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Um ensaio sobre as relações raciais: reflexões sobre raça no imaginário social

Márcia Aparecida Campos Furtado (PPGE/UFMT/UERJ) 1 – marciacarvalho.furtado@gmail.com Autor 2 Ângela Maria dos Santos (PPGE/UFMT) – angelamar7@gmail.com Autor 3 Nilvaci Leite de Magalhães Moreira (PPGE/UFMT) – nilvacimagalhaes@gmail.com

Resumo:

O presente trabalho objetiva apresentar o resultado de um ensaio investigativo sobre Raça e Colonização, que teve como objeto de coleta de dados um questionário composto por dezessete questões, sendo 10 de múltipla escolha e 07 discursivas ou subjetivas, todas versando sobre a temática racial. Foram entrevistadas 17 pessoas, na faixa etária de 20 a 60 anos. Quanto aos aspectos pessoais, o questionário indagava sobre estado civil, escolaridade profissão, ocupação, raça ou cor e matriz formadora da cultura. A opção foi por entrevistar pessoas com diferentes níveis de formação e profissões distintas. A participação dos entrevistados se deu de maneira espontânea, embora alguns tenham se negado a responder algumas questões ou responderam diferente do esperado, acrescentando alternativas não existentes no questionário. De acordo com informações apresentadas nos questionários, percebe-se que na visão das mulheres, há um maior reconhecimento da matriz de cultura africana presente nas mais diversas expressões culturais brasileiras, em contra partida aos homens. Neste sentido, ousamos considerar que, embora se note avanços na visibilidade da cultura afro-brasileira a partir da última década e, sendo a população brasileira negra numericamente expressiva, a influência das raízes africanas como formadora da cultura brasileira é pouco valorizada e reconhecida pelos brasileiros.

Palavras-chaves: raça; colonização; imaginário racial.

Introdução

Mais de três séculos de sistema escravista' e a absorção de um mito de harmonia racial, desenvolveram o equívoco da suposta inferioridade da população negra. Os reflexos dessa interpretação evidenciam-se quando analisamos o tratamento que o negro recebe na sociedade brasileira, refletidos nos números estatísticos da educação; no emprego, subemprego e desemprego; na igualdade enquanto expressão de cidadania, entre outros dados. Consideramos que isso é ainda o reflexo de uma cultura colonialista, dominada pelo europeu que lançou na estrutura da sociedade brasileira em formação, a ideia de que a superioridade branca seria a perfeição desejada, sendo imperfeito o diverso, enquanto que o negro seria mesmo a degeneração. Esta lamentável situação está intrínseca na sociedade e corresponde a um uso distorcido da cultura, como formadora de um senso comum que precisa ser desconstruído, pois essa imagem negativa do negro, cristalizada no imaginário das pessoas,

1 Aluna regular do Doutorado em Língua Portuguesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. No primeiro semestre de 2015 cursou disciplina na UFMT na condição de aluna por mobilidade.

está articulada com a memória histórica construída a partir da representação da população negra trazida na historiografia sobre a escravidão, fundada nas teorias racistas construídas no século XIX, que serviram de referência para muitos intelectuais brasileiros da época e até os dias atuais. Esses saberes estão marcados na memória individual e na memória da coletividade, da qual fazemos parte, e que facilmente é detectável na mentalidade das pessoas, e que ficou evidenciado na presente pesquisa.

1 - Dos entrevistados

Optamos por entrevistar pessoas com diferentes níveis de formação e profissões distintas, cuja participação se deu de maneira espontânea, embora alguns tenham se negado a responder determinadas questões ou responderam diferente do esperado, acrescentando alternativas não existentes no questionário. Dividimos o grupo em relação ao gênero masculino e feminino, conforme se pode verificar a seguir.

06 pessoas do sexo masculino, com idade entre 25 e 60 anos:

 

Estado Civil

Escolaridade

Profissão

 

Ocupação

Cor/

Matriz

 

Raça

Formadora da

Cultura

 

Pós-

-Advogado

 

Advogado

Branca

 

Casado (05)

graduação

 

(04)

Ibérico: 02

(02)

- Analista

Servidor Público

Europeu: 02

Solteiro

Graduação

Judiciário

 

Federal

Preta (01)

Africano: 01

(01)

(02)

Administrador

Não sabe: 01

Ensino

  • - Porteiro

Empresário

 

Amarela (01)

Médio (01)

- Porteiro

 

Assessor

Ensino

  • - Técnico

Economista

 

Vermelha (0)

Fundamental

Analista de

  • - Analista de

(1)

TI

 

Sistema

11 pessoas do sexo feminino, com idade entre 20 e 56 anos:

 

Estado Civil

Escolaridade

Profissão

Ocupação

Cor/

Matriz

       

Raça

Formadora da

Cultura

 

Pós-

 

- Técnico

Secretária

   

Casada (06)

graduação

administração

Branca (02)

Africana: o7

(07)

Solteira

-

Professora

Professora

Preta (07)

Não sabe: 01

(05)

Graduação ( 02 )

(06)

Estagiária

Amarela (01)

Europeia: 01

-

Estudante

Superior

 

Vermelha (01)

Indígena:01

incompleto

- Enfermeira

S/ ocupação

( 01)

Não

Ensino

-

Secretária

Assessoria

respondeu: 01

Médio

 

Política

incompleto

 

- Serviços

( 01)

Gerais

Costureira

Conforme os dados apresentados percebe-se que a maioria das mulheres já começa dar indícios do reconhecimento da matriz de cultura africana presente nas mais diversas expressões culturais brasileiras. Em relação aos homens, nota-se que a cultura africana ainda não detém de prestígio entre eles. Neste sentido, podemos considerar que, embora já houvesse avanços na visibilidade da cultura afro-brasileira a partir da última década e, sendo a população brasileira negra numericamente expressiva, ainda a influência das raízes africanas como formadora da cultura brasileira é pouco valorizada e reconhecida pelos brasileiros.

Na compreensão de Prudente (2007), ainda persiste no Brasil aspectos históricos do sistema colonial que distancia o negro do processo de formação do povo brasileiro. Considera que os marcantes traços da axiologia africana estão presentes em todas as expressões culturais brasileiras como nos cultos e artes afro-brasileiros, ritos e mitos, ritmos musicais, cinema e teatro negro.

Para Prudente, é primordial a valorização das matrizes culturais de formação no âmbito da cultura afro e também dar mais representatividade aos artistas negros brasileiros,

estabelecendo uma dinâmica de preservar valores, a partir de uma coexistência com outros traços culturais, em que resulta em uma característica brasileira como afirmação de identidade nacional. Considera que os estudos de Nina Rodrigues além de refutar a contribuição dos negros para a nossa cultura, mostrava “o quanto à dinâmica existencial da recriação do universo africano no novo mundo, entre nós, contribuía para formar um obstáculo para o desenvolvimento cultural brasileiro”. (PRUDENTE, 2007, p. 15).

2 - Percepção das relações raciais e cor/raça pelos entrevistados

Para análise das percepções das relações raciais e cor/raça dos entrevistados, foram feitas indagações relacionadas às questões raciais, como por exemplo, qual raça os entrevistados consideravam boas ou ruins, e obtivemos as seguintes respostas:

estabelecendo uma dinâmica de preservar valores, a partir de uma coexistência com outros traços culturais, em

Ao observar a questão referente a raça boa ou ruim, a branca ainda aparece como a raça mais adequada e aceita entre os entrevistados. Mostra que esse pensamento está correlacionado as fortes impressões cristalizadas pelas teorias racistas do século XIX, apontando a suposta superioridade da raça branca e a inferioridade da raça negra.

A vermelha/indígena é considerada a pior de todas as raças, mostrando que a sociedade brasileira ainda possui um pensamento etnocêntrico, pautado na visão do colonizador, concebendo o indígena como selvagem, preguiçoso, despossuído de alma e de crença, desqualificando-o como sujeito de sua própria história e que mantém sua expressão cultural em sua particularidade.

Esses discursos extremamente tendenciosos e perniciosos apoiados no pensamento do “colonizador” são criticados por Aimé Césaire (1978). Certamente por possuir traços marcantes bastante presente nas relações sociais, políticas, econômicas e culturais das

sociedades

contemporâneas,

no

sentido

de

julgar

os

homens,

depreciar

culturas

e

a

compreender sociedades.

Nessa perspectiva, Césaire acrescenta que:

[

]

a Europa colonizadora é desleal ao legitimar a posteriori a acção

... colonizadora pelos evidentes progressos materiais realizados em certos domínios sob o regime colonial, dado que a mutação brusca é sempre possível, em História como em qualquer outro capítulo; que ninguém sabe a que estádio de desenvolvimento teriam chegado esses

mesmos países sem a intervenção europeia; que o equipamento técnico, a reorganização administrativa, numa palavra “ europeização”

da África ou da Ásia não estavam [

ocupação europeia [

]

]

de modo algum ligados à

... que em todo o caso foi falseado pela

... dominação da Europa. (CÉSAIRE, 1978, p. 28).

Numa visão política, Césaire admite a importância da garantia do direito a iniciativa histórica dos povos e o direito à personalidade, sobretudo, mostrando a resistência dos povos ao sistema colonial, e defendendo a necessidade do compromisso dos intelectuais militantes na luta popular pela libertação nacional, no combate ao poder ideológico criado pelo colonialismo, e pelo direito dos povos a serem protagonistas de sua própria história. Um aspecto que chamou a atenção na pesquisa ora apresentada, foi o silenciamento em relação aos que não responderam, pois podemos pensar que, certamente, pode haver uma tentativa de resistência ou de não comprometer-se com a questão. Não podemos deixar de mencionar sobre o grupo que respondeu todas as alternativas, pois nos parece que essa maneira de expressar foi uma forma de escamotear ou desqualificar a questão.

3 - A preferência racial dos entrevistados para relação marital

Quanto à questão de com qual raça os entrevistados estabeleceriam ou não vida marital, obtivemos os seguintes resultados:

Os dados aqui coletados sobre as preferências de escolhas maritais, conforme a cor/raça, sugerem um funcionamento

Os dados aqui coletados sobre as preferências de escolhas maritais, conforme a cor/raça, sugerem um funcionamento da ideia de democracia racial, ao se analisar a resposta dos entrevistados, quando estes manifestaram que tranquilamente estabeleceria relacionamento com todos os grupos raciais. Contudo, percebe-se que a categoria branca, é o mais escolhida para manter relação maritalmente. Quanto às respostas de rejeição quanto à escolha marital conforme a categoria cor/raça, percebe-se um sintomático silenciamento, ao apresentar um índice expressivo dos que não responderam. Evidenciando que existe um problema na sociedade brasileira em relação a afirmação de relacionamentos conjugais, considerando as questões cor/raça. Os dados apresentaram os indígenas como a categoria mais rejeitada. Caberia um maior aprofundamento sobre essa escolha, considerando que esses grupos são mais fechados, constituindo um território organizacional, político e cultural sem muita integração com a sociedade envolvente. Estudos já evidenciaram que o pensamento racial brasileiro está alicerçado no racismo científico, tendo sua maior sistematização no século XIX, com seus desdobramentos na formação das famílias, organização social, economia e política. Petruccelli (2001) ao tratar sobre a situação conjugal entre homens e mulheres a partir dos dados do Recenseamento Populacional de 1991, observa que nos grupos de cor (preta, parda e branca), apresenta as variações no que refere a situação conjugal de cada um deles. As mulheres apresentam uma situação que pouco se tem modificado nas últimas décadas: as brancas mostram as mais altas porcentagens

na situação conjugal de casadas, categoria que inclui tanto aquelas em união consensual como as casadas no civil e/ou religioso. As mulheres pretas, no entanto, figuram, nesta categoria, em uma proporção bem menor – com onze pontos percentuais a menos do que as brancas – sendo que mais da metade delas (51,6%), aparecem como não tendo cônjuge no momento da pesquisa, seja porque nunca casaram, estão separadas, desquitadas ou divorciadas, ou porque enviuvaram. As mulheres pardas tendem a se apresentar em uma situação intermediária entre as brancas e as pretas, se bem que mais próximas das primeiras.

O fato que essas questões são pouco tratadas nas pesquisas acadêmicas. Berquó (1987); Moreira e S. Sobrinho (1994), em análise desse campo investigatório enfatizaram que as mulheres pretas são as mais rejeitadas no mercado matrimonial. Enfim, esse ensaio investigatório permite reflexões importante sobre o comportamento dos brasileiros em suas escolhas matrimoniais, parece que esse tema, constitui um tabu e um sofrimento para determinadas categoria de cor e gênero. Barros (2003) em sua dissertação sobre “Casais inter-raciais e suas representações acerca de raça, a partir das críticas ao modo como foram abordados os casamentos inter- raciais e das representações dos sujeitos diretamente envolvidos neste tipo de relação, vimos como as representações raciais são atualizadas pelos indivíduos que compõem casais inter- raciais, que muitas vezes transmitem imagens que reproduzem a assimetria simbólica observada entre “negros” e “brancos”. Por outro lado, ao observarmos a diversidade das representações que compõem o universo simbólico dos casais entrevistados, vemos que não é possível considerar a existência de um padrão de relacionamento único, o que nos permite evitar o uso das dicotomias que reduzem o alcance de algumas análises que se ocupam dos relacionamentos inter-raciais. As representações, ao definirem identidades, não o fazem de modo homogêneo. Podemos perceber a influência das categorias raça, classe e gênero nas representações, mas esta influência não se dá de modo único, o que aponta para elaborações distintas do conceito de raça e diversas formas de incorporação destas às vidas dos sujeitos. Assim, o que também pode ser considerado uma “diferença”, como a cor dos cônjuges, em alguns contextos pode se tornar irrelevante ou de importância secundária no processo de construção da “igualdade” do par. Além disso, podemos encontrar entre os membros de um mesmo casal “projetos raciais” distintos e até mesmo divergentes entre si.

4 - A percepção sobre credibilidade racial

O quadro das respostas dos/as entrevistados/as, apresentam as seguintes informações:

O quadro das respostas dos/as entrevistados/as, apresentam as seguintes informações: Buscando fundamentar essas questões, nas tramas

Buscando fundamentar essas questões, nas tramas das relações raciais em relação a opinião dos entrevistados, a respeito à credibilidade das raças, inicialmente as abordagens que seguem sobre as ideias construídas sobre raça, partindo do aspecto histórico da sua construção, que acabou se desdobrando em significações em torno de indivíduos dessa ou daquela cor, desse ou daquele fenótipo. Em muitos momentos do processo histórico das relações entre os diferentes grupos raciais, a cor negra foi vinculada de várias formas à categoria inferior dos seres humanos. Nesse sentido fez-se necessário, neste trabalho, voltar ao século XVI para resgatar a história da construção de raça. A etimologia do termo raça, como bem situa Munanga (2000), advém da expressão razza, proveniente do italiano, originário do latim ratio, com significado de sorte, categoria, espécie. O conceito raça foi utilizado primeiramente na história das ciências naturais (zoologia e botânica) com a finalidade de classificar as espécies animais e vegetais. Mais tarde essas ideias são transferidas para a classificação de seres humanos. O conceito de raça passa a ser utilizado na França nos séculos XVI-XVII, como conteúdo político para atuar nas relações de diferenciação de classes entre a nobreza e os plebeus. A nobreza reivindicava pra si a origem germânica, por isso se identificava com os francos. Consideravam-se dotados de puro sangue, e se sentiam diferentes.

Essas construções se estruturam no pensamento racial de uma sociedade marcadamente racista, quando se refere a questão cor/raça. A maioria optou por não responder, evidenciando que existe um problema construído em torno das ideias de “raça”. Um fenômeno produzido pela construção biológica de raça, envolvendo a racialização e hierarquização da diferença racial, que até hoje está presente no comportamento brasileiro. Dentro as categorias cor/raça, embora, perceba-se que os indígenas foram os que menos credibilidade apresentam para os entrevistados.

Considerações finais

Por tudo que foi evidenciado na pesquisa, percebemos que atitudes do passado refletem no presente, por isso ainda hoje a população negra sofre com o preconceito, mesmo tendo atualmente um maior engajamento de parte da sociedade na luta contra o preconceito racial, inclusive com a criação de legislação, transformando o racismo em crime, além da criação de políticas públicas afirmativas de reparação de danos causados a essa população ao longo da história. Todavia, em pleno século XXI nos debatemos ainda com o preconceito em relação ao negro. Se os teóricos hoje abominam todo e qualquer tipo de preconceito e a legislação também o faz, temos um problema emblemático a resolver. O senso comum persiste em reproduzir as teorias racistas que o movimento tanto procura desmascarar. Se a genética nos mostra que raça não existe, no imaginário popular persistem representações que relacionam as pessoas à cor e estas à maior ou menor capacidade intelectual, ideal de estética e de cultura. Assim, os fatos evidenciam que no Brasil existe um terreno fértil para a manutenção de preconceitos contra o negro ao longo de sua história.

Referências Bibliográficas BARROS, Zelinda dos Santos. Casais inter-raciais e suas representações acerca de raça / Dissertação de Mestrado apresentada ao Curso de Pós-graduação em Ciências Sociaisda Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2003. 204 p. CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Lisboa, 1ª edição, 1978. PETRUCCELLI, José Luís. Seletividade por Cor e Escolhas Conjugais no Brasil dos 90. In. Revista Estudos Afro-Asiáticos, Ano 23, nº 1, 2001, pp. 29-51.

POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15. Memória e identidade social. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.

_______________. 5, n. 10, 1992, p. 200-212. PRUDENTE, Celso. Arte Negra: alguns pontos reflexivos para a compreensão das artes plásticas, música, cinema e teatro. Rio de Janeiro: CEAP, 2007. (Cadernos CEAP).