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O universo. Refletia da tarde na água.

Diante do postal de Kleber, no delírio de ter uma cidade


sob o sol nas mãos e estar sob o sol de outra cidade, evoquei
o dia em que conheci Nastácia, levado pela relação entre a
reminiscência e os dois sóis, relacionando Nastácia com
minha vinda de um para o outro. Na margem do Tejo, o
suposto vendedor de haxixe (na verdade caldo concentrado
de galinha prensado com louro) aborda os estrangeiros,
simpático enxame qual babel preguiçosa à beira do
rio. Eflúvios de tágide emanam do outro envelope – uma
carta de Claudia, jovem que eu conhecera em Veneza e nos
instigamos e ficamos naquele jogo de olhares sutis e
palavras dúbias a sugerir a íntima celebração de um querer
reticente, quando o que é implícito beira a revelação.
Enquanto isso dura, resiste uma inquieta amizade. E nos
tornamos amigos.

Agora me escrevia de Muggio, falava de trabalhos e


estudos em Milão, de sua vida solitária de muitas atividades,
de todo o seu tempo tomado, mas dera assim mesmo
um pulo a Moscou após breve giro pelas capitais da
comunidade européia em pleno início da livre circulação de
pessoas e mercadorias. Falava. Posso ouvir a sua voz. Soa
com naturalidade para mim apenas compreensível de quem
diz ter ido ver o crepúsculo na varanda de casa. Ai, o tom
confuso do mundo de camponeses e reis, dos pedestais da
aristocracia feminina e ternos vagabundos sob o sol...

Claudia não era personagem central em minha história,


mas passava algumas questões centrais, como a da
fidelidade, dilacerante dilema do homem ainda jovem que se
acha velho demais para encontrar o amor perfeito que
idealizou um dia. Na noite a chuva e na chuva as lembranças
– escreve ela – e nas lembranças da chuva traços que ainda
desenham o seu rosto. A vida é isso? Emoções tragadas pela
pressão do cotidiano, pelas regras sociais e por nossas
próprias interrogações sobre o que é a vida?

As pessoas ao redor adaptavam aquele rosto à própria


capacidade de compreensão, o que tornava-o multíplice e
ninguém numa terra de todos. Sempre é visto pelas ruas da
cidade, mas pessoa alguma pára e pergunta o que há de
errado. Se precisa de alguma coisa, se podem ajudar. Isso
teria sido um motivo para parar de chorar por dentro. Porque
ele carrega esse pranto constante. Mas as pessoas apenas
passam. E ele irá evadir-se antes que alguém se aproxime.
Não se incomodem comigo.

Um fim inelutável. Agora tem a caderneta na mão


esquerda, dentro a correspondência, servirá de apoio.
Quanto tempo mais poderá resistir? Não é fácil, não é nada
fácil, principalmente por essa consciência de si mesmo. De
repente achou por bem fazer alguma coisa. Quem sabe se.
Mas nada. Quando a moça passou e perguntou se tinha fogo,
fazendo-o parar, encheu-se de uma confiança estranha,
finalmente me notaram, então teve ânimo novo para
procurar um banheiro público, aliviar-se e dar um jeito na
aparência, renovar a máscara. Sai depois e caminha um
pouco mais, irá sentar-se e escrever novamente. Ora, por
que não? Ainda resta sim esperança.

Não estou em qualquer das aparências de mim. Estou


sozinho. Bem, não exatamente sozinho. Há a luz, as
cintilações à superfície do rio.

Ele se lembra. Um vagão. Um vagão cheio. Agora a


caneta está na mão direita. Continue escrevendo, meu
querido, tem de haver uma razão por que estejamos aqui; e
escrever é antes isso – um fazer que não se origina no desejo
de partilhar uma mensagem ou visão e sim em que, ao
contrário, não sabemos e queremos saber. Precisamos.

Caminha um pouco mais, atravessa a rua. Lisboa passa


por ele, como a paisagem da janela de um eléctrico. O que é
isso? Ah, um bonde. Senta-se, como planejara. Ergue os
olhos, torna a abaixá-los, abre a caderneta, escreve. A letra
sai tremida. Para onde irão essas linhas de luz? Falam às
suas costas. Ê pá esperemos que isso não– Portanto pode ser
que– Solidão. Em nada ajuda a fortuna espalhada naquele
quarto.

A revelação não tem hora nem lugar, acontece de vez


em quando, agora aqui, em reveladora fúria de fogo da qual
logo nada restará além do futuro. Não sempre. Às vezes.
Porque sempre não o suportaria o ser humano. Seus pés
estão imersos no rio. Talvez essa sensação seja um
presságio. Ao longo de toda a vida procurara. Nesse
momento se apega a uma fé sempre rejeitada. Uma vez
lançada a sorte, o que escrevermos teremos escrito; e,
ninguém sabe bem como, o inefável se tornará dizível, no
regresso ao país natal.
Claudia está bem, na casa da mãe, ali se sente livre.
Queria ter escrito antes, mas não encontrava palavras. Afinal
decidiu, pois que são palavras além de signos inertes ao
quais se atribui valor? E ela sabia, meu amigo, que você faz
isso muito bem. Eu lia e me perguntava se estaria certa. Eu
morria e tentava acreditar num resgate, que pudesse a
escrita ensinar o prisma da posteridade, era importante que
o fizesse, mesmo fosse a minha uma posteridade de
ninguém. Também me perguntava por que eu tinha vindo e
quanto tempo ficaria. Não sei. Talvez a Europa tenha
arrastado minha alma, como as palavras se escrevem a si
mesmas. Não decidirei o dia da minha volta, se é que haverá
dia de voltar. Um oceano se interpõe e queimei a ponte
atravessada. O Brasil se tornou memória da bruma. PS.
Queria tanto ouvir de novo a sua voz. Quanto a mim, não sei
mais o que querer, hesito mesmo quanto a crer na validade
de meus escritos, a minha voz.

Chegara a Portugal com objetivos seculares, um


emprego em jornal e um vínculo afetivo estável. Se no meio
do caminho descobri a grandeza da literatura e a miséria,
isso se devia à vaidade da qual fugira.

Então me vi na carta. Não é metáfora. Vi minha imagem


na carta. O papel fino me refletia ali sentado, recortado
contra o trânsito que flui na direção do Porto. Acinzentado
brilho imperial cobre o casario nas ladeiras ao redor. Cheiro
de vinho no ar ao de grelha e rio se mistura. Nastácia na
memória de minha língua. Tamborilam as águas da fonte nos
ladrilhos rangentes à passagem dos bondes. O prédio na
esquina do paço ergue-se triste em cicatrizes e olhos,
duplicado abaixo ao longo da poça no meio-fio. Minha gola
azul de zuarte está levantada até as orelhas e as
sobrancelhas se encontram na glabela. No cenho, a leitura se
converte em saudade e dor. Ergo os olhos. As dragas
empurram as ondulações contra a superfície sáxea que
margina a avenida até a torre de Belém. As moças passando
não sabem o que são aquelas coisas e para que servem.
Espero a subsistência do jornalista e do escritor o nome;
todavia, se devo escrever, será apenas para a manutenção
da sanidade e transcender a fome e o relento.

De longe e do alto, do castelo de São Jorge por


exemplo, a visão parecia maquete a que uma criança tivesse
deitado talcos. O vento sopra em direção ao sul. Umas quatro
e meia da manhã. O inferno em directo da rua Garret. Oh
meu Deus! Pessoas, não venham para a Baixa. Os prédios
cospem labaredas. Agora vou pá li a ver se de facto. Estar
vivo, estar realmente vivo, é ter consciência da morte.

Hoje será transmitida a décima sinfonia de


Beethoven. Liguei-me às palavras mas um avião interferiu no
som do rádio. Depois, a glória substituiu o locutor e restou a
idéia da vida legitimada após a morte; da ausência como
única circunstância eterna. Seremos meros acasos no
universo ou será o mundo mero acaso em nós, pano de fundo
para as existências. A cidade inteira está na imensa largura
do rio, o sol são miríades de diamantes à superfície.
Aumenta o tráfego na ponte conforme desce a noite, são
engrossadas as linhas douradas que na outra banda se
dissiparão; mas, na perda do fulgor, as pessoas estarão em
casa. A perfeição possível é póstuma, pensei; e o que nas
pessoas importa, imortal.

Fora a última notícia, a descoberta do dez onde só há


nove, atributos do milênio que se aproxima, baseado em
computadores. Na cintilação que a meus pés derrama,
falante e trêmulo, o alegre grupo de língua francesa sentado
à minha frente, arrebatou-me a necessidade e a inutilidade
da arte, que trabalha revertendo vicissitudes, na voz
feminina que abria o programa seguinte, uma guitarra de
blues ao fundo. O imaginário.

Perdi-me nas possibilidades quase sempre inócuas de


uma vocação e, naquele labirinto, comunicou-se o velho
sentimento temido e absurdo de missão. É preciso dizer tudo
a todos de todas as formas para chegar talvez a um sentido
para a vida e conquistar ânimo de permanecer respirando.
Como se acha solitário! Não vos comove isso, a vós que
passais pelo caminho?

Lisboa. Repartida pelos portugueses com europeus


glaciais do Cáspio e do Reno à vontade em leves roupas
coloridas ao chamado do sol ibérico, e com negros
provenientes das ex-colônias africanas, sentados atrás da
igreja de São Domingos, logo ali, depois da Praça da Figueira
ou defronte à estação Restauradores do metrô. A primavera
traz o humor de seus dias tanto do inverno que passara
quanto do verão por chegar. Estamos num desses
últimos. Give light?, sorriu a descontraída jovem cujo
vermelho da pele acusava a palidez congênita.

Os mochileiros se movimentavam como numa festa


íntima.

Estaria eu apto a lhes oferecer alguma luz com a mesma


serenidade com que acendia seus baseados? Ou seria o
recreio, e não mais; o jardim, e só isso? – menestrel na festa,
sem qualquer dimensão de arauto do mundo uno, da
pluralidade de raças, sugerido ali na rua da Augusta, por uns
preconizado para a política da comunidade européia e por
outros para toda a humanidade.

Mas apenas escrevo livros de bolso. É o que faço para


complementar a renda. Ou fazia, no Brasil. Livros que duram
uma viagem intermunicipal de duas horas. Banais histórias
de amor e aventura com enredo previamente permitido pelo
mercado, naturalmente com final feliz.

Isso aqui é vida real.

Não tenho mais como denunciar o mal pela imprensa. O


mal está em mim mesmo tanto quanto no planeta da luta de
classes (esboçava na mente o artigo sobre o Maio de 68) e
sobretudo da concorrência entre membros da mesma classe,
afluindo a todo transe ao lugar onde a generosa dignidade
dos ricos assiste, cúmplice, ao espetáculo. Inútil! Inútil
resistir! Assim é e será sempre!

A indolência dos turistas em seu ócio contrasta com a


pressa dos lisboetas que se dirigem a seus empregos,
fardados de sobrevivência, ali na Praça do Comércio.

Calcei-me e desci do muro de onde sentado via os


cacilheiros. Apanho a mochila preta e jogo as alças no
ombro. Está cedendo na costura, dá pra ver lá dentro uma
camiseta azul e um desodorante em bastão. O ruído dos
tecidos ao roçarem é como o chiado de um disco velho, como
o chiado de um disco velho, como o chiado. Roupas que
crepitam. Caminho no sentido da estação de Santa Apolônia:
à meia-noite pegarei o trem para a Espanha.

Tudo o que eu queria ao atravessar o Atlântico era um


lar, a banalidade dos felizes, não estar integrado em uma
civilização superior, mesmo que essa civilização agora
abrigue Blandine. Blandine não faz parte de meus motivos
conscientes. Não me interessa senão o pouco que a
economia destroçada de meu país já não permite. E, em vez,
a liberdade de longas estradas dando em lugar nenhum, em
lugares comuns - 1992, unificação européia, a abertura de
fronteiras, grande crescimento tanto da discriminação aos
imigrantes quanto dos movimentos contra o racismo. Estou
cansado. A magia da palavra perfeita é ensaiada em meu
caderno, administrada pelo caos, na perspectiva talvez de
um salário de navalha pago antes da falência –
ensangüentados crepúsculos solitários se derramando em
minha mente perturbada. Atravesso a transversal sob as
primeiras estrelas. Mas o rádio disse que vai chover.

Meu caminho era feito de incisões seguidas a que se


costuravam as semanas imediatamente anteriores às
imediatamente seguintes, porque eu nunca tive memória
ampla o bastante para lembrar fatos de há muito acontecidos
nem esperança tão larga que compreendesse um futuro por
demais distante. Portanto tentava agrupar os dias em que
Nastácia participou do torneio em Barcelona com as
possibilidades após receber o pagamento do artigo e quem
sabe a encomenda de um outro, não descartando ser
efetivado na revista. Mas além disso esbarrava na limitação
antes mencionada. É melhor, dizia a mim mesmo pela rua da
Alfândega ouvindo o rio, parar por aqui mesmo e pensar só
na chegada a Madri.

Um estado puro de luz e a ausência de esperançam


dissipam a ansiedade. Não estou entre as melhores cabeças
de minha geração nem minha sobrenatural verve articula
discursos admiráveis. Mas na mente escrevo, celebro coisas
e lugares, escrevo vorazmente, e dessa escrita me embriago,
depressão e euforia, não há equilíbrio. Escrevo, caminho. A
estação está longe, senhor? Ali, depois daquele prédio.

Anoitecia e esfriava.

E sequer freqüentei uma universidade ou a plenitude


de minha alma, e não faz sentido o legado de meus
escritos dispersos. Aceitei contudo a encomenda do texto
sobre a passagem dos vinte anos do Maio em Paris e vou
entregá-lo pessoalmente na revista espanhola. Depois
posso passear em Madri, conhecer a movida, e talvez sentir a
respiração de uma espanhola em meu rosto, no fôlego dessa
sensualidade sem mais escape, mais estética que orgânica,
digamos assim, uma mulher de fala cantada cuja voz apenas
causaria o desejo, cabelos negros e longos, pele clara,
branca por assim dizer, coxas grossas e brancas exceto pelas
veiazinhas entre o azul e o vermelho como a luz do sol numa
cortina azul e a pele mesmo semelhante a uma malha cor de
carne muito fina, nada a ver com essa moça que passa em
sentido contrário, ibérica também. Tenho desejo de Espanha,
das pessoas e coisas da Espanha, porque não estou na
Espanha.

Mas estou indo, e as coxas são brancas, e a chama é


densa. E sou pelo sonho arrebatado, armado, vestido. Entro
na estação. Vozerio, burburinho que ambienta meu silencio
interior em lama de frio e fome que se abrigou no meu
sangue aquecido e preparado, grosso. Estou indo. Depois
apaziguarei em Madri meus temores ancestrais e a opressão
dos dias.

Deus, pensei, por que esses alívios paliativos?

Eu não voltarei ao mundo, não voltarei; e, se não


voltarei, por que olho o céu temeroso e me importo com a
opinião das pessoas? De nada vale a vivência a não
ser para descrevê-la? Estou cansado de lidar com palavras
sem a respectiva vida. Não tenho qualquer razão, não tenho,
para ser o que penso e viver como escrevo. Com a
disponibilidade máxima para riscos. Não voltarei, o que é
tempo? e o sopro de vida em mim será tirado como esse trem
da plataforma 1. Exceto minhas ações, nada restará depois
de minha morte.

Com os lábios trêmulos cheguei a dizer Estou com frio,


e o homem a meu lado não entendeu ou não se interessou ou
não estava com frio. Então por que não bendizer meu
respirar efêmero, inclusive as conseqüências de ter me
desfeito de tudo para entrar naquele avião com passagem só
de ida? Por que não escrever LUZ no cascalho da fronteira e
continuar a ver as pedrinhas cintilando entre os
trilhos, mesmo depois que a anunciada chuva apagasse a
transcendental grafia?

Eu tinha uma amada ausente, viva na foto em minha


carteira e nalgum recôndito de meu coração. Ela longe eu era
livre, mas não sabia até que ponto; não sabia se era bom. Na
cabine solitária do vagão chegam cheiros de todas as casas
que passam na escuridão. Camas rangendo, armários abertos
rangendo, (onde o casal pegou a roupa de dormir), relógios
refletindo o feixe de luar, sons externos de bichos noturnos,
Sim meu amor, outra camada do tiquetaquear do trem na
noite, um nível paralelo de consciência. A mulher se ajoelha,
o homem por trás segura os seus seios, ofegam, o leite no
copo à cabeceira ondula. Era assim em Minas? Os pingos
enchem o vidro da janela do trem e escorrem pelas pernas
trêmulas.

Na estação de Atocha, Madri pela manhã, todos os


rostos traziam o seu rosto, como um ciclo de dulcinéias, eu
quixote. ¿Por favor, dónde un hotel? A vida é irônica, pensei.
Eu não era um libertino, nunca fora infiel; e Nastácia, casada,
me levara a readaptar conceitos. Esperava na perfeição de
uma única musa, até a toquei quando toquei Blandine, mas
fui tragado pela promiscuidade, ou talvez, sei lá, algo menos
sério, mas não era a beleza dos cisnes. O tempo está mesmo
ficando carregado.

Entrei no pequeno hotel. Não é tão perto como ela


disse. Fiquei com o quarto. Madri como a vejo. Romântica,
terapêutica, amarela, um novo e radiante amanhecer. Lá fora
troveja. Solidão. Solidão. Uma assombrosa periculosidade
rasteja em torno, de um ponto exterior ao quarto, no
corredor possivelmente. Rodinhas no piso se arrastam, o
carrinho geme, era o piso acarpetado? Ele não se lembra, diz
a voz, do gerente talvez, dando ordens à camareira. Passos
arrastados. De que falam? As vozes impregnam a memória
da janela. Meu Outro será para sempre um mero espectro? O
recém-nascido morrerá antes de não mais temer seus
temores? Continuarei morrendo através do tempo? Ele não
sabe, diz a camareira, não para o gerente pois a resposta
menciona o gerente, sujeito ridículo. Estava terminando o
texto (as folhas do caderno se dobram no canto superior,
preciso comprar um novo); estava terminando e sabia, mal
acabasse, nada restaria de mim, desse eu mais justo e
agradável que me possui ao escrever.

Não sei se esse hóspede está aí, parece que há um


recado.

É um impasse. Abrir mão dos vislumbres, conformá-los


aos mecanismos da normalidade, e me conformar com o
conforto transitório. Ou nadar contra a corrente, permanecer
exposto a privações e provações dificilmente suportáveis. O
corpo na cama deitou ao quarto a dor da ferida que
constantemente se abre, emanada da vida futura. Meu ser
não era eu, só um efeito cuja causa não era eu, ou não
plenamente eu. Meus olhos estão nublados, doem um pouco.
Mas tenho esperança. A perfeição passa por uma floresta
densa de volúpias, do tempo e do poder; passa pela
decadência. Mastigo esse tipo de abstração desde sempre.
Você precisa fazer uma faculdade. Bem que minha mãe me
avisou. Estudo é status, dinheiro é falo. A noite ronda a
janela, deflui em celebrações embriagadas.

Todos afinal têm razão e talvez ele. E possivelmente a


ereção inútil.

Acordei comigo mesmo em nada pensar sobre a noite


passada. Os caminhões municipais escovam o asfalto, lavam
o dia. Gotas se multiplicam no espelho escuro. Recém-
nascido de um Maio há vinte anos, logo morreria outra vez,
até quando? Você em minha mão solitária. Relâmpagos
jorram do cérebro, ecoam, mosaico de recordações.
Lembranças palpitam. A alma quer arrancá-las da memória e
trazê-las à mesma mão tornadas rosa, cujo aroma desnorteie
a serpente e inverta o ruído do trovão. A janela enquadra o
céu, uma estrela aparece, imponente ou simplesmente só,
em minha solidão como um sinal. Que o vento leve o que eu
vejo e veja o vento quando eu não possa mais.

Na neblina, a cidade derrete. As ruas cansadas,


cheirando a desprezo, estão mortas. Sentado na beira da
cama, onde os treze anos?, a casa dos avós? – a vivência não
haveria de seguir com as nuvens mas ficar com a estrela. Eu
não voltaria, e o efeito haveria de se libertar, não passaria
sem legar algo aos que estavam na festa e aos que ainda
chegariam, quando olhassem por uma janela.

Resolveu procurar Bernardo. Não estava. Filomena, diz


que espere. Esperou. Durante três semanas, esteve no
negócio. Não posso fazer nada meu Deus, não posso evitar.
Não era minha intenção, preciso sobreviver. E ainda no
jantar ela percebeu o quanto ele estava abatido, embora
naturalmente nem imaginasse que fosse o efeito das preces.
Não fique assim, vai dar tudo certo, disse ela, agora você não
tem alternativa mas logo as coisas vão melhorar, fique
tranqüilo. E olhava para ele com uma ternura fraterna que
ele não conhecia. Ele quis então dizer que eles tinham sorte
de terem um ao outro, pois mais tarde estaria naquele
quarto, ainda sozinho e morando de favor. Mas apenas disse
Obrigado e assegurou que de algum modo ele os
compensaria. Imagine. Falava sério, só não sabia quando –
um dia. E realmente, o quarto. A cama ao lado da janela.
Noites de lua espraiavam todo tipo de saudade pelo assoalho
revestido de sinteco do Porto.

O passar das horas. O relógio registrava o final de abril.


Também o jornal que eu lia na cama, apoiado num cotovelo.
Noticia o crescimento da tensão no avião árabe
seqüestrado. Os olhos para o céu. Na copa das árvores, o
verde muito escuro retém pelas nuances do letreiro a luz do
sol já imerso no abismo. Pouco resta. E fragmentado,
caótico. Como um profeta, eu perdera. As coisas materiais,
sociais – agregadas por assim dizer – que eu prezava. Aos
poucos, retiravam-se também os sentimentos de apego, de
valorização das aparências. O conformismo aos conceitos
seculares. Mas não de todo.

As coisas mudaram e não seria possível viver com os


velhos pontos de vista. Eu deveria saber. Estar ao menos
inclinado a entender. Um processo irreversível, fatídico.
Escapa a qualquer controle. Por quê? Eu perguntava, queria
saber. Perguntava: não era um profeta. As manhãs vinham e
depois as noites. Grande es la sensación de soledad en
ciudad grande. O coração se enche de amargura. Um cara
forte que só, mas está um pouco cansado. As vozes no
corredor se distanciam, crescem os sons do vizinho de
quarto. Não entendo como pode fazer tanto barulho num
lugar tão sem nada. Talvez por isso mesmo. O ruído oco e
duro do vazio.

Diante do reflexo. Em torno da lâmpada, mariposinhas.


O sol atrai a terra e se move no infinito, arrasta consigo o
planeta, não permite que suma no vácuo. Nastácia abordada,
a carona. Salvo. De solstício a equinócio, a humanidade vive
uma estação. É assim? Um brilho diferente no reflexo, de
algum modo ligado à respiração. Primavera. Seja o que Deus
quiser. Um cara que lutou com limitações financeiras e de
saúde em nome da viagem. Conseguiu. A voz da mãe martela
na cabeça. Lutar pelo que se quer. Usufruir da conquista.
Depois do inverno, o calor não ludibria a noção de um outro,
no ano seguinte. Os dias passam e assim as noites. Quando
seria eu resgatado? Seria resgatado?

Tilintar de copo, uma torneira. A faca corta uma fruta,


biscoitos são na lata colocados. Não dá pra me levar a sério,
digo a mim mesmo, as mãos na parte de trás do pescoço.
Ainda que escrevesse um romance, sim, ainda que
conseguisse, deveria supor um valor de vida? Quem sabe
seja. Cartas caídas no chão, jornais velhos que se misturam,
fotos, papéis dispersos voam da mesa e alguém exulta. Um
livro!
Não sou a mão que escreve, sou a espécie. Sonhos
sensuais; amor, que seja. Espelho. A mão na lata. Os
utensílios de minha normalidade planetária haviam sido
tirados um a um. Amor, pátria, trabalho. E agora?

Honrar o homem em mim que conseguiu a viagem? Mas


a que preço. O que pretendia? Ser feliz? Já não era antes
feliz? O que é ser feliz? Alguém chega a ser realmente feliz?
Detestava quando a mãe fazia perguntas apenas para
introduzir suas teorias sobre tudo. Teria talvez pensado que
era feliz nos mimos à criança, nas atenções voltadas para a
puberdade do filhinho, nos paparicos à inteligência, nos
agrados ao adolescente sem espinhas, nas lisonjas que o
sucesso literário profetizavam.

Mas o que é sucesso literário? Aliás, o que é sucesso?


Aliás – a mão não que escreve mas segura o copo dágua.
Bebo. Saciado, não me lembro mais quem sou. Não me
lembro mais. Não me lembro. Não me. Não. O quê? As luzes
se desprendem das folhas e se esvaem na noite. Se escrevo
bem qual a serventia? se nem tanto, qual o prejuízo? Não
amo faz tempo a glória dos homens, não mesmo. Não
mesmo? E se sim, se não amo, qual a utilidade dessa
convicção? Na noite onde se esvaem as luzes, me resta
colocar o coração, ainda bem irrigado pelo tempo de
exercícios e alimentação balanceada, a serviço do que deve
perdurar – os vislumbres pesados, as asas da sombra, a casa
esperada. Junto ao tesouro sem traças que me resta.

Odor de cinzeiro. A matéria do Maio, com ela me


despediria do jornalismo. Diante de mim, a tensão crescente
no avião. Mas acabo de ouvir que os seqüestradores de há
muito conseguiram escapar. Não há mais seqüestro. Ao som
do noticiário, um jornalista cujo sonho é ser escritor, e o que
não mais interessa: especulações sobre os extremistas, o
estado psicológico dos reféns. Já aconteceu a fuga, no tempo
do mundo. As panturrilhas estão doloridas. Escaparam,
pensei, inclusive da imprensa, elite cujo propósito é ver o
circo pegar fogo para enfiar o microfone na boca chorosa do
palhaço.

Mas eu continuava preso àquela engrenagem. Era a


minha profissão, havia dez anos, embora não tivesse
diploma. Embora eu quisesse ser livre e os órgãos servis, era
o que sabia fazer. Em Portugal, a exigência do diploma não
equivalia a um progresso estabelecido. Lençol limpo,
convidativo, o corpo filtrado pela viagem se distende entre a
entrega da matéria e o torpor de tantos nadas. Minha vida se
tornara inoportuna. Preciso não ter interesse material ligado
à escrita, ser livre e acreditar no que faço tanto quanto sei
fazer, e viver de acordo, com cuidados de retidão e
caligrafia, incluindo rasuras e correções. Um cartaz entra
pela janela que vê Madri. Ahora es tu oportunidad.

Se a variação cromática define na rede a imagem


reticulada embora as retículas não sejam perceptíveis a olho
nu – pensei perdido no quadro na parede (um casal em uma
praia)–, na alma a personalidade se imprime pela índole,
depois pela educação e arbítrio. Tudo passa então a ser
atribuído a um ente imaginário criado pelos outros, o qual
assume a pessoa como se nela se consistisse. Meus olhos
estão mesmo com algum problema. Uma mulher no quarto do
lado oposto. Assim, assim. A análise psicológica quando
muito discerne sutilezas, causas remotas sem maior
significado além da retórica.

A possibilidade de uma vida. Viscosa e morna. Não há


mais.

Preciso me descobrir, viver, sair de mim pelo prisma


alheio, desdenhar dos motivos, tomar o destino. Testo a
esferográfica na mão. Apreensões impedem a entrada da luz
e a treva não deixa que eu capte a essência não histórica do
tema.

Está cansado da viagem, se cair na cama desmaia.


Resiste, porém, por causa da noite madrilena. Mas devia sim
tentar dormir um pouco.

Dormir direito, há quanto tempo não?

Desde que renunciei a me acalmar. Não conseguia,


pensando em Blandine. Às vezes até que, mas só em certa
medida, numa coisa só física, para esse efeito de alivio.
Então, se é assim, abdico do direito.

Ansioso. Solto por pensamentos os mais diversos,


culminando naquele, sobre a História. Tem um livro com esse
nome, disse uma vez o senhor Jean; de uma tal Morante,
alguma coisa assim. Fala de como os fatos históricos nada
mais são do que um amontoado de dramas anônimos que a
História jamais contará. Se maio foi referência em Paris,
1968 tivera outras, mais nos suspiros do que nas explosões.
Que significariam individualmente?

Uma camareira rende a outra, passa pelos quartos


abertos recolhendo a roupa suja. Imagina como o marido
teria se sentido quando ela finalmente tomou coragem e
disse Vou sair de casa, não precisava dele para sobreviver.
Recorda a cara da filha ouvindo-a dizer que tomara a
decisão, Mas mãe, entretanto quase se podia tocar o orgulho
da moça, escondida atrás da enorme barriga. Passa com o
carrinho pelo balcão vazio da portaria, atrás do qual havia os
quadros da Inspeção Sanitária, a advertência contra crimes
sexuais, o espelho e o quadro das chaves, passa e sente todo
o alívio.

A que saiu se encontra com o namorado, Vamos antes


comer alguma coisa, e seguem pela Gran Via, certos de que
suas esperanças não podem ser interrompidas nem por
pessoas contrárias a estarem juntos nem por aqueles que
dizem quererem apenas o bem deles, como a mãe dele. Filho,
você é um empresário respeitado, ela mesma acabará se
sentindo mal diante de seus amigos, cada um tem de viver
no próprio mundo. E depois que comeram as iscas de fígado
que ele preparou, foram para cama e no dia seguinte
acordaram quase meio-dia.

O porteiro está voltando, cantarola a música que


encerrou o show do dia anterior, bem que seus amigos
disseram que ele iria adorar, de fato era uma banda
fantástica, uau, fantástica – sentiu-se envolvido por uma
energia louca, e agora era como se todas as coisas boas que
deveriam acontecer ao longo do dia, as gorjetas, a pausa do
almoço, o flerte com as hóspedes, tudo estivesse ligado aos
acordes que insistiam dentro dele. Todos perceberam o
quanto estava bem e seu humor mais leve.

As escadas descem em voltas, deve levar bem uns cinco


minutos ou mais desde o momento em que se sai dos quartos
até o corredor que dará na rua, agora visível. A luz faz com
que se aperte os olhos, os transeuntes se aproximam de
quem sai. Junto-me a eles. Passo pela mulher numa calça
muito apertada, os quadris requebram em negro; desvio de
dois casais parados em frente a um prédio; o ônibus ronca e
retoma seu trajeto. A rua é estreita mas deve me levar à vida
que procuro, oculta em cada palavra que me ocorre por conta
do artigo –ideal, revolução, liberdade. Se houve o Maio
francês, o vento sopra desde sempre, meu amigo, as
respostas.

Estou saindo sem destino pelas ruas de Madri.


Valerie queria fazer amor com aquele homem, o
professor – era o queria, sem qualquer outra implicação.
Saboreava a intensidade desse desejo sem culpa quando
suas amigas acenderam o baseado. Quando fez efeito,
inflamando-lhe a vontade, passou pela sua cabeça a reação
de Hans se soubesse, e certamente, do jeito que eram as
coisas, haveria de saber. Em nenhum momento sentiu menor
o seu sentimento por ele, por Hans, desde que viu o outro no
campus e quis estar com ele ao menos uma noite. Se não há
sentimento ligado a isso, pensou, tampouco tenho qualquer
ligação com os ideais do movimento estudantil e não estou
entre os membros mais engajados? Quando ele chegou e
disse Oi pessoal, ela já tinha tudo planejado e pouco depois
estavam no alojamento, procurando-se. Do outro lado da
parede vinha uma música dos Beatles, que falava de
revolução. Os outros deviam estar ainda tagarelando sobre
sistema educacional, política, Vietnã, mas no fundo tudo o
que diziam era que Valerie tinha o direito de fumar um
baseado e depois fazer sexo com aquele homem.

Madri. Pelos labirínticos subterrâneos do trem


metropolitano, contemplando a fauna de que fazia parte,
cheguei ao outro lado da cidade no princípio da noite.
Arrefecido o horário, restou a oferta de corpos, o burburinho
nos bares, adolescentes discutindo qualidade e preço. As
espanholas com elegância se exibem. Namorados e um
romantismo anacrônico. Simpáticos executivos ensinam após
o expediente. Si llevas dinero, te vas de copas. Peço uma
informação ao rapaz que passa em sentido contrário, não
entendo sua resposta, que a escrevesse pra mim, por favor.
O que estou fazendo aqui? Quanto resistirá esta casca?

Grupos marginais nas esquinas como ventos se


agrupam antes de distribuídos. Apertos de mão em código,
socos de camaradagem e beijinhos descompromissados,
alíneas de parágrafos jamais acabados. Tive mais que esse
fim de caminho, onde começou? Ao se dispersar o
grupo, alguém deixa um pedaço gratuito como prova de
amizade.

Sento no degrau de uma loja de uma loja fechada. Um


policial olha fixamente para a caderneta que eu tirara do
bolso da jaqueta. Presença incômoda. Levanto e tomo de
novo a direção do metrô. Pouco depois, estava na avenida
Daroca, ventava forte na Ciudad Lineal. De Vicalvaro até a
entrada da estação Las musas, entro no mundo que nasce
quando morre o diurno e sua retidão.

Apanhei a linha 7 até Pueblo Nuevo e a 5 até Ventas, no


sentido de Callao. Cinemas, sopas, madrugadas imprevisíveis
segundo o suplemento. Entrei após ver o cartaz. “Julia e
Julia”. A inverosimilhança de Sting falando um castelhano
tão perfeito com Kathleen Turner fez da sessão um tipo
estranho de terapia e saí sereno, bem disposto. Não me
ocorreu qualquer associação entre a bizarra película e
Blandine, o que colaborou decerto para a tranqüilidade. E no
entanto havia Trieste, fronteira de barcos e aves, castelos e
museus, professores famosos e virgens mais que prudentes,
cidade que não conhecia mas tão ligada estava a meu
passado e destino. Se estabelecesse analogias (o que pode
ter ocorrido no inconsciente) entre Blandine e Kathleen,
Sting e eu; se relacionasse aqueles cenários com os
arredores da via Della Sorgente, ruas onde Blandine vivia e
caminhava ao sol, aquele mar do filme com o mar que todos
os dias a extasiava, crepitando ao constante vento, a
ansiedade de um reencontro não me deixaria concentrar em
Julia, nas fantasias em estado bruto que produzia. Kathleen
seria Blandine; e seu amor por Sting, nosso abortado
romance. Mas não me ocorreu qualquer ligação. Não evoquei
Trieste, não lembrei de Blandine e saí ileso, graças a esses
complexos mecanismos mentais que nos protegem de nós
mesmos.

Meses depois – agora há poucos minutos de quando


escrevo isto –, quando voltasse a ver o filme em Lisboa numa
sessão reservada a jornalistas e cineastas para mostra dos
processos inovadores da tecnologia da alta definição, por um
detalhe, o espaço entre as casas, de que Nastácia não
gostava por achá-los grandes demais, agente do isolamento
dos habitantes, eu pressentira Trieste e confirmaria mais
tarde a intuição. Nessa sessão futura, em que os cuidados
técnicos subtraíam ao filme aquele halo de magia,
substituindo-o por um tipo de video-tape, algo como trocar a
pintura de um mestre pela foto da paisagem que o inspirou,
nessa outra sessão, em Lisboa, quando Sting falava com sua
própria voz o inglês original do filme, experimentei imensa
angústia pelo desfecho em que me encontro e porque, se
conhecemos uma ficção e aceitamos as horas que dentro
dela passamos como um tempo vicário onde a ilusão assume
o papel da realidade com o nosso aval, quando voltamos a
nos deparar com essa obra, após ver os atores recebendo
prêmios, em entrevistas ególatras ou simplesmente em
outros papéis, ao revivermos a narrativa depois da lisonja da
crítica e dos apuramentos técnicos, a obra perde a dimensão
de vida que lhe concedera nosso espírito na primeira leitura,
nos detemos nos detalhes, tudo se torna evidente como fruto
de uma humanidade vã, verossímil demais para ser
verdadeiro. Você nunca viu o mar e se delicia ao imaginá-lo,
mas talvez não irá gozar de seus prazeres quando em meio
às ondas. A masturbação de um adolescente pode ser mais
gratificante que as relações que manterá depois de adulto.

Ouço um trem. Uma buzina. Outra. Vozes. Passam pelas


calçadas. Só quem morbidamente susceptível sofreu a
miséria como eu saberá a pressão a que se é submetido, as
humilhações dolorosas e alegrias potencializadas por
contraste. Sou patético porque no fundo sou normal. Mas
sofro. De um jeito ou de outro, sofro. Só quem vivencia
realidade semelhante poderá avaliar o quanto sofro.

Não era assim após o filme em Madrid. Estava sereno,


bem disposto, cheio de esperança. Encaminhei-me assim,
com postura e respiração de peito, para uma ronda que me
deixasse na zona das tavernas, pronto para entrar na mais
barata. Ao passar por uma banca de jornais, bati o olhos num
postal sem foto, apenas a plastificação negra do cartão.
Noche. Madrid. Sorri. Comprei. Virei-me e devo ter dado uns
cinco passos. Um rapaz me pede um cigarro. Depois de
acendê-lo, propõe um chocolate.

Dialeto dos fumadores de THC. Maconha, cabonha,


ganza, erva, pito, hashis, kaia, erva, liamba. diamba, porro,
joint, charro, chá, chamón. Pinturas diferentes de uma
mesma porta, para um mesmo lugar. Independe o efeito do
nome. "Chocolate" agora, o carimbo na fronteira. Se eu devia
ou não ultrapassá-la, esse era um outro, velho complexo
problema no qual não podia me dar ao luxo de me deter
então – o mundo passa, e seus mistérios. Necessito agora
não de droga mas interlocutor e a erva se prontifica sem as
cobranças do amigo e, principalmente, da amiga humana.

Assim que lhe dei o dinheiro de minha parte, o rapaz foi


até um vulto na transversal do outro lado da rua, sem dizer
palavra. Voltou e fomos andando enquanto preparava o
cigarro. O rapaz, Michel, inglês, pronunciava o espanhol tão
corretamente quanto Sting no filme – porém ele era real
como minha alma dilacerada. Canta o lhú de lluvia (começava
a chuviscar) e o lhê de calle (convidara-me para ir tomar
sopa num clube noturno e agora me explicava o caminho),
diferente dos sul-americanos que dão aos eles som de jota.

No percurso, pelo cheiro juntaram-se a nós um italiano


e um português. Eu ouvira falar, em Paris, Roma e Lisboa,
acerca de Amsterdã, auge de uma europa paralela, una,
subterrânea. Uma bicicleta em Den Haag Utrecht contra o
vento. Uma moça com a mochila aos pés ao lado de uma feliz
placa azul, ela pede uma carona. Outra. Bate fotos dos
amigos. Uma transversal. Vou ao longo das rua de casinhas
ajardinadas e tetos graciosos, à semelhança de casas de
bonecas. Não vou realizar tais sonhos.

Oleana pergunta Por que não? Poderiam, sei lá, marcar


um encontro em Amsterdã no Natal. Palavras. Ela não
festejava Natal, mas tinha costume de fazer uma viagem
desse tipo no final do ano. Ele precisa mudar aquele
sentimento de que a vida são promessas não cumpridas,
desejos não realizados, pequenas traições,
indisponibilidades. A vida é boa, meu amigo.

É ele. Revelou-se. Aquele que não tem futuro, o que


então parece esperar? É ela. Não há outra. O tipo de convite
feito da boca para fora, como se falar fosse um tipo de
imunidade. Amanhã sequer lembrará de ter dito isso. Teve a
impressão, enquanto a escutava, enquanto entrava naquela
dimensão em que era estrangeiro, do dizer por dizer, e justo
no momento em que o prazer é tanto que substitui a razão,
de ouvir um desejo de silêncio espalhando entre velhos
sonhos e novas excitações os cordões firmes do cumprimento
do que se diz, a mais sagrada de todas as coisas.

Um veículo pesado subitamente faz com que a avenida


estremeça. Um sino. Meia-noite. Tudo que um segundo
comporta.

Na verdade, as cidades da Europa – pensei enquanto


Michel arrematava o cigarro, girando-o na boca –, cada uma
oferecia seu clímax próprio num continente de coisas velhas,
acusado de xenofobia, com um comprometedor passado
colonialista, mas sempre fascinante a olhos estrangeiros,
como o salão de uma duquesa do século dezenove, cheio de
gente sequiosa do convívio que impõe nobreza qual lápide
numa sepultura, tentação a que não resistiram nem os
grandes da arte refratária ao tempo, como se não houvesse
o juízo das gerações.

Tentava resistir. Convidado por Maria das Dores, uma


linda secretária do Palácio Foz para um coquetel naquele
exato momento oferecido a jornalistas estrangeiros em
Lisboa, preferia partilhar – preferia? – a companhia de outros
perdidos dispersos na península.

Bernardo vê a sua amada em algumas expressões do


brasileiro, um certo eco de pensamentos que conhece tão
bem. Os olhos dele próprio também retém o amor também
por um momento, mas não pode durar. Se fosse assim
sentimental, argumenta consigo mesmo, já estaria morto.

Bernardo. O entroncado moreno do Porto. Está falando


alguma coisa sobre mulheres. Diz que sexo e sentimento são
para elas a mesma coisa ou duas coisas tão ligadas que
terminam por ser uma só. Quando sentem prazer, sentem
amor. O homem não associa assim, por muito que ame.
Admitimos que a imagem da amada possa por momentos se
pagar e o coração transmitir outras imagens, mesmo pronto
para pulsar o ressurgimento de sua amada.

Donde o espírito possessivo toma conta delas – Mario, o


italiano que vivia em Barcelona faz uma pausa e vai concluir.
Mas Bernardo, como que desabafando um caso recente,
conclui ele próprio.

Como uma possessão mesmo. O ciúme é o demônio


particular das mulheres.

A mulher é que é o demônio, diz Mario. Naquela mesma


noite deixará de pensar assim. Eis a mulher que esperava,
tão doce e castanha. Sabia que ela existia e que iria
encontrá-la. Muda assim sua forma de ver as coisas, sua
maneira de encarar um relacionamento. Eu sabia. Horas
depois pensará. Ali estava Isabelle, sem intenção de seduzir.
Desdenhando seduzir. Apenas caminha na noite.

A mulher é o demônio, repete o murmúrio.

Era um engano pensar assim. A ironia musicava o


castelhano de Michel. Uma mulher não passa despercebida.

Bernardo carrega sua melancolia dum forte sotaque. Su


codigo es místico. As feições acompanham as palavras.
Confissão de uma mágoa nas entrelinhas. O silêncio dos
outros estabelece a compreensão que permite que continue
sua queixa. Para elas a amante eventual é definitivamente
traição, prova inequívoca de desamor, quando na verdade
apenas prova uma tendência polígama primordial. Aventuras
nada significam.

Mario acrescenta: Nada para nós. Para elas, sempre


significam alguma coisa.
Soava engraçado quatro jovens estrangeiros na movida
madrilena levados pelos primeiros toques do cânhamo a
semelhantes divagações. Bernardo se perde na imagem
motivadora de suas palavras. Mario, depois de receber o
charro de Michel e fazer a gravata de saliva para retardar a
queima, concorda que os homens, mesmo privilegiando o
lugar da amada, não resistem a outros lugares. Michel sorri e
diz E eis que uma mulher sai ao seu encontro. Passam três
moças em sentido contrário, provocantes. Ele virou-se e as
seguiu no decurso de uns passos. Mujeres, vosotras las
chicas, no valeis nada, no sois nada, no teneis sentimientos,
ni corazon, ni entrañas - no queréis ninguna salir
conmigo? Uma alma paralela extraiu etérea das nuvens a
idéia de Deus que associei a adoráveis chicas espanholas.

O que torna tudo tão difícil, comentou Mario, é que a


mulher escolhe sempre um homem que vá despertar a
atenção de outras – o rico, o charmoso, o bonito, o
inteligente, o protetor, o sedutor. Mas só leva em conta que,
se é fiel, garantirá o direito de exigir fidelidade. Escolhe e se
entrega logo, antes que surja a questão de sua própria
beleza, independência, charme, meiguice que desperta no
homem o desejo de proteger, de seu jeito apaixonado. Daí
deduz que sua entrega fiel dá o direito de fazer cobranças.
Não preserva seus encantos e exige fidelidade cega,
independente desses encantos.

O pastor pregava em vigília evangélica na igreja que


logo adiante cresceu. Por que a duração de nossa vida é
setenta anos, e se alguns mais robustos talvez cheguem a
oitenta, o melhor deles é canseira e enfado. São levados
como corrente de águas, como um sono; são como a erva que
cresce de madrugada, de madrugada cresce e floresce, à
tarde corta-se e se seca. Deus fala aqui da brevidade da vida
e por ser breve temos de mostrar a nossa fé E a nossa
prosperidade mostra a nossa fé, aleluia! Gritos santos são
ouvidos aqui de fora.

Fidelidade – pensei – só deixa de existir, efeito, quando


uma causa já se desenvolveu nos tempos. E do efeito são
criadas águas, e afunda-se no efeito. E agora, sem convicção
para ser fiel, justamente agora, era mais amado e mais me
era exigida fidelidade, cuja noção em mim a névoa
confundira, a noção da fidelidade natural que jurei um dia,
não diante de um homem assim, mas dentro do coração.

Como a pele só sente a mudança para mais frio ou calor


e não a temperatura que se mantém, assim, acho, o tempo
só é sentido na mudança, e quando a gente vê alguém depois
de muito tempo, cresceu, mudou, o que não percebem as
pessoas ao redor. O que pode, pensou Mario chutando uma
pedrinha, o que pode dizer de fidelidade o homem num
mundo, como diria meu pai, em que a graças das mulheres,
como o velho teria dito, tece a passamanaria de todos os
assentos? Bene. E o que dizer de um mundo que assim não
fosse?

Um mundo sem a mercê da mulher, pensei, seria sem


vida. Como num hospital as enfermeiras não passam pelos
corredores para ensejar aos enfermos desejo de viver por
causa da graciosidade delas, mas porque ali trabalham e são
competentes; porém, esse requisito evidente seria, sem a
sutileza do outro atributo, tão inócuo quanto um soneto
clássico na forma, sem o coração das palavras. Até posso
escrever um agora, palavras chegam aos montes, de frescas
instâncias, junto a expressivas imagens expressivas, no óleo
mais puro de existir. Mas caminhávamos e se volatilizavam.

Palavras.
Contudo, bem ou mal, delas subsisto. Escrevo. Sou lido,
segundo cartas que recebia nas redações, era até apreciado
por algumas pessoas. Assim, parece coerente o oficio; e
depender de palavras meu tempo de subsistência, uma troca
sensata. Mas não há coerência na vida e nada é tão
insensato quanto o que nos ocupa coerentemente o tempo
sem fazer sentido no final. Como os dias de meu
relacionamento fiel com Blandine.

Mario agora fala sobre as possibilidades próximas à


Puerta del Sol. Bernardo comenta que um italiano em Madrid
não pode deixar de conhecer o Pinoccio, onde jantara por
duas mil pesetas. Resquícios em meu silêncio. Fidelidade. O
que sei? Mal e mal da dimensão entre o primeiro pranto e o
último suspiro – prantos e suspiros – e sequer se antes
haverá vida verdadeira, a fidelidade de Deus, antes do
réquiem dos querubins irradiando uma luz apenas provável.

Chegamos, disse Michel, tirando-me de mim.

Entramos.

O ambiente está cheio de um azul sonoro que


relampeja, diria que é uma boate, mas como se uma
autoridade maior me chamasse, quieto num canto voltei para
minha caderneta.

Há vinte anos, quando eu tinha vinte


Anos, queríamos mudar o mundo

Lembrar 1968 produz a frase inicial de um texto com


referências próprias, e todo o trânsito delas deveria se
resolver em cada visão pessoal, Albinoni reciclado em
versos, algo assim. O esboço no hotel aos poucos se
transforma em algo concreto perante mim, será lido e
esquecido ou nem lido mas e daí? Há vinte anos, quando eu
tinha vinte anos, quem estava com vinte anos aprendera a
sonhar e queria tudo, o futuro era agora. No final das contas
porém, 1968 é só um numero, que traz não evoca qualquer
reinvenção do mundo, e meus amigos da época, observei,
estão mortos ou aderiram à mediocridade geral. Não que
tenham mudado, ao contrário, agora são eles mesmos. Hoje,
vinte anos depois de quando eu tinha vinte anos, o que
poderia ter sido não foi, o sonho acabou. Que barulho
ensurdecedor é esse, essas batidas? o prédio treme, isso não
é musica, ninguém aqui pode crer que seja. As pisadas que
faziam, há vinte anos, os palácios estremecerem, hoje
caminham macias pelos seus corredores.

A estrada e o polegar, um carro pára. Esse ainda não foi


contaminado pelo medo. Rosário? Duas horas na boléia de
poeira e sacolejos, cara tô muito doido, esta é mesmo da
boa, dizem que vai ter muita menina por lá. O rádio da
caminhonete toca uma canção portenha. À mesa do clube
noturno em Madri, caderno e caneta. Nas palmas das
pessoas que acompanham a música ambiente, ouço
aplausos. Minas pacas! muita mulher, cara, e todas facinhas!
Obrigado, bom resto de viagem. De nada, mas se cuidem.
Estamos quase nos anos setenta e na província de Buenos
Aires, se cuidem! Um prêmio para jornalistas, uma platéia
azul em minha mente. Onde você estava em 1968? O
motorista sem medo; a comunidade, Rachel. Palmas no
clube. Aplausos. Obrigado, obrigado.

Uma geração paira no nevoeiro inútil. A possibilidade


De mudar a sociedade não resta sequer como possibilidade.
Não se derruba o pode vigente sem derrubar antes o poder
vigente
Dentro de nós. Vaidade das vaidades. Como viajar nesse trem
Sem pensar em descer quando pare nas estações
em que se vendem doces artificiais nas cantinas?

Estávamos no pub – clube, boate ou sabe Deus – há


cerca de meia hora, bebendo refrigerantes potencializados
pelo haxixe. Bernardo súbito concentra as atenções. Minha
carteira! Alguém roubou minha carteira! Ato único, lembrei
de Michel. Onde estava? Mario conferiu discretamente o
conteúdo de seus bolsos. Uma sirene então disparou. Pensei
na polícia e no haxixe comigo, até discernir na sirene um
medo íntimo. Jamais saberei com certeza. O inquietante
barulho insiste, contínuo, não pára, aumenta. O porteiro
pede para que a gente saia, em idioma de súplica entendido
pelos gestos.

Quando estavam nas escadas a ponto de sair, já


claustófobos daquele lugar, esbarram em uma tranca de
bronze. Que loucura é essa afinal? Com o medo que em atos
bruscos se confunde com coragem, Bernardo tornou a subir
os degraus, de dois em dois, Tenho de sair daqui, e lá
embaixo ouvimos sua voz, desesperadamente enérgica,
levando o dedo de alguém a algum botão que atuou no
circuito. Vamos!

O frio lá fora se misturou ao relaxamento do haxixe. Eu


era adventício, todo homem é forasteiro, uma sombra em
vão se afana. Eu preferia estar descansando em frente a uma
televisão, ver um vídeo, ler um livro, e ouvir música, e
discutir filosofia em alguma culta cama continental, depois
de amar e dormir – dormir sem me preocupar com a refeição
seguinte –, atrás de um jornal em preto e branco. A
madrugada madrilena distribuía luzes e sombras pela
amplidão de suas iluminadas avenidas e nevoentas ruelas
sempre dando em alguma praça, entrada de metrô ou outra
avenida iluminada. As lâmpadas dos postes transpassam a
bruma, entranham no asfalto nossas encompridadas
sombras. Eu preferia sim a normalidade, a prosperidade, o
conforto; e quanto mais os preferia, os abominava mais.

Michel, antes da confusão e de seu sumiço, fará


confissões. Falará de algo com que sua mente um dia se
ocupou mas ficou no tempo. Agora é um empresário. Agora
tem de sustentar uma mulher caprichosa. Sente-se bem ao
falar com um estranho que não mais verá. O brasileiro terá
esse papel na maldita sensação de culpa. E todavia não
fizera nada demais, ora essa. Apenas tinha uma linda casa
em Londres; era sócio de uma próspera loja na Hawthorn
Avenue. Mas optara viver na Espanha pois se relacionava
com a resistência basca em nome da memória de um avô,
um basco francês.

Guardei aquilo. Que significado teria o Maio francês


para os bascos? Durante nossa conversa, nada tinha contra
Michel e nem mais tarde saberei se deveria ter (em relação à
carteira de Bernardo); mas ele me pareceu dessas pessoas
perfeitas demais, nunca possuidoras de autenticidade
proporcional ao que aparentam. Corretas demais para serem
honestas. Quando portanto me fala de sua simpatia
engajada, duvido. Vacila a simpatia pela casa Euskadi, a casa
de meu pai, nire aitaren etxea, mas mal conheci meu pai, e
qual o poder da simples etnia? Há verdades e mentiras em
todas as casas, em todas as causas, pensava ao sairmos do
clube, ao pegar o ultimo pedaço do hashis para que
fumássemos ali mesmo em Lavapes, apesar da tentação de
guardá-lo para mais tarde escrever na solidão de meu
quarto.

Procuramos um lugar sem vento. Descemos na entrada


do metrô. Mario desfaz a barra aquecida sobre a moeda na
palma da mão. Dois policiais surgem de nosso descuido.
Olham e se aproximam. Podem mostrar seus documentos?
Um deles se detém em minha credencial. Jornalista, hen? Por
acaso trabalha melhor drogado? A voz se eleva, e ele me
encara, encostado em sua insígnia.

Na aura a que me propunha, eu trabalhava melhor


quando não era eu, despersonalizado; quando minha
consciência fazia parte de um todo que a mim mesmo via
como parte. Quando eu, autor, me afastava dessa função, e
permitia que os fatos (no caso do jornalismo) ou os
personagens (no caso dos livros de bolso) existissem sem
mim, sem noção de bem e mal, sem opinião. Não deveriam
ser o texto acabado, mas passar pelo crivo abstêmio, íntegro
em suas limitações – eu. Nisso o haxixe e a maconha faziam
seu papel. Mas preferiria não fosse assim. Queria ser minhas
próprias transgressões, sem a ajuda de deuses caídos
ocultos na erva.

Que cérebro em mim o faria, ou que coração?

Os guardas ainda nos avaliam com perguntas de praxe.


Devolvem os documentos. Voltam para seu turno.

Bernardo abriu o papel e Mario colocou a mistura, um


trabalho de equipe que supunha usufruto comum, mas não o
iríamos partilhar. Aspirávamos o máximo que não era muito
por ser fortíssimo o tabaco negro espanhol. Quando me
restou a acidez de tragar o cartão, atirei-o ao chão. Bernardo
disse que tinha de ir, deixou seu endereço no Porto, em Gaia,
É só pegar o autocarro 57, e se despediu.

Aconteceram em domingos, quando Filomena acordava


para preparar o almoço antes do culto, as chegadas tanto de
um como de outro. Andrei apareceu no momento em que ela
saía. Bernardo nunca teve antes essa confiança de deixar um
amigo assim à vontade com ela. Com Blandine a situação foi
de outro tipo, era um fim de caminho e agora pouco
importava à portuguesa o que era ou não permitido.

Nada de fato importava, além da paz daquela manhã,


dos novos caminhos para uma e para outra.

Blandine nem percebera, diz Filomena, que seu jeito de


ficar em pé, com as mãos na cintura e as pernas afastadas, é
justinho como eu fico, estás a ver?, sabia porque até
ensaiava na frente do espelho. Com o rapaz, com Andrei, ela
não se comportou assim, antes fez um papel de mãe ou irmã
a que jamais se prestara.

Ficamos eu e Mario. O vento frio o sentíamos outro. E


nós mesmos, outros também – nós sob outro prisma. O que
pode enlevar, sim seu guarda, é incapaz de modificar. O tal
espelho que amplia é ainda só um espelho. O sábio será
sempre sábio e o tolo cada vez mais. Dependerei de um
reflexo que me leve, ampliado? Falo a respeito com Mario
quando passa uma jovenzinha roliça e castanha, pequenina,
dix-neuf ans, olhos verdes.
No lábios sem batom a macular, a pele se
crispava levemente sobre o rosa escuro. Os cabelos caiam
limpos pelo rosto. Um blusão surrado se abria o suficiente
para a visão de um dos seios, bico revelado pela
transparência da camiseta – castanha, já disse, como o
blusão e ela mesma. A cintura, era como Deus ali houvesse
se demorado o tempo exato de um critério estético perfeito.
Sua expressão era inteligente; as frases curtas, divertidas;
supergata charmosa. Não posso pretender que Mario ainda
se interesse por nossos espelhos. Chama-se Isabelle.

Quando entrou no quarto de Mario, teve um


estremecimento, não saberia dizer se de susto ou prazer.
Nunca passou pela cabeça dele, nunca mesmo, colocar uma
mulher em seu apartamento, brincar de casinha. E era uma
mulher ou apenas uma menina de dezenove anos? alguém
para partilhar mais que uma ou duas noites em Madri? Talvez
o fato de ser francesa. Talvez simplesmente não ser catalã,
tampouco espanhola. Non so. As fronteiras estão abertas na
Europa dos doze, fronteiras quaisquer. Ele sequer ligava para
política. Ela ficou observando, sentiu desejo, carinho,
segurou o rosto dele – com mãos de tão suaves quase frágeis
como rosas, mais brancas que seu passado contra todas as
aparências virginal – e o beijou.

O abraço da noite causava bem estar digno de menção.


Todas as mágoas se haviam dissipado. Geométricas figuras
com luz própria eram a cidade. Do amarelo que cobria os
globos das lâmpadas se desprende a névoa úmida que nos
envolve. Produz em Isabelle prenúncios de amor. Os prédios
tremem na íris, resumidos nas áreas arredondadas, profecias
de desejo e santificação do desejo. Je suis amoureux. Era
uma menina feliz enfim naquela noite. Um bando de rapazes
passou cantarolando, bêbados. Aqui e ali carros respingavam
brilhos no fim visível da avenida. Um táxi pára para dois
casais que entram e batem a porta. Parte, cantando também.

Dei a posta-restante para contato em Lisboa e Mario


seu endereço em Valcarca, no Passeig de la Bonanova, perto
do Centro Médico. Trocamos também as direções de onde
estávamos em Madri e ficaríamos durante o fim de semana.

Quanto a Mario e Isabelle, pensam numa pousada para


aquele resto de madrugada.

Passos no corredor no fundo do qual brilha o néon,


pisca uma luz no fim do túnel. A porta. Aberta. Beau. Parece
aconchegante, ela diz. Era como se a treva da pura noite
invadisse o ambiente de lâmpadas, envolvendo-os,
envolvendo-os, aonde chegaria a paz daquela obscuridade? A
cidade falava ao redor, num ruído de carro, em vozes de
vizinhos, no ar condicionado, naquela música distante, mas
não nos passos, os passos ressoavam de uma nova
dimanação, até quando os poderiam levar?

A voz de Isabelle. Comove o doce acento de saboroso


gerúndio. Junto ao sorriso, disse um smiling esmerilhado,
cantando o g omitido nos Estados Unidos, e um tocante
talking ao comentar o filme de Kaufman. Ouvindo-a, você
poderia ver Juliete Binoche como Teresa na "Insustentável
Leveza" que evocávamos e se deleitar com a maneira como
dizia seu Tomás melodioso, assim, abrindo o a e derramando
o Sena dentro dele.

Paris, dezembro de 2008. Nunca ninguém fez isso para


ela, fazer o jantar, servir. E ali estavam. Descanse, vou pegar
também alguma coisa para a gente beber. Foi assim. Diante
dos olhos de Beatrice, ele se transfigurou, deixou de ser
aquele maior abandonado, aquele homem que provocava o
instinto maternal sem porém deixar de mostrar o quanto era
patético. Noite fria. Ele trouxe a garrafa, pôs sobre a mesa,
encheu os copos. Vai chover logo. A proximidade dos sessenta
anos é uma época diáfana em que não há mais tempo de
homiziar. O que sentia, ao permear assim os pensamentos
dela, nos momentos que precederam o leito, o que realmente
sentia, de acordo com os prismas pelos quais a via e as
perspectivas logo naturais que assim tarde engraçavam as
circunstâncias, era uma paz próxima do cansaço e não por
isso menos merecedora desse nome de paz, e quem sabe
agora ele se permita, até pelo mesmo cansaço, que também
se faz diligência quando é preciso trabalhar, quando se
percebe que alguém depende de nós. Ninguém disse
deitemos, e todavia deitaram. Não havia mais anfitriã nem
hóspede, um necessitado e uma mulher independente. Não
havia palavras. Ele seria naturalmente capaz, podia tocar o
negócio, e ela não poderia mesmo fazê-lo sozinha por mais
muito tempo. Com que então. Isabelle saiu de casa para
buscá-lo, em ultima análise. Beatrice não precisou de remédio
para dormir naquela noite.

Os sons de criança abandonada e o adeus do amigo são


guardados.

Um olhar ao redor. A caderneta. Um bar que se abre,


começam a servir. Buenos dias. O texto aberto em uma mesa
de canto. Café con leche y dos tortas. Terá sido tudo em vão
para os que tinham vinte anos há vinte anos?

Porque não mudamos,


Porque lutamos por mudança e não mudamos,
A utopia envelheceu sob o peso de nossa idade.

O circulador de ar no teto hipnotiza. Quando um


membro da chamada classe operária inveja as posses do
bem-nascido sem imitar as suas virtudes, qual deles faz
parte do Sistema? No decurso da infância, uma babá
adorada, uma cozinheira no papel de segunda avó. Poderia
ter chegado a algum lugar sem tanta dor inútil e idolatrias
várias. A única revolução é aquela que não devora o
revolucionário; antes de mudar o mundo, muda os
mudadores.

Talvez tenha por segundos adormecido e pairado junto


a sombras fantasmais da velhice, onde seria respeitado – não
famoso, reconhecido – e querido pelas pessoas ao redor,
fazendo o bem. Um sonho com Rachel. No sonho, ela também
é uma senhora venerável. Fala-se de arte e engajamento. Há
concordância. A arte comprometida destrói a arte e a
transformação social, e, além disso – nesse ponto, não há
mais memória do sonho.

As conversas no bar entrecruzadas atravessam o


cérebro em fragmentos latejantes. Outras lembranças. O
corpo profere fraqueza. Os bolos não satisfazem a fome
animal. Na mesa em frente, um velho de barbas brancas,
materialização de futuro talvez, perde-se no passado diante
de um copo de vinho pela metade, de há muito intocado. Ali
não havia estruturas exteriores passíveis de redenção.

Que foi feito daquela coisa epidérmica,

onírica? Das profecias nas paredes?

Onde está a sociedade revolucionada que se pensou?


Em Paris jamais foi vista; em Nanterre, não estava lá. Droga
de caneta.

O artigo em forma de poema, está a ponto de ser


rasgado como o primeiro, em prosa, escrito no quarto do
hotel. Perfeccionismo: um mundo, no final das contas. O das
soluções literárias para problemas comuns.

Entra uma jovem, olhos grandes e zombeteiros, em


nada semelhante a uma mulata da roça de Minas. Blandine
aparece com ela. Um livro poderia ser escrito sobre os
segundos que sucederam a entrada da moça no bar.
Apaziguar a solidão, dirigir-se a ela, não era idéia que
ocorria. Jag vill gärna– Percebeu que era observada. Fala
com o balconista. Sustentou um olhar entre a arrogância e a
sedução. Assim, foi só um instante de Blandine. O flerte e
suas conseqüências estavam preparados para a vida real, o
que normalmente não era prioridade. Mientras- Todavia, o
que pode se esperar desses ficares urbanos, jogos que pouco
mudaram desde Valmont? Blandine era o campo; e aquela
sina citadina, sem escapes. Caminho de asfalto e calçada, e
prédios tristes duplicados ao longo do meio-fio, de drogados
e de putas, da pesquisa estética, do querer reticente.
Uma alma sangrando de saudade devora a estranha. A
vida é simples, o afeto e a saciedade impedem desvios. É
simples quando os homens são homens. Paris 68, brincadeira
de crianças mimadas. A língua queima com o gosto do café
enquanto o Armagedon se espalha pela terra. De novo essa
visão! Fogo... Onde é isso? Da única batalha necessária, não
se ouvem explosões nem suspiros: dentro de nós o silêncio,
tácito acordo da sensualidade com a emoção, amparado pelo
desejo de conforto e pavor do sofrimento. Era preciso minar
toda a aparência de verdade para chegar à verdade;
confundir a concupiscência e refazer a canção, como Billie
Holiday fazia. A mesma canção ampliada ao mínimo
essencial.

A jovem, de aparência estrangeira, de costas junto do


balcão. Esquecimento. Sílfide de cabelos luminosos
escorrendo pela camisa azul-claro. Jeans geminando
perfeições. No bar ergo a cabeça, displicente. Talvez ela
esteja olhando. Meu texto diante de mim. Com isso deveria
manter a esperança, eu, que não tinha vinte anos há vinte
anos. Hoje, uma nova década nos recebe virando o rosto
para quem insiste em sonhar.

Porque os que buscavam o novo ficaram velhos


Porque é velho o novo que, soberbo, chegou.

O fundo de café com leite exala devoções fumacentas.


Você, aí no canto do balcão, que gestos são esses cuja fonte
não está em você mesma? É que ela se vira perfeita, tivera
materiais nobres e instrumentos de música, janelas divinas.
Boa bebida, boas refeições. E um trabalho. E uma casa. Se
viesse o fecho de um caso amoroso efêmero na manhã
nascida, nada de maior profundidade, como um rio raso de
correnteza rápida, por que não estaria perfeitamente feliz no
dia de seu conflito?
Meu campo de visão a captou. Ah, esboça um sorriso.

Claudia liga a tv. Impossível dormir. Não suporta mais,


seu corpo não suporta mais, nem ela própria ser também seu
corpo. As lutadoras entram no rinque. Cada uma em seu
canto, sabem seu papel. São só duas TVs ligadas naquela
estação em toda Pádua. Primeiro round. Agora a de vermelho
vai derrubar a de azul e cair sobre ela. Derruba e cai. Desde
pequena adora luta-livre de mulheres. Amo il wrestle
femminile. Agora a de azul vai se livrar e levará a outra pelos
cabelos até o córner. Baterá com a cabeça dela e a de
vermelho irá cair. É o que acontece. Tudo muito bem treinado.
Há realismo de luta, não violência. Uma coreografia. Há
regras que na vida não, por isso ela adora.

Realmente ele não é feio. Pero sus ojos. Tristes demais.


E passou da idade. Ela hesita um segundo e, quando de novo
a procura, não estava mais lá. Sua ausência deixa o escritor
com a caneta na mão, reforçando a palavra “chão”. Percebe a
poeira sobre a mesa. Escuta os pássaros matinais em ramos à
janela, por trás de suas palavras, como um novo nível de
audição a se destacar no burburinho externo das idéias
escritas, e agora do sentimento daquela súbita ausência que
há tão pouco fora um presença ainda mais súbita. Oleana,
chica! A voz está num mesmo nível do corvo junto à outra
janela, menor, onde a filha do dono do bar chora a partida do
namorado.
O prazo da entrega do artigo. Está se esgotando. Lê e
relê. Lembra coisas que restam. Lembra. O que resta é
desprezível. Formas indefinidas na escuridão
demasiada. Péssimo. Como estou escrevendo mal!... Até isso
perdi. Um artigo banal, indigno de um futuro promissor. Mas é
talvez que aí exista um fato mais que jornalístico, mais que
literário, que disciplina, que vocação, apesar de mim. Trata do
Maio mas é da minha morte que trata na verdade. De minha
morte miserável. Aquela altura que diferença faria se a fome,
o frio, ou eu mesmo a provocasse?

Mario e Isabelle brincam, ela está vendada, différent,


ele de olhos bem abertos abre as mãos em toques largos,
délicieux, após ameaças que só envolveram a cabeça, mais
uma, a penetração é funda. Dilettate.
Bernardo pegara o trem para Portugal. Flores na encosta
à janela. Diante dele o lucro imenso. Volta duas vezes ao
vagão-restaurante. Caralho, é pouco ainda, os números à
frente da cerveja. Ê pá mais um salgado!
Michel sabe Deus onde anda é o que faz.
Quanto ao outro rapaz, caminhava, a estrada no crânio,
caminhava, o tempo passava por ele.
Amanhecia.

Blandine e o lago aparecem no bar. Pelo mesmo


caminho, Kleber e Donda Maria, sua mãe. Não eram muito
chegados a cartas, mesmo assim enviaram um postal e o
bilhetinho carinhoso. Oi Andrei, como tem passado? Por onde
anda que só agora mandou notícias? Eu conquistara o amor
de todos e ela esperava em Deus. Mas da filha não falava. A
porta da casa estaria sempre aberta, mas Blandine não estava
mais lá.
Donda Maria era desquitada de um francês, Blandine e
Kleber os frutos mulatos, grandes garfo e coração, integrados
nos mistérios da roça. Devolvi ao bolso o envelope que
escapara com o bloco. Sempre doente, a mulher nunca era
vista prostrada. Acordava às quatro da manhã, tratava dos
animais, tirava leite, moia café, cuidava enfim da parte
doméstica da fazenda do senhor Jean, que morava em
Ribeirão Preto e deixava a lavoura em Minas administrada
pelo filho.
Eu morava à época também em Ribeirão, escrevia para
um jornal local. Quando Blandine surge com o pai, vejo
televisão na sala. Ele está para se casar de novo, com a dona
da pensão. Planos na cozinha. Taquicardia qual revoada de
pulsações próximas à janela em que debruçada ela, Blandine,
espera pelos sonhos que sem dúvida se materializarão.
A lua no céu. O mar. Estou menstruada. Sou ciclos. Posso
ser livre?
Quando ela se move é de um jeito lento e ansioso. O
perfume suave tudo envolveu. Que nome bonito... O pai era
louco por Lizt. Se Kleber tivesse nascido primeiro teria se
chamado Franz. Sorrimos com a franqueza fácil da
perspectiva do amor.

Jantarão fora, me convidam. Eu andava bebendo demais.


As coisas não andam bem para mim, muito estresse no
trabalho. Estou tenso, infeliz. É a cidade grande, justifico. A
tensão do fechamento diário. Um tempo na roça? Você não
gostaria de vir conosco? No dia seguinte o senhor Jean ia
levar Blandine para Piumhi. Pode trabalhar nos cafezais. Será
uma ótima terapia.

Um dia, iria querer falar com ela. Era tão diferente das
outras! Sente aqui do meu lado no sofá, fale de seus anseios.
Calava porque nunca soube puxar conversa com estranhos. E
todavia. Sim, familiar. Como um sonho que se repete. O
letreiro ainda estala. Quero dizer o cartaz. Por sobre o
casario. É como a TV no canto da sala, como se a janela, o que
se via, fosse uma sala. Leonard Cohen. Posso ouvir. Sua voz
reencontrada. Suspirei.
Ela costumava levar a comida quando eu e Kleber
trabalhávamos no milho antes da panha. Então ele, o irmão,
pegou o trator. Talvez não goste do cara bonito e rico da
cidade (jovem também, eu diria), o tal Claudius. E demorou o
suficiente. O café esfria na caneca. Deitados na relva, ao lado
da casa desabitada, conversávamos ela e eu sob o sol frio e
baixo do começo de junho. Pergunto sobre seu namorado. Diz
que lhe dá segurança. Sente que o traiu comigo? É que no
interior – O interior está mudando. Gostei de você à primeira
vista, Andrei. Talvez estivesse me amando de verdade. Não
reprimiria o desejo, a não ser que eu não a quisesse.
Eu a queria. Não desejá-la seria não estar ali, o lago ao
lado, os patos, a brisa encrespando as águas em sonhadora
sonata. Não desejá-la seria não existir, meu corpo não
formigar na grama, a vegetação não receber a tarde de
névoa. Contornos. A vida é transitória. Não haveria o cheiro
da terra e a calma do céu, não deseja-la seria ela não estar
ali, a inocência em seus olhos sagazes infiltrada nos traços
que a traduzem, refletindo o lago e a relva, as ressonâncias,
os aromas, a aragem e eu mesmo.

Juntos há uma semana. Kleber feliz. Donda Maria


também. Feitos um para o outro. Felizes para sempre na casa
que o Sr. Jean prometera como presente de casamento.
Andrei nada sabe, nada mesmo. Se soubesse, talvez não
pensasse em partir. Mas Blandine não contou, não a princípio.
Se contasse, ficaria para sempre uma dúvida. Afinal não ficou.
Uma e outra coisa. E a nova vida, o casamento, ia
ficando para mais tarde. Planos são construídos de uma
substância indefinida de prazer, eles contêm a imaginação
não maculada pela realidade. Mesmo quando se encontra um
tipo de paraíso, as vezes é como se faltasse algo. Não bastam
um ao outro? Sempre perfectíveis? A consumação se esquiva.
Blandine pensa. É que você se sente dividido porque gosta da
roça mas não a ponto de esquecer as facilidades e prazeres
urbanos. Ou talvez seja ela quem queira viver longe dali,
daquele ambiente enfadonhamente familiar.
Mas quando chegavam a considerar a vida em comum,
eram de fato felizes. 1983. Bonito de ver.

Mais tarde, a mesma impressão continua a ser a dos


nossos amigos no Rio, no verão de 86. Terá de ser pago o
preço da juventude (nem tanto quanto a mim). Dias de desejo
e ciúme. O cheiro da terra ainda fará parte, por muito tempo
terá a ver. O café.
Se alguém pergunta. Por que a separação? Por que
alguém não impediu o rompimento? Não há uma explicação.
Equinócios e solstícios. As mais belas frases musicais enchem
o ar e silenciam. O navio da esquadra resistiria como nau
solitária no imenso mar onde tanto se sofre? Ninguém explica.
Agora, tudo parece perfeito. A luz do amanhecer, reflexos de
ouro. Deita-se a seu lado. Nuances sutis de um prazer
santificado pela estética.
Mas pensar além do rosto, do corpo, da voz, isso
aterroriza. A diferença de idade faz dele um homem maduro
ou quase um velho, um cara cheio de si ou um menino
inseguro. De novo essa voz! entra nos ouvidos com a
importância das coisas subjetivas e todavia vem de uma
estação monótona onde quem se corta só em outra estação
sangrará. A posição do sol em relação à terra.
Não pense além, então. Faço isso e me perco. Adoro uma
santa, enlouqueço uma mulher, mas os defeitos dela me
aborrecem, não pode ser santa, nem mesmo mulher, é só uma
menina mimada, o que houve não foi fruto de uma escolha
mas um passo para a perda da liberdade. Se não me liberto
pelo amor, passo a saber, a partir do amor, o mal de
depender do amor para se libertar.
Deliciava-se com presença dele, e mais ainda com a
ausência, sua presença imaginada, na verdade um novo tipo,
idealizado, de presença. O homem não mais é uma espécie
hostil. Gosta de explorar os ombros dele, sim, de beijar-lhe as
costas, os quadris, as coxas. De beijar sua boca, a barriga, e
chupar. Chegava a entender a si mesma, quando ao lado dele.
Vozes não muito longe se revezam. Apanhadores,
decerto. O sino da igreja dá seis horas, arrasta a memória em
cada badalada. A planta tem fome de vida. Precisará, ao
deixar de ser corpo flutuante, se transformar. Andrei.
Sussurra enquanto entra. A fome em cada memória. Após o
choque de badalo e campânula, o som só sossegará quando o
sino não vibrar mais. O ar e a luz. O estado da alga na busca
aérea de carbono. As recordações se deslocam pela matéria
porosa, sonora.
Ela escuta; ele olha.
Foi um apanhador de café calado, deslocado no canto da
carreta. O que era chamado de “jornalista" com cirúrgico
sarcasmo. Não entra antes do percurso. A assimilação da
água e dos sais minerais só pode ser feita no solo. Ela chega a
temer a umidade. Tanto prazer! Seria lícito? Não por ser
solteira. Seria lícito, tanto prazer, em qualquer circunstancia?
As vozes. Arrefecem. O sistema absorve o liquido. Os seios
abocanhados, um bebê, amassados, lambidos, como um bebê
não faria. A folha e o efeito do ar. Acima e abaixo. A folha:
verde. O espírito da torre da igreja, o som rasgando o ar até
pairar a décima sinfonia na oitava badalada e pouco a pouco
se dissipar na manhã.
A essência de todas as coisas em nós se reflete. Mas
veio o fim da safra. Quis partir sem um porquê aparente. O
interior está mudando mas não o bastante. As luzes da casa
ainda estão acesas, há pequenas cintilações nos telhados.
Questão de pouco tempo. A queda do muro de Berlim, o fim
de um era. A perestroika varrerá o leste europeu e promoverá
fartura para os povos soviéticos independentes, sem
derramamento de sangue. Mandela liberto, de volta à
harmonia familiar, mais que do apartheid trará o fim do
racismo no mundo. Pinochet permite um plebiscito sobre sua
permanência no poder, aceitará o não. A transição política
brasileira se consumará graças à pureza dos partidos de
esquerda e à sublime Constituição de 88, está chegando o
primeiro presidente eleito após décadas. Enfim a justiça
social no País. Um jornalista precisa participar de tão singular
momento histórico, é missão. Os tambores devem rufar, as
pessoas têm de segui-los.
Manhã úmida. Mochila fechada.
Estou partindo.

No dia que eu que ia, segundos antes de ir, (pegarei o


ônibus que leva dos cafezais ao centro de Piumhi), ela
aparece à porta do alojamento. Tarde demais caí em mim.
Como quem não o quer, como que agindo sob o pano de fundo
da segurança que o namorado de BH proporcionava, ela
santificara nosso desejo, revelando uma face definitiva do
amor, a certeza simples de que a vida passa.
O calhambeque da empresa mineira de transportes
buzina ao longe a meus ouvidos fora de mim, buzina para
trazer a morte revestida de resto de vida, de saudade, de
vocação literária. Traz um epílogo, descendo pontual a
sinuosa encosta ladeada de ravinas, buzinando, buzinando.
Por que não sofreu uma avaria? Por que não houve uma greve
de motoristas? Por que o governo não proibiu todo êxodo
rural?

Dedinhos de bebê na sandalinha de pelicato. A luz vinda


da TV. Azul movediço. Em seguida os olhinhos fechados.
Amanhã é domingo. Cascais. A ultima estação. A torre de
Belém silenciosa é submersa na passagem dos vagões. A
treva posterior. Amanhã é que dia? Andrei, meu Deus, o que
você está fazendo aqui? Ele não consegue responder, não
acredita, ela está ali.
Onde?

O olhar molhado de Blandine me acusa cheio de dor e


altivez. Contra a luz seu queixo adquire contorno de seios. A
manhã treme em seus lábios. Em suas olheiras, a noite. Não
poderia ter vindo antes, me deter? Amor eterno pode ser
apenas isso, alguém que supere o amor-próprio e se antecipe
ao erro contra o qual o futuro será implacável. Mas não, não
quis. Preferiu me punir assim, segurando o vestidinho de
popelina contra o peito. Interdita corpo e coração. Enquanto
vivesse, guardaria aquela lembrança. Jamais iria esquecer
aquele fogo. Enquanto eu vivesse, ela estaria ali.

Desea usted alguna cosa más?


Encaro abobalhado a garçonete que veio não para servir
mas para que eu desocupasse a mesa. Conto mentalmente as
pesetas em meu bolso, representam mais uma xícara de café.
Antes que eu vá para o vale lá embaixo. Blandine anota o
pedido com cara de poucos amigos. Escorre enfim a
ressentida lágrima que retém em minha porta, como o mar
numa pequena onda busca a manhã para salgá-la. Saiu agora
da porta do alojamento e se foi, em silêncio de miragem.
E eu parti.
Agi como um perfeito estúpido, abortei a felicidade.
Jamais reaprenderia a viver sem Blandine, que se ressente
agora da verdadeira vida, o amor, inominável esperança que
contém o significado de cada acontecimento, que dá sentido a
nascimentos e mortes, casamentos e guerras. Blandine: meu
entendimento, uma respiração consciente da qual renunciei e
portanto morri. Sim. Por ter se tornado a minha vida, foi de
fato a minha morte.
O objeto do amor é desapego da vida, o apego a um
ideal. Longe do amor, o sofrimento é cruel e desejável se
comparado à ausência do sofrimento anterior ao amor. Ela o
ama. Te amo, disse. Dormira na casa dele, de Andrei, na
Tijuca. Foi à época da demissão em massa de jornalistas sem
diploma universitário. Ele descobre que ela, Blandine, há dois
anos trabalha na escola de idiomas no Rio, onde funciona o
jornal. Orvalho na noite. A mulher que se tornara reconhece
detalhes daquele corpo mas a ele próprio não conhece mais.
Nem o rapaz, tão mais velho, se recorda da menina do interior
de Minas, onde um homem nasceu com a terra quando
começou a garoar.

Desperta primeiro e a contempla. Partirá amanhã para a


Europa, convidada pelos pais gratos de um aluno. Por que
deixaria de ir? Se viveriam para se adorarem, que fosse pela
saudade, pela realização de sonhos materiais, interferindo na
vida afetiva pelos motivos condutores, padrões literários e
esquemas cíclicos teóricos.
Porque a maldição do destino é a benção da vontade.

Os ruídos da manhã envolvem a cidade, motores,


buzinas, vozes que sobre outras vozes se sobrelevam. Não há
todavia naquele quarto antigo qualquer vestígio da
necessidade da arte, posteridade, missão, vocação; nem fome
ou frio; nada de anemia. Há dois bons empregos e a
perspectiva de férias no exterior. A mulher amada, uma vez
perdida, reencontrada.
Mas agora partirá. A vida sem ela. Um mal-estar no
peito. Ele me idealizou demais, pobrezinho. Mas enfim há uma
satisfação secular, respeito dos vizinhos, amor das mulheres.
Partirá. Agora é a vez dela. Estão a ponto de se dissolverem
nos ruídos que envolverão a tarde, carregados da lei do
diploma. Não estarei aqui quando ele adormecer de novo. Os
campos do sul de Minas, nossa, aquele dia de nevoeiro na
região alta da Mantiqueira... fomos felizes... Compreendo que
não queira despedida, sei como é.

Uma lágrima à janela. A pomba na praça, desengonçada


e medíocre. Ao redor dela o macho louco. Adorada.

Quando anoiteceu naquele dia, evoquei uma casa,


refeições, um trabalho de jornalista no exterior, crianças ao
redor da casa. Talvez ao longo da existência baste uma chama
consumada. Estou fora do processo da evolução social.
Marginal, definitivamente. Domínio material e moral, planetas
e satélites. Quisera assim dizer palavra, pensar um tantinho
em mim, romper de vez com o hábito, seguir a pista do desejo
inalterado. Quando fui demitido, já tirara o passaporte, sem
qualquer perspectiva de usá-lo. Pairando entre a mudança
das coisas. Foi numa praça em pleno inverno, ao sol
agradável do inverno, dando razão de ser ao que não tinha.
No banco da praça do bairro Peixoto, lá onde dizem que será
a estação final do metrô, do outro lado do Rio, a realização do
sonho, o enraizamento da vida na esperança, talvez ao longo
de mim pense uma chama.
Deixá-la arder, ou melhor esperar, ou melhor nunca?
Ou riscar o texto, esquecer o projeto, a casinha no
interior, a amada, renunciar a arte, o afeto idealizado, o afeto
natural, recusar a vida.
Foi o que me levou à Europa de Blandine: talvez raptá-la.

Carregadores entram no bar. Às costas, engradados de


bebida revelam a rigidez dos músculos. O homem deve levar
seu jugo em silêncio, talvez assim haja esperança. Gritan, dan
voces. “Moinhos de Vento”, no último volume. Quixote...
Espanha... Europa... Eu sobrevivia, perspectivas sombrias,
dormindo aqui e ali, comendo dia sim dia não, ao relento. Qué
de la noche? Meu manuscrito sem forças, no primeiro
capítulo, segundo parágrafo, sobre a mesa na pensão do
Bairro Alto. Deus dá o dom e não permite usá-lo exceto como
um gigolô? Marrocos. Trago a mochila gasta de África. Nada a
perder. As vezes se torna mais difícil, seleciono clientes.
Eu era jovem ainda, para minha idade. Nasci cedo
demais.
Freqüento a casa dos pais de alguns deles. Cheguei
mesmo a convencer o Sean a se desintoxicar da heroína.
Passei a ser conhecido nos arredores do Campo Pequeno até
os lados do zoológico e, no outro sentido, até a galeria do
cinema de arte. Transfiguram-se agora, na neblina que tudo
envolve, imagens que não retenho nem esqueço. Meus olhos,
a rosa noturna, a cor da rosa, a noite, o gato e seu
movimento. A guinada afetiva e financeira me motiva a fazer
planos para as laudas em meu quarto.
Fantasmagórica representação da vida, limbo de
fertilidade pouco útil.
Tal é o que escrevo e mesmo penso enquanto a centelha
não age, a que se dá o nome de – não lembro, eu digo
integridade. Muitos outros também usam muito o termo, sem
saber o que dizem, exceto uns poucos que se esqueceram de
querer.

Os planos não duram. Julgamento e condenação sumária


por roubo de clientela. Esfaqueado na boca do metro no
Campo Grande, estava morrendo no hospital São José onde
estacionou o misericordioso taxista. Não querem saber de
nacionalidade ou quaisquer outros detalhes. Bondosos e
eficientes. Uma sorte extra: os chaváus levam o chamón que
incriminaria. Em tudo se esconde a catarse que é um passo
para a felicidade e outro maior, para o destino. Mais tarde
recomeçaria o negócio com a mercadoria de Bernardo. Gosto
de teu jeito de trabalhar, brasileiro, dá requinte à coisa. Sua
mulher, Filomena, me chama de príncipe.
Mas é preciso antes ser um sapo para sobreviver nesse
pântano, e eu andava vulnerável demais para tal grandeza.

É difícil resistir durante vinte anos. Difícil resistir.


Procurei com olhos o reservado. Precisava terminar depressa
o texto que me manteria comendo, bebendo e indo a um
banheiro decente. Gostariam na redação? Os leitores
gostariam? Gostassem ou não, havia a reserva de espaço.
Será publicado. Ou não? Sempre existe o recurso do calhau.
Não importa. Que o jornalista erre, se macule, se exponha;
mas o literato se guarde à espera do momento.
Sempre haverá maios enquanto houver mundo e,
enquanto houver mundo, haverá ideais. Uns nascidos da
esperança; outros da pura ociosidade.

Quando saio do banheiro, eu a vejo. Banho tomado,


vestida bem simples, nada da morena esfuziante de há pouco.
Junta-se no balcão aos que tomam o café dos atrasados para
os comportados expedientes após as noites em que toda
escuridão é permitida.
Jag förstår inte. De ontem para hoje, pensa ela, alguma
coisa aconteceu. Bien, mientras espero. Adoro homens com
aparência atormentada. São tão impressionáveis.

Houve a noite. Gritos na noite. Transformou um tempo


de Mulher. Acentuou o cheiro de primavera entre as coxas de
abril, quase maio. Ah! dedos, lengua, y todo ahora!. A
semente lançada se origina em movimentos tectônicos. Madri.
O que houve na noite remonta também às mais européias das
montanhas? Língua queimada de café numa distração além da
conta. Não faz sentido. Uma briguinha não pode alterar um
cotidiano perfeito, por tanto tempo desejado. Ela vivia em
Madri, de pesquisas, com um belo estrangeiro, à larga. Não
tenho que me envolver, lembra. Pero. Bien. Mientras. Nem
seria capaz. E que cara de bobo! Mas sim causou em mim
mesma uma forte impressão, no fundo.

Uma associação.
Blandine anotava antes o pedido, agora se inclina sobre
o balcão. Tão logo ela se apoiou, reluziu. Campos e prados,
elevação bucólica, habitantes harmônicos de montanhas e
pântanos, bandos de pombos escurecendo céus incendiados.
Sob a árvore, o potro relincha. Luzes firmes e redondas na
devotada pedra se refletem. Divisa encrespada. Rompe-se a
região onde constrangimentos impedem o prazer. Sem que
nada pedisse, o atendente a serviu. Ela ali de novo, o futuro
era agora e quem sabe até quando. De perfil. Bien. Olhos
distraídos, de solstício. Sólo diversión. Lagos.
Entretenimiento, no más. Planetas azuis.

Chegará o tempo em que se concretizará o sonho


insensato e a cama será tudo. Os corpos nus são sinceros.
Tudo o que se encontra passa pela perda. Agora ela vai
telefonar. De toalha, falará do futuro com língua precisa; de
tarde, dormirá. Não há surpresa quando na portaria do hotel
comunicar que, bem, fui convidada. Ah. Tudo bem. Já vi esse
filme. Mas me diga.
A realidade se anima no cenário fugaz do agora.

Ela percebe a saia presa sem pressa, lentamente,


faceirice e postura. Mis nuevas bragas. Entre a percepção de
que estava exposta e a supressão da tortura, esteve ele em
vertigem de nylon, renda e poros, em meio ao rumor do bar
em que mais e mais se intrometia a cidade lá fora – motores e
vozes , uma gaita e a onda de despertares simultâneos,
martelos e serras, enquanto numa coxa se alojou de novo o
sol por mais um segundo.
Devolveu-me o seu rosto. Nuvem escura sobre o lado
esquerdo da testa. Chovia ao longo até os ombros, onde o
secador se demorou um pouco mais. A umidade persiste na
cabeleira restante, persevera à luz do bar em pontinhos
prateados. Olhar de beleza estranha e cor indefinida: fosse
uma frase, não soaria como um convite, mas assim entendi
pela via do desejo. Cruzou-se com o meu e teria sido tudo, se
não discernisse um novo prazer na música que tocava a partir
das pernas, quadris, nádegas, e do colo desnudado pela
camiseta justa. Seios que adquirem primazia. Arfam. Narinas
respondem à respiração que pede repouso, evocam conhecida
tempestade cujos preâmbulos são como donativos para uma
causa justa.
Sair do abrigo. Molhar-me descendo a montanha.
Estivemos juntos por uma fração de segundo e o cheiro de
leite morno ainda era como outros cheiros. Ela de pé junto à
janela, a silhueta desenhada pela luz etérea de um dia
inexistente. Aqui. Delicias de seu corpo. Perdoname!,
exclamei ao chutar a perna da mesa derramando o café de
duas xícaras. Não entendo a ira que ouço e não vejo.
O que vejo: Olha pra mim...
Virou-se e se olhou no espelho atrás da estante de
bebidas. Luzes por todos os lados e duas estranhas. Planetas
azuis, rota de mim, a menina dos olhos dela acena, sorri,
convida, sim convida, e a menina dos meus aceita.
Lycka till. Até que ele tem um sorriso bonito, não se
pode negar.
Mas isso é nada. Direi por que: porque as montanhas do
mar estão próximas e o verde das árvores é sombrio à noite
nesse breve estágio que é tudo. Queria me molhar na
tempestade na tempestade e no lago, habitar o hálito da boca
entreaberta.
Apresso o final do texto.
Em junho, há vinte anos, a imaginação acaba.
Canceladas as promessas, Cohn-Bendit se inscreve na História
que não mudou.

Então aconteceu. Hora do almoço. O desejo de um


homem que começava a falhar e não podia, não agora. Ele sou
eu, o brasileiro destruidor de pontes. Agora. Se as águas são
cristalinas e há o contorno escuro da pedra submersa, posso
mergulhar e não pensarei mais no caminho. Olhei em volta.
No balcão, no lugar que ela ocupava, eis o gordo
sorridente de voz rouca. Às vezes a mulher precisa tomar a
iniciativa. Sua amiga surge exuberante. Eu tomei, responde,
mas só para ser protegida. Procuro com olhos ansiosos. Nada.
Levantar-me-ei pois e rodearei a cidade. Do bolso, as moedas;
um erro de cálculo. O proprietário faz uma piada racista
relacionando pesetas e cruzados.
Sua filha teria decerto reprovado. Ela ainda chora.
Atiro mais duas moedas no balcão e saio.
Pelas ruas e pelas praças, as marquises e postes não lhe
faziam sombra. Dois homens engravatados. É uma decisão tão
óbvia – Apesar disso, o mais alto não a percebe. O mais baixo
conclui. Os empreendedores precisam de criatividade e
coragem.
Busquei pelas ruas molhadas. Nada. Procurei então um
banco de praça para recostar minha cabeça. Cães sem rastro
deitavam-se em qualquer lugar. Era ainda muito de manhã.
Tons de névoa envolviam a cidade de espectros impenitentes.
O percurso que falta é memória, a paz anônima, a intimidade
retira a onisciência e reduz a sintaxe. Se a poesia é missão,
ou vida, o que apenas tem utilidade será nada mais que
utilitário, não questionará nem duvidará da estranha dádiva:
o estar que se desfaz no ser emudecido. A paz que falta é
solitária. Dei a volta no sentido da pensão embora a soubesse
tão abrigo quanto qualquer daqueles bancos gotejados.
Ainda distante da paz porém longe também da
acalentada navalha, talvez estivesse chegando ao dia temido
e desejado em que, subindo o rio, hei de ficar face a face com
o outro de mim, e darei de cara com enfim o óbvio
surpreendente. Não sei se desfalecei então diante do
desespero ou renascerei no libertário descanso da última
angústia.

O coração dispara. Ela senta a meu lado no metrô. Um


pouco antes de tê-la assim tão perto, nossos olhares se
haviam cruzado por sobre a aglomeração na estação Tirso de
Molina, rua Magdalena. Êxtase de reencontro, fogo que
aquece apenas se constantemente animado. Grande virtude
controlar um impulso e sujeita-lo. Vai ficar nisso. Olhei ainda.
Nada mais que isso. O teórico serve de freio. Mas as coisas
progrediam e contente eu perdia o controle.
E o rapaz, de barba porque não tinha tempo de fazê-la
todos os dias, tentava não perder na multidão a filha da
manhã, caída do céu. Quem a conhece se maravilha. Logo eu.
Onde agora a presença do Deus encarnado num pôr-do-sol, na
alegria da chuva, nos reflexos do lago, Deus, num tratado em
forma humana santificando o desejo e revelando a definitiva
face de suas olheiras?
Segurando seu vestidinho contra o peito, minha rosa
sarcológica.

O artigo aberto em meu colo, sobre um jornal que estava


no assento. Senhores passageiros. Próxima parada depois
que o conceito virar fato. Onde a barulhenta revolução falhou,
triunfa sutil o verme tecnológico; onde os coquetéis molotov
ontem, hoje a bárbara violência e a bárbara manipulação da
violência. Extra, Extra! Debateremos. Debateremos? Pela
ordem. Liberdade demais perde a liberdade e onde não há
liberdade tudo se torna liberdade. Por que no te callas?
O trem rangeu com um soco que inclinou os passageiros.
Seu braço pressionou o meu com resultados delicados. A
taquicardia se prolonga e assim desamparado percebo que lê
o texto sem cerimônia com os olhos que lavavam meu
cansaço.

Com rasgo de extroversão só possível a um tímido,


pergunto. Ela gostava de ler? Ajeita-se ainda calada para
levantar – ¡Qué idiota! – e então diz A poesia é a experiência
limítrofe entre linguagem e conhecimento, a experiência
individual das gerações e a experiência coletiva indivíduos.
Ahn?
No calor de sua voz, o trem parou. A voz do vagão canta
o nome da estação. As portas se abrem. Também vai descer
aqui? Apenas a segui. Que caminho? Janelas ainda iluminadas,
a luz tem um quê de terra, de lar.

Ainda a meu lado, um pouco mais à frente. As paredes


pichadas, o casario cinzento. A cidade nervosa desapareceu.
Ela precisa entregar um trabalho, uma pesquisa, na
biblioteca. Vi uma biblioteca realmente, de madrugada.
Parece. Não faz diferença.
Ruas secundárias ludibriam a onipresença do metrô
madrileno.
Madri exala uma agitação indescritível quando
caminhamos, porém não acredito que ela o sentisse, era como
se todo aquele açodamento fizesse parte de uma vida
irrevogável que ela adotara, ou a adotara, seja como for é
momento especial uma bela mulher de belo corpo passar em
meio à multidão, os homens virando o pescoço em torno dela,
e se não estou enganado um ou outro se aproveitara do vagão
nem assim tão cheio para acossá-la, embora seus olhos não
denotassem qualquer fato inesperado ou desagradável mas
sim parte de sua vida, da vida que subitamente tomei pelo
braço, e isso sim pareceu surpreendê-la, mas foi só por
alguns segundos, por pouco mais de um minuto talvez.
Poderíamos almoçar juntos, que tal? Havíamos descido
na Gran Via. Quanta gente. Puerta de Alcalá. Agora Menéndez
Pelayo, acho. Chegamos. Calle 12 del octubre. A casa dela?
Não respondeu. Disse apenas que precisava mudar de roupa.
E você, descansar um pouco. Sugeri que ela também. Está
feito. Uma fumaça calma envolve a atmosfera arredondada.
Descansarei de tarde. Enquanto falava, girou a chave. Uma
sala agradável, outra presença dela, fora dela. Cheiro de
apartamento, o cheiro dela. Aqui é lugar de renascimento.
Pássaros no galho que quase alcança a janela, sons que
ela emite. Se preciso descansar, estou no lugar certo. Nada
de recuos. Quando saísse, eu teria de novo a vida simples,
essa em que não há expectativa imediata, (alguém há de
esperar que um dia eu conte minha vida?), na qual tudo se
renova. Preciso.
Não tenho desejos, é tudo muito repentino, como o jeito
de inverno na primavera. Fui arrebatado através de uma
pintura antiga, aquele interior revelado a meu presente
absoluto. Ao lado da poltrona, contando histórias obscuras,
uma pilha de jornais, jornais velhos
– Portugal e Espanha integrados na CEE deverão – A
menina está desaparecida desde –
Passos sedutores em torno de mim. Prazer. O meu é
Andrei.
Nascera em Linkoping, apenas nascera; foi criada em
Madrid. Solto o xendi, os cabelos como boas novas se
espalham. Seu pai é representante de uma grande empresa
espanhola em Londres, ela passou lá a maioria de suas férias
escolares, a outra parte na Suécia. Não estou satisfeito, não
posso ser feliz, preciso desse impulso. Oleana continua
contando. Seus pais um dia foram de vez, ela ficou. Tem
decerto alguma coisa de inglesa. Perante ela um homem
estranho, e será isso um eufemismo: um marginal, aberração,
ruptura. Amor e ódio minguam numa mesma coisa dentro
dela, olha sem ver a janela e algo daquela região da cidade, e
um pouco de céu. Eu podia sentir o cheiro de seu xampu, a
pele vibrante, especiarias no hálito.
O ar se renova, Madri é outra. Dedos das mãos e dos pés
(unhas vermelhas nas sandálias azuis), tudo se une a fim de
formar um novo reino. A Suécia sempre me fascinou, a idéia
do bem-estar social. Um suspiro. Lá come-se bem, mora-se
bem, há segurança social, não há miséria. Mas quando a
miséria aparece, num viciado terminal, numa tragédia
familiar, num imigrante, não se sabe lidar com a tragédia,
mesmo as pequenas misérias cotidianas, ou a vaga e imensa
dor universal. É a terra de Bergman, onde se joga xadrez com
a morte, e quem vencerá? Há o tédio. O que há diante do
postal de Kleber, no delírio, nos traços que desenham uma
inesperada constelação?
Ela deixou amigas lá, mas não partilha o motivo delas,
que usam a Espanha apenas para férias, aventura. Fiquei pelo
desejo de contraste. Sinto-me realmente espanhola, penso
como uma espanhola, acredito. Ficou. Culto à aventura sim
mas também à paixão. Circunscreveu o sexo à sua experiência
sexual. Curvas confidenciais, inquietas. Exércitos perfilados.
Ah meu Deus. Cabelos de navalha em largas mechas libertas
respondem aos movimentos. Pelo calor humano, por isso
estava ali. Pela solidariedade, enfatizou. Pelos valores que o
conforto sufoca, na península escandinava ou no Reino Unido.
Sua voz cintila.
Não há homem ao longo do rio Tamisa que sequer
pareça comigo. O sol da meia noite jamais iluminará alguém
como eu.

Em certo momento de nossa vinda de Luanda, quando da


estada em Paris e Roma, Não tem jeito, eu digo, não podemos
mais viver assim. E como os olhos de Nastácia estão
distantes, concluo que não dá mesmo, mas não sei que
atitude tomar. Tenho esses escritos inéditos todos mas
nenhum dinheiro no bolso e portanto estou preso. Uma
brasileira com quem flertei uns dias na ausência de Nastácia
uma vez foi ao quarto e, olhando originais bagunçados pelo
chão, apontando-os disse que ali havia uma fortuna, Continue
escrevendo meu querido, um dia alguém te descobre; e eu
não sabia se zombava e descobrir no caso significava que
alguém iria puxar o lençol de meu corpo no velório. Ora,
Andrei Morgado, que ninguém espera encontrar nas estantes
de bibliotecas ou livrarias, ele acaba de chegar como um rei
incógnito na pensão do Bairro Alto, salve, salve!, onde
datilografará mais algumas páginas para a posteridade, o que
naturalmente em nada muda nada, por devotada que sua
obra seja e influente sua mecenas – eis a vida miserável de
um milionário dos manuscritos e páginas datilografadas,
confeccionadas ali, no ponto além de mim que os olhos
distantes de Nastácia vêem enquanto insisto que não dá etc.
Ok, concorda ela dizendo porém que me ama e eu
pergunto Ainda assim conseguiremos? e Sim, ela diz,
conseguiremos. Bom, então está certo. E continuamos assim
pelos hotéis caros, por seus amantes a cada cidade, ela gasta
tanto em cada uma delas, penso que com o que gasta eu
podia comer uma semana se estivesse sozinho. Aí um dia ela
diz que está indo embora por um tempo e sorri para mim e
por mais que mostre ânimo e coragem e alegria noto que está
cansada dessa vida. Uma vez eu desabafara medos e desejos,
e ela sussurrou Ah se a gente não estivesse num vagão
cheio!, o que me deixou excitado, mas mulher é assim, diz
hoje e amanhã desdiz.
Não sou assim, escreve o que digo e escreve que há uma
fortuna aqui em papéis bagunçados. – Há uma fortuna em
papéis bagunçados – Pode até ser mas em geral não é assim,
dizem por dizer, dizem e esquecem, não valeu, sabe-se lá.
Imagine que o rapaz (vamos ter a delicadeza de chamá-lo
assim) já entrou na faixa dos "enta", não dá mais pra
simplesmente deixar o tempo passando, por isso eu
perguntava a todo mundo se conhecia um editor, um agente
literário, um dono de gráfica, a amante do dono,
peloamordedeus, porque as casas, as ruas, tudo está
passando depressa demais demais demais – o casal à frente
também vai saltar – demais.
O amor é lindo, diz Nastácia, quando se pode dizer “Eu
te amo” em qualquer lugar, bem alto. Demais. Ela me
perguntou ainda, ao se despedir, abrindo a bolsinha, se eu
tinha algum dinheiro. Eu? Foi quando um cretino galante,
Gostosa!, disse ele, mas acabei rindo já que não dava mais
pra ter qualquer reação, pois ela, já com a bolsa aberta, me
contava o caso, acontecido naquela estação. E eu disse que
sim, que tinha dinheiro, e tinha mesmo, a continha, moedas
sobre notas, para a tal semana de refeições. Amanhã, dizem,
é outro dia.
Vou acreditar.

Refletido em seus olhos, eu a vejo. Oleana. Decidiu ficar.


Está sozinha, seus pais foram para a Inglaterra e mantém
residência na Suécia. Chega na praia. A seu redor homens
enlouquecidos. Um biquíni sumário a partir das marcas na sua
roupa. Esbocei um sorriso que ela devolveu como se lesse
meus pensamentos. Não é bom que a gente se prenda a
lugares, eu digo. Ou a pessoas, ela completa. Mas não era
justamente a filosofia de suas amigas, com que você
discorda? Se o que te preocupa é o futuro de nosso
relacionamento, responde, não acredita no poeta brasileiro? o
amor é infinito enquanto dura. Desconversei. Quem ali falara
em amor?
Olhe o apartamento, se parece comigo?
Não, não se parecia, na verdade era o oposto dela.
Pois bem, se quando o montei tivesse comprado coisas
de que realmente gostasse, decorado de meu jeito, me
apegaria, sofreria ao perde-lo. E o que nesta vida estamos
seguros de não perder?
Entendo.
Por isso deixei o apartamento do jeito que o encontrei.
Oleana. Em que momento mesmo me disse esse seu lindo
nome?

Uma estante divide as salas, a de estar se divisa por


entre um e outro livro pendente. A janela, de onde a vejo, dá
apenas para outras janelas. Uma pia embutida no armário da
cozinha – no armário que é toda a cozinha. Quando junto à
torneira, onde me servi, observei o sofá branco, gasto, em
algumas costuras roto, desfiando. Cabelos de Oleana. Que
confiança!, e gratuita, bebe água no copo em uso. Altiva e
bela. Passos.
Se aproxima e se afasta. De pau duro, pobrecito, é até
covardia.
Bela e estranha. Dá até um pouco de medo. Estou
pronto? Não será a vocação literária prova irrefutável de que
não? Mulher perfumada, homem cansado, não mais que o
acaso. A sombra de minha mão se define contra o mármore ao
pousar o copo. Ela o pega de novo e bebe até o final. Ao lado
do sofá, duas poltronas. No centro, sobre a mesinha de
mogno, o telefone e um bloquinho de anotações. Piso a nave
viking contra o sol. Luz quente no tapete. Uau. Olhara o
relógio. Desculpe. Distraíra-se na conversa e nem me
convidara para sentar. Fique à vontade. Não demoraria. Abre
a porta defronte da estante, entra.
O sofá envolvido num cheiro queixoso de eternidade.
Não me permito, letárgico, ator que esquece a fala. O que
dizer quando ela voltasse? Qual o gesto adequado? Como se
tudo não passasse mesmo de uma encenação.

Madri, 1988, segunda quinzena de abril.


Um apartamento próximo da estação do metro. Um
artigo para uma revista alternativa espanhola que sai em
portugues em Lisboa e no Porto (pensam no mercado
brasileiro também). Uma sueca de nome Oleana, criada na
Espanha e com bastante vivência inglesa, no quarto de seu
apartamento em Madri.
No sofá, fecho os olhos, mas não é ela quem chega e sim
um homem, um senhor de aparência honrada. Você se
aventurou, ele diz. Então por que não tem a mesma
determinação e refaz a vida em Lisboa ou consegue o dinheiro
da volta? Mas é isso mesmo, respondo, ouvira dizer que ele
era acessível e influente e que ajudava imigrantes quanto a
trabalho. Só em ocasiões especiais, em casos especiais. Que
não é o seu. No cheiro e sons de Oleana a realidade se anima
pelo cenário fugaz, agora, se me dá licença, tenho uma
reunião. Hoje eu diria Dane-se, vá para sua reunião, vá para o
inferno, mas naquele momento a fome e o cansaço disseram E
quanto ao meio editorial? A publicação de um livro em baixa
tiragem não seria viável? Seria decerto um começo mas para
ser um intermediário entre mim e os editores, antes de gostar
de mim como escritor, precisaria gostar como pessoa.
– E não gosto.
Passaria a gostar em circunstâncias especiais? Olhos
arregalados, seu olhar fala.
Abro os meus olhos. Sacudo a cabeça, expulsando o sono
e o homem. Havia uma mulher do outro lado da parede, e ela
me queria. Ou, se não, era possível. Apesar de tudo, de andar
pelas ruas e dormir nas praças e vez em quando pernoitar em
espeluncas, tinha meu charme, já até me acharam bonito.
Então. Estalidos de pano. Um estado fluido segundo o efeito
da imaginação rígida, rígida aparição, e eu a abraço por entre
os ruídos.

Lisboa, outubro de 1988. Quando Blandine voltava.


Brasil e Europa emaranhados na memória. E a memória na
respiração. Trabalho, projetos. A realidade que o significado
de tudo a toda hora transforma, nada fazemos senão, com
antecedência quase mística, as dispor. Sinto-me confortada
pelo reflexo da tarde no Tejo. Os cafezais de Minas, as ruas de
Ribeirão Preto, as praias do Rio de Janeiro, e todos os lugares
gerados pelo amor – tudo seguirá a música adequada. Uma
presença que a saudade renovou. As águas do Adriático: um
hábito jamais cristalizado nos olhos. Levara o Atlântico e o
estendera ali, no limite da Iugoslávia, à janela da casa.
O mar nos sobreviverá.
É outono em Lisboa e será sempre. Ainda quando chegar
o inverno e depois, quando a expectativa do verão florescer
na primavera. Porque agora, quando deixava Portugal, era
outono, esse outono não se permitiria renovar numa outra
estação, mas traspassaria imune o tempo, com suas frutas e o
aroma delas, e a criança que passa à janela no trem a
ribombar ritmado pela avenida 24 de julho. E a anônima
movimentação das pessoas que no cais ficariam para sempre.

Aperto os olhos. Por entre ruidos de roupa, sapatos,


portas de armário, o pensamento errante voltou ao outro
lado da parede. Terei a mulher do outro lado e sentirei falta
do que não tenho, do amor que passou e não voltará.
Súbito ela sabe, a casa de uma mulher não tem segredos
para sua dona.
Como o trem em que vim, o apito da fábrica que tornarei
a ouvir ao conhecer Garlos. Chamará. Assim o sino da igreja
que enche a hora. Acordam a cidade e ela vive. Assim. A
realidade vivia, e eu. Mesmo tão inverossímil como um sonho
se torna enquanto se desperta, eu. Fazia parte.
Caso quisesse ler alguma coisa para chamar o sono
(levanta a voz acima dos demais sons, arrastando a primeira e
a última sílaba da frase), decerto eu vira a quantidade de
livros. Todos muito bons. Relanceio os olhos à estante e digo
que não será preciso. Ela continua falando. Deixarei as
chaves.
Perplexo, me levanto.
Cheguei à porta aberta. Oleana de frente para o armário.
Prendera na liga as meias de nylon que envolvem suas pernas
até o meio das coxas. Luvas se movimentam entre os cabides.
A luz do basculante do banheiro delineia a manhã e molha o
trecho de pele nua. Minha presença não tem importância. Há
aquela outra, na porta aberta do armário. Olha. Sabe o que se
passa comigo, naturalmente.
Deixará as chaves? Os sul-americanos não tem boa-fama
na península. Si, son una basura. Embaixo dela o assoalho
reluz e multiplica-a mais. Virou-se. Desço pela encosta lisa,
sulcos, rios, pela prateadura a que era submetida. Súbito
fulgor rosa-avermelhado, gérbera no inverno. Estende na
cama a combinação de seda, coloca um par de sandálias altas
junto à cadeira. Em segundos eu media as extensões
trabalhadas anos a fio pelo ciclismo.
A cama, arrumada de ontem; o motivo nos olhos
sonolentos. Três almofadas descansam em cetim sobre a
colcha de tecido mole e peludo, verde desbotado. O bordado
denota divina paciência, responsável também por colinas e
bosques. Ai. Obliqua a penteadeira. O banquinho forrado de
veludo. Na cabeceira, um maço de cigarros, Le temps
retrouvé e um exemplar da Times, o número mais recente.
Será capaz a humanidade de suportar os progressos
tecnológicos que determina à história? No vértice das
paredes, um vaso grande demais como utensílio e por demais
feio como arte. As paredes: quadrados em quadrados,
retângulos em retângulos, triângulos em quadrados,
metempsicoses em metempsicoses, eternidades em
eternidades, inscritos no papel creme e atravessando-o ao
infinito.
Vejo-a agora em meio a tudo, Oleana, a existência de
Oleana, diante da qual se reduziam à insignificância os
móveis, os desenhos, a cortina, o tapete, e eu mesmo, sudaca
hijo de puta. Ela diz que não é daquela península. Não ligo a
mínima para a fama das pessoas, enfatiza, verdes de mierda,
enquanto seus olhos se distraem com o espelho. Só por falar,
para que ao responder ela prolongasse minha contemplação,
perguntei se não era temerário.
Mas sei que sou confiável, infelizmente está na minha
cara.
Quiçá, ela responde, talvez seja, a vida é temerária. Mas
não lidava com povos, lidava com pessoas, não com a fama
delas. Às vezes sul-americanos. Cabrones cerdos. Traduzi o
ricto. Quase um sorriso, um quase sorriso de malícia. Se fosse
perigoso deixar as chaves, seria perigoso ter trazido você.
Todos os segundos em que ela desviava os olhos, eu
dirigia os meus. Quadris redondos, lúdica exposição. Torso
suave. Membros libertos. Faz sentido, digo. Também ela
dirige o olhar. Oh U got a hell of a body de su reputiisima
madre. O inevitável depende agora de mim, o reencontro na
hora do almoço. Tudo bem. Sim, para de tarde. Quem sabe
para um outro dia.

De novo. De frente para o armário. Um vestido cetim-


prata, atrás uma fenda atrevida. Para de dia? A gaveta range
ao ser aberta. Agora, enquanto deixa transparecer num
relance alguma ternura – Oleana, deja en paz a lo chico –, que
eu ainda não percebera (porque não procurara, imagino), traz
à tona a lingerie – Bien, o no –, abre um pequeno sorriso.
Deixa cair sobre o vestido. Tremeluzires de oceano num
dia de sol, um oceano subitamente escurecido por um
cremoso bloco de nuvens. Surgirá a noite transparente.
Quando ela se curva para as sandálias, pedestal negro,
cresço com a manhã espanhola, o sul do tamanho da manhã,
sol no sentido do dia pleno. Retine uma medalhinha num
cordão de ouro. Prados longínquos e trotes distantes. Um
detalhe em seu braço, uma sombra de volume. Força.
Também juventude. Meu prazer era mais intenso assim. Só
me converti de todo a meu desejo quando as duas alças da
lingerie se compuseram, ocultando-a. Não dera ainda o
suficiente de mim para o usufruto de sua nudez. Merecer
excitava tanto quanto a perspectiva de ter. Algo meio doentio
e patético, naturalmente.
Todo preço precisa ser pago. Assim eu, ou alguma coisa
dentro de mim, pensava.
Intuí enigmas em sua ausência iminente. O oceano agora
desce, junto à luz de seu dia. Dissipação de um grito, um
grito noturno. Senta-se e prende a meia na liga, coloca uma
das sandálias para que eu entenda e brote. Levanta-se, mais
alta. Equilíbrio sutil de um colibri. Apanha a outra, delineada
pela lâmpada. Segura-a por trás apoiando o bico na beira da
cama. Abriga ali os dedos, forçando os músculos da
panturrilha. O pé amolda-se ao calçado. O vestido sobe,
acompanha a coxa lenta, um rochedo. Um pouco acima e ao
lado do ponto de tangência, um ossinho saliente na marca da
calcinha, alinhado com o culote. De repente, cédula de moeda
nova que tem o mesmo valor apesar do diferente layout,
outro prazer me sobe pelos nervos com a convicção de que a
profecia será cumprida. Como se minha reação tímida tivesse
valorizado, renovado o gosto das oferendas.
Apoiou o antebraço direito no alto horizontal da coxa, a
mão no joelho, cuja arquitetura animava arrepios e pêlos mal
raspados no jogo de luz e sombra: escurecem-se as
divindades do céu cristalino e refulgem a terra e os círculos.
O indicador e o polegar forçam o elástico em pressão discreta
como o tecido que o envolvia. A peça, esticada, detém-se
ligeira, acomoda-se. O cetim a cobriu, e me foi dada. Estava
pronta. O mundo a teria assim. E, quando voltasse para o
almoço, eu a teria, conforme os enigmas fossem decifrados,
conforme os preços fossem pagos, eu a teria.
Entretanto, permanecia uma advertência, vaga como
uma coisa viva, na obscuridade do quarto. Num futuro bem
próximo será necessário sair da pintura. A decoração da casa
de Oleana será a decoração da casa de Oleana. Não haverá
eternidades nas paredes. Ela será o que é e eu serei eu
mesmo – retornará a manhã conhecida. O livro que agora
tenho nas mãos será o mesmo velho livro, contando as
mesmas velhas histórias. De resto, quando a vi novamente
vestida, última aparição de uma Oleana a quem poderia ainda
imaginar recatada (e o estar tão à vontade valeria como
coisas de criança liberal), eu quis forças de memória para
guardá-la assim, como são guardados os autógrafos de
artistas no ostracismo – assinaturas que, independente deles,
serão sempre especiais para quem as conseguiu.

Numa noite fria de maio, o homem passou várias vezes


diante da porta da casa sem coragem para entrar.
Solidarizando-se com a mulher, os vizinhos estão lá dentro,
substituem-na nos afazeres domésticos. Um médico havia
sido chamado. Ela recuperava-se de complicações do parto. A
menina, saudável, dormia a seu lado. O Sr. Jean por fim havia
entrado. Sussurrou o nome da mulher. O medico deixou-os a
sós.
Donda, Donda...
Com a voz de leite, ela disse o nome dele. Sabia que iria
voltar. Você está com uma aparência ótima, querida. Ele
falava a sério, depois de tudo por que passaram, estava
mesmo muito bem. Ah, então ele já sabe o que eu passei.
Donda Maria sorriu ao pensar na gente da vila. E ele, como
estava? Agora bem, disse o sr. Jean, apertando a mão dela.
Posso ficar? A casa é sua, você mesmo a construiu.
Não para si mesmo.
Fique.
Ela era tão bonita. Claro que não sou. E a menina
também, tão linda... Nossa filha... Assim, depois de ficar
longe durante toda a gravidez da esposa, o pai voltava para
casa. Dele a filha herdara o gosto pela aventura, pela
incerteza, pela ausência de hábito, o horror da rotina. Se o
homem, com a idade, conseguira controlar esses impulsos,
Blandine porém não tivera tempo ainda. Quando partia para o
Rio, sua mãe, chorando, pede que ela não vá. Por favor.
Perdão, minha mãe, tenho de ir. A vida sem um lar é
muito difícil, filha. Num lar a gente tem coisas demais. Coisas
boas, disse a mãe. Talvez, mas coisas demais, agarram-se à
gente, e a gente se apega e não quer perder nada, e quem
tem coisas está sempre perdendo coisas.
Perante Octavio chamando-a de puta e a expulsando,
agora ela, mãe também, nada mais terá a perder.

Oleana raramente faz refeições em casa. Mas está ali a


geladeira, deve ter alguma coisa caso sinta fome durante a
ausência dela. Abriu uma portinhola na cozinha singular. A
chave do gás. Sorri. Tudo bem. Então estava indo.
Não sei na verdade o que ela quer de mim, o que tenho a
oferecer? Então renasceu ali aquela estranha solidão e aquela
bizarra timidez originadas não na personalidade mas na
condição financeira – o que posso dizer acerca disso? É querer
agir e se reprimir porque e depois?, querer amar e nada ter a
oferecer, mas pensando bem é assim que nascem grandes
amores do mundo.
Fechou a porta atrás de si.
Ouvi seus passos lá fora, o pulsar do coração daquele
apartamento. Fui até a estante.
O primeiro livro em que bati os olhos foi uma velha
bíblia, azul, antiqua version Casiodoro de Reina, traduzida na
Espanha e publicada na Geórgia, Estados Unidos, marcada
num trecho dos salmos.

Vivo entre o Rio e São Bernardo. Passo os finais de


semana redigindo matérias para um hebdomadário
fluminense. De segunda a sexta trabalho num outro jornal do
interior de Riberão. Nesses dias, ela chega de Minas, mais
amorosa e querida do que nunca. Estou realizado, tenho uma
situação financeira estável e uma vida afetiva feliz. Amo
Blandine, ainda a amo. Sou grato por ter ela encontrado o
homem em mim. (Sou mulher, me sinto mulher, devo isso a
ele, quem sabe a gente se encontra lá no Rio). No ponto
exterior preciso, bem no meio, um pouquinho acima, e
também a cabeça em meu peito, o indicador acariciando
minha nuca, inquieto segue, gosta de redesenhar meus
lábios.
Amo meu trabalho, ser a voz impressa que informa a
cidade, e por que não fazer isso de modo poético, apesar os
manuais de redação? Correspondendo-me, nas coisas que
digo, com certa beleza, com certa inutilidade, plástica delícia
de almas que se reconhecem – ela ouve e não diz nada, diz
depois, eu não deveria me preocupar com isso, se vão
reconhecer, o avanço tecnológico haveria de dispensar o
mercado, editores, agentes, divulgação, publicidade. Você
escreveria apenas para ser admirado, e pior, depois de
morto? Não a ouço, o que uma menina da roça vai entender
dessas coisas?
Com essa Blandine do Rio, não saberei súbito o que há,
conosco. Não sei lidar com a falta da singeleza da moça dos
cafezais. Perdeu-se o encanto. Ela decide aceitar o convite do
italiano. A perfeição de Piumhi soa como réquiem. A vida
depois disso seguirá, acostumada como essas moças que em
lugar público fazem coques, rabos, tranças, e sei lá que mais
dos cabelos soltos assim que se aquietam num banco de
praça, na cadeira de uma biblioteca, numa sala de espera – a
vida segue, normal, o que sublimo com a poesia – não, com os
versos – e com Deus – quero dizer, com a religião.
Abri o livro, a capa entre três e dois dedos, preciso
mesmo achar uma tesourinha. A vida é quase sempre
perversa e apenas vivemos. Em plenitude de paz, conforme
garantiam aqueles jovens nas imediações de Atocha, quando
a gente se converte. Mas não há salvação. Só muito dízimo,
muito cérebro lavado no batismo, muito pastor milionário – A
gente não pode generalizar, Blandine costuma argumentar,
mas de há muito eu não dou importância ao que ela fala. O
que há é mesmo muita ostentação de paz nas melhores casas
do ramo, discos e livros, shows que num mundo paralelo se
movem na direção do céu por uma estrada arcaica, a
encenação que se acredita.
Esse salmo foi um marco naquela época. Até quando
consultarei com minha alma, tendo tristeza em meu coração
cada dia? Sou membro de uma comunidade cristã em Niterói,
canto, bato palmas, o vestuário das irmãs não me permite ter
alívio; os anéis nos dedos líderes, de unhas bem feitas,
esmaltadas, tripudiam. Não se trata de religião, meu amigo.
Eu sei. Generosidade, é disso que deveria se tratar. Gentileza,
bondade, tolerância.

O perfume de Oleana. Não se apegar às pessoas.


Viver por causa delas.
Depois da experiência com os evangélicos, na verdade
nasci de novo. Saí de um ventre constrangedoramente
paradisíaco, para a luz do mundo real, uma outra consciência.
Talvez pela abstinência dos alteradores dela. Acaricio a
lombada. Apesar de tudo, há o sagrado. Acredito sim que há
alguém próximo à minhas paredes blasfemas, o interlocutor
desejado, escuto sua voz, ele sempre responde, tem sempre
essa delicadeza, com argumentos mais ou menos aceitáveis,
nunca totalmente claros, mas responde, e tento entender.
Pode-se dizer que toda a minha vida tenha sido a busca
de um pouco dessa clareza.
Da busca, a poesia; da inviabilidade de viver de poesia, o
jornalismo.
Nas redações, depois das tensões entre revisão e
digitadores, entre digitadores e past-up, tudo estoura na
olheria, a revisão da página montada, minha ultima função
antes da viagem. É de manhã, e ao sair para o trabalho digo a
Blandine que poderíamos jantar juntos. Responde com um
sorriso. Marcamos. No restaurante, conta sobre o convite do
italiano. Não sei o que sentir, o que dizer. O que deveria? Era
uma oportunidade única, ela sempre quis conhecer a Europa.
Voltará em um mês.
Passa rápido.
Não respondo. Fecho a cara. Ela faz um carinho em meu
rosto. Deixa de ser bobo. Seus dedos estão frios e atenuam
meu súbito horror. Mãos frias, consoladoras; um dia me
amaram. E o amor desde então passa a se resumir nesse
episódio, que repito e repito para mim mesmo. Ela dizendo
Tenho uma coisa para te contar. Eu não tenho nada para dizer
a respeito, me abrigo no silêncio.

Nos finais de semana que se seguem, menos. Passo-os


na casa de Donda Maria. Um mês passa rápido e de fato. E
dois. Três. Aí chegam as cartas. Ela vai se casar com o
italiano, é claro. Na minha, diz que pensou muito depois de
minha atitude de não levá-la ao aeroporto, não querer me
despedir, que isso significava alguma coisa, que não havia
nada mais entre nós, “Não há mais esperança para nós”. É
possível. Estou sentado perto da janela, Kleber vê o futebol
pela TV. Passo os olhos vezes sem conta pela carta, mesmo
depois de não mais ler, quando penso em como naquele
tempo de unificação da Europa dos doze, ao serem incluídos
Espanha e Portugal, quem quer que num desses países esteja
em toda a Europa estará. Na facilidade de ir de Luanda para
Lisboa, e talvez do Brasil para Angola.

Segunda à noite, no jornal, ainda penso nisso. Olho os


ombros da menina na prancheta à frente mas é em Angola
que penso, em Luanda, em embondeiros à beira-mar, no rio
Cuanza, no valor da moeda na Europa, em encontro de Países
de Língua Portuguesa. Bem, situação política piorou. Dá-se
um jeito. A questão é mesmo a grana. Posso vender os
móveis, fazer acordo no DP, a indenização e o dinheiro dos
direitos trabalhistas. Tem o apartamento. Acho que deve dar.
Quem vai atender? O editor liga de casa, pergunta se a página
três foi fechada. Digo que sim. Ainda bem. As vaidades
ficaram nos textos. Enquanto luto com elas, o pessoal já foi
esquecer as diferenças no bar da esquina. Eu poderia
encontrá-los quando terminasse. Não irei. A colega das costas
e ombros insiste, diz que eu estava precisando espairecer.
Quem sabe eu vá. Não vou. Talvez não tenha vocação
hedonista, talvez seja só timidez. Quando fala, a moça abre
uns lábios muito vermelhos, faz gestos largos que os seios
acompanham. Nunca fui muito bom em fazer um social, digo
para me desculpar. Não que não goste de convívio, pelo
contrário. Enquanto escuta ela meneia a cabeça num sinal de
entender, mas não poderia, pois eu não combino no espírito o
raciocínio com a fala, mas penso que o respeito com que me
tratam na redação é proporcional ao desprezo que nutrem por
mim fora dela. Ela não insiste mais, sai balançando os
quadris, eu a dispo devagar, beijo-a toda e a possuo.
A porta bate e retorno ao trabalho.
Já não será um exílio? A idéia da viagem está mais nítida
cada vez. Nos espaços das fotos nas páginas sobre a
prancheta vejo Luanda, a estranha Luanda. Dissipa-se súbito
e vão aparecendo os colegas, dos bares saem para motéis –
espaços na vitrine da noite, logo manhã em casas comuns,
pessoas normais, estabelecidas, que vão a shopping em
véspera de Natal – mas eu não posso ser normal, não gosto de
bar, detesto shopping, Natal é triste farsa, comércio,
glutonaria, trevas – Você é muito radical – Blandine me
oferecia contrapontos o tempo todo. Com Oleana aprenderei a
entender polifonia (ela estudara música na Inglaterra, em
simultâneo com o idioma, you know, art of polyphonic music
is art of think twice, ou algo assim, think again is think better,
acho que é isso, discerniu o pensar ao mesmo, parte sueco,
parte inglês, parte espanhol, parte caos – Eia desçamos! –
profundos todos, abissais, incoerentes, fluxos, interiores. Mas
eu ainda não entendia assim, não até ali. Blandine ficou
demais do contra. Defeitinho chato. Apago as luzes ao sair da
sala do Past-up. Contraluz supõe duas luzes, quer dizer duas
direções, pensarei um dia em uma outra luz, em alguma coisa
luminosa além da luz, um dia, mas agora apenas penso que
quisera ser luz, dum modo banal, como a própria expressão,
“ser luz”, batida nas igrejas evangélicas, como a facilidade
com que se diz Eu te amo. Sigo a silhueta pelo corredor,
faltam uns minutos para a meia-noite.
Quisera ser luz.
Vazando no bolso a tinta da caneta, material de péssima
qualidade, combina com os textos dos jornalistas diplomados
– como se faculdade pudesse – Quisera não me prostituir por
duas refeições diárias, que logo serão três ou quatro; e,
satisfeito o estômago chegam protestos de mais abaixo,
clamam por uma legítima Blandine – nos cafezais havia um
caminho que subia e levava a um ponto onde o entardecer era
a paisagem em chamas e a noite, fresca, mesmo após dias
bem quentes. Era como ter chegado. Na volta para a fazenda,
ao longo da trilha, as luzes da casa ao longe, nada da velha
ansiedade do dia seguinte – Quisera –; o desejo lícito logo é
concupiscência, promiscuidade e, resolvidos os problemas do
ventre, vem a carência emocional – e a moça, Íris ou Isis,
enfim, tinha as costas cintilantes à luz fluorescente, ombros
cheios, penugem ralinha na nuca, e quando se virou mostrou
uma aparência confiável, poderia vir a ser uma amiga, mas
nada que afastasse os planos de viagem – porque logo o que
está satisfeito busca a insatisfação, o afeto quer a poesia
para se expressar, e a poesia o tratará com desdém,
ambiciona agora o reconhecimento, a vaidade da qual fugira
etc., emoções tragadas, a porta aberta de uma casa importa
menos que vinte anos de papel, do que uma estranha que me
dardeja falsa na imaginação, do que uma mulher do outro
lado da parede, reconhecimento é falo, é poder, afasta o Deus
bucólico.
Uma laude sobe desde a roça mas a cidade sufoca o
cântico, torna-o menos que profano: banal.
Saudade. Essas estrelas atrás dos prédios vizinhos ao
jornal, luzes distantes, mais próximas do bar, dos colegas, do
cheiro de fritura e álcool digerido, real, absurdamente real – e
logo a busca de reconhecimento é a da riqueza, um jardim
iluminado, meia-noite e nove, rico descansarei ou no ócio
estarei apático demais para distinguir qualquer coisa além de
mim mesmo e perceber o outro ser humano nesse mendigo
que dorme ao relento na Ribeirão tão fria, na prostituta que
se oferece, gatinho – imagina... gato velho, isso sim – e no
guarda-noturno – boa-noite, boa-noite, como vai o senhor?
Não vejo senão a mim mesmo em meu caminho sem arte,
sem amor, sem Deus, sem a sabedoria ante a dor – que
aprende entre livros pendentes, que entende as janelas
apesar do cheiro de xampu. Sabedoria. Não se deixa minar,
não se deixa ninar, ah a solidão e o sofrimento, penso ao
entrar na pensão.
A mulher do senhor Jean distraída com que não ouve
meu boa-noite?

A bebida que embriaga e faz vomitar é a mesma que em


dose moderada alegra e abre portas – virtude: um vício
latente. Debruçara-me à janela de Oleana, ao som do sino que
ouvi ao chegar. A cidade adormece à janela. Meia-noite e
quarenta. Ouço no rádio que a obrigatoriedade do diploma, a
especialista comenta, será uma lei que pegará. E quanto aos
não-diplomados? Acredita ela que haverá demissão em
massa. Faremos agora um pequeno intervalo. De São
Bernardo, Viviane Lopez.
São 59 minutos em Ribeirão Preto. Irei para Angola. A
passagem na manhã seguinte. A mulher olha o passaporte,
faz poucas perguntas. Eu teria aliás poucas respostas. Era
destemido! Trabalhar na África em guerra! E de repente,
agora que estou em Angola, é um pesadelo. Nastácia...
Mudam pessoas e lugares, todavia a loucura humana tem a
vocação da permanência. Mas sim, estávamos indo para a
Europa, vindos da África. Levanto meus olhos para o teto,
aperto-os contra a luz da lâmpada, os drogaditos, os ex-
drogaditos, pregam em Atocha quando chego. No fundo os
invejava. Pelos motivos certos ou não, pareciam livres das
coisas da vida.
Ou pareciam livres porque estavam mortos?
Balanço a perna debaixo da mesa enquanto a mulher faz
anotações. Passa a língua nos lábios. Os seios ignoram o
decote, balançam, mal vejo, as imagens se desbotam.

Oleana fica. Mais e mais nítida. Era o único pensamento


que se repetia, os demais subiam, desciam, adiantavam-se,
regrediam, passavam, não voltavam, não, não mais, não
voltarão. Oleana permanece, permaneceu a hora do almoço.
Oleana – não fosse ela, seria outra. O carma do homem.

Fecho a Bíblia. Há uma hora ela saíra. Seu cheiro puro na


sala. Mais forte até. Sem ela por perto, posso trazê-la à
distancia que quiser, levá-la aonde quiser, fazê-la rainha ou
escrava. Súbito, abre-se o precipício que meu desejo absorve.
Futuro e passado, dois presentes fora de alcance. Eu
ambicionava o que não tinha e o que não mais possuiria. Meu
coração se divide e eu não mais sei onde fixar o coração.
Madri se espreguiça no quarto. A hora do almoço. A sesta
depois. A cidade dormiria. Um e outro carro. Os últimos por
um tempo. À janela, espero vida na rua, que leve de mim o
abismo. Mulheres. Longe da transcendência que fazem
acreditar, nada que possa supor o infinito.
E eu, eu esperava o infinito para almoçarmos.

1983. Notas pessoais. Personal data and information.


Esse diário pertence a Blandine Maria. Endereço comercial:
Fazenda Jean Huster. Residência: Rua Modesto Caldeira 13.
Piumhi - 89390-000. Minas Gerais. Brasil. 5 de maio.
Tá um frio danado e detesto frio, mas nem noto direito
porque fiquei muito feliz por meu pai ter vindo. Não me
conformo por ele e mamãe estarem separados. E nem tenho
uma amiga para conversar, desabafar. Mas estou feliz por
outra coisa. Ah quando eu vi ele no milho com o Kleber... Meu
coração quase sai pela boca. Vi de longe, assim que saí com a
marmita das ruas de café. Kleber foi muito legal e fofo por
renunciar ao papel de irmão mais velho. Foi talvez o indício
definitivo de que aquele é o homem de minha vida, o meu
amor. Preciso de dizer mais?

As brasas de uma fogueira não utilizada ardem ao sol.

De quando cheguei à Europa até o momento em que


recoloco a Bíblia na prateleira, quantos meses? A vida passa
naturalmente sem que sua transitoriedade deva se constituir
num pilar filosófico. Há cinco ou seis anos conheci Blandine
em Ribeirão. Semanas depois, o milho estava vingando.
Olha só!...
Não dá para saber que teve a iniciativa do beijo. Ele a
solta, Me perdoe, por favor. Os pés de milho e os de café
ensombram apenas a si mesmos. Ela tenta evitar o olhar.
Tudo bem, diz. Quando os lábios se reencontram, sem
perspectiva ou lembrança, no auge da luz e do calor, era
como se o dia houvesse se imobilizado sem sons no cheiro do
mato recém carpido, e então unem-se os dois mundos, a
camponesa e o jornalista, empertigados, nem tanto, mãos sob
as blusas úmidas, dedos nos cabelos, olhos fechados, pontos
de luz, abertura, os dedos dela se lhe crispam nas têmporas –
O centro de minha história.

Nastácia teve de ir a Nápoles e agora estou aqui sozinho


nessa espelunca empoeirada e escura em Lisboa,
desempregado. Porque sou doente, o ímpeto de correr mundo
pode ser patológico, me digam se não: eu estava feliz,
realizado, trabalhando no campo, ganhando bem, e a meu
lado a mulher que amo – já disse tudo isso – e por que
exatamente a perdi? por que perdi tudo? Blandine na Itália.
Me resta escrever. Chego da sessão reservada de “Julia y
Julia” impregnado de tédio em alta definição. No caderno,
espero Oleana apenas para perdê-la também.
Tudo por causa da doença.
Minha liberdade é não estar livre mas não estar em lugar
algum. Escrever pode ser patológico, manifestação da
covardia. Eu quis, falhei, e agora reclamo e julgo. Quem sabe
a posteridade me resgate, ou em definitivo me condene,
ignorando-me. Coloquei os olhos nas letras douradas da capa
de couro. Estou realmente cansado. A face dura de um Cristo
de lábios ressecados na poeira (um quadro de Oleana) me
questiona na quase tarde. Um silvo parece vir da nuvem.
São talvez onze horas da manhã e ele sente com mais
clareza que nunca a diferença entre estar dentro de uma
casa, de um apartamento, ou no meio de pessoas ao sol numa
manhã assim. Há sem duvida o fator acolhimento, guarida,
que é não pouco reconfortante para quem anda pelas ruas e
passando noites sem ter um teto sobre a cabeça, mas noa dá
para simplesmente ignorar a vida que existe na privação,
alguma coisa semelhante ao frio, e ele justamente sentia esse
prazer de nos dias frios lá em sua adolescência no sul do
Brasil, sair de manga de camisa, gostava de sentir frio, era
sentir-se vivo, assim o apartamento o abrigava mas também
era uma mortalha, se tivesse dinheiro estaria esperando a
mulher num café, num restaurante, bem, talvez não, estava
insone e podia agora entrar no banho para depois dormir,
cansado e descansar, então há mesmo vantagens em ver as
ruas e as casas assim, da janela, enrolado em uma toalha.
Do parapeito, por uma fresta entre dois prédios, vi
caixas empilhadas e pivetes pedindo pão. Alguém escutava
Hendrix. Lá embaixo um homem interrompeu seu caminho
para apanhar o embrulho que umas morena deixara cair.
Inclina-se com a reverência da adoração. Sou eu. Mães
exibem suas crianças saudáveis. Em algum lugar um índio
morre de doença branca; em algum lugar um palhaço chora
por uma bailarina; em algum lugar alguém sozinho e insone
não tem para onde ir. Quando deito sobre a colcha verde, o
vento sussurra o nome de Blandine.

Setembro de 1988. Caro Andrei. Não sei como pedir


desculpas. Deveríamos imaginar que você voltaria. Fico
angustiada de pensar em você de lá para cá, sem saber onde
nos achar. Infelizmente, aquela empregada da família com
quem deixamos a casa para irmos a Roma, ela é meio
esquisita. Deveria ter deixado você entrar, devia ter lhe dado
a chance de se apresentar. Por favor acuse recebimento. Se
houver ainda algum desejo teu de viver em Paris trabalhando
conosco, nos dará imenso prazer. Deus o abençoe. Helena
Peyroux.
Mais ou menos isso. Um frio no coração.

As paredes do quarto me afligem. Ecoam lamentos


eternos. Batem os pensamentos, rebatem. Corpo pesado. O
espelho não mente, não mente a tontura. Quase desabo no
sofá. Quis sair, andar pelas ruas, voltar a Lisboa, ir para longe
dali, bem longe do agora. Mas não adiantaria. Não sairia de
mim, do espírito que se apossara da ausência de minha
legitimidade, como pessoa, como escritor, como o amor de
alguém.

A caderneta no bolso do blazer. Como não achasse a


caneta, ao ver um lápis sobre a estante, fui naquela direção.
A janela. Sobe a alma da cidade e resulta do movimento
angústia e medo. Respirei fundo. Um rumor estranho pelo
pulmão. O lápis cadenciado ofega no papel, como agora.
Concebo um mundo para esquecer o mundo, ou lhe dar
sentido. Risco tudo furiosamente. Num momento, toda a
motivação. A inspiração parece um fenômeno simples. Cada
objeto, cada mínima recordação, tudo ao redor é motivo.
Lápis deitado sobre a caderneta. Me levanto. Ligo a TV. Passa
o momento. Meus esforços são caracteres de uma carta que o
correio devolve porque o destinatário se mudou.

Rolo na cama, inquieto. Ansioso, impaciente, apático.


Ligo o rádio (há um, cinza, na parte baixa da mesinha de
cabeceira). Desligo. Não tenho culpa de ser como sou, assim
nervoso. Atravesso a divisória entre quarto e sala com a
tensão do estrangeiro tímido que pela primeira vez em Paris,
Arrivées, Arrivals, entra após passos hesitantes na rue
Princesse, estreita ecoando, ers, enes, eurs, etres. O rádio
que pensei ter desligado. Há vinte anos, quando eu tinha
vinte anos, abri o armário da despensa. Uma caixa de suco de
laranja. Um gole longo, mudo das evocações parisienses
(atentei ao clique do botão). Seguro o lápis e o aperto em
movimentos rápidos sobre o papel. Palavras desafiam as
paredes.
Tudo refletiu no copo.
Perdera família, bens, amor, mas possuía ainda a paixão
da entrega. Sentia cheiros que mais ninguém (não é suco
natural), ouvia sons que mais ninguém (que importa, que
sede!), eu, definitivamente mais ninguém. Espectros no
apartamento, para sempre, fluxos oníricos,
despedaçamentos. Minha cruz, ninguém a poderá carregar
(corpo pesado, pesado). Quem se alegrará com minha alegria?
O vestido preterido na cadeira. A Europa espreita, espreita a
incerteza. Na TV, nos espelhos do armário. Eu me multiplicava
quando voltei inteiro por outro pouco de tempo ao quarto de
Oleana.
Eu, a vida que ninguém podia.
Fome forte pelo fim total do efeito. O haxixe é parte de
uma madrugada tão longínqua que dá pra duvidar. Me
reaproximo do armário onde julgava ter visto batatas. Aí
estão. Minha sombra na parede vence limites. Acaso uma
máquina de escrever na casa, talvez um processador de
texto? Os eventos históricos me ultrapassam, como essa
sombra. A história e o progresso tecnológico me ignoram. Mas
só por mim poderá ser escrito um livro sobre minha Europa e
um Maio vinte anos depois segundo minha vivência.
Para quê?

O ar quente de Luanda se dilata ao diálogo, às frases


que trocamos, eu e Nastácia. Entro em seu carro, o dedo
mindinho protegido por uma tala. Saíra do lugar.
Não dói mais. Vou tirar isso.
Não. Ela me levaria num médico, é o mínimo para si,
disse-me quando a água começou a ferver.

O sol reveste de dourado as lombadas na estante. Uma


coleção de Shakespeare se destaca na ultima prateleira,
atraso o regresso a Angola. O sol, o sol madrileno. Os prédios
ainda ocultam a névoa, a mulher fecha a janela em frente. A
chama na saída do gás, um vermelho sujo, o calor de Luanda,
a terra angolana. As batatas pulam no chiado borbulhante.
Chiado, Baixa, Cidade Alta, rua Garret, rua da Rosa, pensão,
meu caderno. Enlevo de cebola e alho. Miríades nos olhos,
úmida contemplação. Sol que se insinua. Dois ovos. Antes
preciso de um banho.
Blandine diz que não era para eu saber. Não queria que
decidisse ficar a não ser pelo amor. Você está grávida! É
nosso filho, não poderia ter escondido isso de mim. Ela diz
que ia contar, eu digo Amo você. Ela pergunta sobre meus
planos para depois da safra. Não vai voltar para o jornal?
Pergunto se não iria comigo. Ela responde com uma pergunta.
Você não ficaria? Olha, começou a chover... Gostamos de
chuva. Deveríamos falar com o Sr. Jean agora?
Talvez seja melhor esperar.

A saúde frágil apesar da aparência. Trabalhava duro na


panha. Aborto. O lago, os pássaros, os cheiros – corri para a
panela, espetei a garfo em duas batatas, diminui o fogo. Um
pouco mais de água. Quando estaria pronto? A perspectiva da
volta de Oleana. Era tudo. Era só.

Em Angola não me aceitaram como cooperante. Nada de


promessa, só a interpretação da vontade. A cega
determinação de partir. Na verdade, apenas uma resposta
padrão à disponibilidade na carta que enviei. Os endereços de
conhecidos de conhecidos não me socorrem. Não sei se me
arrependo de ter vindo. Precisava partir, deixar os hábitos
arraigados, o conforto, o conformismo, aquele eu antigo que
não interessava mais. Precisava de Blandine. Não me
arrependo. Estou apenas apavorado.

Uma vez, nos dias que chegara a Lisboa, uma mulher a


meu lado no trem perguntou se eu não havia morado em
Luanda. Tenho quase certeza de que te vi um dia na avenida
Beira-mar. Pelos detalhes, realmente era eu.
Caminho lentamente. Seguro. Tranquil – palavras de
encorajamento sobre a pastelaria. Não. Apenas a baía e
prédios contíguos que nada significam. Louco...
Mas realmente existia uma pastelaria por aqui.
Chamava-se Imperial. Costumava vê-la. Em criança, meus
avôs me levaram a um cruzeiro, no "Eugenio C" e em Lisboa
deixaram a excursão. Casa da bisa. Jardim Estrela. Uns dias
com uns parentes na África. Na volta de Quiçama, entramos
na avenida de Luanda. A pastelaria. Sobre ela, o letreiro de
uma companhia de seguros, meio encoberto do ângulo em
que nos encontrávamos. Palmeiras balançando ao terral,
sopro divino. Na orla do mar, recortada em semicírculo,
acompanhando o desenho da avenida, eu me agito, gemendo,
me curvo, não quebro, ainda não, apesar da solidão
desgraçada e do desamparo.

Luanda, das acácias e dos embondeiros.


Ela atravessa a rua no sentido do automóvel branco –
sábia e indiferente, me ignora. Portuguesa, criada na capital
angolana, conheceu o marido no golfo de Nápoles, ao som de
Caruso. Férias na Itália, onde vive agora, no Cantazaro. Não
era um lugar ideal para morar. Dias mais tarde um sorriso.
Prima di tutto, la famiglia. Antes de casar, certificou-se de
que encontraria o clima do soldato innamorato, Teatro di San
Carlo, não as vielas onde à janela as mulheres vivem
estendendo roupas varanda a varanda sob as bênçãos de
Santa Lucia. Tutto per voi. Arranjou-se além das expectativas.
Uma casa em Nápoles, onde o marido trabalhava. Saiu da
universidade para adornar com sua beleza, elegância e
cultura as relações sociais dele, que a dispensava de outras
relações. E cada vez mais escapava para um fenômeno
anterior, de sua adolescência: Nastácia, a que estava disposta
a se envolver sob o sol com ternos vagabundos.
Viera visitar os pais, portugueses vivendo em Angola
apesar da Independência, graças à influencia de um tio,
conceituado contrabandista de diamantes a quem nem as
forças no poder nem os rebeldes incomodavam. Ainda
moravam em Alvalade, como antes como antes de 25 de abril.
Não fugiram, não se tornaram "retornados", embora
retornassem a Portugal sempre que lhes aprazia fazê-lo. Na
avenida, eu a vi pela primeira vez. Na tarde do dia em que
vencia a legalidade de minha estada. Saía do banco.
Inacreditável guarda de trânsito com capacete de caçador
sobre uma armação circular pintada de vermelho (uma
“pianha”, alguém me dirá mais tarde). Sinalizava para que
ela passasse e, distraído ao contemplá-la por trás, uma
buzina irritada o trás de volta. Ele e o motorista discutem em
língua estranha, apesar das palavras portuguesas.

Hoje em dia é diferente. O quepe se pode dizer


universal. O sol encontrou seu duplo no horizonte, a noite
começa a cair. Ecos. Todos no mesmo lugar, e o tempo só
convém ao coração transpassado que chega ao todo pela
parte. Portugal é um país triste, escreveu minha mãe em um
diário, por meio do qual soube quem ela era. Mas quando veio
me ver disse que sim, que gostava muito, que adorava Lisboa,
como Jacques (não me sinto à vontade para chama-lo de pai).
Só que lá jamais sentiu como eu, nem poderia, o cheiro
da terra vermelha.

Não diria que era bela. Possuía, digamos, uma beleza


nascida um pouco da elegância, outro da serenidade, e um
tanto da sensualidade velada, num código estético
incompreensível para meus próprios padrões.
Preciso partir e não tenho como.
Teria a minha idade. Rica, era evidente. Tailleur caqui,
cintura marcada, molhada de gabardina, bermuda bem
recortada; bainha italiana, discreta. Dos pés ocultos nos
requintados sapatos que o calor dela retém, surgem
tornozelos logo também ocultos antes do meio das coxas
brancas.
Misturar leite com suco não vai me fazer bem.
Que olhar persistente. Deixa-me nua. O que está a
pretender? Todavia. Um olhar triste. Não é angolano. Nem
parece português.
Com licença.
Ela não gosta de Luanda, às vezes nem da Itália. Afinal
chegou o dia. As posses já não bastam. O que bastará? Che
cosa desiderate, cara? Não sabe. Quisera. Não acreditava em
amor, gostaria. O carro fervendo, o corpo fervendo, a vida
gelada. Meias brancas. A paz que transmitiu: a possibilidade
de eu meu safar.
Isso tem um nome.
Lábios finos. Os olhos nunca olham diretamente para o
que vê – lentos, ligeiramente estrábicos, dissimulados. Ilusões
em seu semblante. A aliança exagerada alardeia a obrigação
matrimonial. Nastácia parece respeitosa ao escutá-la. Entrou
no carro e antes de dar a partida me percebeu perscrutando-
a, desolado.
Talvez tivesse sido melhor ter continuado no jornal,
lutado pela carteira provisional, que afinal tinha o mesmo
efeito que o diploma. Talvez a tenha deixado se afastar
demais antes de encará-la. Doravante será a estranha que
passou, mulheres que poderiam ter sido na vida de um
homem e não foram, por timidez, por unilateralidade, por
soberba, por inadequação, por martírio.
Ela me olha com o tipo de olhar dirigido que se declara
inocente ao captar tudo à volta. O sorriso não deixa de
possuir os lábios mas não a libera ao acesso. Um brinco em
forma de folha. Responde a seus mais leves movimentos de
cabeça. Grafite no muro enquanto caminho. MPLA. Me
aproximo. Uma garfada nas batatas. Para onde você vai?
Ia para Alvalade.
A faca corta rodelas de cebola. Poderia me dar uma
carona? Devia estar querendo dizer "boléia", pois não? A
lâmina pica o pimentão. Ainda fala e já começa a colocar para
trás três pastas que cobriam o assento. Entro no carro, bato a
porta e faço meu prato. Ela gira a chave. Mãos delicadas e
decididas. Na segunda tentativa, o motor responde em meu
paladar.

Sabiam que nunca mais. Que tudo o que tinham de


verdadeiro estava – Perdido? Questão de ponto de vista.
Talvez. Então se permitiram. Para ele, perdido em Luanda,
perdido onde fosse. Dependente. Ou aceitava a profissão.
Ficar rodeando autoridades corruptas em busca de uma
declaração mentirosa em primeira mão. Comentar a
declaração mentirosa como se fosse alguma coisa de suma
importância. Fazer espetáculo da dor alheia. Aí descobriu.
Não era o diploma. E mais. No mercado literário seria
igual. Exceto se. Descobriu, não porque estivesse procurando.
Agora é tarde. Irá, seja como for. E ela. Tarde demais. Não
reencontraria a inocência perdida. Não poderia mais
desconhecer que um casamento de conveniências acaba
saindo muito mais caro do que os bens que pode
proporcionar. É só fazer as contas, como se diz, na ponta do
lápis. Então os dois. Não têm mais alternativas de arbítrio. Ou
talvez. Querem uma vida que não existe, e sabem.
Podem enfim ter aquele caso.

Que cores! As vendas na rua, a mistura de cânticos e


frutas. A mulher deixa-se tocar ao sul na estreita faixa alpina
até as ondulações temperadas pelas correntes marítimas.
Para ele, é uma visão atordoante de sonho, são palestras de
deuses acerca dos aromas do jardim.
A aposta pascal é péssimo argumento, mas sentindo-me
tão amado, acaba por funcionar. Vinde e vede. Que repouso!
Luanda.
Uns vinte minutos de barco, talvez menos. Pernoite em
Mussulo. Que tipo de rede é essa? Que casa, uma estância.
Palmeiras flutuam na penumbra lunar. A areia já lembrou
ouro, o mar um espelho. Mas não se esqueça de que é um
país destruído.
Sei como é, o Brasil também, e sem uma guerra civil.
Basta a violência urbana de cada dia, a morte de crianças.
Sem falar nos portugueses assassinados por lá.
Sim e aqui a realidade é essa, pobreza da maioria,
corrupção. E tudo o mais, sabe Deus. Todavia, onde mais
existe um céu assim?
E tudo o mais. Sabe Deus. Disfarço meu deslumbramento
e êxtase, gato que ameaçado finge sentir cheiros no chão.
Cidades não são casas e ruas e tudo mais, mas a consciência
das pessoas. Um país, o que é?
Não é o consolo entre minhas coxas, os seios ainda
empinados, a umidade escura, o augúrio da língua, as
guarnições nos olhos? Sou menos que isso? Pedra, azulação,
um mesmo tom de noite confunde céu e profundezas, a maré
noturna e algas resplendentes. Ela dispensa o carinho. Essa
outra é assim tão digna ao entristecê-lo assim?
Se está mesmo feliz, ela não mereceria um sorriso?
Está tudo bem. Tudo bem. É só a hereditariedade, a
herança da noite no mar, na pedra, nas algas, sei lá. Nada de
fato me diz nada além da noite nas ilhas, da chuva na noite,
do piso do barco ecoando nas pequeninas ondas. Depois a
gente pensa no depois. Deixe o gato comer uma lagosta
dessas, deixe-o disfarçar.
Em Lisboa.
O aeroporto apenas o tempo de marcar um novo vôo. Um
táxi. Campo Grande, por favor. Remamos no lago. À mesa da
esplanada. Uma xícara de café pela metade, uma bica. Eu
disse que assim mal dava para sentir o gosto. No Brasil as
chávenas vêm cheias. É só pedir bica cheia, amor.
O metropolitano para o Campo Pequeno. Ela se aproxima
de um grupo de jovens num banco de jardim, sentados no
espaldar. Pede “três pintores”: são trezentos escudos de
haxixe. Um sorriso, um suave ruído de sorriso. Você fuma?
Raramente. Mas agora está a lhe apetecer viajar comigo.
Três quadrados de uma ganza escura e maleável.
Sentamos num outro banco, mais próximo da praça de touros.
Ela faz o cigarro e fumamos ao som da conversa dos garotos.
Em cada frase inserem um "pá", um "caralho" e um "foda-se".
Adoro o submundo, diz Nastácia.

Aproveitamos os mesmos bilhetes de metrô (estava


dentro do horário de validade mas esse reaproveitamento era
ilegal). Não é ótimo transgredir, my dear? Descemos na
estação dos Restauradores e subimos as escadas para a
avenida da Liberdade. Também aqui Foda-se Caralho. Uma
menina esmurra o peito do homenzinho careca. E aí ó pá?
Fodeste e não vais pagar?
Essa não tem chulo, explicou Nastácia.
Outro táxi na Primeiro de Dezembro, em frente ao
teatro. Bom dia. Para Algés por favor. Ela queria que eu
conhecesse um barzinho onde ela costumava se refugiar para
ler. Comemos pastéis de nata com bicas duplas. Ela lamenta
não haver mais tempo para voltar de electrico. De quê?
Aquilo. Ah, o bonde. Estava louca para andar de bonde.
Pegamos um terceiro táxi até o aeroporto e depois o vôo
para Paris. Adoro Lisboa, disse ela já na poltrona do avião.

A bacia parisiense. Um problema de teto, atraso na


descida. Entre Montfermeil e Meudon, manchas verdes
intervalam aglomerados. Senart, olha. Ulalá, Fleuve la Seine.
Paris! O impacto da pista.
Por que Paris? Apesar de todas as vicissitudes por que
passamos juntos, não cheguei a conhecer Nastácia a ponto de
poder advogar seus motivos, ou dizer qual Nastácia a
verdadeira, não o sejam todas.
Se ele soubesse. Por que porém deveria saber? Tenho de
carregar a minha cruz sozinha. Só por ter aparecido, ele já
está me ajudando.
De concreto sobre ela sei que entrará pela porta de
nosso quarto de pensão muitos meses depois de eu tê-la
encontrado em Luanda e uns poucos depois daquele dia em
que espero Oleana em Madri. Entrará, exalando o furor sexual
que os clientes do pub desencadearam (como se fosse
preciso) durante a noite de bebidas e dança de corpos
colados. Para que eu o aplaque, ai de mim!

No aeroporto, a complicação de se entrar na Europa


unificada. Sou jornalista. A credencial ainda serve, menos
mal. Uma manobra burocrática por meio da qual houve a troca
de nossa pequena estada pela garantia de nossa breve
partida. Não sabia que você era advogada. Havia se formado,
mas nunca exercera, mas isso eles não precisam saber, pois
não? Deixamos as bagagens. Rungis. De mãos dadas, os
lugares interessantes da cidade. Aqui. E aqui. Ah, e ali. O que
valia como pontos de referência. Vai que a gente se perca. Ou
que ela precise me deixar sozinho.
Marca um local de encontro para essa eventualidade.
Abre um mapa que não tem paciência de consultar.
Monsieur, Rue des Francs-Borgeois s'il vous plaît. Na troiseme
a gauche, ela virou para um compromisso que não me dei ao
trabalho de questionar.

Há um momento em que as cidades se abrem ao


estrangeiro mas não todos percebem, ou não cheguem todos
a esse ponto, os ruidos dos carros, as vozes anárquicas, os
pássaros do caos, tudo se faz novo e o sentimento pode se
apropriar da novidade, só a coisas velhas se é estranho.

Esperando a hora do reencontro marcado, tentei relaxar


e aproveitar a oportunidade. Paris! Os prédios dourados,
como se ardessem. Como se ardessem, de onde me vem essa
lembrança? Bistrot também é algo familiar, risadas. O negro e
o marroqui discutem aos gestos na rua estreita. O rapaz de
bicicleta com um pão nu no sovaco, um clássico. Clochards
pedindo dinheiro – pra mim, essa é boa. E aquele outro dá um
show ao longo da avenida, depois falam do Brasil, nem lá
nunca vi algo assim, pobre homem. E esses babacas rindo
desse jeito, filhinhos de papai, filhinhos de uma civilização
superior e imbecilizada. Ouvi dizer que em Portugal mesmo há
brasileiros com problemas de visto e na Espanha são
sumariamente deportados. Mas ainda assim amanhã outros
virão e outros europeus irão para o Brasil para serem
assassinados. Mas sim que ruas iluminadas, lindas, e essa
maison e aquela, formidável, é mesmo uma cidade iluminada.
Hun. Gostosa. Eu diria que é uma prostituta. Bonita e
elegante, de luxo se é. Sou apaixonado por esse tipo de
lustre, ou sei lá o que, como brincos caídos nas orelhas de
uma portuguesa em Luanda. O argelino quer passar haxixe,
me espera à noite no Quartier Latin. Que idioma é esse?
Mundo o quê?
Globalizado.
Ah. Vai piorar.

Me olham com atração e desdém. Segui, portanto, a


sugestão de dar uma volta antes de esperá-la no café da
praça Saint-Michel. Aquelas ruas de charme triste. Embaixo
das pontes é muito romântico. Não os prédios baixos, que
tornam toda a cidade semelhante e logo tediosa, mal
conservados, reformados alguns, feios, fétidos até, dissera a
mulher, conhecida parece. A arrogância das pessoas.
Conhecida sim, a escritora da coluna de teatro publicada pelo
jornal em que eu trabalhara. Não dá atenção a quem esteja ao
redor.
Claro que é ele, o pobre coitado, ou haverá uma chance
de – Respira fundo, não ouve o que a outra diz. Respira fundo
e admite que há coisas magníficas.
O impacto da saída do metrô em Trocadero. Fontes –
tranças descendo às costas da mulher amada, cúpulas
alimentadas pelo mistério de um rosto que sobressai na
multidão; o sonho virginal que alimenta o turista em sua
primeira noite. Paris. Conciergerie pintada no céu por mão de
amante que não ignorou o efeito da luz em parte alguma do
dia, pensou o vagabundo. Journalier. Por ali perambula desde
que enlouqueceu. A avenida da Opera e o pavilhão místico.
Notre Dame. Adjacências. Contra o verde, tochas na noite,
amarelas, alaranjadas, vermelhas e azuis. Aura dos Campos
Elíseos. Emanam vozes de deuses tristes naqueles dias
chuvosos – a turista adorara tudo, estava fascinada, como um
anjo dormia. Saint Germain des Pres, Cafe de Flore; entre
coquetes e aprendizes de coquete, puríssima nota de Isadora.
Tertre. Um artista se nutre do recorte dos prédios e árvores
no horizonte.
Chega um desconhecido, quer fazer amizade.

Nastácia passou pela praça Vosges. Gritinhos na praça


sobem além das sentenças na Bastilha. Um trem.
Prolongement jusqu'à la défense. Outra praça. O sol baixo.
Um pai calvo atravessa com sua garotinha. A trepadeira
murmura. Um andar ligeiramente manco. Uma rua mais
exposta à luz que molha a metade superior das paredes
externas. Musica, uma voz se destaca dos telhados. A luz do
sol no Sena tinge de ouro o teto do barco de turistas.
Uma esquina num V sem ponta. Pombos, bicicletas.
Cercas de ferro ao longo de uma rua que dará nessa igreja.
Toldos vermelhos. Uma livraria. Música num acordeom. Um
cão, um cão branco. Folhas pelo chão, folhas em pedaços. Em
Portugal se dirá “partidas”. Paletós dobrados em braços, um
rapaz correndo. Mais uma ponte, cintilações da água do rio,
limo nos pilares, garça, pichações sem fim. E o arco.
Latas de cerveja e grafites bêbados. Famille o quê? A luz
obliqua entre os túmulos. Nem nos shows dele haverá
azáfama assim. This is the end. Um busto de Jim, Je taime
toujours. Ali ele. Entre Yves Montand e Joachin Murat. Pedra e
vento.

Foi aí, nessas ruas e praças, andando por aí, que pensei
pela primeira vez em lar, em como seria minha vida com
Blandine, nosso casamento, nossas alianças de compromisso,
nossos encontros num quarto como parte de nosso encontro
na vida, o amanhecer conversando, o longo dia após o
amanhecer, tanto trabalho e prazer multiplicado pelo afeto
impossível, e a casa – mais non la gourmandise n’est pas un
– enfin surtout passionnés – O que eu estava mesmo
pensando?
Cansado. Você não?
Será possível se cansar em Paris?
É possível, pensei. Estou bem.
Ela estava mais que bem. Estava a se apaixonar.
Não seriam talvez mais românticas, e apaixonantes,
vielas em meio a gente alegre junto a uma baía?
Nápoles? Por quê?
Respondi que gostava da Itália.
Pois iremos a Roma!
Ótimo, sorri. Nápoles... É, na verdade esqueci o Franco.
Claro. Mas tudo bem. Tenho também, disse-me, outros
francos.
Eu já tinha percebido. E ela não era nada econômica.
Mas se não o ama, por que se casou?
Por não ser nada econômica, meu bem.

Pernoitamos num hotel em, salvo erro, Villa Eugenie.


Entro pelo cheiro de corredor, misto característico de
roupa passada, tapetes cediços e paredes impessoalmente
pur Napoléon III, necessito sentir por Nastácia, ali sentado,
caído na poltrona vermelha, o vento mexendo a cortina
branca, o amor que não sentia, quando à esquerda, chegando
ao quarto, nos vimos no espelho em frente, que nos devolvia
e multiplicava ao infinito que se abria na noite à janela. Eu
estava me tornando um hóspede profissional. Mas não foi por
ali que esteve Hemmingway, que teve os lares que quis
(inclusive em Paris) e ofereceu seu corpo no fim? Life is not
hard to manage when you ha ve nothing to lose. O forte e o
frágil têm afinal muitos pontos em comum.
Pensando assim, e ali Moyen Age, e aqui eu, escapo pela
Gauche ao amanhecer. Saint André des Arts, vibrações de
Kerouac. Como no capítulo daquele seu livro, eis uma igreja,
miraculosamente surgida!
E assim, num apartamento em Madri, lembrando de
Paris, estou em Saint Germain des Près ao alcance dos ares
eternos do Sena, sob Deus que é tudo e se derrama desde a
vastidão da ilha Saint Louis e além.

Nada perguntei a Nastácia sobre seu encontro. Ela se


satisfaz com a explicação para meu sumiço de manhã.
Dois dias depois, esperávamos o vôo para Roma. Não
decerto para atender meu desejo de Itália. Nada questionei.
Na sala escura, no mergulho do papel, a foto se define.

Exuberante luz de uma terça-feira. Sol suave, agradável


sensação. Nas vitrines da rua Condotti refletidos. Meu Deus,
as coisas aqui são mais caras que nos Estados Unidos! Em
Roma, há duas horas. Deixamos a bagagem no hotel e saímos.
Agora ali estávamos, na travessa, sentados na muretinha. Até
o café-expresso na rua Fratinna, não foi um longo percurso.
Pensei que Paris fosse a cidade de seus sonhos, eu
disse.
Paris é para meu lado fresco, respondeu ela; Roma é
calorosa, para meu lado emocional. Os italianos, completou,
são todos gente boa. E riu.
Exceto o Franco.
Ah, como adoro Roma, amor! Chi la conosce la ama
moltissimo! A bem da verdade, me sinto melhor aqui. Os
italianos são como vocês, calorosos...
Não generalize. Não sou caloroso, se depender disso,
não sou brasileiro. E o Franco é italiano... Acaso é de Trieste?
Trieste?
Você não gosta de lá, acha uma cidade fria.
Ah. Bem, Franco não é italiano de verdade, é um
acidente geográfico; e Trieste é uma cidade que apenas fica
na Itália; uma bela cidade, mas sem identidade própria, como
toda cidade fronteiriça; não é assim no Brasil?
Dito assim, não me recordo.
Ao contrário do espírito italiano, em Trieste as pessoas
são distantes, como as próprias casas, umas das outras.

Caminhos de vinhedos, sanduíches ao longo do Tibre,


Nastácia, renova a imagem de menina mimada pelo calçadão
da calçadão da piazza San Lorenzo. Um hospital. Jubila noutro
rompante. Magnífico per una dona. O quê? Foi uma mulher
que?
A liberdade. Repetiu. Liberdade. A liberdade é bela,
magnífica.
O elixir do fascínio romano nasce no hálito de suas
inumeráveis fontes.
Eu escreveria um poema a respeito.
Escreverás muito mais que um poema e sobre muito
mais que fontes romanas.

Então Nastácia encontra uma senhora simpática, velha


amiga que morava em Foggia. Che passato un anno!
Abraçaram-se efusivas.
Um café em Trastevere. Romanos são uma coisa, diz ela,
trasteverinis uma outra. Aqui, estamos no coração de Roma.
Esquina da Emilio Morosini. O dia útil termina mas não seus
misteriosos encontros. Deixa-nos um instante para fotocopiar
uns documentos numa copisteria próxima. A senhora
Bonfante fala o tempo todo. Nosso péssimo inglês. Exercício
delirante em meio a cães, gatos e motos. Garante que sou
inteligente e vou aprender rápido o italiano, caso fique em
Roma, easily, believe me. Quando Nastácia volta, a mulher lhe
dirige a eloqüência, gesticulando alegremente. Depois se
afasta conversando com um homem que lhe que parece falar
que por décadas morando ali nunca viu uma época em que a
região estivesse tão descaracterizada.
Ela disse que você tem uma conversa agradabilíssima.
Mas eu quase não falei. Que melhor interlocutor aquele que
sabe ouvir?

Estávamos em uma esplanada num canto da praça de


Navona. Nastácia é logo reconhecida pelo pessoal da mesa ao
lado.. Foi até eles. Olhando-os, sorri com o lábio superior.
Assim amarelo, com débeis covinhas, distraidamente.
Gargalhadas. Il problema é impedire il mercato unico del 92
divenire terra di conquista per prodotto assemblati in Europa.
Apanhei um papel com entrevistas que fizera antes de viajar,
com dois casais um pouco mais velhos do que eu, no
aeroporto e no avião. Jovens, haviam participado do Maio.
Comecei a rabiscar um fio condutor para o artigo. Em Lisboa,
num café, eu conhecera um editor que me fizera a encomenda
do texto sobre a revolta estudantil. Disse-lhe. Eu não sou a
pessoa adequada. Ele me convenceu. Explicou que a matéria
principal seria escrita por ele mesmo, que participara
ativamente desde Nanterre. Mas eu não, não terá
credibilidade. Terá, claro, respondeu. O que preciso é de uma
retranca, que mostre um outro ponto de vista. E o de um
alienado da contracultura seria ótimo.
Que argumento.
Mostre que as coisas não saíram como se profetizava, dê
a visão de alguém de fora. Que eu indicasse, sobretudo, onde
o Maio não podia ir além de qualquer revolução ou tentativa
de revolução, onde os vícios do que se contesta estão vivos,
em seu próprio seio. E isso, pela nossa conversa, sei que você
pode fazer.
Bem, ainda faltavam alguns meses. Com Nastácia, eu
acreditava que iria conhecer um editor e me livrar do
jornalismo. Até lá, por que não? Era um dinheirinho muito
simpático.
Esperei que ela falasse alguma coisa para me situar e,
quando o rapaz o disse querer uma coisa leve mas
caprichada, ela disse olha aí, meu, que diabos você tá
pensando? você tá muito enganado, e ele espantado disse
Mas são tantos dólares, não está bom? – Quanto em liras? –
Em liras? Não pode ser em escudos? Quanto? Deixa eu ver...
(disse uma quantia) Suponho que sim, respondeu ele. E
acrescentou: Tanto? Então ela abriu um sorriso radiante que
guardava para momentos especiais e parecia o sol nascendo
entre seus dentes. Olha só, disse ela, não se deixe
impressionar, são apenas muitos zeros, na verdade esse tanto
de liras é muito pouco para um trabalho assim. Nastácia, eu
disse baixinho, mas ela me ignorou e continuou fazendo
contas mentais. Claro que é muito pouco, fumamos a metade,
estás a ver? Ele repete: Ah sei, questão de muitos zeros.
Nastácia, intervim, deixe que a gente se acerta.
Ok ok, forget.
A revista era uma dessas publicações que aparecem de
vez em quando, que nascem com os dias contados, só para
satisfazer ainda que fatuamente, a vaidade de seus donos,
um empresário da comunicação, essas coisas sabe-se lá. De
qualquer maneira, era uma chance, conclui, de me integrar
entre os jornalistas europeus, conforme aliás meu plano
original.
Até aquele momento em Navona, eu hesitara. Quando
Nastácia nos deixou e foi matraquear com os amigos, me
lembrei da conversa com o espanhol no café de Lisboa e
decidi. Preparei-me para escrever o esboço. Na pior das
hipóteses seriam umas tantas porções de haxixe como
aquela.
Perguntei a Nastácia se ela não queria fumar o resto.
Era-lhe um ótimo afrodisíaco, concordou.
Enquanto ela dormia naquela noite, eu escrevia numa
saleta ao lado. Naquele dia descobri como as idéias fluem
melhor viajando; em Madri, com os rapazes, com Mario
apenas na verdade, descobri como é melhor estar careta para
escrever o texto final, e mais tarde como era melhor
simplesmente ser abstêmio de qualquer coisa.
Mal Nastácia despertou, voltou à querela dos bondes. No
Brasil existem electricos? A Paris il n y a pas de tramway.
Pensei ter visto um. Aquilo não é electrico, bobo. Não?
Edificante assim o nosso relacionamento.
Vamos alugar um carro! Me apetece dirigir pela via
Veneto!
Ela se comportou assim todo o tempo em Roma.

Arrumando a mesa para o almoço com Oleana. Woody


Allen e Diane Keaton se movimentam em “Io e Anne” na TV
do quarto romano. Nastácia precisa encontrar o marido, mas
voltará para passarmos juntos um tempo e procurarmos um
lugar em Lisboa para eu fixar residência. Bem, talvez um
quarto de pensão. Sugeri esperá-la em Veneza. Tudo bem.
Ela estava mesmo querendo ver um espetáculo no Fenice.

De Veneza a Trieste será um pulo. Nada impedirá que


seja assim, saindo pela Avenida Liberdade, pegando a auto-
estrada, chegando no porto, Scala dei Giganti, Via della
Maiolica, pronto, ali está ele, logo ela vai chegar. Combinam
se encontrar na casa que Blandine comprou para que Donda
Maria seja sua vizinha, no Quartiere Melara. Ou – isso será
bem mais romântico – um encontro numa casa próxima à
catedral de Rovinj, cidade em que chegarão pelo mar, ele a
partir de Veneza mesmo. Não há nada tão sublime como o céu
da Iugoslávia visto do Adriático. Quando punha a fita no
aparelho de som do quarto quando ela chegava pela rua
Grisia, sentiu o coração transbordar. Finalmente. Não se
derramarão mais sem controle, não estarão sujeitos a mais
que suas necessidades. Seriam felizes enfim, como o orvalho
sobre a relva. E depois não dormirão imediatamente mas
lentamente adormecerão.

Se estou irreversivelmente preso ao tempo, o tempo


não faz diferença para mim. Se o espaço é onde tenho de ser,
o espaço em si não importa. Onde estamos? Na Ilha
Vermelha, onde mais?

No dia seguinte ao balé, Francesca e eu nos


despedíamos. Ela insiste para que eu fique num hotel. Ficarei
melhor entre os mochileiros. Ela compreendia mas o Franco
tem relações com políticos contrários e esse tipo de turismo.
O Franco... Suspirei. Não fique assim, disse ela. Tudo ia
terminar bem. Por agora, que nos divertíssemos. Para isso
ela se casara com um homossexual rico. Então mudássemos
de assunto. Ela realmente conhecia a região de Friuli-
Venezia? Palmanova, Udine... Trieste?

Uma e vinte. Oleana deve chegar a qualquer momento.

Veneza cabia bem em postais, que não tem cheiro,


segundo meu mau humor pela presença de Nastácia e minha
dependência dela. O que eu queria?, perguntava ela rindo. A
Europa não é o paraíso. Ah eu sei.

A romântica Ponte dos Suspiros, o beijo encantado...


Pois. Tape o nariz e me beije.

Eu admitia. Estava chateado sim e não com a Europa.


Comigo mesmo. Porque me desfizera de tudo para chegar à
África sonhando sabe com sabe o quê? Em ser cooperante em
Angola, fazer dinheiro, viver uma vida de paz.

Na Europa. Como cooperante, com sorte,levaria anos,


se sobrevivesse à guerra. Comigo, já está aqui e afinal, meu
adorado, o paraíso está dentro de nós.

Dei-lhe razão. Mas pelo menos me deixe ficar com os


mochileiros.

Ela suplica. Fique no hotel. Sentados com os pés na


água. A frialdade da pedra. A língua em minha orelha.

Enfim concordei, ao pegar o livro na cabeceira. Comecei


a folhear, inquieto. "Apres le dejeuner quand nous sommes
allés à Venise"... Nastácia acaba de partir para Nápoles.
Caminhei. Veneza. Subi escadas e desci. O homem com
acordeom. Acordeom. De novo. Acena com a cabeça. Dobrei
uma ruela e sentei à beira dágua. Um leão de pedra. No colo,
o gatinho ronrona. Na ultima vez que voltei a São Marcos, a
pintora havia terminado o quadro que começava quando
Nastácia e eu estivemos ali pela primeira vez. Um bêbado
dorme ignorado. São Boldo. Casas velhas, crianças pobres.
Veneza. Fria praia vazia. San Zacaria, um vaporeto. Ilhas. Em
algum ponto além, Trieste e Blandine.

Tempo para refletir a respeito.

Melhor que não seja aqui. De decadente, de agonizante,


basta eu. Uma carona para Pádua. Já que o rapaz se comoveu
tanto com minha história – molto interessante! – ou com a
parte que julguei conveniente contar, pegava realmente
bem. Até porque um lugar de igrejas era tudo que de fato eu
precisava, precisava mesmo de paz, de rezar. Em quanto
tempo estaremos lá? O rapaz responde que talvez em uma
hora se tanto. Mas foi bem menos porque ao sairmos da
rodovia para usar um sanitário acabei achando o hotelzinho
de Marghera, tão aconchegante que eu quis ficar. Ele parece
não ter gostado.

Tomara que pegue uma enchente, amaldiçoa ao ir


embora.

Fiquei. Ainda poderia ir para Pádua, poderia até me


surpreender e pegar o caminho de Trieste de uma vez. Na
verdade o que me impedia, exceto o absurdo da situação,
mas esse estará sempre comigo. O que devo fazer ao
encontrá-la? Dizer: Olá meu amor, vamos? Para onde? E com
que situação?

De repente amor eterno é também uma estrutura


material. Quando a necessidade bate à porta a paixão sai
pela janela? Desaba de novo sobre mim o limite em que me
encontrava. Assim terminarei mesmo entre os mochileiros –
pior, entre os desabrigados. Há alguma perspectiva de que
não seja assim?

A mochileira permanece arrumando suas tralhas.


Absoluto desdém: não existo. Um determinado nó resiste.
Posso ajudá-la?

Não, obrigado. Falava inglês, tomei coragem.

Disse que havia sido mochileiro quando ela ainda


estava no jardim de infância. E era perito em nós. Eu só
queria aju–

Não quero sua ajuda, merda! Desatou a rir e assim ficou


um tempo enorme. Só faltava essa, nostalgia hippie! O que
eu continuava fazendo a seu lado? Já disse, não quero ajuda
nenhuma!
Cercas vivas. Além, por detrás dos telhados, no azul se
espalha a fumaça negra de um cargueiro. Perguntei a idade
dela.

Era um crente querendo converter a pecadora. Só pode


ser. Sou autêntica e não me troco por mil evangélicos
hipócritas!

Tenho dificuldade para entender o que ela diz e teria


mesmo se fosse português, tal o modo pastoso e arrastado
com que falava. Não sou de nenhuma igreja não, só queria
uma amiga. Antes que terminasse a frase ela grita.

Quer saber? Não estava em nenhum jardim de crianças


quando você se aperfeiçoava em nós! Quantos anos? As
idades de pessoas como ela se mede em séculos. Alivia o
suor num largo movimento da mão direita. Inclina o rosto,
chora.

Ei, tudo vai ficar bem... Acariciei os cabelos dela. De sua


pálpebra escapa um movimento involuntário.

Olha aqui, me odiava, disse ela. Odeio todos os homens.


Pode esquecer, não vai deitar comigo, não de graça, de graça
só com mulheres!

O amor do homem não permite. Violenta, desfigura,


corrompe. Provoca o ciúme, no máximo. Milão testemunha a
decadência. Olhava o cliente e não conseguia mais ver o
dinheiro e o que fazer com o dinheiro, como no começo. Mas
é Claudia, a infeliz, a que não tem mais caminho de volta. Os
braços manchados, corroídos de dor, são sua vida. Então
chegaram ao quarto, ela e a companheira de sonhos, de vida,
de agulha. As mãos fracas se procuram. Se ajeitam. Uma de
joelhos na cama, a outra se abrindo por cima. É Claudia,
cujas feridas no ar se multiplicam, espanto de ilusões. E a
outra, e a cama no meio do quarto, e os homens no meio das
duas. Não me chamem de lésbica. Me chamem de puta,
poetiza e puta. Ela, Claudia, e sua amiga querida. Quem quer
que fosse a outra, sua amiga mais querida.

Será que sempre há coisas assim? Mas não havia. O que


foi tão espontâneo, tão natural, não tendente? O que tão
belo, como essa lisura de coxa, esse ombro delicado, esse
rosto perfeito apesar das ruas, esse olhar emocional, sem
lugar para cálculos de provedor, de protetor, enfim, do
homem – a matemática do nada, o poder do vazio. No centro
da cama, no meio, mas nelas não, preferia, um roçar de pele
materna, a filha da frustração que em prece é guardada nos
filhos que virão, não por isso, mas porque não cabem mais
nessas lindas e trágicas filhas não de Safo, inteiras do
masculino vácuo que não quer, que só quer. Envolverá um
homem assim um corpo como o meu?, pensa ela, satisfará
assim um desejo de antemão condenado a alternativas? Ou
premiado?

Filha, doce filha, rosa, minha mãe, irmãs. Não há mundo


lá fora. De graça sim só com mulheres!

Só com mulheres! Tornou a rir enquanto permanecia


chorando. Só com mulheres! Em silêncio, deformado, eu
descia em suas lágrimas. E você não tem cara de quem possa
pagar nem cinco minutos com a deusa Claudia! Gargalhou.
Você também parece ter séculos, cara!

Cenas assim não deviam ser incomuns. A maioria das


pessoas passa e nos ignora.

O que está havendo, gata? Não nos demos conta da


aproximação dele. Inconfundível acento lusitano para quem
tivesse ouvido uma angolana falando inglês.

Você não está cumprindo nosso trato, Antonio. Trato,


que trato? Você sabe: viciá-la e joga-la na vida; apenas por
isso você estava naquele lugar naquela hora. Ó Massimo,
foda-se, estou a gostar da chavala, o trato está cancelado.
Você não é capaz de gostar de ninguém. Foda-se, pá, meu
jeito de gostar não é da sua conta! Se você gostasse mesmo,
não teria levado a coisa tão adiante. Está com ciúmes porque
ela gosta de mim. Só está contigo por causa da droga. Foda-
se, caralho. Tudo bem, alteremos os planos: eu não apareço
mais para convence-la a se internar na clínica, você faz o
papel, mas interne-a, acabe com o sofrimento dela. Quem
disse que ela está sofrendo? Está. Não, pá, ela faz o que
gosta e adora dinheiro e, se vai com muitos, apenas comigo
ela vibra. Tanto que precisa de mulheres... Deixo-a livre, ela
adora ser livre. E as drogas?, estão acabando com ela, você
não vê? Não fui eu que fiz a vida humana ser curta, mas a
dela será curta e intensamente vivida. Você está louco. O pá,
te basa, foda-se, você é que iria lhe dar o que ela precisa, um
fodido de um escravo do trabalho? O dinheiro possibilita
liberdades. Não sou executivo de gravata mas meus negócios
vão muito bem, graças a Deus e papel não é o que falta para
Claudia, admita que perdeu e continuemos amigos.

Intervalos de terra, manchas, de terra e de água, e


permeando-os uma luz única. Perto do mar. O espírito
alterado. Antonio não foi órfão, não teve uma infância difícil;
ao contrário, nascido em bom berço, teve tudo o que quis.
Demorou mas enfim seus pais, Ele não tem mais jeito,
querida, Bobagem, dizia a mãe, é só uma fase. Quando
sentiu alívio ao deixar Antonio a casa, deu o braço a torcer. O
pai se refugiou no quarto, Meu filho, meu único filho.

Ali estava ele, quase às margens do golfo.

What it s happening here? As pessoas param, mantém


uma distância prudente. Che cosa è? Era a vida de um
brasileiro, tornada subitamente importante. Os presentes
nunca teriam dúvidas a respeito mas, ao contarem o caso
para os amigos, omitiriam esse ou aquele detalhe e, o mais
importante, não saberiam dizer como ele chegara ali. Mas é
um homem corajoso.

Coisa que na realidade jamais foi.

Antes que atacasse, Antonio de relance viu a morte da


mãe, ela morta, um segundo de nada e em nada resultou. A
luz do sol é a mesma para os três, os reflexos do estilete se
repetem no canivete. Agora. Wow! Ele, Andrei, nunca
brigara. Não tenho chance, mas que importa? Mas há entre
as pessoas quem acredite. Crazy world! Antonio só muda o
tom por medo e o medo impulsionou o braço de Andrei.

Ameaçador, Antonio avança. Ela não está em condições.


Doce menina.

Um brasileiro? Abriu o canivete. Foda-se! caralho! Um


estilete no bolso da jaqueta. Achava que ia assustá-lo com
esse chino ridículo?

Era um instrumento de trabalho, nada que devesse


assustar. Só queria conversar com Claudia. Onde respira o
horizonte, na luz do sangue nos olhos?

Foda-se! Conversar com minha mulher? Nunca mais


quartos exilados sem futuro. Caralho! Nunca mais falta de
diploma, livros sem publicação. Enfia esse chino no cú!
Tomba o caos. Inclinam-se as dores para bem. António,
intervém ela, doce, doce menina – escute, ela suplica que
pare!...

Fizera um movimento, a lâmina de past-up que ele


chamava de chino a um braço de seu pescoço, o sol em seu
canivete. O pá, te basa! Sai fora, acho que é isso. O corpo
dela exala um cheiro forte; o dele, Andrei, também. Amor e
ódio. Bem, se quisesse dar uma, Antonio fala, aí a conversa
seria outra. Toda vida é descartável? Iras reprimidas em seu
queixo. Foda-se! Ecos de um grito, gritado por um vapor
interno escuro e azedo.

As pessoas ao redor param por causa da cena. Do chão,


amaldiçoa. Um gajo morto, o que eu era. Definitivo, avança.
Ela entre os dois. Os policiais abrem caminho. Luzes
circulam, sirene. A investida adiante, empurra Kátia – Foda-
se! A lâmina rasga o ar. Continuar, portanto sobreviver. Ela
sangra, pobrezinha. Agora pense: há um fato realmente
novo.

Polizia!

Pagarão caro, não sabem com quem estão mexendo. Os


policiais não entendem, ou fazem que não. Os turistas
voltam ao passeio, os nativos a seus afazeres. Acabou.

Um bosque. Uma lancha passando. Além, uma cúpula.


“Quand on ne s'aime plus”. Arredores de um lugar chamado
Giudesca, Giudecca, algo assim, se bem me entendia os
circunstantes. Uma rua de nome Pietro Buratti, se vi direito a
placa (se era de fato uma placa). Não estamos mais no
centro, não está mais tão perto de São Marcos, embora aqui
transitem na boa muitos pombos em meio a um e outro
gatos. Quem quebrará o silêncio? Ela o abraça-o sem dizer
palavra. Medo. A razão de não o ter enfrentado antes. Mas
provavelmente também estivesse acomodada. Com Antonio
tinha toda heroína de que precisava. Só agora, pouco antes,
se decidira. Custasse o que custasse, voltaria a Muggio, sua
comuna.

Então eu tive uma súbita alegria, Muggio é perto de


Trieste, não é? Na verdade não era do meu feitio ficar assim
tão gratuitamente alegre até porque Blandine havia se
arrefecido em mim, por causa da própria Claudia. Mas era
assim., um azul intenso sobre os telhados, e o rosto de
Claudia como o rosto de uma grande amiga a quem logo faria
a definitiva confidencia, estou perto de reencontrar o amor
da minha vida. Os lábios dela se apertam e encosta a cabeça
em meu peito, então dei por mim, o quanto me tornara
patético, e nem sei onde ou pór que isso começou e se
alastrou em meu ser, um menino tão promissor, um
adolescente estudioso, um estudante aplicado, quanto
inutilidade sob esse céu de intenso azul, e sequer era assim,
não, Muggia é que perto de Trieste, como quem vai para
Portogruaro, tenho uma amiga lá, inclusive, a Andrea, seus
olhos me desnudam e dá um risinho, você ta pensando em
Muggia, é lindo lá também, tem uma linda catedralzinha,
mas minha cidade é Muggio, como quem vai para Brescia,
passando por Verona, ah sim, a cidade do amor trágico,
muito significativo, pensei, olhando a macas de seu rosto se
tronarem de um rosa sóbrio e sadio, e piscando ela disse que
é comum as pessoas fazerem essa confusão. Agora está mais
claro do que nunca que o que tenho de trágico é antes
constrangedor.
Sim, voltará a Muggio, como estava dizendo. Irá
retomar a vida de onde fora interrompida, havia dez anos,
quando conhecera o gigolô. Queria haxixe. Experimentou
heroína gratuita. Então ele lhe propôs a riqueza, a beleza
dela com a sua proteção. Viciada e transtornada, aceita.

Por falar nisso, Claudia precisa um pouco de pó. Ou


enlouqueço.

Um hotel. Trieste esquecida.

Precisavam ir na chefatura amanhã, segundo dissera o


comissário. Flash. Um BNW (acho, não reconheço senão os
fuscas), azul e branco. 64390. De uma delas descera o
carabiniere que imobilizou Antonio. Apenas rotina, esclarece
Claudia ao voltar do banheiro da suíte, a fala de novo
pastosa, tiques de novo.

Que linda era há vinte anos! Uma menina gordinha,


adorável, tão querida, dizia a tia para a irmã. Um dos
guardas dissera, ao ver os documentos, Un’anziana
signora... riconoscimento di Cittadinanza Benemerita, Si
disse o outro, gode immensa popularità... Doces influências
de mamãe.

A primavera sorri em meio aos espantos.

Seus cigarros. Ai. Onde deixara os cigarros? Você não


viu? Divisões de mochila freneticamente vasculhadas.
Podíamos ir tomar um café, contaríamos nossas histórias.
Seus olhos são tão claros... Ela então mostraria os poemas
de sua agenda nova. Tome um dos meus.

O quê?
Você não queria um cigarro?

Ah.

Acende. I live in an - o-ther world - Claudia em dueto


com Dylan - where life and death are memorized. Deixa-o ao
fundo: all I see are dark eyes. A gente vive num outro
mundo, um mundo de almas puras onde eu queria ficar com a
purificação da minha. Mas talvez seja tarde demais.

Dois frêmitos se insinuam no torpor à janela. Na


habitação vizinha, sobre a casa, uma caixa dágua recortada
contra um céu prateado como um carro de polícia. Uma
caminhonete está parada diante do hotel, nada mais que um
sobrado coberto de hera. A noite outonal, fresca lá fora, fere
com insuportável beleza. É que às vezes fico mesmo
sentimental demais.

Caso seguíssemos daqui, no sentido apontado, iríamos


parar na França. Mas esse dedo apenas quer mostrar onde
há um lugar que vende leite e pão. Mas por enquanto vamos
dormir.

Dormiram.

O prédio da polícia. Quando voltarmos a Veneza.


Convencida a fazer uma promessa. Claudia, você pode. A
imagem de um animalzinho acompanha as palavras. O que
perderia se tentasse? O esquilo avalia os riscos, supera os
obstáculos e alcança a noz. Tenho medo, ela diz.

As primeiras quarenta e oito horas. Passeando em


Veneza, sem romance, apesar de reticências aqui e ali.
Amigos. Sobretudo isso. Mas logo ela, prenhe de sobressalto,
quer desistir. Na manhã do terceiro dia, pede para ser
amordaçada: seus gritos poriam tudo a perder. O que
sustenta os estão que sem limites? Na mochila, um velho
vestido largo. Espírito de desintoxicação se arrasta ao
banheiro. As mãos na borda da privada, polegares para
dentro. Será que posso fazer alguma coisa?

O que se faz num momento assim?

Lui è un uomo confuso, ma così dolce. Um homem tão


inseguro também, mas tão disponível. Podia fazer alguma
coisa? Cheiro de inferno pelas frestas. Poderia recuperar a
minha infância? Não sei quanto tempo. Aparece enfim morta,
sinalizando para que tire a mordaça. Vômito pelos braços.

Oh Deus misericordioso! Uma quina de livro aparece na


mochila. Ela tenta voltar para a cama, curvada sobre sua
sentença. Alguém a seu lado. Seu corpo, um país invadido. A
dor estava ali, em letras garrafais. Abraçou com força os
joelhos. Olhos súplices. As solas dos pés. Os dedos nervosos
se contraem. Olhos súplices e pontos de pressão. Hun. Se
aquieta. Suor abundante, orvalho de uma futura vitória? Não
será capaz. Não serei, tampouco.

Mas e a codeína em minha mochila, daquela gripe pouco


antes da viagem? Uma cápsula para cada um. Multiplico-me
em do-in, nos pés, nos pulsos, na nuca de Claudia. Dou
banho nela. É na água o indício mais intenso de uma calma
próxima. De que lugar do Brasil você é?

Do Espírito Santo, já ouviu falar? Uma parte do Espírito


Santo se derramou pelo mundo, quase um pentecostes.

Ela sorriu.

Toma o pulso dela, acaricia em torno. Por pouco ela não


tem idade de ser sua filha. Então ele retira, além da correia
do relógio, as fitinhas e as miçangas. Ela era quase da altura
dele mas agora está maior, justa nos movimentos. A paz
molhada que a acariciava se mostra fugaz, a respiração se
altera, de novo e de novo. Assim.

Até o sexto dia.

Devagar, o sono em suas feições. A noite avança e ela


dorme. Ele se recosta a seu lado e despenca em seu perfil.
Sabia que a chance era pequena, mas Claudia era valente,
apesar do cansaço de estar viva. Comovente seu jeito de
dormir, filhote de gazela lambido pela mãe. A maciez alta do
travesseiro esconde parte de seu rosto, a moça de Muggio.
Acima dos cabelos espalhados, a guarda da cabeceira se
entrelaça em palha.

Houve aquele momento de cuja espécie são feitas as


decisões mais nobres que são tomadas ao longo da vida. Ele
a olhava e disse baixinho que ela se livraria, determinado
talvez com isso a salvar a si próprio. Aproxima o olhar e se
excita. Era como se tivesse pegado o futuro, como se o
tivesse dominado. A exaltação cresce e o desejo chega.
Difícil separá-lo do amor, esquadrinhá-lo, discernir o amor.
Pensou ter reconhecido um desses instantes antes de
novamente dormir.

Acordou sobressaltado. Ela acabara de acordar


também. Queria dar uma volta. Em Veneza há um lugarzinho,
ao lado do canal, em frente do relógio da igreja, quase junto
às escadas, uma comidinha. Também talvez vidros, jóias.
Lembranças da infância dela. Contemplações de chocolate. A
desintoxicação é uma gravidez.

São cinco horas, amanhece, há de repente um motivo


para se levantar. A morte não a atrai agora nem a vida a
assusta. Ele abre um sorriso e toca a testa dela com cuidados
de louça. Você está com uma aparência muito boa, ótima na
verdade.

Se ele estava dizendo, ela acreditava. Ele. Então


também o tocou, não como se toca um amigo, talvez como a
um irmão mais velho (se o incesto não fosse pecado), sim,
como uma irmã mais nova, muito grata e definitivamente
desejosa.

Ele escreve. Ela torna a se deitar. Faz-se silêncio, como


os silêncios que antecedem, depois dos largos, os alegros de
Vivaldi.

Sentiu que renascia. Amando quem ali estava e tudo ao


redor. Disse a ele que se sentia estranha, o quarto lhe
parecia estranho, um lugar como esses que a gente sabe que
conhece embora nunca tenha estado lá. Está feliz – é
possível? Está viva. Sentada na cama.

Nossa, pergunta se o relógio estava certo. Sim, ele diz.


Era quase um novo dia e já começara. Ela sabia e queria
partilhar com esse que indaga de seu estado.

Estou ótima. Estava se sentindo realmente muito bem.

Disse o que ele espera ouvir. Abraçam-se. Não saberiam


dizer o que sentem, por isso se calam. Sem a droga, tudo se
tornará mais fácil. Ela tentará se manter limpa cada dia,
como os anônimos. Era mesmo o único jeito, concorda ele e
pensa como se tornaram próximos, em como ela estava
próxima, cheirando a sabonete, com sua coxa encostada na
eletricidade do braço dele, a renda da calcinha brotando
como um sol no horizonte do cós da bermuda, levantando-se.
Um pássaro, um pássaro noturno. Foi assim desde sempre.
Nunca cresceu o bastante, nunca acordou completamente.
Um começo escuro do sulco das nádegas.

Ela pergunta. Ele era homossexual? Ele sorri. Por quê?


Bem, tinha visto ela nua, dera-lhe banho, dormiram juntos. E
agora aquele abraço. O abraço. Alfazema. Quando eu era
menina, no sul da França. Uma perfeita aristocrata...

Ele ainda era um vagabundo? Sei não. Estou meio


acostumado a acordar com codeína. Azulíssimo mar de
lavanda. Não é bem azul. É... Poderíamos fazer uma viagem,
pensou ele, depois de comprometidos. Disse a ela que estava
enganada, é claro que ele sentira o abraço, mas é que a
gente acabou de chegar do Inferno e não há mais trens hoje
para o Paraíso.

Pensando bem, disse ela, acho que senti o trem.

Antes o quê? Sempre alguma coisa. O trem estava na


estação mas não havia horários para aquele dia. Imagino que
você esteja exausta.

Ele estava sendo muito bondoso, disse ela, pensando.


Mas será que não dou mesmo sorte, ou é oito ou oitenta?
Demais. É sobra.

Seria melhor o tal Antonio?

Furiosa. Indignada. Realmente, não havia mais trens.

Cansado da solidão, recusa-se a se livrar. O que a isso


o levava? A fuga do que se deseja. O medo da realização.
Claudia podia ter se tornado protagonista. Tão mais simples.
Nada mais de loucuras, de mulheres casadas. Ai. O pássaro
de novo. De novo a sua voz. Um clamor desesperado. As
coisas só precisam seguir naturalmente o seu curso.
Patético, pero uno patético con cierto encanto, murmura
Oleana na Biblioteca. As chaves que ela deixou entre os
dedos dele no apartamento. “Peer Gynt”. Esse não conheço.
E é Ibsen. Minha cultura é nenhuma para um jornalista –
esses homens extraordinários que entendem de tudo,
tudinho.

Depois de passar a manhã ao sol e o tom róseo se


sobrepor à palidez mais que congênita, doentia, ela, Claudia,
se arrumou, excitada. Iria finalmente reencontrar a mãe.
Passara ele para segundo plano e lamenta agora a
oportunidade perdida. Sina dos tímidos, dos acanhados,
fracos. Mas ele não. O que, enfim? Coisas da droga,
seqüelas? Ele fora ela, o rapaz, o homem do Espírito Santo.
Passara pelo que a menina de Muggio passou. Ele fora ela,
ontem. Ainda tentou se insinuar. Ela lembra que não há mais
trens.

Esqueceu?

Pergunta-lhe se ainda está zangada e Claudia diz que


não, Tanto que gostaria que fosse comigo, convidou. Para ser
apresentado a mãe, pensou ele, como um bom amigo, e a
seus amigos como um novo? Entre eles decerto um
namoradinho de adolescência e um novíssimo flerte em cujos
braços se jogará amanhã. Podia ouvir os risos, as lágrimas, a
noitada de comemoração, ele acabrunhado num canto,
sozinho.

Ao menos, me deseje sorte.

Ela ia para casa. Ele jamais. Desesperado, não tem mais


jeito. Boa sorte e se cuida para não passar para o outro lado
e se tornar uma burguesinha fútil.

Em que lado estava ele? morto ou vivo? Nem uma coisa


nem outra, certamente.

Recebe a primeira carta ainda em Veneza. O remetente


dizia Muggio-Mi. Lembra de tudo o que ela havia contado, da
infância cheia de viagens, da região da Lombardia, e de tudo
o que preferira não saber pelo muito que gostaria de ser. Ai.
Claudia, refizera ela a vida. Começara a trabalhar e estudar
arte. Noutra carta, já para a posta-restante de Lisboa, está
nadando, viajando novamente, tocando num clube de jazz,
batendo fotos para uma revista e escrevendo uma peça.
Tocando a vida. Pretendia até fazer esportes de inverno.

Então ele se perguntou. Qual a relação entre a vida


despreocupada das varandas ao crepúsculo e a travessia sem
rumo entre sóis?

Respirou fundo e enfiou nos cabelos os dedos que


haviam dobrado a carta e a devolveram ao envelope, os
mesmos dedos que dias antes estavam introduzidos nos
cabelos de Claudia. Quase podia sentir o cheiro dela, um
cheiro de mortalidade, um doce aroma de tempo. A
libertação encerrava sim a angústia, estreitava a estrada,
dificultava os prazeres e os potencializava. Intuiu no
momento exato em que sob a estrela, que era a ultima, o
bem-estar se desgarrou da satisfação da necessidade e do
desejo; quando a estrela, a ultima, a que restou da noite,
cintilou. E cintilaria apesar da dor e ainda que os olhos se
fechassem.

Então, só me resta dormir. Adormeço segurando a


folha.

A campainha. Atravessa a tarde entre as paredes.

Oleana entra. Que cheiro bom! Olhava-a, parado na


porta. Hun... A timidez, que o vidro da janela refletia, me
detinha. Cântico dos primórdios. Eco de oceanos. A
respiração, ondas. Sobe uma gaivota, evita a espuma para
ter o vislumbre do peixe. Ela me pergunta se eu quero tomar
alguma coisa.

Hun?

Se eu queria vinho tinto ou verde.

Você quer mesmo almoçar agora?

Na verdade, ela não estava com fome, mas a comida


estava com tão bom aspecto, iria esfriar. Além do mais, o
cheiro já começara a abrir seu apetite.

Talvez eu esfriasse também.

Calma. Temos a tarde toda e –

Tarde toda que nada. Comida se requenta. Eu adorava


comida requentada.

Eu não, disse ela num tom de repreensão, com aquele


tipo de raiva contida que se alarga pelos gestos e cria tiques
no olhar e nas mãos. Onde esta o menino comportado que
deixei aqui de manha?

O assassino ocupa um lugar de honra na casa do morto.


Onde estava na verdade? (me pergunto). O menino. Viajou.
Voltou ao Brasil, esteve na África, voou a Paris, passou por
Roma, e agora há pouco estava num maravilhoso idílio em
Veneza, interrompido por uma ridícula falta de trens.

Ela estava preocupada. Você se drogou na minha


ausência?

Respondi altivo. Olha para mim, nos meus olhos. Há


algum indicio de droga?

Ela estava olhando e garantia que isso em nada


ajudava. Queria que a gente sentasse e conversasse.

Mentira!
Era mentira sim... Jogou a bolsa na poltrona e deu três
passos na minha direção.

Há uma luta de toques febris em planos distintos, pela


renuncia do amor nos corpos unidos e desmascarados pelo
mesmo beijo. Uma luta mortal reluzindo na faca em minha
mão (fiapos de cebola no corte). Dou uma olhada na pia e me
oriento para deixá-la ali. Oleana enlaçou o meu pescoço e
cobriu meus lábios com os seus (oh glädje, mycket fint). Foi
um beijo longo cheio de alternativas. Ofegante fiz as suas
roupas acompanharem para cima o braço que a envolvia. O
quanto de desejo, paixão, e o quanto de espécie? Arbítrio
algum. O outro braço dobrou os joelhos dela, e peguei-a no
colo, criança rendida. Levei-a para o sofá, sem interromper o
beijo, a ouvir sandálias ecoarem no assoalho. (Oh fuck jag).
Ignorando que, tardasse o que tardasse, tudo estaria
terminado quando o fogo deixasse de crepitar.

Depois das janelas cuspindo labaredas, apenas


cadáveres de pedra.

Ela se deixa no sofá. Me ajoelho, escravo, adorador da


espécie. A mão entra no decote. Descem os lábios, orvalho
num monte. Quando desanoitece o outro, um padeiro na
falda amassa pão. Meu desejo entrecortado se confessa: a
respiração me reconhece pecador diante da perversa
inspiração anatômica de Deus. Cúmplice do criador, liberta o
pulsar como uma hóstia. Eu nada podia senão contemplá-la
em suspenso.

Eu tudo podia naquela contemplação.


Sair do que não era, parecendo ser. Penetrar no que
tudo compreendia, nada parecendo. Contemplar. Bicos
róseos roçam meus joelhos. Eu me lembro. Como de um
espetáculo no qual os atores existem apenas em função da
peça que representam, não têm vida pessoal, e a peça não
contem valor dramático, apenas estético. E meu outro ser,
alheio a meu corpo ator, deduzia das mãos e lábios
incansáveis, que a realidade não estava ali, mas o obscuro
preâmbulo de um depois mais cedo ou mais tarde.

O vestido reluzia amarrotando-se nas costas dela,


subindo e a desvendando, égua de reprodução, guizos ao
balanço da correntinha com o crucifixo, galopa em campos
distantes que o trem atravessará. Inclinado, me apoio
descendo a trilha onde seu umbigo era referencia.

Enfim! Premiado! Meus dedos brincam com o elástico,


um beija-flor paira sobre o jardim, ou alguma outra imagem
semelhante, quero dizer que podia sentir seu cheiro agora
forte e doce, não familiar. Um toque, um toque que se
demora, uma profundeza esperada.

A sala imerge em uma nuvem oleosa. Cílios de sol lá


fora dissipam o cinzento da manha. Eso, ahora. Uma torre.
Uma cúpula. O movimento conforme o reclame dos lábios. O
braço que antes apoiava sua cabeça (uma pomba se solta
das mãos de uma criança) leva a minha mão ao longo do
sulco pelo arrepio da pele. Detenho-me também aí no
elástico e alivio o aperto até restar a marca estriada na
cintura dela; desço mais, até a umidade tenra.

Si, si...

A pressão chega ao fundo de um grito surdo. O outro


dedo passeia na abertura, como um homem preocupado anda
pela sala. Soy tu perra ahora. Não quer um namorado. I have
my love. Que ele, que Andrei não estragasse tudo com
carinho.

Provo um gosto de mim mesmo naquele ponto em


vivido contato com a Mulher dentro dela desfeita em
gemidos, e cada descoberta lateja mais. Deixa eu te engolir,
puto, dejame te comer. Latejava, mais e mais, a ponto de –

O arroz!

Um cheiro de queimado se sobrepõe aos demais. Um


ruído de água transbordando sobre o fogão, no ferro
enferrujado. Com o sacrifício do operário ao som do
despertador, segurei seu rosto e sai de sua boca. Levantei e
tentei andar, tropeçando na calça. Consegui chegar junto ao
fogão e desliguei a chama. Eu podia jurar que tinha
desligado.

Ela podia jurar que eu só a andara atiçando.

Contemplei-a. Fiquei descalço e tirei as calças antes de


voltar. Limitar ao homem a dissociação entre amor e sexo?
Ondas puras de desejo emanam dela. Em todo caso, um
problema semântico, pensei. A humanidade faz amor quando
faz uma coisa cuja única semelhança com a relação física do
amor é ser igual a ela.

Recostados no sofá, abraçados, nos beijamos. Por


instantes, nada aconteceu alem do beijo.

Jardim iluminado e regado. Deixam-se cair. Ela abre os


braços dele contra o tapete e procura se deixar. Tarda os
movimentos necessários. Não mais segura os pulsos, mas os
braços continuam abertos. Ele desenha os contornos dela,
levando a seda e o crepe. Deixa que suas pernas façam o que
pedem, e se abrem. Entre elas, ele entra.

Cintilações ao longo da noite transparente derramada


no tapete.
Mãos, mundos a que o sol ibérico não tem acesso.
Sussurra o nome dele, agora grita. Que a comesse todinha.
Assim, tão limpo, tão liso, quase uma criança, uma criança
macia e valente, trem na campina, deve ter sentido que ia
gozar, saiu e veio por trás, encheu as mãos com seios e ela o
recolocou e ele arrematou. A gruta agora o recolhe sem o
lapso do outro jeito. Às suplicas dela, apressou-se num quê
de selvagem. Animais na floresta. Alegro, majestoso.

Um rio, brutal onde nascia e sereno ao correr no leito


em Oleana preparado.

A meu lado na cama, ela dorme. Ah os objetos do


desejo! tão distantes do que antes fazem supor! Mas o que
eu quero? Que a noite não chegue após o crepúsculo? Uma
vertigem conhecida se segue no sonho de Oleana, mar
laminado a invadir todo conhecimento e linguagem. A mulher
se levanta e Oleana está falando ao dormir.

Eu também sonhei, num cochilo, com a chegada de meu


habitante, o Outro, não eu, o Eu, em mim. Eis a pureza do
dia. Talvez Deus, talvez o amor, provavelmente ambos.

A noite insone, o haxixe, Oleana, o almoço: adormeci


profundamente.

Fios escapam do sono para o quarto, a cor do dia


esmaece. Quando algo quer negar a realidade da noite, sente
a cabeça recostada a seu peito e torna a adormecer.

As persianas batiam, as cortinas arfavam, um miado


atravessa a musica sobre o casario, pombos súbitos
encontram e abandonam o parapeito.
Um cheiro.

Diluo-me por uma substancia horrenda, impregnada de


trevas, num mundo geométrico, de profundidade publicitária.
Atravessada a fronteira, um continente sem esperança. De
súbito um caminho, de árvores ladeado. Quem sabe. Os
tempos estão mudando. O amor é revolucionário, redentor.
Mas minha vitalidade se funde mesmo ao nada sob a copa
cremosa de uma árvore, não mais tão grande como antes
parecia, um arbusto na verdade.

Acordei sobressaltado, tentando discernir quem era. Ou


o quê.

No buço dela, a noite sobre os lábios entreabertos. Nem


num nem noutro mundo meu coração podia se acalmar. Não
havia mais sonho ou despertar que me valesse.

Oleana, sonha com aviões e tempestades. Está nua,


exposta aos trovões, mas seu namorado batia na porta. Foge
dali e adiante surge uma figura inócua, uma sombra. Depois
conversa com um estranho num elevador, acerca do tempo.

As feições dela tem alguma coisa dura, militar.

Peguei em armas quando pouco mais que um garoto,


não era ainda um homem e as tinha abandonado, sem usar.
Costumávamos lanchar de frente para a baia, encostados
num tronco, à sombra do verão carioca, diante do prédio do
jornal. Liberdade de imprensa. No dia em que chegasse,
alguém dizia, não deveria ser pretexto para a obscenidade,
para o desrespeito, para a notoriedade vã e o ganho a
qualquer custo. É isso que eu temo, diz alguém. Liberdade
demais sufoca a liberdade. Folhas caem, a arvore farfalha.
No dia em que a revolução vinga não subsiste em seu seio os
pecados que inspiraram o levante?
Há uma loja na esquina, abriu na semana passada, que
importa vinhos de mais de dez países. Eu não sabia. Sei que
uma nova organização social não existe, mas renascimento
de homens. Lanchávamos e agradecíamos por ter o que
comer. Dois de nós, antigos andarilhos. Perto de mangueiras,
quando se está em cidade do interior faminto do lado de fora
dos muros, o chão fica coberto dos frutos de repente e o
mochileiro mata enfim a sua fome.

O cheiro, entendi, era de manga.

Conheci Rachel no trem de Buenos Aires para Santa Fé.


Havia uma certa dureza em seu rosto, que logo se mostraria
falsa, era uma ternura de garota. As mesmas sobrancelhas,
como que escovadas, pálpebras lisas e cílios curvados
alongando o seu olhar. Se não se pareciam, decerto uma
lembrava a outra.

Agora Oleana está no metrô, olha para frente, mas


ninguém sabe para onde olha, por causa dos óculos escuros,
e pode assim perceber o olhar de soslaio do rapaz a seu lado
enquanto a voz cantava o nome da estação.

A voz de Joan Baez enche a inverossímil comunidade


hippie em Rosário, em fins do percurso de Perón, como uma
voz que canta nomes de estação.

Rachel e eu tivemos um primeiro contato na Ciudad de


los Ninos, em La Plata. Ela estava com uma sobrinha e eu
escrevia um poema quando uns gorilas me agarraram.
Vieram com uma conversa estranha, exigindo que eu
dissesse o que os versos significavam. Perguntei se
gostavam de poesia, quase me estrangularam. Eu não tinha
mesmo a menor queda para guerrilheiro, apesar de minha
barba à época. Rimos muito quando ela me explicou sobre a
direita argentina e o Exercito Revolucionário do Povo, acho
que é isso. Fizemos amor pela primeira vez no dia 1o. e maio
de 1974, os conflitos pelo radio como fundo.

Folhas caindo das arvores, namorávamos entre os


pássaros, as borboletas e as abelhas.

Nunca mais eu o vi, pensou Rachel ao pegar a foto na


gaveta, focalizando o sorriso. Dizia coisas engraçadas e era
tão meigo, sentia mais falta do feijão do que dos pais e,
como ela, nada tinha de revolucionário exceto por um
comportamento, embora compassivo, dado a indignações
pelas quais nunca havia razões oficialmente nobres.

Ela o levou ao quarto sabendo que ele era virgem, pois


contara para ela. Mais tarde, um amigo deles embaixo dos
galhos esperava os frutos. Olha só este, que lindo, Rachel.
Oh si mui hermoso. E valia para as mangas e também para o
corpo dela, de short, no galho acima. Alguém poderá dizer
que acabaram de sair da cama, portanto como pode? Ele não
sabe, naturalmente não tem a ver com sensualidade, era
uma atração, e ainda é, muito ligada à visão, não
necessariamente à carne, bem, não tenho uma teoria a
respeito, apenas é assim.

E antes ou depois de perder a virgindade, não mudou


nadinha.

Ah como ele conseguia manter aquele cheiro gostoso de


homem saindo do banho? Um homem cheirando mal é quase
tão repugnante como um homem sem cheiro – ela dizia
coisas assim, totalmente inesperadas, pela alameda que
florida serpenteava ate o portão.

As flores, regávamos de manhã, durante as passadas, e


à tardinha, caindo a casa nas sombras argentinas. Como se
diz, bons tempos. Cheiro de manga em nossas viagens pela
Santa Fe real em nossos corpos oníricos. Quatorze anos...

Onde ele estará?

Quanto a ela, Rachel, estava ali, longe dele, nem sabia


porque estava pensando nele, em Andrei, afinal.

Em todos os sentidos sim mais distante. Mudara ela de


cidade, de país (não de idioma), tinha sua própria casa,
neste mesmo mundo não-revolucionável, uma casa própria,
com menos flores e caminhos, um outro cheiro, e nenhum
amor exceto o sexo, e companhia alguma com quem partilhar
no dia-a-dia tardes como aquela tarde de abril, quase maio,
pensou Rachel ouvir o baque no chão, e outro.

1988. Há de ser ainda um bom ano.

Cheiro de manga quando, deitados na rede da varanda,


Rachel e eu partilhávamos os mundos que jamais se
cruzariam de novo. Que amizade! Logo íamos descobrir não
ser o bastante, nem o anseio de justiça, nem as lágrimas
comuns, nem a misericórdia ou o desejo.

Não, não era o bastante. Estava tão sozinha, assim


nasceu e morrerá, assim vivemos. Nunca mais o vira.

O que é o tempo? em que ponto dele Rachel ficou? O


que é passado, e em que sentido passou? Não volta? Quem
pode garantir, por que não se há de renovar noutras
pessoas, noutras consciências, por que – Quando
atravessava o rio no sentido de Pasos de los Libres, senti a
falta que Rachel me fez um dia. Em que sentido não é a
mesma falta que sinto de Blandine? Ali meu coração a
preparou, ou ao menos talvez tenha preparado, ali também
me preparei para meditar no apartamento de uma mulher,
onde sobre todos os moveis há toalhinhas de crochê, o que
em nada combina com Oleana, que agora desperta e diz Olá.

Ola. Que horas? Digo. Ainda? Vou dormir um pouquinho


mais, esta bem? Claro, dorme. Um beijo na testa.

Ela quase começa a gostar desse tipo de manifestação.

Aconchegou-se e logo a respiração introduzia novos


sonhos. Já vestido, dou uma olhadela para seu corpo antes
de sair. No final do corredor, a ânfora no suporte. Não há
uma semelhança com aqueles vasos de Veneza? Ei, sim,
muita mesmo.

Claudia partira e Nastácia havia regressado conforme


combináramos. Estava rosada. O lenço com que prendia os
cabelos realçava a beleza de seu rosto. Não torna a
mencionar divórcio. Ainda bem. A beleza que exibia era a do
pecado sem futuro, essencialmente a nossa condição. Entre
Trieste e Muggio, eu procurava ganhar tempo.

Agora estava bem perto. Friuli-Venezia Giulia, Altopiano


Carsico, Café Degli Specchi, Revoltelle, Della Sorgente,
Adriático: nomes a que Blandine concedera aura mítica.
Durante meses a fio, desde que ela partira, eu perambulava
pela riviera triestina e ali ficava ao sol. Súbito ela surge.
Sozinha. Olhamo-nos uns segundos e corremos um para o
outro.

Todavia...
Agora eu me sentia meio que liberto do encanto, pela
realidade que retirava da imaginação a magia. Com a mesma
proximidade, reapareceram as ninharias que produziam
grandes discussões, palavras ferinas ditas com o fim de
serem esquecidas, ou jamais esquecidas, mas eram
realmente esquecidas até a discussão seguinte. E eis os
ciúmes, a perfeita harmonia fazendo fronteira com
incompreensíveis indelicadezas, representando, além do
amor, certos amores que, por demasiada intensidade,
gastam-se em não muito tempo, quando poderiam, mais
contidos e menos apaixonados, durar a vida inteira.

Mesmo fosse isso irreversível, quero dizer essa


instabilidade do relacionamento, esses altos e baixos, se não
tivesse jeito, estava ligado, o relacionamento, a uma
condição matrimonial que me excluía, como de resto era
agora a minha condição em relação a própria Blandine. E o
sonho, por demais perto agora com a proximidade entre
Veneza e Trieste, esmaecia.

A água ferve na chaleira e o vapor se junta aos


gritinhos do bebê. Bruna, meu amor!... Cadê mamãe? Cadê o
neném mais lindo do mundo? Ah, ela está tão linda, não
está? O pai faz que sim e abre a porta. Olha para os dois
lados antes de sair ao sol e entrar no carro.

Entrando em minha vida como entrara, Claudia me


envolvera com uma outra realidade, suficientemente nova
para permitir o sonho e aos poucos eu estava livre para
esquecer Blandine, pensava, junto de um vaso à janela.
Quanto a Nastácia, não havia por que me culpar, me usou
tanto quanto eu a usei. Era um adultério. Como a própria
Blandine seria.
Estou dando voltas.

Foi fácil convence-la. Por que não parávamos em Milão?


Ela não dissera que queria ver o tal desfile no Palácio do
Senado e fazer compras por lá? Se levasse em contas os
negócios de Nastácia em Roma e Paris, não deveria estar me
sentindo assim culpado.

Milão fervilha.

No parque, um viciado se aplica. Nas ruas dos prédios


luxuosos, boring people who think only for the money, como
dissera Claudia na carta. Duomo e adjacências. Quase toda
as cidades aqui tem esas ruas só de pedestres, é bonito e
muito decente. Ninfas grifadas no ar de haxixe e ravióli. Era
natural que a esposa de um milionário tivesse muita coisa
para ver por ali. Deixei Nastácia numa galeria e fui procurar
Claudia.

Alameda de bosque no burgo pós-moderno. Essa


catedral é como se fosem estalactites ao contrário. Acho que
é uma Ferrari. Avistei-a de longe, antes de chegar ao
endereço que me dera. Abraçada a um yuppie, se existem
ainda, seu noivo segundo as alianças nos dedos. Há menos
de um mês nos havíamos despedido! Estou chocado.

Faustos felizes feitos um para o outro. Aquela não era a


Claudia. Só se pareciam muito.

Quando recolhe o algodão do lençol entre os dedos, no


dia em que ia deixar Veneza, sente-se como a escolher as
palavras com que liberte seu desejo e antes o envolva nesse
outro gozo, manuseie o tempo que virá e, por ter vindo, irá
passar e, ao passar, deixará saudade, fresca como o tecido
acarinhado, feito os bicos dos próprios seios na banheira,
tecido de onde nosso cheiro pode emanar. Cosa stupida!
Treni... Poderia sim emanar dali o cheiro deles, deslocando
pelo quarto as percepções róseas da persiana. Não fugirá
mais, decide, soltando o lençol que lentamente se derrama
pela cama, nem mais desejará. A felicidade, se existe ou não,
se liga à expectativa, e é aquilo, a gota secará, é impossível
impedir, a menos que seja lançada no mar.

Ela me viu.

O rapaz entra numa loja de equipamentos de


informática. Ela se aproxima, mantendo o olhar e, quando
está a meu lado, a voz sai de sua boca de antes, sua voz
conhecida, era ela. Olá. Sim, estou ótima. Claro. Como assim,
Andrei? Sim, me sinto bem, não estou bonita? Não estou
elegante? Vim comprar um tapete para nossa casa. Olhe. Ali.
Não são lindos? Tudo aqui é muito chique. Os tapetes, as
escadas rolantes, as fontes, os computadores. Gosto tanto
de cada dia ali, olhe, naquela loja em que trabalho; é a
perspectiva de um vestido novo, sapatos novos, uma jóia,
filmes, restaurantes. Uma fita de vídeo, discos, como
chegaria a gostar de Dylan sem um aparelho de som? E
cursos, viagens, liras no banco. Sou tão jovem e perdi tanta
vida. Agora quero usufruir tudo.

A vida tinha de ser mais que isso, mais que coisas que
se conseguem assim.
Assim como? Meu Deus. Massimo apenas me arranjou
um emprego.

O contrato de trabalho é esse anel?

Você não muda mesmo, não é, Andrei?, quase sempre


tão gentil, como consegue ser assim grosseiro, apenas
porque vive em outro mundo e não aceita o mundo das
outras pessoas?

Você sonhava com outro mundo.

Talvez, mas não se vive de sonho, sonha-se no mundo


real.

Pelo menos, você ainda sonha.

Sonho. E durmo, e trabalho, e estudo. Não me olhe


assim. Ah meu anjo, o que você quer da vida?

Quero a utopia, até a vi um dia, nas suas lagrimas em


Veneza, em mim, no límpido reflexo delas.

Pobrezinho... Quantas mulheres no mundo não


desejariam não mais morrer só por saber que alguém como
você existe! Mas a mulher que se aproxime de você e o
conheça ao longo de uma semana, não mais estará
apaixonada. Onde você encontrará uma com quem não seja
assim?

Decerto não onde você encontrou Massimo.

Por que ele te incomoda tanto? Por que ele é rico? Ele é.
Ou por que não gosta de sofrer como você?

Você não sofre mais, Claudia?

Não quero mais sofrer, não quero mais tentar ser pura
num mundo impuro que não precisa de minha respiração. Eu
preciso do ar dele.

Cheguei a pensar que o alento de alguém poderia


bastar para você.

Você não existe... Que ar se respiramos adormecidos


num sonho senão o mesmo que se respira acordado?

Sou um sonho?

Um sonho bom, quem dera você existisse.

Um dia você inexistiu, onírica também.

O que te faz pensar assim?

Nosso inferno.

Uma viagem? Voltamos. O que você queria? Que


ficássemos na estação da utopia eternamente, esperando um
maldito trem que está fora de linha?

Foi um erro meu. Deveríamos ter reativado a linha.

Reconheço o trem, mas duvido muito de seu destino;


aqui meu destino é seguro.

Você o ama?

Massimo? Claro, por que não amaria?

Pela razão que leio em seu rosto.

Você lê meu rosto? Ali tem um espelho, olhe o seu.

Meu rosto... Um universo nos traços que se juntam na


tarde. Meu universo, a vida que eu vivo. Nela estão os meus
dias, os meus meses e anos, as cidades em que vivi. A tarde
é meu único abrigo, da tarde saem as reflexões que se
tornam meu mundo; e do espelho que é o mundo, apenas
meu mundo se reflete. Um espelho que amplia, ou reduz
conforme o caso, mas é sempre e apenas um espelho.

Ela me dá um beijo de leve. Um beijinho. Um selinho


que quase Massimo apanha. Agora, estamos apenas
conversando. Fiquei feliz de ver você, diz ela. Não entendo,
definitivamente não entendo; mas o incompreensível se
torna familiar. Ele se aproxima no terno reluzente, desviando
das pessoas. Então é assim que é um sujeito normal, um cara
bem de vida. Seja como for, o casamento não ira durar. Ou
nem se realizou. Estava numa passagem de carta cheia de
entrelinhas familiares, enviada para Lisboa.

Reencontraram-se, Claudia e Massimo, após ela ter


voltado para Muggio. O pedido de casamento a tomara de
surpresa e, ainda grata pela oferta de trabalho, não teve
como dizer não. Mas depois, refletindo. Na casa de minha
mãe não dependo de Massimo, muito menos de Antonio.

Quem sabe desenhar e conhece meu rosto fará


facilmente meu retrato juntando a pupila apequenada pelo
sol lisboeta, imaginando uma noite de chuva sobre o casario
de uma cidade do interior da Itália, batido de uma luz
enegrecida, escrevendo, à mesa do quarto, os cabelos ígneos
como da ultima vez em Milão; desenharia um homem na faixa
dos quarenta anos a quem não davam mais de trinta, olhar
distante, um ricto tenso e o cenho franzido à força da
imagem da jovem perante o papel de carta. Ela escreve.

Quero ouvir a sua voz.

Abraçada a Massimo, Claudia me acena: sinais sem mais


função. Nastácia estava chegando ao café onde ficamos de
nos encontrar. É o amor possível, pensei à saída do teatro.
Creio agora que sim, que poderei amar essa mulher, e será
esse meu final feliz.

De resto, era tépido o tapete que eu e Claudia


pisávamos, na entrada do centro comercial. Os espelhos
espelhavam, os computadores computavam, minha alma
sangrava – tudo estava em seu lugar.

Durante a estada em Milão, coroei com uma otite a


minha dor. Não somatização, modo de falar ou desconforto
moral. Dor. Ecoa a partir de cavernas em terra onde a paz
quase floresceu. As fisgadas falam de minha tristeza e, ao
tardar o efeito do antibiótico, julguei haver perdido uma
gratidão onde depositar minha esperança, na rua em que o
luar italiano absorveu toda a treva noturna em sua pureza
arredondada.

Um parque, um prédio espelhado, pontes, arcos,


cúpulas. Catarse! Assim, ao sentir o ouvido, emprestei à
felicidade os atributos do alivio. Não tomarei analgésico,
nem pingarei nada, não ainda. Esperarei da própria dor, pois
nada aqui conforta, não vejo o que possa diferenciar a cidade
de qualquer outra onde pessoas entediadas correm atrás de
dinheiro, exceto o que já conhecia dos programas esportivos
ou talvez se eu pudesse visitar certas igrejas, tirar fotos de
esculturas para mostrar a meus filhos, o que faria um turista,
e eu não sou. Enfim, logo Milão terá sido passado; e quem
sabe uma glória oculta esteja triste e tenha feito nas
pontadas seu abrigo pouco nítido e prudentemente
provisório.

Onde ele está? Cague...

Carrega-me por Madri, enquanto Oleana dorme, a minha


eterna questão: atentar demasiado em ser gentil, agradável,
em ser justo, querido, aprovado, ser reconhecido. Tudo isso
está numa ameaça de pontada no ouvido e num brilho de
cores básicas, comum às grandes cidades européias, que se
espalha pela Gran Via.

Hur är vädret? Que cara mais doido, pensa. Pega o


telefone, tira do gancho, hesita e desliga. Não. Mas queria
tanto que seu homem voltasse, surgisse da ausência do
brasileiro, ocupasse o lugar de novo vago na cama.

Madri. Edifícios assombrados. Os passantes me olham


com suspeita. Sinto-me desaparecer. Eu. Quem?
Perambulando perto da Caja de Pensiones. O parque agora
não está longe, um parque é sempre um alívio. Um telefone
público.

Havia nas cabines telefônicas de Lisboa um orifício pelo


qual se introduzia um arame, estabelecendo-se um sinal
ilimitado. Assim eu soube da morte de Donda Maria.
Perguntei a Kleber por que não me dissera quando mandou o
postal. Ela morrera dormindo. Estava melhor que nós. Não
adiantaria de nada te dizer. A vida é assim mesmo. Eu teria
preferido que ele não usasse tal clichê. A gente começa a
morrer quando nasce.

Nastácia e eu. Quando comecei a escrever o livro, se é


que será um livro (talvez seja essa a ultima desculpa daquele
a quem não restam outras opções de atividade e renda),
vivíamos na periferia de Lisboa, em Linda-a-Velha. Ao lhe
contar, em lágrimas, sobre a morte da mãe de Blandine, sua
reação me repugnou. Depois de um silêncio emburrado, ela
me disse que eu ficava ridículo a chorar por uma velha que
de qualquer maneira não veria mais.
Nastácia, acho que devíamos dar um tempo.

Devíamos? Claro, que momento melhor? você refez sua


vida...

E ela jamais deixara de manter a dela, com tudo que


estava incluso.

A que eu me referia, perguntou.

Você sabe.

Tudo bem, ela sabia. Não lhe falei antes porque queria
te poupar.

Não deveria.

Era loucura mas percebi que para ela se tornara


insuportável a idéia de viver sem mim, ainda mais do que eu
sem ela.

Do que exatamente queria me poupar, de vê-la na cama


com outro?

Transtornada. Como eu era ingrato! Mesquinho! Como


era cruel! Ela nada sentia por Jacques.

Quem?

O gajo que precisava ver em Paris, metera-se nuns


negócios com ele. É dele que estamos falando. Nada sentia
por ele e se metera naqueles negócios por mim. Sim, por
você, Andrei! Eu precisava acreditar. Ela só se realizava
comigo. Mas eu parecia só me realizar com o que escrevia.
Tive ciúmes dessa tal Donda. Abraçou-me. Quem dera
chorasses por mim! Só se realizava comigo, nada sentia com
os outros. Além do mais, era passado.

O pub é bem presente.

Suplica que a liberte dos outros. Querido, só contigo me


realizo...
Caminho portanto pela avenida Daroca. Penso no que
outros brasileiros em Lisboa disseram acerca das ligações
interurbanas sem fichas. Preciso falar com minha mãe.
Deixara o Brasil sem me despedir. Carrego a urgência do
sentimento de reconciliação. Acabara de fazer amor com
Oleana. Coisa estranha pensar nisso agora. Ela tinha sido
ótima, uma delícia. O que eu queria afinal? Eu queria Ploft
esbarrei num cego que Zapt me deu uma bengalada e Vaya
maricon hijo de puta! me fez esquecer a minha mãe.

Nastácia me espera na galeria em Milão, para irmos ao


teatro. Tomamos um café e fomos. Ao chegarmos a Lisboa,
passaríamos nos seus tios, em Povoa de Santa Iria. Depois
visitaríamos os avós, que moram perto de Sintra, pois ali
dissera aos pais e a Franco que estaria. Me confundia. Seu
casamento aberto tão cheio de cautelas e mentiras. Mais até
do que um casamento normal. Ela teme perder a fonte de
renda, explica. Com a vida que leva, será mesmo perda total.
Quem sabe existam mesmo reuniões de negócios pela
Europa.

Ternura. Noite estrelada. Mancando.

Quase oito da noite que ainda não aparecera no céu


outonal. Portugal ao entardecer, vindos da Itália. Póvoa de
Santa Iria. Apresentado como amigo do tio, um tipo que
negociava diamantes. Tratado com polidez excessiva,
constrangedora. Nastácia diz que estará treinando equitação
nos dias seguintes; realmente passamos em Cascais, onde
apanha sua égua.

Eu precisava acreditar que a amava. Aquele era o rosto,


a mulher de minha vida. Me redimiria do passado. Ou a
miséria absoluta no inverno que com o fim de ano se
aproximava.

Depois precisamos ver um amigo seu, o Miguel. Ela


ainda fala, Nastácia, enquanto sobe para tratar com a
proprietária da pensão. Assisto, embaixo, na TV, um
julgamento. Toni Ramos é o réu, Fernanda Torres surge
numa cadeira de rosas, acho que será tipo uma testemunha
inesperada. O juiz parece o Viloni, me esqueci o primeiro
nome. O acento brasileiro comove na tasca sob os quartos.

Bebendo uma coca. Rua Garret, o quarto. Entre


varandas e varais, as primeiras noites da composição do
livro. Porque os de bolso não contam, os faroestes, a
espionagem, os romances cor-de-rosa; por que o desdém
pelos mocinhos bem mocinhos que só existem por causa dos
bandidos bem bandidos, do escape, dos finais felizes? Com
Antonio, eu teria puxado a arma com rapidez invencível.
Nastácia seria a dona do bordel, de coração bondoso. Claudia
uma de suas meninas. Rachel, a guerrilheira doce e feroz.
Oleana, uma mulher fatal que quase desvia o mocinho; mas
não, um deslize apenas. Mario o melhor amigo, que
provavelmente no final da estória dará a sua vida. Outra, por
favor. Na ladeira, punks e darks grasnando, vindos dos cafés
da praça do consulado brasileiro.

Burburinho no saloon.

Muita gente na praça em que os agentes deveriam se


encontrar para fazer a troca do disquete pelo dinheiro. Rua
do Carmo. Busto de Pessoa. Um café. Arde em minha língua.
Ali se encontraria o casal após tantas intrigas e celebrariam
o final feliz com uma tirada bem-humorada antecipando a
noite de amor. Livrarias mais abaixo. Entrando em mármore
e degraus acarpetados, diante da vitrine, refletido, um autor.
Será reconhecido no final, mas para tanto terá de superar os
terríveis anos da injustiça do mundo e, com dignidade,
vencer os obstáculos do destino.

Obrigado, estou só olhando

Clássicos, lançamentos, e, diante da montra o menino


de rua, não, o cão, um cão de desenho animado, diante do
assador giratório de frangos.

Casais enamorados a buscar o fado. A noite ali sempre


efervesce, para os lados da editora até o mirante onde reina
o gigantesco pôster do filme em cartaz no cinema em frente
à boca dos Restauradores, o bar da sopa 24 horas e a cerveja
com tremoços. No alto da ladeira, os que chegam com a noite
ali descem trôpegos e risonhos, quando não há briga por
causa de mulher. Não raro o ofendido sacará o cinto da calça
para surrar o inimigo, com o risco de terminar de fazê-lo de
cuecas. Ternos impecáveis louvam aos gritos o golaço de
Mozer, goooolo!, Benfica! Da janela é também possível
escutar imprecações diversas, brigas de amantes, de gigolôs
com clientes, de meninas com gigolôs, de meninas com
meninas, vizinhas de porta, empregadas de pubs (tratados
assim mesmo, com esse eufemismo) a trazer clientes para a
hora extra, a gritaria nas tascas, o fado ficou escondido em
algum recanto, Ó pá te basa! O que caralho? Crianças na
noite pelas ruas estreitas, a música alta e hirta, bandos da
outra banda, Estás a ver?, Estou credo a rebentar!

A vida pulsa na imaginação do escritor que não acredita


mais em finais felizes.

Quando com sua mecenas se prepara para a viagem,


uma idéia insiste em sua cabeça – um romance, um romance
de verdade, em meio a tanta mentira, por que não? Ao
chegar de Barcelona, não perca tempo, meu amor. Que eu
me dedicasse apenas ao livro, Nastácia insiste. Não se
importe com mais nada.

Não havia mesmo mais nada com que me importar.

O quarto estava pago. Vamos? A Catalunha à espera.


Mas, nada é perfeito, será nossa despedida por um tempo.

A cidade não conhece limites. De Lisboa surgem todas


as cidades do mundo. Meu corpo não conhece limites. Dele
nascem todos os homens. Como na criação original, há é
claro muitíssimas imperfeições. Cidades e homens: crescem,
desaparecem, não sem que antes a vida se renove nas ruas e
nas avenidas, sobre o casario e no interior das casas. Uivam
os ventos, passam as pessoas, se aquecem, amam-se e se
odeiam perante mim.

Antes de partimos, Nastácia pegou a picape de Juan


XXIII, o cavalo de Miguel, que já estava num haras na
Catalunha. Insistiu em rodarmos por Lisboa para tirar umas
fotos, o que fizemos e interrompeu por instantes os
caminhos de muitos lisboetas. Também tirou muitas
fotografias minhas, sozinho. Só veríamos as fotografias
muito tempo depois, quando já estávamos vivendo em Linda-
a-Velha; mas já no caminho para Barcelona me levaram a
uma insônia de divagações. Senhor, podemos contar consigo
para tirar uns instantâneos? Condescendência sem fim com
os caprichos da benfeitora. Levou quase o dia inteiro.

Quando ela fez quinze anos, houve uma reunião dos


amigos. Bruna apenas provou o bolo. Andava com medo de
engordar. Mas não seria justo dizer que era por vaidade. Por
melancolia talvez. Nem se tente entender a razão de certos
sentimentos das adolescentes. Medo de chamar demais
atenção, por ser gorda demais, tanto quanto se tornar bonita
demais, pela mesma razão, mas aí teria jeito, uns óculos
esquisitos aproveitando o pequeno grau de miopia e um
penteado fora de moda. Não. Aí é que chamaria mesmo a
atenção.

Não sei mais o que fazer de mim, pensa ela.

Ou seria por ter medo de perder a plena liberdade de ir


e vir, de sumir, para bem longe daqueles cafezais, daquela
cidadezinha perversamente provinciana. Sonhava com ruas
decentes, com avenidas em que seria anônima. No fundo,
não sabia por que. Engordar, e daí? Tudo no fim colaborava
para essa paz de não ter no que pensar e assim acabar
pensando em qualquer coisa.

As fotos estavam junto aos demais papéis que caíram e


se espalharam.

Eu na rua da Prata, com um pesado sobretudo de


Nastácia, exagerado para o frio que efetivamente fazia. Ao
longe, o relógio tocado em reflexos pelo dia e dentro do arco
pétreo uma mancha esverdeada. Dom Jose em seu cavalo.
Também sozinho, eu lá pelos lados da Porta do Sol, numa
sacada. Embaixo, prédios envelhecido que fixavam às fotos,
inseguros e transitórios, sua vocação eterna. Além,
esmaltados no cenário outonal, o Tejo, cacilheiros, um navio.
Eu. Tomando água num bebedouro constante a céu aberto
perto do zoológico onde as vozes dos animais se cruzavam
no ar silvestre, domesticado, eu inclinado.

As crianças ao redor indiferentes, rodando no


brinquedo do parquinho, riam, davam gritinhos, eu sei, e
quase estava lá, na própria foto. Em frente do jardim, na
boca do metrô, sentado numa mureta, eu lia o semanário –
trazia a ministra da saúde, bela e poderosa, na capa em que
a tarja diagonal no canto superior esquerdo anunciava
matéria sobre a feitura do filme em que pela primeira vez
dividam a cena atores e desenhos ou, para ser mais preciso,
pela primeira com certos requintes de realidade, como a
sombra, como essa que deixo a meu lado na mureta.

Os macacos chamam a atenção das crianças desde as


jaulas. Eu, já sem o sobretudo, com minha jaqueta preta
cheia de bolsos e um tecido pregueado usado como porta-
caneta, sobre a camisa de veludo azul-lavanda, a olhar o
painel de emissoras de TV européias na galeria contígua à
estação dos correios. Na escada sob o rei João Primeiro pela
graça de Deus, a montaria com crina de passarinhos. Eu
beijando o canário da casa dos avós de Nastácia – eles
pareciam ter se afeiçoado a mim, manso como um rapaz que
condescende com caprichos da amante por medo da miséria –
na palma da mão. Os braços por sobre os ombros frios de
Fernando Pessoa. Na areia cascalhenta à beira do Tejo, vulto
de um barco no fundo espectral. Desejando os produtos dos
livreiros do Chiado.

É um registro histórico, mas ainda não sabe disso.

Eu no hospital do Câncer sob o sol que oculto retirava o


brilho às arvores e prédios em volta, ou deveria dizer a
luminosidade, talvez o lustro, o fulgor que a luz do dia
empresta em fotos às coisas, mesmo aos cantos mal-
cheirosos.
Mais para cá , meu lindo.

Com os papeis e fotos caiu também uma esferográfica


preta, quicando e sumindo debaixo da cama. Ah, ouvi falar
que fotos em papel se tornarão obsoletas; mas são tão
expressivas, tranqüilas, o mundo, a vida, amor em pedaços.

Eu diante do viveiro espelhado dos peixes róseos no


Centro Cultural.

Começa a fazer um friozinho.

O rapaz que condescende dirige o carrinho do jardineiro


da Fundação. Cada passagem entre as fotos fatiga-o mais
que os percursos. Os registros mostram alguém de quem ele
nada sabe. Nenhum daqueles homens, por exemplo, parecia
amar uma camponesa que partira para bem longe. Menos
ainda que por causa da camponesa algum deles abandonara
o país.

Por outro lado, estavam todos vivos e sabiam de coisas


interessantes que o rapaz que olhava as fotos desconhecia.

Um bonde. O cartaz publicitário no corpo do bonde.


Crianças de rua ao redor da estátua no Paço. Eu, iluminado
pelo flash, quase noite na Baixa taquicárdica, e de novo
olhos vermelhos, ajoelhado (rezei) na igreja de Madalena.
Molhando os pés à beira do rio, sentado no degrau de
musgo, firme no musgo. No museu de Lumiar não desejei
mais a memória do mundo mas a sobrevivência digna que
hoje me foge, tanto tempo depois daquela tarde. Eu numa
lápide. Na universidade.
Docas de Alcântara. Palácio das Necessidades. Parque
Eduardo VII, pracinha do Duque no Cais do Sodré. Partidas e
chegadas. Onde estão as bagagens? Sono, sono pesado, sono
vespertino de quem não terá onde dormir à noite. Aeroporto.
Rotunda, Paço da Rainha. Não raras vezes sequer sabia onde
estava, fugia qualquer coisa que se aproximasse de
consciência. Peito dolorido, cabeça pesada, dói mais no
burburinho do shopping Alvalade. Aqui, ah sim, com toda
certeza, é o templo do novo mundo, é tudo de fato o que se
tem do mundo, o rapaz que não se reconhecerá nas fotos diz
Vou ao banheiro um instante, e o alívio é maior porque na
volta – o mármore é frio, os ladrilhos azuis despertam um
tipo brumal de vida – a sessão está enfim terminada. Desce a
noite com quês de Juízo do qual ela e o rapaz se abrigam
num estranho filme estrelado por uma envelhecida Kristy
McNichol, não mais protagonista (o tempo), que é no caso
Sherilyn Feen. Nunca dormira antes no cinema.

Exausto. E a viagem nem começara.

Lisboa, 25 de agosto de 1988

Terminei o livro. Na verdade será apenas a primeira


versão. O final que a imaginação não me trazia, a realidade
trouxe. Desci as escadas com os olhos vermelhos por ter
chorado tudo. Bati à porta da dona da pensão para avisá-la e
usar o telefone.

Posso dizer que só conheci Madrid mais tarde, quando


fui de trem. Agora passando, cochilando, ignorava a cidade
de cima do metal sobre a taxa moderada de compressão,
motor continuamente ruidoso em minha continua
consciência, ou o que fosse. Não conseguira pegar no sono
na noite anterior, o cansaço das fotos não se fez acompanhar
de sonolência, além do que Nastácia, inteira na vigília,
também contribuíra, alegre e jovem, e otimista. Nada a
cansava. Eu escutava, longínqua, a discussão sobre que
caminho tomar até Barcelona. Quando meio que acordei,
Madri dizia adeus e só havia tempo para isso. Miguel acelera.
Aragão. Saragoza. Evitar o mediterrâneo. Por quê?

Ele tinha suas razoes e foi, não pelo caminho que


Nastácia teria preferido.

De volta ao cochilo. Imagino Girl na picape, majestosa


em seus oito anos, juvenil maturidade, joelhos baixos mas
eretos, peito forte, vigor e voluntariedade nas obedientes
espáduas. A vontade de sua dona. No entanto, uma égua
perfeitamente livre.

A tarde caminha quieta e calma no sentido de San


Domingo de la Calzada, lapida um crepúsculo latente entre
as crescidas uvas em época de vindima na região do rio Oja.
Estamos, nesse período com toques semelhantes que se
encontram entre o final de um ano e o começo do outro, a
caminho de Logroño, onde vivia a namorada de Miguel, razão
da sua insistência no percurso por dentro, não pela costa.
Algumas horas após Madrid, que calculei pela bexiga, nas
quais dormi afinal todo o tempo, às 18 horas, agora pelo
relógio de Nastácia, enfim chegamos.

Se Quixote aqui ressuscitasse, teria muito o que fazer.


É a o planejamento energético para o século vindouro. Mas
Quixote em mim ainda e sempre está ocupado. Ela estava
sentada, ah!, no sofá de colchões de encostos e almofadas
na varanda. Percebe o motor como quem ouve a voz de um
amigo.
Então Rachel se levanta e dá gritinhos, sacudindo os
braços em acenos por sobre a cabeça.

Miguel desce. Ela, Rachel, se joga sobre ele; enlaça-o


pelo pescoço. Gritinhos acastelhanados de alegria. Vestida
com uma blusa larga e cavada, rodada e rosada a saia de
linho, e rosadas as suas faces argentinas. Surge a
comunidade de Rosário, a capina e a leira de temperos, a
vassoura e o pano de pó apesar da alergia. O êxtase com que
tudo era feito: a alegria de vislumbrar no trabalho uma
introdução de Rachel. Semelhante associação mais tarde se
relacionará com a panha do café. E mais que a manutenção
de uma casa e seu quintal, o café, com sua produção de
muitas sacas de 60kg por hectare e aumento anual dos
hectares de lavoura mais três adubações, era serviço árduo
e, à medida em que mais árduo era, determinava quão
gratificante o amor de Blandine, quão mais intenso que o de
Rachel.

Estava mais bonita. A gente fica mais bonita com a


idade, Chris, eu acho. Tempo e espírito no semblante
manifestos.

Vinte anos há vinte anos. E daqui a outros vinte, quem


sabe.

Prelúdios de reconhecimento, prazer maior que um


esperado reencontro.

Permanecem abraçados após o beijo, Rachel e Miguel.


Chegam juntos à janela da picape. Cumprimentos tímidos,
um convite para entrar. Ela iria preparar os quartos. Nastácia
disse não, obrigado, iremos para um hotel. Ah nada disso.
Rachel não iria permitir nada de hotel. Etc.

Estranhas luzes no céu, brisas oceânicas no ar,


caminharam para dentro, abraçados, trocando beijos na
direção da rústica casa confortável, os cabelos negros de
ambos se entrelaçando e, entrelaçados, videiras e
jaborandis. Quando entraram, Nastácia aconchega a meu seu
lado o corpo quente da quietude ali quase catalã, quase
basca, quebrando em si a questão que ainda a chateava, da
rota direta que preferia. Aliteração: o desejo se repete em
momentos próximos. A rima entre as pernas, molhada. A
sensualidade sutil sua assonância. E todavia era santa,
separada das outras por um projeto de libertação mútua por
meio do sofrimento.

Inútil. Dolorido poema que se dilui após a leitura.

Rachel volta para buscar e acomodar os amigos do


amante. Que tomassem banho e fossem comer. Nada parecia
real. Mas nada demais realmente. Pós-guerra e pós-
revoluções, a transformação cultural transitando para
instituições permanentes sob uma falsa capa de novidade, a
suposta diferença entre a expectativa das gerações. Um
reflexo social que encontra certo olhar da juventude deles,
pouco mais que adolescência, mútua em ideais e desencanto.
Rachel e Andrei. Os olhos dela semelhantes às uvas, em
pacto silencioso. Distante Rosário, do outro lado do
Atlântico, talvez em outra vida. A quarta-feira se ergue na
névoa, um ultimo suspiro do dia. Esfriava após o calor ao
longo das horas de sol.

O quarto em uma cave agradável. Janela de caixilhos


azuis, como suporte para o vidro batido. Cama de mogno. Um
tipo de aposento que se mostra purificador. Dava para um
corredor branco, hun, quantas vezes não imaginado?,
aromatizado de vindima. Chega-se após cinco degraus.
Grades da janela em madeira torneada. Exala infância. Pés-
de-pato no rodapé, junto à máscara de mergulho. Ar salino,
apesar do mar não próximo. No exíguo aposento conseguira
Rachel acomodar fitas folk e muito livros, (titulo de um livro
que tenha a ver) à cabeceira – no caso, um pequeno espaço
de madeira crua que fazia parte da cama, um única peça. O
serrilhado largo das folhas recortava ali sua sombra, que
toca quando passo curvado, por causa do teto baixo.

Simpático, não é? Muito, respondo. Uma luminária


típica, igual à que eu havia comprado uma vez, importada,
por setenta cruzados, para Blandine, no Centro de Luz de
Belo Horizonte, com cabeça articulável e interruptor de
correntinha, vermelho. Uma única luz no quarto imerso no
chão riojano. Aranjuez (inserir um intérprete de), único disco
cuja capa estava visível. Um vaso vermelho vivíssimo quase
salta do cacto que lateralmente se propaga cintilante ao
feixe de luz que pela janela entra. Amor, vou tomar um bom
banho.

Depois do Jantar. Pimentões recheados a molho


ferrugem, regados a vinho da região. Você então não
acredita que esses movimentos, do feminismo ao ecológico?
Um pão caseiro de tenro se desmancha na boca. O orientador
de minha monografia quis que eu incluísse o código genético
entre os fatores das mudanças ideológicas desta década.
Obrigado, Rachel, a comida estava realmente ótima.

De novo os cinco degraus. O corredor está agora cinza-


escuro. Não há lua. Concedi a Nastácia a entrada na cave
antes de mim, simpático cubículo de desejos cumulado, num
gesto de mão espalmada, com um sorriso. Ela se troca atrás
do biombo. Camisola transparente. Cantarola em italiano.
C'era una volta. Senta-se na cama e sorri, separando
saturnal as sílabas do conhecido convite.
Anda cá...

Dormiu. Ainda viajo, em pessoal tradução dos assuntos


do jantar. Não há mais como a política ignorar a tecnologia.
Não há limite para a investigação científica. O sexo e a
revolução quase são a mesma coisa, como o engajamento e a
maconha. Porque deveria a Comunidade Européia se crer
imune à destruição a seu redor? Na há mais lugar a salvo na
guerra generalizada, travada agora também dentro das
casas, sobretudo aí. Todavia, no sonho, uma casa talvez em
Madri mesmo, férias em Irun e San Sebastián, viagens
editoriais para Frankfurt. Meu próprio negocio, paralelo à
casa publicadora de Barcelona. Beatrice um dia dirá: L
optimisme dês Français, Europe à heure de a livre circulation
des marchandises et des hommes, 12 pays, 350 million d
habitants. Enfim. Uma viagem, livre circulação pelo sonho,
um sonho bom na noite de Logroño, que infelizmente na
época em que de fato conhecerei Madri e Oleana estará se
desfazendo em doloroso despertar.

Levitando sobre o Rioja, a minha Europa, a branca dos


Pirineus, franco-catalã, ou sei lá como se diz, se é que se diz.
Doce prisma alucinógeno sob efeito de mim mesmo sem
droga exceto a esperança. Viajava por prelúdios de Liszt e
não dormi senão próximo da manhã, relacionando o
ambiente das fotos em Lisboa com um continente onde me
estabeleceria e criaria uma vida para mim.

Será que ouvi uma trovoada?

Nastácia, meu presente que sorrindo dormia.


Descoberta, matizada de luar, bicos de violeta. Tocados. Um
arrepio, uma inspiração, o movimento do rosto para o lado.
Acaso compreende? Assim nascem famílias, cidades, reinos.
Um toque e um pouco mais ao longo do dorso prateado. O
mar num rochedo. A noite no mar. O rochedo na noite. Um
enredo. Não sei se bom, coerente. Preciso, apenas preciso.
Ela acaso? O arrepio nos culotes alisados, uma onda súbita
na pele pálida. Os dedos fogem de mim. E quem? O rochedo.
O relâmpago. De novo. Ufa. Então aquele dia deve ter sido
um momento inadequado. Um duplo sem explicação ou
julgamento. Ela pensa. O que sinto? Amo-o? Integrei em mim
de tal sorte amor e sexo? As mãos dele são agora uma carta
de amor, mãos de jornalista. De novo. Um móvel arrastado. O
que foi a noite, não saberá ele pelas demais noites da vida.
Por quê? É a espécie, as coxas que se afastam, a calcinha
suave e demorada enrolando-se abaixo, escuridão no sulco, o
abrigo preciso do cuidadoso dedo médio. O rochedo no mar
na noite, no drama, na espécie. Estala o madeiramento da
casa em Rosário. Oito segundos, contei. Mas não pare.

O sol pela Rioja se derrama.

Em algumas horas, estaríamos em Barcelona, sendo


hospedados por Andréa, a bela esposa de Miguel. Nos
despedimos de Rachel após o café, que ela serve vaporosa,
cheirando a amor e a vinho.

Por causa da parada em XXXXXX, chegamos às quatro


da tarde. Sinto frio. Sabe, esse bulevar era um rio e
efetivamente vai dar no mar. Desliza a avenida. Hesito na
passatge de Marimon mas confio no futuro ao longo da
Diagonal. Quando chegasse a primavera meu livro estaria
pronto.
Andréa parecia bem mais nova do que eu imaginara
Talvez fosse até mais nova que Rachel e de beleza mais
sofisticada. O apartamento de Miguel, na Carrer de
Cartagena, nas proximidades do hospital, em termos de
Barcelona era até modesto. Entrem por favor, fiquem à
vontade. Guardada as proporções, e o próprio conceito de
simplicidade, era tão simples quanto a filial de Logrono.

Às vezes ele pensa que não está certo. Respeita


Andréa. Não saberia dizer como Rachel aconteceu em sua
vida. Também não parece preocupado com a resposta. Mas
suas temporas são altas e passam a impressão de que está
sempre absorto por algum dilema. Olhem a vista, disse ele,
como se mostrasse um pedaço de sua alma simples ao abrir
as cortinas. Seus movimentos são firmes. Lindo! Nastácia
parece sinceramente extasiada. Está pensando como sempre
em dar uma volta.

Depois do banho, ela me leva para outra sessão de


fotos; ainda não se enfadou do brinquedo encontrado na
casa dos avós. E fomos ao entardecer, depois do banho
introduzido pelo cheiro forte de café que impregna o
apartamento e chega talvez aos navios. A lua surge do cós
do dia, pessoas chapinham pelo cais. Vozerio, postes, luzes
dirigidas de uma lanterna. Sei que não há futuro para mim.
Já o admiti em meu intimo. Penso nisso quando Andréa serve
a torta. Ao passamos pela porta, ela juntava dois ovos ao
trigo, mais uma colher de manteiga, uma xícara de açúcar e
um copo de leite. Beijou o marido, limpando as mãos no pano
de prato. Deu dois beijinhos em Nastácia e me ofereceu pela
mão macia o calor de seu corpo. Ouve mentiras sobre a
viagem, pede licença para voltar à cozinha.

Não sabe direito porque suporta essa vida. Eu tinha


outros planos, Miguel. Suspeita que é por causa da
dependência financeira mas isso não explica tudo. Níveas
mãos passeiam pela forma untada com óleo de girassol.
Nastácia sente um desejo estranho de pedir detalhes da
receita. Sobre a massa na forma, cinco bananas em fatias.
Dado momento, caiu de sua mão a faca. Abaixamo-nos juntos
para apanhá-la. Ela pôs para assar, sugerindo que no meio-
tempo de 25 minutos nos banhássemos. A torta sabia a zelo
e lar e o café tinha no final um gostinho de família. A torta só
não ficou melhor porque o idiota do marido (não pode ocultar
o quê de a sério) apagou o fogo antes do tempo. Ah, por
favor, Andréa, tinha cheiro de gás por toda a casa. Tanta
devoción... por qué él no es así en todos los asuntos?

Adorei que o bolo estivesse solado, assim pude comer


mais, já que os outros apesar de tentarem ser gentis,
ficaram mesmo de onda. Ainda mastigava um pedaço quando
saí com Nastácia.

Sob as bênçãos de Monjuich, chovia fininho, guarda-


chuvas e capas e casamento de espanhol. Esse casal se torna
um vazio sob a chuva. Um cão puxa a jovem. Hospital,
estádio, galeria, museu, zôo, pela avinguda D´icaria os
prodígios da cidade. As árvores deitam sombras nas Ramblas
à travessia dupla dos vultos crepusculares.

Vou repetir. Um postal e uma carta. Dois sóis e luz


alguma. Primavera. Irei à noite para Madri. A noite anterior
foi difícil, não quero mais pensar a respeito. Minha
permanência na Europa depende do artigo, de entregá-lo no
prazo, de ser aceito. Pouco sei acerca de qualquer coisa,
incluindo a publicação e o pouco que sei também não ajuda
muito. Então me refugio na beleza das mulheres. Espanholas
agora. Quero dizer madrilenas. Irão me ignorar desde Atocha
até a manhã do dia seguinte. A estrangeira não, e de certo
modo as representa, as mulheres e a Espanha. Me percebe.
Me entende? Seria querer demais. Mas se põe bonita e
disposta para tomar café no bar onde estou após me
despedir de meus novos amigos (não sei posso chama-los
assim, mas não vem ao caso). Alguma coisa em sua noite, na
noite de Oleana, parece não ter dado certo, parece ter sido
uma noite difícil, como a minha própria noite anterior em
Lisboa. Sei que você vai se dar bem, dirá antes de dormir,
nunca li nada tão bem escrito. Pode ser, como diria o pai de
Mario. Mas vou me dar bem sim, penso ao deixar a casa dela
e entrar em Madri. Esse tipo de pensamento positivo que
nunca deu certo comigo. Estou na rua agora, procurando um
telefone. Levo uma bengalada, era o que me faltava. Tenho
brancos. Em que mês estamos? Sequer posso perguntar. O
que resta? Caminhar, caminhar. Para que mais mesmo eu
sirvo?

Massa de bolo nos dentes. Nastácia no tailleur crepe em


abotoamento duplo, decotado em V para afinar a silhueta
(sim, reclamava estar engordando, eram os doces) e saia
com detalhes em seda no debrum e listras que deveriam
disfarçar o avantajado dos quadris. Sapatilhas de camurça.
Mais poças, caminhos molhados, clarões. Um dois três oito.
Reflexos de vidro e água. Eu caminho, cheio de pose, como
se possível fora sair de mim. Ao contrário. Esse ser exterior
vai me afastando do que deveria ser eu, algo pequeno mais
inteiro, que deveria ser a minha expressão, uma escrita não
rebuscada e difícil apenas na medida da diferença na qual
acredito, mas preferia não existisse, impossível porém não
pensar na normalidade feliz, autenticamente feliz, depois de
Miguel e Andréa e de meus próprios sonhos antigos de
normalidade junto a Rachel. Mas tenho uma missão. Então
relevo meus erros e principalmente em relação a Nastácia. O
blazer enrugado sobre a camisa de viscose nova, me dá
segurança assim como a calça de veludo molhado. Em meus
olhos, vaidades primordiais, não pela perspectiva de
escrever um romance mas por estar na cidade das maiores
agências literárias.

Barcelona. Sagrada Família. Atarazanas. Ansiosa, a


mulher rói uma unha, subitamente pára, não sabe bem se é
amor, se paixão, ou até sentimento maternal, ele é tão
carente, que tipo de culpa era a sua, que era isso o que
sentia? Sentia saudades dos primeiros tempos do
casamento, quase podia dizer que sentia saudades de
Nápoles, aquela outra, de um tempo atrás. Teria talvez sido
diferente se houvesse recusado aquela carona? Talvez, mas
não tinha certeza, era tipo da coisa que se tem de acontecer
de determinada maneira, acontece. Atravessando a cidade
na diagonal, uma ou duas casas em que discerne rostos
sonhadores à janela.

Ah, pensou a jovem sonhadora, quanto desejaria estar


longe dali, porque ali passara a infância e ali a adolescência
A felicidade, a vaga felicidade que se torna a avenida, é a de
saber que posso caminhar para os quatro cantos da cidade
em meu blazer e não seria em qualquer momento
reconhecido. Nunca antes vi Nastácia roer as unhas.
Engraçado. Estranho. Raro, raríssimo. Não é nada engraçado
se sentir assim, adúltera, e por que se sentia? Não fora ele o
primeiro. Mas fora o primeiro a mexer com os sentimentos
dela, seria isso? O adultério se consuma mesmo no coração?
Feliz e infeliz. Sem possibilidade de ser surpreendido por um
rosto conhecido, por uma testemunha do passado, meu
insípido e louco passado pelas ruas do Rio de Janeiro, pelas
redações, pelos crepúsculos de Ribeirão, pelas lavouras do
sul de Minas. Plaça de Ciutadella. Ela pensa. Ele me olha
assim, acho que deseja estar só.

Planejo, ela até dá a impressão de pressentir, um


passeio sozinho no dia seguinte, por vagos sonhos de
libertadores inesperados. Carrer de Jerez. Quando voltar, irei
tocá-la com mãos amantes não presentes, inúteis de um
desejo encomendado.

Vejo na jovem à janela a mim mesmo, imagino que


espere alguém sincero, cheio de boas intenções, que a faça
rir, idealista, trabalhador. Um homem assim não existe,
pensa ela ao deixar a janela; no movimento cai uma migalha
do sanduíche. Então, na busca do night-club onde
deveríamos esperar Miguel e Andréa, eu havia perdido toda a
vontade de escrever o livro que Nastácia se dispusera a
patrocinar. Me convenci ao longo da caminhada de que a
salvação não chegaria inesperadamente. Eu necessitava
esperar antes em alguma coisa que a pudesse trazer. Carrer
dels Escudellers. Porque não existe um livro bom ou mau,
mas bem mal ou mal expresso, fiel ou não a uma idéia
anterior.

Do outro lado, surge a entrada do zoológico. Uma pena


não dar uma volta em Barceloneta, lamentou Nastácia, e
decidiu que antes devíamos comer algo. Deve ser o haxixe da
viagem. Sem mais palavras. O casal, a noite nascendo, os
bares. Um cão ladra, insistente. Paz nos vidros de cada
entrada, frágil como uma rosa oferecida a uma criança
doente. O casal descendo pela rua Granada, satisfeitos por
causa do alimento, dilemas substituídos por omelete.

No dia seguinte acordei antes de todos e sai pelas ruas


da cidade. Obras das olimpíadas. Respiro fundo sentado na
cerâmica. Mirador e casa rosa. Barcelona lá embaixo.
Aproveite o dia. O rapaz com a mochila me faz lembrar. Eu
tinha pensado em ir até a estação. O burburinho de novo,
soa agora como jazz. Eu pensara, bem, é a cidade de
Carmem, de Karina, nem precisava tanto mas sabe-se lá,
havia alguns contos na mochila, e é a capital dos escritores
sul-americanos. O vidro nas estruturas metálicas devolve o
movimento das locomotivas, vagões e pessoas nas
plataformas, e contém mais, reflexos essenciais e invisíveis,
assim como a torre da igreja guarda não apenas o sino mas a
aura inteira das badaladas, e as cintilações nas águas
refletem a tarde e também todo o universo pessoal, mais
amplo que o mundo em que se desenrola a História.

Nove horas, a partida para Austerlitz, a possibilidade de


estar num daqueles vagões. Um contato casual por uma
bagagem que cai. Gentileza de cavalheiro. Um convite.
Parece uma ilustração de enciclopédia antiga, santas antes
da canonização quando ainda eram filhas de camponeses,
pastoras. Todavia o pai é um homem de negócios moderno,
influente editor que me abrirá as portas de seu mundo. Na
verdade nem fantasia era. Eu tivera um editor assim nos
livros de bolso e Blandine era mais ou menos assim – tênue,
tênue separação, varandas, reis e camponeses. Nove horas.
A partida, a possibilidade de estar num daqueles vagões,
quase genro de meu editor. Não acredito portanto que tenha
qualquer talento. Já não tenho qualquer ilusão, e se devo
desistir de escrever, o que me resta?

¿Por qué él mira asi? Pega a foto do rapaz na valise,


aperta-a contra o peito. Pensa na noite anterior. O que
acontecera? Dera sua vida por aquele relacionamento!
Entregara-se, mas não, nada de posse, ciúme algum. ¿Y no lo
nota esta pobrecita al lado de él? Homens... Mas no fundo se
culpa, não fora capaz de segura-lo, só chamava a atenção de
caras comprometidos.

Avinguda del Marquès de l'Argentera. A felicidade enfim


nas pequenas coisas. A doce catalã que me seria dada em
matrimônio, meus dias de trabalho no moderníssimo 386 em
nossa casa em Bilbao, a perspectiva de filhos bondosos e
companheiros, orgulhosos dos pais. Com destino de Paris, o
pendular silencioso das 9 e 25, famoso por seu vagão-
restaurante, naquele horário estaríamos jantando na casa de
Miguel e Andréa, e súbito desesperei de fantasiar, do que fui
salvo pela morena que desceu do Genebra-Barcelona, de
corpinho e saiote, uma franja quase cobria seus olhos
amendoados na segunda plataforma, com ares humanos e
gélidos, blocos de gelo no mar, na noite, vida se arrojando
nos campos onde a treva floresce ao longo de trilhos e
estradas. A tristeza das coisas pequenas.

Saindo da estação que salvo erro chama-se França,


reconheci como meu único lugar o não-aqui em meio à dança
na praça, pedi a Deus por meus desejos e ao pintor nos
Capuchinos uma passa após a qual segui por Estúdios, subi.
Havia me registrado, na passagem pela catedral, numa
hospedaria na rua da marina, à espera do milagre. Mas nem
trouxe os originais comigo para o caso. Miguel dera a chave
de casa, coloquei-a num chaveiro comprado ao lado da
hospedaria e vinha girando-o no indicador pelas Ramblas.
Aconteceu então. Foge do controle, voa e cai numa cadeira.
Fui apanhar rindo, por efeito do haxixe, da avenida ou das
pessoas ao longo dela.

Um trem ao acaso nos subterrâneos. A depressão que


se estabelece após a euforia. Dá para tocar. Vaivém do
porto. Todos são eu e sou as roliças vendedoras de peixe
cuja Barceloneta ancestral se volatiliza no trecho do percurso
de carona. O velho reclama da prosperidade, da unificação
européia, da unificação espanhola, um absurdo, não quer
mais ouvir falar em mercado. No final das contas,
prevalecerá a singeleza da questão do indivíduo mais que o
complexo contexto econômico. Entende? Eu não entendia.
Talvez antes exista o progresso tecnológico e tudo se resuma
em que para muito crescimento da economia e progresso da
ciência não corresponda o benefício social. Ele me olhou e
não sei bem em que momento deixou de ser um catalão e eu
um estrangeiro a quem pregava. (expressão catalã)

Mais uma vez. Mergulho nas ruas de Barcelona após ter


concordado em que Nastácia e eu teríamos um adeus
(provisório, ela espera) num concurso de equitação na
Catalunha. Pagara minha pensão em Lisboa, tiramos fotos
uma tarde inteira. Encontramos Miguel e pegamos a estrada,
pernoitamos em Logroño. Rachel, flor para as mais doces
recordações. Barcelona, Andréa fazendo bolo, eu e Nastácia
saindo para novas fotos, eu saindo sozinho, e agora voltando
de carona. Condoei-vos dele, todos os que estais em redor
dele e todos os sabeis o seu nome, dizei: Como se quebrou a
vara forte, o cajado formoso!

À tarde Nastácia e eu nos cavalos. O que me fascina


afinal nessa gente afetada e me leva até a ter gosto em tal
convivência? Que droga de sucesso é esse que depende
tanto do muito falar quanto do dinheiro? Me vesti direitinho
para a ocasião, até passava por um deles. O lugar era fora da
cidade. O resto do dia entre a borracha negra com areia dos
picadeiros e os boxes. Frágil relação, relação sem futuro,
breve ilusão que assume um lugar no tempo.

Subitamente, como se afinal percebesse o óbvio, o


coração dela dói por ambos. Ali o seu amor, talvez, com a
certeza tardia e todo tipo de vicissitude peculiar a casos
assim. Sim, estava apaixonada. E de que adiantava? Ele não
era alguém para se amar ao longo de uma vida. E se o futuro
dele era sombrio, o dela naturalmente o seguia.
Encontraram-se tarde demais.

Tarde demais?, pensei ao fazer a cama de Girl, cama


que no dia seguinte também levantaria. Dei-lhe a mistura de
cenoura e cevada. Escovada, dá show no treinamento sob a
rédea firme de sua dona, espora atrás da cilha, trote
diagonal. Aproxima-se do obstáculo, estende e alonga a
coluna para frente ao intuir a intensidade do esforço.
Cabelos lançados para trás, Nastácia sofreou o animal e
desceu, levando-o para o boxe. Anoitece no bridão e no freio.
Eu o acarinho, acarinho Girl, que puxa minha camisa.
Nastácia rindo lhe dá o digestivo, mas é um riso nervoso, ela
não sabe o que fazer, não sabe mais o que fazer. Estava
chegando a hora e não havia mais o que fazer.

Deveria apenas acompanhá-lo à estação e cada um ir


para seu lado. Dizer. Foi um erro. Ou ao contrário cair em
seus braços? Nem uma coisa nem outra. Sobreviveriam.
Sempre se sobrevive, a tudo, e tudo se fará necessário para
uma melhora adiante, necessário como a chama no bastão de
incenso, tanto quanto o próprio incenso. Estamos falando de
crises pessoais, o que são diante do que passa o mundo
nesse fim de século, do que passou o planeta ao longo do
século – duas guerras mundiais, catástrofes naturais, fome,
Ao lado desse sofrimento coletivo, o que é uma dor de amor?
Existe uma dor de amor (donde existirá portanto o amor)?
Necessários foram um para o outro, ela o ajudou
materialmente; por meio dele, ela pode enfim, seja, amar de
verdade, sofrer por amor e sentir saudade, tanto do amor
quanto da segurança na falta de amor que para trás deixara,
não, não a poderia deixar, acabou, graças a Deus tudo
acabou, uma aventura, como tinha que ser.

Tudo assim transformado num final de semana da lata


burguesia adquire contudo a face do adeus que segunda-
feira nos daríamos, quando ela voltasse a Nápoles e eu a
Lisboa.

No torneio de hipismo, não posso me expor demais,


pela provável presença de amigos de Franco, o que
acrescenta esse outro clima à face do adeus. Eu não sei,
Nastácia, se poderia ter sido diferente, numa outra época,
realmente não sei. Ela encarna alguma coisa do Maio, um
intercâmbio entre corpo e teoria política. É, você tinha isso.
O poder do corpo era a imaginação no poder.

Mais algumas semanas e passaria o natal sozinho,


talvez, se já conhecesse Oleana, pensaria em encontrá-la,
como um dia ela irá sugerir, em Amsterdã. Natais solitários
como sempre, antes e depois de Blandine. Não dá para crer
que sobreviverei ao inverno europeu praticamente no
relento.

Não será tempo de uma nova canção de natal?

O rapaz que a atraiu, a beleza dele perdurou o tempo


exato que seus olhos levaram para se acostumar e agora
Blandine se refugia no quarto de Bruna como costuma fazer
quando entra em pânico ao olhar aquele redor estranho e
hostil dos telhados e casario, a Iugoslávia além do mar,
daquele estranho mar. Em Trieste não se sentia alguém,
sequer em algum lugar, estrangeira num outro mundo, numa
condição para a qual não estava preparada, que tipo de natal
passaria ali, depois de ter sido mãe?

Abril ou já será maio de 1988. Que dia é hoje?

A noite desceu sobre Madri e sou fim, louco sob a


chuva. Preciso desesperadamente encontrar alguém que me
seja referência, testemunho do que sou, do que fiz, do tempo
que gastei fazendo, que elucide fatos sobre os quais hesito.
Mas quem poderia ser, se chegara a Lisboa após as provas
de equitação há (quantos?) dias, sozinho, e sozinho ficava
horas a fio na pensão onde alugara o quarto a tentar em vão
sair do primeiro capitulo do romance, circulando nos
intervalos com a caneta vermelha os anúncios do Diário de
Noticias, e indo sozinho a redações e editoras receber
padronizados nãos, e sozinho viera a Madri no dia em que
recebi o postal e sozinho – Não... o breve período no Campo
Pequeno... – não não... com Nastácia, alguém num café, um
espanhol – sim, uma revista espanhola, um poema... a noite
madrilena.

Havia um postal.

Onde o pusera? Os bolsos. Não neste. Nem aqui. Noche.


Madri. Ele passa pelas jovens, os olhos perdidos. Deusas? O
tecido das roupas, os perfumes que usam, a casa diante da
qual subitamente parado sonha. Contempla-as ainda quando
as perde de vista, em coisas diversas, carros, muros, postes,
janelas. Uma diz à outra. Viu os olhos dele, tão arregalados?
Decerto está drogado.

Resta a etérea imagem dum vestido florido, o aroma da


alfazema se confundindo com a casa azul. Diante da qual. E
sobre a lâmpada do poste, rodeada de mariposas, o céu era
azul, quase negro, como os olhos de... Deus!... O postal da
noite ajuda mas não é suficiente. Precisava de alguém,
referente a mim mesmo, dentro da noite madrilena.
Precisava de –

Mario exclama. Ei, chico! Isabelle apenas sussurra. Que


cara...

Na rua General Margallo, encontrei-os em meio à


neblina. Um pouco antes, quis saber as horas. Talvez pela
chuva, o mostrador se apagara. O quê? Súbito sono. Afinal
de contas, há quanto tempo, onde, com quem, quem, o quê?
Quis voltar para casa, como se tivesse uma. Perder
vislumbres e recuperar a sanidade. Por outro lado, um
distanciamento, uma dissolução da saudade e da dor, sem
seqüela aparente – de resto sem qualquer aparência –, nem a
fome ou a consciência do relento, como – há dois dias, há
dois dias! Eu voltara! Mario, Isabelle, o postal... Os anjos
ainda velam.

Então perguntaram se já havia apresentado a matéria.


A matéria?

Maio de 68, não é? Ah. Não entregara. Deixei para


amanhã. Um carro passou chiando no asfalto molhado.

Mas será que haveria alguém lá num sábado? O ar


molhado na avenida, tênis emborrachados na calçada,
sapatos martelam e ecoam ao fundo das vozes
enrouquecidas.

Eu disse que o endereço do espanhol podia ser também


a sua casa, como quando tive minha própria revista.

E que tal, disse Isabelle, irmos agora?

Na aberta das nuvens, raios de Oleana, como o texto de


escritor irregular alterna trechos geniais e medíocres. Agora,
ela era minha beleza e genialidade. Nasceu no café da manhã
no bar, me acalmou, me deixou ser, e ficou lá adormecida,
sonhando talvez comigo, eu gostaria de pensar.

Sim, deveríamos ir. Mas se você não terminou.

Não digitei.

E o tamanho?

Conforme pediram, assegurei. Iriam comigo?

Sorriram. Claro que sim.

Assim meu trabalho foi salvo e entregue, e receberia o


pagamento.

Defronte do prédio do editor, olhavam-no. Realmente


gostavam dele. Mais que isso, Mario acreditava em seu
sucesso, gostava da sua escrita. Precisava agora todavia
achar o correspondente na forma de viver. Lentamente, a
lâmpada se acende sobre eles, e Isabelle percebe o tremor
em suas mãos, nas mãos do amigo. Problemas de abstinência
sim mas algo além, ligado mais ao caráter que aos nervos,
talvez à timidez, e sem duvida à má alimentação atual. Que
magreza... Sem dúvida é também o começo da decadência
física. O céu pesado contrasta com a lâmpada. Lá dentro,
enquanto Andrei e o editor acertavam, o casal trocava
baixinho essas impressões, esses sentimentos.

Havia algo trágico em sua figura.

Ao observar isso, Mario tocou os lábios de Isabelle com


a ponta de dois dedos. Se o amor existe. Ali estava. Ou o
que, não fora isso, seria o amor?

Telefonei para Oleana. Importa antes a dor que a


manutenção de uma mentira. Precisava vê-la, que me
amasse, e amá-la de verdade – minha mulher forte,
independente, minha deusa de lingerie preta na manhã.
Precisava. Amor. Embora não soubesse o que fosse. Percebo
que não, agora que Nastácia está em sua casa e Blandine na
dela, páginas viradas.

Precisava. E que isso apagasse meu receio quase


certeza do desencanto.

Ela está acordando. Onde estará esse débil mental?

Minha decisão agora diz respeito apenas a mim mesmo.


Importa portanto dar outra chance ao amor, continuar
brincando até que o brinquedo se quebre, ou sabe Deus.
Precisava. Ver Oleana. E o amor daria esperança, ou sua
ausência a necessária determinação.

Calafrios de amnésia percorrem resquícios do dia de


haxixe, amizade, reminiscência, sexo e cozido, e ruas
insanas. E a chegada dela, Oleana. As grossas coxas, saindo
majestosas do short verde de cós alto reluzindo à rotação,
músculos que sobem e descem, um elevador lúbrico pelas
costas das pernas cheias de desejos insepultos. O peso
escuro, as gotas no cabelo. Um olhar submerso de Mario
pouco sutil ao longo de espaços degustáveis.

Horas antes, quando passou a própria Isabelle, quando


a vimos, de madrugada.

Mon Dieu... Não estrague tudo, pensa ela, Ne fait pas


comme sa, não estrague tudo por tão pouco, s'il vous plaît,
mon amour...

Estranhei a principio o comportamento dele, mas não


foi uma sensação má, antes de alivio semelhante a uma
canção conhecida na voz de outro cantor. Apresentações.
Ola, Que tal. Mario, sorri. Sedutor? Isabel quer devorar o
fígado de Oleana. Ele explica a situação. Pergunta se Oleana
não quer vir junto. Para onde? Portugal. Bater apressado de
um coração. A noite na lâmpada do poste.

Por quanto tempo?

Uma semana mais ou menos.

Era o tipo de coisa que ela estava acostumada a fazer.


Seria ótimo.

Vocês estão de carro?

Não estávamos.

Na verdade, Oleana esperava desde o inicio que Andrei


fizesse um convite desses, afinal morava em Lisboa, mas não
quis saber a razão de Mario tê-lo feito, possivelmente
aqueles ridículos acessos de timidez do brasileiro. Mas tudo
valia a pena por um bom sexo. Realmente, pensou, valeria a
pena prolongar a aventura sexual em Portugal, antes de –
Mas no fundo tem receio de deixar Madri agora e o que foi
uma briga de momento, normal entre amantes, se prolongue
e venha a dar em separação, isso ela não queria, até porque
havia a perspectiva das férias combinadas em Aquitaine, na
casa da família dele.

A saída do trem não tardaria. O suficiente para


aproveitarmos um pouco da noite. Na noite há diferença no
ar, um clima partilhado de segredo. Aproveitar a noite – a
idéia surgira há pouco. A bagagem ainda por fazer. Todos
estamos alertas a esse novo mundo que espreita. Todos,
acredito. Eu certamente. Vivo enquanto a cidade dorme.

A bagagem não é problema, meu amigo. Dá tempo.

Minha bagagem, a velha mochila, que bom ainda tenho


esse pertence, uma testemunha, que bom ter coisas. Ser e
ter, falsa dicotomia! Possuir coisas. Minha Oleana. Será
mesmo? Acredito. Ela corresponde ao beijo. Depois diz que
gostaria muito de ir a um lugarzinho maravilhoso cujo ponto
parece que está vendido.

Passos ecoam na região da Praça de Espanha. Os carros


passam e dois casais aparecem nos vidros. Noite plastificada
nas poças. Friozinho. Nas vitrines tanto a roupa de
enfermeira como o vestido de noiva, algemas ou a capa dura
de um livro, ou ainda caixas da medicação que Claudia tomou
em Veneza no auge da crise. Os reflexos são de rostos
amorosos, de ereções dissimuladas, de coxas luzentes, de
casas bucólicas, de campos eternos, de velas que tanto
podem estar em candelabros ou em lápides, de sandálias
prontas para fugir ou voltarem para casa.

As vitrines... eu... eu... A sanidade de um homem que


esteve para perdê-la. Afirma-se, ratifica-se, se diz presente.
Por quanto tempo? Escapara, retornara, não tornara a sair.
As luzes de Madri dizem de mim, significando a força de
meus espantos no limite. O transito ruge. As luzes de Madri.
O céu é um sentimento. Ali estava de novo, quem sabe um
novo e derradeiro começo. A lógica do sonho preenche meus
passos na noite pela avenida Conde Duque difusa duma
substância estranha, de milagres.

Eis ali. O lugarzinho maravilhoso. Um garçom com cara


de índio indicou gentilmente uma mesa e torna a tocar sua
flauta. Cervejas. A ultima vez que bebi bebida alcoólica.
Isabelle entre as mesas, tensa, musa subitamente
encurralada. Não o são todas em algum momento se o cara é
um sedutor? Uma luz que vem da rua, guarda um tipo de
voluta, olha só, como se a lua se revestisse, ela percebe. É,
pode ser. O sorriso de Isabelle, terno mais que irônico, a
mulher do amigo. Paredes de madeira, janelas sem vidro, no
olhar e não nas coisas a diferença. O corpo, a música,
tocando detalhes. Queria que ficassem.

Volte então, volte um dia.

Quando peguei o relógio percebi que voltara a


funcionar. Oleana fala. Você esqueceu papéis em minha casa.
Mario sorri malicioso, naturalmente pensa em cocaína, no
final das contas é bem bobo para o grande amigo que eu
pensava ter descoberto. Eram dois cadernos e papéis soltos,
não é bem que deixei, eu esperava voltar. Nesse momento
quero falar sobre a perturbação mental mas não tenho essa
liberdade, não me sinto tão à vontade assim. Lá fora o
cenário são transformações de luz em torno de
possibilidades.

Hombres ridiculos, os olhos dele em meu colo, really


ridiculous, um colo pálido totalmente desnudo ainda mais
desnudado por olhos muito vermelhos. A mão segura o copo
sem anéis nos dedos culminando em unhas retas e rentes –
Isabelle bebe um grande gole e estremece, seus braços
tremem, se arrepia. São poemas, sabe, Isabelle, e anotações
para uma matéria, inclusive as notas que estavam no colo
dele quando a gente se conheceu no metro.

Ele tem talento, você não acha?

Mario zomba dos erros e da pronúncia.

O pêndulo no espelho: o que vejo não existe mas é


tudo. O filme da vida. Olhares. Pés cutucados com fora
debaixo da mesa e o sutil sorriso de Oleana. Fortalecido.
Rimos. Imperceptivelmente, não o bastante, Isabelle baixa a
cabeça, também ocultando um ricto, satisfeita. Estava
amando, voyez, um cara conhecido ainda ontem, qui?, e nem
era assim tão bonito, quase diria nem possui atributos claros
para chamar a atenção de um a mulher, mais je ne suis pas
vraiment une femme.

Há ainda meninas de dezenove anos no mundo.

Oleana, o que fazia quando liguei? Eu a tirara da cama,


respondeu. Sim, e subitamente, já passados os quarenta e
com alguma dificuldade residual, o dia não ensombrara o
pássaro na hora do encantamento. Tirou-me da cama, mas
nada que não pudesse ser consertado. O trem para Lisboa
tem cabinas muito confortáveis.

Unidos pela sétima cerveja, a raça humana se resume a


nos quatro e cantávamos, um canto alegre e tranqüilo. Por
quanto tempo? Cantemos, envolvidos pelos druidas saídos da
mágica de uma flauta.

Agora há estrelas no céu. É dos ultimo dias bonitos de


uma época de certo modo tranqüila, salvo é claro o
reencontro, que de algum modo estava também ali, como
esperança ou quiçá medo, porque afinal Blandine ainda era a
razão de ser da sobrevivência, adormecida no sonho da vida,
que não passa mesmo de uma longa e estranha canção.

Cochilando no trem, regresso a meu principio, ao


primeiro poema europeu, o inicio do livro. Começo dali, a
caminhar errante pelas ruas da Luanda dos embondeiros e
palmeiras ao vento. Retornarei em prosa a meus poemas, se
tiver alento para tanto, e será um tipo de terapia nos meses
seguintes, mais que o aspecto redentor da literatura, se isso
existe. Estrutura de romance. Sigo com a poesia sobre os
negros falando português com acento e o seguinte, escrito
no avião para Paris, sobre o submundo do Campo Pequeno.
Depois as ruas, praças e metrô parisiense, metáfora dos anos
sessenta, culminando com os versos sobre Jim Morrison
sepulto. Naturalmente, vinte anos há vinte anos, e por aí.

Amanhece. Na descida em Santa Apolônia, de onde há


uma semana tomara o trem para Madri, estou com uma
mochila nova, e por que parece também um lugar diferente?
Mais amplo, é uma estação bonita. De algum modo você
começou uma nova vida quando entrou naquele trem. Olho
para Mario, tenho de me certificar de que fala a sério.

Na noite de sábado, em Madri ainda, pernoitaram altos


de flauta e cerveja, no apartamento de Oleana, amigos,
Isabelle e Mario no sofá aberto. Acordam famintos e tomam
um belo café da manhã na própria estação, onde as
passagens foram compradas. Ficam à espera do horário nas
imediações das praças do Sol e Maior. Chegam em Portugal
quando o domingo declina.

Defronte do Museu Militar, decidiram comer alguma


coisa e àquela nova fome veio se juntar um desejo de
silencio. Como assim? Que coisa mais estranha e idiota, são
mesmo chatos e estúpidos.

Apanharam as mochilas no chão e seguiram pelas ruas


da Baixa, no paladar bicas e bolas de creme. Por um
momento há a aproximação úmida pela rua Santarém,
incluídos no espaço-tempo português pela aura das roupas
pétreas de São José. A primavera se aproxima do verão e o
frio esmaece numa brisa que quase podia ser interrompida
com a palma das mãos.

Somos nós.

Isabelle é causa de algo próximo da angústia, alguma


coisa bela e dolorosa, ao afivelar as sandálias em frente ao
correio na Praça do Município. Não sei o que é isso; se não
está ligada a sexo,que tipo de sensualidade é? Era dedos
gordinhos, com unhas arredondadas mas também cortadas
rente. Os pezinhos, ligeiramente inchados, despem-na de
seus segredos. E ainda que eu não o desejasse, que não o
esperasse, ao desviar o olhar para a fachada da posta-
restante, perco-me em recordações, brigando com o coração
esteta. O maléolo lateral, com jeito de cúpula, seguia na
linha que levava às pequenas rugas da sola rósea na
sandália, em toda a extensão ao longo da qual iria nascer
como uma frutinha o dedo mínimo.

Dieu de pitié... Esse jeito com que ele olha, a um tempo


lascivo e ingênuo, todos os detalhes da gente... Vê-se que
não faz por mal. Ela olha a própria perna dobrada,
formigando quase, e mexe os dedos, todos juntos primeiro,
depois um a um, lentamente. De algum modo, pressente.

O quê?

Olha nos olhos dele, sem cobrança ou desafio, mas os


olhos já deixaram o seu pé, então naqueles olhos vê sua
mãe. Oleana não sente nada por ele, non, e lembra em
seguida como sua mãe foi abandonada pelo marido. Elle ne
l'aime pas lui, Oleana realmente não o ama. Desvia o olhar
para a moça da Suécia e o vê, o padrasto, aquele canalha se
insinuando no quarto enquanto ela dormia, enquanto
acordava, aquilo era violento e injusto, até mesmo como
fantasia, o corpo fazendo sombra à lua. Ah, poderia matá-lo
se voltasse, decerto o mataria se o tornasse a encontrar. Mas
sua mãe o amou tanto(como podia?). Então não sabia mais se
o mataria, não sabia mais de nada.

Foi um tipo de choque, mas não algo mau, quando seus


olhares se cruzaram, num átimo, deixando o dele a barriga
clara, com arrepios, frágil pedaço de céu cor da pele entre o
cós da saia e o inicio da blusa azul-clara – como se ali
houvesse uma alma –, e o dela saindo da boca lânguida de
sua mãe apaixonada (lábios carnudos, serão os de Andrei
femininos ou masculinos os da mãe?), e um ao outro
velaram, e quase ela foi encontrá-lo nessa outra dimensão
sem segredos. Gostaria de tê-lo como confidente, falar de
amores súbitos, de ciúmes até então desconhecidos,
sobretudo de receios, receios de perda, porque encontrara,
um confidente confiável porque os olhares indiscretos podem
ser antes murmúrio da intimidade franca possível entre
amigos de sexos diferentes.

Quando por fim o corpo de Isabelle se integrou à


paisagem marginal em meio ao odor de rio em nuances
cintiladas, ruidos monótonos de marolas e batidas de barco
na beira do cais, a luz ofuscou a imagem dele, com o que o
momento passa, passa o sonho e acordam, no momento em
que o cacilheiro range, a gaivota grita, seu corpo grita, e ali
estão os três, Mario, Andrei e Oleana, à sombra da estátua,
agora com uns dez graus menos de inclinação,
proporcionalmente acompanhada pelas sombras de cada um.

Ouvi na gaivota a respiração de Claudia nos signos de


sua carta, junto a meu coração. Em algumas passagens de
espontaneidade ofegante, noutras pausadas de cálculo, com
rascunhos, a lentidão com que desenhava certos trechos e os
cobria e recobria com a esferográfica, num negrito artesanal,
ou a velocidade de um pensamento por demais caótico para
ser devidamente expresso, ao menos expresso por meio de
uma única tentativa nítida, sob um longo suspiro,
atropelamento, vontade de dizer pela censura de si mesma
recusada.

De quem é essa carta? Deixa eu ver. Tá bem, tá bem, é


um direito seu, todo mundo tem seus segredos.

Outras passagens estavam descaracterizadas, sua letra


corrompia sua escrita.

Não estou inspirada, pensa Claudia, Io sono così stanco.


Nem sei se devia estar escrevendo para ele, mas no futuro
fará diferença, acredita, será um registro. De resto era-lhe
tão grata!... Ma che noia. Era uma troca cruel, o efeito pelo
tédio, e mais cruel precisar do efeito para não ficar
entediada. Bene, bene, Vamos lá. E escreve. “Na noite a
chuva, e na chuva as lembranças. E, nas lembranças da
chuva, traços que se juntam e desenham teu rosto”. O que é
a vida? Não sabe se deve falar mais de Antonio, não sabe se
deve ainda lhe dar esperança. Ter esperança. Sobretudo não
sabe acerca de Massimo. Estava livre, agora que o noivado
fora rompido?

Fora rompido?

Os raios de sol reescrevem algumas sentenças


eletrificadas sobre minha cabeça, e as frases correm todas
na direção do epílogo. Os cacilheiros, os correios, o Tejo,
talvez as tágides, interlocutores últimos após a abstinência,
quando eu passasse por ali mais tarde com Nastácia, sublime
e sonoroso. Então eu não sabia que era um impasse. Não há
como ser um escritor de qualidade, com experiência de vida,
porque ou se está vivendo e tendo experiências ou se está na
frente de um papel construindo frases. Em um sentido
importante são coisas excludentes. Por definição um bom
escritor é alguém sem maior experiência de vida e alguém
experiente jamais será um bom escritor, pelo menos num
nível importante da prática, do viver portanto, e também da
teoria, dum outro tipo de viver, talvez não menos
importante, mas um obstáculo definitivo no tempo.

São dois momentos. Quando a experiência acontece e


quando a recordação a vivencia. São dois momentos?
Baseados, a viagem, um registro rascunhado, mais tarde a
melhor expressão.

Sei lá, cara. Vamos acender outro. Give me light? Lépida


Oleana e seu lépido isqueiro. Fiat lux! Vira-se para Isabelle e
pergunta se está tudo bem. Ofegando castanha pela Garret,
Tout va bien. E como todas as coisas iam bem quando o
sorriso de Isabelle se abria...

Mario está feliz, não se agüentava de tanta felicidade, o


que significava num tipo de eufemismo pactuado que não via
a hora de chegar num hotel, ele era muito criativo nessa
espécie de coisa, muito mais hábil do que eu com as
mulheres, um perfeito egomaníaco como eu mesmo não
queria me reconhecer. Sentei-me a seu lado, sob a estátua,
em frente ao consulado brasileiro. Parece bem cansado para
tão propalada energia.

Descansemos.

Lera em algum lugar sobre certas pílulas, mas não creio


que estivessem disponíveis. Perguntou-me se ainda faltava
muito.

Nada. Tá pertinho.

As ruas da Baixa antigas e simpáticas com suas paredes


escuras, manchadas, sujas, descascando. A fumaça de
cigarro se misturando à das refeições de tantos restaurantes
vizinhos, minha sala-de-jantar durante tanto tempo. Uma
pensão, de fato quase imperial, um hotel na avenida que
fora, ela própria, praticamente um hotel para mim.

Meu Deus, já estamos em maio. Há vinte anos mesmo...

Som brasileiro nalguns pubs, fado em tascas que


cheiram a cerveja e cigarro artesanal onde estaria
inconformado por ser tão tímido, logo ali o Bairro Alto, tímido
e nervoso por não conseguir me manter quieto, falo demais e
sobretudo me deixo demais levar pelas asas da minha dor.
Belos dias, apesar de tudo, nos quais eu conseguia
sobrelevar a mim mesmo, enquanto as pessoas passavam e
agora Oleana, depois de dar fogo para um segundo grupo, ao
terceiro se negou.

Chiado. Olha a pombinha rodando nas pedras do café.


Que sensação é essa?

No hotel. Após um banho, saímos.

Estamos procurando um alemão que conhecêramos no


trem, é para pegar a chave de seu trailer num camping. O
frescor dos corpos logo comprometido pela nova caminhada,
voltamos pela escadaria esbarrando em copas muito verdes
e baixas num farfalhar suave, imperceptível exceto por
sentidos de haxixe.

Na estação do Rossio, cujo horário mais nobre o


brasileiro integrou duas ou três vezes por semana na época
de Filomena, ali entre réstias de luminosidade que
atravessavam os telhados além dos trilhos e batiam
douradas na parede úmida dos sanitários, juntando-se aos
passageiros com destino a Aveiros e Óbidos dobram à
esquerda e continuam descendo, imersos em si mesmos dão
uma impressão de blasé (mas estão apenas cansados),
ansiosos pela tal chave. O que importa agora é descansar um
pouco. A necessidade cria importâncias, mas chega um
momento em que a necessidade é pura necessidade.

Estou particularmente ansioso pelo mar. O mar sempre


me bastou como felicidade. Ao atravessarmos a Liberdade à
altura do obelisco, pairou sobre nós uma aura como se fora
uma revelação. Estou tão não sei, angustiada, como se algo
tivesse me feito sentir todo o peso do mundo, estou mesmo
muito cansada. Haverá um consolo no final, uma redentora
introspecção que dê sentido a essas impressões?

Não sei o que essa angustia pode significar, Isabelle,


talvez tenha a ver com esse outro Fernando Pessoa – uma
escultura ou sabe-se lá o que de ferro retorcido, peça de arte
pós-moderna signifique isso o que significar, a propósito de
seu centenário. Efemérides, eis ao que no final somos todos
reduzidos.

Oleana pensa o quanto esses dois são complicados,


feitos um para o outro, talvez tenha feito mal em rejeitar a
paquera de Mario. Deixa de ser cínico, disse ele, puxando a
barba do brasileiro, você adoraria ser lembrado assim daqui
a cem anos. Io penso come questo. O próprio fato de
escrever por si já acusa os escritores.

Dormimos num hotel em frente ao coliseu, cartazes de


Leonard Cohen à janela do saguão e fotos de Rebeca de
Mornay nas revistas espalhadas na mesa. Amei Oleana
desesperadamente no 312, sem janela. Ainda escutava os
gemidos delicados de Isabelle através da parede quando
adormeci.

Ne me quitte pas. Mario sorriu docemente fazendo com


a cabeça um sinal de que não, jamais a deixaria.
Estivemos toda a semana no camping, no trailer do
alemão. Nadei, nadei muito, como se gozasse o velho mar
pela ultima vez, dividindo-o eventualmente com um e outro
adepto do windsurfe.

Oleana na mercearia escolhe cuidadosamente a marca


da massa para o almoço. Comprei uma vez lá em Madri e
gostei muito. Cidade pequena, tudo tão junto. Aquele molho
de tomate me esqueci o nome. Nem lembrava tampouco o
nome dele, e nem se comparava: o brasileiro era um faminto,
um cozinheiro faminto; o outro, um sofisticado chefe de
cozinha. Seja como for é o que interessa o momento
presente, hedonismo ou lá o que seja.

Agora saí do mar, a luz inunda um mundo esquecido


sem protagonistas. Fidelidade seria a renovação da mente
contra o século, a vitória do livre arbítrio? Passam dois gajos,
Que vento, ó Simão! Me vi a mim mesmo nos olhos de
Isabelle e depois também o olhar de Mario me espelhou. Pelo
menos não estava só. Olhei de cá longe, na calçada Oleana
com as sacolas. Mais um dia. Outra refeição garantida.

Quando chegava a certa distancia, lavado e preservado,


vi pontos ao longe, meus amigos e as casas banhadas pela
tarde oblíqua incidindo no resultado final do silêncio na
duna, cenário da futilidade dos planos e inutilidade das
mágoas no tempo presente que a todos absorve e no amor
de agora que todos os amores resume, não bem no silêncio
mas no sopro do vento que não se sabe donde vem e nesse
desejo molhado enquanto Oleana passa no alto e sequer
olha, luzidia de coxas a tremer firmes em direção do
açougue. Não tenho um amor presente, não tenho ausências.
A carteira não está comigo.

Ao sair da água pingando, Isabelle me embrulha na


toalha. Atordoado. Uma voz alienígena, naturalmente eu. Um
discreto sinal afirmativo com a cabeça e uma passa no SG
Gigante que Mario coloca em meus lábios, preparado.

A praia de São Martinho do Porto sobe para a falésia à


esquerda. Acorda-se com o vento grandes expectativas nos
amanheceres. Na rua General Carmona ao chegar à Marginal
o azul do céu se escurece na linha do horizonte e se adensa
quase ao negrume no mar alto além do formato de um U
largo. O marinheiro observa absorto o salto de um peixe.
Entrava na baia junto às rochas, estava de volta enfim, de
volta para sua amada. Todas as noites ela reza pela sua
volta. A consciência da vida adulta, pensou ele, apenas um
jovem de vinte e um anos, essa consciência afasta a
perspectiva exata das coisas que tínhamos quando
pequenos, deixa em seu lugar como compensação um
encanto às vezes assemelhado ao sonho, parte de uma
existência menos nossa e por isso com as virtudes do que
nos parece irreal, espíritos, ou nós sob outra ótica.
Esverdeia-se depois o mar nas ondas e logo o branco sobre o
verde prevalece. Como um efeito, um efeito da luz.

Creio que foi numa quinta-feira. Usei a viagem como um


pretexto, assim, sem pretensão de enganar, questão talvez
de gentileza. Mas queria ficar sozinho, Oleana já me cansava
e com Mario e Isabelle eu me sentia demais. Nunca foi o meu
forte dizer coisas desnecessárias, a franqueza dura.
Combinei encontrá-los em Lisboa. O tom dos campos oscila
no Alentejo entre o verde e azul, filme passando na janela do
carrinho alugado. Um castelo. Campos salpicados de aldeias
brancas em meu sentido inquieto por um desejo de Oleana
insatisfeito. Compro-lhe um presente em Obidos, uma ânfora
típica.
Subi a picada na direção branca num monte e tomei
vinho com um velho na porta de sua casa de lilases.
Fumamos. Mas logo ficou claro que não era aquele meu
destino, criar porcos, cultivar oliveiras. Maravilhado com os
montes e o mato ocre e brilhante, extasiado com a canção
dos pastores a se derramar dos cumes ao infinito, aquele
porém não era o meu destino.

Quem o acordou, nesses locais extraordinários, não


possuía a fragmentária sabedoria dos planos de ontem, era o
deles apenas um olhar desatento diante do ocaso. Aqui
estamos não disseram, nem viram os efeitos da luz no
detalhe encantado da presença.

Não sentiu qualquer falta dele ou que o lugar dele na


cama estava vazio. Está inquieta de lembranças não dele,
não, não dele. Em algum momento chega a ouvir uma voz,
não a dele tampouco. Não saberá precisar a razão de tanta
inquietude. O que é isso? Passos no corredor da pousada, o
vento ecoa, é filtrado. São Martinho do Porto, conhecida por
esse vento. Este. Que discute com o mar. Prolixo, não frio.

Mario e Isabelle agora no andar de cima. De alguma


forma, a pequena Oleana em 1968 preparando suas coisinhas
em Linkoping para a viagem. Ou na sua noitada de
adolescente na Grande Londres. Onde vocês foram? Um lindo
casalzinho, todos acham pelas ruas do povoado. Romance na
noite, a noite em Madri recuperada. Barcelona juntos? Passa
a ser uma idéia. Oleana adormece. Nunca sonha.

Peguei uma carona naquela mesma noite para o Algarve.


Vai ser bom para mim uma companhia, disse o rapaz, é um
caminho cansativo. São quase cinco horas, tantos quilômetros
de distância entre Obidos e Vila Real Santo Antonio. Estou a
me sentir o próprio Quixote. Como se chamam aqui? Os
moinhos giram, um espetáculo, marionetes na mão de um
artista experiente. Nunca nada foi fácil para mim. Uma cara
de dãr, de Não estou a entender – acho que esse gajo – Como
assim, destino?

Mudei de assunto, naturalmente. O importante é estar


vivo, o importante é ter saúde, o importante é saber de cor
todos os clichês, o importante é impedir a extinção do tigre
siberiano. Com que então você é um militante ecologista! Ah
eu não diria assim! Falemos portanto das águas limpas do
Algarve, verdes muito verdes, transparentes, conhece São
Martinho do Porto?, as falésias lá também – falemos pois de
outras coisas – das marinas lotadas, ele decerto há de ter um
barquinho, Ora pois, – das aglomerações das calçadas em
Lagos, desse tipo de reflexo laranja que só há em ruas sem
carros na Europa – um carrossel na rua? – e, claro, camelôs,
mas camelôs de primeiro mundo. Mas me diga: dependerá a
memória de uma filmadora? a locomoção de um carro? o mar
do turismo? a luz de fusíveis? Dependeremos um do outro,
Blandine, quando estivermos juntos afinal?

Essa coisa das estátuas vivas está mesmo pegando no


mundo todo portanto não mais falemos de nada exceto se
falarmos de tudo, repare o vento na esplanada, como
incomoda os clientes e faz as toalhas tremularem, por isso
não quero mais respostas selecionadas. Marionetes – o que
será que ele quis dizer? Essas casas brancas introduzem o
norte da África.

De novo a estrada, bandeiras, uma prancha de surfe,


imagino que seja um restaurante de beira de estrada, é mas
temos pressa não é?, é temos presa, então sigamos, embora
eu só saiba de um sono especifico cada vez mais próximo, do
haver tanta gente em lugares que não existem, em frente sou
a estrada, o sono que não concilio, a noite que chega, sou
ninguém a meu redor em Cacela.

Evidencia-se pelo tipo de calçamento e sinalização que


estamos chegando em algum outro lugar – eu nunca chegarei
– Sagres – que luz é aquela no horizonte, é mais que o sol, É
lindo não é? – É apavorante Deus meu, apavorante – Vamos
nos sentar aqui um pouco, Ah só me falta essa, ser um
homossexual, eu mereço – Venha – venta, venta – Portugal,
país das falésias – Olha ali – o ser feliz e o sofrimento de que
foge, estão também presentes na entrada de Silves, aquelas
colinas meio romanas meio gregas, talvez sim já africanas,
qualquer coisa menos portuguesas – Escuta essa música –
expressa no conhecimento passageiro, dessa forma toda a
vida é descartável, mas quem sabe se houver um registro, por
que não um livro, um registro, sim um romance... Convocados
homens e gaivotas, toda a idéia desesperada de futuro se
agitará num tempo que não será crível por causa do contraste
entre as conversas e as ondas que quebram em Burgal.

Talvez não seja tão esquisito o conceito de Oleana.


Poema é alguma coisa limítrofe. Diz-se nomes e os sons se
encarregam do resto. Talvez mais tarde uma pesquisa. Mas há
estou certo uma vida do tamanho da noite nas alamedas do
sul, as vozes no cassino em Monte Gordo se percebem junto a
um estar face ao mundo que se confunde com prodigiosa
poesia. Eu o soube ao escapar pelos interstícios do mundo em
Faro, assim como soube existir um amanhecer que, à
proporção que deixo de ser, flui no elo de prata e surge no
copo de ouro. E o cântaro se enche junto à fonte do Olhão.

E agora na volta para Lisboa não posso evitar no trem a


comparação entre Vila Real de Santo Antonio e Piumhi – é
mesmo um caso de obsessão.
As pilastras, pessoas e postes à janela têm pressa. A
composição chacoalha. Estou atônito porque qual o meu
destino ainda ignoro mas, separado ainda da realidade por
densa camada de névoa da praia, a noite aos poucos se
desvenda. Olá! finalmente!...

Meus amigos, minha amante, o livro mais firme como


projeto cada vez. Planos para o futuro. Copenhague,
Amsterdã, Paris de carona num caminhão da TIR. Falávamos
a respeito quando fui acompanhá-los à estação, no dia da
volta deles para a Espanha.

Um rosto no burburinho depois que partem.

Desculpe. Com licença.

Nastácia se aproxima. Viu a ternura do abraço de


Isabelle, Mario e Oleana já dentro do vagão. O ritmo da
composição cresce, preenche toda a nave da estação. Era
mesmo melhor que tudo terminasse ali. Ao relento talvez,
passando fome e frio mas livre. E quem ela é que acha que
pode aparecer de surpresa e fazer uma cena de ciúme na
estação? Perder tudo mas não a liberdade.

Que liberdade?

Enfim. Pronto para explodir à primeira palavra dos


questionamentos de Nastácia, a voz dela se faz ouvir.
Querido! – diz num abraço cheio de lágrimas.

Nunca deixara de pensar nele. Em como o conheceu,


como o imaginava ao se aproximar para pedir a carona. No
cara valente que um dia foi tomar satisfações com o
condutor do metrô de Lisboa porque fechou as portas antes
que ela tivesse entrado de todo; mas não era esse seu
comportamento habitual – e se fosse não seria um
inconveniente? Pensava. Na forma como a esperava quando
faziam amor. Ou mesmo quando –

Estou a me sentir tensa hoje.

Não prefere, Nastácia, deixar para depois?

Mas jamais iria ela deixar de querer se aquilo era todo o


remédio para tensão de que precisava. No final pensara nele
como um salvador, um deus quase, mas para salvador lhe
faltava condição financeira. Ou não seria talvez por isso
mesmo que o idolatrava e esperava nele como um salvador?
– Um deus quase, tanta qualidade e perfeição! Mas sabia que
esse Andrei vivia apenas em sua mente.

O que não podia lhe atribuir era a forma exata da


salvação que poderia ter ele para sua vida lasciva e
enfadonha uma vez que essa informação a mente com que o
recordava não possuía.

Se Nastácia beijava e abraçava longa e ardentemente


minha perplexidade e seus protestos de amor não se haviam
desgastado na ausência, se o que dizia estava expresso em
seus olhos o amor então de fato existia, sobrevivera à
distancia, não era capricho mas amor mesmo, desesperado,
entristecido por decisões erradas de passado que refletem
alguns de meus próprios erros na vida dum mundo contra
toda vida esperada. Ela optou por voltar a Lisboa, por partir,
que tipo de desculpa teria dado agora, não a Franco, a si
mesma? Crescera sem essa noção de dar satisfações e a
miséria de Luanda a fortalecera, nem Deus dá satisfações de
coisas tão mais sérias como a guerra, a miséria. Permitiu a
crueldade colonizadora. Uma menina tão frágil, seus pais
nunca entenderam de onde vinha tanto vigor e revolta. Onde
agora aquela menina?
Constrangido soube que não podia mais ficar com ela,
pois realmente me amava. Meu bilhete ficou à cabeceira.
Nastácia, não me queira mal, procure me entender; seja feliz,
tentarei ser também. Adeus. A menina frágil permanece
dormindo.

Pensa em procurar Bernardo. Telefona para Oleana. Ela


acabara de acordar. A voz que escuta é um rio entre mundos.

Há em seu sonho muitas pessoas em grupos apenas ela


está sozinha. Fazia há pouco parte de um casal, agora está
sozinha. Sente-se doente, tão raro. Não ligava pra essa coisa
de estar mal ou bem. Vivia. Mas então por que sonhar assim?

Oleana?

Sonhar quase como um replay do que naquela noite se


passara.

Está escutando? A ligação está ruim.

Maldita voz. Mas terá sua serventia esse patético. Estoy


tan cansada... Parece desanimada, ele diz. Ela fala: Tenho de
entregar as chaves do apartamento. Não menciona detalhes
nem é pedida uma razão. Ela se endireita, esfrega os olhos;
pigarreia, decidida. A idéia de viverem com o dinheiro que
tínham, aproveitando-o ao máximo e encararem depois as
vicissitudes de sua alta, isso caberia bem num escritor
despojado buscando vivências, mas partiu dela.

Marcamos na estação do Sodré dali a dois dias. Quero


evitar Santa Apolônia onde parece haver sempre uma
possibilidade de Nastácia.

Deus! ficara tão feliz quando o reencontrou ali! Não o


culpa por abandoná-la assim. Se fosse solteira... Um
caminhão passa em frente ao hotel e os pensamentos se
dispersam no vácuo. Acabara de acordar ou é ainda um
sonho esse bilhete? A continuação do sonho no qual surge
em algum lugar que parece o Brasil, uma praia, e o vê
sentado diante do mar, e se aproxima... Não lembrava mais a
partir daí.

Se fosse solteira, talvez eu até me sentisse bem, à


vontade em sua companhia. Embora confuso o principio da
fidelidade está arraigado em mim. Tenho é claro de adaptá-
lo. Pela religião eu traía não Blandine mas a esposa de quem
não havia oficialmente me separado. E se Nastácia se fazia
adúltera, a Oleana eu tornava ao me fazer adúltero com ela.
Vá entender.

O pastor subiu ao púlpito. Todos na igreja farão o seu


papel. Agora a menção a família. A mulher na primeira fila
sente-se vitoriosa, seus dedos agora agarram o anular do
companheiro que a abandonara e voltou. Ele que quer se
abra um buraco no assoalho, sumir. Tudo muito bem
pensado, não há brecha para que sabe lá se um Espírito
venha mesmo operar. Agora a coleta. Meu pobre salário. Eu
não sabia que voltar implicaria em tanta coisa sem nada a
ver com a volta. Talvez perca o emprego, melhor seria
mesmo ter perdido a mulher.

Tudo dentro do esperado. Um último cântico, uma


última oração e todos voltarão para casa do jeito que eram
ao virem, ou piores. Ou piores. Talvez exista uma exceção,
não lembro de ter conhecido. Para mim fidelidade e o próprio
Deus eram coisas ligadas a Blandine. Minhas caminhadas
com ela ao longo do riacho evocavam proximidade da
beatitude. Eternidade, fidelidade. Não sei mais o que pensar.
Complicado. Os próprios apóstolos o afirmam, que sim, que é
muito complicado, sem que, apesar do discurso do adultério
interior, o Senhor deles o negue. O meu Senhor. Não, não me
envergonho.

Não era pra ser assim. Ser algo impossível ao homem a


fidelidade.

Na varanda chegou a Blandine o céu extraordinário de


Trieste, cheirando a tarde molhada, nos inacreditavelmente
feios Melaraqua e Melara que todavia talvez a deixassem
mais à vontade, menos infeliz, por serem mais condizentes
com o absurdo de sua tristeza. Quando chegou pensava por
exemplo poder comunicar-se, saber italiano, achar-se
simpática, mas que língua era aquela, que gente, que cidade
e que marido?

Como venta!

Blandine mal o viu. Talvez tenha sido a primeira vez que


questionou a sério as viagens dele. Lembrou. A primeira vez.
A primeira vez que o viu. Na escola de idiomas no Rio de
Janeiro. Alguém em quem não se pode confiar. Esse ar
suspeito. Aí ele falou. Não se pode deixar certas pessoas
falarem com a gente. Ninguém poderia ter sido tão
simpático, tão sedutor.

Ela parecia cansada.

Ora essa. Naturalmente. Inclusive agora da curiosidade


dos vizinhos, se é que são vizinhos a uma distância dessas.

Naquele dia à noite, será inevitável sonhar com uma


Itália litorânea, porque parecia cansada e um estranho
percebera e convidara. Um litoral luminoso, limítrofe. Não
esse à frente dela. Trieste? Ouvira dizer. Quero.
Deslumbrada. Octavio sabe. Ela aceita sem estar totalmente
segura.

Estabilidade financeira. E quem sabe sejam só mesmo


dias de descanso na casa dos pais dele. De um modo ou de
outro. Qualquer coisa é melhor. Agora sabe que não é bem
assim. Tarde. Prisioneira. De luxo mas ainda.

Toda aquela gente escorre dos trens direto para os


barcos, preenche a marcha dos ponteiros da madrugada que
se inicia no Sodré em imagens carregadas de insensatez
perante o trincar de meus dentes, com destino à outra
margem do Tejo. Oleana e eu tomáramos o último horário
após a ilustrativa conversa com o casal de turistas franceses
sobre as possibilidades de privilégio na região da últimas
estações da linha do Estoril. Recomendam o determinado
hotel, cinco estrelas no monte. Pondero sobre a
extravagância, mas Oleana insiste em que não nos
preocupemos com dinheiro enquanto houvesse dinheiro.
Recebera, diz, uma boa indenização; e há o ganho pelo
artigo. Também algumas pedras que Mario nos deu.

Não era realmente pouca coisa mas achei um


desperdício, apartamento com vista para o mar, espelhos
sobre o console na saleta aprofundando o espaço do
corredor, banheiros de granito, e no quarto a cama larga de
mogno arrumada com colcha de couro chinês, e na varanda
cadeiras e mesas de varanda em branca madeira sofisticada,
tudo muito chique. Mas alguma coisa não parecia bem.

Oleana faz no saguão amizades que se tornam


rapidamente intimas. Dinamarqueses, espanhóis, franceses,
ingleses e alemães. Na mesma situação, ela estava em casa e
eu a milhas e milhas de ter uma. Éramos como duas manhãs
iguais: nunca seríamos a mesma manhã.

Oito da noite. O movimento nos elevadores sintoniza


minha angustia em meio à educação refinada em enérgicas
interlocuções na pompa que de mim completamente
prescindia – femmes 2 du matin dans le hall longue soirée –
business men – Europe des douze le plus gran espace
financer du monde – 100 % european executives pleasure –
days of the light you no truth – Caralho que cu – Eso me pone
loca! – E um vezzo parlare mal – Einfachheit ist
mitleiderregend – I been to college - Was ist n der teufel –
But – All across the telegraph – all across the telegraph!

Passei incólume pelas risadas lúbricas dans le couloir


decidido a mandar um telex para meu antigo editor. Quem
sabe queria um correspondente para aqueles agitados dias
europeus. Pode ser. OLP, Israel, FMI, petróleo, desemprego,
os sem-teto, imigrantes, avanço tecnológico, violência, tudo
com reflexos econômicos e assim algum reflexo na vida
brasileira. Oleana passa por mim no corredor, em sentido
contrário. Oi uf uau estava doida por um banho. Com ela um
rapaz que embora encoberto julguei conhecer.

Não será possível precisar o quanto de acaso. Você está


com a cara abatida. Venha ao meu apartamento, descanse
um pouco. Chamou o serviço de quarto que em seguida
chegou. Very funny! Ela está com muita fome. Ele logo
percebe. Segura os dedos dela. Pergunta. O que você tem
feito, Oleana? Nota a sutil elegância dos traços da moça de
Linkoping enquanto comem. Olha só, sorriu ele ao mostrar
um objeto redondo, de vidro, com algo dentro, comprado na
feira das pulgas. Guardaste! Ela se emociona. Estavam de
novo juntos... Não devemos nos precipitar, disseram os dois
em línguas misturadas. O que importa é que estavam juntos,
ahora. Preciso de um banho, ela diz. Claro, vamos, ele
responde e pede. Me perdoe...

Chico! Michel me abraça. Agora jura que nada sabe


acerca da carteira de Bernardo. Inclusive, diz, ele me deu um
endereço. Passarei lá e esclarecerei tudo. Eu disse que por
mim estava tudo bem. Nos vemos lá em cima, diz Oleana
erguendo a voz para que pudesse ser ouvida na distância
que já se encontrava. Tudo bem. Michel iria então passar –
não pude completar “no Porto”, pois um amigo desviou a
atenção dele.

Depois a gente se fala.

Mais tarde no quarto, relembrando o incidente no


corredor, fiquei espantado com a naturalidade com que
encarei a coincidência, com a ausência de ciúme ao vê-los
juntos – um relacionamento que jurariam ser antigo e se
surgirá um vértice serei eu. Na noite em que encontrei
Michel em Madrid, ele abandonara Oleana em uma festa após
brigarem. Olha, disse ele com um sorriso que não cheguei a
identificar como irônico ou carinhoso, você foi a primeira
pessoa por quem ela se sentiu atraída em muito tempo. Não
sabia de deveria me sentir lisonjeado ou o que, apenas
devolvi o sorriso porque – bem, não sei dizer o porquê.

Estou agora sentado na varanda escura exceto por um


feixe de luz vindo do banheiro e a réstia de luar desde as
nuvens aureoladas. Que palavras dirão os hospedes diante
da lua, as mesmas do olhar que atrasado enxerga apenas a
sombra? A imensidão trevosa do mar se estende nos milhões
de pontos prateados.

Não dou tanta importância a essa atitude entre o


equilíbrio e a apatia, a verdade é que não estou sabendo
reagir à situação. Chamar esse desconforto de maturidade?
Supor virtude tudo o que for estranho à minha maneira
nervosa de ser? Devo evocar amor da foto que retiro de
minha carteira e reluz como um gemido, tirada na praça
central de Piumhi diante da farmácia? Meu Deus, Blandine
não merecia se tornar isso, a manipulação de um conflito
visando afastar os batismos da vida, a proteção contra essa
força desconcertante que move o mundo, de algum modo
controlando o desejo e me poupando do ciúme, pois já
gastara tudo com a opção dela pela Europa.

Nada restara para as outras nem para essa outra, a


Blandine agora próxima e casada, real. Finalmente percebo.
Tenho uma vida além dos cadernos e em especial daquele,
aberto na pensão do Bairro Alto. Aí meus traumas favoritos
estavam irremediavelmente comprometidos.

Completada a ligação na sala de telex, lutando com o


teclado azert das maquinas européias, falei com o senhor
Matias. Ah claro que gostaria que você trabalhasse de novo
pra mim. Mas não precisava de correspondente, sabe como
é, a empresa está em contenção de despesas e a agência
internacional tiquetaqueia vinte e quatro horas, agora
mesmo bem na sala ao lado, no momento exato em que
conversávamos. Lamentou e me desejou sorte. Ouvia meus
próprios passos ressoando no corredor antes do barulho
antes do ruído da chave na fechadura, imerso no cheiro de
roupa passada dobrada no carrinho e na aura precisa da
enxaqueca.

Ao entrar vi Oleana enrolada na toalha branca em que


se destacava o emblema do hotel. Gotejava no tapete. Tudo
bem? Tudo bem, respondi.

Eu vou com o Michel no cassino. Você não se importa,


não é querido?

Perguntei por que deveria me importar, só por


estarmos juntos e ela sair com outro?

Estamos juntos? – espantou-se. Ora, apenas dormimos


na mesma cama. E era tão bom, não era?

Vem em minha mente uma comemoração de minha


volta ao Brasil. Revejo a lavoura de café e em seguida
hectares luminosos de trigo em torno da casinha que o Sr.
Jean prometera à filha como presente de casamento. Em
meio ao vozerio, o riso de uma menina. Súbito, embora todos
ali permaneçam, eu já não estou. Aqui os cabelos de Oleana
escorrem.

Ademais, diz, ninguém proibirá se acaso você quiser vir.

Não, obrigado, respondo. Vou ver um filme. Que ela


fosse sossegada.

Quando voltar não estará nada mudado em nossa cama,


não é?

Como você mesma disse, é tudo o que temos.

Vagueei pela varanda. O luar traça uma linha lilás de


horizonte. Oleana acaba de dizer que vai ligar para Michel.
Marcara uma piscina para amanhã. Agora está ajoelhada
sobre a toalha. Alguém indefeso diante dela. You are dead,
diz garçonete, amiga da protagonista. A musica toca,
grandiosa.

Oleana usa mãos e boca sem prestar atenção ao que


faz.
O que você quer exatamente, pergunta a si mesma. O
que quer? Há uma amargura escondida, um quê de
ansiedade que sua aparência diária jamais demonstra. Os
hóspedes vão e vem ecoando pelo corredor.

É dor, tenho agora certeza. Passará? Jazidas a céu


aberto se esgotam. O resto de luz natural se funde às
paredes junto ao esgotamento e a falta de sentido da vida.
Que tipo de personagem serei na historia de sua vida? Não
tem convicções, não se sente segura com a segurança
material que a proximidade de Michel garante. Pensa na mãe
doente, tem um desejo difícil de controlar, voltar para a
Suécia. A pressão das mãos aumenta por baixo e a ponta da
língua se distrai com uma película inesperada. Ele merece,
pensa. É muito bom no que faz. Naturalmente isso não o faz
merecer a chance de morar com uma mulher. Parque de
diversões é bom pelos brinquedos, ninguém mora ali.

Cascais à janela. Luzes pequeninas. Vinha do futuro a


salvação, dessa mesma entranha onde se originou a
semente?

Era para eu levantar. Oleana chamava para a piscina.


Anda, disse ela, o Michel já havia ligado. Me sacode.
Semicerrando os olhos por causa do sol que varava as
cortinas, consultei o relógio. Ah, vão vocês, eu queria ficar e
escrever.

Escrever? É isso que tenciona fazer de sua vida? E para


que isso serve? E para que serve uma criança, deveria
responder. Mas não fui eu quem criou a frase, me senti
plagiando alguém e parei. Antes mesmo de terminar de ouvir
o que eu cheguei a dizer, ela já meneava a cabeça,
penalizada.
Os dias se passavam como aquele. Oleana de manhã ia
à piscina, à tarde dormia e de noite voltava ao cassino.
Permanecíamos juntos mas naturalmente não ia durar.
Michel era um cara enérgico, simples e determinado, não
atraia maiores simpatias nem gerava grandes repulsas. Bem
sucedido. Que mulher admirável, pensa ao deixar Oleana na
porta do quarto, a chuva chicoteando os vidros. Trovões.

Decide ali mesmo e faz o convite. Saúde e felicidade, o


falo próspero. Entendia que ela quisesse ficar um pouco mais
com o brasileiro. Ele transmitia essa carência que marca as
mulheres, algo relacionado com a escuridão.

A súbita falta de energia no hotel logo é sanada pelo


gerador.

As coisas voltam ao normal. As coisas sempre voltam ao


normal quando a energia é restabelecida. Dá-lhe um beijo no
rosto. Ela não recusará o novo convite.

Quando acabasse o dinheiro, eu profetizava, estaria


sozinho pelas ruas de Lisboa, ao relento. Não foi surpresa
quando ao pagar a conta no saguão do hotel, minha carteira
quase vazia (e Oleana não precisava de carteira), ela sorriu
amarelo e pigarreou. Michel me convidou para passar um
tempo na casa dele em Londres. É claro. Ela havia aceitado.
Sorri. Ótimo. Iam no carro dele? Ela disse que sim. Então
imagino que não será problema me deixarem em Andorra.

Durante alguns instantes estive concentrado em certa


pressão no ouvido, que para meu pânico, imaginei uma
recaída da otite que em Milão me acometera. Não sei como
repercutiu meu rompante. Ao tornar a cruzar com o seu
olhar, Oleana dardejava. Inclino meu rosto para encarar
Michel, a dor que esperava dilui-se na expectativa, e percebi
nele um meio sorriso de quase cumplicidade. Take you take a
photo? Ao se dirigir ao outro hospede, com que então,
pensou, temos aqui um refinado senso de desforra. Deveria
imaginar algo assim, sua Oleana não se deixaria atrair, por
mais fugaz fosse a aventura, por um cara qualquer.

Pelo menos sei isso, não sou um cara qualquer.

Aí pensei. Mas ela não o ama. Embora estivesse longe


de ter certeza e de sequer vagamente saber o que fosse
amor. E se amasse haveria de ser um sentimento colonizado,
devidamente civilizado pelo primeiro-mundo nórdico.

Por momentos ela, a mulher das terras do norte, não


parecia mais nos ver. Era como se, de raiva ou desespero,
pensasse em longínquas paisagens de indefinidas cores, num
mundo que algum dia viu ou sonhou.

Andorra? Michel concordou efusivamente e perguntou


se eu estava pronto. Não temos pressa. Oleana transmitia
serenidade, iam passar na casa de um amigo em Toulouse.
Você aproveita e conhece meu avô.

Andorra... Nome mágico pelo qual a vida passou a


respirar.

Eu podia escrever uma bonita matéria sobre os reflexos


no rio Valira, as flores dos Pireneus, a arquitetura dos
montes, os campos de trigo e rebanhos, (Ah, as pedras
portuguesas de Copacabana e agora o pequeno Cristo, a
formação dessas ondas enormes, tudo subitamente lembra o
Rio por aqui), talvez partindo da época em que estava no
ginásio, na qual a modernidade somente existia para a
republiqueta na torre da estação solitária de radio, (Já essa
rotunda é muito Portugal, e a avenida dos combatentes nada
evoca senão esse tempo recente de tristezas), a torre do
rádio nas pedras altas dominando sobre os casebres dos
pastores ou rasgando o passado com a espada do prazer nos
estudos – Súbito se misturam na avenida de Sintra o futebol
(esse campo à esquerda é várzea autêntica) e a era do feudo
de Urgel defendido por valorosos montanheses. E, um
assunto puxa outro, Barcelona, o idioma catalão, a França, os
vizinhos bascos. Não seria possível até ligar os dois
assuntos, 68 e separatismo? Tinha tudo mesmo para ser uma
bela matéria. Eu poderia vendê-la no Palácio Foz. Ao
atravessar a ponte, todos os sonhos se faziam de novo
possíveis.

Estamos em Badajoz, uma represa passa ao largo na


amplidão romana da Extremadura, luz após o aperto nos
olhos sonolentos, o ar parado, sufocante, quente, quente,
ufa, nem é ainda verão, suávamos quando sugeri o caminho
das uvas. Tenho uma amiga que pode nos hospedar, o que
acham? Poderíamos ainda passar na casa de Mario em
Barcelona. Michel acha tudo ótimo. Oleana, espero que
esteja doente de raiva. Eu sorria, impressionado comigo
mesmo.

Me enganou. Não é tão idiota quanto pensei, pensou.


Mas, Oleana, não lembra? O que deveria lembrar? Sabe,
aquela rua. Homens. Gostosa. Não sei. Mas sim, um cara
interessante. Passou eu sei. Pena. Então vamos, amor! Ah, se
não der tudo certo... Sabe como. Vamos sim. Compras em
Andorra. Hunhun, vai ser uma boa de um modo ou de outro.

No sofá rústico, Rachel se diz apaixonada, jamais


esquecera. O sol imprime nos beirais os tons do dia
agonizante. Na sobreposição, o azul se juntou ao rosa.
Carregava, portenha, ao dobrar o ele e pedir que se
aproximasse. Oleana na cave com Michel. O céu estrelado.
Troveja.

O armário aberto estava cheio da noite. Sim, pois já


amanhecia. Rachel me deu uma camiseta para dormir. Do
cinza denso à pálida prata dos contornos, o sofá no canto
traz odores de passado. Déjeme. Rubor nas cortinas. Os raios
coloridos vistos naquilo que tocam, as coisas em si são
incolores. A uva não é vinho, e o vinho não é sangue. Alegria
e embriaguez Sim estou de novo, bêbado dum vinho anterior
à videira. Enlouquecendo.

Assim, foi mesmo num rompante.

Vamos agora, deixemos tudo para trás, venha comigo...


Ela aceitou, com aquele sorriso que eu conhecia tão bem e
apanhou as chaves na cabeceira, logo estávamos com os
cabelos esvoaçando ao vento que vinha de Vitória, talvez de
mais além, Você nunca perdeu essa fixação pelos bascos e
pelos Pireneus ao longo desses anos, não é? – na verdade, eu
não teria uma resposta adequada para isso, mantive essa
fixação mas a imagem do avô de Michel me concedeu um
novo alento, além é claro do subconsciente trabalhando na
matéria sobre Andorra.

Bem, dará no mesmo em termos de bascos, vamos aqui


por cima pelo norte, ladeando rios e contornando
montanhas, sob toda essa chuva até as tempestades
cantábricas no golfo, não me diga que nunca sonhou com
algo assim. Na verdade, ela havia sonhado, a tentação
quando chegou era grande para lutar pela causa separatista
ou outra qualquer como compensação pela perda da luta na
América Latina, ao que parece os revolucionários são meio
que viciados em querer a liberdade para todos e na maior
parte das vezes negligenciam a própria, a própria liberdade,
a própria independência, se tornam escravos de si mesmos.

Que seja então apenas por nós mesmos, subamos em


direção ao norte, cantando cânticos bascos ou o que for,
cantando, em meio às chuvas de verão, por nós mesmos,
porque se é difícil dizer que as revoluções têm algum
resultado prático uma vez consumadas por homens que não
mudam, que só pioram, é impossível importar uma revolução
ou mesmo um sincero desejo de revolução.

Em Rosário éramos adolescentes, tínhamos portanto


atenuante, hoje vamos apenas fugir, à maneira dos adultos,
e recomeçar, não é tarde. Na verdade, disse ela sorrindo,
meu sonho era mesmo alguma coisa assim. Vamos.

Não existe nada tão belo quanto a fúria do mar nos


despenhadeiros, ou tão terrível quanto ondas que sobem e
arrancam pedaços de muretas e cospem nos carros que
passam lá em cima, querendo talvez lambe-los para as
profundezas. Rachel apenas murmura algo que não entendo,
impassível, e seguimos, deslizando e chiando no asfalto.

Agora, ele está há cerca de um ano na Europa, um


pouco menos, deixe ver, saí do Rio de Janeiro na primavera
de 1987, então era outono por aqui, setembro, é, quase isso,
estamos caminhando para agosto de 1988, e após cruzar o
portão da casa de Rachel, podia sentir esse tempo como um
chicote na alma, machucando-a ou despertando-a,
renovando-a sem dúvida ao longo do caminho que leva a
Deba. Na beira da estrada, uma mulher rega o jardim com
cuidados de proprietária ou apenas uma devoção amorosa,
quem sabe o que evocará. Por favor, pegue o mapa. Está ali.
Vejamos.

O sorriso dela, reluzia mais que os reflexos do sol no


Euba. Olhei dentro de seus olhos, estremeci de prazer ao lhe
entregar, roçando sua pele quente com as costas de minha
mão esquerda enquanto a direita quase em simultâneo
fechava o porta-luvas, porque o revolver tremulo no metal
me estremecia também.

O que fizemos de nossas vidas, haverá tempo para


resgata-las, como o primeiro sol basta para que de novo a
vida se renove em eflorescência na frialdade da pedra? Não
sei, lhe digo, realmente não sei mas tudo se torna possível
na sensação desta liberdade (agora são quase 150 por hora).
E que se silencio de corpos é este que se espalha pelo
interior do carro?, assim eloqüente não estará dizendo justo
de resgate, de renovo, de futuro?

A proximidade dos abismos traz porém um futuro que


eu temo, que não consigo deixar de temer, que me apavora
apesar de me sentir tão bem com Rachel, como as crianças
do clube de natação de Logrono, e ela – quem era ela, me
perguntei, quem era, por detrás desses dentes perfeitos (os
meus estavam cada vez mais sensíveis entre as duas
próteses), desses cabelos esvoaçantes? Pode ser que seja o
objeto de meu amor, isso o que é, poderá ser qualquer coisa
ou posso merecer o que penso sentir? – porque efetivamente
eu amava, para bem e para mal.

Hondarribia é um lugar inacreditável, entre mar e


montanha, entre nações, uma nação na própria cidade, entre
vida e morte. Não seja assim dramático, Andrei, vai dar tudo
certo. Eu escutava e não podia saber se era a voz dela ou
alguma outra, interior. É apenas um lugar.

Vamos achar um restaurante e comer.

Estaciona. Desce do carro. Fome plena, também de


caminho, de carinho, de mar, de mistérios do abismo, de
olhares que se perdem na direção dos montes ainda não
visíveis.

Finalmente estão falando: como foram esses anos,


como ela conheceu Miguel, como Blandine o deixou. Mas por
Deus, por que não a procurou? Esteve tão próximo em
Veneza! Talvez não, pensei. Talvez quanto mais perto tanto
mais longe etc. E Rachel tinha certeza de que ele voltaria a
estar, então dessa vez – Súbito percebeu que, bem, se
estavam ali, fugindo do passado, não deveria pensar assim.

Estavam ali, realmente?

Será que você ainda a ama, Andrei? Será que um dia a


amou? Ela sabe como é, como a gente se engana. Sentiu ela
mesma alguma coisa por Miguel algum dia? Alguma coisa
que se sustentasse sem as terras, sem a casa em Rioja, sem
o carro, enfim que apenas se sobrelevasse ao cansaço, na
forma etérea de uma simples visão.

O entardecer aterrorizante nas profundas águas bascas


se contrapõe a qualquer pretensão dos bordões do Maio.
Aqui há sabedoria, ou quem sabe um impasse. O ar está frio,
embora a noite que se aproxime seja de verão. As vozes ao
redor dos dois perderão todo sentido, sejam palavras
espanholas, francesas ou bascas, e ainda que pudessem ser
catalãs, e ainda que fossem portuguesas ou ditas naquele
castelhano peculiar de certas regiões argentinas, como a
terra natal de Rachel, permaneceriam incompreensíveis,
impenetráveis, e não penetrariam as paredes que se haviam
erguido em torno deles, sozinhos no mundo e tendo à frente
na mais que o horizonte.

Pálpebras.

Há um mundo. Uma mureta de onde sentados poderão


ver os detalhes frios do penhasco a culminar nos respingos
ruidosos, corais de estrondos, e as águas, as águas
atlânticas, que são águas do golfo (não as do mediterrâneo?
Ah, sim, também), as águas do Ebro, e no mar profundas e
terríveis em sua fúria oleante, compreendedora, quase
misericordiosa.

Que luzes são essas? Que ruído molhado logo ali?

Cantarolando, o que era tão raro, ajeitei os ombros de


minha blusa em frente ao retrovisor, caramba, como estou
precisando de roupas novas, olha só a gola, velha de
ondulações. Uma blusa, uma camiseta na verdade, de malha
azul com que estava quando desci com Nastácia no aeroporto
de Paris. Com o canto do olho percebi o perfil altivo de
Rachel, parecia uma princesa, recortado pela paisagem de
uma fronteira que jamais poderia imaginar, Honyarbi,
Hondarribia – ganhei a minha vida, de um outro modo afinal.

Trieste era apenas uma fantasia, um sonho louco. Não


se fala mais nisso. Não terei mesmo coragem de encarar
Blandine. Por que então? Nenhuma resposta. E alguém
perguntou? Isso sim, como lá, o sangue levanta as veias do
membro. Paredes. Aquela janela. Estrelas? Todas essas
coisas. Se os que dormem se libertam, o que é isso que jaz
nessa profundeza banal da consciência?

Sim, dormi sim, sim, eu disse, e, tomado de dor e


decisão, levantei e me deixei consumir pelo estranho fogo
que queimava o quarto recém-nascido, renascido. Pálpebras,
barulho de águas, o flash de um piscar, e logo cor alguma, e
logo eu, e nunca mais nós.

O rosto dele. Devolvido pelos primeiros raios no


espelho, significa que contornos definidos substituem os
moveis escuros. Na mesa de cabeceira uma foto de Rachel
numa ponte em Irun, cidade que pelo seu caráter fronteiriço
ela amava, e a rosa que lhe dera. Talvez no dia em que a
conhecera, falavam sobre o que poderia significar o
envolvimento na luta pela democracia. Era uma conversa que
não o atraía. Ficou contrariado, como se estivesse irritado
com ela por alguma razão que, ao contrário de amanheceres
em quartos nos quais dormimos pela primeira vez,
permaneceria obscura. A alma se torna pequena diante
desse impasse entre o desejo de liberdade e a falta de
clareza do que seja liberdade. O abajur está insone, não tem
mais energia, é inócuo perante a dor de um homem que
desperta de um sonho tão nítido quanto seu rosto no
espelho. É ela quem cantarola. Os raios devolvidos pelo
espelho envolvem a claridade inútil da lâmpada.

Reluz de amanhecer a torre da catedral de Santa Maria


de Logrono. Fora da cidade, peregrinos retomam viagem,
carregando suas mochilas pelos caminhos santos. Na casa,
Rachel está se banhando.

O turbo do compacto alemão, o veiculo, seu ruído e


trepidação, alimenta minha tristeza por ter decidido não
ficar, tanto talvez quanto a tristeza dela própria, Rachel, que
contudo em nenhum momento pediu para que eu ficasse.

Não entendo você, Andrei. Gostaria. Você é um cara


muito complicado, difícil mesmo.
Não pretendo ser propositalmente difícil, mas não
posso tampouco me tornar comum para ser compreendido.
Sei que o difícil em geral se torna chato e queria ser
reconhecido, mas sou apenas o que sou, para o bem e para o
mal.

Lembra daquele domingo na praça, dos mercados?


Claro que lembra, mas do que adianta? Vai partir. Todos
partem. Eu mesma. Meus tios pediram para que eu não
saísse de casa. Não, não vá para a Espanha, diziam. Oh
chica... Esse homem não é uma boa pessoa, você não vê? Eu
até via, disse Rachel, mas tinha que vir. Eles ficariam lá,
sozinhos, e eu sozinha entre vinhedos, ficarei. A vida é isso?

Prestei-lhe a homenagem sincera de uma lágrima ao lhe


acenar do carro. Como em Rosário, parecia tão simples
ficarmos um com o outro, tão simples que desumano. Esse
ideal de singeleza só funciona na imaginação. Se resolvesse
ficar, ia por a perder o melhor de Rachel, e ela também me
perderia. A lembrança dela paira em minha vida com jeitão
de anjo da guarda, que quer o nosso bem mas não é Deus.

Em Barcelona, eu poderia ter ido à agente literária mas


embora já houvesse lhe escrito e perguntado sobre a
possibilidade de intermediar autor de língua portuguesa,
tendo recebido resposta afirmativa (desde que, lógico,
mandasse os originais), não tive o desprendimento suficiente
para ir, de novo. Tímido, deixei de mostrar a cara e dizer que
pretendia fazer, daqueles poemas um fio que contasse uma
história em vários momentos e diferentes vozes, inclusive a
de um narrador principal no momento em que escrevia sobre
coisas passadas mas na direção de eventos futuros. Covardia
típica de quem não está seguro de ter talento, porque no
final das contas o talento e a coragem quase se misturam, e
alguma coragem muitas vezes compensa a falta de mais
talento, quem acredita sempre se arrisca. Pretendia ainda,
ensaiei dizer, usar fragmentos de meu diário, cartas,
recortes de jornal, e citações de outras pessoas que
inspirariam personagens.

Incenso de um holocausto, dias depois do incêndio.


Após me dispor a cumprir. Perguntei, soube, imaginei. Como
pano de fundo, a visão panorâmica da região alta da
Mantiqueira, que nunca deixei de ser moca típica de Minas,
nem depois de tudo, ou principalmente. Agora digo isso.
Antes deveria. Ou não. Agora se consuma assim. É tudo. Mas
a história não acaba. Como pode? Desço da montanha antes
contemplada. Sou afinal passos e erros, o sucesso do projeto
não é tão importante quanto o processo do projeto. A tensão
apenas do existir. Escrevo também agora. Metáforas, ritmos
e imagens, testemunhos, fragmentos, fluxos de consciência
da menina no sentido do menino que não existe mais.

No paseo de Gracia dava para ver. O sol batia em certa


fachada ocre, no sombreamento das pessoas defronte à loja,
perto das cinco da tarde. Nas paredes marmóreas
vivificadas, confunde o movimento de ida e vinda dos
passantes, a imortalidade urbana. O ar estava pesado.
Aproxima-se uma jovem em viscose de poás graúdos. O
indicador delicado, num meneio de cabeça, retira um cisco.
Pisca para certificar-se. Uma rede honesta de umidade se
instala na superfície pêssego do batom. Logrono longe, volto
aos poucos a ser eu mesmo. Certamente mais que uma
menina na moda, uma moça com estilo.

Encarou-me e em seguida bocejou.

Há em Barcelona um espaço entre os seres e as coisas


geométrico nas mãos dadas das mocas de família, nas
compras, uma retilínea beleza funcional, quente, quase
devota na aveningua que à escuridão do mundo se recusa –
vermelho, amarelo, prédios, pessoa vindo.

Deve de ser. Alguma coisa ligada, sei lá, disse Blandine


a si mesma depois que o marido saiu, um tipo de matemática
(seus olhos se fixaram mais no telhado do vizinho da frente),
alguma coisa ligada as próprias pessoas, como os traços
exteriores de uma folha representam uma folha mas não são
a folha, algo assim me parece, ela não sabia, imaginava,
doía, doía frio como a plaza agora ao entardecer.

Todos seguem adiante, a vida ávida se derrama catalã


nos sítios todos e ali você pode se sentir um
desentendimento.

Oleana fora do carro. Na pancada seca há loirice


adolescente em Linkoping em que se mescla a sensualidade
cosmopolita de Estocolmo. Kvinna e flicka. Mais atrás e
lentos, Michel me conta do mau-humor à noite, e eu é que
estou pagando, acrescenta rindo. Não pude evitar, Michel,
me desculpe. Ele ri. Estava tudo bem. Enfatiza. Quando
brigaram naquela festa, antes de me conhecer, ele estava
desistindo. Imaginara uma garotinha no fundo dela, de
Oleana, de mochila às costas, tomando água em concha
numa nascente suíça. Imaginara. Mas agora só mulher
nórdica, vivida, de longas artimanhas. Até acho que a amo,
sabe, mas não sabia mais, Andrei, o que fazer para dar um
jeito nela. Talvez ela nunca mais chegasse a ser o anjo que
de fato sabia ser, se um dia não saciasse essa gana de viajar,
de rodear a terra.

Mas agora. Como assim? Tive sorte.

Ele estava querendo dizer que eu trouxe o bem para o


relacionamento deles. Tentou explicar no justo momento em
que um ônibus escolar ou de excursão talvez tornou
inaudível a sua voz. Ele iria sofrer um pouco com o mau
humor que Oleana se permitia por minha causa, por causa de
Rachel, enfim, todos tem um pouco de testosterona. O caso
contigo foi bom para mim, chico, só tenho a lhe agradecer.

Ah, não por isso, sorri.

E se falou desse assunto e de outros até que Michel


chegou ao ponto. Oleana pressiona. Deixe-o na estrada. Não,
babe, não faríamos isso com um amigo.

Ora, você mal se conhecem! Eu mal o conheço!

Não precisa deixá-lo à própria sorte.

A idéia passa a ser: deixá-lo quando sob um teto. Com


Mario. Com Mario e Isabelle. É claro que Oleana lhe falara
dela.

Claro. Justamente por isso. Não se discute mais.

Michel parece franco, quase de se crer verdadeiro, mas


meio que recua. Por que não ficou com aquela linda garota
em Logrono, chico? Ou talvez não, talvez estivesse mesmo
apenas curioso. Por que nunca faço o óbvio, mesmo quando é
bom para mim? Ou não seria bom? A responsabilidade.
A linha mais curta entre dois pontos é o ziguezague.

Tão linda, Rachel. A história teria terminado ali. Súbito


o protagonista se dá conta de sua estultícia ao longo da vida
e seria a ultima cena, ele em meio a uvas e mangas. Não sei,
Michel.

Deveria. Tudo bem, não se sinta pressionado. Ainda


terá tempo para decidir. Penso. Imputabilidade penal.

Um abraço. Um abraço apertado. Ontem, Kleber, hoje


aqui, amanhã onde? Trieste, distante como outra vida,
distante mais cada vez. O sol de outra cidade.

Oleana falava animadamente com Isabelle quando


entramos. Cumprimentei a mulher de Mario com um sorriso
que ela me devolveu. Michel. Muito prazer.

O calor dele a percorre. Ela pensa quem é, o que faz da


vida, o que faz aqui. Mario, recostado na pia da cozinha,
espera a água para o café. Não gosta de visitas inesperadas.
Isso de Oleana com Michel não o deixa à vontade. E ainda a
carteira.

O casamento o mudara. Assim, tão de pouco? Verdade.


Fiel, cônscio dos deveres. Ah, então eu mesmo poderia
mudar.

Na sala, ele ignora Oleana. Quando não dá, é rude.


Reprova Michel, não por duvidar de sua inocência, mas por
ter reatado o relacionamento em tais circunstancias. Cara,
deixa disso, é a nossa época.

O que é isso, Andrei, que época porra nenhuma, isso


tem outros nomes. Sacanagem.
Não é não. Está tudo bem. A vida é assim sim, e mais
assim a vida hoje. Discussões e confissões sob as estrelas, à
fumaceira de peixe na brasa e tilintar de garrafas do Rioja.
Isabelle não está mais confortável com o sotaque nórdico, de
fato não mais o suporta, estão mais ofendidos e traídos do
que ele próprio, do que Andrei, que achava aquela atitude
dela perfeitamente desculpável, naturalmente um instinto
interessante de não ser culpável ele mesmo, adiante em
algum momento.

Ou era menos por conta de moral ou solidariedade ao


amigo e mais uma defesa do lar.

Isabelle me chama a um canto. Pede que eu entregue,


se não for incomodo, umas coisinhas para sua mãe em Paris.
Beijou-me como um irmão mais velho e imaturo. Se fosse
domingo, disse-me, eu iria encontrar a senhora na église.
Isabelle, vejam só, filha de evangélicos. Sorri de volta meu
sim.

Trouxemos lá de fora eu e Mario frio e fumaça


cheirando na roupa. Isabelle fechou a porta de vidro
corrediça. Oleana torna-se agora imigrante em Minnesota,
depois na gélida Quebec. Antepassados ali chegam e se
casam com mohanks em pé-de-guerra. Vocês sabem que os
índios do meio-oeste americano perderam as terras para
imigrantes suecos? Muitos desses selvagens foram
enforcados. Ah, os imigrantes peninsulares, sobretudo os
portugueses, é que são mesmo tolos, nada usufruem das
cidades em que chegam mas conhecem a fundo o complexo
sistema bancário canadense, precisam ver que idiotas. Pela
primeira vez a víamos bêbeda. Os problemas com Michel
começaram por isso.
Nem percebi, por causa do espanto, como ela fez a
travessia do oceano, voltou a Estocolmo, chegou a Madrid.
Que ficasse entre a gente: Oleana teve uma experiência
homossexual num hotel próximo da estação, sabe Michel,
aquele que uma vez pagamos oitenta dólares a diária,
caramba, a mulher da portaria era uma indiana
deslumbrante, uma perola verde na testa, Michel que a
desculpasse. Falava. Repetia.

Por fim condescendentes, Isabelle e Mario sorriam para


mim. Antes de dormir, disseram que eu poderia ficar o
quanto precisasse. Isabelle agora diz que a encomenda podia
esperar, não era nada de urgente. Agradeci mas disse não,
mas muito obrigado, eu estava comovido de verdade.
Pensava, ao agradecer,, como o pequeno apartamento
suportaria a madrugada bêbeda e desmesurada. De fato,
passaria várias vezes, após as luzes apagadas, pelo corredor,
para o xixi, defronte de Michel e Oleana, sem olhar, ouvindo
de lado, até decidir pela geladeira e vinho suficiente para
deitar e ignora-los até de manhã.

A memória e o sonho. Sonhei. Ao longo de um corredor


de trevas, fugia de gargalhantes espectros. Desemboquei à
margem de um ano que cheirava a primavera putrefata.
Estava ali, à beira, a rainha Cristina, primeiro com um rosto
de Greta Garbo, negro luzente, seco, do qual surgiram as
feições de uma Liv Ullman pornográfica, crente, hedonista,
trágica pelas ruas da Europa, a arrastar e farfalhar a saia,
sons que ecoaram no interior de Minas a partir da saia rubra
e farta, armada por imersão num lago, pelas tabernas tristes
em torno dos quarteirões do século 18. E Liv, a rainha da
Suécia, é súbito Liv, a imigrante no meio-oeste, mulher de
Max Von Sidon em New Land. O marido implora que não
morra. E eis Max sou eu e Liv, Blandine – metamorfoses por
demais velozes como pensamentos que sábios levam a
vislumbres – Reflexão não informação. Vislumbres intensos
tais na vida medíocre para nada servem e terminam
esquecidos em meio aos apelos dos sentidos. A eternidade,
lenta em meu sonho, materializa-se numa serpente – cavalgo
a serpente em Pere Lachaise, é o fim única amiga, grito, e
meu grito ecoa com nuances de farfalhar e de coxas em lutas
livres femininas, o prazer de Claudia num ringue armado
numa estação ferroviária, farsa na forma e realidade na dor –
É informação demais para um único sonho, por favor pare,
deixe-me, e o grito ecoa mais, pelo Mar do Norte, enquanto
em Trieste surge uma forma humana, Que anda fazendo
criatura tão doce, estremecimento de bondade, como a
criatura da grama que arde na canícula e toca o infinito? –
um meio de expor as coisas, semelhança humana, nada mais
que diferença menor. Um corpo conhecido circundado por
tecido elástico, noite de verão, alguém quer me ver, Liv sou
eu, o Outro.

Acordo.

Caleidoscópio de amanhecer nas cortinas. Como seria o


sonho passado a meu livro? Por que deveria ser? Primazia
das palavras sobre os seres e as coisas, reverte todavia um
vazio ao som dos vizinhos, azáfama do dia alto.

Às onze em ponto partimos.

Dava impressão de que, embrenhando-me na sonolência


mórbida de mundos indistintos, pairavam sobre o carro
gritos longínquos que podem ter ou não algo a ver com a
visão do espiritusanto que aqui pode ser um hospital envolto
no meio-dia de uma data que não se repetirá nem mesmo se
pensarmos em termos de lembranças ou histórias. A subida
de rocha há quanto tempo em épocas confusas e carentes da
vida que se verá do outro lado no verde pesado e nas águas
quase francesas em Ariege, há quanto tempo me pergunto
sem a devida resposta exceto o vento que traz o medo, que
traz as sombras, que traz intenso o sono a que se resiste em
nome não se sabe mais de que, na calma que se faz
estranha, pairando sobre os conflitos.

Mês longo e difícil, maio passara. Daqui pra frente é


lucro o quer vier. Minha vida sem qualquer mérito,
sobrevida. Talvez escritor seja o que nada tem a dizer ou
precisa aprender, dizendo, o que deverá dizer. Sim eu
sobrevivia, o que não era pouco para quem quase um ano
antes fora roubado em terra estranha e ficara sem casa,
trabalho e documentos, sozinho e as chances reduzidas
(agora além do mais pesa a idade). Quase um ano. Vinte
anos depois de nada. Em malfadada época, loucura e morte,
me aferro em frágil fé, o amor. Que olhos são esses que
observam a paisagem à janela do carro de Michel devorando
a estrada, cento e vinte e cinco cavalos e cinco válvulas, de
zero a cem em dez segundos – quem, neste vasto mundo de
Deus, precisa ir de zero a cem em dez segundos?

Por que não careço mais daquela alegria por demais


simples do mato, por que assim me acomodei? Mão na
janela. Por quê? Por entre a abertura de polegar e indicador,
o médio, uma sombra, a palma. Menos que uma sombra. Um
pulso. E logo o braço, cheio – não por demais, o bastante.
Ombro. Roliço. Moreno. Não posso ir. Não disse Não quero.
Dia radiante. Tontura dá consciência de vida.

Escuta. Pardais. O trânsito e a chuva pela carrer de les


valls. Ainda é? Tontura, vida, braço, mão, dedos, parapeito.
Procure-me lá. Que olhos são esses? Encostas tão floridas
não imaginei. Maio, não, junho agora. A retirada dos
soviéticos no Afeganistão representa o que nesse caos? O
Brasil vai agora para o inverno e no sul de Minas é tempo do
milho antes da chegada dos apanhadores. Quando nasce o
amor. Que céu é esse? Onde estão as aguinhas, onde
mochileiros ousados podem se saciar? Maio passara. Passou
a Espanha. Passam as nuvens. O frio maior abandonou a
frieza sáxea.

Eis tua Andorra!

Michel mexe no porta-luvas enquanto fala ao parar o


veículo. Andorra, la vieja. Vales estreitos, gargantas,
carrilhão, o tempo de vida se cerca de coisas concretas,
Anyos e Caldea, as montanhas e o desejo das montanhas, a
possível aquarela e as décadas futuras. A peseta e o franco
trarão o amor ao fascínio da rocha e no idioma sem nação?

Esse azul existe?

O sol. Quebra nos cumes – sonho súbito despertado,


realidade maior comoção: um filme já visto e adorado. É
possível, um mendigo? um homem que o acorda com
chutinhos? Talvez apenas bêbado no banco, um traficante, é
possível? Me informo sobre o caminho e a trago de volta, a
realidade. Agora, levo um souvenir. Não paixão mas fogo
circunvalado. Escolhas afetivas são mares quase sempre. Um
rosto que se transforma. Não, não estou dormindo.

Hei chico!

Minha Andorra. O que se pode dizer? No alto dos


montes a mesma cruz que por todo caminho desde Angola,
solene e absolutamente inútil. Este é um caminho único,
agora sou como todos. A vida dos ricos além de fútil não
incomoda mais, de jeito nenhum. Estou terminando um
sonho, mas vocês podem ir às compras como disseram,
depois a gente conversa. Não quero mais segurar vela, seria
legal que alguma coisa acontecesse nesse sentido.

A torre da igrejinha. Domina a paisagem interior. O ar


livre de mercado, de azul intenso, molha casinhas eventuais.
Amarelo de flores improváveis, o verde e a pedra, templos,
um tempo do qual nunca se está convicto. Cânticos que
retornam da infância e afastam a velhice, dos campos de
fumo e trigo aos asinino. Por aí iremos e será a pergunta
irrelevante. A mulher não saberá nada exceto por causa da
calma pressionada contra o peito. Aeroportos! Ferrovias! O
que faço de minha Andorra? Como faço para que uma terra
seja minha? Escrevendo, talvez numa posição incômoda que
provoque dor lombar. Escreverei então.

Escreverei?

No meio das casas, a igreja, deserto alongado em nave,


oásis e agonia. Olhar que toca as pedras acinzentadas nas
mínimas rachaduras, hera mais sutil. Escuta. Os que são bem
de vida brincam nos carrinhos, filmam as nádegas das mocas
à frente, mostram os dentes brancos e o riso fácil demais,
fácil demais. Pássaros do regresso. Passos. Declive. Manto
de luz nas telhas, persistências alimentadas. Quem sabe uma
glória oculta. Neves perenes onde côncavas ou talvez nuvens
amoldadas contra as quais bate a serenidade gelada. Meu
futuro. Catarse. Não, nada de remédio. Vamos. Recorta-se
crescendo o campanário em prumo de luz no meu coração
consumada.

Meu futuro, lugar de oração.

Aspectos bizantinos, edificações românticas ao sol,


cenário europeu de fervor turístico nas feiras das faldas:
gravatas, brinquedos, jogos, a mais fina manufatura de
primeiro mundo. Filmadoras, coqueteleiras, lanternas.
Relógios. Então, Andrei, o que está achando? Comprometido
o meu juízo. Cigarros e bebidas. Os montes quietos,
coadjuvantes. Na esplanada, a ciutat oferece duvidoso
descanso à fadiga do consumo. Perfumados da mesma
colônia, Michel e Oleana. Abrem os pacotes de cigarro
quando me despeço. Te cuida. Gostamos de você, sabe? O
continente me trouxera, agora cuide de mim.

Se as palavras me precisam, que sejam-me provedoras.


A vivência é a estrutura de qualquer obra, acho que foi
Faukner quem disse, ou Ethaw Hank em “Antes do
entardecer”. Fronteiras. O tempo e diferentes espaços
acabam sempre nos mudando no sentido do que fomos
sempre.

Alguns objetivos. Escrevera o artigo movido a três ou


quatro cafés, do dinheiro que Mario enfiou em meu bolso
quando deixei sua casa. Tenho de entregar a encomenda de
Isabelle. No palácio Foz me aconselharam o
acompanhamento dos movimentos contra o racismo e o
crescimento simultâneo de Le Penn. De novo.

O que era isso de me despedir? Poderia escrever da


casa da mãe de Isabelle. Pois então. Michel já se havia
disposto contra a doçura inócua das palavras de Oleana. Me
deixaria lá, garantiu. Ademais, você não gostaria de
conhecer meu avô?

Campos sombrios apesar da idéia de geleiras em que


convivem turismo de surfe e a umidade ávida de Euskaro.
Tourist, remember this is neither France nor Spain. Neve e
fogo. Michel e eu conversamos muito nas noites que se
seguiram. Falou-me dos picos nevados, lembrou-se de
guildas e daquela praia num Atlântico visível. Um enterro,
carreiros e artesãos, a bola basca, frango, cerveja e
pequeninas nuvens noturnas de insetos. Dois dias junto a
pescadores. Telhados íngremes, casas de caimento
ligeiramente inclinado, aurekus, jai lai, agora há bem-estar,
agora há visões de liberdade desde Santo Ignácio e São
Francisco Xavier, quero dizer que não há mais paisagem
exterior, estou conseguindo, o panorama a partir de mim,
sem mais a necessidade de interlocutor, de uma confidente.
Talvez. Há sinais. Estive vivendo para. Donostia. Nada de
manter minha timidez obscura. Se ainda hesitava, Julie me
concedeu essa determinação. Às vezes a revelação será tão
bela e trágica que se tornará herança.

Julie pediu carona não muito longe da ponte. Há flores


azuis e alaranjadas ao lado do caminho. O clima no carro se
havia arredondado a partir do horizonte de Ariege. Insinua-
se junto às curvas até Toulouse e permanece. Com um pouco
de confiança é impossível que você não se dê bem, dizia uma
fraternal Oleana. Não faz diferença o que diz pois a confiança
eu perdera e se quebrara qualquer elo que a ela me ligasse.
Naturalmente o dano era meu, só esperava que algo em mim
se revelasse tornando-me uma pessoa mais plena e,
portanto, um verdadeiro escritor.

Outra vez estávamos na estrada depois de um lanche,


subindo e descendo os Pireneus durante a tarde chuvosa, a
chuva caia em bátegas ruidosas sobre o carro e eu não podia
acreditar que ali estava uma mochileira sob uma frágil
marquise, com seu dedo suplicante apontando na direção do
Golfo de Biscaia, do País Basco portanto.

Julie era de Miramas, uma ville mais ao sul, estudava na


universidade de Toulouse, onde fizera anteriormente Belas
Artes. Ia para Paris, antes Beynac, mas com o sim de Michel
resolveu passar também uns dias na praia e agora adquirira
uma respeitável aura de testemunha no banco de trás a meu
lado. Para ela, maio de 68 já existia em Toulouse antes de 68
mas ainda era muito jovem na época, uma criança na
verdade, entre cinco e sete anos, quando seu pai chegava
para trabalhar na industria da aviação. Usufruiu, diz, de um
espírito libertário que germina antes de 68 e ainda hoje
frutifica. Entendo, respondi, enquanto Pau passava à janela
que à esquerda olhava a cordilheira. A pessoa como origem e
fim de tudo, não o fato histórico. Quero crer que sim, disse
ela, movimentos coletivos só preparam terreno para os que
cultivaram essa terra dentro de si, preparando o que existiria
de um modo ou de outro.

Estradas, os mesmos horizontes sempre à espera,


sempre além. Saint Jean de Luz, ah Donibanetik, Anglet,
Bayonne. Em Sara nos recebeu o avô de Michel, típico em sua
boina, na casa de madeira estalante, a fachada branca
contrastando com o vermelho e o verde das vigas. Sua
mulher nos serve torta de cereja. Mal falava ele o francês e
ela nada. Aqui o movimento armado não é bem visto. Sequer
há uma orientação separatista clara com respeito à França.
Nacionalismo aqui parece uma outra coisa ligada antes à
cultura e em ultima análise às pessoas.

Não dá para esquecer o almoço do dia seguinte, todos


cantando. Je ne comprend donc rien au basque mais je
trouve ce chant trés beau. Quanto a mim, não entendo a
proximidade e distância de Michel em relação àquela gente.
Creio ter ouvido de uma nacao naturalmente livre que existia
sol, e talvez tenha perguntado a um daqueles senhores se
havia uma terra assim com que pudessem sonhar. Há aqui
alguns amigos e um lugar tão agradável e amanha estaremos
saudosos uns dos outros e acredito, disse aquele que me
respondia, ser isso um privilegio, e mal sabia que sua
resposta na verdade estava em mim desde a minha
juventude. Nik maite dudan Euskal Herria! Haverá um
momento em que o avô gentilmente se desdenhará dos
ideais de Julie. A presença do próprio neto parece incomodá-
lo e definitivamente não gosta de Oleana. Julie me contava
sobre a única vez que veio à costa basca, que praticamente
se resumiu à praia de Les Cavaliers.

A gente praticamente havia aceitado que não éramos


mais que convenientes amigos por força de uma
circunstancia de viagem mas isso não pareceu nos diminuir
um perante o outro. A menina de Miramas subiu a pequena
elevação no jardim e se sentou na parte mais alta. Eu estava
com vontade de chorar mas não saberia dizer o porquê e
disse Julie com um acento razoável porém não pude
continuar, realmente me faltavam palavras até porque nosso
inglês não era bom, meu francês péssimo e ela sequer falava
espanhol, português então nem pensar. Não que eu não
quisesse, Andrei, se você soubesse o quanto eu tentei fazer
esses cursos, mas sempre havia outras prioridades. Era
mesmo porém uma questão maior que idiomas.

Chegamos a pensar em fazer amor mas logo desistimos


porque entendemos teria sido uma forma equivocada de
afirmar a intimidade, um desejo de saber mais do outro como
se fosse uma vergonha termos segredos já que nos havíamos
tornado tão próximos. Então como uma estranha
compensação tentamos nos ajudar a entender porque o avô
de Michel e seus amigos não se incluíam entre os
nacionalistas, o que seriam as principais questões de uma
pátria para eles. Estamos recostados, quase deitados na
grama, e ela canta. Agora dá para ver lá na varanda um casal
que em cadeiras de balanço sorri para nós. Ser um cidadão,
disse ela, é de certa forma existir, ter em vista o futuro.
Quando penso nisso, não creio que seja essencial a
preservação de uma terra histórica. Um vermelho noturno
soprou em nós e em seguida diante de nossos rostos passou
uma ave, asas céleres rasgando o ar e desenhando uma
forma liberta. As instituições podem sempre ter soluções
adaptadas, francesas, espanholas, bascas, catalãs. A
liberdade de estudantes ou operários será sempre relativa. A
sombra da nuvem adensa a treva já instalada no jardim
enquanto ela conclui que o ser cujo trajeto vai rasgando o
tempo de seu existir independe do cenário a que está
exposto, ele é em si mesmo a lenda, o mito pessoal, o seu
redor se consiste apenas no papel de parede do quarto em
que a criança escuta a história.

Em Toulouse, sabe, ali mesmo perto de onde vocês me


pegaram, houve manifestações no Maio, o que você escreveu
a respeito, a questão política? Eu disse que não, não tenho a
menor tendência a ver o aspecto político das coisas, na
verdade acredito que 1968 é muito mais um mito, o que
aconteceu diz muito mais respeito à década como um todo.
Se, por exemplo, dizem que a revolução sexual foi a única
que perdurou daquela época, não se pode é claro limitar as
coisas a um único ano. Ao falar isso eu estava pensando
naturalmente em minha dor, na promiscuidade de meu
desejo irresponsável, mas duvido que ela tenha percebido.
Talvez agora, quando me olha direto nos olhos, ela veja um
pouco dessa vergonha.

O vento rodeia a casa como se a estivesse secando.


Leva a umidade atlântica para algum ponto do norte, para os
lados de Periguex. Meu olhar estrangeiro recebe as
experiências como se fossem minhas. O vento. Não se sabe
de onde ou para onde. Agradeço a hospitalidade com uma
expressão em Euskara ensinada por Michel, me sentindo
milenar como o idioma e assim Julie a meus olhos era ainda a
tal criança de quando chegara em Toulouse.

Em certo momento da passagem por Beynac nos


perdemos nos arredores medievais com os pés silenciosos da
vontade reprimida, não faremos isso, não faremos isso –
todavia que mal poderia ter? Ouvimos ao mesmo tempo
palavras que não foram ditas. Éramos, não éramos, ouvimos
dizer que há um sentido para todas as coisas. É que nunca
nessa época seria possível adivinhar o que se mostrará um
dia puro desencanto.

Em Marais, Paris à tardinha, subimos de mãos dadas as


escadas da casa da mãe de Isabele. Na janela aparecem
tulipas vermelhas e amarelas, Julie tem algo em comum com
flores. Não, a senhora não está e, se podíamos esperar,
esperamos no vestíbulo ventilado. Há quadros de uma época
anterior, quando não se pensava em arte como mercado e
mera decoração de esperas. Bem, isso dependerá de quem
espera.

A empregada serviu raclette e café, agrado melhor


impossível, pensa Julie, que adora esse tipo de comida, faz
lembrar de sua avó, não saberia dizer a razão, não é uma
comida tradicional da região de Marseille, você não sabe
como Miramas é linda, com seu aspecto às vezes também
medieval (não concordo, aliás, que se fale em “idade das
trevas”), o vilarejo cresceu do alto, desde a Cidade Velha.
Entendi, eu disse, sem compreender todavia por que aquela
minha voz queria chorar.

É hora daquela lágrima teimosa?

O queijo no paladar.

A senhora não costuma receber e pouco pára em casa.


Agora foi visitar uma amiga e na volta passaria no mercado.
Não lembra do telefonema da filha e não se preocupa com a
hora de voltar. Prefere chegar depois da janta e evitar a
mesa, onde não se sente à vontade. Está a um passo da
separação do padrasto de Isabelle. Não há muito tempo
passou a acreditar na filha, nas histórias que contava sobre
abusos. Talvez sempre soubesse que era verdade, mas
amava tanto aquele homem. Ah, filhinha... Nesse momento,
Não posso esperar, disse Julie, sei que é importante para
você mas tenho de ir ver umas coisas.

Era importante sim, na medida em que eu prometera a


Isabelle.

A noite descera havia pouco e descíamos as escadas,


meus papéis caíram – alguns esboços sobre Harlem Desir,
sua origem, sua causa, seu provável futuro político. Loyers
libres, de acordo com matérias que consegui traduzir (mal e
mal); “Sous le cieul de Novgorod” e sua autora. E Sylvie
Guillen, maravilhosa. Tudo abortado, respondi. Por quê? Ora,
porque tudo o que importa agora é que estou em pleno
estado de paixão. Você é velho para mim, perdoe-me, ela
sorriu. É, sou, e também – Ah, vai dar certo! – palavra
estranha, certo: quando exatamente significa algo?
Afogueada, Julie diz que voltará no dia seguinte para a casa
de seus pais. Mas não tenho dinheiro para pagar um hotel,
que tal a gente andar pela cidade, ir a alguns lugares talvez,
o trem sai cedinho, antes do amanhecer.

Passeávamos por uma Paris que, por comparação com a


vez anterior, acreditei vazia, exceto pelos turistas. Havia
chovido, estava quente, as nuvens passam, é um sonho de
Paris, diz Julie: sem parisienses. Em frente a Baudelaire na
vitrine, ela fazia confissões discretas, de bom tom entre
recém-conhecidos que mostram afinidades e nos mantivemos
naquele nível superior em que se opina sobre a vida de uma
forma muito teórica, como se opina acerca de livros e se
esmiúça filmes e partilha-se o gosto musical; mas as
revelações pessoais são contidas, casuais. Entretanto a vida
real e prática estava ali, gritava em nossos silêncios.

Ela toca violão, compõe e canta, as gravadoras estão


todo o tempo recebendo fitas. Nada no mundo me faz
desanimar, pois certamente morreria se não cantasse. Acho
que há música até nos meus projetos de arquitetura, disse
rindo. Chegou mesmo a mostrar uma musica inteirinha, olha
só cara, chama-se simplesmente My Song – assim mesmo, em
inglês, é para atingir potencialmente mais pessoas, o
segundo idioma torna-se muitas vezes o primeiro.

É, comentei que era mesmo uma tendência.

Compunha, escrevia poemas. Falando, sentara-se à


margem do rio, fazendo massagem no pé que descalçara.
Abaixo da cintura, sou toda problemas, disse, aparentemente
para justificar a meia elástica. Quer ouvir uma poesia? É no
estilo de Rilke, sonho de artista, artista e arte integrados
sem lugar para nada mais. Sonhando, vivia ela assim, à parte
do mundo que diziam ser o real – sangue por pena vertido
sobre a folha branca do cotidiano. O mundo só pode ser
modificado pela arte, ela disse, política quando muito é um
pano de fundo. Os discursos das pessoas são sempre muito
repetitivos, dificilmente alguém diz uma coisa nova ou que
tenha uma nova conotação.

Por isso nos espanta tanto uma obra minimamente


criativa.

Julie era uma estudante de arquitetura fascinada pela


nuance rósea dos tijolinhos aparentes de Toulouse. Rosa que
me lembra canções. Depois recitou a letra da música.
Dividida, era plenamente ela quando deixava de ser. Como
um espelho que aumenta. Etc. Sinceramente compenetrado
nos versos, ele não notou o pavor nos olhos dela, como
ponto de ruptura. Perplexo, perceber quando mais tarde
seus pais contassem do suicídio.

Julie Wingran, assim alta e solene feito o nome, meias


de compressão, sapatilhas, música e poesia desfeitas após a
derradeira angústia. Agora faz todo o sentido a forma como
lembrou de Hendrix e acreditava em Hendrix muito mais do
que em Dylan. Não dá para crer numa arte que deixa de falar
em seus temas, que passe a falar apenas dela mesma, e
todavia é preciso que em algum momento o faça, sabe como
é, uma reflexão, mas só isso, Andrei, não um palco para que
eu atue.

Julie. Vereda curta, inutilmente longa, como o curso


concluído sem reflexo na vida profissional. E agora? A terra
girava. Meus membros iriam tremer e de todo perder a
antiga força. Continuar. Problemas de desejo e inspiração
sublimadora não fariam mais sentido. Sobreviver, de dor em
dor, oprimido, trabalho sem ganho. Iria com o corpo para o
mesmo pó. Agora eu sei. Julie, eu, mais cedo ou mais tarde.
Desfeitos, refeitos. Representação da vida, vida verdadeira.
Rosto no espelho. Vocação supõe coisas reveladas antes da
revelação de todas as coisas.

A verdade, escorregadia, ilude toda evidencia.

Michel e Oleana estão em algum lugar na densa noite


européia. Tardarei ainda alguns meses até saber do caso que
ela manteve com o pai do namorado. Esse era um
pensamento recorrente durante os dois dias e duas noites
em que errei por Paris. Minha enxaqueca voltou, embora
estivesse bem menos nervoso do que o normal. Continuava
sem saber o que faria quando chegasse a Trieste, que voltou
a ser objetivo, como um regime a que sempre se está
disposto e, embora nunca concretizado, sempre recriamos
sua expectativa. Desviava-me. Degraus sem fim que nunca
encontram uma porta.

Vosges. Toda essa gente. Sono bendito impede a


consciência. Sim, voltarei à casa da mãe de Isabelle, levarei a
encomenda. Homens de névoa, mulheres do bairro, cães,
crianças. O que será de mim? Flores, canteiros e jardins
exuberantes, bandeiras, o teatro. A bastilha não é por aqui?
Sem noção, eu havia sentado num canto da Praça e a
senhora apareceu coma menina.

Terei de permanecer eu mesmo. (Maman! Uma mulher


jovial) E só, comigo mesmo. (A menina está falando) Sozinho.
Je ne parle pas Français. (Ela está perguntando se você gosta
de vídeo-game) Ah, não muito.

E você, assim pequenina, já gosta? A senhora traduz. A


menina ri e esvoaça, pipilando. Bruce Willis não tem uma
filha assim nesse filme que estreou? Acompanhei-as até a
casa, ali perto. A menina chama, a senhora convida. O senhor
insiste que eu fique para o jantar. Eu podia trabalhar com
eles, como sanduicheiro, sabe o que é? Eu não sabia. Trata-
se do homem que estende uma fatia de pão como se fosse
um tapete. Depois, os sanduíches vão sendo cortados com
uma lamina redonda. Eles tem uma padaria, uma confeitaria
na verdade, ao lado da casa.

Uma terapia, claro.

No final de um mês, tinha dinheiro para ir ao sul, para o


sul, para Marseille. Compreendem como me sinto, embora eu
próprio não tenha certeza. Calma, queridirinha, não se
preocupe, ele voltará. Pagam um salário excelente, recebo
como um bom profissional sendo menos que aprendiz, jamais
fui assim reconhecido como escritor ou jornalista. Contava
essas coisas para os pais de Julie.

Miramas se aproximava e eu sentia o frio no estomago


das chegadas que não sabem o que se deve esperar.
Miramas, Duas horas de viagem nesse ultimo trecho. É uma
sensação estranha de vazio. Acredito que são onze da
manhã. Sei que não faz o menor sentido, que estou perdendo
o rumo e um mínimo sentido orientação. Perto por perto eu
também estava de Trieste quando em Veneza. Não consigo
encontrar a paz nas coisas pequenas e lógicas ou mesmo no
sonho que se busca com determinação. Estou antes fugindo
de Blandine que buscando encontra-la. O homem passou e
perguntei pelos Wingran, ah claro, são gente muito boa, você
é parente? Umas onze e quinze e os pensamentos se
inquietam por sobre o mar calmo e minha apatia paira
porque minha suposta intenção escapa de qualquer estímulo.
Tão pretensioso (o que posso diante do sol na água?), tão
vivido e todavia tão tímido, creio que já me perdi.

Chapelle Saint-Julien. Agora vou. Muito prazer, meu


nome é Andrei. Meus sentimentos. Falam dela, de Julie, o
quanto era valente e doce. Eles acabaram me consolando, eu
não devia me culpar. No final da tarde, choramos. A presença
de Julie é um mundo que surge como surge um rosto da luz
que amanhece no espelho.

Acompanhei-os numa sexta-feira a Marseille para


resolverem algumas coisas em relação à filha. O homem está
submerso num jardim indecifrável, está como morto. É
alemão, de Darmstadt. Fala-se de integração no país dele. O
alemão é um idioma bem difícil. O senhor Hans. Se mostra
indiferente ao futuro, Que me importa? Minha filhinha. Mas
consegue se animar um pouco ao falar de Kant.

Não ficou muito claro se os Peyroux estavam me


esperando de volta. E há alguém na Itália que preciso ver.

Ele não irá nem para um lado nem para o outro mas
continuará viajando, é como nossa filha. Não chore, amor.

E agora para onde iria? Não achei ser adequado falar de


Blandine e pensei em um breve giro pela Europa antes de
voltar ao Brasil agora que também estava na varanda e que
não existiam mais vagabundos ao redor. Vejo entã, mais uma
vez. O quanto deixo de ser. Esse cara sem personalidade, ao
sabor das aparências, preocupado ainda com o que
pensarão; é assim com todos em toda parte mas eu não
somos todos e a parte que me cabe parecia até ontem apesar
de tudo especial. Valerie, a mãe de Julie, sugere a Holanda,
Julie ficou lá recentemente, passou as férias num barco, fez
bons amigos. Parece-me que vi um olhar reprovador no
marido, talvez até imagine a razão. Ah, sim, eu tinha dinheiro
suficiente, eles foram realmente muito generosos. E se não
desse, pensei, ora, esse tipo de loucura é a minha vida. Parti
no dia 7, pensando ouvir qualquer coisa sobre Oliver North.

Quando deixei Miramas, soube que não voltaria; pela


primeira vez sem pena ou vergonha, soube que não voltaria,
não para ficar em lugar algum. Não deveria me preocupar
com a perda das raízes, algo que eu nunca tive. Nação é um
fenômeno transferível. E o Brasil estava em Trieste. Excitado
novamente com a perspectiva, metido num terno bege de
linho amassado, tomei um avião para Amsterdã, tranqüilo,
um rapaz de bem, pensa sua companheira de viagem, e lá
estão os amigos de Julie, entre paredes inclinadas e
bicicletas; paira nas ruas o cheiro de maconha, pego um trem
depois, vou para Bruxelas onde há todo um clima propício a
Cohn-Bendit, haverá ele de ser no Parlamento europeu
devidamente reconhecido e tratado com a honra do acaso.
Choveu há pouco, agora abriu o sol, parece um tipo de
tradição. Travei ainda breve conhecimento com um
diplomata, animado com a perspectiva de Lisboa estar
cotada para ser a próxima capital da CEE.

Foi na Bélgica, caminhando por ruas limpas ladeadas


por canteiros, ao distinguir uma moça no sentido contrário,
um pássaro ao crepúsculo, uma abelha a depositar pólen de
saudade, uma poeira fecundando em mim, no meu amor, que
imaginei poderia voltar para Paris e procurar sim a senhora
Hélenè, trabalhar com os Peyroux mais um tempo e traria de
universos prósperos a necessária prudência material para
que fosse enfim a ultima baldeação antes de Trieste.

Em Paris, quem diria, eu estava em casa, no berço do


Maio, a cidade luz, propícia a revoltas desde que inócuas,
centro de meu sonho europeu e de um lugar de trabalho, o
que sempre facilita as coisas, incluídas as que não tem a ver
com trabalho – enfim, meus olhos no aeroporto viram a tarde
entre as pessoas cheias de malas, de lá para cá,
carregadores, táxis. No céu, uma lua no dia se intromete. A
azáfama não causa medo, eu tinha para onde ir, não
dependia de ninguém. Na verdade, não me restava muito
dinheiro, quase nada na verdade, mas tudo bem. Não estou
preocupado. Marais está envolto numa luz pálida,
abandonada.
Então a velha empregada. Explica. Eles não estão. Não
sei quando voltam. A mulher não é rude, não é simpática,
apenas informa. Agora você está de novo ao relento, amanhã
poderá comer ou não. Mesmo assim agradeço. De nada. A
rua é um ser selvagem, os carros são monstros terríveis; as
luzes, instrumentos de tortura, as pessoas flamejam. O que
não tem remédio. Padece a folha ao vento, pousa num
parapeito. Caminhei pela arcada, sentei-me no mesmo banco
da praça.

O tom cinzento do numero 15 sabe o que sinto, está


estampado em mim, os vizinhos acham que eles não
voltarão, parece inclusive que venderam a padaria. Ah,
obrigado. Segundo o cliente de um antiquário, foram para
Milão. Há mendigos no meu suor frio. Segundo a profecia das
vitimas que se tornaram fraternas, estabeleça-se a medida
da recordação e da projeção. Que não seja preciso precipitar
o pranto em publico. Até Julie eu era um andarilho. Depois
dela me tornei um dos tantos sem-teto europeus que, sem
trabalho, caíram na rua, até em Miramas havia.

Anoitece, a noite de contornos do mundo outra vez, é


um mundo outra vez, um túnel para lugar nenhum. Eis a
minha hora. Eu olhava as pessoas com um misto de
perplexidade e terror, sintomas de uma doença que se pensa
curada, sinais que bem se conhecem, é a recaída ou nem
houve cura. Há odor de século passado até na indicação do
metrô. Só não pode esfriar. Toca um telefone. Uma barriga
luzente. A jovem se abaixa, à mostra o inicio do sulco no cós.
Vitor Hugo viveu aqui. Teria escrito. Je suis en train de
mourrir! De novo sozinho como os que acordam de um
pesadelo gritando e descobrem que o despertar não traz
consolo salvo talvez a fome, essa referência.

Limite até onde vai o desespero.


Rue Saint Antoine. Tenho de comer alguma coisa.
Aprende-se a cada dia, nada diferente de aprender acontece
na vida. Lembrei, comparando, minha situação sozinho em
Luanda. Lá havia a disposição peculiar dos que tudo podem
porque nada os embaraça. Tentam qualquer coisa, o
eventual fracasso estará longe de qualquer pessoa
conhecida, de toda vergonha. Essa virgindade a Europa já
perdera. Paris era caminho de Nastácia, Michel, Oleana,
possibilidade de Mario, Isabelle, dos pais de Julie...
Vergonha. O céu incendiado sorri com sarcasmo.

Aquela súbita rapidez de passos supunha que eu tinha


eu um destino.

Os lustres pendem em losangos. É um losango? Sou


péssimo nessas coisas. As pessoas passam nos pátios,
definitivamente mau-humoradas. Passe partout.

Olha e vê a si mesmo no reflexo do vagão. Ainda bem


que não está frio. De um lado para o outro, as pessoas vão e
vem. Não há a calma que propicia alternativas, nunca vira
algo assim, adeus segredos ornados, adeus solidão
reluzente. Estremece. Octavio XIV estremece, tremem as
seculares pedras acima do Maio: era a perspectiva do Pink
Floyd – eles ainda comoviam, com seus lasers, a juventude
mais esclarecida do mundo. Não saberia agora o rumo. River
rolls, time pass. Ainda que fosse um rumo qualquer, não o
mais adequado ou sabiamente ponderado, talvez seus
passos o fizessem por ele, teriam de fazer.

Precisa sair dali.

Os passos se apressam e como sempre, quando se está


vulnerável, surge uma igreja.

Há gente sincera na hipocrisia cristã instituída, pensa, e


durante a celebração já estava arrependido de seus muitos
pecados, pronto a se redimir deles em qualquer lugar onde
lhe dessem guarida.

O pastor se inflama, grita, cospe, demonstra


inequivocamente que os prevaricadores estão com os dias
contados e os que tendem para a sensualidade arderão
todos, eu disse todos, e soca o púlpito, ergue a bíblia
equilibrada na mão direita, aberta no fogo consumidor –
arderão – nunca soubera direito o que era o dom de línguas,
pronto, descobre, – queimarão –era alguma coisa antônima a
babel, a ação inversa, jamais preguiçosa, entender o que se
grita em idiomas que não se domina e saber que em seguida
virá o sublime momento das decisões, isto é, quando os
pecadores abrem o coração a Jesus se adiantam onde todos
possam ver e testemunhar o milagre, e em desespero ele
vasculha os bolsos, a cadernetinha, procura o endereço
daquele argelino, tenho certeza de que anotei aqui, e lá vão
os salvos a caminho, e sim reconhece que precisa comer, ter
um lugar para dormir, hesita e por fim recua, endurece o
coração, está perdido, não irá ter seu rosto iluminado pela
bem-aventurança enquanto louvam, aleluia, e agradecem e
comentam. Mas uma mulher.

Chama.

De aspecto sério, transgressor da orientação bíblica


sobre penteados, atavios e jóias, seus dedos longos
encimados pelo carmesim se ramificam no couro dourado das
letras na capa do livro. Pergunta. Brasil. Não falo francês.
Não pelo dom de línguas, ela muda o idioma. Gosto de
brasileiros.

Saímos em seu carro. Indagou acerca de minha vida.


Respondi com toda franqueza. Mas era assim tão difícil
voltar? Pela embaixada em Lisboa, par example. Era e
também seria o retomar a vida no Brasil.

Os jovens. Sempre se aventurando. Eu não sou tão


jovem assim. Talvez aliás fosse essa a pior parte do
problema. Bem. Tampouco ela. Jovem é minha filha, par
example. Mas me sinto tão jovem quanto. Porém ponderada.
De fato. Ainda jovem, e muito bela. Lisonjeada, comenta que
se deve ter cuidado com portas entreabertas. As portas de
retorno são sempre mais difíceis de se encontrar.

Calei.

Você deve estar com fome, claro. E, como eu


respondesse que ela parecia ter experiência de situação
como a minha, assegurou que eu não era o único imigrante
naquelas condições na Europa. Como ela sabia?

Sabia.

Convidou-me para comer alguma coisa. Durante nossa


conversa no restaurante, Você está com um problema sério,
disse ela, mas não estava se referindo à coisa da matéria,
mas queria dizer a síndrome de posteridade agravada por um
misticismo confuso. Como assim?, respondi, A senhora é
religiosa. Ela gostava de igreja e, diz, creio sim em outro
mundo. Mas você, rapaz, vive em um.

Estávamos à mesa a cerca de uma hora e meia. Ela


pediu licença, disse que tinha de dar um telefonema. Voltou,
pediu que a desculpasse, precisava dar uma saída, pediu que
a esperasse. Tive receio de que não voltasse, um medo físico
recusado por minha alma.

Na ausência de Beatrice, as pessoas nas mesas em


redor. Comendo bebendo e tendo para onde voltar. Eu
apenas retinha a idéia de lar, adorada e com a qual não
saberia decerto subsistir, caso se tornasse real. Quando ela
reaparece, traz consigo meu alívio, na bolsa uma paz que
como o seu nome, eu ainda ignorava. Não pensava mais
possível.

Época dos cafezais. Subsisto nas muitas tensões. Em


grande parte, graças à codeína. Após o primeiro dia na
panha, fraqueza, mal-estar, vômito e diarréia. Imaginam que
é falta de costume. Mas depois, na seqüência, o trabalho
árduo se mostra benigno, calmante, e no decurso dos dias
fiquei corado, engordei, me mantive limpo dos remédios.

A crise de Kátia. Para eu mesmo suportar, retomo o


hábito. Agarro-me à economia das ultimas cápsulas. A
síndrome espreita todo o tempo.

Agora. Solidão, fome, relento. Os sintomas da


abstinência já se manifestam: músculos repuxando, rigidez
facial, tremores nas extremidades, movimento involuntário
das pálpebras. Sempre se imagina que uma situação
tranqüila resolverá tudo. Não é verdade. Tive muitas chances
de largar. Em Paris mesmo, antes. E não adiantava sonhar
com novos cafezais, trabalho braçal na roça. Tomara a ultima
cápsula no dia anterior, presumindo da nova estada em
Marais, do trabalho na confeitaria, de uma nova caixa de
cápsulas etc. Portanto. Ah o alivio quando Beatrice me
passou francos e dólares sob a mesa. Junto um envelope, um
papel carbonado.

O sud-express.

A moeda francesa é para cobrir as despesas em Paris; a


americana, o valor de uma passagem de avião de Portugal
para o Brasil. Mas mal me conscientizei da viagem. Pensava
na farmácia. Aos poucos despertei do alivio. O sud-express, o
comboio Paris-Lisboa, sem crise de abstinência. Obrigado,
obrigado...

Sei que estou pálido, doentio. Tudo bem. O remédio me


manterá. Porque tanto quanto na fome, talvez mais, na
síndrome de abstinência não existe mal ou bem, culpa ou
inocência, só o vício em estado bruto. Sem sublimação, sem
arte, sem amor, sem dilemas existenciais ou destino. Por mor
dessa dor jamais anjos, cansada vida. Só o vazio, o vazio
total suplicando, suplicando outra dose. Cold-turkey, o cold-
turkey. Ei, onde você está? Beatrice passa a mão direita
diante de meu rosto. Pediu que eu pagasse a conta, depois
disse: Vamos.

Ao entrarem no prédio, reconheceu as tulipas. Lá em


cima, mexendo alguns papéis, a encomenda da filha. Pena
que o amigo que a trouxe não tenha esperado. Ouvirá a
explicação do rapaz. Saberá de Julie. Sua atenção conforta,
seus olhos brilham; sua boca, num instante breve, se
transforma na boca materna, seus seios logo satisfarão a
pequena Isabelle. O que, se não tivesse a senhora Hélenè
naquele dia? O que, se não Beatrice hoje? Dentre outras
coisas, o desejo se confunde com o constrangimento.

A senhora deve com razão me achar um oportunista. A


maldição humana, disse ela, é julgar. Deixei minhas coisas e
saímos de novo para uma volta.

O caminho produz um olhar agradecido. Atrás deles a


rua se estreita. Se afastam do rio. Contei de Blandine. Está
fazendo uma temperatura agradável. Poderia eu continuar
amando assim intenso se não mais pudesse vê-la? As
pessoas usam casaquinhos. Poderia, pergunto ainda,
sublimar o amor e, sem mais a angústia da posse, ser fiel?
Village Saint Paul. Se apaixonou então perdidamente por um
canalha. De onde brotam tantos pombos? E, agora, depois da
morte do pai de Isabelle, talvez tenha voltado a amá-lo.
Acabei de abandonar esse maldito, agora quero apenas a paz
das lembranças. Bem, quanto a essa resistência em relação a
uma eventual possibilidade de publicar, não quer dar
entrevistas de divulgação, tem mais a ver com um certo
sentido de respeito pela obra, que no caso é quase uma coisa
paternal, a senhora entende, Não posso permitir
simplesmente que o mundo via mídia se aproprie assim do
que é meu.

Barulho das águas da fonte.

Muito de madrugada, três e meia no relógio da sala, ao


sair para o banheiro, tateando no corredor junto à espiral da
escada, o luminoso repete-se lá fora. De volta ao quarto,
ondas da evocação de Isabelle. O dia então, na claridade
consumada, pousa na janela. Descerei a escada. Antes, terei
deixado o bilhete. Agora, as cápsulas.

O atendente não atende de imediato. O medico no


sobrado. Enfim a receita. Cremenceau, sintomas em aura.
Avenida Churchill, uma cápsula a seco. Depois outra, um refri
na brasserie.

A não-chegada da crise de abstinência. Eu me sentia


outro, desacostumado que ficara de mim. Como se eu mesmo
fosse uma condição exterior a mim. Sinto-me seguro com a
cartela no bolso da jaqueta. A placa de rue à altura de minha
cabeça mas eu não estava na rua, não chegou a síndrome, eu
era eu sendo outro – o desejado efeito de minha sobriedade:
fui feliz por dois dias.

Envolto na fumaça, o trem deu o tranco. Sentado à


janela, espalmei a mão no vidro. Da plataforma, ela pergunta
se eu escreverei. A senhora gostaria? Ela disse que não.
Talvez eu escrevesse. Um sorriso em seu rosto triste, sol
entre nuvens.

A dificuldade do adeus. Até ali, eu simplesmente não


parara para pensar no avião do regresso, exceto pela
gratidão que à senhora Beatrice devotava. Alguém pode
indagar por que a dor. Não sei. Mas à medida em que ela,
Beatrice, vai ficando pequena, menor cada vez ao ritmo do
ferro, é sofrendo que soletro, tocando os dedos na frase, um
ultimo protesto de amizade e admiração. Ela disse algo que
entendi como Adeus, querido, vá e encontre teu mundo.
Duas lagrimas azuis encheram os seus olhos.

Era meia noite quando a locomotiva puxou os vagões,


apitando. O sud-express... Parecia fantástico na imaginação
e todavia era igual a qualquer locomotiva puxando vagões e
apitando, em qualquer parte.

Uma locomotiva tem sua rede de músculos, como um


homem, na Europa, na América, em qualquer lugar. Podem
ser diferentes os homens, e são, mas a estrutura é a mesma
– como um trem. O cordel da maquina fazendo as vezes de
corda vocal; o apito, a voz; os tiques férreos tiquetaqueando
na fricção da partida – como pernas que se preparam para
correr. A fumaça da respiração. Os passageiros nos vagões,
células renovadas. As paisagens do sonho.

Sempre se precisa ambicionar uma estrela distante.


Sud-express. Sempre se ignora uma outra, tangível, aos pés,
na areia do mar onde pisamos – o mesmo mar, com a
estrutura de um ser humano, a voz das ondas, a alma do
abismo, e glóbulos de peixes em veias de correnteza: a
bonança como a calma de um homem e a tempestade coma a
fúria de uma mulher ciumenta – em todas as partes do
mundo.

Beatrice e eu deixáramos sua casa às dezessete horas.


Eu queria ainda ver um ultimo crepúsculo parisiense. Soava
melhor: No dia em que deixei Paris, o céu incendiado; do
que: Quando partia de Piumhi, os cafezais empoeirados.
Vaidade é inerência humana e senti-la, de algum modo, me
ligava ao resto da humanidade da qual me retirara. E ao ver
com a luz daquele céu a umidade tornar ainda maiores os
olhos dela, talvez essas colméias iluminadas tenham
inspirado o sonho que tive no trem.

Antes, a meu lado, um homem trazia aberto um livro.


“Everything is of equal importance from a truly creative
stand-point”. Parece coisa beat. Não estava de todo errado.
Era a introdução de Henry Miller para Os subterrâneos”.
Depus na passagem minha confiança. Suspirei pela chegada
a Lisboa e reinicio de meu livro, enfim só e sossegado,
espanto da quebra de longos costumes. Que os nervos
saltem mas eu seja. Cada vez mais o corpo dispensa piedade,
por virtude do paliativo. Não saibam minha doença. Quem
sou? O que se exalta? O dócil? Sou ambos, todos, a lasca de
rúcula, o sal e o vinagre balsâmico. Também a saladeira.
Misture bem. Sirva em seguida. Eu estava livre. Voltaria
enfim para o Brasil como um vencedor.

Depois de muita impressão trocada, da excitação de


conversar com um brasileiro na França (e sobre Kerouac!)
acabei cochilando e veio o sonho, visões da primeira vez que
fumei um cânhamo indiano legítimo, fortíssimo. Sob estrelas
que não vejo, acalentado pelo thuthuchz-thuthuchz do trem,
lembro, sonho. Eu, o iludido, o sonhador, na casa de minha
mãe, olhos fechados, um vaga-lume pairando sobre uma
circunferência negra, gigantesca. Piscava. Arte. Ajuda a
viver quando não simplesmente vive em nós, lojas de artigos
de inverno que vendem mais em pleno verão. Piscava, e do
outro lado da bola, outro vaga-lume piscou. Arte. Lenda de
crianças desaparecidas atormentando os vivos séculos
depois: o terror e êxtase futuros, décadas antes. Depois um
terceiro. Agora ele é esse terceiro vaga-lume e eis um quarto
– eis dezenas, milhares. Logo a circunferência inteira
brilhava, plena fulgência. Fugaz aparição. Ficara, todavia –
pelo espelho, pelo Outro, pela noite, pelas letra se todas as
paginas ainda em branco do caderno e os traços que a
simples memória recusou.

Despertei. Levantei-me. Por que estou chorando? No


espaço entre os vagões, respiro o ar molhado. É
praticamente verão, mas não está quente. Pergunta sobre
minha volta. Eu ainda não sabia, embora agora houvesse
meios de voltar, uma ponte reconstruída. Ele me contava da
primavera agradável no Brasil, inclusive na fria Curitiba,
onde morava. No verão, planejava ir para o Rio, pegar uma
praia e nadar um pouco. Na plataforma de desembarque de
Lisboa, eu vi, de esguelha, porque era outono e o inverno se
aproximava. Nastácia.

Há confusão em sua mente. Está ali parado, sem


esconder o rosto. Se ela o buscava, iria encontrar. Se era o
que ainda queria. Encontra, de fato. Acompanha os últimos
metros da composição. Sansão Medeiros, que mencionara
uma volta ao Brasil juntos, imagina a namorada do outro
brasileiro e que gostariam de ficar sós, despede-se.

Desço. A mochila no chão. Nastácia sorrindo a meu


encontro. Onde a fúria do mar? Eu a abandonara...

Não estava sozinha.

Per un futuro felice!, diz o homem a seu lado. Não podia


ser o marido. Oi, sou Franco Belini! Era.

Como sabia que eu estava naquele trem? Sabiam? Não


vamos duelar ou algo assim? Ele riu. Imitei-o.

Amava Nastácia, disse ele, e talvez ela o amasse. Ou


tivesse amado. Mas tinham um serio problema, a
convivência. Quanto a você dois, ela contou. E se amam, e
convivem bem um com o outro, devem continuar assim,
agora pelo menos, independentemente de se vai durar.

Seu raciocínio, coerente e liberal demais, me assuntou.

Mas aconteceu que, subitamente liberto da


dependência financeira de Nastácia, percebi nela encantos
que o dinheiro embotava. Como se fosse uma outra mulher.
Alguém que se deixa de ver por um tempo e na ausência
cortou o cabelo, mudou o penteado e passou no falar a ser
discreto. Uma nova pessoa. Barco que se vê ao longe: visão
falsa quanto ao tamanho e incompleta nos detalhes, a
memória e imaginação suprem essas lacunas para entregar
ao desejo um ser inteiro – não apesar da distância mas por
causa dela, deliciosa pessoa.

Percorrer com Nastácia os mesmos caminhos que


percorrêramos quando eu estava na miséria era andar por
caminhos não só novos mas redentores, lugares em que o
menino costumava brincar mas temia a chegada da noite
enquanto o homem se afadiga no dia e regozijará com as
sombras pelo crepúsculo prenunciadas.

Montes de mãos, rios que corriam em meus dedos,


impulsos primários de todas as formas satisfeitos. Noite. O
céu estrelado sob o vulto da árvore contorcida, ao ribombar
regular dos trens estremecedores cruzando a guarida do
manobreiro. Eu e Nastácia ocultos pela copa próxima à Torre,
ou será aquele o monumento aos descobridores?

Deita satisfeita na coberta retirada da mochila.


Margens mágicas sujas de lendas. Castelos. Abaixei-me junto
às águas. Transportei-me. Lugares inexistentes não precisam
da passagem de regresso. Azul escuro atemporal. A
lembrança de sempre na noite que restou. Um Tejo real,
adormecido. Só iremos dormir para valer já quase na manhã
de domingo, no gramado ao redor da igreja lá em cima, após
o sol secar o orvalho, lá pelas seis e meia.

Semelhante sono tende a ser desfeito pelo calor dentro


da lã na blusa necessária para a noite fria. Haverá além da
morte talvez o que se poderia ter em vida, saúde e
prosperidade, a forca de uma natureza benigna, a amizade
dos animais hoje selvagens, águas correndo da direita para a
esquerda perante os grãos de miragem que se formam nos
olhos quando desviamos o rosto para que não vejam que
está vermelho de uma irremediável vergonha. Cansados,
famintos, vamos agora procurar uma pensão. Acabamos no
velho hotel defronte do coliseu, luxo perigoso, sempre.

Chegamos assim a semelhante situação:


Eu nada dissera sobre a volta ao Brasil, sobre o dinheiro
que para isso me dera a mãe de Isabelle. Aliás, não falamos
sobre nada quanto aos últimos meses, os de nossa ausência
mútua. Nastácia está tranqüila em relação à parte financeira,
por causa de Franco. Também por amigos anteriores ao
marido, aos quais não vira após o casamento. Em sua maioria
portugueses “retornados” de Angola. Passaram por maus
pedaços na volta, após a independência da colônia, mas
conseguiram se restabelecer em Portugal. Tenho certeza, diz
ela, que nos receberão enquanto as coisas se acertam. Não
quis tripudiar sobre sua decepção, mas à época eu disse:
Será? “E se”... Agora é tarde, não adianta. Hoje sou enfim
um cara realista. Pelo menos isso as vicissitudes me
ensinaram. O sol em cima dos telhados é enfim apenas o sol
em cima do telhado; a nuvem só uma nuvem, não uma pista
de pouso. Mas eu sei que é triste a vida sem sonhar. A
pomba no parapeito do hotel geme qualquer coisa a respeito
e estala as asas, deixando-me sozinho novamente.

Pois bem. Os tais amigos recusam guarida. Um após


outro. Todos. Não. Exceto Hilda. Desce a noite e como a
região do coliseu se encontra triste à noite! Mulher
admirável, a Hilda. Ela e o novo marido, Garlos. Hospedam-
nos. As duas recordam passagens da adolescência enquanto
ele e eu acertamos meu emprego em sua fábrica de moveis.
Tudo caminha tão bem que me esqueço do livro. A paz é em
geral péssima musa. A banalidade dos felizes.

Comecei a trabalhar. Rapidamente, a reputação de


funcionário exemplar, simultânea à de protegido do patrão.
Garlos estava a pensar, diz logo depois do jantar no primeiro
sábado, em me pôr num dos escritórios. Serviço braçal não
combina contigo. Mas eu adorava. Feitura de cadeiras, mesas
de TV, vídeo e computador, escadas graduáveis. Montagem.
Ah, e a preparação das embalagens – pode-se dizer que me
tornei de fato um perito em nós.

Dias calmos na casa do casal. Nos finais de semana


íamos a um barzinho onde serviam bebidas quentes à lareira.
Sim, sobretudo aos sábados, sábados como ontem, meu
Deus. O pombo circula, está de volta. Ah, meu amiguinho. A
única coisa que me incomoda, Garlos, é incomodar vocês,
Incomodar nada, Claro que sim, por exemplo tirar sua filha
do conforto do quarto dela para nos instalar. Não era nada,
disse ele, era um prazer, completou Hilda. Mas de fato
mudaram a rotina da casa, horários de banho, refeições,
lugares à mesa, alem dos quartos. Perderam a privacidade.
Não é verdade meu amigo. Estamos optimos!

Mas um dia, tensão à mesa do jantar devido a um


problema com a menina. Pare! Não fale assim! Somos teus
pais! O quarto estava decerto entre os motivos da rebeldia,
não fosse o único motivo.

Uma casa de praia sem uso. Pedreiros e reforma.


Podíamos ficar lá. Hilda e Garlos oferecem uma resistência
não-convicta. Isabel nos olha agradecida. Amanhã estaremos
à beira mar. O sol busca no mar seu próprio reflexo, sombras
pesam em torno do hotel. A pomba se aquietou em algum
canto. Então silencio. Quero a solidão sem desejos. Deve
haver algum modo de saber por que o silencio nunca é
sereno. Há pouco, acordava e olhava a cidade lá embaixo, o
rio, os cacilheiros pequeninos. Houvera um casamento e as
pessoas saíam ao gramado a confraternizar.

Da distancia em que estávamos, eu e Nastácia aos olhos


dos convidados devíamos fazer parte da vegetação que
ladeava a rua até a igreja. Nos fones de ouvido, escuto a
mesma canção que escutei no aparelho de som de Felipe, na
casa de Garlos. Os transeuntes lá embaixo formam uma
mancha esverdeada, escura, móvel, nas cercanias na Torre.
Acordar num lugar assim traz invariavelmente um prisma
distinto, tudo parecerá novo – é a vantagem de estar
dormindo na rua e um dia em cada lugar.

Desviei olhos doloridos na direção de Nastácia. Cheios


de lágrimas, a viram, derramando-se entre os sonhos de
amor e o medo. Quando ela acordar, eu lhe direi que há
dinheiro suficiente para passarmos no hotel aqueles dias até
conseguir outro emprego, ou enfim a esperança é a ultima.

Contemplo de novo o rio, a cidade, as pessoas


pequenas, a mancha móvel, tudo cheio de desespero
também. Um arrepio nos nervos. Os olhos da pomba no
escuro. Deixo a varandinha, entro no quarto e fecho a porta,
recordando. A mudança para a casa de praia.

Outra vida.

Fins-de-semana, uma festa. Felipe, filho de Hilda e


meio-irmão de Isabel, 16 anos, descobrira facilmente ser eu
um apreciador do haxixe e, consumindo-o ele mesmo
desbragadamente – sem que a mãe, imersa em
planejamentos grandiosos, ou o ocupadíssimo padrasto
percebessem – introduzia as madrugadas de sábado a
buzinar sua moto, com a namorada na garupa eventual. Olá,
tios giros! Ô pá, cá estamos! Vinham sempre com irmãos de
CBX200 a fim de celebrar o ritual do início da noite de
sábado.

Ah, o que a mãe dele haveria de dizer, sua comportada


amiga de Luanda!... E Nastácia ria, riso de cristal ecoando na
cerâmica espelhada. Balcão de granito, arde o incenso. Estou
rejuvenescido ao entrarmos no astral do sonho, conversando
sobre o Deus do mar e das estrelas, sob elas, ao lado da
churrasqueira no quintal.

Numa segunda-feira, Hilda telefona. A primeira


secretária do escritório de Garlos em Lisboa pedira
demissão. Ela usou meias e ligas para convencê-lo a dar a
vaga a Nastácia. Significava que eu ia perder o lugar na
fábrica, pois só a parte administrativa funcionava na capital.
Começam grandes discussões, é claro que eu posso
continuar aqui e você ir para Lisboa, podemos passar juntos
os finais-de-semana, alugaremos uma casa numa cidade
intermediaria. Por quê? Separar-se? Estás a querer se ver
livre de mim! – Claro que não, Nastácia, seja razoável, estou
bem em meu trabalho, não é só uma questão financeira, e no
fundo eu sabia que a polêmica transcendia em muito essas
coisas. A brasa de um cigarro, quando rodada no escuro,
parece um circulo de luz ou de fogo; mas devagar torna-se
apenas uma brasa de cigarro girando no escuro.

Também Hilda e Garlos vão veementes de encontro a


meu desejo. Para ela, Hilda, será impossível Nastácia
conseguir algo semelhante noutra firma e para mim há
grandes chances de ter uma função igual em Lisboa. Sem
contar, acrescentavam, que eu ainda poderia trabalhar como
jornalista. E escrever teu livro, amor.

Mas um livro não é trabalho, trabalho é remuneração


imediata.
O ultimo dia na casa de praia. Lentamente o sol surge
na névoa. Cães latiam. Ventava muito como sempre. Da
porta, vi Blandine saindo da água. Um pássaro pairava sobre
ela. Mais um croisant, querido?

Mudamos para um subúrbio lisboeta.

Primeiro dia. Disciplinar-me por meio de uma agenda. A


idéia de me dedicar ao romance. Não deixa que a depressão
se instale. Já esqueci a discussão que tivemos ao chegar e
Nastácia dizer quanto era bonito o prédio. Tão difícil
conseguir um emprego bom, uma renda regular, você joga
tudo pro alto e quer que eu fique admirando a arquitetura
lisboeta?

Ah, Andrei, vê se pára de reclamar, estás a encher o


meu saquinho! Logo ela, que sempre disse que não sabe
fazer nada, nunca trabalhou, e nem quer saber de –

Caralho!, que eu saísse dali, saí, me deixa em paz,


porra!

Vou para a porta, Adeus então – Não, por favor, não


vá... E fazíamos amor melhor depois das brigas.

Recomeço a trabalhar no livro. Sem haxixe e mantendo


a codeína a níveis de não-retirada. Passo os dias pela cidade,
faço anotações em praças, em snacks, na mureta do Tejo.
Trabalhar, trabalhar mesmo, escrever à vera, só no silêncio
da noite. Aproveito notas de viagem, entrevistas,
depoimentos, poemas, artigos e, sobretudo, filmes.

Um escritor que acha melhor um filme do que um livro,


cuja técnica se há uma é antes de cinema que literária.
(Nesse período, particularmente, sou tocado por “Bird”,
a biografia de Charlie Parker. Não quero mais ver outro filme
de Clint Eastwood, não quero ver Forrest Whitaker na festa
do Oscar)

E tem o caderno que mantenho à cabeceira ou à mão,


onde quer que tenha dormido. Ao acordar para fazer xixi há
sempre um fragmento de sonho ou – de novo essa voz – e
logo adormeço de novo e pela manhã, ao Nastácia sair,
descubro feliz o poder da retirada de trechos do texto
principal, a eloqüência da rasura. As descrições viajam de
fora da janela para dentro de alguém que antes em mim não
existia, não sei direito quem é. Sabe as coisas a seu modo.
Me arranca das entranhas em inesperados crepúsculos de
efeitos, arrebóis de figuras, tudo o que é linear se torna
inverossímil. Que vida? Quem assim? O que se fala? E vem o
prazer da digressão.

Vou contar como:

Uma noite acabaram as cápsulas de codeína. De há


muito só protegiam da síndrome, de há muito não retirava
delas a mínima fonte de prazer. Para tanto servia também a
substância no emagrecedor de Nastácia. Procurei.
Costumava guardar numa gaveta com extratos bancários,
receitas e anticoncepcionais. Minhas mãos tremem. Derrubo
papéis que me serviam de guia no romance: mapas de metrô,
notas ficais, recortes, páginas avulsas, cartas. Encontro a
caixa, tiro um comprimido da lâmina, engulo com um pouco
de suco e me preparo para arrumar os papéis.

Para quê? Por que fora de ordem não me serviriam de


guia? Garantiam o domínio do tempo independente da
cronologia. De resto é como as coisas eram, caóticas, e
qualidade literária não há mesmo, nunca houve, de uma ou
de outra forma, agora eu sei.
À frente, um poema escrito na casa de Oleana. Quero
voltar para Lisboa, quero ir para longe, para a luz de um
mundo esquecido, novo porque antes um dia já vivido
(quando?), mas não mais por isso não mais, mundo
esquecido, reencontrado como a rocha em alto mar no
horizonte incendiado – mas não adiantará: lá ainda estarei
ainda comigo, minha perpétua e indesejada companhia, lá
estarei ainda longe de meu amor. A luz de uma vida não
perdida mas oculta, como a depressão de alguém rouba a cor
de seu quarto.

O postal de Kleber, a janela, o sol de outra cidade.


Assim purificado pela ausência, ou seja pela imaginação. O
que é isso? Ah o recibo do hotel em Atocha. O jornal que fala
do seqüestro. Minha carteira profissional. Dez anos entre o
primeiro e o último carimbo de uma empresa jornalística,
aqui pode entrar o diploma que não tenho. Em algum
momento aparecerá o passaporte. Não é questão de lugar,
sequer de tempo, mas de alguma coisa que existe em ambos
e os transcende, habitando céus e terra e sobretudo o limbo
intermediário.

Estar verdadeiramente apenas ao não estar, ao


lembrar, ao imaginar. Este recibo da pensão no Bairro Alto
me traz mais daquele período do que de fato sentia lá. Recrio
aquela vida e súbito eis que é vida enfim, justo aqui perto
assim da morte. Algo sobre Angola deverá vir na
correspondência que recebi ainda no Brasil. Vamos ver.
Aquela Time na casa de Oleana. O Proust de bolso! Uau...
Vejamos. O começo do livro pode ser também em Paris, ao
chegar de avião com Nastácia naquele cenário metálico
prateado e azul aos eventuais sons de um estranho pássaro,
a l`heure. É, pode ser.

Idéias confusas. O fato é que. O exercício de passar


aqueles textos todos para um único me deixa a mercê do
assalto de sentimentos por demais intensos quase violentos
para minha vulnerabilidade. Aqueles dias obscuros tem uma
luz peculiar, a que a vida posterior concede àquela que não
se sabe enquanto está passando. O livro perde a perspectiva
literária e o leitor, a posteridade e a necessidade de
reconhecimento, enquanto o trabalho desmaia de desejo,
mais exigente se torna na execução e obriga a renúncias
básicas como a da felicidade, da amizade ou do prazer.

Viro o postal. É a letra infantil de Kleber sobre o papel


amarelado, o universo realmente reflete de todas as nossas
conversas, amigo, nas quais tenho constantemente pensado,
desde que você, tolo, foi atrás de minha irmã. Fui. Vim.
Estou. Agora aqui. É noite. Meia-noite.

Oito horas da noite em Piumhi. A praça está quieta, sem


movimento. O casal que passa se lembra. Mas claro. Era um
cara bem legal. Ah, sim, ela também. Muito bonita. Nunca
mais. Nunca mesmo. Sumiram. E o Kleber? Dizem que vai se
casar. É uma noite de agosto, excepcionalmente fria mesmo
para o sul de Minas. Tanto assim não deveria. Tempo
estranho. Um miado no telhado do hotel em frente à praça.

Durou duas semanas. Sexta à noite no meu desespero


Nastácia chega sem preâmbulos. Briguei com Garlos, diz,
quem está ele a pensar que é para falar daquela forma
comigo na frente de todos? Pedira demissão. Mas não se
preocupe, amor. A casa fazia sim parte do contrato mas
telefonará para Franco no dia seguinte, pedirá algum
dinheiro. Alugaremos então um apartamento. E tenho
certeza o próprio Franco nos conseguirá trabalho junto às
suas relações em Lisboa.

Naquele momento escutei um miado agudo vindo do


telhado. O vento varria em redemoinhos.

Ali. Saindo de sua casa em Crotone. É ela. Uma mulher


maravilhosa. Com a roupa do corpo, um belo corpo. Então
eles combinaram. O que ela venha a precisar é só pedir. O
que precisar. Vá com Deus. Agora ela de novo, ligando para a
Itália. A mesma roupa, um pouco suada; o mesmo corpo, um
tanto cansado. Ele não está em casa, foi para Nápoles. Não.
Ninguém sabe onde. Claro que há uma explicação. Enquanto
isso poderiam recorrer aos avós dela em Póvoa.

Não era caso de desespero.

Os navios passam ao longo do Tejo, os cacilheiros o


atravessam. Ali estou de novo. Somos eu e Nastácia duas
pessoas sem nada em comum mas não posso abandoná-la
numa situação em que se meteu por minha causa. Sei porém
que não dará certo, jamais dará certo, é questão de tempo,
ela mesmo me abandonará. Esperarei.

Um casal em Cascais. Amigos dos últimos conhecidos da


agenda de retornados de Nastácia. Precisam de caseiros.
Melhor ficarem com o trabalho do que sermos constrangidos
a hospedá-los. É, também acho, diz o marido. Está resolvido.

Na quarta seguinte, ultimo dia de Nastácia no escritório


de Garlos, já havíamos mudado para a linha do Estoril, no fim
da qual o casal tinha a chacrinha.
Durou uma semana.

Quinta pálida perturbada entre as arvores que


farfalham. Ela chega pelo caminho que traz à habitação dos
caseiros. Estou cozinhando na lareira porque o gás acabou e
só poderei buscar um novo botijão no dia seguinte. Ela
estivera durante todo o dia e parte da noite na casa
principal, servindo os convidados. Desabou chorando sobre o
sofá e disse que não agüentava mais, era superior às suas
forças, não estava acostumada, não agüentava mais.

O senhor Couto compreendeu, a senhora Couto


lamentou.

Partimos no dia seguinte à tarde.

Durante o percurso de volta a Lisboa, escondia de mim


os olhos. Quando na penúltima estação as pessoas
começaram a apanhar suas coisas para descer no Sodré, ela
toma minha mãos e me encara, por favor me perdoe, queria
o melhor para mim, amava-me.

Estremeci.

Ao descermos na estação do cais, estávamos na rua,


sozinhos, amaldiçoados. Então ela fala. É hora de começar a
aprender a viver como se o Franco não existisse. Não iria
atrás de advogados ou detetives até porque não tinha
dinheiro para isso.

- Eu tenho.

Não era muito. Mas creio que para isso. Como, não quer
o meu dinheiro? Eu aceitei o teu todo esse tempo! Irritada
ela perguntou por que eu insistia. Não te incomodava tanto a
dependência? Agora eu estava livre, não dependia mais.
Anoitecia e tomei consciência da noite. O vento continuava a
soprar.
Em algum lugar além a circunstancia não me afeta.
Agora, quando atrás da igreja escrevo após a morte de
Nastácia, sinto-me assim. É antes de qualquer coisa um
estado puro de luz, de uma luz que não existe. Fragmentos
de espelhos expostos a essa luz me refletem, não a imagem
de mim mesmo mas de um todo espedaçado, também não o
universo. Nega a relação eu-e-o-mundo sem tornar as duas
coisas uma só. A palavra oculta, ainda palavra, chama a
crase se for o caso.

Me desviei do caminho, você entende? Eu poderia ter


sido. O palco ainda está lá, a luz, mas não há ninguém que
queira fazer o papel e muito menos espectadores para essa
peça.

Seres humanos à margem, desaparecidos. Longe de um


nirvana mas sem vontade, não a poderia distorcer. O acaso
determina os acontecimentos. Raras felicidades sem euforia,
constante amargura sem depressão. Apenas um rosto
pairava, envolvia tudo. Anjo a que não se pode fixar por
causa da glória nem é visto no decurso humano exceto pela
dádiva inaudita. Como alguém num sonho, alguém não
identificado, poderá ter a mesma intimidade conosco que a
mulher à espera no pomar. Atrevo-me a dizer que o fogo das
palavras me usa agora, pois a calma do amanhecer lisboeta é
tão rubra e viva, não como eu descreveria um arrebol, mas
se distantes e em mim os prédios realmente ardessem.

Podem ruir a qualquer instante, é possível sentir a


queda iminente. Os quarteirões crepitam. Se estivesse bem,
ele poderia ouvir. Num instante, já havia amanhecido, o fogo
envolve a elegante ladeira de Lisboa, devorando espaços dos
mais famosos da cidade. O vidro poderia ter sido partido por
um pedregulho e do impacto seguiriam as rachaduras em
todas as direções, mas não, que tamanho de pedra por meio
de que mão poderosa faria estrago assim, com violência
tamanha? Acalme-se Andrei. O homem está dizendo que vai
ficar tudo bem, já está chegando ajuda. É como um olhar
furioso, quebra-se em todos os sentidos ao se desprender do
olho e irá ferir o desavisado que não se protegeu. A vizinha
presta atenção na cena, o corpo levado pela ambulância
cercada de curiosos. Presta muita atenção mas minimiza, eu
o conheço bem, pensa, ele está sempre sob o efeito de
alguma coisa.

Senhora, por favor, e ao som de sua voz ela chegou


mais perto para – olha, há um principio interessante nessas
linhas, há vinte anos um determinado acontecimento,
percebe? e diz daqui a vinte anos uma outra coisa, e eu olho
para ela, é Oleana, é o que diz, há vinte anos, daqui a vinte
anos, mas não parece dar a mínima para a vida que se
repete, se reinventa, se renova, e quando vê o sangue aperta
os olhos, e ao abri-los ali está o vagão meio cheio do metrô,
a fronteira em que a poesia subsiste e os aproveitadores que
nas aglomerações acossam, a historia que se confirma ou ao
contrário contradiz tudo aquilo em que se acreditou, o medo
de movimentos no escuro que eram um gatinho afinal.

A rua ainda está vazia a não ser pelo ajuntamento em


torno da ambulância, silenciosa exceto pelo sopro vigoroso
do vento apavorante. Ele vê ao redor com o olhar
dissimulado de cento e oitenta graus, agora sem mais
qualquer função – poderia ver mas não sente essa
necessidade, nada registra além do que está imediatamente
à frente, o rosto da vizinha que é o rosto de Oleana no
metrô, as palavras dela que são as palavras que sua mente
em fuga determinar – sua compreensão não precisa ser tão
larga, tudo está atrás de si e à sua frente costurado àquele
último momento. E era como ele já tivesse assistido aquele
filme. Então você esteve lá, diz Oleana, quero dizer fez parte
do Maio, participou de algum movimento da época em seu
país?, e ele disse Não, que nada, não há ser no mundo mais
alienado do que eu.

Sei de uma mulher que a alguns inflamou de acordo


com as leis de uma natureza que não raro se desrespeita a si
mesma. Sei dessa mulher que está hoje velha. A moça, a
filha, entre palavras e dois gatos deixa de sonhar quando
vozes no paraíso a lembram de que não há um paraíso. Não
consigo deixar de pensar na moça que essa mulher um dia
foi. Não posso deixar de lembrar do rapaz diurno e fofo que
sem mais se viu cru na noite sem forças pra lutar. É ele quem
ainda vem me buscar à noite e me leva pelas palavras aos
mundos despertados pelo impulso, pela instabilidade, pelo
desejo, pelo amor e pela diferença entre amor e desejo.

Sou uma mulher, fui uma menina. Fui filha e sou mãe.
As coisas se deflagraram em minha vida. Não sei se é a
melhor palavra, “deflagraram”. Destino drástico e súbito o
meu destino até ir como um rio volumoso que desce a pedra
num filete, acariciando os últimos anos. Tenho essa filha que
sou eu. Ela frequentemente me espanta com olhos
escandalosos em pálpebras de nuvens e querendo saber do
pai grita ou sussurra. Cheira a jardins, a mato. Está
respingada de primaveras, às vezes transtornada e mentindo
por mentir.
Bruna. Sou eu. É o pai. Deixou através de páginas e
estações o eterno em plena colheita a fim de ser no tempo
algo que de ruptura em ruptura justifique essa náusea.

Nesses dias em que o dinheiro escasseava a ponto de


termos eu e Nastácia de economizar no sereno indo dormir
pela manhã no relvado da igreja no alto da rua da Torre de
Belém, fui à posta-restante e ela ao Ministério das Finanças
onde tinha esperança de encontrar uma ultima amiga de
infância. Carta pra mim. Rasguei o envelope com as mãos
trêmulas e o coração disparado. Nastácia se aproxima. Não
trabalha mais aqui, pá. Guardo a carta.

Não estava mais a agüentar, precisava de um banho,


tomar uma bica, comer uma comida decente. Quanto você
tem, Andrei?

Mil e quinhentos dólares.

O pá, tudo bem. Vamos para um hotel. Amanhã é outro


dia.

Sufocado por ânsia de santidade, massageava naquela


noite os meridianos do sistema nervoso sob a pele úmida à
altura dos ombros de Nastácia na banheira. Imergi junto dela
cujo viço de jardins internos dependia de iluminação,
umidade e ventilação, das caricias. Minha boca procurou na
sua o lábio inferior e as pontas das línguas criaram a
expectativa que não pode mais ser a do pecado, posto que a
amava. Claro que não tenho certeza, gostaria. Deslizei no
fundo sob ela e deixei-a ao longo de um imenso desejo de
paz. Transformado. Por causa da carta recebida.
Atordoamento e abismo.

No dia seguinte, o chamado “outro dia” no qual


decidimos acreditar, Nastácia ligará para um anúncio
classificado. Pede funcionárias de fino trato para
trabalharem num pub ou o que sejam aqueles inferninhos
nas ruelas escuras nos fundos de uma luminosa avenida
Liberdade. O céu está aberto naquela noite, estrelas sob o
rio insondável quase mar, não há quaisquer ilusões sobre a
pecaminosidade humana. Não sei que lágrimas eram aquelas
minhas nem o que significava exatamente o alivio na
expressão dela.

Uma semana. Duas. Três. Em um mês irá tirar mais que


eu em quatro ou cinco tiraria na fábrica. Se vangloria. Não
disse? Dá risada. Sei o momento de agir, ó pá. Quem poderia
questionar isso?

O casal bate uma foto na Praça do Comércio, no calor da


noite enevoada as sombras de Lisboa. Ali no final da estação,
onde se não insistirmos em comparar o clima com o
calendário, acharemos, vejamos, o hotel modificado pela
simples mudança do pagamento de diário para mensal, sim,
mudou mesmo meu querido, estão a nos tratar melhor.

Dentre outras coisas.

A luz da manhã também mudara, os corredores, um


espírito se move entre mim e meu sósia, entre o Outro que
desvia o olhar quando o imagino meu redentor e eu que
protejo Nastácia dos assédios de praxe às quatro da manhã.

Aos poucos me reintegro à realidade e não queira isso


dizer acostumar-se. Escrevi para Barcelona dizendo à agente
literária o que poderia dizer pessoalmente. OK, contatos por
escrito apresentam essa vantagem, o registro do correio.
Uma resposta – mesmo a padronizada – “Infelizmente nós” –
adquire algum valor. E escrever significa resumir, suprimir,
levar em conta o objetivo puro, quase não-objetivo, sem
maiores considerações. O livro perde com isso valor
comercial, escrita impecável, argumento, pontuação, sintaxe
e, acreditava eu, ganha corpo literário.

O calor se estabelecera em Lisboa, seco e pegajoso.


Durante esses dias, eu escrevia na biblioteca municipal. Para
chegar ao Campo Pequeno, evitava caminhos antigos,
amigos e inimigos de haxixe, além do próprio. Diminuía mais
e mais o remédio e usava as síndromes como um registro de
correio, para oficializar a desintoxicação. Alegrava-me assim
com o mal-estar, como me alegro agora ao receber o aviso de
recebimento de Barcelona sobre o balcão da posta restante.
O organismo durante muito tempo acostumado ao remédio
precisava ser ensinado do caminho inverso. A biblioteca
possuía amplo jardim com mesas de tampos vítreos e
cadeiras brancas de ferro, onde havia sombra e a
temperatura era agradável.

A órbita. O satélite em revolução ao redor da terra


atinge seu apogeu. O sol relativo. O ponto mais afastado. Ao
mais alto grau corresponde o mais baixo na mesma vida em
torno dos dias ou pelo o supõe. Ai dos que ao mal chamam
bem e, ao bem, mal. Que são sábios a seus próprios olhos.

Ela estava bonita, Nastácia. Eu lhe disse. Gosto tanto de


seu perfil, fique assim, vou pedir alguma coisa para o serviço
de quarto. Porque passara aquela fase em que as culpas
procuram responsáveis e as coisas boas sequer são notadas.
Tínhamos entrado na parte da vida em que tudo adquire
tamanho real.

As escadas externas dos prédios à janela se comunicam


com as roupas estendidas, não é uma visão propriamente
agradável mas se tornou familiar e assim amiga. Escuta-se
todo o tempo a camada sonora dos carros distantes e vozes
incompreensíveis como um som uniforme e queixoso. Aqui
bate uma porta, ali outra se fecha. Da janela da pensão o
azul do céu está diluído pela substância poluente a atenuar o
amarelo sujo das fachadas e a cor de terra dos telhados.
Será minha visão de futuro durante boa parte do dia.

São também um só ser as pessoas que descem as ruas


da Cidade Alta no sentido do centro, da Baixa, casais de
mãos dadas pode-se apostar serem estrangeiros. Os tons das
roupas das mulheres é sempre escuro e aquela ali agarra-se
à bolsa preta como quem protege a dignidade. Na praça dois
bondes se cruzam em direções contrárias e dentro deles a
tensão enrijece os rostos desencantados, tristes; o contraste
entre o modo de ser de Nastácia e os portugueses é esse, a
sua alegria injustificada. Portugal é um país triste, mais
adequado para mim que o Brasil, um Brasil que nem o
dinheiro da passagem em nenhum momento aproximou.

A letargia espreita minha paz. A consciência se mostra


comprometida. Quem iria me aconselhar acerca desse
momento? Períodos de amnésia. Nem mais os estranho ao
recuperar a memória (Mas nem sempre a recuperava, pensa
ela. Foi a primeira coisa que me chamou a atenção ao
examinar os papéis. Isso me deixava imensamente triste,
deprimida mesmo). Algum homem consegue sempre um
tempo de convivência com seu próprio fim estando ainda
longe? Estar, não ser – o caderno em que se escreve. Claro. E
há aquilo que ajuda. O calor na pele nas tardes frescas à
mesa vítrea do jardim.
Ali compunha também matérias. Não mais para vendê-
las a jornais mas a jornalistas recém-formados sem tempo
para redigirem. Não dependia mais do dinheiro de Nastácia e
pouco mexia nos dólares. Tinha também crises de ciúme e
volta e meia discutíamos. Suportávamos-nos. Sofríamos o
relacionamento doentio porque o destino nos empurrava um
para o outro na ausência de antigos amparos.

Saíram do quarto, um depois do outro e os mesmos


olhares para os lados, em seguida a porta se fecha e um eco
surdo não se alonga mais que os passos até o elevador.
Quem olhasse iria achar que escondem algo. Ele não perde
um único movimento que ela faz, como se disso dependesse
a própria vida.

É que ficamos sós no mundo. A solidão é nosso elo


inquebrantável.

Nove da noite, chego ao hotel. Boa noite. Boa noite,


senhor. Na penumbra da sala de TV esperei um documentário
do magazine geográfico sobre vida animal. Como terminasse
a novela brasileira no outro canal, todos deixaram a sala e
mudei a posição do seletor. Ao sentar-me de novo, passou
uma mulher azulada, mãe morena, solta no vestidinho
branco de linho despojado, cujo abotoamento e friso suponha
gravidez embora fosse um vestido, não uma bata. Os botões
da barriga estavam menos firmes que os demais, alguns fora
de suas casas. A beleza peculiar da gestante ainda pode ser
adivinhada mesmo com a gestação nos seus braços,
dormindo.
Ah minha amiga e espírito noturno, sei agora não terei
mais um nome ou esperança e tudo de mal já aconteceu e
justamente agora preciso entender a glória de nada ser em
meio ao drama eterno das armadilhas e inclusive à
obscuridade dos sentimentos. Ah meu anjo, minha amiga,
afaste a tentação da voz interior!

Ali estava ela mas não chega a me olhar, é como se eu


fizesse parte dos móveis.

Ele não tem o menor jeito com o semelhante, não é


sociável nem tem tato, é muito tímido. Acha irrelevante mas
o isolamento dá mostras de desgaste. Os amigos não
vingam. Amores frustrados. O que pensa? Impossível saber,
exceto se – O quê? Sente-se só e a mulher traz sonhos,
presságios.

Ali estava ela e era como fizesse parte de minha vida


desde sempre.

Falarei.

De costas, ela passa para a outra extremidade do sofá.


Indecoroso se aprazer da visão cujo poder não pode
controlar. Quer falar com ela, que lhe parece familiar como
um sonho recente. Quer contar a ela, contar tudo, a vida
toda – era tanto assim? Respiram fundo ao mesmo tempo. Ela
senta, calada, carne, luzes, pele, cores, cabelos escorrendo e
cansaço em seu rosto espelhado. Lança na penumbra um
olhar pelo espelho lateral. Os dedinhos na sandália de
pelicato. A sinuosidade prática do abotoamento. Angustio-me
por ti, diz a voz na televisão. O peito é oferecido ao bebê. Eu
te amo tanto, filhinha, muito, muito querida, muito,
queridinha da mamãe, é sim minha pequenininha, a
pequenininha da mamãe, ah meu amorzinho.

Suspirei incrédulo. Blandine.


Caminhões dágua da Câmara de Lisboa lavam as ruas
da Baixa. O asfalto está cheio de espelhos turvos que
devolvem a lua do chão. Mantenho no céu um olhar distante
e fugidio. Caminho ereto, ombros para trás e abdômen
recolhido. Fecho os olhos. Ahn? Nada, estava pensando.
Andávamos um ao lado do outro mas era como se
estivéssemos sós, num silêncio de nossos destinos. Um vão
entre as pedras do calçamento. Como num movimento
ensaiado, olhamos juntos para baixo.

Kleber saíra com o trator. Ela chegava com a marmita.


Oi, disse. Oi, ele respondeu. Quer que eu vá fazendo o fogo?
Nem lembrou que detestava comida requentada. Preferível
fria, deveria pensar, mas não. A emoção rege. O rosto dela.
Rubro-verde o silêncio dos cafezais, rubro verde como uma
casa basca. Constrangida. Mas a timidez não tem poder
sobre a necessidade da revelação. Disfarça o rubor das faces
enquanto Andrei bate nas pernas da calça para se livrar de
uma mancha de formigas. Procura gravetos e nós de pinho.
Precisavam jogar água de fumo pela lavoura, diz ela de
esguelha. Aproveite a posição e olhe por debaixo das pernas.

Para quê?

Era para avaliar o potencial de produção.

Ele não saberia.

Assim! – e ensinou. Pelas pontas das plantas multiplica-


se o número de pés de onde estão saindo e divide-se por
três. Ele não entende e não entenderia nem se fosse uma
conta simples: do vestidinho erguido, pela abertura de
algodão esticada pelos adutores, sobre as carnes firmes,
grácil, a pele exibe pontos sibilantes de arrepio. Ele me ama
ou apenas me deseja? Qual a diferença?

Ele mesmo só muito tempo depois pensaria a respeito.


Naquele momento apenas cresce ao vento, folha à deriva,
barco que ao som do mar mistura um ruído agudo, um uivo,
se mexe no mesmo lugar como a mão que imita as ondas.

Olha só, numa mancheia dolhos eu conto cinqüenta


pontas vindas de dez pés. Ah entendo, você quer dizer
cinqüenta vezes dez, quinhentos, que divididos... pelo que
mesmo? Ela ri, ele sente a menta. Os seios, redondos como a
tal conta – por acaso e também porque. Raios do sol de
inverno ao meio dia de agosto. Atravessam a mangueira
pulsando na abertura da copa que à brisa se forma e se
fecha. Será que ele pensa no primeiro encontro em Ribeirão?
A mulher não separa o sexo do amor mesmo em cidades do
interior que se liberam. Talvez quisessem mas não é
possível, não é possível, pensa Blandine quando de leve seus
lábios se tocam.

Quanto a ela, lembrava. Desde o primeiro momento em


que olhou para ele, soube que era ele, descartou a
independência tão prezada. Não queria a piedade futura dos
filhos, ela se apiedava dos pais, não era o que queria, como
Donda um lar para ser rainha, e nem mais tarde a solidão da
mãe que vive para os filhos quando não vive a própria vida
dos filhos.

Sou mulher. Descobrirei o que significa. Agora perto do


milho, sob a mangueira, a missa que o sino anunciou. Ela
propõe o casebre abandonado que dava para o lago. Ali
amou com a convicção do artista que se exibe sabendo que é
a hora do seu sucesso.

O sangue não vertia, acariciava.

Haveria outros momentos sob o céu da bem-


aventurança. Não só entre ela e Andrei, também com um
outro – Falo sério, Blandine, nunca senti isso por ninguém,
nunca conheci mulher como você – Você conhecerá muitas
mulheres, Pablo, conhecerá uma feita pra você; tem só
dezesseis anos, menino.

Dezesseis, quase dezessete. Onde estava o problema?


O adolescente a conquistou. Era amante experimentado,
Pablo, ela não podia entender como. Deixou-se levar, quase
durou. Mas Andrei fora o do pacto.

(Todavia tampouco durou)

Ah quando o viu no milho com Kleber! O amor de sua


vida. Momentos únicos, talvez como o primeiro cavalgar
pelos cafezais. Nunca mais desde então.

Cinco anos depois, torna a vê-lo. A música do tempo


sobre o lago transfere-se para a praia do Rio de Janeiro. Não
sabe se deverá assumir os dias que transcorrem ou apenas
sonhar de longe. O aroma cítrico, amadeirado. O rosto
querido exposto ao êxtase é o céu da roça distante de si
mesmo e de qualquer vínculo com a cidade. Gosto de
amêndoa, a afinidade ou ilusão da afinidade, um poder de si
mesmo, nunca do outro, do relacionamento. O doce da mãe,
de Donda, a calda na ponta dos dedos médio e indicador.
Cinco anos se passaram. Nossa, não parece... Fino o fio não
irá açucarar depois de frio? Desfalecimento. Espaços,
espasmos, espírito espargido sobre a carne se apressando ao
pedido de que fosse, oh sim, aplacado.

O prazer. Que silencio é esse que precede o percurso


interminável da mão que acaricia?

Bruna aceitou que aquele homem fizesse as vezes não


de pai, que mal daria a idade, mas de um tio talvez, de um
irmão mais velho, e naturalmente não teve como evitar
algum pensamento um pouco menos casto, mas nunca além
disso, porque Pablo era muito chegado, o bastante para
deduzir alguma familiaridade e romper a tentação; por outro
lado, ela sentia muita falta de um pai ou de um amigo que
para a menina só mesmo um bom pai pode ser. Enfim por
uma razão ou por outra ela ia encontrar Pablo, desabafava
com ele. Depois, na volta pra casa, às vezes contava para a
mãe, às vezes não contava. Afinal Blandine já tinha
demasiados problemas.

Como num movimento ensaiado, levantam


simultaneamente o olhar das pedras do calçamento. O ruído
do motor do caminhão distante dá a idéia do minuto passado
como uma canção que insiste na mente após dormirmos. As
ruas molhadas são almas, definitivo indício. As brasas de
uma fogueira não utilizada ardiam ao sol e a fumaça ao ar se
misturava, era o próprio ar em seu caminho. A fila anda e a
vida segue.

Andrei media o caminho com os passos, Blandine o


encarou rapidamente e em seguida abaixou de novo o rosto
com um piscar ondulado de pedras portuguesas enquanto o
aves revoavam em torno deles. Ele cobriu os ombros dela
com um abraço antigo e brusco, ela sorriu sem mostrar os
dentes e pousou a mão sobre a dele, caída agora pelas suas
costas. Pronto. Você sabe. Sabemos. E agora o quê? Não
eram necessárias palavras e todavia, nessa linguagem
silenciosa onde se indagam, que resultados advirão da força
aí reconhecida? Reluz a noite da Praça do Comércio, Como
gosto desse trecho da cidade, ela diz, ele também, Adoro,
sobretudo o contorno da ponte ao longe. Mas estão falando
de luzes, distâncias e prazeres que existem em si mesmos.

Cabe ressaltar antes dos corpos e do desejo, o sonho.


Faz-se pressentir. Afinidades convergem, miudezas
partilhadas, o gesto adivinhado, o olhar desdenha da palavra
e trocam-se almas como endereços em bilhetes cifrados que
entretanto tudo deixam impresso na leitura da grafologia.
Falo de amor. De um movimento da vida que segue mas
súbito quer parar, cuja realidade apesar dos pesares é o
corpo vivo e apenas ele. De uma eternidade que, diferente
das montanhas, não se pode contornar. Está sempre ali,
permanente e atemorizadora, contra a qual nada pode a
arrogância, o medo ou a esperança.

A fome na saciedade.

Se estava escrito que eu deveria ser de Blandine o sinal


não foi o amor físico, sempre ao corpo limitado – o corpo
limitado, sem o sonho – mas a calma do dia seguinte, na
busca que abandona Deus para se concentrar na plenitude
de uma beleza qualquer. Não só o desejo, carente de outro
corpo, mas a ternura anterior, ainda que em meio ao fetiche.
O corpo do destino se forja na tortura, um sentimento que se
pode escolher (falo de amor), dúctil ao arbítrio, rosa que
floresce do cultivo, ninho com cuidado preparado.

Pedi licença e entrei no restaurante para ir ao sanitário.


Ao apanhar o papel higiênico no bolso, tirei a carteira, tive
esse cuidado, perder documentos seria agora desastroso.
Numa das separações plastificadas, a foto de Blandine e uma
foto recente de Nastácia na casa de praia, soberba num
biquíni clássico. Nastácia. Separados na maior parte do
tempo por causa do pub, ela crescera – não há a luz de nada
saber acerca da cor? Por outro lado, Blandine deixara de ser
por estar súbito ali a meu lado?

A madeira se dá, generosa. Não escuta um único


agradecimento junto aos gemidos do fogo.

O calor abafado no cubículo. Sou a menina das


montanhas, sou teus sonhos, a própria montanha. Mas. Ao
lado do restaurante, a boate. A mulher que não dormira e
sim morrera.

Subíamos a viela, cheia de latas. Célere uma ratazana


passou à nossa frente na direção do lixo amontoado pelo
pessoal da prefeitura, que precedia os caminhões. Surgido
do nada, o gato que havia pouquinho recebia nosso afago
saltou e a abocanhou. Por que os animais tem de ser maus se
são criaturas sem arbítrio do próprio Bem?

Eu não podia acreditar... Tanto tempo passara e ela


ainda desvia, para questões genéricas sem solução, a nossa
conversa que pede o momento particular. Um ônibus passou
raspando ao atravessarmos a avenida. Ela continuou. Está
vendo? Para o sofrimento do homem há uma justificativa –
Me dá licença um instantinho? Deve ter sido o chá do hotel.

Agora estamos na esplanada à saída da boate. O


garçom se aproximou, ouviu meu pedido, gritou para a
cozinha e foi apanhar vinho verde no freezer. Na boca do
metrô, não muito longe, dorme um mendigo. Blandine
aponta. O quê? Para o sofrimento do homem sim, cabe uma
explicação natural, como no caso da miséria – ela parece
recitar – quando o quinhão que satisfaria as necessidades do
semelhante é retido... Eu praticamente acabara de voltar do
sanitário. Estava assim meio sem alternativa. Será que
esqueceu que conheço o discurso? Agora falará das guerras.

– Como no caso das guerras...

No queixo dela os mesmos seios tristes de quando da


minha partida de Piumhi. Não, na verdade não. O queixo
estava mais cheio, um queixo sedentário, financeiramente
seguro. Mas os vértices dos lábios carnudos mantinham
ângulos precisos de generosidade. Isso não perdera. Foi
quando comecei a pensar em felicidade conjugal. Em como
pode haver sensualidade, família, amor à arte e tudo mais,
debaixo de um mesmo teto, na vida de uma casa. Aquela era
uma esperança assassinada? Mas que esperança
exatamente? Desejo generalizado de tal modo que todo
produto, de margarina a tênis, e todo serviço, de banco a
telefone, se vende na propaganda por meio da idéia de uma
família feliz, de valores equilibrados de beleza, força,
trabalho e lazer, de uma casa viva. O amor ou a arte na
verdade não são indispensáveis nesse quadro, exceto pelo
conforto, pelo bem-estar que nada intensifica. Não que o
mal-estar o faça.

Então, o quê?

Como teríamos sido sem a separação? Me chamaria de


“papai” diante dos filhos e usaria “amor” como quem diz
“por favor”? Teria se mantido aquele desejo – se
estabelecidos, sem tédio? se em dificuldades sem brigas? Eu
não mais olharia para outras mulheres? Seria eu o bastante
para ela? Dependeria nossa harmonia da conta no banco e
meu poder de sedução do meio-termo sutil entre lar e motel
no mesmo quarto? O segredo de tudo talvez seja se manter
pensando. A maldição do homem, pensei, é se acostumar.

A literatura seria ainda essencial se tivéssemos casado?


Nossas mãos dadas sobre a mesa. Tato, pressão,
imperceptível movimento. Quanto é delegado à pressão das
mãos! Blandine, até que ponto você vai levar isso? Tirei o
envelope do bolso e comecei a desdobra-lo, solene. As
guerras... Quis prestar atenção nas sílabas, para não trocá-
las, mas a luminosidade embaça tudo a partir do contato das
mãos e dos olhares. O que podemos fazer em relação às
guerras? O que devia nos importar era a nossa paz!
Apaziguar o “Atântlico” no Mediterrâneo ou talvez...

- Atlântico, Andrei.

Odiava quando ela me interrompia e muito mais se era


para me corrigir.

Ele continua tão lindo, com esse jeitinho de trocar


letras e gaguejar, um doce... A guerra é sem dúvida muito
mais importante que nossa vida pessoal, meu amigo.

E isso aqui o que é, perguntei apontando a carta. Você


pensava em que guerra quando escreveu isso? (Li alto)
“Você não é capaz de transmitir tranqüilidade a uma mulher,
como o Octavio é”. (Mas não pára em casa). O que você
queria, questionou a si mesma, quando ele vem traz o
sustento, as roupas, as viagens. “E no entanto como sofri e
como sofro por sua causa, desgraçado!” Uma lágrima! Uma
lágrima nos olhos dela!

Sofro sim, Andrei, uma dor tão grande que é quase


física... Mas não posso mostrar qualquer emoção, chega. A
dor. Uma rede de terminais nervosos. Outras impressões
podem ter ou não relevância – a voz dela continua doce,
tranqüila, pausada, sua língua sai ainda ligeiramente nas
proparoxítonas – mas a dor tem sempre relevância, porque é
o alarme, porque pode ser a salvação.
Ela me olha com bondade. Aliás, você deve ter mais
esse tipo de noção, por causa da enxaqueca. De ter
aprendido. A viver com a dor. Viver com a dor. Ainda tem as
crises com tanta freqüência?

Pensei com surpresa o quanto as dores haviam


melhorado, as crises espaçado. Isso na pior fase de minha
vida, com pressão de trabalho, ausência de afeto, fome,
relento. – Tenho estado melhor.

A enxaqueca é um sinal vago dum perigo remoto


porque, imagino, é possível viver uma vida plena ou quase
com enxaqueca, sem maiores danos físicos ou psicológicos.
Não é? Respirando fundo sinto o mundo para o qual foi
necessário nascer de um vento que juntasse vida e virtude, e
ainda assim...

É verdade. É possível. Sim. Viver com dor. Superar.


Quando você realmente quiser, quando achar conveniente,
quando estiver se sentindo à vontade para – Essa é a
utilidade da dor, quando adverte e não incapacita mas
motiva, fortalece. O perigo maior do qual alerta ainda é a
gente se acostumar, se acostumar com a sua ausência.

Blandine morde o lábio inferior, que se deforma


ligeiramente entre a brancura extraordinária de seus dentes
frontais, transparentes, úmidos, luzentes. Eu mudei, Andrei.
Era a menina Blandine, que não conhecia a dor, agora sou
apenas Blandine. A virgem entregue ao herói. A minha
menina. Ergueu-se das pedras um horizonte que em meu
peito amou como ninguém antes jamais.

Não há por que uma excluir a outra. Você não assume a


carta? O raio da estrela transpassa a ambivalência dos
sentimentos que se negam, densa em ondulações de
memória. Nem lembro da carta, diz, para assumir ou não.
Justamente por isso ele estava lendo.

Disseram juntos Eu Você. Na mesa não apaziguada se


refletem mudanças advindas do abismo. Eu queria. Você
quer. Estrelas. Nebulosas. Estrutura espiralada. Gases e pó
envolvem o que se diz. Não sabiam o que querer.

“Você foi isso, Andrei, uma doença”, continuei lendo,


“mas não incurável” Jamais poderei deixar de amá-lo. “Olho
para a minha filha e dou graças a Deus por ter abortado de
você”. Se refletem também fulgurantes nardos e raros
fajardos, a ladeira de Heráclito e os céus da águia e das
plêiades. Poço e profundeza. “Pela paz que o Octavio me
transmite, pela segurança, logo irei amar ele tanto quanto te
amei”. Minha voz foi desmaiando ao perceber que não
pretendia ler aquele trecho. Impossível, pensa ela, como
poderei amar assim outro homem se nunca deixei de amar
você ou deixarei?

Diz então que era esse o seu consolo, sua vingança.


Ninguém poderá me amar como ela amou um dia; e ela
poderia amar um outro, que a merecesse, que a protegesse. -
O Kleber devia ter dito que você estava em Lisboa.

Se tivesse contado, ela deixaria de vir? Aliás, com o


dinheiro que tem, foi o acaso que a levou a se hospedar num
hotelzinho como aquele? A menina levada aos céus pela
carruagem de fogo era menos que suas bonecas pretendiam.

O que estava querendo dizer? Que ela viera na


esperança de encontrá-lo? Sua pretensão não tem limites! É
maior que a sua memória!

– Mas não maior que o meu amor.

Como se ela não ouvisse. Esqueceu que estivemos no


Rio em hotéis muito piores? Pareceu-me um hotel simpático,
entrei e fiquei. É como sempre faço. Se estivesse com o
Octavio, seria diferente, é claro.

É claro.

Octavio não ficaria nesse tipo de hotel. É o jeito dele.


Acha que deve oferecer à sua esposa todo conforto. Eu
concedo a ele essa alegria, por que não?

Onde está ele agora? – Tem uns assuntos no Porto,


responde ela. E, antes que você pergunte, não estou com ele
porque tenho umas coisas a resolver aqui relativas a meu
visto. E estou querendo me naturalizar.

Não entendi a relação dessas coisas, nem tive tempo de


perguntar. O garçom chegou. Quando saiu, nossos olhares.
Nada mais.

Ela disse Eu te amo, circundou a mesa e se jogou em


seus braços, poderia ter sido assim, por que não? E como não
separa o sexo do amor, se agora o deseja, voltam para o
hotel. Mais que uma possibilidade, quase uma lógica. Mas
nada nunca mais será tão simples, nada tão de acordo com
os sonhos, acabou essa fase, esse ciclo de vida. Agora será
preciso entender, aceitar, não há mais essa com a qual
sonha, menos ainda esse que costumava sonhar.

O vinho aberto, as taças. Como na primeira vez indizível


e todavia a partir dessa impressão poderia escrever um livro.
Bem, não significa muito, poderia escrever um livro a partir
de praticamente qualquer coisa. Mas viver, poderei? Enlevo e
morbidez. Se misturam. Desespero de viver. Não escreveria
livro algum, não sobre. Enfado da carne.

Blandine. Talvez tenha entendido de seus olhos


líquidos. Um riso discreto deixa em liberdade os rios sem
magia que os detenha ou apresse. Narciso na natureza
integrado. Não há pressa. Não há vida no mundo, não há vida
fora desses olhos, dessas mãos. Suspiramos gemendo e
gemendo choramos ao passarmos as trevas no silencio da
seiva.

Aquele momento! O passado à minha frente e o


presente literalmente atrás de mim... Era hora de Nastácia
chegar do pub, pela rua em lento declive às minhas costas.
Minha decadência. Um sonho de Blandine prova o vinho.
Emoções emaranhadas se roubam umas às outras. Blandine,
cujo aspecto físico não mudara, vestida do jeito como
costumava se vestir quando estava comigo, o rosto sem
pintura, sem ter adquirido sotaque ou modos requintados,
mantendo o acento mineiro, tornava o estar ali com ela a
vida real, e mecanismo mental tudo o que se passara após
nos separarmos. Todos os meus impulsos são no sentido de
abraçá-la, beijá-la, fazer confidências.

Não compreendo. É possível que esse Octavio seja


mesmo uma pessoa especial. Não é o que costuma
acontecer. Mulheres bonitas em geral e mulatas jovens em
especial são trazidas para a Europa com o fim de serem
submetidas à escravidão sexual, para serem prostituídas.
Tudo bem uma vez ou outra se sabe de um caso assim, de um
cara rico que casa com uma, mas não é o natural, e no caso
há a questão de como a chamou. Quem tenha intenções
sinceras não usará o tipo de subterfúgio que usou no curso,
“para que ela descansasse”, “parecia tão cansada”. Mas sou
eu quem pensa isso e não sou dono da verdade, de repente
foi isso mesmo, sabe-se lá.

É possível. Mas esqueça ele só uns minutos, se permita


só por esses momentos lembrar com alegria de nossos
momentos juntos, é possível, ninguém está falando em
traição, mas a gente se rever assim parece mesmo algo, de
tão improvável, especial – Não é?
O sofrimento do homem tem explicações de sobra. Ela
retoma o discurso sem o menor constrangimento. O
problema é quando a gente vê os animais sofrerem sem a
menor consciência do que seja o mal. O escorpião atravessa
o rio nas costas da rã. Sou um animal, disse eu, cheio de
razão, só por dizer. Não vá me dizer que o meu sofrimento de
hoje tem a ver com o fato de eu ter partido de Piumhi, talvez
por não ter ido levá-la ao aeroporto.

Era exatamente o que eu achava, a causa principal dos


efeitos que carrego. Adianto-me assim à sua resposta,
temendo que tenha uma. Não falo de ação, mas de intenção.
À fabula do escorpião acrescentemos o ditado, de boas
intenções o inferno. Quis de todo meu ser fazê-la feliz. Sou
tão inocente quanto um tigre ou um tubarão.

O vinho subiu-lhe às faces. De algum modo sim mudara.


Em sua beleza imprimira a maternidade. – Não me sinto mãe,
sou antes a que abortou.

Aos ruidos óbvios da noite se juntam as sombras


murmurantes nos telhados. O branco da parede ao lado. As
olheiras dela estavam mais fundas, seus braços mais
carnudos, redondos, a forma como depilava agora as axilas
era outra, a pele ali se tornara mais clara e não se poderia
imaginar que ali um dia tenha havido pêlos. Lembrei do
momento em que oferecia o seio a Bruna e quando a
acalantava.

Quando você me olha assim com ternura, para esses


braços que sentem a tua falta, sou só a menina na manta
verde-água, a mãe no chambre aveludado sobre a
maternidade recente.

Havia ainda em mim aquele fogo que de tanto padecer


a fome e o relento eu pensara ter perdido para sempre.
Preciso que isso não acabe e olho assim dentro dos olhos
dela, esperando o que precisa suceder como substituição da
morte. Há uma mulher de óculos à nossa frente e uma outra,
uma jovem de blusa vermelha e bolsa negra, se aproxima e
não diz nada, porque acredita que o que precisava ser dito
era dito pelo olhar e por sua própria aparição ali. Do lado
oposto um rapaz segura os cabelos da namorada de um jeito
tão terno que quando solta eles voltam aos ombros dela
como se fosse em câmara lenta, e em câmara lenta ela se
vira para ele e lhe promete aquela noite, enquanto os outros
jovens à mesa sorriem para a foto que alguém irá bater,
flash. Blandine agora segura o antebraço esquerdo, como
costuma fazer quando está inquieta e não sabe o que fazer
das mãos. Uma das moças ao lado tapa o rosto e diz que está
com a maquiagem borrada, não quer sair assim na
fotografia, seria um erro em mármore.

Agosto, mas a noite ainda não é tão quente como seria


de se esperar. Será possível sair vivo de um verão assim?

Fizeram-nos pensar na máquina fotográfica sobre a


cômoda do hotel. Peço para bater uma foto. Meio a
contragosto Blandine aquiesceu. Sim, amor, um registro, um
quarto em que ainda estejamos juntos, cercados pela luz que
se derrama nas ruelas junto ao rio. Há óleo entre o cacilheiro
que sai e o que chega, há paz nas cintilações onduladas pela
draga. Io posso. A empregada se disporá para que o amigo
brasileiro da patroa apareça no registro.

Passar-se-ão os anos.

Em que pensa ela no instantâneo? A objetividade plana


da mesa permite a sinuosidade do sonho e as lembranças. O
arranjo das margaridas ao fundo. O robe reterá eternidade e
infância. Marjorie, Marjorie Buell. Pensa decerto na menina,
no futuro da menina, o poderá dizer à filha sobre vida
amorosa? Nana neném, o amor no olhar de Blandine, aquilo
era amor, não qualquer olhar que me tivesse algum dia
dirigido. “Minha filhinha...” Não, nunca antes algo assim.
Bom que a criança tivesse um pai amoroso e esse amor
tivesse respaldo financeiro.

Mas.

Uma das meninas ao lado mexe os ombros ao


acompanhar uma música que não ouço, as mãos fazendo
formas no ar, como se fizesse um bordado invisível. É o que
devemos fazer agora, nos deixarmos ao sabor da música,
irmos juntos para o hotel com um pretexto qualquer, que
seja o da foto, não posso te deixar assim, seria uma heresia
contra coincidência tamanha.

Ela diz que quer perguntar uma coisa. Você esteve em


abril, maio, em Madri? Podia jurar que era você, entrou num
hotel em Atocha, deixei um recado na portaria.

Estive mas não me deram recado. Mas por que deixara


um recado, o que dizia? Você teria ido me ver?

Ainda me ama?

Era uma mulher casada.

Por cima de nós, o cartaz do cine Éden anunciava


vibrante o terceiro Rambo tremulando e estalando como uma
imensa bandeira. Lisboa à noite. A multidão de jovens
vestida de negro subia a ladeira da Glória para o inevitável
Bairro Alto. Subia a pé embora ainda fosse hora do bondinho.
É que o electrico está avariado, comentam os que passam
por nós.

Ainda eram jovens e todavia tinham um passado. Os


corpos, vividos, sentiam os movimentos. Esquecem o que
deveriam lembrar e se inquietam pelo que deveria estar
esquecido. Portanto por que não? Eram jovens – ou, dito de
outro modo, sua juventude se emaranhara ao tempo de vida
deles como folhas que terminam ao fim de um período em
partículas da terra dos parques. Cromossomos múltiplos nas
células. A roupa do rapaz sabia como devia se comportar a
cada movimento e limpa retinha algo do cheiro de sua pele.

Ah, esse cheiro, o que primeiro chegou a ela vindo de


Andrei. Na entrada da boate seria cumprimentado pelo
segurança. Tímido, devolverá o cumprimento. Ei podia ser
então que aquele rapaz do bar em Madri nunca tivesse visto
Oleana. As pessoas julgam e particularmente ele era exímio
nesse estúpido item de humanidade. Ela pode agora pensar
que sou um cara noturno, assíduo de boates. E julgar
também é um sintoma de insegurança, preocupação com o
que os outros estão pensando.

O céu limpo sobre eles. O homem permaneceu sorrindo


enquanto entravam. Pelo menos em Portugal as pessoas que
lidam com o público são atenciosas, não odeiam o publico.
Como se fizesse diferença no rumo de sua vida.

Lisboa. Noite de sexta-feira.

Uma vez saíram, uma única vez, para um programa


noturno em Minas. Foram de táxi para Passos. Depois do
jantar dançaram, o rosto dele se modificando nas luzes.
Sabia dançar. Ainda não sei o que estamos fazendo aqui,
dissera ela a rir como quem diz: É tudo estranho mas estou
gostando. O beijo sabia a chocolate branco. Derrete na
língua. Aonde vamos depois? Durante o beijo seguinte,
jovens morcegos lisboetas passam por eles numa outra
sexta-feira, num outro encontro dos dois; e o que ainda havia
que devesse perdurar? Estão próximos à travessa da Boa
Hora, o grupo passou por eles, quando vem a idéia. Por que
não irmos? E dançarmos? Nada de adultério, só um passeio,
escutar o fado.

A bebida também fazia efeito em meu coração.

Ela concordou. Tudo bem. Mas eu não deveria esquecer


que éramos apenas bons amigos. Minha vida hoje é o
Octavio. Estranho, pensei, mães recentes costumam
esquecer os pais de seus filhos pequenos, ou não fazer deles
a vida. Em todo caso, Ficou claro que sua vida era o Octavio
quando dançando nos beijamos. (Ela procura por chocolate
branco). Minha Blandine jamais me beijaria – sequer dançaria
comigo – em minha ausência.

E o beijo na mulher a quem eu havia sido plenamente


fiel, durante o melhor período de minha vida, fez renascer
uma urgência de fidelidade, uma necessidade maior que o
próprio amor, a essa altura algo medíocre, uma tola invenção
romântica. Uma fidelidade que todavia já não podia oferecer
à Blandine pois comigo traíamos mais do que a uma outra
pessoa, traiamos essas pessoas especificas: nós mesmos
fiéis.

Os anos sessenta mexeram com a idéia de fidelidade.


Mas o que tinha a ver comigo exceto pelo fato de ainda estar
vivo num mundo em que o aspecto sexual é o único resíduo
revolucionário daquela época? Meu artigo fora uma licença
poética. Há vinte anos eu não tinha vinte anos. Fidelidade
então era ter filhos, netos; e quando saíssem de casa
envelhecer juntos. No fundo era ainda assim. A história muda
os costumes de um modo externo, as pessoas são
essencialmente iguais. Isso é óbvio, pensei. Vivemos
essencialmente igual a nossos antepassados. Aos treze,
quatorze anos, não tenho por que me revoltar, desejar uma
sociedade diferente; aos vinte, vinte um, apenas quando há
uma exigência hormonal. Há vinte anos é a mesma coisa.

Jornalismo? Hoje é o contrário de revolução, falsa


coluna de liberdade. Blandine questiona, como todos: por
que não fiz uma faculdade quando da obrigatoriedade do
diploma? É que, meu anjo, as coisas mudarão, essa exigência
é a moda da vez, amanhã também o diplomado estará
rangendo e chorando porque lhe tiraram o emprego. Talvez
até, não é improvável, pelo excesso de estudantes de
jornalismo diplomados a cada ano. Ou por causa dos meios
tecnológicos como os corretores de ortografia. Estaria assim
perdendo um tempo que não tinha, ao fazer uma faculdade
que também nada iria garantir. Lembra, Blandine, o que você
dizia sobre isso, que eu não deveria ter esse tipo de
preocupação, que deveria apenas escrever, independente do
reconhecimento? De como a tecnologia mudaria as coisas? A
balconista espera que eu termine a frase e diz que a mesa
está pronta.

Há uma atmosfera de musgo na casa, com notas de


couro. O ambiente do fado ao longo dos meses se incorporou
à arquitetura e à decoração. Ela sabe agora que são iguais,
que não houve culpados, e alegremente percebe que ele
ainda assim se sente culpado, tanto quanto apaixonado e
ainda mais. Lá no fundo sabe também que a paixão não é por
ela, que só empresta sua pessoa para o ciclo de amadas,
apenas uma – a essência sem rosto do amor, por isso com
tantos.

A agitação e a necessidade material multiplicam os


objetivos não-essenciais. Difícil discernir agora o que. Sem
duvida um beijo. Definitivamente corpos que se abraçam
durante a dança. Nem sabiam se ainda se dançava assim. De
resto, o corpo suado se acostuma ao ambiente refrigerado.
Mas paulatinamente deixam de ser tão irresponsavelmente
felizes.

Há uma vida lá fora.

Ajeito na cadeira a resfolegante névoa de falação e


cigarro, a que a musica faz pano de fundo exceto por três
casais na pista de dança. O garçom se aproxima. Blandine
pede. Toucinhos de céu e sorvete. Romeu e Julieta.
Moléculas de infância. Excitado. Um milk-shake de framboesa
e dois Leônidas. Um cavalo se cumprirá na luz do pasto
longínquo? Não, eu não tenho direito de interferir na vida
dela, refleti em meio ao enrijecimento, na normalidade de
seu cotidiano. Desejaria para quem amasse o sofrimento de
uma vida como a minha, entre a demasiada loucura e a
lucidez excessiva?

Nas línguas se esvai o sabor de romance. Eles percebem


o sentido do real, o desespero. A patologia de um beijo. As
flores de centro. A escuridão da discoteca cortada pelas
lanças luminosas, azuis, vermelhas. Um momento para ser
lembrado, apenas isso. A infelicidade, a felicidade que se
sonha (sempre inatingível), as encarnações do amor (nunca o
amor), a raça do acaso. O toque das mãos de Blandine
entrelaçadas no pescoço dele era a glória cujo acesso se
perdera. Ela se tornara esposa de um executivo, mãe, dona-
de-casa, pretendia abrir uma loja, se naturalizar. Uma vida
na mais absoluta ordem, a opção dela. Lâmpadas piscam,
uma luz ao longe, da roça dá para ver Piumhi. A recordação
deles nos primeiros tempos, nos cafezais, não podia mais
possuí-la, quando muito tocá-la. A memória da desordem que
ela recusara.

Mas e a falta que dele sentia? O quanto era importante


para ela saber que ele estava vivo, ainda lutando, tentando
trabalhar, escrever, o que mais se pode fazer com um dom?
Ele não nascera para estabelecer família, cuidar de
orçamento, seria como morrer. Então se consolou da falta
que sentia dele e da consciência de que o reencontro não
podia ser um recomeço. Não poderiam fazer tal promessa um
ao outro. Talvez por isso se permita dar-se um pouco. Um
beijo, um beijo de consolação nos sons da noite ao longo do
pulsar dos corações, no cheiro forte e acre do centro
lisboeta, no frio que sensibiliza o ouvido, no gosto do vinho
entre o prazer do primeiro gole e a náusea disfarçada pelo
sorvete. A nuca de Blandine, fortuitamente exposta como
antes seus joelhos numa curva do táxi. Frisa na retina a
inocência. Era uma boa moça. Ele, um rapaz de boas
intenções. O mundo nos estraga e corrompe, sempre o faz.
Arranca o coração e o deixa exposto como as nucas.

Ela entrou no saguão e apanhou sua chave na portaria.


Treme, dissimula, enrijece-se. Um tipo de experiência que
não possuía. Se ao menos tivessem feito esse tipo de coisa
mais vezes, noitadas, tomar sorvete, andar de mãos dadas. A
Blandine dele, assim a queria e também não, que não
estivesse ali, pois ela estava em perigo, arriscava a vida que
conseguiu e ele sabe como é difícil, como pode ser
humilhante até que o respeito dos outros se crie ao redor.
Mas ah como resistir? Se as coisas não tivessem se resumido
a tanto sexo, a tantos passeios diurnos para ela tão banais –
os montes, os rios, os lagos, as árvores – se tivesse havido
encontros num sentido romântico mais convencional, um
namoro como deveria nos velhos tempos, tipo há vinte anos.
Ela pensa agora que podiam ter sido mais maleáveis. Afinal,
nunca foram mesmo ligados aos movimentos contraculturais
e toda aquela lengalenga de rebeldia e liberação.

Pára, hipnotizada pelo quadro atrás do porteiro. Flores.


Quantas vezes ele me deu flores? Ele me deu flores alguma
vez? Bombons? Se Andrei tivesse recolhido o namoro a essa
guarida, se reconhecesse no relacionamento a necessidade
desses mimos banais, como lingerie de presente no Dia dos
Namorados! E todavia ele era tão gentil. Precisava ser assim
tão diferente também, tão complicado? tão pouco ambicioso?
Um pouco de clichê teria lhes feito bem, como apesar de
todo comercio membros de uma família acabam por se
reconciliar na noite de Natal.

Esperei alguns minutos na friagem que despertava o


ouvido, resfolegando de fraqueza, depois caminhei
lentamente e entrei também. Blandine está no quarto 203;
Nastácia no 404. Continuo subindo as escadas pesadamente
até o quarto andar, descalço. Desci após alguns instantes e
parei no segundo. A porta se abre. Ângela está em seu
próprio quarto, contíguo; Blandine recostada em travesseiros
superpostos. O bebê dorme a seu lado. Sentei na beira da
cama.

Queria agora saber de sua mãe, me conta como foi, sei


como ela se sentiu com tua viagem, afinal passei a morar lá
logo em seguida, mas depois nada sei, como estava nesses
últimos tempos, chegou a conhecer o apartamento que você
comprou para ela?, é eu sei, o Kleber me contou. Ela dizia
que era minha segunda mãe, em muitos momentos foi a
primeira. Nossa. Você leva mesmo jeito, olha só a carinha
que ela faz, que neném mais linda que ela é, e súbito eu quis
ver um detalhe comum, mas isso não estaria certo, então
calei profundamente diante do seio em que tantas vezes eu –
Minha mãe, disse ela, era única, e talvez estivesse
simplesmente dizendo que todos nós o somos.

Sim, somos únicos, mas sei mais do que ninguém, por


temperamento e pela tendência ao vício, o peso de nosso
legado. Eu não queria pensar nisso, mas era inevitável. Qual
a idade de Bruna? Não deveria pairar nenhuma dúvida a
respeito. Eu já não sabia o que seria certo ou não nesse caso.

Tinha um ursinho de pelúcia. Você não vai adivinhar o


nome dele. Blandine sorri e não se saberá o quanto de
engraçado havia no tal nome, e o quanto de amargura. Posso
adivinhar. Claro. O ursinho lhe dá garantia de sonhos bons. É
o que eu sou? Sim, um sonho bom. Por isso era tão fácil te
amar nas noites. Nas responsabilidades cotidianas melhor
não tê-lo por perto. Havia tantas responsabilidades assim no
cotidiano dela? Ela sabe o que de fato estou perguntando, foi
essa questão implícita que não respondeu.

Responsabilidade demais. É preciso experiência e


maturidade, equilíbrio. Era como se dissesse: Agora eu sei,
agora eu sou. E foi subitamente revelado a ele o momento
em que Blandine decidiu vir para a Europa, as angústias da
insegurança financeira – porque as preferia a ser dependente
do pai (mas não estava apenas trocando de pai?) e o horror
de partilhar a cama com alguém que não se ama. A vida, é
preciso ambição. Saber o que se quer, ter metas, e lutar para
atingi-las. E ele entendeu o quanto havia de orgulho e
sofrimento no que ela dizia, era como se a ouvisse dizer
Estou viva, apesar de todos os sonhos que ficaram para trás
com sua partida de Piumhi, Estou viva, materialmente até
melhor do que estaria, e na parte afetiva tenho um homem
que me ama. Subitamente lhe foi revelado como que o
aposento em que ela vivia, cheio de dúvidas amargas
solucionadas não com certezas mas com ação.

A mão dela descansou na própria coxa, aqueles dedos


gordinhos de japonesa que não faziam nenhum sentido nas
mãos dela. Questionamentos, o sentido da vida, dilemas,
poesia, tudo isso é retórico demais, irreal demais para se
conciliar com os dias, com o dia-a-dia real e seus mecanismos
de trabalho, de subsistência, de manutenção da saúde, de
convivência com a família. Ambição. De ter uma boa casa,
comer bem, usufruir de um lazer interessante, ser respeitado
na sociedade e (claro) viajar. Os questionamentos e o sonho
inócuo cabem bem na noite, como ele, como ela mesma agora
há pouco. Não nos dias. E o dia sempre chega.

Quem sabe num livro.

Quando soube, tanto quanto feliz Blandine ficou


preocupada. Mas era tudo tão novo e acontecia tão rápido
que pouco sobrou de tempo para cismar. A explosão
hormonal lhe subiu ao rosto e o peso do útero descia à alma.
Tanto xixi assim de pouquinho, vida escorrendo para tornar
depois a existir na que se formava. A barriga lisa e frágil.
Não adianta tentar entender tanta transformação que não
permanecerá. Decerto é assim desde que o mundo é mundo.
O enjôo, a tontura, a fome, a falta de fome. Coisa lunar, só
pode. Que outra explicação haveria? Em que lua será o
parto? A crescente, dizem, é ótima para começos. A nova não
é má, mas nada de minguante pelo amor de Deus. O
desconforto, a dor nos seios, era por isso que tanto chorava?
Inchava. Dos intestinos aos sentimentos conflitantes. Com o
humor oscilava a pressão arterial e também as expectativas,
maravilhosas ou cruéis. O ardor da pele anunciou enfim o
esperado aumento da barriga. Ou seria impressão, como
mais tarde os movimentos do bebê se revelarão apenas um
discurso estomacal? Contaria a Andrei, estava excitada, será
ótimo. Se fosse menino, ia sugerir Diego. Se fosse menina,
ia... Não.

Se acontecesse de novo, agora enfim é outra vida, não


diria Mas, nem Depois. Talvez tenha sido melhor. Mas ia se
prevenir para não acontecer de novo, deveria pelo menos. Ou
não? Tenho dúvidas hoje, intuição feminina talvez, de que
não vai aceitar numa boa e se aceitar não será um pai como
tem de ser. E se já é mesmo outra vida, por que não
radicalizar de uma vez? Tudo bem, ela sorriu o máximo que
pôde. Eu aceito.

Bruna é um bebê muito meigo, bonita, inteligente.


Mostra a foto dela quando recém nascera. Estamos pensando
em mandá-la para Londres quando ela estiver na idade de
escola. O ensino inglês. É. Octavio conheceu um casal de
Finchley. Estiveram lá em casa esses dias. Eles se
dispuseram conseguir uma vaga para ela quando estiver na
idade.

Ah, por favor, um internato?...

Porque não, Andrei? Ele mesmo.

Eram outros tempos.

Olha, ela disse, e riu da preocupação, certamente


também eram diferentes os tempos em que seu meu pai te
abrigou lá em casa, na época um estranho, e continuou
rindo, mas era um riso de ternura, de memória, bem, havia
também um tantinho de tristeza. Euh ec darest. Pessoa
preparada, culta, fina, elegante, astral para cima, humor
sutil. Decerto Bruna até já demonstrou interesse por piano.

Você está zombando, Andrei. Mas sei que no fundo se


importa mesmo.

Era absurdamente verdade. Eu não disse nada. Ela falou


quase para si mesma. Tão pequenininha, batendo as teclas.
Mas, falando em educação européia, o que você faz na
Europa?

Escrevo um livro.
Há um descanso vítreo na chuva. Luz do abajur da
cabeceira. Ao olhar minha filhinha recém-nascida, perfeita,
me veio forte uma sensação estranha. A quem deveria
agradecer uma dádiva assim? Não há a menor duvida. Deus
existe e é amor. Deus, obrigado por esse batismo! Deitou de
novo, aconchegando-se ao bebe. Então pegou a carta. Por
que ele insiste? Encostou o papel ao peito, apertou-o. Devia
imaginar que faria algo assim, morar na casa de minha mãe.
E no meu quarto! E assim saber meu endereço aqui.

E quanto teria a falar! E quanto a saber! Mas era tarde.


Não é, filhinha? – disse ao rolar a lagrima. Amor... Mas.
Segurou a menina num gesto que se aproximava do
desespero. E se houvesse uma anomalia? Deveria, por causa
da dor, fechar os olhos ao principio perfeito? Isso só
aumentaria a sua dor. Sem palavras, hospedes do Éden na
chuva fina de Trieste. Ela e a árvore no meio do jardim. A
natureza está sob os mesmos efeitos, prisioneira dessa
mácula inverossímil e inegável. Um pássaro se choca com o
vidro da janela.

Mas um dia. Esse sistema de leis que governa (ou


desgoverna) o mundo. Será restaurado. A criação se livrará
da vaidade a que foi sujeita. Será liberta da corrupção para a
glória onde não mais haverá dor. Blandine acarinha o gato
que subira na cama, joga-o ao chão. Ah, a dificuldade
desventurada de reter no coração as coisas que a razão
rejeita!

Um relâmpago.

Contudo, só esse paradoxo explica a sentença humana


e as catástrofes naturais – a vida. (Tocou a têmpora de
Bruna, um toque tão suave que nem chega a existir). Fora de
nós e também dentro. Somos como deuses, gerando vida,
(Andrei falara de um livro na carta?), arte, discernindo o bem
e o mal. E como bestas, sujeitos aos desejos carnais, vindo
do pó e indo na sua direção. Temos a eternidade no coração
e somos esmagados pelo tempo. O intelecto resiste: como
pode uma criança inocente estar sob o peso da culpa de um
adão distante e talvez sequer real?

A brisa soprou, vinda da cozinha: a natureza está sob o


mesmo peso, ela, a natureza, muito mais inocente que uma
criança, pois jamais se tornará um adulto. (Fez de novo a paz
– as retas de luz jorram da esquerda para a direita, de um
vértice superior da janela para o oposto inferior) Fora de
nós, e também dentro, tudo aponta para o silencio onde é
possível vislumbrar o principio perfeito e suas perversões.

Bruna, que dormia para a parede, virou seu rosto para


nós. Lágrimas nos olhos que me ignoravam. Mas não a voz.
Vê aqui, Blandine apontou. Não é igual a têmpora de minha
mãe? Não pude verificar a semelhança. Bateram à porta. O
senhor poderia vir aqui um momento, se faz favor?

Sim? Pisei fora da soleira e encostei a porta. O porteiro


sussurrava, supondo cumplicidade. Sua mulher esteve
procurando o senhor várias vezes durante a noite. Minha
mulher? Ouvi Blandine acarinhando Bruna. Ela está bastante
perturbada, continuou ele, o que eu faço? Não era preciso
fazer nada. Obrigado. A fúria que me impulsiona escadas
acima já arrefeceu. No corredor do andar de nosso quarto.
Parei à porta, pensativo, como a praia vazia depois de uma
onda. O som do sono de Nastácia. Chega pelas frestas.

Voltei às escadas. Desci devagar, decidido. A porta


entreaberta. Entrei de novo no quarto de Blandine. Me
aproximo dela. A água de uma descarga corre pelos canos da
parede. Ouvi o canto de pássaros e, apesar da escuridão,
entendi que a noite estava acabando. Ela sussurrou. Estava
quase dormindo. Eu nada pretendia senão dormir também.
Deitei-me a seu lado e ela recostou a cabeça em meu peito.
Ah amigo por que as coisas têm de acabar? Afaguei sua nuca.
Foi assim, uma distração do destino.

A jovem que foi mãe precisa reaprender a ser mulher?

O contato era mínimo mas bastou para que os


levassem. Eu me contenho, não porque sou mulher
controlada, mas não haveria gemido ou grito proporcional.
Como podem as coisas antigas se tornarem novas e no
entanto estarem destinadas em poucos momentos a se
dissiparem num passado mais que remoto, improvável
quando o movimento da lógica permear a memória, assim.
Ah, Blandine, estou sonhando, não me diga que não pode
ser.

Ela não dirá.

Estavam se levando a momentos outrora de inícios. Os


dedos nos dedos, pontas nos pontos de um pulso, o passado
não pode morrer, apenas dorme de acordo com nossas
escolhas, e se desperta é como agora com os olhares se
evitando.

Convoquei o joelho para o meio das suas coxas, e


exceto pelo cheiro é como se ela nem percebesse, pelo
menos até que sua mão direita passou a passear em minhas
costas. Na parte de fora dessa perna, a minha mão. Preciso
decidir alguma coisa? Precisamos estar convictos? Essa idéia
impertinente do que é e não é certo, como se pudéssemos
saber.

Nada perdi. O vento destelhou as casas, não as


destruiu. Posso.

O rosto dela. Seu sorriso. Por quê? Não há espaço para


isso, porquês. Há os olhos, as lábios, as narinas, e aqui, na
fresta, o seio alcançado e mais, esse calor é como a lâmpada
e a mão a mariposa, e a língua colhe esses gemidos como
borboletas, elas se multiplicam, estão sobre todas as flores
do jardim e cada uma.

É assim que ela deve vestir a menina (coisa formidável


isso de ser pai e mãe). E caso ela tenha se esquecido o
caminho, é por aqui. Jamais me esqueceria, pensa ela,
lembro em cada vez que estou só; e refaço esses nossos
caminhos, e mesmo quando não estou, o que é cada vez mais
raro (provavelmente Octavio tem outra, e isso será um
alívio). O jeito como ela dobra a perna e contorce o
calcanhar, os pés para baixo e para dentro. Dessas pequenas
coisas se constrói uma eternidade. Esse homem não poderá
jamais tornar a ser um estranho, as coisas não funcionam
assim.

O elástico não aperta mais a cintura. Esse ai é um


mantra, um louvor núbil partilhado com a respiração. Não sei
se ele devia nos expor assim, a empregada pode entrar e até
que ponto o ato é lícito na diante de uma criança, ainda que
adormecida? A madrugada fria penetra no quarto no instante
em que a calcinha é removida. Ele está preparando alguma
coisa nova. Esse jeito eu não me recordo. A luz por debaixo
da porta, reflexões severas no espelho da cômoda. Amor!

Sabem do que se trata mas não saberão explicar. É o


perfume das flores, o som do mar, as cores do crepúsculo, o
vôo do pássaro, a semente na terra. O galope da poldra. Para
cada veleidade será necessária uma noção? Não há mais
hora, não há mais antes, não há sequer as palavras que são
ditas. Vem agora, agora. O vento encrespa o imenso lago; a
vaga nascida procurará a margem mas, a partir daí, o quê?

Ele está indo de um lado para o outro no quarto. Repete


o caminho no tapete, da porta à janela, seus passos ali, mais
fundos cada vez. Olha para ela, para Blandine. Com que
sonha? É licito esperar?

Cavalga. O frio de fim de agosto em Piumhi. Os cascos


no galope. Vendinhas abrindo, o primeiro ônibus dos cafezais
para a cidade, o primeiro trator com boléia da cidade para os
cafezais. Um movimento diferente do cavalo torna o
amanhecer diferente. Não é mais pelo hóspede que será
transtornada a rotina, ou não apenas. Vem dela própria.
Como a caligrafia de súbito transforma o teor da escrita. Não
diga. Ela está falando. Não sabia que falava dormindo.
Andrei pára e tenta entender. Desiste. De quê? Volta à
janela.

O sol. O sol do sul de Minas, sua terra querida – está


acordando, à medida que Minas se afasta ou Minas se afasta
à medida em que acorda. Ou é a mesma coisa. O quê? Ahn?
Ele ri. Você disse alguma coisa. É a mesma coisa?

O sonho era dela...

Risadas. Uma pausa.

Ela olha, pisca, o colchão registra suavemente a perna


que se moveu sob a coberta, o braço que se esticou fora
dela. O que posso dizer? O que será de nós? É preciso seguir
adiante, continuar. Você sabe. Ouvir o amanhecer. Você é
exageradamente romântico, não dá pra ser assim. E todavia.
O que há de romântico? Um beijo. A ereção que não chega
mais a ser. Será ainda lícito esperar? A vida num segundo.
Dez horas da manhã, estávamos no aeroporto.
Enquanto esperávamos o Octavio, o que fizemos por cerca de
meia hora (eles iriam tomar o próximo vôo para Roma),
avistei um conhecido.

Ele viu dois.

Abraçou Blandine e a beijou. Pegou Bruna de Ângela


para seu colo. Octavio, esse é o...

- Octavio?

Uma gargalhada discretíssima e ele perguntou, num


português carregado. Vocês se conhecem?

- Vocês se conhecem?, repetiu Blandine.

Desnorteado, olhou ao redor. Não estava pronto para


tanta coisa. Alguém chega a estar pronto? Claro que sim,
olhe as pessoas, estúpido! E ela como estará diante de tudo?
O destino tinha toda a culpa, ou todo o mérito? Seja como
for, é impossível não pensar. Poderia ter dado certo, se
tivesse ficado, se a tivesse levado, se fosse esse outro. Sem
dúvida, quanta dor evitada... Mas como se chega a esses
momentos grandiosos da vida sem que tenhamos errado em
alguma escolha? A consciência do declínio tem um quê de
glória. E nossa noite, nosso reencontro, nossa manhã de
amor, onde fica em tudo? Próximos e distantes, educados,
civilizados como se deve ser em situações assim das novas
famílias que tem outros filhos com novos pais e ex que são
atuais e serão eternos porque geraram uma criança. Coisas
possibilitadas pela contracultura, essa maravilha há vinte
anos. O que ainda salva o momento no aeroporto é o
desconforto, pelo menos isso denotou algum sentimento,
alguma coisa fora dessa hipocrisia que é a vida de hoje, onde
todos são fantásticos e melhores amigos e amores perfeitos
e pais sublimes e filhos inacreditáveis. Onde queria chegar?
Já chegara. E tinha de voltar, de sair o quanto antes, não
seria possível suportar mais.

Aviões, aviões, aviões. Passageiros que chegam e que


partem. O que ela estava dizendo? Não teve cabimento,
Andrei, tudo o que deixei de aprender enquanto reciclava
meus conhecimentos de café. Eu não sabia. Agora olha só o
que temos diante de nós, com toda nossa vivência e cultura.
Um absoluto impasse. Pode ser, meu amigo, mas um impasse
escolhido. Não quero que minha filha permita que lhe
imponham sentimentos, remorsos. Que ela não saiba para
onde ir por não conhecer os caminhos. Táxis. O motorista
abre a porta e pergunta se não tenho bagagem, vislumbra
uma corrida que não haverá, enquanto eu olho para uma
placa que não me diz rigorosamente nada.

O Bernardo estava? Talvez chegasse no dia seguinte,


disse Filomena. Que pena. Sou o brasileiro que ele conheceu
em Madri. Claro!, ele falou muito acerca de ti. Falou muito
bem. Ela pergunta se ele estava, Andrei, a querer. Entrar no
negócio.

Que remédio.

Não deve ficar assim, Andrei. O Bernardo também era


cheio de escrúpulos no começo, e agora... Ele imaginava. O
lucro é tanto que torna o risco e quaisquer constrangimentos
irrelevantes.

Vou arrumar a cama no sofá. Ele não quer incomodar.


Não será incomodo algum. Sou a Filomena, muito prazer.
Bernardo também fala muito de você e dá pra notar o quanto
te ama.
Ela sorriu. Que bom.

Estavam juntos há quatro anos, Bernardo e Filomena, e


se davam muito bem. Mas em dezembro ele arrumou uma
cena no estrangeiro, na Itália, ela achava. Para lavar papel,
ela imagina. Desde então ele passa muito tempo fora do
Porto. Mas eu compreendo. Nosso relacionamento continua
muito bom, talvez tenha até melhorado com a distância.

Então passei a pensar que para as mulheres sexo e


sentimento são a mesma coisa ou duas tão ligadas que
terminam por ser uma só. Que imagem se apagara e qual
fora transmitida àquele coração pronto para pulsar o
ressurgimento da amada?

Nós nos conhecemos em Madri, disse Octavio, quando


fui tratar daqueles imóveis com o Paco, lembra?

Claro que Blandine se lembrava e explicou, rindo, que


era a única que o chamava de Octavio. Sentia-se bem sendo
a única a chamar pelo primeiro nome o doutor Octavio
Bernardo Coelho da Rocha. Mas acrescentou, Você não sabe
da coincidência maior. Bernardo ouvia atento, com um
sorriso paralisado nos lábios. Sabe quem é ele?

Octavio Bernardo não fazia idéia.

O rapaz que eu namorava no Brasil. Aquele. De quem


falara no Rio. Quando ele a convidou para passar as férias na
casa de seus pais em Trieste.

Portanto, não era, por exemplo, um policial do


Departamento de Narcóticos se passando por viciado. Alivio.
Uma pausa. Além disso, o assunto estava naturalmente se
afastando da noite madrilena, de Gaia, de Filomena.
Veja lá, gajo, se estás mesmo disposto. Todo dia
chaváus ficam nas mãos dos bofes e ligeiramente torturados
entregam os companheiros. Sem falar é claro da
concorrência. Matam sem piscar. Principalmente esses
africanos. Estão loucos de raiva com a CEE por causa da
discriminação de que se julgam vitimas e não precisam mais
que um mínimo pretexto para furar um branco.

– Obrigado. Estarei bem, não se preocupe.

Daria tudo certo. Filomena havia me aprovado e


Filomena tinha um sexto sentido para essas coisas.

Ela o amava.

Pois, chaváu. Ficou louca comigo porque descobri que


assumi com outra que aliás é brasileira também. Assumi com
outra um compromisso que esperava eu assumisse com ela.
Agora fazia sentido o jeito dele em Madri. Mas afinal quem
ele amava?

Amar, amor. Você é muito romântico. Não pode ser


assim. Mas ele achava que não saberia viver sem Filomena,
sem a certeza de que ela o estaria esperando. Seria capaz de
matá-la se o deixasse. – Quanto à minha esposa, não a
mataria.

Talvez significasse que amava a Filomena.

O que se vê num aeroporto nos momentos que


antecedem um vôo. Na névoa, a imagem que não retenho
nem esqueço. Piumhi. O que poderia ter sido. Uma vida
familiar. Caminhos na roca são feitos com enxadas diferentes
mas de mesmo formato. Com golpes precisos. Sem fugir ou
desejar.

Os olhos de Bernardo procuram cumplicidade nos meus.

Eu sei que você acha que convidei Blandine com


segundas intenções, mas não é verdade. Simplesmente
aconteceu.

O que fazia num curso de portugues para estrangeiros


no Brasil?

Era apenas um dos cursos da escola, antecipou-se


Blandine. Tinha também aulas de italiano, que Octavio
assistia.

Bem, querida, está na nossa hora.

Aproximou-se dela e a beijou ostensivamente. Adoro-te!


Mas em seus olhos não havia amor. Ela aperta a minha mão e
em outra mulher se transforma. Recebe Bruna do marido,
que a abraça. Adeus!

Adeus, eu disse, mas não me mexi, nem mesmo para


aguardar a partida no lugar apropriado. O que estou
sentindo afinal? Que amor? Ou como eles disseram não pode
ser assim? O que está acontecendo aqui exatamente? Se a
paz existe, consiste no flash que precede as trevas? Quanto
a destino, um diamante: a vontade lapida, e o trabalho, e o
desejo. Que noite! Que manhã! A luz à janela. Os primeiros
carros. Blandine agora está partindo, de vez. O estalido da
mudança de minuto clica no relógio do aeroporto.

Talvez eu devesse estar em casa, lá no Rio,


trabalhando, me alimentando bem, caminhando todas as
manhãs, talvez estar dormindo sem sonhos, um sono
reparador seguido de um despertar sensato. Mas não. Amor.
Literatura. Ora vamos... No máximo parecido (fisicamente)
com Kafka, e ainda esperando uma Dora, o que também não
deveria. A diferença de idade nem é tão grande assim, nem
Blandine tão apaixonada, nem eu genial. Deveria estar
contribuindo com impostos, com meu sagrado direito ao
voto, enfim, um homem respeitável, honesto, sem vícios, que
não usa as pessoas, um exemplo, estar aqui – estar aqui vai
além de qualquer avaliação lúcida da vida. É preciso agora
juntar os pedaços, se você for capaz. Quando caminham para
o avião, faço sinais.

Deveria contra a nova situação refazer minhas


expectativas e lembranças, mas não tenho forcas. Blandine
levara minha vida para o avião e pleno de nada aqui estou
após a decolagem. Não era nem saudade de um tempo ou
tristeza por outro que não virá, um lar. Rapaz, o que você fez
de sua vida!...

De onde vêm estas dimensões que surgem num


segundo, essa possessão? Grito. Não deixe que Bruna vá
para a Inlglaterra! Está passando. Só o tremor nas mãos. Vou
me concentrar no telefonema do diplomata. Só pode ser para
falar de trabalho. Esquecerei no trabalho o desencanto.

Gritou em meio ao pesadelo. Suava em seu leito de


prosperidade, chorava. Era por causa de gente como ele que
gente comum se revoltava? Invejam a transitoriedade e não
a gloria da flor. Bobagem, apenas um sonho, louca ilusão.
Respirou fundo. Levantou-se e tomou decisões para o dia
seguinte. Assim tinha que ser. Afinal. Era um renomado
homem público, um literato reconhecido.

E era rico. Lutara muito para chegar à posição que


estava, purificara-se pela obediência às leis democráticas,
porque a publicidade e o primado do povo são correlatos.
Crescera nas campanhas eleitorais em virtude de sua opção
pelos pobres, angariando também o apoio dos religiosos.
Aproveitara suas chances num mundo em que as
oportunidades são iguais para todos – de que deveria se
envergonhar?

Ninguém é perfeito.

Se todo homem tem seu preço, o seu era o preço de um


homem íntegro. Por que então estava gritando no meio da
madrugada? Pediria uma audiência no dia seguinte. Sim, era
rico. Tantos lhe deviam favores. O escudo da riqueza era
como a glória de Deus.

Dinheiro. Foi o que precisou para livrar Antonio.


Generoso, pouco queria em troca. Desejava antes dar. O
corpo de Antonio. Que entrasse em lugares. Em lugares em
que ele não deveria. Na bolsa, no trafico, nos bancos. O
mesmo principio. Foder. E Antonio se tornou um homem
livre, respeitável até. Mas o Antonio não está, meu sobrinho
querido? Quando o vi na televisão, chorei, o senhor
acredita?, chorei de saudade, fiquei arrepiado. E ele começou
a gostar disso. Começou a pretender alcançar as coisas não
só por meios legais, mas morais. Se alguém vasculhasse seu
passado, não descxobriria as manchas pelo amante, o seu
benfeitor, apagadas.

Exceto se.

Poderia sonhar com a respeitabilidade efetiva, não a


dos quinze minutos. Um cargo. Aí entrava a ameaça do
amante. Se um dia ele se recusasse...

Sexta à noite. Ele explica o negócio, mas Antonio


responde: Eu mudei, doutor. Quero uma mulher e, para isso,
quero ser um homem de respeito. Quero conquistá-la.

Sabe, Antonio, sinto algo estranho em ti. Tenho a dizer


duas coisas. Primeiro, não és insubstituível. Não vou mais
ameaça-lo com seu passado, pois seria uma ameaça para
mim mesmo, estamos juntos nesse barco. Mas se você
morrer, quem chorará? E, se você morrer, hoje mesmo
chamei a meu escritório um brasileiro. Tudo o que ele quer é
um trabalho. Ou ainda menos, um livro publicado. Coisa
simples. Estou pensando seriamente. Não faças com que me
sinta desconfortável na tua presença, Antonio.

Não quero ouvir nada acerca de brasileiros.

O que está acontecendo afinal?

O homem entrou pouco depois que Antonio deixou o


apartamento. O diplomata tomava banho. Cantarolava no
chuveiro. Esquecera o pesadelo. Esquecera, já, de Antonio.
Chegara a pensar que estava velho para iniciar um novo
relacionamento, mas esse Andrei caiu do céu. Estava cheio
de planos. Segurava o pênis e lavava a glande.

Percebe enfim o vulto.

Caía a tarde. Atravesso a transversal, perplexo com a


noticia, o assassinato do diplomata. O dinheiro de Beatrice
permanece quase intocado, mas o que significa, se significa
algo, o meu regresso? Não tenho mais profissão, à
obrigatoriedade do diploma se juntou um inelutável desprezo
pelo jornalismo. O que eu tenho? Pus tudo a perder. Perdi
minha vida. Não quero voltar. Prefiro morrer.
Pego a Gago Coutinho. As mulheres passam com suas
roupas escuras e maquiagem pesada apesar do calor, os
seios apontam o outro lado de mim. A cabine telefônica. Se
me perguntarem, não saberei dizer. Chove lá. Idas e vindas.
Um orelhão não poderia dar tal abrigo. Meus ombros se
curvam mais e mais. Ah Nastácia! Não imaginava que as
coisas poderiam ter essas todas essas conseqüências. Olhei
a rua. O que sobreviverá a tanta escuridão? As mulheres
continuam passando, os penteados duros, os olhos
debruados. Blandine não era assim. Leve, em vestidinhos de
poás esvoaçantes, sempre com pregas duplas arrematando
os decotes.

A cabine. Posso ouvir a voz dela, de Blandine. Enquanto


isso ela e Bernardo em solo italiano. Ignoro a entrada Areeiro
do metro e entrei num barzinho da Almirante Reis. Faço
sinais. Em que vida? O crepúsculo além do infinito. Mais
essa agora! – um buraco no meu tênis...

Eu havia ficado numa pensão por ali, cuja referencia


para mim era a Igreja dos Anjos. No quarto, ouvindo o casal
vizinho nesse temo sem afinidade, nessa vida sem vida, sem
razão de ser, não há mais o que esperar ou talvez um
regresso que seria recomeço ou quem sabe a viagem de
volta revelando o que seja preciso se é que seja enfim
preciso algo. Saí do estabelecimento pisando o assoalho
gorduroso, afasto-me do vozerio que estalava eletricidade de
tristeza.

No ritmo da passada tensa, apanhara-me a aura do


quarteirão da igreja sem que me desse conta, algo nos
vítreos sonhos da fachada, no sêmen das lâmpadas, me
devolveu o mendigo que costumava dormir nas escadas do
templo. Da primeira vez que ali passei, pediu-me um cigarro.
Vendo a cor mas não o raio luminoso que é a própria cor,
trouxe o vagabundo do lado de fora do café em Madri e na
seqüência Oleana entrou exuberante. Aí está o vagão do
metrô. Através da invisível retícula passa uma claridade
baça, quase uma sombra. O desejo me faz renascer por
instantes, segundo as técnicas de revelação e ocultação dos
decotes. O lirismo amplo das planícies foge no cuanza de
cigarros, do alto do café marroquino para a avenida ventosa
em Luanda. Chove no dia em que deixamos a África, chove ao
nos aproximarmos de Veneza, na carta de Claudia a chuva
recolheu meus traços. Começava a chuviscar e o mendigo
reaparece num tempo que não volta em se adianta e é tudo o
que há.

A ressoar no relento dorme o homem em seus andrajos


aquecido pela sopa da Assistência Social ali em frente. As
mesmas escadas de meses antes e o mesmo mendigo alheio
à noite que descera pontual com o conforto das trevas que o
juízo perfeito ignora. Aproximei-me num impulso e coloquei o
maço de cigarros no raio de sua existência aveludada pelo
vinho com essa aura cansada que nem dá tanto trabalho para
os anjos da guarda velarem sem que ele piscasse. O mesmo
bebedouro público onde tumultuados os passos ecoam na
noite, tomo um gole. Enxugo os lábios e a barba em
movimentos resignados dum modo de vida não o mais fácil,
não sou o mesmo. Tomo meu rumo.

Imerso o prédio num efeito de aquarela, minha janela


iluminada, a mesma da vez anterior – sim, ficara com o
quarto e agora desço estalando nos degraus, desliza pelos
corrimão a mão depositária do calor de Blandine, e ao
terminar a espiral recebi do ruído dos carros e da aragem
remota desconfortável profecia. Desci na entrada Anjos do
metrô. O vento encanado dos subterrâneos empresta
contração de rosto, olhos apertados e braços cruzados aos
esparsos e discretos passageiros na plataforma. Apanhei o
trem. Jogava entre as estações de lado e de outro na dança
de truques e trilhos. Estados Unidos. Saí.

Espírito ascensional capta todos os níveis da alma a se


juntarem ao percurso entre a boca da estação e a avenida,
sempre atrás de uma pegada recente, trêmulo, etéreo. Quem
é essa que do outro lado do córrego de água benta colhe
miosótis enquanto espera para me levar à Virgem nela
própria? Atravessamos no semáforo, cruzamos um pelo
outro, e ela desaparece por profundeza a que não tenho
acesso porque laços terrenos ainda me prendem, não me
queira mal porque tenho minha vida para tocar e você,
desculpe, não passa de um louco carente de afeto, clamando
por atenção, sem mais esperança. A voz de Michel promete
me levar à presença do Deus refletido no plástico da foto
escura mas me deixa diante do cine Londres a contemplar os
cartazes que me aproximam de meu desejo, ai de mim.

Que gente toda é essa, empurrando pedras com os


peitos em carne viva, uivando de dor, outrora expoentes? A
lua se encontra com um telhado e a noite se condensa ali
quando a sombra que repete a nuvem passa sobre mim.
Como entender pessoas que têm tudo de que precisam, isso
pode ser vida? Atravessar essa rua. Atravessar a geografia
sôfrega que o sonho impôs e ir para o filme. E de que me
valerá? As fotos do cartaz adquirem vida e se juntam à
multidão incorpórea comprando na bilheteria. Escritor
condenado pelo vicio num relacionamento neurótico com
bela editora. Mickey Rourke parece decadente e, nossa, é
Faye Dunnaway mesmo? O segredo da sala de espera está
contido no sabor de hortelã, no gole rascante da coca e no
lamentos dos sacos de papel. Uma noite como essa, diz a
mulher, é cenário de surpresas e há segredos também no
tecido de sua saia saudável e na resposta da amiga que
menciona prêmios do Imperador, estendendo-se ao chocolate
que se dissolve em minha língua.

No ar condicionado e no relento o frio não é o mesmo?

Na segunda hora da penúltima sessão, a pesada porta


se abriu e a funcionária a segurou. Pessoas entrando e
saindo se esbarram.

Apagaram-se a luzes de novo. A treva e o aviso: o


vinculo com a sanidade reside na dor. É assim? Curar-me
matará um possível o artista? A vida se equilibra sobre o
abismo enquanto o lanterninha se aproxima e me leva até a
poltrona. Gostaria de recostar assim numa cadeira do papai e
me deixar impregnar do bem familiar, do descanso
reparador, ah sim, talvez eu devesse! O sono fácil do
assalariado... Mas não: a cabeça vacilante, o desconforto, o
olhar doído, a dor de cabeça, os músculos aterrorizados, o
espasmo extrapiramidal, o ouvido eternamente sensível, a
fraqueza mórbida que se impregna na sala escura.

Faz tanto tempo que não sei mas existiu em mim um


rapaz saudável e bom, educado, que pensava meus
pensamentos. Era sábio e benigno. Desejava a beleza, não o
espelho à parede colocado, menos ainda a espuma adesiva
que o protege. Faz tanto tempo, não sei quanto. Muito,
imagino. Quarenta e tantos e o dia ensombra o pássaro,
primeiro o vôo e depois as asas expostas no pouso do terror.
Não há mais encantamento embora outro filme vá começar.

A cidade. Reflete da noite na rua.

Ouvindo os ruídos do casal vizinho, nos labirintos


construídos pela imaginação da própria experiência sob o
ranger da experiência alheia, eu escutava o jornal
transmitido pelo rádio, e atenção, o locutor imposta
solenemente o acento para dizer que o papa excomungou o
bispo. Na beira da cama, imagino um escritor que de jornais
não necessita. Desligo-me da voz e penso o quanto os
dogmas contrários se tocam, que a virtude só existe no
equilíbrio de vícios, nada que Pascal já não tivesse
percebido. A água está morna, intragável, mas tomei assim
mesmo. Os raios revelam o pó que meus movimentos
levantam. Quando voltava do cinema há pouco, as vozes dos
passantes erravam em minha alma e os corpos das mulheres
se recolhem em mim para testemunho daquela noite.

O asfalto molhado é como espelho de onde nasce um


cintilante sentimento de desfecho.

O casal. Combinaram fugir. Alugaram a única suíte da


hospedaria. Era um menino, ele. Quinze anos. Na banheira
juntos já nus. Ela tem corpo de mulher e o rosto também dá
idéia de mais idade, talvez mais dos dezesseis que tem de
fato. Está sentada na borda da banheira. Conversam. A essa
altura já deram pela nossa falta. Ele a lava e imediatamente
rijos despistam os anos que virão. Ela o envolve
cuidadosamente, lava em movimentos circulares, serpente,
não nos separaremos jamais, dois bichinhos enrodilhados, e
o beijo é quase uma pergunta, em que dialeto? Os pais deles,
os irmãos, jamais permitiriam.

A medida que não ignora e mais e mais se conscientiza,


enlouquecida, firme e cuidadosa. Aí está a retribuição. Ninfa
lavada, deusa, mãe e irmã mais velha, mulher inflamada e
úmida, impetuosa e santa, pensa Andrei ao discernir e juntar
as palavras do outro lado da parede, palavras que servem de
trilha, assim, a pé erguida, o pé crispado na borda, assim
poderá ele consumar mesmo em pé como ficaram, o que se
costuma acreditar difícil. Mas ele pode, é tão menino, corre
ao vento e como fauno arremata. Não importa se nos
acharem, teremos isso para sempre. Os lábios se juntam de
novo. São arrebatados à janela, saem à rua, cavaleiros do ar,
mariposas em torno da lâmpada do poste.

O sino badalou na noite. Sagraria a noite enquanto


vibrasse.

A cabine. Querido! Elo inquebrantável, Nastácia e eu


nos encontraríamos ainda naquela madrugada. Quem sou? A
que me agarro? Ao sexo ou à mulher no nível mais simples de
consolo? Ainda guardo alguma coisa do jovem audacioso e
inteligente de um tempo ao qual minha própria memória se
recusa? De repente a possibilidade do telefonema chegou
como tábua no oceano. Os detalhes entre mim e ela, os
detalhes mais sutis de nosso relacionamento e as coisas por
demais óbvias, seu ciúme grosseiro e a generosa devoção,
surgem sempre assim, do nada, como esse telefone. Meu
desejo e minha ira em relação à menina rica arrancada da
dissimulação para a rua explicita onde temeroso eu me
locomovia. Sua frieza em momentos cruciais e a labareda de
sua paixão. Nada mais podia me surpreender e as tantas
coisas sensualmente previsíveis se haviam tornado tão
fundamentais, não para aquele jovem mas ao menos para
mim, o homem de quem ele se retirou.

Som forte de chuva. Mulher tu não sabes! Risadas altas.


Nastácia está falando. Vou ter que caminhar até a pensão
debaixo dágua. Poderia pedir boléia, argumentou a amiga.
Não pegaria bem.

Ai que esse brasileiro já é uma doença, mulher!


Pode ser, mas que sintomas!

Nastácia é menos infeliz do que eu. Encontra animo


apara viver mesmo nessas condições. Já deixara o pub, ligou
avisando. Posso vê-la dançando sob a chuva, cantarolando,
vindo para a pensão.

Janela. Sereias. De que baile voltam? Ali. Nastácia.


Agora ao menos não era mais um adultério. Blandine sim.
Foi. Doideira.

Assim, sobre a suave aspereza do cobertor, as mãos


dela, ágeis e ardorosas, enganam o ser cansado.

Em sua roupa batida, por algum milagre não cheirando


mal – cheirando dele. Por algum milagre e pela bondade de
funcionários do comércio que permitiam os banheiros e pela
dona da pensão que deixou que usasse a máquina e o varal.
Vou abrir uma exceção. Quando Nastácia souber, vai dar
problema. Mas é uma senhora! Quase idosa... Aproveita a
cabine. Estou ligando, Mario, para dizer que entreguei a
encomenda de Isabelle.

Ah, e você imagina que ela não sabe?

Eles irão lá, a Paris, parece, mês que vem. Depois de


desligar, levou com a recepcionista uns papos mais leves,
mas por mais agradáveis que sejam, no final ela dirá um por
demais respeitoso “senhor” e isso o deixará de novo
arrasado. Quase lhe falou do livro, que coisa mais sem
sentido teria sido. Ou não.

Meu Outro flutuava nas folhas por sobre os fios do


bonde quando Nastácia entrou. Das folhas se concluía
qualquer coisa. A ordem do universo ou o contrário, a
importância ou não da revolução. O verde quase negro,
cintilante em branco. Planos secundários. Nada é discernível,
tudo faz parte. Noite estranha. Tomei seu corpo molhado.
Como se calará se eu não a beijar? Cala-se. Bebe de mim
como se ainda houvesse o que. Senti tanta saudade, querido!
Anda, vai. Agora. As mulheres vivem em chamas. Elas sabem
o caminho.

Aqueles mesmos fios de cobre, grosseiros, quase


encostados à janela. Tempo de olhar o teto também, o
tempo. Ela está linda assim, toda produzida. Está feliz. Ah,
amor, pensei que não fosse mais te ver, nunca mais! O que
fiz de minha vida? A primavera parte. Não serei resgatado. O
papa e o bispo excomungado, os governos e os
revolucionários, a rua e a casa luxuosa, o escritor e o editor,
há vinte anos e sabe Deus há quanto tempo, tudo no fundo é
a mesma coisa, os opostos se reconhecem como dois
conhecidos que perdidos na noite se reencontram.

Os dias passavam. Agosto chega e nada muda. Estamos


de novo juntos na pensão. Recomeçamos a vida em comum
mas com divisão de bens. Trabalhava no livro e nos afazeres
domésticos. Quase não ligava quando me chamavam de
chulo. Ele está estranho, estou a me preocupar, está tudo
bem, amor? Sim, claro. Exceto, pensava, essa sensação. O
fascínio da luz mais enganosa chegando com as
transformações atmosféricas.

Costumava dormir oito da noite, acordava à meia-noite.


Acordava, me arrumava e ia buscar Nastácia. E quando
voltamos e você logo adormece, lá pelas quatro da manhã,
me refugio na varanda.

Escrevo. Escrevo vorazmente pelo direito de escrever a


palavra Fim. Como se houvesse um sentido. Escrevo na
pensão, após a varanda, traído pela memória, pela sanidade
e pelo instinto de sobrevivência. Escrevo. Na madrugada em
que Nastácia dorme ou naquela em que a levo ao pub ao
longo da Avenida Liberdade, nos bares do parque até
fecharem, na volta da avenida no inicio da noite ou
esperando à saída, indo e vindo pela via esvaziada que se
sublima.

De quando em vez ia ao cinema, claro, esperando não


sei o que da sessão, talvez algo como a de Madri, para Julia
voltar a ser Julia e me esquecer de Trieste pelo reencontro.

Putana! Vê como o meu italiano está ótimo! Ela acaso


pensava que ele não percebera?

Um dia, na saída de uma das salas do Quarteto, um


significado. Sons de sino numa cidade católica enquanto a
vida circunstante passa em silencio na travessa da Gloria,
onde Nastácia um dia dissera Essa não tem chulo, entrei no
sebo. Não deveria estar aberto mas estava. Entrei. Crime e
Castigo num exemplar italiano. Pelas fortes implicações que
trazia, comprei o livro e voltei pelo longo caminho até a
pensão, quase feliz.

Mártires. Praça Luis de Camões. Rua das Flores. Cada


lugar retém um pouco de si mesmo. Hesita naturalmente em
seus passos, difícil sobreviver à certeza de que não há mais
muito que faça a vida indispensável. O suor faz com que
tenha a sensação de um calor que de fato não. Uma ou outra
rua parece pertencer a um sentimento de paz que não
prevalece. Aqui e ali a manifestação do vento é mais
perceptível, talvez escute alguma palavra no sopro em seu
corpo, nas partes desnudas é quase um toque de seu tempo
de vida. Caminhar assim na madrugada, quando a cidade
dorme, induz à noção enganosa de que existe silêncio no
mundo, leva a pensar que é possível ser só e estar bem.
Talvez fosse o momento; não podia esperar que algum
relógio no centro da praça o indicasse, e todavia será assim
visível, caso houver uma verificação séria por parte do que
resta de sua liberdade. Não se escuta ao redor nada que não
foi devidamente composto e todavia tudo o que vier a partir
de agora estará ligado à maquina, a ela se prestará o tributo
da existência. Travessa dos Fiéis de Deus. O século é uma
rua fora do percurso.

Nessa noite, seu rosto no espelho da penteadeira,


Nastácia se perguntou o que fazia num relacionamento que
da fidelidade de antemão havia prescindido. Não se incluía
no rol das mulheres que se conformam em estar com um
homem dividido, que ama outra, que toleram a relação assim
maculada. No inicio, quando soube de Blandine, pensou que
fosse apenas uma forma de ele se defender da existência de
Franco. Na verdade, quando soube, pouco se lhe dera. Ele,
Andrei, era apenas uma aventura, como os outros.
Surpreendeu-se quando ao charme da sedução se aliou uma
pompa insólita no desejo. Bem sabia que ele não consagrava
os momentos posteriores de que ela tanto carecia. Se a
principio nem se dava ao trabalho de pensar no assunto,
incentivada pelo espírito de fuga, mais tarde, ao se despojar
dos outros amantes, abriu largos espaços em seu tempo para
o até então desdenhado pensamento reflexivo, constatou
que a coragem para um rompimento é sempre cara. Sofria
por ter se dado esse direito para crescimento. Olhou mais e
fundamente. De seus olhos castanhos, a lâmpada, mel,
escorria pelo quarto. Talvez verdadeiramente o amasse e
dele precisasse para ser feliz, e aí Blandine passou a ser
ameaça àquela felicidade. Então Nastácia dormiu pensando
que, a partir do dia seguinte, seria a mais amável das
mulheres. Controlaria seu gênio, seu ciúme, até seu desejo.
Tentaria descobrir onde havia no sentimento dele a mágoa
de Blandine e se superaria para agir do modo mais diverso.

Mas não se mostrará subserviente. Não se deixará


envolver por suas emoções. Esse tipo de coisa – essas
pequenas determinações – são sempre eficientes mas pouco
perduram, pensou Andrei caminhando pela avenida. Queria
paz com Nastácia, era o que ainda restava. E ela estava
realmente disposta. Iria encarar seus defeitos, seria positiva,
otimista, alegre.

Conseguirá um outro emprego.

Devotar-se-á. Por amor dele e dela mesma, que teria


assim ao lado o seu homem, inteiro. Parará de se comparar
com outras mulheres: aquela é mais magra, aquela tem um
bom salário num trabalho pouco desgastante, aquela é livre.
Agora ele pensa que ela dorme.

Ao amanhecer, com a camiseta rosa e o par de tênis


novo, daria sozinha uma boa caminhada até a empresa
daquela Cíntia, que na noite anterior fora no pub flagrar o
marido. Assistente da presidência do instituto, cargo que ele
até ali ocupara sem qualquer interesse além do salário e das
secretárias do sogro. Claro que Nastácia era capaz! E claro
que aceitava, obrigado, obrigado, feliz como uma criança
feliz. Te espero então amanhã, disse Cíntia, em meio ao
abraço mais sincero. Maldição não mais haveria que pudesse
impedi-la de libertando-se transformar a sua numa vida
satisfeita e útil, honesta. O mundo era belo e da beleza do
mundo ela se impregnou. Dormiu na paz que por toda a vida
em lugares errados procurara.

Quando Nastácia adormeceu naquele dia, não fui para a


varanda fumar. Recostei, cabelos roçando minha barriga, e
abri o livro ao acaso. Ah se no início conhecêssemos o fim!
Mas se existe mesmo esse destino amaldiçoado, que seja
pelo menos um mesmo destino.

Não sabia por que a procurara mas agora estava


convicta de ter sido uma decisão acertada. A compreensão
apazigua. Me perdoe. Olha. Tens a menina. É, tenho. Sorri
pela primeira vez desde que chegou a Portugal ao olhar
Bruna no quintal atrás dos pombos.

Assim se passaram os dias.

Aliás, como aceitara a situação? Me diz, Filomena.

O que havia para dizer? Simplesmente se apaixonara.


Mas um dia não há mais como conciliar a paixão com um
mínimo de – Dignidade? Enfim, não sabia. Mas o amor está
aqui (segurou o peito com um puxão anterior da blusa), em
mim, intacto. (Queria que sim, pensou). Não nesse miserável
com quem casaste, como pôde, como eu pude?

Me sujeitar a tal papel.

O mesmo amor, integro, que darei a um homem que o


mereça. Nunca mais pensaria assim. Ah se o Bernardo
estivesse aqui! Essa certeza marca o começo de uma nova
vida, em liberdade.

Blandine sabia do que estavam falando aquelas


palavras roufenhas e lusitanas.

Quando aproximou seu rosto do rosto dela, não sentia


no rosto o familiar alento. Um calafrio. Um vácuo. Como
podia? Jamais a levou a sério quando Nastácia dizia sofrer do
coração, ela era por demais hipocondríaca. É claro que seu
coração sofre, por me amar. E ela sorria em silêncio, porta
que ligeiramente se abre e volta a se fechar sem que
ninguém entre por ela.

Segue-se o ritual. Chama por ela, sente-lhe o pulso,


busca o calor.

Fim do ritual.

Sua transitoriedade transforma-se em imortalidade.


Descanse, então. Que o hades seja um lugar melhor.

Soube na recepção do hotel de Lisboa que ele deixara o


estabelecimento no mesmo dia em que saíram juntos. Foi ao
Palácio Foz, à Universidade, à Fundação, a todos os lugares
mencionados desde que se encontraram na sala de TV até
Octavio Bernardo aparecer no aeroporto. Nada.

Haxixe: na policia, também, nada sabiam. Mas ficaram


com o telefone dela, o do hotel, para o caso de alguma
novidade. A ida ao consulado também não deu resultado
qualquer. Ele não havia se inscrito ao chegar, oficialmente
sequer estava lá. E ela? Estava com a situação regularizada?
Blandine empurrou o funcionário, que fosse à merda, e saiu.
Começou a se desesperar.

Chegara de Trieste, via Milão, pela manhã. Quando


decidiu vir a Lisboa, não pretendia abandonar o marido.
Havia justificado a necessidade da viagem: não era justo que
Andrei não soubesse acerca de Bruna. Estava certa de que
Octavio compreenderia.

Estava errada.

Agora não era mais só pela filha, estava ali por si


mesma. Não podia mais viver longe do homem que tal
sentimento desencadeara, o sofrimento de uma paixão é
assim. Ou termina por encontrar uma solução acomodada ou
transtorna a ponto de qualquer loucura.

– Que coisa mais dramática e ridícula, minha querida


esposa! Ainda está muito por dizer? Portanto, estou a me
reportar a isso mas acho que você sempre foi assim,
dramática e patética.

Não podia tampouco viver longe do país em que


aprendera a força da vida segundo o trabalho, da roça onde
aprendera esse trabalho, não era vida aquela sucessão de
pequenos incidentes de um conforto baixio.

Octavio não imagina que ela terá essa coragem.


Menospreza o acaso e o sinal de alerta só se acende quando
Michel vai visitá-lo no escritório.

Que importava agora?

Andrei não falara com ela depois do aeroporto, Blandine


não entende. Negócios ilícitos?

Ora, que ela não o aborrecesse mais. Aliás, fique


mesmo bem quietinha e arrume logo tuas coisas. Mas saiba.
Se o denunciasse nem terá tempo de se arrepender.

Não era nada daquilo, disse ela. Se me ama, se ama a


menina, nada vai mudar. Não me importam seus negócios?

Imagino que não, se tiver a cidadania e todas as suas


vantagens. Ele quase acreditava realmente que não. E se
calhar nem a Filomena importa. Ó pá que rapariga
compreensiva!

Blandine não sabe do que ele está falando.

O olhar de Octavio Bernardo alcança aquela dimensão


em que amor ou ódio inexistem. Ali só o gelo do ego habita.
Estou a ver. Era mesmo muito cínica!

Súbito ela caiu em si. Viu-se sufocada por todo tipo de


pensamento amargo. Junta as ultimas forças para concluir.
Você está fora de si. Como ela própria estivera. O mais
severo dos julgamentos.

Estava fora de si, responde ele, quando não percebeu


que ela apenas o usara para ter uma vida confortável na
Europa. Sua puta. Sim, e é verdade o que esse idiota contou
– quando ele ligara?

Blandine está próxima da janela. Há faíscas no céu de


Trieste, venta muito como sempre na superfície do mar, é
possível que neve, mais hoje mais amanhã, a terra sofre os
efeitos da raça humana, nota-se pelos efeitos nas estações.
Há faíscas por sobre o casario e chamas no horizonte. O
momento em que se desiste de apagar o incêndio.

Ele não telefonou.

Não mesmo? E o próprio Octavio conta com detalhes


sobre Filomena e seus negócios em Portugal e na Espanha,
porque em certos momentos mesmo o pior mentiroso sente
uma necessidade irresistível de se livrar do nojo da mentira.
Aliás, negócios que salvaram a vida do brasileiro e agora ele
cospe no prato e trai um amigo. E por causa de uma putinha
negra! Se merecem! Mas e daí? Mal sabe que lhe fez um
favor, Octavio estava mesmo a querer sair de Trieste, a
situação na Iugoslávia ia piorar, na Itália mesmo,
permanecer ali seria um atraso de vida. Ia para Londres e
quando tivesse se instalado buscaria Filomena e o filho
deles, até nisso ela era superior a Blandine, me deu um filho
macho! Bruna não pode mesmo ser filha dele. Ah,
vagabunda, precisava mesmo de toda aquela historia de
“intuição paterna”? Estúpida! Agora some! Octavio Bernardo
sai, dizendo que quando voltasse não queria mais vê-la por
ali.

Em Lisboa, antes de procurar Andrei, ela vai para o


quarto de hotel. Está exausta. A menina ressona. Deita-a e
fecha as cortinas, depois deita ela própria. Fecha os olhos.
Todas as coisas que apenas são, nem boas nem más por si
sós, tudo o que apenas é, nem bem nem mal em si mesmo –
estão, está – em suas mãos tremulas de humanidade. Muitos
anos depois ainda lembrará com clareza daqueles momentos.
Os traços de Andrei desenhados pelo seu cansaço pairam no
quarto, são os traços, não sei, é como se fossem um resumo
da humanidade e assim de sua doença. O que sei é que ele é.
Mecanismo de um fado básico. Angustiada imerge no
silencio, louvor da solidão, beijo tornado saudade.

Adormecendo.

Branco luminoso de um cenário – rebanhos, montes,


cheiro branco de brilho intenso.

Três horas da madrugada. A noite se dispersa.


Recordações. Está isolada do mundo por um véu suspenso
pelos anjos da memória. E súbito, de novo, o vermelho em
meio às folhas misturado ao perfume dos campos.
Permaneceremos aqui após partimos, como folhas secas,
escurecidas, que se partem no solo. Havia alcançado aquela
atmosfera em que amor e ódio não existem mais, apenas a
fraqueza humana. Vira-se de lado, de frente para a lua que
se insinua pela fresta da janela e entra no seu propósito de
procurá-lo aqui e ali e quem sabe. Enfim. O tempo convém
aos corações transpassados pelas ultimas lanças de um reino
destruído. Acontecera, apenas. Seu velho pai e aquela idéia
tão típica, rapaz, você precisa de uns tempos na roça. O que
o senhor Jean realmente pretendia? Esse canto parece sim,
nana neném, o boi da cara preta mas estilizado, por assim
dizer. Ele precisava de alguém como ela e ela estava ali.
Simples assim. E agora. O peso da cabeça afunda o
travesseiro.

Houve então o silencio pleno que liga um dia ao outro.

Desci as escadas com os olhos ardendo por ter chorado


tudo. Bati a porta da dona da pensão, bati, bati. Não
atenderam.

Sai sem destino pelas ruas de Lisboa.


Ao atravessar a praça da igreja, ali estava ele, armado
pela coincidência. Não o reconheci a principio, de terno e
gravata, junto a dois outros sujeitos igualmente elegantes.
Vendo os rapazes assim bem apessoados, veio-me a velha
vontade de ser assim, normal, próspero, feliz, opressor.

Pedi fogo.

Mas claro. Eu era um gajo queimado. Dias de sorte ele


estava a ter.

Para Antonio foi fácil reconhecê-lo, pela barba e a


jaqueta preta de sempre. Ao sinal, os dois outros o
agarraram e levaram para o beco. Um dava pontapés; o
outro, socos no ouvido.

Afinal ele não iria ter a chance de saber se era eficaz a


receita de Blandine, dissolver camomila em óleo de cozinha,
coar e pingar umas duas gotas – É um antiinflamatório
natural. Para os males do tratamento anterior com
antibióticos, própolis e muito sol antes das nove e depois das
três. E abusar de iogurte. Tudo bem. Agora tudo ficou claro,
como uma pequena distancia faz com os quadros de uma
exposição. Esse é um pensamento fugaz. Ficam muitas
outras coisas. Você não tem ciúmes de mim? Nastácia me
perguntou isso quando se tornou óbvio que eu sabia de seus
casos. Acho que também uma vez em sonho. Me passou esse
sonho pela cabeça quando percebi que estava morta. Por
isso talvez agora considero. Salvou nosso relacionamento
com ela o fato de ter tantos amantes e não estar Franco
entre eles. Esse homem... se aproxima... Mas não. Mesmo
que. Não há esperança. Está partindo, como ela partiu.

Ah, realmente eu não teria suportado se ela, Nastácia,


minha mãe, dormisse com seu marido, o rival insuportável
contra quem não se pode lutar. Fosse o casamento de
Nastácia convencional, eu não teria suportado; por mais
conveniência que houvesse, seria um relacionamento
condenado. Agora se fortalecerá. Ela fora abandonada, como
eu próprio. A dependência se desfizera. Éramos ela e eu
enfim, com tudo de bom e mau que pudesse isso ter. Amor,
me perdoe.

O que, Nastácia?

Demorara demais a perceber, disse ela, o quanto


precisava de mim, de mim mais do que do dinheiro, e do
dinheiro menos do que imaginava.

Não faz mal, querida amiga. Não faz mais diferença


agora.

Antonio está mandando que me soltem, é o que faz.


Não sei em que sentido pode ser, como ele está dizendo, um
“assunto pessoal”. Tira a gravata e o paletó, puxa o canivete
e determina um outro para mim quando digo que estou sem
o estilete. Não sei que expectativa deva ser satisfeita. Não
quero machucar pessoas e já há uma lâmina gelada em meu
coração. Arremeto ao braço armado. A morte nos gumes
refletida. Bach. São Mateus. Questão de segundos.

Sentiu o golpe. Deve desabar. O calor é insuportável.


Tem febre. E esse impacto.

Eu andava resfolegando só de subir os andares da


pensão, de fazer amor com Nastácia. Este joelho em meu
estômago. O que afinal está dizendo, aos gritos? – os esses e
cês juntos chiam como um fogo que crepita; quase diriam
que ecoam desde longe. Este rasgo nas costelas.
Naturalmente. É sangue. O que resta de minha energia se
dissipa nas sombras.

O sino vibrava e por um pouco de tempo ainda vibraria –


badalar de novo, jamais. Eu me transformara em algo diverso
de homem. Quem eu era? O quê? A expressão pura, o afeto
de estranhos, a vida futura, a posteridade, o crescimento
espiritual, o amor, o dever, a missão, os sonhos – o sangue
que salpica o caderno diz mais do que qualquer palavra
escrita.

E todavia um livro.

Do galinheiro, Blandine escutou o pranto de Bruna.


Correu, atravessou a horta, chegou ao lugar onde a menina
estava. Mamãe, se Deus realmente ouvisse as orações, o
gatinho não teria morrido. A menina rezara por ele a noite
inteira. Deus deve ter coisas mais importantes com que se
preocupar. A mãe sentiu o choque. Novamente o corpo. Viva
de novo. Nem tentaria entender. Fechou os olhos. Debruçada
sobre o animalzinho, diz à filha que traga leite pois o gatinho
estava vivo. Bruna obedece, tremula de expectativa.
Blandine usufrui o momento de tornar a presenciar os
acontecimentos.

Gritinhos de alegria. Mami! ele tá bebendo! Blandine


agora deve voltar ao trabalho. A chuva parara. Ainda bem,
diz a criança, a umidade é ruim pro gatinho doente.

O mendigo faz sinais. O guarda se limita a olhar. O


homem atravessa; há firmeza nos passos andrajosos. Fala
com o policial.
Ali, nos fundos do prédio. Sim. Lá estava, realmente. O
corpo ensangüentado.

Logo as sirenes. Aumentam. De todos os lados. Os


carros da televisão chegam ao local da tragédia.

Aqui, aqui! Que horas são? Amanhecia. O vento sopra


em direção ao sul.

Como assim, Não venham para a Baixa? E que caminho


vou tomar? O rio. É como se daí, dessas águas e de suas
cintilações, o universo se refletisse, como se o mundo
surgisse feito um rosto no espelho enquanto amanhece. Uma
mulher acena, parece que. Ah. Mas quem quer falar comigo?
Oh meu Deus. Que horror... Alguém deveria prever. E Tavira.
Ei, o que é isso, está louco? Outro carro passa também numa
manobra arriscada. Depois, mais bombeiros.

Ah se você soubesse, se ela soubesse – ele dizia– o


quanto ele a amava e o quanto a vida passara a valer a pena
desde quando a conheceu. Isabelle sabia, ela sentia o
mesmo, nunca acreditei que isso pudesse acontecer, e a pura
verdade é que estavam mesmo mais e mais apaixonados
cada dia. Mas agora ela está triste por causa de sua mãe,
uma mulher tão bacana, generosa, mas não tinha mesmo
sorte no amor, sempre atrás de relacionamentos impossíveis.
Mario pára e pensa em dizer alguma coisa mas não diz nada,
é o tipo do assunto, melhor não fazer comentários. E como
sempre acontecia depois desses silêncios, eles se beijaram e
de tudo se esqueceram. Talvez, mesmo se estivessem
atentos à TV, mesmo se escutassem o pronunciamento de
Jacques Delors, não teriam pensado no amigo, relacionando-
o às dramáticas circunstâncias vividas hoje pela população
de Lisboa.
O fogo se reanima e se alastra ao fundo da rua Garret.
A fumaça tóxica se concentra agora na zona do Camões. O
senhor tem todos os seus haveres ali, muitos milhares de
contos incinerados. Uma mulher liga para sua casa, fala com
sua esposa. Está lá? Quem? A neta deles não vivia ali com um
brasileiro? Do outro lado, um homem segura o pulso de sua
esposa. Mulher, não sabemos. Sim sabemos. Querida. Deixe-
me. E se soltando torna a falar. Senhora, por favor – O
homem se afasta da mulher ao telefone e deita-se de roupas,
num instante estará quase dormindo, acordaram muito cedo,
como já não costumavam acordar desde que se mudaram
para Póvoa. Como havia dito, a neta morava por ali com um
brasileiro. Portanto os avós não sabiam da morte de
Nastácia, talvez o filho quisesse poupá-los e quem poderia
imaginar? Em Luanda, seus pais ainda não foram informados.
Fique tranqüila minha senhora, disse a mulher de Lisboa, e
assegurou que retornaria a ligação. Chegarão depressa à
altura própria de dizer que não houve vítimas, o fogo está
circunscrito a uma região comercial.

O cenário é dantesco, mas isso é tudo.

Um homem pára agora e se inclina no miradouro, um


desejo perplexo. Lá embaixo o bombeiro vai entrar por uma
janela, sente a água das mangueiras como uma garoa.
Parece que o vento está mudando. Súbito a cinza que
pairava é varrida em rodamoinhos. Decerto havia muito
plástico por aqui. Precisa ser rápido e preciso, é tarde para
pensar que não devia ter se metido numa profissão dessas.
Olha para fora e vê seus camaradas, não pode esquecer o
rosto de seu melhor amigo, destruído minutos antes pela
explosão do computador. Minhas mãos estão tremendo.

O homem no miradouro vê que o bombeiro já entrou,


imagina como conseguirá respirar naquele inferno e o que
exatamente foi fazer lá dentro. Impossível não comparar
aquilo com sua própria vida. Jamais deveria ter se
aproximado daquela mulher, bem que o avisaram sobre
essas mulheres de pub. Cíntia inclina um pouco o pescoço
para ver pela janela do carro. Lembra de imediato de
Nastácia, ela não morava aqui perto? Não consegue ter
certeza. Agora não ficará descansada enquanto a amiga não
chegar para acertarem as coisas do emprego.

Alguém nas imediações começa a tossir, sem dúvida


efeito da fumaça que demarca a área com clareza. Dá para
ouvir a tosse de dentro da sala da pensão onde a mulher fala
ao telefone. Aquele rapaz não veio para cá, aquele que teu
marido hospedou uma época lá na casa de vocês em Piumhi?
Pela expressão que faz a resposta deve ter sido positiva,
seguida naturalmente de algum comentário sobre o rapaz ao
que a mulher aqui replica Ah, as pessoas aí no Brasil se
iludem, a situação em Portugal não é assim, sobretudo em
relação a emprego, até dentistas já começam a sofrer a
concorrência local. Há até mulheres que chegam aqui e na
Espanha e acabam, sim eu sei que acontece em toda parte
mas aqui está a– A fumaça entra com maior intensidade, o
homem tosse mais alto e ao desligar o telefone a mulher vai
à janela e fecha a fresta que ainda havia.

O homem vê a mulher com o pescoço inclinado, avalia o


quanto é bonita e acredita se lembrar dela no pub na noite
anterior. Mas parece uma mulher tão fina, não é possível que
trabalhe ali, um ambiente no mínimo tão masculino. Pensa
em segui-la mas será loucura, então permanece ali parado
enquanto o motorista vira no sentido da avenida. Quando
passam, escuta a voz dela, é contralto, combina com ela,
mas parece que fala de uma outra dimensão, diz para o
homem que está dirigindo que ele não se preocupar, tudo vai
ficar bem, eu mesma tratarei de tudo. Lá fora o fogo crepita
ao fundo da chegada teatralmente ruidosa de mais um carro
dos bombeiros que passa pesado ao lado dele, no sentido do
próprio fogo, ao sul do elevador de Santa Justa.

Focos de fumaça súbito ressurgem de novo em


labaredas.

Um outro homem pergunta a si mesmo se haveria uma


causa para tal efeito olhando o caminho dos canhões de
água. Ele acordou com o prédio ruindo sobre si, quem sabe
resolveu pegar alguma coisa na loja. Que loucura. Poderia ter
perdido a vida, poderia ser hoje a principal notícia para esse
homem agitado a segurar o cabo do microfone em que fala.
Mas de sua mulher não escaparia, a ira de uma mulher
ciumenta é mais voraz que o fogo devorador.

Calma, calma. A mocinha conforta a senhora, passando


a mão pelos cabelos dela. Minha filha o que será de mim?
Sua loja estava a arder.

Deixem-me passar, gritou o homem com a cabeça para


fora do carro. Imagens que ficarão para sempre na memória.
Pessoas. Se faz favor. Agüente firme, já vai chegar ajuda.
Outra explosão. Poderá ser gás ou um aparelho de ar
condicionado. Na pensão o telefone não pára. Não, ele ainda
não voltou, deve chegar logo. De nada. Na verdade, a
proprietária não sabe a que horas voltará, nem mesmo se
tinha saído. Repete-se, enfadada. Não, não está. Era o editor
do jornal brasileiro que, armado de oferta inescusável,
precisava de alguém que cobrisse a catástrofe. Ele não está,
sim, darei o recado.

Resmungando, a mulher. Diante da TV. Na tela, o fogo.

O número não pára de dar ocupado. Maria das Dores


teria uma oferta irrecusável, caso tivessem atendido. Afinal
não é tão grave, há montes de jornalistas por aqui,
brasileiros também, e conhecidos; cobrarão mais, é claro,
mas é um momento único, vale a pena.

Maquete. Talcos.

O vigia. O policial. O bombeiro em chamas. O repórter.


O homem que se esvai em sangue. A avó desesperada. A
amiga. A fumaça aumentou muito e há pouco as chamas
tornaram a lavrar no primeiro quarteirão à esquerda. Quais
as informações ali da zona?

Os prédios cospem labaredas, o rio ao fundo. No canto


obscuro há gemidos. Um ardor imenso e ruidoso. Que
cenário!

Enquanto ainda há chamas no cruzamento da rua do


Carmo e da rua Garret, Michel toma o vagão da Northern Line
lá em Finchley. Está mesmo disposto a entrar em contato
com a amiga que passara pelo processo de desintoxicação
dos Alcoólatras Anônimos, está disposto a qualquer coisa
para que Oleana se cure. Ela trabalha no Hospital Memorial,
é uma jovem bonita e ninguém pensaria em dizer que
passara um dia por semelhante drama. Michel agora entra na
avenida Kenver e pensa no que dirá a moça.

Claudia assiste o desfile em Muggio. A apresentadora


pede um aplauso para a modelo, é uma beleza de vestido de
noiva, meraviglioso diz a amiga, mas ela parece distante.
Houve a batida na rua, os homens discutiram. Os dois bem
apessoados, na verdade uma batida pequena, nem valia a
pena mas o mais jovem ofendeu o outro e nesse momento
ela os viu. Fugiu dali, nem sabe como. Seja como for, não a
veriam mais. Estava mesmo decidida, jamais teria sossego
nos lugares de sua adolescência ou em Milão. Recomeçaria
então a vida em Pádua, melhor em Roma. Quando terminou
de arrumar a sua mala naquela noite, ouviu a noticia. Então
pensou em Andrei pela ultima vez.

Como chegou a tanta amargura esse homem que dá a


impressão de ter sido outrora feliz? Bruna se pergunta por
que tanta dor, por que erra assim, sem amigos, por que não
tem descanso exceto talvez essas horas que passa no
cybercafé. Ao longo da noite, a mais antiga luz onde a
sabedoria ergueu seus muros em meio às trevas está para
ele proibida. Exceto talvez por Bruna. Pelo carinho que sente
por ela, que tanto o ajudou no comecinho, quando nada sabia
de internet. Tamanho bem que lhe deseja. Mas não
argumenta desse sentimento para alguma expectativa que
não há.

Além das seis horas na loja, de onde tira seu sustento,


ela trabalha como voluntária, o que em si não significa
necessariamente muito, mas se dedica, diante dela seu
bairro se abre, amplia seu lugar no mundo, sua roupa é
simples, está limpa, faz algo por alguém, vive a vida. E o
homem outrora feliz agora sangra, por assim dizer
esfarrapado – não tem proteção social, foi fatal perder seu
emprego numa época em que a juventude era o requisito
profissional mais importante, o qual ele não tinha mais. Na
verdade, não tinha tampouco outros requisitos: dera as
costas ao mundo, modo que encontrou para manter um
mínimo de sua integridade original. Dera as costas a tudo.
Trabalho, amor, família, e a segurança que daí advém. Ela
não entende nada disso.

Não entende nada disso. Precisa ganhar para comer e


dormir e poder ser útil. Estuda. E um lugar de estudo não é
lugar de ideologia mas de aprender um modo de ganhar o
seu sustento.

À filha de Nastácia basta conhecer alguém. Para isso


está todo o tempo na internet.

Bruna notava que o homem não ia ali para isso. Para


fazer amigos, mesmo virtuais, é preciso algo que igualmente
perdeu, o sentido de socialização. Escrevia num blog,
escrevia livros eletrônicos, comentava filmes e livros.
Enquanto ela escrevia seu diário (num caderno, por trás do
balcão, não em seu terminal), dava olhadas de relance e
imaginava o que poderia ele escrever, os tipos de filme de
que gostava, que livros costuma ler. Chega a comentar um
dia com Filomena sobre ele.

Quando se aprende a viver como ela, imagino, não se


pensa muito na vida.

Mas algo os une. Se o consumo é o fim de tudo hoje –


pensaram ambos em momentos diferentes ao observar as
reações de namorados, de cônjuges –, se o consumo e
aparência são determinantes, então o quê? Senhor, sou
homem cuja carne envelhece, mas Tu permaneces de
geração em geração. Converta-me. O sorriso dela meigo e
forte o acusa. Porque ama não tem tempo para amargura ou
ciúme, desvela-se como a brisa num dia de sol.

Ela nunca existiu na verdade. É um mito, Bruna. É esse


mesmo seu nome, ontem ouviu alguém dizer. O todo pela
parte. Cheia e forte, contornos forjados pelo trabalho
doméstico, talvez até na roça. E, como se faz como a massa
de pão, será posta na cama, coberta, para crescer. De noite
ele a cobrirá de novo, caso ela se descubra. Fica observando
como ela dorme, tão serena. A filha que não teve, a mulher
que fugiu. Nem a presença súbita do noivo para buscá-la o
desperta. Ela está ainda deitada, um ligeiro tremor nos olhos
fechados, depois vai até ele, que está lendo na sala, e lhe dá
um beijinho no rosto. Tem um copo de leite nas mãos,
pergunta se ele quer também.

Quantos anos terá, uns cinqüenta? Mais? Sabe-se que


tipo de homem é esse, dessa idade, que gosta de navegar na
internet. Mas, pensa Bruna, se tanto escreve, será um
escritor, um jornalista talvez? E tenho medo de quem
escreve, mais quanto melhor: há no escrever bem certa
magia que, mal usada, destrói a prática do que se escreve, o
bem e a beleza que deveria ser expressada.

Bruna o vê, a rua escurecida, o dia ofegante, os efeitos


da insônia. Ninguém à volta deles. Não, não há esperança.
Ele é a rua, o cansaço, o sono que não concilia; e ela, a loja, o
trabalho, a luz.

– Oi, como vai o senhor?


É como se os prédios realmente ardessem. O abismo
está ali, onde pode ser visto mas jamais descrito. Vale a
pena essa vida de eternidades perfeitas e inalcançáveis? As
chamas ardem no vazio, cenário transitório do que apenas
pode ser lembrado. Que esperança? Há algo de muito
estranho a seu redor mas ele mal pode perceber. Vai ficar
tudo bem, já está chegando ajuda.

Eram vinte para as cinco, quando o homem se deu


conta, era numa montra, num buraco, não por janela, pela
montra, tem essas montras corridas, o senhor sabe, e aquilo
era tipo duma turbina que estava a puxar o fumo para fora,
antes dessa hora não percebi nada, quem chamou os
bombeiros foi o polícia lá de serviço, mais ou menos cinco
para as cinco, mas os bombeiros só chegaram entre cinco e
um quarto e cinco e vinte. Quando lá chegaram o fogo já
estava em grandes proporções, os armazéns praticamente
destruídos. O inferno em directo. Aqui, aqui! Olhem!

A infância para a mulher que a tudo assiste petrificada;


o corpo para a jovem que apenas dá uma paradinha antes de
ir pegar a condução para o trabalho; os bens para o analista
econômico – o que, para o homem ensangüentado? Que
propriedades possui a proximidade do fim? – fim: não
esquecimento, mas possibilidades que perduram. Calma, vai
ficar tudo bem, repete o mendigo. O corpo, a infância, os
bens, e há de ser além disso alguma outra coisa que
apreendo agora, pensa, seu sangue empapando o partícipe
papel.
O que esse senhor está dizendo? Creio que o conheço;
pelo menos já o vi por aqui.

Não consegue articular palavra, quer perguntar o que é


essa claridade espantosa, esse aterrorizante brilho, esse
sangue, mas Não fale, diz o mendigo, o policial se agacha e
repete Não fale, a ambulância já vai chegar.

As chamas abrandam. Legam, do ardor inicial, faces


fantasmagóricas aos edifícios. Cadáveres de pedra. As
pessoas atingidas devem se dirigir às juntas de freguesia,
entrar em contato com a Câmara Municipal ou com a Casa de
Misericórdia de Lisboa. Podem eventualmente olhar para
trás.

O homem não faz idéia do que pode acontecer ainda.


Nada de nada, não vi o administrador, não vi ninguém, do
total eram quinhentos ou seiscentos empregados dos
armazéns, ninguém sabe o que será deles, mas pelo menos
ninguém morreu, quero dizer, aquele vigia parece que não
resistiu às queimaduras, e parece que aquele bombeiro, mas
enfim, é pouco pelo que poderia ter sido, como se a tragédia
pessoal fosse um mal menor, como se males pudessem ser
menores porque atingiram um número menor pessoas.

O rapaz saiu de casa e a chamou. Bruna, Bruna!


Pergunta se ela não gostaria de ir ao cinema depois do
trabalho. Tô cansada, mas ele é tão legal. Vamos deixar para
um outro dia, Bernardinho. É que hoje ela queria olhar uns
vídeos daquele incêndio que foram colocados na internet, a
rigor foi naquela época que nos conhecemos. Foi sim, ele riu.
Fica para outro dia então. Claro, outro dia a gente vai, na
semana que vem vou estar mais tranqüila. Então ela deu a
sua palavra, deu portanto o melhor de si.

Quem pode saber o que irá resultar daí? A pergunta tem


um tom de crítica. A voz se emaranha ao burburinho. A voz,
musica para os ouvidos dele. Estão muito próximos agora.
Olhos nos olhos, um na aura do outro.

Muito zangada, ela havia sentado na praça para se


acalmar. Foi no ano passado, quando veio pela primeira vez
sozinha. A situação econômica no Brasil está estabilizada,
não é mais tão comum imigrantes brasileiros. Por isso
Bernardinho achou que ela poderia ter voltado por causa
dele. Seria tão absurdo?

Não sei porque você ficou tão ofendida. Hoje somos nós
que estamos a procurar nova vida em novas terras, como na
Angola em reconstrução. Ela responde que detesta quando
as pessoas falam de si assim, “nós”, quando estão falando
de um povo, ela não é “nós”. Diz: E sequer sou brasileira. E
não dava a mínima para o contexto social ou político. E ele
não podia tê-la beijado daquele jeito. Até porque somos
quase como irmãos.

Ele nunca a tinha visto assim mas não se intimidou.


Irmãos que nada, ora essa. Ele era louco por ela, desde
sempre, era louco por Bruna. Fala sério, diz ela, foi muita
falta de sensibilidade tocar nesse assunto justamente
quando estávamos tendo uma tarde tão legal, depois de um
filme tão especial. Esse tipo de atitude, pensa ela, é que não
me deixa confiar em homem nenhum. Mas de súbito olhou
para ele e percebeu uma certa dignidade em seu semblante,
assim, meio por nada, como uma revelação. Admirada, sentiu
o calafrio. Ai não. Era só o que me faltava.
A moça no banco da praça tentando se acalmar. Será
possível? Fazer uma viagem dessas com semelhante
intenção? O rapaz se aproxima. Não, ela já não está tão
certa, pode ser que seja bom que se enamore dele. Se minha
vida é tão vazia, o que exatamente teria a perder? Começa a
compreender sua mãe.

Ao redor falam sobre o incêndio, há vinte anos, dá para


acreditar? O homem que disse isso bateu com o canudo de
jornal nas mãos. Ali era o coração da conversa política, da
noite deslumbrante em restaurantes da moda. Todos
concordam que um pouco da historia de Lisboa se deixou
consumir nas chamas. Ninguém faz idéia de um rapaz que
morou ali perto e foi esfaqueado naquela mesma madrugada.

Um outro disse O tempo é mesmo uma coisa louca, e


passou pela cabeça dele a imagem de um cavalo branco, indo
e indo, às vezes dando meia volta apenas para em seguida
continuar a ir, e continuou e disse Não dá tampouco para
acreditar que já se passaram quarenta anos desde 1968, e
para onde aquele cavalo estava indo não havia nada além de
memória, nada além de lembranças, e nada de certezas, e
nada de desculpas.

Bruna tinha as chaves da casa de Filomena em suas


mãos, Quando ela percebeu o homem, chegou a pensar que
a olhava, mas devia estar errada, é o que pensava quando
Bernardinho tocou o seu braço. Não fique assim, por favor,
ouça-me. E declara mais uma vez o seu amor. Por um
momento ela não entende o que ele diz porque está muito
distraída pensando na sorte dos desabrigados. Mas logo se
dá conta. Se deixar que esses braços a envolvam, não terá
mais como escapar. As chaves ecoam do chão.
Na mochila não há documentos. Só cadernos e blocos
de notas: poemas, artigos, crônicas, diário e até o esboço de
um romance, manuscrito – incenso em um holocausto.

Chamada.

Esses estranhos mecanismos com que se reverte a


existência, pensou. Conhece Claudia e termina por se decidir,
acredita que realmente foi ali, ao se tornarem amigas, por se
convencer de que é necessário. Irá então ao Porto, não que
fizesse algum sentido mas talvez possa entender, sabe lá,
talvez aprender e se preparar. Mecanismos. Livros, filmes,
peças, músicas. Vida revivificada. Blandine assina os
documentos, fica com os pertences e sai do prédio.

– Você é a Filomena!

Passou duas semanas no Porto. Tornam-se amigas,


confidentes. Coisas assim acontecem. Talvez o
relacionamento de antemão condenado dê certo justamente
por essa expectativa. É verdade, disse Blandine, no tilintar
do almoço. Louça, pano, pés no assoalho e trânsito lá fora no
sentido de Lisboa. Foi Filomena quem indicou o amigo de seu
pai, dono de uma gráfica.

Vinte anos depois, coisas ainda são acrescentadas.


Bruna digita entre um cliente e outro.
Então um dia Blandine acompanhou o trânsito. Adeus!
Tchau, adeus! Fica com Deus!

Lisboa, as velhas casas de Alfama. Quase sem desvio se


chega à Costa do Sol. Blandine diz adeus em uma nota no
caderno.

No táxi para o cais. Confusa. O que realmente sentia? O


que entendia? O Tejo passa do lado esquerdo, se confunde
com a bruma, retira contornos, perde-se na transitoriedade
do motor e em sua pele o ar frio murmura – Quem é você?
Até onde é possível retornar às origens além da imagem do
senhor Jean levando chá quando ela estava acamada? até
onde a esperança poderia ter ido além da casinha com um
Andrei quase idoso mas ainda viril, doce mas de
imprevisíveis rompantes. Desperta. O taxista. Não cintila
mais, perde-se com o navio (ou a ponte ou que miragem) que
ficou para trás no caminho, adiante estará o seu, esperando.
Bruna, as mãozinhas de Bruna, desde quando mesmo seu
coração deixou de se apertar em seu peito, a partir de que
momento a morte de Andrei ou o fato de não ter sido
enterrado deixou de fragilizá-la ou seria melhor dizer
fortalecê-la para a fraqueza, ou quem sabe fortalecê-la
apenas – enfim, desde quando sobrevivia apenas, sem
atributos? O livro a ajudaria, estava cansada. O leitor – a
consciência de leitores, saber que existirão – a completaria.
Como se fosse um reflexo à luz da tarde nas águas do Tejo,
como se fosse a manhã no espelho fazendo surgir o seu
rosto. Agora descansaria, descansaria em casa. Os passos
saem com o bater da porta do carro.

O velho navio, reconfortante visão. Um carimbo.


Obrigado, senhorita.

Escreve a ultima anotação européia. Uma força além


dela continuará escrevendo por meio dela as palavras que se
escrevem a si mesmas.

Não se trata de talento, nem de posteridade. Morreria


se não escrevesse – ou, pelo menos, poderia morrer. Terá a
ver com resistir esse existir anônimo que depende das coisas
públicas? de privação e dor? Mal me lembro, se me lembro,
do que vivi. Agora há o silêncio, ou poderia dizer a essência
do vazio. Opõe-se a qualquer coisa ligada a bem-estar ou
mal-estar. Um outro sofrimento que não sei como chamar é
quase ausência de sofrimento, não espero que você me
entenda. A fraqueza humana – olho em volta os outros
desabrigados – pode ser pura força. Forca na fraqueza.
Como disse o médico.

É o senhor? Foi o senhor daquela vez, não é mesmo, ali


no metrô?

Sou eu.

Mas agora foi um pouco pior, estás a ver? Eu iria lhe


dever mais essa.

Parece mesmo que tenho algum tipo mórbido de prazer


em sobreviver aos furos e isso vale em muitos sentidos.

Shhh. Quietinho.

Foi assim. Não tive mais ânimo para ir a lugar algum.

Aqui e ali e quanto tempo? Eu podia ser meu pai.


Há no homem um tempo próprio, nem mais nem menos,
nem breve nem longo – não arrisque dizer eterno –, um
tempo simplesmente, sem significado, sem relação com o
espaço, real e irreal, limítrofe, subversivo, intenso. Sob a
marquise. Dá para ver a praça. Dá para vê-la.

A moça se levanta do banco de jardim e se afasta. Seu


caminhar decidido marca a distância entre silêncio e silêncio.
Não o esforço do desespero mas um comportamento
cotidiano. Ali, do lugar mais distante, é possível ter noção do
quão perto esteve. Ela sobe e desce a elevação da rua,
recorta em seu vulto a paisagem em chamas, leva para si
todo o corpo da ruína que sobre ele se abatera junto à
impenetrabilidade da noite que pontualmente desce do céu.

Abriu a porta. Pablo! Lembra-se de mim? A porta


entreaberta, um convite. Ele entra.

– Você sumiu e a cidade nunca mais foi a mesma.


Costumavam – lembra? – sair às noites e elas eram tão
iguais, tão agradáveis. Mas sabiam que não ia durar. – Você
não nasceu para a roça, Blandine.

Talvez tenha nascido para ele, para Pablo, não é?,


sugeriu, irônica. Riram. Talvez.

Para dezoito anos ele era; para vinte e dois, ela.

Agora a diferença é a mesma, mas é outra, dois anos e


tanto depois; não é?

Você continua o mesmo.


Saíram, lancharam, dançaram, dormiram no
apartamento de um amigo.

Era como se Andrei nunca. Aconteceu. Mas nunca


abandonei a esperança de. Acho que minha vida amorosa
acabou, querido amigo. O impacto nem foi o que ela disse
mas a franqueza com que soou. Pablo não sabia se tivera
uma, além de esperar que ela voltasse.

Definitivamente, continuava o mesmo.

Você me conta? como foram as coisas? - sabe como é,


você nasceu aqui, sabe como as coisas funcionam, não queria
essa história, mas a sua, de seus lábios, esses lábios.

Esses lábios assim não podem falar...

Então as lembranças. No dia em que conheceu Pablo,


Andrei partira dos cafezais há dois meses. Mais uma semana
até beijá-la. Dormiram juntos quando? Preâmbulo de nada.
Você iria, mais cedo ou mais tarde. Ainda ouço histórias
sobre teu pai e o quanto vocês se parecem. É, iria, ela
partiria sim.

– E fui.

E agora, amigos? Pablo! Foi com isso de amigos que


tudo começou. Riram de novo. Amigos, claro. Há quanto
tempo ela não ria?

Conta pra mim.

Contaria aos poucos. Tenho escrito, mas não sei.

Escrito? Pablo não poderia ajuda-la quanto a isso.


Detestava ler, escrever, estudar. Sou bom mesmo no trator,
como teu irmão.

É. Ela sabia do que ele gostava, no que ele era bom.


Mais uma vez. Rir era o estado natural de Blandine na
companhia de Pablo e isso a cativou definitivamente quando
percebeu que funcionava também com Bruna. E essa noite,
posso dormir aqui?

Quando voltava à noitinha para casa, os morcegos ao


redor, nuvem negra ante a magnitude do poente, tudo não
passou, pensava, da gestação dessas montanhas, desses
seixos entardecidos, sob a corrente do riacho ao lado da
casa. Europa.... Tudo aquilo nada além de um enfeitado e
mórbido vazio preenchido afinal graças a Deus pela pureza
de Bruna, pelo fogo de sua presença – sua meiguice cala o
terror noturno.

Todas as coisas em seus lugares, destino ou como se


queira chamar, vontade ou o quê. Trabalho talvez. Enfim.
Tudo se apresenta e se perde e adiante se reapresentará de
algum modo acrescido e todavia sempre igual. Estações.
Folhas. Vida frágil.

Decerto nem pensaria em questionar o tempo, ou


melhor o intervalo, os rumos que a gente toma, as escolhas
que faz. Estão aí e serão para sempre, a quem ama ou odeia
se dará motivos e assim se formará o futuro desconhecido e
raramente imaginado.

Quando despertava. O sol oblíquo parecia ter naqueles


raios novos um caminho traçado desde a janela sobre o berço
até além da porta. Se perdendo, dissipando, na ainda
penumbra da cozinha, sob a mesa, quase no fogão, junto à
lenha.

O livro.

Não houve sacrifício, não foi isso. O quê então? Às


vezes o via – não sempre, às vezes – e pensava no seu corpo,
no destino de seu corpo. A lâmpada acesa por causa do bebê
perdeu a função original, tornou-se a lâmpada do hotel,
quando poderiam ter ficado juntos, mas insisti e peguei o
avião, e agora a vida renasce no movimento entre os lençóis,
se tudo renascesse assim, ainda haveria você, me tocando
assim, me beijando assim, sim a manhã é a parte mais bonita
do dia, mas hoje não quero acordar, fica mais um pouquinho
comigo.

Pablo ficou até quase oito horas e saiu radiante. Ela


disse que ama!

Não há nisso nada de especial, só um sonho, um


despertar; pessoas e o mecanismo humano; lugares novos
que nem sempre diferem dos conhecidos ou, ao contrário,
habituais que se desconhecem.

A mãe é enfática. Diz que não sofra. Que sofrer a essa


altura apenas acrescentará uma dor inevitável à que se
podia evitar.

Mas era meu pai.

Ela nem se lembra direito daquele homem, do


desabrigado que costumava ficar perto da praça. Não se
lembra tão bem assim mas pode parecer um pouco com
aquele senhor que certa época freqüentou a lanhouse. E se
parecerão com algum homem com certa diferença de idade
que venha a conhecer amanhã. Cansada, Bruna liga a TV e
pára de pensar no assunto.

Lisboa. A destruição que precede a reconstrução.

Estava só, como sempre estive, cambaleante pelas


proximidades da posta-restante, entre as pessoas na
calçada. O pano de fundo do tráfego na Baixa ferida de
tapumes e escombros. Estive morto e renasci. Palavras serão
insuficientes, sábias que sejam, e não são; e não as sei. A
fluência não mais me auxilia. Há aqui um problema não
pequeno.

Havia uma hora que caminhava, envolto pela estranha


luz, não do sol ou de lâmpadas. Renasci apenas para morrer
outra vez?

Então a moça mais desejável do mundo cruzou o meu


caminho na musica da manhã urbana que não oferecia muito
a um estrangeiro sem lugar aonde ir, sem dinheiro e,
suprema falta de sorte, que viesse a tentar o suicídio com
remédios.

Agora procuro um lugar ideal para passar meus últimos


momentos. A cidade se recusa a oferece-lo para mim. A aura
lisboeta é uma aura boa, há generosidade nas pessoas,
comerciantes ou marginais. O cheiro de sopa se mistura ao
de haxixe. Pairam junto aos perfumados convites da noite.
Essas mulheres são misericordiosas. Mas as ruas jamais
deixam de ser hostis.
Há algo de experiência, de ensinamento. As coisas
corriqueiras estão permeadas de ridículo e superfluidade. É
que a gente se acostuma. Enxergo o bem e mal apequenados
com olhos de lágrimas contidas. Diante de mim o bem
supremo. Quisera tê-lo reconhecido antes.

Ela parou, se virou, me olhou com ternura. A energia


que emanava de suas feições, num louco ceticismo, atribui
aos comprimidos que tomara. Hoje sei que me esperava. Por
isso tardou a abrir a porta do edifício.

Por que eu a deveria chamar? Dizer que tinha uma


aparência etérea? Que eu precisava de um lugar onde morrer
em paz? Como eu não decidia entre conquista ou morte, ela
falou comigo. Venha.

Possuía um apartamento naquele prédio. Não acredito


que disse tal coisa. Os contornos são difusos. O contato das
mãos é cálido.

O tempo continua passando, mais curto se torna o meu


tempo. Morri talvez e entrei em outra dimensão. Talvez seja
o espírito designado para me receber. Se não, era questão
de talvez uma hora, não mais.

Ela sabia. Como?

Blandine ter voltado para o marido deixou de ser a


lancinante dor de sempre, o vazio que o fogo de Nastácia não
mais pode preencher. O que ela está dizendo agora? Fala
com um outro de mim. E o que lhe responde?

Um choro, um choro de recém-nascido. Disse-me então


que vivesse. Impossível, o veneno já está em meu sangue.
Não durma. Eu poderia ficar o quanto precisasse, poderíamos
fazer o que eu quisesse. Desde que você não se deixe vencer
pelo sono, Andrei.

Como sabe meu sono, quero dizer, meu nome? Seria


uma tortura, uma verdadeira tortura não dormir, eu estava
morrendo de sono. A luz traz seu corpo entre os vapores do
vestido e entre os sons da noite se destaca sua voz suave.
Não meu querido: você está apenas morrendo.

Não sei o que é isso em seus olhos, sentimento? Amor?


É possível? com licença um momento, disse ela. Sorriu. Não
se esqueça –

Não esqueceria. Não, não dormirei.

Pus-me a esquadrinhar o apartamento. Passáramos o


vestíbulo ao entrar e agora eu estava sentado num sofá na
sala, forrado dum tecido semelhante à hulha, verde, se assim
posso dizer, bastante confortável e inadequado para alguém
que, morrendo de sono, tem a determinação de não dormir;
e, acrescento, não sonhar com rios e cursos de água – e se ao
adormecer fixasse o olhar nas listras do sofá, listras brancas
de hulha, seriam quedas dágua e cachoeiras, e além um
arco-íris. Paredes azuis. Flores na mesa de centro. Um
coração taquicárdico. A janela é grande, dá para horizontes
concretos, cinzas, com algum recorte de copas e eventuais
pássaros do equilíbrio, de asas aquosas e penas iluminadas.
Há abandono e recuperação de estados líquidos, discerníveis
nas estrelas: parecem folhas a brilhar.

As portas estão abertas, a do quarto e a do banheiro,


de um e de outro nascendo as suaves luzes foliáceas.
Adaptam-se à penumbra da sala. Um velho conta estórias
para seus netos, que escutam enquanto esperam pela idade.
O tapete felpudo, após cada passo meu, retornava a seu
estado anterior, a seu descanso, e as aves levam a canção do
tempo também presente nas raízes entrelaçadas no solo.
O lugar era tão aconchegante que praticamente me
esqueci que morria ou – pensamento que não me abandonara
de todo – estava morto. Eu me movia com o lugar,
alimentava-me dele, em perfeita simbiose. Aproximei-me do
parapeito. Meu querido...

Quem sou? De onde vinha aquele cheiro, e aquele grito,


e aquele sino? Para onde vai esse silêncio?

No horizonte, um espaço de camadas superpostas. Não


tem a ver comigo. É uma visão, que não perdura nem deve
na verdade perdurar. Porque toda vida provém de uma vida
anterior.

Então quem era aquele no reflexo do vidro,


modificando-se a partir de meus movimentos e dos
movimentos da janela? A imagem de um homem cujo perfil
assinala estilo; na face, calor e engenho. Nada indica
angústia. Ansiedade, só a espera de alguém que fora se
trocar e logo, logo voltaria.

A presença daquela que eu acabara de conhecer,


embora eu não a visse, se fez forte num fluxo contínuo que
me atravessava e ganhava os ares, a cidade, o rio, o
horizonte e além, e os trazia de volta. Quando a vi, era
prisioneiro; a cela se abriu. Ao conhece-la morria, estava
morto. E agora –

A lua está cheia.

O tempo passou e vi a manhã chegar da janela do


apartamento de minha amiga, sem que ela tivesse voltado à
sala. O sono se fazia insuportável. Porém de algum modo o
alimento que o sono traz com o descanso, a substituição do
que está gasto, a renovação da vida, todas essas coisas –
parecia – mesmo sem o sono haviam se processado. Então
entendi que, desde que absorvera o veneno, quando tomei
os comprimidos na saída da clinica, em meio ao desconforto
abdominal pela ferida (lembrei ao rever o grande relógio do
saguão), já tinham se passado vinte e quatro horas.

Desde então foi a peregrinação em busca de um banco


de praça, de um gramado, para o escuro Sim. Num domingo,
em plena manhã de um domingo, isso não foi possível. Deitei
dezenas de vezes e fui outro tanto impedido de adormecer
pela cena lisboeta. Sentei em diversas praças, para ser
mexido e puxado pelas crianças. Antes de encontrá-la.

Não durma.

Dentro desse espaço-tempo ou o que, fui – acho -


reconstruído, invertendo os processos segundo a luz.

Gestação. O sono afinal.

Acordei encharcado de suor, na parte mais alta da


encosta, ali onde fica a igreja, de onde se vê, silenciosa e
distante, a torre. Estava eu portanto no local que observava
da janela durante a noite. Vestia uma blusa de lã e um
sobretudo.

Como fora parar ali, me perguntei; mas a questão era


outra: onde estava a janela de onde eu via este lugar?
Seguindo a orientação débil de meus sentidos recém-
despertos, localizei o sítio do prédio. Naturalmente, não
havia prédio algum. Uma questão com que não estava
acostumado a lidar. Vida onde soluções dramáticas.

Aliás, não havia prédios por ali.

Meus olhos ardem, doem na verdade. Não é a mesma


coisa. O corpo está formigando. Não tenho qualquer
saudade. Pode-se dizer. Feliz.

Subitamente, a ausência percebida daquela a quem


conhecera na noite anterior se tornou sua presença. Lisboa é
um espectro de si mesma. Vi pela janela de uma montra, uma
menina que cantava. Sissel Kirkjebo, diz a legenda. A musica
em meus olhos. Estremeço. Talvez como os pastores frente
aos anjos.

Ela está aqui, sentada nesse calafrio ao longo de minha


coluna. Acredita em mim, me escuta. O que mais posso
querer? O sentido de direção não voltou, embora eu já esteja
bem desperto. Não sei como dizer isso.

Sem problema.

Não foi preciso muito tempo para que Beatrice sentisse


a falta dele. Sabia que não iria partir. Quando Isabelle
contava que ainda estava em Lisboa, ela mal ouvia, apenas
pensava numa forma de ajudá-lo. Sentiu-se culpada, sabia
que iria se sentir. Ele não voltou para o Brasil porque eu o
abandonei com essa responsabilidade, minha filha. Porque o
amor é assim, partilhamos a fraqueza da pessoa amada e nos
fazemos fracos, admira-se as poucas virtudes com a
intensidade com que se condescende com os muitos defeitos.

Não pensava noutra coisa. Deve ser masoquismo, essas


escolhas erradas.

Em 2008, no dia de seu aniversário, tão logo desligou a


ligação da filha, o telefone tocou. Quem? Naquele instante
um casal sob a lâmpada da rua. Uma aura sobre eles. Você?
Não é possível. Mas reconhecia a voz, se reconhecia junto
dela. E quem fala um inglês tão peculiar? Uma vez teve
quase certeza que o vira, mas sabe como é. A comoção era
violenta demais, as lagrimas azuis rompiam como há vinte
anos naquela plataforma.

Ouvi dizer que você tinha morrido naquele dia trágico,


mas na verdade ela jamais acreditou nisso. Quisera ter a
alegria de revê-lo.

Vosges. Ele não vê ninguém, é todo a espera. As


pedrinhas no chão declamam a chegada dela, mais perto
cada vez, mais perto cada vez. É permitido sentar na grama.
Irá sentir o toque da mão em seu ombro e depois levantará
para acompanhá-la. A noite desce no frio de dezembro, a
praça agora vazia é linda assim iluminada. Não precisa dizer
nada, disse Beatrice na rue de Turenne, quase em casa. Por
que alguém diria alguma coisa depois de escrever um livro?
Não percebem o quanto andaram, ou percebem, mas passam
muito pelo prédio, estão quase na ponte. Ela só queria
mostrar a beleza da vista do rio ao anoitecer, e foi o cenário
esperado.

Ele realmente nada disse, não dizia na verdade há vinte


anos.

O calor das lembranças vivifica os pés de café, na luz do


dia pleno cintilando, rios verdes que sombreiam as ruas de
café à frente. Do desvario europeu se originou essa realidade
de que seus olhos podem ser editores, mas também cada flor
invisível na mata possui um aroma, uma beleza e um
significado. Na ultima curva da volta, é permitida a visão da
luz enquadrada na janela ao longe. A terra exala cheiros de
amada satisfeita. Outros pingos tamborilam no telhado a
percussão de uma cantiga remota. Um sentimento fecundo
se reflete nas poças e no riacho – as águas, as águas – as
águas correndo límpidas entre a florescência. Levam, como
se fosse uma folha, do bosque para a cidade, a sagração de
uma luz noturna: um dia, a circunstancia eterna da ausência
há de consentir numa sinfonia que não há.

O vento leva o que se vê e verá o vento quando não


mais for possível – quando as folhas secas, partidas,
misturarem-se ao pó. E a vida gesticulará em ciclos como
notas de suítes assistidas pelo tempo. E o tempo caminhará
largo para a eternidade, vendo a vida como a vê um adágio.

Os apanhadores de café subiam na carreta engatada ao


trator, prontos para mais um dia de espalharem-se pela
terra, em meio à algazarra com que zombavam da faina
diária. Ao avistarem a mulher e sua filha, calaram-se. Depois
que passaram, até não mais que –

pontos no pó da estrada

– emaranharam-se num crescendo os mexericos.

Uma lenda se fizera em torno da mulher, por causa de


seu isolamento desde que voltara com uma criança de sua
misteriosa viagem e fora viver na chácara de seu pai –
sozinha, exceto pela filhinha e os animais.

Com sua loucura.

Sua historia, os camponeses adaptavam à própria


capacidade de compreensão, o que multifacetava a lenda.
Mas em nenhuma versão se achava a verdadeira historia.
E fossem os jovens ou os velhos, os nativos ou os
aventureiros do café, os que pensavam de modo ou de outro
e falavam de diferentes maneiras – todos intimamente
concordavam em que havia naquela mulher solitária uma
aura terrível e fulgente como uma pérola.

O trator começa a se deslocar e nas conversas outros


temas se entrecruzam, e a luz da manhã se derrama na
bruma sobre os cafezais – a manhã se derrama, como todas
as manhãs.

E todas as águas – todos os oceanos do mundo e todos


os riachos do bosque –, todas as águas sobre a face da terra
entendiam.

E o universo.

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