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MINORITY REPORT

A NOVA LEI
PHILIP K. DICK
Título original: The Minority Report
Tradução: Ana Luiza Borges
Editora Record, 2ª ed., 2002
ISBN 85-01-06513-7
Digitalizado por SusanaCap
Revisado por RobDeschain

www.portaldetonando.com.br/forumnovo/

Índice
Introdução 5
Minority Report - A Nova Lei 8
Jogo de Guerra 55
O Que Dizem os Mortos 77
Ah, Ser um Bolho! 148
Podemos Recordar Para Você, Por um Preço Razoável * 172
A História Que Acaba com Todas as Histórias 241
A Formiga Elétrica 242
A Segunda Variedade 265
Impostor 325

Contracapa
As histórias de Philip K. Dick foram transformadas em
alguns dos maiores filmes de ficção científica de todos os
tempos.
Em 2002, junta-se a Blade Runner — O caçador de
andróides e O vingador do futuro, o primeiro clássico do gênero
da nova década: Minority Report — A nova lei, dirigido por
Steven Spielberg.
A historia deste mundo futurista onde não há crimes, pois
eles são previstos antes de acontecer, e seus culpados presos
antes de cometê-los, abre esta antologia com o melhor da
produção deste que, para muitos,é o maior escritor de FC de
todos os tempos. Neste livro, está, também, Podemos recordar
para você, por um preço razoável, o conto em que se baseou O
vingador do futuro, e outros igualmente geniais.
Dick, porem, não viveu para ver seu talento reconhecido.
Morreu pouco tempo antes da estréia de Blade Runner, que
o transformou de imediato em um autor conhecido.
Depois de sua morte, porém, o interesse por seu trabalho
aumentou e Dick tornou-se unanimidade no meio literário. Hoje,
leva seu nome o mais importante prêmio de ficção científica do
mundo, o Philip K. Dick Award, que vem revelando há anos novos
talentos no gênero.

* * *

Introdução
Minority Report — A nova lei é a terceira superprodução de
Hollywood baseada em uma obra de Philip K. Dick, junto com
Blade Runner —O caçador de andróides (baseada no romance
Do Androids Dream of Electric Sheeps?) e O vingador do futuro
(inspirada no conto longo Podemos recordar para você, por um
preço razoável).
Houve, ainda, outras adaptações, como Screamers — Gritos
mortais, com direção de Christian Dugway (baseada na novela A
segunda variedade) e Impostor, de Gary Felder (baseada na
história de mesmo nome). Sem mencionar a produção francesa
Confissões de um doido, adaptada do romance sobre a vida nos
EUA nos anos 50, Confessions of a Crap Artist. E nem se falou
ainda nos projetos abortados. John Lennon interessou-se pelo
romance The Three Stigmata of Palmer Eldrich (deu para
perceber que Dick tinha um jeito muito particular com os títulos)
e houve duas
tentativas de filmar A Scanner Darkly (primeiro com Terry Gillian
na direção, agora com uma opção nas mãos de George Clooney
e Steven Soderbergh).
Mas quando Dick morreu, há duas décadas, ainda muito
novo, aos 54 anos de idade, seu trabalho era pouco conhecido
fora de um pequeno círculo de admiradores apaixonados.
Durante a maior parte de sua vida, ele foi relativamente pobre,
às vezes quase miserável (em um artigo ele descreve, em seu
estilo bem-humorado característico, como, durante uma época,
ele e sua mulher sobreviviam comendo comida de cachorro),
enquanto outros escritores americanos de ficção científica, como
Isaac Asimov, Robert A. Heinlein e Frank Herbert, ficaram ricos,
com grandes sucessos de vendas em todo o mundo. Apesar
disso, esses três superastros só tiveram cada um uma grande
produção baseada em seus trabalhos (respectivamente, O

homem bicentenário, Tropas estelares e Duna — O mundo do
futuro), um total que Dick sozinho conseguiu igualar.
Mas por que aconteceu isso? Por que o trabalho desse
escritor praticamente sem dinheiro algum, cuja maioria dos
livros eram edições de bolso baratas escritas em maratonas de
algumas semanas movidas a anfetamina (no auge, escreveu seis
por ano), atraiu tanta atenção?
Bem, a, primeira coisa a dizer é que, na opinião de muitos,
se há um escritor de ficção científica que merece a definição de
gênio, esse é Philip K. Dick. Ele não é um grande estilista
literário, e às vezes a pressa com que escrevia fica evidente.
Mas uma torrente de invenção flui de seus livros e contos,
acompanhada de alterações de percepção vertiginosas que são a
marca registrada de seu trabalho.
Ele via o futuro de um jeito diferente dos outros escritores
mais bem-sucedidos.
Enquanto eles optavam centrar suas histórias no conceito,
Dick preferia as pessoas. E essas pessoas não eram heróis ou
heroínas tradicionais: eram os cidadãos comuns do futuro,
lutando contra versões diferentes dos problemas humanos
normais: dificuldades financeiras, no trabalho e nos
relacionamentos.
E no mundo do futuro que ele visualizava, essas
dificuldades podiam ser aumentadas de maneiras ao mesmo
tempo cômicas e imaginativas. Em uma história de Dick, se você
atrasasse o aluguel, seu apartamento se recusaria a se abrir, e
lhe passaria um sermão sobre suas responsabilidades. O táxi
talvez seja uma máquina voadora, com um robô no volante, mas
vai dar conselhos psiquiátricos misturados com sabedoria
popular durante o trajeto até o seu destino. E o próprio mundo,
muito freqüentemente, não era de jeito algum o que você
pensava que era: a realidade do dia-a-dia que você enfrentava
provava ser uma farsa elaborada e quando você, de algum jeito,
conseguia ver por trás dos bastidores, normalmente encontrava
algo também bastante estranho.
A maioria dos romancistas escreve sobre o que conhece,
apesar de poder disfarçar isto. Dick não foi exceção. Ele gostava
muito de filosofia, especialmente debates sobre a realidade e a

Como a maioria das pessoas nos anos 60. tão extraordinário hoje como quando foi escrito. os produtores de cinema se voltaram sobre seus romances e livros. A segunda variedade e Podemos recordar para você. tornaram-se mais pesados e menos acessíveis. mais do que os de qualquer outro autor. Exatamente por isso. É trágico que Philip K. incluímos neste volume uma sele- ção de outras histórias. Sua vida pessoal era muitas vezes complicada. a visão que Philip K. Dick tinha de pessoas comuns em circunstâncias incomuns tornou-se a que melhor descreve a forma como ele é percebido por nós. incluindo Impostor. e seus livros deram uma guinada. Malcom Edwards * * * .percepção. mas morreu antes da estréia que mudou completamente a visão que o público tinha de seu traba- lho. quando ele publicou um grande número de contos. Por não ser um romance. Mas Minority Report —A nova lei é produto de sua primeira década como escritor. por um preço razoável todas levadas para o cinema. ele tomou drogas demais e acabou sofrendo as conseqüências disso a longo prazo. além de outras escolhidas como uma amostra representativa do trabalho deste escritor criativo e de leitura extremamente prazerosa. Foi casado cinco vezes. e a primeira dúzia de seus quarenta e poucos roman- ces. Da maneira que o futuro se revelou nas últimas duas décadas — quando mesmo as previsões mais loucas começaram a tomar forma —. Mas ele teria visto isso como uma conclusão irônica total- mente de acordo com sua vida. Ele assistiu a uma pré-estréia de Blade Runner — O caçador de andróides no início de 1982. E seu trabalho segue vivo. E já mencionei seus constantes problemas financeiros. Dick não tenha vivido para ver isso. Na última década de sua vida ele também experimentou o que considerou serem revelações religiosas (apesar de poderem ter sido problemas cerebrais antecipando os acidentes vasculares que o mataram).

— Teve dificuldades em encontrar o edifício? — perguntou Anderton reservadamente. Nervoso. Sorrindo com uma amabilidade forçada.A Nova Lei I O PRIMEIRO PENSAMENTO que ocorreu a Anderton quando viu o rapaz foi: estou ficando careca. — Como é dirigida? Eu gostaria de saber. Pelo contrário. se partilhar da minha aversão pela formalidade desnecessária. O medo abalou-o. Cristo. Será que não podia esperar alguns dias. afastou a cadeira. e deu a volta na mesa. ele tinha de se segurar em alguma coisa. Careca. . é claro. Witwer andava pelo escritório como se já fosse o seu dono — como se estivesse medindo o seu tamanho. examinou os arquivos volumosos que ocupavam a parede. — Witwer? — perguntou. você sabe. Quer dizer. Anderton acendeu seu cachimbo. um intervalo decente? — Nenhuma — respondeu Witwer com júbilo. com a mão direita firmemente estendida. francamente confiante. Seriam Ed e John: tudo seria agradavelmente cooperativo desde o começo. Minority Report . pôs-se de pé. mostrava que considerava o assunto encerrado. e começou a transpirar. — A expressão em seu rosto louro. as mãos nos bolsos. — Não estou vindo no escuro à sua agência. conseguindo soar simpático. Com ansiedade. — Isso mesmo — respondeu o rapaz. gordo e velho. ignorando a apresentação excessiva- mente amigável. Tenho algumas idéias pessoais sobre como a Precrime é dirigida. apertou as mãos do rapaz. Mas não disse isso em voz alta. — Mas Ed para você.

Suponho que isto seja ponto pacífico. permaneceu impassível. Fundei a Precrime e vou permanecer aqui o tempo que quiser. brilhantes — e perturbadoramente inteligentes. custou-lhe um esforço. — Tão entusiasmados quanto homens muito velhos podem ficar. O Senado está satisfeito com o seu trabalho. externamente. . Ou daqui a dez anos. O que se passava. obviamente. Anderton acalmou-se um pouco. com a sua iluminação amarelada. — Desde o começo — concordou Witwer. De fato. Anderton estremeceu. — Na verdade. Witwer anuiu com a cabeça. Você manda. — Só quis deixar as coisas claras. Perguntou a si mesmo o que Witwer realmente achava. Anderton olhou-o fixamente. E. perguntou: — Im- porta-se de me mostrar a organização? Gostaria de me familiari- zar com a rotina o quanto antes. — Foi o que eu entendi também — replicou o outro sem hesitar nem por um instante. Anderton disse: — Você está a par da teoria da prevenção do crime. — É claro. você será o meu assistente até eu me aposentar. — Nada mal — disse Witwer. tinha um bocado de ambição. Os olhos do rapaz eram azuis. é claro. — Não estou sendo pressionado a me aposentar. Witwer não era nenhum bobo. exclusivamente. — O cachimbo na mão de Anderton tremia. No entanto. mas. — Demonstrando sinceridade. —Você é o chefe. — O que pode acontecer este ano ou no próximo. de fato. — Particular e pública. Com esforço. — É a sua opinião particular? Ou simplesmente um jargão? - Witwer encarou-o francamente. a expressão ainda franca. estão entusiasmados — acrescentou ele. naquela cabeça com o cabelo à escovinha. muito bem. — Pelo que entendi — disse Anderton com cautela —. Ao passarem pelas salas cheias e sobrecarregadas de trabalho. É uma decisão minha.

abolir o sistema punitivo pós-crime de cadeias e multas. Como todos sabemos. O elevador parou e. com uma certa ironia. Todo pro- nunciamento incoerente. audaciosamente. reagrupada na forma de símbolos visuais. Anderton disse: — Deve ter percebido o inconveniente legal básico da meto- dologia pré-crime. comparados. Enquanto este os levava rapi- damente para baixo. não há crimes maiores — prosse- guiu Anderton —. antes que co- metam qualquer ato de violência. afirmam eternamente ser inocentes. mas temos um campo de detenção cheio de supostos criminosos. . transcritos sobre cartões perfurados e ejetados em diversas ranhuras codificadas. Os idiotas tagarelavam o dia inteiro. Prendemos indivíduos que nunca infringiram a lei. Alegamos que são culpados. em si mesma. quase indistintos no labirinto da fiação elétrica. mais uma vez. erguia-se uma série impressionante de equipamentos — receptores de dados e mecanismos de computação que examinavam e reestruturavam o material que chegava. de certa maneira. e provavelmente nunca ofereceu conforto à vítima já morta. Tinham chegado ao elevador. Desse modo a comissão do cri- me. por sua vez. À frente. toda sílaba casual eram analisados. aprisionados em suas cadeiras especiais. Além da maquinaria. com passos regulares. a punição nunca foi um grande impedimento. — Felizmente. os três precognitivos. Eles. — Em nossa sociedade. Portas abriram-se e fecharam-se. um corredor amarelo. os três idiotas tagarelavam. não. — Lá estão eles — disse Anderton. — O que acha? Na semi-obscuridade. — Mas que certamente infringirão — afirmou Witwer com convicção. Nós os pegamos primeiro. é uma metafísica absoluta. eles atravessaram. — Com a ajuda de seus mutantes precognitivos. — A informação que tenho é a que está disponível publica- mente — replicou Witwer. de espaldar alto. você conseguiu. e eles se encontraram na ala analítica. E. são inocentes.

— Deformados e retardados — concordou Anderton instan- taneamente. De uma ranhura. Grande parte dos dados não tem valor para nós.. Suas mentes eram obtusas. — Especialmente aquela garota ali. Eles transmitem o que preci- samos. — Os precognitivos devem ver longe no futuro — exclamou Witwer. Donna tem qua- renta e cinco anos.. As três criaturas tagarelas. Mas não as sombras de hoje. a maquinaria escutava atentamente. Witwer perdeu sua confiança jovial. com suas cabeças alargadas e corpos raquíticos. gesticulando. A maquinaria analítica registrava profecias e. Suas necessidades físicas eram assistidas automaticamente. Semelhantes a vegetais. perdidas nas sombras. insinuou-se em seus olhos. Mas o que importa? Temos as suas profecias. — É óbvio que — com o cenho franzido. Foi seguido por um segundo — e um terceiro. Uma expressão desgostosa. e grampos. no máximo. Pela primeira vez. pegou um maço de cartões. Dos discos. sur- gia um cartão atrás do outro.mantidos em uma posição rígida por ligaduras de metal e vários fios. consternada. O talento absorve tudo. agradável — murmurou ele. o seu aborrecimento. — São os nomes que aparecem? — perguntou ele. Mas parece ter dez. Anderton pegou o maço — não tive oportunidade de examiná-los — explicou. Fascinado. cochilavam e existiam. que rangiam regular e constantemente. — Tão deformados. Witwer atravessou a sala até a maquinaria. Witwer observou a maquinaria ejetar um novo cartão na ranhura vazia. mas nós entendemos. contemplavam o futuro. Não entendem nada disso.. o lóbulo especial atrofia o equilíbrio da área frontal. confusas. Não tinham necessidades espirituais. uma mistura de dó e choque moral. — Procurou a palavra certa. murmuravam. Subjugado. — Vêem um espaço de tempo limitado — informou-lhe Anderton. — Uma ou duas semanas adiante. enquanto os três precognitivos falavam. Simplesmente não são . — Não fazia idéia de que fossem. desajeitadas. com impaciência.. ocul- tando. — Não é nada.

Cada birô importante tem seu porão de macacos entesourados. Muito divertido. — Cinco anos atrás — respondeu Anderton. sim. nada falar. por sua vez. De fato.—A confiança de Witwer estava voltando. algo de que se orgulhar. — Ah. permutam da- dos conosco. Eu vi algo legítimo num futuro próximo. — Automaticamente. algo de um tremendo valor social. — Anderton deu de ombros. e etc. apesar disso. — Muito conveniente. inclusive o nome da vítima. Mas. — Macacos? — Witwer olhou-o intrigado. extorsão. assalto. A maior parte do restante registra crimes triviais: furtos. — Enfim. No tem- po em que aqueles que só agiam em vantagem própria estavam pensando em ataques surpresa à Bolsa. — Embaralhou os cartões. — Um registro impressionante. Tínhamos o seu nome. Estou certo que sabe que a Precrime reduziu os delitos graves em noventa e nove ponto oito por cento. Raramente temos um assassinato ou traição de verdade. seu subordinado . E elas. Anderton co- letou os novos cartões que haviam sido virados pela maquinaria giratória. seu tom de voz denotando orgulho.. — Quando foi a última vez que um assassinato de verdade foi cometido? — perguntou Witwer. — Um assassinato em cinco anos. nada ver. en- tendo. — Alguns desses nomes serão totalmente descartados. — Mas realmente pegamos a maioria.. Jogou o maço de cartões para Wally Page. ele conseguiu executá-lo. Nós os passamos para as agências apropriadas. — Como aconteceu? — O criminoso escapou das nossas equipes. o acusado sabe que o confinaremos no campo de detenção uma semana antes de ele ter chance de cometer o crime. sonegação de imposto de renda. Sabíamos o momento exato.relevantes para o nosso ramo de atividade. não podemos pegar todos eles. Anderton disse tranqüilamente: — Eu me orgulho. a locação do ato de violência planejado. Há trinta anos elaborei a teoria. Afinal. tínhamos todos os detalhes do crime.

Somos os únicos responsáveis.encarregado do bloco dos macacos.Não acreditava que desgostasse tanto assim do rapaz. Quando Page desapareceu com os cartões. Anderton dobrou o cartão e o pôs no bolso. Com total convicção. Podem nos vigiar constantemente. — É uma responsabilidade pública. Witwer disse circunspecto: — É uma grande responsabilidade. uma convicção inabalável. — Já se sentiu tentado a — Witwer hesitou. No cartão estava o seu nome. Alguma coisa estava errada. — Nada — murmurou ele. — Com amargura. — Faça o seu próprio julgamento. alguns dos homens que você pegou devem ter-lhe oferecido muito. — Sim. — Se deixarmos um cri- minoso escapar. como deixamos há cinco anos. Mas. — Veja quais nos interessam — disse. Uma duplicata do arquivo de cartões é ejetada no Quartel General do Exército. — Não iria adiantar. — Quer dizer. puxou mais três cartões da ranhura. — É verdade — admitiu Anderton. Não parecia possível: não era possível. — Anderton relanceou os olhos para o cartão de cima. ele não acreditou. o comissário da Precrime John A.. alguém morre. . — Não foi nada. tentou acalmar a sua mente agitada. . Com cuidado. Se falhamos. — Por- tanto mesmo que quiséssemos aceitar uma.. — Não gosto.. o quanto quiserem. Linha um — já acusado futuro assassino! Segundo as perfurações no cartão. é — concordou Anderton. A rispidez em sua voz fez Witwer corar. Têm o total controle so- bre nós. teremos uma morte na consciência. curioso. Atordoado.. — Você realmente não gosta de mim — observou ele. — O que foi? — perguntou Witwer. Anderton ia matar um homem — e na próxima semana. Interrompeu-se. apertou os lábios.

Um calafrio percorreu- lhe quando começou a ponderar as possibilidades. Mas a possibilidade existia. Na verdade. querida — disse Anderton. Tinha aproximadamente vinte e quatro horas. Anderton fez uma pausa e refletiu. Do lado de fora do edifício chegava o ruído monótono dos carros de polícia dando partida para a detenção rotineira de sus- peitos. Estava somente com uma das duas cópias. Lisa era um elemento improvável. Evidentemente. Ela estava envolvida em uma discussão animada de política. falsificados. Provavelmente as fitas concordavam com o cartão: ele só faria se incriminar ainda mais. Plantar o cartão nas máquinas requeria um cúmplice de dentro — alguém intimamente relacionado à Precrime e com acesso ao equipamento analítico. Lisa era agora uma oficial executiva da Precrime. Lisa. querido? — perguntou Lisa preocupada. Encontrariam em seus arquivos uma duplicata do cartão de que ele tinha se apropriado. à vista de todos. eles próprios. era impossível saber até quando a alteração remontava. II Na ante-sala do escritório. Percebendo o interesse no rosto de Witwer. e mal ergueu os olhos quando Witwer e seu marido entraram. o pes- soal do exército verificaria os cartões e descobriria a discrepân- cia. o que significava que o cartão dobrado em seu bolso po- dia também estar na mesa de Page. Witwer sabia. envolvendo muito mais do que um cartão "plantado" em alguma parte ao longo da linha. Witwer permaneceu em silêncio. Os dados originais podiam ter sido. — . Seu impulso original — abrir as máquinas e remover todos os dados — era inutilmente primitivo. usando uma farda impecável da polícia. antes. esguia e atraente esposa de Anderton. — Olá. Então. mas. Mas seus olhos claros pis- caram ligeiramente ao pousarem sobre a mulher de cabelo castanho. a conspiração podia ser em grande escala e elaborada. estava a jovem. tinha sido secretária de Anderton. conversando com Page. Quantas horas até um deles estacionar em frente de sua casa? — O que houve.

— Passei a maior parte da minha vida em Chicago. então. Anderton recuou. . estava começando a desconfiar de todo mundo — não somente de sua esposa e de Witwer. Anderton apresentou seu novo parceiro. impulsivamente. Quais eram as chances de a cordialidade de sua esposa ser benigna. rapidamente. — Quero checar algumas fitas antes que o exército as veja.. — De volta ao bloco dos macacos — respondeu ele. acidental? Witwer participaria da intimidade da noite em sua residência particular. Estou em um hotel. Enquanto ele procurava nos bolsos. Um dos hotéis gran- des no centro. Lisa propôs: — Quem sabe não gostaria de jantar conosco? Vamos trabalhar em íntima colaboração e realmente acho que deveríamos nos conhecer melhor. Algum entendimento secreto se passara entre eles? Não tinha como afirmar. Com cautela. Lisa saudou-o com um sorriso cordial. tenho o nome escrito em um cartão que guardei em algum lugar.Parece que viu um fantasma. Meu Deus. e. de súbito. — Este cavalheiro é o seu novo colaborador. Lisa. — Ele já estava no corredor antes de ela poder pensar em uma razão plausível para detê-lo. quando Lisa apareceu ofegante atrás dele. pareceu tomar consciência do exame atento e admirado de Ed Witwer. — É de Nova York? — perguntou Lisa. querido? — perguntou ela. à rampa no final do corredor. Você está bem? — Estou bem — tranqüilizou-a. Des- cia a passos largos as escadas externas que levavam à calçada. Profundamente perturbado. mas de uma dezena de membros de sua equipe. Espere. admirada. — Não — respondeu Witwer. e dirigiu- se à porta. teria uma desculpa para aparecer sem ser convidado. virou-se.. Dirigiu-se. — Aonde vai? — perguntou Lisa. Surpreso.

está desconfiado de todo mundo. A aflição de Lisa transformou-se em descrença. Essa criatura veio tomar o meu lugar... Você acha realmente que estou metida nisso de alguma maneira. — Mas. Como poderia. Lisa olhou-o. O Senado está me envolvendo através dele. Anderton forçou os dedos de sua mulher a solta- rem seu braço. Talvez você devesse se afastar por algumas semanas. De maneira deliberada e mali- ciosa. bem. Ela aproximou-se dele.. — Enquanto há tempo.. — Eu sabia que você estava saindo — exclamou ela. Pessoas passavam por eles — a multidão vespertina usual. surpresos e incrédulos.. — Não tenho certeza. ela balbuciou: — Não faz sentido que Ed Witwer esteja tentando incriminá-lo. — Qual é o problema? Todos acham que você — ela hesitou —. confusa. Está precisando . — Estou indo embora — disse ele. Querido. — Mas ele parece ser um bom rapaz. — Sorrindo hesitante. Você realmente acha isso. não é? Seus olhos castanhos lampejaram. — O que diabos está acontecendo com você? — Segurando seu braço.. em um protesto. — Deus do céu. bloqueando a sua passagem. por quê ? — Estou sendo incriminado. mesmo que quisesse? Certamente Ed não. que está agindo de maneira um tanto excêntrica. seu olhar acusando-o. Ignorando-as. — Ed? — É o seu nome. — Tão bom quanto uma cobra venenosa. você tem sofrido toda essa tensão. — Não acredito. — Não é verdade. não acha? Ele pensou por um instante. ela se pôs rapidamente na frente dele.

entregando-o a ela. se esconder? — Vou. depois — seus lábios apertaram-se —. Não percebe? Pessoas tramando contra você. não sei. Tão longe quanto nos planetas colônias de Centauro. da maneira mais equilibrada possível. É claro que sinto hostilidade e ressentimento em relação a Witwer. — Volte lá para dentro. — Mas. É claro que tenho motivo para isso. — O sistema de controle vai ser encerrado. Mas não tenho como prová-lo. — Neste instante — disse Anderton abruptamente.. — Você achou que eu iria? — perguntou Lisa. um homem mais jovem sendo introduzido. vai absorver também o exército. é bastante lógico.. — Acrescentou firme: — Eles sabem que ainda posso ficar por mais alguns anos. — O esquema é muito óbvio — disse Anderton. O Senado vai controlar a polícia e. — Vou para casa. Não consigo planejar nada além disso. se necessário. fazer as malas. Querido se. — Virou-se resolutamente. — Isso dará a Witwer um pretexto le- gal para me remover neste instante. o rosto muito pálido... Está agindo como um paranóico. exceto que não tenho a mais remota intenção de matar Witwer. A Precrime vai deixar de ser uma agência independente. — Vai mesmo tentar. Então. Não há razão para que venha comigo.. e tenho vinte e quatro horas.. tem alguma prova real? Anderton pegou a sua carteira e tirou o cartão dobrado. Toda essa tensão e trauma.. Bem. o que posso fazer? Com a voz engasgada.urgentemente de descanso. A cor abandonou o seu rosto e sua respiração tornou-se entrecortada. pelo menos. . — Tudo isso é plausível.. — Examine-o atentamente — disse. o tom rouco. — Ninguém gosta de ser substituído por um homem mais jovem. Diga- me. ela disse: — Eu. e ser afastado por velhice — prosseguiu ele.. Não vai ter de esperar até eu renunciar. Já foi conseguido antes..

— Não iria? — Em seguida. a máquina havia estampado nitidamente outro nome. O nome de Ed Witwer não está nele. indistinta. — Mesmo com esta evidência. Ele não está tramando contra você nem ninguém mais está. Anderton encarou-a. ou- vira falar desse homem. Incrédulo. vejo que não acredita em mim. quase imediatamente. Anderton examinou o cartão.Surpreso. Na linha cinco. pensamentos frenéticos passavam por sua cabeça. . Ainda acha que estou imaginan- do tudo isso. apenas visível vagamente no fundo. — Bateu com fúria no cartão. mas como poderia ter certeza? De qualquer maneira. Ed Witwer não estava listado como vítima. rapidamente. Possivelmente se enganara em relação a Witwer. talvez fosse apenas um fantoche insignificante manipulado por alguém mais — por uma figura distante. com a voz fraca. LEOPOLD KAPLAN Apático. a conspiração contra ele era muito mais complexa do que tinha se dado conta. não estou convencida. — O cartão deve ser genuíno. — Não — Lisa concordou rapidamente —. murmurou perplexo: — Não. na cena geral. III A casa estava fria e deserta e. Ela tinha razão. Nunca. Não o examinou com atenção suficiente. querido. Anderton deu início aos preparativos para a sua viagem. continua sem se convencer. entende? E não tem nada a ver com Ed. Confuso demais para responder. — Ninguém afirma que você vai matar Ed Witwer — pros- seguiu Lisa. Anderton pegou o cartão da mão dela. Witwer. na sua vida. guardou o cartão no bolso. Enquanto fazia as malas.

em um sobretudo marrom que apontava a arma em sua mão enluvada. — Têm idéia de quem sou? — Temos — disse o homem de sobretudo marrom. Virou-se. luzes tremeluziram. enquanto campos abertos. ela o descreveria em detalhes a Witwer. subterrânea. — Vão se arrepender disso — avisou Anderton. Era possível divisar. encarando com amar- gura o homem troncudo. as faces à sua volta sacudiam-se com o movimento da velocidade do veículo. compreender as implicações do que tinha acontecido. Impassíveis e remotas. segurando um paletó esporte de inverno já gasto. Alguém gritou uma ordem. O pesado cadeado de metal rangeu. Com uma arma apontada para ele. no . Ele nunca deixaria a Terra. e se deparou com o cano de uma pistola gray- blue A. e desceu para uma garagem escura. Sem dúvida. três homens fortemente armados aproximaram-se por trás dele. No mesmo instante. uma tábua rangeu às suas costas. estava em uma residência particular luxuosa. quando o carro tomou uma estrada lateral sulcada. O motorista desligou o motor do carro. Aparentemen- te. — Ela nem mesmo hesitou? O rosto do intruso não registrou nenhuma resposta. com a voz rouca. passavam rápido. — Não esperaram muito — disse ele. em vão. — Não sei do que está falando — disse ele —Venha comigo. foi empurrado para fora de casa. Anderton largou o paletó. A porta bateu e o carro partiu estrada abaixo. trancando-se e. Enquanto estava absorto nesses pensamentos. Tinha sido um erro mostrar o cartão a Lisa. Perplexo. Anderton tentava. de lábios apertados. escuros e melancólicos. localizada na área rural devastada pela guerra. nunca teria oportunidade de descobrir como seria a vida em um planeta de fronteira. para uma limusine que aguardava. afastando-se da cidade. acima. — Você não é da minha agência? Não é oficial da polícia? Perplexo e protestando. quando o arrastaram para fora do carro. Anderton subiu do silên- cio frio da garagem para um corredor atapetado.

Somente seus olhos pareciam realmente alertas. o homem. a AFBO. como esperávamos. Anderton percebeu de súbito. abruptamente. formado pelo abajur. — Acrescentou. sob seu braço. Fazia sentido. virando- se para o homem de sobretudo marrom. Leopold Kaplan. com uma impaciência irritada. Em um círculo de luz.. era Leopold Kaplan. — Não fui notificado por sua agência — interrompeu Kaplan. Era idoso. nervoso. Anderton já desconfiava que o exército . havia uma bengala de prata. — Você se dá conta do que fez? Sou comissário da polícia. O pouco cabelo que lhe restava era castanho acinzentado — um lustro suave de cor neutra sobre seu crânio pálido.—Onde o pegaram? — Em sua casa — replicou o outro. — O que há—disse rudemente a Anderton —. tornou a pô-los no estojo. — Como você descobriu? — perguntou. talvez setenta anos ou mais. desde o fim da Guerra Anglo-Chinesa. — Fazendo as malas. o que deu em você? Ficou louco? Como pode matar um homem que nunca viu? O velho.extremo do corredor. e umedeceu os lábios ressequidos. — Não será para outro. e. ossudo. vou fazer uma pergunta — contrapôs Anderton imediatamente. — Retirou os óculos e. fechou-o. a sua mão foi ao seu bolso. Quando Anderton se aproximou. mas com bom gosto. porém um pensamento o interrompeu. — Este é Anderton? — perguntou lamuriosamente. a sua atitude curiosamente rígida. O homem à mesa estremeceu visivelmente. mobiliado com simplicidade. — Estava fazendo as malas. Involuntariamente. — Em primeiro lugar. e a abolição da AFBO.. general do Exército da Aliança Federada do Bloco Ocidental. onde o cartão estava escondido. — O fato de nunca ter ouvido falar em mim não me surpreende tanto. mas forte. Posso mandar prendê-lo por vinte anos. Seu corpo era magro. de má vontade: — Reformado. Ia dizer mais. uma sala — um gabinete forrado de livros. o rosto parcialmente na sombra. um homem que ele nunca vira o aguardava. guar- dou os óculos sem armação em seu estojo.

— Está bem — disse Anderton. Pareceu-me incrível que um homem da sua estatura seja capaz de cogitar assassinar a sangue frio um estranho. para a sua própria proteção. Anderton protestou: — Vai me levar de volta para lá? Se eu ficar sob custódia nunca vou poder provar. — Concordo com você que não haverá assassinato nenhum — afirmou Kaplan. O cartão é plantado e eu sou capturado. frigidamente: — Para a minha própria proteção. perguntou: — Então? Você me trouxe para cá. — A menos — sugeriu um de seus homens — que tenha sido plantado deliberadamente. — O que tem a dizer? — É exatamente isso — disse Anderton. ou isso teria sido revelado em um desses cartões miseráveis. e examinou Anderton. — Assim que puse- . não vou mandar matá- lo.processava seus cartões duplicatas imediatamente. Pretendo garantir isso. — Tudo o que me interessa é ter você fora do caminho.. percebendo logo a vantagem de falar francamente o que acreditava ser a verdade pura e simples. Relaxando. Francamente. Se isso representasse algum tipo de estratégia da polícia — balançou seus ombros magros —. E agora? — Evidentemente — disse Kaplan —. — A predição no cartão foi fabricada deliberadamente por uma panelinha dentro da agência de polícia. semelhantes aos de um pássaro. Estou curioso a seu respeito. suando. Horrorizado. — Não me importa o que vai provar ou não — interrompeu Kaplan. sombriamente. certamente não teria permitido que a duplicata do cartão chegasse até nós. — Ele estava pronto para partir — declarou um dos homens. de certa forma. estou intrigado. Não é preciso dizer que não existe assassinato nem intenção de assassinato. Kaplan ergueu os olhos brilhantes.. O meu assistente intervém e alega que impediu o assassinato da maneira eficiente de sempre da Precrime. — Acrescentou. — Você estará sob a custódia da polícia. Deve haver algo mais. E perco a minha autoridade automaticamente.

— No entanto. A circunstância extraordinária de um criminoso fugitivo em liberdade e em posição de cometer um ato de violência é única nos tempos atuais. por meio deste. Estão agindo de comum acordo. como tal. da maneira que for." — Ele não precisou esperar muito tempo — murmurou Anderton. esse indivíduo marginal perigoso. — Sua face tornou-se sombria. serei confinado no campo de detenção.rem as mãos em mim.todos os cidadãos estão alertados para não abrigar ou ajudar ou assistir. — Witwer já assumiu o posto. John Allison Anderton. notificados que os estatutos legais ainda em vigor implicam todas as pessoas que não cooperarem inteiramente com a polícia na tarefa de capturar John Allison Anderton. o rádio ressoou alto na sala — uma voz profissional ruidosa. . — Lisa deve ter ido diretamente a ele — Anderton especu- lou com amargura. — Ele mencionou o nome do comissário interino e esperou a reação de Anderton. perde seus direitos à liberdade e todos os seus privilégios. Kaplan desligou o rádio e a voz desapareceu. abruptamente.. Por um momento. Ainda com um sorriso ligeiro. Obviamente. Se há uma armação contra você. Kaplan virou-se e ligou o rádio no gabinete. — Aos homens. Kaplan pareceu hesitar. então. Todos os cidadãos estão. é declarado assassino potencial e.. Mas simplesmente não é da minha conta. — É possível — admitiu. balançou a cabeça. — Não posso correr o risco. eu lamento. — E a minha mulher. desejo-lhe sorte. ele disse: — Levem-no ao prédio da polícia e o entreguem à autoridade máxima. Então. incrédulo. olhando fixamente para Anderton. tudo. ". vai fazer um grande alarde com isso. Repetindo: a Agência Precrime do Governo Federal do Bloco Ocidental está no processo de localizar e neutralizar o seu antigo comissário. — Sorriu ligeiramente. que. Ouviu-se um ruído breve da estática e. — Witwer! — ecoou Anderton. através da metodologia do sistema pré-crime. estarrecido. lia um comunicado. aparentemente. Witwer assumirá.

Que- ro-o neutralizado logo que possível. Desesperançado. Tem certeza disso? Anderton fez uma careta. Soturno e ressentido. — Levem-no de volta à cidade. Na verdade. — Se estivesse no lugar dele. IV A chuva fria e fina batia contra o pavimento enquanto o carro atravessava as ruas escuras da cidade de Nova York. Sinto-me inquieto com ele tão perto. Você não estará sozinho. concordo com o comissário Witwer. — E isso tem importância? . Anderton olhava fixamente à frente. Milhares de pessoas foram para esse cam- po de detenção. — Esse Witwer parece saber como tirar vantagem de uma oportunidade — um dos homens comentou a título de conversa. então implicou você. em direção ao edifício da polícia. Nesse ponto. você é apenas um em vários. — Você pode entendê-lo — um dos homens disse a Anderton. — De qualquer maneira — prosseguiu o homem —. Anderton observava os pedestres apressando-se nas calçadas molhadas pela chuva. Não sentia nenhuma emoção forte. Fez um sinal com a cabeça aos seus homens. conferia os números das ruas: estavam se aproximando da delegacia. — Por que ela esperaria? — perguntou Kaplan. Apaticamente. talvez não queira sair de lá. — Não o conheceu? — Brevemente — respondeu Anderton. —Ele queria o seu posto. — Você dei- xou as suas intenções claras. agiria com a mesma determinação. Estava ciente somente de um cansaço esmagador.

Vão se lembrar de você.— O homem olhou-o langorosamente — Então. Sorte de Kaplan ter um funcionário desse tipo no cargo. sem motivo e sem começo. o motorista lutava para controlar o carro. Um grande peso de exaustão assentava-se sobre ele. O cantar agudo dos pneus despertou-o. — Era só curiosidade. — Está mesmo convencido de que é uma conspiração? — É claro. A essa altura nem ele mesmo ti- nha mais certeza. talvez estivesse salvo. quando um caminhão se assomou da neblina e atravessou a faixa diretamente à frente. — Talvez o sistema todo seja falho. — Sem dúvida — concordou Anderton. Talvez tivesse caído em um círculo de tempo. As pessoas no campo ficarão felizes ao vê-lo. Talvez tenha havido outras pessoas inocentes. tem algum fundamento essa história de conspiração? Você está realmente sendo acusado falsamente? Anderton deu um suspiro. a Precrime se enganou? Um homem ino- cente é inculpado falsamente por um daqueles cartões. Estava lutando contra o impossível — e todas as cartas estavam contra ele. Mas percebeu seu erro tarde . De fato. Freneticamente. Outro homem inclinou-se e perguntou: — Só entre nós dois. Por isso você disse a Kaplan que queria ficar do lado de fora? Estava esperando provar que o sistema está errado? Tenho a mente aberta. estava disposto a desistir. — O homem olhava para Anderton quase em súplica. Talvez. Sem lutar. provocada por uma insegurança cada vez maior. Certamente você não vai cometer um assassinato. fechado e sem sentido. se quiser falar sobre isso. nenhum deles cometesse. realmente. certo? — É bem possível — admitiu Anderton indiferente. você é o ex-comissário da polícia. Se ele tivesse acelerado. estava quase disposto a admitir que era vítima de uma fantasia neurótica e tediosa. — Witwer não perdeu tempo. puxando o volante e ba- tendo nos freios. — Você não tocaria em um fio do cabelo de Kaplan? Pela primeira vez na história.

então. as suas grandes mãos seguravam Anderton apoia- do contra o muro de tijolos do edifício. — Está ouvin- do o que estou dizendo? — Estou — Anderton reconheceu. — Quem é você? — Anderton conseguiu perguntar. o banco ergueu-se e o lançou de cara contra a porta. — Pare de falar e ouça — O homem era troncudo. — Meu nome é Fleming. contorceu-se em um sorriso largo e forçado. — Era a única alternativa. O pesado estofamento do banco foi empurrado bruscamente para o lado. — Esse saque é suficiente para que siga em frente. Em algum lugar. O carro derrapou. Debaixo de Anderton. um pedaço de brilho sibilante cintilou no remoinho de névoa que adentrava a massa retorcida do carro. enquanto ofegava e tentava. sem forças. apitavam as sirenes da polícia. pôr-se de joelhos. baixa e urgente. e. À distância. raiada de chuva. tão desconheci- da e áspera quanto a chuva batendo em seu rosto. — Você não é.demais. A dor repentina.. e sendo guiado nas sombras de um beco à pequena distância do carro. apoiando-se pesadamente sobre uma forma escura. e. hesitou por um breve instante. pareceu estourar o seu cérebro. Então voltamos aonde começamos. Não tínhamos muito tempo. imediatamente. Era uma voz que nunca escutara antes. Achamos que Kaplan o manteria em sua casa por mais tempo. quase gordo. — Você vai viver — uma voz chiou em seu ouvido. ele se viu em pé.. — Tivemos de fazer dessa ma- neira — disse ele. Confuso. intolerável. Mãos de fora do carro estenderam-se até ele. Um corte na face começou a latejar. Temos aproxi- madamente cinco minutos até a polícia chegar. fora da chuva e da luz bruxuleante do carro em chamas. Lentamente foi tomando consciência de que estava sendo arrastado pela fenda que antes havia sido a porta. tentou se orientar. Puxou a esmo a manga rasgada de sua camisa. deu uma guinada. . Agora. bateu de frente contra o caminhão. A face molhada. o estalar do fogo ecoou melancolica- mente. — Um envelope foi colocado nas mãos de Anderton. Vai me ver de novo.

Contém a papelada completa de identificação. Entraremos em
contato com você esporadicamente. — Seu sorriso forçado tor-
nou-se um riso astuto. — Até que prove o seu argumento.
Anderton admirou-se.
— Então foi uma armação?
— É claro. — O homem afirmou bruscamente. — Quer dizer
que tinham conseguido fazê-lo acreditar nisso também?
— Achei que... — Anderton sentiu dificuldade em falar, um
de seus dentes da frente parecia estar mole. — Hostilidade em
relação a Witwer... substituído, minha mulher e um homem mais
jovem, ressentimento natural...
— Não se engane — disse o outro.— Você sabe
perfeitamente. Esse negócio todo foi elaborado cuidadosamente.
Tinham cada fase sob controle. O cartão foi preparado para ser
ejetado no dia em que Witwer apareceu. Já encerraram a
primeira parte. Witwer é comissário, e você é procurado como
criminoso.
— Quem está por trás disso?
— A sua mulher.
A cabeça de Anderton girou.
— Tem certeza? - O homem riu.
— Pode apostar a sua vida — relanceou os olhos à sua
volta.
— A polícia chegou. Vá por essa viela. Pegue um ônibus, vá
para o setor de favelas, alugue um quarto e compre uma pilha
de revistas para se manter ocupado. Consiga outras roupas.
Você é inteligente o bastante para cuidar de si mesmo. Não
tente deixar a Terra. Todos os transportes intersistemas estão
sendo controlados. Se conseguir ficar aqui por uma semana,
estará salvo.
— Quem é você? — perguntou Anderton.
Fleming soltou-o. Com cautela, dirigiu-se à entrada da viela
e espiou. O primeiro carro de polícia acabava de chegar, desli-
zando sobre o pavimento molhado o motor ressoando metalica-
mente, aproximou-se, com desconfiança, da ruína carbonizada

que tinha sido o carro de Kaplan. No interior do destroço, a bri-
gada de homens começava, com muito esforço, a arrastar-se,
pelo emaranhado de aço e plástico, para fora, para a chuva fria.
— Considere-nos uma sociedade protetora — disse Fleming,
baixinho, seu rosto rechonchudo, inexpressivo, brilhando com a
umidade. — Uma espécie de força policial que vigia a polícia.
Para que — acrescentou ele — fique tudo equilibrado.
A sua mão grossa foi estendida. Cambaleando, Anderton foi
empurrado para avançar, quase caindo no escuro e nos escom-
bros úmidos que se espalhavam pelo beco.
— Não pare — disse-lhe Fleming abruptamente. — E não
largue o envelope. — Enquanto Anderton, hesitante, abria ca-
minho rumo ao outro extremo da viela, lhe chegaram as últimas
palavras do homem: — Examine-o atentamente e talvez
sobreviva.
O cartão de identidade descrevia-o como Ernest Temple,
eletricista desempregado, recebendo uma subsistência semanal
do estado de Nova York, com uma esposa e quatro filhos em
Buffalo e menos de cem dólares de patrimônio. Um green card
autorizava-o a viajar e a não manter endereço fixo. Um homem
que procura trabalho tem de viajar. Talvez tivesse de percorrer
um longo caminho.
Enquanto atravessava a cidade em um ônibus praticamente
vazio, Anderton estudou a descrição de Ernest Temple.
Obviamente, os cartões haviam sido elaborados com ele em
mente, pois todas as medidas se ajustavam. Depois de algum
tempo, se perguntou sobre as impressões digitais e o padrão de
onda cerebral. Possivelmente não resistiriam a uma comparação.
A carteira cheia de cartões permitiria que passasse somente por
uma verificação superficial.
Mas já era alguma coisa. E com a carteira de identidade,
estavam dez mil dólares em papel-moeda. Pôs no bolso os
cartões e o dinheiro e, então, voltou-se para a mensagem
digitada que os envolvia.
De início, não fez o menor sentido. Estudou-a por muito
tempo, perplexo.

A existência de uma maioria implica,
logicamente, uma minoria correspondente.

O ônibus tinha entrado na vasta região das favelas,
passando, aos solavancos, por milhares de hotéis baratos e
casas de cômodos arruinadas que tinham surgido depois da
destruição em massa da guerra. Reduziu a marcha ao se
aproximar de um ponto e Anderton levantou-se. Alguns
passageiros observaram preguiçosamente o corte em seu rosto e
a roupa rasgada. Ignorando-os, ele desceu para o meio-fio
molhado pela chuva.
Além de receber o dinheiro, o funcionário do hotel não
estava interessado em mais nada. Anderton subiu a escada para
o segundo andar e entrou no cômodo estreito, cheirando a mofo,
que agora lhe pertencia. Grato, ele trancou a porta e baixou as
persianas. O quarto era pequeno, mas limpo. Cama, cômoda,
calendário com paisagens, cadeira, abajur, um rádio com uma
ranhura para a inserção de moedas.
Introduziu uma moeda e deixou-se cair pesadamente na
cama. Todas as principais estações transmitiam o boletim da
polícia. Era inusitado, excitante, algo desconhecido para a
geração atual. Um criminoso fugitivo! O público estava
avidamente interessado.
"...esse homem aproveitou-se de sua alta posição para
realizar uma fuga", o locutor dizia, com uma indignação
profissional. "O seu alto cargo lhe dava acesso aos dados
antecipadamente, e a confiança de que gozava permitiu que
escapasse do processo normal de detenção e de sua localização.
Durante a sua gestão, exerceu a autoridade para enviar
inúmeros culpados em potencial ao confinamento apropriado,
poupando, desse modo, a vida de vítimas inocentes. Esse
homem, John Allison Anderton, foi fundamental para a criação do
sistema da Precrime, a pré-detenção profilática de criminosos
por meio do uso engenhoso de mutantes precognitivos, capazes
de prever eventos futuros e transferir oralmente os dados à
maquinaria analítica. Esses três precognitivos, em sua função
vital..."
A voz calou-se gradualmente quando ele saiu do quarto e

entrou no banheiro minúsculo. Ali, tirou o casaco, a camisa, e
abriu a torneira de água quente da pia. Começou a lavar o corte
na maçã do rosto. Na drogaria da esquina, tinha comprado iodo
e band-aids, lâmina de barbear, pente, escova de dentes, e
outras pequenas coisas de que precisaria. Na manhã seguinte,
procuraria uma loja de roupas usadas e compraria algo mais
adequado. Afinal, ele, agora, era um eletricista desempregado, e
não um comissário da polícia acidentado.
No quarto, o rádio ressoava estridente. Mas ele só o
percebia subconscientemente, em pé diante do espelho,
examinando um dente quebrado.
"...o sistema dos três precognitivos tem sua origem nos
computadores de meados deste século. Como os resultados de
um computador eletrônico são verificados? Introduzindo os
dados em um segundo computador de design idêntico. Mas dois
computadores não são suficientes. Se cada um deles chegar a
uma resposta diferente, é impossível afirmar a priori qual está
certo. A solução, com base em um estudo cuidadoso do método
estatístico, é utilizar um terceiro computador para checar os
resultados dos dois primeiros. Dessa maneira, é obtido um
relatório, chamado relatório da maioria. Pode-se supor com
probabilidade total que a concordância de dois em três
computadores indica qual dos resultados alternativos é exato. É
improvável que dois computadores cheguem a soluções
incorretas idênticas..."
Anderton largou a toalha que segurava e correu para o
quarto. Tremendo, curvou-se para escutar as palavras
estridentes do rádio.
"...a unanimidade dos três precognitivos é um fenômeno es-
perado, mas raro, explica o comissário interino Witwer. É muito
mais comum obter um relatório em conjunto da maioria de dois
precognitivos, mais um relatório da minoria, com alguma ligeira
variação, geralmente com referência a tempo e lugar, do terceiro
mutante. Isso é explicado pela teoria de futuros múltiplos. Se
existisse somente uma trajetória para o tempo, a informação
precognitiva não teria nenhuma importância, na medida em que
não haveria nenhuma possibilidade, ao se possuir essa informa-
ção, de alterar o futuro. No trabalho da Agência Precrime, deve-
mos, antes de mais nada, supor que..."

Freneticamente, Anderton ficou de lá para cá no quarto exí-
guo. Relatório da maioria - somente dois dos precognitivos ha-
viam concordado sobre o material que fundamentava o cartão.
Esse era o significado da mensagem no pacote. O relatório
do terceiro precognitivo, o relatório da minoria, tinha, de certa
forma, importância.
Por quê?
Seu relógio informou-lhe que passava da meia-noite. Page
deveria estar de folga. Não retornaria ao bloco dos macacos até
a tarde seguinte. Era uma chance remota, mas valia a pena
tentar. Page talvez o protegesse, talvez não. Ele teria de correr o
risco.
Ele tinha de ver o relatório da minoria.

VI

Entre meio-dia e uma da tarde, as ruas cobertas de lixo
ficavam cheias de gente. Optou por essa hora, a mais
movimentada do dia, para fazer a ligação. Escolhendo uma
cabine em uma grande drogaria, apinhada de clientes, discou o
número familiar da polícia e esperou com o telefone ao ouvido.
Deliberadamente, selecionou a linha áudio e não a de vídeo:
apesar de suas roupas surradas e a aparência esmolambado,
não barbeado, podia ser reconhecido.
O recepcionista era novo. Com cautela, passou para o ramal
de Page. Se Witwer estava removendo a equipe regular e
colocando seus satélites, ele poderia se pegar falando com
alguém totalmente estranho.
— Alô? — ouviu a voz rouca de Page.
Aliviado, Anderton relanceou os olhos em volta. Ninguém
estava lhe prestando a mínima atenção. Os fregueses
perambulavam com mercadorias, ocupando-se de sua rotina
diária.
— Pode falar? — perguntou ele. — Ou está ocupado?
Houve um momento de silêncio. Ele imaginou a cara conci-
liatória de Page dilacerada pela dúvida, enquanto tentava

desesperadamente decidir o que fazer. Por fim, falou com
hesitação.
— Por que... ligou para cá?
Ignorando a pergunta, Anderton disse:
— Não reconheci o recepcionista. Pessoal novo?
— Novinho em folha — concordou Page, com a voz sumida,
abafada. — Muita rotatividade de pessoal, agora.
— Foi o que eu soube. — Tenso, Anderton perguntou: — E o
seu emprego? Está seguro?
— Espere um minuto. — O fone foi abaixado, e Anderton
escutou o som abafado de passos. Foi seguido pelo ruído rápido
de uma porta sendo fechada apressadamente. Page retornou. —
Agora, podemos falar melhor — disse com a voz rouca.
— Bem melhor?
— Não muito. Onde está?
— Dando um giro pelo Central Park — disse Anderton. —
Aproveitando o sol. — Até onde sabia, Page tinha ido se certificar
de que a fita da linha estava no lugar. Nesse exato momento,
uma equipe da polícia estava, provavelmente, sendo transporta-
da por um avião. Mas ele tinha de correr o risco. — Estou em
outro campo — disse laconicamente. — Agora sou eletricista.
— Ahan? — replicou Page desconcertado.
— Achei que talvez tivesse trabalho para mim. Se isso
puder ser arranjado, gostaria de passar por aí e examinar o seu
equipamento de computação. Principalmente os bancos de
dados no bloco dos macacos.
Depois de uma pausa, Page disse:
— Pode... ser arranjado. Se for realmente importante.
— É — garantiu Anderton. — Quando é melhor para você?
— Bem — disse Page, vacilante — Estou esperando uma
equipe da manutenção que virá examinar o equipamento do sis-
tema de intercomunicação. O comissário interino quer aprimorá-
lo, para que ele possa operá-lo com mais rapidez. Você pode
entrar com eles.

Ninguém o localizaria ali. Quando Anderton se aproximou. finalmente. — Agoniado de apreensão. Page seguiu atrás dele. Seus olhos vidrados e perplexos contemplavam um mundo que ainda não existia. Anderton abriu o principal banco de controle da maquinaria analítica. vou encon- trá-lo. Um momento de- pois. "Jerry" tinha 24 anos. sistematicamente. Por que diabos voltou? — Não voltei por muito tempo — Tenso. antes de desligar. Anderton entrou pelo bloco dos macacos. cego à realidade física à sua volta. até que. mas ao completar a . Entrada B. Ignorando-o. Estou caindo fora. Não posso me arriscar. — Es- pero que ainda esteja no cargo quando eu chegar. tentava passar por uma massa densa de pessoas que apinhava a cafeteria do lado. A primeira coisa que Page disse foi: — Você perdeu o juízo. Anderton ficou sozinho. — A caminho da porta. Ele o conhecia bem. fechando. — Qual dos três macacos fez o relatório da minoria? — Não me pergunte. a criatura não ergueu os olhos. — Ótimo — concordou Anderton. apontou a figura do meio e desapareceu em seguida. A figura anã e corcunda es- tava enterrada nessa fiação e relés há 15 anos. Eu. uma porta atrás da outra. — Você devia ter-se demitido quando ainda era o chefe.. havia sido classificado como um idiota hidrocéfalo. não perde tempo. — Farei isso. encontrou Page como combinado. A porta foi fechada. O do meio. Tinha de esperar três horas e meia. Revelou-se a espera mais longa de sua vida. E seria um tempo bastante longo. Por volta de que horas? — Digamos às quatro.. Page parou por um breve momento. — Witwer está se aproveitando da situação. — Não deixe ninguém entrar. Originalmente. Desligou e deixou a cabine rapidamente. nível 6. Vai pôr o país todo gritando por seu sangue.

os testes psicológicos identificaram o talento precognitivo.. do relatório. Anderton retrocedeu a fita e clicou na cabeça gra- vadora. no entanto. selecionou a seção de fitas que se referiam a esse cartão em particular. Para ele. Um novo curso de tempo já havia sido criado. o talento já avançara a um estágio útil. Colocado em uma escola de treinamento operada pelo governo. Prendendo a respiração. ele inseriu a fita. Desde a primeira declaração do relatório ficou claro o que tinha acontecido. A antevisão do assassinato tinha cancelado o crime. Por causa da natureza errática da precognição. Usando os esquemas. Mas "Jerry" tinha sido minoria. restau- rou o original .. Trêmulo. permaneceu no caos sem objetivo. o talento latente foi cultivado. Essa afirmação — e a reação de Anderton — era mais um dado. soterrado sob camadas de tecido decomposto. o relatório de "Jerry" invalidava o relatório da maioria. A visão de "Jerry" estava na fase errada. Obviamente. Sem dúvida. e removeu a duplicata do transporte. ativou o transporte. Quando tinha nove anos. ele estava examinando uma área de tempo um pouco diferente da de seus companheiros. Tendo sido informado de que cometeria um assassinato. e escutou. Fez uma cópia. na idiotia. Só levou um segundo. "Jerry". Ali estava a prova de que o cartão era inválido: obsoleto. duas fitas de meia hora: dados recentes rejeitados que não se coadunavam com os relatórios da maioria. retirava. Anderton mudaria de idéia e não o cometeria. Tudo que tinha a fa- zer era mostrá-la a Witwer. a profilaxia tinha ocorrido simplesmente no ato de ter sido informado. Tinha o que queria. seguiu o curso dos estágios finais dos computadores integrados até o ponto em que o equipamento individual de "Jerry" se ramificava. Em minutos.idade de seis anos. a faculdade que se desenvolvia rapidamente tinha absorvido a totalidade de sua personalidade. Consultando a carta de códigos. Anderton começou a desmontar as placas prote- toras dos rolos de fitas armazenados na maquinaria analítica. A sua própria estupidez o surpreendeu. trêmulo. em alta velocidade. Acocorado. o registro de que Anderton cometeria um assassinato era um evento a ser integrado com todo o resto. Um scanner de fitas estava montado do lado. Witwer . podia parar de buscar.

a sua prova. enquanto ela saía do bloco por uma porta lateral e atravessava um corredor. e veloz — disse-lhe por sobre o ombro. então. podia fazer? Quem mais estaria? — Seu idiota! — uma voz irritada atrás dele ecoou. por um instante. O rosto de Lisa contorceu-se. Page está tentando mantê-lo ocupado. mostrando a fita.. . talvez fosse melhor que escutasse esta fita. pronta para decolar. os saltos dos sapatos batendo alto na escuridão deserta. Ele simplesmente não entende quem você é. Não devia tê-lo deixado entrar. — Vou — disse Anderton. — Não se preocupe — disse-lhe brevemente. e ela precipitou-se para ele. ela disse: —Vou decolar em um minuto. — Tem uma nave pousada no terraço. mas não havia elaborado nenhum método para partir. — Page disse que estava aqui. — Está abastecida para emergência. — É uma boa nave. com fúria. — Quem eu sou? — perguntou Anderton sarcasticamente. e. mas não acreditei. Virou-se rapidamente.tinha visto o relatório. — Ele está aqui agora! Vai forçar a entrada! — Você não tem influência? Seja graciosa e sedutora. apressou-se atrás da figura esguia de sua mulher. — Estou de saída. havia assumido o cargo de comissário. — Não quero escutá-la! Só quero que saia daqui já! Ed Witwer sabe que tem alguém aqui. Havia as- segurado a fita.. ele não estava preocupado com a inocência de Anderton. na sua farda de polícia. Ele não tinha escolha. e afastado as equipes da polícia. mas — interrompeu-se. Lisa olhou para ele com reprovação. os olhos frenéticos de aflição... —A sua voz engasgou e. apesar disso. ficou em silêncio. A sua mulher estava em uma das portas. —Antes de responder. Eu estava indo supervisionar algumas das equipes. Se quiser fugir. Se quiser vir. Contente. a cabeça virou-se rigidamente para o lado. Então. O que. Provavelmente ele se esquecerá de mim. Witwer não tinha a intenção de se retirar.

eram agora crateras abertas e pontilhadas das ruínas das fazendas e pequenas indústrias. Podemos tratar do aspecto teórico depois. Abaixo da nave. antes de seu jovem e brilhante amigo destruí-la. De súbito. entre as cidades. — Um relatório da minoria? Muitas vezes. — Tateou o rolo de fita no assento entre eles. — E temos um pro- blema imediato. Anderton descre- veu. — Com o olhar sombrio e grave acrescentou: — Talvez muitos nos campos sejam como você. Mas começava também a se sentir inquieto em relação a isso. em linhas gerais. — Este é um caso único — repetiu ele. as regiões vazias. — Teria sido um risco grande demais — respondeu ele. — Eu estava em posição de ver o cartão. de dar uma olhada no relatório. Foi isso que me con- venceu. a expressão atormentada. — Risco? Chance? Incerteza? Com precognitivos à volta? - Anderton concentrou-se em conduzir a pequena nave. um precognitivo estar em fase diferente. tensa. — Talvez todos tenham reagido dessa maneira. Poderíamos ter-lhes dito a verdade. . a região rural devastada pela guerra espalhava-se como um mapa de relevos. Te- nho de levar esta fita às pessoas interessadas. — Não — insistiu Anderton. as mãos apertadas no colo. Usando o relatório dos outros como dados. — Vai levá-la para Kaplan? — Certamente. Lisa deu uma risada. Lisa escutou sem comentar. — Quero dizer. — Mas — Lisa interrompeu-o com um gesto. invalidando-os. VII Atrás do manche do cruzador da polícia. — Eu me pergunto — disse ela. o conteúdo da fita do relatório da minoria. obs- tinadamente. quando ele terminou — quantas vezes isso aconteceu antes.

Com relutância. Uma classe internacional composta dos dois lados da guerra. — Tudo o que é preciso é dinheiro — respondeu ele evasi- vamente. tem de se dar conta de que o relatório original. — Como conseguiu se tornar clandestino tão rapidamente? — perguntou Lisa. — É difícil obter um disfarce completamente eficiente. Lisa tirou de sua bolsa a cigarreira. não é uma falsificação. terá de aceitar o da maioria também. Mas Witwer divulgou o dossiê sobre ele. Na verdade. — Ele é muito poderoso. agora. mas . Enquanto fumava. — Ed Witwer — prosseguiu Lisa — está agindo de boa-fé. Nervosa. É um risco que vale a pena correr. eles mantêm uma espécie de palácio da prefeitura. — Tecnicamente. é óbvio que não vai cometer um assassinato. Ele realmente acredita que você é um criminoso em potencial. Lisa ponderou: — Provavelmente Kaplan vai protegê-lo — disse ela. Se aceitar esse relatório da minoria como genuíno. três publicações de produção luxuosa e uma cobertura ocasional na TV que lhes custa uma pequena fortuna. o relatório da maioria. — Pensei que fosse um general da reserva. — Ele vai estar interessado. Aqui. E por que não? Ele tem o relatório da maioria em sua mesa. nem nunca existiu. Ninguém o falsificou. Somente oficiais de alta patente. é isso o que ele é. A prova de que a sua vida não está em perigo deve ser de importância vital para ele. — E acha que ele vai ajudar você? — Pode ajudar ou não. Quer dizer. Ed Witwer não o criou. Mas. é uma espécie de clube. Kaplan chefia um tipo incomum de organização de veteranos. com alguns membros exclusivos. — O que está querendo dizer? — Apenas isso. Você me convenceu de que é inocente. ele concordou. Não existe conspiração contra você. — Acho que sim. em Nova York.

séria. além disso. — É verdade — admitiu Anderton — Possivelmente ele não sabia.você tem esse cartão dobrado no bolso. E. Percebe por quê? Provaria que o relatório da maioria estava errado. — Ed Witwer não é motivado por nenhum desejo de ter o seu cargo — disse ela. — Tem certeza? — Se o sistema só consegue sobreviver aprisionando inocentes. no sistema. Ele quer que o sistema se mantenha. ele vai destruí-la. — O que significa mais para você: a sua segurança pessoal ou a existência do sistema? — A minha segurança — respondeu Anderton. Poderia tê-las destruído quando quisesse. Você está pensando em sua própria segurança. — Curvando-se.. Se a Precrime tiver de sobreviver. a polícia ficará desacreditada. Lisa inclinou- se.. Nunca usei uma arma como esta antes. — Acho — disse-lhe. Conversei com ele e estou convencida de que está falando a verdade. — É claro que não. em sua direção. por um momento. Mas pense. Ed Witwer está absolutamente certo. então merece ser destruído. Lisa tirou da bolsa uma pistola incrivelmente minúscula. apagou o cigarro e remexeu na bolsa buscando outro. Você precisa ser preso. a garganta seca — que o meu dedo está no gatilho. Anderton perguntou: — Quer que eu leve esta fita a Witwer? Se eu fizer isso. Anderton perguntou: . Depois de uma pausa. Se Kaplan tomar posse desta fita. — É motivado pelo mesmo desejo que sempre motivou você. sem hesitar. — Bobagem — retorquiu Lisa — As originais estão em suas mãos desde o começo. Ele acredita na Precrime. — Eu o destruí — disse Anderton calmamente. Veja dessa maneira. A minha segurança pessoal é importante porque sou um ser humano. mas estou disposta a experimentar.

um braço atacando violentamente a pistola da mulher. Anderton estava surpreso de- mais para gritar. Segurando firme a pistola. Se pu- desse colocar o bem do sistema acima de seu egoísmo. perdeu o equilíbrio e foi jogado contra a parede reforçada da nave. Era óbvio que Fleming e seus homens o mantinham sob vi- gilância.. — Talvez — disse Fleming — fosse melhor me dar a fita. que caiu no chão com estar- dalhaço. Mas não vou ouvir a sua defesa de uma norma de compor- tamento que nenhum homem inteligente seria capaz de aprovar. uma asa ascendendo majestosamente até apontar diretamente para cima. aprumando o corpo o me- lhor que pôde.. Pelo canto do olho. Fleming empurrou-a e recuperou a arma. o esforço para se segurar de um homem grande. Fleming conseguiu fazê-la largar a arma. Anderton percebeu um movimento re- pentino. A existência da nave de Lisa tinha sido devidamente notada e analisada. Alguns objetos soltos chocalharam no porta-luvas quando a pequena aeronave girou em uma manobra radical. Por isso esperei. — Desculpe — disse ofegando. que retorne ao edifício da polícia. viu o homem. abruptamente. e se ca- lou. sentou-se de frente para ele. enquanto ele traçava um arco amplo com a nave. — Achei que ela falaria mais. os olhos atentamente fixos em sua manobra. — Você . O que se seguiu aconteceu rapidamente. Lamento. quando. e gritou. ele tinha se introduzido furtivamente no compartimento de carga. Resmungando. Mas o terceiro membro do grupo não. — Você estava aqui quando — começou Anderton. Lisa virou-se. Fleming pôs-se imedia- tamente de pé. — Quer que eu dê a volta? É isso? — Sim. — Seus dedos úmidos e desajeitados tatearam buscando-a. e enquanto Lisa discutia se seria melhor levá-lo a um local seguro. exangue. cambaleando e cauteloso. Anderton e sua mulher estavam seguros pelos braços metálicos de seus assentos. Os lábios de Lisa apertaram-se formando uma linha tênue. — Poupe o sermão — disse Anderton — Vou levar a nave de volta. Um som ressoou simultaneamente.

Não houve tempo para che- car — Agachou-se enquanto falava. o seu pescoço será primeiro quebrado. Por isso o seu nome apareceu na linha cinco do cartão. Eu ia supervisionar. Parecia estranho que Anderton esperasse tanto tempo. Eu tinha lhe dito que ela estava por trás disso tudo. ainda atordoado com a aparição do homem. Ainda agachado. Teremos de tirá-lo desta área. — Não acredito — protestou Anderton. Mas. Uma expressão estranha atravessou as feições perplexas de Lisa.. ofegando.. Page deu o serviço a Witwer sobre o seu novo disfarce. diretamente atrás da cadeira da mulher. — Kaplan está trabalhando diretamente com Witwer. e pode estar certo de que já foi amplamente divulgado. Ignorando-a.tem razão. neste caso. Os . — A primeira coisa é tirar esta mulher do caminho. aterrorizado. — Foi um grande erro voar com essa mulher. separado de nós. — Teremos sorte se uma nave do patrulhamento da polícia não estiver nos aguardando. Um acidente natural. você não teria nenhuma chance. Lisa agarrou- se freneticamente a ele. habilmente... Sozinho. Jogando a sua arma pesada para Anderton. — Kaplan também? — perguntou Anderton. o queixo dela até sua têmpora ser empurrada de encontro ao banco. um gemido fraco. ergueu. soltou- se de sua garganta. Queriam tirá-lo do prédio. — Ela cairá. Fleming fechou suas grandes mãos em volta de seu pescoço e começou a apertar implacavelmente. Qual dos dois é o verdadeiro chefe. — Se ela. Possivelmente nenhum dos dois. Fleming agarrou Lisa.— Witwer nunca viu esta nave. não sabemos. Witwer teria lhe dado sumiço. — Você quase conseguiu escapar — Fleming interrompeu inexorável. de modo que não conse- guíssemos chegar a você. — Nenhum ferimento de bala — explicou ele. entorpecido. Esta nave foi preparada por ordem de Witwer. — Você não entendeu. — Fleming se desfez da pistola pequenina e pegou a sua própria arma militar pesada. — Não é verdade — sussurrou ela. Acontece o tempo todo.

estavam se assegurando de que o te- riam antes da polícia. Fleming e seus homens estavam operando sob as ordens de Kaplan. por um mo- mento. . a cor retornou ao seu rosto. — Vou ficar bem. ligado ao Departamento de Inteligência de Informação Militar. Entre os diversos documentos.. En- tão. Fleming. Lisa permaneceu. gradativamente. havia sido uma estratégia elaborada para impedir que Witwer o prendesse. segundo sua identidade. Mas não é do tempo da guerra. Não se preocupe comigo. declarando que Fleming estava sob a proteção especial de seu grupo — a Liga Internacio- nal dos Veteranos.dedos grossos de Fleming estavam cruelmente cravados na pele pálida da mulher quando ele ergueu a coronha da pistola pesada e abaixou-a na parte de trás do crânio de Fleming. Mesmo então. Tentando não tocar na cabeça do homem. dessa vez acima do olho esquerdo. havia um documento. O caminhão. a voz urgente. — Quase mecanicamente. estava em suas mãos. a carteira de Fleming. acho que posso. Um momento depois. Ele caiu para trás e ficou imóvel. Ele voltou para onde Fleming estava estirado. tudo havia sido armado deliberadamente. Eu posso estar enganado. ela al- cançou o manche. — Pode assumir o controle da nave? — perguntou Anderton. quando seus homens o pegaram quando arru- mava as malas. assinado pelo general Leopold Kaplan. O plano iniciara com o contato ori- ginal em sua casa. era um major do exército. mas há uma chance. Na tentativa de se recompor. — Posso. encolhida. Desde o começo. Isso significava que Kaplan o havia mantido longe das mãos da polícia intencionalmente. se deu conta do que realmente tinha acontecido. abriu o seu casaco e revistou seus bolsos. vacilou para a frente e caiu contra a parede da nave. Respirando com dificuldades. começou a arrastar o corpo para cima. — Esta pistola — disse Anderton — pertence ao exército. sacudindo-a. o acidente. Incrédulo. Tod Fleming. É uma das novas que estão de- senvolvendo. Anderton atingiu-o de novo. As mãos monstruosas relaxaram. empapada de suor.. o corpo oscilando para frente e para trás.

Witwer empalideceu. O que quer que ache.. Transcreveu duplicatas dos relatórios dos . An- derton acrescentou: — Tem uma coisa que você deve fazer ime- diatamente. e contatou o quartel-general da polícia em Nova York. ela não é responsável. com urgência. — Podemos entrar em contato com Witwer? Ela disse que sim com um movimento da cabeça. conseguiu o circuito mecânico do canal fechado. Feche o bloco dos macacos. Acabou de sair. — Você está voltando? Está se entregando? — Estou. — O que ele foi fazer? — Coletar dados. — Ouça — disse ele impetuosamente —. O coração de Anderton parou. Aos solavancos. seus olhos fixaram-se na arma nas mãos de Anderton. Quero falar com ele o mais rápido possível. Assegure-se de que ninguém entre. Apontando o circuito de comunicações do painel. descobriu? — Entre em contato com Witwer. — Eu já descobri isso — respondeu Anderton. Um panorama visual de funcionários da polícia de menor importância passou rapidamente antes de uma réplica das feições de Ed Witwer aparecer na tela. não faça nada a ela. ela discou.. — Kaplan — disse a imagem em miniatura. Especialmente o pessoal do exército. sim. — Lembra-se de mim? — perguntou Anderton. — Falando rapidamente. ela perguntou: — O que. o que aconteceu? Lisa. — O que tem ele? — Esteve aqui. você está trazendo ele de volta? — Abruptamente. — Pode nos localizar e acompanhar? Talvez precisemos de proteção ao re- tornar. — Meu Deus. É muito urgente. ao voltar a se sentar. Nem Page nem ninguém. — Você estava dizendo a verdade — disse Anderton à sua mulher. — Retornar!— Witwer encarou-o sem acreditar.

— Pode me pren- der. — Eu retirei a sua ordem de captura. — Acho que não estou entendendo. — Tiveram sorte? — Ele saiu daqui em uma caminhonete do exército. Onde está Wally Page? — Já está sob controle — respondeu Witwer. A expressão de Anderton tornou-se soturna. várias naves de escolta mergulharam seus estabilizadores verticais e partiram em velocidade. Ele insistiu que os queria exclusivamente para a sua própria proteção. Mas isso não vai ser o suficiente.. Witwer quase gritou. não muito convincentemente: — Quer dizer. — Não vai nos dar mais trabalho. me mandar para o campo de detenção. Alarmado.. — A culpa não é minha. Mas passar informações para o exército é. — Corrigiu-se. — É tarde demais. — O que quer dizer exatamente? O que está acontecendo? — Vou lhe contar — disse Anderton energicamente — quan- do chegar ao meu escritório. Anderton aproximou-se imediatamente do rapaz louro. ele já os tem — disse Anderton. Agora as equipes estão atrás de Kaplan.precognitivos sobre você. eu tenho. Quan- do a pequena aeronave aterrissou. Eu não devia ter deixado o prédio da polícia. Nós o . — Você o prendeu pelo motivo errado — disse ele. VIII Witwer encontrou-o no terraço do edifício da polícia. Você tem uma rede de es- pionagem do exército plantada aqui. — Deixar eu entrar no bloco dos macacos não foi crime nenhum. Os olhos azuis de Witwer estavam pálidos na incerteza. — Você conseguiu o que queria — disse. — Então.

mas a caminhonete entrou no quartel militar. o Bloco Ocidental foi desmilitarizado. vamos colocá-lo em um cam- po. Mas isso é diferente. e você não é o responsável. — Sim. Ninguém gosta disso — Anderton fez uma careta. O exército vai nos desmoralizar. foram reformados e descartados. — Ele estará vivo. tanto militar quanto doméstico. E nós vamos perder. — Não acha que eu estou — fez uma expressão de repulsa — tramando pegar o seu posto. — O que aconteceu com você? — perguntou Witwer. Eles têm um grande tanque de guerra R-3 bloqueando a rua. com hesitação. Todo mundo é culpado desse tipo de coisa. Lisa avançou. — Como Fleming — disse Lisa com a voz fraca. E faziam o seu próprio trabalho de polícia. — Concluiu: — Independente de dar cara ou coroa. — Depois da guerra. e uma feia mancha roxa formava-se em sua garganta. o exército perdeu. como Kaplan. — É claro que está. Encarando Anderton. — Por que afirma — perguntou Witwer — que é tarde de- mais para se entregar? Meu Deus. — Mas por que correm um risco tão grande? O que querem exatamente? — Depois da guerra anglo-chinesa.— Mas ele pode provar que também estaria vivo se eu estivesse solto pelas ruas. Ele pode quebrar o sistema da Precrime. Oficiais. ele disse: — Finalmente parou de achar que era uma conspiração minha. ele vai vencer.seguimos. Então. Eles dirigiam o show. A semana vai passar e Kaplan continuará vivo. A estratégia deles terá êxito. Ela ainda estava pá- lida e abalada. — Posso . sim — admitiu Anderton. Seria provo- car a guerra civil tirá-lo do caminho. ele viu a forma inerte de Fleming estirada lá dentro. Devagar. Não foi mais o que era na época áurea da AFBO. Eu estou tramando mantê-lo. Ele tem a informação que mostra que o relatório da maioria está obsoleto.

gostaria? — Eu diria que não — respondeu Witwer enfaticamente.entendê-lo. Mas não podíamos continuar dirigindo as coisas dessa maneira. Escolhendo a maquinaria responsável pela análise de "Donna". o mecanismo de transporte de fita estava em operação. Você acredita no status quo. Mas todo mundo soube dele. o código informou- lhe que rolos eram relevantes e. — Conseguirá. os agentes da Inteligência Militar de Kaplan seqüestravam Anderton quando ele ia para casa depois do trabalho. As fitas dos dados dos precognitivos "Donna" e "Mike" foram armazenadas separadamente. com o tempo. Esse era o material utilizado por "Jerry" — o curso de tempo relegado. o Quartel-General da organização da Liga Internacional dos Veteranos. não consiga esse posto tão facilmente como imaginei. Tivemos de dividir a autoridade. Era levado à mansão de Kaplan. mas o Senado irá abolir a nossa influência. — Anderton afastou-se deles. — Talvez eu. em um instante. Ele não é o único. — Não há nada que possamos fazer? — Eu não vou matá-lo. estarei dirigindo esta agência. concluiu: — Talvez me dê algumas idéias. Você não gostaria disso. A expressão de Anderton era sombria.. — Está dizendo que Kaplan venceu — disse Witwer. — Enrubesceu. é claro. — Foi péssimo você divulgar o relatório da maioria. Anderton recebia um ultimato: desmembrar voluntariamente o sistema Precrime ou enfrentar a . — Vou examinar as fitas dos dados do relatório da maioria. Se o ti- vesse mantido secreto.. poderíamos recuperá-lo. Não podemos dá-lo como não dito. — Pensativamente. Prova- velmente ele irá aparecer e nos oferecer algum tipo de acordo. Mas aprenda a ir com calma. Como antes. Era mais ou menos o que ele tinha suspeitado. Será um bom oficial de polícia. Vamos continuar a funcionar. Eu sei disso e ele sabe disso. Nele. — Qualquer dia desses. ele abriu a plaqueta protetora e expôs o conteúdo. Quero descobrir exatamente como eu supostamente mataria Kaplan. sem graça. — Não imediatamente. — Acho que não — admitiu Witwer.

Anderton. Nenhum apoio tinha sido dado. ainda absorto em pensamentos. — Não — respondeu Anderton lentamente. Era idêntico. Rifles. Para evitar a guerra civil. Mas alguma coisa estava errada. "Mike" começava como "Donna" tinha começado: Anderton tomava consciência da conspiração de Kaplan contra a polícia. atentamente. e olhou para fora. Descendo a faixa central. a fita. E o golpe tinha sido bem-sucedido. Anderton localizara Kaplan. tinha terminado a investigação. — Eu estava enganado. frio e desanimado. soldados fardados em quatro colunas.. No curso de tempo rejeitado. Uma hora depois.. capacetes. o Senado tinha ratificado o desmembramento do sistema de polícia e decretado o retorno à lei militar "de lidar com a emergência" Utilizando uma unidade fanática da polícia. O relatório "Mike" era muito diferente do relatório "Donna". — Ele vai ler o relatório da minoria? . — Não exatamente errada. do tempo de guerra. como comissário da polícia. Eles não farão um acordo conosco. Anderton não ficou surpreso. Witwer perguntou: — O que houve? Dá para ver que há alguma coisa errada. ele voltou a fita até o início. Somente Kaplan tinha morrido. Assim que saiu. Incompreensivel- mente. Dirigiu-se à janela. tinha recorrido ao Senado para pedir apoio. Os outros haviam sido apaziguados. o que escutara não batia. os dois precognitivos haviam combinado apresentar um quadro unificado. A rua estava lotada de gente. Ele voltou a fita e examinou o material antevisto por "Mike". soldados avançando em suas fardas encardidas. — Um reagrupamento do exército — explicou Witwer.hostilidade franca do exército. — Um som chegou aos seus ouvidos. Intrigado. Esse era "Donna". carregando as flâmulas amadas da AFBO que adejavam ao vento frio da tarde. guardou as fitas e deixou o bloco dos macacos. e outros oficiais da Liga dos Veteranos. Escutou de novo. ainda um pouco perplexo. Por que fariam? Kaplan tornará público. e atirara nele.

Vão alegar que prendemos homens inocentes. — Seus olhos refletiram um lampejo frio. Eu poderia ser enviado a um dos plane- tas colônias. Anderton mostrou a arma militar que Fleming tinha lhe jogado. — Eu tenho — disse Anderton. Terei de matar Kaplan. Você está familiarizado com os estatutos que regem assassinato em primeiro grau? — Prisão perpétua. Governo pelo terror. teremos de segui-la. — No mínimo. atônito — o relatório da maioria foi invalidado. prefere isso? — Diabos. — Eu não tenho palpite. Estamos confinados e só há uma direção em que podemos seguir. É a única maneira de impedi-los de nos desautorizar. — Acha que o Senado vai ceder? Witwer hesitou. e tirar a nossa autoridade.. — Mas — disse Witwer. Provavelmente. realizamos batidas policiais noturnas. Witwer perguntou: — E qual é ela? — Depois que eu disser. mas tem um preço. esse tipo de coisa. — Aparentemente sim. — Não vejo como poderá matar Kaplan. não — replicou Anderton enfático. Vão pedir ao Senado que nos disper- se. Obviamente. você pode puxar alguns fios e substituí-la por exílio. — Mas vai ser o menor de dois males. — Vai ceder. você vai se perguntar por que não pensou nisso. Esse negócio ajusta-se ao que aprendi lá embaixo. Querendo ou não. — Vou usar isso. — Você. terei de cumprir o relatório divulga- do. a velha fronteira. E tem de ser feito. — Eu posso fazer isso — informou Anderton —.. Com apreensão. — Eles não vão deter você? — Por que o fariam? Eles conhecem o relatório da minoria .

As fardas do exército predominavam e. que aumentava. pendia a grande bandeira da AFBO. Na plataforma elevada. E tinha sido comissário da polícia durante 30 anos. da Liga dos Veteranos. todos tensos com a expectativa. vinham os oficiais de patente inferior. oculto no banco traseiro. no perímetro da área evacuada. Um carro da polícia levou-o para o interior de um bloco do reagrupamento do exército. o assassinato delibe- rado tinha sido extinto. IX Ele nunca tinha matado um homem. De fato. A massa de pessoas. Tornando a guardar a arma. tentando ficar a uma distância que lhe permitisse escutar a marcha. emblema das forças combinadas que combateram na guerra. Bandeiras dos regimentos esvoaçavam em uma variedade de cores e símbolos. Para essa geração. Parecia intacta. estava exposta uma fila de tanques e armamentos — armamento intimidador ainda sendo produzido. não havia dúvida do resultado. Tinha certeza absoluta do que aconteceria em meia hora. Ninguém prestou a menor atenção nele. Atrás deles. abriu a porta do carro estacionado e saltou cautelosamente. Mas vou matar Kaplan de qualquer maneira. empurrando-se com ansiedade. Na verdade. Ali. a Liga de Veteranos da AFBO incluía oficiais inimigos no tempo da guerra. de expressão severa. Simplesmente não acontecia. O exército tinha erigido uma plataforma para o alto-falante. Mas um general era um general e tais distinções haviam desaparecido ao longo dos anos.que diz que mudei de idéia. quase de- . Ocupando a primeira fila de assentos estavam as altas pa- tentes do comando da AFBO. Nos limites extremos. Atrás da plataforma. Nunca tinha nem mes- mo visto um homem assassinado. Por um curioso desgaste do tempo. a ocasião havia assumi- do o aspecto de um desfile festivo. — Então o relatório da minoria é incorreto? — Não — respondeu Anderton — está absolutamente certo. ele examinou minuciosamente a pistola que Fleming lhe fornecera. avançava. esta- vam os dignitários.

a bengala. foi tragado pela presença sólida da humanidade. eram informantes fazendo observações. — Pensei que tivesse sido preso pelo comissário interino. Ao notar Anderton. Witwer tem essa mesma fita. Estava usando galões. Para esse evento. o terno con- servador. Kaplan usava a sua velha farda cheirando a naftalina. Um senso ávido de antecipação mantinha todo mundo rígido. O vento do fim da tarde transportava o ruído abafado de muita gente amontoada. — Ficará contente em saber que tornarei público todo o relato da acusação espúria contra você. o relógio de bolso de ouro. ostensi- vamente para manter a ordem.sapercebidos. Apesar de nervoso. estava cercado pelo que deveria ter sido seu estado- maior. A multidão parecia sentir que algo espetacular estava para acontecer. medalhas. Anderton abriu caminho pelas filas de assentos e alcançou o núcleo dos oficiais do exército na borda da plataforma. Mas agora. Se a ordem era para ser mantida. ele era o general Kaplan. — Indicou o pacote que Kaplan segurava e cruzou com segurança o olhar do homem. Com dificuldades. Ereto e imponente. o exér- cito a manteria. e o quepe. estendendo sua mão enluvada de cinza. . Quando Anderton atravessou a multi- dão. Na verdade. — É uma surpresa — disse a Anderton. botas. o espadim ornamental. O colete. apertando sua mão. — Ótimo — Anderton respondeu evasivamente. Era surpreendente como um homem calvo se transformava sob a potência de um quepe de oficial. aguardavam algumas unidades policiais. tudo havia desaparecido. Kaplan estava entre eles. o general Kaplan separou-se do grupo e dirigiu-se onde o homem mais jovem estava. — Ainda estou livre — replicou Anderton rispidamente. — Afinal. o general Kaplan estava de bom humor. volúvel. demonstrava incredulidade e alegria ao ver o comissário de polícia. — Esta é uma grande ocasião para o exército — revelou ele. A expressão em sua fisionomia delgada.

relanceou os olhos. — Compreendeu bem o que vou dizer? — perguntou o ge- neral Kaplan. — Com gravidade. — Vamos. expondo toda a fraude sinistra que a polícia tem operado. — A exposição terá uma repercussão considerável. inquieto. — O general Kaplan fez um sinal ao ajudante-de-ordens e uma pasta de couro foi trazida. — Tenho de começar. mas com uma espécie de veemência reprimida. os braços cruzados. — Com prazer — concordou Anderton. visivelmente se perguntando por que ele tinha aparecido e o que ele realmente sabia. uma inquietação. Talvez faça o Senado reconsiderar a validade básica do sistema Precrime. — O ge- neral Kaplan tentava descobrir o que Anderton sabia. o general Kaplan consultou seu relógio de pulso. — Não se importa de ser um exemplo. Mais uma vez. importa-se? O seu caso simboliza as prisões injustas de inúmeros indivíduos. Um silêncio se impôs sobre a multidão. Tudo que precisamos — disse ele. Mas houve uma agi- tação. — O homem sentado do meu lado — começou. — O que estamos esperando? Desconcertado. — Fleming teve oportunidade de pô-lo a par da situação? — Até um certo ponto — replicou Anderton. o general Kaplan disse: — Para que vejam a prova ao vivo. subiu os degraus da plataforma e sentou-se bem ao lado do pódio do alto-falante. A sua incerteza aumentou quando Anderton. o general Kaplan dirigiu-se à plataforma. — Ficará claro que você foi acusado injustamente. — Vai ler so- mente o relatório da minoria? Foi tudo que conseguiu? — Vou compará-lo com o relatório da maioria. quando o general Kaplan recebeu a pas- ta e começou a dispor o material diante de si. Lado a lado. — Compreendo — respondeu Anderton. com a voz . Gostaria de se juntar a mim na plataforma? — Por quê? Friamente. a Anderton. Você e eu juntos: o assassino e sua vítima. de bom grado. — Está tudo aqui.

Anderton tirou a arma e a pôs no . falando rápido — é conhecido de todos vocês. Uma máquina de destruição ampla. — Acu- sados não de crimes que cometeram. mas de crimes que cometeriam. O general Kaplan estava agora reunindo um sumário do relatório da minoria. mas a polícia não está mais interessada nele. Ele está sentado aqui. Afirmou-se que esses homens. fundamentado na premissa falsa. a polícia ordenou o cancelamento de sua prisão. em algum tempo futuro cometeriam crimes. impessoal. pois até recentemente ele foi descrito pela polícia como um assassino perigoso. examinavam o único assassino potencial que tinham o privilégio de ver de perto. a multidão olhava de Kaplan para Anderton.clara. distorções diabólicas de um sistema penal contaminado. Foi porque o ex-comissário Anderton se entregou? Não. se ficassem livres. Em todo caso. Os olhos da multidão fixaram-se em Anderton. presente e futuro. só ouvindo as palavras pela metade. no entanto. Se nenhuma prisão tivesse sido feita. To- dos estavam familiarizados com a situação básica. Avidamente. escutava com grande interesse. John Allison Anderton é inocente de qualquer crime no passado. O próprio ato de possuir esses dados torna a acusação espúria. — Mas não existe nenhum conhecimento válido em relação ao futuro. A multidão. sem exceção. condenando homens e mulheres. As alegações contra ele foram fraudes patentes. Explicou o que era e como tinha sido realizado. Anderton escutava preguiçosamente. Fascinada. ela é cancelada por si mesma. isso não é exato. da mesma maneira nenhum crime teria sido cometido. A afirmação de que este homem cometeria um crime futuro é paradoxal. Ele não se entregou. o relatório dos três precognitivos da polícia invalidou seus próprios dados. Assim que a informação precognitiva é obtida. — Vários homens foram detidos e aprisionados sob a cha- mada estrutura profilática Precrime — continuou o general Kaplan. Talvez este- jam surpresos com a sua presença. entretanto — prosseguiu o general Kaplan —. Do bolso de seu casaco. o tom de voz cada vez mais emotivo e veemente. — Nas últimas horas.

ele girou. Vou lê-lo para vocês. "Donna". abruptamente. Kaplan já tinha separado o relatório da minoria. Como um animal acuado. — A afir- mação. O incidente. Kaplan soltou um único grito estridente de agonia e pavor. Os papéis caíram de suas mãos. ele tropeçou. Emaranhado na série de pés que se projetavam das cadeiras que ocupavam a plataforma. curvou-se à frente e sentiu-se extremamente nauseado. e. feita pelos dois primeiros precognitivos. — Pegou os óculos sem armação. Ele saltou da plataforma e penetrou na massa caótica de pessoas embaixo. Perturbadas. Seu peito estreito era uma cavidade enfumaçada de es- curidão. distante. — Acho que sim — replicou Anderton. Por um instante. caindo da plataforma. Anderton dirigiu-se ao parapeito. depois. mas já havia terminado. de que Anderton cometeria um assassinato. Agora. horrorizadas. se calou. Nauseado. — Tem sorte de conseguir sair — sussurrou um deles en- quanto o carro avançava com cautela. Anderton foi capturado pela polí- cia que aguardava. — Este foi o relatório da maioria — explicou ele. curvou-se e afastou-se do pódio. Ele parou. "Mike". que ainda empunhava. ajustou-os sobre o nariz e começou a ler devagar. Seria preciso algum tempo para a aceitação substituir o terror cego. era in- compreensível. aqui está o material automati- camente invalidado. estava morto. Uma expressão estranha formou-se em sua face. gaguejou e.colo. avançou rapidamente e disparou. ocorrendo diante de seus olhos. Estava tremendo e tonto. Anderton virou-se e passou rapidamente por en- tre as figuras dos oficiais do exército atordoados. Como um pássaro alvejado. rodopiou. como o relatório da maioria tinha afirmado. Seus dedos finos e ossudos procu- raram o sumário do primeiro. Agora em pé. seu rosto contorcido viu Anderton de relan- ce. garantiu que não interferissem. tentavam ver e entender o que tinha acontecido. Na periferia da multidão. . cinzas esfaceladas que se soltavam enquanto o corpo se contraía. o material precognitivo obtido de "Jerry". Abruptamente. Anderton ergueu a arma. A arma. Tentou re- laxar e se recompor. Kaplan.

Infeliz e nauseado. Soltou e foi rápido até eles. de lá. Ainda usam eletricidade em Centten. estranhamente abatido. para Centauro X por transporte intersistema. Mas não teria de fazer a viagem de volta. verificando os detalhes de última hora.. Anderton não sabia se o policial havia se referido a Kaplan ou a ele. Tem certeza de que não vai se arrepen- der? Se eu achasse. X Quatro policiais corpulentos assistiram Lisa e John Anderton na preparação das malas e no empacotamento de seus bens. absorta pela tarefa. — Ali vai o penúltimo caixote — declarou Lisa. O relatório da minoria estava errado. o ex-comissário de polícia tinha acumulado uma grande coleção de bens materiais. Uma longa viagem para um homem velho. — Pobre diabo — murmurou um dos policiais com simpatia. — Acho que não va- mos usar os novos aparelhos atrônicos. Em 50 anos. — Sem arrependimento — Lisa garantiu. Querem descobrir se ò relatório do meio.. tem de me fazer um resumo da situação com os precognitivos. podia me ajudar com este caixote. Iriam de caminhão diretamente ao campo e. — Confuso. não estava? . — Espero que não se importe — disse Anderton. — Antes de partir — disse a Anderton —. De suéter e calças compridas. Quando subiram no caminhão que seguiria à frente. ele ficou olhando a procissão de caixotes a caminho dos caminhões que aguardavam. Witwer chegou em um carro da polícia. entrou pelos cômodos vazi- os. — Não é? — Espero que sim. e lhe deu um sorriso fugaz. Vou ser interroga- do pelo Senado. Sombrio e pensativo. — A gente acaba se acostumando — replicou Lisa. — Agora. foi um erro ou o quê. a re- tratação. concluiu: — Ainda não consigo explicá-lo.

E. Witwer aprenderia a não investir em situações que não compreendia completamente. — Então é isso. — Vamos. Eu não queria matar Kaplan. Com o isqueiro de Lisa. — O primeiro foi "Donna". ofegando. eu mataria Kaplan. Mas dois deles concordavam em um pon- to. Este. Já fizemos tudo aqui. subiu os degraus para a cabine do caminhão e se comprimiu entre seu marido e o motorista. eu tinha decidido não matar Kaplan. nesse tempo. Anderton pegou seu cachimbo e pôs o tabaco. — Flexível e ágil. Isso produziu o relatório dois. a situação dois. Ela voltara a casa para se certificar de que estava tudo em ordem. Sentado no caminhão. O relatório dois. era a situação que Kaplan queria criar. obedientemente. divertido. A satisfação foi a emoção final de Anderton. Ele fatorou o meu conhecimento do relatório. — Que relatório da minoria? — inquiriu Anderton. Se eu ficasse livre. — Quer dizer. O terceiro relatório invalidava o segundo da mesma maneira que o segundo invalidava o primeiro. Mas diante desse relatório. eu pensava na polícia. mudei de opinião de novo. Diante do conhecimento do primeiro relatório. veio por último? — Sim. o segundo curso do tempo. Nesse. Kaplan contou-me a conspiração e eu matei-o imediatamente. — E "Mike" foi o terceiro relatório? Veio depois do relatório da minoria? —Witwer corrigiu-se. Eu só estava interessado em meu cargo e minha vida. — Cada relatório era diferente — concluiu Anderton. "Mike" foi o último dos três. tudo o que eu queria era manter meu emprego. Isso nos levava aonde tínhamos começado. acendeu-o. Um dia. Eu devia ter sabido. Witwer ficou perplexo. — Os três relatórios foram consecutivos — explicou ele. Isso criou a ilusão de . sem fôlego. havia sido o único a perceber a verdadeira natureza do problema. delei- tando-se com a confusão do rapaz. "Jerry" foi um pouco mais à frente que "Donna" e usou o relatório dela como dado. Favoreceria a polícia recriar a posição um. Nesse curso de tempo. Eu percebia o que Kaplan estava fazendo. — Havia três relatórios da minoria — disse a Witwer. Velho e cansado como estava. deu a partida e os outros o seguiram. Lisa apareceu. — Cada um era exclusivo.

mas somente com o próximo comissário de polícia. "Donna" e "Jerry". "Donna" e "Mike" previram o mesmo evento. Witwer corria do lado do caminhão. — O meu caso foi exclusivo. Dos três. sua face lisa e loura vincada de preocupação. Isso resume tudo. Ansiosamente. * * * . na medida em que eu tive acesso aos dados. o chamado relatório da minoria e metade do relatório da maioria. os lábios verme- lhos de Lisa se contorceram e sua mão fechou-se sobre a dele. Poderia acontecer de novo. não dando nenhum con- forto à expressão tensa de Witwer. — Vai acontecer de novo? Devemos revisar a configuração? — Pode acontecer em uma única circunstância — disse Anderton. Por isso. estavam incorretos. — É melhor manter os olhos abertos — disse ao jovem Witwer. mas em dois cursos de tempo totalmente diferentes. Na verdade. "Mike" estava correto. — Pode acontecer com você a qualquer momento. cuidado por onde pisa. já que nenhum relatório apareceu depois do dele para invalidá-lo. Do seu lado. — Sorriu largo por um breve momento. foi isso: uma ilusão.um relatório da maioria. ocorrendo em situações com- pletamente diferentes.

"Appeley's Children's". de modo que possamos estocá-los para o Natal?" Resmungando. o homem alto reuniu os memorandos da manhã que estavam na cesta de metal. escutou-a distraidamente. duas semanas. os laboratórios os estavam testando há um bom tempo. Acendeu um cigarro. No mínimo. — Ah — disse Wiseman a si mesmo. qualquer produto ganimedeano recebia uma atenção especial. o que há de errado com o seu pessoal? Mandamos esse lote de" — uma pausa enquanto o locutor." Wiseman passou o polegar no nome e título do locutor. "Joe Hauck". disse rapidamente a voz do memorando. quando Wiseman passou o polegar pela ex- tensão da fita adesiva. um gerente de vendas de uma cadeia de lojas de departamentos de Nova York. Desligou o memoran- do. procurava seus registros — "desses brinquedos ganimedianos. Olhando o estacionamento pela janela aberta. disse o primeiro memorando com sua voz me- tálica e estridente. naquela época. falou em um tom razoável: — Sim. o gerente de vendas concluiu: "Jogos de guerra vão ser. "Ouça. o que me diz do lote de brin- quedos ganimedianos? Ao que parecia. Pretendemos comprar muitos. pegou um em branco e preparou para gravar. Jogo de Guerra Em sua sala no Terran Import Bureau of Standards. exorbitado a sua ganância econômica usual e . e sentando-se à mesa. organizou-os para serem examinados. Será que sabe que temos de conseguir a sua aprovação a tempo do plano de compras do outono. de novo. "Bom dia". durante o ano passado. É claro que. Em seguida. os satélites tinham. um artigo importante neste ano.

e essa sessão significaria problema. legi- timamente. na verdade. Qualquer grupo de pessoas tão inventivas quanto os gani- medianos era capaz de revelar a criatividade no campo que qui- sesse. Não quero que se arrisque. — É melhor vestir a roupa profilática. — Falou brincando. dirigindo-se ao edifício em que os laboratórios de testes operavam. Cercado por produtos desmontados pela metade. embora. nenhuma cápsula de bactéria.começado — segundo os círculos da inteligência — a pensar uma ação militar aberta contra o interesse competitivo. Sabia que o seu trabalho estava atrasado pelo menos cinco dias. E ainda assim. aguardando serem testados e liberados. Mas. até então. Wiseman levantou-se e saiu da sala. A sua consciência estava clara em relação a esse item. de diversos tamanhos. Pinario er- gueu os olhos e viu o seu chefe.. estivesse atolado. nada havia acontecido. A subversão seria tratada como qualquer outro risco — com imaginação e perspicácia. dos quais os três planetas interiores podiam ser considerados o elemento mais importante. sem nenhuma fraude. recuar e citar o número dessa diretiva. fechando a últi- ma porta do laboratório. nenhuma tinta tóxica a ser removida. — Eu os se- parei — disse. acompanhando Wiseman — por causa do perigo . andando pelas pilhas de produtos.. — Ah. tipicamente um edito autoritário e obscuro do mundo oficial. ainda fechados. Ele podia. o conjunto dos soldados de brinquedo ganimedianos — disse Pinario com alívio. As exportações permaneciam de qualidade adequada. — Estou aqui por causa das tropas de choque que atacam- violentamente-a-cidadela-interna de seis dólares o conjunto — disse Wiseman. — Fico contente que tenha vindo — disse Pinario. Leon Wiseman. mas a expressão de Wiseman permaneceu austera. Todos os testadores do laboratório conheci- am as instruções especiais transmitidas pelo Governo Cheyenne referentes aos Perigos de Contaminação oriundos de Partículas de Culturas Hostis a Populações Urbanas Inocentes.

— Vamos dar uma olhada — disse Wiseman. vestindo roupas comuns. Alguns sinais com a mão e uma parede espessa expôs uma sala lateral.”. repetiu: "Estou cansado disso.especial envolvido. E. especialmente no que diz respeito aos arti- gos infantis — disse Pinario. deixaram de fazer o que faziam e começaram tudo de novo. Façam outra coisa. sim — replicou Pinario. agora. Façam outra coisa. ou é mais uma para- nóia em relação ao "meio alienígena"? — É justificada. formando um padrão elaborado. Os soldados de brinquedo mediam aproximadamente quin- ze centímetros de altura. o manequim estava dizendo: "Estou cansado disso. se reagrupavam. — Reduz o custo de mão-de-obra — explicou Pinario. O que Wiseman viu apoiado no centro o fez parar. mas à voz do manequim. aparência de mais ou menos cinco anos de idade. uma miscelânea dos diversos uniformes militares dos satélites e planetas próxi- mos. Tinham se aproximado dela furtivamente. e eram feitos a partir de termoplásticos praticamente indestrutíveis pelos quais os fabricantes ganime- dianos eram famosos. preparados para responder às ins- truções orais. se detiveram. lembrava um forte legendário. . Bem em frente do manequim estava o grupo de soldados ganimedianos. do tamanho real. — Ah." Ele calou-se por um breve momento e. ficaremos aqui a vida toda. A própria cidadela. Nesse momento. Se tivermos de observá-lo enquanto estiver ativado. então. e a cidadela que tinham construído para atacar. — Tem tudo gravado? — perguntou Wiseman. Um manequim de plástico. Os brinquedos no chão. um bloco de algo que se assemelhava a um metal escuro ameaçador. cercado por brinquedos. — É um monte de sucata com um repertório que tem de ser usado integralmente até o consumidor perceber que jogou dinheiro fora. — Acha que há uma justificativa séria para essa cautela. As fardas eram sintéticas.

— Acrescentou: — De qualquer jeito. é o que o manual de instruções diz. Nenhum padrão foi repetido sequer uma vez. . Espalham-se por ela toda. Bem. os seus próprios esforços. a cidadela disparava um projétil nos que a atacavam. uma flâmula vistosa adejava. — Estamos com ele ligado há oito dias. Pode ser ajusta- do para uma produção superior de tentativas bem-sucedidas. O projétil explodia em uma nuvem inofensiva de fu- maça e barulho. uma casa de bonecas que está aqui para ser testada. Balançando- a. Ao participar do ataque à cidadela. é claro. — Para provar o que dizia. Com um assobio. — Tem de perder. Wiseman passou uma vista d’olhos no manual. A dúzia de soldados. — Podem incorporar configurações acidentais do terreno — explicou Pinario. a criança passa por uma sensação de adequação ao lidar com o mundo severo. Quando vêem. temos algumas unidades envolvidas. mas só depois de um período de muito es- forço e paciência. caíram dois soldados. — São objetos-trópicos. Utilizando ou- tros brinquedos. — Ela retalia — observou Wiseman. eles a escalam feito camundongos. no meio de um agrupamento de soldados. obtiveram êxito de uma em nove tenta- tivas. selecionou uma grande nave espacial de brinquedo.olhos mágicos pontilhavam as superfícies superiores. Os soldados se moviam sorrateiramente. que estavam sendo testados. representa. — E o padrão de ataque varia? — Perguntou. Nos muros. os soldados se ocultavam. por exemplo. vários mecanismos de moni- toramento apareciam e rastreavam os soldados. — Mas acaba perdendo — disse Pinario. — Deu o manual a Wiseman. Psicologicamente falando. para a criança. Há um ajuste na parte de trás da cidadela. e do torreão do alto. — Quantas vezes eles tomam a cidadela — perguntou Wiseman — em termos percentuais? — Até o momento. fabricada por uma companhia uraniana. uma ponte levadiça havia sido içada fora de vista. simboliza a realidade externa. Ela acaba prevalecendo. aproximando-se aos poucos da cidadela.

— Continue testando — disse Wiseman. Mas se tudo isso penetrasse alguma coisa simultaneamente. Por um momento. este é o suprimento de energia — disse Pinario. Há uma boa quantidade de ergs * nesse pacote de energia. para a cidadela. * Eletrorretinogramas (N. — Na verdade.. o manequim de laboratório sentou-se no meio dos brinquedos e disse: "Estou cansado disso. É feito para funcionar por cinco anos. vibra- va. — O seguinte — concluiu Wiseman — pode fazê-los girar 90° e começar a atirar no ser humano mais próximo. de uma cabine de tiro. Façam outra coisa. o tiro era lançado para cima. desse modo. Cada tiro era uma parte mínima da instrução. agora. e os soldados foram alvejados. do E. A casualidade era. Pinario disse sombriamente. Além disso. quase a tinham alcançado. tinha de haver um número finito de padrões. Devem acontecer mil padrões e então.. as instruções aos soldados também emanam daí. e se abaixaram para inspecionar a cidadela. astucioso. mas como havia um número limitado de tiros. Então. depois. e era preparado para uma nova seqüência. Abriu caminho pelos soldados que avançavam. — E não tem como acelerar isso? — Vai levar tempo. — Estamos experimentando todos — disse Pinario.. um muro da cidadela baixou. os dois homens observaram os soldados se levantarem e se reagruparem. Ou pior. Olharam um para o outro e. Transmissão de alta freqüência. Os sol- dados. garantida.. Wiseman acompanhou-o. mostrou ao seu chefe o contêiner de tiro.) . De repente. apareceu a boca de uma arma. nada se mexeu. Para o padrão de um assalto. — Eu nunca vi isso antes — murmurou Pinario." Com um tremor de inquietação. Abrindo os fundos da cidadela.

— Um está provavelmente escondido — disse Wiseman. Fowler acompa- nhou-o ao laboratório. Ali. . um homem baixo. — É este o artigo — disse Wiseman. com os olhos saltados. — Como pode ver. Argumentando durante todo o caminho. a expressão grave. — Isso é extremamente grave — disse ele. evitando os sinais manuais que abriam a sala de testes. Desse modo. abaixando-se do lado da cidadela. Wiseman usou a sua chave. cercado pelos brinquedos. por fim. esperando a autorização oficial para que possam entrar! Pinario não foi encontrado. Fowler interrompeu-o: — Só estou vendo onze. A algazarra fez Fowler estre- mecer. À sua volta. — Para cada produto que tem representado aqui há uma nave ou um armazém cheio em Luna. apare- ceu. Detrás deles. de barriga. — Pinario. — Vamos ao la- boratório e lhe mostro. mas Wiseman o deteve. ele tem razão. quero que termine com os testes desses malditos brinquedos. estava o manequim que os homens do laboratório haviam construído. Os três homens ficaram em silêncio. — Fez menção de sair. uma voz disse: — Não. o superior de Wiseman. os vários brinquedos executavam seus ciclos. em sua direção. troncudo e irritado. — Ouça — disse Fowler —. Um soldado estava no processo de se arrastar. — Mandei fazerem uma busca. Você tem até amanhã. Dois dias depois. — Você não faz idéia do capital que algumas empresas in- vestiram nessa coisa! — dizia ao chegarem. Um desapareceu. apareceu em sua sala. Dado esse número e a energia disponível para eles.. — Talvez a cidadela o tenha destruído — sugeriu. há uma dúzia de soldados. além das instruções complexas..

então. disparado contra ele. — Há uma questão em aberto. O soldado. Abriu-o e removeu o tambor de fitas. Uma parte deslizava para trás. eram alvejados. A última seqüência foi passada de novo. explodia e. em algum lugar. misturando-se ao muro escuro da cidadela. A cida- dela havia mudado. Nesse meio tempo. — Pare o transporte — disse Wiseman de repente. por um tempo. recuavam. localizava. corou. estes também se arrastavam para dentro. com precisão. — O quê? — perguntou Pinario e. Um míssil. levantavam-se. que. Assistiram à seqüência de gravações: um assalto atrás do outro. Se o "destruiu". — É claro. transportou-as ao projetor. introduzindo-se. então. examinando a cidadela e os soldados restantes. diferente. ele está lá. Os soldados avançavam. — Foi até o manequim de criança e o desligou.Wiseman.. — Tivemos uma idéia — disse Pinario — quando percebe- mos que um soldado tinha desaparecido. de certa maneira. deixava de existir. O soldado emergia da nuvem de poeira e prosseguia. A abertura. Alcançava o muro. usava a coronha de seu rifle como chave de fenda para remover sua cabeça. um braço e as duas pernas. Por- tanto. — Possivelmente os converteu em energia — disse Fowler. Pesamos os onze res- tantes mais a cidadela. Quando restavam somente um braço e o rifle. Trêmulo. Examinando a cidadela. e desaparecendo.. naquele momento. O peso resultante é exatamente igual ao do grupo original: os doze soldados originais e a cidadela. . Wiseman teve uma intuição. Estava. — Passe as fitas — disse Wiseman. tornavam a avançar. Um soldado movia-se firmemente em direção à base da cidadela. até os três ficarem com os olhos vermelhos. o obscurecia. — Apontou para a cidadela. os outros onze soldados corriam em uma tentativa desesperada de escalar os muros. o que fez com seus restos? — perguntou Pinario. a posição dos soldados que avançavam em sua direção. As peças desmembradas eram passadas por uma abertura na cidadela.

longe dos olhos. Fowler disse com a voz rouca: — Os pais devem supor que a criança perdeu ou destruiu um dos soldados. Nesse meio tempo. os soldados se esgueirando. o conjunto vai se reduzindo. Wiseman pensou: Talvez fosse melhor que todos ficássemos com ele. Aos poucos. atirando. E o material esticava e perdia a forma quando . tinha diante de si uma nova série de produtos ganimedianos. O processo se daria estritamente em seu interior. O que fez? No final da semana. Mas só olhou superficialmente a brochura: ao diabo o que os ganimedianos tinham a dizer sobre isso. Mais brinquedos recentes a serem inspecionados. pensou. — Melhor ainda. a cidadela tinha absorvido mais quatro soldados. com a criança levando a culpa — disse Fowler. a partir de agora. fique com ele. "E agora?" perguntou a si mesmo. a cidadela se defendendo. Observando-a por um monitor. você mesmo — disse Fowler. — Haverá. Depois de um longo tempo. as linhas pareciam sem forma. Que trabalho malfeito. depois de um longo tempo. coma voz rouca. — O que aconselha? — disse Pinario. — Mantenha-o em funcionamento — disse Fowler. Só se parecia vagamente com a roupa de caubói. — Deixe-o executar o seu ciclo. Eu me pergunto o que terá feito com os pedaços. Pinario e eu. Wiseman não percebia ne- nhuma mudança. assim era descrito. tirou o traje. Pelo menos. Os assaltos se sucedendo sem parar. O primeiro parecia um item simples: uma fantasia de caubói do antigo Oeste americano. O tecido era cinza. Mas não o deixe sozinho. alguém sempre na sala — con- cordou Pinario. Pelo menos dois de nós. Era claro. Abrindo a caixa. de qualida- de amorfa. hesitantes. com a concordância de Wiseman.

— Isso não vai vender. Um falcão.era manipulado. — Eu o testei mais cedo. — É — respondeu Pinario. encheu os pulmões. pensou ele. Para pô-lo em ação. como sabe se é um sapo ou uma . — Não entendo — disse ele a Pinario. um sapo. Então. como se. caminhando com dificuldades ao longo da estrada de cascalhos margeada pelo campo em que carneiros de caras pretas mascavam feno com aquele movimento rápido e es- tranho do maxilar inferior. tentando reunir coragem suficiente para tocar o topo enverrugado da cabeça do sapo. Wiseman conseguiu se espremer na roupa. — Em cima do quê? — Do que quiser? A roupa fez Wiseman pensar em caubóis. protegida da luz. Muitos gafanhotos. fantasie. batendo suas asas como se estives- se bombeando os pulmões. Com esforço. depois voou a um ritmo relaxado. Mas pode ser efetivo. É uma idéia benigna. de uma colina fora do alcance de sua vista. lá no alto. inesperadamente. Ele tinha parado na cerca — de arame farpado e estacas ocasionais — e observava os carneiros. — Ei. E. somente a parte de cima era visível. Nada além dos campos ressequidos de meados do verão masca- dos pelos carneiros. Ele viu árvores ciprestes crescendo contra a linha do hori- zonte. Wiseman procurou sinal de sua presa. Respirou fundo o aroma da relva seca. — É seguro? — perguntou ele... uma voz de homem próxima disse: — Como vai? — Bem — disse Wiseman. O falcão planou. se enchesse com mais ar. — Vai entender. O sapo tinha se entocado na poeira. na própria estrada. e imaginou estar de volta ao rancho. Viu que havia empurrado uma parte inteira dentro de um bolso que estava pendente. Quando se curvou. os carneiros se enfileiraram e partiram em di- reção à encosta. — Vista-o — disse Pinario. para voar ainda mais alto.

lá estava o caminhão. — Você é o homem que faz a entrega do gás butano — res- pondeu ele — para a companhia de butano. Teve vontade de investigá-las. — É claro. Pinario. na Califórnia? — perguntou o Sr. indo . — Relanceou os olhos em volta e. — Onde está. Estava cansado de ficar ali tagarelando. ou o quê? — Por quê? — perguntou o homem. Você é o Sr. Califórnia. — Até mais — disse ele. — Quantos anos você tem? Essa era fácil. certamente.sapa? Pelas manchas. Petaluma.. aonde meu pai leva a mim e minha mãe todo fim de semana quando podemos. exatamente. — Para além do campo. Com relutância. — Só a título de registro — disse o homem —. lendo as gran- des letras pintadas. — Tem um sapo aqui. em pé atrás dele.. — Dez anos e quatro meses — respondeu ele. de certa forma. — Pode jurar que tem dez anos e que está em um campo perto de Petaluma. O homem interrompeu-o: — Só por curiosidade. irregular. estacionado no portão da companhia. no rancho do Sr. neste instante? — No campo. Gaylord. posso lhe fazer algumas perguntas? — Claro — respondeu Wiseman. orgulhoso. mas que não há outro. Pinario. — Vire-se e olhe para mim — disse o homem. um pouco fora de vista. virou-se do sapo semi-enterrado para olhar. — O meu pai diz que o butano é caro. — "Pinario Butane Distributors". ele via uma cordilheira coberta de bosques. — Diga se me conhece. Viu um adulto com o rosto fino e um nariz comprido e. qual é o nome da companhia de butano? — Está bem no caminhão — disse Wiseman.

— Obviamente estimula as tendências. ain- da correndo. algo tremeluziu..... já tinha começado a ver o antigo edifício da leiteria. Se tivesse tempo. ao recolhimento. De repente. Ele teve medo e se afastou daquilo. seria praticamente impossível trazê-lo de volta. algo bateu nele com força. já presentes. corria cada vez mais rápido. Pinario. atrás dele. Esse período particular.. Pôs-se a correr. Pinario ajudou-o a tirar a roupa de caubói. pela estrada de cascalhos. um muro chato. Ofegando. quando vivemos no campo.embora. Senão você se choca com coisas. — Você não vai chegar às colinas — disse o Sr. — Eu. Pinario tirou-a com energia. como pode ver. Levantando-se com dificuldade. Olhe para você. — Leon! — o Sr. Estatelou-se apoiando-se nas mãos. Uma forma. afastando-se de Pinario. Gafanhotos saltavam na sua frente. olhou o sangue. Wiseman admitiu. Sei que sempre tive uma fantasia latente de retirar-me à minha infância. Cortara-se ao cair. — Repare como você incorporou elementos reais — disse Pinario — para manter a fantasia tanto tempo quanto possível. o . dizendo: — É um brinquedo prejudicial. onde os fazendeiros comercializavam o seu leite. No ar seco do meio-dia. — Nada mau — disse ele com a voz trêmula. possivelmente como a lateral de um celeiro. — Com o tempo — disse Pinario —. — É melhor ficar em um lugar. As mãos de Wiseman estavam molhadas de sangue.. Atordoado. teria dado um jeito de incorporar a parede do laboratório. tentou se levantar de novo. — Tenho de fazer uma caminhada. Um breve período com isso e a criança não será mais capaz de enfrentar a realidade contemporânea. Wiseman pensou: Se consegue fazer isso com um adulto. — Desista! Pare de correr! — Tenho coisas a fazer nas colinas — Wiseman ofegou. Wiseman inspecionou a roupa. Pinario chamou.

pagavam multas.. O diretor do Departamento chegou logo depois. durante a par- tida. — Ele nem se dera ao trabalho de ler as instruções. igual nos outros jogos desse tipo. aproximando-se cada vez mais da cidadela. Está a fim de vê-lo agora? Não há pressa. "Façam outra coisa. Pegou o terceiro artigo e começou a abri-lo. e. iam para a "câmara de descontam inação" durante um certo tempo. Lançavam os dados. — É muito parecido com o antigo jogo Monopólio — disse Pinario. atrás deles. Nesse ínterim. Wiseman disse: — Eu me pergunto por quanto tempo essa maldita coisa vai continuar antes de descobrirmos para o que é.que não fará com uma criança? — A outra coisa que você tem aí — disse Pinario —. obviamente. o jogo Síndrome no centro. pelo menos. começavam mais uma vez. Os três ho- mens sentaram-se à mesa. os sete soldados aproximavam-se furtivamente e incessantemente da cidadela. três jogadores. faziam ofertas e compravam títulos." Os soldados se reagrupavam. esse jogo. Precisa de. — Os jogadores começam em condições iguais — explicou Pinario —. moviam as fichas no tabuleiro. é uma idéia biruta. — Estou bem — disse Wiseman. peças representando os jogadores. E certificados de compra de ações. — O nome é Síndrome. As síndromes eram representadas por objetos pequenos de plástico. além de dinheiro de men- tira. muito parecidos com os hotéis e casas do Monopólio. Inquieto e irritado. "Estou cansado disso". — Você compra ações — disse Pinario —. dizia o boneco-criança. . O jogo consistia em um tabuleiro. dados. suas posições mudam de acordo com o valor das ações que compram nas diversas síndromes econômicas.. como nos outros jogos semelhantes. — Vamos chamar Fowler e jogar uma rodada.

. — Essa cidadela pode ser um reator? — Reator do quê? — perguntou Fowler. Acrescentando até. E se o traje era o benigno. Wiseman falou alto: — Esqueça este jogo! — Uma idéia interessante — disse Pinario. — Está construindo a si mesma como uma bomba atômica. olhando por sobre os ombros. consultando suas outras ações. estaríamos mais seguros saindo daqui. que foi construído para ser alcançado.. Não é possível construir um reator atômico com isso. com a voz lenta e cautelosa. A sua massa crítica. Só restava a metade do conjunto de soldados... Baixou a mão de ações. Isso está além do nosso departamento. Fowler. peça por peça. Wiseman e Pinario levantaram-se instantaneamente.. Não há elementos pesados nela. — Interrom- peu-se. — Mas talvez eu faça uma permuta. — Na minha opinião — disse Wiseman —. disse: — Só restam seis soldados. Para que quer isso? — Propriedade valiosa — murmurou Fowles. pensou. — A sua experiência com a roupa de caubói havia feito com que passasse a respeitar mais ainda os artífices ganimedianos. — Pinario olhou uma ação púrpura e dourada que Fowler tinha comprado. também baixan- do sua mão de ações. Fowler tinha razão. só Deus sabe do quê? Ao que for. já pensamos nisso. quando essa coisa está se aproximando cada vez mais de. — É uma mina de urânio em Plutão. — Eu bem que gostaria de uma dessas — disse ele. Mais um alcançara a cidadela e tinha sido incorporado. — Vamos chamar um perito em bombas. além de várias máquinas pequenas controladas por instruções transmitidas da própria bateria. — Virou-se para o seu . Como posso me concentrar no jogo. É simplesmente uma bateria de cinco anos de duração. preocupado com a sua mão. Wiseman perguntou a si mesmo. —Não. — Só um segundo — disse ele.. dos Serviços Mili- tares — disse Wiseman — e fazer com que cheque o brinquedo. — Não dá para saber.

Wiseman fez um lance pelas ações. Mas o seu interesse arrebatado demonstrava que ele estava emocionalmente envolvido e queria jogar até o fim do jogo. — Crianças que jogarem isto desenvolverão uma atitude saudável em relação à realidade econômica. observando os soldados avançarem em direção à cidadela. — Alguém quer comprar? Com o dinheiro que lhe restava. Tinha cinco síndromes de mineração. Pinario. duas firmas de plástico. Ele e Pinario negociaram uma permuta. Isso as preparará para o mundo adulto. havia obtido bons resultados com o lançamento dos dados e estava em condições de acrescentar ações a seus parcos títulos. o monopólio das algas e todas as sete síndromes do comércio varejista. e a multa limpou seus recursos. — Está claro que este jogo é uma réplica dos riscos econô- micos tipicamente interculturais — disse Wiseman. — Concorda? Fowler respondeu: — Vamos terminar o jogo antes. Teve de abrir mão de duas ações. Por fim. tinha. o fim era previsível. ele pousou em uma grande extensão de títulos de Fowles. — Estou fora — disse Pinario.chefe. títulos ganimedianos. — As síndromes do mercado varejista são. Fowler. como subproduto. disse: . Por causa do controle das ações. obviamente. Comprou-as e voltou a jogar. Tudo que deixara tinham sido ações que não controlavam nada. dessa vez só contra Fowler. — O que me dá por essa ação de Plutão? Estou aberto a ofertas. O jogo prosseguiu por mais uma hora. — Por quê? — Porque temos de ter certeza sobre isso — disse Fowler. Porém alguns minutos depois. todos os três perceberam que Fowler ganhava controle de várias ações. Um tremor de excitação percorreu-lhe. obtido a maior parte do dinheiro.

Quando a rede elétrica estiver completamente instalada. Ele havia comprado a última ação e adquirido o último dólar. — Sabe. — Possivelmente. Levou uma semana para o primeiro desaparecer. agora. Em relação a este jogo. O perito em bombas era um jovem. — Isso é possível? — perguntou Fowler. acho que concordo com você. Wiseman levantou-se da mesa. e somente uma hora para o sétimo. Não me admiraria que o resto desaparecesse em duas horas. sem . inútil. Wiseman ligou para os Serviços Militares e disse-lhes o que queria. empilhando seu di- nheiro em denominações diferentes. Em sua sala. andan- do pela sala com as mãos nos bolsos. — Quem sabe do que são capazes? — disse Pinario. Esta coisa pode ser o terminal de uma bomba. — Provavelmente devem iso- lar o objeto até ele chegar. Leon. Está se tornando mais rápido. com o cabelo cortado à escovinha. — Terminamos — disse Fowler. Wiseman agradeceu e desligou. todos os cincos. Algum tipo de estação receptora. — A razão por que pergunto — disse Pinario — é que agora só restam cinco soldados. Sentindo-se. e. Não tinha conseguido compreender o jogo soldados-e- cidadela. eles não perceberam que já tivemos este jogo — disse Fowler — com outro nome. — Vou ligar para os Serviços Militares. Um selo de aprovação foi colado sobre o jogo Síndrome e o importador foi informado. poderá produzir uma sobretensão transmitida de Ganimedes. — Estão terminando o jogo? — Quase — disse Wiseman. estava fora de seu controle. que sorriu amavelmente para eles quando pôs seu equipamento no chão. de certa maneira. — Um perito em bombas estará logo aí — disse uma voz descansada no outro lado da linha. entretanto. não passa de uma cópia do nosso jogo Monopólio. e pedir que chequem a cidadela. afastando-se de Fowler. Vestia um macacão comum.

anteriores a ele. então. — Cale a boca — disse o jovem perito. Em outras palavras. pernas. finalmente. se quise- rem. Dez minutos depois. O último dos doze soldados alcançou a base da cidadela. — É seguro? — perguntou Wiseman. depois de exami- nar a cidadela — é desconectar os fios da bateria. — Acho que sim — disse o perito. desconectar os fios antes que ocorra qualquer reação. moderado —. pois haveria menos homens em quem se concentrar. pelo menos. então. — Só restam dois — disse Fowler.. Depois. assim que estiverem dentro. deveria levar cada vez mais tempo.. O último soldado avançou sinuosamente em direção à cida- dela. — Está quase terminado — disse Pinario. mas ele continuou avançando. a garganta seca. e desapareceu. em um tom de voz calmo. — A primeira recomendação — disse ele.acessórios protetores. na abertura. Ou. tronco. permitir que os elementos móveis entrem na cidadela. — Sentou-se no chão. . e. se tornado menos freqüente até. só restavam três soldados. o último soldado precisar de. Quinze minutos depois. animado. alto. um mês para. parte por parte. seguiu o que havia sumido antes. — Não vai demorar — disse. removeu sua cabeça. desconectamos e a abrimos para ver o que estava acontecendo. com um alicate na mão. Os quatro homens olharam uns para os outros. Armas de dentro da cidadela dispararam contra ele. para que- brar um pouco a tensão —. começou a se desmembrar. no lado da parte de trás da cidadela. Como os outros. um dos dois soldados restantes. Agora. — Não detectei nenhum sinal de radioatividade. braço. o rapaz. Deveria ter iniciado mais rápido. — Em termos estatísticos — disse Wiseman. se não se importa. um dos soldados se esgueirou até a base da cidadela. podemos deixar o ciclo se completar e.

— Tonto.. De dentro. A abertura começou a se fechar. Fowler disse calmamente: — Tarde demais. Em sua mente. "As chances contra você eram muitas". — Fique com o alicate pronto — disse Pinario. procurando atrapalhadamente o condutor. e tampou os ouvidos com as mãos." . — Me dê isso — pediu Wiseman. uma sensação de reali- zação. tirando o alicate dele. pelo amor de Deus! — gritou Fowler. tentando. um aumento de atividade. uma voz disse: "Parabéns. — Talvez se eu envolvesse isso com um lenço — murmurou.. transmitido pelo osso. tateou em busca do alicate. em vão. Um sentimento amplo impregnou-o.. — Cristo! — disse ele. O jovem perito estendeu o alicate e cortou o fio condutor positivo da bateria.”. O alicate caiu de suas mãos e escorregou no chão. — Agora. Pegou ele mesmo o alicate e agachou-se. você teve êxito. pensou. excita- do. Não tem como saber quantos. Em- purrou Pinario para o lado e fechou o alicate no fio. a voz estri- dente. largando o alicate e procurando um lenço no bolso. As partes do soldado foram introduzidas na cidadela. Venceu porque há muitos de nós. um zunido tornou-se audível. Esperamos tempo demais. fazê-lo calar. escutava o tom constante dentro de sua cabeça. Agora ela nos tem. Parecia passar diretamente da cidadela por seu crânio. — Tive sorte. — Alguém tem alguma coisa com que eu possa envolver o alicate? Não quero levar um susto. "Qualquer outro não teria conseguido. Por sua coragem. Uma faísca saltou do alicate e o rapaz pulou por reflexo. prosseguiu a voz em seu interior.. discutimos bobagens. — Você tocou na estrutura da coisa — disse Pinario. Wiseman mal ouviu a voz de seu superior.

— Explique-se — pediu Fowler. de novo intactos. Sempre será capaz de triunfar so- bre os adversários. soube que estava tudo bem. Wiseman disse: — Não vou liberá-lo. A cidadela. — Eu não entendi — disse Pinario. Disse ao perito de bombas: — Desculpe tê-lo feito vir por nada. não tem nada a temer. um indivíduo contra muitos. afinal. Dê tempo ao tempo. Doze soldados. — Então. Depois de uma longa pausa. — É um brinquedo terapêutico. De repente. — Era isso que pretendia provocar — disse Wiseman. — Não me preocuparei — disse ele em voz alta. "O que você fazia aqui". "Por isso. O universo não é um lugar tão opressivo. e tudo que faz é se . — Aí está uma engenhoca extremamente intrincada. declarou a voz. — Por quê? — Não confio naquilo — disse Wiseman. e não se preocupe”.. sendo assim. percebeu. — É complicado demais para o que faz realmente.” Não. embora você seja somente um. Ele torna-se uno com o mundo. — Todo esse trabalho por nada — resmungou Pinario. é inofensivo — disse Fowler. "São apenas pessoas comuns". Eles tinham se enganado. O ciclo estava completo. Então. você pode vencer. Ajuda a dar confiança à criança. Fowler disse: — Acabou. O zunido retrocedeu. agora. A voz desapareceu.. a voz acalmou-o. Com paciência e persistência. "pode continuar fa- zendo durante toda a sua vida. — O quê? — disse Pinario. apareceram. o conquista.. abria seus portões. com ironia. E. — Não há nada o que explicar — disse Wiseman. o assalto podia recomeçar. não era. O desmembramento dos soldados — sorriu largo — acaba com a separação entre ele e o mundo..

— Talvez eu esteja enganado — disse Wiseman —. — Também não quer liberá-la. Joe Hauck. — Curvando-se. onde podemos observá-lo.. muito longa. Às seis da noite. de novo. Deve haver algo mais. mas não paro de pensar: para que construíram isso realmente? Sinto que ainda não sabemos.... fumaça. — Algo irrelevante — disse ele. nós o estamos mantendo aqui. — Deve haver algo diante dos nossos olhos — disse Fowler — que não estamos notando. Espera-se que desconfiemos dele. Sentando-se perto. mes- mo que não consigamos. Explosões. — Sim. Síndrome ou sei lá que nome tem. depois. — Talvez seja algo para nos distrair — disse Wiseman —. — O que está pensando? — perguntou Pinario. não o libere. — É terapêutico — interferiu Pinario. — Fica a seu cargo. Frustrado. pôs o pé em frente de um soldado. — Wiseman se perguntou se chegariam a descobrir o que era. — E a roupa de caubói americano? — acrescentou Pinario. ata- ques simulados. Leon.desmembrar e. O soldado se refugiou atrás de seu sapato. escondendo-se dos monitores da cidadela. Por isso é tão complicado. De modo que não possamos perceber algo mais. se recompor. — Esta era a sua intuição. preparou-se para observar os soldados. observou os soldados avançando em direção à cidadela. observando- o com atenção. — Enquanto outra coisa acontece. Por isso o construíram. o gerente de vendas da Appeley's Children' Store... Se tem dúvidas. — Só o jogo — disse Wiseman —. atividade. Procurou ficar confortável para uma espera longa. estacionou seu carro diante de sua . retiradas cuidadosas. mas não podia ter certeza. para manter nossa mente envolvida. Nunca é demais sermos cautelosos — disse Fowler. — De qualquer maneira — disse ele —.

E foi lacrado indefinidamente. papai? — Eles o cer- caram. — E depois de todo esse tempo. a sua mulher disse em voz baixa: — Mais corrupção nos altos escalões. Ninguém vai notar a falta de um. Enquanto a sua mulher tirava a mesa. apesar de tudo que foi dito e feito. Bobby e Lora. carregava um grande embrulho. durante a refeição. bloqueando o seu caminho. Acendeu um cigarro e relaxou. sentindo-se muito bem. — Um armazém cheio. À mesa do jantar. — Oi! — seus dois filhos.casa. Debaixo do braço. Não havia razão para que não tivesse um dos jogos novos. a sua mulher er- gueu os olhos da mesa e largou a revista que lia. somente um dos três artigos havia sido liberado. quer jogar? Aqui diz que quanto mais jogarem. — Ela sempre repro- vara ele trazer para casa artigos do estoque da loja. — Não leiam à mesa — repreendeu a Sra. Aquela bolação de Tropas de Choque é que realmente daria muito lucro. sentindo a paz de seu lar. Recostando-se na cadeira. A sua filha disse: — Papai. Joe Hauck continuou a contar seu dia. Na cozinha. Hauck. uma "amostra" de que tinha se apropriado. — Temos milhares deles — disse Hauck. . a presença de sua mulher e filhos. ele e seus filhos dispuseram o tabuleiro. — É claro — disse Joe Hauck. Tinha passado semanas ao telefone para conseguir que satisfizessem os padrões de importação. melhor. escrupulosamente. gritaram quando ele entrou. o que liberaram? Um artigo vagabundo. saltou e subiu os degraus da frente. — Trouxe alguma coisa para nós. E. Estavam totalmente concentradas. estudaram cada palavra das instruções que acompanhavam o jogo. os dados e o dinheiro e ações. Quando as crianças se afastaram com o jogo. Desfez o embrulho. as crianças. — Trouxe um novo jogo — disse Hauck. as peças. Teremos sorte se conseguirmos forçar a sua venda e obter algum lucro.

as crianças ficavam mais animadas. tinha monopolizado a maior parte das síndromes. A sua filha disse: — Você não ganhou. Deu um suspiro de satisfação. — É isso aí — declarou ele a seus filhos. — Desculpe ter vencido. com astúcia e originalidade até que. venderia. Quando o jogo estava em seu estágio final. — A sua satisfação tinha desaparecido. — Esse jogo não é bom. quase no fim do jogo. crianças. — Não entendi. as recordações de sua infância retornaram e ele comprou ações. as crianças estavam em um estado de concentração elevada. totalmente envolvido. "Eles não conhecem Monopólio". Papai. você saiu do jogo. nós dois temos de continuar — disse Bobby — para ver quem vai ganhar no final. Hauck pensou. — Separar os títulos valiosos sobre o tabuleiro pro- porcionou-lhe uma sensação forte de satisfação. — Entende? A idéia é se desfazer de suas ações. e isso era o . evidentemente. — Agora.Quase que imediatamente ele ficou absorto no jogo. Ela mostrou as instruções. "por isso esse jogo biruta não lhes parece estranho”. — O quê? — exclamou Joe Hauck. seus dois filhos continuavam a jogar. À medida que o dinheiro e as ações mudavam de mãos. — Você perdeu — disse seu filho. — Não tem graça. — A pessoa que acaba com mais ações perde — disse Lora. De qualquer maneira. — Droga de jogo — disse Hauck desapontado. Atrás dele. esse tipo de jogo não é novidade para mim. Afinal. O que alguém pode ver num jogo em que o vencedor acaba sem nada? — resmungou Joe Hauck ao se le- vantar. — Receio ter inicia- do com uma vantagem. o importante era que as crianças gos- tavam de jogar Síndrome.

os olhos brilhando. As duas crianças aprendiam a naturalidade de abrir mão do controle de seus títulos. Virando-se para ele. com uma espécie de abandono ansioso.que importava. Lora disse: — É o melhor brinquedo educacional que você já trouxe. Desistiam avidamente de suas ações e dinheiro. papai! * * * .

Ele estava com fome. examinando seu relógio e descobrindo que ainda faltavam mais duas horas para que as portas do auditório fossem finalmente fechadas. detalhado no testamento de Sarapis. . Filas imensas de pessoas com rostos lacrimosos e sofridos. Johnny Barefoot aguardava impaciente sua chance de ver o cor- po de Sarapis. esticando o braço para levantar o cabelo preto e reluzente de índio Chiricahua de cima dos olhos do marido. Sarah Belle. E o frio — emitido pelo sistema de refrigeração do mantenedor de sinais vitais do esquife — aumentava seu desconforto a cada minuto. e certamente não gosto mais desse jeito — concluiu. gerando uma reação empolgada do público. Johnny — disse. — Parece que você está se sentindo péssimo. Como relações públicas de Sarapis. num caixão de plástico transparente inviolável. — Keerum — murmurou Barefoot a si mesmo. — Toma. Num canto do imenso auditório onde o caixão repousava. senhoras idosas vestidas com casacos negros. O Que Dizem os Mortos I O corpo de Louis Sarapis. — E estou. sua esposa. aproximou-se dele com uma garrafa térmica cheia de café quente.. Isto é demais para mim. apontando com a cabeça na direção do esquife e da fila dupla de pessoas chorosas. Eu não gostava muito dele quando estava vivo. estava em exposição havia uma semana. seu trabalho era — para colocar em termos simples — trazer seu patrão de volta à vida. Seu trabalho.. levava-o em outra direção completamente diversa. Mas ele não pretendia simplesmente vê-lo.

Como fui me meter nisto? Achei que quando a embolia o levou pro fundo como um bloco de cimento. — Pobre Johnny. com toda certeza. mas não vou. um velho clássico do Cinema. . — Tá com medo de quê? Desliga a refrigeração do caixão e o cadáver dele vai aquecer. Portanto. — Procure me entender. — Isso seria errado. E enquanto ele está semivivo. é melhor não dizer nada.. se você não pode dizer nada bom. nada de ressurreição. E então. — Eu devia me divorciar de você. acariciando o braço do marido. mãos enfiadas no bolso para protegê-las do frio. Sarah Belle — disse Johnny Barefoot. — Eu não quero trazer o velho pilantra de volta à vida. esta seria uma hora. a voz carregada de tensão.. Se você fosse comigo às palestras no Museu de Arte Moderna todas as noite de segunda- feira. sorrindo gentilmente: — Para citar o coelhinho Tambor. a vantagem é sua. mais cedo ou mais tarde. Sarah Belle tinha formação universitária. Ela disse.. você sairia intacto.. Sarah Belle disse em voz bem baixa: — Mas um dia. não é? — Os olhos azul-acinzentados de Sarah dançaram de deleite. desumano.. Você precisa de uma mamãe para tomar conta de você. — Desconecta ele — sugeriu Sarah Belle. Era alguma linguagem estrangeira. Desplugá-lo seria. — Ela esclareceu: — É de Bambi. Ela se virou e começou a se afastar. ele tinha dado um beijo de adeus aos seus negócios para sempre. você terá de enfrentá-lo. Sarah Belle disse baixinho: — Nil nisi bonum. deitado ali no caixão.. morre de medo do homem mau — disse. Só que não tinha sido exatamente assim. sem saber ao certo o que estava dizendo. — Q-quê? Ela riu. Johnny Barefoot olhou para ela. Louis está completamente indefeso.

claro. mesmo para cálculo de impostos. Sua esposa tinha razão.. Provavelmente vai distribuir esse tempo ao longo de duas décadas. até lhe restar apenas uma semana. disse a si mesmo agora enquanto aguardava a oportunidade de remover o corpo do caixão segundo as instruções detalhadas deixadas pelo velho. Ele provavelmente pode passar aproximadamente meio ano semivivo.. Estou pensando nelas. e então. Mas isso seria apenas daqui a vinte e cinco anos. Não seria problema enfrentar o velho Louis se ele não fosse um homem de família. aos 70 anos de idade. a sepultura. São minhas filhas. como no fim de cada ano fiscal. Afinal. a atividade elétrica percorrendo as células do cérebro congelado estaria baixa.. E finalmente ao velho Louis restariam apenas algumas horas. Nada no mundo significava mais para ele do que suas duas menininhas e. pensou Johnny. Na verdade. num tête-à-tête de contato físico.. O seu lucro líquido era impossível de ser avaliado. como bem sabiam os fiscais do governo. também. nem era sensato tentar. controlava uma centena de indústrias inter-relacionadas — ou não — em ambos os planetas. e desejará dividir esse tempo estrategicamente... brincando com suas miniaturas de naves espaciais sobre uma maquete de papel machê montada em seu porão. ainda assim o pensamento lhe causava arrepios. que dominava o negócio de transporte de carga 3-4 — as rotas comerciais entre Terra e Marte — como se fosse um entusiasta de modelismo. E então. na escola lá em Oklahoma. em sua morte. dias. Sarah Belle. um mês aqui e ali. E agora. através da Whilhemilna Securities. . O cérebro falharia. Vejamos. o velho. Um homem semivivo não tinha a menor chance. obviamente. O sinal estaria fraco. porque desde a infância ele respeitava Louis. Johnny acendeu um cigarro e se encostou contra a parede às suas costas. não em mim mesmo. Eles já estariam no ano 2100 quando os processos encefálicos do velho cessassem inteiramente. silêncio. Mas ainda assim. as palavras emitidas pelo equipamento de amplificação ficariam cada vez mais baixas e indistintas. Preciso pensar nelas. contra uma pessoa viva.

Em outras palavras. Aquilo era exploração de peonagem. — Pegue trabalhadores jovens e sem treinamento. Onde vou consegui-los? — Vá até Burma. fumando seu cigarro rapidamente. — Ei. — Nenhum dos sindicatos possui jurisdição em alto mar. — Como você . fora do limite de três milhas? — Um sindicato é uma organização nacional — respondeu- lhe Johnny. e ele sabia disso na época. e Pershing enviou-o a Louis Sarapis. — Do Atlântico. um homem sem educação formal: um sem-grau. Eu precisa- ria do mesmo número de trabalhadores. — Está dizendo para lançar minhas naves de carga a partir do oceano? — disse Sarapis. recordou o dia em que havia entrado. murmurando para a garota da recepção que queria um emprego. um joão-ninguém. — Eu precisaria de trabalhadores lá no oceano. no gabinete pessoal da Archimedean Enterprises. Sarapis fez exatamente isso e contratou Johnny para seu departamento de relações públicas. Ideal. Era um plano sujo. Um solitário sem formação universitária. Submeta-os a um estágio de treinamento com a remuneração limitada a uma aju- da de custo. mas ele tinha certeza de que o dinheiro gerado valeria a pena. cubra o custo das passagens com o trabalho deles. e Johnny sabia disso. Em outras palavras. operado por homens sem direitos legais. libertar Sarapis da necessidade de contar com trabalhadores sindicalizados. Índia ou Malásia — disse Johnny. possivelmente mais. Mas uma organização comercial é internacional. Um pequeno im- pério em alto-mar. Johnny — disse-lhe certa vez Sarapis. o gerente de Pessoal. Johnny Barefoot. A menina mandou-o falar com o Sr. Esse era o melhor lugar para um homem que tinha idéias brilhantes de uma natureza não- técnica. Um pária inútil. em essência. ansioso e cabisbaixo. Ele tinha algumas idéias brilhantes que estavam à venda. Pershing. E Louis Sarapis achou uma idéia muito atraente. idéias que desatariam os nós das greves e diminuiriam a violência nos espaçoportos causada pelo choque de jurisdição entre sindicatos rivais — idéias que iriam.

Todo mundo quer trabalhar para Louis Sarapis. exibindo seus dentes de aço inoxidável. famintos. Eu quero morrer. mesmo naquela época. Impulso auto destrutivo. Ou eram pessoas que tinham se beneficiado da pensão que Sarapis obrigara o Congresso a instituir durante a depressão. Ele se perguntou se todas essas pessoas eram funcionários de Sarapis ou parentes de funcionários. o RP do velho Louis? — Sou — disse Johnny. É ambicioso. As filas duplas de lamentadores que seguiam até o caixão. Johnny se assustou quando um guarda do auditório o cutucou. de modo que não podia ter sido isso. Provavelmente as mesmas pessoas que freqüentavam as filas de sopa eram as que estavam aqui hoje. Eu me odeio. e respondeu: — Você entendeu tudo. Trabalhar para você é algo grande. o senhor não é o Barefoot. — Todos eles. como estas. O homem que distribuía sopa nas filas de desvalidos. E então disse: — Talvez eu deva procurar um analista.. Ele ofereceu a bebida ao guarda: . três anos atrás. digno das maiores ambições. — Nesse momento ele lembrou de sua idéia de exploração de peonagem. Mas eu concretizei minhas ambições.ficou tão inteligente sem nunca ter ido à escola? Todo mundo sabe que isso hoje em dia é fatal. desempregados. Mas isso lhe ocorreu depois que ele abandonou a escola. — Ei. Sarapis. — Charlatães — disse-lhe Louis. em sua idade avançada. trabalhando exclu- sivamente para mim de vez em quando. na luta longa. Ele oferece todos os tipos de trabalho. concluiu Johnny Barefoot. talvez? Johnny esboçou um sorriso sem graça. Eu sei por- que tenho seis na minha folha de pagamento. Louis. O que está errado com você é que você é impaciente. o grande papai dos pobres. mas não quer gastar suas energias na escalada. Ele apagou o cigarro e começou a desenroscar a tampa da garrafa térmica de café que Sarah Belle lhe trouxera..

Claude St. nem para o guarda. nem para si mesmo. Sarapis. Os congressistas jamais teriam feito leis em benefício do povo se não fosse pela pressão de Sarapis. Era uma expressão de gratidão por tudo aquilo que ele havia feito por esta área. Sr. Johnny resmungou. Johnny bebericou seu café. e veja só como conseguiu chegar a um trabalho de nível dotado de uma remuneração alta. agora que Sarapis se foi? Johnny não tinha uma resposta. o bastante conhecido Sr. Barefoot. para não mencionar fama. quando não havia mais ninguém no mundo inteiro contratando. Executar os procedimentos técnicos era obrigação sua. os sem-grau como você e eu. essas coisas todas. Meu cunhado trabalhou para ele. acredito que é realmente a Sarapis que devemos agradecer — disse o guarda. — Sabe. — Não. Cyr. os trabalhadores que ele pusera na folha de pagamento. Ou talvez você esteja acostumado ao frio nestes auditórios. acei- tando a xícara de café. Como proprietário da Casa Funerária Sagrados Irmãos. — Tome um pouco. — Obviamente.. que não se submetia aos sindicatos. Herbert Schoenheit se viu exigido pela lei a consultar o conse- lheiro legal do falecido Sr. É uma inspiração para todos nós sem-grau. Resmungando. Isso foi há cinco anos. — Posso ver o porquê. E todas aquelas leis que ele fez o Congresso baixar. eu não estou acostumado — disse o guarda. além de Sarapis. Todo mundo já ouviu dizer que ele era um escroque. As fábricas que ele tinha aberto. . meu pai viveu à custa de um plano de pensão de Sarapis até o dia em que morreu.. Neste serviço era essencial para ele saber precisamente como os períodos de semivida seriam proporcionados. Mas ele deu tantas pensões a velhos. Quem agora vai ajudar os desfavorecidos. sempre admirei o senhor porque é um sem-grau. — Ele deu o trabalho ao senhor. — Não admira que haja tanta gente aqui hoje — disse o guarda. A prefeitura de Chicago tinha emprestado este lugar para o velório de Louis.

— Sim. Cyr. girou o sintonizador e ouviu a freqüência apropriada para indicação de atividade encefálica. — Apenas um momento — disse Herb. Satisfeito. boba como era. e voltou à caixa para procurar o número 3054039-B. senhor — disse-lhe Herb com um sorriso afável. muito fraco: — . pensou Schoenheit von Vogelsang enquanto punha o telefone no gancho. — Pessoalmente — respondeu Herb. Drat. muito magra e pequena. Isto nunca aconteceu em relação a um homem tão importante. É minha avó. desligou o amplificador e chamou um trabalhador sindicalizado para executar a tarefa de conduzir 3054039 até a plataforma de carregamento. Logo este lugar estaria muito movimentado. O Dia da Ressurreição — o feriado em que os semivivos eram honrados publicamente — estava próximo.. — Com cerca de 80 anos. A questão deveria ser rotineira. — É uma senhora idosa — disse o cliente. um tipo de sacerdote de aparência preocupada aguardava no guichê com um canhoto na mão. ligou um amplificador portátil instalado no vidro do esquife. Quero tirá-la daqui por uns tempos. Deve haver alguma coisa errada.. Quando localizou o esquife correto. Automaticamente.. Obviamente ele viera recolher um parente. queria começar a andar de novo quase imediatamente. curador dos bens de Sarapis. — Vou atender o senhor pessoalmente. mas ainda assim um proble- ma surgiu quase imediatamente. St.. Ele tinha telefonado da caixa — o cofre de armazenamento onde os semivivos eram mantidos sob refrigeração perpétua. Ela. onde o cliente iria colocá-la em seu carro ou minicóptero. — Você a checou? — perguntou o cliente enquanto pagava a quantia devida. Ele não conseguia entrar em contato com o Sr.e então a Tillie destrancou o tornozelo e nós achamos que nunca ia sarar. Do alto-falante saiu um som. ele correu os olhos pelo medidor de sinais vitais anexado: ele previa mais 15 dias de semi-vida. Neste momento. — Está funcionando . Não quero apenas falar com ela.

Eles animavam os semivivos nesses intervalos de atividade cerebral. e começou a caminhar na direção da plataforma de carregamento. cha- mando a atenção de Herb. diante da máquina de escrever. — Será que o senhor pode dar uma olhadinha nele? Eu apreciaria muito. Sr. Esses parentes fiéis vinham aqui regularmente. meramente se afastou. Mas ainda assim.perfeitamente. Uma funerária era um negócio lucrativo. Na caixa. acompanhando o cliente ao longo da fileira de esquifes até seu falecido pai.. Era uma visão tranqüilizadora. — Feliz Dia da Res- surreição. Quando eu morrer. O medidor de si- nais vitais indicava apenas mais alguns dias de semivida. notícias do que acontecia no mundo exterior. E.. — Meu pai parece um pouco fraco — disse um rapaz. Assim poderei observar o destino da Humanidade. para prestar homenagem.. não queria constatar que seu pai estava finalmente se esvaindo. — Ele sorriu para o cliente. ele aumentou o ganho. Assim. disse Herb a si mesmo. — Sepultamento é um ato bárbaro — murmurou alto Herb. e a voz do semivivo ficou um pouco mais forte. — Certamente — disse Herb. Isso explicava o quanto a cerebração estava fraca. acho que mandarei meus herdeiros me reviverem uma vez por século. vários clientes conversavam em tom baixo e respeitoso com seus parentes semivivos. desconectar o corpo do mantenedor de sinais vitais e — que Deus não queira — enterrá-lo. deixando o rapaz . Traziam mensagens. e eles pagavam Herb Schoenheit von Vogelsang. a Srta. — Sim. Era óbvio que o filho não queria ver o medidor. pensou Herb.. — Remanescente das origens primitivas de nossa cultura. Mas isso significava uma taxa de manutenção muito alta para os herdeiros. Ele está nas últimas. Herb nada disse. — Obrigado — disse o cliente. senhor — concordou sua secretária. Beasman. Ford. e sem dúvida cedo ou tarde eles iriam encerrar a conta. cujos esquifes estavam enfileirados em intervalos espaçados.

apesar de seu trabalho de caridade. Ele se conten- tou em guiar a esquife até o local vago. ou para pegar algum que tivesse expirado. Quando ele vai voltar? Outro homem. Ele deve ser ressuscitado imediatamente. acenando positivamente. Traga-o para que possamos conectá-lo imedia- tamente. — Está frio aqui — disse Barefoot. Porque quem quer caridade? Especialmente vinda dele. estou encarregado do Sr. O espaço dele já está preparado? — Mas é claro — disse Herb prontamente. Caminhou até eles. Essa foi a instrução que recebi. cavalheiros? O motorista do caminhão apareceu na janela e disse: — Estamos aqui para entregar o Sr. — Entendo — disse Herb. deduziu Herb. St. — Mas não con- sigo contatar o Sr. Segundo os termos do testa- mento. Por que dizer a ele? Por que dar as más notícias? Um caminhão chegou à plataforma de carregamento e dois homens saltaram dele. — Então está tudo bem. Sarapis. Herb não disse isso a Barefoot. — Sim. de cabelos escuros e olhos reluzentes. Louis Sarapis. — Pior que no auditório. — Meu nome é John Barefoot. Herb viu o morto de relance. É uma boa coisa para nós que ele esteja finalmente morto. rosto largo e cinzento lembrando um velho pirata. — É claro que está — respondeu Herb. Estavam aqui para entregar mais um semivivo. Cyr para fazer os arranjos do cronograma. A equipe do caminhão começou a descer o esquife. usando uniformes azul-claros muito fa- miliares. — Ajustei ele para falar em 15 minutos — prometeu a . Mudanças e Armazenamento Atlas Interplan. Obviamente.comunicando-se com o pai. emer- giu do caminhão.

— E então? — disse Barefoot. — Ele quer participar da Convenção Nacional do Partido Democrata-republicano. Herb entendia perfeitamente o que ele queria dizer. A carga residual inicial costuma ser muito forte. se você cometer algum erro e deixar a fagulha apagar. em Cleveland. — Assim. — Vou conferir tudo — disse Herb. podem começar os problemas técnicos — disse Barefoot. que parecia tenso. mas não por uma margem muito grande. Barefoot olhou-o de cara feia. — Ele introduziu a ponta do anodo em seu encaixe. Para concluir.. Ele murmurou: — As temperaturas baixas. o sinal deve aparecer alto e forte. A convenção ia ser realizada no final do mês. Nada mais. Muitos acreditavam que ele tinha escolhido pessoalmente o último candidato à presidência pelo partido De- mocrata-republicano. virtualmente. No passado. tentando imaginar o que dera errado.. — Ainda não está pegando nada? — indagou Barefoot . mas não respondeu. tanto nas convenções do partido Democrata-republicano quanto nas do Liberal. O bonito e elegante Gam perdera a eleição. Um zumbido. — Suponho que mais tarde.Barefoot. — Não se preocupe. Ele não precisava terminar. Quase não te- mos falhas neste estágio. não é? — perguntou Herb. Barefoot disse baixinho: — Ouça. ligou o amplificador. quando ela enfraquecer. Sarapis tinha sido muito ativo por trás dos panos. e continuou a mexer com os fios que precisavam ser conectados perfeitamente com os terminais dos catodos do esquife. Não existe resistência mensurável a 100° Celsius negativos. — Desculpe — disse Herb. nada impede o fluxo da corrente. — Por que ele quer ser trazido de volta à vida tão cedo? — perguntou Herb. Alfonse Gam.

na direção de Próxima. Pode ter havido algum erro nessa fase do processo. Obviamente. e eu estrago tudo. essa região do espaço era de pouco interesse para a Comissão de Comunicações em Espaço Profundo das Nações Unidas. mas sem olhar para Barefoot. E ainda assim não conseguia nada. era um caso único. — Continue tentando — disse Barefoot. — Nada. mas clara. Louis Sarapis perma- necia silente. extremamente nervoso agora. Mas era desnecessário dizer isso a Herbert Schoenheit Vogelsang. não ousava fazer isso. — Lembre-se que nós não executamos a instalação do mantenedor de sinais vitais. apavorado. absolutamente amplificada pela grande antena do radiotelescópio era fraca. O QUE DEU ERRADO? Um cliente importante como este. eu vou contatar Claude St. Cyr. admitiu Herb. com tudo que tinha. — Estou fazendo tudo que posso — disse Herb. Não vou conseguir. — Bem. . No radiotelescópio em Brejo Kennedy. Nós vamos tirar Louis da sua funerária e abrir um processo de negligência contra você. Geralmente. transpirando enquanto lidava com as conexões do esquife. uma voz humana. na verdade.. parece.. Agora uma estática soou acima do zumbido que saía pelo alto-falante. no lado escuro da Lua. Owen Angress compreendeu. Mas não consigo entender o porquê. — disse Herb. o técnico-chefe Owen Angress descobriu que havia captado um sinal emanando de uma região a uma semana-luz além do sistema solar. com todos os seus anos de competência profissional nesse campo. mas isto. A estática. O que o alcançou. era um péssimo sinal. Ele continuou tentando. — Se você não puder despertá-lo em mais dez minutos. — Agora Barefoot parecia tenso. Ele estava lutando desesperadamente. — Isso é ele chegando? — inquiriu Barefoot. — Não — admitiu Herb.

Ele iria reverter se eu não ficasse de olho nele. — Estou voltando? Pelo amor de Deus. momentamente.aquele Gam é um idiota. pensando em voz alta num tom sonolento. Talvez seja uma espaçonave de exploração profunda que.. Acho melhor eu reportar isto a Wycoff. um homem calmo. Alô? — Os pensamentos ficaram nítidos. Algum indivíduo ruminando a um transmissor além de nosso sistema solar. como se estivesse associando livremente. A voz apresentou-se clara mais uma vez: — . na Academia Soviética de Ciências. Seria isto. Cometi um erro ao escolhê-lo.. — Va- mos.. Acabou aprendendo. Ei. e acho que conheço. Cyr. mas pelo menos não é um patife como St. abismado. — A cinqüenta segundos de um ano-luz — murmurou fa- zendo uma marca rápida no mapa de espaço profundo que estivera delineando.perguntou-se Angress. Wycoff era seu supervisor atual. filho. Johnny.provavelmente deixaram tudo lhes escapulir pelos de- dos — estava declarando a voz — se eu os conheço... — Fala. aquilo não fazia sentido. mas tarde demais.. A Convenção já começou? Não tenho nenhum sentido de tempo preso aqui. Cyr. Fiz bem ao demitir St.. Apenas nuvens de poeira cósmica. Esse Johnny. as palavras mais distintas.. — Nada.. Tanto a fazer. é você aí? Angress pegou o telefone e discou o código da linha para a União Soviética. em outras palavras. disse a si mesmo.. Espere só até você chegar . no mês seguinte seria Jamison. Considerando que eu possa me manter. A voz abaixou. Tenho tanta coisa na minha mente. já está na hora.. do MIT. não consigo ver ou ouvir. um mero eco? Ou ele estava lendo incorretamente seu computador? Claro que isto não podia estar correto. Estaria sendo ricocheteado de volta para a Lua a partir de algum transmissor próximo. Johnny! — comandou a voz no alto-falante.. — . Ele não conseguia compreender o que era aquele sinal. O que está lá fora?.

Estão noticiando alguma coisa estranha — disse Gertrude. E mais uma vez a voz sumiu. — Escutem a tevê. eu não tive nada a ver com a morte dele — pro- testou St. incluindo a cláusula que automaticamente me despedia. por mais irônico que seja. II No telejornal noturno. ouvido perto do alto-falante. sorriu de volta. — Ele riu ao visualizar a imagem que criara. de modo que achava que com essa cláusula ele se garantia contra ser..aqui para descobrir. — Diabos. Cyr. cancelava meus serviços no momento em que ele morresse. — Foi uma embolia. Isto é precisamente o que Wycoff chama de "fenômeno" concluiu Angress. Liberal. Cyr ouviu o apresentador falar sobre uma descoberta realizada pelo rádio telescópio na Lua.. posando decorativamente no sofá ao lado do marido. E vou lhe dizer por que Louis fez isso. — . eu mesmo redigi o testamento. — Ele parou enquanto media as gotinhas de vinho branco que acom- panhavam o gim. — Isso adiantou muito para ele — argumentou Phil Harvey. Ela se levantou. mas prestou pouca atenção. Margrave agora já era presidente há quatro anos.. que fora o homem escolhido .. E eu posso entender por quê. um coágulo enorme entalado como uma rolha num gargalo. caminhou até o aparelho e se curvou sobre ele. — Deve estar fazendo outro discurso político. e Gertrude. Ele nutria suspeitas paranóicas sobre mim. estava ocupado preparando martinis para seus convidados.. — O remédio da própria natureza. Ele sorriu. Cyr.. — Sim — disse ele a Gertrude Harvey —. — Provavelmente é aquele idiota do Kent Margrave — disse St.ser despachado prematuramente. Claude St. conseguira derrotar Alfonse Gam.

. concordo com minha mulher — disse Phill Harvey.. — Ciência! — disse St. você sabe que eles vão acabar descobrindo que se trata de um transistor de rádio que algum estudante japonês perdeu numa viagem entre a Terra e Calisto. Cyr. não quero nem ouvir mais. disse a si mesmo. era um ótimo político. é claro. acho. deixou tanto os cientistas americanos quanto soviéticos completamente pasmados. Eu admiro a ciência. ajeitando cuidadosamente a saia sobre os joelhos nus. — Removendo os óculos. você sabe Quem. — Oh. O radiotelescópio em Brejo Kennedy cap- tou a voz de Deus e agora vamos receber mais um conjunto de mandamentos divinos. apesar de todas suas falhas. a agência espaci- al. — Uma voz do espaço si- deral... então vamos as- sistir. O apresentador estava dizendo: — Uma voz. — Bem. Margrave. — Não — disse Gertrude. Cry manteve-se firme: — Ouça...pessoalmente por Louis Sarapis para o cargo. — É alguma coisa sobre. — É disso do que precisamos. Gert. E o sinal do rádio simplesmente vagou inteiramente para fora do sistema solar e agora o telescópio o captou. Uma voz que acabe se revelando. Na verdade. ele se afastou do televisor. meu amigo. Mais uma vitória da humanidade em nome de sua existência coletiva. — Pessoalmente.. — Deus. — Rindo. St. — E acrescentou. — Quem? — indagou Phil. — Acho isso fascinante. Cyr. emanando do espaço sideral esta noite. e isso se tornou um mistério imenso para todos os cientistas. por favor. Aposto que encontraram mais um planeta no sistema de Orion. não! — exclamou St. num tom menos afetado: — Desliga isso. Ciência. enxugou os olhos com seu lenço de linho irlandês. num tom solene. conseguira convencer grandes massas de eleitores que ter uma marionete de Sarapis como presidente não era uma boa idéia. rindo. Aumente o volume. Temos coisas sérias para considerar.

Cyr sabia que o que Gertrude estava dizendo era verdade. Harvey disse: — Muito bem. ele poderia de- por Harvey e assumir a Elektra Enterprises. Afinal de contas. Balançando os ombros. mas não gostava de falar sobre esses contatos que lhe restavam. era uma figura menor do negócio de transporte de carga 3-4 (entre Terra e Marte). Cyr. perguntou: — Claude. na verdade. se você tem certeza de que quer isso. . Mas não posso lhe oferecer o salário que você re- cebia de Louis. E enquanto se empertigava. — Imagine não voltar. com a experiência e os conta- tos que obtivera trabalhando para Louis Sarapis. — Sim. Mas ouvi um boato sobre isso. Harvey. — Mas nós éramos acostumados com isso — disse ela. Cyr queria. acho que ele não está semivivo. St. Cyr criticamente. Cyr disse: — Vamos continuar nossa discussão. Se você realmente acha que há alguma coisa para discutir. ela fez isso. Relutante mas obediente. Ele tinha muitos amigos dentro de Wilhelmina. — Ele fitou St. eu poderia colocar você na minha equipe jurídica. a firma de transportes de carga de Harvey era pequena em comparação com as empresas de Sarapis. — Sim. Porque ele acreditava que dentro de um ano. — Eu sei disso — disse St. tei- mosamente. Para Phil Harvey. é verdade que a Casa Funerária não conseguiu reviver o velho Louis? É verdade que ele não está semivivo. Gertrude estremeceu. Que coisa horrível! — Mas essa era a antiga condição natural — comentou seu marido enquanto bebia seu martini. Isso não seria justo com os advogados que trabalham para mim agora. Cyr. — O fato é que St. Mas era isso precisamente o que St. como deveria estar agora? — Ninguém me conta mais nada sobre a organização — res- pondeu St. — Ninguém era semivivo antes da virada do século.

eu tenho algum conhe- cimento. Wilhelmina e Archimedean terminado. Desde a derrota de Elektra no tribunal. mas preciso. St. fragmentário. finalmente: — Não faço a menor idéia — disse Harvey. Os dois homens trocaram um aperto de mão forte. que tinha sido. St. Cyr a conhecera. A empresa fora batizada com o nome da primeira esposa de Harvey. Cyr se culpava por não ter assumido pessoalmente o controle desse caso. e depois que ela e Harvey se separaram ele continuou a vê-la. e que eles iriam fracassar ao reviver o velho. não muito empolgado com o evento. Houve silêncio. fechamos negócio? — perguntou a Harvey.. com Sarapis morto e seu trabalho para a Atlas. tentando soar casual. Mas naquela época ele estava atolado até o pescoço com os negócios de Sarapis. — E por mais estranho que seja. parceiro júnior de St. Que você ia escolher uma funerária dirigida por certos contatos seus. Cyr. A julgar pelas aparências. Mas essa situação ainda estava longe. agora de uma forma mais pessoal e íntima. Podia socorrer a mulher a quem ele (agora admitia) amava. sobre os motivos que leva- ram Sarapis a despedir você em seu testamento. possivelmente você. Harvey possuía consultores jurídicos suficientemente talentosos para derrotar o advogado de Elektra. Harold Faine. desejava impedi-lo de voltar em semivida. parece ter sido exatamente isso que aconteceu. a qualquer custo. — Soube que Sarapis suspeitava que alguém. E não foram os mesmos motivos que você disse... Cyr. Sempre lhe pareceu que Elektra Harvey fizera um mau negócio na separação. Ele coçou o quei- . — Mesmo? — disse St. — Por que Claude não ia querer que Louis Sarapis fosse res- suscitado? — Gertrude disse. es- tendendo a mão.. Cyr. Elektra. a bem da verdade. — Ele fitou profundamente os olhos de St. primeiro ele precisava ingressar na equipe jurídica de Harvey. Agora. Mas estendeu o braço. estava conseguindo isso.. — A propósito. ele podia se dedicar a retificar o desequilíbrio. — Tudo bem — respondeu Harvey. — E então..

Como você sabe. — Incluindo o fato de que eu tivesse qualquer plano se- melhante ao que você descreveu. Eu nem conheço alguém no ramo funerário. — É o que os antigos teólogos chamavam de conversão. não pode ser transmitido em herança. quem é o herdeiro de Sarapis?— perguntou Phil Harvey a Claude. Cyr saíra firme. — Talvez Claude tivesse medo de alguma inspiração que Louis pudesse ter semivivo — disse Harvey. — E ela ficará com todos os bens dele quando o testamento for homologado? Com todo o poder político inerente nesses bens? — Claro que não — disse St. e Claude juntou-se a eles enquanto entravam juntos na sala de jantar. A empregada apareceu para dizer-lhes que o jantar estava pronto. Cyr. Cyr. — Diga-me. Não é verdade que o semivivo freqüentemente se vê detentor de uma espécie de inspiração. pensativamente. disse a si mesmo. mas já vi muitas trocas de cartas entre ela e o velho Louis. Kathy herdará apenas o aspecto econômico do poder do avô. — Eu nem entendo exatamente o processo de semivida. A voz de St. a influência econômica do velho é exercida através de sua . — Mas isso é apenas uma conjectura. Mas esta é uma situação delicada.xo. Constrangedora. — Uma neta dele que mora em Calisto. de uma nova perspectiva. Seu nome é Kathy Egmont e ela é uma mulher muito estranha. Tem cerca de 20 anos e já esteve presa cinco vezes. quase sempre devido ao seu vício em narcóticos. — Poder político não pode ser legado. de um novo ponto-de- vista. que carecia enquanto estava vivo? — Já ouvi psicólogos falarem sobre isso — concordou Gertrude. Soube que recentemente conseguiu se curar da dependência e se converteu a alguma religião. — Realmente. Phil e Gertrude se levantaram. porque ele quisera assim. Nunca a conheci. apenas uma conjectura — concordou Claude St.

Sr. que não esperava antes de mais 24 horas. Sr. — Quer que eu vá pegá-la? — perguntou Johnny. e. se ela quiser exercê-la. ao menos para mim. conseqüentemente. Barefoot? Fico apavorada com a . embora meu nome real seja Sra. É excêntrica e instável. Mas o meu advogado me disse para ligar para o senhor assim que eu chegasse em Terra. Vou para lá. sentaram-se à mesa de jantar.. Naquela noite. Exatamente o último tipo de pessoa que eu gostaria de ver herdando as empresas de Louis. — Você chegou rápido — disse Johnny. sua influência econômica. — Alô? Quem é? — atendeu. E sem mais qualquer comentário sobre o assunto. — A moça parecia tímida. Sarah Belle puxou o lençol sobre os ombros e se virou para o outro lado. que ela é um tipo criminoso. Kathy Sharp. — Todas as cartas que Kathy enviava indicavam. — Disse uma voz frágil de mulher. O frio no quarto o fez tremer.. acrescen- tando: — Sou Kathy Egmont. Johnny Barefoot ouviu o telefone tocar. a Wilhelmina Securities. — Mas me disseram no espaçoporto que o Beverely é um ótimo hotel. A seu lado. — Você não parece muito otimista — comentou Phil Harvey. Parti de Calisto assim que soube que meu avô tinha morrido. — Há alguma chance. doentio. Barefoot. se ela entender o que herdou. Sabe quem sou? — Sei sim — respondeu Johnny.empresa principal licenciada sob as leis do estado de Delaware. sen- tou-se na cama e tateou até suas mãos tocarem o aparelho. — Eu teria como ficar em sua casa. — Tem um lugar para ficar? — Não tenho amigos em Terra — disse Kathy. mal-humorado. Não queria acordá-lo. Essa empresa agora é de Kathy. — Sinto muito. Ao lado dele. Sarah Belle contorceu-se na cama. esfregando os olhos e bocejando.

— Achei que ia acontecer isso — disse Kathy. Ela já está aqui? Como ela pareceu? . ele era diferente de qualquer outra pessoa. Minha nova chefe. — Sinto muito.idéia de ficar num hotel grande onde ninguém me conhece. o meu avô.. trabalhando para mim. sou casado — disse ele imediatamente. Passivo e indefeso. Barefoot.. talvez ainda melhor do que eu. como também ofensiva. Fique no Beverely esta noite e amanhã encontrare- mos um apartamento mais aceitável. Os técnicos estão tentando resolver o problema. — Ah. Uau. e então compreendeu que essa resposta não apenas era inadequa- da. Você consegue imaginá-lo assim. Quando Johnny saiu da funerária. certo? — Sim. — Até agora não deu certo. ela tinha desligado o telefone. — Quem era a uma hora destas? — murmurou Sarah Belle. Passo no hotel por volta das nove.. Ela soou resignada. — A pessoa que possui a Archimedean — disse Johnny. Eu simplesmente não conseguia imaginá-lo inerte. — Por quê? — Bem. Barefoot. como ficam os semivivos. — Que paga pelos meus serviços. já teve sorte com a res- surreição de meu avô? Ele está semivivo agora? — Não — respondeu Johnny. Estou feliz por me encontrar com você. mas tam- bém ansiosa.. Um clique. Até logo. cinco técnicos estavam trabalhando arduamente no velho.. disse Johnny a si mesmo. Sr. Tenho certeza de que você sabe disso. tentando descobrir o que estava errado. — Tudo bem — disse Kathy. Sr. eu não tenho um quarto vago. — Louis Sarapis? — Sua mulher se sentou na cama imedia- tamente. — Quero dizer. — Diga-me. você está se referindo à neta dele. está bem. Espero que permaneça na Archimedean. porque o via diariamente. Mas. depois de tudo que ele fez? — Vamos conversar sobre isso amanhã..

— Acha que vai se dar bem com ela? — Não sei — respondeu. e o velho planejara ser revivido imediatamente. Mas neste momento isto sim- plesmente não estava dando certo. prin- cipalmente. Johnny Barefoot não gostava da idéia de trabalhar para uma mulher. Ele não contou à esposa as coisas que sabia sobre Kathy. — Provavel- mente vou trabalhar para ela durante alguns meses sofridos. — Assustada. O testamento dele se aplica. ele não está semivivo. com certeza antes da Convenção Democrata-republicana. afinal? Era uma grande incógnita. E uma que era — pelo menos de acordo com os boatos — completamente psicótica. pensou Johnny. — Você provavelmente vai se apaixonar por ela e me deserdar. poderia continuar gerindo sua com- plexa esfera econômica e política. e então me demitir e procurar emprego em outro lugar. O QUE SERÁ DO LOUIS? perguntou-se. Mesmo jurídica e fisicamente morto. Louis certamente sabia — ou tinha . — Não precisa esperar até que a semivida de Louis termine? — Legalmente. Se o velho fosse revivido.. em seu mantenedor de sinais vitais. Ela vem de um mundo distante e pequeno. especialmente uma mais jovem do que ele.. E enquanto isso. poderia dirigir sua neta. suas temporadas na cadeia. Johnny meditou sobre isso. — Nem tenho certeza de que vou tentar. sua dependência de drogas. Além disso. compa- rado com Terra. Mas ao telefone ela certamente não soara assim. Completamente acordado agora. cândido. — Não sei dizer — respondeu hesitante. ácido. Vamos conseguir revivê-lo. Está calado e morto em seu esquife de plástico. ele está morto. — Ela pode assumir os negócios agora? — indagou Sarah Belle. — Por favor. não comece com isso — disse ele. — Ela provavelmente é muito bonita — previu Sarah Belle. que obviamente não está mantendo nada.

concluiu Johnny. era pintado. mas segundo os termos do testamento. Está tomando o café da manhã. mesmo se para isso tivermos de visitar cada funerária nos Estados Unidos. Na manhã seguinte Johnny Barefoot estacionou seu carro na garagem subterrânea do Beverely e subiu de elevador até o saguão. A garota de cabelos negros com feições frias. alguns certamente para idosos aposentados. Seu cabelo. Cyr poderia. Balançou a cabeça. um respeitável hotel familiar que provavelmente alugava muitos de seus quartos para períodos de um mês. ele decidiu. Cuba e Rússia. Ela disse que o senhor deveria aparecer a qualquer momento. a cafeteria. Sua pele era marcada por linhas de expressão. ele está completamente fora do jogo. — Ela ligou o abajur ao lado da cama. acordar completamente. Sem ajuda. — Não tente resolver problemas sérios no meio da noite. — Posso dizer pela sua expressão. como se ela tivesse conhecido muito . — Vai encontrá-la lá.sabido — que tipo de pessoa era sua herdeira. Então o que sobrou? Precisamos continuar tentando ressuscitar o velho. um tanto grogue. — Você está tendo pensamentos confusos — disse Sarah Belle. pensou Johnny. no canto mais distante? Ele caminhou até ela. Ele deduziu que Kathy estivesse acostumada a viver modestamente. o atendente apontou para a sala adjacente. Deve ser assim que se sente um semivivo. Dirigiu-se ao balcão de recepção e o atendente da manhã o cumprimentou com um sorriso. Perguntou-se qual delas seria Kathy. E há pouco que eu possa fazer por ela. Em resposta à pergunta de Johnny. e agora estava esticando o braço para pegar seu roupão. ela não conseguiria fazer nada. Não era um hotel muito bom. Sem maquiagem ela parecia sobrenaturalmente pálida. pensou. Barefoot. Claude St. Sr. Na cafeteria ele encontrou muitas pessoas tomando café. tentando clarear os pensamentos. Mas era limpo.

— Só me restam cinco dólares — disse Kathy. ela era bonita. Você poderia. — Sim — disse numa voz baixa e fina. sua carência absoluta de expressão facial. E talvez tenham sido um dia. Seus olhos.. Tinha sido dor pura. Mas ainda assim. a mulher o observou como se temesse que ele fosse saltar contra ela. Ou você está tentando me impressionar? Você era o RP do meu avô. — Isso pareceu . poderia provir da dependência de dro- gas. e esboçou um leve sorriso. pegando o talão de cheques. sua expressão absolutamente inexpressiva. — Você é John Barefoot? Enquanto ele se sentava de frente para ela à mesa. pensou Johnny. ou a falta dela. sem aspectos redentores. Cyr. Mas isso não explicava sua voz desprovida de entonação. não era? Como foi a sua inclusão no testamento? Eu não consigo lembrar... — Então você vai continuar na empresa. como aconteceu com Claude St. Possuía feições delicadas e regulares. espancá-la e — Deus me livre. — É mesmo? — Ela pareceu surpresa. A cor. Você poderia me dizer se. o quarto de hotel e o café da manhã. mas não do tipo que tornava alguém uma pessoa "melhor". decidiu. anos atrás. É como se ela fosse apenas um animal pequeno e solitário. vazios.. eu não fui despedido. — Depois que paguei a passagem até aqui. — Kathy? A garota virou a cabeça. eu já possuo alguma coisa? Qualquer coisa que fosse do meu avô? Alguma coisa que eu pudesse tomar emprestado? — Vou lhe passar um cheque pessoal de cem dólares e você pode me pagar depois — disse Johnny. — Bem.— Acuado num canto para enfrentar o mundo inteiro.sofrimento. — Não tenho certeza do que fazer. que animadas seriam interessantes. foi tudo tão rápido.. — Ela hesitou. — Obrigado pela confiança.. pensou — atacá-la sexualmente.

— Vou levá-la até a Casa Funerária Sagrados Irmãos. você pode dizer isso. Eu sei. e possivelmente a notí- cia vazou para algumas pessoas importantes no ramo de trans- portes de carga. Kathy assentiu com a cabeça e voltou a comer seu desjejum. Ainda assim. de qualquer jeito. E talvez isso dê certo. serena. se você julgar adequado — disse. um papa-defuntos com o nome sobrenatural de Herb Schoenheit von Vogelsang sabe. — E isso já foi levado a público? — Não. Cyr deve saber a esta altura. Esse será o seu trabalho.Herb Schoenheit von Vogelsang torcendo as mãos. — Vamos precisar inventar essas declarações — disse Kathy. Preci- so estar lá daqui a uma hora. Obviamente.. — Seria correto. Louis nem sempre ti- nha certeza disso. senhor Funnyfoot — Ela sorriu mais uma vez. — Fale-me sobre as tentativas de ressuscitá-lo. Até Claude St. . Você acha que teremos de desistir? — Fez uma pausa. acorde". — E fingir que vieram dele. Ele lhe explicou.. Talvez não precise. Considerando que você sinta que precisa de um RP.aliviá-la. tudo que fora feito. Johnny Barefoot. Enquanto a garota fitava intensamente o caixão transparen- te. simplesmente não entendo. Nada mais deu. ou feito qualquer declaração política à imprensa. a seu lado.. e não conseguimos uma única centelha. resmungou atormentado. como Phil Harvey. dizer que você agora está trabalhando para mim? — Sim. em seguida. Sr. teve um pensamento bizarro: Talvez ela bata no vidro e diga "Vovô. depois de passar algum tempo sem que Louis tenha se manifestado. sucintamente. Barefoot . fizemos um eletro encefalograma e ele apresentou uma atividade cerebral . — Eu não entendo. — Emita releases para a imprensa com declarações do meu avô até que consigamos revivê-lo ou que desistamos.. em turnos.Nós trabalhamos a noite inteira. — Gostaria de vê-lo.

— Bem. finalmente. — Morte — murmurou Kathy. Juntos. — Ele é um homem grande demais para isto. provavelmente muito parecida com a das pessoas semivivas. sem trocar uma palavra. como vocês podem ver. — Existe metabolismo cerebral mensurável? — perguntou Johnny. — Lá era melhor que aqui? — Não. senhor. e algumas árvores já estavam salpicadas com flores cor-de-rosa. Durante esse período eu tive uma experiência. Isso fez o meu cora- ção parar de bater. Um milagre tecnológico. Talvez quando Louis viu como o outro lado era. Estive oficial e medicamente morta durante vários minutos.fraca. a fagulha elétrica ainda está lá no cérebro dele.. Mas era diferente. Colocamos sondas em todas as partes do crânio.. tal- vez não tenha querido voltar. — Quando eu era viciada em narcóticos tomei uma overdose. calmamente. Era um dia calmo de primavera. — Ela deu as costas para o esquife e disse a Johnny: — Vamos embora. — Estou sim — disse Kathy em voz baixa. Isto é para velhos aposentados. Não estou di- . pensando alguma coisa. Cerejeiras. — Sim. Está lá dentro. Como num sonho. — E renasci- mento. — Sei que é inútil — disse Kathy. — Ele deixou Kathy segurar seu braço enquanto atravessavam a rua. exatamente como pode se esperar depois da morte. mas inconfundível. Para vovozinhas que são retiradas daqui uma vez por ano. deduziu Johnny. no Dia da Ressurreição. — Alguém me disse que você está interessada em religião. Você sabe como é. Chamamos especialistas de fora e eles detectaram o metabolismo. ele tenha mudado de idéia quanto a voltar. Eles me trouxeram de volta através de massagem cardíaca de peito aberto e eletrochoque. — Apontou para o labirinto de fios finos conectando a cabeça do morto ao equipamento de amplificação que cercava o esquife. — Não sei mais o que podemos fazer. ele e a garota caminharam pela alameda diante da funerária. senhor. Também é uma quantidade normal.

Veja. imersa em pensamentos. — E isso mudou você — disse Johnny. — Interessante — disse Johnny. John introduziu uma moeda na ranhura da banca de jornais. Aprendi a controlar meus apetites. se é o que você está dizendo. Primeiro me livrei da gravidade planetária. O tempo condiz. Cyr. viva. Kathy. — Veja — falou ela. ela releu o artigo. É difícil compreender o quanto isso é importante. — Ela apontou a coluna. isso começou uma semana depois da morte dele. — Ela passou o jornal para ele. Kathy parou. — Acha que é o meu avô? — perguntou Kathy. senhor ou senhora — disse subitamente o robô-jornaleiro. Vaguei para longe. à imponderabilidade. Está tudo aqui.. mas de forma confusa. mas pense em quantas características do sonho derivam desse fato. Essa é a forma como os seus pensamentos fluem quando você está morto. Tudo condensado. Johnny. e em seguida da gravidade do sol. aquele advogado que ele despediu. — Fala sobre você. leu o artigo abaixo da manche.. — Consegui superar os aspectos de vício oral de minha per- sonalidade. — Quando passaram diante de uma banca de jornais. aqui. livre do sistema solar. Estou me referindo à lógica. — É difícil — disse Johnny.zendo que era vago ou irreal. VOZ DO ESPAÇO SIDERAL INTRIGA CIENTISTAS. e aqui está uma transcrição do que a voz está dizendo. — Eu sei que é. e a voz está sendo emitida a uma semana-luz daqui. — Pois eu acho que é — disse Kathy... Eu queria saber quem é. leia. — Eu fiz isso quando morri. ao invés de em . olhando através dele. pegando o jornal. Você se vê livre da gravidade. — Estranho — disse ela. — Dez cents. Minha voracidade. sobre mim e sobre Claude St. Essa é a diferença principal. Pegando o jornal de volta. — Eles captaram uma entidade sensciente.

convicta. — E ele está vivo. provavelmente ela estava certa. Ele pode ser capaz de fazer muita coisa. meditativa. E não temos nenhuma forma de interferir com isso.. surpreso. não estou nem convencido. Em todo caso.seqüência. Subliminarmente. — Temos um problema terrível. talvez. contra sua própria vontade. Ele está levando uma vida completa.. — Aquele fracassado? Ele ainda existe? Ora. — Eu sabia que ele não ia se contentar com uma semivida. esse era exatamente o tipo de coisa que Louis Sarapis faria. Mas mesmo assim. Pode estar fazendo isto neste momento. — Vamos saber mais quando a Convenção começar. porque ele estava preocupado com ela. Ele não conseguiu eleger Gam na última vez. — Ela voltou a caminhar. . quanto mais com medo. ele está lá. — Seja lá o que for. ele desapareceu completamente. ele pode nos alcançar. Patos. — Meu avô não desistiria dele — disse Kathy. um pouco convencido.. diferente.. através do radiotelescópio em Brejo Kennedy. Ele não podia evitar ficar um pouco impressionado. Está em Io. será pelo menos equivalente ao que fazia quando estava vivo em Terra.. — Você realmente não acredita. — Acredito sim — disse. — Eu não acredito nisso — disse Johnny... Ela estava certa. há quatro anos. Podemos ouvi-lo... Pode ter certeza disso. E foi uma das raras ocasiões que conheceu a derrota. Mas ele acreditava. Tem uma fazenda de criação de perus ou algo do gênero.. Mas ele não pode nos ouvir. além do último planeta de nosso sistema. Parecia tão certa disso. e John a seguiu. — Ele pode ser muito forte lá fora. Você está com medo? — Diabos. — Gam! — ecoou John. Mesmo sem o radiotelescópio. lá no espaço. — Ela sorriu para Johnny. — Pois você devia estar com medo — disse Kathy. Pode afetar muita coisa. o que fa- zemos e no que acreditamos. O que ele estiver fazendo. Pode afetar a todos nós.

. estivera várias vezes com o homem. olhando para ele. Cyr e Faine. Estava curioso. Como se estivesse com medo.. na Convenção. — Claude St Cyr se calou. Já se encontrara antes com Gam. como na noite anterior. — Desculpe — disse St. Ele não gostava desse homem. usando colete e uma gravata antiquada. Phil Harvey. E ele fez isso antes. Meu relacionamento profissional com o Sr. St. — Recebi um telegrama de Louis Sarapis — disse enfiando a mão no bolso. Cyr. — Sr.Esperando.. quando telefonara para ele. — Mas Sarapis está.. E então ele reconheceu o homem. Mesmo assim ele parou de andar. III O homem de meia-idade. Sarapis foi terminado há algumas semanas. — Esperando o quê? — Que meu avô entre em contato com ele novamente. a caminho do tribunal. Cyr com indiferença. — Ele estendeu a mão. — Estou com pressa. há quatro anos.. representara Gam em vários processos legais. Na verdade. e Gam lhe passou o telegrama. Kathy sorriu sem dizer nada. bonito e em boa forma física. com força. Cyr. Mas ela apertou o braço dele. Durante a campanha eleitoral. Você terá de marcar uma reunião com minha secretária — murmurou St. — Deixe- me ver. o outro como acusado. — Trabalho agora para o Sr. um com Gam como queixoso. Talvez ainda mais. fitan- do Kathy. quatro anos antes. — Ninguém votaria em Gam novamente! — retrucou. Cyr entrou no escritório externo da St. Estava falando com Alfonse Gam. levantou-se quando Claude St. — Recebi o telegrama anteontem — disse Gam.

não foi a você. — ele se inclinou na direção de Gam. Como você está vendo. Ele poderia ter dado essa ins- trução a você. E Gam estava correto. deixando Gam parado em pé ali. Isso jamais me ocorreu. Gam. Gam. Ouça. Quem o enviou e o porquê. Cyr — disse Gam secamente. morto. — Gam deu com os ombros — Evidentemente. — Acrescentou: — Considerando que não foi o velho Louis. — Como posso contatar o Sr. Você é um perdedor. Todo mundo no partido sabe disso. Achei que você talvez soubesse alguma coisa a respeito deste telegrama. Todo mundo nos Esta- dos Unidos sabe disso. assegurando Gam a respeito do apoio completo e absoluto de Louis na próxi- ma Convenção. No que me diz respeito estou fora da política e no ramo de criação de galináceos. — Como Louis poderia ter mandado esta carta? — Ele pode tê-la escrito antes de morrer e instruir alguém a remetê-la num determinado dia. — Se Louis não conseguiu colocar você na presidência quando estava vivo. Ele quer que eu concorra novamente. — E perder novamente? Arrastar o partido para a derrota novamente. Cyr. ima- gine agora. — Você realmente planeja concorrer de novo? — perguntou St. o telegrama estava com a data de apenas três dias atrás.. Então ele se afastou. Precisa de auxílio médico.. — Mas o texto parece o estilo de Louis. Sr. Barefoot? — Não tenho a menor idéia — disse St. — Eu não posso explicar isso. um psiquiatra que lhe explique porque deseja concorrer de novo. Era uma declaração de Louis Sarapis a Gam. — Se Louis quiser. St. Talvez o senhor Barefoot. — Vou precisar de auxílio legal — disse Gam. Aquilo não fazia o menor sentido. Cyr e começou a caminhar. só por causa de um velho teimoso e vingativo? Volte para as suas galinhas e esqueça a política. . — Para o quê? Quem está processando você agora? Você não precisa de auxílio legal.

— Bem. ao invés de vacilante como de costume. Fui a algumas funerárias. Ele tinha imensas porções de terra em Ganimedes. — Mas ele está vivo — disse Gam. Imagine todos nós ficando iguais a Gam! Não era um pensamento agradável. E ainda assim. um mero fantoche de Louis. E ele tinha muito trabalho sobre os ombros. Estava sendo irônico. Ele estremeceu. ou então elas não admitiram isso. Cyr conseguiu livrar-se de Gam e ir embora. Este era o dia em que ele. Os olhos de Gam faiscaram. redistribuídas de tal forma que Harvey adquiriria o controle da Wilhelmina. advogado de Phil Harvey. Isso envolveria uma troca de parcelas acionárias. Cyr se virou. Um zero à esquerda. disse a si mesmo. As chances de Kathy aceitar a oferta eram nulas. St. Ele não o inspirava para o dia à frente. mas também propriedades. — Espere — disse Gam. mas ele não estava em nenhuma delas. Preciso conversar com ele. pensativo — tenho cer- teza disso. ele precisava fazer a oferta. Sua voz. Claude St. O passo . então boa sorte — disse St. — Então ele está vivo. soou firme. Relutantemente. faria à Srta. Vou continuar procurando. Nesse momento. Deus nos proteja desse destino: esse homem como nosso presidente. — Boa sorte para você e para Louis. Cyr. e Harvey estava oferecendo não apenas dinheiro. Que joão-ninguém. Kathy Sharp — ex-Kathy Egmont — uma oferta pela Wilhelmina Securities. Eu vou encontrá-lo. E pareceu falar sério. O valor da corporação era praticamente impossível de ser calculado. — Desta vez eu vou ganhar — disse Gam. um tanto incomo- dado. — E então acrescentou: — Foi por causa disso que vim de Io. que dez anos antes ganhara da União Soviética em pagamento por assistência técnica provida a esse governo e suas colônias. — Eu não disse isso.

Uma ex-viciada em drogas e atualmente fanática religiosa. Kathy não possuía nenhuma dessas características. ele sabia. estragara de uma forma muito incomum. Kathy argumentava — simplesmente — que mantinha comunicação com seu avô. Kathy já falara demais em lugares públicos. para não falar de sua obstinação e imensa imaginação. Cyr. como o restante do mundo. Ele mal tinha começado a conseguir isso quando os confrontos com os sindicalistas começaram. Ao invés de divulgar comentários dela para a imprensa. tinham-nos impedido. Limpar a imagem dessa mulher exigia todas as forças de Johnny. Eles tinham enfrentado problemas com o sindicato desde a morte do velho. quase uma santa. envolvida em atividades beneficentes.. E quanto a Johnny Barefoot. Mas ele lograra sucesso na área da aparência física da mu- lher. Ela o ouvia. A coisa que Louis mais temia começara a acontecer: os sindicalistas tinham começado a penetrar na Archimedean. e graças a algum milagre. subindo o elevador de serviço até o heliporto no te- lhado. Eram dele as mensagens captadas por Brejo Kennedy. em hospitais. E a de Kathy. Cyr. riu alto. Ele mesmo simpatizava com os sindicalistas. com ficha criminal. gentil e pura. apresentara fotos dela. Apenas as táticas sujas do velho e sua energia sem limites. St. em restaurantes. As arengas religiosas dessa mulher eram larga- mente comentadas pelas colunas de fofocas dos jornais. Já era tempo de entrarem na cena. O que se pode esperar de um sem-grau? perguntou-se causti-camente St.. em feiras agrestes.. Mas infelizmente Kathy estragara a imagem que ele tinha criado. bares fa- . Como se pode esperar que o gênio nasça de terreno inculto? E Barefoot estava muito ocupado criando uma imagem para Kathy perante o público. crianças.. E Johnny aproveitara-se disso. ele também a ouvia. entre a firma de transporte de carga de Harvey e a de Kathy.seguinte — e ele sentia um arrepio só de pensar nele — envolvia um combate monumental na área da competição econômica.. em mil poses saudáveis: com cães. estava agora em decadência. Ela parecia bonita. Que era ele quem estava a uma semana-luz no espaço..

Esse é o motivo. um murmúrio distante. Obviamente. Estando atrasado. rumo ao prédio de Phil Harvey. Nem ele conseguia mantê-la calada. pegou o microfone e contatou Harvey. A mulher que precisamos destituir dessa posição. saindo do fone. Cyr. no centro de Denver. St. Cyr entrou em seu minicóptero. Cyr. pensou St. E então pensou mais uma vez em Alfonse Gam. E esta é a mulher que dirige a Archimedean. Estou indo para oeste. E seu bom humor desapareceu imediatamente. E o único que não parecia ver isso dessa maneira era Johnny. E mesmo com Johnny a seu lado. também houvera aquele incidente na festa. quando ela tirara as roupas. ela tinha bebido. para o nosso bem e o do público. uma maldição? Não sou melhor que o velho Louis. Sentindo-se animado. — Phil. Duas pessoas guiando seus atos a partir da crença de que o velho Louis Sarapis está vivo: Kathy Egmont Sharp e Alfonse Gam. Ela tinha pintado certos locais com esmalte de unhas vermelho. fechou a escotilha e inseriu sua chave na ignição. Ele via isso praticamente como uma missão em nome do povo. Johnny GOSTA dela. E escutou. como parte de algum tipo de cerimônia ritual. O minicóptero alçou vôo. ele ativou o rádio. Duas pessoas muito desagradáveis. E se pôs a ouvir. Cyr. virtualmente um serviço público a ser executado. está me ouvindo? Aqui é St. também. sou ainda pior. pensou ele. como se . O que era isso.mosos. Eu queria saber o que Sarah Belle pensa disso. E ele parecia estar sendo forçado a se associar a elas. pensou St. Sob alguns aspectos. Além disso. declarando que a hora da purificação estava chegando.

St. — Tenho uma coisa terrível para lhe contar — disse Kathy. o sinal da entidade ocupava os canais de transmissão normal. já o escutara muitas vezes. e todo mundo sabe disso. Ele praguejou. continuou pilotando o minicóptero. As pessoas conhecem um bom homem quando vêem um. Alfonse. Cyr estarão aqui a qualquer minuto. Johnny Barefoot apareceu para sua reunião de negócios com Kathy. que não conseguiria ser eleito síndico de prédio. e a encontrou melancólica. Eu sei disso. Meu Deus. — Sente e se acalme. Harvey e St. olhando para o escritório que já fora de Louis. . A fé move montanhas. Abalado. Aguarde. Ele se sentou. ela tinha razão. nos noticiários de TV. — .muitas palavras se misturando de forma confusa. disse a si mesmo. Cyr compreendeu que era a entidade a uma semana-luz. morrendo de medo que iria ouvir. a voz falava igualzinho ao velho Louis! Será que Kathy Egmont Sharp tinha razão? Na fábrica de Michigan da Archimedean. Vou consultar meu advogado.. Obstruir comunicações deve ser contra a lei.a despeito de ataques pessoais. Era uma reunião que ele adoraria evitar. — Você não vê o que está acontecendo? — perguntou. Te- nha mais fé em si mesmo. agora sobre um terreno de fazenda. Ele reconheceu o murmúrio. Como manchas solares. — Mas por dentro ele sabia. Mas sabia que teria de acontecer mais cedo ou mais tarde. — Não sei de nada. fez uma careta... Você não sabe disso? E fitou Johnny de olhos arregalados. muito superior a Chambers. e você vai querer estar sob controle quando se encontrar com eles. Veja o que consegui na minha vida. e desligou o rádio. e fizera Kathy concordar em receber os dois.. — O que é? Não pode ser tão terrível assim. — Eu não estou gerindo nada. agora emitindo um sinal ainda mais poderoso.

quando Harvey e St. E ainda assim. Ele via agora como ela tinha emagrecido. — A droga deixa o usuário muito instável emocionalmente — disse Kathy. quando o vício retornou. acho melhor você aceitar a oferta deles. meneando a cabeça. O metabolismo de Kathy estava alterado de tal modo que. — Voltei a tomar drogas. Cyr chegarem. Ele tentou adivinhar onde ela tinha conseguido a droga. — Acho que você deve procurar tratamento médico — disse a ela. Johnny. Sinto muito. — E então quero que você se interne num hospital. transformava matéria em energia. Aproximou-se de Kathy e pousou a mão no ombro dela. Sei que pela quantidade que estou tomando ela pode induzir psi- cose. — Escute. — Propenso a ataques de fúria e a surtos de choro. deu-lhe as costas. — É melhor você se livrar da responsabilidade que tem aqui . Toda essa responsabilida- de e pressão está sendo grande demais para mim. Ele temia que isto acontecesse. Quero que entenda que a culpada é a droga. — Sinto muito por ouvir isso — disse Johnny. — Oh — disse ela. ela se tornou uma pseudo-hipertireóidea. Mas provavelmente isso não tinha sido difícil para ela. Ele agora entendia o porquê. Ele percebeu que ela estava tentando sorrir. não conseguia entender por que tinha acontecido. Mas não me importo. — Certo. Teria de esperar até que ela lhe contasse. Eu quero que você saiba disso para não me culpar quando acontecer. As faces estavam chupadas. — Qual é a droga? — Prefiro não dizer. com todos os processos somáticos acelerados. Ela olhou tristemente para o chão. É uma anfetamina. A overdose de anfetaminas desgastava o corpo. com todos seus anos de experiência. Ofegante. Li a respeito dela. — Uma casa de loucos — disse Kathy amargamente. os olhos estavam fundos.

— Ah.. — Vou deixar Johnny falar em meu nome — disse Kathy. — Oi.. Cyr e Phil Harvey apareceram ra- pidamente.. Você quer acabar numa funerária. — O acordo das terras da União Soviética. mas en- quanto estiver tomando essa anfetamina... E então uma luz acendeu na mesa e uma campainha soou. — ela ficou em silêncio por um momento — .. — Você está se referindo à minha sanidade. Que se dane a Archimedean. Cyr estão aqui. Ela sorriu. uma lua inteira. — Ganimedes — disse St. Harvey e o Sr. A porta abriu. St. Cyr.. Ele não foi julgado num tribunal internacional? .. O que você precisa é de um descanso profundo e longo. — Virtualmente.na Archimedean.. — A sua saúde. sim — disse Johnny. — Por que não? — Louis não gostaria disso. eu não posso vender para Harvey e St. Cyr. Ao lado dele. Ele parecia confiante. e você é uma criatura viva. Ele olhou para ela. talvez a sua vida. também. Isso significa que ela concordou em vender? — Que tipo de acordo é esse? — perguntou. Sharp. — . — O que vocês vão oferecer em troca de uma cota controladora da Wilhelmina Securities de Delaware? Não posso imaginar o que seja. e Claude St. Devo mandá-los entrar? — Sim — respondeu. semiviva? Não vale a pena. Você está num estado de fadiga mental e física. o Sr.. Johnny — disse St. Ele. A recepcionista no lado de fora disse: — Srta. Harvey expressava o mesmo estado de espírito. São apenas bens. — Johnny. Cyr.a fadiga não vai acabar comigo — finalizou Kathy.diz não. — Você tem muita coisa em jogo — disse ele. — Que se dane o Louis.

uma oferta generosa. — Falando pela Srta.. consiga ajuda médica.. — Não posso vender.. Já conversamos sobre isso e con- cordamos. Consiga um advogado e procure cuidar para que ela fi- que longe das garras da lei. Ela pode se recobrar. Sharp.imperativo reter controle. Johnny aceitou o telefone e o colocou no ouvido. Kathy. Ele diz para eu não fazer isso. — . Você está dizendo absurdos. — Você já meu deu autoridade para negociar. É uma boa oferta. — Não — disse ela num tom rude.. então estou desautorizando você. Harvey não estava tentando pas- sar a perna em Kathy.. talvez duplicar. — O valor está acima de qualquer estimativa. O telefone do escritório tocou. Era. — Quem é? — inquiriu. Reação de pânico. em valor. Você está com medo porque ela está doente. E então escutou um som estranho e ritmado que parecia menos uma voz que alguma coisa arranhando um longo fio me- tálico. E a cada ano ele irá aumentar.. e considerado inteiramente válido — disse St. — começou Johnny. — Ouça-o você mesmo — disse Kathy. Trêmulo. Johnny afastou abruptamente o fone do ouvido. — Se eu vou trabalhar com você e para você apenas. — Sim. sob muitos aspectos. Meu cliente está ofere- cendo essas terras. recusando- se a ouvir mais. — Bem. Cyr.. Um bom médico pode cuidar dela. Provavelmente era verdade. Mas Kathy o cortou. Ela tem o que é preciso. Ela atendeu o telefo- ne e o passou a Johnny.. e você sabe que quando digo uma coisa é porque ela é verdade. Insista em. Corte o suprimento de drogas dela. — Ele vai dizer a você. Johnny. Você e eu nos co- nhecemos. Consiga um médico para ela. decidiu Johnny. desligou o aparelho. . você precisa seguir meus conselhos.

Não conseguia esconder o choque de ter atendido o telefone e ouvido a voz viva de Louis Sarapis. Precisamos proceder uma avaliação do valor da propriedade que vocês estão oferecendo. — Os interesses dele e os meus são os mesmos — disse Kathy. você não. pela primeira vez com clareza. lá fora. Não venha com essa de "se". — Mesmo se aquele era Louis Sarapis. — Simplesmente não estou com fome — explicou enquanto beliscava seu prato de ovos com bacon. não no dele.. . Cyr e Harvey para encontrar com eles mais uma vez no final do dia. relutantemente. A St. — Você o ouviu — disse Kathy.. Isso demandará tempo. — Era. — Era — disse Johnny. Johnny levou Kathy para um desjejum tardio. isto está óbvio. certamente querem realizar uma auditoria da Wilhelmina. — Agora nós podemos ouvi-lo diretamente. — Ele pode lhe dar a ajuda de que você precisa? Ele pode suprir o que está faltando? Ele não leva sua dependência de dro- gas a sério. Depois de marcar uma reunião com St. enquanto me deitava para dormir. Ela admitiu. Quanto a vocês. Ele está ganhando poder o tempo todo. Ele ouviu sua própria voz tremer. que não comera nada desde a noite anterior. — Então é Louis — disse Johnny. — Apesar disso. Tudo que ele fez foi me passar um sermão. Eu o ouvi ontem à noite. não apenas através daquele radiotelescópio em Brejo Kennedy. — disse Johnny a ela. Você sabe que era ele. Johnny disse: — Precisamos pensar na sua proposta. — Não ouviu? Era Louis. — E isso nos ajuda muito pouco nesta situação. — Johnny estava com raiva. — Ele evoluiu — disse Kathy. evidentemente. — Eles envolvem manter a Archimedean. Cyr e Harvey. Talvez esteja ex- traindo energia do sol. e torradas com geléia. meio grogue. você precisa agir no seu próprio interesse.

Estarei no meu hotel. abruptamente. mas não tão doente assim. É minha inclinação mística. — Ligue a tevê e escute. — Não acredito que ele diria isso. arregalados e frios: — Meu avô disse. de modo que deixara de ser um blefe para se tornar verdadeiro. acho. Ela não chamou. A não ser que aceite as propriedades em Ganimedes. Eu não vou me sub- meter a nenhum tratamento. eu o sinto perto de mim o tempo inteiro. caso você mude de idéia. com os olhos muito escuros. Depois de uma pausa. em pé na calçada. Eu sinto ele. — Será que não é a sua psicose induzida por anfetaminas? — disse Johnny. Tenho meu avô. Será que ela vai me chamar de volta? perguntou-se enquanto caminhava. — Você se demitiria? — Sim. — Então fale com ele. — Tenho você. E. Kathy. Instantes depois ele estava fora do restaurante. Ele se afastou da mesa. Ela bebericou um pouco de suco de laranja. Ela está me ajudando a manter contato com ele. — Você não vai me ter. Minha intuição religiosa.. Estou doente. Ele . Johnny. — Ela sorriu para Johnny. já tomei minha decisão. Ela tinha percebido que ele estava blefando. Eu não preciso da TV ou do telefone. Apesar de Sarah Belle. Posso sair desta sinuca sem ajuda médica.. Levantando. a não ser que venda a Harvey. Johnny disse: — Não preciso fazer isso. — Johnny. — Como? Kathy apontou para o televisor num canto do restaurante. deixando-a sentada sozinha lá. porque não es- tou sozinha. Kathy disse. — Eu não vou para um hospital. vá em frente e se demita.

pensou. em meio a seu monólogo monóto- no. Desgraçada. pensou furiosamente. compreendeu Johnny. Barefoot. O desgraçado é Louis Sarapis. girou-a e entrou no quarto. Desta vez ele não tinha nenhum compromisso marcado.. ele tinha razão.realmente tinha se demitido. o som arrepiante alcançando-o no corredor. De volta ao seu quarto vazio. Ou o melhor. sua recitação para si mesma. ele disse: — Alô. decidiu ele. continuou andando sem destino. Estarrecido. Sabia disso.nada bom abandoná-la. A voz trêmula e distante. Tirando o telefone do gancho. Durante um momento Johnny permaneceu no outro lado da porta. Não importa o que Sarapis lhe diga.. torcendo para Kathy mudar de idéia? Ela não pode continuar. estava murmurando: — ". procurar Alfonse Gam? Poderia ganhar muito dinheiro tra- balhando para Gam. Será Kathy? perguntou-se. Alguns momentos mais tarde estava entrando no saguão do Hotel Antier. Fez sinal para um táxi e deu ao motorista o endereço do ho- tel em que estava hospedado. não ela. E agora? Voltar a Nova York? Procurar um novo emprego? Por exem- plo. Ou deveria ficar aqui em Michigan. ouviu seu telefone tocar. Ou será ele? Introduziu a chave na fechadura.. Traição ao seu tra- . Por que ela não desistiu? Por causa de Louis. o que ela acredita que ele está lhe dizendo.. Para torcer que Kathy mudasse de idéia e telefonasse para ele. Mesmo assim. Sem o velho ela teria trocado suas ações majoritárias pelas propriedades em Ganimedes. desta vez apenas para sentar-se e aguardar. Era apenas que.. de volta ao local onde começara bem cedo este dia. o compromisso tinha acabado.. Quando entrou no quarto. Qualquer das duas alternativas.

. mesmo neste estado degenerativo. A conversa sobre os motivos para ele não ter ingressado na faculdade porque queria morrer. Contudo. Seus pensamentos não são claros. pensou. E o colocou mais uma vez no lugar.. Eu deixei meu corpo sob sua guarda porque confiava que você não iria me abandonar. A pior parte. Talvez seja Kathy. Ele queria. Você não pode. e queria fortemente. O velho não está genuinamente vivo. de induzi-lo a fazer o que queria. pen- sando na conversa que tivera com o velho Louis anos atrás. os restos de Louis Sarapis estavam vivos e ativos. queria que Kathy fizesse alguma coisa. e mesmo assim não era possível ignorá-lo. Caminhou até o fone e o pegou. e suficientemente argutos para encontrar formas de perseguir Johnny. e eu estaria livre dele. As responsabilidades que você tem com ela são as mesmas que tinha comigo. ele pensou: Talvez eu devesse pular. O som monótono continuava. irracional.balho.. Olhando para a rua lá embaixo. Parecem alguma coisa dita em sonho. é a senilidade dele. Desta vez ele não o tirou do gancho. Era um mero arremedo da vontade de Louis durante sua vida. Talvez não seja Louis. O telefone imediatamente tornou a tocar. Johnny desligou. ele tinha dese- jos. Pensei que você compreendia suas responsabilidades. pensou. os fragmentos da perso- nalidade de Louis Sarapis." Nesse momento. rumo à sua morte total. O telefone continuou a tocar. Caminhou até a janela e olhou para a rua lá embaixo. aquela que deixara uma impressão tão forte em sua mente. passo a passo. E você nunca deu chilique e me abandonou.. . Ele está num estado intermediário entre consciência e sonho. Ele estremeceu. trêmulo. Pelo menos não haveria mais telefonemas. Ele não está nem semivivo. E nós somos forçados a ouvi-lo. Vá pro inferno. à medida que ele espirala. Ele queria que Johnny fizesse alguma coisa. não são distintos.

Não posso fazer isso. E todo mundo está vendo isto.. Não era uma forma autêntica de comunicação. pareciam formar um rosto. E da caixa de som do televisor vinha o murmúrio de palavras indistintas. De algum modo parecia ver que Johnny tinha pedido demissão. O que me resta? Por quanto tempo Sarapis pode me assombrar? Há algum lugar para aonde eu possa ir? Caminhou mais uma vez até a janela e olhou para a rua lá embaixo. Ele pegou o telefone e disse: — Louis. Ele trocou de canal.. E isso é impossível. A tela acendeu. O rosto e as palavras difusas afundaram da existência.. e tudo que permaneceu. a não ser que eu esteja disposto a mudar de idéia e aconselhá-la a não vender.. E ainda assim o velho sabia o que estava acontecendo na Terra.. o velho materializado aqui na tela de tevê.lhe disse tantas vezes que a sua responsabilidade prin- cipal é. mas se revelou estranhamente borrada. Não.quando chegar a hora da eleição eles vão ver.. o velho não era capaz de ouvi-lo. Caminhou até o televisor no canto mais distante do quarto e o ligou. deduziu Johnny. E voz continuava se arrastando. Um ho- mem com o espírito para fazer a campanha uma segunda vez e assumir a responsabilidade financeira.... Aquilo não era uma conversa. Mais uma vez as feições difusas. uma vez mais. E está apenas aqui. Ele parecia compreender. você consegue me ouvir? — . Será que ele é seletivo? Ele tinha uma sensação terrível de que ele não era seletivo. Johnny desligou o aparelho. E suas linhas difusas pareciam. Era um monólogo. — . afinal é só para os ricos o custo de concorrer. Portanto isso não é opção. .. foi o telefone tocando. Não posso voltar para Kathy.

senhor ou senhora — disse o jornaleiro-robô. — Johnny Barefoot está num quarto do Hotel Antier pen- sando em pular. Na janela do quarto de hotel agora preparado para saltar. Você não pode blefar com meu sangue e ela tem meu sangue. Ela está dependente dele.. precisa de um homem desde que foi abandonada pelo marido. — Barefoot está do nosso lado. O sistema automático de impressão de notícias certamente tinha quebrado. e quem está nos avisando isso é o velho Sarapis. Não fazia qualquer sentido. St. — Vamos até lá sem discutir. come- çando a caminhar até seu minicóptero estacionado.. Acho que você tem tempo. e viu Kathy Sharp em pé ao lado do aparelho. que estava a seu lado. — Obrigado. Não podemos permitir que ele se mate. não devia ter tentado blefar com ela. Mas seria aleatório? Um parágrafo capturou sua atenção. . Se você espera fazer mais negócios com ela é melhor ir até lá. — disse Harvey. ou talvez fosse incapaz de ler. certo? — disse St. Tudo que ele encontrou foi uma procissão de palavras. Numa banca de jornais.. IV De repente o telefone parou de tocar. conectadas aleatoriamente.... Cyr.. aquele tal Paul Sharp. Mas por que Sarapis iria. Ele não conseguia acreditar no que estava lendo. Johnny é esquentado demais. Harvey seguiu-o. Cyr inseriu moedas na ranhura e coletou o jornal. Claude St. fitando- o.. Precisamos ir até lá — disse St Cyr rapidamente a Harvey. quarto 604. Johnny deu as costas para a janela. Era pior que O Despertar de Finnegan. Cyr piscou e se perguntou se tinha perdido a razão. O artigo principal. Hotel Antier... o fone em sua mão. eu.

e isso prova que ele pode estar errado. Ele se afastou da janela. Ela agora não estava prestando atenção a Johnny. por um período curto de tempo. Johnny se calou. Johnny deu com os ombros. — Sim. Posso ver o que meu avô via em você que lhe despertava afeto e admiração. — Ele quer falar com você. — Gentileza dele. ciente da futilidade de continuar falando. — Eu não ia fazer nada. Kathy tinha encostado o telefone no ouvido. — Johnny. E você sabe disso. — Eu também gosto de você. Cami- nhou até a penteadeira e apagou a brasa no cinzeiro que havia sobre ela. Esse é o tipo de pessoa que você é. Kathy olhou para Johnny e lhe disse: — Ele falou que Claude St.problema é que você acabou de largar um trabalho e isso o deprime... eu não tenho mais nenhuma relação com Louis Sarapis — disse. — . estava ouvindo seu avô. Johnny. Eu . — Ela lhe ofereceu o telefone. ele ligou para mim e me disse onde você estava e o que ia fazer. Johnny aceitou o telefone. — Ele não gostaria que nada ruim lhe acontecesse. Você realmente está preocupado com o meu bem-estar. Quando não está trabalhando. Relutantemente. — Ele achou que você ia — disse Kathy. — Isso seria suficiente? — Pode ser. talvez uma semana ou alguns dias. — Loucura — disse Johnny. Acho que você deveria ouvi-lo. — Meu avô sempre gostou de você — disse Kathy. Ele viu que seu cigarro tinha queimado até o filtro. Ele também disse a eles que viessem. Cyr e Phil Harvey estão vindo para cá. não está? Talvez eu possa me internar voluntariamente num hospital. ele vai achar uma forma de alcançar você. — Até onde me diz respeito. De qualquer maneira. você não se sente merecedor de viver.

— Acha que Gam tem uma chance desta vez? — perguntou Kathy. Por que não? Gam tinha dinheiro. Telefone para Gam. — Seria o RP dele na con- venção? Ele deu com os ombros. telefone para Gam. Veja o retorno extraordinário de Richard Nixon em 1968. E. — Qual é a melhor rota para Gam seguir? Ele a fitou. compreendeu Johnny. Telefone para Alfonse Gam. .. Tenho mulher e duas filhas.gosto disso. Johnny.. não me passe um sermão — pediu Johnny. — Não. eu tenho um trabalho para você. Conheço a operação. Sou inexperiente demais. — Faria isso? — perguntou Kathy. — Você ainda está zangado porque eu não vendi a empre- sa. Fazendo publicidade para garantir que Alfonse Gam seja indicado. — Por favor. Johnny desligou o telefone. Johnny. — Você sabe que ele diria não. Também sou assim. Amigos frios e distantes. Não com você. Preciso viver. mas. Na Convenção. Mas milagres na política acontecem. — Isso eu vou tratar com ele.. Pelo menos foi o que Louis disse. Ouça. Ele podia pagar bem. Eu preciso de um emprego. na verdade não. Suponhamos que eu entregue a Archimedean a você. Você fará um trabalho fantástico. Estou na empresa desde o começo.. é claro. ele perguntou: — O que Louis disse sobre isso? — Eu não perguntei a ele. — Arranjei um emprego — disse a Kathy. tenho certeza. — Vamos tentar continuar amigos.. Kent Margrave. Depois de um momento. — Não faça pouco caso de você mesmo. — Como RP de Gam. E certamente não era pior que o presiden- te. Telefone. isto não é brincadeira. Escute..

e se acalmaram. você vai recuperar um pouco do que perdeu. — Estamos trabalhando nisso. Foi muito agradável. a ex-esposa de seu atual patrão. viram Kathy. E é sempre a mesma. Mas por algum motivo sentia-se profunda e miseravelmente triste. E isso não acontecia sempre. — Ele a abraçou calorosamente. boneca. — Então ele também mandou você vir aqui — disse St. . Cyr a beijou e. ela correspondeu. ofegante. Cyr encontrou tempo para passar na casa de Elektra Harvey. — Ouça. — Não se preocupe com isso — disse Claude. e além disso. — Sim — disse Kathy. quase sobrenatural. St. mas o bastante para deixá-la um pouquinho mais feliz com a vida em geral. Cyr a ela. Claude St. Elektra disse: — A propósito.— Vê quantos amigos você tem? Amigos quentes e frios? — Sim — respondeu. Não tudo. pode me dizer o que anda errado com o te- lefone e a tevê? Eu não consigo falar com ninguém. Claude St. — Ele estava muito preocupado com Johnny. — Ela lhe deu um tapinha no braço. Elektra contorceu o corpo e apertou o seu amante com mais força contra si. disse Johnny a si mesmo. — Se o que eu estou fazendo der certo. viram Johnny com ela. Sempre parece haver alguém na linha. Temos uma equipe operando em campo. Naquela tarde. de uma forma satisfatória. apenas um tipo de rosto. como acontecia sempre. Cyr e Phil Harvey irromperam no quarto. é ouvir um sermão de uma mulher. durou muito tempo. E se há alguma coisa que eu não suporto. estou tentando fazer algo bom por você. Finalmente desfazendo o abraço. E a imagem na tela de tevê está difusa e distorcida. Mesmo quando é para o meu bem. A porta do quarto foi aberta repentinamente.

. E então esse absurdo todo chegaria a um fim. Como ele não gosta de mim.. Ele acharia que você está sendo desleal. Cyr estavam visitando todas as funerárias do país. eu pretendia ligar para . ele não vai descobrir. Sr. ajustava a alça do vestido. você também não pode gostar. mas existe muito pouco que eu possa fazer a respeito. eu ouvi o seu nome e o meu. bem. concluiu St.. eu realmente achei que o apresentador do noticiário men- cionou nós dois. não é da conta dele. Cyr enquanto seus dedos trêmulos ajustavam o seletor de canais do televisor.. Arrepiado. De qualquer maneira. E caminhou até a tevê para ligá-la. Ele não iria gostar disso. eu sei que isso parece maluquice. De qualquer modo. ou a recepção estava ruim. Ela o fitou solenemente enquanto. Será que Louis Sarapis está em toda parte? Será que ele vê tudo que fazemos daquele seu posto lá no espaço sideral? Não era exatamente um pensamento reconfortante. Mas ele estava resmungando alguma coisa. Barefoot. Bem. para o alívio de todos. St.. — Eu estava ligando a TV e. pensou. Cyr disse: — Querida. isso é ridículo. Os homens de St. cedo ou tarde achariam o corpo de Louis. Alfonse Gam disse: — A bem da verdade. — Mas Phil tem um preconceito muito forte contra ex-es- posas.. — O Phil sabe sobre nós? — disse Elektra Harvey enquanto caminhava até o bar para fazer alguns drinques. — Eu não tenho como não ficar preocupada — disse Elektra. dando-lhe sua bebida. É isso que Phil chama de "integridade" — Fico feliz em saber disso. Ele está se vingando de mim. especialmente quando ele estava tentando envolver a neta de Louis num negócio que o velho desaprovaria. Em todo caso. distraída. mas realmente tive a impressão. Deus do céu. — Não.

— Mas sejamos realistas. um trabalho era um trabalho. eu tive uma longa conversa com o Sr. — Claude St. — E não foi suficiente. Deus nos perdoe. com certeza. Afinal de contas. Cyr. Contudo. Louis poderia fazer praticamente qual- quer coisa que quisesse.você. — Você tem ligado a tevê ultimamente? — perguntou Gam. descontrolado. e seus conceitos não foram nada animadores. afinal de contas. Recebi um telegrama do Sr. mas honestamente. creio que teremos de pensar em alguma coisa inteiramente nova. Margrave tem uma vantagem conside- rável sobre nós. era tão manipulável.. Barefoot. — Sua admiração por Louis.. o velho controla todas as mídias de comunicação. — Ou tentou usar o telefone. Tudo que faz é dizer coisas sem sentido. rádio e TV. Se isso é Louis. ele não vai nos ajudar muito na Convenção. — Mas agora ele oferece um tipo diferente de ajuda. Até os telefones. com Phil Harvey. E. não um homem que esperava ganhar uma eleição. nesse ponto. pensou cáustico. aparentemente Gam não compreendia o que Louis era agora e o que podia fazer. — Temo que o esquema que o Louis tinha para a sua semi- vida. Com tamanho poder.. — O senhor vai acreditar em St. Nós vamos conseguir ajuda desta vez. — Ele fez um gesto. qualquer que fosse ele. jornais. Cyr disse que eu tinha que me conformar em ser um perdedor. — Louis ajudou da outra vez — lembrou Gam. Cyr? Agora. cauteloso. ou até comprar um jornal? Não se recebe nada além de uma espécie de algaravia sem sentido. Ele está. Estou determinado a ir em frente. — Johnny estava impressionado com a ingenuidade do homem. Ele mal precisa de mim. — É verdade — admitiu Johnny. deu errado — Gam parecia sombrio. Mas não disse isso a Alfonse Gam. é maior que a minha. .. pensou Johnny. St. Ajuda de Louis Sarapis. Sarapis aconselhando-me a contratá-lo. Sr. ele está do ou- tro lado. Para ser honesto. — Eu sei — disse Johnny.

Isso me desencoraja. essa sandice em todos os aparelhos de TV e telefones. — Agora. acrescentou: — Mesmo assim. Mesmo se conseguir virar a indicação para o meu lado.. Barefoot. e então eu vou convencer o mundo. Quando a Convenção começar. com um leve sorriso. — Começou a caminhar da sala até a cozinha. — Recebi este telegrama de Louis no outro dia.. — Depois de uma pausa. Isso eu posso prometer. — Ele. — Se você usar palavras como essa. tristemente. eu não vou conseguir que você seja indicado como candidato. — Se o senhor está querendo que eu lhe dê entusiasmo. você lidará com Louis por mim. — Uísque? Bourbon? . Barefoot. Será que eu quero mesmo? Estou cansado. E não gostaria de estar envolvido nela.. Quero ficar o mais longe possível disso. — Você pode gerar entusias- mo onde não há nenhum? Convença-me. A voz no telefone e na TV o havia afetado muito.. Barefoot. Então. Ele deu o telegrama a Johnny. — Louis estava mais coerente quando escreveu isto — disse Johnny. ele só diz bobagem. como ele vai estar? Sinto que alguma coisa terrível vai acontecer. — Louis não era assim — disse Gam. quero concorrer. é horrível. Muito cansado. ficou em silêncio. e agora só falta um dia. também. Sr. es- colheu o homem errado — disse Johnny. Demais para que conseguis- se dizer algo estimulante para Gam. — O que é isso? — O intermediário entre Deus e o homem. — Eu entendo — disse Johnny. O médium RP. — É o que estou querendo dizer! Ele está deteriorando mui- to rápido. Você pode ser o intermediário. — Você é o RP — disse Gam. — Que tal bebermos alguma coisa? — disse Gam. É evidente que ele pode interferir com as linhas de telégrafo exatamente da mesma forma que faz com outras mídias. então. mas juro por Deus. — Eu disse a ele que vou ganhar — murmurou Gam —. — Ele tirou do bolso um telegrama dobrado.

. como se não bastasse. Alfonse.. E ele certamente estava sendo sincero. . Certamente. Francamente. acho que a nossa melhor tática. E eu acho isso adorável. — Como você vai fazer com que eu seja eleito? — pergun- tou Alfonse Gam. Ela é boa gente. muitas pessoas o temiam. — Acho. mas acho que provavelmente teve alguma relação com Louis. um tipo de lealdade que é a um só tempo infantil e fanática. Eu vi as filas de pessoas que foram se despedir dele. — Ainda que ela seja psicótica. a neta de Louis? — Gosto dela. Foi uma coisa impressionante.. — Bourbon — disse Johnny. — Mas concordo com você. é explorar o sentimentalismo do povo em relação à morte de Louis. e dar uma olhada no uísque. — Con- cordo. — O que você acha da garota. — Old Sir Muskrat — falou Gam com uma careta.. Gam interrompeu. Quando ele estava vivo. Mas agora elas podem respirar melhor.. — Eu acho que você é maluco — disse Gam enquanto retornava com as bebidas. e os aspectos assustadores do. Ela tem uma espécie peculiar de devoção a ele.. não sei porque ela escolheu esse estilo de vida. carregando sua bebida até a cozinha para colocá-la de volta na garrafa. já tenha sido presa e. Não sou psicólogo. As pessoas continuavam indo. — Vê como preciso de você? — Vejo — disse Johnny.. — Que bourbon horrível! — disse Johnny bebericando seu drinque. Eu há conheço há algum tempo. Ele se foi. ainda seja uma fanática religiosa? — Sim — disse Johnny com convicção. temiam seu poder. — É melhor servir uma bebida melhor se não quiser real- mente acabar de vez com sua carreira de político. nossa única táti- ca.. dia após dia. viciada em drogas.

Ele concordou com Gam. ele não se foi.. Johnny. — Mas.. Você sabe que essa coisa balbuciante nos telefones e na tevê. exatamente como ficou a primeira pessoa que captou o sinal: o técnico do radiotelescópio em Brejo Kennedy — fez uma pausa e concluiu. ele não tinha tanta certeza assim. Johnny — disse Gam. Você pode confiar em mim. saiu o mesmo palavreado sem sentido. sinto medo de tirar o fone do gancho. e apenas um dia antes da Convenção. E ontem tentei usar minha máquina de escrever elétrica. é impossível fugir dele — lembrou Gam. Mas. Ou eles exploravam a associação de Gam com Louis ou não tinham absolutamente nada para recomendá-lo. . e é o que farei. Mas de que outra tática ele dispunha? Nenhuma com a qual pudesse sonhar. Talvez eu esteja cometendo um erro. O telefone na sala de Gam tocou. — Deixe tocar — disse Johnny. depois de pensar durante um momento. usa até o jornal. — O público está atônito. Uma base muito fraca na qual cimentar uma campanha de indicação.. — Quando ele quer entrar em contato por telefone e não consegue. Es- tou me colocando completamente em suas mãos. e ao invés da carta que eu estava tentando redigir.. é ele! — Mas ninguém mais sabe disso — argumentou Johnny.. Aquilo era tremendamente desa- gradável. A questão é justamente essa. enfático: — Por que eles deveriam associar uma emanação elétrica a uma semana-luz da Terra com Louis Sarapis? — Acho que você está cometendo um erro.. E você tem carta branca. — Por outro lado. — Obrigado. — Mas Louis me mandou contratá-lo. — Deve ser ele — disse Gam. Um texto escrito por ele. — Você quer falar com ele? Para ser sincero. por dentro. Ele não estava gostando disso. Talvez o público seja mais esperto do que eu penso.

— Agora que você não está trabalhando para ela. — Certo? — Vou pensar no assunto. Johnny. fitando os olhos de Johnny. — Vou fazer um cheque — disse. E ainda assim. Muito. As duas coisas estariam relacionadas. É a única coisa certa a fazer. Deixaram-no tocar. isto era exatamente o que Louis queria. faça pelo menos mais uma tentativa — disse Gam. e agora está com muita responsabilidade sobre os ombros. . e Gam não o pressionou. Louis pare- cia saber de tudo. é isso? — É isso — disse Johnny. Ela precisa de apoio. mas espero que cheguem a algum entendimento antes que seja tarde demais.. Mas ele sabia. mas não pode trabalhar com ela. que Gam tinha razão. — Al- gum dinheiro? — Eu gostaria. Acabo de me demitir de meu trabalho na Archimedean. Johnny resmungou. ou teria sido apenas coincidência? Provavelmente a primeira alternativa. Você também sabe disso. E não entrou em detalhes.. bem no fundo. Pelo bem dela. Johnny não disse nada.. — Acho que fizemos a coisa certa — disse Gam. Gam enfiou a mão no bolso do casaco para pegar a carteira. e comunicara isso a ele e a Gam. Gam era um cavalheiro. De alguma maneira. Nenhum deles se moveu até o telefone. — Ela é uma garota muito doente. — Você quer um adiantamento? — perguntou Gam.. — Você gosta dela. Quando o cheque mudou de mãos o telefone parou de tocar. como ia fazer isso? Ele não sabia. Espero que você possa reatar sua relação com Kathy Egmont Sharp. Não sei o que causou o desentendimento de vocês. E Johnny apreciava isso. — Escute.

Uma coisa que precisa- mos responder.. Phil Harvey disse a Claude St. E muito possivelmente. E se nós quisermos que eles falem. — Aquela garota está recebendo instruções do além-túmulo — disse Harvey. ela ainda o escuta. Cyr. Onde está o cadáver? — Estamos procurando — respondeu St. alguém está pagando os donos das funerárias para ficarem de bico fechado. Por que a pergunta? — respondeu Johnny. — E que garota estranha. — Ele balançou a cabeça. Ele não entrou em detalhes. ou jamais obteremos controle sobre as ações majoritárias da Wilhelmina. uma a uma. Ela nutria uma adoração cega por ele. meu amigo.. —Apesar de Louis estar definhando. — Sarah Belle? Ela nunca conheceu Kathy.. — Na verdade. Esta manhã. Isso preci- sava mudar.. Gam fitou seus olhos sem dizer nada. assustado. Cyr pacientemen- te. Cyr: — Há uma coisa que quero saber.. — Estamos verificando todas as funerárias. — O que a sua esposa pensa dela? — perguntou Gam. e os de Kathy tinham muitas nuanças. acho que você expressou perfeitamente. repugnado. — Parece que estamos cercados agora. — Concordo — disse St.. os problemas de Kathy tinham rela- ção com Louis. Há muita coisa que você não sabe. sórdido. — Ele estremeceu visivelmente. Mas há dinheiro envolvido. — Mas que pergunta estranha — comentou Johnny. — Isso é. Com toda certeza. eu o sintonizei na TV. essa Kathy — disse Gam. Como reparar danos tão profundos? Já era muito difícil reparar problemas. quando eu estava me barbeando. Como lidar com uma psicótica? perguntou-se. . — Mais estranha do que você imagina.

tentando influenciar a votação em favor de Alfonse Gam. Houve silêncio. Agora talvez possamos agir com mais sucesso. Cyr. Tenho a impressão de que ela está muito doente. — Ela está doente — disse St. — disse Harvey. — Mas os telefones não estão funcionando — disse St. ponderando. se ela fosse for- çada a permanecer internada.. Devido à sua dependência por drogas. trabalhando para Gam. Ele se perguntou o que seria da Archimedean Enterprises se Kathy fosse declarada incapaz de administrá-la. Se pudermos colocar uma escuta no telefone dele. Está me entendendo? Talvez ele esqueça de Kathy. foi idéia de Louis.. — Agora só se escuta aquele palavreado infindável.. de- . Meu Deus. — Mas Kathy não está agora na Archimedean — disse St. — Isso é tudo que eu sei. Ele olhou pela janela. Cyr em voz baixa. A interferên- cia de Louis. — A atenção de Louis estará concentrada nisso. para os carros e as pessoas. finalmente. — Acha que Johnny Barefoot sabe onde ela está? — Duvido. Acho que ela ficou muito abatida quando foi abandonada por Johnny. Phil. afinal de contas? — Ouvindo o telefone e a TV. fazer suas ligações passarem por aqui. Cyr. — Então onde ela está? Em Delaware? Na Wilhelmina Securities? Deve ser fácil encontrá-la. aliás. — Aposto que ela vai tentar ligar para ele. Phil.— Está num hospital.. Isso seria muito complicado. Johnny também está na Convenção. o que. — Você sabe muita coisa — disse Harvey. presumo. de onde ela veio. Ou ele ou já sabe ou saberá em breve. ele não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo.. Mas não sei onde fica o hos- pital. até mesmo mais longe ainda. Pode até ser fora da Terra. — Hoje é o primeiro dia da Convenção — disse Harvey. — Ele fitou gravemente o patrão. Deu entrada onde à noite. — Onde soube disso. na Lua ou em Marte..

— Ele fitou St. Mas havia mais uma funerária que ele queria checar. Era exatamente do tipo que Louis teria gostado. ando e não saio do lugar. e a pequena burguesia. Harvey estava dizendo: — Não conseguimos encontrar Kathy e não conseguimos encontrar o cadáver — dizia Harvey.. e eles vão indicar aquele maldito Gam. entre em contato comigo lá. E um belo dia nós acordamos e descobrimos que ele é o presidente. Cyr. Quando chegou à funerária. — Até agora você não tem me sido muito útil. Seus homens tinham estado lá. o que duvido. e um momento depois o Sr. com filiais em Chicago.. — Nos ve- mos depois. ao menos podemos continuar monitorando a TV. Cyr se viu a sós. "Herbert. que afluía em grande número para esse tipo de cerimônia. que significava. Cyr exigiu ver Schoenheit von Vogelsang pessoalmente. Mas há dezenas de milhares deles. E agora. fazia fila para retirar seus parentes semivivos. revoltantemente. Ele se sentia absolutamente indefeso. — Vamos verificar todos os hospitais. Cyr. Beleza do Canto do Pássaro". — E enquanto isso a Con- venção está em andamento. Ele foi até a porta. a da Terra ou. Nova York e Cleveland. — Estou indo à convenção — anunciou Harvey. Herbert Shoenheit von Vogelsang. E se não for nesta área. pode ser em qualquer lugar. Bem. o Dia da Ressurreição estava próximo. administrada por um indivíduo pomposo chamado. Cyr com antagonismo. também. um nome adequado para um homem que dirigia a Casa Funerária Sagrados Irmãos no centro de Los Angeles. pensou St. pensou Sr. Claude St. o que farei? Talvez deva ir à Convenção. Isso pode ajudar. decidiu. Se você pensar em alguma coisa. Ando. mas ele também queria verificá-la pessoalmente. em alemão. ando. O lugar estava cheio. . Filho da puta.pendendo de sob qual legislação ela estivesse. Claude. a criatura de Louis.

e. Depois de caminharem algum tempo. Um completo fracasso como este não pode acontecer naturalmente. acredito que alguém fez isso de propósito. se é que me entende. — Senhor. Importamos do Japão a última palavra em equipamentos de ampliação de ganho. Acenou para dois funcionários e lhes passou instruções. O dono da funerária. . — É claro. — Sim. St. Cyr. Olhando para o cartão. estamos realmente tentando — murmurou. Cyr — disse obedientemente Herb Schoenheit von Vogelsang. St. Francamente. — Estamos gastando milhares de dólares de nossos próprios fundos para tentar fazer contato com ele. senhor. Sr. Cyr pousou seu cartão comercial sobre o balcão. o local onde os corpos eram mantidos sob refrigeração. — Trêmulo. mesmo assim.. quer falar comigo? — disse Schoenheit von Vogelsang. — Estou aqui meramente para levar o corpo — disse St.. — O senhor está planejando algum tipo de atitude litigiosa? — perguntou trêmulo o proprietário da funerária. Cyr finalmente viu o esquife de Louis Sarapis. — Já deve ter ouvido falar de mim. — Mande seus homens colocarem-no num carro fúnebre. Schoenheit von Vogelsang empalideceu. — Eu asseguro que nós. — Dou-lhe minha palavra. que estamos tentando. O cartão ainda descrevia-o como consultor jurídico da Archimedean Enterprises. — Sou Claude St. não obtivemos resultados. Cyr. pálido e agitado. — Deixe-me vê-lo — disse St. conduziu St. — O se- nhor pode vir ver com seus próprios olhos. St. Cyr até a caixa. Cyr — declarou. ele recuou do balcão. quando finalmente apareceu no balcão de atendimento.

. St. a voz monótona entoou: . — Nada — disse St. Tudo que ele ouvia era a voz estranha e distante de Louis Sarapis. Cyr? Porque se o senhor for. mas ao mesmo tempo decidido a seguir com seu plano. pensou St. Vasculhando a sala. Cyr. Já agüentamos isso por muito tempo. ainda com o mantenedor de sinais vitais ativado. — O senhor não vai nos processar por negligência. Dentro em pouco o corpo no esquife estava num carro fúne- bre. o corpo queimou e murchou. Quando o corpo em seu esquife. e o plástico derreteu. Cyr. ameaçador. Cyr. e gesticulou para que o motorista partisse. St. — O que é engraçado? — perguntou o motorista do carro fúnebre. Mais uma vez. A fina camada de gelo que cobria o esquife entrou em ebuli- ção. pegou o telefone e discou um número. Assim que saiu da funerária. Lá dentro. Não preciso dela. — No que me diz respeito. foi deixado na casa de Harvey e o motorista partiu. Cyr. sendo finalmente reduzido a uma massa compacta semelhante a carvão. Cyr guardou a pistola de raios de volta na gaveta da escrivaninha. ele encontrou. St. e o motorista ouvia as instruções de St. repugnado. Sr. Cyr? — Espero que vocês ofereçam o veículo — disse St. uma pistola de raios. desfiando seu monólogo interminável. ainda rindo. Cyr começou a rir. numa gaveta de escrivaninha. Em seu ouvido. Cyr laconicamente. vai. Cyr pegou o telefone e discou. St.. Não vou esperar pela aprovação de Harvey. o caso está encerrado — disse St. St. Satisfeito. — Trouxe um veículo. Mas se descobriu incapaz de falar com o Salão de Convenções. Sr. Ele desligou. Apontou-a para o caixão de Louis Sarapis e apertou o gatilho.

Dê-me o microfone e eu direi a eles: Gam. o bambambã. um grande slogan para você. — Como você sabe? Ele lhe disse? Meneando a cabeça positivamente. Gam o bambambã. o bambambã. Johnny. lembre disso. Cyr ligou o televisor. A voz de Louis Sarapis não provinha do cadáver. — O que é. Mas ele conseguiu obter os serviços de um pajem-robô. Ele teve a impressão de quase chegar à explicação. Gam. Claude St. Porque o corpo já não existia. Harvey apareceu... Claude? — perguntou. Gam. estava lotado. É alguma outra pes- soa tentando parecer Louis! — disse St. — . Cyr pegou um cigarro e o acendeu com uma mão trêmula. Ela não é Louis.Ninguém senão Gam é capaz de fazer isso. A voz. Cyr. Mas não completamente. Simplesmente não havia conexão entre eles. V De monotrilho — ele deixara seu minicóptero na Casa Fu- nerária Sagrados Irmãos — Claude St.. — A voz que ouvimos. acrescentou: — É melhor me contar logo. Cyr seguiu até o Salão de Convenções.. Através do sistema de alto-falantes. emanou também de seu alto-falante.. Harvey disse: . O lugar. a presença de Phil Harvey foi requisitada a uma das salas usada como local de reunião pelas delegações que queriam negociar em segredo. e quando viu a expressão no rosto de seu advogado. Ficou mudo diante daquilo que não compreendia. cansado pelo esforço de atravessar a multidão densa de espectadores e representantes. Claude St. Nada havia mudado. obviamente. Sentando-se em uma cadeira. O ruído era ter- rível. Cyr bateu o telefone e se virou para a massa negra que fora Louis Sarapis. tentando entender o que isto significava. Deixe que eu falo. quando St..

— Não tenho certeza absoluta — admitiu. Procure se controlar. Você não foi enganado na funerária. — Meu Deus. Cyr soltou uma gargalhada. é mais uma forma de loucura do que de degeneração. — Agora é você quem está falando coisas sem sentido. Não era treinado no campo da psiquiatria. ele não conseguia ver nada. Era um vazio. Phil. — Mas eu acho que era. . — Mas de quem seria essa voz? — questionou Harvey. — Claude. Harvey assentiu positivamente. quando sentiu que tinha se recomposto. era tarde demais para comprovar que o corpo era realmente de Louis. tem certeza absoluta disso. Mas espera-se que isso aconteça em algum momento de hoje.. uma reação não-viva desconhe- cida? Um processo inerte sem propósito? St. — Eu não sei — disse St. — E o corpo que você destruiu era o de Louis. E aspectos jurídicos não tinham nenhuma aplicação aqui. Então ele se calou. Corre o rumor de que um representante de Montana vai fazer isso. exceto em seus aspectos jurídicos. ela está vindo de além do sistema solar. Cyr com toda franqueza. Ou a loucura em si é degeneração? Ele não sabia. O que tomamos por deterioração dos padrões mentais. — Ainda não. Em todo caso.. Acredito nisso agora e acreditei na hora. Existe um elemento de desequilíbrio nisso. você acha que é alguém que está aqui? — perguntou. Era até aí que seus processos lógicos ti- nham chegado. Além disso. um vazio assustador.. Podem ser alienígenas? Algum tipo de eco. — Alguém já indicou Gam? — perguntou a Harvey.. Não restava muita coisa do cadáver para realizar esse tipo de análise. pensou. alguém que co- nhecia Louis bem o bastante para introjetar suas características para nos enganar. — Mas aposto que é alguém aqui mesmo deste planeta.

. colocando-se em evidência. — St. esperando. Entra e sai de dele- gações diferentes. Eu preciso tentar. Também acreditava nisso. TENTAR! . Cyr.. — Acho que vamos ouvir falar dela antes que o dia acabe — disse St. — Do que presumimos que seja Louis? A presença dele? Ou a presença da coisa. Eu queria não saber o que sei agora. — É melhor deixar que ele descubra sozinho — sugeriu St. Cyr hesitou. Harvey assentiu positivamente.. Cyr. Nenhum sinal de Gam. continuou pensando. — Você tem medo da coisa? — indagou St. os apoiadores de Gam estão preparados. seja lá o que for? — Ainda não — disse Harvey. De certa forma. — Você está certo em tomar essa atitude — disse St. — Talvez devêssemos contar a Johnny — disse Harvey... Claude — disse Harvey. eu preferia não tê-lo encontrado. Ele sentia-se do mesmo jeito. é claro. pensou. agora que finalmente encontrou o cadáver de Louis. reunindo-se com representantes. — O que você disser. mas isto agora era muito pior. jornal e aparelho de tevê. Tentar encontrar a resposta. disse a si mesmo. — Está muito ocupado. — Harvey assentiu com a cabeça. pensou St. isto aqui virar uma loucura. Era melhor quando pensávamos ouvir Louis falando conosco de cada telefone. tenho a impressão de que a resposta está lá fora. brados e acenos de bandeira. agora que nem mesmo sabemos quem ou o que ela é. é claro. Afinal. — Nenhuma indicação de. eu tenho confiança plena em você.. — Muito bem. Cyr. Aplausos. Afinal. em algum lugar. Ele não chega antes do final do discurso de indicação quando. Cyr. — É claro — disse Harvey. Isso tinha sido ruim. — Mil vezes mais do que antes. — Johnny Barefoot está aqui? — Está. Cyr.

ele compreendeu.. Isto estava resolvido. Ele não a via desde sua partida para o U. tenso. tinha parado momentaneamente. A distorção.. Gam quisera obter a indicação e a conseguiria. se respondera ou não à terapia. O processo inteiro da Convenção. E ela iria sair — se saísse um dia — da mesma maneira. de forma ainda mais profunda. ela não era o tipo de pessoa ca- paz de acatar ordens. exigia muito de seus nervos. Cyr estava segurando uma pistola de raios. Cyr parado na porta. Por outro lado. poderia muito bem ser um sintoma do processo da doença.ela encontrará uma forma de sair. todo o resto era desprovido de sentido. Ela tinha se internado voluntaria- mente. Ele também intuía isso... sua formalidade. Uma intuição profunda dizia-lhe que ela não conseguira. O quanto Kathy estava realmente doente? Provavelmente muito. E isso. seus dis- cursos e paradas. Hospital. A porta da sala abriu. Hospital em San Francisco.. contrariava a sua natureza. Ele se levantou devagar e . apontada para Johnny. Ninguém daria ordens a Kathy. a presença invasora oriunda de uma semana-luz de distância. aos eventos da Convenção através de um circuito fechado de TV. com ou sem drogas. Cyr. Johnny Barefoot assistia. — Onde está Kathy? — perguntou St.. Neste momento ele não tinha a menor idéia da condi- ção em que ela se encontrava. St... se ela queria sair. Seus pensamentos estavam focados em Kathy Egmont Sharp. — Eu não sei — disse Johnny. Talvez ela jamais fosse liberada do U. Sozinho numa sala lateral. Ele desviou os olhos do televisor. Estava cansado.C. Então tudo dependia dela. .C. Ele podia imaginar isso. Mas para Johnny. E viu Claude St. e ele podia ver e ouvir o representante de Montana realizar o discurso de indicação para Alfonse Gam.

carregando enormes faixas pintadas a mão. Você sempre trabalhou dentro da lei. Kathy é a única pessoa que conheço demente a ponto de fazer isso. — O que você vai fazer? — perguntou Johnny. alcançou a porta e saiu para o corredor. assentindo com a ca- beça. o bom homem. apontando-lhes sua arma — e Johnny Barefoot passou correndo pelos representantes. vote em Gam. Desceu correndo o corredor e um momento depois emergiu no grande saguão central no qual a indicação de Gam era come- morada calorosamente. espremeu-se entre os . — Está — respondeu Johnny. Gam. Cyr virou-se para eles. Cyr disse: — Acho que a voz que ouvimos é de Kathy. — Exatamente — confirmou St. — Você não é assim. Você encontrou a funerária certa. St. Então você destruiu o corpo. Cyr. Um eufórico grupo de repre- sentantes. Cyr até este ponto. A porta foi aberta novamente. perguntando-se o que havia trazido St. E caminhou até Johnny. — A única forma de saber que a voz não é de Louis seria destruindo o corpo — presumiu Johnny. entrou soprando cometas e brandindo bandeirinhas. não pode ser você. Além disso. — Diga o nome da cidade. — Você sabe. vote em Gam." Kathy. Gam o bambambã. Saiu do salão.cambaleante. relutante. Continuou correndo. Eu agora sei que não é de Louis. Cyr. vote em Gam. Simplesmente não pode. até este comportamento extremado. Você chegou a Herb Shoenheit von Vogelsang. — Ela está na Terra? — perguntou St. correligionários de Gam. só podemos presumir. ainda empunhando a pistola. Eu vou matar você se não me disser. Dos alto-falantes fixados no teto uma voz dizia repetidamente: "Vote em Gam. — Por quê? — disse ele. Claude. Diga o nome do hospital. St.

O minicóptero decolou. Devemos sentir pena de você? Ou devemos odiá-la. se eu posso vê-lo. — Conseguimos fazer com que ele agisse.. em pé diante do salão de convenções. St. não como gosto de minha esposa e de minhas filhas. Sua mente se divide em suas partes. mantendo-o sob vista. não deixe que vejam você. uma fica na superfície e é aquela que vemos. Mesmo se quiser realmente.. brandindo flâmulas. — Então funcionou — disse St. Cyr.. Talvez seja um processo autônomo. os minicópteros e carros estaciona- dos. Aposto que está indo para Los Angeles ou San Francisco. Eu te amo. Talvez St. temê- la? QUANTO MAL VOCÊ PODE CAUSAR? Acho que a verdadeira questão é essa. Qual é o motivo para isso? Fez sinal para um minicóptero marcado TÁXI.. a outra.. — Diabos. passou pelos homens e mulheres com olhos vítreos e chapéus engraçados. Sinto ao menos alguma forma de amor por você. — Para San Francisco — instruiu ao piloto. Você esteve esperando Louis morrer? Você nos odeia? Você nos teme? É isso? O que explica o que você está fazendo. Droga. Talvez você não esteja consciente de que está fazendo isso. Se for você. No solo. ele pode me ver. Cyr esteja errado. Cyr e Phil Harvey observaram o minicóptero partir. então está doente demais para se recuperar. pensou Johnny. isto é horrível. Havia uma multidão lá fora tentando entrar. Mas ligou o . e alcançou a rua.representantes que dançavam em delírio. pensou. hélices girando a toda velocidade. mas gosto. alcançou uma altura superior à dos edifícios e rumou para oeste. Phil Harvey fez sinal para um segundo minicóptero. Os dois homens embarcaram nele e Harvey disse: — Está vendo aquele táxi que decolou? Fique atrás dele. Eu gosto de você.. emergindo de sua mente inconsciente. Talvez não seja você. A outra é aquela que nós ouvimos. Mas se puder.

. Ao lado dele. Hospital em San Francisco. Abriu a porta e entrou no quarto. Harvey mantinha os olhos fixos no helicóptero à frente.C.taxímetro e começou a subir. — E o horário de visitas só começa. Deixei de fazer muitas corridas porque a central não conseguiu falar comigo. E creio que o doutor está almoçando agora e provavelmente não voltará antes da uma hora. Deixou a enfermeira falando sozinha e foi até a atendente no balcão de informações. — A Srta. e pou- sou no heliporto no terraço do prédio principal. — Eu não gosto deste tipo de coisa — disse o piloto. Cyr não disse nada. — Eu vou aguardar.. atento aos números nas portas até ver o quarto 309. Não fazia diferença. Mas não se importou com isso. Quando chegou no U. — Ligue o rádio se quiser ouvir alguma coisa que seja peri- gosa — disse-lhe St. Cyr.. — Mas o senhor precisa da permissão do Dr. Você não acha que a polícia devia fazer alguma coisa a respeito? St. — A Srta. Descendo pela escadaria. — Obrigado — disse Johnny. — Apontou para uma sala de espera. Tinha sido seguido o tempo inteiro. — Se o senhor quiser aguardar. Sharp está na sala 309 — disse uma enfermeira idosa e de óculos com lentes grossas. como manchas solares ou talvez algum operador amador.. — Onde ela está? — O senhor terá de perguntar a uma atendente — disse a enfermeira. Fechou a porta atrás de si e procurou . Gross para vê-la. saiu no terceiro andar e abordou uma enfermeira. — Ah. e soube que tinha razão. o rádio não está funcionando — resmungou o piloto. — Pode ser perigoso. — Algum tipo de interferência. Ele passou direto pela sala de espera e seguiu o corredor. Sharp — disse ele. Johnny viu o segundo minicóptero circular em vez de passar direto.

tentando abrir a porta. Ele recuou. — Eu vou embora — disse ele. mãos crispadas. um homem. — Vá embora. — Você está morto — disse ela. À janela. ela se virou. — Eu quero ir embora — disse ela. braços levantados. Gam — murmurou Kathy. Cyr tinha razão. esquivando- se do golpe. Estou vivo. Ela o soltou. o cheiro de morte dentro de você. e esbofeteou Johnny. Sinto o seu cheiro. Ela continuou segurando-o. — Gam. — Gam. Estava tomado pelo pânico. mas estava vazia. e conseguiu encontrar a ma- çaneta da porta às suas costas. Gam. Eu vou embora. As unhas de Kathy afundaram em seu ombro. vivo. tudo que queria era fugir dali. — Eu quero ir embora — disse ele. — Kathy. Kathy avançou contra ele. — Eu sou Gam — sussurrou Kathy. — Claude St. imitando perfeitamente a voz de Johnny. me solta — disse ele. as unhas direcionadas contra seu rosto. cobrindo o rosto com os braços. — Claude St. — Sou o bambambã. — Ela riu.pela ocupante do quarto. possivelmente seus olhos. um homem de verdade — sussurrou ela. — É você — disse Johnny. braços esticados para trás. Havia uma cama. Enquanto observava os olhos de Kathy. Ele se abaixou. Me largue. — Eu quero Gam porque ele é o bambambã. vestida com seu roupão. — Kathy — disse ele. Cyr tinha . sorrindo para ele. fitando-o profundamente. Ele então viu a mão direita de Kathy elevar-se no ar. Ele caminhou de costas. o rosto cheio de malícia e ódio. Johnny viu os restos dissolvidos de sua personalidade expirarem.

— E você vai estar morto. — A janela — disse Kathy. ele não entrou em semivida porque eu o comi. Assustados demais para se opor a ele. sou Louis. — Sou Gam. Vou embora. você e os outros. — E vai governar os mortos — disse Johnny. Eu sinto isso. — Mas não vai demorar. Alfonse e eu tínhamos preparado tudo. não assustamos? Vocês estão assustados. perto do queixo. Gam gosta. Qual é o sentido de tudo isto? — O sentido é que eu mostro como vocês realmente são — disse Kathy. — Faça agora. eu vou embora. Ela agora estava entre ele e a porta. Ele vai ser indicado. vislumbrando suas . Nós assustamos você. e de novo e de novo. atingindo-a no lado do rosto. Eu gosto. Quando morreu. Vou comer todos vocês. certo. Ela sorriu. e vou ser todos os outros. O transmis- sor lá fora com o gravador preparado. Cyr e Harvey gostam. ele se moveu rápido para um lado. cantarolando. e então de repente estava em pé e avançando contra ele. — Por que fingiu ser Louis? — Eu sou Louis. Antes que ela conseguisse alcançar Johnny. e a esbofeteou com toda sua força. até St.razão. — Todo esse ódio está na sua mente — disse ele. —Você ainda não sabe? Você é ainda pior do que eu. até sentir a porta às suas costas. Ela se atirou contra ele. e Johnny recuou. Ele se tornou eu. caiu. Ela abriu a boca para exibir dentes afiados e brancos como a morte. Pôs-se a caminhar até ele. Eu apenas estou sendo honesta. eu sei disso. — Ele ainda não foi indicado. Johnny Barefoot. — Todo mundo gosta de você. E eu vou ser a mulher dele. Ela girou para trás. e quando você estiver morto eu vou ser você. Ele já foi indicado. Eu estava esperan- do por isso. O que queria fazer quando eu o impedi.

Talvez eles tenham acabado matando-o. A idéia era fazer Gam ser indicado e então eleito. E a essa altura a eleição já terá terminado. Ele parou também. e St. — Então estava tudo planejado. St. — Ele estava calmo. arruinadas pela força de seu golpe — e então a porta do quarto se abriu. — Mas o transmissor será uma prova irrefutável de sua culpa. E vocês todos iam ficar parados. Cyr olhou para Johnny Barefoot. ele ia me matar. enquanto mantinham todos aterrorizados com a transmissão. — Bem. Ela é doente. A maior parte da loucura dela estava sob a superfície. — Posso convencer um júri de minha sanidade. acompanhados de duas enfermeiras. Eu posso representar o Estado contra ela. — Talvez — murmurou St. provavelmente anos atrás. Isso é bem mais fácil do que parece. Cyr deu com os ombros. — Eles o posicionaram há muito tempo. — Mesmo com a nave mais rápida que existe. Cyr. Kathy parou. — Venha. — Eu vou exigir um julgamento — disse Kathy. Johnny ia me matar. — Eles têm um transmissor imenso lá fora — informou Johnny. muito mais doente do que imaginávamos. onde não aparecia. Alfonse será presidente. — Foi por causa disso que o colocamos tão longe — disse Kathy. Durante todo esse tempo eles esperaram que Louis morresse. preencher os documentos de compromisso e mandar iniciar seu tratamento. ainda mais doente do que vocês imaginaram. Barefoot — disse St. amarrando a cinta de seu robe. o que não lhe era normal. — Vocês levarão meses para alcançar o transmissor — disse Kathy. St. e eu já fiz antes. Cyr e Phil Harvey. Johnny atravessou o quarto e se juntou a eles.feições distorcidas e inchadas. chamando-o com a cabeça. Cyr. Cyr. mas falando devagar. — É possível — disse St. ela terá de ser examinada. observando e apreci- ando — disse Kathy calmamente. — O testamento me nomeou como curador. entraram. — Conseguimos tudo com o dinheiro de Alfonse e a rainha .

— Ela estava falando baixo. — Não contra mim. — E vai acabar pulando. Ele caminhou por quarteirões e mais quarteirões até seus pés estarem doendo. Mas Kathy. — E eu não pulei. Ele parou e olhou em volta. Ela agora parecia completamente senhora de si. Johnny percorria as ruas de San Francisco. Ele começou a caminhar pelo corredor. Não conseguia se lem- brar nem mesmo de quando saíra do hospital. Kathy correu os olhos de um homem para o outro. Era importante que Kathy jamais fosse esquecida pelas pessoas que a tinham visto como ela era real- . — Vamos embora — disse Johnny. Cyr e Phil Harvey? Ele não con- seguia lembrar de ter se separado deles. de Kathy ele lembrava. — O que você tem não é bastante. A tarde escureceu e se tornou noite. Vou continuar perseguindo você. — Em mais um minuto. subindo e descendo ladeiras. E você não terá onde se esconder. Ele não poderia esquecê-la nem se quisesse. ignorando os prédios e as pessoas.habilidade. com a voz carregada de confiança. — Eu também tenho um pouco de riqueza e poder — disse Harvey. — Você tem poder. — Você queria que eu pulasse — disse Johnny. Onde estavam Claude St. Nada é impossível para mim se eu quero Tudo que preciso é querer bastante. até ele se aperceber que sentia muita fome — eram quase dez da noite e não comia nada desde o começo da manhã. E ele não queria. vendo nada. meramente caminhando sem parar. As luzes da cidade estavam acesas e ele também ignorou isso. Se eles não tivessem entrado. — Acho que podemos derrotar Gam. mesmo se ele for indicado. Sabe que eu irei perseguir e encontrar vocês. Eu herdei a habilidade de Louis. Os três. Eu sou capaz de fazer qualquer coisa. afastando-se do quarto 309 e de Kathy Egmont Sharp. mas não tem imaginação — disse Kathy. queimando. — Você teria pulado — disse Kathy. mãos enfiadas nos bolsos. como se quisesse absorver os três.

Gam. O telefone clicou em seu ouvido. os dois. os telégrafos. Intro- duziu uma moeda na ranhura e discou o número de sua própria casa. Gam em novembro. Ganhe com Gam. compreendeu. comendo por reflexo até a comida desaparecer e chegar a hora de pagar a conta. Todas as mídias foram ocupadas. PROMETE CAMPANHA PODEROSA PARA ELEIÇÃO DE NOVEMBRO Então ela conseguiu. tudo que precisam fazer é derrotar Kent Margrave. O que qualquer um pode fazer? Todos os meios de comunicação deixaram de funcionar. Não tinha chances. Numa banca de jornais ele viu a manchete em letras negras e garrafais: GAM OBTÉM INDICAÇÃO. E então a voz familiar e monótona entoou: — Gam em novembro.. os telefones. GAM! Ele desligou e saiu da cabine telefônica. não deixaram nada com que nós. tudo que depende de transmissão por microondas ou circuitos elétricos. Eles conseguiram exatamente o que queriam. Numa lanchonete. E agora. Eles vão triunfar. Eles conseguiram. No balcão da lanchonete pediu um sanduíche e um café. E aquela coisa está lá fora.mente. . a uma semana luz daqui. pensou Johnny. possamos contra-atacar.. E continuará a fazê-lo por meses a fio. Presidente Alfonse Gam. para falar com Sarah Belle. Eles têm o rádio. a oposição. os jornais. Ainda está emitindo sinais. bambambã. satisfazendo as exigências de seu corpo sem prazer ou desejo. Sentou-se para comer mecanicamente.. o bambambã. a TV. encontrou uma cabine telefônica. O que posso fazer? Perguntou a si mesmo. Eles capturaram todas as mídias..

pensou. — Mas onde é a sua casa. — Celebrando? — perguntou rouco. — Mas seu período de semivida. — Leve-me para casa. — Nada. conduziu-o para dentro. A luta — para ele — aparentemente estava terminada. para sua esposa e filhas. Conversei com os Nelsons e eles me disseram que a voz era idêntica à de Louis. O que aconteceu? Ele se sentou no sofá e acendeu um cigarro. — Não — disse ele.. — Um dólar e dez cents — disse a garçonete. Estava desistindo. nervosa. E então. Ti- nha esquecido. — Ah. — O que eu posso fazer por você? — perguntou. — Johnny. sim — disse ele. — O seu candidato foi indicado. — Achei que você estava celebrando. — Era o Louis Sarapis na TV e nos telefones? A voz parecia a dele. para a sala aquecida e familiar. — Não era Louis. estava voltando para Sarah Belle. . nunca vi você tão abatido. Ela foi à cozinha fazer café para ele.. Não consigo entender... — Deus do Céu. Johnny! Você parece péssimo — disse Sarah Belle quando o viu parado em pé na porta. — Ela o beijou. morte. Ia ser uma viagem longa. será a hora da nossa. Derrota. Quando viu um minicóptero marcado TÁXI pairando nas proximidades. Essa é a realidade terrível que nos aguarda. — Eu era o RP dele. compa- nheiro? Ele lhe deu o endereço em Chicago e se recostou. — É melhor deitar — disse Sarah Belle. fez sinal. assentindo. quando ele assumir a presidência. — Certo — disse o piloto. Ele pagou a refeição e saiu da lanchonete. Louis está morto.

sentados na sala de estar. — Vou visitar Phil Harvey — Volto mais tarde — disse ele. isso levará um mês. mais Claude St. Johnny. — Você sabe quem são os Nelsons. Ao menos seria antes da eleição. não sabe? Os novos vizinhos que se mudaram para o apartamento que. — Sim — respondeu Claude St. Eu precisava dizer isso. viu Johnny. — Contamos absolu- tamente tudo a ele. hesitante. E mesmo usan- do o míssil mais rápido que existe. . encontrou Phil e Gertrude Harvey. Acho que vocês exageram na campanha. humildes. Isso daria a eles várias semanas para promover a campanha. Johnny resmungou. Mas a esta distância. olhos assombreados de preocupação. Eles disseram que se Alfonse Gam fosse indicado. E então disse: — Eles disseram uma coisa. levantando-se. — Eu não quero falar — disse ele. — Isso não preocupa você? — perguntou Sarah Belle.. — Essa é a verdade. e então desviou o olhar. Cyr. — Não. — Pelo menos isso é alguma coisa — disse Johnny. eles não votariam nele. Cyr. Ela o observou caminhar até a porta. Harvey levantou os olhos. — Vocês vão desistir? — perguntou a Harvey. — Ela o fi- tou. — Vamos tentar destruir o transmissor.. Eles simplesmente não gostam dele. Quando foi admitido à casa de Phil Harvey. a pressão exercida por Louis na TV e nos telefones. Ele está morto. — Estou em contato com Kent Margrave — disse Harvey. Acho que você não vai gostar de ouvir. Esqueça-o. — Margrave compreende a situação? — perguntou Johnny. Eles simplesmente não gostam dis- so. por um minuto. a nossa chance de acertá-lo é uma em um milhão. mas nenhum deles falando. cada um com um copo na mão. Sarah Belle se calou. — Acho que eles estão reagindo à pressão. Os Nelsons são pessoas simples. — Nem ouvir nada.

Ela antes. e então ofereceu as quatro pontas superiores às pessoas na sala. este inteiro. Johnny. Phil Harvey meneou a cabeça positivamente. — Há mais uma coisa que precisamos fazer. Eu posso fazer. — Mas isso não é suficiente — disse Phil Harvey. — Sou eu. se necessário. pegando os quatro pa- litos. Por que não? Realmente. Um pavor frio tomou o corpo de Johnny Barefoot. um deles partido ao meio. Alfonse Gam — disse St. — Eu estava apaixonado por ela — confessou Johnny. Agora Phil Harvey acrescen- tou um quarto palito. Harvey posicionou e reposicionou os quatro palitos na mão. E em segui- da. Johnny viu três palitos de fósforo. o mais cedo possível. — Pegue um palito — disse Harvey. — Primeiro ela. deve ser o primeiro a tirar. eu sei — falou. Ele ficou calado por um momento. — Sim. que também tirou um. Phil estendeu os remanescentes para St. Nela. Esticou o braço e escolheu um dos dois palitos. Dois sobraram na mão de Phil Harvey. Cyr. Uma mulher por . — Você consegue fazer? — perguntou-lhe Claude St. por que não? perguntou-se. eu tiro — disse Johnny. — Eu peguei o pequeno — disse ele. — Não eu — disse ele. — Então nós vamos tirar sem você — disse Gertrude Harvey e pegou um palito. — Certo. Cyr. Foi o quebrado. Cyr. com um peso enorme no coração. — Vamos. Então deu com os ombros e disse: — Claro. Você quer participar? Quer tirar a sorte no palitinho? Ele apontou a mesa de café. Como foi o último a chegar. — Ainda estou.

e não de uma semana-luz no espaço. Cyr. sentados num círculo. Nós não temos outra saída. Sozi- nho na noite escura e fria. — Que tal uma bebida? — ofereceu Phil Harvey. Os quatro. levantando-se e pousando o copo. abriu-a e saiu sozinho. Cyr. — Boa sorte — disse Gertrude. pro- cure-a lá. Vou dizer como sabemos. — Consultamos alguns dos técnicos de Phil e obtivemos um con- selho interessante. Johnny caminhou até a porta. Porque isso precisa ser feito. Por exemplo. — Portanto. — Certo — disse Johnny. assentindo levemente. As transmissões deles acompanharam a evolução dos acontecimentos. Cyr. Não houve lapso de tempo nesse momento. Se você descobrir que ela saiu do hospital. beberam. Johnny aceitou. a sua tentativa de suicídio no Hotel Antier. — Pode não ser tão difícil quanto achamos — disse St. Johnny — disse Gertrude Harvey. A maior parte das transmissões deles está vindo de um local próximo. a primeira coisa que precisamos fazer é encon- trar a base deles aqui na Terra ou pelo menos aqui no sistema solar — continuou St. * * * . — E eles não são sobrenaturais. — Pode ser no rancho de galináceos de Gam lá em Io. — Tenho — respondeu. lenta e silencio- samente. nem em nenhum outro. — Você tem uma arma? — perguntou St.quem eu estava me apaixonando. Certamente posso assassiná- la.

Sr. — Eu. como se estivesse mensurando a passagem do tempo.. ex-combatente — disse Munster. Dr. Jones.. condomínio San Francisco. — Sou militar reformado. Seus olhos reluziram com sociabilidade enquanto ele girou na cadeira. — Foi assim que consegui meu apartamento de condomínio em WEF-395: privilégio de ex-combatente. — Lutei três anos nessa guerra — disse Munster. — Bom dia. alisando . o analista foi ligado. e por que me selecionou — disse o Dr. não estava acostumado a lidar com os novos psicanalistas totalmente automáticos. estalando a língua em inter- valos regulares. con- tar meus antecedentes ou o quê? — Talvez você possa começar contando-me quem é und warum mich. Ser um Bolho! Ele introduziu uma moeda de platina de vinte dólares na ranhura e. Pode começar. devo associar livremente. Jones. edifício WEF- 395. senhor. isso foi há um século. — Sou George Munster. Jones estendeu o braço e George Munster apertou sua mão. inaugurado em 1996.. sim — disse o Dr. Jones.. mas o cumprimento foi muito másculo. Creio que o senhor não é o mesmo Dr. da Rua Suspensa 4. pegou uma caneta e um bloco de papel amarelo na mesa e disse: — Bom dia. Jones que escreveu a biografia definitiva de Freud. após uma pausa. A mão possuía uma temperatura corporal agradável e era macia. — Riu de nervoso. — A guerra com os bolhos.. Ah. Sendo um homem muito pobre.. Munster? O Dr. — Ah. — Como vai.

Eram aperfeiçoamentos da ameba unicelular original. Ele se calou de repente. cujo propósito era alterar a atmosfera da Terra. daí a divergência. mas ainda assim eram amebas. Deitou-se no divã. — Lutei bem — continuou George Munster. Até lembrar e falar sobre a guerra era muito forte para ele. com pseudópodos. ou ao menos era o que eles alegavam. O Departamento de Auxílio Externo das Nações Unidas quisera mudar a atmosfera de Marte. eles tendem a se fundir e a se dividir de forma confusa.nervosamente os cabelos longos e negros que começavam a escassear. essa alteração jamais foi concretizada graças à ação imediata do Gabinete de Guerra das Nações Unidas. e absolutamente repulsivos aos colonos terrestres. estalando a língua e ace- nando com a cabeça. Há vários milhares de anos havi- am se instalado em Marte e em Titã. refletiu Munster. mas a cruzada para livrar o Sistema Sol dos bolhos era mais importante para mim. — Hum. Dentro de um período de dez anos a atmosfera alterada tinha se difundido pelo planeta.. Cabo. devido à natureza do movimento browniano.. sendo bolhos. não foi possível mudar metade da atmosfera de um planeta.. de modo a torná-la mais adequada a colonos terrestres. de mãos vazias. Os bolhos tinham emigrado originalmente de outro sistema solar. um satélite de observação cheio de bolhos. uma armada de bolhos tinha se aproximado da Terra e posto em órbita uma série de satélites de tecnologia muito avançada. — Na verdade. estava emocionado.. Os . provavelmente Próxima.. fui agraciado com duas condecorações e uma citação de bravura. esta mudança seria prejudicial aos colonos bolhos já estabelecidos lá. Jones. Em retaliação. Eram muito grandes e detentores de um sis- tema nervoso altamente organizado. Contudo. A guerra tinha irrompido devido a considerações ecológicas. saindo-se muito bem em suas empreitadas agrárias. acendeu um cigarro e tentou acalmar-se. — exprimiu o Dr. É claro que nunca saberemos exatamente quantos eles eram porque. Evidentemente. causando sofrimento aos bolhos. E. reproduzindo-se por divisão celular.. Eu tinha apenas 19 anos e possuía um bom emprego. Isso porque varri. — Eu odiava os bolhos e me apresentei como voluntário.

. — Eu era um espião terrestre. — Ele estremeceu. Sr. Que benefício extraíra da sessão com o Dr. Vou ser franco.. Essa era a minha atribuição... Jones. Conseguir um trabalho era uma tarefa impossível. bem no meio de seu apartamento no WEF-395. o Dr. eu não me tornei voluntário... Eles me escolheram para o trabalho devido à minha bravura no campo de batalha. e a Terra venceu a guerra. — É casado. senhor. — Não. Jones estalava a língua. num reflexo de sua tensão. E tinha depauperado seus míseros recursos financeiros. porque assim que ele era contratado. e se sentou sozinho para beber numa xícara de café. — Entendo — disse o Dr. Ele fechou e abriu o punho. Seus recursos financeiros consistiam de uma pequena pen- são do Ministério da Guerra. Munster? — perguntou o Dr. Jones. Munster não disse nada. Porque durante quase 12 horas por dia ele revertia — apesar de todos os esforços seus e da Agência de Hospitalização de Veteranos das Nações Unidas — à forma de bolho de seus tempos da guerra. Jones hoje? Apa- rentemente. Ele se transformava numa bolha unicelular amorfa. Munster. Munster abriu uma garrafa de uísque Teacher's. — Sabe o que era necessário naquela época para fazer de um terrestre um espião entre os bolhos? Assentindo com a cabeça. nenhum que pudesse perceber. Diante dele. Sr. Naquela noite. — Ele amassou o cigarro no cin- zeiro. o Dr. Era preciso abdicar da forma humana e assumir a forma repelente de um bolho. Porque. Jones disse: — Sim. — Entende? — A voz de Munster falhou na garganta.satélites foram detonados por mísseis auto guiados. de volta ao seu pequeno apartamento em WEF-395. míseros porque. porque carecia da energia necessária para pegar um copo no armário sobre a pia. doutor.. — O senhor vai entender o porquê depois que eu tiver acabado de contar minha história.. a tensão ...

fazia-o reverter bem na frente do seu novo patrão e colegas de trabalho. ele se sentia mais uma vez começando a reverter. ainda precisava lidar com um telefone tocando! Alcançando o telefone. porque sempre reverto à forma que o Ministério da Guerra me forçou a . apesar do que tinha lhe dito. — Não posso atender — disse ao telefone. pensou enquanto desligava. pensou amargamente. Mas que merda. ele ondulou na direção do telefone. Agora o apartamento estava silencioso. que ainda tocava. o playground para crianças pequenas que era a Ilha Alcatraz. terminou de beber seu uísque e pousou a xícara na mesa. Sentiu uma raiva ardente. Munster fluiu de volta através do tapete. onde subiu num objeto alto para apreciar a paisagem. mas que ele odiava. Com toda certeza. — Ligue mais tarde. às oito da noite. Com grande esforço. Isso não ajudava a formar boas relações no ambiente de trabalho. Não posso levar uma vida genuinamente humana. até a janela. O telefone tocou. Suspirando. e se sentiu derreter numa poça homogênea. a Ponte Golden Gate.. O microfone no aparelho captou sua mensagem angustiada e a transmitiu à pessoa no outro lado da linha. era capaz de apreciar — nostalgicamente — a visão da Baía de San Francisco. — Estou ocupado — ressoou gravemente para o bocal do telefone. Não posso me casar.. quando eu serei capaz de readquirir a forma humana. Agora Munster tornara-se uma única massa gelatinosa transparente no meio do tapete. formou uma substância plástica com a aparência de um aparato vocal. era uma experiência antiga e familiar. agora. estendeu um pseudópodo e tirou o fone do gancho. Havia um ponto sensível à luz em sua superfície externa. com todos os seus problemas. Ligue amanhã de manhã. Apressadamente. e em- bora ele não possuísse uma lente.

E se pôs a fluir laboriosamente de volta através da sala até o aparelho.. que os aspectos físicos da sua condição ficam fora de meu domínio. era lon- ga. Jones soou: — Sinto incomodá-lo. E então percebeu que não poderia fazer isso. Quando o senhor me consultou sobre os seus problemas. eram imensos. ele não sabia que a transformação deixaria este efeito permanente. além de auditiva. especialmente quando está nessa. a pressão em sua psique. pressionou o botão que permitiria comunicação visual.. Tinham lhe assegurado que era "apenas temporário. — O analista automático fez uma pausa. — O quê? — disse Munster. Mais uma vez o telefone tocou. — Tá legal! — disse Munster em voz alta. para alguém em forma de bolho. A voz do Dr.. pensou Munster com ressentimento fu- rioso e impotente. Jones. — Não es- queça. — Vou falar com você.. — Mas dediquei algum tempo a pensar no seu problema. Jones se apressou em dizer. — Quer falar comigo? — disse enquanto se aproximava mais e mais.. era o ajuste psicológico que. Em sua forma de bolho ele levaria dias até ondular pelo percurso todo até o . Munster. Quando aceitou a missão. e exibiu sua forma amorfa ao tubo de escaneamento do vídeo.assumir na época do conflito. Você pode até ligar a tela de vídeo e olhar pra mim. — Estou indo agora mesmo ao seu consultório para conver- sarmos — disse Munster. Munster. A viagem. Sr. — Encha seus olhos — disse. Os problemas psicológicos criados para ele. Ao chegar ao telefone.. situação incômoda. Posso ter ao menos uma solução parcial. — Está dizendo que a ciência médica agora pode. não — o Dr. — Não. tomado pela surpresa. transitório". Transitório o cacete. Já faz 11 anos que levo esta droga de vida. Daí a sua visita ao Dr. Sr.

Ele começou a desligar o telefone.. doutor. o meu problema está na cara — disse Munster.consultório do Dr.. — Adeus. doutor — murmurou. Jones. Sr. entediado. Jones. Munster. 83 terráqueos foram transforma- dos em bolhos em algum momento durante a guerra. às onze da manhã. — Mas vou lhe dizer o que quero. E daí? Em que isso o ajudava? Talvez ele pudesse descobrir às onze horas do dia seguinte. Esteja no meu consultório amanhã. — Você tem um bloqueio mental contra ser ajudado — disse o Dr. não estou me referindo a outros terráqueos — disse o Dr. Você não é o único nesta condição. revertemos em conjunto. Eu nem posso visitá-lo em seu consultório para. Ele desligou. agitado. Ao todo. Então neste momento havia 50 bolhos caminhando por Titã. dos quais 50 são membros. e descobri que de acordo com registros capturados na Biblioteca do Congresso 50 bolhos foram transformados em pseudo- terráqueos para agir como espiões para o lado deles.. — Quando estou em minha forma de bolho meu raciocínio não é muito rápido. Boa noite. — Cale-se. Munster disse: — Não exatamente. Dos 83 — ele sabia os dados de cor — sessenta e um sobreviveram e agora existe uma organização chamada Veteranos das Guerras Antinaturais. Sa- bia disso? — Claro que sei. — Estou tentando lhe dizer algo. — Jones. Munster — interrompeu o Dr. ainda intrigado. Munster. . O senhor está entendendo? Depois de um momento. Cuidaremos então da solução do seu problema. — Já pesquisei isso para o senhor. O senhor terá de me desculpar — disse. Jones. das oito até as sete da manhã. — Fico preso neste apartamento todas as noites. Então foi para isso que servira seu dinheiro: ouvir notícias velhas. Nós nos reunimos duas vezes ao mês. Eu sou membro. amaldiçoados a ocupar formas humanas. Jones. — Sr..

Veremos pensou.. até que de repente a moça levantou a cabeça e se pôs a fitá-lo. Ele é bom? — Bem. uma jovem muito atraente. Arrasmith. A porta da sala interna abriu. Cabelos pintados de branco casca- teavam por trás do pescoço da jovem. quem paga os vinte dólares? Mas o analista tinha se emudecido. — Freqüento outro psicanalista completamente automático em Los Angeles. lendo um exemplar da Fortune. Jones? — Não — admitiu ele. acho que sim — disse Munster. — Srta. — Também cumpri- mentou George com um aceno. Munster. Arrasmith disse: — Então. Que garota linda. não é? — balbuciou Munster. Ele se regalou com a visão dela. Bing. cotovelos pequenos e delicados. Automaticamente.. fingindo que também lia um exemplar da Fortune. meu analista. Jones esta manhã. Jones viu. narinas pe- quenas. pensou. — Esta é apenas a segunda vez. Ontem à noite. Munster manteve-se a admirá-la com deleite. — Eu pago — disse a Srta. Pernas bem torneadas. Quando entrou na sala de espera do Dr. — Você vem sempre ao Dr. — Nunca vim aqui antes — disse a garota. Olhos inteligentes. Arrasmith — disse o analista automático. Estava desligado agora. em pé. telefonou para mim e me disse para voar para cá e me encontrar com o Dr. revelando Dr. enfiando a mão na . meneando a cabeça para a garota. Munster encontrou um lugar para se sentar de onde pudesse vê-la. — Vocês dois podem entrar juntos? Levantando-se. sentada numa poltrona ao lado de um abajur. Jones. a Srta. É exatamente isso que não sabemos neste momento. — Sr. E um rosto de feições delicadas. o Dr. — É chato esperar...

o Dr. é o estado de reversão involuntária. — Correto. Jones. Sr.. não — disse Munster. Foi descoberta e aprisionada. eles conseguiram induzir um retorno à minha forma natural por um período de. no momento em forma humana — conti- nuou o Dr. — Não. — Sentem-se.. Jones disse: — É um cavalheiro. Munster só conseguiu fitar a garota. — A condição na qual ela se encontra é um motivo de gran- de vergonha para qualquer bolho de casta elevada — explicou o Dr. eu sou como vocês me vêem agora. para ela. Ele pegou uma moeda de vinte dólares e a introduziu na ranhura do analista. Confirmando com um meneio de cabeça. Durante a guerra ela operou em território terrestre. — Ainda assumo a forma humana. — Obviamente. sem preâmbulos. A Munster. Arrasmith.. por vergonha. deixe-me explicar a sua.. o analista automático conduziu os dois até seu consultório. Arrasmith num tom baixo. e por isso permaneci na Terra. Eu cheguei a visitar Titã para discutir minha condição com as autoridades médicas de lá. — De cerca de um quarto do tempo. Arrasmith é uma bolho. — Eles me libertaram — disse a Srta. Depois de me submeterem a uma terapia cara e prolongada. — Permita-me. por favor. mudo. — Ela hesitou. o mecanismo disse: — A Srta. mas então a guerra acabou e ela não foi julgada nem senten- ciada. ao Sr... a Srta. Sorrindo. Imediatamente. Munster. Jones. por favor. condição. Srta. Mas durante os outros três quartos. .. Arrasmith se sentou..bolsa. Simples- mente não posso voltar para Titã e. — Este. atuando pela Liga de Guerra Bolho.. cuidadosamente controlado.. doutor. Munster. segurando um lencinho de linho irlandês e tentando aparentar autocontrole.

. — Ambos são párias em suas civilizações.. Reprodução. Arrasmith. E então. é nojenta. durante cerca de uma hora. Ela abaixou a cabeça e levou o lenço ao olho direito. Com toda certeza. O analista se calou.. Munster. nojenta mesmo. Munster ponderou. Munster — disse a Srta. a Srta. e não vamos ficar mais em isolamento. — Como o Dr. O Dr. você tem sorte! — protestou Munster. vocês dois possuem sete horas de 24 nas quais ambos possuem formas idênticas. Jones disse. — Uma forma humana é infinitamente superior a uma forma bolho. — Na verdade. Arrasmith é basicamente uma bolho e o senhor. — Caramba. Jones estalou a língua e comentou: — Durante um período de cerca de seis horas as suas for- mas humanas coincidem. um tanto curto. — Ele fez um gesto largo.. Depois de um momento. — Acho que temos muita sorte. Estudando-a. Portanto. mas. . A não ser que vocês possam desenvolver um relacionamento. Você é como uma água-marinha. — Isso foi anos atrás — disse Munster. — O analista automático tamborilou sua caneta no papel. Eu descobri isso na carne. Como um bolho você precisa se arrastar para onde quiser ir. as suas formas bolho coincidem. Sr. no todo. Arrasmith disse: — Mas o Sr. o vestido. Na minha opinião. — Correto — concordou o Dr. sem esque- leto para mantê-lo ereto. Se vocês entendem o que estou dizendo. Predigo para ambos uma deterioração gra- dual terminando finalmente num problema mental grave. Jones. Ela sorriu esperançosa para ele. concedia-lhe uma bela pista disso.. — Ele corou. suavemente. enquanto ajustava seu casaco.. Podemos desfrutar desse tempo juntos. E a divisão celular. você sabe. — Sete horas não é tão ruim assim. a Srta. Munster e eu somos inimigos naturais. tinha um corpo e tanto.. quando comparada com a forma terrestre de.. um terráqueo. nós coincidi- mos durante sete horas por dia.

— Dê-lhe tempo — disse o Dr. Jones à Srta. Arrasmith. —
Minha análise é que ele verá que isto é correto e fará a coisa
certa.
Ainda ajustando seu casaco e piscando seus olhos grandes
e escuros, a Srta. Arrasmith aguardou.

Alguns anos depois, o telefone do consultório do Dr. Jones
tocou. Ele o atendeu da forma habitual.
— Por favor, senhor ou senhora, deposite vinte dólares se
quiser falar comigo.
— Ouça, eu sou do gabinete jurídico das Nações Unidas e
nós não depositamos vinte pratas para falar com ninguém. As-
sim, acione aquele mecanismo dentro de você, Jones — disse
uma voz grossa de homem, do outro lado da linha.
— Sim, senhor — disse Jones, e com a mão direita puxou a
alavanca atrás da orelha, que fazia-o operar gratuitamente.
— Em 2003, você aconselhou um homem e uma mulher a
se casarem? Um George Munster e uma Vivian Arrasmith, agora
Sra. Munster?
— Ora, sim — disse o Dr. Jones, depois de consultar seus
bancos de dados embutidos.
— Já investigou as ramificações legais do caso deles?
— Bem, não era minha obrigação preocupar-me com isso.
— Você pode ser desativado por ter aconselhado qualquer
ação contrária à lei das Nações Unidas.
— Não existe lei que proíba uma fêmea bolho e um macho
humano de se casarem.
— Muito bem, doutor, quero dar uma olhada nos históricos
dos casos dos dois — disse o advogado das Nações Unidas.
— Absolutamente não — disse o Dr. Jones. — Isso seria
antiético.
— Então vou conseguir um mandado e apreender os histó-
ricos.
— Faça isso — disse o Dr. Jones, levando a mão até atrás de

sua orelha para se desligar.
— Espere. Pode interessar a você saber que os Munsters
agora têm quatro filhos. E, segundo a Lei de Mendel, a cria segue
uma razão rígida de um, dois, um. Uma menina bolho, um
menino híbrido, uma menina híbrida, uma menina terráquea. O
problema jurídico provém do fato de que o Conselho Supremo
dos Bolhos alega que a menina bolho de sangue puro é uma
cidadã de Titã e também sugere que um dos dois híbridos seja
doado à jurisdição da corte. Entenda, o casamento dos Munsters
está se dissolvendo. Eles estão se divorciando e é difícil
descobrir quais leis se aplicam a eles e ao seu caso.
— Sim, creio que deve ser realmente difícil — admitiu o Dr.
Jones. — Mas o que causou o fim de seu casamento?
— Não sei e não me importo. Possivelmente o fato de que
ambos os adultos e duas das crianças alternem diariamente
fisiologias bolho e humana. Talvez a tensão que isso provoca
tenha sido demais. Se quiser dar-lhes conselhos psicológicos,
entre em contato com eles. Adeus.
E o advogado das Nações Unidas desligou.
Terei cometido um erro ao aconselhá-los a se casarem?
perguntou-se o Dr. Jones. Talvez eu deva contatá-los. Devo ao
menos isso a eles.
Abrindo o catálogo telefônico de Los Angeles, começou a
correr o dedo pelos assinantes com inicial M.

Os últimos seis anos tinham sido muito difíceis para os
Munsters.
Primeiro, George tinha se mudado de San Francisco para
Los Angeles. Ele e Vivian alugaram um apartamento num
condomínio com três cômodos ao invés de dois. Vivian,
mantendo-se em forma humana durante três quartos do tempo,
conseguira um trabalho. Ela trabalhava em contato direto com o
público, dando informações no Quinto Aeroporto de Los Angeles.
Mas George...
Sua pensão correspondia a cerca de um quarto do salário
de sua esposa, o que ele considerava humilhante. Para aumentar
seus rendimentos, começou a procurar por uma forma de ganhar

dinheiro em casa. Finalmente encontrou numa revista este
anúncio:

FAÇA DINHEIRO EM SEU PRÓPRIO CONDOMÍNIO! CRIE SAPOS-
BOIS GIGANTES JUPITERIANOS, CAPAZES DE SALTOS DE VINTE
E QUATRO METROS. PODEM SER USADOS EM CORRIDAS DE
SAPOS (ONDE AS LEIS PERMITIREM) E EM...

Assim, em 2038 ele tinha comprado seu primeiro casal de
sapos importados de Júpiter e iniciara uma criação, visando lucro
rápido, no seu próprio condomínio, num canto do porão que
Leopold, o servente automático, deixava-o usar gratuitamente.
Mas na gravidade razoavelmente baixa da Terra, os sapos
eram capazes de saltos imensos, e o porão se revelou pequeno
demais para eles. Os bichos ricocheteavam de uma parede para
outra como grandes bolsas de pingue-pongue e morriam logo.
George concluiu que era preciso mais do que um canto do porão
do condomínio QEK-604 para fazer uma criação desses malditos
bichos.
E então nasceu a primeira filha do casal. Ela se revelou uma
bolho puro-sangue. Durante 24 horas por dia, ela era uma massa
gelatinosa e George se flagrava esperando em vão que ela assu-
misse uma forma humana, ainda que por um só momento.
Ele discutiu acaloradamente com Vivian a esse respeito, du-
rante um período em que ambos estavam sob forma humana.
— Como posso considerá-la minha filha? — perguntou a
Vivian. — Ela é... uma forma alienígena para mim. — Ele estava
desanimado e até horrorizado. — O Sr. Jones devia ter previsto
isso. Talvez ela seja filha sua... ela é igualzinha a você.
Lágrimas encheram os olhos de Vivian.
— Você diz isso como um insulto.
— É claro que digo como um insulto. Quando lutamos con-
tra vocês, nós os considerávamos criaturas no mesmo nível que
as arraias — ele vestiu o casaco. — Vou à sede dos Veteranos
das Guerras Anti Naturais — informou à esposa — tomar uma

cerveja com os rapazes.
Logo depois ele estava indo rever seus companheiros dos
tempos de guerra, feliz da vida por sair de seu apartamento.
A sede do VGAN era um decrépito edifício de cimento no
centro de Los Angeles remanescente do século XX e tristemente
necessitado de uma mão de tinta. A VGAN tinha poucos fundos
porque a maioria de seus membros estava, como George
Munster, vivendo de pensões das Nações Unidas. Contudo, eles
tinham uma mesa de sinuca, um velho televisor 3-D, algumas
dúzias de fitas de música popular e também um tabuleiro de
xadrez. George costumava tomar sua cerveja e jogar xadrez com
seus colegas, ou na forma humana ou de bolho; este era o único
lugar em que ambas eram aceitas.
Nesta noite específica ele se sentou com Pete Ruggles, um
colega que também se casara com uma fêmea-bolho que
revertia, assim como Vivian, à forma humana.
— Pete, eu não agüento mais. Tenho uma bolha de gelatina
como filha. Durante minha vida inteira eu quis uma criança, e
agora o que tenho? Uma coisa que parece algo que achei
encalhada na praia.
Bebericando sua cerveja — ele também estava sob forma
humana no momento — Pete respondeu:
— É, George, admito que é uma droga. Mas você sabia no
que estava se metendo quando casou com ela. E, Deus do céu,
segundo a Lei de Mendel, o seu próximo filho...
— O que estou dizendo — cortou-o George — é que eu não
respeito a minha própria esposa. Essa é a base da coisa. Eu
penso nela como uma coisa. E também penso em mim assim.
Nós dois somos coisas.
Ele bebeu sua própria cerveja num só gole.
— Mas do ponto de vista dos bolhos... — disse Pete, medi-
tativo.
— Ei, de que lado você está?
— Ei, não grita comigo — disse Pete —, senão eu te estouro.
Um momento depois os dois estavam brigando. Felizmente Pete
reverteu para a forma bolho bem a tempo de impedir que os dois

se machucassem. Agora George estava sentado sozinho, em
forma humana, enquanto Pete escorria para algum outro lugar,
provavelmente para juntar-se a um grupo de rapazes que tam-
bém tinham assumido a forma bolho.
Talvez possamos fundar uma nova sociedade em algum
satélite remoto, disse George a si mesmo. Uma sociedade nem
humana nem bolho.
Preciso voltar para Vivian, resolveu George. Qual outra
opção me resta? Tenho sorte de tê-la encontrado. Não sou nada
além de um veterano de guerra que enche a cara de cerveja na
sede da VGAN todo dia e toda noite, sem futuro, sem esperança,
sem vida real...
Ele tinha um novo esquema de ganhar dinheiro. Era um ne-
gócio de venda postal. Ele tinha colocado um anúncio no
Saturday Evening Post anunciando MAGNETITAS MÁGICAS QUE
ATRAEM SORTE. ORIUNDAS DE OUTRO PLANETA! As pedras
tinham vindo de Próxima e eram obtidas em Titã; fora Vivian
quem fizera o contato comercial para ele com o povo dela. Mas
até agora, poucas pessoas tinham enviado o dólar e cinqüenta
cents pelas pedras.
Sou um fracassado, disse George a si mesmo.

Felizmente a criança seguinte, nascida no inverno de 2039,
revelou-se uma híbrida; assumia a forma humana cinqüenta por
cento do tempo, e assim, finalmente George tinha uma criança
que era — ao menos ocasionalmente — pertencente à sua pró-
pria espécie.
Ele ainda estava no processo de celebrar o nascimento de
Maurice quando uma delegação de seus vizinhos do condomínio
QEK-604 bateu em sua porta.
— Trouxemos uma petição para que o senhor e a Sra.
Munster saiam do QEK-604 — disse o dirigente da delegação.
— Mas por quê? — perguntou George, atônito.— Vocês não
fizeram qualquer objeção contra nós até agora.
— A razão é que vocês agora têm uma criança híbrida que
irá brincar com as nossas, e consideramos isso insalubre para
nossos filhos.

George bateu a porta na cara deles.
Mas ainda assim ele sentia a pressão, a hostilidade das
pessoas que os cercavam.
E pensar que lutei na guerra para salvar essa gente. Com
toda certeza, não valeu a pena.
Uma hora depois ele estava mais uma vez na seda da
VGAN, tomando uma cerveja e conversando com seu camarada
Sherman Downs, que também era casado com uma bolho.
— Sherman, a coisa está feia. Eles não nos querem aqui.
Precisamos emigrar. Talvez tentemos Titã, o mundo de Vivian.
— Deus do céu, George! — protestou Sherman. — Eu odeio
te ver caído desse jeito. A sua empresa de venda de cintos
redutores não está começando a dar lucro?
Durante os últimos meses, George vinha fabricando e ven-
dendo um instrumento eletrônico complexo que Vivian ajudara-o
a projetar; era baseado no princípio de um dispositivo bolho
popular em Titã, mas desconhecido na Terra. E o produto come-
çara a vender bem; George tinha mais encomendas do que podia
atender. Mas...
— Eu tive uma experiência horrível, Sherm — confidenciou
George. — Outro dia eu estava num supermercado, negociando
uma grande encomenda de meu cinto redutor. E quando fecha-
mos negócio, eu fiquei tão empolgado que... que... Bem, você
imagina o que aconteceu. Eu reverti. Bem ali, na frente de uma
centena de clientes. E quando viu aquilo, o comprador cancelou
o pedido. Você devia ver o medo que eles sentiram de mim
quando eu mudei.
— Contrate alguém para vender para você — aconselhou
Sherm. — Um humano puro-sangue.
— Eu sou um humano de puro-sangue, e não esqueça! —
gritou George, furioso.
— Eu só quis dizer.
— Eu sei o que você quis dizer! — bradou George, e desfe-
riu um soco contra Sherman.
Felizmente, ele errou, e no meio da empolgação, ambos re-
verteram para formas de bolho. Eles escorreram furiosamente

Essa é a resposta.. ele podia mergulhar numa piscina cheia de cloro. Todas as horas em que você está sob forma humana! — Mas você não iria querer continuar casado comigo. Sentia-se mais inferior à esposa a cada dia que passava. Até os cintos tinham sido idéia de Viv. . pelo amor de Deus. Qual seria a melhor maneira de fazer isso? Sob a forma de bolho ele era incapaz de sentir dor. — Você tem muito a oferecer às crianças — disse Vivian. Isso foi humilhante. — Mas se você estabilizar como um humano. Isso era verdade. Eu não quero ir. flagrou-o parado hesitante na borda da piscina. Suicídio... o que será de mim? — Nós passaríamos 18 horas inteiras juntos por dia.um contra o outro durante algum tempo. Ele precisou telefonar para pedir a Vivian que fosse pegá-lo. Viv. portanto seria melhor matar- se assim. — Vou falar com eles. volte ao Dr. Certa madrugada. Jones. como a que o con- domínio QEK-604 mantinha na sala de recreação. — George. Vivian. em sua forma humana. Por- que você então poderia conhecer uma mulher humana. — Bobagem — respondeu formando com uma porção de seu corpo um aparato quase vocal.. — Talvez eu faça uma visita ao Gabinete de Guerra das Na- ções Unidas — decidiu. mas finalmente alguns colegas veteranos conseguiram separá-los. Várias substâncias seriam capazes de dissolvê-lo. e não sua. Ele era in- ferior até nisso. e ver se há alguma novidade na ciência médica que possa ser usada para me estabilizar. — Não adianta. decidiu. — Sou tão humano quanto qualquer outro terrestre! — pen- sou/irradiou George ao modo bolho para Sherman. — E eu acha- to qualquer um que disser o contrário! Sob forma de bolho George era incapaz de ir para casa.

Enquanto isso. Arrumou uma amante. marido de Nina... Certa noite. — Eu respeito você — disse Nina Glaubman. Talvez ele devesse investigar isso.. Nada senão o futuro. híbrida. ajudando-o com os botões. Este socialismo totalitário imposto pelas Nações Unidas. não é para mim. por exemplo. — Nina. A empresa de cintos redutores tinha crescido tanto que agora George empregava 15 funcionários humanos em tempo integral e possuía uma fábrica pequena e moderna nos arrabaldes de San Fernando. Ele reconheceu que isso não era justo com ela. — Reinhold. O . ele agora seria um homem rico. eu tenho grandes planos — disse George com dificuldade enquanto bebia sua cerveja. — Apesar de. ele discutiu o assunto com Reinholt. que obviamente ignorava o modus vivendi entre George e Nina. George se perguntou como seria a taxa de impostos nas terras dos bolhos. sua terceira criança nasceu. George encontrou uma solução para alguns de seus problemas. na sede da VGAN. Ele começou a abrir os botões da blusa da amante. de você ter sido inimigo de meu povo. Precisamos esquecer de nosso passado. você me deu um novo motivo para viver — disse George. refletiu. — Não devemos pen- sar nos velhos tempos. Io. também uma menina. e como Maurice. um carcomido prédio de madeira no coração de Los Angeles. Ele e Nina encontravam-se no Hotel Elísio.... Era bolho à noite e humana de dia. Abandonou a idéia. bem. bebericando uísque Teacher's sentado ao lado dela no sofá velho do quarto de hotel. Se os impostos das Nações Unidas fossem razoáveis. Pensando nisso. Na primavera de 2041. — Deus do Céu! — protestou George.

estava terminado. duas crianças meio-bolhos.— Uma idéia desesperada lhe ocorreu. ainda tremendo. — Eu sei como meu povo iria me tratar. George sentou- se com Vivian na sala de estar de sua suíte de oito quartos no grande novo condomínio de apartamentos ZGF-900. — Você é um traidor! — acusou-o Reinholt. e a você e as crianças. a voz carregada com emoção. — Eu vou ficar aqui.sistema está me sufocando. — Você anda saindo com a minha mulher. George. Eu vou matar você. Mude a fábrica para Io. esta noite. Em seguida. naturalmente — são toda a minha vida. Reinholt também reverteu. agora mesmo. O Cinco Magnético Mágico Munster é — ele fez um gesto largo — grande demais para a civilização humana. — Lágrimas afloraram de seus olhos ne- gros. socando George no estômago. . Seu caso fora descoberto. você precisa acreditar em mim — disse George. Se emigrar para um território regido por bolhos com a sua fábrica você vai trair o seu. vá você. O casamento. — Viv. e uma quarta a caminho. Este provavelmente era seu último momento juntos. — Não posso ir — disse Vivian.— Vamos emigrar agora. George reverteu à sua forma de bolho. tentando consumir e absorver o nucléolo de George. e lhe deu um soco na boca. Felizmente.. os outros veteranos separaram seus corpos antes que qualquer dano permanente fosse causado. Os golpes de Reinholt trespassaram inofensivamente a sua substância úmida e gelatinosa. George.. até onde George podia ver. — Eu te amo. — E não apenas isso — continuou. em Titã e Io. e certamente Reinholt iria contar a Viv. Está me entendendo? — Mas. Mais tarde naquela noite. você é um terrestre — argumentou Reinholt. e fluiu para ele com sanha assassina. era apenas uma questão de tempo. eu tenho uma criança bolho autêntica. Para escapar. Eu possuo traços emocionais fortes com essas pessoas lá em cima. também... — Pense bem. Você e as crianças — e mais o negócio dos cintos. Faça as malas das crianças e vamos para Titã.

mas a firma de George contava em seu corpo de empregados com advogados de altíssimo gabarito — talvez ele pudesse usá-los para resolver seus problemas domésticos... e a problemas pessoais. Durante as semanas seguintes a idéia de uma mudança para Io pareceu cada vez mais viável de um ponto de vista de lucro e investimento. Devido à ansiedade por causa desta mudança da Terra para Io. Bateu o telefone e se virou para a junta de diretores de sua companhia. — Nin- guém vai perturbá-lo. — Estou sentindo que vou ter um ataque. Nolan. onde estávamos? — indagou. conduzindo Tom Hendricks para fora do gabinete particular de George. — Ouça — disse George. queremos começar com o pé direito. Sr. não há casamento. — Agora mantenha todo mundo fora do meu escritório até segunda ordem — disse à sua secretária. — Sim. ficarei com Maurice e ela poderá ficar com Kathy. Ela já estava acostumada a manter todos fora do gabinete enquanto George revertia à sua forma de bolho dos tempos da . sim. E contra- tou ela própria um advogado. Vivian descobriu sobre Nina. que tipo de vida seria essa? — disse George.. Munster — disse a Srta. — E consiga barato. que para todos os efeitos foi a primeira criança. E quem ficará com as crianças? Provavelmente Viv ficaria com elas. E. — Vá a Io comprar terras — instruiu George a seu agente de campo. — Com você na Terra e eu em Io. Nolan.. Henry Ramarau — consiga-me a custódia da quarta criança. Até onde me diz respeito. Tom Hendricks. — Ah. ela será humana. Na manhã seguinte. ao telefone falando com seu con- sultor legal. — E então. anali- sando os impostos de Io. é só dela mesmo. Srta. na- turalmente. E nós faremos acordo com as duas hí- bridas. — Merda. ela ficará com aquela bolha.

Seria como nos velhos tempos. — George acrescen- tou: — Vivian. Nolan que um Dr. mais tarde naquele dia. dou- tor. É parecido com a coleira antipulgas que os gatos usam. posso ver que é um homem importante e atarefado. — Pelo seu tom. Nolan ele disse: — Ligue para o doutor Jones e me passe a ligação quando conseguir. eu sou um magnata. — Doutor — disse George. — Sim. Vou tirar um minuto para conversar com ele.. Estou no jogo dos cintos redutores. devido à pressão intensa que ele estava sofrendo. o que posso fazer pelo senhor? — Soube que você tem quatro filhos agora. . recostando-se na cadeira e girando de um lado para o outro enquanto encontrava a melhor posição para uma orquídea em sua mesa. Isso vinha acontecendo muito nos últimos dias. em San Francisco. — Na verdade três. — Macacos me mordam! — exclamou George. Com a própria gente dela. pensando em seis anos atrás.guerra. Ouça. ele será um humano puro-sangue. George soube pela Srta. reassumiu a forma humana. Segundo as Leis de Mendel. Estou cansado de reverter constantemente. Jones havia ligado. mais um quarto a caminho. Quando. o senhor se lembra dela. notei que agora tem uma secretária. — Pensei que a esta altura ele estava no ferro-velho. — Que bom falar com o senhor. esse quarto é vital para mim. Dali a pouco a Srta. — Sr. Munster. Sr. onde ela pertence. Munster. Juro por Deus que farei tudo que puder para conseguir a custódia sobre ele. agora está de novo em Titã. Já aturei muito essa vida. A voz do analista automático chegou ao ouvido de George. desde a última vez em que o vi. Certamente subiu na vida. E estou pagando os melhores médicos do mundo para me estabilizarem. Nolan tinha o Dr. dia e noite.. Jones na linha. À Srta. Bem.

meu coorde- nador médico. ligue para Hank Ramarau. — Por que telefonou? — Eu. bem. de volta aos negócios.. Noite e dia. — Acho que é bom lhe dizer isso da forma mais direta. Munster.. Estamos no processo de finalizar algumas táticas comerciais estratégicas aqui na Munster. Mas vamos superar esse contratempo. certo? . — Mas que merda. — Oi. Ouça. impacientemente. de alguma maneira. Ouça. Isso não basta? — Não. Como vão as coisas? — Disse George.. Falo com você depois disso. Nolan imediatamente apareceu no escritório.. Inc. preciso desligar.. — Sr. — Aquela mulher? Jamais. outra bolho — disse George. — Somos capazes de providenciar isso — disse George. Eu já chequei. — Chega de rodeios — disse George. — Srta. Pressionou um botão em sua mesa e a Srta.. Hank. Duas bolhos são melhores que nenhuma. achei que talvez pudesse juntar novamente você e Vivian. George. — Ramarau hesitou. Hank. Quero saber. Nolan. te- nho uma consulta marcada com Eddy Fullbright.. — Mas para ser um cidadão de Titã. — Acabo de descobrir que para operar sua fábrica em Io você precisa ser cidadão de Titã — respondeu o consultor legal de George.. Ramarau está aguardando na outra linha — disse a Srta. — Disse que é urgente. disse a si mesmo.. — Ao menos em parte do tempo.. — Hum! — exprimiu George. Nolan. doutor. desligan- do o telefone. — O Sr. — Isso é ruim. e é preciso que você seja um bolho cem por cento do tempo. passan- do para a outra linha. E agora. Você precisa ser um bolho. eu já sou um bolho! — argumentou George. — Bah! — resmungou George. há outra mulher em sua vida? — Não outra mulher.

anteriormente conhecida como Vivian Arrasmith. E estamos travando uma batalha violenta pela custódia das crianças — ela arrumou o casaco. Jones cordialmente. Meu marido está tendo um caso com outra mulher. Bem. para timidamente cobrir os seios. Munster. Ela enxuga seus olhos grandes e negros. se a Lei de Mendel for confiável. Desligou o telefone e ficou sentado à sua mesa. Jones. A moeda de platina de vinte dólares entrou na ranhura e acionou o circuito. Fatos são fatos.. decidiu. Uma quarta criança. Jones foi ligado. — Mas eu achava que você estava em Titã.. Vivian — disse o Dr. Jones. . Evidentemente ele é um empresário tão importante agora que é difícil falar com ele. a quem reconheceu — graças à rapidez de acesso de seus bancos de dados — como a Sra. — Desta vez será um hu- mano de puro-sangue. — Estou grávida. — Doutor. seu médico. e não podemos deixar que eles fiquem em nosso caminho. se precisa ser. arrasada. de seios pontudos. esfregando o queixo. que seja. levantou a cabeça e viu uma mulher estonteante. Vivian — disse o Dr. Só posso deduzir que ela seja humana. mas não consigo encontrar George. — Gostaria de poder ajudá-la. a minha vida inteira está ruindo. ele partiu — disse a Sra. — Bom dia. embora geralmente seja aplicada apenas a filhotes.. Durante o mês passado ouvi todo tipo de con- selho. — Sei disso — disse o Dr. — Estive em Titã conversando com especialistas jurídicos e médicos. George Munster. Pegou o telefone e discou o número de Eddy Fullbright. ginecologistas e especialmente conselheiros de proble- mas matrimoniais. Nós dois demos entrada no processo de divórcio. O Dr. mas ele falou apenas trivialidades. — Conversei rapidamente com seu marido outro dia. Tudo que sei é que o nome dela é Nina e que todos os rapazes lá da sede da VGAN estão falando disso.. O analista automático se levantou e ofereceu uma cadeira à cliente. Agora estou de volta em Terra.

em pé ao lado dele.. — Passarei estes documentos ao meu governo. se ao menos eu puder descobrir onde ele está. estendeu um pseudópodo até ela. Estou certo de que eles estão em ordem.? — perguntou o analista automático. — E. — O sacrifício supremo — disse o analista. Sr. — E pensar que ele conseguiu tudo por causa de uma idéia que eu dei a ele. — O Sr. George — concordou Hank Ramarau. Vivian. — Através dos avanços mais modernos em ciência médica no Sistema Sol. — É verdade.. A Munster Inc. e com a ferramenta cavou uma quantidade simbólica de solo. Ele fez uso das técnicas mais avançadas da medicina para obter estabilidade na fase unicelular de sua rotação anterior. se quiser manter seu mari- do. segurando os documentos legais. gelatinosa e transparente — escorreu até Ramarau e pegou os documentos.. a mais avançada e mais cara. — As ironias do destino. através do aparato vocal que ele formara com a substância maleável e pegajosa que compunha seu corpo unicelular. George Munster fluiu lentamente até a pá. ao invés de 18. jamais iria trapacear. Na cerimônia de inauguração em Io. Uma idéia de bolho. Dr. Agora sou uma hu- mana 24 horas por dia. Renunciei à minha forma natural para manter meu casamento com George. segurou- a. eu fui estabilizada.. . — Eu garanto — disse Ramarau ao oficial. mais do que qualquer pessoa de meu próprio planeta. doutor. Agora.. Ramarau — ressoou. — Estou determinada a qualquer coisa para continuar casa- da com ele. Munster jamais reverte à forma humana. doutor. — Agora. Fiz isso porque amo demais George.. comovido. Jones. — Este é um grande dia — ressoou gravemente. O oficial ioano — como George uma bolha grande. Em Titã eu me submeti a uma terapia inten- sa.

mais um senso de orgulho nacional na fabricação daquilo que reconhecemos como uma invenção nativa. E entre aplausos frenéticos. — Nossa empresa trará prosperidade a esta área. Essa era a coisa mais patriótica — e mais lucrativa — que poderia ser feita. — Este é um dia importante em minha vida — informou- lhes George Munster. — Finalmente sou um homem de sucesso — pensou/irra- diou George Munster àqueles que estavam próximos o bastante para captar suas emanações. conforme haviam lhe informado outros ioanos. Algum dia ele seria o dono do hotel. George Munster deslizou rampa acima até seu carro fabricado em Titã. — Este momento histórico significa uma grande melhoria de vida a todos os ioanos que serão empregados por nossa fábrica — pensou/irradiou a bolha enorme que era George Munster aos bolhos locais que assistiam à cerimônia. * * * . outros bolhos. Ele estava aplicando os lucros de seu negócio em terras. e começou a escorrer em fases de volta até seu carro. o Cinto Magnético Mágico Munster! A multidão de bolhos pensou/irradiou aplausos. onde o chofer aguardava-o para conduzi-lo a seu quarto de hotel permanente em Cidade do Io.

o sonho cresceu à medida que ele ficou plenamente consciente. Qual será a sensação de explorá-los? Maior. num tom sonolento e com o mau humor de costume. Aqueles vales. Antes de morrer.Podemos Recordar Para Você. Kirsten lembrava-o desse fato ao menos uma vez por dia. e caminhou descalço do quarto de seu miniapt até a cozinha.. era função da esposa manter o marido com os dois pés no chão. disse a si mesmo com amargura. Inalou mais uma vez. pensou. . aperta o botão de café quente na merda do fogão. — Tá—disse Douglas Quaid. verei Marte. a luz do dia e os resmungos de sua esposa — que agora escovava os cabelos diante do espelho do quarto — conspiravam para lembrá-lo do que ele era.. — Se vai. Um assalariado de merda. desejos noturnos e fantasias aleatórias se condensassem numa aparência de racionalidade. o sonho e também o desejo. sentou-se à mesa da cozinha e abriu uma latinha amarela de rape Dean Swift. sua esposa. Por um Preço Razoável * Ele acordou. e a mistura subiu por suas mucosas nasais até queimar-lhe o céu da boca. Depois de ter apertado obedientemente o botão de café quente. Um escriturário como ele? Nem pensar. e ele sabia disso mesmo durante seus sonhos. e desejou Marte. Inalou com força. — Vai levantar ou não? — perguntou Kirsten. Ele quase sentia a presença envolvente do outro mundo. Obviamente isso era impossível. Mas. até hoje visto apenas por políticos e agentes secretos. disse a si mesmo. aquilo o despertava e fazia com que seus sonhos. e ele não a culpava. cada vez maior.

e para todas as pessoas pequenas e apressadas correndo para o trabalho. — ela se calou. Kirsten agachou-se ao lado dele. No chão da Terra. e você nem me escuta! — Agora ela tinha perdido a paciência. E além disso. Você vive sonhando. e então poderemos passar alguns dias no fundo do mar.. do nosso oceano. levantando-se. — Está rindo de quê? — perguntou a esposa ao deslizar para dentro da cozinha. o fundo do oceano. e olhou pela janela para os carros flutuan- tes e os túneis de tráfego. — Escute. O deus da guerra. Doug. aposto. . e abriu a porta do armário para pe- gar uma roupa limpa para trabalhar. — Deus do céu. Nas suas crateras maravilhosas crescem todos os tipos de vida vegetal. o tom de escárnio abandonando momentaneamente sua voz. Alugue uma roupa com guelras artificiais para nós dois. Eu proponho uma coisa muito melhor do que aquela compulsão. é infinita- mente mais bonito — falou francamente. Devia estar. aquela obsessão que você tem por Marte. Todo mundo sabe disso. Um trocadilho absolutamente apropriado. — Um sonho. — É isso que vai ser de mim. — É — disse ele. tire uma semana de folga do trabalho. — Não havia nenhuma mulher — retrucou. — Você está piorando. — Você sabe disso. a barra de seu robe cor-de-rosa arrastando no chão atrás dela. num daqueles resorts que funcionam o ano inteiro. Como sempre. — Aposto que havia alguma mulher nesse sonho — disse Kirsten. Está mais fanático a cada dia. você está condenado! O que vai ser de você? — Eu vou trabalhar — disse Doug.. o café da manhã completamente esquecido. — Mas havia um deus. só para implicar com o marido. Dali a pouco ele estaria entre elas. Aonde isso vai levar você? — A Marte — disse ele. pensou. — Você não está prestando atenção. Kirsten fitou os olhos do marido. e riu.

McClane o aguarda. chique e com os seios completamente expostos. era exatamente o contrário. quando. — Bom dia — respondeu ele. Depois de descer do táxi. — Não é "Recordação". Inspirou profundamente o ar ligeiramente poluído de Chi- cago. . ele começou a andar. — Pode entrar. de qualquer forma. Seria realmente esta a resposta? Afinal. O Sr. por mais convincente que fosse. — Sala D. cedo ou tarde.. Ela se virou para o viva-voz do videofone que ficava ao lado de seu cotovelo imaculado e disse: — O Sr. — Bom dia. McClane. Ao menos em termos objetivos. e leu com cuidado o letreiro em néon policromático oscilante. inseguro. e se dirigiu ao balcão da recepcionista. uma ilusão. mas nunca se aproximara tanto dele. obstruindo o fluxo de pessoas.. Quaid. Quaid — disse com simpatia a loura bonita atrás do balcão. precisaria acontecer. Sr. atravessou a névoa luminosa e policromática da entrada.. Quaid — disse a recepcionista. E. ele tinha hora marcada. Sr. é Rekordações — corrigiu a recep- cionista. e isto era algo que. Mas subjetivamente.A. Ele pode en- trar agora? Ou é muito cedo? — Giz wetwa wum-wum vamp — zumbiu o aparelho. Parou ali. Sr. Agora estava bem perto das letras brilhantes. Douglas Quaid caminhou lenta- mente por três túneis para pedestres muito movimentados e chegou à entrada moderna e convidativa. Acho que você sabe. gritou a recepcionista às suas costas. — Sim. À sua direita. REKORDAÇÕES S.. continuava sendo uma ilusão. Douglas Quaid está aqui. — Estou aqui por causa de um serviço oferecido pela Recordação. Sr. Dentro de cinco minutos. Quaid já tinha visto este letreiro ao pas- sar por aqui.

— Mais os nomes de pessoas que você conheceu. — Não terei ido. Quaid sentou. — Todas as provas de que irá precisar.. Lembre-se disto: se a qualquer momento você duvidar que fez realmente uma viagem longa a Marte. E mais. — Ele respirou fun- do. duzentos pós-créds em lembranças. até o último e insignificante detalhe. apenas seus trajes já deixaram claro a Quaid que ele procurara a pessoa certa. como se quisesse inalar coragem. — Custa muito caro. Cartões-postais. Douglas — disse McClane. Duas semanas completas de memória. e atrás de uma escrivaninha de mogno legítimo havia um homem de meia-idade. — Sente-se. Muito bom. mas breve. Quaid encontrou a sala certa. poderá voltar aqui e ser reembolsado completamente. A porta estava aberta. será uma viagem real. Ele ergueu os olhos penetrantes para Quaid — Você pensará que foi. Você não se lembrará de nós. Em sua mente. — Canhoto da passagem — disse. isto nós garantimos. que chegarão de Marte dentro do prazo de um mês. pensou. e até onde entendi. não se lembrará de mim ou de ter estado aqui. acenando com sua mão rechonchuda para uma cadeira diante da escrivaninha. — Então você quer viajar a Marte. — Mas eu não fui a Marte — replicou Quaid. — Não tenho certeza se vale a pena — disse ele. e voltou. tirando de uma pasta de cartolina um pequeno quadrado de papel gravado em relevo. — Prova de que você foi. Cenas que você registrou em paisagens locais de Marte com uma câmera alugada. em pele de rã marciana. com fotografias tridimensionais coloridas. a despeito das provas que você forneça. vestindo um terno cinza de corte elegante. Depois de um momento de desorientação frustrante. — E eu nunca fui um agen- . Abriu uma gaveta de sua mesa e vasculhou seu interior. eu realmente não recebo nada de verdade em troca do meu dinheiro. — Filmes. E passaporte. — Mostrou-os a Quaid. Custa quase tão caro quanto ir até lá.. Deixe-me mostrar. certidões das vacinas que você tomou. mas de aparência jovial. Sentia-se tenso. — Você terá provas tangíveis da viagem — discordou McClane. — Dispôs sobre a mesa quatro cartões-postais franqueados.

Se tivesse escolhido Plutão. homens que passaram anos em Marte. nem mesmo a mais remota possibilidade. — Sr. cumprisse sua função. Nós providenciaremos isso. jamais poderá se qualificar como um agente disfarçado para a Interplan ou para qualquer outra agência. não estou certo? O senhor não pode ser esta pessoa. e sem taxas adicionais. Quaid disse: — Muito bem. e pode ter executado esta ação. não pode realmente executar esta ação. apesar de tudo que ouvira as pessoas dizerem. o que é muito mais importante.. Enfiando a mão no bolso para pegar a sua carteira. Parte do pacote que oferecemos é um implante de memória tão profundo que nada é esquecido. ou se quisesse ser Imperador da Aliança dos Planetas do Sistema Solar. nossa dificuldade seria bem maior. e. mostraram que uma variedade de detalhes é esquecida rapidamente pela pessoa. E o senhor escolheu um sistema extrafatual muito simples.te secreto da Interplan. As recordações que serão implantadas em sua mente enquanto o senhor estiver em estado comatoso foram criadas por especialistas treinados. como explicou em sua carta para nós. — O senhor não tem condições financeiras para isso. Se tivesse realmente ido a Marte como agente secreto da Interplan. — E sorrindo encorajadoramente. por exemplo. — Ele soltou uma risadinha. de um dia realmente viajar a Marte — disse McClane em tom paciente. Esta viagem é a grande ambição da minha . Para sempre. Parecia impossível para ele que o implante de memória extrafatual da Rekordações S. Quaid. acrescentou: — E nosso preço é razoável. o sonho de toda uma vida. revisamos cada detalhe até a última vírgula.. o senhor não tem nenhuma chance. Mesmo assim. e nossos preços consideravelmente mais altos. — É mais convincente do que a realidade. já teria esquecido muita coisa. recordações autênticas de eventos importantes na vida de uma pessoa. — Uma memória extrafatual é tão convincente assim? — perguntou Quaid..A. Esta é a única forma que o senhor tem de alcançar o seu sonho. Nossas análises de memo-veras. — Mas o senhor pode ter sido esta pessoa..

—Você pode prosseguir sozinho. nem sequer se lembrará de ter ouvido falar de nossa existência. o que estava para acontecer dependeria deles. que é vaga e repleta de omissões e elipses. Melhor ainda. Que finalmente consegui realizar a maior ambição da minha vida? Tinha o pressentimento de que alguma coisa ia dar errado. o senhor chegará à Terra. Portanto. A me- mória verdadeira. acho que terei de me contentar com isto.vida e sei que jamais poderei realizá-la de verdade. Quaid saiu do escritório. ele disse: — Muito bem. atrás dos dois técnicos. lá pelas quatro e meia. O intercomunicador da secretária de McClane. Com a boca ressequida devido ao nervosismo. e como já lhe disse. que o conectava com a área de trabalho da empresa. — Não pense desta forma — disse McClane com severida- de. Mas não sabia exatamente o quê. após uma viagem de regresso muito agradável. Teria de esperar para descobrir. Será que vou acreditar mesmo que estive em Marte? perguntou-se Quaid. Esta tarde. senhor — disse uma voz masculina. Quaid está sendo sedado. — Você não está aceitando um material de segunda. E enquanto a porta de seu escritório abria e dois homen- zarrões entravam. McClane recebeu o pagamento e apertou um botão na sua mesa. o senhor agora vai viajar para Marte como agente secreto. Lowe — respondeu McClane. Não acredito que vá acontecer . jamais se lembrará de ter vindo aqui falar comigo. o senhor já viajou para Marte como agente secreto. é que é material de segunda. Terá à sua disposição um táxi que irá deixá-lo no seu apartamento. — Quer supervisionar este caso ou podemos continuar? — É apenas um caso de rotina. para não dizer distorções. — Ele se levantou para apertar a mão trêmula e úmida de Quaid. — Ou melhor. — O Sr. soou.

uma escuta eletrônica que.qualquer problema. Uma pistola silenciosa comprada em Marte por um pós- créd. Sr. Os modelos da firma eram altamente precisos: baseados. mas que juntos ajudariam a compor a trama da viagem imaginária de Quaid e iriam coincidir com dados de sua memória: metade de uma antiga moeda de prata de 50 cents. cada uma num pedaço de papel de seda fino e transparente. McClane — disse a voz. Foi o que nos custou mais caro importar.. calculou McClane. que podia ser engolido caso o agente fosse pego. — Como quiser.. Nele. procurou um pacote de número Três — viagem a Marte — e um pacote Sessenta e Dois — espião da Interplan. Este é o maior objeto. — Sinto muito incomodar o senhor. era um tipo de serviço rotineiro na empresa. para não dizer monótono. Em seguida. O intercomunicador zumbiu. em tecnologia de ponta das Forças Armadas dos Estados Unidos.. sentou-se confortavelmente e espalhou sobre ela o conteúdo — o material que seria plantado no miniapt de Quaid enquanto os técnicos do laboratório estivessem ocupados instalando a memória falsa. com ou sem o estímulo adicional de o cliente ser um agente secreto. sempre que possível. Talvez seja melhor o senhor vir até aqui. mas aconteceu uma coisa horrível. várias citações dos sermões de John Donne anotadas com incorreções. refletiu McClane. uma colher de aço inoxidável com a gravação PROPRIEDADE DO KIBBUZIM NACIONAL DOMO MARTE. um transmissor do tamanho de uma pílula. Programar a memória artificial de uma viagem a outro pla- neta. retornou com eles à sua mesa. As viagens interplanetárias de faz-de-conta garantem o nosso pão de cada dia. diversas caixas de fósforos de bares de Marte. Quaid já . McClane se levantou e caminhou até o cofre no fundo de seu escritório. e em seguida o intercomunicador foi desligado.. Artigos diversos que isoladamente não faziam sentido. Um livro de código que se assemelhava surpreendentemente aos reais. Encontrando os dois pacotes. Em um mês devemos fazer uns 20 serviços como este.

— Um mês — respondeu Quaid a contragosto.está sedado. está completamente inconsciente. irritado. — Já estou indo. McClane saiu de seu escritório. . McClane ficava irritado com detalhes banais. respirando lenta e regularmente.. — O que querem agora? — perguntou Quaid. como pedras semipreciosas. — Nosso problema é algo muito diferente — disse Lowe. McClane observou com certo incômodo. inorgânico. Ele reagiu bem à narquidrina. sempre fora assim. — Ele fitou McClane antes de continuar. Os olhos. descontraído e receptivo. McClane não tinha certeza se estava gostando do que via. tinham se tornado cruéis.. ele teve uma ou duas semanas de férias no ano passado. aquele brilho era frio demais. mas. uma agência governa- mental. um instante depois estava na área de trabalho. Os olhos cinza-esverdeados do homem deitado inerte na cama focaram o rosto de McClane. os olhos quase fechados. — Especialmente você. Isso deve resolver o problema. Portanto. Ele tem um emprego como escritura- do no Birô de Emigração da Costa Oeste. basta eliminar uma ou duas semanas de trabalho. e agora do próprio McClane. ríspido. também com um tom de impaciência na voz. possuíam agora um brilho polido. — Ora. Pressentindo problemas. Vão embora senão eu acabo com vocês. Você é o encarregado desta contra- operação! — Quanto tempo você esteve em Marte? — perguntou McClane. — Vocês revelaram o meu disfarce. Douglas Quaid estava deitado numa cama higienizada. — Não há espaço para inserir padrões de memória falsos? — perguntou McClane. Ele parecia um pouco — apenas um pouco — consciente dos dois técnicos. Lowe disse a Quaid: — Conte ao Sr. McClane o que nos falou — disse a McClane: — Preste atenção. Curvando-se sobre a cama.

mas não abriu a boca.. quem não estaria? — Novamente abriu os olhos e examinou os três homens. Já disse a vocês. Quaid respondeu: — Eu nunca quis ir para Marte. Os lábios finos se contorceram. Será que ela está envolvida nisto? Será um contato da Interplan de olho em mim. Ele agora parecia cansado. Murmurou: — Onde eu disse que estive? Marte? Difícil lembrar. uma onda de alívio. de compreensão. Sr. — Eu acredito em você — disse Quaid. — Por favor. que esvaeceu quase imediatamente. Fui designado para essa missão. Lowe disse. a droga continuava a puxá-lo. — Qual era a sua missão? — inquiriu Lowe. Claro. Trouxeram à tona coisas das quais eu não tinha a menor recordação. é por causa disso que você queria tanto ir a Marte. acredite em mim. Sr. Vocês não regis- tram tudo que é dito? Assista a sua fita de vid-aud e me deixe em paz. McClane. E Kirsten? perguntou-se Quaid. — Agente da Interplan. Quaid esboçou um sorriso leve. serenamente: — Este homem é duro na queda. deixando de emitir o brilho cruel. McClane disse: — Então. assim como todo mundo. — Vocês usam um soro da verdade muito eficiente. — Tropeçamos nisto inteiramente por acidente. — Não vai ser depois que o fizermos perder sua cadeia de memória outra vez. para ter certeza de que não recuperei minha memória? Não admira que ela tenha caçoado tanto de minha vontade de ir para lá. instantaneamente. No tipo de trabalho que fazemos. arrastando as palavras de tal maneira que elas pareciam embebidas com hostilidade. cada vez mais fundo. Sei que gostaria de viajar para lá. Eles me enviaram e fiquei encalhado lá. Finalmente. E virando-se para Quaid.. McClane em particular. Sem abrir os olhos. admito que estava curioso. McClane sentiu. Quaid fitou McClane. Quaid cerrou os olhos. Ela ficará tão dócil quanto antes. mas . Quaid — rogou McClane.

. assim como ser um agente secreto. — Então uma coisa lhe ocor- reu: — Mas você pode prever o que ele vai se lembrar quando sair da sedação? — É impossível prever isso — admitiu Lowe. Keeler. deixando lacunas. — A voz enfraqueceu. — Quanto menos na cabeça desse homem. — É muito arriscado lidar com esse tipo de coisa. Por . — Ele prova- velmente vai ter uma lembrança difusa da viagem que fez real- mente. Acho melhor acordá-lo sem implantar qualquer memória falsa e chutá-lo daqui. e sim um desejo.. sem dúvida o mesmo que o motivou a se apresentar como voluntário para essa missão. Aparentemente ele não se lembra dessas coisas em seu estado normal. provavelmente algum cientista militar. Tudo que ele sabia era que ir a Marte significava alguma coisa especial para ele. o outro técnico. O que ele diz é verdade: está sob os efeitos da narquidrina. O fato de que é um agente secreto genuíno e o fato de que é um agente secreto falso. A viagem está muito vivida em sua mente.. Alguém. melhor — disse McClane. e a confusão pode induzi-lo a um surto psicótico.eu. a não ser que o senhor queira. — Quaid quer um implante de memória falsa que corresponda a uma viagem que ele realmente fez — disse para seu chefe. Ele teria que manter em sua mente duas premissas contraditórias: que foi a Marte e que não foi. com sérias dúvidas quanto à sua realização. Um assalariado de merda. — Concordo — disse McClane. — Sou apenas um assalariado. — E uma razão falsa que na verdade é a razão real. perguntou a McClane: — O que vamos fazer? Enxertar um padrão falso de memória por cima da memória real? É impossível prever os resultados disso. E ele vai se lembrar de ter vindo aqui. apagou suas memórias conscientes. E talvez conclua que a nossa operação não foi perfeita. Eles não conseguiram apagar isso.. porque não vamos apagar isso.. porque não é uma memória. Esta coisa é perigosa demais.. pelo menos sob sedação. Ele pode se lembrar de parte da viagem genuína. Lowe e empertigou-se.

Ele trouxera consigo diversos espécimes moribundos da fauna marciana. — Cinqüenta por cento? Por que cinqüenta por cento? — Porque parece um bom acordo — respondeu McClane. sendo incapazes de sobreviver na atmosfera pesada da Terra. ou quem é. Metendo a mão no bolso do paletó.incompetência. da vitalidade e dos movimentos do lugar. ou azar. que con- tinha quinhentos e setenta pós-créds em cédulas de valor baixo. melhor. vasculhou-o em busca da caixinha com minhocas carnívoras. E vamos devolver cinqüenta por cento do pagamento. que conseguira contrabandear através da alfândega. das paisagens corroídas por séculos de erosão. De onde veio isto? perguntou-se. para sua absoluta surpresa. Douglas Quaid disse a si mesmo: Como é bom voltar para a Terra! O período de um mês em Marte já começava a fugir de sua memória.. Eu não gastei até o último pós-cred na minha viagem? . Enquanto o táxi o levava de volta ao seu miniapt na área residencial de Chicago.. Um mundo de pó onde pouco ou nada acontecia. Eles não representavam qualquer ameaça.. descobriu. revelamos um agente secreto genuíno da Interplan que tinha um disfarce tão perfeito que até agora nem ele sabia quem era. E as formas de vida: mirrados cactos cinzento- acastanhados e minhocas carnívoras. onde se passava a maior parte do dia verificando e reverificando o suprimento portátil de oxigênio.. E em seu lugar encontrou um envelope. — O senhor vai plantar os pacotes Três e Sessenta e Dois no miniapt dele? — indagou Lowe. Quanto mais cedo lavassem as mãos e se livrassem do homem que se dizia Douglas Quaid. Ao abri-lo. sem muita convicção. — Não. ele tinha apenas uma imagem vaga de crateras amplas e profundas.

— Você tem uma lista telefônica? — Certamente. — Recordações do quê. senhor ou senhora? — perguntou respeitosamente o motorista-robô do táxi. senhor ou senhora. Através de uma daquelas firmas que oferecem memórias artificiais. — O nome se escreve de forma estranha — disse Quaid en- quanto passava as páginas da seção de classificados. Ele sentia medo. Mudei de idéia. E depois de uma pausa viu na telinha uma imagem pequena. Uma fenda se abriu no painel do veículo e ejetou um catálo- go telefônico do Condado de Cook em microflta. — Ou pior. mas arrepiantemente realista. — Recordações — disse Quaid em voz alta. — Sim. Finalmente dis- se: — Achei. — Quando você esteve lá? — Eu não sei. não quero ir para casa. os lábios torcidos de escárnio. como quiser — disse o motorista. extrafactuais ou sei lá como chamam. — Estive em Marte — disse a ela. — Ele se sentia confuso. — Juro por Deus. — Você está bêbado mesmo — disse Kirsten. acho. Leve-me para o endereço da REKORDAÇOES S. Mas não deu muito certo. E a data. senhor ou senhora. Um momento depois o táxi estava zunindo na direção oposta. Junto com o dinheiro havia um recibo no qual estava escrito: Cinqüenta por cento de devolução do pagamento. — Você está bêbado — concluiu Kirsten.A. Data de hoje. — Posso usar seu telefone? — perguntou Quaid. Assinado: McClane. de Kirsten. que de repente ficou ainda mais profundo. — Uma viagem si- mulada. a voz carrega- . Quaid discou o número de seu miniapt. indicando- lhe o último modelo de telefone colorido tridimensional. — Sinta-se à vontade — disse o motorista-robô.

isso ficou marcado na minha mente. não foi realizada nenhuma viagem.. como lhe fora garantido. que casamento! Um momento depois. McClane de que se eu recordasse minha visita à . — Sr. — C-como vai? Esqueceu alguma coisa? — O restante da devolução de meu pagamento. — Por exemplo. Quaid também desligou. Sempre se reservando a última palavra. Não era de admirar que haviam lhe devolvido cinqüenta por cento do pagamento. — Até onde sei. embora seja um mero assalariado. minha visita ao Sr.. chique e com os seios completamente expostos. A memória falsa de sua viagem a Marte não tinha dado certo. Quaid ficou furioso. mas. moça. Lembro da minha chegada aqui. os dois técni- cos do laboratório me conduzindo até uma mesa e me adminis- trando uma droga. Quaid.da de desprezo. — Pagamento? Acho que o senhor está enganado. — Eu me lembro de você! — disse com selvageria. Lembro de minha carta à Rekordações S. lembro de que os seus peitos estavam pintados de azul. — Eu lembro de tudo. pelo menos inteiramente. Sempre o mesmo tom de voz. Quaid — disse. Sr. — Ela encolheu os ombros imaculados e brancos. é um homem atraente. levou um susto quando o viu.A. sentindo seu rosto corar de raiva. sobre o qual havia um letreiro em néon policromático oscilante: REKORDAÇÕES S. A recepcionista loura. como se ela soubesse tudo e eu não soubesse droga nenhuma. Sr.. agora mais composta. disse a si mesmo. e cortou a ligação. mas rapidamente readquiriu o autocontrole: — Olá. Quaid — disse a recepcionista. — O senhor veio aqui se informar a respeito de uma viagem extrafatual. Kristo. o táxi encostou no meio-fio diante de um edifício rosado de estilo moderno.A. McClane.. tensa. posso deixar o senhor me levar. e ficar zangado desfigura o seu rosto.. E lembro da promessa feita pelo Sr. que começou esta lambança toda. Se isto o fizer sentir-se melhor.

Onde está o Sr. — Pressionou um botão do intercomunicador. Nenhum comprovante de vacinas de imunização. McClane? Depois de uma espera — provavelmente a mais longa possível —Quaid se viu mais uma vez sentado diante da imponente mesa de mogno. mesmo em nome de seus interesses pessoais. vaga e salpicada com contradições. Quaid — disse McClane. — Escute aqui.. ainda se defrontando sobre a superfície lustrosa da mesa de mogno. Sua decepção e seu ressentimento eram imensos agora. McClane soltou o botão e ficou encarando Quaid intensamente. — Mas ele se calou. nós voltaremos atrás em nossa decisão — dis- se McClane moroso. eu receberia cem por cento do meu dinheiro de volta. — Shirley. Eu vou reclamar no Departamento de Defesa do Consumidor.Rekordações S. e também cauteloso. exatamente como estivera há aproximadamente uma hora antes naquele mesmo dia. . — Vocês nem mesmo me forneceram os tais objetos que iriam "provar" que estive em Marte! — acusou Quaid. Eu me lembro claramente de minhas negociações com vocês. Nem mesmo um canhoto de passagem. Nem. a sensação de ter sido ludibriado vencera sua aversão habitual a travar conflitos.. — Muito boa a técnica de vocês — disse Quaid sardônico. por favor.. — Esqueça. — Suponha que eu lhe dissesse.. deixando os dois homens sozinhos. em tom resignado: — Concordo que não fizemos absolutamente nada por você. Quaid. — Sr. Obrigado. — E acrescentou. — Mi- nha "memória" de uma viagem a Marte como agente disfarçado para a Interplan está enevoada. O cheque não demorou a chegar. — Vocês me prometeram mundos e fundos e eu não ganhei porcaria alguma. restitua mais quinhentos e setenta pós-créds na forma de um cheque nominativo a Douglas Quaid. Quaid estava ardendo de raiva.A. Ou passaporte. Ou cartões- postais. A recepcionista colocou-o diante de McClane e desapareceu novamente de vista. — Vamos restituir seu pagamento inteiramente..

Quaid pensou em como redigir a carta de reclamação ao Departamento de Defesa do Consumidor. — Uma firma que presta serviços tão ruins não deveria ter cliente algum — disse Quaid. Quaid. Mas eu não fui a Marte. — Não fale sobre sua. encontrou uma caixinha familiar. Levantou-se e conduziu Quaid até a porta. — Ele tinha começado a transpirar em abundância.. — Permita-me dar-lhe um conselho — disse McClane en- quanto assinava o cheque e o passava para Quaid. A caixa que ele havia enchido cuidadosamente com espécimes da fauna marciana e depois contrabandeado através da alfândega. viagem recente a Marte com ninguém. catando-os entre rochas. Sentia que era seu dever prevenir outras pessoas contra a Rekordações S. Enquanto voltava para casa de táxi. Quando chegou ao seu miniapt. carregando sacolas marrons com compras de supermercado. seis minhocas car- nívoras mortas e diversos exemplares de vida unicelular dos quais se alimentavam as minhocas marcianas. — E agora. Começaria assim que pudesse se sentar à máquina de escrever. Enquanto vasculhava suas gavetas em busca de papel-carbono. Uma jornada de conhecimento maravilhosa e iluminadora. Ainda assim. Kirsten apareceu na porta do quarto. Aja como se não lembrasse. Sr. mas ele os reconheceu. enquanto abria a porta.A.. Será melhor para todos nós. Abriu a caixa e viu. Não me pergunte o motivo. — Que viagem? — A viagem da qual você lembra apenas parcialmente. para o seu assombro. E fechou-a ao passar. Lem- brava de que havia passado um dia inteiro de quatro. Divisão Terra. Os protozoários estavam secos e cobertos de pós. faça de conta que ela nunca aconteceu. eu preciso atender outros clientes. sentou diante de sua Hermes Rocket portátil. apenas siga o meu conselho... — O que você está fazendo em casa no meio da tarde?— .

— Eu vou deixar você. talvez seja isso. Por que não posso confiar em você? Eles não mexeram na sua cabeça. — Te ligo um dia desses — disse. — Você deveria saber. mas não te- nho como dizer qual é qual. — Eu estive em Marte? — perguntou Quaid. uma é real e a outra não é. A porta se fechou. apoiá-lo pela primeira vez. Ela podia ao menos apoiá-lo nisso. contida.. Não está sempre se lamentando da sorte por não poder ir? — Meu Deus. me diga! Mas eles podem ter alterado também as suas trilhas de memória. Mas isso. — Provavelmente estou à beira de um surto psicótico. Kirsten pousou as compras no chão e caminhou resolutamente até o armário. calmamente. acho que não estive lá — acrescentou depois de uma pausa. pelos menos. finalmente! . Doug. Ora. o nosso casamento vai acabar — disse Kirsten numa voz monótona. — Não estou brincando — disse ela. — Eu estou com problemas — disse Quaid. espera! — rogou Quaid. mas. sem modificar o tom da voz. Me diga a verdade: eu estive ou não estive em Marte? Por favor. como sempre. — E ao mesmo tempo. a voz soando rouca e áspera. — Doug. Por você. Espero que não. explicaria tudo. vestiu-o e caminhou até a porta do miniapt. percebeu. — Kirsten. você saberia disso. Espero que você resolva seus problemas. — Como poderia? Tenho duas trilhas de memória gravadas dentro da minha cabeça. desesperado. Sua esposa o tinha deixado. acusadora. se você não raciocinar. — Pegou um casaco. — Isto é um adeus. — Só me diga uma coisa. — É claro que você não esteve em Marte.sua voz. — Decida-se de uma vez.. eu acho que estive em Marte — disse ele. Es- pero mesmo.

familiar de uma forma borrada. Quaid se virou. trêmulo. Mãos ao alto. Até os jornais audiovisuais já tinham divulgado que a Agência Policial Interplan usava essas coisas. um pequeno receptor de plástico branco. Um plasma vivo. que ele não conseguia compreender. E. O problema é que. por alguma razão estranha. instintivamente. Quaid estremeceu. descoberto na Lua. Assim.A. — Ele sorriu. — Quaid viu. alimentando-se. e todos os seus pensamen- tos. provavelmente era verdade. sob a ação da . importantíssimos. sem levantar mãos. — Não que isto tenha importância agora: você já falou e pensou coisas suficientemente graves para se condenar à morte. e sua arma parecia perten- cer ao arsenal das Nações Unidas. por favor. levantou as mãos. — Portanto. com nojo de si mesmo.? — Na verdade. por mais terrível que fosse. O que ele tinha feito. ele parecia familiar a Quaid. Essa coisa viva estava dentro dele.A. que funcionava como um transmissor telepático. — explicou. no ouvido do ho- mem. particularmente aqueles. instalada em seu próprio cérebro. distorcida. Quaid. — Por que eu? — perguntou Quaid. O homem que estava diante dele usava o uniforme cor de ameixa da Agência Policial Interplan. a voz falhando em sua garganta. isto não tem nada a ver com a Rekordações — esclareceu o tira.Uma voz soou atrás dele: — Bem. ou pensado? E que relação isto tinha com a Rekordações S. — Um teletransmissor implantado no seu crânio nos mantém informa- dos constantemente. E se vire para mim. te- nho a obrigação de avisá-lo: tudo o que pensar pode ser usado contra você. acabou. — Sabemos tudo o que você fez hoje. ouvindo. alimentando-se. — Você se lembra de sua viagem a Marte — disse o policial. Portanto. que lhe ocorre- ram enquanto voltava para Rekordações S. Ele deu um tapinha leve no ouvido direito e continuou: — Ainda estou captando os seus processos mentais através do seu teletransmissor encefálico. — É entre você e nós.

Você não foi à Rekordações S. Eles ficaram apavorados. De qualquer modo. — Mas eu nunca fiz viagem nenhuma! — protestou Quaid. Você disse a eles aonde foi. Talvez esta fosse uma das "provas" que McClane havia pro- metido. — Ele fitou Quaid profundamente. definitivamente. Aposto que devem estar muito arrependidos por terem atendido você. claro. E não podemos fazer nada contra McClane e sua empresa. e têm toda razão para estar — acrescentou.A. E não adiantaria expurgar todas essas coisas da sua mente. com o intuito de recuperar a memória. a não ser sobre nossa própria gente. E a caixa. e já teve emoções demais — continuou o policial. Nesse momento Quaid lembrou da caixa guardada na gaveta. — A bem da verdade. A recordação parecia-lhe real. e tudo voltaria à estaca zero. — A última coisa de que você precisava era de um . mas infelizmente convenceu a Agência Policial Interplan. ao menos parcialmente. você não é nem burro nem ignorante. os pormenores da sua viagem. a caixa com os restos das formas de vida marcianas. a mando de quem. o que fez lá. — Nós não apenas sabemos que você viajou para Marte — concordou o policial da Interplan em resposta aos seus pensamentos — como sabemos que você agora lembra o suficiente para se tornar um empecilho para nós. — Infelizmente. Eles acreditam que eu viajei realmente a Marte. pensativo. porque você provavelmente acabaria reaparecendo na Rekordações S.A. acredito nisso. E se lembrou de todo o trabalho que tivera para catá-las entre rochas. o Sr. Especialmente ao dono. A não ser que tivesse sido plantada por McClane. Pelo que entendemos. A recordação de minha viagem a Marte não me convence.narquidrina você confessou ao pessoal da Rekordações S. nem você.. depois de uma breve pausa. — Os técnicos do McClane implantaram uma memória falsa defeituosa na minha mente.A. era real. e acham que eu. McClane. porque não temos jurisdição sobre ninguém. você foi até lá pelo mesmo motivo que a maioria vai: o desejo por aventura que fascina as pessoas burras e ignorantes. McClane não cometeu nenhum crime..

interrompendo sua conversa com o companheiro. o policial estava certo quanto à narquidrina. Um segundo policial da Interplan se juntou ao primeiro. mas agora menos enevoada. Eles — a Interplan — provavelmente também usavam essa droga. com a voz carregada de tensão. só porque lembro dessa vi- agem que vocês alegam que eu fiz? — Porque as coisas que você fez lá não estão de acordo com a nossa imagem paternalista e de defesa dos interesses públicos — explicou o agente da Interplan. Ob- viamente ele havia captado os pensamentos de Quaid. — Precisamos matá-lo. Enquanto isso. Não admira que tivessem expurgado sua memória. graças à narquidrina. novamente apontando a arma para ele. — Você fez.serviço prestado pela Rekordações S. — Por que sou um "empecilho".. e imediatamente. e ambos conversaram rapidamente.A. . o que nós jamais fazemos. — Por que agora mesmo? Não podemos simplesmente levá- lo para a Interplan e deixar que eles. A razão pela qual o tinham enviado a Marte. Pense bem: durante todo esse tempo você não manifestou a menor curiosidade por ela. Ele recordava mais agora. Ou para McClane. vendo a imagem subir à tona de sua me- mória ainda defeituosa. para tirarmos a caixa daqui.. É uma pena que não tenhamos chegado a tempo — acrescentou. Foi nesse momento que decidimos vir lhe prestar uma visita. Provavelmente? Quaid sabia muito bem que eles a usavam. — Meu Deus! — disse o primeiro dos dois policiais da Interplan. já os vira aplicá-la num prisioneiro. Aquela caixa cheia de minhocas mortas já está dentro da sua gaveta há mais de seis meses. desnecessariamente. Coisas que você irá se lembrar mais tarde. Nada poderia ser mais letal para você ou para nós. — disse o companheiro do policial. e o trabalho que fizera. os pensamen- tos de Quaid voavam. decidiu. pior não seria possível — disse o policial enquanto caminhava até Quaid. Onde teria sido isso? Em algum lugar da Terra? Mais provavel- mente na Lua. por nós. E lembrou de mais uma coisa. desde que você voltou de Marte.A. — O problema está muito grave agora. Nem mesmo sabia que ela estava lá até que voltou da Rekordações S.

Portanto. — Depois de passar por 15 guarda-costas. Se você me seguir. Mas você sabe a razão pela qual eu ia matá-lo. e a estava apontando para o outro policial. A pistola disparou. e também sabem que sabemos DISSO. ofegante. Ele sabe que não tem escapatória.. Se ele se movesse suficientemente rápido. não . A Interplan o havia treinado durante cinco longos anos até o transformar num assassino profissional... Alguns deles esta- vam armados com pistolas silenciosas. levantou-se. eu vou te matar. mas mesmo assim consegui dominar você — disse Quaid. Em um instante tinha a pistola em seu poder. não eu. Talvez eles possam apagar a sua memória mais uma vez. Sua memória agora tinha voltado quase inteiramente. e se a entregar. — Sam. E o que tinha um receptor no ouvido também sabia disso. como os dois que tinha agora pela frente. Quaid arremessou a arma para fora do miniapt e correu até o elevador.. Mas Quaid percebeu que o policial estava nervoso por uma razão inteiramente diferente. minha razão para querer matá-lo acabou. que agora também parecia nervoso. pensou. Você não pode usá-la. Quaid. Com grande esforço. E ele entendia a tensão do policial. ao mesmo tempo. — Captou os meus pensamentos. trôpego. exatamente como você. a voz rou- ca. — Também posso captar isto. Quaid sabia como liqui- dar adversários armados. sabia o que eu ia fazer. e estendeu a mão. — Vamos. Você vai ser julgado. Mas ele já tinha se movido para o lado enquanto. me dê a arma. gemendo de dor. Assim. derrubava com um golpe o policial que empunhava a arma. e não posso evitar que você se lembre dela. — Eu matei um homem em Marte — disse Quaid. sentado no chão. ele não vai usar a arma contra você! — gritou o policial ferido. — Ele sabe por que tem que ser agora mesmo — disse o primeiro tira. prometo que não vou matá-lo. e alguém mais elevado na hierarquia da Interplan vai decidir.

em seu próprio miniapt. O elevador desceu. E como tenho um teletransmissor na cabeça. um instante depois. Apertou o botão do elevador. Quaid observava de- satento um bando de perts. um semipássaro importado das duas luas de Marte.: aventura. o que faria? Seria pior em Marte. levantou-se e começou a andar sem destino. uma viagem secreta a Marte durante a qual sua vida estivera em jogo. monitorando-o. . Quaid tinha se juntado à multidão de pedestres caminhando apressada pelos túneis. perigo. Mas e agora? Para aonde podia ir? O elevador chegou ao térreo. gravando seus pen- samentos. policiais da Interplan. capaz de voar baixo. Obviamente eles captaram seus pensamentos nervosos e decidiram não correr riscos. E provavelmente vão me pegar de novo. Os policiais não seguiram Quaid. Quaid estava seguro por hora. eles quase o mataram ali mesmo. Quaid estremeceu. Talvez eu possa voltar para Marte.faça isso. sem qualquer ligação com a realidade. tudo o que sempre desejara como falsas memórias. Assim que descobrirem onde estou. acabara por obter precisamente aquilo que pedira à Rekordação S. sentado num banco de praça. Um momento depois. Ironicamente... Compreendia agora as vantagens de que tudo isso fosse uma mera recordação. a organização política cujo líder ele assassinara iria localizá-lo no momento em que saltasse da nave. isso não vai demorar muito. Sozinho. Mas ao menos conseguira escapar da morte. compreendeu. e ele se sentia enjoado. mãos afundadas nos bolsos. Ele teria a Interplan e eles em seu encalço.. Mas então. mesmo na gravidade mais forte da Terra. Sua cabeça doía. ponderou.A. Vocês podem ouvir meus pensamentos? Um caminho fácil para a paranóia: sentado sozinho aqui ele os sentia sintonizados nele. as portas deslizaram..

Tínhamos decidido não fazer isto de novo. — Nós já nos comunicamos com você desta forma — prosseguiu a voz. como fizeram antes. disse para seus botões. vocês sempre estarão comigo. cujo tamanho enorme deve ter sido justamente o motivo que fizeram vocês me contratarem inicialmente. e para eles.. Uma voz dentro de seu cérebro respondeu: — Conforme já explicamos detalhadamente. Vou fazer um negócio com vocês. rotineira. eu ter sido o homem mais rico da Terra e ter doado todo meu dinheiro a organizações educacionais. Onde você está? — Passeando — disse Quaid. você acabará ficando inquieto de novo. Descubra qual é o meu . não funcionam? — Se derem a você um conjunto de memórias vulgares. —Atônito.. — Tente! — disse Quaid. de que nunca viajei para Marte. de que nunca mexi com uma arma. Por exemplo.A. — Reúna seus melhores psiquiatras militares. Quaid parou de andar. vocês me implantem qualquer coisa muito mais empolgante. Não podemos nos dar ao luxo de passar de novo por tudo isto.. — Suponha que depois que minhas recordações autênticas tenham sido canceladas. Contanto que eu tenha este dispositivo instalado dentro da minha cabeça. Você não acha que qualquer coisa do tipo daria conta do recado? Silêncio. meses atrás. — Durante sua operação de campo em Marte. pelas mãos de vocês. De que nunca vi um uniforme da Interplan de perto. e acrescentou: — Na direção da minha morte. Vocês podem implantar em mim uma memória falsa. desesperado. Mas vocês teriam de bolar alguma coisa equivalente à realidade. Qualquer coisa que satisfaça o meu ego. Não importa para aonde eu vá. Uma memória de que vivi uma vida medíocre. Como podem ter tanta certeza de que não é bastante? As técnicas da Rekordações S.. isso não bastará. e procurará a Rekordações ou qualquer outra firma desse ramo. Ou eu ter sido um famoso explorador do espaço sideral.

verdadeiro sonho. — Ele tentou pensar. — Mulheres. Milhares
delas, como Don Juan. Um playboy interplanetário. Uma amante
em cada porto da Terra, Lua e Marte. Só desisti de tudo isso
porque fiquei exausto. Tente, pelo amor de Deus!
— Nesse caso você iria se entregar voluntariamente? —
perguntou a voz dentro de sua cabeça. — Se concordarmos em
arranjar uma solução como esta? Se isto for possível?
Depois de um momento de hesitação ele disse:
— Sim. — E acrescentou em pensamento: — Vou correr o
risco de que vocês possam simplesmente querer me matar.
— Dê o primeiro passo — disse a voz num tom agradável. —
Entregue-se a nós. Iremos investigar essa linha de possibilidade.
— Porém, se não conseguirmos fazer isso, se as suas
recordações autênticas começarem a aflorar novamente, como
fizeram desta vez, então... — Houve silêncio, e então a voz
finalizou: — Teremos de destruir você. Você deve entender.
Bem, Quaid, ainda quer tentar?
— Sim — disse ele.
Porque a alternativa era a morte... morte certa. Pelo menos
desta forma ele tinha uma chance, por mais tênue que fosse.
— Apresente-se ao nosso quartel-general em Nova York —
continuou a voz do policial da Interplan. — O endereço é Quinta
Avenida, número 580, décimo segundo andar. Depois que tiver
se rendido, nossos psiquiatras começarão a tratá-lo. Procedere-
mos testes de perfil psiquiátrico. Tentaremos determinar qual é
seu desejo absoluto, final, e então o enviaremos de volta à
Rekordações S.A. Eles implantarão em você esse seu desejo
como retrospecção substituta. E... boa sorte. Nós lhe devemos
algo; você foi um instrumento eficaz para nós.
Não havia malícia na voz; aparentemente a organização
sentia alguma simpatia por ele.
— Obrigado — disse Quaid.
E começou a procurar por um táxi-robô.

O psiquiatra da Interplan era um homem idoso, de expres-

são solene.
— Sr. Quaid, o senhor possui uma fantasia subconsciente
interessantíssima. Provavelmente o seu consciente jamais se
apercebeu dela. Não se preocupe. Costuma ser assim na grande
maioria dos casos. Espero que não fique perturbado demais ao
ouvir sobre isso.
— É melhor não ficar perturbado demais, senão eu mesmo
lhe dou um tiro — disse o oficial de alta patente da Interplan,
sem papas na língua.
— Ao contrário da fantasia em que o senhor desejava ser
um agente secreto da Interplan, qual sendo um produto da
maturidade, trazia associada uma certa plausibilidade, esta que
acabamos de desvendar é uma criação grotesca de sua infância
— prosseguiu o psiquiatra. — Não é de admirar que o senhor não
se lembre dela. A sua fantasia é a seguinte: tem nove anos de
idade e passeia por uma alameda rústica. Uma nave espacial de
aspecto alienígena, proveniente de outro sistema solar, aterrissa
diretamente à sua frente. Ninguém na Terra vê a nave, a não ser
o senhor. As criaturas lá dentro são pequenas e indefesas, como
ratinhos do campo, embora estejam tentando invadir a Terra.
Dezenas de milhares de outras espaçonaves logo virão em
seguida, depois que este grupo avançado der o sinal verde.
— E suponho que eu impeça isso — disse Quaid, sem saber
se achava aquilo divertido ou repugnante. — Eu acabo com to-
dos eles com as mãos nuas. Provavelmente esmagando-os com
os pés.
— Não — disse o psiquiatra, pacientemente. — O senhor
impede a invasão, mas não os destruindo. Pelo contrário. O se-
nhor demonstra bondade e misericórdia, apesar de ter sido in-
formado por telepatia do motivo para a vinda deles. Eles nunca
tinham visto essas características exibidas por qualquer outro
organismo consciente. Para demonstrar sua gratidão, eles fazem
uma aliança com o senhor.
— Eles não vão invadir a Terra enquanto eu estiver vivo.
— Exatamente. — O psiquiatra se virou para o oficial da
Interplan. — O senhor pode ver que isto se ajusta à personalida-
de dele.
— E assim, meramente pelo fato de existir — disse Quaid,

sentindo um prazer crescente — simplesmente por estar vivo, eu
mantenho a Terra a salvo da dominação alienígena. E então eu
sou, com efeito, a pessoa mais importante da Terra. Sem mover
um músculo.
— Precisamente, Sr. Quaid — disse o psiquiatra. — A fanta-
sia está enraizada profundamente na sua psique. Trata-se de
uma fantasia nascida ainda na infância e que desde então o tem
acompanhado sem que o senhor se aperceba dela. Aliás, sem as
drogas que ministramos no senhor, jamais teria se recordado
disso. Isso não significa que a fantasia não existisse. Pelo
contrário, ela sempre esteve lá, nas profundezas do seu
subconsciente.
— O senhor pode implantar um padrão de memória
extrafatual que se ajuste a um tipo de fantasia tão absurda
quanto essa? — disse o oficial de polícia a McClane, que,
sentado, ouvia tudo com atenção.
— Nós lidamos com todos os tipos de fantasia possíveis e
imagináveis — respondeu McClane. — Para falar francamente, já
vi fantasias muito piores do que essa. Dentro de 24 horas Quaid
não desejará ter salvo a Terra. Ele vai acreditar que isso
realmente aconteceu.
— Nesse caso pode arregaçar as mangas e trabalhar —
decidiu o agente. — Como preparação, já apagamos as
recordações da viagem que ele fez a Marte.
— Qual viagem a Marte? — perguntou Quaid.
Como ninguém lhe respondeu, ele arquivou a pergunta. De
qualquer forma, uma viatura de polícia acabara de chegar. Ele,
McClane e o oficial da Interplan entraram. Logo estavam a cami-
nho de Chicago e da Rekordações S.A.
— É melhor não cometer erros desta vez — disse o oficial
de polícia a McClane.
— Não vejo o que poderia dar errado — murmurou McClane,
transpirando. — Isto não tem nada a ver com Marte ou com a
Interplan. Impedir de mãos vazias a invasão da Terra por uma
raça de outro sistema solar... — Meneou a cabeça, admirado. —
Uau, as coisas que um garoto pode sonhar! E, ainda por cima,
vitorioso sem ter feito uso da força, mas sim de tolerância e
compreensão... estranho, não lhe parece?

McClane se calou e enxugou a testa com um lenço de linho
puro.
Ninguém disse nada.
— Na verdade, é comovente — concluiu McClane.
— Mas arrogante — disse o policial com rispidez. — Afinal
de contas, quando ele morrer, a invasão prosseguirá. Não me ad-
mira que ele não se lembre. É a fantasia mais pretensiosa da
qual já ouvi falar. — Ele olhou para Quaid com desaprovação: —
E pensar que pusemos este homem na nossa folha de
pagamento!
Quando chegaram ao edifício da Rekordações S.A., a recep-
cionista recebeu-os esbaforida no saguão de entrada.
— Seja bem-vindo, Sr. Quaid — disse ela, alvoroçada, os
seios grandes como melões, agora pintados de um laranja
berrante, balançando com a agitação. — Sinto muito por tudo ter
dado errado antes. Tenho certeza de que desta vez vai ser
melhor.
— Será melhor — garantiu McClane, ainda enxugando a tes-
ta com o lenço de linho irlandês dobrado com capricho.
Ele rapidamente convocou Lowe e Keeler, e os acompanhou
juntamente com Douglas Quaid até a área de trabalho. Então,
juntamente com Shirley e o oficial de polícia, retornou ao seu
escritório. Para esperar.
— Nós temos um pacote pronto para esse tipo de fantasia,
Sr. McClane? — perguntou Shirley, tão empolgada que esbarrou
nele, e então corou, tímida.
— Sim, acho que temos alguma coisa — ele tentou se lem-
brar, desistiu e por fim consultou a planilha formal. — Uma com-
binação dos pacotes Oitenta e Um, Vinte e Seis.
Abriu o cofre atrás de sua mesa, retirou os pacotes
apropriados e os levou até a mesa para inspeção.
— Do oitenta e um — explicou —, uma varinha mágica que
realiza curas, que foi dada, ao cliente em questão, o Sr. Quaid,
pela raça de seres de um outro sistema. Um símbolo de gratidão.
— Funciona? — perguntou, curioso, o policial da Interplan.

— Antes funcionava. Mas ele o esgotou completamente de-
pois de passar anos curando a torto e a direito. Agora é apenas
um suvenir. Mas ele se lembra de quando a varinha funcionava.
— Deu uma risadinha antes de abrir o pacote Vinte e Um —
Documento do Secretário Geral das Nações Unidas agradecendo-
lhe por salvar a Terra. Este, na verdade, não é muito adequado,
porque faz parte da fantasia de Quaid que ninguém sabe da
invasão exceto ele, mas vamos incluí-lo para garantirmos a
verossimilhança.
Ele inspecionou o pacote Seis. O que sairia dali? Não conse-
guia se lembrar. De testa franzida, vasculhou a sacola de
plástico enquanto Shirley e o oficial da Interplan observavam-no
atentamente.
— Escritos em uma língua esquisita — disse Shirley.
— Isto nos conta quem são eles e de onde vieram — disse
McClane. — Incluindo um detalhado mapa estelar registrando
seu vôo para cá e o sistema de origem. Naturalmente, está na
língua deles, de modo que nosso cliente não consegue ler. Mas
vai se lembrar que eles lhe deram o documento e o leram para
ele em nossa língua.
McClane colocou os três artefatos no centro da mesa.
— Estas coisas devem ser plantadas no miniapt de Quaid,
para que as encontre quando chegar em casa — disse ao
policial. — Isso vai confirmar a sua fantasia. Chamamos de POP:
Procedimento Operacional Padrão.
McClane deu uma risadinha enquanto se perguntava como
as coisas estariam indo com Lowe e Keeler. O intercomunicador
zumbiu.
— Sr. McClane, desculpe incomodá-lo. — Era a voz de Lowe.
McClane ficou pálido e mudo ao reconhecê-lo. — Acho que temos
um problema. Talvez seja melhor o senhor vir até aqui para
assumir o comando da operação. Como da outra vez, Quaid rea-
giu bem à narquidrina; está inconsciente, descontraído e recepti-
vo. Mas...
McClane correu até a área de trabalho.
Douglas Quaid estava deitado numa cama higienizada,
respirando lenta e regularmente, os olhos quase fechados,

ligeiramente cônscio das pessoas à sua volta.
Lowe estava pálido.
— Começamos a interrogá-lo para descobrir exatamente
quando colocar a memória da fantasia de ele ter salvo a Terra de
mãos vazias. Mas, por mais estranho que pareça...
— Eles me disseram para não contar — murmurou Douglas
Quaid, a voz arrastando devido ao efeito das drogas. — Esse foi
o acordo. Eu não deveria nem mesmo me lembrar. Mas como po-
deria esquecer um evento como aquele?
Acho que seria difícil refletiu McClane. Mas você esqueceu...
até agora.
— Eles até me deram um pergaminho de agradecimento —
murmurou Quaid. — Ele está escondido no meu miniapt. Vou
dizer onde.
McClane disse ao oficial da Interplan, que o havia seguido:
— Bem, minha sugestão é que é melhor vocês não o mata-
rem. Se fizerem isso, os alienígenas voltarão.
— Eles também me deram uma varinha mágica invisível de
destruição — murmurou Quaid, agora com os olhos completa-
mente fechados. — Foi assim que cuidei daquele homem que
vocês me mandaram matar em Marte. Está na minha gaveta,
junto com a caixa de minhocas carnívoras e as criaturas vegetais
desidratadas.
Mudo de estupefação, o agente da Interplan girou sobre os
calcanhares e saiu da área de trabalho.
É melhor eu destruir os pacotes com os artefatos
comprobatórios, pensou McClane, resignado, enquanto voltava
lentamente ao seu escritório. Incluindo a carta de agradecimento
do Secretário Geral das Nações Unidas. Afinal...
A carta verdadeira provavelmente não tardaria a chegar.

* * *

pensou. dirigido com habilidade. também. scooters e motos a jato. — Ou aumentar. o elemento da potência sexual. como se o vendedor sem pernas não existisse. — Eu tenho uma grande varie- dade de remédios fitoterápicos. — Vá pro o inferno — disse Chien. o que chamam por aí de cânceres pretos. mas eu não tenho doença nenhuma — res- pondeu Chien. posso fornecer um ungüento que. parecendo um bálsamo epidérmico. são baixos. ainda perseguindo-o. Exceto. reputadamente com cotação internacional. juntamente com depoimentos de milhares de clientes satisfeitos e fiéis. Posso reverter carcinomas. — Ergueu uma bandeja de vidros. se necessário. o carrinho. camarada. mas que na realidade não valem mais do que papel higiênico. Diga qual é a sua doença e eu posso ajudá-lo. — Camarada — gritou o vendedor. olhava para um vendedor ambulante sem pernas. Coisas a fazer no Ministério de Artefatos Culturais surgiram em sua mente e desviaram a atenção: era como se estivesse sozinho e não houvesse mais nenhuma dessas pessoas montadas em bicicletas. E como um favor especial a um cavalheiro de aparência tão distinta como o senhor. E. . por exemplo. Incluindo o meu. parando. Chien reduziu o passo. gritando com voz aguda para cada pessoa que passava. a do carreirismo. E meus preços. — Se um rival persistir em usurpar seu cargo burocrático remunerado. a doença crônica dos funcionários subordinados ao Comitê Central. em cima de um pequeno carrinho de madeira. quando deu por si. veio atrás de Chien. aceito as notas de dólar inflacionárias do pós-guerra. pequenas latas de alumínio e uma grande variedade de pós em recipientes plásticos. — Eu posso. submetendo constantemente à prova os portões de todos os cargos oficiais. até mesmo os temidos melanomas. Movido por uma bateria a hélio. é na verdade uma toxina tremendamente potente — cantarolou o ambulante. A Fé dos Nossos Pais Nas RUAS de Hanói. curar doença de radiação — en- toou o ambulante. escutou. e perseguiu-o no carri- nho. mas não parou. — Tudo bem.

— A lei — retrucou secamente Chien — Não estabelece que tenho que lhe comprar alguma coisa útil. seu tom de voz era triunfante e astucioso. como também. como servidor público. o senhor tem que comprar — respondeu tran- qüilamente o ambulante. Perdi minhas ex- tremidades pedais na batalha de São Francisco. — Nesse momento. seus subordinados. de nenhum uso. possivelmente. comprado por mulhe- res que. mas apenas que eu compre.. — Olhou por um momento para a escassa mostra de remédios fitoterápicos.. da Frente Unida Democrática Popular. recebia sob a forma de salário. — É a lei. — Por quê? — perguntou Chien. O ambulante soltou uma risada. não se qualificam para A Pílula. camarada. além disso. Levo isso. Lutei na Guerra Final Colossal de Libertação Nacional. tenho que lhe com- prar alguma coisa. — Isso. indignado. Já estava três minutos e meio atrasado para a primeira reunião do dia e seus vários superiores bundas-moles já estariam tomando notas mentais. Se recusar-se a comprar mercadorias oferecidas por um veterano. é supermatócido. cair no desagrado. eu sou veterano de guerra. espantado com essa invasão de privacidade — E .. o senhor se arrisca a levar uma multa e. que. em um grau ainda maior. por razões políticas.. ele. apontando para alguma coisa dentro de um saquinho de papel. — Porque. Cansado. contra os imperialistas. quatro vezes por mês. — Diga quais são seus problemas — pediu o ambulante. escolhendo um ao acaso. — Camarada. na verdade. e. — Admito isso — disse. Se- ria de pouco uso para o senhor. Chien fitou-o. na última fileira dos medicamentos. — Isso — resolveu. camarada. Chien chamou com um gesto o hovertáxi. Fez sinal para um hovertáxi que passava. Enfiou a mão no casaco acolchoado para pegar a carteira de notas. ser condenado a uma pena de prisão. — Muito bem. porque o senhor é um cavalheiro. cheias de notas inflacionárias do pós-guerra.

concluiu. bastante luxuoso. — É um prepa- rado tranqüilizante. Se não der o resultado prometido. o pacotinho de papel cinzento permaneceu no bolso do casaco quando entrou no imponente edifício do ministro de Artefatos Culturais do Pós-Guerra e no seu gabinete. Chien pagou. — Com garantia total. . pegou o pacote e afastou-se. camarada — respondeu o ambulante. notan- do-lhe a expressão.. quando vou ao meu clube treinar a arte esotérica importada de subir na corda. Su-Ma Tso-pin. Esquecido. —Exceto nas sextas-feiras.. Era o único prazer a que se entregava. usando um jaquetão de seda de Hong Kong com colete. do Ocidente derrotado. disse para si mesmo. — Todas as noites — respondeu Chien.isso feito por alguém de fora do governo. à parte a dedicação total às atividades do Partido. — Muito bem. Droga. — O senhor assiste demais à TV? — perguntou bruscamente. Juntamente com o caucasiano desconhecido estava seu su- perior imediato. como médico — como terapeuta fitoterápico é correto que eu saiba tanto quanto possível. — Sessenta dólares comerciais — disse. — Pensou por um momento. Queira me desculpar. O ambulante escolheu um embrulho em papel cinzento. Tso-pin fez as apresentações. Um corpulento caucasiano de meia-idade. Falando em cantonês. Tome-o logo que se sentir exposto aos habi- tuais sermões secos e demorados que. a disposição legal que transforma os veteranos de guerra em classe privilegiada. para iniciar a jornada de trabalho. esperava-o no gabi- nete. — Não vou querer saber mais nada. um dialeto que falava muito mal. — E isso — perguntou asperamente Chien — garante pro- duzir o quê? — Aliviará olhos fatigados por ter que tolerar monólogos oficiais sem sentido — respondeu o ambulante. Eles nos exploram — os jovens — como se fossem dinossauros raptores. É uma trama desonesta. devolva a porção não usada para reembolso completo e cordial da importância paga. tomado de surpresa. sua fisionomia encovada e sombria. Mas.

este cavalheiro é o Sr. A escola em San Fernando aparentemente ensinará filosofias taoístas costumeiras. Pethel e confia nele. Ah. — Chá? — perguntou Chien. na realidade. Muitos deles ainda estão vivos. um instante depois. notou que a eficiente Srta. que será brevemente inaugurado em San Fernando. Califórnia. o senhor identificará. entre os dois mil alunos. Daí. Sua relação com a programação do Sr. a água na chaleira de cerâmica altamente ornamental — de origem japonesa — começou a borbulhar. Tung Chien. Chien. Pethel deva supervisionar a instalação dos cursos de instrução que serão fornecidos pela escola ao corpo estudantil. quais os que estão ou não reagindo realmente à programação. — Embora o Sr. Os dois trocaram um aperto de mão. embora. A matrícula vai ser obrigatória para os que selecionarmos. de San Diego a Sacramento. Apertou o botão de seu hibachi infravermelho e. Pethel é muito importante. encaminhadas para seu gabinete e estudo especializado. Darius Pethel. deixando cair o saquinho de chá Lipton na chaleira. esse alto cargo. cuidadoso. quem merece confiança. — Sr. — O Benfeitor Absoluto do Povo — disse Tso-pin— conhece pessoalmente o Sr. Pethel será o diretor de um novo estabelecimento ideológico e cultural de caráter didático. A escola vai ter capacidade para aceitar dois mil deles. — Permita-me servir-lhe o chá — disse cerimoniosamente Chien. ideológico — continuou Tso Pin. Pethel dedicou toda sua fecunda vida a derrubar os países imperialistas através da mídia pedagógica. enquanto fingia que nada fazia de especial. Calculamos que cheguem a dez mil. sr. mantenha para nós um canal de comunicação com o segmento liberal e intelectual da juventude na região Oeste dos Estados Unidos. a água do chá está fervendo. — Em outras palavras. Este fato é raro. estranhamente. — Obrigado — murmurou Chien. O Sr. todas as provas de conhecimentos serão. Lançou um olhar rápido ao papel. Sentando-se à mesa. Hsi havia posto ali um currículo (confidencial) do camarada Pethel. — E acrescentou: — O Sr. .

— Mentir — explicou Tso-pin. — Além disso. do Benfeitor Absoluto. Nesse momento. o tom de voz tornou-se ameaçador. Disse esta última palavra em inglês. Após um intervalo. à aceitação ou recusa da variedade ardilosa que imagina. O orçamento do ministério. — Isso em si é um trabalho em tempo integral.. mas escondendo esse fato. — O senhor quer dizer que as provas escritas de dois mil estudantes passarão por meu gabinete? — perguntou Chien. embora apenas sutilmente. Pelo menos. Como que para frisar esse argumento. — Dar aprovação crítica. disse ele em tom suave. saber que são falsos — continuou Pethel. a juven- tude americana desenvolveu um talento para dissembling. — Estava estupefato. Tso-Pin pestanejou ao ouvir o vulgar e forte palavrão ocidental. Não tenho tempo para nada que mesmo de longe se pareça com isso. — Repetir os slogans apropriados para dar na vista. E não se esqueça de que o Benfeitor Absoluto do Povo escolheu pessoalmente o Sr. em um tom mais do que conhecido. Não conseguiu acreditar nisso. Fez um gesto bem conhecido. meus filhos". mas firme. — O senhor dispõe de um quadro de pessoal — voltou a fa- lar. sua proximidade disparou um gravador de fita atrás do retrato. também em inglês. Pethel. falando em um cantonês ainda pior do que o de Tso-pin — logo que perdeu a guerra global conosco. — O que o senhor precisa compreender é que — disse em voz grossa Pethel. oficial. Tso-pin foi até a extremidade mais distante da sala e postou-se em frente ao retrato de corpo inteiro. "Lutem pela paz. pode requisitar vários outros do pessoal do ministério. em 3-D. Não a compreendendo. per- mite isso. — Screw that — disse. — As provas escritas desse grupo se parecerão muito com as dos autênticos.. reforçado este ano.. temporariamente.. — Ah! — disse Chien. Chien virou olhos inquisidores para seu superior. Apenas o suficiente para penetrar na histeria de Chien e transformá-la em submissão. O rosto do Benfeitor ganhou vida e de seus lábios saiu a conhecida homilia. mas. . nervoso. por dentro.

Possivelmente. em conjunto com um gabarito do padrão de correção — e incorreção — ideológica. entregando os papéis a Chien. leu o título da primeira prova. Cabe-lhe. PROFETIZADAS NA POESIA DE BAHA AD-PIN ZUHAYR. Ele e Tso-pin sorriram em cauteloso uníssono. será nomeado vice-conselheiro do ministério e Sua Grandeza. — Elas nos dirão se o senhor está à altura do trabalho. com convicções amplamente pesquisadas. que suspeitamos de abrigar cripto-idéias degeneradas. o Ben-feitor Absoluto do Povo. modelo antigo. Provavelmente. um dos computadores do ministério poderia classificar as provas escritas. um membro leal do Partido. senhor. Chien en- controu uma quadra conhecida. correndo o fecho de uma pasta de documentos. Os olhos dos dois se encontraram. Sr. Intitulada "Morte". da pequena burguesia. conferirá ao senhor a Medalha Kisterigian. Obrigadíssimo. A questão poderia ser transformada em rotina. pensou Chien. o coração vibrava com uma tensão mal disfarçada. — Trouxe comigo algum material que gostaria que o senhor examinasse. Mas. — A Medalha Kisterigian — repetiu Chien — Pegou as provas e lançou-lhes um olhar de estudada indiferença. . DOUTRINAS DO BENFEITOR ABSOLUTO. A outra é de um jovem stilyagi. — Pelo que sei — continuou Pethel — se o senhor tiver sucesso neste trabalho. por dentro. descobrir quem é quem. — Duas provas escritas — disse. usando uma estrutura tipo sim- não-talvez. conhecia-a praticamente desde o início de sua vida de homem educado. Chien — Darius Pethel voltou a falar. — Por que essas duas? Com isso o que quero dizer é: o que devo procurar. de plástico. Mas. — Virou- se para Tsien-pin. inclinando a cabeça. imperialistas. senhor? — Uma delas — explicou Pethel — é trabalho de um pro- gressista dedicado. DA ARÁBIA DO SÉCULO XIII Lançando um olhar para a página inicial da prova.

que abatia e suprimia (metáfora mista) as aspirações humanas. cego. Decida. dizia a prova escrita. do século XIII. Isso eu sei. dele conhecidos desde seu nascimento. derrotar o Tennessee e. Uma vez. Temos que perseverar. que devemos dar ao Sr. Sentiu-se devidamente entediado e tão sem inspiração quanto o trabalho do estudante. Chien respondeu: — Deixe-me examinar a outra prova. Para ele não há colina alta nem baixa. quero dizer? Ou — Pethel fez uma pausa — ele está de fato satirizando as declarações do Benfeitor Absoluto? Cautelosamente.. nunca pensei nesse poema dessa maneira. Ele escolhe só uma de muitas horas. duas vezes deixará. observando os movimentos dos lábios de Chien enquanto relia o poema — para indicar a sabedoria antiquíssima demonstrada pelo Benfeito Absoluto em nossa vida corrente. não é de autoria de Baha ad-Din Zuhayr. sem nenhuma novidade. o bolsão de obstinada resistência nas colinas vermelhas de Oklahoma. — Este poema. O monstro imperialista. — Ele usa o poema — disse Pethel. Faz parte da antologia das Mil e uma noites. Em voz hesitante. O senhor concorda com ele? Com esse estudante. — De qualquer modo. Chien começou: — Eu. — Eu acho — disse Tso-pin —. Parecia ser um requentamento rotineiro. dos clichês do Partido. — Impressionante — comentou Chien.. — Sen- tiu-se irritado. de fato. . historicamente essencial. de que nenhum indivíduo está seguro. Deixou escapar um suspiro.. Que todos são mortais e que só a causa suprapessoal. — O senhor não precisa de mais informações. Rapidamente leu o texto da prova que acompanhava o poema. sobreviverá. Mas apenas a planície onde procura flores. Mas é.. ele deixará passar. Eliminar os resquícios do Pentágono nas Catskills. as maquinações do ainda existente grupo antiPartido na região leste dos Estados Unidos. Como deve ser. principalmente.

Seu canalha. — Voltou-se para Chien — O senhor tem permissão de levar as provas para seu apartamento. o poeta inglês do século XVII. sentado confortavelmente na cadeira espreguiçadeira de couro sintético construída especialmente para corrigir desvios de coluna. insultuosa ou não. e se sentiu mal. — O senhor é muito bondoso — murmurou —. sabidamente teimosos e excêntricos. Obviamente. .. os versos finais do conhecido "A Song for St. Culper. uma classe de estudo de poesia. esta era. meio solícita. De qualquer modo. especiosamente. e para descascar em minhas horas de descanso.E assim. acendeu um enorme charuto corona Cuesta Rey Number One English Market e começou a ler. em seu pequeno e confortável apartamento leu a segunda das duas provas. pensou azedamente. estava com problemas. incluindo tanto seu superior quanto o caucasiano Pethel. Obviamente. meio zombeteira. pensou. aprovaria isso. soltou Chien do anzol e por isso seu subordinado ficou grato. e avaliá-las em seu próprio tempo de folga. Fez uma mesura. que assinara a prova. E passou esta batata quente de uma mão para outra até que chegou na minha.. quando a última e pavorosa hora a desmoronante pompa devorar. esta noite. também. esta assinada por uma certa Marion Culper e descobriu que. Passando para mim uma batata quente como esta. em permitir que eu realize este novo e inspirador trabalho em minhas horas de lazer. Mikoyan. A Srta. Obrigado por nada. falava em poesia. Naquela mesma noite. Suas academias de doutrinação não estavam conseguindo dar conta do recado junto aos jovens ianques. . o PC EUA. selecionou como texto parte de um poema de John Dryden. Jamais tolerou o emprego da poesia — ou de qualquer outra arte — para fins sociais. Cecillia's Day". De qualquer modo. se vivo hoje.Chien a oportunidade de resolver sem pressa essa difícil questão.

pensou. além da Costa Oeste americana. Os mortos renascerão. nesse momento de frente para a TV. em tom sonoro e lento — estão com vocês. meus filhos. Será que devemos supor que Dryden previu a queda do capitalismo? Teria sido nisso que ele pensou com a "desmoronante pompa"? Cristo. Procurando no bolso o isqueiro de fabricação japonesa. o Abs. com o Sr. de um número grande demais. altas. do líder de 120 anos de idade do PC Leste. E a Música desafinará o céu. especialmente. o governante de muitos. Na tela. os vivos morrerão. a Polícia de Segurança. As trombetas serão ouvidas. Têvêêêêêê! disse o receptor de TV no canto mais distante da sala de estar. que havia se apagado. Temos que pensar em uníssono com esse homem nobre e dedicado e no duro trabalho que ele enfrenta.. — Que os dez mil botões da abjeta flor da pobreza auto- imposta floresçam em seu jardim espiritual — disse o apresentador da TV.. levantou- se parcialmente. as feições largas. E por isso resolvi reservar vários momentos de meu tempo para homenageá-lo e inspirá-lo. lisas. Com um gemido. Todos os aparelhos de TV eram equipados com dispositivos de monitoração que diziam à Polsec. voltou a sentar-se na espreguiçadeira de couro sintético. lá em Pequim. — Meus pensamentos — disse o Benfeitor Absoluto. pensou irritado Chien. que tem pela frente uma tarefa difícil. sadias. um rosto muito conhecido manifestou-se. O Líder vai falar para nós. de Hanói.. .. uma tarefa que tornará mais rico o povo do Oriente Democrático. como gostamos às vezes de pensar. Ah. pensou Chien. Tung Chien. Inclinou-se para pegar o charuto. refletiu Chien. Que droga de coisa. ou 100? Ou. se o dono estava fazendo a mesura e/ou assistindo. O Benfeitor Absoluto do Povo. Chien levantou-se e fez a mesura obrigatória em resposta. Uau para você. onde vive há 90 anos. E.

realizado na Hanói TV. onde o entusiasmo devoto pelo Partido terminava... Falhando como membro do Partido e ser humano? Receoso de tornar-se obsoleto e de ser jogado no Monte de lixo da história pelo. As probabilidades despertaram-lhe um cinismo nada camarada. Por fora. condicionado por uma vida inteira de prática. Virou o envelope e viu no verso algumas palavras impressas. Ora. Chien? — Estou.. parecia rigidamente atento. ignorando as indicações. pensou. As palavras haviam lhe despertado o interesse — e. E poderia ser também um trabalho de sincronização hipócrita. Enquanto isso.. pergun- tando a si mesmo qual delas continha a interpretação correta. claro. Incorporated. e começou a abrir o envelope com cuidado. o que. essa transmissão estava sendo transmitida apenas para seu prédio de apartamentos — ou pelo menos para aquela cidade. e a difamação irônica começava? Era difícil saber. o Benfeitor Absoluto continuava a falar em tom monótono. ora. tinha que escutar e assistir — e também absorver. Dinheiro derramado pelo ralo e para o que aquele remédio fitoterápico serviria? Para nada. lembrando- se de quanto aquilo lhe custou. continuava a remoer as duas provas escritas.Está ouvindo. Rapé. evidentemente. era para isso que estavam ali. Leu rapidamente o texto. Vossa Grandeza — disse Chien e pensou nas contra-probabilidades de o Líder do Partido escolhê-lo nessa noite particular. sr. pensou. Por dentro. Aquilo não convencia. tentando descobrir o que havia comprado. Incontáveis milhares grãos . Deus. E foi o que fez. O envelope continha rapé. Provavelmente. explicava por que haviam jogado o trabalho em seu colo. De qualquer modo. Mais uma vez. enfiou a mão no bolso à procura do isqueiro — e encontrou o pequeno envelope cinzento que o ambulante veterano de guerra lhe havia vendido.

durante algum tempo. inalado. parecendo pólvora. curava tudo. O nome dessa mistura particular era Princes Special. — O que é que o senhor quer dizer com isso? — perguntou Kuei. só Deus sabe com o quê. livre de estresse. — O Líder governa oito bilhões de camaradas. senhor. mas. sabendo com absoluta certeza o que seria. Na tela da TV. sob ordem sumária de sentar-se em uma postura confortável. descobriu. ou como parecia no caso de algumas. que lhe provocou uma coceira gostosa no nariz. No passado havia usado rapé — fumar. mexendo em um envelope de conteúdo duvidoso. enquanto Chien experimentava cautelosamente o pó.. — Pegou uma prancheta e uma caneta esferográfica.. Seria essa a mesma mistura? Praticamente qualquer aroma podia ser acrescentado ao rapé. o Benfeitor continuava a falar tediosamente. sim. foi ilegal por questões de saúde —. diante de sua tela e dar ao Líder total atenção. camarada trabalhador do Partido.. especialmente a mistura inglesa chamada High Dry Toste. de essência de organela a caranguejo- mirim pulverizado. — Duas marcas vermelhas e. dos quais desprendia-se um aro- ma interessante. Levantando-se.minúsculos. o que dizia que era grave o que o trazia até ali. dirigiu-se à porta. As palavras dele nesta noite são dirigidas especialmente ao senhor. O senhor não está olhando para a tela de seu aparelho e. de chegar tarde ao trabalho a apaixonar-se por uma mulher de antecedentes políticos duvidosos... Ele não vai . A campainha tocou nesse momento. E muito agradável. Mas típicos das indicações. — Sr. de agora em diante. sem a menor dúvida. lia as indi- cações sobre o mesmo. concluiu.. ao senhor. olhos duros e consciencioso em seu trabalho. E ali. — Duvido muito disso — Chien ouviu sua voz responder. era a moda. que havia por si mesma acabado mais ou menos com essa ânsia por fumo nasal. pestanejando. Interessante. Chien. recebi um telefonema do serviço de televisão. baixote. nos seus dias de estudante na Universidade Pequim. o síndico. Trazia a braçadeira com o nome de seu cargo e capacete de metal na cabeça. estava Mou Kuei. especialmente as misturas feitas por amadores em Chunquim.

. — Meu telefonema para vir aqui e confrontá-lo com sua falta de exaltação no cumprimento do dever veio da Central. acabar com o longo discurso e a imagem mesmo que tirasse o plugue da tomada. sentou-se mais . Esse fato aborrecia-o.me escolher entre todos eles. na verdade. disse a si mesmo. — Seu nome foi mencionado.. Chien peidou. — Mas agora ele está falando sobre fracassos na Índia Po- pular. levou a mão às narinas e inalou pro- fundamente. — Mas eu ouvi claramente. Discursos de escuta obrigatória. eles lá consideram importante sua atenção. uma luz vermelha piscou. Ao lugar onde passamos nossas horas de lazer.. Dirigiu-se ao aparelho de TV e fez menção de desligá-lo. Mas não havia regulamento conhecido que o proibisse de cheirar rapé enquanto ouvia o Líder falar. Em seguida. Esses seios estão ligados ao cérebro e. Tenho que ordenar que ligue seu circuito automático de gravação de transmissão e que volte a ouvir as partes anteriores do discurso do Líder. uma inalação de rapé afeta diretamente o córtex cerebral. como se fosse um profissional da coisa. pensou furioso. Dirigindo-se ao aparelho de TV. enterrar todos nós. Sentia-se raivoso. A pontualidade da reprimenda do síndico irritava-o. E ali estavam duas provas escritas de estudantes. curvou-se formalmente e virou-se para ir embora. me livrar do barulho dos ganidos do Partido acuando a humanidade. abrindo o pequeno embrulho cinzento. levando o rapé para bem fundo nos seios nasais. E tudo isso em minhas horas de lazer. Imediatamente. que não podia. Se eu pudesse me livrar do ruído dos discursos. por isso. também. Sorriu. Que enfiem isso naquele lugar. E fechou a porta. De modo que. vão matar todos nós. — Mou Kuei riscou uma marca no papel da prancheta. pensou. Chien aumentou o volume. com meus próprios ouvidos — disse Kuei. O diabo que os carregue. Obviamente. Esse assunto não tem relevância para mim. De volta à TV. informando-o de que ele não tinha permissão de desligar o aparelho.. — Tudo que o Líder diz é relevante. pôs um montinho dos grânulos pretos nas costas da mão esquerda.

fixou a vista na tela da TV e no indivíduo gesticulante que todos conheciam tão bem. aos poucos. — Desejo denunciar um passador de drogas alucinogênicas — disse.C. pensou. mais uma vez em pas- sos vacilantes. preta e branca.. O ambulante descobriu por acaso algumas drogas psicodélicas usadas durante a Guerra de Libertação. tomei uma barbaridade! Dirigindo-se em passos titubeantes para o videofone. de lentes. Chien deu a informação solicitada e. pensou também. os seios nasais ou. continuava à sua frente e do alto-falante escapava um silvo baixo. E a caixa começou. eficiente. A tela. e de uma caixa de fala.. feita de circuitos em estado sólido. a lhe passar um sermão bombástico. senhor.. A tela permaneceu vazia. essa . discou o número da estação da PolSec mais próxima de seu prédio. desapareceu. Este é letal. Mergulhou no rapé.. pelo menos. na verdade. Olhando-a fixamente. Inalou profundamente o resto do pó nas costas da mão. Ele está vendendo esse troço e eu tomei um pouco dela. uma imagem formou-se mais uma vez e se fixou. Não do Líder. Não do Benfeitor Absoluto do Povo. e localização apartprédio? — Um burocrata da polícia. D. pensou: O que é isso? Realidade? Alucinação. voltou à espreguiçadeira de couro sintético. em um ruído monótono. Olhava para uma construção mecânica morta. — Seu nome. E eu pensava que ia me aliviar da chatura dos discursos do Líder. puxando-o avidamente para o nariz.uma vez. Tem que ser um preparado aperfeiçoado em Washington. O som parou. pensou. A face tornou-se indistinta. mais uma vez para ver as aparições na tela da TV. ou em Londres — mais forte e mais estranho do que o LSD-25 que eles jogaram com tanta generosidade em nossos reservatórios d'água. seco. Em seguida. para o cérebro. Chien viu-se diante do vazio. Isto é muito pior. absorvendo-o gostosamente. impessoal. foi o que pareceu. de um vácuo. A droga do rapé. de pseudomembros que giravam. de maneira nenhuma uma figura humana.

vistoso. — Toxina psicodélica — disse em voz rouca.. Durante todo o tempo. em um conjunto de imagens que se deterioravam. Não consigo me lembrar. Absorvida diretamente pela corrente sangüínea através das capilares nasais. interminavelmente.. Ter que enfrentar isso durante o resto de minha vida. Não depois de ter cheirado o rapé quase tóxico. Mas ele se lembrava. correto.. Canetas esferográficas em posição. um uniforme ele- gante. Trêmulo. giradora. de alguma maneira. . E perguntou a si mesmo: Era essa a intenção deles? Pareceu-lhe estranho pensar em uns tantos eles.monstruosidade eletrônica. em não dizer à polícia o bastante para locali- zar o tal homem. — Obrigado. É apavorante. camarada Chien — o mais graduado da dupla pegou com todo cuidado o resto do rapé. e tudo mais. com uma relutância inexpli- cável. e colocou-o em um bolso do uniforme. de metal e plástico. dentro do embrulho. o Líder prosseguia no dis- curso interminável. mandou os dois policiais entrarem e levou-os à mesa onde havia deixado o resto do rapé. pensou. havia sobrado a maior parte. Como havia feito em milhares de noites antes na vida de Tung Chien. Al- gumas drogas psicodélicas do tempo da guerra acabaram por se revelarem fatais.. contou tudo. De modo que. Darei aos senhores todos os detalhes sobre onde a comprei. A dupla da PolSec precisou de dez minutos para bater à sua porta. lembrava-se exata- mente da esquina. Por um instante hesitou em dar todos os detalhes. Por essa altura. como o senhor sem dúvida leu. — De curta duração. Um ambulante. os dois policiais espera- ram. isso nunca mais será o mesmo. Mas.. embora. — Vamos mandar analisar isso na primeira oca- sião disponível e o informaremos imediatamente no caso de medidas médicas preventivas serem indicadas para o senhor. pelo menos para mim. no fundo.. Tomou uma profunda e trêmula respiração. A presença da polícia era confortante. tendo suplantado a horrível construção artificial que mexia seus membros. falando sem parar. falava sem parar. de quem. Não sei onde. a imagem conhecida do Líder voltou a entrar em foco na tela. falador a. começou.

Era nisso. O laudo do laboratório chegou rápido. que o senhor sem dúvi- da sabe que é antialucinógena. Sentindo-se como se em transe. Obviamente. que havia pensado. Eu não me preocuparia com isso. Pensativo. Pode reduzir sua pressão arterial e deixá-lo sonolento. Chegou-lhe através do videofone. roubada de um depósito de suprimen- tos médicos do tempo da guerra. a despeito de toda eficiência por eles demonstrada.. A moça à porta. — Não? — perguntou Chien. dirigiu-se para a janela de seu prédio— a janela que tinha uma excelente vista de outros prédios residenciais — a fim de pensar. uma certeza muda. e surpreendentemente. não parecia tê-los abalado. — Agindo por reflexo. mas inócua. Chien. Deixado pelos bárbaros em re- tirada. É uma fenotiazina. absolutamente. mas alguma coisa. estranhamento e sem se sentir aliviado. Era um tiro no escuro. — Você esteve monitorando meu videofone — disse ele. Chien convidou-a a entrar e fechou a porta. O caso. perplexo com. em voz tímida e baixa: — Humm. — Li — confirmou Chien. desligou o videofone.. — Boa sorte e obrigado por nos ter notificado — disseram os dois policiais. — Ao contrário. cruzou a sala de estar atapetada e foi ver quem era. queixas desse tipo eram rotineiras. Uma dose forte por grama da mistura.. Em seguida. A campainha da porta tocou nesse momento. antes de o Líder terminar o discurso na TV. especificamente. Provavelmente. em um movimento lento. — Não é um alucinógeno — informou o técnico de labora- tório da PolSec. Não. dada a vasta burocracia do Estado. e saíram.. lhe . camarada Chien? Tung Chien? Do Ministério da. usava capa de chuva com uma babushka cobrindo os cabelos compridos e muito brilhosos — perguntou ela.

Um organismo mecâni- co de nenhuma maneira parecido com um ser humano. Não um simulacro nem uma coisa construída para parecer um homem. — Tinha. Isso é tudo que sei. a capa de chuva subindo e descendo.. — Oh! — Ela baixou a cabeça. ela continuou: — Foi a forma de horror aquático? A coisa com lodo e dentes. Chien. — Eu tinha opção? — perguntou agudamente ele.. Chien. Para nós é de grande importância ter certeza. E acrescentou para si mesmo: E a coisa não conseguiu — não tentou — falar como um homem. Fenotiazina. Isso não é o que nós planejamos. A moça respirava de maneira entrecortada. — Uma máquina — disse. compreendo. mas ou- vir. a forma de vida ex- traterrestre? Por favor. — A moça tomou uma respiração . É tão difícil consegui-lo nestes dias. — Conte-me o que viu. e muita. — O senhor compreende que não foi uma alucinação? — Fui oficialmente informado de que o que tomei foi fenotiazina. tomara que não. não. com esforço. — A coisa não parecia um homem — concordou Chien. Sr.disse que ela havia feito isso. Falou tão pouco quanto possível. Sr. Quando deu por si. Não se ajusta à teoria de ninguém. — Rapé — disse ele — é fácil de conseguir. obviamente tão insegura quanto os policiais da PolSec estiveram seguros. — Oh. É isso o que você quer dizer? A moça levantou a cabeça e examinou-o com grandes e sombrios olhos. inclinando-a vigorosamente para baixo. me diga. Chien se- guia atentamente esse ritmo com os olhos.. Nós temos que saber. — Isso mesmo.. — Hesitou.. E é isso que nos deixa confusos. eles levaram o resto do rape? — A moça olhou em volta. — Eles. — É.. Não queria falar. Ouvir o que aquela moça tinha a dizer. — Os olhos tornando-se ainda mais escuros e profundos. — Muito bem. Não compreendemos o que aconteceu.

— Fez um gesto com os dedos finos.. naquela voz rouca — que tomam estelazina — e foi estelazina o que o senhor tomou. Quando a coisa fala. Dizem a nós muito pouco. Sr. todos eles produzidos pelas mesmas fenotiazinas. — O que é que vocês vêem? Você.. Sentiu-a atrás de seus ombros. melhor dizendo. Era linda a maneira como exalava esses perfumes. — Alguns — continuou ela. difícil. um pouco. — Mas as reações dos outros pouco nos dizem. em particular? — perguntou ele... ingenuamente agudo. formado pelos que vêem o que o senhor vê. e que ele ouvia desde os tempos de menino.. o Tubo Ascendente. Tão diferente dos padrões repetidos e monótonos que ouvimos na TV. .... poderia ser isso? Chien ficou calado. Um redemoinho de vento violento. uivante. uma variedade infinita.. Chien. — Eu faço parte do Grupo Amarelo. Esperando pela tentativa seguinte da visitante. porém. surgiram. Esse é o Engolidor. Nós os chamamos de Estrepitosos. ig- norando-a. Junte-se ao seu grupo particular.. pensou ele. o jeito como falava. — A coisa não pode ser todas essas manifestações. desprendendo um aroma de chuva de primavera. Doze grupos no todo. Sr. uma tempes- tade. tudo isso acontece quando o Líder fala na TV. assim como sua aparência e. — Hesitou e em seguida continuou: — Agora que isso lhe aconteceu. O Grupo Vermelho. Que arranca tudo pela base. um aroma de doçura e agitação. Dois experimentos inteiramente diferentes. pegou displicente- mente as provas dos dois estudantes. — Sorriu cansada. Eu vejo. Não há. então o que foi? O que é que isso nos deixa? O que é chamado de "extra- consciência". — O tom era agudo. — Calou-se por um momento. Sr. Chien — vêem uma única aparição. outros vêem coisas diferentes. — O Esmagador. Dando-lhe as costas. nós gostaríamos que viesse a uma de nossas reuniões. Chien. — Se não foi uma alucinação. passou a vista por elas... Ca- tegorias separadas.profunda. porém. Alguns vêem o que o senhor viu. Queremos saber o que essa coisa realmente é e. Mas há também a Ave. Alguns vêem o horror aquático. Chien sentiu sua cautela relaxar. e. macios como cera. esmaga prédios de apartamentos construídos para durar um século.

não contra isso. — Não há lei. em ascensão. — Tirou- lhe dos dedos as provas escritas. — Poli-ler? Chien desconhecia a palavra.. mas o inspetor altamente graduado Judd Craine. . — E acrescentou sombriamente: — E com o Sr. do pós-guerra. Chien. da PolSec. Pethel. dedicado.. — Estão obrigando o senhor a poli-ler? — perguntou ela. a cabeça. ela sorriu. Não temos muito dela. vocês chamam a isso meramente de "ler". — Você sabe qual é a certa? — perguntou ele. Essas provas escritas são forjadas.. bem conhecido. — Eu devia exercer meu direito de cidadão e prendê-la — disse ele logo em seguida. — Temos aparelhos de escuta no gabinete particular do Sr. — Quando subir um degrau mais alto. destinadas a fornecer a eles uma análise exaustiva de sua ideologia política. encontrarmos pessoas para distribuir a estelazina. — Ela inclinou. Ele está situado muito alto na hierarquia. Sr.. Pethel.. — Estudar alguma coisa dita ou escrita para verificar se está de acordo com a visão política atual do Partido. Tso-pin.. Na hierarquia. provocando-o com uma malícia divertida. não? — Mais uma vez. — Escolha a errada e sua carreira em ascensão morre e esfria no meio do caminho. séria. O senhor provavelmente ouviu falar nele.. Conseguiu distinguir qual das provas é a ortodoxa e a herética? — A voz dela era brincalhona. — Sei. Estudamos a jurisprudência soviética antes de. Ele foi o principal assessor do juiz Vorlavsky no processo por crimes de guerra em Zurique. não há nenhuma escola ideológica em San Fernando. Pethel. que não é nenhum Sr. Como se ela soubesse de alguma coisa ou pudesse fazer alguma coisa. mais alto junto ao Sr. o senhor vai conhecer essa expressão. Escolha a certa. Nós achamos que o senhor era uma boa escolha. os cílios longos — prova- velmente alongados artificialmente — o olhar encantador. Ergueu a cabeça e sorriu para ele. em 1998. Monitoramos a conversa dele com o Sr. um funcionário de carreira jovem. Tso-pin.. mes- mo confiante. Temos que tomar todo cuida- do com as pessoas a quem a damos.

esteve. — O . — Tecnicamente. mandou? — Não — respondeu ele. Não os que foram usados durante a guerra. — Diga-me — pediu ele — qual das provas é a ortodoxa? — É isso o que o preocupa? Realmente? — Com o que é que eu devo me preocupar? — perguntou ele. sabendo o que ela iria dizer. Bebe-o no ministério. não os que causam desorientação. entendo — disse Chien. — Eles não estão nos ouvindo? — Nós introduzimos um fator de ruído na recepção de ma- terial de vídeo e áudio neste prédio. mas um derivado sintético do espigão do centeio chamado Datrox-3.. Nós temos que ocupar postos. — O senhor não compreendeu.. sou uma pequena escrituraria — conti- nuou a Srta. Bem. bebe no restaurante e em outros apartamentos que visita. Chien. — Claro que não — continuou. Ele é outra coisa. com todo o devido respei- to. Meu próprio chefe. Lee — em seu ministério. Tão altos quanto possível. Sr. contudo. isso explicava tudo. O senhor o bebe aqui no prédio desde o momento em que acorda. Chien? O senhor apren- deu uma coisa. Ainda não. e continuará a estar. o senhor já mandou analisar a água que bebe? Reconheço que isso parece paranóico.. — Eu. — Meu nome é Tanya Lee — apresentou-se a jovem. Para ainda ficar em segurança. Está. Lee — apuraram que ela está saturada com alucinógenos. mas não sabemos o quê.. Inclinou simplesmente a cabeça. pelo menos que eu me lembre. confuso demais para pensar. O senhor nunca passou por mim. Eles precisarão de quase uma hora para localizar a blindagem. De modo que — consultou o relógio minúsculo no pulso esguio — temos mais 15 minutos. mas. sempre que podemos. que permanecia ligado. Sr. O Líder não é o Líder. Ele é distribuído pela canalização a partir de uma fonte central. — Nossos testes — prosseguiu vivamente a Srta. Chien ficou calado. com dificuldade. — Você deveria estar me contando isso? — Chien indicou com um gesto o aparelho de TV.

o Líder falou de você. Isso não parece estranho? Um pequeno chefe de serviço. eles confiarão no senhor e lhe da- rão um cargo mais alto. sua carreira pode levá-lo ao mais alto cargo. Sua carreira está comprometida por um tempo. homens do pós-guerra. a grande variedade de experiências autênticas. Não pudemos nem mesmo formular uma teoria ad hoc que explique isso e só Deus sabe como nos esforçamos. Lee —. — Nós solucionamos esse problema. Instintivamente. É a alucinação que deve diferir de uma pessoa a outra e a experiência de realidade que deve ser onipresente. — A que traz o poema árabe é a ortodoxa — afir- mou. De fato. O que não sabíamos. claro. — Se disser isso a eles. — Esta noite — disse a Srta. moribunda. de indivíduos sem nenhuma idéia na cabeça. no discurso. — Isso foi legítimo. Cautela de uma vida inteira.. — Também pensei nisso. Pelo menos. Eles conheciam uma infinidade de métodos de liquidar um rival alguns dos quais ele mesmo usara. de mercenários do Partido. . E por nós.. seus dentes eram perfeitos e lindos. logo que o descobrimos. como sabemos.. Se conduzida de forma correta. — Reconheço isso — concordou Chien.. Sabíamos. Doze alucinações mutuamente exclusivas. — Sua Grandeza está preparando um quadro de elite de homens mais jovens. foi isso. Racionalmente. Subirá um degrau na hierarquia do mundo oficial do Partido. Mas não uma única alucinação e 12 realidades. Vivida em meio aos homens difamadores de filial de Hanói do PC Leste. Isso podia sempre acontecer. sua cautela entrou em ação.tom de voz era frio e raivoso. outros que ele tinha visto serem usados contra ele e outras pessoas. Sua Grandeza escolheu-o pela mesma razão que o es- colhemos. isso não faz sentido... isso poderia ser facilmente compreendido.. que desconhecia. mas tudo acontece ao contrário.. A coisa é assim. durante algum tempo. — Interrompeu-se. na esperança de infundir nova vida na hierarquia mesquinha... a testa enrugando-se. ela concluiu: — Veja só o que você recebeu em troca de seu dinheiro essa manhã. — Não acredito em você — disse ele. Mas este podia ser um método novo. examinou as duas provas escritas. — Sorrindo. em um ministério secundário. que qualquer boa fenotiazina combateria seus efeitos.

levantou o aparelho e começou. Então. o Par- tido e Sua Grandeza de um lado — e essa moça com seu suposto grupo. depois de uma só vez. Pondo o telefone no gancho. do outro. — Entregar-me a polícia — disse a srta. E. pensou Chien. — E qual foi minha primeira decisão mais regressiva? — perguntou ele. de experiência com o rapé anti-alucinógeno. Exceto eu mesmo. A outra — O que é que Tanya Lee quer? Por trás das palavras. de Hanói. no interior da membrana de um desprezo quase trivial pelo Partido.. eu saberia que prova escrita deveria escolher. que detinham trens . Que abalou anos de confiança e. não depois de tudo isso. ele continuou: — Tudo o que existe é o seguinte: Partido e Anti- Partido. Sentiu que voltava a si. pelo Líder. certamente.. Lee — seria a se- gunda decisão mais regressiva que o senhor poderia tomar. porque pensou que. perguntou: — Você é anti-Partido? — Não. Uma quer que eu suba tanto quanto possível na hierarquia do Partido. Dirigindo-se ao videofone. corretamente. Não obstante. O que é que querem destruir? A função regular do governo? Vocês são iguais aos estudantes traiçoeiros dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. — Mas. começava a recuperar a posse de si mesmo. aparentemente todos têm fé em mim. pelos padrões éticos da Frente Democrática Unida Popular. Eu direi que o senhor me trouxe aqui para me subornar. devido a meu trabalho no ministério. sem dúvida.. Calmamente. Duas forças.. — Com um gesto enfático das mãos. — Vocês têm uma organização — prosseguiu — e vocês se reúnem. — Confuso. fitou-a. um pouco no início. a discar o número da Polícia de Segurança. o que queria ela no que lhe dizia respeito? Curioso. ela sustentou seu o olhar. pela segunda vez naquela noite. Tung Chien pensou: não estou entendendo o que está acontecendo comigo. — Não tomar outra dose de fenotiazina — respondeu cal- mamente a moça.

Chien examinou mais uma vez as duas provas. — Devido à sua idade avançada. não noticiam. Se não for a minha vida — Chien respondeu. Tanya consultou novamente o relógio. — A prova herética está recheada do jargão do Partido. evidentemente. — Não foi assim — respondeu. — O senhor nos deve alguma coisa — retrucou secamente Tanya. esqueça. Confuso. O que ela dizia pa- . como o senhor sabe. — Temos a esperança de que — continuou ela — se o se- nhor passar no falso exame que lhe prepararam. pouquíssimas pessoas vêem o Líder. o rosto lívido. Os 15 minutos estavam quase no fim. — Não. em um frenesi de desespero. — Tanya sacudiu ferozmente a cabeça. pensando em voz alta.. Te- ria ela razão? Possivelmente. — Nesse caso. e que os jornais. a questão não é essa. a Srta. compreendeu? — a voz er- gueu-se. — Mas. poderá ver cara a cara quem ele realmente é. o senhor saberá. já passou..conduzindo tropas. — Reclusão — disse Chien. Será que o senhor não compreende isso? — Aumentou o tom da voz. cansada. Chien sorriu tranqüilamente. — Se eu não tivesse lhe dito que prova es- crita escolher.. e com minha ajuda. o senhor teria escolhido a errada e sua dedicada carreira no serviço público acabaria de qualquer maneira. Lee. o se- nhor teria fracassado — fracassado em um teste ao qual nem mesmo saberia que estava sendo submetido. faziam protestos. Eles queriam que o senhor fracassasse. estridente. — Na verdade. Quero dizer. Eles prepararam deliberadamente os dois textos como uma armadilha para o se- nhor. Agora. — E terminar minha carreira no serviço público.. Se for lá sob a influência da droga antialucinatória. — Eu tinha uma chance de cinqüenta por cento — respondeu. vê-lo realmente em carne e osso. O que queremos saber é o seguinte: quem ou o que está nos conduzindo? Temos que nos infiltrar o suficiente para recrutar alguém. algum jovem teórico em ascensão do Partido. que possa ser convidado para um tête- à-tête com o líder. vai ser convidado para uma das festas só para homens que o Líder oferece de vez em quando. Provavelmente.

Deus do céu. Não temos pressa. — Haverá outros testes — lembrou a Srta. Ouviu sua própria voz. Sentiu-se muito cansado. a resposta a essa coisa que o Partido quer saber. E nós os monitoraremos também para o senhor.recia verdade. fornecendo as respostas. à vontade. sem dúvida inesperadamente.. possivelmente a última dose de nosso suprimento cada vez menor. ela parou por um momento. Boa noite. não eu. após um momento. Fechando a porta às suas costas. conhecendo os funcionários do Partido como conhecia. — Dirigindo-se para a porta e abrindo-a. O senhor não está para receber um convite para ir à casa de campo do Líder. Ela estava calma. E ela nem mesmo se deu ao trabalho de mencionar isso. nem mesmo valeria a pena mencionar. e Tso-pin. Em vista daquilo em que estão envolvidos. — O que você está tentando extrair de mim é um quid pro quo — disse. em particular. Lee — enquanto continuar a subir na carreira. seu superior. caprichado. na próxima semana ou mesmo no próximo mês. o senhor vai receber um convite oficial. Eles podem me chantagear. ressoando com a pobreza de emoção empática tão comum nos círculos do Partido. pensou Chien. um destes dias. e nessas ocasiões vai conhecer um ou mais de um de nós. formal. — Mas. havia previsto aquela reação. para ir à casa de campo e. ou diz que tem. Evidentemente. Derrotado. — Sorriu levemente por um momento. — De quanto tempo disponho para pensar a fundo nesse problema? — perguntou. às margem do rio Yangtze. ela desapareceu. Pelo que eu fiz. monótona.. — Você fez uma coisa por mim — você tem. Provavelmente. será fortemente sedado com estelazina. Aquele veterano de guerra inválido é que lhe dará as folhas com as respostas certas quando deixar o prédio do ministério. O que é que me impede de expulsá-la daqui a pontapés? Não tenho que fazer coisa nenhuma. quando for. Mas já fez sua parte.. nós entramos em contato. .. — Na medida em que o submeterem a testes de classificação. — Estou indo embora agora.

Darius Pethel vie- ram ao seu gabinete.. ninguém mais fez.. se a coisa for como a forma que vi na tela da TV? O Esmagador. Ouviu a menção de seu nome no discurso do Líder noite passada na TV? — Certamente que sim — respondeu Chien. ou pior ainda? Pensou na forma em que as outras visões seriam constituí- das.. mas expectantes.. também. eles sabem. Mas. A ortodoxa. Chien — disse Pethel. Sr. Eu verei o Benfeitor Absoluto do Povo como ele realmente é. vão ficar alertas. eles vão me vigiar.. o Tubo Ascendente. Para dizer a . — Tudo bem. A outra. inclinando a cabeça. Tso-pin e o Sr.. O que será? Qual das subclasses de não-alucinação? Classes que nem mesmo sei quais sejam. — A despeito de uma superficial. Sem pronunciar palavra. quanto a isso. e em seguida abandonou essa linha de especulação. mais tarde. — Esta — disse concisamente — é produto de um dedicado membro do Partido ou de candidato a membro. foi identificada como fenotiazina. Como é que vou conseguir chegar ao fim da noite.. disse a si mesmo. manter o equilíbrio. o Estrepitoso. a Ave. Ao longo dos anos. ambos calmos. nenhuma dúvida.. Relaxou ligeiramente ao pensar nessa possibilidade. Neste caso. possivelmente. não infringi lei nenhuma. O que. Isso é claro.. o Sr. como virtualmente todas as pessoas. — Sentiu que ficava zangado. compreendeu. O Líder escolheu-o. — bateu nas páginas restantes. E provocava ansiedade demais. — De modo que o senhor indubitavelmente inferiu — conti- nuou Pethel — que há muita coisa envolvida no que estamos ten- tando fazer aqui. Sua análise está correta. — Não temos que examinar cada uma e todas as ramificações. o Engolidor. com seu curto e triste poema árabe. eles vigiavam todo mundo. Vão me vigiar.. Chien entregou-lhe uma das "provas escri- tas". acostumou-se a isso. Tecnicamente. Na manhã seguinte. uma visão que talvez me derrube inteiramente. Mas chantagear para obter o quê? Já havia dito aos policiais da PolSec que lhe tinham fornecido uma droga que. — Lixo reacionário.. mas.. Não valia a pena.

. quando o vir face a face. nunca ouviu. Eles não estavam preparados para que eu... A sra. Como eu. Fletcher? — A esposa do Benfeitor Absoluto — respondeu secamente Tso-pin. Mas Sua Grandeza. Pethel. ele me comunicou o fato. pensou Chien. — começou. — Hesitou. O que vemos todas as noites não é real. Onde está o anti-alucinógeno? Eles podem me dar isso ou . — Quem é a sra.. seria melhor que o senhor esquecesse esse fato. — Sra. por outro lado. sacudiu-se.. a seu respeito.. em particular. que o senhor. Como serve de prova o Sr. ligeiramente — Sua Grandeza gostaria que fosse jantar com ele em seu rancho à margem do rio Yangtze na noite da próxima quinta-feira. brincando com a corrente do relógio. — O nome dele.. mas. — A imagem — interrompeu-o Tso-pin — é submetida a uma série variada de refinamentos hábeis. A pergunta é: Até que ponto é irreal? Parcialmente? Ou. secreta. na tela da TV. aqui. que inclinou a cabeça. De modo que todos concordam.. Para finalidades ideo- lógicas.verdade. totalmente? — Estarei preparado — disse formalmente. vai ver que ele é um cauca. De qualquer maneira. E fitou Chien com uma crítica impiedosa. após uma pausa. E pensou: houve um pequeno erro. — Ele é caucasiano — explicou Pethel. — A raça — observou Tso-pin — nada tem a ver com leal- dade ao Líder e ao Partido. em sen- tido estrito. Claro.. — Não estou achando. — Originariamente. — lançou um olhar a Tso- pin. — Na TV. — Abriu a gorda pasta de documentos e procurou alguma coisa. claro. A maioria das pessoas que ocupa altos cargos sabe disso.. Ele não pare- ceu. Fletcher. — Provavelmente. ser ocidental. a quem Tanya Lee representa — ganhasse acesso tão rápido assim. logo que o conhecer pessoalmente. Essa informação não é. não foi badalada por aí. Ele participou da difícil tomada do poder naquele país. Fletcher? — perguntou Chien. Como muitos de nós. gosta. é Thomas Fletcher. do Partido Comunista da Nova Zelândia. pensou Chien.

Seria um jantar muito estimulante e alegre. Ia à presença de Sua Grandeza em condições de vê-lo como um ser humano. O se- nhor será levado de sino-foguete para a casa de campo do Líder na manhã de quinta-feira. o chefe do protocolo lhe dará ins- truções sobre o comportamento apropriado. disse para si mesmo. na mesa. tirando um envelope branco da pasta. Em certos aspectos. — Outra coisa — disse Pethel a Chien. até fins da manhã seguinte. — E acrescentou: — Eu com- pareci a duas dessas reuniões apenas para homens. — A honraria chegou prematuramente ao Sr. — É possível que. Ele. quando conhecer pessoalmente Sua Grandeza. alívio. tudo chega para aquele que espera. Acho que podemos dispensar a fenotiazina. Chien. Foi Ben Franklin quem disse isso. Mas.. Será usado traje for- mal. vê-lo como ele — e todo mundo mais — via-o na TV. — Seu cartão de admissão.. poderá contar uma piada pesada ou beber demais. — Mas nunca ninguém pediu minha opinião. se a sentir. mas geralmente duram muito.não? Provavelmente. o senhor fique desapontado de algumas maneiras. Possivelmente. Tso- pin — sorriu ironicamente — não foi ainda agraciado dessa maneira. O Sr. com um aviso tão curto. Sentiu. — Ahn? — disse Chien. não. estranhamente. — Aqui está. — Para fortalecer a resistência. E para contrabalançar as bebidas alcoólicas. Lá. por exemplo. Para ser franco. é o que eu diria. mas a atmosfera será cordial. Mas. Nós sempre tendemos — fomos treinados — a considerá-lo mais do que um homem. pode entregar-se a atividade oral-agressiva e passiva moderadamente humana. como nós. Cuidado para não demons- trar essa reação. Há sempre muitas pessoas famosas nessas ocasiões. casaca. — Tso-pin encolheu filosoficamente os ombros. com alguns dos membros mais influentes do Partido na Ásia. Sua Grandeza tem uma notável capacidade . ele é — fez um gesto — um comilão e tanto. como dizem por aí. Isso era novidade para ele. E aumentou sua sensação de alívio. nunca ninguém sabe antes como essas festas vão acabar. e inte- ressante. finalmente — disse de repente Pethel. De modo que seria prudente aceitar a dosagem de anfetaminas que o chefe do protocolo vai lhe oferecer.

Começou a afastar-se.de resistência.. a cantilena chorona de um vendedor ambulante que trabalha na marginalidade. Conseguiu. entrando na con- versa. com seu ocupante sem pernas.. evitou o ambulante. Se mudar de idéia. tentando descobrir em mim algum vestígio desleal. — Pode fazer o favor de me responder? O tom não era o esperado. começou a persegui-lo. — Eu sei o que foi que você me deu — disse Chien. A fórmula retroage à dinastia Sung.. Aquela moça. fez a mesma coisa no dia seguinte e até a quinta-feira.. — Ajudou? Eu sabia que ia ajudar.. por exemplo. Na manhã de quinta-feira. — Minha medicação? — perguntou ele. E olhou para Chien com tanta atenção que voltou parte do arrepio da noite anterior. Certo? — Saia de meu caminho — disse Chien. e cortou-lhe o caminho. Lorenzo de Medici.. o ambulante saiu rápido em seu carrinho. O tom que ele ouviu foi alto e claro. como. Ele se parece com o homem ideal da Renascença. me investigando. — E não quero mais. . — Um homem notável — disse Tso-pin. Naquele dia. E inteiramente natural. Ele freqüentemente continua de pé e animado depois que todos já caíram. de baixo de um caminhão estacionado. —Acho que essa entrega a prazeres por parte dele demonstra que é uma excelente pessoa. Estou sendo levado de uma armadilha para outra? pensou Chien. posso ir a uma farmácia. como diziam há muito tempo os solda- dos-títeres dos imperialistas. Vou tomar um caminho inteiramente diferente para casa. seria ela na verdade uma agente da PolSec. anti-Partido? Acho que vou dar um jeito para que aquele vendedor ambu- lante de fitoterápicos não me arme um laço quando eu deixar o trabalho. — Esse pensamento nos ocorreu — disse Pethel... mas o cart. Tenho cer- teza de que deu resultado. Obrigado.

. é. a coisa pode ser extraterrena. automaticamente. — Note: ela está ao lado de seu pé. E não use as anfetaminas... . As portas deslizaram para os lados. Por um momento. Chien começou a entrar no táxi. pensou. Chien viu o pacotinho — não mais do que um envelope de tipo comum. elas aparecem. — Para aonde.. Chien? O que é sua maldita carreira comparada com isso? Se nós não pudermos descobrir. O pacote voou à sua frente. Lee conversou comigo — disse ele em voz alta. Hoje é gratuito. onde permaneceu por um momento e. em seguida. — Hoje à noite o senhor vai ao jantar só para homens na casa de campo à margem do rio Yangtze — disse o ambulante. Chien deu o número-código de seu prédio de apartamentos. caiu sobre a soleira da porta. por todos nós. Viu um hovertáxi e levantou o braço para chamá-lo. De repente.. aceite-o e use-o antes do jantar. O táxi parou com um solavanco na rua. pegou o envelope. — A Srta. Acho. Deus do céu. camarada? — perguntou o robô-mecanismo de direção. — Por favor. — Aquele ambulante débil mental conseguiu infiltrar sua mercadoria ordinária em meu interior limpo — disse o táxi.. — E não vai lhe custar nada. Para que possamos saber o que é que estamos enfrentando. membro do Partido Chien. Esse é o nosso maior medo. Para seu próprio bem. Elas são estimulantes do tálamo. contra-indicadas sempre que um supressor do hormônio da glândula supra-renal. que é assim que drogas são distribuí- das. A porta do carro foi fechada logo que Chien entrou e se sentou. Simplesmente. agora! — Estendeu-lhe um embrulho fino. respirando com dificuldade no esforço para acompanhá-lo. implorando. apres- sou o passo. — Hummm — respondeu Chien e. — Por favor — disse o ambulante. — Tome a medicação. escorregou para dentro do veículo. Em seguida. Será que não compreende. úmido ainda com a chuva de momentos antes. continuou apenas sentado. como a fenotiazina.

pensou. estávamos prontos. manuscrito. da Srta. Não quero que tente me encontrar. E. mesmo quando ele apresentou o convite gravado e conseguiu com sucesso provar sua identidade. Décadas. ou a coisa é. o fim de uma carreira no serviço público.. embora. provavelmente. O tempo diria. — Estou surpreso que tenha se dado ao trabalho de vir — . aqui está. O chefe do protocolo da casa de campo. resolveu. E não no campo inimigo. Entrarei em contato mais tarde nesta semana. Letra feminina. e que ele colhe. E é o que vou fazer. A curiosidade era muitas vezes. Uma má emoção. no momento. para todos os efeitos. um japonês chamado Kimo Okubara. graças a Deus. tomaria realmente o inalante. na planície. também. Onde esteve na terça e quarta-feira? De qualquer modo. Diria isso e tudo mais.. Chien queimou a nota e pôs as cinzas no cinzeiro do carro. Como diz o poema árabe. encontrou dentro um texto escrito. Mas. tanto fazia lembrar-se como não. e boa sorte. mas no nosso. Lee: Ficamos surpresos com a rapidez do convite.. alto. es- pecialmente sobre atividades do Partido. E não em tempos e guerra. E guardou os grânulos escuros. examinou-o com uma hostilidade inata. mas não conseguiu. Como antes. Somos flores que desabrocham. quando descobrisse. dominava-lhe por completo a vida. Um Estado que. sabia. E durante todo esse tempo pensou: alucinógenos em nosso suprimento de água. E perguntou a si mesmo se duraria até o fim da noite. talvez eu deva descobrir o que ele é. Talvez eu deva aceitar isso. e dizer ao grupo de Tanya. Ano após ano. mas de paz. disse para si mesmo. se. Canalhas. forte e bonitão. estava curioso. E. desta vez. Tentou lembrar-se do resto do poema..

— Por que não ficou em casa e assistiu pela TV? Ninguém vai sentir falta do senhor. e lhe devolveu as roupas. incluindo a possibilidade de um supositório. para obter a inclinação de cabeça íntima. seria uma dose reforçada. Por que é que eu estou aqui? perguntou a si mesmo. Debochadas demais. parecendo entediadas e no total controle de si mesmas. de qualquer maneira. E pode ficar nu também. Só as moças é que ficam nuas. Não encontraram. com a língua movendo-se em espasmos de pseudoparkinsonismo — um efeito colateral desagradável que se esqueceu de prever. Estava ali para promover sua carreira no aparelho do Partido. Interessante. — À sua custa. a menos que seja homossexual. Interessante. E. Esse tempo seria mais do que suficiente. incapaz. estamos passando muito bem sem sua presença. acho que é melhor eu gostar disso. contudo. uma moça nua das nádegas para cima apareceu. secamente. a fenotiazina. Bem. a despeito do efeito tranqüilizante da estelazina. Sentia-se lento. tonto. Espantado. . longos até o chão — e sentiu-se constrangido. pensou Chien. Ambas de fisionomias inexpressivas. E. reuniões só para homens raramente eram televisadas. sabia. Os efeitos da droga.murmurou ele. Os subordinados de Okubara submeteram-no a uma segun- da inspeção. em busca de armas. o traje era casaca. se quiser. Chien respondeu: — Pelo que me disseram. se mulheres. usavam casaca ou. — Eu já assisti pela TV — respondeu Chien. com longos cabelos acobreados descendo pelos ombros. Co- meçou a andar sem destino certo em companhia dos outros con- vidados — que. — O senhor entra também dessa maneira — disse-lhe Okubara. Uma moça. nua da cintura para cima. Porque ele já a havia tomado. passou por ele. Não lhe passou despercebida a ambigüidade da situação. duravam aproximadamente por quatro horas. como disse Tanya. também. Vindo de outra direção. — Piada — retrucou Okubara. Até agora. como ele.

Irônico.. pouco sentia disso. — Aquela coisinha frágil que lhe pediu fogo. eram bem-sucedidas na vida e podiam relaxar. Evidentemente era um mito a idéia de que a proximidade de Sua Grandeza gerava ansiedade neurótica. disse para si mesmo. é um rapaz. Um garçon estendeu-lhe graciosamente uma bandeja. nada respondeu e continuou seu caminho. Continuou a andar preguiçosamente. Na verdade. e soltou um risinho debochado. se em algum lugar — perguntou Chien — vou encontrar mulheres de verdade? Usando casaca? — Bem próximo — disse o cavalheiro idoso e afastou-se jun- tando-se a um grupo hiperativo de convidados. Pegou um martíni — que era a bola da vez entre as classes mais altas do Partido na República Popular da China — e provou o gosto seco e gelado. tirou do bolso o isqueiro. — Onde. apro- ximou-se dele e lhe pediu um fósforo. — Injeções radioativas? Ela encolheu os ombros. deixando-o sozinho. também. fraude contra o Partido. — Aquela belezinha com seios de árvore de Natal. senhor. Ou possivelmente o composto holandês original. de Sua Grandeza. deteve-o. Distraído. Não via ali prova disso ou... — O que é que faz com que seus seios brilhem? — pergun- tou ele. pensou. idoso. sentindo-se melhor. As pessoas tinham um ar confiante. Não sabia que variedade de fraude. deixando Chien . para decifrar a fraude que era Sua Grandeza. pelo menos. Nada mau.. Talvez ela fosse uma mutação do tempo de guerra. — Uma bebida. vestido de drag queen. usando o método simples de encostar o copo da bebida em seu peito.. Uma moça de seios pequenos. pensou. Evidentemente. contra todos os povos democráticos de Terra amantes da paz.. Bom gim inglês. — disse o ve- lho. calvo. ele havia reagido da maneira errada. Um homem corpulento. E continuou a entrar em contato com as outras pessoas. brilhantes. mas ela havia. Com junípero ou qualquer coisa que acrescentassem à bebida. — Soltou outra risadinha.pessoal. e além disso. — Temos que ter cuidado por aqui. achou agradável a atmosfera ali. iluminados.

tocou-lhe subitamente o braço. Viu-os tentando se remontar. sem pressa. Em certo sentido. então é a realidade do mal. E nem o que via na TV. A coisa abominava. uma lesma. Sua Grandeza. em busca de um vislumbre. nem carne nem metal. E viu a trilha dos restos pisados. Aquilo era evidentemente um dispositivo para oratória. um constructo mecânico. compartilhava de sua abominação. devorava as pessoas ali reunidas. Seria isso o que Tanya Lee chamava de "horror aquático"? A coisa não tinha forma. E sugou-o com sua percepção das coisas. Estou com um pouco de medo. Uma mulher bonita. mas o tempo todo vindo em sua direção — ou seria isso uma ilusão? Se isso é uma alucinação. comia mais. Se não é. viu pessoas no lado mais distante. do Benfeitor Absoluto. uma coisa má. da mesma forma que Mussolini usou outrora um braço artificial para saudação em longos e tediosos desfiles. alta. De repente. sugava a vida de todas as pessoas em volta.. é a pior que jamais tive. perto dele. E também não era. bem-vestida. A coisa era terrível. O que cruzou a sala em direção a mesa no centro não era um homem. E a coisa odiava. Meu cabelo está arrumado? — Está ótimo — respondeu como por reflexo Chien e lhe seguiu os olhos. com um apetite insaciável. Esta é a minha primeira vez aqui. não estava ali absolutamente. Ainda assim. Deus do céu. ele e todos ali na grande casa de campo eram. pôr em funcionamento seus . captava-a na visão periférica e podia lhe determinar os limites. pensou Chien. compreendeu. que mata e fere. Sentia-lhe o ódio. pensou. seu primeiro. continuava a mover-se. À medida que se movia. a forma desapareceu. enquanto ela dizia: — Ali vem ele. se virasse a cabeça. mas não a coisa..sozinho com seu martini. sentia-lhe a abominação por todos ali — na verdade. Quando conseguiu olhá-la diretamente. e teve vontade de vomitar. Sentiu-lhe os dedos tensos. Nem pseudópodos. Viu através dela. e das carcaças tombadas das lesmas a criatura se alimentava. cada um deles. esmagados de homens e mulheres que a coisa deixava para trás. comia novamente.

e gosta disso. Você sou eu. sentia-lhe a presença múltipla. com 50 mil olhos. fervam como uma chaleira. Chien — disse a voz. Estou atolado em lodo. você gera vida e em seguida se empanturra dela. o cabeça su- premo da estrutura mundial do Partido. Você nada sabe. Para mim. os lugares profundos. E pensou: Você é Deus. Tenho que excretá-lo e é isso que resolvo fazer. devora tudo. Um olho para cada coisa viva. enquanto esperava que cada uma delas caísse e então pisar na coisa viva caída em seu estado quebrado. Não podia imaginar — era terrível demais — que ela o houvesse es- colhido. vejo-o andar pela planície que a Terra é para você. — Ninguém é pequeno demais. Você. um milhão de olhos — bilhões. ela criou as coisas. Eu sei quem você é. exceto vigiar. Por causa disso. não do espírito destituído de boca que se formou direta- mente à sua frente. — Eu escolhi todos — disse a coisa. organizado dessa maneira. todos caem e morrem e eu estou presente para vigiar. — É bom voltar a vê-lo. que destrói toda criatura viva que toca. Os flocos de minha carne estão ligados a tudo. Faço com que os esconde- rijos. uma planície sem colinas. Você vai a qualquer lugar. Eu poderia quebrá-lo. Não faz diferença. da mesma maneira que não faz diferença se a criatura com seios iluminados é uma moça ou um rapaz. Você poderia aprender a gostar de ambos. — Sr.. sem vales. Há pedras afiadas embaixo de mim.. E a coisa riu. Compreendo agora aquele poema árabe. Mas ele ainda a via. e ele soube. Soltou-se de si mesma. Você. pensou Tung Chien. Vá embora.corpos mutilados. Por que deveria eu me importar com lodo? Lodo. É automático. aquela busca das flores da vida para comê-las. tentando falar. aparece em qualquer tempo. mas ela vinha de dentro de sua cabeça. Eu espalho coisas afiadas e pontudas no pântano. Você não me interessa. o mar é como um bocado de ungüento. Não preciso fazer coisa alguma. Posso quebrar até a mim mesmo. Chien não podia acreditar que ela estava lhe falando. Eu sou você. Era um globo pen- dente na sala. A coisa deixou de lhe falar. .

no poema árabe. um caçador. — Qual é a graça? — perguntou Chien. no de Dryden. sozinho. era Deus. na verdade. Curioso. e dava o bote errado muitas. virou-se e dirigiu-se para as portas da sala. Sim. era uma força. Mas. estava à sua espera. — Por quê? — perguntou ele. — Você está fazendo por mim o meu trabalho — disse a coi- sa. — Lá vou eu — disse Chien e mergulhou pelo balaústre. não é? Não tem tempo para esperar? Eu lhe darei preferência entre os outros. Ou. pelo menos. vestido de púrpura. não. tendo toda a eternidade. A coisa o havia seguido.. parou no ar. Deus era a morte. Em ambos os poemas. quem sabe. E. podia se dar o luxo de errar. sustentado pela pseudomão. também. começou a parecer uma mão humana. e não o que o poema árabe havia retratado. já estava ali antes de ele chegar. Sozinho. abso- lutamente. — Não está esperando. ou melhor. uma coisa canibal. numa varanda. Entortando-o para que isso aconteça. Um empregado da casa de campo. O que. mas. compreendeu. muitas vezes.compreendeu. a coisa riu. Mas. ainda tenho minha dignidade. na escuridão da noite. O desmoronamento. Passou por elas. Descobriu que estava fora da casa. enquanto pendia do corrimão. Sem entender. — Não caia por minha causa — disse a coisa. dobrando- nos. Ele ficava a seis andares abaixo e onde brilhava o rio e a morte. pôs o copo de lado. nesse momento. pareceu morte não era morte. Com dignidade. Enquanto caía. pensou. abriu uma porta para ele. Não tinha acabado ainda com ele. Percorreu o longo corredor atapetado.. Você não precisa acele- . Mas a parte dela em seu ombro. a coisa estendeu uma parte de si mesma e segurou-o pelo ombro. Não podia vê-la porque ela havia se movido para um lugar às suas costas. este é o nosso mundo e você está fazendo isso.

antes. como me viu. Mais uma vez. — E está aqui para saborear isso? — perguntou Chien. Eu mato o que vive e salvo o que morre. volte para seu emprego no ministério. para a varanda. obeso. E quando estiver esmagado e para morrer eu desvendarei um mistério. Mas não respondeu. os que você chama de imperialistas ianques. — Confiar para quê? — Você não acredita em mim? — inquiriu a coisa. Como se fossem folhas de grama. Agora. — Posso vê-lo. os do campo da reação. eu o matarei. Fundei o anti-Partido e o Partido que não é Partido. tremendo. os que são por ele e os que são contra ele. — Eu o privarei. E. e assim por diante. imediatamente. Eu fundei tudo. Chien começou a deslizar para cima. — O que eu quero — disse a coisa — é que você me veja como eu sou. incapaz de parar. — Acredito — respondeu. — Neste caso. — Enquanto você viver. eu o atormentarei — disse a coisa. que bebe demais e gosta de dar beliscão na bunda de moças. Mas não as conhecerá porque. e em seguida confie em mim. os vivos morrerão.rar o processo. — Por nojo de você? A coisa riu. Não . de tudo que possui ou quer. Cristo! — exclamou Chien. nenhuma resposta. — Você fundou o Partido? — perguntou Chien. volte para a sala e prepare-se para o jantar. E lhe digo o seguinte: há coisas piores do que eu. — Oh. — Eu fundei tudo. — E se eu fizer isso? — perguntou Chien. interminavelmente. Diga a Tanya Lee que viu um velho esgotado de trabalho. desapareceu a pressão da pseudomão. um item após outro. — Que mistério? — Os mortos viverão. — O quê? — perguntou Chien. — Nem mesmo quer responder — continuou Chien.

seu bêbado ordinário. Chien abriu os olhos e passou uma revista em si mesmo. tentei fazer. sem abrir os olhos. alguma coisa ou alguém o sacudiu. Juro por Deus que vou pegá-lo. Chien atacou-a com toda força que possuía. Eles têm razão. E pensou: vou pegá- lo. Rudemente. E sentiu uma violenta dor na cabeça. Vamos! — Chame um táxi para mim — disse Chien. . com a sensação de que estava caindo. Fechou os olhos. exatamente igual a nós. pensou. ameaça- dor — e vai arruinar a carreira. de alguma maneira. aquele a quem seguimos. E o inimigo que combatemos hoje. Mas eu não compreendia o que isso significava. também. escuridão. Como eu. mais uma vez. também. Você vai sofrer. senhor. abriram cerimoniosamente a porta e um deles disse: — Boa noite. Estremeceu. E vai doer. Nosso Líder. pensou: você é Deus. Ele está em toda parte. Eu o pego. Fora daqui. Em desgraça. Em passos trôpegos. Você volta para casa. — Misture bebidas com drogas — disse Okubara. Dois empre- gados. E morra de vergonha. usando elmos em- plumados. Olhando fixamente para o chefe do protocolo. E ouviu a voz do sr. também. De modo que não há maneira de escapar. De sofrer. Eu fiz isso muito antes de haver um Tung Chien e o farei muito tempo depois. Kimo Okubara: — Levante-se.questione o que faço. Vou dar um jeito de você morrer. vestidos como cavaleiros medievais. Chien dirigiu-se para a grande porta central da casa de campo à margem do rio Yangtze. Levantando-se trêmulo. Depois disso. e combatemos antes. Já vi isso acontecer muitas vezes. — O táxi já está esperando. é Deus. Tanto quanto me dói agora. é o Único e Verdadeiro Deus. instintivamente. provavelmente nem mesmo saltando para a morte. E escuridão.

viu Tanya Lee. e inclinou a cabeça em um gesto afir- mativo.. Voltou a acendê-lo.. . — Já me olharam demais — disse.. — disse ele. Chien confirmou com um gesto de cabeça. Não me refiro a mim. queimavam. porém. temos que. após um momento. Às quinze para as três da madrugada. Lembrou-se de ter lido isso. fumando um Cuesta Rey Astoria após outro. sentado. — Volte pra casa — disse Chien — e vá dormir. Abrindo-a. — respondeu Chien. Tanya sentou-se em um braço do sofá e. Foi em passos desajeitados para a cozinha e ligou a cafeteira. — Não me olhe assim — disse ele asperamente. Chien ouviu uma batida à porta.. o rosto encolhido de frio.. — Vocês não podem vencer. — Neste caso. Sobre um bocado de coisas. também. — Mas lembrou-se em seguida: não havia lugar suficientemente longe. — Vão se foder — respondeu Chien. levantando-se. insone. — A coisa é extraterrestre? — É. Prin- cipalmente.. — Para muito longe. hostil.. Eu simplesmente quero fazer meu serviço no ministério e esquecer. Ele havia ficado sentado ali por um longo tempo e pensado muito. tão ruim assim? — perguntou ela. e saiu para a noite. Esquecer toda essa maldita coisa. — Hostil a nós? — É. Ambas as coisas. — Foi. na sala de estar do apartamento. perguntou: — O que é que você tem a dizer sobre ela? — Vá para tão longe daqui quanto possível — respondeu ele. Examinou-a atentamente. Eu não estou nesta.. Os olhos. interrogadores. — Você a viu — disse ela. — Não. — Esqueça — disse. Tanya seguiu-o. — Nós não podemos vencer — respondeu Chien. usando capa de chuva. O charuto tinha apagado.

— Você é casada? — Não. — Isso acabou com o motor a vapor. E afastou-se. — O que Dryden disse — perguntou Chien — sobre a mú- sica desafinando o céu? Não entendi isso. — Fique comigo esta noite — pediu ele. pelo menos. examinando-lhe o rosto. — Você acredita nisso? — perguntou ele. Quero dizer. ou deus? Aproximou-se dele. De qualquer modo. em seguida. Sob a capa. — O resto da noite. — Eu acho que — disse Tanya — se houver um Deus. não. O que é que a música faz com o céu? — Toda a ordem celestial do universo acaba — disse ela. irritado. Atualmente. — Você conhece aquela velha história pitagórica sobre a "música das esferas". — Isso significa — disse ele — dar um bocado de poder à música. Ele se interessa muito pouco por assuntos humanos. Fui. respondeu pensativa: — Não sei. — E acrescentou: — A parte da noite é horrível. usava suéter alaranjado de listras e calça stretch. Do que é que você está falando? Deus. — Não me olhe de tão perto assim — disse ele secamente. — Ou em Deus? — Deus! — Tanya riu. recuando. — Eu nunca mais vou querer que alguém olhe para mim. — Eu fico — disse Tanya. Sentou-se tranqüilamente na cama e tirou os sapatos tipo sandália. Ele não parece se . soltando o cinto da capa — mas você vai ter que me dar algumas respostas. Acho que sim. essa é a minha teoria. Até o sol aparecer. — E isso é ruim? Ela ficou calada por um momento e. pendurando a capa no armário do quarto.

Mas eu acreditava também. para ser franca. Uma grande alucinação. absolu- tamente. Não quero beber. — Nada. E o Partido sempre negou toda forma de. — Vamos discutir isso depois. cansadamente. o estigma. Eu gos- taria de tê-la. a camisa — e viu no ombro direito a marca. A cama está quente. — Uma alucinação — disse Chien — é compassiva. — Simplesmente. Quente e gostosa.. O Estrepitoso. Eu. Eu tive uma alucinação. — No tempo de criança? — Claro. a Ave e o Tubo Ascendente. mas que obviamente não era isso? — Acredite nela — disse Chien. não O vejo em lugar nenhum. pode ser bom e mau? — Vou lhe preparar um drinque — disse Tanya. mais a fundo. Chien tirou a gravata... — Você O viu alguma vez? — quis saber Chien. que a mão deixou quando o impediu de saltar. — Tanya voltou para o quarto e começou a puxar a suéter por cima da cabeça.. — Mas a estelazina. simultaneamente.. quando era criança.importar se o mal triunfa ou se pessoas ou animais são machucados e morrem. Uma alucinação terrível... Estou cansado. Vamos simplesmente para a cama. — O que é que isso vai fazer? — Nada — respondeu ele. No jantar só para homens. — O Esmagador. — Tudo bem. formas.. indo des- calça até a cozinha. Quero a minha de volta. . — Há alguma maneira — perguntou sombriamente Tanya — de podermos combater essa coisa que você viu? Essa aparição que você chama de alucinação.. não sei. venha para a cama. Quero ser como era antes que seu ambulante me desse aquela fenotiazina. — Provocou uma alucinação pior — disse Chien. O Engolidor.. além de outros nomes. — Já lhe ocorreu que o bem e o mal são nomes da mesma coisa? Que Deus.

— Eu gostaria — disse Chien — que pudéssemos continuar assim para sempre. Que escondeu as marcas. primevas. Não se deram ao trabalho de falar. inexplicavelmente. quando ele se dei- tou a seu lado —. — E esqueça tudo mais. Preciso de uma.Marcas lívidas que davam a impressão de que jamais desapareceriam. perguntou: . E naqueles tempos nós não éramos separados. vendo isso. Vestiu o pijama. quando isto é feito. — Serve de rosto. abraçando-o. por agora. As marcas. Pelo menos. sua carreira recebeu um imenso empurrão. Chien puxou-a. É a maneira como éramos nos tempos cambrianos. Secou o sangue. Chien foi de pés descalços até o banheiro pegar uma toalha. sustentou e puxou-o de volta. — Muito contente. — Encoste-se em mim — disse Tanya. possivelmente para brincar um pouco mais com ele. Provavelmente. Ali — estava nu — olhou novamente para o ombro. como aquelas bolhas que chegam flutuando à praia. Voltando para a cama. — Flutuam acima da água — disse Chien — e ficam ali para morrer. Não está contente com isso? — Claro — respondeu ele. São as águas antigas. Esta é a única ocasião que conseguimos voltar. olhando sem ver para a escuri- dão. também. fazendo o que ela queria. Mais sangue escorreu imediatamente e. sangravam. — Isso está fora do tem- po. — Continuamos — garantiu Tanya. antes de migrarmos para a terra. teve sucesso e fez o que lhe competia. Não tem limites. para o lugar onde a coisa o segurou. era como uma enorme geléia. — Você poderia me arranjar uma toalha? — perguntou Tanya. é como o oceano. — De qualquer maneira — disse Tanya. Esse o motivo de significar tanto. apenas horas. até que ela disse "Oh!" e relaxou. e muito ativa. Ela era limpa. perguntou a si mesmo quanto tempo mais tinha de vida. e ele.

Tanya continuou deitada. — Você poderia continuar? — Claro. Cabe a você decidir. olhando-o. — Eu tenho — disse ele. mal visível à fraca luz noturna. * * * . sem pestanejar. E puxou-a para si. Se você ainda tiver alguma energia.

A criança nasce. uma mulher que foi remendada com os corpos defeituosos de várias mulheres tem relações sexuais em uma jaula com uma alienígena. Pouco depois de terminar o horrendo banquete. para decidir quem fica com ela. A jovem humana vence e. e tudo mais. dentes. imediatamente. devora a criança. * * * . Nesta história particular. e a fêmea da jaula luta pela criança. dedos dos pés. de Harlan Ellison Em um mundo destruído por uma guerra nuclear. descobre que o filho é Deus. cabelos. Mais tarde. concebe um filho. a mulher. A História Que Acaba com Todas as Histórias Para a Antologia Dangerous Visions. com recursos da ciência do futuro. uma jovem casadoura visita um zoológico futurista e faz amor nas jaulas com várias formas de vida deformadas e não-humanas.

e o brilho da luz que envelhecia o agradou. Em um ins- tante estava diante de Louis Danceman. encarregado das atividades da Tri-Plan enquanto ele. Garson Poole. coberta de marcas de varíola. *. A Formiga Elétrica Às quatro e quinze da tarde.S. Garson Poole acordou em sua cama de hospital. Ele se perguntou para onde teriam ido todos os médicos e enfermei- ras. Quer dizer.T. Seu rosto grande e carnudo. do T. Teias pelas quais veículos e pedestres rodavam e zuniam reluziam ao sol do fim de tarde.) . — Mas você vai ficar bem. Ainda não está acabado. então o pegou e discou para conseguir uma linha externa. T.. Ele hesitou. estava em outro lugar. suavizou-se com o alívio. Eles me deram um analgésico forte. Sabia que estava em uma cama de hospital em uma enfermaria de três leitos e percebeu outras duas coisas: que não tinha mais a mão direita e que não sentia dor. como uma superfície lunar.. — Só não tenho mais uma mão direita — disse Poole. E nem eu. — Graças a Deus você está vivo — disse Danceman ao vê- lo. eles podem enxertar outra no lugar. ele disse para si mesmo enquanto olhava para a parede do outro lado do quarto com sua janela que mostrava a parte baixa da cidade de Nova York. (N. Há um fone na mesinha de cabeceira. — Há quanto tempo eu estou aqui? — perguntou Poole. por que não estavam reclamando por ele ter feito uma ligação? * Terra Standard Time. — Tentei ligar todo.

— Eu faço isso depois.. todos aqui em Terra. Encomendas boas e certas.. guiados por padrões cerebrais únicos. Sr. sua secretária particular. — Venha me tirar daqui — disse Poole. Ele deu um suspiro pro- fundo e esperançoso. um em Wyoming. um cabo do leme de controle do seu veículo se rompeu no meio do tráfego pesado da hora do rush e você. Todas as mulheres grandes gostam de agir assim. Poole. . enquanto estudava seu prontuário. Garson Poole. — Falo com você depois — disse Poole.. — Aqui na fábrica. Um médico vestido de branco e duas enfer- meiras de azul apareceram e foram até a cama dele. se sentia de volta à sua nave avariada. e desligou.. — Quatro dias — disse Danceman.. O senhor é uma formiga elétrica. Mas. — Talvez a Sarah tenha caído em cima da minha nave. disse para si mesmo. o se- nhor não é um homem. a memória do foguete comercial que assomava de forma grotesca na tela do piloto girava no fundo da sua mente. — Não — claro. Acho que tenho sorte. — Estava desesperado para voltar para um ambiente familiar. tratando-o como uma mãe naquele seu jeito imaturo e infantil. — Não posso tirar você daí até que a mão nova.. Dois em Ohio. Poole. não. está tudo indo splunkshly. O senhor é um homem de sucesso. Se ele fechava os olhos. — Sarah Benton está aí com você? — perguntou Danceman. Se caírem em cima de você. deixando uma pilha de estragos pelo caminho. nós splunked encomendas de três sistemas policiais diferentes. Fabricante de dardos de identifica- ção randômicos que perseguem sua presa num raio de mil e qui- nhentos quilômetros. pensou ele. mesmo que ape- nas para assuntos de trabalho. dono da Tri-Plan Electronics. podem matá-lo. E são perigosas. — Não. As sensações cinéticas. — O senhor não deveria estar ligando tão cedo — disse o médico. estaria rondando por perto. — Sr. Sr. — Talvez tenha sido isso o que aconteceu comigo — disse em voz alta. Na verdade. — Eu me lembro — ele se vira na cama quando a porta da enfermaria se abre. arremetendo de um veículo para outro. com um ter- ço adiantado e a opção de três anos de leasing de praxe. ele estremeceu ao recordá-las.

— Um robô orgânico — disse uma enfermeira. se existirem. é claro. — Acalme-se — o médico inclinou-se sobre ele e inspecio- nou cuidadosamente o rosto de Poole. agora. — O que é uma formiga elétrica? — perguntou Poole. — Poole balançou a cabeça. Soubemos.. — Ou são trazidas por causa de aci- dentes com suas naves. e que funcionou junto com humanos. o teria comprado? Ou projetado? Um testa de ferro. — Sei — disse Poole. Era uma ilusão implantada em mim quando fui feito. assim que examina- mos a sua mão direita ferida.. — Vamos mandar um barco do hospital levar o senhor até uma oficina onde o conserto ou a substituição da sua mão podem ser feitos a um custo razoável. — Esqueça a minha mão — disse Poole. Sarah ou algum dos outros no escritório. ou para o senhor. na verdade.. Junto com a ilusão de que sou humano e estou vivo. um suor frígido surgindo na superfície da sua pele. — Ele se perguntou se Danceman. com um tom sel- vagem. eu nunca devo ter comandado a empresa. procurando uma internação. Podia decifrar o termo. a quem nunca contaram. surpreso. Na verdade. é isso o que eu sempre fui. — Será que eles. não podemos tratar do senhor aqui. é claro. logo o senhor estará de volta e funcionando à sua escrivaninha da Tri-Plan como antes. então fizemos raios X do torso e. . Vimos os componentes eletrônicos. — Meu Deus — disse Poole. sabiam. acreditando ser humano também. se for seu próprio dono.. por todo o seu corpo. De qualquer forma. — Então. eles confirmaram nossa hipótese. Mas ele sabia. — Só que. — Não. como o senhor. agora que descobrimos. Quanto à sua mão — fez uma pausa. eu sei. alguém como o senhor. ou para seus proprietários. — Recebemos uma formiga elétrica a cada uma ou duas se- manas — disse o médico. ou um deles. ou vêm de forma voluntária. — O senhor não sabia — disse o médico.

— Podem mandar a conta para mim ou para a minha em- presa — disse furioso.. e sangue de verdade preenchia as veias e os capilares. — Vou adorar sair daqui — disse ao erguer-se de pé. uma raiva impotente. que. Intrincado. — Antes de sair para a oficina de reparos. Na superfície. conseguiu sentar. a mão custava quarenta Frogs *. Com um esforço enorme. parecia orgânica — na verdade. — A menos que seja submetida a algum uso não previsto. E. tudo muito pequeno. ela era. Ou deveria dizer apenas Poole — falou o médico. peças e mão-de-obra — disse um dos téc- nicos. na superfície. sua cabeça girando. até aquele momento. do T. — Por nossos serviços. senhor Poole. (N. A mão demonstrou ser fascinante. Ele a examinou por um bom tempo antes de deixar que os técnicos a instalassem. Mas por baixo disso. também. brilhavam. até o momento em que descobrimos — disse a enfermeira. Na oficina de reparos. — E obrigado por sua atenção humana. * Em português... — Tem garantia? — Perguntou aos técnicos enquanto estes ajustavam a parte óssea da mão ao equilíbrio do seu corpo. mesmo que não intencional. ele sempre recebia na folha de pagamentos da empresa.) . motores. componentes miniaturizados. — Você estava posando? — perguntou o técnico (eram to- dos humanos) enquanto o observava com interesse. válvulas de estágios múltiplos. O salário de uma semana. — Muito obrigado. Pele natural cobria carne natural. — Noventa dias.. ele conseguia ver controladores de movimentos. — Sem querer. o senhor poderia fazer a gentileza de fechar a sua conta na recepção? — Como pode haver uma conta se vocês não cuidam de for- migas. cabos e os circuitos. — Isso me soa um pouco sugestivo — disse Poole. Ele desceu vaci- lante da cama para o chão. aqui? — disse um Poole ácido. Olhando com atenção para o pulso. sapo. ele substituiu a mão que faltava.

e então partiu. todos na Tri-Plan. Em relação a ele mesmo. — Sabe por que você nunca descobriu? Deve ter havido si- nais. em seu apartamento de um só aposento. — Mas agora. enquanto olhava através de sua única janela para o edifício do outro lado da rua. Mas. Meu Deus. Após deixar opaca a sua janela. de vez em quando. testou-os pegando vários objetos. flexionou os novos dedos. Ele pagou os 40 Frogs à oficina. há uma ma- triz encaixada no lugar. ele ligou a luz no teto e começou a tirar a roupa com cuidado. Em casa. Sou uma armação. Seria um desperdício caro que meu dono teria de absorver. acaba com você. Um objeto inanimado fingindo ser animado . vai ser intencional. por quê? Se não.. provavelmente. Você nunca descobriu porque foi programado para não notar. mas mesmo assim. Ele. Nunca fui. — Tinha uma vida boa. Conseqüentemente. Tinha sido um dia e tanto. você vai ter a mesma dificuldade para descobrir por que foi construído e para quem você tem operado. Dez minutos mais tarde. pensou. pensou. disse a si mesmo. Trabalhava muito — disse Poole. se sentia vivo. E ele não ia querer fazê-lo. E me força a fazer outras coisas. de tomar certas ações. — Você se divertiu. Devo ir para o escritório? ele se perguntou. especialmente Danceman e Sara.. — Um escravo. ele se deu conta. Ele tinha prestado atenção nos técnicos da oficina quando estes . — Exato — disse Poole. em relação a todo mundo. ele se serviu uma dose de Jack Daniel's Purple Label — 60 anos — e sentou a bebericá-lo. Isso faz toda a diferença. Se devo. uma grade de controle de corrente que me impede de ter certos pensamentos. saber uma coisa dessas. como moedas. cliques e zumbidos dentro de você. mas agora. por que não devo? Escolha uma. porém. Não sou livre. agora era diferente. eu sei. Acho que vou me matar. estava indo para casa a bordo de um transporte público. peça por peça. Em algum lugar em mim. Um escravo mecânico — disse Poole. Programado. estou programado para não fazer isso. Agora.

Ele aguardou. de múltiplas lentes. — Ao som da campainha. deve estar ali. Por favor.. um em cada coxa. — Posso identificar os módulos de controle — disse o com- putador — mas não consigo dizer qual. Na tela do fone. Vamos ver. segure sua placamastercrédito em frente a tela — disse uma voz mecânica. Idaho. Nesse instante. concluiu.. qual o telefone do computador classe BBB que usamos no escritório? Ele pegou o fone. — O uso deste computador custa cinco Frogs por minuto. o computador tinha se tornado um ouvido gigante. assim como a outros 50 mil consultantes em toda a Terra. — Posso iden- tificar um rolo de fita perfurada montado acima do mecanismo . provavelmente. que se expunha totalmente naquele seu apartamento de apenas um cômodo. Dois painéis principais.. — ele abaixou o volume. — Remova seu painel peitoral. discou o número do computador em sua locação permanente em Boise. O labirinto de circuitos o deixava confuso. — Por favor. enquanto sua consulta irá. faça suas consultas o mais rápido possível.. Os técnicos removeram os painéis para checar os complexos de circuitos por baixo deles. ouvindo-o. Se eu fui programado. Mas logo o aumentou. Ele fez isso e uma seção de seu peito saiu. Ele fez como indicado. ele a pousou no chão. Preciso de ajuda. você estará conectado ao computador — continuou a voz. olhava para ele. disse para si mesmo. — Me escaneie visualmente — ordenou ao computador. fazia uma idéia clara de como o seu corpo tinha sido montado. quando surgiu na tela o sinal de que podia alimentar o computador com sua pergunta. — E diga-me onde eu posso encontrar o mecanismo de programação que controla meu pensamento e meu comportamento. Se levar em conta que as respostas serão dadas em microssegundos.prenderam sua nova mão. Pressione seu esterno e então solte — disse o computador. a matriz. Aturdido. Agora. um olho grande e ativo. — Ele fez uma pausa enquanto seu olho perambulava pela tela do fone.

Os carretéis pareciam inertes. Bom dia. Vou arrancar a fita de mim.. Ele não conseguia ver nenhum sinal de movimento. Bom dia. Entra no scanner e. tocou o rolo de fita novamente. — O senhor parece não ter circuito de programação. e.. e o outro em que se enrolava. . quando ocorrem situações específicas. se não fatal — acrescentou. então. com um scanner montado entre o rolo de onde saía. refletiu. — Aqui é BBB-307DR restabele- cendo contato em resposta à sua consulta feita em um lapso de 16 segundos em 4 de novembro de 1992. — E desligou. Você consegue vê-lo? Poole esticou o pescoço e olhou. um módulo de suprimento de realidade. Ele baixou a mão e tocou o rolo de onde saía a fita. vai para o meu sistema nervoso central à medida que vai se desenrolando. A realidade vai continuar para os outros. na verdade. Se eu cortar a fita. E eles fizeram isso a minha vida inteira.do coração. Tudo o que tenho que fazer é arrancar. Ou não? Essa unidade. Ele também viu. Sobrecarga do meu processo encefálico. pensou furioso. — Placamastercrédito número 3-BNX-882-HQR446-T — chegou a voz do computador.. estão chegando para mim desta minúscula unidade. nu e de pé diante da tela do fone. mas não para mim. A tela do fone reacendeu. com grande e calculado cuidado. meu universo. Poole. O rolo de fita perfurada acima do mecanismo do seu coração não é uma central de programação. Vou examinar toda a informação disponível e. — Tenho que desconectar o senhor agora. mas. ele se deu conta. Era pequena. entro em contato com a resposta. disse Poole para si mesmo. meu mundo vai desaparecer. Eles devem ser bloqueados em caso de sobrecarga. — E a tela escureceu. não maior do que dois carretéis de linha. pensou. Porque minha realidade. Todos os estímulos sensoriais recebidos pelo seu sistema nervoso central emanam dessa unidade e mexer com ela seria arriscado.. Con- sulta respondida. lenta como uma lesma. Entendi. daí.

Ela está se desenrolando há anos, ele concluiu.
Pegando suas roupas, ele se vestiu novamente, sentou-se
em sua poltrona grande, um luxo importado da sede da Tri-Plan
para seu apartamento, e acendeu um cigarro de tabaco. Suas
mãos tremiam quando ele guardou o isqueiro com suas iniciais.
Recostado, soprou fumaça para a frente, criando um nimbo
cinzento.
Tenho que ir devagar, disse consigo mesmo. O que estou
tentando fazer? Ponte em meu programa? Mas o computador
não encontrou circuito de programação algum. Será que eu
quero interferir com a fita de realidade? E se quero, por quê?
Porque, pensou, se eu controlar isso, vou controlar a
realidade. Pelo menos a que me interessa. Minha realidade
subjetiva... mas é só isso. A realidade objetiva é uma construção
sintética, que lida com a universalização hipotética de uma
multidão de realidades subjetivas.
Meu universo está ao alcance dos meus dedos, ele
percebeu. Se eu apenas conseguir descobrir como a maldita
coisa funciona. Originalmente, tudo o que eu queria fazer era
procurar e localizar meus circuitos de programação para, assim,
ganhar um funcionamento homeostático verdadeiro: controle
sobre mim mesmo. Mas com isso...
Com isso ele não apenas ganhava controle sobre si mesmo.
Ganhava controle sobre tudo.
E isso me diferencia de todos os humanos que já viveram e
morreram, pensou sombrio.
Indo até o fone, ele ligou para seu escritório.
— Quero que você me mande um conjunto completo de
microferramentas e uma tela ampliadora para meu apartamento
— disse animado quando Danceman surgiu na tela. — Tenho que
trabalhar em uns microcircuitos — então cortou a ligação, sem
vontade de discutir o assunto.
Meia hora mais tarde, uma batida soou em sua porta. Quan-
do abriu, viu-se diante de um dos encarregados da oficina, que
vinha trazendo microferramentas de todos os tipos.
— O senhor não disse exatamente o que queria — disse o
encarregado, ao entrar no apartamento — por isso, o Sr.

Danceman me mandou trazer tudo.
— E o sistema de lentes ampliadoras?
— No caminhão, lá em cima no telhado.
Talvez o que eu queira fazer, pensou Poole, seja morrer.
Acendeu um cigarro, ficou fumando e esperando enquanto o
encarregado da oficina arrastava a pesada tela de ampliação,
com sua unidade de energia e painel de controle, para dentro do
apartamento. Isso é suicídio, o que eu estou fazendo aqui? Ele
deu de ombros.
— Alguma coisa errada, Sr. Poole? — perguntou o encarre-
gado ao se levantar, livre do fardo do sistema de lentes
ampliadoras. — O senhor deve ainda estar fraco das pernas por
causa do acidente.
— É — disse Poole, lacônico. Ele ficou esperando mal-
humorado até o encarregado sair.
Sob o sistema de lentes ampliadoras, a fita plástica assumiu
uma nova forma: uma larga pista na qual centenas de milhares
de perfurações faziam seu caminho. Achei que era assim,
pensou Poole. Não gravado como cargas sobre uma camada de
óxido ferroso, mas perfurações de verdade.
Sob as lentes, a tira de fita movia-se visivelmente para a
frente. Muito devagar, mas avançava em velocidade uniforme na
direção do scanner.
Do jeito que vejo as coisas, pensou, essas perfurações são
bloqueadores. Funcionam como uma pianola: sólido é não, per-
furação é sim. Como posso testar isso?
Obviamente, cobrindo algumas das perfurações.
Ele mediu a quantidade de fita que restava no carretel de
saída. Calculou, com grande esforço, a velocidade do movimento
da fita, e chegou a um número. Se ele alterasse a fita visível na
extremidade de entrada do scanner, de cinco a sete horas se
passariam até que chegasse aquele período. Ele, na verdade,
estaria alterando estímulos que ocorreriam dentro de algumas
horas.
Com um micropincel, ele cobriu uma grande —
relativamente grande — seção da fita com verniz opaco... obtido

do kit de suprimentos que vinha com as microferramentas. Cobri
estímulos para cerca de meia hora, avaliou. Tinha pintado pelo
menos umas mil perfurações.
Seria interessante ver que mudanças, se houvesse alguma,
ocorreriam em sua volta dentro de seis horas.

Cinco horas e meia depois, ele estava sentado no Kracker's,
um bar excelente em Manhattan, tomando um drinque com
Danceman.
— Você não parece bem — disse Danceman.
— Eu não estou bem — disse Poole. Ele terminou o seu
drinque, um scotch sour, e pediu outro.
— Por causa do acidente?
— De certa forma, sim.
— É algo que... descobriu a respeito de você mesmo?
Erguendo a cabeça, Poole o encarou à luz sombria do bar.
— Então você sabe.
— Sei — disse Danceman — que eu deveria chamar você de
Poole ao invés de Sr. Poole, mas prefiro este último, e vou conti-
nuar a fazer assim.
— Há quanto tempo você sabe? — disse Poole.
— Desde que você assumiu a companhia. Eles me contaram
que os verdadeiros donos da Tri-Plan, que estão localizados no
Sistema Prox, queriam que a Tri-Plan fosse administrada por uma
formiga elétrica que eles pudessem controlar. Queriam alguém
brilhante, esforçado...
— Os verdadeiros donos? — Era a primeira vez que ele ou-
via falar disso. — Temos dois mil acionistas. Espalhados por to-
dos os lugares.
— Marvis Bay e seu marido Ernan, em Prox 4, controlam
cinqüenta e um por cento das ações com direito a voto. Sempre
foi assim.
— Por que eu não sabia?
— Me disseram para não contar. Você devia achar que tinha

determinado todas as políticas da empresa. Com minha ajuda.
Mas, na verdade, eu estava alimentando você com o que os Bays
passavam para mim.
— Sou uma figura decorativa.
— De certa maneira, é, sim — Danceman balançou a cabe-
ça — Mas para mim, você sempre vai ser o Sr. Poole.
Um pedaço da parede ao fundo desapareceu. E com ela,
várias pessoas nas mesas próximas. E...
Através da grande lateral de vidro do bar, a silhueta de
Nova York se apagou e deixou de existir.
— O que aconteceu? — perguntou Danceman ao ver seu
rosto.
— Olhe em volta. Você está vendo alguma mudança? — dis-
se Poole, meio rouco.
— Não, como o quê? — perguntou Danceman após olhar em
torno do salão.
— Você ainda está vendo a silhueta da cidade?
— Claro. Poluída como sempre. As luzes piscam...
— Agora eu entendi — disse Poole. Ele estava certo. Cada
perfuração coberta significava o desaparecimento de algum
objeto no mundo de sua realidade. — Vejo você mais tarde,
Danceman — falou, de pé. — Preciso voltar para o meu
apartamento. Tenho trabalho a fazer. Boa noite. — Ele saiu do
bar e andou até a rua, à procura de um táxi.
Não havia táxis.
Eles também, pensou. Gostaria de saber o que mais eu
pintei. Prostitutas? Flores? Cadeias?
Ali, no estacionamento do bar, a nave de Danceman. Vou
pegar isso, decidiu. Ainda há táxis no mundo de Danceman, ele
pode tomar um mais tarde. De qualquer jeito, é um carro da
empresa, e eu tenho uma cópia da chave.
Em um instante, ele estava no ar, fazendo a volta para seu
apartamento.
Nova York não tinha voltado. À esquerda e à direita,
veículos e prédios, ruas, pedestres com seus transportes,

placas... e no meio, nada. Como posso voar para dentro disso?
perguntou a si mesmo. Eu vou desaparecer.
Vou mesmo? Ele voou rumo ao nada.
Fumando um cigarro atrás do outro, ele voou em círculos
por quinze minutos... E então, em completo silêncio, Nova York
reapareceu. Ele podia terminar sua viagem. Jogou fora a guimba
do seu cigarro (um desperdício de algo tão valioso) e rumou na
direção de seu apartamento.
Se eu enfiar uma pequena tira opaca, avaliou, enquanto
destrancava a porta do apartamento, posso...
Seus pensamentos cessaram. Alguém estava sentado na
cadeira de sua sala de estar, vendo o Capitão Kirk na TV.
— Sarah — disse ele, irritado.
Ela levantou, corpulenta, mas graciosa.
— Você não estava no hospital, então vim para cá. Ainda
estou com aquela chave que você me deu em março depois que
tivemos aquela discussão horrorosa. Ai... você parece tão
deprimido — ela aproximou-se dele e olhou, ansiosa, dentro de
seu rosto.
— Seus ferimentos estão doendo tanto assim?
— Não é isso — ele tirou o casaco, a gravata, a camisa e en-
tão o painel peitoral. Ajoelhando, ele começou a enfiar as mãos
nas luvas das microferramentas. Fez uma pausa, ergueu os olhos
para ela e disse: — Descobri que sou uma formiga elétrica. O
que, de um certo ponto de vista, abre certas possibilidades, que
eu estou explorando agora. — Ele flexionou os dedos e, na
extremidade do indicador esquerdo, uma microchave de fenda
se moveu, ampliada, para a visibilidade pelo sistema de lentes
ampliadoras.
— Você pode olhar, se quiser — informou a ela.
Ela tinha começado a chorar.
— Qual o problema? — ele perguntou, furioso, sem erguer
os olhos de seu trabalho.
— É que é... tão, tão triste. Você foi um patrão tão bom para
todos nós na Tri-Plan. Nós respeitamos muito você. E, agora,

tudo fica diferente.
A fita plástica tinha uma margem não-perfurada no alto e
em baixo. Ele cortou uma tira horizontal, muito fina, então,
depois de um instante de grande concentração, cortou a fita a
quatro horas de distância da cabeça do scanner. Em seguida,
girou a tira cortada fazendo um ângulo para a direita em relação
ao scanner, soldou no lugar com um microelemento de calor,
então prendeu novamente a fita do lado esquerdo e direito. Na
verdade, ele tinha inserido vinte minutos mortos no fluxo de sua
realidade que se desenrolava. Faria efeito, segundo seus
cálculos, alguns minutos após a meia noite.
— Você está se consertando? — perguntou Sarah, tímida.
— Estou me libertando — disse Poole. Além daquela, ele ti-
nha várias outras alterações em mente. Mas primeiro tinha que
testar sua teoria. Fita em branco, sem perfurações, significavam
que não havia estímulos, então no caso de falta de fita...
— Esse olhar no seu rosto — disse Sarah. Ela começou a
juntar sua bolsa, casaco, uma revista aud-vid enrolada. — Vou
embora. Eu entendi o que você pensou de me encontrar aqui.
— Fique — disse ele — vou ver o Capitão Kirk com você.
— Ele vestiu a camisa. — Você se lembra, há anos, quando
havia — quantos eram? Vinte ou vinte e dois canais de TV? Antes
de o governo fechar os independentes?
Ela concordou com a cabeça.
— Como seria se esse aparelho de TV projetasse todos os
canais sobre a tela de raios catódicos ao mesmo tempo? Será
que conseguiríamos distinguir algo nessa mistura?
— Acho que não.
— Talvez nós pudéssemos aprender como. Aprender a ser
seletivos. Fazer o próprio trabalho de perceber o que queríamos
e o que não queríamos. Pense nas possibilidades, se nosso
cérebro puder processar vinte imagens ao mesmo tempo. Pense
na quantidade de conhecimento que poderia ser acumulada
durante um determinado período. Eu me pergunto se o cérebro,
o cérebro humano... — ele ficou sem terminar. — O cérebro
humano não pode fazer isso — disse, naquele momento
refletindo consigo mesmo.

tinha sido colocada naquela posição. O quarto firmou-se em completa imobilidade. Se eu parecer estar dormindo. não conseguia relaxar. — Quero a sua ajuda. depois se reuniram de novo. — ele queria dizer se eu desaparecer. mas um tanto quanto rígido e . ou. imaginando porque ele não tinha apagado a luz. Mas não disse. Em alguns mi- nutos. Deveria acontecer a qualquer momento. em teoria. e depois foram para cama. os elementos se reuniram. E então. — Mas.. O quarto fechou-se e caiu em si mesmo. agora. — Não vou machucar você. estava completamente acordada. mas acho que pode ser uma boa idéia se você estiver armada. como se tivesse sido trancado fora da realidade. se desfizeram. tentando enxergar. algo estranho vai acontecer comigo. energia e luz sumiram. — É isso o que você tem? — perguntou Sarah. Os últimos estímulos estavam morrendo. fumando e meditando. para minguar e desvanecer. ou se falar coisas sem sentido. Não vai durar muito. Rajadas aleatórias de substância desmaterializada redemoinhavam em nuvens instáveis. como fumaça. Ele pegou a pistola para ela.. olhava para ele com um medo selvagem. — ele gesticulou — aparento alguma mudança. Objetos diminuíram até que. Mas Poole ficou recostado em seus travesseiros. Ele apertou os olhos. Percebeu Sarah Benton. Sentada na cama. A escuridão filmava tudo enquanto os objetos no quarto iam ficando cada vez mais fracos. desapareceram nas sombras. Veja se eu. o negro absoluto substituía tudo. talvez um cérebro quase-orgânico possa. Naquele ponto. Dez para a meia-noite. os ombros largos bronzeados e cobertos de sardas à luz do quarto. Do seu lado. agora. percebeu Poole. Eles viram o Capitão Kirk até o final. mas quero que você me observe com cuidado. não noturno. o último calor. como uma boneca. — Sarah — disse ele. espaço sem profundidade. — É — respondeu Poole. sentada na cama: uma figura bidimensional que.. Você está com sua pistola antiassalto? — Na minha bolsa — ela. Então as co- res começaram a se esvair..

Estou certo em relação a isso também? Ele esperou. percebeu. pelo amor de Deus. Atlântico. Para tentar criar um ritmo de tempo para si mesmo. a luz se acendeu. começou. acelga. Só posso esperar. usando uma boca não-existente para comunicar uma mensagem invisível. Então ele ligou para a ma- . como se estivesse morto.. para que eu possa assimilar tudo. disse para si mesmo. Estendendo a mão. Sarah Benton. Mas não tinha nada a estender. Ficou caído aí.. categorias resvalavam pela sua mente assombrada.. automóvel. E torceu para que não fosse por muito tempo.inflexível. Estão trabalhando em mim. suas mãos cheias de ferramentas. Vamos ver. ele tentou tocar em algo. Danceman. além disso. Ele ficou de pé e afastou-se.. Vou tentar listar tudo o que começa com A. anúncio. — O que aconteceu? — Poole interrompeu bruscamente. ele seguiu pensando. E. ele nada ouvia. Ele não tinha mãos. infelizmente.. Abacaxi. não haveria nada para ele sentir. por intuição. Acabei ligando para o Sr. Sara se recompôs. Vou fazer uma enciclopédia. Danceman e o acordei. e então. Será que isso vai passar em dez minutos? perguntou a si mesmo. A consciência de seu próprio corpo tinha desa- parecido junto com tudo mais no universo. e mesmo que tivesse. Liguei para o Sr. Manutenção. que seu sentido de tempo tinha desaparecido com todo o resto. louca de ansiedade. — Comece do princípio e. — Estava com tanto medo. Até que. pensou. Ele pensou. Ele estava deitado no sofá na sala de estar. fale devagar. percebeu. apavorada. atmosfera. — Você apagou. Ainda estou certo sobre o funcionamento dessa maldita fita. Dois homens estavam inclinados sobre ele. e uma suave luz do sol jorrava através da única janela.. — Graças a Deus! — disse ela. — Ele está consciente — disse um dos técnicos. de repente. nervosa. Esperei até as duas e meia e você não fez nada. o substituiu. fez uma pausa para esfregar o nariz. mas sabia. com uma respiração úmida no ouvido de Poole.

ao invés de. — Vai cus- tar 95 Frogs. — Todos os neurocircuitos são conectados simultaneamen- . Por que negar? Era óbvio que eles tinham encontrado a pequena tira sólida inserida na fita — mas não era para ter ficado apagado por tanto tempo. Sua cabeça doía e o estômago estava completamente vazio. e esses dois homens chegaram por volta de umas quinze para as cinco. E eu estou com muito frio e quero ir para a cama. se quiser. esfregou os olhos e sorriu com uma careta. o sistema desligou para ela não arre- bentar. — Ela travou o sistema de transporte — explicou o técnico. hoje. Sentou-se meio grogue. — Assim ela não prende. Agora são seis e quinze da manhã..nutenção elétrica — quer dizer. o pessoal da manutenção de rob- orgânicos. Não vou conseguir trabalhar. Só inseri uma tira de uns dez minutos. Pode pagar em prestações. Foi travada pela sua inter- venção e. raspe a fita — disse o técnico superior. O som o incomodou. sua voz baixa e intencionalmente cheia de cuidados — se não houver fita pas- sando pelo scanner? Nenhuma fita. — O que acontece — interrompeu Poole. Por que você estava brincando com isso? Você sabe o que poderia ter feito? — Não tenho certeza — disse Poole. fungando. — Tudo bem — disse. imediatamente. Não vou mesmo — ela virou-se. — É por isso que eu estou fazendo.. — Andei — disse Poole. — Da próxima vez.. A fotocélula lançando sua luz para cima sem barreiras? Os técnicos olharam um para o outro. Você não imaginou que houvesse um mecanismo de segurança embutido? Para brecar. nada. — Mas faz uma boa idéia. — A fita parou de rodar para a frente.. e desde então estão trabalhando em você. — Sua conta — disse o homem da manutenção. — O senhor andou brincando com a sua fita de realidade — disse um dos homens uniformizados da manutenção.

todas as notas. todos os instrumentos soando ao mesmo tempo. Simultaneamente. — Quer uma xícara de café. ficar momentaneamente em contato com toda a realidade. senhor Poole? — perguntou Sarah. e isso não é muito. mesmo se os terminais estiverem se tocando. O corpo doía. percebeu. A saída total não é cumulativa. Com todas as chaves abertas e funcionando. Estamos falando de um milionésimo de watt ao longo de um canal de césio com. — Acho que não — disse Poole. A quantidade de corrente depende do que a bateria detalhar para aquele módulo. — O que isso significa? — Significa que é o fim do mecanismo. Os técnicos já tinham ido havia muito tempo. bebendo café diante de Sarah. E todas as sinfonias. três milímetros de comprimento. O metal não derrete sob corren- tes de carga baixa. Uma partitura sinfônica entrando no meu cérebro fora do tempo. pressionou os pés frios contra o chão.te e entram em curto. — Quero — disse ele. talvez. Estão entendendo? — Isso vai queimar você. deu de ombros. Vamos imaginar que há um bilhão de combinações possíveis em um determinado instante. — Por que não? — disse Poole. Garson Poole estava sentado à mesa da cozinha. — Já examinei o circuito — disse Poole. Algo que nenhum humano pode fazer. na outra extremidade da sala. — Você não vai mais fazer nenhuma experiência com você . — Nós estamos mentindo? — perguntou enfastiado um dos técnicos. — Agora eu tenho uma opor- tunidade de experimentar tudo. Baixou suas pernas. Conhecer o universo em sua totalidade. — Ele não tem vol- tagem suficiente para fazer isso. Eles me deixaram deitado a noite inteira no sofá. Considerando tudo. Então se levantou. resultado das perfurações da fita. eles podiam ter feito um trabalho um pouco melhor.

disse para si mes- mo. Mas o que tudo isso provaria? Uma fita de vídeo andando de trás para frente. vão passar ao contrário. pelo que ele podia extrapolar até a agora. logo outro. — Talvez alguma coisa apareça — falou para ela. é a realidade extrema e absoluta. o que não é suficiente. Posso experimentar uma outra mudança. Ele olhou para seu relógio de pulso. de onde vou tirar uma pilha de pratos sujos com a comida produzida pelo meu estômago. — Eu gostaria de controlar o tempo. por um microssegundo. A comida vai estar embalada com outros alimentos em caixas de plástico. nada importa. Um minuto se passou. então transfiro a comida para a geladeira. e um terceiro. finalmente. triste. Por conseguinte.. Não quero que fique com medo. Aparen- temente. não queria esperar. E então. com uma voz fraca. vão me pagar dinheiro por isso. As seqüências de causa e efeito.. então.. voltar à minha porta. empurrar e abrir uma porta trancada. vou fazer novas perfurações nela e ver o que vai acontecer. Antes de tentar cortar a fita. e colá-la de volta de cabeça para baixo. andar de costas até a pia. . Depois disso. — Oh. O mais perto do scanner que conseguiu. enviadas para fora da cidade até as fábricas de hidropônicos no Atlântico. — Irritou-se Poole. Não faltará nada a ser visto ou compreendido. O que quero. onde vai se juntar a árvores e arbustos ou o corpo de animais mortos ou enterrada profundamente no solo. guardo em sacolas e levo as bolsas para um supermercado.. não. ele fez na fita vários furos ao acaso. E. eu não saberia mais do que sei agora.. Usando a ponta de uma microferramenta. Vai ser interessante porque não sei o que significam os furos que vou fazer. — Só quero avisar você.mesmo. vou caminhar de costas e descer as escadas desde o campo no telhado. distribuo a comida aqui e ali pela loja. vai? — perguntou Sarah. Vou cortar um pedaço da fita. direto de sua caixa registradora. querido — disse Sarah. porque tudo vai ser conhecido... Invertê-lo. pensou. — Eu imagino se vou perceber — disse para Sarah. na porta.. No dia seguinte tiro a comida da geladeira. ele se deu conta.

— Se eu cortar a fita — disse ele —você vai estar em todos os lugares. Um banco de parque onde havia um velho maltrapilho sentado.. outra coisa tinha aparecido. No centro da sala surgiu um bando de patos verde e pretos. — Você é um fator de estímulo em minha fita de realidade. — Quero conhecer você completamente — disse Poole. — Eu fiz um furo que é um bando de patos selvagens. por que esperar? perguntou a si mesmo. Não podia dizer. — Patos — disse Poole. Talvez Sarah também não soubesse. — Você não é real — falou para ela. talvez.. e então retornou ao seu jornal dobrado. Talvez ela existisse em mil fitas de realidade. ergueram-se do chão. — Você me faz desejar. Uma perfuração que pode ser coberta. Percebendo vagamente Poole. maravilhado. Agora. — Eu sou real — hesitou Sarah. os cantos de sua boca caídos para . sorriu rapidamente para ele com dentes muito estragados. no final das contas. — Para fazer isso.. O intervalo das suas perfurações tinha passado rapidamente. e que eles estejam tomando providências para me decapitar. Continuou lendo. É inevitável que eu acabe fazendo isso. Se não fizer isso agora. talvez em todas as fitas de realidade já fabricadas. — Eram? Então como. Você também existe em outra fita de realidade? Ou em uma realidade objetiva? — Ele não sabia. e em lugar nenhum. — Eles não eram reais — disse Sarah. os patos e o banco de parque desapa- receram. Eles grasnavam excitados. E sempre há a possibilidade de que Danceman tenha avisado ao meu fabricante. que eu tivesse ido trabalhar — disse Sarah. Ele ergueu os olhos. vou fazer em algum outro momento. eu mesmo. — Então. voaram contra o teto em uma massa indecisa e agitada de penas e asas e frenéticas em sua grande urgência instintiva de sair dali. — Você está vendo? — perguntou Poole a Sarah. eu esteja ameaçando sua propriedade. Pelo menos para a minha consciência. Nada restava deles. Porque. Como tudo mais no universo.. lendo um jornal rasgado e amarrotado. tenho que cortar a fita. — E os patos — naquele instante.

Eu vou experimentar a mais intensa. — Vou cortar a fita montada dentro do meu painel peitoral. Talvez aquilo resumis- se tudo. vou passar o resto da minha vida me perguntando o que teria acontecido se eu tivesse ficado com você. — Só faça se for mesmo fazer. olhando através das lentes do sistema de amplia- ção. Pode ser feito em um segundo. Ele cortou a fita. com um aspecto melancólico. porque estava com medo. .baixo. vai se matar porque descobriu que é apenas uma formiga elétrica. é isso — disse.. — Vou ficar bem. — Não. é dor o que eu vou sentir — falou para ela —apesar de poder parecer isso para você. — Mas vou ficar. Tenho meia hora. eu vou ter tempo para juntar novamente as pontas cortadas da fita. Lembre-se que robôs orgânicos têm circuitos de dor mínimos dentro deles. Sem jeito. Entende? Ele concordou novamente com a cabeça. e não um ser humano. — Não quero deixar você sozinho. — Vá em frente — disse Sarah. ou não faça se não for. — Não me conte mais nada — interrompeu ela. — Não — disse.. — Talvez — respondeu de imediato. — Nada aconteceu — sussurrou Sarah. — E eu não posso impedir você — disse ela.. Se eu mudar de idéia. Mesmo que não possa impedir você. pelo menos. Ele ficou de pé. concordando com a cabeça. E. — Vá — disse Poole. Tudo acabado. ele concluiu. olhando para ele. Suas mãos tremiam enquanto erguiam a lâmina. — Não. Você vai se desligar da tomada ou algo as- sim. ele enfiou as mãos dentro das luvas das microferramentas e pegou uma delas: uma lâmina afiada. Por- que se eu for e você se matar. ele percebeu. não vai..

Em um dos hotéis velhos e arruinados de Downtown. já vivi. Ao mesmo tempo. palpitante.. Abriu a boca e . Estou vivendo. Ele se levantou de novo. tremia. cheiros e sabores horrorosos o assaltaram: a presença amarga de venenos e limões e lâminas de capim de verão. e os foguetes acima dele corriam e ricocheteavam através de céus noturnos e diurnos. viu a luz fotoelétrica que subia. pensou. penetrando diretamente no scanner. e ele sentiu raiva de si mesmo. ele viu a extremidade da fita desaparecer dentro do scanner. A fita tinha avançado numa velocidade maior do que a que ele tinha calculado. todos os sons. Insetos guinchavam e corriam. Ela tinha entrado. por tê-la alarmado. Onde nós dois deveríamos estar. disse para si mesmo. Ela também. como se o estivesse imitando. vergastando-o como se quisesse levá-lo a algum lugar. Nova York brilhava no escuro. irracionalmente. ela ficou ali parada. disse para si mesmo. Sua voz. Sentiu calor. a textura sedosa de tecido.. Danceman também. Olhando para a tela de ampliação. Tonta e nervosa.com medo. viu e compreendeu. Levando suas mãos até as luvas. ele lutou para enfiá-las nos dedos esticados. de um jeito enrolado. ao mesmo tempo. Ele viu maçãs. — Talvez você devesse ir — disse em pânico. e seixos e zebras. difícil de entender. num reflexo. — Tenho uns 30 ou 40 minutos — ele sentou-se novamente à mesa. e com seus pensamentos vieram todas as palavras. Queria se desculpar com ela. Sarah estava por toda a sua volta. Então é agora que. secos e chuvosos. Caiu. Sarah tinha percebido. e ele afundou-se pela metade em um corpo complexo de maquinaria homeostática localizada em algum lugar dos laboratórios da Tri-Plan. ele percebeu. Sem dúvida. Ele se afogou. após tirar suas mãos das luvas. — Vá embora — disse ele. A tensão é grande demais para eu suportar. — Desculpe — disse.. — Volte para o escritório onde você deveria estar. Repousou nos braços de uma mulher em uma enorme cama branca que ao mesmo tempo gemia e gritava em seu ouvido: o som do alarme de um elevador com defeito. — Vou colar novamente as extremidades da fita. Manteiga derretida em sua língua e. Meu Deus. Tarde demais. nunca vou viver.. Sentiu o oceano envolvê-lo e um forte vento do Norte. me ajude. refletiu. Ele queria dizer alguma coisa para Sarah.

ele mesmo tinha dito. E não po- dia sentir dor. caiu de quatro sobre os cotovelos e os joe- lhos. finalmente. Danceman — disse ela quando o circuito de seu escri- tório atendeu. — Então. pelo menos. ela percebeu. Que estranho. Danceman e contar a ele o que aconteceu. pensou. disse para si mesma.tentou pronunciar algumas palavras. Que bizarro. não muita dor. Sua boca pegou fogo. Talvez um pouco. parada. viu a imagem de Poole caído ao lado da mesa da cozinha. Ele viu além dela. ela atravessou a sala até o fone. Então ele achou que eu ia morrer quando ele "morresse". Então o robô afundou. Por que posso ver através . Sarah Benton abriu os olhos e viu a espiral de fumaça que subia da boca semi-aberta de Poole. então espalhou-se devagar em um estertor. Obrigada. É melhor ligar para o Sr. estamos livres dele? — Estamos. pensou ela. — Estou. E então ela percebeu algo. Congelada contra a parede. Ergueu-as. Minhas mãos. Danceman — disse ela. Ele destruiu a si mesmo bem dian- te dos meus olhos. Ergueu-o e discou de cabeça. Ela sabia sem examiná-lo que ele estava morto. está acabado. decidiu ela. — Poole se foi. De qualquer jeito. Ainda abalada. — Você vá para casa e descanse — ele instruiu Sarah. Ou. Ele se perguntou por quê. uma série específica em meio a uma enorme quantidade delas que iluminava de maneira brilhante sua mente. — Deve estar arrasada por causa disso tudo. Tinha vivido em um mundo eletrônico próprio. não vai ser bom? — Vou mandar uns homens da oficina até aí — disse Danceman. nós. Poole tinha feito aquilo a si mesmo. Por que ele imaginou isso? Ele nunca tinha sido conectado ao mundo real. Ele pensou que eu era um fator de estímulo em sua fita de realidade. sem saber o que fazer. queimando-a com seus significados absolutos. antes de desligar e ficar ali. Sr. O senhor devia vir até aqui. — Sr.

ficou de pé do seu lado. camadas de matéria em desintegração por baixo. pensou ela. Podia ver o carpete através de suas pernas. O vento do começo da manhã soprou em torno dela. Tremendo. sem saber o que fazer. Agora. através dele.delas? As paredes da sala. Mas não sabia como. Ela não o sentiu. ela caminhou até o robô inerte. também. E Poole já estava sem definição. tinha começado a parar de sentir. O vento continuou a soprar. tinham perdido definição. Talvez se eu conseguir soldar as pontas da fita de volta. * * * . e então o carpete tornou-se difuso e ela viu.

— Não acho que a gente precise fazer isso. — Ele não vai chegar aqui. Olhou em volta. O russo acelerou o passo. o soldado russo continuou a subir a encosta acidentada do morro. Nesse momento. como se fossem crânios adquirindo tonalidades amareladas. passando a língua pelos lábios secos. Eric estava ficando nervoso. o rosto rígido. Olhou para baixo da colina. Chegou ao cume do morro e parou. arquejante. O céu estava co- berto de nuvens. partículas cinzentas que se moviam no alto. levantava a mão enluvada e secava o suor do pescoço. olhando para Leone. Leone pensou por um momento. Mexeu na pistola. — Você quer pegá-lo? Ou eu? Ajustou o visor da mira e o rosto do russo encheu inteiramente o vidro. — Não atire. chutando cinzas e montículos de escombros para longe do caminho. estava a apenas alguns passos da casamata. De vez em quando. — Leone ficou tenso. sombrias. Eric virou-se para o cabo Leone. com a retícula lhe cortando as feições duras. Troncos desnudos de árvores projetavam-se ocasionalmente no chão plano e estéril. coalhado de entulho. . empurrando para baixo a gola do casaco. quase correndo. A Segunda Variedade NERVOSAMENTE. com ruínas de prédios aqui e ali. com a arma em posição de tiro. Elas dão um jeito nele. O russo estava perto. O russo estava inquieto. mo- via-se rapidamente. olhando fixamente em volta. — Não se preocupe — disse Leone. Espere. Sabia que havia alguma coisa de errado.

as botas mergulhando em montículos de ruínas acinzentadas. Leone tocou o braço de Eric. Enquanto corria. Trazia as garras à vista. Às vezes. Uma esfera de metal. apareceu alguma coisa pequena e metálica. — Por que será que esse russo veio sozinho por esse caminho? Não vi ninguém lhe . batendo no corpo. O casaco que usava estava enlameado e rasgado. Deus. seguindo a primeira. penso que era melhor para nós quando elas não existiam. — Tem certeza? Ele chegou bem longe. — Lá vem uma. Parou por um momento. essas drogas de coisas me dão arrepios. ao mesmo tempo que tentava manter alta a arma. — Se a gente não as tivesse inventado. A esfera dissolveu-se em partículas. Sal- tou para o ombro. Do outro lado do terreno. O russo entrou em foco. Virou-se no mesmo ins- tante. Abriu um pouco a boca. parecendo duas pedras azuis. Faltava-lhe uma luva. Que subiu a colina à procura do russo. Numa bochecha ossuda. duas projeções afiadas como navalhas. viram um esparadrapo quadrado. o contador de radiação preso ao cinto subia e descia. eles teriam. atirando. mostrando azul nas bordas. Precisava barbear-se. Era pequena. O russo atirou outra vez. — Ele está olhando bem para nós — avisou Eric. Eric relaxou. tinindo e girando. Podiam ver-lhe os olhos. Ele está entrando ago- ra na pior zona. — Elas ficam por perto da casamata. tinha o queixo coberto de pêlos. Prepare-se! O russo apressou o passo. levando o binóculo aos olhos. O russo ouviu-a. Um ponto de fungo. girando em uma mancha in- distinta de aço branco. acabou. uma das menores. As lâminas giratórias desapareceram no pes- coço do russo. A terceira subiu pela perna do russo. escorregando morro abaixo. relampejando à luz mortiça do meio-dia. Uma segunda já havia aparecido.— Com mão trêmula. — Bem. seus fios voando. Leone acendeu um cigarro.

Scott examinou-a. Encolheu os ombros. Apertou os olhos e continuou a andar. — Eles chegaram como se fossem moscas. Um robô de maior tamanho havia se juntado às pequenas esferas: um tubo longo e rombudo. nume- rosas esferas de metal rastejavam por cima do corpo caído. — Vou estar protegido. tinindo e girando. Cobriu a distância até os restos do soldado. eu gostaria de ir até lá dar uma olhada nele. — Leone bateu na argola de metal em volta do pulso. Scott empurrou para longe o visor.dando cobertura. Um vento soprou em volta dele. . esgueirando-se através de blocos de concreto e forcados com dentes torcidos e dobrados. Mas tenha cuidado. — Um bocado de garras — murmurou Scott. O ar estava frio ali em cima. Nesse momento. enojado. — O que foi que aconteceu? Alguma coisa apareceu na tela. — Um russo. — Tudo bem. — Senhor — disse Leone — se não se importar. pisando nas cinzas macias. Scott pensou por um momento. Não restava muita coisa do soldado. Não há muito mais coisas para elas fazerem. Os russos sabem que temos garras por toda parte. glo- bos de metal de cor baça. — Como moscas. Pegou o fuzil e subiu com cuidado até a boca da casamata. — Por quê? — Talvez ele tenha vindo trazer alguma coisa. dirigia a operação. o tenente Scott entrou na casamata. — Só um? Eric virou a tela. munido de aparelhos seme- lhantes a olhos. O que sobrou foi levado morro abaixo por uma infini- dade de garras. Eu gostaria de saber por que ele estava ali. cerrando o russo em pequenas partes para serem levadas da dali. Subindo pelo túnel. cobrindo-lhe o rosto com partículas cinzentas. — Estou com minha proteção.

Às suas costas. — Olhe só para isto. O major Hendricks apareceu também. de alumínio. esferas de metal transportando sua carga através das cinzas. A procissão recomeçou. entrando novamente em ação. Vários oficiais entraram. Soltou os dedos. Colocou-o no bolso e voltou para a casamata. Scott observou-o atentamente. Hendricks leu o pequeno pedaço de papel. — As garras acabaram com ele. Até mesmo o grande robô armado de olhos mecânicos nas pontas de varetas afastou-se respeitosamente quando ele se aproximou. — Talvez o se- nhor deva examinar isso. Viu a mão enluvada. — Onde está ele? — perguntou vivamente Hendricks. Esvaziou-lhe o conteúdo na palma da mão. — Olhem aqui — disse. Ouviu o som produzido por seus fios arrastando-se pelo chão. Estremeceu. — Ele tinha isso? — Na mão. subindo pelo túnel. O russo teria dado muita coisa por aquilo! Radiação de curto alcance for- te emitida pela pulseira neutralizava as garras. Curvou-se sobre os restos do soldado. As garras afastaram-se quando ele se aproximou. — Major — disse Scott. E ainda reluzente. Um recipiente fechado. passando o papel aos companhei- ros. senhor. enrolado com cuidado. fechada em forma de punho. — O que é que diz aí? — perguntou Eric. Tocou na pulseira. — Isso acaba de chegar? — Um único mensageiro. algumas delas tornando-se imóveis e rígidas. as garras voltaram à vida. Scott pegou o tubo. O major Hendricks soltou um grunhido. Agora mesmo. Sentou-se embaixo da lâmpada e desenrolou-o. desativava-as. Um pequeno pedaço de papel de seda. — Acho que é isso o que estávamos esperando. Havia alguma coisa nela. quando ele tirou do bolso o tubo lustroso reluzente. — Leone desatarraxou o tubo. E eles certa- .

. Agora. eles começam a pedir arrego. do tipo munido de pernas. — Como é que você sabe disso? — Um colega me disse. — Senhor — disse Scott. — Hendricks sentou-se. E tinha o rosto escanhoado. Em Terra. Quero falar com a Base Lunar.mente não tiveram pressa nenhuma. — Vamos negociar? — Não cabe a nós decidir isso. Na tela. vasculhando o céu acima da casamata. Já houve trapaças como essa no passado. — Então eles querem conversar sobre condições — obser- vou Scott. antes que eles lhe fechassem a tampa. — Uma das grandes. entrou na casamata de um deles na semana passada — lembrou Eric. Leone ficou pensativo. enquanto o oficial de comunicações elevava cautelosamente a antena externa. — Onde está o oficial de comunicações. O uniforme en- gomado que ele usava contrastava com os que podiam ser vistos ali na casamata. Ligue- me com o general Thompson. — Base Lunar.. A coisa voltou. — O que é. apareceu o rosto do monitor lunar. estejam querendo conversar. — E acabou com um pelotão inteiro. com restos humanos. major? — Nossas garras pegaram um mensageiro russo com uma mensagem. — Talvez as garras tenham entrado nas casamatas deles. senhor — disse o oficial de comunicações. de repente. subitamente. O monitor desapareceu.. Estamos usando as garras há quase um ano. Quase imediatamente. — Este é o comando avançado L-Whistle. à procura de sinais de alguma nave espiã russa. — O que é que diz a mensagem? .. o rosto car- regado do general Thompson entrou em foco. Nós não sabemos se devemos agir com base nela. dirigindo-se a Hendricks — é muito estranho que eles.

Como um horripilante caranguejo de metal. major. Talvez um pouco de ar fresco me faça bem. Para uma conferência. de pa- tente política. Aproximou a mensagem da tela para que o general pudesse lê-la. dobrando-se sobre si mesma e desaparecendo nas cinzas como se fosse um caranguejo. — Sei que estou seguro enquanto usar esta pulseira. a antena começou a descer lentamente. Só conseguiu ver uma única garra. Odeio aquelas malditas coisas. perdido em profundos pensamentos. — consultou o papel — grave urgência tornam aconselhável que essa discussão seja iniciada entre um representante das forças da ONU e eles.. — Isso é a única coisa que me incomoda. Dizem que assuntos de. — Capacidade de decisão de política. — Eu vou — ofereceu-se Leone. — Hendricks coçou o queixo. até suas linhas.. Os olhos de Thompson moveram-se de um lado para o outro.. Há alguma coisa . Lá fora e no alto.. vale a pena tentar. — Tudo bem. com capacidade de tomar uma decisão de política. E comunicarei os resultados ao se- nhor. Pelo menos. — O senhor não acha que talvez seja uma armadilha? — Pode ser. Não dizem qual a natureza da conferência. A tela apagou. — Coçou o pulso. — Eles querem alguém de patente política. Hendricks voltou a enrolar o papel. Mas a localização que dão de seu comando avançado está correta. — O que é que nós devemos fazer? — perguntou Hendricks. — Os russos querem que enviemos um único oficial. Thompson cortou a ligação. — Vou enviar um oficial. — Envie alguém. Mas há al- guma coisa nelas. logo que ele voltar. Há meses que não saio da- qui de dentro. Como eu gostaria que nunca as tivéssemos inventado. — O senhor não acha isso arriscado demais? Hendricks ergueu o periscópio e olhou para fora. Os restos do russo haviam desaparecido.

E acho que isso é bom. O céu já estava cheio de discos bombardeiros muito antes de a guerra . algo esférico e metálico. Um robô atarracado de braços ondulantes passou por ele. O major Hendricks começou a andar. só entulhos e cinzas. acendeu um cigarro e olhou em volta. Hendricks recolheu o periscópio. E também al- gumas árvores. um rato. sem folhas ou galhos. Eles tinham ali um posto de comando avançado. se quero voltar antes de anoitecer. Não tinha visto ainda aquele tipo. A retaliação não demorou. Era interessante o uso desse tipo de formas artificiais de guerra. Apenas os troncos. partindo em perseguição a alguma coisa. e ruínas. Respirou profundamente e saiu para o chão coalhado de en- tulho acinzentado. A maior parte da América do Norte tinha sido varrida do mapa. De que modo teriam começado? Por necessidade. intermináveis. Como se fosse uma ocupação secundária. mexendo os braços inquisidoramente. Elas pegavam também ratos. O mensageiro veio dali. As linhas russas estavam alguns quilômetros à frente. algo correu. claro. Após um minuto. Uma garra. Coisinhas implacáveis. Provavelmente. desaparecendo sob alguns escombros. À direita. os russos teriam. A União Soviética teve grandes sucessos iniciais. — Pelo menos. Nada se mexia. Hendricks seguiu-o com os olhos. as nuvens cinzentas eternas. Por quilôme- tros. um animal pequeno. Acima dele. — O senhor dá a impressão de que está ficando tão nervoso como os russos.errada nelas. novas variedades e tamanhos subindo das fábricas subterrâneas. — Acho que é melhor eu ir logo. Mas prosseguiu em seu caminho. — Se a gente não as tivesse inventado. Hendricks consultou o relógio de pulso. rolando entre Terra e o sol. Cada vez havia mais tipos que desconhecia. parece que elas estão ganhando a guerra. Viu uma paisagem morta. o que em geral acontecia com o lado que iniciava a guerra. Chegou ao topo do pequeno morro e ergueu o binóculo. Apagou o cigarro e apressou o passo.

uns poucos e. escondendo-se nas ruínas. menos as tropas. Mas elas se tornaram mais eficientes. passaram a produzi-las em massa. para todos os fins. O que restava dos meios de produção das Américas foi transferido para a Lua. no começo. alguns com sensores e outras que voavam. Os discos começaram a cair sobre toda a Rússia. horas depois de Washington ter sido atacada. já no primei- ro ano. Os russos destruí- am-nas quase com a mesma rapidez com que elas emergiam de seus túneis subterrâneos. adegas. Os governos do bloco americano mudaram-se. fazendo o melhor que podiam. As que ainda existiam ficaram ali. porém. um lugar onde ninguém podia plantar nem viver. em esgotos. Surgiram no- vos tipos.começar. alguns milhares de soldados aqui. mais rápidas e mais astutas. Parecia que a União Soviética já havia. Mas esse fato não salvou Washington. nesse momento quase esquecidos. um pelotão ali. tinha acabado. por trás das linhas. que haviam antes produzido mísseis atômicos. elas eram desajeitadas. Permaneciam onde podiam se manter. vencido a guerra. E. A guerra. Nada eficaz se opunha aos russos. juntamente com ratos e serpentes. porém. Eles usavam os primeiros equipamentos realmente eficazes contra radiação. para todos os efeitos. surgiram as primeiras garras. da noite para o dia. em núme- ros cada vez maiores. As fábricas. para a Base Lunar. Tudo. Exceto por um punhado de projéteis disparados todos os dias da Lua. As garras tornaram-se mais rápidas e maiores. No segundo ano. Pairavam no alto há anos. ou para a América do Sul. salvo como montes de entulho. Os melhores técnicos baseados na Lua . A maior parte da América do Norte tornou-se inabitável. Não havia muito mais a fazer. No início. juntamente com os governos. Eram fábricas que existiam há muito tempo sob a terra. E também havia as saltadoras. Nessa ocasião. praticamente não havia armas para lutar contra os russos. em Terra. Uns poucos milhões de habitantes emigraram para o Canadá. os pára-quedistas soviéticos começa- ram a descer. A Eu- ropa não existia mais. onde ervas escuras cresciam entre cinzas e ossos. Ninguém sabia exatamente onde os russos esta- vam. movendo-se à noite. mudou o tipo de guerra. em seguida. ao norte. Lentas.

E começaram a penetrar nas casamatas russas. com os novos modelos que surgiam. Os novos . Pulseiras com- pensadoras de radiação protegiam as tropas da ONU. silvando pelo ar.. causando um sem-número de problemas aos russos. de qualquer ponto de vista prático. E quando uma entrava. E pareciam estar se saindo muito bem. o Politburo resolveu jogar a toalha. rodopiando. Seres humanos permaneci- am bem distantes do processo de produção.. Talvez ele fosse ouvir essa notícia. tornando-os cada vez mais complexos e flexíveis. quisesse ou não o governo reconhecer esse fato. Foram deixadas sozinhas. Era uma pena que tivesse demorado tanto. maquinaria automática as produzia. uma atmosfera fervente de lâminas e metal — isso era o suficiente.trabalhavam nos projetos. podiam fazer con- sertos em si mesmas. Mísseis teleguiados soviéticos. onde ficavam à espreita. Um tempo demorado demais para uma guerra como essa. esgueirando-se para dentro quando eram levantadas as tampas para ventilação ou para um olhar em volta. Uma única garra dentro de uma casamata. entocando-se no chão. arrastando-se. Era para isso que tinham sido projetadas. Eram coisas vivas. Nas profundezas da terra. caindo como chuva por cima de toda a Rússia. qualquer que fosse o uniforme. As garras em nada se assemelhavam as outras armas. Seis anos. se algum homem perdesse a sua. Eram independentes. subindo por cima dele. Neste momento. Algumas pequenas garras estavam aprendendo a se esconder. Era arriscado demais. E elas se tornaram quase sobrenaturais. As bombas em cadeia. Os discos automáticos de retaliação. sacudindo-se subitamente dentro do entulho cinzento e partindo na direção de um homem. ninguém queria tê-las em volta. procurando-lhe a garganta. Elas eram vivas. mas. Cristais de bactérias. isso. os robôs. centenas de milhares deles. Talvez já tivesse acabado. E agora. as outras seguiam-na. Com uma arma como essa. Para fazer esse trabalho. a guerra não poderia durar por muito mais tempo. as garras. Não eram máquinas. Quem sabe. da maneira como havia sido travada. tornava-se boa presa para as gar- ras. Especialmente nos últimos tempos. E o faziam bem.

Jogou fora o fósforo e apressou o passo. O menino per- maneceu em silêncio. Um brinquedo... elas haviam ganho a guerra. De trás da concha vazia de um prédio em ruínas. e bermudas. Hendricks baixou a arma. mas destituídos de expressão. O major Hendricks acendeu o segundo cigarro. Mas era difícil calcular a idade. Os olhos da criança eram grandes. pareceu. — O que é que você tem aí? — perguntou secamente Hendricks. — Embaixo da terra? . andando hesitante. o corpo tenso. — Nas ruínas? — É. O menino abraçou novamente o ursinho. Mais eficientes. Hendricks pestanejou rápido. surgiu uma figura. senão cinzas e ruínas. Por um minuto. Essa usava um suéter azul desbotado. Aparentemente. — Pare! O menino parou. um ursinho. A maioria das crianças que restava era mirrada.. Hendricks relaxou. — Onde é que você mora? — perguntou Hendricks. À direita. Um ursinho de pelúcia. as ruí- nas de uma cidade. não muito velho. — Eu não o quero. Nada. Cabelos compridos e emaranhados. algumas paredes e montes de escombros.. O menino mostrou o que trazia. com manchas de sujeira. mais complexos.modelos eram mais rápidos. E trazia alguma coisa nos braços. Parecia estar sozinho. — Ali dentro. parou. A paisagem deixava-o deprimido. fitando-o. o único ser humano em todo o mundo. Castanhos. levantando a arma. Caíam-lhes pelos lados do rosto e em volta das orelhas. vindo devagar em sua direção. Pode ficar com ele. Era baixo. De repente. Tal- vez oito anos.

Elas se reuniam principalmente em volta de . As pernas e braços lembravam limpadores de cachimbo. Não era de espantar que fosse tão mirrado. raquítico. Talvez não houvesse garras por ali. — Qual é a sua idade? — Treze anos. Olhos grandes. — Não. Isso não era possível. Que correm e fazem tocas na terra. Hendricks franziu as sobrancelhas... vive? O menino disse que sim com um movimento de cabeça.. Ou era? O menino era magro. — Que tipo de comida? — Diferente. provavelmente. Tocou-lhe o braço. Hendricks examinou-o atentamente. — Você não vive sozinho. Posso ver um pouco. olhando dentro dos olhos do menino. — É. Quantos? — Quantos são vocês? Qual é o tamanho de seu povoado? O menino não respondeu. Pele de radiação. durante anos. grandes e escuros. Exposição à radiação. — Quantos existem por lá? — Quan. — Não estou compreendo. Curvou-se. Nenhuma expressão. — Você é cego? — perguntou.. Sentiu pele seca e áspera. — Como foi que conseguiu se livrar das garras? — Garras? — Aquelas coisas redondas. magros e encaroçados. Muitas áreas estavam li- vres delas. estéril. E. — Como é que você continua vivo? — Há comida.

Hendricks procurou alguma coisa na mochila. — Há quanto tempo? — Seis anos. Certo? — Eu quero ir com você.casamatas. — É uma caminhada muito longa. — Tudo bem. para lá? — Posso ir com você? — Comigo? — Hendricks cruzou os braços. O menino andava em silêncio.. — Você tem sorte — disse Hendricks. — David? O que... Duas pessoas a pé seriam um alvo bom demais. Venha comigo. .. Mas ele talvez não voltasse por aquele caminho. Tenho que correr. Hendricks continuou a caminhada. E o menino ia atrasá-lo. E se o menino estivesse realmente sozinho. — Eu vou andar muito. — E então? Para onde está indo? De volta para. — Tenho que chegar lá antes da noite. hesitante. onde havia gente. levantando-se. o que aconteceu com seu pai e sua mãe? — Morreram.. — Não vale a pena. segurando com força contra o peito o ursinho de pelúcia. — Eu posso andar. Hendricks encurtou o passo. — Eu quero ir.. Quilômetros. — Pegue as latas e volte para lá. Hendricks mexeu-se. — Qual é o seu nome? — David Edward Derring. calor de coisas vivas. — Pôs no chão algumas latas que trazia. O menino começou a acompanhá-lo. — Como? — Na explosão. Haviam sido projetadas para perceber calor. agora. — Olhou para o relógio.

Eles começaram tudo isso. moral ou físico. Costume. — Você está sozinho há seis anos? — Durante um tempo. hábito. — Como foi que você me viu? — Eu estava esperando. — Não. O menino inclinou a cabeça. Estóicas. havia outras pessoas. Fechado. — Esperando? — Hendricks ficou confuso. — Que tipo de coisas? — Coisas para comer. Eles lançaram as primeiras bombas de radiação. que pudessem esperar. — Para as linhas russas. Dentro de um buraco nas ruínas de uma cidade. das coisas. — Russas? — Os inimigos. minas explosivas de mergulho dos russos no alto. Hendricks olhou para baixo. — Para onde é que você vai? — perguntou David. vivendo de ratos. falava pouco. — E você está sozinho desde então? — Estou. — Estou andando rápido demais? — perguntou. O menino era estranho. Mas sem nenhuma expressão . Morreram. Só tinha sobrado a experiência da brutalidade. Eram dominadas por um tipo estranho de fatalismo. Com concentrações de radiação e garras. desenhando círculos no céu. — Oh! Hendricks cerrou sombriamente os lábios. — Esperando para o quê? — Para pegar coisas. Um menino de 13 anos. todas as forças organizadoras haviam desaparecido. marmotas e comida enlatada meio podre. Caladas. Os que começaram a guerra. Mas as crianças sobreviventes eram assim. Aceitavam tudo o que acontecia. Não havia mais qualquer curso normaly natural.

os joelhos encaroçados e brancos aparecendo. exceto algum tocos mortos de árvo- res e montanhas. Nada restava agora.no rosto. A raça humana teria que compreender isso. Não tinha importância. David examinou a comida e devolveu-a. no lado mais distante. hectares de árvores frutíferas e vi- nhedos. Agachado à beira da fo- gueira. o que antes havia sido um comprido vale. Afastou as ervas e empilhou alguns gravetos. Entregou o pão e a carne a David. às vezes. Hendricks preparou uma fogueira num vazio entre duas lajes de concreto. depositando-se sobre ervas e restos de prédios. — Faça como quiser — disse. Quando acabou. As linhas russas não estavam muito distantes. E as nuvens de cinzas que eram transportadas pelo vento. Mas muitas coisas estranhas estavam acontecendo no mundo. achando a comida dura. Hendricks encolheu os ombros. ele arranjaria alguma coisa para comer. no que tinha sido uma porta. — Não? Não quer comer nada? — Não. pararam para comer. A vida não era mais a mesma. rebatendo-os com café. sacudindo a cabeça. que se estendiam no horizonte. David seguindo. Nenhum comentário. acostumado à comida especial. — Tome aqui. — Eu sou americano — disse Hendricks. O menino era estranho. levantou-se e apagou o fogo com os pés. Nunca mais seria. apertando o ursinho de pelúcia contra o peito. David levantou-se devagar. Fez café e esquentou um pouco de pão e carne de ovelha cozida. Em volta dele. Quando sentisse fome. Por volta de quatro horas da tarde. Os dois continuaram a andar. Hen- dricks um pouco à frente. fitando-o com aqueles olhos jo- . Co- meu devagar. Comeu sozinho o pão e a carne. Talvez o menino fosse um mutante. paredes aqui e ali e. — Não.

de onde surgia apenas um peris-cópio. algumas bocas de armas. Nada. Paredes de concreto. então? David permaneceu calado. em algum lugar. Olhou para a paisagem em volta. — Por que pergunta. ele. Mas ele devia estar sendo esperado. da maneira como seus homens haviam observado o mensageiro russo? Um calafrio lhe desceu pelas costas. preparando-se para matar. — Vamos. Hendricks diminuiu o passo. Havia sempre a possibilidade de um engano. da mesma maneira que haviam feito seus soldados. mas eles eram traiçoeiros. criadas em porões. alguns morros. estava a pri- meira casamata das linhas russas. escolhendo o caminho por cima das cinzas. — Vamos. Mas. Bem nas profundezas da terra. Continuou a andar com cuidado. uma antena. Não havia cor naquele rosto. Os russos deviam estar esperando um mensageiro. Talvez eles já estivessem lhe apontando as armas. Estavam perto e. tenso e preparado para qualquer coisa. O que era típico das novas crianças. Talvez. A situação era diferente. preparando-se para atirar. as pernas e sapatos cinzentos. em algum lugar à frente. o posto de comando avançado. Hendricks reiniciou a marcha. Está ficando cansado? — Não. senão detritos e cinzas. — Vamos continuar — disse Hendricks. Continuou a andar por cima das cinzas.vens-velhos. árvores calcinadas. a arma firmemente . Levou o binóculo aos olhos e estudou o terreno à frente. Aquela situação o deixava nervoso. à espera? Observando-o. listras de cinza desciam pelo rosto pálido. esgotos e abrigos subterrâneos. Estariam eles ali. — Droga. Na face encovada. uma resposta ao seu próprio mensageiro. a arma nos braços. Parou e enxugou o suor do rosto. — Vamos chegar logo? — perguntou David. cobertos de poeira.

A menos que tudo aquilo fosse uma armadilha. seguido em silêncio por David. A qualquer segundo. Hendricks olhou em volta. David permaneceu atrás. — Por que nós paramos? — Não quero me arriscar. haveria garras em volta da área para assegurar proteção total. Claro. Estamos perto. à espreita de tropas que tentassem se infiltrar na área de comando. teria posto um sentinela ali em cima. uma explosão. Aproximou-se cautelosamente. Um relâmpago de luz branca. como resposta à nota enviada dentro da cápsula. na retaguarda. Aumentou a sensação de inquietude.segura nas mãos. ainda abraçando o ursinho. cuidadosamente provocada de dentro de uma casamata profunda de concreto. lábios cerrados. a alguns passos. — Chegamos? — perguntou David. ele não teria a menor chance. — Junto de você? — Ao meu lado. Se houvesse um russo ali em cima. Acima dele. À direita. Girou novamente a arma no alto. Hendricks avançou lentamente. E havia as onipresentes ervas escuras. a coisa poderia acontecer. se fosse seu comando. Não podemos nos arriscar. mãos nos quadris. Algumas lianas selvagens haviam crescido em volta dos restos de árvores. — Quase. David. Eles deviam estar esperando alguém com o uniforme da ONU. — Voltou-se para David. . Nesse momento. Haveria alguma coisa ali? O lugar era perfeito como posto de vigia. Examinou atentamente o terreno alto. Atrás dele. Nada se moveu. Parou. o terreno elevado estava diretamente à sua direita. Se aquele fosse seu comando. em círculo. Vamos. Ergueu a arma e girou-a no alto. — Não se atrase. — Vou ficar bem. pernas abertas. com troncos de árvores mortas no alto. um longo trecho de terra elevada. — Fique junto de mim.

Nenhuma vida lá em cima.. fazen- do pontaria.. Os dois russos atiraram. Ambas ergueram as armas. Por um momento. — Não atire — disse o primeiro russo. Hendricks ouviu um som baixo. Um russo. subitamente tenso. pôs-se de joelhos. um mau cheiro acre.. Uma figura alta apareceu no terreno alto. ianque — disse o outro. Ela se colocou às costas dos dois soldados. Ele estava acabado.. Uma terceira figura reuniu-se a eles no topo do espinhaço.. alguns ratos. oco. Nariz e rosto ardiam. Aquilo era uma armadilha. Silêncio total. a mira das armas apontada para a base da encosta. Abriu a boca. — Solte o fuzil. Às suas costas. também de uniforme cinza- esverdeado. Voltou a andar. Hendricks levantou novamente o binóculo. em um inglês de forte sotaque. Morto. Mal conseguia sustentá-la nas mãos. de estatura mais baixa. Os três chegaram e cercaram-no. Estava entorpecido. Talvez. como um idiota. Os grandes ratos pretos que haviam escapado das garras. Tudo havia acontecido com . Construíam seus abrigos com saliva e cinzas. entrando nos olhos e nariz. A cabeça latejava.—Eu sou o. Atrás dele apareceu um segundo soldado. outro russo. Cinza-esverdeado. azedo. apenas troncos de árvores e cinzas. Hendricks endureceu-se todo. Hendricks sentia-se estonteado. Cinzas atingiram-lhe o rosto. alguma coisa teria se movido? Exa- minou com todo cuidado o espinhaço de terra. — Faça como quiser. Hendricks redescobriu a voz. Os soldados e a mulher desciam nesse momento a encosta. O ar estava sufocante com o cheiro da explosão. Ondas de calor chocaram-se contra seu cor- po. Sufocando. A arma pesava mil tone- ladas. Os soldados ha- viam se ajoelhado. — Parem! — Acenou freneticamente para eles. Tinha vindo ali para ser morto. levantou o fuzil e fez pontaria. lançando-o ao chão. deslizando pelas cinzas macias.. Mutantes. vindo em sua direção. Desajei- tado. Uma espécie de argamassa. o capote batendo no corpo. Uma mulher.

Até dentro da casamata.. tentando clarear os pensamentos. Hendricks curvou-se para a frente. — Levaram-no para o trecho de terra elevada.— Está vendo.. Hendricks sentou- se. Tinha sido capturado.. — Não podemos ficar aqui. E virou-o. Não é seguro. Os três russos o examinaram. E eles haviam matado o menino. — Um robô — disse o soldado que lhe segurava o braço. — Seguindo-me? — É assim que eles fazem. O que restava dele estava espalhado pelo chão. — Olhe! — Os dois russos puxaram-no para a frente. — O menino. — Por que foi que vocês fizeram isso? — murmurou. Deve haver centenas de- les em volta de nós. ianque! Hendricks olhou. sem compreender nada. David não vivia mais. Estupefato. varetas. Hendricks fechou os olhos. — Vamos. Hendricks pestanejou. Virou a cabeça. meio calcinada. Depressa. Peças. A frente da cabeça havia se soltado e viu um cérebro complexo. agora? Agora você entende? Dos restos de David rolou uma roda de metal. fiação. milhares de peças minúsculas. — O posto de comando avançado — murmurou Hendricks. curiosos.tanta rapidez. Partes saltaram. rolando para longe. metal brilhante. Relés. É assim que eles entram. Um dos russos chutou o montículo de restos. Trêmulo. Seguem a pessoa. — Nós observamos que ele o estava seguindo de perto. a voz rouca. — Eu vim negociar com o posto de comando avançado .. fios e relés. tubos minúsculos e botões. — Olhe. tirando pedaços de cinzas endurecidas. Uma seção plástica caiu. Sacudiu a cabeça. — Mas. enxugando o sangue que escorria pelo nariz. — Por quê? — Um dos soldados ajudou-o rudemente a le- vantar-se. rodas. — Está vendo. molas. E arquejou de espanto. Não há muito tempo a perder.

há dois anos. moreno. Os quatro se sentaram em volta de uma pequena mesa de madeira. presa ao chão. alguns cobertores e roupas penduradas em um gancho. — Não fumo um cigarro americano há semanas. — Eu sou o cabo Rudi Maxer. Não me lembro. e Tasso. Hendricks desceu. para o Exército Soviético. A mulher fechou e aferrolhou cuidadosamente a tampa no lugar. uma lâmpada brilhava. E estendeu a mão. — E. Hendricks empurrou o maço na direção dela. Era um homem baixo. Recrutado à força. Por este caminho. Viu uma pilha de pratos sujos empilhados em um canto. — A mulher desparafusou uma tampa de bueiro cinzenta.soviético. com cabelos rareando. Epstein puxou nervosamente o lóbulo da orelha. Nós três aqui. — Nós estávamos aqui — disse o soldado a seu lado. Recrutado à força só Deus sabe quando. trêmula. eles conseguiram entrar? Epstein acendeu um cigarro. Por trás de uma cortina rasgada era parcialmente visível um segundo quarto. Hendricks notou a barra de um casaco. Polonês... Todo o resto estava lá na casamata.. Tirou o capacete. — Entre. — O outro soldado lhe apertou também a mão. . — Austríaco. — A coisa seguiu-a até o ponto em que queria chegar. — Chegaram ao alto do espinhaço. eu. — Por aqui. — Foi assim que escapamos. Num canto do pe- queno quarto. depois que desceram. Eles o toma- ram. O resto estava lá embaixo na casamata. — Fez um gesto na direção da mulher. atravancado de coisas. — Foi uma boa coisa nós termos visto — grunhiu um dos soldados. — Nós somos tudo que sobrou. empurrando para trás os cabelos louros. Ela pegou um cigarro e passou o maço aos dois soldados. O cômodo era de teto baixo. Nós três. — Não há mais posto avançado de comando.. — Me dê um de seus cigarros — pediu a mulher. Rudi. — Klaus Epstein. Os dois soldados e a mulher vieram atrás dele pela escada. Explicaremos depois.

Em seguida. Cada tipo era melhor do que o outro. mais ou menos. Hendricks examinou as fotos. Os russos. nas fábricas subter- râneas de vocês. Três Davids. os mesmos. o coto de uma perna estendido e uma muleta grosseira no colo. David. — Essa é a Variedade Um. Hendricks desamarrou o barbante. Desco- brimos há uma semana.. Em seguida. um braço numa tipóia. Novos tipos exclusivos. O Soldado Ferido — Klaus esten- deu a mão e pegou as fotos. O tipo que se colou a você. — O tipo? Há mais de um tipo? — O menino. David andando por uma estrada. mostrava um soldado muito alto sentado ao lado de uma trilha. Eles foram . — No início. David e outro David. Descobrir onde eles se encontravam. apenas um deles. — Olhe por si mesmo. — Entenda — disse Rudi Maxer — era por isso que quería- mos conversar sobre condições. David. — Aqui. Descobrimos que as garras de vocês estavam começando a criar modelos próprios. atrás de nossas linhas.. que fizessem reparos em si mesmos. — Olhe para os outros — disse Tasso. A mais eficaz. dois soldados feridos. sozinho. — Como são os outros tipos? Epstein enfiou a mão no capote. Aquela é a Variedade Três. Hendricks ficou alerta. Tornaram os modelos cada vez mais complexos. mais aperfeiçoados. Elas haviam sido tiradas às carreiras e as cópias eram indistintas e manchadas. amarrado com barban- te. — Jogou um maço de fotos. em cima da mesa. Tudo muito triste. As primeiras mostravam. — Note. To- dos com um ursinho de pelúcia esfarrapado. as garras foram projetadas para atacar seres humanos. de pé. Vocês deixaram que eles se estampassem por si mesmos. David agarrado a seu ursinho de pelú- cia. As fotos seguintes. quero dizer. lado a lado. Todos exatamente iguais. É culpa de vocês por isso ter acontecido. ele deixou os outros entrarem. tiradas de grande distância.

As fotos eram enviadas para nós por meios eletrônicos. Klaus voltou a amarrar a pilha de fotos. — Klaus e eu estávamos. Nós estávamos de sobreaviso para máquinas.. Acabamos e subimos a escada para começar a caminhada de volta. David e seu ursinho. batendo à porta e implorando para entrar. só havia um tipo. Nós pensávamos que isso era tudo. Quando en- viamos o mensageiro a vocês. Ela era ainda mais eficiente do que as outras.. penetraram em nossas linhas. da pior maneira possível. era tarde demais. — Esta pequena adega. logo que entraram. Eles chegaram... ahn. Certa vez. nessa ocasião. . E descobrimos. O Soldado Ferido. — Está. Podiam ser detectadas como robôs letais logo que eram vistas. enquanto eram apenas máquinas. passaram pela maioria das nossas defesas. — Sol- dados são uns bobocas quando se trata de crianças. — A Variedade Um destruiu toda nossa ala norte — conti- nuou Rudi. fazendo uma visita a Tasso quando aquilo aconteceu. esferas de metal com garras e chifres. — Klaus sorriu amargamente. Do alto do terreno elevado. Pelo menos. E. parecia que só havia um tipo — disse Klaus Epstein. — Passou-se muito tempo. assumiram o controle. — Naquela época. antes que alguém com- preendesse o que estava acontecendo.mais longe. o que elas queriam fazer. podiam ser localizadas como qualquer outro objeto. Trouxemos elas para aqui e tentamos lhes dar comida. Klaus tirou as fotos. — Variedade Três. Centenas deles. vimos que eles estavam por toda parte em volta da casamata.. Mas. antenas. David e seu ursinho.. capturamos uma delas.. os que estavam na casamata. — E isso está acontecendo em toda a linha de frente russa? — perguntou Hendricks. E estavam lutando.. — Ninguém desconfiava que houvesse outros. — Fez um gesto circular com a mão enorme.. Mas. Esta é a casa dela. — A linha de vocês foi destruída pela. — Nós três tivemos sorte — prosseguiu Rudi. A Variedade Um. chegaram mais perto. os soldados feridos. E nós deixamos que entrassem..

não faz diferença. Qual é a outra? — Não sabemos. Eles estão fazendo aquilo que foram projetados para fazer. Agora. — Você pode ver contra o que estamos lutando.. — Você teve sorte — disse Rudi. A placa tinha uma marca estampada: I-V. elas contornaram esse obstáculo. É tudo a mesma coisa. acabamos com ele. Talvez não tenha funcionado. — A placa da esquerda foi tirada de um Soldado Ferido — disse Rudi. Levantou-se e examinou-as. — E esta veio do tipo David? — Exatamente. Estava indo para a nossa velha casamata. — Desde o início. Claro. — Pegamos um deles. — E qual é a outra variedade? — perguntou Hendricks. Mas tem que haver uma Segunda Variedade. — Eles podem. Klaus lançou-lhes um olhar. Eles perseguem vida. — O tipo David. Klaus apontou para a parede. viu duas placas de metal. Do alto do espinhaço de terra. o Soldado Ferido. — David seguiu-o o tempo todo até aqui e nem o tocou. — Eles não são afetados por suas pulseiras anti-radiação. As novas variedades são revestidas de chumbo. as que vocês projetaram eram mantidas à distância pelas pulseiras que usam. Dobradas e amassadas. Levando adiante a idéia original. Há outro tipo. ele tocou a pulseira no braço. — Mas o que é que você me diz de nossas linhas?— Sem pensar. onde quer que possam encontrá- la. Nela. A placa era estampada com os seguintes números: III-V. com lados irregulares. — Eles são orientados por calor — explicou Klaus.. foi assim que vocês os construíram. Hendricks tocou a outra placa. pensou que você o . Para eles. Talvez tenha sido abandonado. Há a Um e a Três. Provavelmente. inclinando-se sobre o largo ombro de Hendricks.. sejam russas.. polonesas. alemãs. da mesma maneira que fizemos com o David que o estava seguindo. americanas.

Máquinas com um único objetivo. em algum lugar. Salvos por nosso tesão. Klaus levantou cautelosamente a tampa do bueiro para que Hendricks pudesse olhar em volta. voltamos para a superfície e começamos a voltar pelo terreno elevado. Vimos quando ele seguia na direção das suas linhas... Nós sabíamos que Tasso estaria aqui. algumas casas. — Elas são rápidas. Despachamos imediatamente nosso mensageiro. também. — Me dê outro cigarro. escondida em seu lugarzinho. Viemos para aqui. — De modo que nos salvamos — disse Klaus. — Por acaso. Noite. o Politburo chegou a uma decisão. Nós tínhamos vindo aqui antes. Esta adega fazia parte de uma casa de fazenda.. — Eles são gostosos. ao posto de comando avançado.. Foi apenas uma questão de sorte que Klaus e eu não estivéssemos lá quando aquilo aconteceu. — Alex Radivsky. nenhuma estrela visível através das nuvens de cinza que rolavam no alto. Rudi apontou para a escuridão. Quase tinha me esquecido como são. Outros da casamata vinham. Foram construídas para um único fim. uma rua. E foi . A não mais de uns 800 metros daqui de onde estamos. Fraqueza. O sol acabava justamente de aparecer. Klaus e eu tivemos uma hora de folga. Onde estávamos. Por volta de meio-dia. A primeira dá um jeito para o resto entrar. Nós. ianque — pediu Tasso. — Nós vimos. Naquele dia era nossa vez. Era conhecido de nós dois. Caiu um silêncio entre eles. Poderiam ter sido outros. — Enxugou o suor do lábio.introduziria em uma casamata. — A coisa ocorreu rapidamente. Havia uma pequena cidade por aqui. E são inflexíveis. Demos cobertura a ele até que ele desapareceu de vista. Deixamos às escondidas as casamatas. Naquela manhã. Ninguém nos viu. nós acabamos. céu negro. — Uma delas entra e tudo termina — continuou Klaus. — As casamatas ficam naquela direção. Enviou uma notificação a nós. Ele desapareceu por volta de seis horas. — Todos eles devem estar mortos — disse Klaus em voz baixa.

Havia centenas deles. Soprou no mi- crofone. — Não? Por que não? Talvez a gente a esteja vendo agora. — Obrigado. Não como coisas vivas. O major Hendricks encostou-se na borda da tampa. — Hendricks esperou mais um momento. Evolução. . tivemos que destruir dois Davids antes de poder voltar. — Eles não são lá grande coisa quando os pegamos sozinhos. hesitava. — Nós vamos puxar você para baixo. Se tivéssemos dado outro passo. o Soldado Ferido. Tiramos fotos e voltamos às escondidas para aqui. se alguma coisa acon- tecer — disse Klaus. Os Davids. fechando como melhor podíamos a tampa do bueiro. — É seguro levantar absolutamente a tampa? — Se tomamos cuidado. Ainda assim. — Não há raça depois do homem. acostu- mando os olhos à escuridão. Mas eles são implacáveis. Ouviu um zumbido baixo. — Interessante. Vieram direto contra nós.nessa ocasião que os vimos. Levou-o ao ouvido. por toda parte. ainda assim. eles teriam nos visto. Como se fossem formigas. Nós nos movemos mais rápidos do que eles. sim. De que outra maneira você pode usar o transmissor? Hendricks levantou vagarosamente do cinto o transmissor. acho? Mas. não? Por essa hora. elas provavelmente já se infiltraram nas linhas da ONU. — Isso não faz mal. des- cansando o transmissor no ombro. Tínhamos visto fotos da Primeira Variedade. Compreendemos imediatamente o que havia acontecido. não? — O quê? — Isso. Estamos inteiramente à mercê delas. A raça que surgiu após o homem. levantando a antena curta. Rudi soltou um grunhido. E será que não estamos presenciando o início de uma nova espécie? As novas espécies. os tipos novos. Nosso comissário distribuiu as fotos. com uma explicação. E nós os destruímos a tiros. As novas variedades de garras. Sentiu o metal frio e úmido.

Ou então eles estão me ouvindo e não que- . Hendricks pronunciou o código da casamata de comando. Vocês os projetaram para destruir. — Eles vão pensar que estou sendo forçado a fazer a chamada. Deu potência máxima ao aparelho e tentou mais uma vez. Eles talvez me ouçam. descrevendo em curtas palavras o que havia descoberto. São máquinas com um trabalho a realizar. — Use seu transmissor. São assassinos mecânicos. à escuta. mas são máquinas. porém. major — aconselhou Klaus. Checou o funcionamento do aparelho. — Diga a eles que é uma emergência. O transmissor. — Eles não são uma raça.o fim dos seres humanos. e depois? Quando a guerra terminar? Talvez quando não houver mais seres humanos para destruir. — Talvez seja isso. — Não podemos ficar aqui em cima para sempre. — Você está me ouvindo? Silêncio. Segurando firmemente o transmissor. continuou mudo. E esperou. Nenhu- ma resposta. Tentou mais uma vez. — De fato. Tudo em ordem. — Parecem gente. Hendricks desligou o transmissor. exceto pela leve estática. o início de uma nova sociedade. Nenhuma resposta. Só estática. — Eles são máquinas — disse Rudi. — Não estou recebendo nada. é o que parece agora. — Scott! — disse ao microfone. — Não adianta. mas talvez não queiram responder. Pontos de concentração de radiação? Talvez. — Você fala como se eles fossem vivos! — E não são? — Seguiu-se um silêncio. Mas. após algum tempo. — Pontos de concentração de radiação acabam com a maioria das transmissões — disse Klaus. Isso é tudo que eles podem fazer. as suas potencialidades reais comecem a aparecer. Só silêncio. Por ordem de vocês.

— Ou.. É isso que nos mantêm em ação.. Centenas deles. — Eu deixei a casamata ao meio-dia. — Eles poderiam trabalhar com essa rapidez toda? — per- guntou Hendricks. De que modo eles poderiam se mover com tanta rapidez? — Eles não precisam de muito tempo. Eles não têm razão para acreditar nessa história. em cada dedo. — Eles não poderiam ter chegado à Base Lunar. . Como formigas. — É melhor pôr a tampa no lugar — disse nervosamente Rudi. — A Base Lunar? Hendricks virou-se para eles. Loucura total. Você devia tê-los visto. depois que o primeiro consegue entrar.. Desceram mais fundo. todos iguais. ele abre o caminho para os outros. Navalhas. Hendricks concordou com um movimento de cabeça. O ar em volta era quente e opressivo. Ele se descontrola. Todo nosso povo e indústrias. seja tarde demais. impaciente. Vagarosamente desceram pelo túnel. Até mesmo o que uma delas pode fazer é inacreditável. talvez. Não posso acreditar nisso. — A Base Lunar. se eles conseguirem chegar lá. e ficou de costas para os outros. é isso o que eu mesmo faria. Idênticos. se um mensageiro estivesse tentando ligar das linhas soviéticas. — O que é essa Base Lunar? Nós ouvimos boatos. — Não vamos querer correr riscos desnecessários. De que ma- neira poderiam? Isso não é possível. — O que é? — perguntou Rudi. mas nada claro. — Nós somos abastecidos a partir da Lua.rem responder. Klaus colocou com cuidado a tampa no lugar e fechou-a. Há dez horas. Para ser franco. Você sabe o que as pequenas garras podem fazer. sob a superfície lunar. Deus.. Os governos es- tão lá. Uma vez que consiga entrar. para a cozinha. Qual é a situação atual? Você parece preocupado. Podem estar ouvindo tudo que estou dizendo. Se eles descobrirem uma maneira de deixar Terra e chegar à Lua.. — Tudo bem.. Não. — Para isso basta um deles. Hendricks afastou-se.

três fuzis que disparam projéteis explosivos. — Vou tirar um cochilo — disse. major? — Cinco ou seis quilômetros. Todos os cidadãos interpermutáveis. — Socialismo perfeito — disse Tasso. Hendricks parou de andar. — Poderíamos chegar lá. Nós quatro podería- mos vigiar todos os lados. — No Exército Soviético. um de nós poderia chegar à sua casamata de comando.. Hendricks concordou com um aceno. Elas não poderiam vir sorrateiramente por trás e nos seguir. Ou. — Por algum tempo. — Rudi tomou um gole de café e encheu de novo a xícara com um bule enferrujado.. — Rudi bateu no cinto. — Mas se sairmos. vão pe- gar. — E se elas já estiverem lá? — perguntou Klaus. Rudi encolheu os ombros. zangado. mas não podemos ficar aqui para sempre. Klaus grunhiu alguma coisa. A que distância fica sua casamata de comando. — Estamos com um problema. O ar sufocava com os cheiros de comida e suor. Temos três fuzis. — Cabe a você resolver — disse Klaus. mas tínhamos armas. . eles nos pegam. — Basta disso. — O Estado comunista ideal. Tasso pode ficar com minha pistola. major. Com nós quatro armados. provavelmente. Hendricks começou a andar de um lado para o outro. E então? O que é que vamos fazer agora? Na pequena sala. Preferivelmente. A cortina fechou-se às suas costas. Rudi e Klaus sentaram- se à mesa. — Nós não conhece- mos a situação de vocês. Logo depois. Os outros observavam-no. Não vamos conseguir ir muito longe. nem sempre tínhamos sapatos. Nem há comida nem suprimentos sufi- cientes. com os olhos ainda em Hendricks. estaremos em segurança aqui. Nós quatro. o senhor. — Se sairmos. Tasso afastou a cortina e passou para o outro cômodo.

Você veio com o exército soviético? — Por que quer saber? — Apenas por curiosidade. — O quê? Indolentemente. E fitando-o em silêncio. No outro cômodo. parte da Normandia. e rápido. este lugar era a França. Elas têm que continuar em movimento. Apalpou os bolsos. Entram antes que qualquer um desconfie. Sabem exatamente o que estão fazendo. Cabelos longos espalhados pelo travesseiro. — Não.. Muito boas. — murmurou Hendricks. — Como foi que você veio parar aqui? — Aqui? — Antigamente. na sua opinião. E. os olhos escuros e grandes. Tasso ergueu a vista da cama de lona onde estava deitada. partem para cima como uma nuvem de gafanhotos. Surpresa. — Russa. na casa dos 20 anos. Era jovem. — Entendo. Acabaram. isto aqui.. Esbelta. de que elas já estejam nas linhas americanas? — É difícil saber. ouviram a voz de Tasso: — Major? Hendricks afastou a cortina para um lado. É de discrição e rapidez que elas dependem. Hendricks observou-a atentamente. — Quais as probabilidades. Uma vez que comecem. — O senhor ainda tem cigarros americanos? Hendricks entrou no quarto e sentou-se em um banco de madeira. de frente para ela. . — Que pena. Elas são organizadas. — Qual é a sua nacionalidade? — perguntou Hendricks após um momento. Ela havia tirado o capo- te e o jogado para o chão.

Dezesseis anos. — Major. teria sido diferente — murmurou Tasso. Vai ser difícil viver neste aperto. também. Continuou-o a fitá-lo. sem piscar. Estojo de primeiros socorros. — Me deram — respondeu. Usava calça e camisa do exército russo. — Que tamanho tinha originariamente esta adega? Era maior do que isto? Há outros locais cheios de entulho? . nós quatro aqui. — Você é do exército soviético? — Não. Você veio para cá com dezesseis anos. Para viver dessa maneira. — Nada.. o senhor poderia passar para a outra sala? Estou com sono. — Eu tinha que sobreviver. — Que. Cinza-esverdeados. — Onde arranjou esse uniforme? Ela deu de ombros. Só há mesmo duas salas? — Só. — Sua vida teria sido muito diferente. — Vai ser um problema. se não tivesse havido guerra. os braços atrás da cabeça. — Eu não estou pregando moral. — Tão moça assim? Os olhos dela se estreitaram. — O que é que você quer dizer com isso? Hendricks coçou o queixo. E chutou- a para longe. — Sua vida.. Estendeu as mãos e desabotoou uma das botas. que idade tinha quando veio para aqui? — Dezesseis. Qual é a sua idade? — Dezoito. — No que é que o senhor está pensando? — perguntou ela. Cinto de couro largo com contador de radiação e cartucheira.

. o rosto lívido e brilhando de suor. passando a língua pelos lábios. porém.Poderíamos abrir um deles. a mão segurando com força o cabo da arma. — Que pena. — Tasso afrouxou o cinto. major. E parou. — A outra bota caiu. tinha o rosto duro. se a gente voltar à sua casamata. — Talvez. Sem baixar a arma. de pernas e braços abertos contra a parede. Realmente. cortou-lhe as palavras: — Fique calado. Klaus. Hendricks levantou-se. abaixando os braços. Nenhum dos dois se movia. — O quê. Sua arma. quase inaudível. Pegue sua arma. À frente dele. desabotoando a camisa. — Tem certeza de que não há mais nenhum cigarro? — Eu só tinha um maço. passou pela cortina e entrou na cozinha. mas nenhum som saía dela. Diga a ele para parar com isso. Ajeitou-se confortavelmente na enxerga. Abria e fechava a boca. A voz de Rudi saiu fraca. Klaus.. estatelado. — murmurou Hendricks. — Você vai dormir? — Vou. alucinado. — Boa noite. Venha aqui. ele ficou louco. — Ao meu lado. não sei. pálido e silencioso. — O que é? — Cubra-o. Fixou os olhos em Hendricks. — O que é que está acontecendo? — perguntou Hendricks. — Klaus chamou-o com um gesto. Talvez. A sala caiu na escuridão. Viu Rudi de costas na parede. Tasso estendeu a mão para a corda do interruptor. Klaus respondeu: . rouca. Rudi. Rápido! Rudi moveu-se um pouco. Klaus empurrava a boca da pistola no estômago de Rudi.. — Major.. Virou-se para Hendricks. Virava os olhos de um lado para o outro. Hendricks sacou a pistola. o senhor possa encontrar mais alguns. Suor lhe pingava pelo rosto.

— Nós não sabíamos antes. — Você vai ter que explicar isso. — Alisou nervosamente o cabo da pistola. é isso que devia dizer. — Klaus! O que foi que você fez? Klaus afastou os olhos da forma calcinada. para os restos de Rudi. Mas não a Dois. Ossos. Eu. nenhuma parte. — Nenhuma roda. — Nenhuma roda — disse calmamente Tasso. não antes. — Você o matou. — Os dedos de Klaus apertaram-se em volta do cabo da pistola. Tasso olhou para um ponto atrás dele. Apertou o gatilho. Levantou-se. nós sabemos. parte de um crânio. o rosto subitamente esvaziado de . Será que você não compreende? Outra hora e essa coisa. Nenhuma garra. Os restos eram de um ser humano. Pelo menos. fragmentos calcinados de ossos. O perigo agora é menor. essa aí é a Segunda Variedade. sobre os restos fumegantes no chão. porém. tive certeza. não antes. fragmentos fumegantes e pedaços de pano. Carne queimada. — Nós temos sorte. que escorregava lentamente da parede para o chão. Identi- ficamos todos os três tipos. vísceras. — Ele? A coisa. O rosto endureceu-se. Agora.. nenhum relé. lembra-se de nossa conversa? Sobre as Três Varie- dades? Nós conheciamos a Um e a Três.. Tasso.. — Cruzou os braços sobre o peito.. — Major. — Major. — A Segunda Variedade. Carne. envolvendo Rudi. Ligamentos. — Você tinha certeza? — Tasso empurrou-o para um lado. sangue. Uma explosão de calor branco irrompeu do cano da arma. Pelo menos. Tasso puxou violentamente a cortina para um lado. passou por ele e agachou-se. Hendricks agachou-se ao lado dela. mas não certeza. Klaus sentou-se à mesa. Sangue formando uma poça junto à parede. mas sabemos agora. — Nesta noite. veja por si mesmo. Não é a Segunda Variedade. Eu estava vigilante. Tinha uma sensação. — Major.

— Pensei que ele era uma garra. toda esta coisa. então. Achei que eu... Klaus ergueu rapidamente a vista. — Talvez. Uma boa razão. Achei que tinha certeza. Pôs a cabeça entre as mãos e ficou balançando de um lado para o outro. Ela pen- sa que eu sou a Segunda Variedade. — Sobre o quê? — perguntou — Sobre ele. Havia silêncio. .. — Nós estávamos sentados à mesa.. Que eu sou. — Por quê? — Porque eu o estava vigiando. — Por que fez isso? Por que o matou? — Ele estava com medo — disse Hendricks. — Pare com isso. Será que não entende. Vocês dois estavam na outra sala. o matou? — perguntou Tasso. — O que é.. talvez. crescendo em volta de nós. Parou. — Os dedos de Tasso fecharam-se em vol- ta do ombro de Klaus. Sobre Klaus. — Por quê? — Achei que tinha visto alguma coisa.. Ouvido alguma coisa. então? O que é que você acha? — Acho que ele. teve uma razão para matar Rudi. — Continue. — O senhor pode ver o que ela está tentando dizer. Estava desconfiado. — Eu lhe disse — respondeu cansadamente Klaus. — Tudo isto. Jogando cartas. Hendricks estudou-lhe o rosto vazio.toda cor. ela quer que o senhor acredite que eu o matei propositadamente. major? Agora. — Qual razão? — Rudi talvez tenha descoberto alguma coisa. zunindo. — Por que. Achei que o ouvi.

— Vou subir e experimentar mais uma vez o trans- missor. fuzil em posição. — Ergueu a antena. Eu estava com medo.. — Vou com o senhor e lhe dou uma ajuda... vamos voltar para minhas li- nhas amanhã pela manhã. não? Agora. — Continue a tentar. — Major. Se conseguir falar com eles. Acredito no que ele disse. agora mesmo. — É inútil. fora do túnel. — O senhor acredita nisso? — perguntou Tasso a Hendricks. — Hendricks dirigiu-se para o pé da escada. — Obrigado. Hendricks continuou a tentar. baixou a antena. O ar da noite estava frio. esfriando. Hendricks agachou-se ao lado da boca do túnel. — Eu. não. enchendo os pulmões. Ou ouvem e não querem responder. Finalmente. Nós estamos com medo. Ou. — Hendricks sacudiu a cabeça. gratidão nos olhos. como eu estava. — Tasso tocou o fuzil. Klaus respirou profundamente. Eles não conseguem me ouvir. Pernas firmes e abertas. Conte a eles o que aconteceu. O senhor compreende isso. Klaus fitou-o. Sem sucesso. Se o matarmos. Ele e Hendricks pisaram o chão. — Acredito. — Ou eles não existem mais. — Não. — Vou tentar mais uma vez. ela está com medo. — Nada mais de morte. Caiu um silêncio na sala. encostado num canto da sala. sintonizando o pequeno transmissor. Um já basta. à escuta. — Scott. — Ainda não. Klaus ficou vigilante. você está me ouvindo? Responda! . Ela quer me matar. — Conseguiu? — perguntou logo em seguida Klaus. — Vamos parar com isso. como ele estava. faremos com ele o que ele fez com Rudi. Klaus levantou-se rápido. Acho que ele matou Rudi por um bom motivo.. A terra. num gesto negativo.

Muito baixo. Talvez. falando.. arriando-se no chão. Nenhum dos dois disse coisa nenhuma. Hendricks virou-se para Klaus: — Eles estão bem. — Scott! É você? — Scott falando. — Você recebeu minha mensagem? Está tudo bem aí na casamata? Algum deles conseguiu entrar? — Está tudo bem aqui. — Vocês foram atacados? — Não. Após algum tempo. Ele e Klaus se entreolharam. — É o seu comando? — Scott. — Scott. Ficou na escuta. — Eles tentaram entrar? A voz tornou-se mais fraca: — Não. muito baixinho: — Scott. — Scott! Você está me ouvindo? Silêncio. Quase inaudível. Recebeu minha mensagem? Está me ouvindo? — Estou. Notificou a Base Lunar? Eles. Klaus voltou a falar: . sabem? Foram alertados? Nenhuma resposta. Klaus agachou-se ao lado dele. — O sinal sumiu.. eu mal consigo ouvir você. Os dedos de Hendricks se fecharam em torno do transmissor. Apenas estática. concentração de radiação. Hendricks relaxou. Está me entendendo? Sobre elas. lá. — Hendricks apertou mais o fone contra o ouvido. ouça bem. Hendricks mal conseguia en- tender a palavra. as garras. Em seguida.

— Cedo? — Nossa melhor chance de conseguir passar pelas garras será no começo da manhã — disse Hendricks. . entrando na adega quente. — Neste caso.. estamos simplesmente onde estávamos antes. — A voz parecia com a de um de seus subordinados? Con- seguiu identificar a voz? — A voz estava baixa demais. Vamos descer e pôr a tampa no lugar. Quero acordar cedo amanhã. — E então? — disse finalmente Klaus. Hendricks olhou fixamente para o chão. Quando acabar. Agora. Lentamente. — Temos que ir lá. — Conseguiram? — perguntou. — O que é que o se- nhor acha. aqui só temos comida para algumas se- manas. — Não sei. — Qual é o problema? — perguntou Tasso. — Neste caso. ficando aqui. Klaus aferrolhou a tampa. o rosto sem expressão. major? Era o seu oficial ou uma delas? — Não sei. — Conseguiu falar com a casamata? O que é que está acontecendo? — Talvez tenha sido um de meus soldados — respondeu vagarosamente Hendricks. — Afinal de contas. não tenho certeza.. — Não conseguiu ter certeza? — Não. — Olhou para o relógio. Nenhum dos dois respondeu. Para ter certeza. — Vamos nos deitar e dormir um pouco. desceram a escada. teremos que sair. poderia ter sido. de qualquer maneira. Sério. — É o que parece. Mas nós nunca iremos descobrir. Tasso esperava. — Ou talvez tenha sido uma delas.

— Klaus devolveu o binóculo a Hendricks. O lagarto continuou a correr em alta velocidade pelas cinzas. — Não. — Vamos — disse Hendricks. ando querendo lhe fazer uma pergunta — disse Klaus. Não é bom ficar aqui. — Está vendo alguma coisa? — perguntou Klaus. — Eu sei onde olhar. Klaus colocou-se a seu lado. tomando a iniciativa. — O que foi? — perguntou baixinho Klaus. bem juntos um do outro. — Um lagarto. E era da mesma cor cinzenta. rígidos. — Alguma coisa? — Não. Eles pararam instantaneamente. Vamos. em silêncio. — A pé é uma boa distância. — O que prova que tínhamos razão. pronta para tudo. — Major. — Como foi que o senhor encontrou o David? Aquele que o estava seguindo? — Ao longo do caminho. Chegaram ao pé da elevação e pararam. deslizando na cinza macia. Tasso apareceu à boca do túnel e subiu para a superfície. — Klaus pegou-o e ajustou as lentes. — Adaptação perfeita — comentou Klaus. Um lagarto afastou-se correndo por cima de uma pedra lisa. Através do binóculo. E ficou observando durante longo tempo. O dia amanheceu claro e frio. o major Hendricks examinou o campo em volta. a pistola na mão. Lysenko. — Pode ver nossas casamatas? — De que lado? — Passe o binóculo. — Estão escondidos. olhando em volta. Em umas ruínas. Os três desceram por um dos lados do terreno elevado. quero dizer. — O que foi que ele disse? . Tasso atrás.

Sem ninguém. Tasso veio de trás e postou-se ao lado dele. — Eu vim das casamatas da ONU. Hendricks olhava atentamente para Klaus.. major. amargo. Havia seres humanos por toda parte em volta de mim. Eu gostaria mesmo é de saber como isso vai terminar. Talvez o senhor tenha visto sua chance. Não notei nada incomum. — Klaus pensa que o senhor é a Segunda Variedade — disse calmamente Tasso às costas deles. Onde quer que a encontrassem. Vida humana. — Por que foi que me perguntou isso? No que está pen- sando? — Em nada — respondeu Klaus. — As linhas soviéticas já haviam sido tomadas. — Isso não prova nada. A coisa estava sozinha. Não esqueça disso. — Não muita coisa. Klaus ficou vermelho. — É estranho. projetaram-nas para fazer — disse Tasso. Suas linhas foram invadidas antes que eu deixasse minha casamata de comando. Hendricks soltou um riso. máquinas tão parecidas com gente. — Elas estão fazendo o que vocês. Quase vivas. ianques. — Talvez o senhor tenha descoberto uma oportunidade de penetrar nas linhas soviéticas. — Vocês projetaram-nas para caçar e destruir vida. — Agora. ele está de olho no senhor. que a gente se engana. Talvez o senhor. — Por que não? .. Talvez ele tenha pensado que encontraria aqui algumas boas presas. — Por que não? Enviamos um mensageiro às linhas dos ianques e ele volta. — O senhor não tinha como saber que era uma máquina? Falava como uma pessoa viva? Não desconfiou em nenhum mo- mento? — Não falou muito.

Hendricks adiantou- se devagar. Continuaram a andar. Tasso soltou uma risada. — Parece que é pouca a comunicação entre as variedades. não trabalham juntas. Klaus agachou-se. — Acho que sim. está desconfiado de mim? — Esqueçam isso — ordenou Hendricks. O sol estava se pondo nesse momento. — Eu as vi. eu gostaria que você tivesse estado na casamata quando aconteceu o ataque. estendendo- se em todas as direções. E continuaram a andar em silêncio. . O senhor poderia ter se dirigido para as linhas soviéticas sem nada saber sobre o trabalho das outras va- riedades. — Na verdade. viu muito pouco. Aparentemen- te. não eu — murmu- rou Klaus. É estranho que você tenha sido uma observadora tão perceptiva. — Agora. descansando no chão a coronha do fuzil. Todas elas são produzidas em fábricas diferentes. fazendo um sinal para que Klaus e Tasso ficassem para trás. Vi-as tomando as casamatas soviéticas. — Outra pessoa teria estado com você. — Eu não estou acostumada a andar. até onde a vista podia alcançar. Tasso riu e enfiou as mãos nos bolsos. — Que coisa mais sem graça. — É assim o caminho todo — disse Klaus. — Você sabe muita coisa — disse Klaus. — Por alguma razão. — Como é que você sabe tanto sobre as garras? — pergun- tou Hendricks. — Vamos percorrer todo o caminho a pé? — perguntou Tasso após alguns momentos. Ou mesmo como eram elas. — Olhou em volta para a planície de cinzas. vigiando atentamente a vasta planície de cinzas silenciosas em volta.

— Entregou-lhe o binóculo. Vocês poderão ver o caminho todo. Logo que eu souber com certeza. o senhor não vai conseguir voltar. Klaus chegou rastejando a seu lado. Mas ali. Ne- nhum movimento. Nada se mexia. Cinzas. Nuvens de cin- zas rolavam no céu vespertino. espichando-se todo. Nenhum sinal de vida. — Cale a boca! — disse secamente Klaus. — É bom descansar. Deitou-se de bruços. Provavelmente. O campo em volta da casamata é um campo vivo de garras. A mesma elevação por onde havia subido correndo. Elas se reúnem nas cinzas. — Não estou vendo nada — disse Klaus. Eles trabalham rápido. até a entrada da casamata. sentou-se. A en- trada fica à direita dos tijolos. Junto da pilha de tijolos. Como se fossem caranguejos. ficava a entrada da casamata do posto do comando avançado. Sem produzir som algum. O toco. suspirando. a não mais de 50 metros à frente. — O senhor vai descer até lá sozinho? — Com minha pulseira de compensação.. e assestou o binóculo para o que havia à frente. o caminho todo. — Talvez o senhor tenha razão. estarei seguro.. — Aquela árvore ali. — Eu vou devagar. — Você e Tasso. Tasso encontrou uma laje de concreto e. — Se eles estiverem dentro da casamata. nem tanto. me dêem cobertura daqui. — Vou ter que aceitar sua palavra. no dia anterior. vocês não teriam a menor chance. Sem as pulseiras. Nada viu. A casamata de onde tinha saído na véspera. tinha ainda umas duas horas de luz. apenas. No máximo. O senhor não compre- . Hendricks subiu até o alto da elevação à frente. e uma ou outra árvore. o mensageiro russo. — Onde é? — Ali embaixo. observou-a atentamente.

Converse com elas daqui. — Hendricks fechou a arma. Klaus estendeu a mão. examinando-a cuidado- samente. Para que o senhor possa vê-las. preso ao cinto. não estou. . Elas vêm rapidamente. — Não. Hendricks abriu a culatra da arma. Ergueu no ar o transmissor. Ela subiu rastejando ha- bilmente até o lado da elevação onde os dois estavam sentados. — Você não parece muito otimista — disse Tasso. Na direção da entrada da casamata do posto do comando avançado.endeu isso. Klaus chamou Tasso com um sinal. Centenas delas. Hendricks levantou-se. — O senhor não as viu. Um momento depois. Logo que o vir começar a voltar. — Não desça. — Vamos começar. — Ele vai descer sozinho — explicou Klaus. Hendricks soltou o transmissor. — Eu devia poder descobrir. dirigia-se em passos vagarosos para a pilha de tijolos e escombros ao lado do toco da árvore morta. Surgindo como for- migas. desejem-me sorte. dê um tiro ime- diatamente. até ter certeza. e levantou a antena. o transmissor na outra. — Vamos dar cobertura daqui. segurando-a com uma mão. num sinal de aviso. Nenhum movimento. Começou a descer a elevação. — Talvez as coisas estejam bem por lá. para um alvo atrás dele. ligando-o com um clique. — Muito bem. Faça com que elas se mostrem. — Não sei. Arranje um jeito de elas subirem para a superfí- cie. — Scott? Está me ouvindo? Silêncio. — O que você sugere? Klaus pensou por um momento. sem ter que descer o caminho todo.

segurando com força o transmissor. — Scott! Escute. Continuou a andar para a frente. — Scott falando. Na superfície. Não conseguiu identificá- la. Passou-se algum tempo. Um círculo de garras espera- vam silenciosamente à sua volta. Está captando meu sinal? Esperou. a arma pronta ao lado. Mas. Está me ouvindo? Estou do lado de fora da casamata. Atrás dele. as garras pararam também. Em seguida. com sensores. uma das grandes. Uma segunda apareceu. olhando para dentro da entrada da casamata. Apurou o ouvido. Silêncio e uma estática fraca. — Está me vendo? — Estou. metalicamente. Dirigiu-se para ele. Quase nos degraus de entrada. uma segunda grande garra juntou-se à primeira. Ficou à escuta. o transmissor colado à ore- lha. examinou-o fixamente e em seguida tomou um lugar atrás dele. Do lado de fora. a alguns metros de distância. Ele estava perto nesse instante.. Silenciosamente. daí onde está. Hendricks parou. Nenhum som. mas só silêncio. Frio. Hendricks pensou um pouco. Hendricks. enquanto ele se dirigia para a casamata. Um momento depois. seguindo-o respeitosamente como se fosse um cão. também. Estou na superfície. — Scott! Você está me ouvindo? Estou de pé. Uma garra saiu das cinzas e correu para ele. — Scott! Aqui. Estou aqui. Parou a alguns metros e depois fugiu. bem acima de você. o fone de ouvido era minúsculo. cercando-o. corpos de metal cinzento por toda parte. A voz tinha um som neutro.. à distância. Você deve poder me ver agora. — Está tudo bem na casamata? Aconteceu alguma coisa de . seguiram-no. bem acima de você. — Sim. Só estática. — Pelo periscópio? O periscópio está apontado para mim? — Está.

Em seguida. para longe da casamata. saberiam que ele estava se di- rigindo para a entrada. Dois Davids subiram em sua direção. — Você pode vir até a superfície? Quero vê-lo por um mo- mento. — Desça até aqui embaixo. Em seguida. — Ponha Leone na linha. Quero conversar com você. — Por que descer? Estou lhe dando uma ordem! Silêncio. — Venha até aqui em cima. Hendricks rilhou os dentes. — Eu estou lhe dando uma ordem. um passo após outro. A entrada ficava bem à frente. segurou a arma com ambas as mãos. pôs o pé no primeiro degrau que levava para baixo. Hendricks deu-lhe as costas e correu de volta. Estou na superfície. aqui. Olhou atento em volta. Todos exatamente iguais. aqui. Baixou a antena e prendeu o transmissor no cinto. Ficou escutando a estática. Silêncio. Com todo cuidado. Quero que você venha até aqui. sem expressão. reduzindo-os a partículas. — Desça. — Estou lhe dando a ordem de subir até a superfície. — Desça. — Você está vindo? — Silêncio. na direção da elevação do terreno. — Tomou uma respiração profunda. Disparou. Igual à outra. Hendricks baixou o transmissor. metálica. rostos idênticos. — Leone. fraca. Outros subiram correndo em silêncio. Se podiam vê-lo. Nenhuma resposta. Moveu-se para a frente. . uma voz. Seguiu-se uma longa pausa. À entrada da casamata. Quase a seus pés. uma matilha inteira. — Hendricks.diferente? — Tudo está normal. dura. Fechou os olhos por um momento.

apareceu à entrada da casamata. espantado. Explodiram. Hendricks dirigiu-se para ela. Hendricks. Apontou o atirou. Aquilo parecia um sonho. no meio das partículas. mais outra. — Aqui em cima! Era a voz de Tasso. muitos Davids ocupavam o terreno plano. afastando-se da elevação. ele se abaixou. Atirou novamente. Uma figura gigantesca. Atirou uma vez. De repente. Tasso havia deixado Klaus e descrevia lentamente um círculo para a direita. apontando para a entrada da casamata. Atirou no grupo principal deles. Klaus atirava para baixo. Da elevação. recuando lentamente. Mas ele não tinha tempo de pensar nisso. O ursinho desceu rápido e saltou pelo chão na direção dele. correndo frenetica- mente pelas cinzas. sem nenhuma expressão no pequeno rosto. que- brou a própria imobilidade. Hendricks parou. longe da casamata. pesadona. Um ho- mem. das paredes de um prédio em ruínas. os cabelos escorrendo por cima dos olhos. . No alto da elevação. Os Davids estavam saindo em grupos. oscilando. peças e relês voando em todas as direções. Mais tiros. a coronha do fuzil colada ao rosto. Sorriu alegre. E atirava para um ponto às costas dele. — Major! — gritou Tasso. O soldado explodiu em pedacinhos. A figura imensa movia-se para a frente. O Soldado Ferido. um soldado. correndo. As garras pequenas já partiam como raios na direção de ambos. A Primeira Variedade. Hendricks atirou. Ela estava num lugar alto. Ajoelhou-se. rodas e molas em todas as di- reções. O ursinho e o David dissolveram-se no ar. abrindo os braços. usando a pistola dada por Klaus. com um choque. Um David subiu na direção dele. cercada por uma infinidade de Davids. agachando-se e atirando. Nesse momento. piscando. A encosta da elevação parecia viva enquanto as garras subiam. apoiado em uma muleta. Perneta. es- feras de metal brilhantes em alta velocidade. as magras pernas encaroçadas ba- tendo enquanto subiam os degraus para a superfície. Hendricks continuou a retirada para aquele lugar. alta. Tasso e Klaus atiravam para baixo. agarrados aos seus ursinhos. agachando-se e atirando. em cima de algumas colunas de concreto.

Tasso voltou para junto dele. atirando e recuando. — Feche os olhos e abaixe-se. Tasso continuou a puxá-lo rapidamente. furioso. à procura de garras que tivessem escapado da explosão. — Vamos! Tasso arrastou-o dali. os olhos sérios e brilhantes. Mais Davids apareceram atrás deles. Obscuramente. e continuou rolando e saltando pelo chão até a boca da casamata. ao mesmo tempo que mexia no cinto. Klaus! O que vamos fazer com ele? — Hendricks parou. Klaus lutava com um anel de garras que o cercavam por todos os lados. O braço direito recusava-se a se mover. — Feche os olhos! — Soltou um globo da cintura. Rapida- mente. sa- indo para a planície. Lançou a bomba. rodopiante. — Ele. desatarraxou a tampa. que descreveu um arco no ar. A cabeça doía. curvando-se desajeitado para apanhá-la. Parou ao lado. para longe das colunas. um lança- mento de perito. . ao longo da elevação. Tudo ali em volta girava em torno dele. viu Tasso de pé atrás das colunas. Hendricks levantou-se com um esforço. fazendo-o cair de cara no chão. Tasso explodiu-o com um tiro.. Atrás deles. passou um vento quente. — Klaus.. Ele ainda está lá em cima. — Obrigado. Depressa.. — Vamos. Por cima. Hendricks sacudiu a cabeça. A bomba explodiu. Um dos Soldados Feridos moveu-se na di- reção da bomba. tentando romper o cerco. Mal conseguia ver alguma coisa. num esforço para clarear as idéias. mal seguro sobre as pernas. para trás do concreto. respirando fundo... Tasso puxou-o para trás. prendendo-a no lugar. — Mas. Recuava. Nenhum outro apareceu. atirando lenta e metodicamente nos Davids que saíam das nuvens furiosas de fogo branco.. Dois Soldados Feridos pareciam indecisos ao lado da pilha de tijolos. A concussão lançou Hendricks para trás. Um David saiu das nuvens rolantes de chamas.

Parando de vez em quando. quase caiu. Como se à espera de alguma coisa. — Você o deixou lá de propósito. finalmente.? Tasso interrompeu-o: — Fique calado. . elas desistiram. No lugar de onde tinham vindo apareceu uma figura. — O quê. a arma dela su- biu. — Nós deixamos Klaus para trás. E em seguida. seguindo-lhe o olhar. devagar. Finalmente.. Hendricks sentou-se em um monte de entulho. Espigou-se. Um ou outro tronco de árvore.. continuou a andar na direção deles. deram uma volta e foram embora. Klaus. arquejante. — Vamos! Recuaram. tentando recuperar o equi- líbrio.. estupefato. — O que é? — perguntou Hendricks. cinzas e ruínas. Cami- nhando em passos inseguros na direção deles. Roupa em farra- pos. descansando e recuperando as for- ças. afastando-se cada vez mais da casamata. Hendricks virou-se. Abriu e municiou a arma com um novo carregador de projéteis explosivos. — Podemos parar aqui para recuperar o fôlego. — O que você está es- perando? Há alguma coisa vindo para cá? Sacudiu a cabeça. parou. Uma vez. Durante algum tempo. com todo cuidado. Tasso fechou a arma. o rosto sem expressão.. sem ramos ou folhas. foram seguidos por algumas pequenas garras. Hendricks fitou-a. Subitamente. Tasso permaneceu calada. Examinou os montes de escombros em volta. O que estaria ela fazendo? Pelo que esperava? Não conseguia ver coisa nenhuma. Tasso. Em volta deles. cinzas. Coxeava enquanto andava. Os olhos dela estreitaram-se. Enxugou o pescoço. tentando compreender o que estava acontecendo.

Fechou os olhos. curvando-se e tocando-lhe a testa com a mão fria. Não conseguia pensar. Em seguida. mas fazia chiar um caneco de metal em cima. cada vez mais rápido. tudo era silêncio. Silêncio. devagar. os dentes rilhados. Hendricks permaneceu de costas. ele continuou a andar. balançou-se para a frente e para trás e tombou no chão. a carga explosiva passando por ele. O feixe atingiu Klaus no peito. Mais algumas rodas rolaram para longe. com todos os diabos. Era noite. E escuridão imóvel. Tasso fitava-o. — De modo que ele era a Segunda Variedade — murmurou Hendricks. Por uma escuridão que vinha rolando e envolvendo-o. — Você viu? — perguntou Tasso. — Agora. brilhando através das nuvens de cinzas levadas pelo vento. — Klaus! — Começou a dirigir-se para ele. Ele explodiu. Arquejou. Abriu-os. do outro lado do fogo. No mais. Tasso voltou-se para Hendricks.. — Compreendeu? Hendricks nada respondeu. engre- nagens e rodas voando por toda parte. uma linha de calor causticante. Embotado. Durante um momento. Sacudiu a cabeça. Estava sendo esvaziado de tudo. braços abertos. O fogo era fraco. impassível. Havia feito uma pequena fogueira com alguns pedaços de madeira e folhas secas. — Não faça nenhum esforço para se levantar — disse ela. Mais uma vez. Ela atirou outra vez. O corpo era uma dor só. . Tasso atirou. Hendricks voltou-se para trás.. Hendricks levantou-se. mas agulhadas de dor perfuraram-lhe o braço e o ombro. Tentou sentar- se. Umas poucas estrelas piscavam no alto. você entende por que ele matou Rudi. você. Hendricks sentou-se lentamente. — Como.

Voltou e sentou-se ao lado dele. Vai ficar logo pronto para beber. — Muito útil. major. — Café. — Mesmo? Sabe de uma coisa. Pensei que ele estava com medo. major. — O que me diz delas? Das garras. Grande sorte nossa. Você não deve subestimar nossa tecnologia. — Nós a projetamos. — Estamos em segurança aqui? — perguntou logo em se- guida Hendricks. — Você me impediu. — Estamos. E soltou uma risada. em voz meio alta. — E os Davids. Pensei que poderia estar protegendo-o. — Tasso aproximou-se do fogo para olhar a caneca. Logo em seguida. nem o senhor nem eu existiríamos mais. examinando-o atentamente. depois que ele matou Rudi. — Por que não o destruiu mais cedo? — quis ele saber. — Eu lhe disse.. — Esta é uma bela arma — comentou ela.. — A concussão produzida pela bomba pôs a maioria fora de ação. Por que pensou que ele. — Fabricação soberba. — Eu sempre achei que era. . desconfiei do senhor. Porque não deixou que eu o matasse. também? — Também. aquecendo os pés no calor do fogo. acho. abriu a pistola e começou a desmontar o mecanismo de disparo. — Como foi que você arranjou uma bomba daquelas? — Tasso deu de ombros. Elas são delicadas. Tasso estendeu as pernas. durante algum tem- po. — Fiquei espantada porque o senhor aparentemente não compreendeu nada. Altamente organizadas. Sem uma delas.

— Eu sei. de pé. Hendricks examinou o braço. notou que Tasso. O estômago se revoltou e ele empurrou a caneca. Era difí- cil engolir. — Como está se sentindo? — perguntou Tasso. des- cansando. — Quer saber por que o tirei de lá? Eu poderia tê-lo aban- donado. — O braço está ferido. Lançou-lhe um rápido olhar. major? Se eu não o tivesse pu- xado de lá. — Quer saber de uma coisa. Observou-a. O senhor estaria morto. Tasso bebeu o resto. — O senhor não se abaixou quando a bomba explodiu. As nuvens de cinzas moviam-se no céu escuro. os olhos brilhantes à luz da fogueira. a mente vazia. — Nenhum ser humano pode viver aqui. contínua. Passou-se algum tempo. Quando os reforços deles . Após algum tempo. Todo aquele lado parecia dormente. olhava para ele. — Obrigado. Conseguiu fazer um esforço suficiente para sorver um pouco do líquido. Mas era difícil engolir. — Está se sentindo melhor? — Um pouco. — Obrigado por ter me puxado dali. — O que é? — murmurou. Hendricks nada disse. Não conseguiu mover os dedos. Que lhe trouxe. uma dor surda. — Mais alguma coisa? — Lesões internas. Bem dentro dele. — Fez um grande esforço para beber. — Por que foi que me salvou? — Porque temos que sair daqui. Igualzinho a Rudi. — Isso é tudo que consigo beber agora. Poderia tê-lo deixado lá. olhando tranqüilamente para as chamas. Hendricks continuou ali. — Tasso avivou o fogo com um graveto. enquanto Tasso derramava o café da caneca em uma xícara de metal. eles o teriam pegado. Tasso nada respondeu.

Hendricks não podia ver o rosto dela. — O senhor não pode nos levar para a Base Lunar? — Base Lunar? Como? — Tem que haver alguma maneira. Hendricks ficou pensativo. Hendricks sacudiu a cabeça. Não vejo nenhuma outra alternativa. Pensei nisso enquanto o senhor estava sem sentidos. Já está quase amanhecendo. E daí. um brilho firme. — Como quiser. Baixou a cabeça. — Que você pense que posso nos tirar daqui. tentando concentrar-se. eles nos matarão dentro de três horas. o olhar firme tremeu. virando-se subitamente. — É curioso — disse. esperando e à escuta. A cabeça ainda doía. — Na meia-luz. — Mais café? — Não. Espero que nos tire daqui. — Se não puder nos tirar daqui hoje. Tasso nada disse. — Não. Temos talvez três horas. Levantou-se. Continuava deitado de costas no chão. antes que eles venham. Era difícil pensar. eu estava sentada aqui. — E você espera que eu consiga salvar nós dois? — Isso mesmo. não há nenhuma maneira que eu conheça. finalmente. os olhos dela brilharam.chegarem. — Curioso. major? O que é que o senhor vai fazer? Estive esperando a noite toda. E ainda persistia a sensação de . não teremos nenhuma chance. Eu gostaria de saber por que pensa isso. A noite está quase acabando. Tasso bebeu o café em silêncio. — Por que eu? — Porque não conheço nenhuma outra maneira. Enquanto o senhor estava sem sentidos. Por um momento. imerso em pensamentos.

seus olhos . O sol vai nascer logo.embotamento. — A que distância? Onde está ela? — Estou tentando pensar. — E ele vai nos tirar daqui? Vai nos levar para a Base Lunar? — Suponho que sim. então? — Um sinal. Nenhum símbolo de código. À luz tremeluzente.. — Que tipo de nave? — perguntou ela. É difícil pensar. — A nave está perto daqui? — Tasso aproximou-se dele. Os dedos dela fincaram-se em seu braço. — Perto? — A voz parecia dura como ferro. A bomba. Mas sei que ela existe. Em um armazém subterrâneo fechado. — Que tipo de sinal? Hendricks não respondeu. a voz tornando-se animada. —Hendricks esfregou a testa. de repente. Nenhuma indicação. — Qual é o problema? — Minha cabeça. Em caso de emergência. aga-chando-se. — Um cruzador a foguete. mal consigo me concentrar. Nunca a vi.. — Ahn? — Quanto tempo ainda até o amanhecer? — Duas horas. Mal consigo. — Não. — Onde estaria ela? Num hangar no subsolo? Escondida embaixo da terra? — Isso mesmo. — Talvez haja uma maneira — disse. — Deve haver uma nave perto daqui. — O que há. — Como podemos encontrá-lo? Há algum marcador em código para encontrá-lo? Hendricks concentrou-se.

o tronco nu de uma árvore. montículos de concreto. — Temos mais ou menos . Estava me perguntando al- guma coisa. A manhã estava chegando. Hendricks mexeu-se. eu não consigo pensar. afastou uma pedra e levantou a vista para o céu. — Neste caso.estavam vidrados.. Deixe-me descansar um pouco.. No chão.. as mãos nos bolsos. — Consultou o relógio. Um poço arruinado. — O quê? — repetiu seca- mente. Os dedos de Tasso penetraram fundo em seu braço. — O que é? — Tasso ficou tensa. — Muito bem. A nave está fechada em um armazém. — Um poço. em algum lugar. — Já amanheceu? — Já.. Fechou a mão em volta do cabo da pistola e andou em círculos de um lado para o outro em volta da fogueira. Hendricks permaneceu deitado de costas. campos de cinza estendendo-se em todas as direções. vamos desco- brir um poço. No ar frio e picante. O preto da noite já começava a desbotar para o cinzento. Tasso afastou-se. Com um pontapé. dois globos oculares cegos. Soltou-lhe o braço e levantou-se. uma parede aqui e ali. — Um poço. Cinzas e ruínas de prédios. — Que tipo de sinal? Qual? — Eu. Abriu os olhos. sob um poço. — Tasso relaxou. — Você agora se lembra? — Lembro. os olhos fechados. A paisagem tornou-se visível. o major Hendricks permanecia imóvel. A cor cinzenta subiu cada vez mais alto no céu. uma ave emitiu algu- mas tristes notas musicais. de olhos fechados. — Você queria saber uma coisa. Hendricks conseguiu se erguer um pouco.

sim. torcidas e vergadas. — Vai. — Uma aldeia. — Tome cuidado — disse ele a Tasso. a terra havia afundado. Nesse momento. O senhor acha que podemos encontrá-lo em uma hora? — Me dê uma ajuda — disse Hendricks. — Algumas garras? — Não. muito acima deles. a depressão estava cheia de ervas. algumas colheres e cacos de pratos de porcelana. A terra era plana e estéril. Passaram por algumas ruínas. Tasso enfiou a pistola no coldre e ajudou-o a levantar-se. Ratos correram em todas as direções.uma hora. — Por aqui — murmurou Hendricks. pedaços de concreto e tijolos ainda de pé. No lugar onde estamos agora. escombros e ossos. — Isso vai ser difícil. Tasso deu um salto para trás. estendendo-se cinzenta e morta até onde os olhos podiam alcançar. Entraram numa rua destruída. cautelosa. — Está vendo alguma coisa? — perguntou Hendricks. major. Pontas quebradas de canos projetavam-se do interior. Chegaram a um grande buraco. — Hendricks apertou com força os lábios. . Por uma fundação de cimento. um porão aberto. uma cadeira quebrada. Algumas aves voavam em silêncio. O sol matutino lançava sobre eles um pouco de calor. Deixaram para trás parte de uma casa. uma banheira virada. Toda esta região era produ- tora de vinho. Começaram a andar. Ainda não. — Por este caminho? — À direita. uma chaminé de pedra subia do chão. À direita. — Mas não acho que tenhamos que ir muito longe. descrevendo lentos círculos. entrecruzada por ervas e rachaduras. — Isto aqui era uma cidade pequena — disse Hendricks. No centro da rua. Uma aldeia provinciana.

Hendricks dirigiu-se para ela. Logo depois. Uma estrutura de metal abriu caminho lentamente através da cinza. — E o senhor era esse oficial? — Era. O contador de radiação no cinto clicou agourentamente. Ou era. Algumas tábuas estendiam-se de um lado a outro do poço. Em passos vacilantes. Se a casamata caísse. — Aí está ela — disse Hendricks. a respiração acelerada. encontraram um corpo mumificado. — Hendricks sentou-se à beira do poço. — Isto foi organizado para que o oficial comandante mais graduado pudesse escapar. — Para trás — disse Hendricks. Do outro lado da rua. — Hendricks passou a mão sobre a superfície das pedras do poço. Enxugou o suor do rosto. A amurada de pedra de um poço projetava-se do chão. a de mais ninguém. — A tranca reage à minha retina. É a minha nave. Se alguma coisa acontecesse. Passaram pelos destroços de um tanque de guerra pesado. A maior parte da amurada havia se transformado em escombros. suspensa . — Ali — disse Hendricks. A nave era pequena. em pedaços. — Isso não se pare- ce com coisa nenhuma. Pedras e ervas. empurrando para os lados tijolos e ervas. boca aberta. Uma seção do chão correu para trás. de braços e pernas abertas. A alguns metros do tanque. O tanque havia sido destruído por radiação. ouviram um som de rangido subindo de algum lugar embaixo. Ele e Tasso afastaram-se do poço. — E onde está a nave? Está aqui? — Estamos em cima dela. e cacos de vidro quebrado. — Tenho certeza. Estava pousada e imóvel. meio inclinada. Tasso a seu lado. os dentes rilhados. Houve um clique seco. A ação cessou no momento em que o nariz da nave apareceu. um campo plano. — Tem certeza disso? — perguntou ela.

ela foi construída para transportar uma única pessoa. olhando para dentro da nave. Dentro da nave. como se fosse uma agulha com ponta rombuda. — Entendo — disse ele. puxando-a para trás. — E essa única pessoa é você. Tasso tinha razão. tornaram-se visíveis os painéis de controle e o assento pressurizado. Mudou o ritmo da respiração de Hendricks. Poderá voar em volta dela durante meses e não encontrá-la. Hendricks lançou-lhe um rápido olhar. Sua vida depende disso. Só havia um assento. examinou o interior da nave. Talvez não sobreviva à viagem. major. subiu na estrutura entrelaçada e desatarraxou a escotilha. compreenda. Tasso aproximou-se e parou ao lado dele. — Eu piloto. — Um argumento interessante. Hendricks dirigiu-se para ela. Possivelmente. Mas. Talvez eu não a ache. — Vou ter que me arriscar. lentamente. Com toda aten- ção. eu sei onde fica a Base Lunar. — Por quê? — O senhor não pode ir. — Claro. não chegaria lá. Sem saber o que procurar. sozi- nha. talvez eu possa .. Ela inclinou a cabeça. Ela está muito bem escondida. confirmando.em uma estrutura rendilhada de metal. Mas acho que o senhor vai me dar todas as informações de que vou precisar. A nave havia sido construída para transportar uma úni- ca pessoa. Uma chuva de cinzas caiu na cavidade escura da qual a nave havia sido erguida. — Como? — Se eu encontrar a Base Lunar a tempo. — Pilota? Só há um assento. Não. E você não sabe. — Eu não estou acostumada a pilotar naves impulsionadas a foguete — disse ela após algum tempo.. Pelo que estou vendo. Está ferido.

esquivando-se agilmente para um lado. Tentou aparar o golpe.. tentando clarear os pensamentos. traiu-o. Se não. — Ela curvou-se sobre ele. . o senhor não terá a menor chance. vou encontrar a Base. a informação de que preciso. mas ela foi rápida demais. alguma coisa se moveu. Interrompeu-se. No fim. apontando-lhe a arma para o rosto. Tombou lentamente no chão. Obscuramente. A dura coronha de metal atingiu-lhe a têmpora. — Tenho que correr. Uma dor paralisante percorreu- lhe o corpo. Sua única oportunidade de sobrevivência. O braço ferido. Posso voar com o motor desligado durante semanas. Acho que deve haver suprimentos na nave. Ao longo da encosta. — Rápido! Onde fica a Base Lunar? Como é que eu a encon- tro? O que é que tenho que procurar? Hendricks continuou calado. porém. com a rapidez de um raio. mas o senhor tem que me dar. pouco acima da orelha. — Escute o que vou dizer. E a mão dela subiu. Se eu loca- lizar a Base a tempo. antes de eu partir. A nave está pronta para partir. Tasso abaixou-se. — Major.convencê-los a enviarem uma nave para vir buscá-lo. — Responda! — Sinto muito.. Não há muito tempo de sobra. Eles me sustentarão por tempo suficiente para. Dor e nuvens percorrendo a escuridão... Hendricks moveu-se rapidamente. Hendricks viu a coronha da arma subindo. Hendricks sacudiu a cabeça. Alguma coisa nas cinzas. gemendo. — Major! Acorde! Hendricks abriu os olhos. percebeu Tasso em pé acima dele. a nave está carregada de provisões. chutando-o. E em meia hora o senhor estará morto. ao lado de algumas ruínas que se desfaziam.

no momento certo. Alguma coisa partiu correndo. A nave deixará Terra e entrará no espaço livre. Mas. Ninguém em Terra sabe.Tasso moveu-se rápida. a cratera de Arquimedes. — Você está dizendo a verdade? — Uma estranha expressão surgiu-lhe no rosto. Ela a guiará para a descida com controles magnéticos. O monitor da base gravará seu sinal. Uma baforada de fogo irrompeu da arma. A Base Lunar fica depois do fim dos Apeninos. Hendricks estava desenhando um tosco mapa lunar. — Eu faço isso. — Está vendo? — disse ela. Por si mesma se . — Você volta para me buscar? Você me leva para a Base Lunar? — Eu o levo para a Base Lunar. — Um batedor. Ela atirou mais uma vez. Mas diga onde ela fica! Te- mos muito pouco tempo. Ar e temperatura são automaticamente controlados. quando estiver voando sobre os Apeninos. rolando de um lado a outro das cinzas. a uns 300 km. — Olhe. em rápida sucessão. Atirou. claro. rodas voando. apontando. sinalize com uma luz vermelha e uma verde. A base está sob a superfície. — Muito bem. Tasso observava o movimento da pedra. Não sei exatamente onde. Em pé ao seu lado. — Esta aqui é a cordilheira dos Apeninos. Tudo que você tem que fazer é dar o sinal certo. — Hendricks pegou um pedaço de pedra e sentou-se com esforço. Logo que for possível. Não vai demorar muito. Hendricks ergueu a vista para ela. — A poltrona absorve a maior parte do choque da decolagem. E começou a desenhar nas cinzas. seguida por duas vermelhas. Aqui. — Você os traz de volta para me tirarem daqui? — Trago. Examinou-a atentamente. uma ânsia profunda. A garra explodiu. — E os controles? Posso operá-los? — Os controles são virtualmente automáticos.

esten- dendo a mão. ergueu a arma. major. passando os dedos sobre o metal liso. a cerca de 160 km acima da superfície. Tudo isso posto aqui por sua causa e não vai poder fazer a viagem. A nave libertou-se de sua gaiola de metal. — Deixe comigo a pistola. Vou ficar aqui. — É uma pena que o senhor não vá também. Os braços de proteção fecharam-se automaticamente em torno de seu corpo. A arma ba- teu no chão com um som forte. Curvou-se e levantou-se com ela na mão. Conservou-a na mão. Admiro a perícia de vocês. Constroem coisas excelentes. A órbita a levará a passar por cima da base. as criações de vocês. Hendricks correu para pegá-la. Lutou para levantar-se. — Dê-me a pistola — pediu impaciente Hendricks. Seguiu-se um som atroador. — Não se afaste muito deste local. Tasso pegou a alavanca de decolagem. são suas maiores vitórias. mesmo como estão as coisas. sopesando-a pensativamente. major. entrando em órbita em volta dela. As cavilhas se encaixaram em seus lugares. Vai ser difícil encontrá- lo. A porta interna estava sendo fechada hermeticamente. — Uma bela nave. dispare os foguetes de sinalização. rebotou e rolou para longe. Vocês sempre fazem bom trabalho. major! Tasso jogou a pistola para um lugar além dele. Tasso entrou na nave e acomodou-se no assento pressurizado. Quando chegar à região dos Apeninos.alinhará com a Lua. Com a mão trêmula. fundindo com o calor a estrutura onde havia . — Adeus. O trabalho. Ela mexeu nos controles. Tasso soltou a pistola do cinto. Hendricks voltou naquela direção. Bem construída. — Não se preocupe. A escotilha da nave foi fechada com um estrondo. junto do poço.

Cigarros. Um labirinto de circuitos. desaparecendo no céu. que virou para um lado. Estava ficando quente. virando-a um pouco. parou de andar e sentou-se em cima de alguns escombros. Abriu o kit de primeiros socorros e engoliu algumas cápsulas de analgésico. Em silêncio e imóvel. Hendricks parou. se ela viesse. o sol subia no céu. lembrou-se. rígido. Fios delgados como cabelos. Olhou-o. entrando na gola do uniforme. No lugar onde Tasso liquidou-o com um projétil explosivo. Logo depois. Caíram mais pedaços da fiação. Sentiu a boca seca. Som- briamente. Exa- . Parecia um homem. O lagarto desapareceu. Moscas pousaram numa pedra lisa ao lado. Estirada no chão. No alto. Melhor do que andar em círculos. Com o pé. Viu rodas. Montes de fios. Começou a andar sem caminho certo na direção de onde tinham vindo. Espantou-as com o pé. Onde estava ele? Havia alguma coisa à frente. Curvou-se para a frente. Viu o casco de metal. comutadores e relés. A caixa craniana havia sido es- magada pela queda. Nesse momento. Não demoraria muito até que chegasse ajuda. A Segunda Variedade. Levantou-se e dirigiu-se para lá. porém. Brilhando e reluzindo à luz do sol. Hendricks ficou olhando para o alto durante um longo tem- po. Hendricks encolheu-se. recuando. absolutamente. Um lagarto passou rastejando a seu lado pelas cinzas. Suor escorria por seu rosto.. Tocou a caixa craniana.descansado. Como se fossem vísceras. sacou a arma. até que o próprio rastro de luz desapareceu. Todos eles haviam lhe pedido cigarros. Procurou nos bolsos até achar um maço de cigarros. A nave disparou para as nuvens rolantes de cinzas. pasmado. as costelas de alumínio. Motores e varetas incontáveis. Olhou em volta. eram escassos. Coisa alguma se movia ali. Era visível o cérebro artificial. O que restava de Klaus. A placa com indicação do tipo tornou-se visível.. empurrou a for- ma inerte. acendeu um. relés e partes de metal espalhadas sobre as cinzas. Tubos em miniatura. Rapidamente. no ar frio e silencioso da manhã. as longarinas.

De repente. como a que tinha visto momentos antes. O animalzinho correu pelo chão. E Klaus não era a Segunda Variedade. E. Apontou e atirou. Eles haviam se enganado. E ficou lívido. levantando a arma. Durante longo tempo. Cinto largo. O que era? Forçou a vista. Um terceiro. Vindo em sua direção. andando lado a lado. que o viu e apressou o passo. As outras fizeram o mesmo. muito alto atrás do David. Não apenas três. A figura conhecida. Alguma coisa vinha em sua direção.. sem expressão nas faces. Duas figuras esbeltas. ficou olhando para a placa. andando pelas cinzas. A primeira era um David. calça e camisa do exército russo. Mas. ficou tenso. idênticas. Lutou para controlar o pânico crescente.. Um Soldado Ferido. Suor pin- gou em seus olhos. vindo silenciosamente em sua direção. soltando o ursinho de pelúcia.. talvez. O terceiro continuou a andar em sua direção. Sentada no assento pressurizado da nave. do outro lado da colina. Abraçando os ursinhos de pelúcia. rostos sem expressão. O ursinho desapareceu. Subindo e vindo silenciosamente pelas cinzas. as pernas subindo e descendo. dissolvido na névoa. Hendricks agachou-se rápido. lado a . en- quanto as figuras se aproximavam.minou-a. Muitos mais. Estavam perto. Havia mais tipos. IV-V. Figuras.. Um segundo David. todos iguais. se ele não era a Segunda Variedade. Quarta Variedade. O David curvou-se de repente. Os dois primeiros Davids dissolveram-se em partículas. Automaticamente. abrindo caminho pelas cinzas. os dedos de Hendricks fecharam-se em volta do gatilho. Pelo menos. Três Davids. cabelos longos. Não a Segunda. E atrás do Soldado Ferido vinham duas Tassos. quatro. Os dois Tipos Tasso continuaram a andar. Figuras andando lentamente. silenciosas. E a figura que estava atrás dele.

No momento em que as Tassos estenderam as mãos para ele.. ele tinha acertado sobre a bomba. Quando estavam quase o tocando. A bomba. Fabricada pela Segunda Variedade para destruir as outras. ergueu a arma à altura da cintura e disparou. Feita exclusivamente para esse fim. Afinal de contas. observando-as calmamente. o tipo David e o tipo Soldado Ferido. da Base Lunar. a bomba cuidadosamente presa na posição certa.. A bomba. idênticas. A fila de Tassos aproximou-se. uma fila delas vindo rapidamente em sua direção. sem nenhum contato humano. Projetada por uma das fábricas subterrâneas. Mas um novo grupo já aparecia subindo pelo terreno elevado. o cinto. Sentiu-se um pouco melhor com isso. E o tipo Klaus. As duas Tassos se dissolveram. Projetada com conhecimento dos outros tipos. um último e irônico pensamento lhe ocorreu. Elas já estavam começando a projetar armas para usar umas contra as outras. cinco ou seis Tassos. a camisa grossa. através das cinzas. ela estava a caminho da lua. Hendricks preparou-se. Por sua causa. Não projetada por seres humanos. * * * . Ele havia tornado isso possível. O rosto conhecido. E ele lhe deu a nave e o sinal codificado.lado.

as naves-agulhas. Dez anos é muito tempo. deixando-os como tartarugas indefesas. correndo muito perigo. por todo o caminho até a Terra. Impostor — UM DIA DESSES VOU tirar umas férias — disse Spence Olham no café da manhã. Esta nossa bola de ci- mento não está. Sabe o que gostaria de fazer em minhas férias? Acampar nas montanhas fora da cidade. querendo saber a sua reação. Ela tinha razão. Olhou para a sua mulher. — E nem tentaram descobrir a causa? — Seus lábios se con- torceram. até a bolha de proteção ser demonstrada . Tinham sido combates de um lado só. Olham curvou-se. As pequenas naves escuras de Alpha Centauro tinham-se desviado dos cruzadores da Terra com facilidade. Pensei que soubesse. — E o Projeto? — A guerra vai ser vencida sem mim. — Como pensar em outra coisa? Olham assentiu com a cabeça. Todo o caminho. é claro. a imagem completa surgindo em sua mente. — Olham sentou-se à mesa e acendeu um cigarro. lembra? Encostei em arbusto venenoso e você quase pisou numa cobra. — Trincou os dentes. na verdade. — Sutton Wood? — Mary começou a tirar a mesa. aonde íamos naquele tempo. os outspacers. — Ninguém se importa mais. a guerra. — As máquinas noticio- sas alteram as mensagens para fazer parecer que os outspacers estão bem em cima de nós. Algo como um incêndio relâmpago. — A mata foi queimada algumas semanas atrás. — Acho que mereço um descanso. Só conseguem pensar na guerra.

Tudo o que quero fazer é ter um lon- go descanso. O lugarejo estava silencioso. — Então? — disse Olham. Havia um homem mais velho com Nelson. a des- cobrir mais uma coisa: um armamento para um combate de- finitivo. Mas vencer a guerra era outra história. O dia todo. dedicava-se. — Acha que a guerra é em vão? — disse repentinamente o homem mais velho. finalmente. nenhuma cor. cada projeto. — Espero que Nelson não se atrase. — São quase sete. ano após ano. Mas acho que todos sentem o mesmo. O transpor- te chegaria a qualquer momento. — Ele consultou o reló- gio. Spence. — Como a "Espada de Dâmocles". mas. interminavelmente.pelos Westinghouse Labs. Sempre pendendo sobre nós. Tente não trabalhar depois da hora. Olham abriu a porta do carro e entrou. o planeta. refletindo-se nas pesadas chapas de chumbo. outro asteróide abandonado por razões estratégicas. Envolvendo as principais cidades da Terra e. O seu projeto pessoal. Pegou o paletó no armário e saiu para o pórtico. a primeira resposta legítima aos outspacers — como as novas máquinas os haviam rotulado. — Algumas naves extraterrenas atingidas. olhando por entre a série de casas. — Lá vem o bug — disse Mary. — Você próprio é parte integrante dela. a bolha foi a primeira defesa de verdade. por exemplo. . Olham levantou-se apagando seu cigarro. eu me cansei disso tudo. — Até mais tarde. O sol brilhava atrás dos telhados. — Soube de alguma novidade interessante? — Nada de novo — respondeu Nelson. o pequeno shoot bug veloz que o transportaria ao Projeto. Tudo parece tão sombrio e grave. no mês passado. Talvez seja apenas a propaganda transmitida pelas máquinas de notícias. quando o bug deu partida. dia e noite. — Vai ser bom quando o Projeto estiver no estágio final. Cada laboratório. somente algumas pessoas se movimentavam. Estou ficando cansado. recostando-se no as- sento com um suspiro.

em direção à orla distante do edifício do Projeto.. Considerou as palavras de Peters. Pegue-o. atravessando rápido o solo árido. — Não entendo — murmurou ele. Ele e Nelson trocaram um olhar. — Não. soltou o ar. Embaixo. o Projeto . rígidos e implacáveis de pavor. Abriu a boca para fa- lar. Olham examinou o homem. O meu tra- balho é completamente diferente. mas as palavras não vieram. — Acho que deveríamos matá-lo agora. O bug ganhava velocidade. Sr. Nelson. Por isso acordei tão cedo hoje. A sua cabeça doía e girava. não trabalho para o Projeto — replicou Peters — mas sei alguma coisa sobre o que você está fazendo. — Ver a mim? Por quê? — Estou aqui para detê-lo como espião dos outspacers. — Para a FSA. Não podemos esperar. mas não chegou a nenhuma conclusão. Nesse momento. — Não me lembro de tê-lo visto no Projeto. Olham encarou o rosto do seu amigo. estremeciam com a emoção extravasada. sem vida. — Devemos matá-lo agora? — sussurrou para Peters. dirigindo-se ao espaço. o bug deixou o solo e ascendeu rapidamente. Olham notou e franziu o cenho. Os dois homens o olhavam fixa- mente. As mãos de Nelson estavam tremendo. Olham. — O que você faz? — perguntou Olham. A arma pressionou as costelas de Olham. Inspirou profundamente e.. estou aqui para ver o senhor. — Olham ficou perplexo. — Mesmo? — Olham ergueu o sobrolho. Olham sentiu-se tonto. Olham e Peters apertaram-se as mãos. — Ou não está autorizado a falar sobre isso? — Trabalho para o governo — respondeu Peters. — Há alguma in- filtração inimiga nesta região? — Na verdade. — O que o traz tão cedo? — perguntou. — Este é o major Peters — disse Nelson. o seu rosto estava pálido. depois. o órgão de segurança.

Olham fechou a boca. Se tivesse havido alguma falha. Você fez uma coisa que será lembrada por muito tempo. enquanto o bug atravessava o espaço. — Já vi tudo o que queria. temos de assumir o risco. Estamos navegando na velocidade máxima. — Vou informar a base da Lua de que estão chegando.afastava-se. — Peters balançou a cabeça. — Então. mas não muita.. para onde ele estava sentado. Na tela apareceu o rosto do chefe da segurança.. Olham não disse nada. — Há alguma chance. — Onde você está? — Ainda dentro da bolha protetora. à frente. Por fim. Estão preparando uma menção honrosa a vocês dois. — Nenhuma complicação? — Nenhuma. — Não. — Vai ser um peso a menos para todo mundo. embotado. — Olhou para Olham durante al- gum tempo. esse é o homem. requer uma frase-chave. — A detenção foi feita — disse Peters para a tela de vídeo. — Podemos esperar um pouco — disse Peters. Isso é o bastante. os olhos fixos à frente. — Quero lhe fazer umas perguntas antes. Parece que não estranhou a minha presença. — Um traço tênue de repulsa vincou suas feições. . Fico feliz que os mecanismos de decolagem desta nave es- tivessem em bom funcionamento. — Não é necessário — disse Peters. tornando-se cada vez menor. — Deixe-me vê-lo — disse o chefe de segurança. De qualquer maneira. Olham olhava.. o chefe assentiu com um movimento da cabeça e disse a Peters: — Está bem. — Quanto perigo existe? Ainda há muita chance de. Podemos supor que o período crítico passou. — Aterrissarei fora. Ele olhou diretamente para Olham. Pelo que percebi. Ele entrou no bug sem suspeitar. desaparecendo. as mãos no colo..

segurando a arma. A tela ficou vazia. recebemos um relatório de que uma nave outspace havia penetrado na bolha de . — Quero que conduza a nave du- rante algum tempo. Do seu lado. a sua imagem desapareceu. Não quero arriscar. Olhou em volta da nave. fazendo um movimento com a cabeça. para que eu possa falar com ele. na bochecha. — Como quiser. vai você ser entregue a uma equipe que está nos aguardando. Logo estendeu a mão e o tocou cautelosamente no braço e. vamos aterrissar no lado mais remoto. — Calma — disse Peters. ribombando sob o chão. Não vai sobrar nada de você. embaixo dele. Como? A tela de vídeo? Nelson estava sentado do lado do painel. Olham não disse nada. Seu eu desse um jeito de avisá-la. Tinha sido capturado. as suas peças vão ser espalhadas pela paisagem. — Acho que devíamos agir logo — disse ele. — Dois dias atrás. Olham desviou os olhos para a janela.. encarando-o. Sentou-se do lado de Olham. Não havia nada que pudesse fazer. Estavam com medo e a uma velocidade vertiginosa por causa dele. — Os olhos do chefe faiscaram quando tor- naram a se dirigir a Olham. Nelson mexia-se inquieto. — Pode me dizer. Está entendendo? — consultou o relógio. — Em duas horas. no lado desolado. vou lhe dizer — assentiu Peters.. os propulsores estavam abertos. Você sabe aonde estamos indo. Se eu pudesse avisar Mary.além da base. — Certamente. A nave já atravessara a bolha de proteção. O seu corpo vai ser destruído imediatamente. Peters estava com pressa. não tinha como escapar. — Eu daria qualquer coisa para acabar logo com isso. depois. pensou de novo. Estamos indo na dire- ção da Lua. Olham lutou contra a letargia. Então. Depois. Mas por quê? — Preste atenção — disse Peters — quero lhe fazer algumas perguntas. Em uma hora. aumentando cada vez mais a sua velocidade.

seu trabalho. máquina. — Ouça. Não se lembra de como freqüentamos juntos a universi- dade? — Levantou-se. Ninguém perceberia a diferença. sua vida social.. O robô foi desembarcado da nave provavelmente há oito dias. . partici- pando de suas atividades usuais. O robô viveria a vida da pessoa que ele matou. Olham olhou para Nelson. A nave deixou um espião na forma de um robô humanóide. — Foi até Nelson. — Virou-se para Nelson que estava no controle da nave. — Eu não quero ouvir mais nada. — Mas eu sou Olham. — A de cabelo preto. — Pare! — Nelson balançava a arma freneticamente.. quando Olham saiu para uma caminhada nas montanhas. provavelmente. mas supõe que seja pelo pro- nunciamento de uma determinada frase. — Você e eu fomos para a mesma Univer- sidade. Você o matou! Sua. Peters olhou calmamente para Olham. com raiva. O robô era para destruir um ser humano particular e tomar o seu lugar. Como esse projeto em particular estava se aproximando do estágio crucial. Mas eu sou Olham! — Uma vez o robô tendo localizado e matado Olham. A que conhecemos no apartamento de Ted. realizada na semana passada.. Dividimos o mesmo quarto. a presença de uma bomba animada. O rosto de Olham tornou-se branco como cal.proteção. O nosso agente não sabe como a bomba é detonada. A substituição foi. — Fique longe de mim! — disse Nelson. — Dentro do robô. — Não me reconhece? Você me conhece há 20 anos. um oficial de alta patente em um dos Projetos. Olham baixou o olhar para as suas mãos. movendo-se em direção ao centro do Projeto. — A pessoa que o robô deveria incorporar era Spence Olham. havia uma Bomba-U. um determinado grupo de ações.. era só uma questão de assumir a sua vida. Lembra-se do nosso segundo ano? Lembra-se da- quela garota? Como era mesmo o nome dela? — Coçou a testa. Ele foi construído para se assemelhar a essa pessoa.

Dentro do robô haveria uma Bomba-U. Em alguns minutos. É por isso que o estamos levando à Lua. Ele se tornaria Olham na mente e no corpo. uma espécie de edifício. Raios X. — Deve haver uma maneira de provar isso. — Essa é a única diferença. — Já estamos chegando — disse Nelson. ele via um ponto minúsculo. Quando não encontrassem nenhuma bomba. um exame neurológico. ele estaria morto. Tocou-se. — Você está enganado. a equipe da demolição. passando a mão pelo corpo. mas não terá importância. de falsas recordações. pensando freneticamente. — Eu sou Olham. esperando para fazê-lo em pedaços. Havia homens no edifício. Eu sou o mesmo que sempre fui. enquanto a nave reduzia a altitude lentamente. pensamentos. Mas não te- nho como provar. Leve-me de vol- ta à Terra. o desmembrariam. O que podia fazer? O que o salvaria? — Prepare-se — disse Peters. — Mas haveria uma única diferença. Olham sentou-se devagar. — Peters afastou-se um pouco. teria as mesmas re- cordações. qualquer coisa assim vai mostrar a vocês. — O robô — disse Peters — não teria consciência de que não era o Spence Olham verdadeiro. pronta para explodir à frase detonadora. a extensão infinita de ruínas. — Eu sei que sou. Pode ser que venha a explodir. Não sei o que aconteceu. . interesses. Alguma coisa deve ter dado errado. Não foi feita nenhuma transferência. — Virou-se para Peters. Ou talvez possamos procurar a nave aciden- tada. Eles o desmontarão e remove- rão a bomba. não lá. Debaixo deles estava a superfície escavada da Lua. Eu sei que sou. Talvez um acidente com a nave. arrancariam seus braços e pernas. — Eu sou Olham — repetiu. Ele se pareceria com ele. Recostou-se. Eles o rasgariam. mas o robô nunca chegou a mim. Recebeu um sistema de memória artificial. executaria o seu trabalho. Lá embaixo. Nem Peters nem Nelson falaram.

Era a única saída. — Lá está o esquadrão — Nelson apontou.ficariam surpresos. figuras rígidas. a porta se abriria. Tragam-no aqui. — Ouça — disse Olham com a voz embargada. Chamem um médico.. depressa. ele não tinha nenhuma chance. aguardando. Nelson continua- va segurando a arma. Olham observou-o.. — Robôs provavelmen- te não precisam de oxigênio. Se conseguisse chegar a um médico. falar com ela de alguma maneira. Vestiu a roupa pressurizada. Ficariam sabendo. Se pudesse contatá-la. mas seria tarde demais. restava-lhe pouco tempo. Houve silêncio. — Vai vigiá-lo um momento. O grupo de homens tinha quase chegado à nave. Peters fez um sinal para eles. estarei morto. desajeitadamente. o ar na . cho- cando-se com o solo áspero. Ali. Pensou freneticamente. E estendeu os braços para a maçaneta. Será assassinato. — Vamos sair daqui em um instante. a sua mente correndo. — Relanceou os olhos nervosamente para Olham. Viu a mão do homem fechar-se em volta da manivela de metal. Mary o ajudaria. — Abra a porta — disse Nelson. — Venham! — Acenou com a mão e os homens se aproxi- maram cautelosamente. se conseguisse ser examinado. — Posso pro- var que sou Spence Olham. — Se abrir a porta. Nelson vestiu sua roupa pressurizada. — Vai precisar? — Não. — Estão chegan- do. — Vamos partir antes que comecem a trabalhar — disse Peters. A nave desceu lentamente. Olham olhou em volta da pequena cabine.. Somente alguns minutos. — Peters balançou a cabeça. grotescas em suas rou- pas infladas. Quando terminou. Em um instante. — Espero que não aconteça nada.. Detiveram-se. pegou a arma de Nelson. — Devagar — disse Peters. — E ele? — Indicou Olham.

o braço subitamente rígido. derramando-se no vazio. Abram. Mas tinha de viver. seus de- dos se contorceram. Ele morreria. Nelson havia sido seu amigo durante anos. todos estavam dispostos a sacrificar o indivíduo por causa do medo do grupo. Quando homens com qualquer manchinha deveriam ter sido mortos também. — Vão em frente. O som de sua voz sur- preendeu-o. não havia outro jeito. Todo mundo estava assustado. Olham pensou rapidamente. Nesse aspecto. — Você tem razão — disse Olham. Não faz diferença. 14 segundos. quando não houvesse guerra. a culpa não era dele. correram a abrir a porta. Em tempo de perigo. Ele não os culpava. Agarrou a porta e fechou-a. somente com base na suspeita. Agora. Haviam estudado juntos. — Correr? — Têm 15 segundos de vida. então. Então. os homens não agissem assim. Ele seria morto porque não podiam esperar para se certificarem de sua culpa. vocês erraram. Nelson ia matá-lo. O ar ganiu. Era a força do desespero. sem a menor hesitação. Talvez tivesse sido igual durante as pestes. Mas Nelson não era mau. Talvez em outro tempo. e. Peters e Nelson saíram às pressas da nave. Ele tinha sido o padrinho de seu casamento. sem prova. Não havia tempo. A sua vida era preciosa demais para ser sacrificada. alarmados. — Dentro do paletó. Olham foi atrás deles. apressando a morte de um indivíduo porque tinham medo. — Não preciso de ar. — Enganaram-se em relação à frase detonadora. Abra a porta. — Eu me pergunto até onde vocês dois podem correr. olhando para ele. Ele relaxou. Agora. — Vamos — disse Nelson. perceberiam seu erro. Eram os tempos. O que poderia fazer? Haveria alguma coisa a ser feita? Olhou em volta. sor- rindo um pouco. — A mão de Olham desapareceu dentro do paletó. As duas faces em choque olharam fixo para ele de suas rou- pas pressurizadas. Eles pararam. O siste- .nave escaparia. Ele olhou para Nelson.

— Mas. A mulher olhou-o.. Soltou um suspiro de alívio. Pôs os mostradores no lugar. Olham sentou-se diante do painel de controle. Faça com que ele esteja pronto em uma hora. consiga qualquer outro médico. — Tudo bem. Eu vejo você em casa em uma hora. Conduziu a nave pela mesma rota pela qual tinha vindo. Além da janela. os dois homens tinham se juntado ao grupo. Depressa. os homens embaixo levantaram-se desordenadamente e olharam para cima. Chamberlain. Invente algum pretexto para levar Chamberlain para casa. tudo. perturbando a escuridão fria. a ligação se completou sem problemas. E não conte nada a ninguém. os grilos cricrilavam.ma automático de pressurização emitiu ruídos de descarga. Ouça. . Se ele não estiver lá. res- taurando o ar. — Mary — disse ele. Vá ao Projeto e chame o Dr. Ela arfava. Consiga que leve equipamento para exames: raios X. — Olham inclinou-se para a tela. — Faça o que eu digo. Spence. — Spence! Onde você está? O que aconteceu? — Não posso lhe dizer. não estou entendendo. as bocas abertas. Era noite. fluoroscópio. Um por um. Mais um segundo. — Desculpem — murmurou Olham — mas tenho de retornar à Terra. Quando a nave decolou. A imagem formou-se gradativamente. — Está tudo bem? Está sozinha? — Sozinha? — Tem alguém com você? Nelson ou outra pessoa qualquer entrou em contato com você? — Não.. Olham respirou com um tremor. Em volta da nave. Olham inclinou-se sobre a tela de vídeo. O grupo dispersou-se.. correndo em todas as direções. Diga que está muito doente.. Eles podem interromper a ligação a qualquer minuto. jogaram-se de bruços no solo. Leve-o para casa e o mantenha aí. tenho de falar rápido.

Na rua. mas não tinham tempo para o teste mais simples. Se pudesse ser examinado. fez uma pausa. morrer imediatamente. sem provas. Poderia vencer a histeria. deixou a nave.. Teria de caminhar meia milha. À porta. Não se ouvia nenhum som. Olham olhou para a casa. Chegou ao pórtico. Ele interrompeu a conexão e consultou o relógio. Se pelo menos esperassem. havia uma chance. de tipo nenhum. agissem devagar. Talvez ele estivesse se dirigindo a uma cilada. Havia se passado quase uma hora. Loucura. O médico já devia ter chegado. Uma luz na janela. Ele saberia. a luz do estúdio. Era o médico da equipe do Projeto.. Era isso. a loucura. Provavelmente era a única maneira de fazê-lo. Observou a luz. nenhum movimento. Levantou-se e dirigiu-se à casa. Ainda nenhum som. A sua única esperança estava dentro de casa. radiografia e relatórios. Por que motivo? Era uma casa . Eles só conseguiam pensar no perigo. ajoelhando-se contra a cerca. Olham permaneceu no pórtico. apareceu um shoot bug. e nada mais. Quieta demais. se conseguisse permanecer vivo tempo suficiente para o examinarem. Mas não conseguiam esperar. descendo para o escuro. a sua palavra a respeito teria importância. Ele poderia provar. com calma. O teste mais simples diria. uma chance de provar. Ele tinha de morrer. escutando. esperando com Mary. sem nenhum tipo de julgamento ou exame. Ergueu o relógio e o consultou à luz das estrelas. com fatos. sem se mover. A casa estava absolutamente quieta. Tentavam fi- car em silêncio dentro da casa. Não parou. Pôs-se a andar. Um mo- mento depois. Um pensamento ocorreu-lhe. Perigo. O Dr. Teria ela conseguido sair de casa? Talvez a tivessem interceptado. Devia estar lá dentro. Chamberlain era um homem respeitado. Porém o que mais podia fazer? Com o registro médico.

de súbito. Assim que viu seu rosto. O rosto dela — ele tinha percebido na hora. — Venha cá. Provavelmente ela acreditava no que tinham contado. eles não eram tão bons em correr. Mas ele não escutava nada. O povoado ficava atrás dele. Peters surgiu. Abaixou-se e atravessou um quintal. aberto a porta e entrado? Eles deviam ter interceptado a ligação e ido imediatamente. O mato foi remexi- do com violência. A campainha ressoou em algum lugar nos fundos da casa. Atravessou um campo árido e entrou no bosque. — Eu sei que está aí. nenhum som de vozes. Pôs a mão na maçaneta. Olham correu sem parar. Já conseguia ver a nave. seu raio de luz passou por ele. o olhar aterrorizado. Olham parou. Quando se encaminhava para a nave. Olham moveu-se furtivamente para o lado da casa. Olham. Está cercado por homens da segurança. Toda manhã e toda noite. Os lábios cerra- dos. Peters olhou em volta. assim que ele desligara. tocou a campai- nha. Levantou-se rapidamente e correu. Uma lanterna foi acesa. o seu peito arfando. Escalou uma colina e desceu pela outra vertente. estaria de volta à nave. Atrás dele. onde a pousara. Estava deixando os oficiais bem para trás. ela também achava que ele era o robô. Olhou a porta. Mas iria para onde. Chamberlain estariam a apenas alguns pés além da porta. estava nos arredores da região erma entre os lugares habitados. sua figura contra a luz. Olham sorriu. Mary e o Dr. rígido. a porta se abriu. ele soube. Um oficial da segurança em- purrou Mary para o lado e passou às pressas. Mary abriu a porta. onde começava a floresta e a desolação. Escutou movimento. Ele atravessou a estrada e comprimiu-se contra uma cerca.pequena. ofici- as da segurança. Em seus braços uma pesada arma Boris. gritavam uns para os outros. penetrando nas trevas. os homens. Era uma porta que ele tinha aberto e fechado milhares de vezes. nada. . E se ele tivesse ido em frente. Correu. Em um instante. Aparentemente. Olham estava sem fôlego. infeliz. delineada contra o céu. na escuridão. Sem dúvida. Então. em algum lugar — disse ele. e se lançou no mato. desta vez? Correu mais devagar até parar.

Dei ordens a todos os ofi- ciais da segurança disponíveis na área. Você é o robô. Você tem aproximadamente seis horas antes de a busca ser concluída. Parece que você ainda não acredita que é um robô. atravessando sorrateiramente a floresta. avaliada. por outra pessoa. a nave havia caído e se fragmentado. — Mas você é o robô. comprimindo-o em um espaço cada vez menor. a mulher. nos arredores onde começava a floresta. O condado está sendo esquadrinhado minuciosamente. Peters continuou falando. Não há para onde você ir. os restos do robô. Poderia se esconder por um tempo. O que restava? Tinha perdido a nave. a sua única esperança de escapar. Olham caminhou em silêncio pela floresta. Entende? Olham não disse nada. Quando isso acontecer. Estava escuro demais para se ver alguém. cada parte do condado estava sendo medida. Homens se movi- am na sua direção. mas acabaria sendo pego. Em algum lugar havia uma nave-agulha destroçada e. Olham afastou-se. Estava fora do povoado. É só uma questão de tempo. — Se você não aparecer. — Ouça. Era só uma questão de tempo. e teremos de correr o risco de a bomba detonar. A qualquer momento a frase detonadora pode ser proferida por você. Mas Peters tinha razão. por qualquer um. sem dúvida. ele não o tinha visto. Não havia aonde ir. e dentro de você está a bomba. que o verdadeiro Olham tinha sido morto. perscrutada. O cinturão continuava a se apertar. nós vamos pegá-lo de qualquer jeito. Será destruído na mira. A sua ligação para a sua mulher indica que ainda está com a ilusão criada por suas recordações artificiais. Estava escutando. nela. a sua mulher estava do lado deles acreditando. Em volta desta floresta há um cinturão de homens armados. O Projeto. . Cerrou os punhos. Em algum lugar perto dali. Olham não se moveu. todos nós vamos morrer. examinada. a bomba destruirá tudo num raio de quilômetro. Nós vamos pegar você logo. Eles estavam em sua casa. cada centímetro. Não temos mais a intenção de removê-lo para a base da Lua. Quilômetro após quilômetro.

Ele sorriu. espalhada pela clareira e tocos chamuscados que antes tinham sido Sutton Wood. faiscando sombriamente. Uma esperança remota instigou-o. Retesou os músculos. Uma nave não familiarizada com a floresta tinha poucas chances de descer sem colidir com ele.. E se encontrasse os destroços? Se pudesse mostrar-lhes o acidente. falando baixo. ou o que restava dela. A luz do sol filtrava-se através das árvores esparsas. ele não . os olhos para cima. somente a alguns minutos. de vez em quando. o robô deveria fazer o resto do trajeto a pé. Olham sorriu. a uma dis- tância que poderia ser percorrida a pé. Podia escutá-los a uma pequena distân- cia. Destroçada e incendiada. Ele conhecia bem Sutton Wood. escu- tando. os restos da nave. refletindo-se no homem agachado à beira da clareira. algum vestígio? Tinha lido algo. E o robô estava dentro. perdido em pensamentos. cintilava um pouco. o robô. chegando juntos. Acelerou o passo. um local remoto onde não haveria ninguém. Olham relanceava. Era de manhã. Eles não estavam longe. havia escalado suas montanhas várias vezes. À luz do sol. Destruída e incendiada. Em algum lugar. A nave teria pousado perto do Projeto. Havia um cume que se projetava inesperadamente. Su- biu a vertente de uma colina e olhou em volta. Olham levantou-se. Tudo dependia de quem o veria primeiro. Abaixo.. Agachou-se e olhou a nave. Algum lugar ermo. destruído. sem aviso. Sutton Wood. estava uma massa confusa de destroços. Não tinha tido muita dificuldade em encontrá-la. provavelmente não muito distante. quando era mais jovem. Mas onde? Onde a descobriria? Continuou andando. escutado falar de alguma coisa? Algum lugar perto. Havia alguma pista. Ele sabia onde encontrar os destroços. Se fosse Nelson. De repente.

Se a bomba detonar. A nave. A arma vacilou. — Encontrei-o! — gritou Peters. Só restavam alguns segun- dos. — Só um minuto. a nave-agulha. Um galho chamuscado estalou. Peters ergueu a arma e mirou. Era tudo o que precisava. até o outro lado da clareira. A mata queimada.. — Fez um sinal para dois homens. talvez os últimos de sua vida.. Ninguém atire. estaria seguro. — O chefe sou eu. — Desçam e vejam o que é aquilo. Olham prendeu a respiração. Olham respirou fundo. Ele estaria morto antes que vissem a nave. — Examinem aquilo. Os homens da segurança chegaram. pode olhar? — Há alguma coisa lá embaixo — um dos homens disse ner- vosamente. Os homens desceram correndo o declive. — Não atirem. Sorriu ligeiramente. mexendo nos destroços da nave. — Então? — gritou Peters. — Esperem. Tinha de . determinado. — Não atire! — Sua voz tremeu.. Se vissem a nave.. Mas se atirassem primeiro. Uma figura surgiu. acreditam em mim. — Peters avançou na direção da vertente. Olhou para baixo.. — Ele matou Olham. Era Peters. avançan- do insegura. A qualquer minuto pode matar todos nós. Talvez ele esteja dizendo a verdade. Levantou os braços. olhando intencionalmente. Agora. Curvaram-se. da floresta incendiada à sua volta. Olhe para o outro lado da clareira. Nelson atiraria imediatamente. de detê-los por um instante. Olhem. — Atirem nele! — disse uma voz. — Eu sabia que a encontraria ali. em grande número. Mas se tivesse tempo de gritar. — Mate-o — disse Nelson. — Peters! — Acenou com os braços. Era Nelson. Olhem! — Peters hesitou. — Está lá embaixo — Olham disse rapidamente. — Peters virou-se. Olhe.teria nenhuma chance.. — Cale a boca. Encontrarão os restos do robô na nave.

Os dois homens ficaram em pé. Há al- guma coisa do lado. com certeza. curvado e contorcido de maneira estranha. — Antes que ele nos mate. Eles arrasta- vam os destroços grotescos da nave. — Há alguma coisa aí? — Parece que sim. os . — Veja isso! Olham foi com eles. A boca estava aberta.estar lá. — Mate-o — disse Nelson. — O robô nunca me alcançou — disse Olham. É uma nave-agulha. os braços e pernas puxados em todas as direções. querendo ver. não tinha tido tempo de ver por si mesmo. E se o robô tivesse vivi- do o suficiente para se afastar dali? E se o corpo estivesse completamente destruído. Olham observou-o descer a colina e ir até os homens. O corpo estava rígido. — O que descobriram? — perguntou Peters. havia uma forma grotesca. a dúvida assaltou-o. — Peters passou por Olham. transformado em cinzas pelo fogo? Lambeu os lábios. Os outros o segui- ram. Tirou um cigarro do bolso e acendeu-o. Vocês todos estavam preocupados demais com a guerra para investigar por que uma floresta remota se incendiaria de repente. No solo. vidrados. Parecia humana. — Como uma máquina que parasse — murmurou Peters. De repente. Agora. exceto que estava arqueada de modo tão estranho. — Foi destruído quando a nave caiu. — Então? — disse ele. Você estava dizendo a verdade o tempo todo. sabem. Peters olhou para ele. Formaram um círculo ao redor. a face lívida. Mantinha a arma firme. — Olham sorriu discretamente. os olhos. — Não consigo acreditar. observando os homens. — Vou dar uma olhada. Seu peito subia e descia. olhando para baixo. Permaneceu fumando. Sua fronte começou a transpirar. um tipo de corpo — disse Peters. mas tinha de estar lá. Nelson não tirava os olhos dele. — É um corpo.

— Que tal umas férias? — disse Peters. . — Acho que deve- mos lhe dar umas férias. Dentro do rasgão no peito dilacerado brilhava alguma coisa. tocan- do o corpo. — O que está fazendo? — gritou Olham. agarrou o metal. — É claro que eu sabia que o robô não tinha me alcançado. enfian- do a mão no peito do cadáver. se tivesse vivido — disse Peters. Os homens olharam fixamente o metal sem falar. uma agulha outspacer. — Estendeu o braço. relaxar. encontrarão a bomba — disse Olham. — Acho que. — Está bem — disse Peters. — Deve ter sido um pesadelo para você. Peters curvou-se. De repente.braços e pernas rígidos. neste exato momento. Nelson levantou-se. Mas não tinha como provar isso. Nelson não disse nada. algum metal. — Essa caixa de metal ali. do lado cadáver. Os homens deitaram o corpo no solo. teríamos. O peito do cadáver havia sido aberto. Às vezes é impossível provar alguma coisa imediatamente. Não havia como eu demonstrar que eu era eu mesmo. — Agora. Segurava o objeto de metal. — Acho que estamos em dívida com você — disse Peters a Olham. Se não tivesse escapado.. Estendeu a mão e tocou o reflexo brilhante do metal. Nelson agachara-se. É me- lhor deixar que o pessoal da demolição trate disso mais tarde. — Não toque — disse Olham. Fez-se silêncio. Puxou. — Interrompeu-se. Poderia descansar. — Acho que vi uma ponta dela. — Ainda pode detonar. Olham apagou seu cigarro.. O seu rosto estava lívido de terror. Esse foi o problema. Era uma faca de metal. — Como quiser. quero ir para casa — disse Olham. coberta de sangue. — Isso teria destruído todos nós. visível dentro do peito.

estava tudo girando. A sua mente girou. — Isso não pode ser Olham — disse ele. então eu devo ser. — Estou enganado? Parou perplexo. Mas não completou o pensamento. — Matou-o com isso e deixou-o do lado da nave. Olham tremia. somente a primeira frase. — Mas se esse é Olham. — Olhou para Olham. Olhou da faca para o corpo. A explosão foi ouvida até em Alpha Centauro.. — Isso matou-o — sussurrou Nelson.. — O meu amigo foi morto com isso. Seus dentes batiam. F I M .