior, um pedido de

;~~infonnaç~s, por telefone, ao pres!d~nte_ da Comissão em Ottawa, J?r. ,; ,Oi :,Charle~ BIShop.• resultou, na ~?hcltaçao de fundos para financulT

: }l:~excursoes ao Oneme ~édlO, Criticando a fraca resposta aos pedidos de -.••~ dados pelos melhonstas de plantas canadenses, o Dr, Loiselle

_:~-; acresc 7 ntou: "Ess~ atitude (,

,:!~,;,;•. execullvo, na Agn~uftl!"e Ct}nada, onde o assunto 'recursos genéticos'

:(.recebe apenas apolO slmb61Jco em tennos de fundos". Entretanto em ~~f":resposta à pressão política, funcionários da Agricu/ture Ca~ada

(larmazéns :

) não é muito diferente daquela, a nível

.- ,começaram a falar recentemente em se empenharem

!

q ~c.0nservação genética42,

mais pela

" ,~; Se a ~uropa OC!dental e a América do Norte estão negligenciando ISurs pr6pnas necess~dades, o que estarão fazendo os governos de ~ i:llal'!eJ~mento central,lzados? O trabalho de conservação na União

i~5S0Vléllca, conforme Já fizemos notar, iniciou-se bem cedo. Sir Otto ~ti(Frankel menciona que os soviéticos continuam a possuir as mais frepresentativas coleções do mund0 43 , Na Iugoslávia. um '10VO banco fd~ genes, -em Belgrado, reuniu mais de cem mil combinações de

. As coleções tchecas são igualmente extensivas45. Até um

t recente estudo da Academia Nacional de Ciências dos EUA o Ocidente }'~stava confiante de que os esforços de conservação na China eram

.ldesnecessário~, ,devi,do à prática geral dos agricultores de preservar suas ,sementes tradlclOnills. Agora parece que muitas das variedades de trigo

44

.•.tn.ilho

. Estas são nOl(cias especialmente tristes para os

,Q}elhonstas de plantas canadenses e escandinavos. As entidades çJentíficas da China estão agora empenhadas na coleta e na armazenagem de recursos em desaparecimento47.

31

46

.se per?eram

li~;i!,

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I": vi"iC '

Genes corporativos .

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É tambéil1 do conhecimento geral que muitas das grandes finnas POssuem 'substan~iais coleções genét~cas pr6l?rias. A FAO relata que uma delas, a Unlled Brands (ex-UOIted Fnm), possui annazenados cerca de dois terços do gennoplasma de bananas do mund04 8 . Fl.!"cionários do maior banco de genes do Canadá COntam que o selor pnva~o tem deixado de cooperar, não divulgando informações sobre a quantidade ou tipo de material genético que detém em estoque. Duas companhias foram identificadas como possuidoras de material valioso não comjanilhado 4 no Canadá: Maple Leaf Mills e CampbeU Soup of

Canada .' Muit,?s pesquisadores internacionais acredilam que as companhias dommantes nas áreas de fruticultura e arboricultura rendam

a d~

genéticos.

exportação e para Outras companhias.

atenção especial às suas pr6prias necessidades

de recursos.

O mesmo pode ser verdadeiro para Outras culturas de

Como, por diversos anos, coleções de incalculável vaIar _ con- troladas por pessoas interessadas e universidades _ estiveram sob risco de ,extinção, algumas grandes co~panhias européias incorporaram multas germ~plasmas a seus pr6pnos programas genéticos. Uma vez que taI. matenal d.e .o?tr~ m~o poderi~ ter si~o perdido, este tipo de envolvImento da IniCiativa pnvada sena conSiderado uma verdadeira bênção. No entanto, Garrison Wilkes, tendo em mente uma possível

razão lucrativa, faz um alerta; afinal, a redução

da variabilidade genética

em quaIguer cultura pode aumentar a dependência em relação às companhiaS que dominam esta cultura so . M. L. Oldfield apresenta esta argumemação: "Segue-se, então, que qualquer peSSOa ou grupo que possa conse~uir comr?le privado sobre diversos re<:ursos genéticos, quer se localizem em mstalação centralizada de armazenagem a frio quer em ambiente preservado, possuirá realmente poder político ~ e~onômic? quase i~finito"Sl. Apesar de haver poucas infonnaç5es dIsponíveIS, há motIVOSpara preocupações. Precisamos saber muito

maIS a ~peito

companhiaS e estar c.ertos de que seus materiais serão livremente con~'panilhados naçoes. Com outros melhoristas e os governos de todas as

dos estoques genéticos controlados por grandes

3.2 Armazenagem, prisão ou túmulo?

. 'etais em extinção. Compartilhando um pouco dessas preocupações, ,NESCO, em 1978, declarou 144 áreas em 35 países como futuras 'u:rv~ da biosfera~2. Outros membros da comunidade ~ientífica

tlcaram tais resoluções e reservas como ut6picas. Rol!Uld LoIsclIe, de 'ttawa, aponta o fato de que a armazenagem apropnada em bancos éticos pode preservar sementes de trigo por 390 anos e de cevada

melhorista5 parece contente com o

tema de bancos de genes e com os esforços normais no cultivo das .' edades annazenadas. De modo geral, o milho armazenado precisa )uplantado a cada três anos, ao passo que ~s brá~sicas dev~.!? ~er uvenescidas a cada quatro anos~4. A Acadenua NaCional de CiencIas S.EUA notou a falha na manutenção de coleções de gennoplasma na 1Íi1érica nos últimos 35 anos, especial~ente. de fruta~, nozes e rtaliças~S. De acordo com essa enudade. depoiS de avaliar todas as , .-didas disponíveis para preservar espécies ameaçadas sob condições troladas, somos repetidamente levados à conclusão de que o único étodo confiável reside no ambiente natural"~6.

lrü33 5()() anos~3. A maioria dos

'~f

-"t Perdas no annazenamento ou nas remessas para os locais de

comuns. Coleções de forrageiras do

. riente Médio e de feijões alados de Papua Nova Guiné escaparam por :úco de desastres sérios nos últimos anos. O IDRC canadense

-=iírmazenagem pare<:em ser muito

• _' icipou de uma expedição de colet~ de mandiocas ~á algum tempo

,;;âtrás, que resultou na perda de 500 varIedades da América Central~7. O

. r~.'Z Huaman do CIP -lnternationa/ Potato Centre (Centro Interna. l'inal da Batata) preocupou os plantadores de batata do mundo todo 'in suas declarações de que, apesar de numerosas coleções ~eitas nos hqUenta anos anteriores à fundarão do CIP, grande quantidade do 'aterial cultivado coletado havia SIdo perdido, deixando uma amOSlra dequada de espécies de batatas cultivadas nos bancos de genes istentes S8 . Huaman continuou af1lTl1ando que "o estoque indígena . :'está ameaçado de extinção". No livro Agricultura de Lucro num

a falha de três

ininpressores de geladeira resultou na perda da maior coleção de ; géhnoplasmas de milho no Peru. Da mesma fonna, algumas coleções e milho foram irreparavelmente ~erdidas durante a reorganização de ~Ut}lbanco de sementes no México"

undo Faminto, o autor Michael Perelman diz: "

,.

É lo/i« p~mutv Q disseminaçrJoda idiiQ d~ q~ i Corr~IO d~SI,uu- os NJbilQ/s ~ rer ••, lO.

dtu as tspkies ~m zoológicos.jardiM

algwn dia em dellOlvi./os ti na/luezo

(Jk

bOlivlicosou bancos ck s~mouts. sollhaNJo.s~

Co.Evo1UJion. QlUVleri,. Outono de 1978.)

Nem todos, na comunidade científica, estão convencidos de que os bancos de genes são a vereda de salvação para nossas espécIes

32

,~.!!": Os bancos de genes são instituições muito vulneráveis. Uma 1,~.faIha no circuito elétrico pode elevar a temperatura de armazenamento f'~ou aumentar a umidade. Incêndios, enchentes e cortes nas verbas Podem colocar muitas coleções em grande perigo. Além disso, há o ': problema adicional de que o que foi coletado não estar bem ou

~~recisamente

documentado. Repetindo as palavras de Sir OUo Frankel:

;!Há muito pouco conhecimento sobre a manutenção dos_ cultivares

), mas elas nao são nem

.adicionais em muitas das grandes coleções (

33

~ndes nem representativas"60. Embora sendo os bancos de genes Importantes, parece ser imprudente para o mundo "colocar" todos os seus ovos em uma só cesta.

o Terceiro Mundo, por OUlfOlado, tem sido convidado a pôr "rodos os seus ovos na cesta dos outros". A "escada" do IBPGR pode também ser usada pam descrever o fluxo de material genético vegetal

dos Centros de Vavilov para os centros internacionais de culturas, para

o NSSL no Colorado. e para os bancos de genes das nações in.

dustrializadas. Enquanto isso, o material original é destruído quando

variedades novas, importadas, são introduzidas, por estações de pesquisas ou organizações comerciais. A multiplicação da uniformidade

das culluras e a remerão '.i0s materi!lis antigos pa.r a os bancos d~ genes

- nacionais ou regionais - efeuvamente reuram as farnfllas de

agricultores locais da ativi.dade de m~lhommenlo de plantas. Da !lles~a forma. o próprio domímo do agncultor é levado a uma sJtuaçao semelhanle, à medida que incalculáveis tesouros nacionais desaparecem nas catacumbas de annazenamento da NSSL ou dos Centro N. I. Vavilov na União Soviética.

Após uma visita ao Quênia, em fevereiro de 1979, Roy Laishley, do Development Press Service, relatou uma conversa que tivera com o Dr. W. Viertmann - um australiano da FAO. Vienmann estava envolvido num programa de conservação de solos, utilizando gramíneas e leguminosas rotuladas como australianas. Laishley então disse: "Eles tiveram de introduzir sementes de leguminosas tropicais desenvolvidas na Austrália, mas que se basearam em sementes nativas do próprio Quênia". Portanto, pelo men?s. em parte, as. sement~s novas de gramíneas e leguminosas do Quema foram comercIa Imente Importa.das a certo custo para o país. Porém, não houve registro algum do fJuêma ter recebido pagamento pelo material previa~eme remetido para a Austrália, e do qual resultaram as novas vanedades61. A Ora. Ema Benneu, da FAO, relatou problema idêntico na Líbia, C?ndesement~ de forrageiras, enviadas gratuitamente para a ~u?tráha, foram relm- portadas,ligeirameme alteradas, a preços comerc13ls62.

Um estudo da FAO, a respeito das fontes de coleta de trigo mantidas pelo USDA, demonstra o absurdo da posição do Terceiro Mundo. Por voha de