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A Transvaloração dos Valores Cristãos

" Eu condeno o cristianismo, eu instauro contra a Igreja cristã a mais terrível das acusações
que alguma vez tenha sido feita por um promotor. Para mim, ela é a maior das corrupções
imagináveis, ela teve a última das corrupções possíveis."
Friedrich Nietzsche - O Antricristo

O Anticristo, escrito por Friedrich Nietzsche em 1888, é um ensaio em que o


autor procura fundamentar o que ele chama de "condenação eterna" ao cristianismo e
sua moral. Com uma linguagem que não hesita em usar adjetivos pouco delicados
nem dispensa uma fina ironia, Nietzsche aborda em 62 curtos capítulos diversos
aspectos do cristianismo, procurando reduzi-los à mais desprezível forma de
pensamento.
Logo de início, o autor introduz o conceito de décadence, que seria uma forma
de corrupção do ser, quando ele passa a preferir o que lhe é prejudicial e a negar,
portanto, a própria vida. Nesse sentido, o cristianismo é um niilismo. Pelo resto do
livro, diversas argumentações são construídas para provar essa negação da religião
cristã à vida. Conforme ele mesmo diz: "A história de Israel é inestimável como
história típica de toda desnaturação de todos os valores naturais (...)". Passa-se,
segundo Nietzsche, a preferir o sofrimento, a doença, a pobreza e a subordinação a
saúde, riqueza e força. O cristianismo viria de um ressentimento e de um ódio, uma
forma das pessoas fracas e doentes de encontrarem nesses "defeitos" um meio de se
divinizar, de ter garantida, em uma vida posterior, a bem-aventurança, contra as
pessoas já "bem-aventuradas" na vida terrena, que seriam condenadas ao inferno.
Valoriza-se, portanto, tudo que é contrário à vida. Outra idéia defendida é a de
que o cristianismo é contra a realidade. Todos seu conceitos são calcados na "além-
vida", em uma vida que nem se pode provar que existe ou não. Nas palavras do autor:
"Ele [Jesus] fala apenas do que é mais interior: "vida" ou "verdade" ou "luz" são as
suas palavras para o que é mais interior - todo o resto, toda a realidade, toda a
natureza, a própria linguagem, tem para ele apenas o valor de um símbolo, de uma
parábola". Em outro trecho, ele conclui: "Se entendo alguma coisa desse grande
simbolista [Jesus], então é o fato de que ele apenas tomou realidades interiores por
realidades, por "verdades" - de que ele entendeu o resto, tudo o que é natural,
temporal, especial e história apenas como símbolo (...)".
Também é apontada a tendência a não lutar contra o sofrimento, a não opor
resistência a quem quiser o mal, a, basicamente, se subordinar a tudo que acontece,
pois esse seria o sinal da fé. Em um trecho mais ao fim do livro, Nietzsche diz: "Tudo
o que sofre, tudo o que pende da cruz é divino (...) Estamos todos pendurados na cruz,
logo nós somos divinos". Para o autor, esse é um grande atentado a qualquer espírito e
inteligência. Outra forma de conter qualquer valor natural é o conceito do pecado, que
faz com que todos reprimam a si mesmos quando fazem algo que na verdade é natural
e mesmo necessário. A fé é não duvidar, é não pensar, é portanto estar preso a
convicções mentirosas. Dessa forma, a religião cristã é também um atentado contra a
ciência, contra a busca da verdade, contra a própria filosofia. São essas, além de
muitas outras idéias, que Nietzsche usa para tecer sua crítica ao cristianismo.
No entanto, é importante ressaltar que a principal crítica de Nietzsche é aos
valores, é à pretensão de dizer a outros como devem agir e sob quais pressupostos
devem nortear sua vida. Assim, Nietzsche não é anti Cristo, e sim contra o que o
cristianismo, principalmente o firmado por Paulo, traz às pessoas. Como contraponto,
Nietzsche defende escritos orientais, como o "Código de Manu", um livro indiano, e
também faz elogios ao budismo. Enquanto o pensamento oriental seria mais puro e
limpo, o cristianismo seria imundo. Até mesmo o autor diz que se deve usar luvas
para ler o Novo Testamento, de tão sujo que este seria.
Com sua ironia que muitas vezes provoca um certo riso ou mesmo uma
espécie de consternação, o autor consegue, de uma forma ou de outra, deixar a sua
marca no leitor. Talvez não seja possível passar incólume pela leitura de O Anticristo.
Até mesmo em um cristão mais fervoroso pode fazer surgir a dúvida ou algum tipo de
incômodo. Apesar de suas frases por vezes um tanto exageradas (como ao definir o
cristianismo como a maior desgraça da humanidade), a argumentação é sóbria e
procura cobrir todos os pontos que poderiam ser usados para "defender" os valores
cristãos. Mesmo quando Nietzsche parece conceder alguma razão para o argumento
contrário, é para depois destruí-lo fatalmente com seu raciocínio. Surpreende o seu
tom ferino principalmente quando pensamos em sua época. E o autor tinha
consciência disso: no prefácio ao livro diz que sua obra era destinada a leitores que
ainda não existiam, que não pertenciam ao seu tempo. De fato, se a obra ainda hoje
pode chocar as pessoas, tentar compreender a reação das pessoas na época em que ela
foi escrita é difícil.