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ANTIGO TESTAMENTO Desembaraçando Fios

Efraim Sanches Pereira

Lins, abril de 2001.

SUMÁRIO

BUSCANDO O FIO DA MEADA

05

O

ANTIGO TESTAMENTO

07

I

- BREVE INTRODUÇÃO GERAL

07

1.

Língua

07

2.

Cânon

07

3.

A Transmissão do Texto

07

4.

Hipótese Documental

08

5.

Os Documentos J, E, D, P

09

6.

Os Nomes de Deus

11

7.

Gêneros Literários do A.T

11

O

RITO

21

I

- O PENTATEUCO

21

1.

Gênesis

21

2.

Êxodo

22

3.

Levítico

23

4.

Números

23

5.

Deuteronômio

23

II

- OS ESCRITOS

23

1.

Cânticos

24

1.1. Salmos

24

1.2. Cântico dos Cânticos

25

1.3. Lamentações

25

2.

Sapienciais

25

2.1.

26

.2. Provérbios

26

 

2.3.

Eclesiástes

27

2.4.

Ester

27

AS

NARRATIVAS

28

I

- O ISRAEL PRÉ-MONÁRQUICO

28

1.

O Livro de Josué

28

2.

O Livro dos Juízes

29

3.

O Livro de Rute

30

4.

Os Livros de 1 e 2 Samuel

30

II

- A MONARQUIA EM ISRAEL

31

1.

O Período de Saul (1 Sm 10-31)

31

2.

Davi: A Instituição do Estado (2 Sm)

32

3.

O Reinado de Salomão (1 Rs 1-11)

33

III

- A SEPARAÇÃO DO REINO DE ISRAEL (1 Rs 12 - 2 Rs 25).35

2

Israel, Reino do Norte

35

2.

Judá, Reino do Sul

38

IV

- O RETORNO DOS EXILADOS NA BABILÔNIA

43

1.

O Período Persa (Cr,Es,Ne)

43

2.

O Período Helênico (1-2 Macabeus)

44

A

PROFECIA

47

I - PROFETAS PRÉ-EXÍLICOS

49

1.

Amós

49

2.

Oséias

50

3.

Isaías

51

4.

Miquéias

52

5.

Naum

53

6.

Sofonias

53

7.

Habacuque

54

8.

Jeremias

55

9.

Joel

56

II

- OS PROFETAS EXÍLICOS

56

1.

Ezequiel

57

2.

Obadias

58

3.

Deutero-Isaías

58

III

- OS PROFETAS PÓS-EXÍLICOS

59

1.

Ageu

60

2.

Zacarias

60

3.

Trito-Isaías

61

4.

Malaquias

61

5.

Jonas

62

IV

- A

62

1.

Daniel

64

V

- Sintetizando

64

BIBLIOGRAFIA

65

3

BUSCANDO O FIO DA MEADA

porque “

nunca jamais qualquer

profecia foi dada por vontade humana 2 Pe 1.21

Todo conhecimento humano provém de observação e pesquisa. Mas nenhuma ciência,

por

mais sofisticada que seja, existe por si mesma. Ela produz o saber, satisfazendo os pressupostos

de

quem a utiliza como instrumental.

Estudar a Bíblia não é diferente, pois se trata de exercitar um saber e, conseqüentemente, também possui seu pressuposto que, no caso, está explicitado no verso acima. Abordamos o texto sagrado, aceitando-o como a expressão da vontade de Deus para o homem e Sua Revelação! A Bíblia é o instrumento que nos capacita ao compromisso e à prática da vontade divina, com vistas à Construção do Reino de Deus.

Ao analisar o Antigo Testamento, necessitamos delimitar o campo de pesquisa. Se desejamos fazer teologia, é preciso compreender o agir de Javé na vida do povo de Israel.

Pode ser, no entanto, que a nossa abordagem seja no sentido de conhecer os limites, a veracidade e a antigüidade dos documentos que registram o agir de Javé: então, devemos estudar a Introdução ao Texto Bíblico, para aprender sobre datas, testemunhos e como foi sua transmissão na sociedade israelita.

Como, porém, deram-se essas relações e como se desenvolveu a comunidade israelita antiga? Qual foi o processo evolutivo desse grupo, suas origens e sua influência na formação das sociedades do Oriente Médio? Responder esta pergunta nos leva a estudar a História de Israel, sua religião, e a história de seus vizinhos, próximos ou remotos.

Usufruir da riqueza que a Bíblia possui requer uma postura abrangente que além de uma visão piedosa e devocional inclui, de forma decisiva, a necessidade de um aprofundamento das

perguntas ao texto, sem medo de que as respostas venham modificar ou reformular conceitos estabelecidos, muitos dos quais até sem a devida fundamentação. Esse é um dever de todo cristão, pois que só dessa forma somos edificados e a Palavra se transforma em vida, realizando

de maneira mística a comunhão com Deus, sempre acompanhada de orações e meditações.

Nosso trabalho deseja repartir aquilo que já se pesquisou e que hoje constitui um patrimônio vasto que inclui análise de manuscritos, artefatos arqueológicos, documentos históricos, personagens e tantas outras coisas que nos ajudam a “dar razão de nossa fé”.

Partindo do fato de que o texto já existe, que vem sendo utilizado pela história afora e

que nossa motivação para estudá-lo é mais no sentido de buscar subsídio para educar, quer adultos sedentos de conhecimento quer crianças e adolescentes, como abordaríamos conteúdo

tão

vasto e tão intrincado como este que nos propomos a estudar?

Para responder esse questionamento, nos propusemos a buscar uma forma diferente

de

XV

ler o Antigo Testamento. Nossa preocupação nasceu a partir do convite para participar da

SAT - Semana de Atualização Teológica, promovida pelo CEBEP (Centro Evangélico

4

Brasileiro de Estudos Pastorais), no período de 27 a 30 de julho de 1995, trabalhando o tema:

Agentes Educadores na Bíblia”.

Foi a partir da solicitação do Seminário da 5.ª Região Eclesiástica “Bispo Scilla Franco”, na pessoa do seu diretor Rev. Oswaldo José de Souza, de um trabalho sobre o Antigo Testamento que pudesse ser utilizado no CEL (Curso Especial para Leigos) que resolvemos desenvolver o tema abordado por nós, na XV SAT.

Diante da premissa de que o Antigo Testamento é uma realidade acabada, nos dispusemos

a transformá-lo em conteúdo pedagógico, dividindo-o em três partes: (1) O que convencionei

chamar de Rito (as celebrações, ordenanças, rituais, regras de conduta e de purificação, ensinos sapienciais, princípios litúrgicos, hinos, discussões filosóficas) que se comporia do Pentateuco e dos Livros Sapienciais; (2) Narrativa (pré-monarquia, monarquia dos reinos: unido, dividido, sobrevivente, restaurado após o exílio e quase soberano no período grego) contida nos livros de Josué a 2 Crônicas, e nos apócrifos 1 e 2 Macabeus; e (3) Profecia (ditos proféticos, em todas as épocas em que os homens de Deus existiram e atuaram), compreendendo todos os livros proféticos.

Nosso pressuposto é de que o Rito tem características formadoras, pois produz identidade, insere culturalmente. Quando se esgota em suas prerrogativas, necessita, para não ameaçar a sociedade de dissolução, da Profecia, que o contesta e exige reformas. E o papel da Narrativa?

É o palco onde a contradição Rito/Profecia acontece. Sem a Narrativa, não há equilíbrio, visto que tanto Rito quanto Profecia, pretextam perfeição e instituição divinas.

Portanto, desejamos convidar você, leitor, a iniciar uma caminhada pelas terras e tempos bíblicos, à procura de uma nova dimensão de fé e compromisso com Jesus e o Seu Reino.

Rev. Efraim Sanches Pereira Lins, Abril de 2201

5

O ANTIGO TESTAMENTO

I - BREVE INTRODUÇÃO GERAL

1. Língua.

Em que língua foi escrito o Antigo Testamento? Para responder esta pergunta, não basta olharmos somente para o exemplar acabado que temos hoje.

O Antigo Testamento foi escrito em hebraico, contendo alguns textos em aramaico, devido

à influência persa. Sobreviveram também livros em grego, ainda que não reconhecidos como

canônicos por protestantes e judeus.

No entanto, devemos observar que, ainda que a língua fosse o hebraico, os textos contém narrativas que se derivam da sabedoria dos acádios (2250 a.C.), sumérios (2000 a.C.) e egípcios. Derivando o seu conhecimento de fatos antigos dessas civilizações muito anteriores não é de se admirar que termos dessas línguas antigas fossem apropriados e usados no idioma hebreu 1 .

2. Cânon.

A palavra “Cânon” vem de Kanäh, que significa cano. Adquirindo o sentido de “régua,

regra, reta”, deu origem à expressão “lista inalterável de escritos normativos para a vida e a fé”.

Seu desenvolvimento passou por um longo processo. Sabemos que os Salmos adquiriram poder normativo antes do que outros grupos de escritos, pois eram utilizados como livro nos

ofícios sacerdotais nos santuários locais e depois no templo de Jerusalém. Oficialmente, porém,

a primeira porção a receber autoridade canônica foi a Torah (O Pentateuco) em cerca de 300 a.C.

Todos os grupos de escritos (Os Profetas, Os Escritos, as Narrativas) foram transformados em Cânon no ano 100 d.C., no Concílio de Jâmnia, realizado, naturalmente, pelos judeus, preocupados com o avanço dos textos apocalípticos e o sincretismo religioso.

3. A Transmissão do Texto.

Naturalmente, para se transformar em Cânon, o texto percorreu um longo caminho até chegar à condição de livro escrito, circulante e, finalmente, de autoridade espiritual e normativa.

3.1. Tradição Oral: Por muito tempo se questionou a Tradição Oral como sendo uma fonte fidedigna de transmissão do conhecimento. Hoje, já se tem a certeza de que boa parte daquilo que está na Bíblia Hebraica é fruto de uma atividade cultural dos tempos

1 Para melhor compreensão disso, consultar: VV. AA. - Escritos do Oriente Antigo e Fontes Bíblicas - Ed. Paulinas - 1986 - São Paulo - págs. 63-67.

6

antigos, qual seja, a de contar para os filhos, histórias ou acontecimentos que ocorreram nos tempos anteriores ao narrador e ao ouvinte.

Boa parte do saber, da religião, das tradições, da cultura e da ciência antiga se fez por meio de narrativas passadas de pai para filho, geralmente na forma de poesias.

3.2. Fontes Paralelas: Sabe-se que no Oriente Próximo floresceram, por volta de 2500

a.C., inúmeras literaturas, descobertas a partir do século XVIII da nossa era, por arqueólogos. Estas são de povos como os sumérios, acádios, neobabilônios, hititas, persas, assírios e egípcios. Tais tradições culturais e literárias, das quais algumas sobreviveram em fragmentos, são suficientes para demonstrar a dependência de estilo e de conteúdo nos textos bíblicos hebraicos 1 .

3.3. Tradição Escrita: Essa diz respeito apenas ao que se produziu na tradição israelita.

Assim, existe consenso entre os estudiosos de que Moisés deixou alguns documentos; os santuários locais também preservaram suas tradições; e as tribos, seus aspectos históricos e culturais.

Para o texto chegar no que é hoje percorreu o caminho do agrupamento, do ajustamento

e da redação de diversas fontes que proveram todo este material.

Os agentes dessa grande obra foram, na sua maioria, profetas, sacerdotes e funcionários do Estado, escribas que tinham como função primordial dar forma literária ao conteúdo das tradições orais, paralelas e oriundas da própria comunidade de Israel.

Esses momentos de formação do texto são transformados em literatura quando Israel torna-se uma Monarquia estável, ou seja, pelo tempo de Davi e Salomão. Nessa época, 1000/ 900 a.C., já se tem uma sólida classe sacerdotal, nascendo o hebraico como língua literária, e as narrativas, quer orais quer documentais e as influências do mundo da época são transformadas em um único texto. Assim começam os processos redacionais que ficaram conhecidos na ciência da Introdução do Antigo Testamento como a Hipótese Documental.

4. Hipótese Documental (As grandes tradições de Israel).

É assim denominada a teoria de que o Pentateuco, e de resto boa parte da Bíblia Hebraica, tenha sido formado por documentos provindos de diferentes épocas e estilos. Essa Hipótese foi denominada de J, E, D, P, pois os documentos identificados possuíam características distintas; J usava mais o nome de Javé; E usava mais a designação Elohim para Deus; D preocupava-se com narrativas históricas, legislativas e de fundamentação teológica da centralidade do culto; P, com

as celebrações, genealogias e prescrições cultuais. Esta hipótese surge a partir do texto acabado.

É o desejo de saber como se formou o Antigo Testamento.

4.1. Esboço histórico da Hipótese Documental: O primeiro a notar as diferenças de

narrativas foi um médico francês chamado Jean Astruc (século XVIII), que sugeriu ter Moisés consultado duas fontes, uma que conhecia Deus como Javé, e outra como Elohim.

Depois dele, o estudioso Johann Gottfried Eichhorn escreveu uma Introdução ao Antigo Testamento, publicada em 1780-83, desenvolvendo a hipótese das duas fontes, dividindo o livro todo de Gênesis e o início de Êxodo (caps. 1 e 2).

1 A Epopéia de Gilgamesh, por exemplo, que é datada de cerca de 2000 a.C., na qual encontramos um paralelo antecedente da narrativa do dilúvio. Gilgamesh - Rei de Uruk - Ars Poética - 2ªEd. 1992 - São Paulo - págs. 78-84.

7

Wilhelm M. L. De Wette, escrevendo sobre o Deuteronômio (1805), propôs que os textos a respeito da Lei não pudessem ser anteriores à Monarquia, usando como argumento a centralidade do culto, observada em Deuteronômio, acrescentando à lista dos dois documentos mais um: o D.

Coube a Julius Wellhausen dar a configuração mais clássica à teoria da Hipótese Documental, nos seus livros “A Composição do Hexateuco” (que inclui Josué), publicado em

1876; e Introdução à História de Israel, publicado em 1878. Hoje, essa teoria possui vários desdobramentos, mas tem sido um importante instrumento para se compreender como foi que

o texto Sagrado chegou à forma que conhecemos nos nossos dias.

5. Os Documentos J, E, D, P.

5.1. O Documento Javista: Provavelmente é composto no reinado de Salomão (960/

930 a.C). Podemos identificá-lo com margem de variação na análise dos livros de Gênesis, Êxodo

e Números. Provavelmente, existam também narrativas desta fonte em Josué e Juízes. Não

sabemos o nome do escritor. Deixa notar em seus textos uma certa preferência pelas monarquias de Davi e Salomão. Sua característica principal é a de designar o Deus de Israel como Yahweh ou Javé. Assim, ficou denominado como escritor Javista ou simplesmente J. O javista escreveu de Judá, daí a letra J ter dupla referência: Javé e Judá, sua tribo preferida.

5.1.1. Alguns textos característicos: Gn 2.4 a 3.24; 4.1-16; 18.1-15; Êx 1.6-12;

17.1-7; 34.1-28; Nm 10.29-36; 32.1-38; Dt 31.14-23; 34.1-6.

5.1.2. Teologia: O homem é visto como rebelde que quer ser como Deus, tentando

subtrair-lhe a soberania, seus pensamentos estão sempre voltados para o mal. A humanidade é preservada da ruína para que Israel primeiramente e, depois, o mundo, possam participar das bênçãos do perdão divino. Apesar de toda a resistência humana, se concretiza a soberania de Deus.

Javé aparece como aquele que ouve e atende a voz do homem: Ex. Abraão intercedendo por Sodoma. Embora a intercessão seja individual, a salvação é comunitária.

Javé, ao relacionar-se com o homem e se revelar antropomorficamente, ou seja, tomando forma humana, ensina sua transcendência e sua constante presença. Assim, o homem pode decidir-se pelo bem como Abraão; ser paciente e conformado como Isaac; perseverante e esperançoso como Jacó; humilde como José.

5.2. O Documento Eloísta: Depois da divisão do Reino de Israel em Judá, Reino do Sul (capital, Jerusalém), e Israel, Reino do Norte (capital, Samaria), no período de 900-850 d.C., outro escritor contou a narrativa primitiva de Israel. Falava do mesmo conteúdo do Javista. Começou pelos patriarcas e foi até Juízes. Esse escritor escolheu para o Deus de Israel a designação de Elohim para falar de sua atuação antes de Moisés. Assim, é denominado de Eloísta ou E. Esse autor vivia no Israel do Norte, composto principalmente das tribos de Manassés e Efraim. E, portanto, é o representante de Elohim ou de Efraim.

5.2.1. Seus textos característicos são: Gn 20.1-17; 21.9-21; 22.1-19; 31.19-35;

35.16-20; Ex 18.1-8; 18.12-27; Nm 21.21-31.

5.2.2. Teologia: Elohim se revela por meio do sonho. Para que Elohim se comunique

com o homem e ele compreenda sua vontade necessário se faz a presença e atuação do profeta. Sua mensagem possui um conteúdo pedagógico, deixando claro que o temor de Elohim produz conhecimento e perfeição moral.

8

5.3. O Documento Sacerdotal: Ao Código Sacerdotal se convencionou designar pela letra (P) que vem do termo alemão Priest (Sacerdote) porque esse Documento se caracteriza por manifestar um grande interesse em prescrições e instituições sacerdotais e cultuais.

P é o documento preocupado com árvores genealógicas, com estreitar compreensões antes generalizadas. Exemplo disso é a interpretação da expressão “‘adam” (Adão) que pode significar genericamente a humanidade criada, P confere ao termo o sentido de nome próprio.

5.3.1. Alguns textos do Sacerdotal: Gn 10; Gn 11.10-26; Êx 6.2-7.7; 12.1-20-28;

13.1-16; 16.

5.3.2. Teologia: Esse Documento tem como centro de suas atenções a época de

Moisés, pois é o tempo das instituições cultuais. Porém, ele descreve os ritos de sua época projetando-os no período de Moisés, ou seja, cometendo um anacronismo 1 . Fundamenta suas observações teológicas também nas narrativas dos pactos, conferindo-lhes muita importância, pois, assim, divide a história da salvação em períodos: A criação do mundo, com Adão e Eva; Noé, salvando a humanidade com a arca; Abraão, por meio da circuncisão, tornando-se adorador exclusivo de Javé; e a saída de Israel do Egito, com as prescrições de natureza cultual.

5.4. O Documento Deuteronomista: Esse Documento, denominado (D), foi assim chamado porque manifesta em seu conteúdo a preocupação de fundamentar historicamente por meio de narrativas aspectos da pureza de culto devido a Javé. Assim, é a favor da centralização do culto em Jerusalém, abolindo todas as outras formas de religiosidade; prega o extermínio dos necromantes; proíbe o sacrifício de crianças. O Deuteronomista possui características reformadoras. Ex.: O Livro de Deuteronômio, no Pentateuco!

5.4.1. Alguns textos: Dt 12-26; 31; 32; 33; 34.

5.4.2. Teologia: O D valoriza a Torah, utilizada pelo sacerdote para instruir. Ela não

só é instrumento de educação, mas normatiza a vida do indivíduo e da sociedade. O Deuteronomista se interessa pela legislação. Tanto que o cumprimento da Lei, expressa na Torah, capacita a

comunidade a possuir e a permanecer na Terra da Promessa. É o documento da Eleição. Javé escolheu Israel como seu povo e lhe deu a posse da terra. A importância da Eleição para o Deuteronomista é vital pois ela é a causa do desejo de relacionamento entre a divindade e a nação. Javé é único Deus, ponto fundamental na teologia de D. Não existem outros deuses! Sendo assim, não pode haver outros lugares de culto: O Templo de Jerusalém é o único lugar onde esta divindade única deve ser adorada!

6. Os Nomes de Deus.

Deus é conhecido no Antigo Testamento sob vários nomes. Isto se deve ao desenvolvimento da fé e do conhecimento gradativo das ações de Javé, que se revela aos pais de formas e nomes diferentes. Não pretendemos esgotar o assunto, mesmo porque alguns termos provocam certa controvérsia quanto à sua origem. Mas desejamos apenas relacionar os principais designativos de Deus.

6.1 - : Iahweh (Javé).- Esse é considerado o mais sagrado dos nomes. Provém da raiz HAYAH, que significa ser, existir; esta palavra é raiz também de EVA. Javé, portanto, significa fazer existir, dar vida, criar. Este nome foi revelado a Moisés, quando da presença

1 Anacronismo: Narrar um fato ou coisas atuais como se tivessem acontecido em período remoto. Ex.- Falar de Monarquia em Israel quando ainda estamos no tempo de Moisés (Gn 36.31; 40.15; 50.10ss).

9

de Deus na sarça ardente, segundo Êx 3.14. O termo Adonai é utilizado, hoje, para substituir o nome mais sagrado. Adonai significa “Senhor” e ocorre algumas vezes no texto bíblico;

6.2 - : El, Elohim (deus, deuses).- Essa palavra, com sua correspondente plural, designa

a divindade. No Gênesis (1.26-27), quando da criação do homem, ela aparece e pode ser vista como a presença de todo o panteão divino convocado para participar do ato da Criação;

6.3 - : Elyon.- Designa a divindade como o Altíssimo, o que não pode ser alcançado, visto nem tocado pelo homem. Está tão inatingível que pode ser considerado a fortaleza inexpugnável. Uma das ocorrências bíblicas encontra-se no Sl 91.1;

6.4.- : Shaday.- O “Onipotente”, mas não somente isso; também “aquele que alimenta,

cuida, abençoa”. Esses significados vêm da raiz SHAD que literalmente designa os seios maternos, sendo a fonte de alimento, de vida, de carinho, de amor. DAD possui o mesmo sentido: seios,

leite, vida. Assim, Shaday é aquele que pode tudo, inclusive, manter a vida existindo, alimentando-

a e cuidando dela.

Existem outros termos que designam Deus no AT. Porém, são derivados desses quatro principais.

7. Gêneros Literários do Antigo Testamento.

Existe uma grande variedade de modos de falar e de gêneros literários empregados nos livros bíblicos. Suas raízes são encontradas nas antigas tradições do Antigo Oriente, decorrentes de formas vétero-orientais, pré-israelíticas e por concepções que surgiram na Palestina sob a influência da fé em Javé.

Esses gêneros estão presentes em toda a literatura mesopotâmica, egípcia e palestina. Conscientes de que o texto bíblico sofre a influência de seu tempo, é preciso levar essa informação em conta ao estudarmos as formas de registro e transmissão desse texto. Muitos gêneros literários dos livros históricos ou jurídicos de Israel não são tipicamente veterotestamentários, mas vétero- orientais.

7.1-: Os gêneros normativos

a) Expressões do cotidiano.

·

O

nascimento de uma criança era motivo para serem compostas sentenças por parte dos pais

parentes. As expressões, tais como “Tu tens um filho” Gn 35,17, criava o direito familiar de sucessão.

e

·

Em Gn 2,23, lemos que do “lado” do homem foi a mulher retirada. Era uma fórmula para atribuir importância ao casamento. Naturalmente, o divórcio também está contemplado nas fórmulas do cotidiano, registrada em Os 2,4: “Ela não é minha mulher e eu já não sou seu marido”.

·

Na ocasião da morte, uma fórmula usual era a registrada em Jó 1,21: “O Senhor deu, o Senhor tomou. Bendito seja o nome de Javé!”

·

Outras máximas estão ligadas à comunidade, tais como as listas sobre as tribos, nas bênçãos de Jacó e Moisés, Gn 49;Dt 33, nas quais os chefes têm seus atributos ou nomes comparados

animais ou situações de vida do cotidiano. A fórmulas tribais constituem a expressão de um temperamento zombeteiro e bem-humorado das tribos no Israel seminômade.

a

10

·

As fórmulas da guerra empreendida quando ainda não havia exército regular. Essas eram proferidas em primeira ou terceira pessoa, Js 6,2;6,16. Essas sentenças tornaram-se ex- pressões litúrgicas. Havia, ainda, no contexto da guerra, as fórmulas ligadas à Arca, para levantar ou depositá-la (Nm 10,35). Ou ainda o incitamento à bravura ou à fuga (2Sm 10,12). Outras sentenças referentes à guerra podem ser vistas em 1Rs 5,17;Sl 18,39.

b)

Normas de vida e de comportamento em estilo imperativo.

O estilo imperativo, “faze isto”, “não faças aquilo”, é uma forma antiga de dar ordens, encontrada em todas as culturas. Lv 18 nos apresenta uma dessas séries de ordenanças. A coleção de proibições, presente em Ex 20,1-17 e chamada de “decálogo” é uma série dessas ordenanças de natureza comportamental. Este texto pode ser dividido da seguinte maneira:

cinco ordenanças referem-se aos deveres do homem para com Deus e o próximo:

ÿ Não terás outros deuses

ÿ Não farás para ti imagem de deus

ÿ Não pronunciarás o nome de Javé em vão

ÿ Não levantarás falso testemunho contra teu próximo

ÿ Não cobiçarás a casa do teu próximo

Outras três, são proibições:

ÿ Não matarás

ÿ Não cometerás adultério

ÿ Não roubarás

As últimas duas:

ÿ Lembra-te do dia do Sábado

ÿ Honra teu pai e tua mãe.

Uma outra série secundária de normas de vida e comportamento pode ser encontrada em Ex 34,14-26. Outras séries encontram-se também em Lv 19,3-12.

c) Axiomas legais e princípios jurídicos.

c.1. O domínio da administração da justiça nos oferece uma certa variedade de usos e de axiomas jurídicos, Gn 9,6. Outra fórmula de acusação, contida em 1Rs 21,13: “Ele blasfemou contra Deus e contra o rei”. Ou ainda, no caso do direito privado, por ocasião da obrigatoriedade de assumir a viúva do irmão, Dt 25,9.

c.2. As punições com a morte também nos legam fórmulas, em Ex 21,22;22,18;Lv 20,2, cujas sentenças assim se registram: “Aquele que amaldiçoar seu pai e sua mãe seja punido de morte”. A série de maldições de Dt 27,15-26 apresenta sempre a ameaça de castigo:

“Maldito seja”.

c.3. A casuística jurídica, qual seja o processo de assimilação e formulação de novas leis, conforme a situação exigisse, Ex 21,12-17, por exemplo. Outro caso, o de Ex 21,2.

c.4. As narrativas etiológicas, de que deriva os costumes jurídicos das ações dos antepassados. Essas narrativas serviam de instrumento para organizar a vida, fortalecidas na figura de pessoas importantes ou situações significativas do passado. Exemplos podem ser verificados em Ex 12,27;13,14.

11

b) Formas retóricas ligadas à fase processual.

Existem numerosos exemplos de modo de falar, usados freqüentemente pelos profetas em suas pregações, que estão vinculados ao modo próprio das audiências. As artimanhas, com a finalidade de emperrar um processo, ou alegações de defesa ou acusação, as sentenças etc., próprias de uma atividade especificamente jurídica.

c) Acordos e contratos.

Os contratos exerceram em Israel e, de resto, em todo o Oriente Antigo, um papel de grande importância. Na realidade, o Antigo Testamento muitas vezes só nos fala de celebrações de contratos, sem nada dizer a respeito dos contratos em si. Os contratos podiam ser:

ÿ Bilaterais, celebrados entre parceiros de iguais condições e que exprimiam as relações recíprocas, com todos os direitos e obrigações que esta situação acarretava;

ÿ Acordos em que o poderoso se comprometia com o mais fraco, impondo-se condições e, ao mais fraco, apenas o recebimento, sem possuir uma significação ativa;

ÿ Acordos de senhorio e servidão, em que os compromissos ficavam com a parte mais fraca;

ÿ Acordos que um terceiro firmava com outros dois.

As celebrações de tais acordos exigiam ritos em que o sangue era misturado ou aspergido (Ex 24,8); o aperto de mão (Ez 17,18); a troca de um bem particular (1 Sm 18,3); da construção de uma coluna de pedras (Js 24,26); de um juramento (Gn 15,9), sendo que os violadores do pacto ficavam sob maldição (Jr 34,18).

7.2: Bênçãos e maldições.

a) Súplicas e desejos.

As fórmulas literárias também são percebidas no ato de pedir ou de desejar. O texto de Lamentações é um exemplo disso.

Na vida cotidiana faziam-se pedidos para coisas corriqueiras como o pão (Gn 47,15) ou a água (1Rs 17,10). Também se pedia uma mulher para poder casar-se (Jz 14,3) ou um favor vital (Gn 12,13).

Uma expressão sempre funcionava muito bem: “encontrar graça diante dos teus olhos” (Gn

18,3;47,29).

O voto está também presente na vida israelita, como os votos de felicidade, Gn 24,60 ou Rute 4,11.

b) Fórmulas de saudação.

As fórmulas de saudação são construídas sob a forma de desejo, de voto. Originalmente, se fundamentam na idéia de que a palavra falada possui certo poder de eficácia, de modo que as fórmulas comunicam e conferem à pessoa cumprimentada aquilo mesmo que elas exprimem. Ex: 1 Sm 25,6;2 Sm 8,10; Jz 6,12;Rt 2,4.

c) Bênçãos e maldições.

São sentenças que exprimem o desejo de felicidade ou de malefício. O grau de eficácia é tanto maior quando procedentes dos círculos mágicos, juntamente com a fé no

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poder da ação e na irrevogabilidade da palavra. Amaldiçoa-se um país (Dt 11,29) afetando as cidades (Jó 6,26), devorando casas (Zc 5,4) e determinando o destino de povos inteiros (Gn

9,25).

A fórmula de bênção é introduzida geralmente com o termo “abençoado, bendito”, e a fórmula

da maldição, pela expressão “amaldiçoado, maldito”. A sentença de maldição contém uma justificativa, a maldição propriamente dita e um desdobramento (Gn 3,14).

ÿ Em princípio, qualquer pessoa pode abençoar ou amaldiçoar, possuindo maior eficácia, quando da hora da morte.

ÿ Acredita-se que as bênçãos e maldições proferidas pelos patriarcas eram dotadas de força especial, bem como as palavras de Moisés em Dt 33.

ÿ No entanto, é o sacerdote que possui, em particular, o poder de abençoar ou amaldiçoar. Quando ele invoca o nome de Javé, a bênção divina se torna eficaz (Nm 6,27). Uma das funções do sacerdote é de ministrar a bênção. Ele foi ungido para isso!

ÿ A expressão “Bendito seja Javé” assume um aspecto de agradecimento acrescentando-se, logo a seguir, o motivo de gratidão (1 Sm 25,32).

a) Juramentos.

O juramento assume uma forma de maldição. Faz-se um compromisso, que se não cumprido,

libera a maldição, Nm 14,21; 1Sm 1,26; 1Sm 14,39; Gn 42,15. Um juramento não cumprido, passa a agir de imediato, como uma maldição.

7.3: Ditos querigmáticos, doutrinários ou didáticos.

a) Oráculos.

Os sacerdotes e profetas eram consultados. Os primeiros, através de atos litúrgicos ou técnicas, forneciam a interpretação que era buscada. Quanto aos profetas, a atividade oracular se dava, via de regra, por meio de êxtases, visões ou atos exemplares.

a.1. Quanto à técnica, encontramos a obtenção de presságios na observação de pássaros (Gn 15,11) ou a inspeção de água numa taça (Gn 44,5), o florescimento de plantas no santuário (Nm 17,16), a mudança de ruído do vento nas árvores (2 Sm 5,22), por meio do bastão dos oráculos (Os 4,12) ou passando a noite no santuário (Gn 28,10;1 Sm 3; 1 Rs 3,5). O meio mais importante de oráculo em Israel era a utilização do Urim (maldito) e do Tumim, (inocente), “não ou sim”. a.2. A forma de sentença oracular, no caso de bênção, consistia simplesmente em dizer sim ou não à pergunta feita (1 Sm 23,2-11). Havia também fórmulas litúrgicas (1 Sm 1,17). a.3. As fórmulas oraculares apresentadas como palavras de Javé ocorrem freqüentemente na primeira pessoa, entendidas como palavras unicamente divinas.

b) Testes judiciais.

Por meio de testes, provas, o sacerdote podia determinar a veracidade de um comportamento. As provas se aplicavam a situações onde houvesse suspeitas ou dificuldade de identificar o transgressor (Js 7,14). Eram usados ainda, testes com poções para a verificação da culpabilidade na infidelidade conjugal (Nm 5,11).

c) Torah.

A torah é um ensinamento ministrado oralmente, uma informação e uma instrução dados pelos sacerdotes aos leigos sobre questões ou situações concretas, com o fim de evitar ações portadoras de maldição e alcançar ações portadoras de bênçãos.

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c.1. A torah cultual versava sobre a situação de pureza ou impureza, sagrado ou profano, Is

1,10;

c.2. A torah litúrgica, que examinava as condições de ingresso ao santuário, Sl 15; c.3 A torah da instrução sobre questões de direito, Os 4,6.

a) Normas cultuais e o saber sacerdotal.

As normas cultuais e o saber sacerdotal constituíam os instrumentos de que dispunham os

ministros sagrados em sua atividade específica e que lhes serviam não menos para a formação dos jovens sacerdotes.

d.1. As normas cultuais estabelecem critérios para a atividade dos sacerdotes, Lv 6,2;

d.2. Outros textos mostram outros ensinamentos que deviam ser parte da formação sacerdotal,

Lv 11-15.

e) Aprovação, rejeição, censura.

A aprovação de algo se faz por meio da frase “É uma coisa boa” (Dt 1,14). Também a reprovação, nas fórmulas como “Não está certo o que fizeste” (1Sm 26,16). As perguntas: “Que fazes tu?” ou “Que fizeste?” exprimem uma censura (Nm 23,11; Jz 8,1).

6.4: Gêneros de transmissão e comunicação.

a) Diálogos.

Constituíam-se por uma série de locuções de temas bastante cristalizados. Iniciavam-se com uma saudação, perguntas de onde se vem, para onde se vai, nome do interlocutor, de sua família e de sua região de origem.

Os diálogos podiam ser provocados por chamados insistentes, gritos para chamar a atenção ou simplesmente pelo nome, quando de um superior para o inferior (Gn 21,17). Também, o uso de fórmulas, como “meu pai” (Gn 48,18).

Os diálogos podiam encerrar-se com frases importantes repetidas (1 Rs 18,11-14).

b) Discursos.

É de se supor que em Israel tenha havido uma certa técnica para proferir discursos. Esses não desejavam convencer os ouvintes, mas impor-se a eles, influenciando diretamente as suas vontades. Daí o discurso compor-se de repetições e de oferecimento de garantias (Jó 19,2).

b.1. O discurso político era o mais usado para roubar partidários de alguém para si (Jz 9,7; 2 Rs18,17).

b.2. O discurso do chefe antes de uma batalha, explicando as razões da mesma e a necessidade

de vitória, com a presença de Javé (2 Cr 20,20).

b.3. O discurso que o chefe político ou espiritual pronunciava à hora da morte, despedindo-

se de seus comandados (Js 23,24; 1 Sm 12).

c) Pregação.

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A pregação é uma mistura de gêneros literários. Era usada preferencialmente pelos sacerdotes. Os profetas fizeram sua pregação diferentemente dos sacerdotes, utilizando-se preferencialmente da métrica. A prosa aparece nas tradições de Jeremias e Ezequiel, em discursos livres.

d) Orações.

Juntamente com as orações líricas dos Salmos, também a Bíblia possui orações em prosa. d.1. A oração de súplica possui elementos chamados principais, tais como a invocação de Javé, o pedido e a justificativa ou a indicação da finalidade pela qual se suplica mais a recordação que se faz a Deus das antigas maravilhas de sua graça (Jz 16,28;1 Rs 3,6-9). d.2. A oração penitencial implorando o perdão da culpa e o afastamento do castigo merecido (Jz 10,10; 10,15). d.3. Não existem fórmulas de orações de ações de graças, mas a de Jacó é um bom exemplo (Gn 32,10-13), bem como a de Davi (2 Sm 7,18-29).

a) Cartas.

Um exemplo esclarecedor sobre o gênero da missiva está em 2 Rs 19,9-14. As missivas surgiram a partir da comunicação oral das mensagens. A forma escrita servia para confirmar, comprovar e para conservar a mensagem.

As missivas mais antigas de Israel estão em 2 Sm 11,15; 2 Rs 5,5; 1 Rs 21,8-10. Jeremias escreveu aos deportados de Babilônia (Jr 29,1-14).

Na época persa, temos as cartas dirigidas ao soberano com as respectivas respostas (Esd 4-

6).

b)

Epístolas.

A epístola não deriva de uma determinada situação nem possui remetente e destinatário

históricos, como a carta. Era mais um tratado, tendo apenas a aparência de carta (Dn 3,31; 4,34; Et 9,20).

7.5: Gêneros narrativos.

a)

Gêneros narrativos.

As relações mútuas entre os gêneros literários narrativos são determinadas pelo fato de que

o

mito e o conto, a saga e a lenda constituem formas originais de narração. O mito se situa,

antes de tudo, em eras remotas e imemoriais, ao passo que o conto paira no tempo e no espaço,

e a saga brota do caráter peculiar e da importância de certos fatos ou acontecimentos singulares ocorridos no tempo e no espaço.

b)

O

Mito.

O

mito se passa no mundo dos deuses que têm, no mínimo, uma participação decisiva no

acontecimento narrado. Não existe em Israel nenhum mito que seja conhecido em sua totalidade ou por referência a ele. Parece que Israel não produziu nenhum mito, embora tivesse condições para isto. Na fé javista faltam os pressupostos para a formação do mito: o politeísmo e a magia.

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a) Nas narrativas, a existência do elemento mítico se limita praticamente à história dos primórdios (Gn 1-11). Na narrativa dos gigantes nascidos da união de seres celestiais com as filhas dos homens (Gn 6,1-4) não existe nenhum paralelo, embora se perceba que no fundo há um mito. Na narrativa do dilúvio (Gn 6,5-9,17) está comprovada a origem mesopotâmica, nos textos de Gilgamesh.

b) Fora da história dos primórdios, é somente em Ezequiel que utilizam novamente motivos míticos, sobretudo nas profecias escatológicas e nos salmos da época exílica e pós-exílica.

c) Conto.

A terra e o universo dos homens são o palco onde o conto se desenrola. No conto só aparecem

seres divinos inferiores, que estão para com o homem numa relação imediata de amizade ou inimizade. O conto não está ligado nem ao espaço nem ao tempo nem às leis da causalidade. No conto, confundem-se realidade e fantasia. Quase se poderia dizer que o conto é um mito que se passa no âmbito terreno e humano, com desfecho favorável. Nessa categoria se enquadram os

textos de Ex 4,1; 2 Rs 2,8; 1 Rs 17,16; 2 Rs 4,1; 1 Sm 17.

d) Novela.

A novela tem de comum com o conto o fato de que ambos descrevem o destino do indivíduo

dentro de um acontecimento de caráter universal e da maneira como o mesmo possa vir sempre a ocorrer; portanto, não como um acontecimento que sobreviverá como memória histórica, mas como um fato que se verifica no aqui e no agora, mas de forma universalmente válida. Exemplos de novela (Gn 37;39-48;50 e o livro de Rute).

e) Anedota.

A estória (anedota), ao contrário dos demais gêneros literários até agora mencionados, fixa-

se em torno de determinados fatos e pessoas. À diferença da novela, a estória faz o homem intervir pessoalmente nos acontecimentos e dominar situações (Jz 15,1;1 Sm 24;26; 2 Sm

23,8).

f) Sagas e lendas.

As sagas são histórias antigas sobre feitos heróicos. As lendas são narrativas transmitidas pela tradição de fatos históricos, mas que carecem de comprovação. Podemos dividir as sagas e lendas do Antigo Testamento em seis categorias principais.

h.1. As sagas referentes aos lugares e à natureza, como a Torre de Babel (Gn 11,1-9). A narrativa de Sodoma, para explicar a origem do Mar Morto (Gn 19). h.2. As lendas referentes ao santuário, que tratam igualmente de um determinado lugar e devem explicar por que o santuário era tido por sagrado (Gn 16,7). A manifestação a Jacó em Betel (Gn 28,10). Em geral, a descrição trata da manifestação de uma divindade que habita em determinado sítio, manifestação pela qual o interessado toma consciência, ao mesmo tempo, da santidade do local e do desejo da divindade de que este lugar seja venerado no futuro. h.3. Lendas a respeito do culto deviam justificar a existência de um determinado culto ou de um rito: assim, explicava-se a presença da imagem de uma serpente no templo de Jerusalém, até cerca de 700 a.C., como sendo certo demônio de cura, partindo de um acontecimento do tempo de Moisés (Nm 21,4). h.4. A saga das tribos e do povo é de particular importância para Israel. Ela deriva da concepção de que cada tribo e cada povo possuía um chefe ancestral cujos traços

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essenciais e cujo destino se representam, se fundam e se refletem naqueles da comunidade (Gn 9,25; Gn 19,30; Gn 48).

h.5. A saga dos heróis constitui a segunda espécie mais importante, ao lado da saga relativa às tribos e povos e começa com a época mosaica. A vitória sobre os amalequitas (Ex 17,8) e

a quebra das tábuas da Lei (Ex 32).

h.6. As lendas de caráter pessoal giram em torno de sacerdotes, profetas e mártires enquanto figuras religiosas (1Sm 1-3; Nm 16).

As sagas e as lendas, assumidas ou próprias, foram reelaboradas de diversos modos num

longo e progressivo processo histórico-tradicional. Nesse processo, quatro foram os princípios que desempenharam importância:

ÿ As sagas e lendas foram adaptadas aos aspectos pessoais da fé javista e personalizadas. Exemplo disso, a experiência de Jacó em Betel;

ÿ As sagas e lendas foram colocadas em relação com Israel, com seus antepassados, suas tribos; foram, portanto, “nacionalizadas”, precisamente na medida em que isto se fazia necessário. Exemplo: José no Egito.

ÿ As sagas e lendas foram javistizadas, na medida em que isto era necessário, isto é, foram relacionadas com Javé, o Deus de Israel. Exemplo disso é a expressão de Jacó, quando de sua experiência: “Verdadeiramente Javé está presente neste lugar, e eu não sabia”.

ÿ As sagas e lendas foram entendidas, em escala crescente, em sentido religioso, e mesmo teologizadas. Quase sempre Deus desempenha um determinado papel, ou mesmo o papel essencial, e a exposição se torna mais profunda (Gn 6,5).

7.6: Gêneros informativos.

a) Listas.

As listas são relações de nomes e lugares, genealogias.

a.1. Listas de pessoas e povos entre os quais se contam em primeiro lugar as listas genealógicas (Gn 10; 22,20-24; 25,1-4). a.2. Listas histórico-geográficas, com nomes de povoações, de fortificações e das cidades dos levitas (Js 15-19). a.3. Listas de donativos sagrados, onde objetos e coisas são classificados (Ex 35,21-29; Esd

2,68).

b) Anais e crônicas. b.1. Devemos qualificar como anais os apontamentos distribuídos segundo os anos e, na sua

maioria, de natureza oficial, sobre determinados acontecimentos de importância. Esses anais se destinavam a fixar memória sobre os referidos acontecimentos e por isso eram guardados em arquivos (1 Rs 9,15; 11,7; 14,25). b.2. Com relação aos dois estados de Judá e Israel devemos admitir também a existência de crônicas que, como suas similares do Antigo Oriente, encerravam as datas dos diversos reis

e curtas observações sobre seus feitos e seus destinos.

c) A narrativa histórica e a historiografia.

Dentro do grupo constituído por esse gênero literário, deve figurar em primeiro lugar aquela espécie de narrativa, completa em si, em que se descreve um acontecimento de modo mais ou menos detalhado e tal qual se deu. Exemplo disso, Jz 9 e 1 Sm 11.

Paralelas a este grupo, existem as compilações, tais como 1 Rs 11,41; 14,19.29.

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Existe ainda a historiografia, a qual consiste de composições literárias que abrangem um determinado período e unem os diversos materiais, tanto internamente quanto do ponto de vista dos temas tratados.

a) Biografia.

Na biografia, o indivíduo procura fixar seus próprios feitos ou os de outrem para que se guarde a memória dos acontecimentos descritos para justificar-se perante os seus contemporâneos e perante a posteridade ou ainda como oferta a Deus (Amós 7,10-17).

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O RITO

A religião sacerdotal, as observâncias cultuais, os preceitos éticos, a educação religiosa

por meio dos textos sapienciais e poéticos, com sua função normatizadora, têm a finalidade de educar o fiel para que ele possa viver dentro da sociedade de forma harmônica, sem criar muitas dificuldades, aprendendo o caminho da vida coerente, livre de conflitos.

Praticando os ritos, o homem está em paz com a divindade e com os preceitos de cunho social. O rito tem esta capacidade: conferir ao indivíduo uma identidade religiosa e social, possibilitando uma vida de satisfação e tranqüilidade.

O Sacerdote e o Rito estão intimamente ligados. Ele é o homem escolhido na linhagem de

Arão com a função de ser o intermediário entre o israelita e sua divindade, Javé. É através do sacerdote que o fiel oferece holocaustos, sacrifícios pelo pecado ou de gratidão; expia o pecado seu e de sua família; dirige-se a Deus e é ouvido.

O sacerdote é o intermediário entre o homem e Deus. Sem sua figura não há celebração de culto, não há perdão, intercessão, nem orações a favor do ofertante.

Diante do exposto, devemos adentrar os textos que nos falam mais de perto a respeito do Rito, de como foi criado ou incorporado e sua função na religião e na formação do povo de Israel. Para conhecer o Rito, devemos estudar o Pentateuco e os Escritos (Cânticos e Sapienciais).

I - O PENTATEUCO

Os cinco primeiros livros da Bíblia recebem o nome de Pentateuco, “Livro composto de cinco rolos”. Os hebreus os chamam de “Hattorah (A Lei); Torah-Mosheh (Lei de Moisés); Sepher Torah Mosheh (O Livro da Lei de Moisés). Essencialmente, são livros do Rito!

Os nomes de cada um dos cinco livros são tomados das palavras iniciais. Os títulos em grego preocupam-se em nomeá-los de acordo com o conteúdo.

1. GÊNESIS Bereshith: No Princípio - Como o próprio título já nos diz, trata dos inícios: da raça humana; da salvação; do povo de Israel, na vida dos Patriarcas; o êxodo, com a descida da família israelita sendo abrigada e posteriormente, escravizada no Egito, preparando-os para o desenrolar do Pacto de Yahweh com Israel.

É provável que o seu autor tenha sido um profeta que viveu nos tempos da Monarquia de

Salomão. Uma das razões seria a preocupação de ressaltar a monogamia como sendo um estado preferível pelo Criador.

O Livro de Gênesis é um relato teológico-histórico. Seu autor utiliza-se da linguagem

mítica para explicar as origens. Para ele, Deus é uma realidade que não precisa de

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fundamentação ou de provas de existência. Sua preocupação básica: deixar claro que tudo foi criado pela divindade.

Existe, no Gênesis, uma gama de rituais. Por exemplo, quando Abel e Caim apresentam suas oferendas 1 como ato de culto; ou quando Noé 2 erige um altar; Abraão dá o dízimo 3 e pratica a circuncisão 4 .

Naturalmente que outros ritos são encontrados no Gênesis e que não estão arrolados aqui. Os exemplos citados são suficientes para demonstrar uma das mensagens centrais desse Livro Bíblico: os ritos remontam aos Patriarcas! Eles simbolizam relações, acordos e obrigações entre o adorador e seus descendentes junto à divindade, e esta, em contrapartida, responde com sua presença e com as bênçãos: terra fértil, boa colheita, rebanho sadio e filhos homens e fortes.

2. ÊXODO Ve’elleh Shemot: A Saída - Narra a escravidão dura dos israelitas no Egito. O problema da opressão é tão crucial que o texto nos fala de um desânimo para com qualquer discurso sobre liberdade 5 .

Este Livro é o registro de como Javé comissiona o homem para realizar sua vontade, mesmo que esse tente de todas as maneiras fugir à Missão 6 .

O Êxodo introduz a história da salvação por meio da Eleição de Israel como povo de Javé,

escolhido para Sua Revelação e de sua Lei, como declaração de posse sobre este povo.

A Lei (Torah) tem duplo sentido. É uma declaração de posse por parte da divindade; deve

ser vista como a materialização da Aliança. Por outro lado, estabelece uma forma de viver e de ser, promovendo um sentimento de pertença, de identidade, que transforma Israel na herança peculiar de Iahweh.

O Êxodo nos dá uma descrição detalhada dos objetos do culto e de como deve ser construído

o Tabernáculo. As instituições sacerdotais são aqui determinadas.

3. LEVÍTICO Vayqra’: E Chamou - Livro das Instituições Cultuais, contém todas as regras que devem ser observadas por Israel para as celebrações litúrgicas, festas, sacrifícios,

1 Gn 4.1-7: O culto oferecido e sua aceitação ou rejeição por parte da divindade já carrega um conteúdo: a qualidade da oferta e

a intenção ofertante. 2 Gn 8.20-22: Sua alegria com a nova vida se traduz no ato de consagração de um local para adorar. É a resposta humana ao ato divino de salvar! 3 Gn 14.18-24. Sua oferenda é quantitativamente determinada e o coletor está divinamente autorizado! Rito formador do devoto!

4 Gn 17.9-14: Este rito é estabelecido com a finalidade de marcar, separar, identificar. Os circuncidados são parte do pacto, os outros, não! A instituição da circuncisão entre os descendentes de Abraão difere da praticada por outros povos, entre os quais, egípcios, edomitas e polinésios. Tribos antigas da África, não somente praticavam a circuncisão como também a escisão, ou seja,

a retirada do clitóris, nas meninas em idade de procriar. Os descendentes de Abraão foram circuncidados ainda na infância, eliminando a significação de iniciação sexual.

5 Êx 6.9. A opressão atinge tal grau de desumanização, que a consciência fica insensível, incapaz de perceber a indignidade que está sendo levada a cabo. 6 Êx 3-4.

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ordenações e as prescrições aos sacerdotes. Deixa claro o pacto feito com Javé de observar todos os seus mandamentos para receber a bênção; e, se não, as maldições 1 .

O Levítico é a expressão clara das normas da lei. Observá-lo é praticar a religião. Todas as definições teológicas recebem, neste livro, aplicações práticas e orientações de como devem ser compreendidas.

Quanto aos ritos, encontraremos vários. Talvez o que chame mais a atenção seja aquele que transforma o sacerdote numa espécie de médico, fazendo-o opinar sobre a lepra 2 de alguém. Impressiona por causa do componente segregacionista que acompanha toda liturgia para se determinar a doença ou a saúde de outros.

4. NÚMEROS Bemdbar: Recenseamento - Preocupa-se com as listas dos que foram retirados do

Egito, assim como complementa alguns fatos históricos deixados de lado pelo Livro de Êxodo.

Apresenta alguns ritos importantes. Dentre eles, realçamos o do nazireu 3 , pois se trata de uma prática de consagração que pode ser temporária. A relação com os cabelos possivelmente tem a ver com a crença de que estes representam a vitalidade e a força do homem. Ao deixá-los livres para crescer, por determinado tempo, o votante está desejando receber poder de Deus para enfrentar alguma situação de grande risco para sua existência.

5. DEUTERONÔMIO elleh haddebarym: Estas são as Palavras - Trata-se de uma cópia da Lei

de Moisés, porém, feita a partir de um redator muito competente que procurou resumir e agrupar fatos e palavras, fazendo uma “repetição” das palavras pronunciadas por Moisés ao Povo de Israel.

Por se tratar de uma repetição das ordenanças, muitos dos ritos foram aqui reapresentados. O que chama a atenção é a centralidade da Torah, que deve ter lugar junto com os símbolos que

estão guardados na Arca da Aliança 4 , devendo ser depositada ao seu lado, ressaltada sua função:

“ que ali esteja por testemunha contra ti

”!

II - OS ESCRITOS

1. CÂNTICOS.

Esta porção da Bíblia Hebraica se formou ao longo dos anos. Sua função é essencialmente litúrgica, ou seja, satisfazer as necessidades das celebrações cultuais, festivas, sociais 5 e políticas 6 .

1 Lv 26.1 2 Lv 13. Aliás, todos os rituais de purificação são interessantes por sua relação estreita com o culto. 3 Nm 6. 4 Dt 31.24-29. 5 Como casamentos, funerais, ritos de iniciação etc. 6 Os Salmos de Entronização do Rei, por exemplo: Sl 72.

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Os Cânticos não estão todos encerrados nos Livros dos Salmos, Cantares ou Lamentações, mas estes se tornaram, com o passar do tempo, depositários das composições, passando a ser uma coleção das mesmas. Seus autores são diversos e, na maioria, desconhecidos. A poesia é a forma mais antiga de transmissão oral, não havendo como se descobrir a sua autoria, salvo se a mesma trouxer o nome de seu criador. Algumas, mesmo mencionando o nome do autor, são certamente, tardias, colocando um nome famoso apenas para homenagear o poeta antigo.

1.1. SALMOS Tehilym: Cânticos - Colecionados ao longo dos anos, formaram um livro que veio

a ser utilizado na liturgia do culto. Seus poemas podem ser divididos da seguinte forma:

a) Livro I - Salmos 1-41; b) Livro II - Salmos 42-72; c) Livro III - Salmos 73-89; d) Livro IV - Salmos 90-106; Livro V - Salmos 107-150.

Além dessa divisão, podemos ver nos salmos os seguintes gêneros literários:

1.1.1. Hinos: Compostos com a finalidade de louvar a Superioridade de Javé sobre os

outros deuses. Ex.: Sl 149;

1.1.2. Cânticos de Sião: Poemas que exaltam Jerusalém como a cidade de Javé e único

lugar onde deve ser adorado; Ex.: Sl 122;

1.1.3. Cânticos de Romaria: Compostos para serem cantados quando das peregrinações

para o Templo, em Jerusalém. Ex.: Sl 15; 1.1.4. Cânticos de Lamentação Coletiva: Orações Pedindo socorro, ou perdão, de natureza coletiva, envolvendo toda a comunidade. Ex.: Sl 126;

1.1.5. Cânticos de Lamentação individual: Pedido de perdão por pecados cometidos pelo

compositor, que vê, no cântico, a forma de aproximar-se de Deus novamente. Ex.: Sl 25;

1.1.6. Cânticos de Confiança Coletivos: Orações feitas professando a fé no poder de Javé

para proteger, redimir e restaurar a comunidade. Ex.: Sl 129;

1.1.7. Cânticos de Confiança Individual: O homem, como unidade, busca alento, forças e

esperança em Javé. Ex.: Sl 23;

1.1.8. Cânticos de Ações de Graças Coletivo: Quando as colheitas eram fartas e havia

bom desenvolvimento dos rebanhos, a comunidade se reunia para agradecer, por meio de festas

das colheitas. Ai eram entoados estes cânticos. Ex.: Sl 65;

1.1.9. Cânticos de Ações de Graças Individual: O homem dá graças pelo livramento dos

inimigos; por sentir a presença de Javé iluminando o seu caminho; por alguma vitória pessoal, quer nos negócios, quer nos conflitos. Ex.: Sl 63;

1.1.10. Cânticos Reais: Utilizados nas cerimônias de entronização do Rei, ou na aclamação

de Javé como o Rei de Israel. Ex.: Sl 72;

1.1.11. Cânticos Sapienciais Didáticos: Poemas compostos com a finalidade de ensinar o

homem a viver em paz consigo, com o próximo e com Deus, por meio da meditação na Lei de

Javé. Ex.: Sl 1.

1.2. CÂNTICO DOS CÂNTICOS Shir Hashirim: Cântico dos Cânticos - Esse é um poema de amor. No decorrer da história, foi interpretado de diversas formas, sendo as principais:

1.2.1. Alegoricamente: Tanto judeus como cristãos interpretaram o Livro como sendo a

declaração de amor de Javé para Israel (judeus); ou de Jesus Cristo para com a Igreja;

1.2.2. Cultual - mitológica: Os amantes descritos, na verdade seriam a representação de

divindades masculinas e femininas que em todos os casamentos estariam sendo lembrados no

seu matrimônio sagrado. Daí a necessidade de se cantar ou recitar o texto em cerimônias nupciais;

1.2.3. O Amor Humano: Os personagens seriam simplesmente homem e mulher vivendo

a plenitude da dimensão física do amor. O objetivo deste texto estar entre os canônicos seria o

desejo de desvincular o sexo da religião, demonstrando que esta esfera seria a do humano, nada havendo de sagrado nos intercursos sexuais entre marido e mulher.

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O Cântico dos Cânticos foi usado largamente como literatura base para representações

teatrais. As classes média e alta de Israel o usavam para os momentos de celebração de casamentos ou mesmo de reuniões festivas da comunidade.

Naturalmente, os objetivos do texto não incluem a procriação, visto que não são citados nenhuma vez os filhos do casal. Os motivos inspirativos para composição dos poemas são encontrados na corte de Salomão, que muito provavelmente tenha sido o seu autor.

Aqueles que o preservaram tinham em mente fortalecer a relação monogâmica, mostrando as delícias do relacionamento a dois como uma forte razão para tornar um matrimônio duradouro.

1.3. LAMENTAÇÕES ‘eykhah: “Ai, como”! - Este texto possui cinco lamentações em estilo de “canto fúnebre”, compostas de forma acróstica, sendo que o último canto segue o alfabeto hebraico, provavelmente por acreditar no poder mágico das palavras.

O motivo dos cânticos é a cidade de Jerusalém. Os poemas são compostos de forma a

entender-se que a cidade já estaria morta. Este livro certamente tem como período a queda de Jerusalém ocasionada pela invasão e destruição feita por Nabucodonozor, em 586 a.C., provocando

no poeta um sentimento de perda que se afigura insuportável.

Provavelmente foi composto por volta do ano 587 a.C. por uma testemunha ocular, antes da reconstrução determinada pelo Império Persa, a partir de 538 a.C.

Na Bíblia Hebraica, o Livro das Lamentações está colocado junto aos Escritos após Rute e não entre os Livros Proféticos.

2. SAPIENCIAIS.

Normalmente, quando se fala de Sabedoria, lembramos de Jó, Provérbios e Eclesiástes. Esses escritos levam o nome de “sapienciais”,ou seja, sabedoria.

Esses textos são o resultado da forma de pensar dos sábios, oriundos dos círculos sapienciais que eram formados por sacerdotes, profetas, funcionários reais e líderes tribais. Naturalmente que todo esse conhecimento não nasce em Israel, mas passa por um processo de apropriação de ditos egípcios, histórias sumérias, cânticos acádios e hititas, que, juntos, tornaram o homem palestino dos tempos da monarquia em Israel capaz de formular um tipo de filosofia, de arte do pensar, que pudesse responder perguntas essenciais dos homens em todos os tempos. Salientamos que o fato de utilizar-se da sabedoria oriental da época não diminui a importância nem a autoridade dos escritos bíblicos 1 .

A forma usual de produzir conhecimento, dentro deste gênero, é o provérbio, que pode ser de admoestação; antitético, de paralelismos e nas instruções contidas em hinos 2 , confissões ou narrativas.

Existe sempre algo que caracteriza a literatura sapiencial, que é o emprego do diálogo e da disputa.

1 Lembramos que o Apóstolo Paulo, em At 17.28, usa da filosofia dos gregos para exemplificar e fundamentar o ato Criador de Deus. 2 Sl 1

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O que é Sabedoria? Um modo de ver o mundo que se baseia na observação e na reflexão, procurando encontrar os pontos que harmonizam o homem com a ordem fundamental da natureza. Essa reflexão produz, assim, uma forma de comportamento que possibilite ao homem viver em paz por meio de um proceder ético, prático e adequado.

No fundo, a Sabedoria deseja provar, racionalmente, que os postulados da fé podem ser vivenciados de forma coerente e satisfatória, se observados os preceitos e normas que nos fazem existir harmonicamente com a natureza, com a sociedade e com Deus.

2.1. JÓ ‘Yob: Jó: Retorno - É uma narrativa que possui a seguinte característica: abre-se com

prosa, depois transforma-se em poesia, e fecha-se com prosa, novamente. É interessante observarmos que o autor, na prosa, utiliza-se do nome de Deus, Iahweh; na poesia, chama a divindade de Shaday.

Qual seu objetivo? Os estudiosos acreditam que nesse livro o autor 1 deseja questionar o princípio de que quem pratica o bem recebe o mesmo em troca. Esse determinismo seria o alvo do escritor que, na montagem do drama, procura demonstrar que a vida, o sofrimento e a própria divindade não podem ser equacionadas de forma fácil. Compreender a existência seria mais do que meras fórmulas decoradas e aprendidas quando criança.

2.2. PROVÉRBIOS Mashaly: Provérbios - Coleção de máximas, ditos, que tem como objetivo

instruir por meio da memorização verdades que dão ao homem capacidade para viver harmonicamente, na sociedade e com Deus. Assim, contém provérbios artísticos, estruturados conforme a métrica hebraica; populares, em forma de prosa; didáticos, para inculcar valores; admoestações, instruções dos mestres aos discípulos; ordens; proibições; enigmas; fábulas; alegorias, que são metáforas ampliadas; discursos de disputa; listas de nomes formando acrósticos.

Provavelmente Salomão tenha sido autor de alguns provérbios. O próprio livro anuncia que possui outros autores 2 . Os que deram forma ao livro certamente lançaram mão de toda a literatura conhecida da época para criar esta obra muito instrutiva e necessária aos que desejam ser sábios.

2.3. ECLESIASTES Qohelet: O que congrega - Esse talvez seja o texto mais enigmático do

Cânon Hebraico. Estamos diante de um livro que produz filosofia, que provoca reflexão por suas afirmações que são, muitas vezes, difíceis de compreender 3 .

Suas observações iniciam-se e se concluem com a expressão “vaidade”, significando, com isso, “vazio, futilidade, inutilidade”.

Em suma, o texto é reflexivo. Ao observar a vida cotidiana o autor 4 fala da busca humana pela sabedoria, conhecimento, riqueza, prazer, demonstrando que tudo isso, separado de Javé, não produz alegria nem contentamento.

1 O autor de Jó é desconhecido. Sabe-se que sua obra é antiga, provavelmente remontando à época dos eventos narrados no livro. Por outro lado, argumenta-se que Jó não seria um personagem real, mas criado com a finalidade de ensinar o equilíbrio na vida. 2 Pv 30.1

3 Exemplo disso é o verso 16 do cap.7.

4 A autoria do Livro é geralmente colocada na época dos Ptolomeus, III século a.C., conforme muitos estudiosos - ver Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica - págs. 537ss.

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Eclesiastes é um texto para meditar sobre o sentido da vida. Ser jovem ou velho não significa nada. O conhecimento sem sabedoria também é “vaidade e correr atrás do vento”. Ao homem está reservado o conhecimento do mistério, se atrelado a Deus.

2.4. ESTER: ‘Esther: Estrela - Esse livro é considerado por alguns como histórico e por outros como uma novela. Ele nos conta a situação dos judeus que viveram no Cativeiro Persa, tendo como personagens heróicos Esther e seu tio, Mordecai.

Esther é uma cativa que se torna rainha e vive a situação de poder salvar o seu povo do extermínio perpetrado por um oficial do rei, Aman, que, para deliciar-se com a morte de seus inimigos judeus, chega a construir, nos fundos da casa, uma forca. Por que o seu ódio? É que Mordecai, funcionário do rei, descobre uma conspiração e salva o monarca. Por medo deste judeu se tornar muito importante, e movido pela inveja, Aman decide matá-lo, e a todos os seus.

Hoje, sabemos que as informações históricas não são exatas. No entanto, o Livro é muito importante, pois institui a celebração da Festa do Purim. A palavra pûr significa sorte, e denomina a festa, porque foi o que fez Aman para descobrir o dia que mataria aos judeus: tirou sorte (pûr)!

Aprendemos com esse livro sobre a natureza humana; a solidariedade e a cumplicidade que devem existir entre familiares e patrícios; a insanidade do preconceito; a dedicação e a integridade no exercício das funções destinadas.

AS NARRATIVAS

Por que as narrativas estão na Bíblia? Não há somente a preocupação histórica, mas sobretudo, pedagógica, no sentido de prover os fiéis que investigariam as ações de Javé, de exemplos humanos de convivência e de bênção de Deus.

I - O ISRAEL PRÉ-MONÁRQUICO

Esta parte do Antigo Testamento é a mais complicada para se discorrer sobre ela, porque suas datas são recuadas e as fontes são escassas para nos informar com segurança os fatos.

1. O Livro de Josué: Yehoshuah 1

O Livro de Josué contém as narrativas da conquista 2 . Ele nos fala da invasão das tribos, embora seja mais preciso em documentar a tradição de Benjamim. Se prestarmos atenção, veremos que na lista das cidades conquistadas, todas são possessões dessa tribo.

1 Significa “Javé é salvação”.

2 a) Js 1 a 12: Narrativa da conquista da Cisjordânia sob a Liderança de Josué; b) 13 a 22: As distribuições de terra às tribos e às instituições públicas por Josué; c) 23 a 24: Os dois discursos de despedida de Josué.

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A época da invasão israelita é datada entre 1305-1200 a.C 1 . A dominação egípcia durante

estes anos conhece momentos de derrota, pois o anseio do Faraó Ramsés II de tomar a Síria faz perder o controle da Palestina para o Império hitita. Nesse tempo é que Josué entra na Palestina com as tribos de Israel. Canaã era habitada mais nas planícies do que nas montanhas, o que possibilitou uma invasão mais segura.

A Palestina desse período era uma sociedade tendente para o comércio de madeira,

fabricação de tecidos e especiarias. Lingüisticamente, era uma região onde todos os idiomas da época eram falados, havendo grande proliferação de literatura, principalmente em acádio, língua dos cananeus. Religiosamente, possuía quatro deuses maiores, El, Baal, Astart e Anat. Os menores eram chamados de Baalins. Baal era considerado o mais ativo, apesar de ser o segundo na hierarquia, sendo responsável pela fertilidade. Politicamente, esse povo, dada as constantes invasões, possuía pouco sentimento nacionalista, sendo dividido em cidades-estado. Sua região era muito cobiçada pelos impérios e, quase sempre, foi palco de guerras de conquista.

A conquista da Palestina segue sendo vista na literatura veterotestamentária sob três

teorias:

1.1. Modelo de conquista: Somos informados que Josué entrou na Palestina com as

doze tribos e, por meio de ataques relâmpagos, foi tomando as terras e as dividindo de acordo com o tamanho das tribos 2 ;

1.2. Modelo de imigração: Esse nos informa que Israel infiltrou-se paulatinamente na

Palestina de forma pacífica, por um longo tempo, alcançando somente a vitória final nos tempos de Davi;

1.3. Modelo de revolução social: Essa teoria se fundamenta na idéia de que os israelitas,

na verdade, compunham-se de cananeus nativos que se revoltaram contra seus soberanos e tomaram, assim, as cidades-estado, através da união de suas forças com um grupo de invasores (O Israel que saiu do Egito).

A apresentação sucinta dessas três teorias mostra a dificuldade que se tem hoje, apesar

de todo o progresso no estudo do Antigo Testamento, de afirmar categoricamente que Israel entrou dessa ou daquela forma na Palestina.

Talvez possamos especular que Israel possa ter vivido, no processo de ocupação da Palestina, as três possibilidades acima mencionadas. Entra um bando guerreiro na terra, liderado por um homem de Efraim, Josué, que se alia a povos etnicamente provindos do mesmo ancestral e, com base nisso, consegue tomar o poder, alimentando militarmente insatisfações de camponeses sob a dominação e exploração das cidades-estado que, depois de séculos de luta, alcançam uma certa estabilidade nos dias de Davi.

2. O Livro dos Juízes: Shophetim 3

Depois da conquista, vem a ocupação e a permanência na terra. Esse período é conhecido como a Época dos Juízes. Os relatos encontram-se no Livro de Juízes.

1 Existem outros que datam a conquista entre 1200-1000 a.C. GOTTWALD, N. K. Introdução Socioliterária da Bíblia Hebraica - Ed. Paulinas - São Paulo - 1988. pág. 222ss. 2 As informações mais detalhadas desse modelo e dos outros podem ser encontradas em: GOTTWALD, N. K. - Introdução

Socioliterária da Bíblia Hebraica - pág. 251-265.

3 De Shephet: julgar, punir.

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Quem eram esses homens e mulheres? As narrativas nos dizem que eram pessoas que se sentiam chamadas para atuar num determinado momento da história de Israel, via de regra quando ocorriam invasões e havia necessidade de um Libertador. Dado importante é que esses juízes nunca atuaram sobre todo o Israel, mas na opressão verificada nas tribos, isoladamente 1 .

Os “juízes” eram, no mais das vezes, líderes tribais que tiveram suas tradições preservadas e que podem ter vivido simultaneamente, visto que suas participações se circunscrevem a áreas, não havendo, ainda, a concepção de Israel como conceito político unificado; é o tempo em que “cada um fazia o que parecia certo aos seus olhos” 2 . Sua sociedade era agro-pastoril, centrada nas famílias, clãs e tribos.

O Livro dos Juízes se divide da seguinte forma:

2.1. Jz 1.1-2.5: Conquistas feitas aos poucos e incompletas da terra pelas tribos individualmente, depois da morte de Josué;

2.2. Jz 2.6-3.6: Introdução à Era dos Juízes;

2.3. Jz 3.7-16.31: Narrativas dos Juízes em suas funções;

2.4. Jz 17-21: Duas narrativas da época dos Juízes.

3. O Livro de Rute 3 : Rût

Dentre as narrativas existentes no Livro dos Juízes, bem poderíamos incluir a novela do Livro de Rute. O contexto para o enredo nos reporta aos tempos pré-monárquicos, provavelmente aos tempos dos Juízes.

Conta a história da família de Noemy, que para fugir da fome reinante na terra muda-se para Moabe. Porém, não é feliz lá e volta. Nesse retorno, Rute, que é moabita, resolve ficar junto com a sogra, as duas acabam sendo salvas, literalmente, por Boaz, tornando-se a moabita, antepassada do Rei Davi.

É uma novela que exalta a fidelidade, a integridade e a fé em Javé, que aparece na

narrativa como Aquele que orienta a vida das pessoas e está presente com os necessitados.

Seu valor está em justamente realçar a experiência de pessoas comuns, tanto com Javé como com a Torah que, se praticada, proporciona à Israel o exercício da misericórdia e, conseqüentemente, o favor divino.

4. Os Livros de 1 e 2 Samuel: Shemuel 4

Os nomes desses dois livros poderiam estar ligados à tradição judaica segundo a qual foram redigidos por Samuel, Natan e Gad, como já 1 Cr 29.29 manifestamente o supõe.

1 Otoniel, de Judá; Eúde, de Benjamim; Débora, de Efraim; Barac, de Naftali; Gideão, de Manassés; Tola, de Issacar; Jair, de Gileade; Jefté, de Gileade; Sansão, de Dã etc. 2 Jz 17.6.

3 Significa “Vistosa”.

4 Significa “Nome de Deus”: Shemû+el.

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No Cânon, os dois livros constituíam, originalmente, uma unidade que só se desfez nos manuscritos e nas impressões hebraicas executadas a partir de 1448. A versão da LXX (Septuaginta) reuniu os livros de Samuel e Reis num só livro chamado Reinos e o subdividiu em quatro livros numerados seguidamente, dos quais os dois primeiros correspondem a 1 e 2 Sm e os últimos, a 1 e 2 Reis.

1 e 2 Sm são fruto da unificação de várias tradições. Os livros, como os temos, já são um processo elaborado, ou seja, alguém juntou as tradições e deu forma redacional para que, lido, pudesse apresentar uma certa coerência de conteúdo.

Seu conteúdo engloba as tradições de Samuel, Saul e Davi 1 . Todo o contexto dos livros está voltado para as batalhas, primeiro de Samuel, depois de Saul e Davi, contra os filisteus e as dificuldades inerentes a isso. Nesses livros vamos encontrar a gênese da função do profeta em Israel, exemplificada nas figuras de Samuel, Natan, Gad e outros não identificados, mas que exerceram seu ministério.

II - A MONARQUIA EM ISRAEL

A Monarquia israelita abrangeu quatro séculos. Os três primeiros reis exerceram seu governo sob uma nação unida. Essa monarquia unida durou pouca coisa mais do que um século, iniciando-se por volta de 1020 a.C.

Sua origem está centrada no fato de que os filisteus estavam se tornando uma ameaça militar muito forte, fazendo com que os israelitas desejassem ter as mesmas condições para enfrentá-los 2 .

Para atingir esse fim, Israel precisa deixar de ser tribal. Antes da Monarquia, não havia Estado. As decisões eram isoladas, ocorrendo nas tribos, clãs, cidades-estado e outras subdivisões que mostram bem a diversidade de relações do Israel pré-monárquico.

As tribos se uniam, na eventualidade de acordos ou ataques inimigos. Os estudiosos falam de uma Confederação de Tribos (Anfictionia), que se reunia para deliberar atividades conjuntas, possuindo uma liderança flutuante. Outros, aventam a hipótese de não haver tal confederação, mas uma união de duas ou mais tribos ou cidades-estado, para fazer frente a algum perigo comum. O certo é que não havia estado constituído. As funções de natureza religiosa e ritual eram executadas, via regra, pelos pais de família ou chefes de clãs, em santuários locais.

1. O Período de Saul: Sha’ul 3 1 Sm 10-31

1 Podemos dividi-lo da seguinte forma: a) 1 Sm 1-7: As tradições de Samuel; b) 8-15: Samuel e Saul; c) 16-31: Saul e Davi; d) 2 Sm 1-8: Ascensão de Davi; e) 9-20: Governo de Davi e a sucessão no trono; f)21-24: Apêndices falam dos Gibeonitas, dos Heróis de Davi, um Salmo, suas últimas palavras, nova lista de heróis e o recenseamento e a epidemia. 2 "Possuíam os filisteus a vantagem da liderança oligárquica, ao contrário das cidades-estado cananéias divisivas, e suas armas de ferro e força de choque móvel faziam deles lutadores eficazes na região das colinas. Essa ameaça unificada punha em movimento uma contrabalançadora defesa militar unificada da parte de Israel”. GOTTWALD, N. K. - Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica - pág. 304. 3 Significa “Pedido de Deus”.

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É provável que Saul tenha governado por volta de doze ou vinte dois anos. Sua escolha se

reveste de controvérsia, pois existem textos que dizem ter sido ele ungido por Samuel 1 e, de outro lado, que foi resultado do desejo de Israel de ter um rei, insurgindo-se contra a realeza de Javé 2 . Também sua rejeição é narrada duas vezes 3 .

Acredita-se que Saul não tenha sido um rei, na verdadeira acepção do termo, por, entre outras coisas, não possuir uma sede para seu governo; não conseguir montar um exército regular; não ter exercido funções administrativas nem construído nada. Sua passagem por Israel é puramente militar e seu reinado é marcado por um estado constante de guerra! Podemos dizer que seu “reinado” não passaria de uma “pré-monarquia”.

Nos textos mais antigos, Saul não é chamado de rei, malkah, mas de noged príncipe ou comandante. Exerceu sua liderança por todo o tempo da beligerância com os filisteus, o que equivale a toda a sua vida. Morreu guerreando, sem condições para outorgar sua liderança ao descendente.

Existem algumas particularidades quanto ao reinado de Saul. Não se pode deixar de mencionar sua capacidade militar, bem como sua dificuldade de manter-se fiel aos princípios estabelecidos por Samuel. Percebe-se uma constante tensão entre as instituições da monarquia, do sacerdócio e do profetismo. O capítulo 28 nos testemunha a sua incapacidade de aceitar que seu tempo havia terminado.

Seu relacionamento com Davi também é tumultuado, havendo momentos de grande tensão entre eles. Os relatos nos falam de situações difíceis, de origem espiritual 4 e da presença de Davi, como que para aliviá-lo de seu sofrimento. Um final melancólico para um herói de guerra! Seu mérito? Preparar as tribos para a liderança de Davi e a instalação do Estado de Israel.

2. Davi David 5 A Instituição do Estado. (2 Sm)

A Monarquia começa, efetivamente, com Davi. O estabelecimento do Estado, com todas

as suas características, terá seu auge no período de Salomão, mas Davi é o rei por excelência. Ele é chamado de “malkah”!

Sua subida ao trono não se deu pacificamente. Os textos nos informam que houve luta entre os adeptos de Saul e de Davi, para se saber quem seria o seu sucessor 6 . Davi, depois de ter sido aclamado rei sobre todo o Israel, assume para si a guerra com os filisteus e os derrota. A partir daí, começa uma nova fase para Israel.

1 1 Sm 9.1-10.16 2 1 Sm 8.10, 17ss 3 1 Sm 13.8ss e 15.10ss 4 1 Sm 16 5 Significa “Amado”. 6 2 Sm 2.

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O reinado de Davi institui, de uma vez por todas, o Estado. Conquistando Jerusalém, uma

cidade que não pertencia a nenhuma tribo, inaugura um governo independente e de estrutura.

A capital necessita de funcionários que desempenhem os papéis vários de um Estado. Há um

esforço que se coroa de êxito na centralização da fé em Javé, na cidade de Jerusalém, quando do transporte da Arca da Aliança 1 .

As guerras não se resumem aos filisteus somente. Também os amonitas, moabitas e edomitas são alvo da espada de Davi, estabelecendo a hegemonia de Israel até o rio Eufrates.

É importante ressaltar que tais êxitos políticos militares se dão, por falta da presença das

grandes potências, que neste período estão enfraquecidas e portanto, possibilitam o surgimento

e fortalecimento de reinos menores.

Como as necessidades do Estado davídico eram relativamente baixas, os tributos também

o foram, pois suas construções se afiguram modestas. No entanto, a provisão de fundos e material para as edificações posteriores, foram abundantes.

O narrador (Obra Historiográfica do Deuteronomista) no entanto, não deixa de mencionar

as desventuras de Davi, tais como o adultério com Bete-Seba e o conseqüente assassínio de Urias, seu marido; as dificuldades com Absalão e a guerra sucessória; e as insubordinações de Joabe, seu general e cúmplice.

Por fim, legou ao seu filho Salomão um Estado com francas possibilidades de expansão, o que será plenamente realizado.

3. O Reinado de Salomão: Shelomoh 2 1 Rs 1-11.

No momento que assume o trono, Salomão precisa sufocar uma rebelião e uma tentativa de golpe de Estado, perpetrado e levado a cabo por seu irmão Adonias e o sacerdote Abiatar 3 .

Desse modo, realiza logo todas as “maldades 4 ” no início de seu governo, demonstrando capacidade e autoridade, o que fundamenta o seu reinado perante as tribos. Salomão procurou solidificar seu reinado da seguinte maneira: a) buscou recursos nos excedentes agrícolas produzidos pelos camponeses das tribos; b) tributou as caravanas que tinham forçosamente que passar pelo território, taxando-as na entrada e na saída, conferindo- lhes segurança em todo o trajeto por dentro do reino; c) realizou astutas operações comerciais vendendo armas, cavalos e carros de guerra egípcios a outros estados.

1 2 Sm 6.12-23: Esse relato do transporte da Arca é de fundamental importância, pois a Arca era o objeto que significava a presença de Javé e sua vinda para Jerusalém designava essa cidade como sendo a morada de Deus. 2 Significa “Pacífico”.

3 1 Rs 2.13-27.

4 Uma curiosidade: Maquiavel, que viveu na Idade Média, aconselhou o Príncipe a, quando assumisse o trono, realizar todas as maldades de uma só vez e no início do reinado, pois, dizia ele, “as maldades o povo esquece com o tempo”; no entanto, as bondades deveriam ser feitas aos poucos, pois o príncipe deveria ser sempre lembrado como benfeitor e homem bom.

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Também militarizou o seu estado, para que pudesse fazer frente a todas as atividades.

Nas suas realizações, contam-se as construções suntuosas do Palácio Real; o Templo; cavalariças

e outros palácios, relatados pelo texto bíblico.

Salomão procedeu a uma reforma administrativa, nomeando novos funcionários e centralizando o comando do Estado. Paralelo a isso, vamos ver surgir em Israel desse período, um surto muito importante de literatura.

O culto mereceu especial atenção por parte do rei. Existem registros de sacrifícios monumentais 1 bem como dotou o Templo de altares, pias e demais utensílios, para que fossem usados na adoração de Javé. Naturalmente, instituiu e fortaleceu o sacerdócio.

Porém, um Estado edificado sobre bases econômicas frágeis tende a se deteriorar. Assim, apesar de haver o povo de Israel percorrido rapidamente a distância de uma confederação tribal para um Estado politicamente organizado, tal situação lançou Israel na seguinte situação:

3.1. Centralismo político: Um estado tem o poder de alistar e de tributar, como possui

também o monopólio da força. A criação de exércitos permanentes; funcionários para realizar o serviço burocrático; ocasionou um esvaziamento do campo, no recrutamento da mão-de-obra que deveria estar produzindo riqueza, mas que agora apenas consome e se torna abastada;

3.2. Distanciamento de Classes Sociais: A criação de uma classe nova, emergente, a

dos funcionários do Estado, causa uma mudança no panorama social de Israel, com o surgimento de ricos servidores do reino, que aplicam suas economias na cidade e na expansão da atividade

financeira através de empréstimos a juros altos. O resultado é a distância cada vez maior entre

a classe nobre emergente e o camponês da tribo, que se vê sem mão-de-obra e sem recursos para produzir, tendo que pagar mais imposto e aumentar sua produtividade;

3.3. Transformações no Direito da Terra: O camponês, sem dinheiro para pagar suas

dívidas, entrega sua terra. E depois, para sobreviver, vem para os aglomerados citadinos e se vende como escravo; é o fim da dignidade humana. As terras, a par disso, se tornam propriedade de poucos e muitos ficam sem seu meio de subsistência, rumando para as cidades;

3.4. Conseqüências domésticas do comércio exterior: Naturalmente, a política externa

se funda no comércio, na diplomacia e na guerra. Davi conseguiu manter-se e não somente isto,

alargou suas fronteiras. Salomão as mantém até certo ponto, quando começa a perder suas possessões por causa das invasões constantes e da incapacidade do Estado de fazer frente a

elas. Internamente, já está presente o germe que dará seu fruto no reinado de Roboão, dividindo

o Estado.

O final do governo de Salomão é melancólico. O texto nos informa que ele se deixou levar pelas esposas (setecentas esposas e trezentas concubinas 2 ) e construiu santuários idólatras por todo Israel. Roboão herdou todas estas dificuldades, perdendo, finalmente, uma parte considerável do Reino para Jeroboão. Estava terminada uma era de unidade do Reino de Israel, e começava um período de vigência dos Reinos do Norte e do Sul.

1 1 Rs 8.62-63. 2 1 Rs 11.3.

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III - A SEPARAÇÃO DO REINO DE ISRAEL (1 Rs 12 - 2 Rs 25)

Após a morte de Salomão, sobe ao trono seu filho Roboão. Por causa das dificuldades econômicas, agravadas pelo reinado de Salomão, as tribos desejam uma situação mais favorável para sobreviverem diante da crise. Tal não acontece com Roboão, deixando clara uma política de mais tributos, o que ocasiona a cisão ocorrida por volta de 931 a.C., dando origem a Israel, Reino do Norte e a Judá, Reino do Sul.

1. Israel, Reino do Norte (931-722 a.C. 1 ).

O Reino do Norte foi formado por dez tribos, sendo que destas, a tribo de Efraim sempre

foi a mais numerosa e mais forte, havendo ocasiões nas quais o texto bíblico refere-se a Israel, mas usando o nome de Efraim como sinônimo de todo o povo.

As raízes do surgimento do Reino do Norte estão fundamentadas na situação econômica e tributária do Reino Unido. Por outro lado, não se pode ignorar a participação profética que, por meio de Aías 2 , desencadeia o processo, culminando na separação e estruturação sob o primeiro rei, Jeroboão I.

1.1. Jeroboão: Yarabe’am 3 931-884 a.C 4 : Seu reinado constitui a primeira dinastia e segue, basicamente, a mesma estrutura do governo de Salomão, ainda que sem as mesmas condições para desenvolvimento imediato.

Algumas cidades importantes são tomadas e temporariamente transformadas em sede de governo 5 . Além do problema da centralização da administração, é preciso pensar na questão do culto, pois o povo não pode continuar indo a Jerusalém. Daí, torna-se necessário substituir o culto no Templo de Jerusalém pelos santuários de Dã e Betel, em que se introduzem os “bezerros de ouro”. Esses, por sua vez, não tinham conteúdo idolátrico porque serviam apenas de suportes do Trono de Javé. O redator, que era de Judá, interpreta dessa forma, por razões de preconceito contra Jeroboão e seu governo. Todo o problema é causado pela descentralização do culto a Javé.

O culto precisa de oficiantes. Não podem ser os mesmos de Jerusalém. Assim, Jeroboão

destitui os levitas e institui novos sacerdotes, para que ministrem em Israel, nos santuários escolhidos.

Esse período é difícil tanto para Israel como para Judá, pois o Egito, pelo quinto ano do reinado de Jeroboão e Roboão 6 , no desejo de reafirmar sua soberania sobre os reinos

1 Os textos de Tradição Histórico-Deuteronomista desse período: 1 Rs 12 a 2 Rs 17.

2 1 Rs 11.29ss.

3 Significa “O povo tornou-se numeroso”.

4 1 Rs 12.16 a 16.15 .

5 Siquém, Peniel e Tirza, 1 Rs 12.25-33.

6 1 Rs 14.25.

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palestinos, promove uma campanha militar com a finalidade de enfraquecer militarmente os mesmos e reafirmar a hegemonia egípcia no local. Deste modo, embora houvesse guerra constante entre os dois Reinos, nenhum pode dar cabo do outro, por absoluta incapacidade militar para isso.

Tanto Jeroboão como Baasa reinaram brevemente, derrubados por golpes militares, dando origem à dinastia seguinte.

1.2. Omri: ‘âmêry 1 880-841 a.C. 2 : Zimri ocupa o trono, depois de assassinar o rei 3 ! Omri, seu sucessor, utiliza-se do mesmo método 4 , proclamando-se rei e tendo de enfrentar uma guerra civil por quatro anos, saindo dela vitorioso 5 .

Ao tornar-se rei, inicia um governo que deseja perpetuar-se pelas realizações. Estabelece sua capital em Samaria 6 , e desenvolve boas relações com a vizinhança, fazendo alianças. Seu filho Acabe, procede da mesma forma, transformando Israel e concedendo-lhe a condição de ser notado no cenário internacional.

Ao lado de tanta opulência, naturalmente que Javé levanta os seus profetas, pois injustiças se fazem. É o período de Elias e Eliseu.

As tradições de Elias: ‘elyahu 7 e Eliseu: ‘elysha’ 8 são importantes depósitos sobre as condições em que se deram as relações sociais e cultuais na dinastia de Omri, sobretudo no reinado de Acabe.

Os profetas eram as únicas vozes a levantar-se contra a opressão que se exercia sobre o povo comum da terra. A própria vivência deles junto aos chamados “bandos de profetas” é testemunho claro de sua opção, pois estes grupos viviam à margem da sociedade, tendo que subsistir da melhor maneira possível, provavelmente camponeses sem terra, perdidos aos grandes proprietários, existentes graças ao advento do estado.

Paralelamente a isso vemos, nesse período, fruto do casamento de Acabe com Jezabel, princesa sidônia, o desvirtuamento da lei e do culto a Iahweh, ocasionando forte oposição dos profetas que, neste momento, promovem um movimento de retorno ao Deus de Israel, participando de lutas religiosas e desafios ao poder do rei.

Os exemplos de opressão e torção da justiça e dos costumes se exemplificam na narrativa do caso da vinha de Nabote 9 , o que não ficou sem a condenação do profeta Elias

1 Significa “grosseiro, impetuoso”. 2 1 Rs 16.21 a 2 Rs 9.37. 3 1 Rs 16.10ss. 4 1 Rs 16.18. 5 1 Rs 16.21ss. 6 1 Rs 16.24. 7 Significa “Javé é meu El( Deus)”. 8 Significa “El (Deus) é salvação”. 9 1 Rs 21.

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Outra observação importante é a participação política ativa dos profetas desse período, Elias e Eliseu, no processo de desestabilização do rei, criando as condições de derrubada, ungindo simplesmente outro para o lugar do monarca. Percebemos o reconhecimento da autoridade espiritual, visto que suas unções causavam aquilo para o qual haviam sido planejadas. Sua palavra era respeitada e sua fonte, sempre compreendida como sendo Javé.

Elias e Eliseu (e os outros profetas anônimos 1 ) são importantes para firmar a superioridade de Javé sobre Baal; para amparar as comunidades destituídas, vivendo na fome, na miséria e até na falta de ferramentas para o trabalho 2 ; suas intervenções se dão pela absoluta falta de

amparo das instituições religiosas, jurídicas e administrativas do reino. São a única possibilidade

e esperança de um povo desiludido e produto da opressão e do descaso.

A atuação dos profetas e a existência de desprovidos e marginalizados nos fazem pensar

no fato de que a dinastia de Omri reativou a cobrança de impostos, com a finalidade de sustentar

o “desenvolvimento” do reino.

1.3. Jeú: Yehu’ 3 841-752 4 era militar. Toma o poder depois de ter sido ungido pelo moço de Eliseu. Sua escolha está diretamente ligada à destruição do culto a Baal, favorecido pela casa real de Israel. Assim, mata os representantes e partidários da Dinastia de Omri e proclama-se rei, não antes de executar também o rei de Judá!

Decepciona os círculos proféticos ao não se libertar do domínio estrangeiro, tornando-se vassalo da Assíria. Embora tenha dado um golpe duro no culto a Baal, o fato de submeter-se aos assírios implicitamente reconhece os deuses dos mesmos. Outra expectativa dos profetas era a restauração das condições de vida da população, o que não deve ter acontecido, haja vista a necessidade de pagar pesados tributos aos dominadores estrangeiros, por conta de uma pretensa liberdade de existir como nação.

No decorrer do tempo, Damasco e Assíria se enfraquecem. Isso possibilita a Jeroboão II conseguir um certo surto de desenvolvimento, com o progresso da agricultura, ainda que

beneficiando apenas uma certa classe. Assim, veremos o profeta Amós denunciar os privilégios

e o enriquecimento desenfreado de alguns, em Israel.

O assassinato de Zacarias 5 , filho de Jeroboão II, desencadeia uma série de distúrbios.

Manaém 6 , com o desejo de assegurar-se no trono, paga pesado tributo aos assírios, dando origem a um movimento antiassírio que sob Peca foi esmagado, havendo a

1 1 Rs 19.18. 2 2 Rs 6.5ss. 3 Significa “Ele é Iahweh”. 4 2 Rs 10.1 a 2 Rs 15.12. 5 2 Rs 15.10. 6 2 Rs 15.14.

34

primeira deportação 1 . Sob Oséias, cai Samaria diante da Assíria, depois de haver sido descoberta uma conspiração para libertar-se 2 .

Dessa forma, encerra-se a história do Reino do Norte, Israel, cativo que foi para a Assíria, no ano 722 a.C. Sua duração foi de cento e nove anos, aproximadamente. O povo de Israel foi espalhado pelos assírios com a finalidade de quebrar qualquer nacionalismo. O resultado foi a perda quase completa dessa parte do povo de Deus.

Os seus reis foram: Jeroboão I, Nadabe, Baasa, Ela e Zimri; Omri, Acabe, Acazias e Jorão; Jeú, Joacaz, Joás, Jeroboão II e Zacarias; Salum, Manaém, Pecaías, Peca e Oséias.

2. Judá, Reino do Sul (931-586 a.C. 3 ).

2.1. Roboão: Rehabe’am 4 931-913 a.C., é o sucessor de Salomão. Conforme o texto

bíblico 5 , sua administração se caracterizou pela inabilidade política, com a finalidade de manter

o

Reino Unido. Durante todo o seu reinado houve guerra entre os dois reinos, Israel e Judá.

2.2.

A religião continuou decadente, e seu filho Abias: ‘abyam 6 913-910 a.C., assume

o

trono, herdando um estado saqueado pelo Faraó Sisaq, rei do Egito. Reinou apenas três anos.

2.3. Asa: ‘asa’ 7 910-869 a.C., é o sucessor de Abias 8 . Seu contexto também é de

guerra contra Israel. Seu reinado caracteriza-se por uma pequena reforma no culto e na religião, fazendo derribar os templos pagãos e consagrando utensílios para o Templo de Javé. A principal virtude foi conferir estabilidade ao Reino de Judá.

2.4. Josafá: Yehoshaphat 9 869-848 a.C., rei de Judá no lugar de Asa, seu pai, amplia

as fronteiras de Judá. Seu governo caracteriza-se pelo zelo com o culto de Javé. Também existem registros de suas construções e realizações na política exterior, bem como uma reorganização interna, com o estabelecimento de juízes por todas as cidades importantes de Judá.

A aliança entre Josafá e Acabe vai nos proporcionar um texto muito interessante sobre Micaías, um dos profetas de Javé, preso em Israel 10 justamente por falar contra os pecados do rei.

1 2 Rs 15.29. 2 2 Rs 17.1-6. 3 Os textos da Tradição Histórico Deuteronomista que nos contam a história do Reino do Sul: 1 Rs 12 a 2 Rs 25. 4 Significa “O povo cresce”. 5 1 Rs 14.21-31. 6 Significa “Javé é Pai”. 7 Significa “médico”. 8 1 Rs 15.8. 9 Significa “Javé julgou”. 10 1 Rs 22.13-28.

35

2.5.

Morto Josafá, seu filho Jeorão: Yehoram 1 848-841 a.C., reinou em seu lugar, na

cidade de Jerusalém. Seu governo foi catastrófico, tendo que administrar crises internacionais com os edomitas, amonitas e os povos de Libna 2 , sujeitados por Josafá. O autor de Reis não tem sobre ele opinião muito favorável, pois era genro de Acabe, rei de Israel.

2.6. Acazias: ‘ahazeyahu 3 841 a.C., reina no lugar de seu pai, mas dura pouco. É

assassinado por Jeú, que toma o trono de Israel. O trono de Judá é usurpado pela mãe de Acazias, Atalia: ‘ataleyah 4 841-835 a.C., que para manter-se no poder manda matar todos os descendentes da família real. Somente Joás: Yero’ash 5 ) 835-796 a.C., escapa 6 para se tornar rei, aos sete anos de idade 7 , sendo Atália executada pelos adeptos de Joás. Nos seus dias, houve guerra com a Síria, que só se retirou depois de receber pesados tributos 8 . Joás foi assassinado!

2.7. Amazias: ‘amatçyahu 9 797-767 a.C., filho de Joás, reinou durante vinte e nove

anos em Jerusalém. Sua primeira providência foi vingar a morte de seu pai, mandando justiçar os servos que o mataram.

Nos seus dias, guerreou com os edomitas e os venceu. Ficou entusiasmado e desafiou o rei de Israel, sofrendo fragorosa derrota, tendo os cofres de Jerusalém saqueados e as muralhas, parcialmente derrubadas. Seu fim foi o mesmo de seu pai: assassinado em Laquis 10 .

2.8. Sucedeu-o no trono, com apenas dezessete anos, seu filho Uzias: ‘uzyahu 11 767-

739 a.C. Ficou leproso e Jotão, um dos seus filhos, assumiu a tarefa de governar a casa real e também o reino. Uzias, citado em 2 Cr 26.1-15, é o mesmo Azarias, de 2 Rs 15.1-4.

2.9. Jotão: Yotam 12 739-731 a.C., manteve a mesma política de seu pai. Teve de

enfrentar invasões promovidas por Israel e pela Síria.

1 Significa “Javé é sublime”. 2 2 Rs 8.20-22. 3 Significa “Javé tem sustentado”. 4 Significa “Javé aflige”. 5 Significa “Javé é forte”. 6 2 Rs 11.1-3. 7 2 Rs 11.4-12; 2 Cr 24.1. 8 2 Rs 12.17. 9 Significa “Javé é forte”. 10 2 Rs 14.19. 11 Significa “Força de Javé”. 12 Significa “Javé é reto”.

36

2.10.

Seu filho Acaz: ‘ahaz 1 731-715 a.C., assume, após sua morte, tendo que se

haver com a guerra promovida por sírios e efraimitas. O resultado é um acordo com a Assíria, que ataca Damasco e leva cativos os sírios. Haveria de fazer o mesmo, mais tarde, com Israel, destruindo Samaria e levando os israelitas cativos.

Esta aliança marca profundamente o reino do sul, pois introduz os costumes assírios em Judá, bem como os seus deuses, dificultando a prevalência do culto a Javé. O autor de Reis deplorará tremendamente essa situação, descrevendo o rei desfavoravelmente 2 .

Em relação a esses reis que governaram Judá antes da queda de Samaria (722 a.C.) deve-se ressaltar a sua preocupação em proclamar os seus sucessores, fazendo-os participar da administração, o que conferiu estabilidade ao trono e talvez tenha sido a causa de o Reino de Judá sobreviver mais tempo independente.

A partir do ano 722 a.C., o Reino do Sul, Judá, com capital em Jerusalém, vai existir sozinho na Palestina, pois Israel já não existe mais.

Sua existência, no entanto, se deve à condição de vassalo da Assíria, situação esta que Ezequias, filho de Acaz, deseja mudar.

2.11. Ezequias: Hizeqyah 3 715-686 a.C., assume o trono na condição de servo do rei

da Assíria, mas, logo, segundo parece, alia-se ao Egito 4 (713-712 a.C.) tendo, porém, que se submeter uma vez mais, para não sofrer conseqüências sérias.

Em 705 a.C., novamente Ezequias participa de uma revolta bem arquitetada com outros reinos, envolvendo os caldeus da Babilônia. Não deu certo, mas os tributos pagos o livraram de ser deposto e sua cidade, destruída, embora os arredores de Judá sofressem terrível destruição 5 .

Ezequias celebra uma Páscoa. Para o acontecimento, convida todas as tribos remanescentes do Norte, numa clara tentativa de se tornar o rei de todos os israelitas. Aliás, esse rei procurou purificar o culto javista de todos os elementos assírios introduzidos por Acaz, seu pai, revitalizando um sentimento nacionalista que serviria para alimentar o desejo de libertar-se da Assíria.

2.12. O próximo rei é Manassés: Manasheh 6 686-642 a.C. Apesar de um reinado

longo (55 anos), produziu muito pouco documento para que pudesse ser avaliada

1 Significa “Ele tem sustentado”.

2 2 Rs 16.10-18.

3 Significa “Javé dá fortaleza”.

4 2 Rs 18.21.

5 Tiglate-Pileser III assim se pronuncia sobre este confronto: “

Quanto a Ezequias do país de Judá, que não tinha se submetido

ao meu jugo, sitiei e conquistei 46 cidades que lhe pertenciam, fortificadas com muralhas, e as inumeráveis pequenas cidades dos seus arredores, por meio de superposição de rampas e de golpes de aríetes, de ataques de infantaria, por meio de perfurações, de brechas e da utilização de instrumentos de sítio; fiz sair delas e contei como despojos 200.150 pessoas, pequenos e grandes,

Quanto a ele (Ezequias), encerrei-o em Jerusalém,

Mitinti, rei de Ashdot, a Padi, rei de Eqron e a Cilbel, rei de Gaza

VV.AA - Israel e Judá - Textos do Antigo Oriente Médio - Ed. Paulinas - São Paulo - 1985 - pág. 76

Cortei do seu país as cidades pelas quais havia incursionado e as dei a ”

in:

6 Significa “que faz esquecer”.

37

sua conduta e sua administração. Vassalo dos assírios, cooperou com eles pagando-lhes pesados tributos 1 .

No seu tempo, o culto a Javé se viu totalmente esquecido, sendo introduzida toda forma de idolatria e feitiçaria; cultos sacrificiais de crianças (até do próprio filho do rei!) e outras práticas abomináveis para o autor de Reis 2 que, segundo ele, culminaram no juízo sobre Judá e sua destruição.

2.13. Depois da morte de Manassés, seu filho Amon ‘amon 3 642-640 a.C. assume o

trono, mas fica nele por pouco tempo. Seus servos o matam dentro de sua própria casa. Houve revolta contra o assassinato e depois de justiçados os tais servos, Josias é proclamado rei.

2.14. Josias: Y’oshyahu 4 640-609 a.C., é outro rei criança. Seu governo inicia-se nos

seus oito anos de idade 5 . Seu reinado se reveste de importância, pois nele acontece um dos mais importantes movimentos de reforma da religião que se tem notícia nos anais dos reis de Judá. Talvez pelo fato de ser tutelado pelos sacerdotes, Josias se propõe, com o descobrimento do Livro da Lei (Deuteronômio), a purificar o Templo de Jerusalém e os lugares santos, a publicar o Livro da Lei descoberto e a centralizar todo o culto a Javé em Jerusalém, fechando os santuários distantes.

Josias pode ter obtido sucesso em seu programa, devido ao fato de que a Assíria já não existia mais e os colaboracionistas, tão denunciados pelos profetas, haverem caído em desgraça.

Assim como Ezequias idealizara, Josias conseguiu promover um soerguimento do Reino do Sul, Judá, restaurando-lhe, mais uma vez, a identidade cultual com Javé. O programa do rei poderia ter conhecido maior sucesso. Jeremias, falando contra Jeoaquim 6 , deixa clara a preocupação de Josias com uma justiça social, que foi interrompida pela campanha contra o Faraó Necao, perdendo a vida na batalha do vale do Megido em 609 a.C. 7 .

2.15. O povo, entristecido com a morte de Josias, entroniza seu filho, Jeoacaz:

Yeho’ahaz 8 609 a.C., que, ao final de três meses de governo, é deposto por Necao, que coloca outro filho de Josias, Eliaquim, mudando-lhe o nome para Jeoaquim:

1 As crônicas de Asaradon, soberano assírio:” Então ordenei aos reis de

Manassés, rei da cidade de Judá

carrear, com grande dificuldade,

granito,

blocos de alabastro,

2 2 Rs 21.1-18.

3 Significa “Segurança”.

4 Significa “Javé sara”.

5 2 Rs 22.1.

6 Jr 22.15-16.

7 2 Rs 23.29ss.

8 Significa “Javé se apoderou”.

para Nínive

grandes troncos, excelentes colunas, longas vigas de cedro

brita

para as necessidades do meu palácio.” in: Israel e Judá - pág.79.

38

,

que fizessem

colossos de

Yehoyaqym 1 609-598 a.C., levando Jeoacaz para o Egito, onde, diz o texto bíblico, que morreu 2 .

Jeoaquim tornou-se vassalo do Egito. No entanto, com a invasão babilônica de Canaã, transferiu sua vassalagem para a Babilônia, tendo se revoltado logo depois 3 . Seu reinado foi tumultuado e tremendamente opressor, tanto que Jeremias faz contra ele vaticínios imprecatórios.

2.16. Sucedeu-lhe ao trono seu filho Joaquim: Yehoyakhyn 4 598-597 a.C., que reinou

somente três meses, tendo de enfrentar a primeira campanha de Nabucodonozor contra Jerusalém, que levou consigo para Babilônia, cativa toda a nobreza de Judá bem como os artífices de toda obra, saqueando também o Templo e todas as riquezas da Casa Real.

2.17. Nabucodonozor colocou no trono o tio de Joaquim, Matanias, mudando-lhe o nome

para Zedequias: Tçideqyahu 5 597-586 a.C. Depois de várias intrigas antibabilônicas, Zedequias foi deposto por Nabucodonozor, Jerusalém destruída (586 a.C.) e o Reino de Judá transformado em província. Todos os chefes e líderes, ainda presentes em Judá, foram levados cativos numa segunda deportação. Os babilônios colocaram um governador chamado Godolias que, sendo objeto de oposição, acabou assassinado e os seus executores, com medo da reação do Império caldeu, fugiram para o Egito, levando consigo o profeta Jeremias!

Findada a tentativa de ser um reino independente, Judá só retornará, após o edito de Ciro, em 538 a.C., para reconstruir o Templo e, após, os muros de Jerusalém.

IV - O RETORNO DOS EXILADOS NA BABILÔNIA

Sabe-se que os que voltaram não representavam todos os cativos. Os exilados, depois de setenta anos, tinham dificuldades para abandonar a vida construída em Babilônia para aventurar- se pela Palestina novamente. Assim, o Israel pós-exílico é formado por, no mínimo, quatro influências: a) dos que voltaram da Babilônia para a Palestina e reconstruíram Jerusalém e o Templo; b) dos que permaneceram em Babilônia mas mantiveram contato com Judá; c) dos que ficaram e viveram na própria terra, não sendo deportados por não representar lucro ao Império; d) dos que foram para o Egito e desenvolveram uma cultura própria, distante da teologia herdada da dominação medo-persa. 1. Período Persa (538-332 a.C.).

1 Significa “Javé estabeleceu, ou que Javé levante”. 2 2 Rs 23.34ss. 3 2 Rs 24.1ss. 4 Significa “que Javé estabeleça”. 5 Significa “retidão de Javé”.

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Em 539 a.C., Ciro toma Babilônia e inaugura uma nova era para as comunidades em exílio. A política persa é mais flexível, permitindo, praticamente um ano depois, em 538 a.C., que os judeus possam voltar para Jerusalém e reconstruir o Templo.

1.1. Sesbazar: Sheshbhatçar 1 538 a.C. 2 , recebe de Ciro a incumbência e as condições

para voltar e reedificar o Templo de Jerusalém. Pouca informação existe dessa primeira missão, acreditando-se que se tratava mais de uma sondagem do que uma expedição com a finalidade de fixação na terra.

1.2. Zorobabel: Zrobabel 3 520 a.C., e Josué são mandados para a Palestina no tempo

de Dario, com a preocupação básica de reconstruir Jerusalém para interpor essa às dificuldades geradas por um Egito inquieto. O cap. 2 de Esdras nos apresenta uma lista de repatriados que tem por finalidade satisfazer uma necessidade persa de recensear Judá e a legitimação dos que pertenciam à verdadeira comunidade do culto a Javé. O Templo foi reconstruído por Zorobabel e Josué entre 520-515 a.C.

1.3. Neemias: Nehemyah 4 445-430 a.C., foi enviado para Judá como governador da

província com poderes para reedificar Jerusalém, reorganizando a sociedade judaica e instalando uma administração provincial.

Apesar da reconstrução do Templo, a cidade estava ainda em ruínas e a população era extremamente baixa, o que não interessava à metrópole medo-persa. É claro que uma Jerusalém fortificada e repovoada realçava a administração imperial, o que não interessava aos adversários, sempre envolvidos com revoltas oriundas da Síria, da Grécia e do Egito. É nesse contexto que devemos encaixar Sambalá, Tobias e Gesém, adversários e quase assassinos de Neemias 5 .

Reconstruída a cidade e os seus muros, surge outro problema: as dificuldades com aqueles que passavam a viver uma condição sócio-cultual dúbia, tomando para si mulheres não israelitas e outras práticas condenadas. Nasce, assim, a necessidade de instrução.

1.4. Esdras: ‘ezra’ 6 428 a.C., vem para a Palestina com a finalidade de fazer valer

como instrumento de normatização da sociedade recém-construída, a Torah! Essa, pela orientação de Esdras, tem o objetivo de fundamentar as normas para o culto e para a convivência em sociedade. Interessa ao poder persa que os judeus vivam sob sua própria lei, objetivando suas pretensões quanto a Jerusalém se tornar a capital de um reino vassalo forte o suficiente para fixar e manter a população, com vistas a defender as posições perante os inimigos.

Os textos que nos servem de base para o conhecimento dessa fase de Israel são os Livros de 1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias. Esses livros bíblicos são, provavelmente, obra de um mesmo autor, chamado pelos estudiosos de Obra Historiográfica do Cronista, que foi composta depois do Exílio babilônico e que tem por objetivo fundamentar a Monarquia

1 Seu nome reflete uma forma hebraica de um nome babilônico que significaria “oh, Shamash, protege o pai”.

2 Ed 1.8. Este texto não parece ter continuidade com o cap. 2. Daí entenderem os estudiosos que, provavelmente, houve outra missão, que é narrada no cap. 2. 3 No acádico, zer babili, que alguns eruditos pensam significar “prole da Babilônia”.

4 Significa “Javé consola”.

5 Ne 6.

6 Significa “auxílio”.

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como a melhor forma de governo e, dentro dessa, eleger o reino de Davi como o modelo a ser seguido para a ressurreição do novo Estado de Israel.

2. O Período Helênico (332-198 a.C.). Alexandre, o Grande, conquistou o Império Persa. Seu domínio estendeu-se da Grécia até a Ásia, levando de roldão os pequenos reinos vassalos da Palestina. Esse conquistador acreditava ser necessário o conhecimento, pelos povos, da forma superior de pensar, ou seja, a filosofia e o conhecimento gregos. Assim, procurou helenizar todos os povos que subjugou.

No Oriente Médio, tal política significou a imposição do imperialismo greco-macedônio, presente pelas armas, contra a cultura estabelecida e amadurecida pelos séculos.

A morte de Alexandre em 323 a.C. desencadeou um período de lutas pela divisão de seu império. Duas décadas foram necessárias para que os domínios ficassem estabelecidos.

Essas lutas não excluíram Judá. Em 301 a.C., Antígono, um dos generais sucessores de Alexandre, foi derrotado, consolidando-se a hegemonia ptolemaica sobre o Egito, a Palestina e a Síria. Judá ficou sob esse poder até o ano de 191 a.C.

Paralelamente à influência helênica em Judá, uma grande comunidade de israelitas se fixa em Alexandria. Esta cidade passa a ser um centro difusor de conhecimento, provocando a tradução das obras conhecidas na época para o grego, inclusive o Antigo Testamento, a versão chamada de LXX (Septuaginta), traduzida do hebraico para o grego por sábios judeus residentes em Alexandria. Ali, houve uma biblioteca de cerca de três milhões de volumes entre história, ciências e literatura da antigüidade.

Em 198 a.C., o domínio da Palestina passou dos ptolomeus para os selêucidas, na vitória de Antíoco III. Os judeus tiveram importante participação nisso, pois ficaram sem pagar impostos por três anos e os sacerdotes ficaram isentos para sempre.

Mas, após alguns anos, as coisas mudaram. As guerras com os romanos puseram fim às pretensões selêucidas e veio a crise fiscal havendo, a partir daí, saques a templos, o que ocasionou uma guerra civil, fazendo surgir os Macabeus que, organizados em bandos, conseguem libertar- se da dominação dos selêucidas.

2.1. Estado Judaico (140 - 63 a.C.).

Os governantes desse período são chamados de asmoneus. O primeiro a governar Judá foi João Hircano (135-104 a.C.). Empreendeu guerras de reconquista, banindo com mão de ferro as comunidades helenizadas e sendo o responsável pela judaização da Iduméia (Edom) e da Galiléia. Em 128 a.C., João Hircano arrasou a cidade de Samaria e destruiu o templo dos judeus heterodoxos no Monte Gerizim.

Internamente, João Hircano sofreu um conflito entre os governistas e os assideus, judeus que tinham uma prática mais radical da fé em Javé e recusavam os modernismos introduzidos na administração, pois João usava os padrões gregos de nomear e organizar seu Estado. Opondo- se aos assideus, futuramente, fariseus, Hircano se aproximava dos saduceus, membros da parcela da sociedade mais abastada, grande parte assim graças às conquistas asmonéias.

Aristóbulo I (104-103 a.C.), governou pouco tempo. Sucedeu-o Alexandre Janeu (103-76 a.C.), que viveu toda a problemática do conflito interno entre os assideus, fariseus e saduceus.

41

Alexandre Janeu teve seu poder contestado pelos camponeses que, na sua maioria, eram tradicionalistas, vendo nos helenistas ricos e abastados a razão da sua condição. Foi com muita dificuldade que o rei conseguiu manter-se no poder. Assim que se viu fortalecido com o apoio de nacionalistas, tomou vingança contra os judeus fariseus que se revoltaram contra ele e, deles, executou certa de 800, juntamente com suas famílias 1 .

Alexandre Janeu foi sucedido por Salomé Alexandra, que fez paz com os fariseus e concedeu-lhes participação nos negócios internos do governo. Após ela, Aristóbulo II procurou apoderar-se do poder de seu irmão, mais fraco, Hircano que, para defender-se, aliou-se a Antípater, pai de Herodes, O Grande. A situação ficou de tal forma que os fariseus recorreram, em 63 a.C., a Pompeu para que não reconhecesse nenhuma das facções envolvidas na luta.

Pompeu nomeou Hircano II sacerdote, não rei. Deportou Aristóbulo para Roma e, mais tarde, Pompeu colocou Herodes como rei de Judá, despojando esse reino de suas possessões gregas. Dessa forma é que Judá entra no Novo Testamento, nos dias de Jesus: governada por um rei vassalo do Império Romano!

Os textos que nos mostram esse período histórico helenista do povo de Israel encontram- se na Bíblia Católica sob o nome de pseudo-epígrafes, tais como 1 e 2 Macabeus, livros que, juntamente com outros produzidos nesta época, não foram aceitos, nem pelos judeus nem pelos protestantes, como parte do Cânon do Antigo Testamento. Possuem, apesar disso, muita informação histórica que nos ajuda a compreender um pouco do período em que viveu Jesus, realidade afeita ao Novo.

1 Nesse período, a Comunidade Essênia de Qumran receberá muitos adeptos fariseus, fugidos da perseguição de Alexandre Janeu. Por causa de sua opção em favor dos camponeses, os fariseus conquistarão, mais tarde, autoridade e simpatia do povo comum de Israel.

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A PROFECIA

Todas as vezes que abrimos um texto bíblico, comumente nos Livros Proféticos, temos a impressão de que o autor está sentado em uma escrivaninha, com uma vela diante de si, recebendo informações ou ordenanças de Deus e, conseqüentemente, anotando tudo. Depois, saindo de seus aposentos, diante do povo começa a pregar, lendo seus apontamentos. Nem sempre foi assim!

O termo PROFETA vem da língua grega “profétes”, conhecido desde o século V a.C. Designa

alguém que possui a missão de anunciar, de falar ou de publicar alguma mensagem. A função se aproximava mais da proclamação do que do predizer, que está embutido no significado do termo (profémi: dizer diante de; e dizer antes de). Com o decorrer do tempo a Igreja entendeu o profeta como mais ligado a esse tipo de atividade.

Mas o termo grego deriva-se de termos hebraicos, pois que “profétes” é uma tradução da

LXX (Septuaginta) para a palavra “nabî”.

Esse termo não designa somente o indivíduo, mas também o grupo. Lemos, nos relatos de 1 e 2 Sm., a respeito dos “filhos dos profetas” e dos “discípulos dos profetas”, sendo a palavra empregada para esses também. Pode ser traduzido por “vidente”, “visionário”.

Existe outro termo hebraico para designar o profeta: “ro’eh”: vidente de natureza cultual, recebendo os que iam consultar Javé. O nabî e o ro’eh tinham basicamente as mesmas funções. O primeiro intervinha no Reino de Israel e o segundo, no reino de Judá.

O “Nabî” é essencialmente, o homem da palavra. Essa é para ser proferida e não lida. Ele

proclama os oráculos sem se preocupar em escrever os mesmos. Seus ditos foram registrados,

na maioria das vezes, não por uma interferência pessoal, mas por seus discípulos ou por aqueles

que viveram as influências das suas profecias. Esses entenderam que eles eram homens que

realmente tinham uma comunhão profunda com Javé e disseram e fizeram coisas importantes para a vida pessoal, espiritual e nacional do povo de Israel.

Assim, não foi da forma como está no livro de Isaías, por exemplo, que este falou. Mas, ele falou e alguém, depois, juntando os seus oráculos, organizou-os de tal forma que hoje podemos ler na seqüência, tendo a sensação de que ele as proferiu da forma como está composto no livro.

Outro aspecto importante é o surgimento do profetismo, no período da realeza 1 . É um fenômeno que está presente enquanto existe monarquia. É interessante essa relação, pois que nos faz perceber a tensão entre o rei, o profeta e o sacerdote: o rei como mantenedor do culto e detentor do poder político; o sacerdote como legitimador do rei e normatizador da vida social e religiosa do povo de Israel; e o profeta como desestabilizador do rei e do sacerdote.

Jeremias pode ser citado como um exemplo do que estamos dizendo: fez oposição

sistemática às instituições reais e sacerdotais, bem como entrou em conflito com os profetas

que serviam no Templo!

1 AMSLER, S. e outros - Os Profetas e os livros proféticos - Ed. Paulinas - São Paulo - “ O profetismo estava assim, associado à realeza e desapareceu quando se dissiparam as últimas esperanças de restauração da dinastia davídica” pág. 21.

43

O profetismo intervém na História de Israel praticamente por três séculos, entre 750/450 a.C. É justamente o período mais crucial da nação de Israel, momento de divisão do reino; depois, a destruição de Samaria (Reino do Norte: Israel) em 722 a.C; e Jerusalém (Reino do Sul:

Judá) em 586 a.C.

Como eram os profetas? A psicologia vem analisando esses homens especiais em suas situações mais desconcertantes, tais como Jeremias passeando pelas ruas de Jerusalém com um jugo, uma canga, no pescoço 1 ; Ezequiel cozendo seu pão sobre excrementos humanos 2 ; Oséias unindo-se a uma prostituta e, depois, sendo instado a casar-se com uma adúltera 3 .

Diante dessas ações insólitas, podem ser classificados como homens desequilibrados. Além disso, tinham visões, entravam em êxtase 4 , ficando fora da realidade presente devido a uma forte emoção; andavam durante horas sem fadiga 5 , dançavam da manhã até à tarde 6 , ou batiam palmas, sapateando e ou ficando como que paralisados 7 , mudos 8 , vivendo experiências místicas profundas com a divindade: situações inusitadas, eufóricas.

Por que faziam essas coisas? Por serem parte constitutiva do seu Ministério. As visões, por exemplo, são indispensáveis à atividade profética. Ocorrem em vários momentos de sua vida e servem para ilustrar a mensagem proferida ao povo de Israel nos seus vários momentos! Talvez seja a manifestação mais freqüente nos “nabî”.

Os atos proféticos são ações simbólicas de origem mais ou menos mágicas. Esses, exemplificavam as intervenções de Javé em favor ou contra seu povo demonstrando através do profeta as situações que seriam vividas pela comunidade. Portanto, passear no meio do povo com uma canga no pescoço ou, como Isaías, andar nu 9 em Jerusalém durante três anos, são atos simbólicos. Ezequiel recebe a ordem de raspar a cabeça e, com os cabelos retirados, separar uma terça parte queimando na praça; o outro um terço, passar a fio de espada e, por último, espalhar ao vento o restante, separando alguns fios e atando à roupa 10 .

Esses exemplos nos mostram como eram pronunciadas as profecias e os oráculos de Javé, por meio de ações, muitas vezes, estranhas.

1 Jr 28. 2 Ez 5.9-17. 3 Os 1-3. 4 Estado de profundo prazer em que a pessoa se mantém alheia aos fatos ambientais, como se observa nos religiosos e místicos. DORIN, E. Dicionário de Psicologia - Ed.Melhoramentos - São Paulo - 1978. 5 Elias, em 1 Rs 18.46. 6 Os profetas de Baal, 1 Rs 18.26-29. 7 Ez 4.4-8. 8 Ez 3.26; 24,27. 9 Is 20.1-6. 10 Ez 5.1-4.

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Diante do que estamos estudando, devemos perguntar: como discernir o falso do verdadeiro “nabî”? O texto bíblico nos dirá para observar se a profecia se cumpre. Mas não somente isto. É preciso que tal palavra esteja de conformidade com a fidelidade de culto a Javé, pois o acontecimento somente não autentica o “nabî” 1 .

Mas devemos insistir: qual é o critério que distingue o “nabí” falso do verdadeiro? O profeta verdadeiro é aquele que se compromete com o martírio! Para ele, a obediência à palavra recebida é tão forte; sua experiência com Javé tão profunda, que ele não vê obstáculos, não se intimida diante do desterro, do preconceito, do banimento social ou mesmo da perda de sua própria vida! A ordem de Javé, de tão marcante que foi, se torna sua razão de viver e nada mais importa. O profeta é o homem que diante da certeza da revelação de Javé, assume o compromisso de pronunciar Suas palavras, sem preocupar-se com a própria integridade.

O profetismo é um fenômeno essencialmente vinculado à monarquia de Israel. Surge

com os reis e desaparece com eles. É a tensão do poder que faz surgir o profeta! Uma corte estabelecida; uma classe de funcionários, como fonte econômica para o desenvolvimento da capital; a corrupção, inerente ao estado; a classe sacerdotal reivindicando privilégios; as tribos insatisfeitas com o ônus de sustentar um estado pesado; os erros e desmandos dos reis; o surgimento e enriquecimento de uma classe de nobres que vai desestruturando a propriedade tribal da terra; o expansionismo davídico e salomônico, produzindo a contaminação teológica e litúrgica; todas estas coisas vão fazer com que a função profética seja altamente necessária

como instrumento de contradição dentro dessa sociedade.

Os profetas serão opositores ferrenhos dos sacerdotes, do rei, da classe nobre e dos profetas “cultuais”, homens pagos pelo rei para pronunciar predições e servirem nos locais de culto.

Sua atuação se deu em momentos distintos da História de Israel. O Profetismo pode ser divido em três fases: Pré-exílica, Exílica e Pós-exílica.

I - PROFETAS PRÉ-EXÍLICOS (Séculos VIII e VII a.C.)

A profecia, nessa primeira fase (pré-exílica), caracteriza-se pela denúncia do pecado, a

iminência do juízo de Javé e a possibilidade de suspensão desse juízo através do arrependimento, conversão e nova vida! Os principais expoentes desse período aparecem nos séculos VIII e VII a.C. São eles:

1. Amós - século VIII a.C.

Sua intervenção situa-se nos tempos de Jeroboão II (786-746 a.C.), no Reino do Norte, Israel, numa época em que a nação estava segura, sem a presença de ameaças.

Este profeta origina-se do Reino do Sul, da cidade de Tecoa, na Judéia. Seu nome significa “erguer, segurar, levar”, derivado da raiz ‘azz.

1 Dt 13.1-2, que deixa claro que o cumprimento puro e simples não autentica o profeta: é preciso coerência entre a palavra e a fé. Dt 18.19-22 reforça o critério do cumprimento do vaticínio.

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Sua cidade está localizada a apenas 18km de Jerusalém, sendo um lugar próspero e importante 1 na época dos reis. Sua origem é rural. Possuía também um conhecimento razoável da história, conforme os capítulos 1 e 2. Provavelmente, tenha sido alguém que freqüentava os círculos sapienciais dos clãs.

Como profissão, ele mesmo se define como criador de animais 2 . Acredita-se que suas atividades incluíam a guarda e o cuidado com a alimentação dos rebanhos a partir de incisões feitas nos sicômoros, tornando-os comestíveis para o rebanho. Não se aceita, hoje em dia, a afirmação de que ele era um simples trabalhador, mas que, ao contrário, seria um homem possuidor de recursos econômicos e conhecimentos, o que o coloca acima da média da população de sua época 3 .

Sua missão é denunciar o pecado, a injustiça e a maldade do Reino do Norte, apresentando

a mensagem 4 de condenação e também a da possibilidade da conversão e conseqüente perdão, da parte de Javé. Após sua pregação, ele desaparece da história bíblica.

2. Oséias.

Intervém no Reino do Norte também sob Jeroboão II e seus sucessores 5 . Seu contexto é

a deterioração rápida de Israel provocada por intrigas palacianas e o conseqüente submetimento

ao Império Assírio. É a época da guerra siro-efraimita, em que Judá e Efraim (Israel), aliado da Síria, chocam-se num confronto fratricida, condenado pelo profeta. Seu ministério se estende por quase trinta anos sendo provavelmente testemunha do cerco de Samaria pelos exércitos assírios.

Oséias 6 provavelmente foi um sacerdote ou membro dos círculos cúlticos. Sabemos que era um homem muito culto, conhecedor das tradições históricas de Israel. Mas o que realmente marca o seu ministério é a ação simbólica ligada aos seus casamentos 7 .

Naturalmente que existem dificuldades de interpretação. Como pode Javé ordenar a um seu profeta, sacerdote (que pela Lei deve somente se casar com uma virgem, nunca viúvas ou divorciadas) que contraia matrimônio com mulheres impuras?

1 2 Sm 14.1-24; 23,26; 2 Cr 11.5-6. 2 Am 7.14. 3 O vocabulário usado em 1.1 e 7.14 é menos claro do que parece à primeira vista. O termo “noqed” é raro. Ele se encontra em 2 Rs 3.4 mas também nos documentos ugaríticos, sendo traduzido geralmente por “criador” de animais. Ele viria de uma raiz que significa “marcar, assinalar” e designaria uma atividade superior a de um simples pastor. in AMSLER, S. - Os Profetas e os livros proféticos - págs. 44. 4 As características de sua mensagem são: denúncia da iniqüidade que reina no Estado de Jeroboão II (5.7;10.17); a interpretação do “Dia de Yahweh” que, ao contrário da esperança tradicional dos interlocutores, torna-se dia de trevas e não de luz, dia de desgraça e não de felicidade (5.18-20); a rejeição, em nome do Deus de Israel, do culto oferecido pelos israelitas (5.21-27). 5 Os 1.1. 6 Hoshea poderia ser diminutivo de Hoshaya (Ne 12.32;Jr 42.1; 32.2). Em Israel muitos nomes próprios são formados com a mesma raiz Yasha 7 Os 1.2; 3.1.

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Essa ação simbólica é extremamente forte! Significa que Javé já está enfadado com o pecado de seu povo e deseja puni-lo severamente.

É inquestionável que Oséias está no lugar de Deus. E nessa condição percebemos nele um amor profundo, que se dispõe ao diálogo, ao perdão, à reconstrução de uma nova relação de fidelidade, integridade e, conseqüentemente, de bênção e prosperidade para o seu povo.

Ele critica os reis 1 , os costumes de seu tempo e censura fortemente os sacerdotes, responsabilizando-os pela situação de degradação, pois os mesmos não ensinaram a Lei, não proporcionaram conhecimento de Deus, mas transformaram a religião de Javé numa mera observância litúrgica e ritual 2 . É o Rito em crise!

3. Isaías.

Comumente, por causa do grande livro, confundimos o profeta com o texto, perdendo de vista que a mensagem contida nele se refere a três momentos da história teológica de Israel 3 .

O profeta Isaías 4 exerceu sua atividade na segunda metade do século VIII a.C., em

Jerusalém. A mensagem e o estilo dos textos de 1-39 nos deixam clara sua condição de membro da nobreza. Provavelmente seja oriundo dos círculos sapienciais e dos funcionários do estado aos quais, no entanto, não se vende e enfrenta todas as vezes que precisa salientar o seu pecado!

O texto nos informa que ele era casado 5 e que sua esposa também era profetisa,

provavelmente ligada ao culto. Teve filhos (dois) com ela e deu-lhes nomes simbólicos (Shear- Yashub: “um resto voltará”; e Maher-Shalal-Hash-Baz: “Pronto-saque-próxima-pilhagem). Seu destino não deve ter sido muito agradável visto que, depois de sua atividade, desaparece e nele não se fala mais. Uma tradição rabínica diz que ele foi martirizado sob Manassés, que teria mandado executá-lo com uma serra de árvore; outra lenda diz que ele

1 Os 1.4-5.

2 Os 4; 6.6.

3 O livro de Isaías está dividido pelos especialistas em três, quais sejam:

a) Isaías (1-39); contém os oráculos do profeta e é provavelmente seu contemporâneo. Não devemos perder de vista o fato de que

esses homens não escreveram suas palavras, mas as proferiram; essas subsistiram graças à intervenção de discípulos ou admiradores

que as guardaram na forma de escrita. Essa é a razão de percebermos na leitura do texto as rupturas de linguagem e de assunto, demonstrando que foram agrupados os oráculos obedecendo a uma ordem redacional com a finalidade de proporcionar coerência das diversas mensagens proferidas. Para comprovar o que foi dito basta comparar as narrativas sobre a doença de Ezequias, por exemplo, com o restante do texto;

b) Deutero-Isaías (40-55); de natureza, conteúdo, estilo e época diferentes, seu contexto histórico está ligado à segunda metade do

exílio babilônico e sobre ele, mais à frente, teceremos outras considerações. Seu autor foi um profeta provavelmente do círculo dos

discípulos de Isaías;

c) Trito-Isaías (56-66); texto proveniente da Palestina dos tempos do retorno do exílio babilônico e da dominação grega sobre

Israel; sua mensagem e conteúdo serão tratados posteriormente; seu autor viveu em um contexto do apocalipsismo e desenvolveu sua pregação baseando-se no Isaías e no Deutero-Isaías.

4 Seu nome vem da raiz Yasha’ que significa “ajudar, socorrer, salvar” e pode significar “Iahweh salvou”. 5 Is 8.3.

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teria sido desmembrado por quatro cavalos amarrados cada um em seus braços e pernas 1 !

O Livro é a expressão escrita da mensagem do profeta. Ele nos fala de como Israel e Judá romperam a Aliança e deverão, com isso, viver a experiência do cativeiro e do Novo Êxodo 2 . Naturalmente, não deixa de profetizar contra as nações, notadamente Babilônia, falando de sua destruição, fruto do juízo de Javé 3 . Conseqüentemente, dirige oráculos de juízo sobre o mundo 4 , não deixando de lado a mensagem da possibilidade da conversão e do perdão ou de julgamento para que venha a libertação 5 .

4. Miquéias.

O Ministério do profeta Miquéias 6 é contemporâneo de Isaías e sua mensagem está estreitamente relacionada com seus vaticínios. O livro nos traz poucas informações a seu respeito. Acredita-se que esse seja apenas um resumo de sua atividade como profeta, visto que seu ministério se estendeu por quatro reinados, perfazendo a significativa marca de quase quarenta anos de atividade 7 !

Sua época foi particularmente dramática para Judá 8 . A invasão dos assírios na sua região de origem, fazendo com que ele fosse para a capital do Reino, transforma-o no crítico ácido da elite dirigente de Judá, em Jerusalém. Lá, passa a exercer a atividade de “testemunha de Javé” contra seu povo. Denuncia a classe nobre 9 ; profere juízos condenatórios sobre os sacerdotes, que são denunciados como mercenários, que somente exercem sua função por dinheiro 10 ; ou a falsidade dos profetas, que proferem oráculos se têm o que beber 11 .

Tais investidas; a pregação da salvação somente de um resto; o chamado dos gentios e seu anúncio do Messias, fazem-no semelhante a Isaías quanto ao conteúdo de sua mensagem.

Seus oráculos possuem uma grande lucidez em relação a seu tempo e às causas das dificuldades de Samaria e Jerusalém. A esperança no rei que “vem de Belém” 12 se torna o

1 Livro da Ascensão de Isaías. Deve-se comparar com o texto de Hb 11.37! 2 Is 1-13.

3 Is 13-23.

4 Is 24-27.

5 Is 28-35. 6 O nome vem de Mika ou Mikaya, que significa “Quem é como Yahweh?”, uma exclamação de origem cultual para exaltar a grandeza de Javé (Sl 113.5). 7 Mq 1.1; Jr 26.17-19. 8 2 Rs 17-20. 9 Mq 3.1-3. 10 Mq 3. 11 Mq 2.6-11. 12 Mq 5.1-5a.

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tema da misericórdia de Yahweh, que “

5. Naum século VII a.C.

perdoas a iniqüidade, e

esqueces da transgressão

1

!

O século VII e o princípio do VI a.C. ficaram marcados como o tempo da queda de Judá.

No plano internacional, Babilônia substitui a Assíria pois o Egito está muito fraco para resistir aos invasores do Leste. No ano 605 a.C., Babilônia assume o poder e o garante, no Oriente Próximo. No ano 587 a.C., Jerusalém cai, o Templo é incendiado e os nobres são deportados.

O profeta Naum é vocacionado para atuar nesse momento histórico. Sua mensagem gira

em torno de Nínive, capital da Assíria, que é destruída pelos babilônios, acontecimento grandemente celebrado pelo “nabî”!

O livro é anterior a 612 a.C., ano da queda de Nínive. Esse profeta é o único com o nome

de Naum em todo o texto bíblico 2 . Sua localidade de origem é desconhecida atualmente, embora se aceite que deva pertencer a Judá. Outra curiosidade é a designação de “livro” dada ao texto do profeta, inédita na Bíblia 3 .

Sua mensagem produz um misto de felicidade e de desconfiança, visto que profetiza o mal e a desgraça para Nínive e todo o bem estar para Israel/Judá, nada falando sobre a condição espiritual de seu povo.

Judá é vassalo da Assíria. Esse fardo é carregado a mais de um século, trazendo conseqüências desastrosas. Mas a dominação está para terminar com o advento da destruição de Nínive. Tal fato ocorrerá pela mão de Javé pois que Ele é soberano.

O profeta deve ter enfrentado muita oposição, pois revela seus oráculos ainda no tempo

da dominação assíria, com a classe nobre beneficiando-se da opressão! Não deve ter sido fácil insurgir-se e pronunciar juízo.

6. Sofonias 4 .

Anos 604-609 a.C! Nesse período, Josias é o rei de Judá e, na primeira parte do seu reinado, promove a reforma deuteronômica. Esse é o ambiente da atuação de Sofonias 5 , o profeta.

Sua mensagem está, portanto, vinculada à Reforma. Desenvolve temas como a presença de Javé em Jerusalém 6 , lugar onde ainda habita a iniqüidade, mas que será

1 Mq 7.18. 2 A raiz “nhm” significa “consolar”.

3 Naum 1.1.

4 Tçephanyah: significa “Javé escondeu”.

5 Uma das curiosidades desse profeta é a preocupação de remontar sua genealogia até ao reinado de Ezequias. Provavelmente, dado o nome de seu pai, Cusi, que lembra a Etiópia, tenha havido a necessidade de provar sua genuína condição de profeta israelita!

6 "

meu

santo monte.” 3.11!

49

purificado. O “dia do Senhor”, que não é originário do profeta, visto que Amós e Isaías já falaram deste “terrível dia1 !

Mas o que chama a atenção nesse Livro é o texto de 3.8-20 no qual o profeta trabalha a condição para ser povo de Javé: humildade e pobreza. Está por trás desse verso 12 a condenação explícita dos ricos e orgulhosos cidadãos do reino de Judá; a teologia do “resto”, uma pequenina parte do povo que será depositária da misericórdia de Javé, de onde procederá a uma nação purificada, destinatária da salvação de Deus.

O discurso de Sofonias é claramente favorável à Reforma de Josias, ainda que o profeta

perceba sua inutilidade em relação ao juízo determinado por Javé.

7. Habacuque 2 .

Este profeta não relaciona nenhuma informação sobre sua pessoa, sua genealogia ou seu tempo de atuação. Nada sabemos sobre ele. Mas, pelo fato de mencionar no cap. 1.6 a vinda dos caldeus, pressupõe-se que sua profecia tenha tido lugar no período da tomada pelos babilônios, do império assírio. Assim, suas palavras estariam dirigidas aos cidadãos de Judá que haviam se vendido para a Assíria e, agora, teriam que enfrentar a ira e a destruição promovida pelos novos donos do poder mundial.

O livro apresenta-se na forma de queixa feita pelo profeta e a conseqüente exigência de

respostas divinas. O primeiro questionamento pela constatação da violência, da opressão e das injustiças que são cometidas e que, aparentemente, não produzem a intervenção divina 3 . A

resposta divina é o anúncio do juízo que será realizado por um povo poderoso, cujo deus é a força e que porá fim a toda essa situação 4 .

Existe dificuldade para que o profeta compreenda a mensagem de Javé. Assim, pela segunda vez ele pergunta, na forma de queixa, querendo saber por que Deus não intervém 5 . Javé ensina a paciência e a confiança, determinando que as palavras sejam registradas de tal forma que até quem passe correndo possa ler 6 , pois seus atos não acontecem fora da história!

As dificuldades do profeta Habacuque são, de certa forma, as nossas. O iníquo prospera e

o

justo não é vingado. Porém, aprendemos, através dele, que é preciso ter paciência para ouvir

e

entender a mensagem de Javé.

8.

Jeremias.

1 Am 5.18-20; Is 2.12. 2 Habaquq: Significa “abraço amoroso”. 3 Hc 1.2-4. 4 Hc 1.5-11. 5 Hc 1.12-13. 6 Hc 2.3-5.

50

Este homem viveu um dos maiores dramas da história dos servos de Deus. Consciente da ação judicial de Javé, vê a destruição aproximar-se e não pode intervir nem interceder 1 para que não ocorra.

Jeremias é chamado ainda muito jovem para profetizar. Exerce seu ministério durante 40 anos (627/587). Seu trabalho foi, principalmente, afrontar a classe nobre de Judá, os sacerdotes, os profetas cultuais e o rei! Por causa disso, é lançado na cisterna 2 e só não morre por benevolência de um etíope.

Quem era Jeremias 3 ? Natural de um lugar chamado Anatot, que distava 6 km de Jerusalém. Hoje, essa vilazinha chama-se Anâtâ. Por se tratar, seus habitantes, de trabalhadores em pedra, conjectura-se se pedreiros de Anatote não se encontrariam entre os operários que foram forçados a trabalhar na construção do palácio de Jeoaquim e posteriormente lesados em seu salário 4 .

Outra peculiaridade, essa ligada a sua família, pode ter influenciado o clero contra ele: o fato de ser descendente de Abiatar, sacerdote rejeitado por Salomão 5 .

Jeremias é um apaixonado pelo Norte. Suas simpatias se exprimem nas expressões sobre Raquel e na lamentação sobre Efraim 6 . Sempre houve problemas em Benjamim para aceitar a dinastia de Davi 7 .

O livro do profeta não foi, como está hoje, redigido por ele. Esses grandes servos de Deus possuíam discípulos que iam registrando suas palavras e depois compunham o texto. No próprio livro, vemos Jeremias utilizando-se de Baruque como seu escriba com a finalidade de mandar para o rei suas profecias 8 .

Seu livro divide-se da seguinte forma: as profecias dirigidas a Judá e Israel, 1-25; as narrações biográficas, 26-45; os oráculos contra as nações, 46-51; o apêndice de Jr 52 é uma duplicata de 2 Rs 24.18-25,30.

9. Joel 9 .

1 Jr 14.7-11: A primeira intercessão rejeitada por Javé. O fim já está determinado! Ao total, foram três tentativas do profeta: Jr 14.13 e 19. As respostas terríveis de Javé demonstram que Deus tem misericórdia, mas sua justiça não fica sem se cumprir (14.14-18; 15.1-6). 2 Jr 38.6. Esse é apenas um dos casos de ataque à sua pessoa. Foi preso, perseguido, ameaçado de morte e suas palavras negadas e seus escritos rasgados. 3 Seu nome, Yirmeyah tem uma significação incerta: “Iahweh erguerá”.

4 Jr 22.13ss. A informação sobre Anatote está relacionada no texto de John Skinner - Jeremias - Profecia e religião - ASTE - São Paulo - 1961 - págs.29, na nota de rodapé nº1. 5 1 Rs 2.26s. Provavelmente havia um santuário em Anatote onde serviam os parentes de Jeremias, ocasionando um mal estar na Capital, de culto centralizado. 6 Jr 31.15-22.

7 2 Sm 16.5-14;20.1.

8 Jr 36.2 e 27,28.

9 Yo’el: Significa “Javé é El (Deus)”.

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Nada se sabe sobre este profeta, apenas que viveu em Jerusalém e que deveria ser contemporâneo de Jeremias. Possui íntimas ligações com o Templo e, além disso, conhece as nações ao redor, fato depreendido de suas palavras 1 . Sua mensagem gira basicamente sobre o tema do “Dia de Javé” que ocorrerá com grande sofrimento para aqueles que não se arrependeram de suas faltas. Termina com uma descrição da restauração de Israel como o povo escolhido de Deus.

II - OS PROFETAS EXÍLICOS (Século VI a.C.)

Nesta fase, encontraremos os profetas na segunda metade do exílio babilônico. Israel e

Judá já não existem! Toda a classe nobre foi deportada e só o que ficou na terra é o povo pobre

e desinteressante para o Império.

Por outro lado, os deportados começam a perder de vista o desejo de voltar para a Palestina. Existe um sentimento de que Javé foi injusto destruindo a nação! Muitos abandonam a fé dos pais e se tornam cada vez mais absorvidos pela cultura, economia e religião do exílio. É assim, nessa condição, que surgem os profetas exílicos ou escatológicos! Sua pregação é a da restauração de Israel e do culto a Javé! Tal pregação se evidencia com uma mensagem de esclarecimento das razões de ter acontecido o exílio. E esse momento é difícil, pois que é preciso lembrar à sociedade exílica do pecado dos reis e das gerações anteriores.

O que difere os profetas desta época dos seus colegas dos séculos VIII e VII a.C. ? É que sua mensagem já não é primeiro proferida e depois registrada: é o contrário! Eles escrevem e depois pregam. Atestam isso o estilo, a coerência do texto e sua uniformidade, características ausentes nos “nabî” anteriores!

Sua mensagem não é só de lembrança do passado; é de estímulo e de reformulação da esperança! Voltar significa colocar-se debaixo da vontade de Javé, é dar seqüência ao seu Plano. Atender a voz de Deus é confirmar o Seu amor para com Israel, pois que ele deseja restaurar o reino de Davi, e ter para si um povo mais santo e dócil.

Reconstruir é reencenar a história de Israel como o escolhido de Javé. Seu povo é chamado para honrar o Nome na terra onde deverá perpetuar sua mensagem! É com esse sentimento que

o povo parte da Babilônia para reconstruir Jerusalém e o Templo: Reeditar a Monarquia de Israel.

Para tanto, é preciso uma releitura da história da mesma, o que é feito por meio das composições de 1 e 2 Crônicas, bem como Esdras e Neemias. É o período da mensagem escatológica, do Messias, que reunirá em si somente as melhores qualidades de Davi, seu pai, e será mesmo um ser perfeito, bom juiz, bom rei e líder de seu povo.

Os homens de Deus, chamados para exercer seu ministério nesse tempo, deixaram suas mensagens escritas e foram bem sucedidos em restabelecer a esperança. São eles:

1. Ezequiel.

1 Jl 3.

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Sua atividade profética estendeu-se de 593, data de sua vocação 1 , até 571, último texto datado de seu livro 2 . Ele esteve na primeira leva de deportados, em 597 a.C., como um sacerdote de Jerusalém. Assim, o profeta representou entre os exilados uma ligação com elementos institucionais, o profetismo e o sacerdócio. Aliás, os sacerdotes, sem o templo e a possibilidade de praticar culto, exerceram atuação decisiva no aprofundamento da fé de Israel no Exílio.

O nome Ezequiel 3 aparece em 1 Cr 24.16 como o cabeça de uma das ordens sacerdotais. O profeta era homem casado e teve que passar pelo drama da perda de sua esposa 4 não devendo por ela derramar nenhuma lágrima, contrariando o costume de chorar os mortos e simbolizando como deveria Israel agir quando da morte dos entes queridos que permaneceram em Jerusalém.

Seu livro denuncia uma mente teológica bastante aprofundada. Vários termos utilizados pelo profeta são, pela primeira vez, trabalhados recebendo destaque e se tornando base para a teologia cristã. É preciso dizer que, por causa disso, os judeus relutaram muito em reconhecer o livro como canônico, sob a acusação de ser um livro demasiadamente “cristão”.

Um dos seus temas mais controvertidos é o uso da palavra “rûah”. Traduzido por “espírito”, encontra-se no livro citada 52 vezes porém, nem sempre com o mesmo sentido. Pode ser visto como “vento” 5 , “sopro da vida” 6 , centro espiritual do homem (paralelo ao coração) 7 , espírito do mal 8 ou “meu espírito” 9 . Ezequiel relaciona seu ministério com o Espírito, instrumento de Deus que lhe permite exercer sua vocação 10 !

Outro tema específico do Livro de Ezequiel é a expressão “Filho do Homem” 11 , sempre colocada na boca de Deus quando se dirige ao profeta. Ocorre cerca de 93 vezes no livro, sendo um quarto do emprego do termo “homem” em todo o Antigo Testamento!

Muitas são as preocupações teológicas do autor, mas a centralidade do Templo ocupa boa parte de seu discurso, havendo mesmo a descrição do local de culto restaurado na nova Jerusalém, conforme os textos do capítulo 40 ao 43.

1 Ez 1.1-2. Essa observação do livro nos faz datar o evento da vocação no dia 31 de julho de 593 a.C. 2 Ez 29.17.O texto nos aponta para o dia 26 de abril de 571. 3 Yehezeqe’l significa “Elohim fortalecerá”. 4 Ez 24.15-27. 5 Ez 1.4;13.11. 6 Ez 37.5,6,8,10. Comparar com 37.8. 7 Ez 11.5;20.32;14.4,7. 8 Ez 13.3. 9 Ez 37.14 e 36.27. 10 Ez 3.12,14,24; 8.3; 11.1,24; 37.1; 43.5. 11 Essa expressão serve para manifestar o contraste entre o esplendor da majestade divina e a pequenez da criatura humana.

53

Seu ministério se reveste de importância, visto que o conhecimento da história e da teologia vai ajudar a fundamentar uma religião de exílio, favorecendo mais tarde a outros profetas para que tenham a possibilidade de falar e de serem ouvidos a respeito da condição de Israel como o povo escolhido de Javé.

2. Obadias 1 .

Deste profeta não se possui muita informação. Seu texto está francamente dirigido contra Edom que, aliando-se aos babilônios, aproveita-se da queda de Jerusalém para dilatar seu território. Esse livro ataca com veemência a traição dos edomitas, lembrando que um dia Javé restaurará a sorte dos exilados e estes recuperarão suas terras. É a confiança de que Javé é soberano.

3. Deutero-Isaías (caps. 40-55).

Nomeiam-se Deutero-Isaías ou Segundo Isaías os capítulos 40-55 do Livro de Isaías. Essa divisão se faz tendo em vista que as preocupações e o tema diferem radicalmente um do outro. Os estudiosos têm afirmado existir uma lacuna de mais ou menos 200 anos 2 entre a primeira e a segunda parte.

O trabalho desse profeta anônimo é datado geralmente pela metade do exílio babilônico. Seu conteúdo é marcadamente escatológico 3 pois seus temas estão diretamente voltados para a reconstrução de Jerusalém e na reedição da Monarquia de Davi.

Sua mensagem procura, em primeiro lugar, explicar as razões do cativeiro, que ele entende ser por causa da iniqüidade de Israel; foi juízo de Javé contra seu povo.

Seu contexto histórico é difícil. Já decorrem cerca de 35 anos de cativeiro e os exilados estão assimilando os costumes e a religião dos babilônios. Assim, poucos são os que querem abandonar a situação em que se encontram para se aventurar novamente pela Palestina no Novo Êxodo. Sua pregação, portanto, é para um povo descrente e desiludido. Sua mensagem precisa resgatar a esperança e reavivar a identidade histórica de Israel.

No que difere o Deutero-Isaías dos outros profetas antes dele? Primeiro, ele escreve sua mensagem antes de proferi-la; atestam isso a coerência e a unidade literária. Em segundo lugar, apresenta com mais detalhes a figura do Messias, o rei segundo a dinastia de Davi, que será perfeito, coisa que nos profetas anteriores ficou apenas esboçado. Em terceiro, sua compreensão da fé e da história é universal. Javé é o Deus de toda a terra, que possui o poder de fazer a paz e a guerra e que chama os reis babilônios e persas de seus servos. Não é mais um Deus apenas da Palestina, senão que é Senhor do Universo.

1 ’obadyah significa “servo de Iahweh”.

2 HOMBURG, Klaus - Introdução Antigo Testamento - Editora Sinodal - São Leopoldo/RS - 1975 - pág. 167.

3 Quando falamos de escatologia entre os profetas não estamos usando o termo com o mesmo significado que possui na Teologia Sistemática, de Estudo das Últimas Coisas. Apenas identificamos um profeta escatológico quando ele está firmemente convicto de que a nação como era deva ser restaurada e, para isso, usa de mensagens sobre o Messias, sobre a ressurreição da Monarquia de Davi e sonha com um novo Reino poderoso, livre das potências mundiais de sua época. Este tipo de mensagem acredita na sua realização neste tempo e nesta terra, dos eventos desejados. Desconhece o conteúdo cósmico introduzido pela apocalíptica e pelo cristianismo.

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Por último, nos apresenta o Servo-Sofredor, por meio de hinos que nos descrevem com detalhes suas vicissitudes 1 e sua Missão. III - PROFETAS PÓS-EXÍLICOS (ÉPOCA PERSA: 539-332 a.C.)

Babilônia cai em 539 a.C.! Ciro, rei dos persas, entra na cidade praticamente sem luta e

a toma. Esse fato se reveste de importância para Israel porque os persas, no desejo de serem

reconhecidos como o novo poder, mudam sua política com os dominados, restituindo-lhes os objetos de culto, os altares dos deuses e, no caso judeu, é autorizada a reconstrução do Templo pelo Edito de Ciro 2 no ano 538 a.C., financiada pelo tesouro persa, com a devolução dos utensílios levados por Nabucodonosor.

Essa reconstrução vai sofrer uma descontinuidade por causa da sucessão de Cambises 3 ao trono persa, em 522-520 a.C., que termina com Dario I sagrando-se rei em 522, reinando até 486 a.C.

A reconstrução do Templo é retomada em 520 a.C. Durante todo o século V a.C. a

comunidade está se reestruturando, oficializando novamente a Lei de Moisés, celebrando a Páscoa

e reconstruindo o muro de Jerusalém. Nesse período, os exilados vão se fixando na cidade e reconstruindo suas casas, havendo um franco desenvolvimento da comunidade que, além do

Templo, passa a utilizar um elemento novo na educação das crianças: a Sinagoga! Este período

é comumente conhecido como o tempo de Esdras.

Naturalmente, ainda temos a presença dos profetas. Esses atuam no sentido de reforçar

a confiança do povo em Javé e reconstituir as instituições para novamente ser um povo livre.

1. Ageu.

Sua atuação está vinculada ao final da crise política de Dario, no ano de 520 a.C., que naturalmente provocou incertezas e desconfianças na comunidade de Jerusalém, quanto ao seu destino.

Seu livro se compõe de cinco oráculos. Nada se sabe sobre a origem de Ageu 4 , embora se conjecture que ele tenha permanecido em Jerusalém e tenha visto a glória do Templo de Salomão.

O cerne da profecia de Ageu e de Zacarias, como veremos, está centrado no Templo, em sua importância para a vida tanto cultual como econômica e social da comunidade. Sem a reconstrução do Templo não haverá bênção nem prosperidade!

2. Zacarias 5 .

1 Is 42.1-8; 49.1-6; 50.1-9; 52.13 a 53.12.

2 Esse Edito está preservado em Ed 6.3ss.

3 Sob o reinado de Cambises (529-522), sucessor de Ciro, houve um movimento intenso de exilados voltando para a Palestina e se reinstalando na antiga capital, sem problemas! Somente com sua morte as coisas se interromperão até que se defina o novo rei. 4 Seu nome, Haggai vem da raiz HaG que significa “festa”. Outra proposta para o significado é “Hagarya” ou seja, “Yahweh cingiu”. 5 Zekaryah: Significa “Javé se lembrou”.

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Esse profeta possui várias autobiografias, mas, apesar disso, continua sendo uma incógnita, pois muitas pessoas no Antigo Testamento tem seu nome e, não raro, há confusão até com relação à sua filiação 1 .

Também é um profeta interessado na reconstrução do Templo de Jerusalém, assim como Ageu. Profetiza por meio de visões e seu livro contém elementos apocalípticos que posteriormente serão a tendência do povo de Israel.

Trabalha com realce a questão do Messias, identificando-o com Zorobabel e, assim, legitimando sua condição de líder político sobre Jerusalém.

Aspecto interessante é a menção de Satanás, pela primeira vez, entre os profetas! Vê-se, já aí, a influência marcante que a teologia zoroastrista exerce sobre o pensamento teológico judaico pós-exílico. Suas temáticas são a comunidade que deve ser renovada; os tempos novos estão próximos; a importância da cidade santa e do Templo para a vida do novo Israel.

3. Trito-Isaías (caps. 56-66).

Esse texto é significativo porque testemunha um momento crucial da comunidade israelita, que é a perda de confiança nas profecias do Deutero-Isaías de uma restauração da Monarquia de Davi.

Assim, o autor (ou autores) procura lembrar que as distâncias entre a promessa e seu cumprimento devem reafirmar a fé, pois a “mão de Javé não é curta que não possa salvar” 2 e Ele

é fiel à sua Aliança 3 ; Javé ainda não realizou sua salvação, mas está muito próxima. A realização de suas promessas depende também de que seu povo cultive e viva a justiça e a piedade.

Essa condição da comunidade se vê negada na injustiça para com os mais pobres 4 . O

culto deve ser “em espírito e em verdade” 5 , não apenas um formalismo. Deve haver boa vontade

e disposição de estender a salvação também aos gentios, pois a nação está inserida em outro contexto mundial.

O tempo deste livro é o mesmo da comunidade pós-exílica que se estabeleceu em Jerusalém. Sua preocupação está centrada na manutenção da esperança, mas fundamentada nas pregações do Deutero-Isaías, de um Israel redivivo, na pessoa do Messias!

4. Malaquias.

1 O título do Livro sobrecarrega a filiação direta de seu pai Ido, atestada em Ed 5.1 e 6.14, dando-lhe como pai, o pai de outro

Zacarias (Zekarja: “Iahweh lembrou-se de sua promessa) da época de Isaías (Is 8.2; 2 Rs 18.2). É provável que a referência “filho de Ido” deseje ligá-lo a uma família sacerdotal. 2 Is 59.1.

3 Is 59.21; 61.8.

4 Is 57.1-5.

5 Jo 4.23.

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A coleção desse profeta não dá nenhuma indicação sobre sua pessoa. Seu nome, Maleaki

(“Meu mensageiro”) diz pouco ou quase nada sobre ele, a não ser o fato de ser um enviado de Javé.

Esse profeta é posterior a Ageu e Zacarias, pois o Templo já está funcionando. O que existe é um afrouxamento da religião e do exercício do culto sacrificial, bem como um relaxamento na vida social, notadamente com relação ao matrimônio, grandemente atacado pelo divórcio sem causa 1 . A justiça de Deus, aparentemente tardia, com a prosperidade dos maus, leva a um distanciamento da prática religiosa, pois, que benefício existe em ser obediente? 2 Diante disso, Malaquias pronuncia o julgamento de Deus 3 , que ocorrerá como que por meio de uma fornalha para purificar e consumir.

5. Jonas. 4

A única informação bíblica que se tem de Jonas 5 não sintoniza com o Livro de Jonas. Os

estudiosos acham que o personagem aludido nos livros históricos bíblicos não seja o autor da narrativa. Dificulta a identificação o fato de que em nenhum lugar do livro encontrarmos o termo “Profeta” ou “profetizar”; por outra, as palavras proferidas são a menor porção do livro, havendo mais espaço às situações vivenciadas, como que para nos ensinar verdades sobre a natureza humana. Está mais para um escrito de natureza sapiencial do que profético.

O livro se divide em duas partes. A primeira com Jonas recebendo a ordem de anunciar

em Nínive a reprovação de Javé. Esquiva-se e foge de sua obrigação, vivendo as dificuldades da tempestade, o temor de Deus, por parte dos marinheiros, o peixe e a conseqüente chegada na praia, de onde parte finalmente para o seu destino.

A segunda parte está ligada à pregação de Jonas. Anuncia a destruição, provocando

conversão. Sua reação é surpreendente, pois deseja ver a destruição, não a salvação, outra coisa diferente dos profetas bíblicos! Após uma ação de Javé, aprendemos algo sobre a misericórdia divina.

Esse livro já figurava no Cânon hebraico pelo século III a.C 6 .

IV - A APOCALÍPTICA.

1 Ml 2.10-16.

2 Ml 2.17; 3.14.

3 Ml 4.1-6.

4 Yonah: Significa “pomba”.

5 2 Rs 14.25.

6 Eclesiástico assim nos informa: “Reverdeçam também os ossos dos doze profetas, nos seus túmulos; porque eles fortificaram Jacó, e salvaram-no por uma fé corajosa” Eclo.49.11. Eclesiástico é um livro seguramente datado do II século a.C. Se ele já conhecia o rolo dos doze profetas, certamente sabia da existência de Jonas, já nesta data!

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Essa fase do pensamento judaico dá origem a um novo estilo literário que se inicia após

o exílio babilônico, estimulado pelas necessidades religiosas e sociais de Israel.

A situação está da seguinte forma: o Segundo Êxodo não realiza a expectativa do povo,

pois as coisas não saíram do jeito que imaginaram. O Império Persa foi subjugado por Alexandre,

o Grande! A Palestina passa a ser domínio grego e sofre as influências da helenização promovida

por Alexandre e depois de sua morte, continuada por seus generais. Estátuas gregas são colocadas em Jerusalém; deuses do Olimpo são introduzidos no Templo e isso provoca uma reação terrível da comunidade mais conservadora de Israel, ocasionando as chamadas guerras de guerrilhas com Judas Macabeus e seus irmãos, livrando-se, por fim, da dominação!

Num contexto assim, não dá para pensar mais em ressurreição do estado davídico, nos moldes dos textos antigos da monarquia. O panorama mundial não é mais favorável. Mas, o que fazer com as promessas de Javé? É preciso reinterpretá-las! De que forma? Lançando mão de um recurso conhecido mais tarde como gênero literário apocalíptico.

O que vem a ser Gênero Literário Apocalíptico? O termo apocalipse 1 , do grego “revelação,

descoberta, tirar o véu” é usado convencionalmente para um tipo de literatura revelatória, surgida no horizonte judaico por volta de 200 a.C a 300 d.C.

Possui como características a revelação por meio de visão ou por uma declaração falada

(audição). Pode-se expandir a revelação por meio de uma viagem de além-túmulo. O mediador

é sempre um ser angélico.

A revelação se dá em dois planos. O primeiro mostra as dificuldades e crises do mundo

espiritual interferindo no mundo físico e causando o fim da história, por meio de julgamento e salvação. Esses são sempre pessoais, em que o fiel salva-se através da ressurreição corporal.

No segundo plano, o recebedor da mensagem conhece a geografia do céu ou do inferno, geralmente por meio de uma viagem, presenciando as batalhas entre seres angélicos bons e maus.

A história caminha para um tempo do fim. Não é possível realizar a vontade de Deus no

tempo presente, pois que tudo está contaminado. É preciso que haja novo céu e nova terra. Assim, deverá haver a destruição da presente ordem, o julgamento dos homens e a inauguração da ordem futura somente com os que foram fiéis.

Desse modo, o destinatário da revelação deve permanecer firme e precisa instar para que aqueles que são fiéis continuem assim até o dia final, pois somente os escolhidos serão agraciados com a vida futura na ordem porvir.

No apocalipsismo, é dominante a idéia da batalha crescente entre o bem e o mal, a universalização do julgamento e a transformação do cosmos e da história.

Tal estilo vai se tornar conhecido para nós a partir da literatura de Daniel, Ezequiel e Zacarias, além de outros que não se encontram no nosso Cânon e que introduzem elementos do zoroastrismo na teologia judaica, advindos do período persa de exílio; que reinterpretam profecias e possibilitam a visão de que Javé não é um Deus circunscrito à Palestina, mas como Deus do Universo, seu Plano é mais amplo e significa muito mais do

1 "O gênero da apocalíptica é um tipo de literatura revelatória com estruturação narrativa, na qual uma revelação a respeito de julgamento e salvação do tempo do fim e/ou a respeito dos reinos celestes é dada a um ser humano por mensageiro além- túmulo”.GOTTWALD, Norman K. - Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica - Ed. Paulinas - São Paulo/SP- 1988 - págs.

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que apenas a reedição do Israel Monárquico. O povo de Javé tem uma missão no mundo, que é

propagar a mensagem de Deus para todos os que porventura possam crer, pois Javé irá destruir

a presente ordem do mundo e criar uma nova, completamente purificada de todas as dificuldades que no momento impedem a instauração do Reino de Davi!

1. Daniel 1 .

O texto de Daniel foi aqui inserido, mas há muita controvérsia. Além das discussões sobre sua autoria e datação, existem questões quanto ao estilo literário. Estudiosos sustentam que Daniel não pode ser visto como Livro Profético, porque é apocalíptico, próprio da época da dominação grega na Palestina, por volta de 165 a.C.

Suas preocupações básicas seriam denunciar e zombar da arrogância dos reis, que presumem ter o poder de conduzir a história, o que é negado no livro, com a intervenção de Javé. Outro ponto importante é que Daniel é visto, pelo livro, como um protótipo de judeu no estrangeiro, tais como José e Mordecai. Também a libertação recebe um conceito mais amplo:

inclui a noção de ressurreição na teologia de Israel, fator ausente nos profetas dos séculos VIII

e VII a.C.! Por último, deixa claro o governo de Deus sobre todas as nações e sobre a história.

V - SINTETIZANDO:

Os profetas do século VIII eram homens chamados para proclamar a mensagem do juízo, da condenação do pecado, mas também do arrependimento e da salvação para a comunidade; não foram bem sucedidos e o julgamento veio na forma do exílio babilônico.

Os profetas exílicos, por sua vez, para reestruturar a comunidade, proclamaram a mensagem escatológica da reedição do Estado de Israel, na pessoa do Messias e da ressurreição da Monarquia, o reino restaurado! Também não viram isto acontecer.

Coube à Apocalíptica manter a fé em Javé. Ela demonstra que os profetas antigos viram apenas parte da realidade teológica. Deverá haver um julgamento universal e depois disso é que se instaurará a Era de Justiça, Paz, Prosperidade e Presença de Deus: Novo Céu e Nova Terra!

1 Dany’el: “El é meu juiz”.

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