Você está na página 1de 1
esta variabilidade de sismógrafo. riscando na percepção do leitor um traço nervoso e desigual. Não

esta variabilidade de sismógrafo. riscando na percepção do leitor um traço nervoso e desigual. Não caça momentos fugazes, nem prefere a notação rara e pitoresca do que acontece uma vez. O que procura construir é a li nha média da sua vida mora l, num traçado seguro, eqüidistante do inexprimível e das exigências de clareza. As li ras são um roteiro pessoa l, não uma série de indicações, como, setenta ou oiten ta anos depois, as Primaveras, de Casimiro de Abreu. Se elas pudessem ter sido o rdenadas e publicadas pelo próprio autor, talvez isso ainda ficasse mais acentuado.

Este equilíbrio verdadeiramente neoclássico entre o eu e a palavra perdeu-se a seguir.

A obra de Gonzaga é admirável graças a ta l capacidade de extrair uma linha condutora

dentre a variedade de afetos e estados d'alma, construindo um só movimento, que funde

a sua natureza e a forma que a demarca e revela. Oeste modo ela é verdadeiramente

sincera no plano artístico e, nas partes em que superou os modismos bastante corrup- tíveis do Rococó literário, admirável, geralmente superior às produções do Romantismo.

A superação do Rococó se opera principalmente pelo cunho muito especial que Tomás Antônio imprimiu à expressão do seu eu: todo pautado pelo decoro neoclássico

e não obstante muito individual e revelador.

É que o sentimento da própria pessoa aparece, nele, exaltado e al tivo. À gabolice e aos disfarces da poesia anterior, substituiu a revelação sincera e minuciosa do seu modo de ser. Fala com naturalidade e abundância (sem o ar de indiscrição que caracterizaria mais tarde os românticos) da sua inteligência, posição social, prestígio, habi lidades. Preocupa-se com a aparência física e a erosao da idade; com o conforto, futuro, planos, glória. Talvez a circunstáncia de namorar uma adolescente rica (ele, pobre e quarentão)

disso exibicionismo compreensível de

tenha exacerbado esta tendência, que se ria a lém

homem apaixonado. Entretanto, é mais provável que a descoberta do amor e da poesia o ten ham levado a descobrir a si próprio e a comunicar o achado.

Suponhamos, com efeito, que o triunfo na carreira jud icia l, o prestígio na sociedade não bastassem para satisfazer certas necessidades espiritua is. O malogro da ca rreira

universitária, a falta de oportunidade e estímulo para a literatura, teriam bloqueado par-

te das suas aspirações; o encontro de Oorotéia e de Cláudio (do amor e da técnica

abriu novo trilho para ela e a poesia surgiu deste modo, de repente, como veículo para

afirmar brilhantemente o seu ser. Ainda mais num momento em que o Governador Luís

da Cunha Menezes feria o seu pundonor e os Ferrões, tios e tias de Oorotéia, procuravam

guardá·la para melho r partido.

um roteiro pontilhado

e vem predominar na fase da prisãc, quando a poesia passa a constituir quase a única via

),

6

Daí o cunho específico das liras pessoais; daí serem elas

pela afirmação da própria dignidade e va lia. Esta tendência se acentua

de manifestação da sua pessoa e o confinamento do cárcere desenvolve uma orgulhosa jactância, verdadeiro recurso de preservação da dignidade e integridade espiritual.

6. Diz Tom4s Brandão que a família de Dorotéia não de~java o casamento e tudo fez para evitá·lo, por ser Conzaga muito mais velho e estar de saída para Bahia. devendo pois levar a esposa. Mandaram·na inclusive para fora de Vila Rica, e mesmo a tenaz insist!ncia do Ouvidor põde quebrar a oposição. A lira "Eu, Maril ia, não sou nenhum vaqueiro", (1, 1) teria sido escrita para alegar as suas qualidades., em resposta à prosápia da família materna de Dorotéia. Marília de Dirceu, péigs. 142-166.

118

T