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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO CENTRO DE ESTUDOS SUPERIORES DE CAXIAS DEPARTAMENTO DE LETRAS Cleidvan Carlos

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO CENTRO DE ESTUDOS SUPERIORES DE CAXIAS DEPARTAMENTO DE LETRAS

Cleidvan Carlos Santos Oliveira

A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NEGRA COMO OBJETO DE DESEJO SEXUAL EM “CLARA DOS ANJOS” DE LIMA BARRETO.

CAXIAS-MA

2013

CLEIDVAN CARLOS SANTOS OLIVEIRA

A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NEGRA COMO OBJETO DE DESEJO SEXUAL EM “CLARA DOS ANJOS” DE LIMA BARRETO.

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Letras do CESC/UEMA, como pré-requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em Letras.

Orientadora:

Prof.ª

Me.

Sueleny

Ribeiro

Carvalho.

CAXIAS-MA

2013

O48r

Oliveira, Cleidvan Carlos Santos

A representação da mulher negra como objeto de desejo sexual em

Clara

dos

Anjos

de

Lima Barreto / Cleidvan Carlos Santos

Oliveira

Caxias-MA:

CESC/UEMA, 2013.

46f.

Orientador: Profª. Ma. Sueleny Ribeiro Carvalho.

Monografia

(Graduação)

Centro

de

Estudos

Superiores

de

Caxias-MA, Curso de Licenciatura em Letras.

 

1.

Condição

do

negro.

2.

Desejo

sexual

-

Objeto.

3.

Preconceito racial. I. Título.

CDU 821.134.3(81).09

CLEIDVAN CARLOS SANTOS OLIVEIRA

A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NEGRA COMO OBJETO DE DESEJO SEXUAL

EM “CLARA DOS ANJOS” DE LIMA BARRETO.

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado

como pré-requisito parcial para a obtenção do

grau de Licenciado em Letras, à comissão

julgadora do CESC/UEMA.

Apresentado em

/ /

BANCA EXAMINADORA

Prof.ª Me. Sueleny Ribeiro Carvalho CESC/UEMA

Prof.ª Dra. Algemira de Macedo Mendes CESC/UEMA

Prof.ª Me. Solange Santana G. Morais CESC/UEMA

Este trabalho dedico em especial aos meus pais Sr. Antônio Carlos e Sr.ª Maria do Socorro, irmãos e para a alegria do lar, minha linda sobrinha Layla Cristina.

AGRADECIMENTOS

Os meus agradecimentos vão para todos os que me acompanharam nessa árdua caminhada, os que comigo estiveram e que de alguma forma somaram para que eu tivesse a oportunidade de estar aqui, demostrando através destas simples palavras o meu sincero reconhecimento. Primeiramente quero agradecer a Deus, pois com toda a certeza sem a sua bondade a realização desse trabalho não seria possível, tão pouco se concretizado. Aos meus pais, Sr. Antônio Carlos e Sr.ª Maria do Socorro, eles que foram o suporte maior em toda a minha trajetória acadêmica, eles que não me deixaram desistir, que sempre oraram por mim e que mesmo com tantas dificuldades cuidaram pra que eu tivesse o prazer de desfrutar dessa vitória. Aos parentes e amigos que estiveram direta ou indiretamente torcendo pelo meu sucesso, pelos gestos de apoio, pelas palavras de conforto, pela confiança e amizade. Aos meus irmãos Edvan Carlos, Djavan Carlos, pela confiança e compreensão. A minha irmã Leilianny Carla, que mesmo estando distante, esteve presente, através de ligações e das redes sociais, obrigado pelas palavras de incentivo.

Aos companheiros solidários de muitos momentos angustiantes durante esses quatro anos de jornada. Aos professores do curso de letras pelo tratamento, respeito e companheirismo. A minha querida orientadora Sueleny Ribeiro Carvalho, pela orientação, compreensão que dedicou a mim durante toda a elaboração deste trabalho. A minha linda companheira Diceia Lívia, pelas palavras de incentivo, pela distração nas horas ruins, pelo carinho, atenção e compreensão. Enfim, meus agradecimentos sinceros e em iguais grandezas vão para

todos!

Muito obrigado!

Sou negro realizo uma fusão total com o mundo, uma afinidade com a terra, uma perda do meu eu no centro do cosmos, e o branco, por mais inteligente que ele seja não poderá compreender Amstrong e os contos do congo. Se sou negro não é devido a uma maldição qualquer, mas porque, tenho estendido minha pele, pude captar todos os refluvios cósmicos. Sou verdadeiramente uma gota de sol na terra.

Frantz Fanon

RESUMO

Este trabalho busca traçar a condição do afro descendente no período pós-abolição da escravatura, sobretudo, na obra Clara dos Anjos de Lima Barreto no que diz respeito ao preconceito racial delegado as mulheres negras. Com a proposta de abordar como, e por que as mulheres afro descendentes eram ainda submetidas e tratadas como simples objeto de desejo sexual. Traremos como principais embasamentos teóricos os autores David Brookshaw e Frantz Fanon, que suscitam a questão dos estereótipos e o complexo de inferioridade do negro em relação ao branco, Petrônio José Domingues no que diz respeito às relações sociais no século XIX, Affonso Romano de Sant`Anna e a comparação da mulher negra as especiarias culinárias. Estruturalmente nosso texto encontra-se dividido em três partes, onde abordamos argumentos relacionados ao período da escravidão, sobretudo a mulher negra como simples objeto sexual, estereotipia, e preconceito racial, em que a presença do negro não escapa ao tratamento marginalizado que desde as instâncias fundadoras, marcam a etnia no processo de formação de nossa sociedade.

Palavras-chave: Condição do negro. Objeto de desejo sexual. Preconceito racial. Mulher negra.

ABSTRACT

This work seeks to trace the afro descendant condition in the post- abolition period of slavery, especially in Clara dos Anjos, of Lima Barreto with regard to racial prejudice delegate black women. With the proposal to address how and why women afro descendants were still subjected and treated as a single object of sexual desire. We will bring the main theoretical ramming the authors, David Brookshaw and Frantz Fanon, which raise the question of stereotypes and the inferiority complex of black against the white, Petrônio José Domingues with regard to social relations in the 19th century, Affonso Romano de Sant'Anna and the comparison of black woman the culinary spices. Structurally our text is divided into three parts, where we discuss arguments related to the period of slavery, especially the black woman as a sexual object, simple stereotyping, and racial prejudice, in which the presence of the black does not escape the treatment sidelined since founding instances, mark the ethnicity in the process of formation of our society.

Keywords: black condition. Object of sexual desire. Racial prejudice. Black woman.

SUMÁRIO

CONSIDERAÇÔES INICIAIS

9

1 A CONDIÇÃO DO NEGRO NO PERÍODO PÓS-ABOLICIONISMO

14

1.1 Deserdados da república: largados a própria sorte

14

1.2 As relações sociais de preconceito na sociedade do século XIX

17

2 A CONSTRUÇÃO DA REPRESENTAÇÃO DA MULHER NEGRA EM CLARA

DOS ANJOS DE LIMA BARRETO

21

2.1 O estereótipo feminino em Clara dos Anjos

21

2.2 Clara, estereótipo da mulher vista como simples objeto 25

28

2.3 Da alienação à tomada de consciência

3 RETRATAÇÃO DO PRECONCEITO DE GÊNERO E COR NA OBRA CLARA

DOS ANJOS DE LIMA BARRETO

33

3.1 O complexo de inferioridade em relação ao homem branco

33

3.2 O Dilema da mulher afro descendente diante do preconceito racial

36

3.3 Da miséria socioeconômica a exploração sexual

39

CONSIDERAÇÕES FINAIS

44

REFERÊNCIAS

46

9

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O motivo pelo qual escolhi esse tema como abordagem de minha análise, tem ligações obvias com o meio ao qual estou inserido e presente, principalmente no que diz respeito a vagas observações, onde tive a oportunidade de perceber as relações extremamente desiguais entre brancos e não brancos, bem como a exclusão desses últimos, e que ainda nos tempos de hoje a mulher negra é vista sobre a alcunha de algo a ser apenas possuída sexualmente e descartada, que a mulher negra, portanto sofre em pleno século XXI, diversas formas de discriminação étnico-racial. Em toda a literatura brasileira do século XIX, a mulher, principalmente a negra, tem sido representada por uma imagem desvalorizada, em que são fixados preconceitos ainda presentes na sociedade ao longo dos anos, a condição social do sujeito negro é um entre tantos temas que a obra barretiana procura abordar de forma bastante irônica e sarcástica. Vinculado á realidade social urbana e suburbana do Rio de Janeiro, Lima Barreto rompe com a mentalidade racista e preconceituosa de seus contemporâneos. Lima Barreto enquanto porta voz dos oprimidos da primeira república, foi o escritor do qual aprendi a gostar, admirar e mesmo a me identificar, pelas questões abordadas em suas produções. Desta forma pretendemos analisar na obra Clara dos Anjos a condição da mulher negra sobre um ponto de vista onde o autor procura denunciar o valor da mulher negra como simples objeto de desejo sexual, em parte os problemas e humilhações que o meio social preconceituoso lhe delegava deixando-a á mercê dos mais privilegiados na hierarquia social e, portanto vivendo uma situação falsa ou de passividade, como revela David Brookshaw (1983).

O negro era, pois, incapaz de iniciativa e, consequentemente, incapaz de participar de uma sociedade livre. Ele era conforme sugere a citação, um leproso social. Sendo um elemento subjugado na sociedade, sua sombria presença era tanto reflexo quanto lembrança de um passado morto que tinha de ser esquecido a fim de que as leis da evolução humana e do progresso pudessem ser efetivas (ibid., p. 62).

10

Em nosso objeto de análise, a obra Clara dos Anjos, nos propomos a buscar esse olhar sobre a representação da mulher negra. Antes vale mencionar que o romance é centrado na historia de promiscuidade do falso violeiro Cassi Jones, que adorava as mulheres pobres e negras, ao ponto de colecionar uma porção de defloramentos em seu vasto currículo, isso em um contexto republicano pós-abolicionista do Rio de Janeiro. Percebe-se então na obra em questão, o papel a que eram submetidas às mulheres negras ou afro brasileiras no século XIX. Clara, a jovem “mulata” do romance, era vista e percebida apenas como objeto de desejo das classes superiores, do homem branco. Compreende-se também que a presença de negros na literatura brasileira está relegada a um segundo plano, onde prevalece a representação do negro com predicativos que acabam por atribuir-lhes características negativas isto é, fica evidente que consciente ou inconscientemente estes eram vistos como pessoas inferiores, fato que muito instigou Afonso Henriques de Lima Barreto escritor de ascendência humilde, a fazer uma literatura militante a ponto de criticar o mundo circundante para despertar alternativas renovadoras dos costumes e de práticas que, na sociedade de sua época privilegiavam pessoas e grupos ligados à elite dominante. Observa-se também que Lima Barreto usa sempre de temáticas sociais que envolvem o meio suburbano do Rio de Janeiro em toda a sua obra, considerado por isso o crítico mais arguto da república velha no Brasil, em seus textos privilegiou os pobres, negros e boêmios. Na obra nota-se o tom de preconceitos atribuído ao negro e também denuncia o fato de que o afro descendente é realmente visto como objeto de desejo sexual, pois o negro segundo essa versão, era portador de uma sensualidade incomparável. A justificativa para o preconceito contra o negro recebeu um posterior impulso dos naturalistas, pois estes sofriam influências do cientificismo dominante da época.

O interesse do Naturalismo pela pobreza e sordidez significava

que poderia dar rédea larga a um estudo clínico do negro, no qual sua bestialidade seria demonstrada, não apenas na liberdade de descrição, mas na consideração de certos tópicos proibidos até aqui,

] [

11

tais como homossexualidade, contato sexual entre homem negro e mulher branca e a incontrolável sensualidade do negro em geral (BROOKSHAW, 1983, p. 42 - 43).

Em Clara dos Anjos, Lima Barreto procurou através da personagem Clara, uma “mulata” afro descendente e o seu usurpador Cassi Jones, um branco de classe superior, criticar essa visão alienada, preconceituosa, estereotipada e machistas em relação à mulher negra como meros objetos nas mãos dos poderosos, observando as tensões e intenções presentes nas relações de gênero e raça no que diz respeito ao lugar social destinado aos negros, de acordo com Gislene Aparecida dos Santos (2002).

mesmo antes da elaboração da noção de raça como algo que diferenciasse grupos de sujeitos no mundo, a cor negra já possuía características negativas. A busca da compreensão dessa oposição branco/negro e da própria diversidade humana atravessou séculos. As questões levantadas pelos iluministas expandiram-se e tornaram-se ainda mais complexas (ibid., p. 45).

[

]

Contudo no contexto urbano e republicano, a permanência da marca da escravidão colonial e imperial era bem mais visível nas trajetórias das mulheres

negras, mulheres-objetos sexuais, “peças”. Portanto se percebe que o romance, enquanto objeto cultural apresenta também as marcas dos lugares sociais do poder:

O lugar de dominação tem cara e corpo nítidos, é masculino e é branco.

Procuramos, portanto abordar aqui como vivia a população negra no pós- abolição, principalmente a mulher negra nas relações sociais com o branco, bem como a miséria econômica a que estavam submetidas e ainda a sua exploração

sexual.

O objetivo geral deste trabalho consiste em verificar como é representada

a mulher negra enquanto objeto de desejo sexual em Clara dos Anjos de Lima Barreto.

Nossos objetivos específicos têm por escopo analisar as relações sociais entre brancos e negros na então jovem república bem como a sustentação de formas segregacionistas no dado período.

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Em determinadas situações, operava-se uma espécie de convenção não escrita, expressada por palavras, gestos, olhares, em suma, pela interação cotidiana dos negros e brancos. Formas de opressão não sancionadas também faziam parte do código de etiqueta racial vigente. A segregação incindia nas praças publicas, jardins, parques e bosques, tanto da capital quanto das cidades do interior (DOMINGUES, 2003, p. 158).

Verificaremos também como os estereótipos, e a assimilação de valores brancos pela classe subalterna, desempenham papel fundamental para que estes, os negros e pobres principalmente, permaneçam nos lugares menos prestigiados na escala social. Portanto para maior compreensão dos estereótipos que inferiorizam a mulher afro descendente e a sua busca por reconhecimento na obra Clara dos Anjos, nos apoiaremos nos estudos de David Brookshaw, Frantz Fanon e Gislene Aparecida Dos Santos, sobre as ideias que naturalizaram a inferioridade do negro, estereótipos, complexo de inferioridade do negro e complexo de superioridade do branco.

Segundo David Brookshaw (1983, p10), “o jogo de estereótipos é um jogo de oposições. Implícito na mente de quem estereotipa está o estereótipo que ele faz de si mesmo e de sua categoria”. Ou seja, o estereótipo é uma forma de aprisionar o negro estereotipado aos lugares a que foi relegado mesmo antes da escravidão através do discurso naturalista. De acordo com Fanon (1983):

O negro tem duas dimensões. Uma com seu semelhante outra com o branco. O comportamento de um negro em relação ao branco é diverso do seu comportamento em relação a um outro negro (ibid., p.

17)

O negro admite sua inferioridade através de sua relação e atitudes em contato com o mundo branco, ele de alguma forma almeja e fará de tudo para adentrar o mundo burguês, tanto que em relação com o seu semelhante de cor, o negro não fará questão de impressionar, nem de ter sua atenção e nem dará atenção. Como podemos verificar na obra, quando uma das colegas do ciclo de

13

convivência de Clara tentou lhe alertar sobre o tal Cassi, que demorara a chegar para a sua festa de anos.

Clara não ocultava o seu descontentamento; e uma de suas colegas lhe dizia em confidência:

-- Clara toma cuidado. Este homem não presta.

A moça não respondia, encaminhava-se para a sala de jantar, a fim de disfarçar a emoção, simulando ir beber água (BARRETO, 2004, p.

52).

Gislene Aparecida dos Santos (2002) diz o seguinte:

] [

necessidades politicas que fizeram com que os conceitos elaborados

em diferentes áreas do conhecimento justificassem e reinventassem,

o “ser negro” foi produzido no campo das ideias a partir das

a cada momento, o lugar do negro na sociedade (ibid., 16).

Na obra de Lima Barreto verifica-se justamente isso, o preconceito racial oriundo de questões político-sociais decorrentes do período, em que o negro ainda era visto como escravo e não como ser livre como determinava a lei áurea. A delimitação do nosso trabalho dar-se-á da seguinte forma:

Considerações iniciais. 1 A condição do negro no período pós-abolicionismo, onde verificamos como se dava as relações entre negros e brancos. 2 A construção da representação da mulher negra em Clara dos Anjos de Lima Barreto, verificamos como Lima Barreto trata com veemência a representação da mulher negra como simples objeto sexual, através da antagonista Clara, sob o olhar do homem branco. 3 Retratação do preconceito de gênero e cor na obra Clara dos Anjos de Lima Barreto, aqui verificaremos principalmente como consequência do complexo de inferioridade e da miséria socioeconômica as formas de opressão a que eram submetidas as mulheres negras através da exploração sexual. Enfim procuramos perceber por que a mulher negra é relegada a imagem hegemonizada através dos estereótipos a uma única representação no imaginário masculino, e estes voltados apenas para seus tributos sensuais, sexuais e procriadores.

14

1 A CONDIÇÃO DO NEGRO NO PERÍODO PÓS-COLONIALISMO

1.1 Deserdados da república: Largados a própria sorte

O preconceito racial é ainda um tema presente, apesar de não ser mais tão largamente notado como na época da escravidão, onde o negro era incluído como um ser inferior, objeto de desejo privado, submetido as mais angustiantes formas de sofrimento. O Brasil jamais esteve livre da discriminação racial, pois se trata de um país com dimensões grandiosas de crioulização, desta forma se constituiu um país “mestiço” por excelência, oriundo de sucessivos cruzamentos entre povos, e uma só aparente entidade sócio-política que encontra ainda dificuldades em estabelecer juízo crítico capaz de aceitar o negro, o qual teve sua imagem esvaziada dos conceitos morais, culturais e materiais, passando a ser marginalizado e repleto de estereótipos da estética dominante. Utilizaremos o conceito de estereótipo segundo Bhabha (2010):

proponho a leitura do estereótipo em termos de fetichismo. O

mito da origem histórica – pureza racial, prioridade cultural – produzido em relação com o estereótipo colonial tem a função de “normalizar” as crenças múltiplas e os sujeitos divididos que constitui o discurso colonial como consequência de seu processo de recusa.

(ibid., p.114).

] [

Estereótipos esses que se tornam elementos largamente presentifacados em obras literárias. Alguns escritores apontam Machado de Assis, Cruz e Sousa e Lima Barreto como precursores da literatura negra ou literatura afro-brasileira, porém

a causa do negro é menos explicita nos dois primeiros, enquanto que no último já se dá de maneira bastante clara, pois Lima Barreto foi o escritor mais vitimado pelo estigma de ser negro em uma sociedade branca, e quanto a essa situação levantou- se uma escrita denunciadora dos princípios da república do século XX denunciando

a realidade da pequena classe média suburbana, na qual também estava inserido. Após a abolição do sistema escravocrata, em vez dos negros, os novos privilegiados são os imigrantes operários, e se prestarmos um mínimo de atenção, constataremos que o não branco foi de maneira insolente esquecido, pois sua “[ ] negrura atestava sua inferioridade inata hereditária e inelutável” (SANTOS, 2002,

15

p.56), no período da primeira república, permanecendo assim os preconceitos já existentes no período da escravidão, seja de gênero, raça ou orientação sexual conforme podemos observar no fragmento a seguir:

Apartados racialmente e considerados inábeis para determinados cargos civis, religiosos e militares, esses segmentos ficaram relegados a uma posição de subalternidade na estrutura tanto da sociedade portuguesa quanto da sociedade colonial brasileira. O conceito de pureza de sangue, sustentado pela igreja desde a idade media até o século XIX, impedia que o negro ocupasse algum papel de relevância na vida social brasileira, pois na ótica dos “donos do poder”, ele era portador de sangue impuro ou infecto. (DOMINGUES, 2003, p. 28).

Sabendo da importância e da participação ativa que os negros “livres” tiveram no processo de transformação estrutural da então jovem república, e que o dia 13 de maio de 1888 não significou o marco de ruptura de uma nova forma de pensar em relação ao afro-descendente, traremos esse viés como nosso ponto de partida para tentar deslindar o preconceito vivido pelo negro no pós-abolição, uma vez que a história do negro no Brasil quase sempre se confunde com a história do sistema escravista, pois:

Se durante a escravidão os negros já eram desprezados por serem considerados inferiores, após a abolição esse desprezo só aumentou. Ora, se não eram inferiores, por que não progrediam como os imigrantes que chegaram aqui com tão pouco e logo tinham alcançado algum avanço? (SANTOS, 2002, p. 119).

Como poderia ser diferente se a campanha abolicionista, em fins do século XIX, ao movimentar vastos setores da sociedade brasileira, não viabilizou forma alguma de relação e inclusão para os então libertos do sistema escravocrata? Enquanto que todo projeto voltado para o princípio de admissão no trabalho livre era direcionado para os imigrantes europeus? Se o negro nunca teve seu merecido reconhecimento? Se o negro sempre foi visto como uma massa inculta, imbecilizada, sem qualidades, doente e deformada por sua origem, incapaz de se adequar ao trabalho livre? Todas essas questões eram presentes e sustentadas, a

16

desvantagem do negro em relação ao homem branco no período pôs abolição era em tudo deplorável.

Assim, era sonegado ao escravo o direito de acesso a terra, diferentemente do que se fazia com os imigrantes brancos europeus. Não é exagero afirmar que todo o sistema de colônias agrícolas era direcionado para estes. (DOMINGUES, 2003, p.32).

Logo após a desagregação do regime escravocrata o ser negro não usufruiu de nenhum tipo de assistência ou garantias que os amparassem na transição para o sistema de trabalho livre, os então senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos negros libertos, o estado, a igreja ou qualquer outra instituição, da mesma forma deixaram desamparados, não assumindo qualquer responsabilidade em prepará-los para o novo regime de organização da vida e do trabalho, ao mesmo tempo, o país passará a incentivar, desde 1870, a entrada de trabalhadores imigrantes, principalmente europeus para as lavouras do sudeste.

Na constituição do mercado de trabalho do pôs abolição [

branco imigrante europeu monopolizou as melhores oportunidades do trabalho assalariado e do trabalho autônomo, além de eliminar o negro das antigas posições que ocupava. Este não só foi destituído

do local de trabalho, mas em muitos casos, praticamente perdeu o direito ao trabalho. A exclusão do negro no pôs abolição não resultou de sua aversão ao trabalho regular e disciplinar; pelo contrario foi consequência da ausência de oportunidades de emprego para esse

segmento da população [

o

],

].

(DOMINGUES, 2003, p. 112).

Ocorre então que, com a abundância de mão de obra imigrante europeia galgando as melhores oportunidades, os “ex – cativos” acabaram deserdados de suas antigas ocupações, “somando um mito após o outro, inferioridade, vagabundagem, incompetência, foi se esboçando o perfil do homem negro como anticidadão, como marginal” (SANTOS, 2002, p.119), e acabaram por se constituir um imenso exercito industrial de reserva, descartável e sem força politica alguma na jovem republica, o que nos faz crer que a abolição não era apenas uma ação por maior justiça social, mas um regime que apesar das obrigações, não viera para democratizar a sociedade, por seus predicados acentuadamente oligárquicos, a

17

república brasileira chegara para manter intocada uma estrutura elitista e excludente ou ainda como uma necessidade premente de inclusão do Brasil na economia mundial, onde os negros, estes ficaram jogados a própria sorte.

1.2 As relações sociais de preconceito na sociedade do século XIX.

No mundo em que vivemos não são raras às vezes em que observamos em cada indivíduo, um rol de características distintas, características estas que baseiam-se nos seguintes aspectos: cultural, material, racial, sexual, entre outras. Os aspectos mais simples para constatarmos que os seres humanos são diferentes são, os aspectos físicos e sociais, e por conta desses aspectos vemos que a desigualdade social assume aparências distintas por se constituir de um conjunto de elementos econômicos, políticos e culturais próprios de cada sociedade, estabelecendo-se então as relações de crendice. Para este trabalho analisaremos as relações de preconceito vividas pelos negros no período pôs abolição, e de acordo com Petrônio José Domingues (2003), consideremos o preconceito racial como:

uma forma de avaliar o negro tendo como base estereótipos que

lhe atribuem qualidades negativas. A discriminação é um processo de marginalização social, politico, cultural e racial imposta ao negro. O preconceito é um pensamento, enquanto a discriminação é uma ação. Segregação corresponde ao ato de separar pessoas de origens étnico – raciais diferentes, estabelecendo cordões de isolamento, reais ou imaginários, e delimitando espaços distintos para negros e brancos. (Ibid., p. 134).

] [

No século XVIII, com a ajuda da industrialização o capitalismo obteve um grande crescimento, dando origem assim as relações entre o capital e o trabalho, então o capitalista que era o grande patrão branco, e o trabalhador assalariado, o imigrante, passaram a ser os principais representantes desta organização, os “ex – cativos” africanos, por serem estigmatizados segundo os preconceitos europeus e agora reproduzidos no Brasil, no pós abolição não tiveram as mesmas oportunidades que o homem branco conforme salienta Petrônio José Domingues

(2003):

18

No pós abolição, não se instaurou, plenamente, a livre concorrência

no mercado de mão-de-obra [

dos principais elementos de imperfeição desse mercado. (Ibid., p.

131).

se constituiu em um

]

e o racismo [

]

Ainda segundo Gislene Aparecida Dos Santos (2002), nos jornais da época a imagem do negro era veiculada como símbolos de barbarismo, de atraso cultural e pobreza.

Lidas e relidas com certa frequência, essas noticias, em vez de informar a população, disseminavam teorias racistas. Do escravo, artigo vendido ou comprado, ao marginal negro não havia muito espaço. O negro será retratado nos jornais: nas seções cientificas, como objeto de estudo ou comprovação das teorias racistas; na seção de noticias, ora assassino, ora fugitivo, ora como um ser incapaz de viver em sociedade cometendo graves erros por ignorância, ora por suas praticas de feitiçaria, ou canibalismo, ora por sua degeneração moral; na seção de anúncios, como mercadoria que se compra ou vende, procurada ou encontrada, como um semi- homem com características pouco civilizadas. (Ibid., p.128).

Podemos afirmar então, que as relações de preconceito, nesta época, ou a desigualdade social não foi algo acidental, e sim produzida por um conjunto de relações que envolviam as esferas da vida cotidiana do período, resultando num crescente estado de miséria e desigualdades, fazendo do negro um ser indesejável, proibidos quase sempre, de andar pelas mesmas ruas que os brancos, de estar e/ou permanecer em locais públicos e privados.

os brancos desfrutavam de privilégios. Os

negros eram relegados a uma única ruela para passar. Os brancos reagiam hostilmente aos homens de cor que ultrapassavam a linha separatista. Às vezes, a separação era demarcada por uma linha imaginaria, outras, por algum tipo de barreira real. [ (DOMINGUES, 2003, p.159).

Na praça pública [

]

Além de não poder transitar entre os brancos, o negro neste período era tratado de forma alegórica, ou seja, os brancos viam apenas o exterior do negro, a sua aparência física, não se preocupando com o seu íntimo, nos serviços públicos de saúde, o negro era visto de forma indiferente, muitas vezes esquecido, alanceado, em péssimas condições de bem-estar, teriam de esperar a boa vontade

19

dos profissionais, os médicos e enfermeiras selecionavam para serem atendidos primeiramente os brancos.

Na própria rede de saúde pública, os negros recebiam um atendimento mais precário do que os oferecidos aos brancos, desde alguns funcionários que não os tratavam condignamente, passando por certo desdém dos médicos, até as enfermeiras que não ocultavam sua preferencia em cuidar dos enfermos brancos. (DOMINGUES, 2003, p. 168).

Em caso de brigas envolvendo negros e brancos, o negro sempre levava a culpa, mesmo não sento o perpetrador do ocorrido, era ele o indiciado e levado preso, o branco quando não era preso, era solto logo que prestasse as precisadas explicações. “O negro era visto como suspeito até que se provasse o contrario”. (DOMINGUES, 2003, p. 141).

Quando a briga de um negro com branco se tornava caso de policia, ambos eram levados a delegacia. Após as devidas explicações, o branco, não raramente, era solto, enquanto o negro era encaminhado para o “xadrez”. Para arrancar a confissão de crime qualquer o negro podia até ser submetido a sessões de tortura. (id. Ibid.).

Podemos verificar ainda nas relações de preconceito da época, que ao negro era negado e/ou dificultado, mesmo que pudesse pagar, ate o acesso à moradia devido à cor de sua derme, pois os homens brancos e europeus detentores de propriedades, principalmente de imóveis a disposição de aluguel, deixavam claro nas placas e anúncios, a preferência por pessoas brancas ou estrangeiras.

Não era incomum constar nos anúncios de aluguel de moradia e pontos comerciais a observação “prefere-se estrangeiro”. Esse

indicio de rejeição racial traduz o fato de que, no mercado imobiliário

os quesitos “nacionalidade” e “cor” influenciavam na escolha do

inquilino para alocar o imóvel. Assim, havia proprietário que não

alugava seu imóvel para cidadãos negros [ p. 166).

(DOMINGUES, 2003,

], [

].

20

As mulheres negras igualmente eram vitimas do preconceito, recebiam tratamentos desiguais, por que se tratava de “gente de cor” 1 , mesmo elas convivendo ou trabalhando nos mesmos ambientes em que trabalhavam as mulheres brancas, os policiais tinham isso como uma forma de divertimento, prender as mulheres negras. “A prática era conduzi-las até o posto policial, violentá-las e às vezes sexualmente;” (DOMINGUES, 2003, p. 140), após essas ações os mesmos ameaçavam as mulheres negras caso decidissem denunciá-los as autoridades competentes.

Se fossem brancas, eram abordadas, às vezes, presas e logo em seguida eram liberadas. Se fossem negras eram consideradas prostitutas e, neste caso automaticamente eram detidas, tendo que passar a noite na delegacia. Já as negras que eram prostitutas de fato, sofriam uma perseguição policial terrível. Era comum elas serem presas, e, na delegacia, serem espancadas, receberem uma ducha de água fria, e terem a cabeça raspada. (Ibid., p. 140).

Com isso conclui-se que o processo de inclusão social do afro descendente, traz em si mesmo a exclusão, pois o impulso original de rejeição ao negro resultava em discriminações, tornando-os produtos da insegurança, hostilidade, temor e sofrimento advindo das relações sociais com os brancos, principalmente com aqueles a quem eles não se submetiam, no caso os senhores de escravos.

1 O termo “gente de cor” é usado aqui como referência aos negros africanos e descendentes:

mestiços, negros, mulatos, no que diz respeito ao esquema racial epidérmico.

21

2 A CONSTRUÇÃO DA REPRESENTAÇÃO DA MULHER NEGRA EM CLARA DOS ANJOS DE LIMA BARRETO.

2.1 O estereótipo feminino em Clara dos Anjos.

Ultimamente a obra barretiana tem sido bastante explorada em trabalhos e teses literárias no Brasil. O interesse constante pelo autor se dá justamente por possibilitar ao pesquisador trabalhar temáticas crucias de negritude e situação do negro no país. Consideramos o fato de que o próprio autor era também de origem negra, e por vezes o escritor que mais sentiria na pele o preconceito crendice racial, tornando-se um dos precursores a enfatizar deliberadamente a situação em que vivia o negro suburbano, fazendo de seus escritos uma obra de vanguarda contrária às aparências brancas e burguesas. Buscaremos através do conceito de estereótipo analisar aspectos relevantes na forma como era representada a mulher negra no romance Clara dos Anjos. Segundo David Brookshaw (1983).

Um estereótipo pode ser inicialmente definido como sendo tanto a causa quanto o efeito de um pré-julgamento de um individuo em relação ao outro devido à categoria a que ele ou ela pertence. Geralmente esta categoria é étnica. Na verdade, poder-se-ia ir mais longe e dizer-se que todos os grupos étnicos são estereotipados para a conveniência de outros. (ibid., p. 9).

Na obra Clara dos Anjos, percebemos que são conferidos papéis e rótulos as personagens femininas, por consequência dos discursos dominantes, imagens preconcebidas, usadas principalmente para definir e/ou limitar pessoas e/ou grupo de pessoas na sociedade. Lima Barreto problematiza as representações das

mulheres afro-brasileiras tendo como principal motivador os estereótipos divulgados e fixados por meio da personagem central Clara, sua mãe Engrácia, ambas mulheres negras e que por conta disto ocupam posições desprestigiadas. De acordo com o narrador, dona Engrácia, era uma mulher muito

foi criada com mimo de filha, como os outros

religiosa, recatada e bem instruída, “[

rapazes e raparigas, filhos de antigos escravos, nascidos em casa dos Teles.” (BARRETO, 2004, p. 61), a respeito disto Freyre (2004, p. 536) destaca: “No Brasil, muita cria e mulatinho, filho ilegítimo do senhor, aprendeu a ler e escrever mais

]

22

depressa que os meninos brancos”. E logo se casou com Joaquim dos Anjos, Engrácia tratou de esquecer o que aprendera e dedicara-se apenas a família e aos serviços domésticos, algo muito comum àquela época, pois o papel da mulher era casar e ter filhos, ao homem cabia o papel de provedor financeiro, ao tempo que tinha de focar em sua carreira, era ele responsável por garantir o sustento da família e manutenção da casa, e assim a mulher semelhava ter sido apagada, pois “seu temperamento era completamente inerte, passivo” (BARRETO, 2004, p. 60). De acordo com o narrador, esse papel de dona de casa, senhora do lar era um dos estereótipos relegado às mulheres negras, não sendo permitido a elas outros afazeres de maior responsabilidades e a seu modo ela exercia este dever. A personagem central Clara, mulher e negra pobre do subúrbio carioca, filha de dona Engrácia tem sua imagem estereotipada descrita com associações de adjetivos ligados a sua sensualidade, marcados pelos movimentos do corpo e feições físicas a sua carência de razão ou sensibilidade e por isso esta confinada as artimanhas e trejeitos da sedução.

estereótipos congelam a personalidade, apagam a

individualidade, dotando o receptor com características que se adaptam ao ponto de vista á priori do percebedor em relação à classe social ou étnica, ou ainda, à categoria sexual de sua vítima. O ser estereotipado é, assim, a corporificação física de um mito baseado imediatamente na visão que o perecedor tem do papel sócio-cultural de seu receptor e de seu próprio. (BROKSHAW, 1983,

p.10)

[

]

Como nos mostra Lima Barreto, quando Cassi Jones o homem que “desgraçou” a pobre jovem, a vê pela primeira vez, observando a beleza de seus seios, como que os dotes sensuais da moça, fossem o que verdadeiramente lhe

ninguém lhe notou o olhar guloso de grosseiro sibarita sexual que

deitou para os seios empinados de Clara.” (BARRETO, 2004, p.53). Ou como

devorar sorrateiramente com o olhar lascivo os bamboleios de quadris

de Clara, quando dançava.” (ibid., p. 54). Clara, portanto além de ser negra, se vê desprovida de malicia como consequência dos ensinamentos que recebera de seus pais, a menina recebera uma educação cheia de mimos e de vigilância, e por isso torna-se incapaz de julgar

importava: “[

]

parecia “[

]

23

mesmo que transparentemente sua situação dentro da sociedade, Clara “devia ter

aprendido da boca de seus pais que a sua honestidade de moça e de mulher tinha ”

(BARRETO, 2004,

todos por inimigos, mas isto ao vivo, com exemplos claramente

p. 152). Clara, no entanto ambicionava apenas por um “bom casamento”. Segundo Frantz Fanon (1983):

O grande sonho que as obceca é aquele de se casarem com um

branco [

esse fim que quase nunca é alcançado. Sua necessidade de gesticulação, seu gosto pela ostentação ridícula, suas atitudes calculistas, teatrais, repugnantes, são sinais de uma mesma mania de grandeza; elas precisam de um homem branco, todo branco, nada mais do que isso. (ibid., p.49).

Poderia ser dito que todos os seus esforços tem em vista

].

O narrador atribui criticas vorazes a esse tipo de criação, pois mesmo diante de situação desfavorável, a personagem se encontra impossibilitada de tentar qualquer reação de defesa contra possíveis e eventuais falta de respeito por parte de pessoas mal-intencionadas ou munidas de artimanhas no caso o homem branco, que no pós-abolição ainda alimentava o preconceito e o complexo de superioridade em relação à mulher afro-brasileira. Na obra de Lima Barreto, o que se percebe é que, com o tratar das questões sociais e raciais, ligadas as mulheres negras pobres e suburbanas, o desencadear das narrativas acabam sempre em defloramento das mesmas, com Clara não foi diferente mesmo sendo alertada deixou-se, seduzir por:

Cassi um rapaz de pouco menos de trinta anos, branco,

sardento, insignificante, de rosto e de corpo; e, conquanto fosse conhecido como consumado ‘modinhoso’, além de o ser também por

] [

outras façanhas verdadeiramente ignóbeis [

25).

],

(BARRETO, 2004, p.

Homem meticuloso e de família pequeno-burguesa, Cassi Jones nada fazia da vida a não ser apostar em briga de galos e seduzir mulheres. “Em geral, as moças que ele desonrava eram de humilde condição e de todas as cores.” (BARRETO, 2004, p. 26) habituara-se a fazer o mal a essas desprovidas, pois o mesmo nunca era punido, devido à proteção de sua preconceituosa e arrogante

24

mãe, Dona Salustiana, que “dizia-se descendente de um fantástico Lord Jones, que fora cônsul da Inglaterra” (ibid., p. 25), e por tal parentesco julgava-se superior as pobres vítimas de Cassi, e não aceitava a ideia do filho casado com uma negra pobre, deixando explicitamente perceptível o seu preconceito em relação ao afro- brasileiro.

] [

uma pobre mulata costureira, ou com uma moça branca lavadeira e analfabeta. Graças a esses seus preconceitos de fidalguia e alta estirpe, não trepidava 2 em ir empenhar-se com o marido, a fim de livrar o filho da cadeia ou do casamento pela polícia. (BARRETO, 2004, p.26),

repugnava-lhe ver o filho casado com uma criada preta, ou com

David Brookshaw (1983) diz o seguinte, que:

o preconceito contra o negro tem sido e ainda é um dos mais

arraigados em nossa experiência histórica em virtude de séculos de escravidão. O negro, mesmo antes de ter sido escravizado, tinha um defeito que para muitos serviu de justificativa pra sua escravatura, e esse defeito era sua cor.” (ibid., p12).

”[

]

Pode-se imaginar então que através dessas falas principalmente a do pai de Cassi que, o narrador busca frisar, que Clara não foi a primeira e nem a última mulher negra, a ser submetida a situações de sedução exploração e abandono por Cassi Jones.

-- Mas é a sexta moça, Salustiana! -- Qual o quê! Calunia-se muito -- Qual calúnia, qual nada! Este rapaz é um perverso, é sem

vergonha. Eu sei o nome das outras. Olhe: a Inês, que era empregada do Dr. Camacho; a Santinha, que ajudava a mãe a costurar para fora e morava na rua Valentim; a Bernarda, que

trabalhava no “joie de vivre”

(BARRETO, 2004, p.26.27).

Portanto percebemos que o desprezo e o preconceito que nutria as atitudes do rapaz certamente tiveram influências dos valores passados pela família e que na época eram guiados por teorias racistas, pelos estereótipos e julgamentos

2 Na acepção de “hesitava”. (ibid., p.26).

25

presentes no imaginário social acerca do mito da mulher negra, de modo que sua única qualidade era atribuída ao seu lado sensual, ou como objeto de prazer e desejo.

2.2 Clara, estereótipo da mulher vista como simples objeto.

Visto que o preconceito racial é um tema ainda bastante presente na sociedade atual, que mexe com as representações sociais e de poder, é importante verificar como essas representações foram sendo construídas no tempo e presentificadas na literatura, para isso pretendemos observar como é representada a mulher negra, enquanto objeto de desejo sexual em Clara dos Anjos, visto que essa é uma dentre várias obras do autor que apresenta como tema central o preconceito racial, nos limitaremos em mostrar apenas as dificuldades enfrentadas pela personagem. Em Clara dos anjos é através da personagem Clara, a protagonista e Cassi Jones o antagonista, Lima Barreto procura denunciar a desvalorização da mulher negra que era simplesmente usada e descartada, como um objeto pelo homem branco, usando de uma linguagem coloquial, abusando do dialeto simples e ignorando muitas vezes as regras gramaticais em uma postura estética até então quase ignorada pela literatura tradicional no período pós- abolicionista. Na concepção de Gislene Aparecida dos Santos (2002, p. 60). “Tanto nas ciências quanto nas artes, a imagem do negro que é veiculada leva a crer em sua inferioridade inata e irremediável”. E isso é bem verdade, pois no caso de Clara, o que se percebe é verdadeiramente isso, mesmo detentora de uma educação razoável, se torna alvo do preconceito do branco sobre o negro, sendo apenas vista como algo a ser possuída (comida), inútil e desprezível, muito longe de ser uma mulher esposavél.

Ora, se da mulher branca se exigia uma serie de “atributos femininos”, que assim definidos serviam para circunscrevê-la no espaço do ócio e não do negócio, no que se refere à mulher de cor a situação se repete com agravantes. Além de mulher, ela é preta. Quer dizer: escrava, subordinada duas vezes. (SANT´ANNA, 1993, p. 44).

26

Quanto a isso Affonso Romano de Sant`Anna (1993) diz ainda que:

em relação à mulher de cor, surge, um fenômeno. Ainda mais

sintomático do canibalismo amoroso. Desenvolve-se uma vontade de devorar as mulatas (negrofagia), um generalizado desejo pelas morenas (negrofilia), e um implícito e complexo sentimento de medo

(negrofobia) diante da vitima (ibid., p.21).

] [

A mulher negra, antes e depois do sistema escravocrata, teve sempre sua imagem ligada a esses estereótipos, pela ótica da sensualidade e da sexualidade, sujeita aos mandos e desmandos do senhor, dono das senzalas ou mesmo das casas grandes, serviam apenas para a reprodução, pois reproduzindo aumentavam o poder econômico dos patrões, e satisfação sexual dos seus senhores, a mulher afro descendente, sempre esteve relegada a categoria de objeto, e que não deve ser, apenas admirada, pela ação do olhar, deve ser tocada, sentida. O afro descendente esteve enraizado sempre a uma forma estereotipada de representação, ou seja, o discurso colonizador imponha no caso da mulher negra, sempre a mesma forma de representação, em qualquer época, em qualquer que seja a situação. O estereotipado está inserido numa névoa de contrariedade, mesmo tendo características fixadas, pois o discurso de quem estereotipa está sempre em constante repetição, nas mais distintas situações para que possa alcançar sua veracidade. De acordo com Homi k. Bhabha (1998).

sua validade:

ele garante sua repetibilidade em conjunturas históricas e discursivas mutantes: embasa suas estratégias de individuação e marginalização; produz aquele efeito de verdade probabilística e predictabilidade que, para o estereótipo, deve sempre estar em excesso do que pode ser provado ou explicado logicamente. (ibid., p.

106).

[

]

é a força da ambivalência que dá ao estereótipo [

]

No romance barretiano é possível perceber a partir das imagens inferidas na narrativa, que o narrador recorre a elementos da tradição literária no que se refere à representação do afro descendente, através da fala do personagem Ataliba do Timbó, amigo de vagabundagem de Cassi Jones, elementos de comparação

27

onde é atribuída a personagem Clara características de objetos comestíveis. “Tem um pancadão de filha, meu Deus! Que torrão de açúcar!” (BARRETO, 2004, p.49). Nessa linha de pensamento cremos que Lima Barreto, propositalmente procura questionar características impostas as mulheres negras, e as semelhanças entre elas e as especiarias da culinária, a relação entre sexo e comida, pois:

a mulher mestiça já não é mais “descrita”, “retratada”, “pintada” como se fosse algo para ser visto a distância. Mas se converte de mulher-flor em mulher-fruto e, sobretudo em mulher-caça, que o homem devora e persegue sexualmente. (SANT´ANNA, 1993, p. 25).

[

]

Cassi Jones o antagonista do romance de Barreto, é o tipo de homem que

poderíamos chamar de “caça-mulheres”, que as trata simplesmente como fruto a ser

tão pouca

idade, relativamente, contava perto de dez desfloramentos e a sedução de muito

maior numero de senhoras casadas [

eram de humilde condição e de todas as cores”. (BARRETO, 2004, p. 26). Isso por que essas mulheres carregam os estereótipos que afirmavam sua condição de

objeto a ser explorado.

Em geral, as moças que ele desonrava

saboreado, como um objeto que se usa e se joga fora, pois com “[

]

]

Na sociedade conservadora, a mulher branca tem ainda um elemento de barganha social, que é o dote, símbolo arcaico de quando as tribos trocavam as mulheres entre si. Alias essa troca primitiva já mostrava que o corpo da mulher era uma moeda no sistema de permutas. (SANT´ANNA, 1993, p.45)

Quanto às mulheres negras ou mulatas Sant´Anna (1993) complementa:

no caso da mulher de cor, na nossa sociedade escravocrata, seu

dote é seu próprio corpo. Seu corpo é a sua moeda de ascensão social, mesmo porque não lhe foi deixado nada a não ser isso. (ibid., p. 45).

] [

Nas citações acima é possível perceber que persiste o preconceito estereotipado da mulher-objeto nas duas formas de sociedade, e que os

estereótipos “[

porém, não são necessariamente étnicos. É bom lembrar que,

],

28

basicamente, o estereotipo é uma camisa de força, uma forma de controle social.” (BROOKSHAW, 1983, p. 10). A mulata, porém aparece associada apenas ao desejo canibalístico dos homens, pois a utilização desses estereótipos de acordo com Brookshaw (1983) seria:

a corporificação física de um mito baseado imediatamente na

visão que o perceber tem do papel sócio-cultural de seu receptor e do seu próprio. Mas precisamente, o mito deve ser visto no contexto

de uma dialética na qual o receptor corporifica uma negação do percebedor e, portanto, uma negação de padrões sócio-culturais aceitáveis (ibid., p. 10).

], [

Contudo, o que se percebe é que a mulher negra esteve inserida num ciclo vicioso de marginalização e discriminação racial, resultado de todo um contexto histórico, proeminentes de uma sociedade patriarcal, onde dificilmente conseguiriam livrar-se do pensamento popular patriarcalista, que deixaram a elas apenas o estigma de que só serviriam para os afazeres domésticos ou a exploração de seus corpos. Portanto, conclui-se que o discurso pós-colonialismo, retrata a mulata sob uma forma socialmente cristalizada, e permanentemente preconceituosa.

2.3 Da alienação à tomada de consciência.

Em Clara dos Anjos, o romancista Lima Barreto, relata a estória de uma

pobre moça negra, que vive no subúrbio do Rio de Janeiro, que “[

o recato e os mimos que na sua condição, talvez lhe fossem prejudiciais”

(BARRETO, 2004, p. 48). Puxava em tudo aos pais, o carteiro Joaquim que “[

pardo-claro, mas com cabelo ruim, como se diz; a mulher, porém, apesar de mais escura, tinha o cabelo liso” (ibid., p 48). “Na tese, a filha tirava ao pai; e no cabelo a mãe” (BARRETO, 2004, p.48). Todavia apesar dos cuidados exagerados com que fora criada, a pobre menina, não fora nutrida com ensinamentos que lhe servissem de defesa a atos exteriores advindo da sociedade em que estava inserida, onde os negros e descendentes afros, mesmo após a abolição, ainda eram marcados pelo estigma do período escravocrata. Clara, além de negra era mulher, e no que diz respeito à

], era

fora criada com

],

29

mulher, especificamente a negra, os preconceitos contra essas não se restringiria apenas a sua afro-descendência, mas também a própria questão sexual, de acordo com Angela Arruda (1998):

A mulher, depositária dos rebentos do povoamento e/ou dos desejos dos homens, será santa ou puta, segundo as conveniências. A sexualidade e as relações que implica – de gênero, classe e raça –

vão se configurando e representando. O corpo da mulher, a serviço do projeto oficial e de outros, nem tanto, agenciou, conjugado à cor da pele, o imaginário nacional numa escala bastante reveladora que

considera “branca para casar, mulata para f

acusando, uma vez mais, a presença da objetivação que corta e

recorta seu objeto para nova organização, [

,

negra para trabalhar”,

] (ibid., p. 32).

Contudo, assim como seus pais e tantos outros negros, pobres e estereotipados pela supremacia branca, no período da jovem república, Clara submetia-se cegamente aos valores e condições sociais impostas por esta sociedade, e acabava assim perdendo a consciência de seus próprios problemas. Gislene Aparecida dos Santos (2002) diz o seguinte:

Toda a construção do movimento abolicionista e da própria Abolição como um movimento de brancos em favor dos negros que deveriam ser-lhes gratos, prova o interesse de que o negro fosse sempre submisso aos desejos da elite e se adequasse ás suas exigências (ibid., p. 130).

A partir desse fato Lima Barreto, através dos personagens procura mostrar essa total alienação, dependência de Clara em relação ao perpetrador de sua desgraça e a desgraça de sua família, na situação especifica do romance, a protagonista nunca enfrentara situação qualquer de perigo, muito menos algum caso que lhe viesse despertar a consciência do significado de sua negrura, no dado momento.

Seu contato limitava-se a pessoas de igual cor e condição social, porém,

] guarda de

obras públicas. Português de nascimento” (BARRETO, 2004, p. 22), tivera a idéia de

nos dias próximos ao aniversário de Clara, o Sr. Eduardo Lafões, um “[

pedir autorização ao amigo Joaquim dos Anjos, para levar Cassi Jones para animar a festa de aniversário da pobre moça.

30

Seu Marramaque, que além de compadre era profundamente amigo do pobre carteiro.

sempre observou a

atmosfera de corrupção que cerca as raparigas do nascimento e da cor de sua afilhada; e também o mau conceito em que se têm as suas virtudes de mulher. A priori, estão condenadas; e tudo e todos

Na sua vida, tão agitada e tão variada, [

]

pareciam condenar os seus esforços e o dos seus para elevar a sua condição moral e social. (BARRETO, 2004, p.47)

Seu Marramaque conhecedor da má fama de Cassi Jones, ao ouvir o pedido de Lafões logo retrucou furioso, na tentativa de alertar sobre o perigo em que estava a por a honra de Clara.

- Você dá-se com semelhante pústula? É um sujeito que não pode entrar em casa de família. Na minha, pelo menos

- Por quê? –indagou o dono da casa.

- Eu direi, daqui a pouco; eu direi por quê—fez Marramaque transtornado. (BARRETO, 2004, p. 24).

Clara ouvira tudo, mas até então não percebera a força do racismo que os colocava a estremos distintos da sociedade, e essa clausura mais alanceava sua pobre alma.

Com esse estado de espirito, o seu anseio era que o pai consentisse na visita do famoso violeiro, cuja má fama ela não conhecia nem suspeitava, devido ao cerco desvelado que a mãe lhe punha à vida; entretanto supunha que ele tirava do violão sons mágicos e cantava coisas celestiais. (BARRETO, 2004, p. 48)

também

curioso de conhecer as habilidades de Cassi, no violão e na trova popular, consentiu

que Lafões o trouxesse em sua casa, no dia do aniversario de Clara” (BARRETO, 2004, p. 48). Esse seria o primeiro contato de Clara e sua família, com o homem que se aproveitaria de sua ingenuidade.

Joaquim dos Anjos, no entanto, tendo o aval da mulher e “[

]

31

No romance parte da culpa no que se refere ao abuso sexual sofrido pela personagem Clara, é atribuído à excessiva proteção que a ela foi dedicada, isso a deixou vulnerável.

As emolientes modinhas e as suas adequadas reações mentais ao áspero proceder da mãe tiraram-lhe muito da firmeza de caráter e de vontade que podia ter, tornando-a uma alma amolecida, capaz de render-se às lábias de um qualquer perverso, mais ou menos ousado, farsante e ignorante, que tivesse a animá-lo o conceito que os bordelengos fazem das raparigas de sua cor (BARRETO, 2004, p.

62).

]

Mas que tinha isso? Tinham se

visto tantos casos

(BARRETO, 2004, p. 62), já se encontrava totalmente enfeitiçada pelo tal Cassi, ao

ponto de acreditar que poderia haver “[

fazer esse inquérito, já acolhida, ofegava, suspirava, chorava; e os seus seios duros

quase estouravam de virgindade e ansiedade de amar”. (ibid., p. 63). No final da obra depois de desflorada e abandonada, o narrador discorre sobre as possíveis razões do fracasso de Clara, ao relatar as reflexões da moça, ou a sua tomada de consciência, pois só depois de passar por uma situação inesperada, para a qual não fora preparada, é que se dá conta do seu lugar, enquanto afro-descendente no mundo, pela primeira vez se encontra com a descriminação e o preconceito racial de que são com frequência, vitimadas as mulheres negras.

uma paixão sincera no valdevinos que, ao

Por que não haveria de ser?”

Uma dúvida lhe veio: ele era branco; ela mulata

A jovem moça até pensa na diferença que separava ela e Cassi que: “[

Lembrou-se

de

alguns

]

Cassi partira, fugira

Cassi. O que os outros diziam dele era a pura verdade. A inocência dela, a sua simplicidade de vida, a sua boa fé, e o seu ardor juvenil

Por

Agora, é que percebia bem quem era o tal

tinham-na completamente cegado. Era mesmo o que diziam

que a escolhera? Porque era pobre, e além de pobre mulata.

(BARRETO, 2004, p. 144).

De acordo com Bhabha (1998), é o que podemos chamar de o “ver/ser visto” quer dizer da imagem pré-concebida pela alteridade, que vai influenciar na

32

forma como as pessoas se vêem. É a idéia de identidade que é construída a partir das relações que se tem com o outro.

como efeito de poder que

é produtivo – disciplinar e “prazeroso” – é preciso ver a vigilância do

como algo que funciona em relação com o regime de

pulsão escópica. Ou seja, a pulsão que representa o prazer de “ver”,

que tem o olhar como seu objeto de desejo, está relacionado tanto ao mito das origens, a cena primária, quanto à problemática do fetichismo e localiza o objeto vigiado no interior da relação “imaginaria”. (ibid., p. 118, 119) Grifo do autor.

poder [

Sugiro que para se conceber o sujeito [

]

]

Lima Barreto relata a forma como a personagem Clara se defronta com a mãe de seu algoz, como que, com o propósito determinado de explicitar abertamente a necessidade da tomada de consciência da protagonista:

-- Ora, vejam vocês, só! É possível!? É possível admitir-se meu filho casado com esta As filhas intervieram:

A

velha continuou:

--

Casado com gente dessa laia

Qual!

Que

diria meu avô, Lorde

Jones, que foi cônsul da Inglaterra em Santa Catarina – que diria ele se visse tal vergonha? Qual!

Parou um pouco de falar; e, após instantes, aduziu:

-- Engraçado, essas sujeitas! Queixam-se de que abusaram delas

É sempre a mesma cantiga

Por acaso, meu filho as amarra, as

amordaça, as ameaça com faca e revolver? Não. A culpa é delas, só

delas

(BARRETO, 2004, p. 151)

Assim Clara vê bem a sua condição e sua situação na sociedade, e reconhece definitivamente o seu estado de inferioridade permanente, impedida de buscar por algo tão simples e que todas as moças mulatas na sua tenra idade no pós-abolição almejavam, que seria o casamento.

33

3 RETRATAÇÃO DO PRECONCEITO DE GÊNERO E COR NA OBRA CLARA DOS ANJOS DE LIMA BARRETO.

3.1 O complexo de inferioridade em relação ao homem branco

A obra Barretiana trata justamente do preconceito racial, do drama íntimo da protagonista central e também de outras “raparigas” negras que, na expectativa de um casamento que não acontece, deixam-se seduzir por Cassi Jones, um moço inescrupuloso que as usa e logo as abandona. Ao procurar a família do rapaz elas acabam sendo humilhadas, devido à sua condição de pobres e mulatas. Esses estereótipos são consequências herdadas de conflitos entre o homem, tanto branco quanto negro, do que podemos chamar de complexo de superioridade (do branco colonizador) e de inferioridade (do negro colonizado). Desta forma percebemos que em Clara dos Anjos, embora haja a exploração sexual da mulher negra, notamos também que as mesmas admitem inconscientemente o preconceito racial imposto a elas, pois o negro é escravo primeiro de sua aparência ou simplesmente por causa da cor de sua pele conforme salienta Frantz Fanon (1983).

Todas essas mulheres de cor, frenéticas, à procura do Branco, esperam. E, certamente um dia desses se surpreenderam não

querendo olhar para trás; pensarão “em uma noite maravilhosa, um amante maravilhoso, um Branco”. Também elas, talvez compreendam um dia “que os Brancos não se casam com uma

mulher negra.” Mas aceitaram esse risco;[

[

]

]. (Ibid. p., 43)

Mesmo sentindo e expandindo cada vez mais em sua mente um grande complexo de inferioridade em relação ao branco, Clara procura ainda na sua castidade forças para tentar alcançar valores de um mundo contrario ao seu, e suponha que Cassi venha a ser o degrau que lhe colocará dentro dessa sociedade burguesa, para por fim as nódoas de sua epiderme causadora principal, desse conflito sócio racial, sem se ater aos preconceitos atribuídos a ela por ser negra, fato “que à torna inadequada à normalidade de um casamento tranquilo e durável” (QUEIROZ JUNIOR, 1982, p. 85).

34

Podemos perceber também que embora detentor da branquidade e membro de uma família com melhor condição econômica que Clara, Cassi Jones não passa de um qualquer, que mal consegue adaptar-se a valores existentes na classe da qual pertencia, mostrando-se incompatível com a metrópole como mostra Barreto:

Nunca suportara um emprego, e a deficiência de sua instrução impedia-o que obtivesse um de acordo com as pretensões de muita coisa que herdará da mãe; além disso, devido á sua educação solta, era incapaz para o trabalho assíduo, seguido, incapacidade que, agora, roçava pela moléstia. A mórbida ternura da mãe por ele, a que não eram estranhas as suas vaidades pessoais, junto à indiferença desdenhosa do pai, com o tempo, fizeram de Cassi o tipo mais completo de vagabundo doméstico que se pode imaginar. É um tipo bem brasileiro (BARRETO, 2004, p. 33).

Portanto, passa a fazer parte de grupos de companheiros entregues a

marginalidade, mais por ser branco consegue aliciar moças pobres, negras, e desprovidas de “força moral e o espírito prático para oporem-se a atos prejudiciais impostos a elas por esta sociedade” (BROOKSHAW, 1983, p.166). Essa carência

negro quer ser branco. O branco obstina-se a obter a sua

condição de homem” (FANON, 1983, p. 11). Devido ao complexo de inferioridade e ao bombardear de estereótipos sexuais que as transformam em meros objetos, as mulheres afrodescendentes submetem-se, as desumanidades impostas pelos brancos mesmo após a abolição, onde a consequência por ser mulher era somente uma, obedecer à rígida hierarquia que permitia somente ao homem branco ocupar o centro. A esse respeito Frantz Fanon (1983) complementa:

ocorre por que o “[

]

No plano energético, o ser amado me ajudará a assumir a minha virilidade, enquanto que a preocupação em merecer a admiração ou o amor de outrem elaborará uma superestrutura de valorização (ibid.,

p.37).

35

Ao longo da narrativa, Lima Barreto, descreve a insistente peleja e os meios pelos quais Cassi Jones fez uso para tentar aproximar-se de Clara, com o objetivo único de obter satisfação sexual, de acordo com Frantz Fanon (1983).

Um branco, dirigindo-se a um negro, comporta-se exatamente como um adulto em relação a uma criança, gesticula com afetação para seduzi-lo, fala sussurrando, cheio, de gentilezas, de dengos (ibid.,

p.28).

Seu Joaquim dos Anjos e dona Engrácia logo que percebem o modo “fajuto” de Cassi, trataram logo de proibir que o malandro violeiro se aproxime de Clara, porém a moça faz mau julgamento dos pais, e acredita que estão a conspirar contra suas deturpadas e idealizadoras aspirações românticas, ela vê a imposição dos pais como um obstáculo que a impedirá de estar o mais próximo possível da raça branca, chegando ao ponto de se entediar com seus progenitores.

Clara veio saber da cena pela narração que seu pai fez à sua mãe, e ficou aborrecida, cheia de desgostos com eles e com a situação em que estava imposta por eles, para seu sofrimento. Avaliou em algum ressaibo de revolta o procedimento dos pais. O que queriam fazer dela? Deixá-la ficar para “tia” ou fazê-la freira? (BARRETO, 2004, p. 63).

amor tudo pode, para ele não há obstáculos de raça,

de fortuna, de condição; ele vence, com ou sem pretor, zomba da igreja e da fortuna” (BARRETO, 2004, p. 62), não importava o que diriam os pais, Clara queria de forma ou outra, ter seus anseios realizados. Kabengele Munanga (1986), diz o

seguinte:

Para a moça o “[

]

toma pouco a pouco conhecimento da

inferioridade forjada pelo branco. Sua consciência entra em crise. Graças a uma serie de mecanismos de pressão psicológica e outras astúcias, sua alienação deixa de ser teórica. Ele se convence de que o único remédio para curar sua inferioridade, a salvação, estaria na assimilação dos valores culturais do branco superpotente (ibid., p. 6).

[

]

o negro instruído [

]

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Fato este nos leva a refletir, que em Clara o complexo de inferioridade esta intrinsecamente fincado na sua mente, proveniente de absorções que ela fez do universo branco, e esta subalternidade dava livre curso ao acirramento do preconceito racial, em que o negro nunca se via insensível a tratamentos marginalizados, herdados de uma historia marcada por contradições e ambiguidades. Desta forma percebemos que a perdição completa de Clara se dá justamente por ser “mulata”, e o preconceito racial no dado momento é que a torna negativamente diferente das demais mulheres.

3.2 O Dilema da mulher afro descendente diante do preconceito racial.

Vivemos inseridos em um universo social, e nesse meio é possível perceber uma ampla diferença de características no que diz respeito ao ser humano, aspectos de categoria étnica, financeira, sexual, cultural entre outras. Desigualdades sociais e econômicas existentes entre brancos e negros no Brasil, e que se traduzem num enraizado preconceito racial. E, é através dessas formas de aspectos que se percebe no meio de uma sociedade constituída de elementos econômicos e políticos, a fragilidade dos negros, de forma que, para o afro descendente a dimensão racial compõe variável básica para sua posição social. No período pós-abolição a questão racial era visto como algo praticamente normal, algo sem grande relação com o prazeroso convívio naquela sociedade possuidora do poder, mas observando atentamente constata-se que essas desigualdades deixavam totalmente excluídas, determinados grupos de indivíduos, os negros principalmente, de acordo com Gislene Aparecida dos Santos

(2002).

As raças que dividiam a humanidade de forma irreversível sobrepõem-se à igualdade dos cidadãos nas cidades. A realidade racial supera qualquer teoria do direito. Deste modo, a cada raça cabe um lugar no mundo e seus direitos são definidos pelo grau de importância que detém na ordem evolutiva. Ou seja, cada raça teria um direito determinado por sua natureza (ibid., p. 49).

Lima Barreto intelectual escritor militante e vitima do preconceito racial da época, aborda claramente essas formas de represálias em suas obras, em Clara dos

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Anjos, destaca a magnitude dessa diferença existente entre a mulher negra e a relação social com os ideais brancos. Em sua obra, Clara dos Anjos podemos verificar através da personagem dona Salustiana Baeta de Azevedo, mulher branca de classe media burguesa, mãe de Cassi Jones, que ela simplesmente, por ter estudado em bons colégios e ser descendente de um tal Lorde Jones que tivera exercido importante posto em um país europeu, julgava-se superior a todos aqueles que frequentavam seu meio social.

Tinha fumaças de grande dama, de ser muito superior ás pessoas de sua vizinhança e mesmo às de seus conhecimentos. O seu orgulho provinha de duas fontes: a primeira por ter um irmão médico do Exercito, com o posto de capitão; e a segunda, por ter andando no Colégio das Irmãs de Caridade (BARRETO, 2004, p. 27).

Descrevendo-a desta forma Barreto pretende mostrar, sobretudo, o dilema pelo qual passaram as mulheres afro descendentes no pos abolição, através do discurso que inferioriza os negros, e sua consequente permanência nos lugares menos privilegiados, isentos de respeito, de acordo com Santos (2002, p. 57). “Quanto à raça negra, ela ignoraria a glória ao longo de toda a sua história por não produzir nada (politica e/ou culturalmente) que pudesse indicar sua grandeza”. A mulher afro-brasileira, mesmo após o fim do sistema escravista viviam sob formas constantes de exclusão e depreciação, o governo da época nada fez para dar aos negros, condições de conquistar um lugar na sociedade. Por consequência do preconceito racial, persistia uma ideia de incapacidade que justificava a sua não integração nos espaços sociais brasileiros.

Mesmo nas situações em que a segregação não era convencionada oficialmente, estabeleceu-se uma fronteira racial consolidada pelos usos e costumes. Desse modo é plausível afirmar que o racismo [ ] adquiriu um caráter segregacionista e costumeiro, atingindo em maior ou menor grau todas as instituições da vida social (DOMINGUES, 2003, p. 136).

Clara, no entanto apesar de negra e pobre teve acesso à educação, ensinamentos e valores brancos herdados de sua mãe Engrácia, uma educação errônea diante de sua condição de mulata como já foi dito anteriormente, mas que

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poderia também lhe servir como artifício a ser considerado na sua inclusão social, mas a sua cor lhe fustigava, contudo havia Cassi Jones homem branco, que de alguma forma reconhecia esses “atributos”, os físicos e sensuais principalmente, e por isso não apontava a ela preconceito algum e jurava ter por ela afetuoso amor, Petrônio José Domingues (2003), diz que:

as relações raciais sustenta que a especificidade do racismo, á

brasileira é a ausência de discriminação legal, ou seja, qualquer tipo de restrição ou violação do direito imposto ao negro no exercício da

cidadania não está escrito na lei. As barreiras raciais não são de ordem institucional, trata-se de um racismo oculto, implícito, não declarado. Uma outra característica das manifestações de preconceitos e discriminação raciais seria a cordialidade, que, segundo essa concepção é inerente ao caráter do brasileiro. Em decorrência desse racismo cordial não se teria engendrado no país um clima de conflito racial, e, por conseguinte, o surgimento de uma legislação segregacionista (ibid., p. 133).

] [

Dona Salustiana, porém acrescia as negras características estereotipadas enquanto ser negativo, ou desumanas “repugnava-lhe ver o filho casado com uma criada preta, ou com uma pobre mulata costureira” (BARRETO, 2004, p. 26). A mulher negra é relegada à passividade, à ruína biológica e ao total desamparo social. “De acordo com a sensibilidade do branco, o que estava em jogo era sentir- se inferior” (DOMINGUES, 2003, p. 136).

A partir daí, logo se vê por que razão o estudo do eu, tão difundido na psicologia, não é suficiente nem pode determinar a linha-diretriz para compreender tipos de ação e de relação mais complexos. Esses tipos de ação e de relação pressupõem, com efeito, a presença do outro, naturalmente; o bem estar do outro, a obediência a ele, a

Falando de forma mais simples, o

desenvolvimento do vinculo social e das capacidades intelectuais e

aceitação do desejo, etc. [

].

afetivas começa quando o individuo vem a perceber que o outro tem uma significação no seu próprio mundo interior. Ou, como se diz às vezes, o individuo sabe assumir o papel do outro quando imita, brinca ou quando reflete (ARRUDA, 1998, p.7).

Lima Barreto, já avistava os problemas que afligiam a situação da mulher negra na época, sobretudo o preconceito racial. Demostrando total desconforto em

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relação a essas questões compreendia que esses problemas surgiram devido aos vínculos que envolviam qualquer tipo de relação entre oprimidos (negros) e opressores (brancos), fez de sua obra uma forma de reinvindicação em favor da mulher afro-brasileira, denunciando os preconceitos e a interiorização da condição de inferioridade, que as inibia de qualquer forma de reação contra a discriminação sofrida.

3.3 Da miséria socioeconômica a exploração sexual

É sabido que no fim do sistema escravocrata, em fins do século XIX, as reformas de modernização em alguns setores da nova república, deixaram desamparados de forma vergonhosa os negros libertos pela assinatura da lei áurea, e que muito menos houve uma orientação destinada a integrar os negros as novas regras de uma sociedade baseada no trabalho assalariado, fato que implicou consequentemente na miséria dos negros. Vivendo desprezados a margem de uma sociedade racista, sem estudos ou direitos que lhe garantissem a posse de um trabalho normal, no entanto segundo Petrônio Jose Domingues (2003):

o discurso que acusava o negro de ter feito a opção pela

ociosidade no pós-abolição não passou de mais um mito, forjado pela classe dominante para legitimar o estado de desemprego estrutural daquele segmento populacional, mas que foi aceito por boa parte da intelectualidade contemporânea como explicação cientifica do fenômeno (ibid., p. 115).

] [

Os negros, e mais ainda as mulheres negras, se viam inseridos num processo discriminatório acumulativo. Na obra em questão, além de fazer menção aos preconceitos vivenciados pela população negra Lima Barreto, foca principalmente na questão da exploração sexual a que estavam submetidas as afro descendentes como consequência das miseráveis condições sociais a que estavam contidas, de acordo com Gilberto Freyre (2004):

O negro no Brasil, nas suas relações com a cultura e com o tipo de sociedade que aqui se vem desenvolvendo, deve ser considerado principalmente sob o critério da história social e econômica. Da

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antropologia cultural. Daí ser impossível – insistamos neste ponto – separá-lo da condição degradante de escravos, dentro da qual abafaram-se nele muitas das suas melhores tendências criadoras e normais para acentuarem-se outras, artificiais e até mórbidas (ibid., p. 404).

Além de Clara, a personagem central da obra, Lima Barreto faz uso de outras personagens negras e pobres no intuito de denunciar que para o homem branco as negras serviam apenas como objeto de realização de seus desejos sexuais. Cassi Jones o antagonista da obra e viril deflorador de pobres negras, é o personagem branco pelo qual Barreto, demostra essa desconfortável situação.

Cassi não era absolutamente, nem mesmo de forma elementar, um amoroso. A atração por uma qualquer mulher não lhe desdobrava em sentimentos outros, ás vezes contraditórios, em sonhos, e, anseios e depressões desta ou daquela natureza. O seu sentimento ficava reduzido ao mais simples elemento do Amor --- a posse. Obtida essa, bem cedo se enfarava, desprezava a vítima, com a qual não sentia ter mais nenhuma ligação especial; e procurava outra (BARRETO, 2004, p. 75).

Podemos verificar o ocorrido, com a pobre Nair, filha única de uma negra viúva. Nair tinha relação com a irmã de Cassi, Catarina, essa tinha certo conhecimento na área de música e Nair tendia para o mesmo oficio, começou a ter aulas com Catarina, a pedido de sua mãe.

Entre as relações de suas irmãs, havia uma moça muito pobre, que morava na redondeza. Sua mãe era viúva de um capitão do exercito, e ela, Nair, era filha única. Com auxílio de alguns parentes, a viúva ia encaminhando a filha nos estudos próprios de seu sexo. Ela tinha tendência para musica e procurou aproximar-se de Catarina, para explicar-lhe a matéria. Contava dezoito anos, muito risonha, de amorenado sombrio, cabelos muito negros, pequenina e viva, e com seus olhinhos irrequietos e luminosos. (BARRETO, 2004, p. 28).

Cassi Jones, o perverso sedutor, logo a teve como presa fácil, diante de sua inocência e pobreza, não hesitou em tentar persuadir a moça, Catarina ao perceber as atitudes do irmão, proibiu-lhe a presença na sala quando Nair estivesse sobre suas responsabilidades, ameaçou de relatar o ocorrido ao pai caso descumprisse a ordem. “O nome do pai apavorava Cassi, não que o estimasse e,

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por isso, o respeitasse deveras; mas porque ‘o velho’ severo como era, bem podia pô-lo de vez na rua” (BARRETO, 2004, p. 29). Mesmo sobre tal ameaça, Cassi Jones continuo a cercar maliciosamente a pobre menina, e esta em consequência da inexperiência e os sentimentos acendidos deixou-se possuir pelo falso Violeiro. Angela Arruda (1998), no que diz respeito às representações sociais no campo das relações que envolvem o outro, imagina o sujeito como produto e produtor no meio em que se encontra inserido, estabelecendo com o outro, entidades características do eu e os sentidos que o outro pode assumir em desiguais situações.

Falando de forma simples, o desenvolvimento do vinculo social e das capacidades intelectuais e afetivas começa quando o individuo vem a perceber que o outro tem uma significação no seu próprio mundo interior. Ou, como se diz às vezes, o individuo sabe assumir o papel do outro quando imita, brinca ou quando reflete (ibid., p. 7).

A mulher negra, quase sempre descrita sob a forma de representação ligada a sua dimensão física sensual e portadora do deslumbramento erótico, estará constantemente inserida, aos olhos do homem branco, como o objeto a ser consumido, o seu lugar na sociedade será sempre o da sedução.

E ao desfilar nas ruas ela é cobiçado objeto de desejo. E sobretudo,

marca e falseia o real, à medida que, revestindo a figura da

mulata como o objeto e nunca como sujeito do seu próprio desejo, a

enquadra “feliz” dentro do sistema de dominação (SANT`ANNA, 1993, p. 46)

] [

Justamente o que acontece com a filha do desprovido carteiro Joaquim dos Anjos, pobre, negra e moradora do subúrbio do Rio de Janeiro, a moça era detentora de perfeita volúpia, e assim como Nair caiu nas lábias de Cassi Jones, Clara supõe que o fajuto violeiro aparentemente cheio de importâncias, delicado e modesto seja a representação exata do homem que pode retirá-la da pobreza em que vive, e mais ainda por ser um homem que presumidamente relaciona-se com pessoas da elite da sociedade.

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Como ele poderia ser tanta coisa ruim, se frequentava casas de doutores, de coronéis, de políticos? Naturalmente havia nisso muita inveja dos méritos do rapaz, em que ela não via senão delicadeza e modéstia e, também os suspiros e os dengues de violeiro consumado. (BARRETO, 2004, p. 63).

Clara vê em Cassi Jones, uma forma de conquista, de um estatus superior em relação ao meio pobre e periférico no qual convive diariamente esquece-se que é pobre, e por um instante por consequências de raras observações acaba desconsiderando sua realidade, a pobre moça assim como Nair, encontra-se já totalmente embaraçada com seus sentimentos. Cassi Jones, no entanto aparenta corresponder aos anseios da pobre menina, no intuito único de fazer dela mais uma de suas pobres desonradas, ele apenas esperava o momento certo.

Seja devido a esta ou aquela causa, a este ou aquele motivo, o certo é que nele não havia nevrose ou qualquer psicopatia que fosse. Não cedia a impulsos se doença; fazia tudo muito calculadamente e com todo o vagar. Muito estúpido para tudo o mais, entretanto, ele traçava os planos de sedução e desonra com habilidade consumada dos scrocs 3 de outras naturezas. Tudo ele delineava e previamente removia os obstáculos que antevia. Escolhia bem a vitima, simulava amor, escrevia detestavelmente cartas langorosas, fingia sofrer, empregava, enfim, todo o arsenal do amor antigo, que impressionava tanto a fraqueza de coroação das pobres moças daquelas raparigas, nas quais a pobreza, a estreiteza de inteligência e a reduzida instrução concentram a esperança de felicidade em um Amor, em um grande e eterno Amor, na Paixão correspondida. Sem ser psicólogo nem coisa parecida, inconscientemente, Cassi Jones sabia aproveitar o terreno propicio desse mórbido estado d`alma de suas vitimas, para consumar os seus horripilantes e covardes crimes; e, quase sempre, o violão e a modinha eram seus

cúmplices

(BARRETO,

2004, p. 39)

Clara, não percebe porem o artificialismo do sentimento amoroso do namorado, supondo ser possível o casamento entre ambos, mesmo diante das diferenças sociais e étnicas, deixa-se explorar sexualmente e logo se vê abandonada por Cassi.

3 Palavra francesa que significa “trapaceiro”. Em nosso dias já foi incorporado ao português como “escroque”. (ibid., p.39).

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Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos no conceito de todos. (BARRETO, 2004, p. 152).

Enfim, é possível que haja sobre as personagens negras em Clara dos Anjos, uma temática voltada não só pra questão racial mais também das condições sociais de miséria e abandono que viviam os negros no meio republicano. Desta forma, tanto Clara como Nair, viviam sobre o imperativo de uma ordem burguesa e urbana do branco, fato que lhes impediam de ver com exatidão a incoerência dessa forma de pensamento preconceituoso, no meio suburbano e proletário no qual estavam inseridas.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em consequência do processo colonial de mais de cinco séculos, a representação do negro ficou marcada com efeitos presentes ainda na sociedade moderna, tanto do ponto de vista econômico como cultural. A abolição, bem como a posterior implantação de uma republica não significou para o negro o fim de sua subalternidade, pois o novo regime não foi capaz ou não quis promover a integração do afro descendente no meio social, portanto, o fim da escravização não significou o fim do preconceito racial, nem das desigualdades raciais, pelo contrario a abolição só mascarou uma historia de tragédias, descaso, injustiça, preconceito e dor. Em Clara dos Anjos, é justamente esse o cenário narrado por Lima Barreto em todo o corpo da obra. O afro descendente, no caso a jovem moça, Clara, estava limitado às atividades de subalternidade, devido à falta de oportunidades, ocupava os subúrbios do Rio de Janeiro vivendo em condições de miséria. O negro infelizmente não somava para o bom engendramento da sociedade que acabara de se formar, não interessava ao branco senhor de terras ou mesmo aos imigrantes, interessava somente manter o discurso que o mantinha sobre forte complexo de inferioridade, pois era esse complexo que o manteria sempre ali a disposição do homem branco, tornando-se formas mais diretas de dominação social e racial. Lima Barreto, portanto negro e intelectual que conviveu com esses sofrimentos e humilhações durante toda a sua vida, em toda a sua obra é possível perceber constantes retratações de suas experiências pessoais, e a amargura por não ser reconhecido naquele momento. Através de seus escritos registrou com perfeição todas essas formas de repressão impostas aos negros e afrodescendentes, descreveu minuciosamente aspectos cruéis da vida social e politica no pôs abolição. Olhando desta forma, pudemos observar ao longo desse estudo e na elaboração desse trabalho que, infelizmente ainda não vivemos num país envolvido pela igualdade, pela harmonia e cordialidade, percebemos que assim como no pôs abolição, ainda há vozes reprimidas, e pessoas e negros que ainda vivem em

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condições de subalternidade como consequência da má administração do dinheiro publico.

Vale ressaltar também que a obra de Lima Barreto enquanto produção militante da época, ainda hoje participa ativamente nas grandes lutas de nossa sociedade, seja por paz, direito de expressão ou igualdade. Em relação à construção da representação das personagens negras, percebemos que se ajusta a elas formas estereotipadas, e preconcebidas, no caso de Clara, simples objeto de desejo sexual aos olhos do homem branco. Com tudo, não podemos aqui deixar como concluído esse víeis no que tange ao estudo das relações sociais ou raciais, pois percebemos que há ainda muito que se analisar através de questionamentos pertinentes ao afro descendente.

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REFERÊNCIAS

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BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. São Paulo: Martin Claret, 2004.

BHABHA, H. K. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana de Reis, Gláucia Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 2001.

BROOKSHAW, D. Raça e cor na literatura brasileira. Trad. Marta Kirst. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983.

DOMINGUES, P. J. Uma historia não contada. Negro, racismo, e branqueamento em São Paulo no pós abolição. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2003.

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FREYRE, G. Casa grande e senzala. 49. ed. São Paulo: Global, 2004.

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contribuições do carnaval. In

Preconceito de cor e a mulata na literatura

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SANTOS, G. A. dos. A invenção do “ser negro”: um percurso das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros. São Paulo: Educ/Fapesp; Rio de Janeiro: Pallas, 2002.

SANT’ANNA, A. R. O canibalismo amoroso: o desejo e a interdição em nossa cultura através da poesia. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.