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A N ATUREZA M ÍSTICA DO M ARXISMO Uma análise crítica E DITORA P AZ

A NATUREZA MÍSTICA DO MARXISMO

Uma análise crítica

EDITORA PAZ

1

EDITORA PAZ

Copyright © 1986. Léo Villaverde

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro. SP-Brasil)

Villaverde, Léo, 1954. Título: Marxismo & Ocultismo. O segredo revelado Título original: A Natureza Mística do Marxismo

Publicado em 2011 pela Editora

desta edição em língua portuguesa no Brasil. ISBN 00-000-0000-0

, que se reserva a propriedade literária

Registrado na FBN sob nº 518.694 (L984. F122)

Áreas de Interesse: Todas as áreas do conhecimento.

05-0000

São Paulo-SP

CDD 215

Índices para catálogo sistemático:

1. Ficção, história, filosofia e religião.

Capa/criação: Léo Villaverde/2011

O primeiro número à esquerda indica a edição, ou reedição, desta obra. A primeira dezena à direita indica o ano em que esta edição, ou reedição, foi publicada.

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Impresso nas oficinas gráficas da Editora

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A Deus e à humanidade

SUMÁRIO

Prefácio Nota Sobre a Natureza Humana

17

Introdução

27

PARTE I: MARX. O HOMEM E O MÍSTICO / 33

Capítulo 1.

AVIDA DE KARL MARX E A PSICOLOGIA MODERNA

35

A Vida Familiar de Marx

35

O Jovem Cristão Karl Marx

37

A Psicologia e o Papel da Família

38

Capítulo 2.

A ÉPOCA E O AMBIENTE HISTÓRICO DE MARX

41

Contra-Político

41

Contra-Ecônomico

42

Revolucionarismo

44

Capítulo 3.

OS AMIGOS DE MARX

49

Freidich Engels

49

Bakhunin

54

Proudhon

55

Moses Hess

56

Capítulo 4.

AS INFLUÊNCIAS IDEOLÓGICAS

61

O Gênesis e o Mito de Prometeu

64

Tradição X Sucessão

70

O castigo Justificado

71

A Origem das Ideologias Atuais

74

Moses Hess

76

Hegel

82

Feurerbach

84

O Romantismo e a Escola Histórica

86

4

 

Os Socialistas Franceses

88

Os Economistas Ingleses

89

Os Filósofos Ingleses e Franceses

90

Capítulo 5.

O LADO DESCONHECIDO DA OBRA DE MARX

95

O Contradeus

95

Marx- do Cristianismo ao Ateísmo

97

Capítulo 6.

MARX COMO HOMEM E PENSADOR

105

Marx Era um Humanista?

Leis do Movimento Econômico

105

e a Teoria da Alienação na Sociedade

 

Comunista

107

O Mito da Ciência Marxista

115

PARTE II : A MÍSTICA DO PENSAMENTO MARXISTA

121

Capítulo 7.

IDEAL E IDEOLOGIA

123

Capítulo 8.

PROPÓSITO E FINALIDADE

127

Capítulo 9.

IDEAL CRISTÃO E IDEAL

MARXISTA

131

Capítulo 10.

A IDEOLOGIA CRISTÃ E A

IDEOLOGIA MARXISTA

135

O Deus bíblico e o deus-trabalho / 139

A Queda do Homem e a Tendência

 

à

Propriedade Privada

139

O Pecado Original e a Propriedade Privada

140

A

História Pecaminosa e a História

da Exploração

140

A

Natureza Humana Original

e

a Essência-Epécie Original

141

A

Natureza Decaída e a Natureza

Burguesa

141

O Remorso e a Autocrítica

142

5

A Consciência da Fé e a

 

Consciência de Classe

142

A

Essência-Divina Humana

e

a Essência-Trabalho Humana

144

O Valor-Divino do Homem

e

o Valor-Trabalho do Homem

144

Moral e Ética Cristã x Moral

e Ética Marxista

145

A História da Salvação e a

História das Lutas de Classe

146

Salvação Cristã e a “Salvação” Marxista

A

148

Arrependimento e Rebelião

148

A

Igreja Cristã e o Partido Comunista / 149

O Clero Cristão e os Membros do Partido / 150

O amor como Força, o Perdão como Meio e a Harmonia por Fim. O Ódio Como Força, o Ressentimento como

 

Meio e o Conflito por Fim

151

Os Santos Cristo e os Guerrilheiros Marxistas

152

O Messias e Karl Marx

153

O Novo Éden, o Reino do Céu

e a Sociedade Comunista / 155

Capítulo 11.

TEOLOGIA x MARXISMO

157

Karl Barth

159

Saduceísmo

162

O Reino de Deus na Terra

162

Cristianismo Horizontal

162

Fé Sem Religião

162

Cristianismo Sem Mitologia

163

Cristianismo Ateu

163

Cristianismo Marxista

164

O Documento Li Whei Whan

168

Capítulo 12.

MARX E JESUS. A RELAÇÃO AUTOR x OBRA

175

6

Os Frutos do Cristianismo

177

 

Os Frutos do Marxismo

180

Os Neo-bárbaros

183

PARTE III: A MISTICA DO COMPORTAMENTO MARXISTA

187

Capítulo 13.

O PRINCIPIO DA INVERSÃO

189

O paradoxo do Comportamento Humano

190

Antiverdade

191

Contracultura

193

Deus e Antideus

194

Capítulo 14.

O SENTIMENTO COMUNISTA

197

Contramarxismo

200

Capítulo 15.

O COMPORTAMENTO OCULTISTA 203

Deusista e Antideusista

204

Capítulo 16.

AS ESCRITURAS “SAGRADAS” MARSISTAS

209

 

O manual do Ateísta

211

Capítulo 17.

A AUTODESTRUIÇÃO INCONSCIENTE

215

 

Utopia e Alienação

218

Fama e riqueza pelo Caminho Político 219

Revolução: do Sistema Social ou do homem?/ 221

Capítulo 18.

A IGREJA MARXISTA INSTITUÍDA / 227

Rituais Pseudo-cristão

230

O “Pai Nosso” e o “Decálogo Comunista” 233

Capítulo 19.

ACRUELDADE DESUMANA

237

Violência e Desequilíbrio Psíquiico

237

Praticidade

241

Espiritualismo na União Soviética

246

Totalitarismo

7

247

 

Espionagem

 

248

Terrorismo

251

Psicopolítica

 

253

Capítulo 20.

MITOLOGIA & MARXISMO

259

Mito e Ritual

 

260

A Leninolatria e o Mito do Super-Homem Marxista

261

O Mito do “Céu Marxista”

264

Capitulo21.

OS SÍMBOLOS DO MARXISMO

267

As Cores

 

268

A

Foice e o Martelo

270

A Estrela

 

275

O Punho Fechado

278

Capítulo 22.

O MARXISMO SEGUNDO NOSTRADAMUS

279

Capítulo 23.

MARXISMO E CRISTIANISMO

285

Anticristianismo

 

285

O Deus-Proletariado e a História

289

Capítulo 24.

O MARXISMO, A RÚSSIA E A BÍBLIA

 

293

A Mística Rússia

299

Dan A Origem dos Povos Orientais301

O Caráter Russo

 

307

Rasputin Quem o Enviou?

309

A Rússia na Profecia de Fátima

313

CONCLUSÃO

318

NOTAS BIOGRÁFICAS ADICIONAIS DE MARX E ENGELS

 

323

BIBLIOGRAFIA

8

PREFÁCIO

O conceito de Jung sobre arquétipo deriva de sua observação reiterada de

que os mitos, as lendas, os contos da literatura universal e as religiões encerram temas bem definidos que reapareceram em toda parte em todos

os tempos.Paralelamente na presente obra, o professor Villaverde, além de

propor uma nova abordagem da “realidade arquetípica” do marxismo cria verdadeiras filigranas ontológico ao cotejar,com uma propriedade crítica muito próximo do refinamento clássico, os “temas” que há muito refluem na experiência social, política e epistemológica do homem. Sem deter-se em redimensionamento doutrinários ou filosóficos, o autor nos leva às próprias vertentes das certezas arquetipicamente efêmeras do homem, revelando-nos e desenredando um processo história/ humanístico muito bem articulado,

que tem como ataque a propagação da desordem organizada, em um mundo cuja defesa é a “liberdade” mais que suicida. Essa é a situação de que se utiliza toda uma corrente de pensamento, tendo como elos a “barbárie com face humana” como lembra Bernard

Henri Levy , cuja auto-denominação é o terror de Estado e a “auto- determinação dos povos”, atuantes não por acaso em regiões de delicado

equilíbrio. (Vejam a Indochina, a América Central, o Oriente Médio

Desse modo, observamos a práxis marxista e obediência cega aos princípios

da “setelitização” serem cruelmente aplicadas. Os exemplos dessa arquetípica realidade nos trazem à mente um “paraíso”, supostamente

pretendido como definitivo, que o comunismo internacional, em sua “ânsia

de igualdade”, desumanizou.

Por outro lado, Jung sustenta que o arquétipo em si mesmo é vazio. Trata-se de um elemento puramente formal, sendo uma forma de representação dada a priori. As representações arquetípicas não são herdadas, apenas suas formas o são, como os instintos. A existência dos arquétipos só pode ser comparada de maneira concreta, através de sua manifestação. Pela breve explanação que acabamos de fazer, podemos agora verificar até que ponto as ideias do professor Villaverde que confrontam sistemas religiosos, investigam a própria essência do lado místico da natureza humana, criticando os valores “herdados” e re-criados, e sugerem uma novíssima apreensão “não dos erros teóricos do marxismo, mas de sue caráter interno”, podem coadunar-se com os ideais do Cristianismo e refutar

).

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o marxismo ; vislumbrando, por fim, o real estabelecimento de uma

extraordinária cosmovisão teo-científica : o Deusismo. Seria o marxismo uma religião? Uma filosofia mística da história? Uma nova utopia? Outra forma arquetípica de misticismo, criada por Karl Marx? Um místico filosófico? Acreditamos que as duas últimas proposições talvez sejam as que melhor se prestem para analisar a doutrina marxista. O misticismo filosófico é uma doutrina que, constatando a impotência da razão humana para resolver os problemas metafísicos essenciais, vai em busca de recursos suplementares, que possibilitam um conhecimento

intuitivo especial. Os orientais, como por exemplo os budistas, pensam que esta é a fonte mediante a qual o homem se liberta do mundo sensível. Tudo

se propõe a atingir uma espécie de fusão com o mundo divino, durante o

estado de êxtase. O êxtase é considerado um estado paroxístico pessoal, em que o sujeito, rompendo toda comunicação com o ambiente, se encontra transportado para um mundo psicológico impenetrável a qualquer outro indivíduo. Não se transfere e nem se tem palavras para comunicar a outrema experiência e vivência obtidas no estado de êxtase. A propósito da “palavra comunicada”, algo semelhante foi defendido por Walter Bejamim, ao tratar da origem da Língua, em que esta assumiria a figura da língua adâmica. Nesse estágio, Deus e o homem possuíram uma mesma linguagem, que no entanto foi perdida com a queda. À essa perda de “imediatidade do verbo” Bejamim dá o nome de “sobredenominaçao” (Uberdenennung) espécie de veiculação do conhecimento que jamais se completa. Assim, todas as línguas, humanas e não-humanas , buscam a reintegração com o Verbo. Em tal contexto, não se faria arbitrária a suposição de que, em sua tentativa de reaproximação com Deus, fonte dos Lagos, o homem cometa muitos e fragmentários desvios. É nesse momento que a língua torna-se signo de uma má interpretação, o que por si mesma engendra a mentira. O marxismo é resultado direto de uma mentira, proposta em um altar alegórico, para o sagrado a retalhamento e êxtase da alma de seus fiéis. Portanto, o marxismo é uma doutrina mística e dogmática. Na prática, apresenta certas características dos dogmas religiosos, principalmente quando se propõe a salvar a humanidade e estabelecer o paraíso na Terra. Diferencia-se em essência das religiões, por negar a existência e a interferência de qualquer “poder divino” na vida pessoal do homem, e na sociedade por ele construída. Na atuação prática, o comportamento do verdadeiro cristão é também antípoda do comportamento marxista. O crente cristão prega e prática os princípios que se encontram nos Evangelhos espacialmente no Sermão da Montanha - , com ênfase às mensagens de amor: amor a Deus, à humanidade, á família e ao próximo. O crente

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marxista militante prega a luta de classe, a marginalização e a eliminação sumária daqueles que opõem à implantação do regime comunista materialista e ateu em substituição ao regime social liberal cristão. Ele abomina todas as religiões, por considera-las “o ópio do povo”, usado pela burguesia para dominar e explorar a classe dos trabalhadores. Para atingir seus objetivos, o marxismo procura levar o proletariado principalmente do Terceiro Mundo à miséria total (quanto pior melhor), porque somente assim tal miséria coincide com o lado oposto e extremo da contradição capitalista, levando-o à sua destruição final. Karl Marx e Friedrich Nietzsche, na segunda metade do século XIX, declaravam a “morte de Deus”; Feodor Dostoievski, na fábula do Grande Inquisidor, inserida na lenda dos Irmãos Kramazov, escrevia: “se Deus não existe, então tudo é permitido.” Esse pensamento é o adotado pelos marxistas ateus, e aplicado na organização de todas as formas de relações humanas; daí levando o homem ao niilismo. Com base nesse enfoque, os marxistas têm por meta destruir a estrutura em que se assente a sociedade ocidental, e instar o regime comunista, idealizado e proposto por Marx: O homem cuia personalidade foi envolvida pelo “Arquétipo do Velho Sábio”, o dono absoluto da verdade; o homem que destronou todos os deuses de todas as religiões, e se auto-coroou o “único deus”, capaz de misticamente reger os destinos da humanidade. Suas ideias foram adotadas por uma legião de seguidores de todas as nacionalidades, raças e povos do mundo. Cada um deles tem incorporado o “arquétipo do herói” * , o salvador da pátria, disposto a dar a própria vida para implantar, em todas as nações do mundo, ideal do convívio social para o homem, elaborando e proposto pelo “grande messias”; o homem que se “fez” deus, ao mesmo tempo que liquidava todos os deuses: Karl Marx. Caberá ao leitor desta obra tirar suas conclusões. Terá oportunidade de constatar o seu real valor, pela honestidade e precisão das informações sobre a natureza mística da doutrina marxista, e seu emprego na vida pessoal e social do homem. Informações pouco conhecidas sobre a personalidade de Karl Marx, e sua vida familiar são admiravelmente relatadas, assim como a extraordinária influência que o marxismo, em confronto com o Cristianismo, vem exercendo, a partir de meados do século passado, sobre a humanidade. Essa influência continua a atuar profundamente neste final de século.

* Prevalecendo fundamentalmente o “arquétipo da sombra” (arquétipo da negatividade).

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O autor deste trabalho, professor Villaverde, demonstra que o marxismo, arquetipicamente, tomou a forma de uma pseudo-religião, um pseudo- cristianismo, que se propôs, conscientemente

ou não, a suplantar e substituir o verdadeiro Cristianismo. Por outro lado, o autor destaca o papel da necessidade fundamental da religião na mudança do indivíduo (e, automaticamente, da família, sociedade, nação e mundo), afirmando que a verdadeira revolução do mundo jamais ocorrerá sem a verdadeira revolução do homem. Ao mesmo tempo, essa obra magnífica nos dá novas esperanças e nos preenche um vigoroso entusiasmo, ao desvelar os sinais de um “Cristianismo Universal” o Deusismo emergindo das cinzas de nossa decadente civilização, como um fênix que iluminará o caminho para o reencontro do Homem com Deus.

CESÁRIO MOREY HOSSRI *

* Dr. CESÁRIO MOREY HOSSRI, 65, é membro da comissão examinadora para mestrado e doutorado da Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – instituição complementar da USP; pioneiro no estudo, pesquisa e desenvolvimento do Tratamento Autógeno no Brasil; como escritor, publicou tratados e obras originais de caráter internacional na área de Psicologia (Editora “Mestre Jou”); especialista em psicologia da educação, psicólogo clínico e sociólogo. Leciona atualmente na PUCCAMP.

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NOTA SOBRE A NATUREZA HUMANA

Toda corrente filosófica materialista insiste em negar que o homem possua uma natureza original. Dizem que o homem se assemelha a uma folha de papel em branco na qual os objetos exteriores imprimem suas características. Isso significa dizer que o homem é um a mero e total produto do meio social. Não é consciência humana que subjetivamente cria o meio social, que cria a sua consciência. Para fundamentar essa ideia, centenas de textos foram escritos e espelhados por todo o mundo. Gostaria de tecer alguns comentários sobre essa interessante questão, não a título de debater, mas a fim de derramar novas luzes sobre ela. O Deusismo * apresentou uma teoria antropológica que define o ser humano como um ser divino, porém não em pleno estado de aperfeiçoamento. Na Teoria Antropológica Deusista, o homem atual não se encontra em seu estado original. Admitindo Teoria da Queda Humana (um acontecimento primitivo que desligado os seres humanos de seu Criador Deus), o Deusismo explica, por esse fato, a existência das guerras e das religiões na história, cuja única finalidade é a de ocasionar o religamento do homem com o seu Criador. Por esse ângulo, a religião é um fenômeno histórico temporário. Ao mesmo tempo, a Teoria da Queda Humana nos fornece a ideia de que a história não teve início de uma forma correta, razão por que as religiões falam em “fim dos tempos” (tempos da ignorância, dos erros e dos sofrimentos humanos). Não se pode negar a atuação do homem sobre a natureza. Tampouco se pode negar a influência da natureza sobre ele. Devemos, portanto, admitir que a sociedade é uma criação humana, uma projeção intelectual e real oriunda da essência do próprio homem. A sociedade, pois, deveria estar no pleno agrado do ser que a criou. Entretanto, isto não ocorre. Por quê?

* O Deusismo é uma cosmovisão fundamentada nos princípios ético-morais comuns às grandes religiões do mundo, na filosofia idealista-teísta e na ciência do Século XX.

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Em toda a história e em todos os lugares, os homens apresentam certas características comuns, independentemente de fatores externos como cor, raça ou classe, quais sejam: o ser humano busca a verdade, a beleza e a bondade em qualquer parte em qualquer tempo, busca lei, ordem e

princípios; busca valores eternos, imutáveis e absolutos; busca a vida eterna,

a eterna juventude, a plena verdade, a plena experiência. Em todo tempo e

lugar, o homem tem buscado a perfeição das suas obras. Por outro lado e

é nisso que está o grande paradoxo do comportamento humano o homem

tem realizado obras absolutamente opostas ao seu desejo. Assim, ele foge da

morte indo ao seu encontro (vícios, drogas, etc); foge da guerra, guerreando

e aperfeiçoando a guerra (nuclear, química, bacteriológica, etc); foge da

impureza, praticando-a (a promiscuidade). Por que isso acontece? Encontramos na Bíblia uma primeira explicação. Certa vez o apóstolo Paulo disse:

“Deleito-me na lei de Deus no intimo de meu ser, sinto porém, nos meus membros outra lei do meu espírito e me prende debaixo da lei do pecado. O bem que quero, esse não faço, mas o mal que detesto, esse faço. Ora, se faço o que não quero, não sou eu mesmo que o faço, mas alguma “coisa” que está em mim! Assim, eu, pelo meu espírito, estou sujeito à Lei de Deus, mas pelo meu corpo sou escravo da lei do pecado. Miserável homem que sou, quem me livrará deste estado de morte.”

Uma segunda explicação encontramos no pensamento do psiquiatra vienense Sigmund Freud, criador da Psicanálise. Freud apresentou uma teoria chamada “Conflito Intrapsíquico”, na qual demonstrou a existência de um grande conflito no interior da mente humana entre duas forças: uma moral (superego) e uma amoral (id). Segundo Freud, é dessa luta que brotam as neuroses humanas, quanto ao fato da existência desse conflito inferior no ser humano, não há dúvida. A questão que agora se põe é sua origem. Será esse estado natural dos seres humanos, ou esse é uma anomalia originada por algum acontecimento posterior à sua origem? Bem, se esse fosse o estado humano original, não existiriam as religiões e nem todos os movimentos históricos (mesmo a Psicologia e a Psicanálise) voltados para sua eliminação e para a busca do equilíbrio interior do homem a paz. As religiões são um fenômeno histórico, que se propõem a eliminar o conflito interior do homem, devolvendo-lhe a paz, o céu, o equilíbrio, o Nirvana, etc. Também as ciências da mente e do corpo têm proposto o mesmo ideal. Numa batalha extraordinária, o homem tem se debatido, ao longo da história, para vencer o mal que lhe massacra, tentando estabelecer o bem geral, mas sem muitos

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resultados. Tão logo encontra uma solução para um problema, surge-lhe outro, e outros maiores que o anterior. Tem sido assim há seis mil anos. Curiosa e estranhamente apesar de ser assim, os homens têm lutado com desespero para mudar essa situação. Não há paz dentro dos homens; não há paz na sociedade. Entretanto, há na humanidade a esperança do triunfo derradeiro. O homem acredita que vencerá a “força” ou seja lá o que for que o oprime e o escraviza. A luta que se trava no interior da sua mente e se projeta exteriormente nas suas obras (e é quando ele a pode ver), não o agrada; está nele, mas não nasceu com ele. Por isso ele se debate par livrar- se dela. Tanto as teorias políticas que tratando da origem política do Estado, quando as religiões, afirmam que o homem já viveu em paz, livre do conflito interior que o atormenta. Nas teorias políticas sustentava-se que o homem vivia na natureza, guiado pela simples lei natural, livre de quaisquer

conflitos e dores. Quando, subitamente (sem maiores explicações), desenvolveu-se no interior do homem a tendência para a injustiça e a agressão. Ai se teria iniciado a história da divisão , das classes, das lutas e da miséria humana. Por outro lado, a civilização judaico-cristã apresentou à humanidade uma outra teoria. As narrativas bíblicas contam que há seis mil anos, quando o homem e

a mulher (o casal primário produto final da evolução humana) haviam sido criados e caminhavam para a maturidade, ao fim da qual seriam unidos por Deus e constituiriam a primeira família, dando início à história humana, ser espiritual chamado Lúcifer interferiu no processo, separando-os do seu criador, induzindo-os a copularem extemporaneamente, para então submetê- lo ao seu domínio, educando-os a seu modo. De que forma teria Lúcifer interferido no desenvolvimento do casal primário? O Deusismo concorda com os escritos anteriores ao Novo Testamento, que defenderiam que a Queda humana teria sido um ato sexual extemporâneo. Mas acrescenta que a Queda Humana não teria ocorrido em apenas uma etapa o homem e mulher imaturos. Mas, principalmente, deu-se

a queda antinatural entre um ser angélico e a mulher e, posteriormente a

queda imatura entre a mulher e o homem.(Gn. 8-13). Se verdadeira essa teoria, deverá existir ainda hoje provas concretas da

sua autenticidade, vestígios reais desses tipos de relacionamento antinaturais

e imaturos, bem como fatos observáveis quanto ao conflito interior, oriundo da Queda, no homem e na sociedade. Nessa teoria, a mulher teria se relacionado com dois seres de espécies distintas: um anjo e um homem. A genética contemporânea nos comprovou que, cruzando-se duas espécies de vegetais ou animais distintos pode-se

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perfeitamente obter uma espécie híbrida, que apresenta as características das espécies anteriores que lhe deram origem. Exemplos desse fato são a nectarina (cruzamento do pêssego com ameixa); o tritigal (cruzamento do trigo com centeio); o muar (cruzamento do jumento com a égua). Com relação ao homem, o mulato (produto do branco com o negro) é também um elemento híbrido dentro da espécie humana. O filho é produto da fusão pai- mãe, sendo, em si mesmo, substancialmente constituído dessa natureza dual (os gens masculinos fundem-se com os gens femininos, originando uma terceira qualidade de gens híbridos). Admitindo-se a dualidade espírito-matéria dos seres humanos, não haveria implicações hereditárias * , também espirituais no cruzamento do homem e a mulher? Logicamente, sim. O filho é produto integral dos pais, tanto espirituais quanto materialmente. Ocorre, porém, que a Queda Humana não foi apenas humana. Um terceiro personagem teve íntima participação nela um anjo (ser espiritual antropomorfo). A bíblia afirma que a mulher “provou do fruto do arcanjo Lúcifer” primeiro, e deu do fruto ao homem depois. Se há implicações hereditárias também espirituais, seria lógico admitir que os descendentes humanos, desse “ato-a-três”, apresentassem os vestígios dessa herança “genética” espiritual e desse comportamento social antinatural. Tem sido evidente que a essência dos problemas humanos está diretamente relacionada com a questão da sexualidade. Um estado sociológico nesse campo pode nos fornecer dados extraordinários para a argumentação. As teorias de Freud vêm corroborar essa tese. Para Feud, a raiz dos problemas sociais estavam na sexualidade e no conflito intrapsíquico existente no homem. Trata-se, pois, de um conflito real, travando no plano no psicológico da raça humana. De outro lado , ao observarmos o comportamento sexual do homem, podemos perceber claramente os vestígios chocantes dos relacionamentos antinaturais e imaturos ocorridos no ato da Queda. Vemos relacionamento entre homem- homem, mulher-mulher, homem-animal, adulto-criança, etc. mais modernamente, tornou-se claro o relacionamento entre sexo-violência, sexo terror e sexo-horror. Quanto aos relacionamentos imaturos, bastaria citar o

* O hinduísmo afirma que o espírito humano é constituído de energia espiritual. Isso nos possibilita falar em genética espiritual, e considerarmos a fusão espiritual, não apenas como complementariedade, mas sim, como fusão real, haja vista que se dá entre corpos constituídos de uma mesma substância amorfa e transmutável.

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casamento indiano aos trezes anos, os casamentos interioranos aos onze ou doze anos, o fenômeno da pederastia, a prostituição infantil, etc.

O Existencialismo é uma escola filosófica caracterizada por uma

preocupação central com a angústia e o desespero humanos. Os existencialistas entregaram-se à busca da compreensão da natureza humana

e dos problemas humanos, bem como à busca de soluções. Entretanto, todas as suas explicações e soluções foram parciais, porque o existencialismos não considerou o fato da Queda Humana. Conseqüentemente, amais compreenderam a causa real da miséria humana.

De modo semelhante, a psicologia e a psicanálise vem se debatendo na

mesma busca há décadas. Lamentavelmente, enquanto por um lado anunciam progressos, por outro, ansiedade e angústia crescem de modo inexorável.

É real o fato do conflito intrapsíquico humano. Há n a natureza

humana uma batalha entre duas vontades opostas (herdadas respectivamente de Lúcifer e Adão). Uma, revela-se nociva ao homem e atenta constantemente contra a sua própria existência. A outra é benéfica, a luta para az sua sobrevivência. Enquanto uma vontade o induz a destruir a natureza, a outra o induza defendê-la. E surge a exploração devastadora e a ecologia, a paz e guerra, o egoísmo e o altruísmo. Poderíamos nos reportar aos primórdios da história humana (uma história que teve início de uma forma pervertida) e encontraremos os primeiros frutos da Queda, representados, figurativamente, por Caim e Abel. Neles veremos os inícios do choque entre as duas naturezas humanas opostas. Veremos no Abel o lado manso e bondoso; e no Caim, o lado agressivo e perverso. Séculos adiante, ainda na mesma região (Mesopotâmia), veremos as raças descendentes de ambos, representadas pelos caldeus pacíficos, e pelos assírios agressivos. Desceremos ao longo de todo o rio da história e observaremos a extensão do mesmo conflito. Chegaremos a Grécia com o mito dos irmãos Etéocles e Polinise, com as cidades de Atenas e Esparta. Em Roma encontraremos o mito dos irmãos Rômulo e Remo, e as cidades de Roma e Cartago. Encontraremos os filósofos idealistas e os materialistas, os lógicos e os

Enfim, chegaremos dentro da nossa própria casa e

crentes e os ateus

encontraremos em nossa família Caim e Abel lutando sem perceberem, esgotados e à beira da mutua destruição. Olhamos para o mundo atual e nos deparamos com Caim e Abel representados por dois blocos do mundo o bloco soviético e o bloco norte-americano lutando a um passo da destruição recíproca. Completamente cegos para os verdadeiros sentidos da existência, cansados

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fracassados, ameaçados, desmoralização, cheios de orgulho e ainda esbravejando um contra o outro; um culpando o outro pela miséria dos dois Suas vozes soam fortes, mas os seus olhos se desviam da realidade de seus mundos. Algo está errado. Tanto esforço, tantas guerras, tantas mortes Para nada! Enganaram-se reciprocamente, ou foram ambos enganados por um terceiro elemento oculto? Onde estão os louros das vitórias conquistadas? O lado Caim e Abel falaram de paz por milênios. Pela paz guerrearam e sofreram. Ao termino da longa jornada, apenas uma tensão:

vêem apontados sobre as suas cabeças armas terríveis, que poderão destruir tudo pelo que lutaram por toada a História. Afinal, o que estou querendo dizer? Quero dizer simplesmente que não elaboro este trabalho pretendendo agredir os comunistas ou os democratas quero dizer que, ao longo da história, os homens se amaram e se mataram, enganaram e foram enganados, prostituíram e foram prostituídos, roubaram e foram roubados. Os fenômenos do nosso século não são novos. Os mesmos vícios e maus costumes, o mesmo comportamento agressivo e imoral; os mesmo anseios interiores do passado estão presentes, o assassino, o mentiroso, o ladrão e o homossexual datam, dos primórdios da história do homem, porque esses traços de seu comportamento são reflexos visíveis de sua natureza pervertida pela Queda. Os comunistas e os democratas sempre existiram, mas com outros nomes. O que presenciamos hoje na Terra nada mais representa do que o estágio mais avançado de uma luta que teve início há seis mil anos atrás. Não entre os homens são os instrumentos e o prêmio da luta mas entre duas forças ainda incompreensíveis para ao homem atual. Uma força que se utiliza da paz de verdade e do amor, como arma contra uma outra que se utiliza da guerra, da mentira e do ódio. Arnold Toynbee, o grande historiador do século XX em sua extraordinária obra Um Estudo da História ( A Study of History), que engloba o estudo das 23 civilizações existentes nesses 6.000 anos da história, com doze volumes escritos em quase 30 anos, viu a religião como a mais poderosa força da história humana. Estará ele enganado? Ambas, a mansidão e agressão são traços históricos da natureza humana. Mas ambos não são originais, pois um deles produz apenas devastação e dor, enquanto a natureza humana original busca apenas construção e prazer. O escritor José Alberto Gueiros, no seu interessante estudo intitulando O Diabo Sem Preconceito, expôs um curioso trecho:

“Modernamente, os adeptos da teoria do Inconsciente Coletivo entraram numa revolucionária interpretação das teses de Carl Jung.

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Segundo Beatrice Mahler, da Universidade de Colúmbia, o cérebro humano está preparando para receber do exterior não apenas os impulsos sensoriais conhecidos (cheiro, cores, sons, formas, etc), mas também certos estados especiais, como o transe hipnótico, impulsos gestálticos que propiciam a existência de uma consciência marginal. Nestes casos o cérebro humano será governado de fora , o córtex receberia ordens de fora e assim, o paciente estaria agindo por “controle remoto”, manobrando por uma entidade exterior que poderia modificar os elementos fundamentais da sua razão e induzi-lo a praticar atos involuntários estranhos, falar línguas estrangeiras, apresentar força sobre-humana, etc. Essa entidade exterior que atua sobre um cérebro (mente) ou vários cérebros de uma comunidade, em momentos especiais, à maneira de um inconsciente coletivo, poderia ser chamada Satanás. O fenômeno das “epidemias” sociais do tipo Hitler e o nazismo, Khomeíne e os muçulmanos do Irã; os iluministas e os revolucionários franceses; quando um líder leva um povo inteiro a praticar atrocidades, cegamente, estaria dentro desta tese de Beatrice Mahler.”

Não poderíamos estar observando um desses fenômenos, nos nossos dias, nas revoluções comunistas? A humanidade atual está atravessando um dos seus mais críticos períodos. O sofrimento está presente a cada instante, em cada recanto da Terra. Centenas de milhões de seres humanos no mundo comunista estão sob intenso sofrimento material e espiritual. De igual modo, outras centenas de milhões se encontram no mesmo estado no mundo livre. No atual estágio da história, obrigatoriamente haveria de aparecer os representantes mundiais de Caim e Abel. No passado eles foram chamados de assírios e caldeus, babilônicos e judeus, romanos e cristãos, em tempos mais recentes eles apareceram com nomes de italianos e alemães (católicos e protestantes), franceses e ingleses (iluministas e puritanos), russos e americanos (ateus e crentes). Não parecem ter muita importância os apelidos como os Cains e Abéis têm sido chamados. O que importa é o fato da sua existência real através da história. Tal fato constitui uma lei objetiva que atua na história e que o Deusismo chama de Lei da Separação. A teoria Deusista da história demonstra que a história humana é a história da luta entre o Bem e o Mal, e que a meta final da história é a vitória do Bem, porque tal é a vontade de Deus e do Homem. O fenômeno do comunismo apareceu na história como uma conseqüência inevitável da natureza do homem decaído. Internamente dividida e conflitada, a sociedade humana é um efeito-reflexo do estado da

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luta contraditória e paradoxal, existente na mente do homem. O conflito intrapsíquico é um fato científico. O comportamento paradoxal, antinatural (que atenta contra a existência da própria raça humana) é real e cada homem pode constatá-lo fora ou dentro de si mesmo. Aí está a sociedade humana estruturada pelas mãos do homem; porém, numa forma que ele próprio abomina. Enfim, o fenômeno está aí no corpo da história e no corpo do homem. Onde e quando pois, ele teve origem? Como dissemos nas primeiras linhas desse texto, as teorias políticas apresentam o fenômeno o comportamento paradoxal do homem , mas nada dizem sobre a sua causa ou o seu tempo de origem. Por outro lado, as teorias da Cosmovisão Deusista fornecem explicações coerentes e constatáveis na antropologia, na história, na sociologia e na psicanálise que, se não cabais, pelo menos sugestivas à lógica e ao intelecto. Razão por que as utilizo aqui. O comportamento comunista atual são os traços visíveis do conflito que se tem travado na mente humana há seis mil anos. O mundo dividido e conflitado é uma conseqüência da Queda Humana, mas indesejável pelo homem, pois conduz à auto-destruição. Quem, então, seriam nossos inimigos? Seriam os seres humanos os inimigos uns dos outros, ou estamos no mesmo barco, naufragando juntos, sob a força arrasadora de um impiedoso inimigo? Este trabalho sobre a natureza mística do Marxismo visa derramar alguma luz sobre essa questão fundamental, acender o questionamento e a pesquisa. Talvez o homem não seja o seu próprio inimigo. Se assim for, deveríamos nos abraçar, somar nossas forças, nos aproximar (uma corda de mil fios é, praticamente, indestrutível à mão livre). Comunistas e democratas, Caim e Abel, em união de mente e coração, guerreando lado a lado contra o inimigo comum. Quando Caim e Abel comunistas e democratas de mãos dadas, reescreverem a história de Esaú e Jacó em pleno século XX, sem dúvida essas serão as verdadeiras sementes da prosperidade e da paz mundial.

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INTRODUÇÃO

Ao longo de toda a história caciques, reis e imperadores e faraós sempre declararam a origem divina de seu poder e de sua posição privilegiada, mesmo que a história das sucessões esteja quase sempre banhada em sangue, não raro, de filho pasi contra filhos e irmãos contra irmãos. Mas declarar a origem divina de sua posição nunca foi o suficiente para os grandes e cruéis tiranos. E eles se autoproclaram filhos dos deuses. E foram lém, declarando-se o próprio Deus; não, visto como o Pai de amor e justiça, dos cristãos, mas como um dono absoluto de tudo, inclusive da vida de seus súditos. Até a Revolução Francesa os tiranos cruéis haviam assassinado cerca de 132 milhões de seres humanos. Os tiranos revolucionários esquerdistas quase dobraram etse número: assassinaram perto de 232 milhões de seres humanos! Por que tanta violência? A Revolução Francesa tinha como meta central descristianizar a França. Cerca de 30 mil padres e freiras foram mortos. Que Robespierre, o líder da Revolução Francesa, era ateísta e defendia o terror-virtude (despertar a virtude por meio do terror) todos sabem. O que poucos sabem é que Robespierre criou uma espécie “religião” ateísta-humanista onde ele próprio se colocou como objeto central de culto e adoração. Chegou a realizar espetáculos públicos nos quais, elevando-se por meio de um elevador ruidimentar, ele emergia no allto diante das multidões. Os ideais da Revolução Francesa morreram em 1804 com a autocoroação de Napoleão Bonaparte (1768-1821). E Napoleão decidiu conquistar o mundo. E vieram as guerras napoleônicas que espalharam o terror na Europa e matavam 30 muil soldados por mês, sem contar as incontáveis vítimas inocentes. Napoleão foi um revolucionário e participou da Revoluçao Frencesa, cujo

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ideal supremo era a derruibada da monarquia e o estabelecimento da república democrática. Todavia, como era um ateu mentiroso, extinguiu a democracia e se autocoroou imperador já em 1804. Napoleão costumava se comparar ao imperador Carlos Magno, odiava os negros (matou cerca de 100 mil negros no Haiti) e decapitava os prisioneiros. Mesmo assim ainda hoje é aplaudido como herói francês e tem mais de 100 biografias (Cf. Os Crimes de Napoleão. Claude Ribbe. Record, 2008). Comentando os crimes de Napoleão Ribbe escreveu:

150 anos antes do holocausto nazista Napoleão Bonaparte utilizou câmaras de gás embrionárias para exterminar a população civil das Antilhas, criou campos de concentração na Córsega e em Alba, e restabeleceu o tráfico de escravos e a tortura, provocando a morte de 100.000 (cem mil) africanos nas colônias francesas, atrocidades copiadas por Adolph Hitler.” Napoleão inspirou Hitler e o nazismo. Hitler e o nazismo provocaram a II Guerra Mundial, que massacrou cerca de 50 milhões de sers humanos. As relações entre o ocultismo e o nazismo já est bem documentadas e são conhecidas (Cf. Reich Oculto. J.H. Brennam, Madras, 2007; Os Segredos do Nazismo. Sérgio Pereira Couto. Universo dos Livros, 2008. A Lança Sagrada de Hitler. Universo dos Livros, 2008). E mais uma vez o ateísmo ocultista esteve de braços dados com a crueldade desumana e o genocídio. E a história do democidio prosseguiu. com os revolucionários comunistas, filhos dos revolucionários franceses. Claude Henri de Saint-Simon (1760-1825), um dos filósofos prediletos de Marx, defendeu a necessidade de uma nova ideologia que suplantasse os ensinamentos escolásticos cristãos de sua época. Este novo sistema de pensamento deveria ser científico, abrangente e completamente baseado na razão e na objetividade. Sobre esse novo sistema ideológico levantar-se-ia uma Nova Religião da Humanidade que mudaria a mentalidade humana, adaptando-a aos seus novos objetivos. Saint-Simon diza que somente essa Nova Religião poderia criar a sociedade do futuro governada por homens de intelecto superior. Auguste Comte criou a nova “religião” desejada pelos pensadores ateístas, concreizando-a na “igreja” positivista. Por fim veeio Lênin e estabeleceu a a nova “religião” e a nova “igreja” ateístas. Os resultados de 70 anos de prática da nova “religião” estão registrados na obra O Livro Negro do Comunismo. Repressão, crimes e terror (Stéphane Curtois, Nicolas Werth, Jean-Louis Panné, Andrzej Paczikowisk, Karel Bartoseek e Jean-Louis Margolin. Editora Bertrand Russel, 2005. 917 páginas). Os autores resumiram as 917 páginas do livro nos seguintes termos:

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Outubro de 1917: o golpe de estado bolchevique significou bem mais do que a queda do czarismo e a subida ao poder de um grupo de políticos idealistas. A revolução liderada por Lenin tornou-se o ícone que representaria o começo de uma nova era para a humanidade, anunciando uma sociedade mais justa e um homem mais consciente de sua relação com seu semelhante. Novembro de 1989: a queda do Muro de Berlim e a consequente abertura dos arquivos dos países comunistas apareceram para o mundo como a derrocada final do sonho comunista. O Livro Negro do Comunismo traz a público o salto estarrecedor de mais de sete décadas de história de regimes comunistas: massacres em larga escala, deportações de populações inteiras para regiões sem a mínima condição de sobrevivência, expurgos assassinos liquidando qualquer esboço de oposição, fome e miséria provocadas que dizimaram indistintamente milhões de pessoas, enfim, a aniquilação de homens, mulheres, crianças, soldados, camponeses, religiosos, presos políticos e todos aqueles que, pelas mais diversas razões, se encontraram no caminho de implantação do que, paradoxalmente, nascera como promessa de redenção e esperança. Os autores, historiadores que permanecem ou estiveram ligados à esquerda, não hesitam em usar a palavra genocídio, pois foram cerca de 100 milhões de mortos! Esse número assustador ultrapassa amplamente, por exemplo, o numero de vítimas do nazismo e até mesmo o das duas guerras mundiais somadas. Genocídio, holocausto, portanto, confirmado pelos vários relatos de sobreviventes e, principalmente, pelas revelações dos arquivos comunistas hoje acessíveis. O terror — o terror vermelho — foi o principal instrumento utilizado pelos comunistas tanto para a tomada do poder quanto para a sua manutenção, e também por grupos de oposição e o terrorismo de Estado, com frequência praticados contra o seu próprio povo, são as grandes características d comunismo no século XX. Obstinados, pragmáticos e carismáticos, os lideres comunistas que guiaram o mundo a seu destino inelutável, têm revelada a sua face sombria: Lenin, Stalin, Mao Tse Tung, Pol Pot, Ho Chi Minh, Fidel Castro e muitos outros tornam-se os responsáveis diretos pelas atrocidades cometidas em nome do ideal comunista. Sob seus olhares, os “obstáculos” — qualquer homem, cidade ou povo — foram sendo exterminados com violência e brutalidade. O Livro Negro Comunista não quer justificar nem encontrar causas para tais atrocidades. Tampouco pretende ser mais um capítulo na polêmica entre esquerda e direita, discutindo fundamentos ou teorias marxistas. Trata-se, sobretudo, de dar nome e voz às vítimas e a seus algozes. Muitas vitimas ocultas por demasiado tempo sob a máquina de propaganda dos Partidos

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Comunistas espalhados pelo mundo. Algozes, muitas vezes, festejados e recebidos com toda a pompa pelas democracias ocidentais. Todos que de algum modo tornaram parte da aventura comunista neste século estão, doravante, obrigados a rever as suas certezas e as suas convicções. Encontra-se, assim, uma das principais virtudes deste livro: à luz dos fatos aqui revelados, o terror vermelho deve estar presente na consciência dos que ainda creem em algum futuro para o comunismo. Como um ideal de emancipação e de fraternidade universal pode ter-se transformado, na manhã seguinte ao Outubro de 1917, numa doutrina de onipotência do Estado, praticando a aniquilação sistemática de grupos sociais ou nacionais inteiros, recorrendo às deportações em massa e, com demasiada frequência, aos massacres gigantescos? O véu da negação pode enfim ser completamente destruído. A rejeição do comunismo pela maioria dos povos em questão, a abertura de inúmeros arquivos que ainda ontem eram secretos, a multiplicação de testemunhos e contatos trazem o foco para o que amanhã será uma evidência: os países comunistas tiveram maior êxito no cultivo de campos de concentração do que nos do trigo; eles produziram mais cadáveres do que bens de consumo. Uma equipe de historiadores e de universitários assumiu o empreendimento — em cada um dos continentes e dos países envolvidos — de fazer o balanço mais completo possível dos crimes cometidos sob a bandeira do comunismo: os locais, as datas, os fatos, os carrascos, as vitimas contadas às dezenas de milhões na URSS e na China, e aos milhões em pequenos países como a Coréia do Norte e o Camboja.” O Livro Negro do Comunismo fala de 100 milhões de vítimas do comunismo. Masainda em 1978 a revista francesa Le Fígaro já falava estimava o genocídio em 150 milhões de vítimas (Cf. O custo humano do comunismo. Le Figaro. Edição de 18 de novembro de 1978). Por sua vez, Rudolph Joseph Rummel, professor de Ciências Políticas da Universidade do Hawaid, USA, em seu livro Statistics and Democide (Estatística e Democídio), baseado em um munucioso estudo históricio-estatístico sobre o democídio na história (o genocídio dos governos tiranos contra seus próprios povos) escreveu:

Do século II a.C., até o final do século XIX os governos tiranos assassinaram cerca de 130 milhões de pessoas. Inspirados pela Revolução Francesa de 1789 os governos revolucionários esquerdistas já assassinaram cerca de 232 milhões de seres humanos. E continuam matando. Como explicar que por trás das promessas de paz, terra, pão, trabalgo, justiça e liberade, dos movimentos ateístas existisse tamanha

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mentira e cruldade? Não se pode explicar tanta maldade sem falar em ateísmo e satanismo, assim como não se pode explicar a bondade e o amor

sacrifical de Jesus, dos mártires, dos padres e das freiras cristãos sem falar de fé e Deusismo. O amor dos verdadeiros cristãos certamente veio de Deus, e o ódio dos ateístas? De onde veio? Responder a essa pergunta é o objetivo deste livro. O autor observa que ninguém conhecerá o marxismo se não conhecer o caráter do seu criador, Karl Marx (ou alguma força perversa por trás dele). A obra de um autor sempre foi um reflexo de si mesmo, de sua natureza mais íntima. Afinal, o que é o marxismo? Que tão profundo mistério carrega ele em suas entranhas capaz de levar milhões de homens, mulheres, jovens e até crianças

a sacrificarem suas vidas, movidos por uma utopia e um ressentimento

aleatórios pelos mais ricos, poderosos e religiosos? Seriam todos os empresários e todos os religiosos tão culpados a ponto de terem sido julgados e sentenciados à morte sem nem ao menos saberem, ou será que a humanidade mais uma vez, encoberta pela névoa da ignorância e da dor, no afã de alívio, envolveu-se em mais um daqueles acontecimentos bárbaros, em que tão triste e paradoxalmente tem estado envolvida desde o alvorecer da sua história? Fiz essas indagações a mim mesmo, muitas vezes sem resposta alguma. Conheci uma face do marxismo nos tempos em que

cursava a faculdade de economia na Universidade Federal de Pernambuco. Conheci as leis da Dialética e os ideais do Marxismo; conheci a Teologia da

Libertação e a sua salvação pela violência

compreendi. Parece-me hoje que aquelas ideias exerciam sobre mim um

Sim, conheci mas nada

estranho fascínio que me levava a buscá-las e a compreendê-las. Mas, incrivelmente, elas pareciam fugir de mim! Creio que alguma coisa afastou- me daquelas ideias. Diria mesmo que “alguma coisa” me livrou do marxismo. Hoje compreendo-o bem. Por esse motivo dispus-me a elaborar este trabalho. Ao longo destas páginas, o leitor algumas vezes se surpreenderá. Outras vezes, poderá até mesmo experimentar sentimento de medo ante a face real do marxismo. Mais ainda se surpreenderá ao perceber o intricado jogo de ideias e emoções que se esconde por trás das palavras do marxismo,

e que são a causa última da sua atração e expansão mundial. Duvidará que

Karl Marx tenha podido elaborar sozinho tal sistema de pensamento, imbuído de nobres intenções e baseado apenas em sua inteligência; que o marxismo apresenta-se como um jogo de promessas de esperança e felicidade e, bem mais que um sistema filosófico, assemelha-se a uma religião. Uma pseudo-religião, com a força de uma religião mais poderosa que o Cristianismo, razão por que o tem confrontado em todo o mundo.

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Notamos que a revolta marxista é muito mais contra a ideia da existência de Deus, do que contra a mística propriamente dita. Haja vista que o marxismo possui uma índole profundamente mística. O marxismo se dispôs contra toda fé em deuses e religiões, mas particularmente, o ataque central é desferido contra o Cristianismo. Saberemos a razão disso neste livro. Há também um incisivo ataque à filosofia idealista alemã, em virtude, principalmente, da filosofia de Fitche, Schelling, Kant e Hegel. Este livro certamente não será uma leitura comum. Creio mesmo que poderá ser uma obra pioneira em alguns aspectos do conteúdo. Durante sua leitura, o leitor encontrará diversas menções à pequena obra do Pastor Richard Wurmbrand Seria Karl Marx um Satanista? * Li e considerei essa obra importante e esclarecdora, porém, um tanto misteriosa pela visão evangélica do Pastor Wurmbrand . Convém notar aqui que as visões teístas atuais mostraram-se historicamente impotentes e incapazes de conter, contrapropor e derrotar o Marxismo, enquanto modo de pensar e de viver. Creio e ressalto porém, que o Cristianismo possui em seu bojo, em latência, as ideias-chaves capazes de verdadeiramente contrapropor e suplantar o Marxismo.Não do modo como atualmente é interpretado e estudado (está provado que nas formas atuais, o Cristianismo tem sido abalado pelo Marxismo. A Teologia da Libertação é o mais gritante exemplo desse fato). O Padre Polonês Dr. Miguel Poradowski, Doutorado em Teologia, Sociologia e Direito em Varsóvia e Roma, professor das Universidades de Valparaíso e Santiago, no Chile, em sua pequena obra: A Gradual Marxistização da Teologia (edições Fortaleza 1975), deixa

claro o fenômeno da fraqueza da Teologia atual. Mostra o padre Miguel como gradualmente, de forma sutil e sem esforço, os comunistas conseguiram se infiltrar e substituir nos estudos teológicos dos seminários, conventos e faculdades, o elemento teológico pelo elemento marxista ateu. Essa é atualmente uma das mais estranhas e chocantes aberrações do século XX. A TFP Sociedade Brasileira para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade fundada pelo professor Plínio Correia de Oliveira em 1960, com a finalidade de combater o que ele chamou de “progresso esquerdista”, que começava a surgir nos meios católicos numa volumosa e excelente

Das quais muito se fala, pouco se conhece. A TFP

obra intitulada As Cebs

as descreve como são. (Editora Vera Cruz 1983), da autoria do Professor Plínio Correia de Oliveira, Gustavo Antônio e Luiz Sérgio Solimeo, analisa

* Todas as citações à obra do Pastor Wurmbrand serão indicadas por dois asteriscos (**).

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e denuncia em detalhes o extraordinário equívoco que alguns setores da

igreja cristã vem levando acabo, no seio das famílias, através das chamadas

“Comunidades Eclesiais de Base Cebs”, que através de uma doutrina marxista vem minando a fé e a ingenuidade pueril da América Latina inteira e, especialmente do Brasil. Esses comentários servem apenas para evidenciar a debilidade da visão do Cristianismo atual frente ao marxismo. Alexandre Soljenítsin afirmou que o “marxismo está condenado a jamais derrotar o Cristianismo.” Diríamos porém, outra coisa, e de outra forma: “o ateísmo está condenado a jamais derrotar a fé.” Por quê? Porque a fé é um impulso espontâneo da natureza espiritual do homem. Mesmo em plena ignorância, os selvagens cultivam atividades místicas. De igual modo, mesmo completamente oprimida, perseguida e proibida, a natureza mística do homem florescerá impreterivelmente. Provando essa assertiva, o Governo Soviético divulgou, no mês de outubro de 1984, artigo sobre o crescimento da fé entre a juventude soviética, e propôs a adoção de novas e mais eficazes medidas no sentido de propagar o ateísmo e combater a

religião. Tal fato ocorreu, note bem, 67 anos após a religião ter sido proibida na União Soviética. È certo que jamais a fé será derrotada, mas as religiões, envoltas em tão grossas camadas de dogmas e mistérios, já estão derrotadas.

A menos que o mundo livre encontre uma ideologia teísta, lógica, com base

científica atual e a implante na educação geral, o marxismo não poderá ser detido. Não poderá? Corrigimos: ele já está sendo detido. Os comunistas dizem que o mundo ocidental não encontrará, a tempo, uma ideologia alternativa superior ao marxismo. Por isso, todo o mundo cairá em suas mãos como um fruto maduro. Lamentamos informar àqueles que por acaso lerem este livro, que o mundo livre já possui esta ideologia e que, em definitivo o marxismo está ideologicamente suplantado pelo Deusismo! Marxistas ou não marxistas, todos os homens são seres espirituais e possuidores de uma natureza mística original. Por esse motivo, o Deusismo está rapidamente se expandindo pelo mundo, porque vai ao encontro da natureza originalmente mística do homem ansioso do século XX, ofertando- lhe aquilo que constitui o seu desejo fundamental: a alegria integral do corpo e do espírito através do amor, da verdade e da paz. Para finalizar essa breve introdução, gostaria de expressar nossas sinceras desculpas por algum desagrado, e dizer que nossa intenção não foi produzir um masterpiece da literatura intelectual, nem esgotar o tema, mas simplesmente desnudar e apontar o veio real de onde brota a força intelectual e emocional do marxismo, e trazer à luz a sua natureza mística.

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Léo Villaverde

São Paulo, 1986

Numa era sem fé, o comunismo emergiu como uma poderosa

anti-fé, a qual torna irrelevante o nosso quadro de referência habitual. Ele não pode ser derrotado militarmente, nem seus

seguidores podem ser induzidos a abandoná-lo. O comunismo somente pode ser derrotado por uma maneira: sendo confrontado ”

David Sutter

Jornalista

com uma ideia melhor

”.

“Há hoje no mundo dois grandes povos: o russo e o anglo-

americano. O primeiro conquista pela espada, nega a liberdade e concentra em um só homem todo o poder. O segundo conquista

pelo

arado,

respeita

a

liberdade

e

descentraliza

o

poder.

Contudo, ambos parecem ter, por desígnio da Providência, os

destinos das duas metades do mundo em suas mãos.”

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PARTE I

Aléxis de Tocqueville Historiador 1835

MARX, O HOMEM E O MÍSTICO

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Capítulo 1

A VIDA DE KARL MARX E A PISICOLOGIA MODERNA

A vida familiar de Marx

Marx nasceu no dia 5 de maio de 1818, numa província chamada Trier , na Alemanha Renana. Foi o segundo filho de uma família judia. Seus pais chamavam-se Heinrich Marx, advogado, e Henriette Pressburg, filha de rabinos judeus. Naturalmente, ambos foram praticantes do judaísmo por quase toda as vidas. Devido a uma ordem que proibia aos judeus a participação na vida pública, o pai de Marx se converteu ao Cristianismo em 1816; em 1824, converteu ao Cristianismo seus sete filhos. Heinrich Marx tinha nessa época 56 anos e Karl Marx, apenas 6 anos. A mãe de Marx relutou em aceitar o Cristianismo e retornou ao judaísmo em 1825, após a morte de Heinrich Marx. Certa vez Freud contou uma das recordações de infância sobre um acontecimento ocorrido com seu pai. Disse-lhe seu pai:

“Quando eu era jovem, passeava um sábado pelas ruas da minha cidade natal, bem vestido e com um chapéu de pele novo. Veio um Cristão,

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jogou o meu chapéu na lama e gritou: “judeu, desça da escada” E o que o senhor fez? perguntou-lhe Freud. “Desci e apanhei meu chapéu.” Esta foi a resposta. Por que citei este acontecimento da vida de Freud? Porque ele teve? Porque ele teve um impacto profundamente significativo na personalidade de Freud. Para ele, seu pai era um símbolo da covardia e da vergonha. Hoje sabemos da importância que os acontecimentos da infância têm sobre o homem na sua vida adulta. A professora doutora Mariana Augusto, diretora do curso de pós- graduação da Escola Superior de Medicina de São Paulo, numa palestra por mim assistida em 1984, enfatizou que:

É durante os três primeiros anos de vida que se formam os elementos básicos que nortearão o caráter e a personalidade do homem durante todo o resto de sua vida” * .

Cremos que, do mesmo modo que Freud, decepcionado com a covardia do gesto de seu pai judeu ante um cristão, Marx também reteve em si traços dos seus primeiros anos de vida em que seu pai, judeu recém- convertido ao Cristianismo, era rejeitado pelos judeus com um apóstata e pelos cristãos como um judeu (para o leitor ter uma ideia de como os judeus eram mal vistos pelos cristãos, principalmente da Alemanha, basta recordar o ressentimento que Hitler despertou no poço alemão na época da Segunda Guerra, Imagine o leitor como eram vistos os judeus por volta de 1830 na Alemanha protestante). Outrossim, devemos observar que, dentro de sua própria casa, Marx deve ter presenciado e ouvido atritos entre seu pai e sua mãe com respeito à sua conversão interesseira ao Cristianismo. Atitude que ela nunca aceitou. Provavelmente, em virtude de sua formação judaica e à sua posição feminina à época desses acontecimentos, Henriette não pôde se opor a impedir que Heinrich Marx levasse consigo para o Cristianismo todos os seus sete filhos. Essa repulsa da mãe de Marx pelo Cristianismo é confirmada pela sua volta imediata ao judaísmo após a morte de Heinrich. Naturalmente ela desejava levar consigo, outra vez de volta para o judaísmo, todos os seus filhos. Parece no entanto, não o ter conseguido, pelo menos com Marx.

O jovem cristão Karl Marx

* A psicologia infantil atual ratifica esse ponto de vista.

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Quando ainda adolescente Marx foi um cristão, como podemos observar na sua primeira obra União dos Fiéis com Cristo:

“Através do amor de Cristo, voltamos nossos corações ao mesmo tempo para nosso irmãos que intimamente são ligados a nós e pelos quais Ele deu-se a Si mesmo em sacrifício. A União com Cristo pode da dignidade interior, conforto na tristeza, tranqüila confiança e um coração susceptível ao amor humano, a tudo que é nobre e grande, não por causa da ambição e glória, mas somente por causa de Cristo.” (Marx e Engls, Obras Escolhidas, 1º vol. International Publishers. New York, 1979)**.

Em seu “Exame de Admissão ao Ginásio” Marx escreveu:

“O homem, o único ser que não atingiu a sua finalidade; o único membro de toda a criação que é indigno do que Deus criou. Mas o Criador benigno não poderia odiar seu trabalho; Ele queria erguer o homem até Ele, e enviou Seu Filho, através do qual proclamou: “Agora estais

purificados pela palavra que vos anunciei

Assim quando em união com

Cristo, um sol mais belo nos apareceu, quando sentimos toda nossa iniqüidade, mas ao mesmo tempo, sentimos regozijo por nossa redenção, podemos pela primeira vez amar a Deus que apareceu previamente e nos

ofereceu direção e aparece agora como Pai bondoso; como um professor gentil.”

Em sua tese doutoral escreveu Considerações de um Jovem na Escolha de sua Carreira:

“A própria religião nos ensina que o Ideal que todos lutam para alcançar, sacrificou a Si mesmo pela humanidade, e quem ousará contradizer tal afirmação? Se escolhemos a posição na qual podemos realizar o máximo por Ele, então não poderemos nunca ser esmagados pelas responsabilidades, porque elas são apenas sacrifícios feitos em favor de todos.”

Vemos dessa forma que Marx nos seus anos de adolescência foi um cristão. Sua fé e seu amor por Jesus Cristo revelado nesses trechos escritos por ele, dão-nos prova de seu apreço pelo Cristianismo e seus ensinamentos altruístas. Podemos notar também nestes textos o fato de que Marx, ainda jovem e cristão, já revelava uma vocação literária que mais tarde produziria os três componentes do marxismo, que analisaremos mais adiante dentro do enfoque que interessa a esta obra.

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Será que Marx sentia orgulho de sua família? Será que ele recordava do pai sem pensar na sua atitude volúvel ante a fé, e nas palavras e atitudes da sua mãe com relação a tudo o que o seu pai era e fazia? Essas amargas lembranças jamais abandonaram Marx, e ele as expressa claramente quando refere-se a seus parentes como veremos mais adiante. Marx conhecia bem o Cristianismo. Ao terminar o ginásio, como está no “Arquivo para a história do socialismo e do movimento dos trabalhadores da Alemanha”, algumas anotações no seu certificado ginasial feitas pela direção da instituição de ensino “Sobre conhecimento religioso:

seu conhecimento da fé e moral cristãs é bastante claro e bem fundamentado. Até certo ponto, conhece também a história da igreja cristã.” Cremos já ter demonstrado que Marx antes de se tornar ateu, foi um cristão.

A psicologia e o papel da família

Vejamos agora alguma das opiniões da psicologia e da psicanálise moderna quanto às influências da família no comportamento. Psicólogos e psicanalistas (tanto ortodoxos quanto aqueles que reconhecem a força das condições culturais na formação do caráter), afirmam que todas as crenças, ações e emoções manifestadas na vida adulta das pessoas têm suas raízes na infância. Até mesmo os adeptos da teoria pavloviana dos reflexos condicionados, e outros estudiosos do processo de aprendizagem e socialização, costumam buscar explicações para o comportamento adulto nos anos mais próximos do nascimento. Todos concordam em que, sem dúvida, certas experiências negativas ou positivas e suas conseqüências no mecanismo mental e emocional da criança são determinantes para a futura formação e integração da personalidade. Este processo pode ocorrer de modo suave e harmonioso que seria o natural ou de modo brusco, marcado por uma forma incomum de a criança responder às exigências do meio físico social em que vive. Muitos fatos significativos e emoções marcantes, principalmente as negativas, são oprimidas e obscurecidas pela criança e vão se alojar em um ponto desconhecido da mente denominado inconsciente; posteriormente contudo, tais acontecimentos dolorosos e reprimidos pela necessidade psíquica (às vezes parecem cair no esquecimento total), manifestam-se através de sofrimentos e desajustes futuros sob as formas de neurose de toda espécie.

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As provas dessas teorias, dizem os cientistas, são alguns hábitos, tendências e sentimentos considerados normais e espontâneos que nos acompanham por toda a vida, tais como comer, falar, estudar, higiene, vestuário, etc. A aprendizagem é um processo básico, pelo qual sos indivíduos vão adquirindo normalmente formas duradouras de comportamentos. Assim, geralmente sob condições favoráveis, todos nós assimilamos hábitos e modos de agir a pensar. Observou-se que há uma tendência nos adultos de esquecerem completamente fatos que lhe causam maior sofrimento e desamparo. Não podemos entretanto, ignorar que todo acontecimento da nossa vida nos despertam sentimentos de gratidão ou rancor. Esses sentimentos podem apresentarse na personalidade adulta sob a forma de doação e abnegação ou sob a forma de egoísmo, ressentimento e vingança. Algumas pessoas apresentam-se cheias de revolta com o que lhes foi ensinado na infância, e que elas serem crianças e temerem os seus educadores, tiveram que lhes obedecer. Tais fatos geram frustrações e sentimentos de humilhação diante da sociedade. E as pessoas adquirem uma postura complexada, vergonhosa e desalentada. Dizem tais estudiosos que quando os pais se amam verdadeiramente, transmite às crianças mais benefícios de que qualquer ensinamento formal. Por outro lado, quando são problemáticos e conflitantes perante os seus filhos, legam-lhes uma má impressão e uma atitude repulsiva e traumatizada diante da família. Durante os primeiros anos da infância, os cuidados e atenções de carinho e amor para com as crianças são de grande importância. Por outro lado, um ambiente familiar cheio de maus tratos e choques entre adultos presenciados pela criança, lhe efeitos emocionais e ela tende a se afastar, se sentir-se marginalizada de tudo o que não gosta de ver e ouvir. Crescendo em um ambiente tempestuoso e cheio de discórdia e agressões, a criança apresentará na vida adulta um comportamento depressivo e ansioso, aliado a uma atitude de medo, revolta e contestação. Outra atitude dos pais é dar aos filhos tudo o que acham que eles necessitam e exigir deles constantemente prestação de contas por tudo o que recebem, através de vivacidade, alegria, limpeza, saúde, obediência e rendimento escolar. Essa atitude mantém a criança sob pressão e medo e pode, no futuro, trazer um resultado completamente oposto ao “planejado” pelos pais. Citei todas assas possibilidades e argumentos para demonstrar que o ambiente familiar de Marx foi em parte responsável por sua atitude diante de Deus, da religião e da humanidade.

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Conviria ainda recordar que a influência que sofremos durante os primeiros anos da nossa existência no seio familiar e, particularmente, a influência de nossa mãe que nos aleita e tem conosco os primeiros, os mais íntimos e carinhosos contatos (em última análise, responsáveis pelo nosso apego inicialmente voltado para ela), fixam-se em nossa memória e marcam decisivamente a nossa personalidade. Aqui poderiam residir as raízes da atitude anticristã de Marx, uma vez que sua mãe sempre se opôs ao Cristianismo. Outrossim, devemos observar que o fato de Marx ter permanecido no Cristianismo até a sua adolescência (foi convertido ao Cristianismo em 1824. Após a morte do pai, sua mãe retornou ao judaísmo. Marx entretanto, como o demonstram os textos que escreveu, permaneceu cristão), revela um outro traço da sua personalidade onde já podemos antever os traços da sua autoconfiança, independência e rebeldia. Por outro lado, a teimosia de Marx em permanecer cristão também poderia significar o grau de influência que as ideias e os ideais cristãos teriam exercido nele. Este faro poderia ser corroborado por outro fato muito curioso relacionado aos líderes marxistas. Trata-se de que, via de regra, os grandes líderes marxistas, antes de se tornarem antirreligiosos e ateus, foram cristãos. Marx e Engels, Lênin e Stálin são os maiores exemplos desse fenômeno. Por esse motivo fomos buscar compreender as raízes de tal fenômeno nas influências da família na personalidade humana. Eis aí um dos pontos onde o freudismo tocou e acertou, pelo menos em parte, sem grandes aberrações.

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Capítulo 2

A ÉPOCA E O AMBIENTE HISTÓRICO DE MARX

Contrapolítico

No ano de 1842, Marx entrou em uma séria disputa com o congresso de Rhein. O congresso havia reformado os estatutos para impedir que os pobres cortassem lenha nos bosques, pretendendo evitar a devastação dos mesmos (convém lembrar que a lenha era, nessa época, uma das principais fontes de energia. Portanto, o corte da lenha nos bosques pelos camponeses lenhadores, devia ser controlado e restrito a certas áreas). A lenha dos bosques era a principal fonte de renda para os camponeses, razão por que Marx abriu a disputa com o congresso. Por esse acontecimento, podemos inferir todo um conjunto de fatores para uma melhor compreensão da personalidade de Karl Marx aos 24 anos de idade. Marx era já um intelectual não-cristão. Como vimos anteriormente, o seu sentimento cristão para com os outros homens era bem acentuado. Assim, a disputa com o

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congresso de Rhein revela-nos o sentimento humanista de Marx (reflexo original da natureza humana e vestígio do Cristianismo) e, face à sua

fraqueza e impossibilidade de disputa contra o governo prussiano e vencer, Marx deve ter ficado profundamente revoltado com o Estado; e como este era composto da classe mais alta da sociedade prussiana, como todos os homens ricos e poderosos da Prússia. Noutra ocasião em que Marx era o editor do jornal Rheinische Zeitung, foi pressionado e censurado pelo governo prussiano e obrigado a renunciar ao jornal. Aqui estava mais uma das causas do ressentimento de Marx contra o Estado. Posteriormente, Marx revela esse ressentimento em sua Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel Introdução, quando declara:

“Guerra à condição germânica! Por todos os meios! Eles estão abaixo do nível da história, abaixo de qualquer crítica, mas mesmo assim, são objetos de crítica, como o crime, que está abaixo do nível da humanidade, é

(o objeto da crítica).Não é para refutar, mas

Seu sentimento essencial é a indignação, sua atividade

também objeto do carrasco

para exterminar

essencial, a denúncia.” Neste trecho da sua obra, Marx revela claramente o incrível ódio que passou a nutrir pelo governo prussiano, motivado pelo seu caráter contestatório.

Contraeconômico

Um fator de significativa importância a cerca de personalidade de Marx foram as circunstâncias históricas que o envolviam na época Marx nasceu em 1818, 19 anos após a deflagração da Revolução industrial na Inglaterra e a Revolução Francesa. Logo ele viveu e cresceu no alvorecer da sociedade liberal, em seu período mais imperfeito e desumano . Em virtude das reformas agrícolas, milhares de camponeses emigravam para as zonas urbanas e se convertiam em assalariados e sub-empregados. Outros caíam em miséria extrema. A exploração dos donos de fábricas para com os homens empobrecidos, mulheres, jovens e crianças, pagando salários baixíssimos (devido ao excesso de mão-de-obra disponível para o número de fábricas) e, por outros lados, elevando o tempo de trabalho para até 16 e 18 horas diárias, onde centenas de crianças trabalhavam, gratuitamente, sob o título de “aprendizes” até o esgotamento, a era escandaloso. A própria região em que Marx nasceu (Renânia) era, então, uma zona altamente industrial. Engels, no seu livro A Situação da Classe Operária na Inglaterra, descreveu a situação da época de Marx nos seguintes termos:

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”.crianças

dos abrigos de menores eram empregadas em quantidade,

alugadas por número determinado de anos aos fabricantes, como

aprendizes. Elas dormiam, eram alimentadas e vestidas em comum. Eram portanto, os escravos dos seus senhores, por quem eram tratadas com a

maior desconsideração e barbarismo

da classe trabalhadora, é especialmente entre esses operários de fabricas, é prova suficiente das condições insalubre nas quais eles passam seus primeiros anos. Essas influencias ocorrem, portanto, entre as crianças que sobrevivem, mas não tão poderosamente como entre as que morrem. O resultado no mais favorável dos casos é uma predisposição para a enfermidade, ou certo atraso no desenvolvimento, e conseqüentemente, saúde e constituição física abaixo do normal.”

A grande mortalidade das crianças

O Dr. Sang Hun Lee, o conhecido teórico do pensamento deusista, em sua já citada obra Comunismo - Crítica e Contraproposta tece um pequeno comentário sobre essa época nos seguintes termos:

.”. nesta primeira fase do sistema liberal de produção foram inventadas muitas maquinas, mas ainda eram muito imperfeitas. Tal equipamento não podia corresponder à procura sempre crescente dos produtos. Daí que, para os donos das fábricas, a solução mais eficaz parecia ser tratar os trabalhadores mais duramente, o que fizeram sem hesitação. Contudo, os efeitos sociais desastrosos repercutiam-se por todas as partes. Onde a miséria se manifestava de modo mais severo era na Inglaterra. Pelos epítetos como eram chamadas as fabricas daqueles tempos, tais como “fábricas de suor”, “Bastilha para os pobres” e “Casa de Terror”, podemos imaginar o tratamento duro e desumano que os trabalhadores recebiam. Os baixos salários, as longas jornadas de trabalho, as tarefas difíceis e as condições insalubres e perigosas eram pouco melhores do que a dos escravos.”

O historiador Harold Perkins diz:

“Em muitas cidades de grande porte da nova era, a angústia era mais concentrada, mais visível, mais clamorosa e, conforme afetava maior número de pessoas descontentes, era mais temida como detonador de explosões revolucionárias do que na antiga sociedade, onde tal condição era menos provável de gerar descontentamento político. Na primeira metade do século XIX cada lapso maior provocava uma onda de protestos políticos e cada crise política coincidia com um período de crise no

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mercado

bairros e subúrbios diferentes, de acordo com a renda e status, o que

Havia

crescente segregação da sociedade urbana nas ruas,

formava classes isoladas e mutuamente hostis.”

Revolucionarismo

Paralelamente a essas circunstâncias deploráveis, a Europa da juventude de Marx estava respirando os ares da recente e vitoriosa Revolução Francesa (naturalmente as barbaridades cometidas pelos revolucionários, durante e após a revolução, eram praticamente desconhecidas). Estava em plena expansão o Liberalismo Clássico. O Feudalismo e o Absolutismo, onde quer que se mantivessem, geravam graves conflitos entre as forças conservadoras e liberais, especialmente na Alemanha. Vemos assim que, no apogeu de sua juventude, Marx estava envolto em uma atmosfera revolucionária por todos

os lados. Ao entrar para a universidade de Berlim em 1835, Marx, igualmente, encontrou o mesmo clima de tensão e conflito ideológico. Especialmente entre os seguidores de Hegel, que haviam se bipartido em hegelianos de direita e de esquerda. Marx, por sua posição humanista e ateísta, e por sua revolta contra o establishment, tornou-se um hegeliano de esquerda. As transformações econômicas, políticas e sociais da primeira metade do século XIX, engendraram uma grande desorganização social e originaram um amplo sofrimento, especialmente para aqueles mais empobrecidos. Recordamos que Marx foi um Cristão e, naturalmente, deveria se questionar quanto ao papel que o Cristianismo deveria assumir, face ao seu grande poder e às circunstâncias históricas que presenciava. Lamentavelmente, para o desencanto e a revolta de Marx, o Cristianismo não levantou a bandeira da justiça e da igualdade que teoricamente tanto ensinava. Pelo contrário, os industriais e latifundiários exploradores eram cristãos e os próprios religiosos eram os mais ricos e poderosos. O Liberalismo Clássico foi uma reação do homem medieval contra a estrutura político-econômica-religiosa, que se tornara um entrave ao avanço do desenvolvimento. Em 1513 e 1517, respectivamente, dois homens tiveram especial importância : Nicolau Maquiavel e Martinho Lutero. Em 1513, Maquiavel escreveu O Príncipe, uma obra de índole ateísta onde separa completamente a religião da política e propõe aos governantes da Itália, à sua época, um método de tomada e conservação do poder sem as “tolices da moral e dos escrúpulos da fé.” Escreveu Maquiavel:

devido à minha intenção de escrever algo útil para aqueles que o

entendam me pareceu mais apropriado ir em busca da verdade eficiente do

Porque há tal abismo entre o como se

assunto, em vez daquilo imaginado

.”

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vive e o como se deveria viver que, quem muda o que está feito por aquilo que deveria fazer, se encaminha mai sà ruína do que à prosperidade; porque o homem que deseja fazer da bondade uma vocação, encontrará sua ruína muitos que não a praticam. Portanto, é necessário para um príncipe que deseje manter sua posição, aprender a nãp ser bom ”

Esse trecho da obra de Maquiavel, juntamente com os seus famosos “Os 10 Mandamentos de Maquiavel” (entre os quais o de que ‘o fim justifica os meios’), nos revela, sem sombras, a natureza da obra maquiavélica, como também a motivação sentimental de Maquiavel ao escrevê-la (caberia lembrar que Maquiavel foi um italiano nacionalista e, à sua época, hordas bárbaras europeias andavam invadindo, conquistando e saqueando porto da Europa). A obra de Maquiavel tornou-se famosa rapidamente e não havia governante ou político que não a possuísse entre seus livros. Ainda hoje, O Príncipe alcança popularidade similar. Aproximadamente na mesma época, em 1517, um outro homem desencadeava uma das mais extraordinárias revoluções religiosas da história: Martinho Lutero. Monge Agostino, Lutero pensou em ajudar a igreja a se do estado deplorável em que estava imersa, escrevendo e publicando as suas famosas 95 Teses Luterana, fixando-as na porta de uma igreja na cidade de Wittenberg. Essa atitude de Lutero revela um outro anseio do homem do século XV, dirigindo para a liberdade religiosa e para a autêntica vida de fé. O Luteranismo provocou um renascimento do pensamento e do ideal cristão originais sintetizados nos 10 Mandamentos da Lei Mosaica. Uma nova e autêntica vida de fé desabrochou e floresceu rapidamente em toda a Europa. Devemos, pois, concluir que essas duas correntes de pensamento surgidas no início do século XVI representaram as bases do liberalismo clássico, que deram seus frutos mais claramente na Revolução Francesa (Maquiavelismo) e no Grande Despertar Germânico (Luteranismo). Marx nasceu e cresceu nessa época da história e precisamente em meio a essas ideias. Primeiramente foi protestante enquanto morava na Alemanha e estudava na universidade de Berlim; posteriormente mudou-se para Paris onde se casou com Jenny Von Westphalem, filha de um aristocrata prussiano; conheceu Engels e sofreu a influencia do clima intelectual parisiense. Essas são, pois, as raízes do pensamento de Marx. Como cristão, Marx.provavelmente teria esperado uma do Cristianismo condizente com o que se ensinava nos púlpitos das igrejas. Tal porém, nunca aconteceu. Marx observou que os cristãos e, o que é pior, os lideres religiosos, eram os ricos e poderosos exploradores. Pior ainda, possuíam uma justificativa para a miserável situação em que vivia a

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grande maioria dos homens: a Predestinação. Reafirmada por Lutero e mais amplamente difundida e utilizada por João Calvino, a Teoria da Predestinação justificava a miséria e a exploração vigentes. O historiador Max Weber na sua obra A ética Protestante e o Espírito do Capitalismo lembra que a Teoria da Predestinação justificativa até mesmo a segregação racial. Alguns homens nasceram para ser ricos e destinados ao céu (ser rico é uma benção divina) e outros à pobreza e ao inferno. Deus é Todo Poderoso e não cai uma folha de uma árvore sem o Seu consentimento. Essa era a ideia vigente, os menos favorecidos deveriam conformar-se à sua condição, haja vista que era a Vontade de Deus (dentro dessa mesma visão, as torturas da Inquisição tinham por justificativa a imposição de castigos físicos para purgar o pecado de alguns hereges, possibilitando-lhe uma chance de salvação). Encontramos hoje uma ideia similar à predestinação na camada Teoria da Reencarnação: uma pessoa é miserável em virtude do “karma” que herdou do seu passado. Portanto, a miséria de cada um é culpa dele mesmo. É perfeitamente justa a sua condição. Essa forma de pensamento nega a injustiça, ignora e inocente as atitudes egoístas e gananciosas dos homens. Necessita, portanto, de uma revisão urgente. Marx analisou a posição do Cristianismo face ao problema social e descobriu esse lamentável erro. Essa constatação o fortaleceu mais nas suas propensões já anti-religiosas. Descobriu, paralelamente, que os ideais originais do Cristianismo estavam sendo defendidos com o risco da própria vida pelos revolucionários franceses. É obvio que Marx sentiu atração pelas ideias do Iluminismo e uma forte repulsa pelo Cristianismo. Numa frase, diríamos que o marxismo nasceu como conseqüência das falhas do Cristianismo e representa tão somente “uma acusação sistematizada contra os erros do Cristianismo e uma contraproposta a ele”

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Capítulo 3

OS AMIGOS DE MARX

Friedrich Engels

Marx não falou muito publicamente sobre religião. Mas poderemos compreender o seu caráter e o seu ponto de vista sobre essa questão,estudando e analisando os homens que seus amigos. O primeiro deles é Engels. Engels nasceu a 28 de setembro de 1820, filho de um próspero fabricante de tecido de algodão. Era uma família cristã. Nos seus tempos de juventude, Engels escreveu belíssimos poemas de índole puramente cristã, como podemos observar no poema que se segue:

1. “Senhor Jesus Cristo, Unigênito filho de Deus, Desça do Teu trono Celestial e salve minha alma para mim.Desça em toda Tua bem-aventurança, luz da

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Santidade de Teu Pai, Conceda que eu possa escolher-te. Adorável, esplêndido, sem magoas

É a alegria com que elevamos a Ti,

Salvador, nosso louvor.

2. quando eu der meu ultimo suspiro,

E

E

tiver de suportar a angustia da morte,

Que eu possa estar seguro de ti;

Para que quando meus olhos de trevas se encherem

E quando meu palpitante coração dor silenciado,

Em ti eu possa morrer. Lá nos céus irá meu espírito louvor teu nome

eternamente,

Desde que em ti permaneça seguro.

3. Oh, quisera eu que se aproximasse aquele tempo feliz; Quando no teu seio de ternura

Possa receber o frescor da nova vida,

E com gratidão a Ti, ó Deus,

Abraçar aqueles que me são queridos, Sim,vivendo para sempre, Contemplando a ti, face a face, Numa vida nova e florescente.

4. Tu vieste para libertar a raça humana da morte e infelicidade

para que pudesse haver bênção e ventura em toda parte

E

então, na tua próxima vinda, tudo será diferente;

E

a cada homem darás a sua parte.”**

Após ter lido um livro do teólogo liberal Bruno Bauer, Engels passou a duvidar da fé cristã. Nesse tempo, escreveu vários trechos que nos dão hoje uma clara visão do drama que se travou em seu intimo e que o conduziu gradualmente ao ateísmo. Vejamos alguns trechos:

Trecho I “Oro todos os dias pela verdade. Na realidade, quase o dia inteiro. E tenho feito isso desde que comecei a duvidar, mas ainda assim, não consigo voltar atrás. As lagrimas estão jorrando dos meus olhos nesse momento em que escrevo.”

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(Citando em Franz Mehring, Karl Marx, G. Allen E Unwin Ltda. Londres, 1936).**

Trecho II “Está escrito: ‘Pedi e dar-se-vos-á’. Eu busco a verdade onde quer tenha esperança de encontrar menos uma sombra dela. Entretanto, não posso reconhecer Sua verdade como a verdade eterna. E contudo, está escrito: ‘Buscai e achareis’. Ou dentre vos é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? Quanto mais vosso Pai que está nos céus. Lágrimas me vêm aos olhos enquanto escrevo. Sou jogado de um lado para outro mas sinto que não ficarei perdido. Eu irei a Deus, por quem toda a minha alma anseia. Este também é um testemunho do Espírito Santo. Com isto eu

O Espírito de Deus me dá

vivo, e com isto eu morro

testemunho de que sou filho de Deus.” (Carta a amigo)**

Trecho III “Desde a terrível Revolução Francesa, um espírito inteiramente novo

e demoníaco entrou em grande parte da humanidade, e o ateísmo

levanta sua audaciosa cabeça de um modo tão desavergonhado e insidioso que se poderia pensar que as profecias das estão agora cumpridas. Vejamos primeiramente o que as escrituras dizem quanto ao ateísmo dos últimos tempos. O Senhor Jesus diz em Mt. 24:11-13: ‘Levantar-se-ão muitos falsos profetas, e enganarão a

muitos. E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor se esfriará se quase todos. Aquele porem, que perseverar até o fim, esse será

E São Paulo diz, em II Tess. 2:3: “Será revelado o homem

da iniqüidade, o filho da perdição, qual se opõe e se levanta contra

E segundo eficácia

Não

há mais indiferença ou frieza em relação ao Senhor. Não, é uma

inimizade aberta, declarada, e no lugar de todos as seitas e

Vemos os

Eles circulam pela Alemanha, e querem

introduzir-se em toda parte; divulgam seus ensinamentos satânicos nas praças e carregam a bandeira do Diabo de uma cidade para outra, seduzindo a pobre juventude, a fim de lançá-la no mais

Venho sem demora. Conserva

salvo

tudo o que se chama Deus, ou objeto de culto

de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios da mentira

partidos, temos agora apenas dois: cristão e anticristãos

falsos profetas entre nós

profundo abismo de inferno e morte

o que Tens, para que ninguém tome e tua coroa. Amém.”

(Marx e Engels, 1 a . edição Crítico-histórica Completa).**

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Esses três trechos dos escritos de Engels, antes de conhecer Marx, revelam um cristão dedicado e um exemplar conhecedor das escrituras. Por outro lado, apresenta a árdua luta de um homem de fé para manter-se fiel às crenças e a impossibilidade que encontrou face a “forças estranhas” e às lógicas do teólogo liberal Bruno Bauer e o que ensinava ele? Vejamos um trecho de seus escritos para termos uma ideia do papel que ele representou na vida de Engels.

Faço conferência aqui na universidade ante uma grande audiência. Não reconheço a mim mesmo, quando pronuncio minhas blasfêmias do púlpito. Elas são tão grandes que esta as crianças, a quem ninguém deveria escandalizar, ficam com os cabelos em pé. Enquanto profiro blasfêmias, lembro-me de como trabalho impiedosamente em casa, escrevendo uma apologia das Sagradas Escrituras e do Apocalipse. De qualquer modo,é um demônio muito cruel que se apossa de mim,

sempre que subo ao púlpito, e eu sou forcado a render-me a ele

espírito de blasfêmia somente será saciado se estiver autorizado a

pregar abertamente como professor do sistema ateísta.”

Meu

Moses Hess, que havia convertido Marx para o comunismo, teve também contado com Engels e, de igual modo, o influenciou. Em uma das suas correspondências, Hess escreveu sobre Engels: “Ele separou-se de mim como um comunista superzeloso. É assim que produzo devastação.”(Moses Hess, Obras Selecionadas, Prublishing House Joseph Melzeer, Cologne,

1962).**

Vimos assim, como, de uma forma estranha, Marx pôde contar com a extraordinária ajuda de Engels durante a sua vida e, como após a sua morte, Engels encarregou-se de publicar o que Marx não havia publicado em vida. em livros como A Dialética da Natureza, A Origem da Família, do Estado e da Propriedade, Engels forneceu grandes contribuições ao pensamento marxista como hoje é visto. Devemos notar também que Engels sempre manteve uma posição de respeito e veneração por Marx; isto, em virtude do estranho domínio que Marx parecia ter sobre ele, como podemos ler nos trechos que se seguem. Após encontrar-se com Marx, Engels escreveu:

“A quem esta perseguindo com esforço selvagem? Um homem negro de Trier, um monstro notável. Não anda, nem corre, salta sobre os calcanhares e se enfurece, cheio de ira como se quisesse

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agarrar a tenda do céu e lançá-la sobre a Terra. Estende os braços no ar; o punho perverso está cerrado, ele se enfurece sem cessar, como se dez mil demônios fossem agarra-lo pelos cabelos.” (Marx e Engels, Obras Selecionadas, em alemão. Volume II suplementar, p. 301)**.

“Não posso negar que antes e durante minha colaboração de quarenta anos com Marx, tive um papel independente na exposição, e especialmente, no desenvolvimento da teoria. Mas a maior parte de seus princípios básicos, especialmente os econômicos e históricos, e sobretudo sua formação penetrante, pertencem a Marx. O que eu contribuí, com exceção desse meu trabalho em algumas matérias, Marx facilmente poderia havê-lo feito sem mim. O que Marx conseguiu, eu nunca poderia havê-lo conseguido”**.

Vejamos agora algumas palavras sobre a esposa de Marx. Jenny Von Westphalem (1814-1881) filha de um aristocrata prussiano. Aqui cabe a observação de que, apesar de defender os pobres e oprimidos e de aparentemente demonstrar profunda e sincera preocupação e amor pelos proletários, Marx quando decidiu casar-se não escolheu um deles. Muitos pelo contrario, casou com a filha de um rico aristocrata prussiano. Quanto à senhora Marx, vejamos algumas das palavras ao seu marido datadas de agosto de 1844, numa correspondência:

A sua última carta pastoral, sumo sacerdote e bispo das almas, novamente transmitiu paz e tranqüilidade às suas pobres ovelhas. (Marx e Engels, Obras Completas, Berlim Oriental 1967).**

Estas estranhas palavras dirigidas ao seu marido ateu, revelam algo como uma veneração, que podemos observar em quase todos os discípulos e amigos de Marx e também, o seu carisma que tão forte influencia sobre todos eles.

Bakhunim

Para conhecermos um pouco da personalidade de Bakhunin, basta analisar alguns trechos de sua obra e saber que ele é considerado o Pai do Anarquismo uma corrente de pensamento que nega toda e qualquer ordem, ideia, instituição ou sistema, e propõe o retorno da humanidade ao

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estágio anterior a qualquer ordem. Crêem os anarquistas que as ideias complicaram por demais a vida do homem. Portanto, é necessário abolir

todas as ideias sobre todos os assuntos e recomeçar tudo outra vez, de uma forma completamente livre de quaisquer restrições. Sem Deus, sem família

Sem absolutamente nada! Noutros termos, Bakhunin propõe a

destruição da própria sociedade humana e volta do ser humano ao barbarismo selvagem das cavernas das matas! Vejamos alguns trechos de seu pensamento. Numa obra intitulada Deus e o Estado, citações dos anarquistas (editada por Paul Berman, Prager Publishers. New York 1972), Bakhunin escreveu:

sem Estado

“Satã é o primeiro livre-pensador e Salvador do mundo. Ele liberta Adão, imprimindo o selo de humanidade e liberdade em sua fronte, Quando o torna desobediente.”

Em outro trecho Bakhunin escreveu:

“Nesta revolução, teremos que despertar o demônio nas pessoas, incitar as paixões mais vis.” (Citado em Dzerjinskii, de R. Gul, “Most” Publishing House, New York em russo).**

Marx era amigo de Bakhunin e foi justamente com ele que fundou a International, que apoiou os planos de Bakhunin para levar a efeito a revolução comunista. Posteriormente, Bakhunin e os anarquistas foram expulsos do movimento comunista porque negavam tudo, inclusive o comunismo. Posteriormente, Bakhunin definiu Marx como:

“o perverso, rixento, vaidosos, tão intolerante e aristocrático com Jeová, o Deus de seu país, e, como ele, insanamente vingativo.” *

Proudhon

* SOUZA, Nelson Mello , A Dialética do Irracionalismo, Ed. Nova Fronteira, SP, 1985, p.

77.

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Vejamos agora alguns trechos de Proudhon:

“Nós alcançamos o conhecimento apesar Dele, alcançamos a sociedade apesar Dele. cada passo à frente é uma vitória na qual derrotamos o Divino.” (Proudhon, Sobre a Justiça de Revolução e da Igreja).

“Deus é estupidez e covardia; Deus é hipocrisia e falsidade; Deus é tirania e pobreza; Deus é o mal. Nos lugares em que inclina-se ante um altar, humanidade, escreva de reis e sacerdotes, será condenada. Eu juro. Deus, com a mão estendida para os céus. Que não és nada mais do que o algoz da minha razão, o espectro da minha consciência Deus é essencialmente anticivilizado, antiliberal, anti-humano.”**

Quando mais tarde Marx se desentendeu com Proudhon e criticou sua obra do livro Filosofia da Miséria. Marx não criticou seus pensamentos e pontos de vista sobre Deus . sequer o mencionou uma única vez. Este fato nos sugere que Marx compartilhava dos mesmos pontos de vista de Proudhon, pelo menos nessa questão. Um fato que pode observar em todos os amigos de Marx da época em questão ele se definia como comunista, é que nenhum deles parece negar a existência de Deus. Todos admitem Deus e a vida eterna, mas combatem-no e o ultrajam desdenhosamente. Com uma infância traumática, uma adolescência e juventude frustrada no seu sonho de poeta e de professor universitário, humilhado pela origem judia, rejeitado no meio cristão que tanto parecia amar, possuidor de uma natureza acentuadamente humanista, perseguindo pelo governo, desiludido pelo comportamento de clero face às injustiças que presenciava, revoltado com os que se diziam cristãos e salvos, e com amigos como Hess, Bakhunin e Proudhon, Marx não poderia ter tido outra direção senão a de cair na revolta e na vingança. Por outro lado, devemos convir que havia nele mesmo, já desde a sua adolescência, uma clara definição para a sua postura antideus. Se tal miséria se abateu sobre ele, naturalmente, tal sucedeu por ele apresentar alguma propensão em sua personalidade para tanto. Se Marx tivesse tido uma familiar regular e se as circunstâncias históricas da época fossem outras, não existindo exploração, miséria ou hipocrisia religiosa, nem a sua alma tivesse sofrido as amargas frustrações que sofreu, talvez a marxismo nunca tivesse vindo a existir. Se, porem, o marxismo, mais que um movimento circunstancial, representar o aparecimento natural da facção que se tem oposto a Deus desde o início da história humana (por exemplo, o

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Maquiavel e o Luteranismo), ele é então uma conseqüência histórica dos fracassos do homem em cumprir os desígnios de Deus; e pelo contrario, se posicionando contra eles, blasfemando e ultrajando a Deus e a tudo quanto a Ele se refere, o marxismo nada mais representa que efeito conseqüente, que o próprio homem teria atraído sobre si, sendo por ele o único responsável. O psicólogo austríaco Wilhelm Reich escreveu um livro chamado O Assassinato de Cristo * (Ed. Martins Fontes 1984), onde desenvolveu analisa a tese de que há a humanidade algo como uma epidemia à rejeição e destruição de tudo que é sagrado. Nessa obra o leitor verá com detalhes o “espírito de ateísmo desavergonhado que se levantou no mundo”, conforme as palavras de Engels após a Revolução Francesa.

Moses Hess

Hess foi o mem mais importante na contraconversão de Marx e especialmente, na sua iniciação no comunismo. Quem foi Moses Hess? Pelas palavras e obras podemos conhecer alguma coisa sobre sua personalidade. Vejamos como Hess via Marx e qual a sua opinião sobre a religião, a política e naturalmente, sobre toda a estrutura social da Idade Média:

“Dr. Marx meu ídolo, que dará o chute final na religião e na política medievais.”**

Hess também teve contado com Engels e, após conhecê-lo escreveu as seguintes palavras, que nos ajudam também a revelar as suas estranhas intenções:

“Ele afastou-se de mim Como um comunista superzeloso. É assim que eu produzo devastação” (Moses Hess, obra Selecionadas, Publishing House, Joseph Melzer, Cologne, 1962).**

Como podemos ver por essas palavras, há alguma coisa verdadeiramente estranha e mística por trás de todos os pensadores,que contractaram com Marx antes da formulação do Marxismo. Como chamar de simples intelectuais homens com ideias tão incomuns?

* Uma obra excepcionalmente estranha na bibliografia de Reich, sabendo-se que ele é considerado o pai da revolução sexual, tendo escrito livros como A Função do Organismo e a Revolução Sexual, entre outros.

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Analisando detalhadamente as palavras dos amigos de Marx, descobrimos as suas opiniões gerais sobre a sociedade humana, sobre Deus e sobre a religião, naturalmente, também estenderemos essa análise para compreendermos o tipo de caráter desses homens como suas opiniões sobre

a ética e a moralidade cristãs. Hess disse: “é assim que eu produzo devastação.” Pode-se esperar sentimentos de amor e bondade de um homem, que de modo tão sério e real, pronuncia semelhante frase? Noutra frase Hess diz “meu ídolo, que dará o chute final na religião e na política medievais.” Daí, pode-se inferir que tais expressões de Hess são os sinais de sua indignação ante as injustiças a corrupção do clero, da burguesia e dos monarcas medievais. Por outro lado, isso é bem verdade. Mas a influencia de Hess sobre Marx e Engels, tornando-os ateus, revelam-nos uma outra face das suas intenções. Por quê? Porque a religião é a essência da unidade da sociedade humana, e Deus já é uma realidade do século XX. Negar a religião, semear devastação negado a ética e moralidade (e creio que Hess o sabia muito bem), não podem ser um sincero humanista. Por outro lado, pelos poemas de Marx, vê-se que ele não formulou o marxismo simplesmente por amor à humanidade, Marx disse nutrir ódio e um profundo desejo de vingança em seu coração, não apenas contra Deus, mas também contra a humanidade! Esse é o grande paradoxo da sua obra. A realidade dos fatos históricos contudo, revelam que os efeitos do marxismo somente trouxeram dor e destruição para a humanidade. Lembremo-nos de que Marx foi um aprendiz de Hess e foi através dele que conheceu o socialismo e se tornou comunista. A corrupção de alguns homens praticantes, ou ex-praticantes de uma religião, não invalida os seus ensinamentos básicos. Devemos observar que foi numa época em que a igreja estava mais corrompida (entre os séculos XII e XVI, surgiram Francisco de Assis, Tomás de Aquino e tantos outros exemplos cristãos). Ainda que em sua mente Hess pensasse estar fazendo algum bem para

a humanidade, incitando o ódio a Deus e à religião, poderia estar enganado e servia como um instrumento utilizado contra Deus e o Homem. Cremos que o leitor poderá por si mesmo deduzir que tipo de sentimentos motivavam os amigos de Marx, e questionar se tais sentimentos poderiam originar as ideias que trarão a paz e a alegria mundiais. Albert A. Harrison, professor do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia, USA, na sua obra A Psicologia como Ciência Social (Editora Cultix/Universidade de São Paulo 1975), ao abordar o tema da agressão, apresenta à página 410, o tópico “A Hipótese da

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Frustação-Agressão.” Vejamos algumas das palavras do professor Harrison, compiladas da sua leitura e análise dos vários pontos de vista dos maiores autores da psicologia atual sobre o assunto.

Grande parte do comportamento humano visa à obtenção de um

Os obstáculos que impedem uma pessoa de

alcançar uma determinada meta, chamam-se ‘frustrações’. Segundo Freud e numerosos psicólogos experimentais (por exemplo, Dollard, Doob, Miller, Mowrer, Sears, 1939), a frustração é a causa da agressão. Quanto maior a frustração, maior a agressão. É de se esperar que a agressão seja dirigida contra a pessoa ou objeto ”

objetivo ou metas

frustrador

Num outro trecho de sua obra, as páginas 412 e 413, Harrison apresenta outro tópico chamado Aprendizagem e Agressão. Vejamos alguns pontos a ser ponderados:

Os atuais teóricos da aprendizagem social moderna, como Bandura (Bandura e Walter, 1939; Bandura, 1969), sugerem que a maior parte das agressões podem ser entendidas em termos de aprendizagem. Assim, a agressão será encorajada quando existem modelos agressivos a imitar e quando as respostas agressivas são recompensadas. Através da imitação e do reforço social (estimulo) aprendemos quando agredir e como agredir.”

Albert A. Harrison, professor do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia, USA. A Psicologia como Ciência Social (A Hipótese da Frustação-Agressão. Pg 410) Cultix/Universidade de São Paulo, 1975.

Relacionando esses trechos da obra do professor Harrison com o marxismo, perceberemos que Marx foi uma criatura frustrada, desde a infância até a maioridade. Por outro lado, pela análise que realizamos a seus amigos (Seus modelos sociais), em sua maioria materialista ateus e revoltosos contra a nobreza, Estado, a Igreja, Marx não poderia apresentar um comportamento social manso e amigável.

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Capítulo 4

AS INFLUÊNCIAS IDEOLÓGICAS

Prometeu

Durante sua vida Marx sofreu profundas influências das circunstâncias históricas dos personagens célebres e das ideias que orbitavam sua época. Dentre elas porém, há um personagem mitológico que desempenhou um papel decisivo no seu pensamento e caráter:Prometeu.

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Conta a lenda * que as divindades primordiais (a primeira geração mítica), criaram os Titãs. Estes, através de Cronos, destronaram os seus antecessores. Posteriormente, Zeus, filho de Cronos, numa sangrenta batalha, elimina a antiga estirpe e coloca os olímpicos no poder. Prometeu era Titã derrotado que, fingindo-se fiel, permaneceu no Olimpo servindo aos deuses, enquanto criava o homem: o ser que iria destronar os deuses olímpicos e satisfazer seu desejo de vingança. O Homem agradou aos deuses, e a deusa da sabedoria, Atena, filha de Zeus, decide ajudar Prometeu e dá aos homens uma taça do néctar divino.agora eles têm uma alma. São homens. Prometeu cria a consciência dos homens ensinando-lhes tudo sobre a natureza. Eles descobrem a ordem, as riquezas da Terra e também sobre si mesmos. Agora os homens podem reinar; conhecem a natureza, conhecem a si mesmos. Trovoes e pesadelos já assustam. Têm cinco sentidos. Uma consciência. Uma vontade. Uma força poderosa Zeus, observando a raça humana percebe que ela com sua sabedoria e seu trabalho, constituem uma perigosa ameaça às divindades. Assim, entendem os deuses que os homens deveriam suplicar ajuda e sacrificar animais aos poderes celestes; caso contrário seriam destruídos. A humanidade se submete, passando a olhar para o céu com temor,

sacrificando animais ao poderoso Olimpo, implorando perdão e graça, entre cantos e murmúrios. Criaram pomposos rituais, cultos e vestimentas

Os deuses estão satisfeitos. (A raça humana, inteligente e

especiais

trabalhadora, aprenderá também o dom da humildade). Prometeu, entretanto, sempre nutriu um profundo ódio pelos deuses olímpicos que derrotaram os Titãs. Agora que os deuses julgavam ter conquistado o respeito dos homens mortais, surge o momento da vingança:

os homens serão mais inteligentes que os deuses. E haverão de derrota-los. Prometeu, o filho de Iápeto, havia criado os homens. Dera-lhes forma física, consciência, conhecimentos e vontade de dominar a natureza. Havia uma única coisa que eles ainda no possuíam: o fogo. Zeus, temendo-os, proíbe que esse fogo lhes seja “conhecido.” Prometeu, seguindo seu plano de vingança, decide entregar o fogo aos homens. Quebra um ramo seco de árvore, voa até o céu o acende no calor do Carro do Sol, acendendo a chama dos homens. Agora eles, de fato, em muito pouco diferem dos deuses.

* Mitologia, Abril Cultural, 1973, p. 305 a 320. Vol.II

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Zeus percebe que os homens tornam-se poderosos. Não precisam de mais nada, além do próprio esforço. Tem fé nas próprias mãos. Na própria luta. Já não precisam invocar a proteção dos deuses. O orgulhoso Prometeu observa suas criaturas. Elas são inteligentes, ricas e fortes. Constituem uma grande ameaça aos deuses olímpicos. Podem até mesmo impor ao mundo uma nova ordem, a Ordem Humana, sobrepujando os filhos e irmãos de Zeus. Os deuses discutem apavorados como prevalecer sobre os homens, tornando-os submissos e humildes. Eles não devem vencer os deuses. Zeus chama então Vulcano, e ordena-lhe que confeccione uma imagem feminina em bronze. Uma imagem que fosse semelhante aos homens, mas em alguma coisa diferente deles. Ela deveria encantar e comover, atrasando- lhes o trabalho e transtornando-lhes a alma. Cada deus oferece alguma coisa àquela criatura, que já nasce para desconcertar a vida dos mortais. Minerva lhe oferece um vestido bordado e uma grinalda de flores para os cabelos; Mercúrio a presenteia com a língua. Apolo lhe oferece uma voz suave. Finalmente Vênus oferece-lhe a beleza infinita e os encantos que seriam fatais aos indefesos homens. A linda Pandora está pronta para a sua missão destrutiva. Por último, Zeus lhe entrega uma caixa contendo as misérias destinadas a assolarem os mortais. Dores e pestes para enfraquecer-lhes o corpo; inveja e vingança para desesperar-lhes a alma, antes pura e solidária. Chegando à Terra, Pandora encontra Epimeteu e o encanta, oferecendo-lhe a perigosa caixa, como um presente de Zeus. Epimeteu não desconfia que todo sofrimento humano emergiria dali. E sob o encantamento de Pandora esquece o juramento feito ao irmão Prometeu, de jamais aceitar presente algum de Zeus. Agradece e abre a caixa. E delas saem todas as desgraças do mundo. Entretanto, no fundo da caixa havia um tesouro. Um sentimento precioso que poderia reverter todo o plano cruel dos deuses: a esperança. Mas Pandora fecha a caixa imediatamente a um só gesto de Zeus. A esperança é negada para sempre aos homens. E o homem perde o paraíso que Prometeu lhe havia ofertado. Violência, fome e peste se espalham pelo mundo. Os homens adoecem e o amor vira corrupção, agonia e brutalidade. Já não erguem o rosto com orgulho. Tudo se transformou em um inútil festim. Os deuses estão contentes agora. Os homens não tentam mais sobrepujá-los e toleram a escravidão.

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Restava ainda punir Prometeu que, além de roubar o fogo divino, havia ridicularizado o grande Zeus, oferecendo-lhe ossos sem carne alguma, enquanto rejubilava-se ante a cólera dos deuses. Zeus ordena a Vulcano que agrilhoe Prometeu no cimo do monte Cáucaso. Depois envia uma águia gigante e faminta para devorar-lhe o fígado, agora transformando em imortal. Um suplício quase esterno, onde durante o dia, a águia estraçalha o fígado, o qual volta a recompor-se à noite, para ser outra vez retalhado pela águia. Foram trinta séculos de dor. Mas Prometeu dirigiu palavras de impudência a Zeus. Afirmava conhecer um segredo de Zeus e que somente o revelaria se fosse libertado. Trinta séculos de curiosidade e irritação fizeram com que Zeus, subornado, ordenasse a Hércules a liberação de Prometeu. O protetor dos homens será salvo pelos mais forte dos homens. Hércules flecha a águia maldita e liberta Prometeu. Então o Titã revela

o segredo: Zeus estava apaixonado por Tétis, uma nereida que estava prometida a Peleu, mas Zeus, enciumado e violento, não queria permitir que sua amada desposasse um homem. Prometeu diz-lhe então que se ele desposasse Tétis, teria com ela um filho que mais tarde o destronaria. Para conservar o poder, Zeus amedrontado, entrega a bela nereida a Peleu. Prometeu quer voltar ao Olimpo. Mas depois de tudo o que fizera, tornara-se mortal. Se pudesse encontrar um imortal que aceitasse trocar de fardo com ele, então poderia retornar ao Olimpo. O centauro Quirão aceita. Prometeu torna-se imortal, é readmitindo no Olimpo, de onde saíra para rebelar a humanidade contra os deuses. Volta a tomar parte das assembleias e dos banquetes. O mundo esta em paz novamente.

O Gênesis e o mito de Promete

Bem, agora vamos analisar o mito. Fiz questão de sintetizá-lo na íntrega para que o leitor possa perceber com maior clareza a semelhança com as

narrativas bíblicas e ao mesmo tempo, sua notável diferença quanto à visão

da divindade. O mito de Prometeu subdivide-se em três partes:

a) a criação do ser consciente e o roubo do fogo por Prometeu,

b) a sedução dos homens pela mulher Pandora e o aparecimento das

misérias humanas;

c) a punição de Prometeu e retorno ao Olimpo.

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Do mesmo modo, o Gênesis subdivide-se em três partes, incrivelmente semelhantes às divisões do mito de Prometeu. Vejamos:

a) a criação do universo e do homem e roubo do fruto de Lúcifer,

b) a sedução do homem pela mulher. Eva, e o aparecimento das misérias do

homem;

c) a punição de Lúcifer e sua restauração. *

Prosseguindo com nossa analogia, traçaremos um quadro comparativo dos elementos contidos em Gênesis e no mito de Prometeu, destacando suas diferentes visões da divindade.

O LIVRO DE GÊNESIS

Deus criou os anjos

Deus criou o universo e a vida

Deus criou o homem e a mulher

O arcanjo Lúcifer rouba o fruto proibido e dá ao homem

Deus

arcanjo Lúcifer

pune

os

homens

e

o

O arcanjo Lúcifer é derrotado

por

mundo

ao

Deus

e

a

paz

volta

O MITO DE PROMETEU

As divindades primordiais criaram os Titãs

As divindades primordiais criaram o Universo e a vida

Prometeu o deus construtor dos homens junto com outras divindades deram vida à criatura humana

Prometeu rouba o fogo proibido e o entrega ao homem

Os

Prometeu

deuses

punem

os

homens

e

Prometeu “derrota” * os deuses e paz volta ao mundo

* No século III era cristã, um teólogo chamado Orígenes, defendia a teoria da Apocatástase. Ou seja, a teoria de que o Universo seria resultado ao seu estado original, inclusive os

anjos. O Livro do Apocalipse fala da restauração de rodas as coisas.

* Na verdade, com sua atitude de inquietação e velada rebeldia, Prometeu, ainda que punido, consegue por fim reafirmar-se diante dos deuses, livrar-se da condenação, resgatando a imortalidade.

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Deus criou o homem com o barro da Terra

Deus inspira no rosto do homem um sopro de vida e ele se torna um ser eterno

Prometeu criou o homem co argila e as próprias lágrimas

Atena, a filha de Zeus, traz o néctar divino para os homens beberem. Eles passam a ter uma alma.

Neste sete pontos descritos, podemos perceber algumas das semelhanças básicas entre o Livro do Gênesis e o Mito de Prometeu, uma das suas marcantes diferenças: Prometeu criou os corpos físicos dos homens e derrotou os deuses! Ou seja, Prometeu ocupa lugar de Zeus (quando cria o homem) e ainda chega a derrota-lo quando o suborna e volta ao Olimpo. Uma característica inconteste do mito de Prometeu em relação ao Gênesis, é que aquele denigre os deuses atribuindo-lhes uma natureza perversa e culpando-os por todas as misérias humanas. Enquanto este apresenta Deus como um ser de amor e bondade, que luta para trazer a paz e felicidade entre os homens. Façamos mais uma analogia a fim de se evidenciar este ponto.

VISÃO DA DIVINDADE

NO LIVRO DO GÊNESIS

Deus cria o Universo e oferta aos homens para a sua felicidade

Deus cria a mulher para a felicidade humana

Os homens herdam de Deus o poder sobre o Universo

Deus, através de seus mensageiros

VISAO DA DIVINDADE NO MITO DE PROMETEU

Prometeu cria os homens e os “instrui” no domínio da Terra e na rebelião contra os deuses, libertando- os da escravidão

Os deuses criam desgraça humana

a mulher

para a

Os homens devem pela violência tomar dos deuses o poder sobre o Universo (que havia sido usurpado pelos olímpicos)

Os

deuses,

através

de

Pandora,

envia paz

e

felicidade para a

enviam

guerra

e

miséria

para

a

humanidade

humanidade

 

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Deus é origem de todo o Bem. Os homens tornaram-se maus. Deus deve ser amado e obedecido

Deus é impoluto e incorruptível

Deus é o Pai do amor dos homens e o anjo Lúcifer é um cruel escravizador

Os deuses são origem de todo o Mal. Os homens são bons. Os deuses devem ser odiados e desobedecidos

Os deuses são corruptos e impuros (envolvem-se em orgias e banquetes)

Os deuses são os escravizadores dos homens. O titã Prometeu é o amoroso protetor deles

Deus foi justo quando puniu o anjo

Os

deuses

foram

injustos

quando

Lúcifer e a humanidade

puniram

a

humanidade

e

o

titã

Prometeu

Deus é poderoso e vence o anjo mau

Prometeu

é

poderoso

e

vence

os

que escraviza os homens

deuses

maus que

escravizaram

os

homens

Ao estudar o mito de Prometeu percebi que ele representa muito mais que uma simples história fantasiosa da mitologia grega * . Na verdade, o mito de Prometeu é uma narrativa da história do Universo e do homem, quase que exatamente paralela à história do Universo e do homem descritas no livro do Gênesis. Na Bíblia, o Livro de Gênesis é o mais importante porque contém a narrativa da origem universal, humana, e das causas da miséria do homem. Por isso, ele representa a espinha dorsal do corpo bíblico: a estrutura óssea sobre a qual os nervos e os músculos distribuem-se funcionalmente. De fato, todos os outros demais livros bíblicos não passam de histórias biográficas paralelas ao eixo central, intima e logicamente relacionada, que decorrem dos acontecimentos do Gênesis. Quanto à divisão, o Gênesis está dividido em três partes: a) história da Criação (Deus

* Ao estudar a obra de Freud um detalhe chamou-me sobremaneira a atenção: a constância com a qual ele lançou mão da mitologia grega. Anteriormente havia observado que os mitos gregos foram também utilizados por muitos outros pensadores ateus, entre os quais, o próprio Marx. Este fato intrigou-me a tal ponto que resolvi empreender uma pesquisa mais prolongada da qual resultaram as teses parcialmente aqui apresentadas, e que poderão conduzir o estudo da mitologia a uma revisão de suas premissas e a uma nova visão da mitologia grega e, quiçá, da mitologia universal.

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cria o Universo e o homem); b) a Queda do Homem (o arcanjo Lúcifer rouba o fruto proibido e dá aos homens); c) a história da Salvação ou a história da Restauração (Deus trabalha para salvar o homem). Todos os outros livros posteriores ao Gênesis, inclusive o Novo Testamento. São decorrentes; estão relacionados apenas com a terceira parte do Livro do Gênesis história da Restauração. Do mesmo modo que o Gênesis, o mito de Prometeu também possui uma tripla divisão: a) história da Criação pelas divindades primordiais que

criam os elementos da natureza e os titãs (Prometeu cria * o corpo físico do homem e os deuses, a alma); b) a Queda do Homem (os deuses criam e enviam a mulher para destruir a paz entre os homens). Prometeu rouba o fogo dos deuses e o entrega aos homens para que se libertem dos deuses); c)

a história da Salvação ou a história da Restauração (Prometeu se sacrifica

para liberta os homens, suprimindo os cultos e derrotando os deuses maus).

A mitologia grega assemelha-se de tal forma à historiografia hebraica, que possui até mesmo uma narrativa do Dilúvio Universal. Porém, mais uma vez, os deuses são cruéis e Prometeu bondoso. Diz o mito que os homens cometiam tantos males contra os deuses que

o próprio Zeus decidiu enviar um grande dilúvio e exterminá-los. Prometeu, conhecendo os planos cruéis dos deuses, correu a avisar Deucalião e sua

esposa Pirra as desgraças que vieram. Ensinou-os fazer uma arca de madeira para ele, sua esposa e os mantimentos. Foram nove dias de chuvas. A arca encalha sobre o monte Parnaso; Deucalião e Pirra sobrevivem e dão origem

a uma nova raça humana. Nesse mito, prometeu é o herói salvador de

Deucalião e Pirra, sua esposa. Uma vez que ambos são os pais da nova humanidade, prometeu emerge como o salvador da própria raça humana. Prometeu tem decisiva participação não só no mito que envolve o seu nome, mas também em outras passagens, como no coso de Deucalião e Pirra, já citado.

* Até mesmo os titãs foram criados pelas divindades primordiais. Prometeu é em titã derrotado pelos deuses olímpicos (algo como um anjo ou um semideus) que criou os homens para se vingar dos deuses. Note-se porém,que a alma dos homens foi dada pelos deuses, a mulher foi criada por eles, como também todos os seres na natureza; ou seja, os deuses criaram tudo (até mesmo Prometeu). Por esse prisma, a narrativa mítica de que Prometeu criou o corpo físico do homem e lhe inspirou a consciência par que se liberta-se dos deuses, poderia ser perfeitamente entendida da seguinte forma:Prometeu adquiriu domínio físico sobre os homens, ensinou-lhes a leis da natureza e lhes incutiu uma consciência rebelde e ingrata contra os deuses, transformando-os em instrumentos de sua vingança.

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Este fato indica que a mitologia grega pode ser vista como uma única história a história da origem e da formação do povo e da cultura helênica , onde Prometeu, acompanhando o seu desenvolvimento, atua em diversas passagens. Também nesse ponto, o mito de Prometeu assemelha-se à história do arcanjo Lúcifer que acompanha a atua ao longo de toda a história do desenvolvimento da esfera cultural hebraica (ou juidaico-cristã). Concluímos, cremos ter demonstrado a partir do que dói exposto que o mito de Prometeu possui um significado oculto mais profundo que uma mera fantasia da mente perigosa dos helênicos. Se a mitologia grega de fato corresponder a um paralelo da historiografia, suas implicações na história humana tornar-se-ão muito mais amplas e profundas. Do mesmo modo, as motivações de Marx, ao se identificar com Prometeu a ponto de se auto-retratar preso a uma máquina de imprensa sendo atacado por uma águia, e defender Prometeu como o “primeiro santo e mártir do calendário filosófico”, ganham uma impressionante conotação mística * . Estudando o mito de Prometeu para escrever este capítulo, fiquei bastante impressionado com a semelhança entre o comportamento de Prometeu e Marx. Ao analisar a sociedade da sua época, Marx sentiu profunda revolta contra todos os homens poderosos; especialmente os religiosos. Estes, para ele, eram os mentores da injustiça que presenciava. A hipocrisia e a vida nababesca dos lideres religiosos, forneciam um quadro contrastante com a desoladora situação das massas proletárias. Marx sentiu profunda revolta e desprezo por aqueles falsos religiosos e generalizou sua revolta contra todas as religiões, todos os religiosos, contra todos sos deuses do mesmo modo que Prometeu, ao olhar para os homens submissos e humilhados. Quando os deuses viram os homens se desenvolvendo, ficaram temerosos e os ameaçaram de destruição caso não se submetessem a eles e não lhes prestassem culto e serviços. Prometeu, vendo o estado humilhante dos homens, decidiu roubar o fogo dos deuses e dá-lo à humanidade para que se libertasse do julgo divino. De modo semelhante, ao ver o estado deplorável dos proletários sob as injustiças dos capitalistas e o jugo dos falsos religiosos, Marx decidiu desafiar a Deus a libertar os proletários. Os sentimentos de Prometeu e de

* Evidentemente, esta analogia está incompleta. Mas o foco central dessa obra não é a mitologia, mas a semelhança entre o comportamento de Prometeu e Marx.

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Marx podem ser observados hoje nas palavras e nos atos comunistas militantes, que doam a própria vida em defesa dos proletários. Quem estudar o mito de Prometeu de modo parcial não poderá deixar se sentir uma certa piedade de Prometeu e revolta contra Zeus. As razões parecem óbvias: Zeus era o Deus poderoso; prometeu, apenas um titã derrotado. Segundo: o erro de Prometeu foi amar e preocupar-se com os homens aponto de sacrificar a si mesmo para que eles pudessem viver bem e em paz. Como isso pôde ser considerado um crime contra os deuses? Terceiro: Prometeu dera aos homens algo bom de que necessitavam e que os deuses lhe negaram. O mito de Prometeu assemelha-se de forma muito particular à história da serpente bíblica (o arcanjo Lúcifer). Aparentemente, tudo o que a serpente fez foi induzir os seres humanos a comerem do fruto que desejavam. Entretanto, isso foi a bastante par que Deus , enfurecido, a condenasse a andar se arrastando sobre o próprio ventre e a comer pó todos os dias de sua existência. Uma condenação severíssima. Até aqui questionamos a aparecimento argumentos favoráveis a Prometeu. Os deuses, vistos desse modo unilateral, emergem como cruéis tiranos; enquanto Prometeu e os homens, como seres indefesos e bondosos castigados pela ira olímpica.

Tradição x Sucessão

Analisaremos aqui a questão quanto ao modo como a mitologia grega e a historiografia hebraica concebem a sucessão do poder. Na tradição hebraica, os descendentes herdam dos antepassados suas riquezas e posições pacificamente. Na tradição grega, os descendentes rebelam-se e roubam suas riquezas e posições violentamente. Em outros termos: na tradição hebraica os mais velhos legam aos mais jovens tudo o que herdaram de seus antecessores, somado com o que conseguiram por seus esforços pessoais. Já na tradição grega, os mais jovens roubam dos mais velhos o que eles haviam roubado de seus antecessores. Conta a mitologia grega que as divindades primordiais criam os titãs. Um titã chamado Cronos provoca uma rebelião e destrona as divindades primordiais. Zeus, filho de Cronos, ocasiona uma nova rebelião e destrona seus predecessores. Agora os homens, como filhos de Prometeu e dos deuses, deverão se rebelar e derrubar os olímpicos do poder. Nestes termos,

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o mito de Prometeu apresenta a rebelião violenta como ordem natural de sucessão * .

Por sua vez, as escrituras hebraicas dizem que com amor e sacrifício Deus criou o Universo e o doou aos homens para que fossem felizes e, com

a felicidade dos homens, Deus sentir-se-ia feliz. Dessa forma, o casal

primário (ao qual a Bíblia chama de Adão e Eva), legaria aos descendentes tudo o que ganharam de Deus, somado aos frutos de seus esforços, e assim por diante. De acordo com essa tradição, os mais jovens retornariam aos mais velhos respeitosa gratidão. Portanto, a tradição hebraica apresenta a doação e gratidão como a ordem natural da sucessão. Poderíamos então dizer que o Hebraísmo e o Helenismo apresentam a questão da sucessão de modo radicalmente oposto: gratidão vs rebelião.

O castigo justificado

Procederemos agora à análise imparcial da questão Zeus Prometeu. Tudo vai depender do modo como aceitamos a questão da sucessão (eis porque a discutimos anteriormente). Se abraçarmos a visão grega, Prometeu agiu corretamente e o castigo dos deuses foi injusto. Logo, os deuses são cruéis. Se defendermos a visão hebraica. Prometeu foi um rebelde ingrato e perigosamente ousado. O castigo que recebeu foi justo e os deuses não são cruéis.

a) Prometeu pertencia à estirpe dos titãs que haviam destronado as

divindades primordiais. Se os deuses olímpicos destronaram os titãs, não

realizaram nada diferentes; fizeram o que mesmos haviam feito aos seus antecessores. Portanto, os deuses olímpicos não são piores do que os titãs, ambos são agressores. Sendo assim, Prometeu não é uma vítima inocente dos deuses. Por defender a tradição hebraica, tecerei alguns comentários sobre o ato de Prometeu com o propósito de evidenciar o equívoco de Marx ao adotar prometeu como modelo e ao assumir a mesma postura que ele.

b) O simples fato de ele conspirar contra os deuses não significou um

mal em si. Mas o seu ato de roubar o fogo dos deuses, este sim pôs em perigo a sobrevivência dos deuses. A partir daí, a reação olímpica foi

conseqüência da agressão sofrida. Logo, Prometeu é o responsável único e direto por tudo o que aconteceu aos homens e a si mesmo.

c) Se o castigo dos deuses tivesse recaído apenas sobre Prometeu,

considerando que não era melhor que os deuses olímpicos e que foi o único

* Marx e Prometeu se assemelham-se muito.

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responsável pelas misérias que lhes ocorreu, poderíamos admitir que seu ato não o tornou pior que os olímpicos. Mas sabendo que ele, incutindo no homem uma consciência rebelde, causou imenso sofrimento à humanidade (que era inocente, e nada tinha a ver com a guerra dos deuses), podemos seguramente afirmar que Prometeu tornou-se pior do que Zeus. Ou seja, Zeus havia destronado os titãs que estavam no poder. Mas os titãs, incluindo Prometeu, haviam destronado as divindades primordiais, e Prometeu havia causado grande sofrimento contra estirpe dos titãs, Prometeu cometera duas:

quando tomou parte da agressão contra as divindades primordiais, e provocou a miséria humana. Conclusão: Prometeu é culpado e seu castigo foi merecido. Aplicando essa analogia com relação aos comunistas, devemos recordar que por mais justas que possam parecer suas acusações, seus métodos violentos e criminosos não os fazem melhores que os capitalistas. Do mesmo modo que Prometeu, os comunistas enganam os povos ignorantes os conduzem para a morte, aos milhões. Logo, tornam-se piores que aqueles a quem tanto acusam. Se os capitalistas exploram o trabalho dos proletários, os comunistas assassinam os capitalistas os proletários igualmente, além de explorá-los como nenhum capitalista talvez tivesse feito.

Conclusão: os comunistas tornaram-se mais cruéis e injustos que os capitalistas. Marx e o marxismo trouxeram sobre a humanidade uma miséria sobejamente maior do que o capitalismo. Poderíamos, resguardando certos limites, estender a analogia Zeus- Prometeu, àquela descrita no Gênesis Deus-Lúcifer. Lúcifer, simbolizando pela serpente, violou as normas de Deus quando colheu o fruto e o deu aos homens. Só que, diferentemente de Zeus que havia destronado os titãs - o

Deus do Gênesis nada havia feito contra Lúcifer. Neste caso, lúcifer é ainda mais culpado que Prometeu pelas misérias que se abateram sobre ele mesmo

e

sobre a humanidade. Queima os dedos aquele que sabe que o fogo é quente e mesmo assim

o

toca. O fruto caíra naturalmente quando estiver maduro. Não é sinal de

bondade nem de inteligência comê-lo verde. Quem assim o fizer não gostara de seu sabor amargo e não poderá acusar pelo seu infortúnio, uma vez que tal lhe adveio da sua livre e consciente violação das leis da natureza. Conclusão final: Prometeu é culpado; Lúcifer é culpado. Zeus agrediu um agressor, Deus puniu um infrator. Discorri longamente sobre o tema Prometeu, porque considerei-o de relevante importância. Marx, ainda que não o soubesse, identificou-se a tal ponto com Prometeu que, a época em que era editor da Reinische Zeitung

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(Gazeta Renana), chegou a se auto-retratar acorrentado a uma máquina de imprensa, com fígado sendo estraçalhado por uma imensa águia. Essa auto- identificaçao com Prometeu também foi claramente demonstrada em seus escritos, especialmente em um trecho de sua tese doutoral, escrita em 1841. Marx escreveu:

“A filosofia não oculta suas intenções, faz sua profissão de fé de Prometeu: ‘Em uma só palavra, ódio a todos os deuses! Nesta expressão, a filosofia se opõe a todos os deuses do Céu e da Terra que não reconhecem a consciência humana como a suprema deidade. A filosofia não aceita rivais. Mas ás tristes sereias que se rebolam em sua situação social, o filosofia, chegando o momento, dá a mesma resposta que Prometeu deu a Hermes, o servente dos deuses: “Podes estar certo de que jamais trocarei meu destino miserável pelo teu; e dou mais importância em estar acorrentado a esta rocha, que a ser o fiel criado e mensageiro de Zeus, o Pai.” No Calendário filosófico, Prometeu ocupa a primeiro posto entre os santos e mártires.” Karl Marx. Tese de Doutorado, 1841.

Vimos anteriormente, que Marx em sua juventude foi um cristão. O que teria provocado a sua teria provocando a sua rebelião contra Deus e Religião? A resposta não pode ser simplista. Destacaremos dois tipos de razoes: as externas e as internas. Dentre a que poderíamos chamar de razão interna inicial, está a frustração. Marx era um poeta medíocre e um professor universitário frustrado. De modo semelhante. Hitler foi também um pintor frustrado e Antonio Saliere, um músico frustrado e medíocre; Goebbles e Rosemberg, um dramaturgo e um filósofo frustrados, respectivamente. Marx, como Prometeu era impotente diante da força de Deus. Fato este que mais ainda o revoltava. Como uma criança, cujo pai lhe negara o doce e a quem ela tentar atirar ao chão inutilmente e, irada, chega e perder as forças e a voz. Quanto ás razões internas, muitos biógrafos de Marx são unânimes em apontar, com estranheza, a rapidez como Marx passou de um jovem e ardoroso cristão a um sádico e revoltado ateu. Argumentam que a apostasia normal não poderia ocorrer de forma tão súbita. Entre os 16 e 17 anos, Marx era um ardoroso cristão: aos 18 era um arrogante e agressivo ateu. Os biógrafos sugerem que Marx pode ter sofrido uma poderosa contraconversão, algo como um arrebatamento súbito e misterioso da fé para o ateísmo. A história registrou diversos casos similares. Aqui, portanto, estaria a razão interna da rebelião de Marx contra Deus e a religião. Os sentimentos, como as lembranças da infância, permanecem. Por vezes, uma lembrança de infância torna-se um trauma que

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influência inconscientemente o comportamento de um adulto por toda a sua existência.

Marx tinha, pois, motivos de sobra para sua frustração e revolta contra Deus, as religiões, os religiosos, os governos, os capitalistas e todo aquele que se opunha a ele. Nos poemas de Marx Oração de um Homem Desesperado e Orgulho Humano, a suplica suprema do homem é para sua própria grandeza. Se o homem está condenado a perecer através da sua grandeza, esta será uma catástrofe cósmica, mas ele morrerá como um ser divino, pranteado por demônios. A balada de Marx, O Violinista, registra as queixas do artista contra

um deus que nem conhece nem respeita sua arte

Ao final do poema, “O

menestrel puxa a espada e a enterra na alma do poeta.” (Trecho citado por R. Wurmbrand)**.

Prometeu disse a Hermes:

“Jamais trocarei o meu destino miserável pelo teu; e dou mais importância em estar acorrentando a esta rocha que ser o fiel criado e mensageiro de Zeus, o Pai.”

Marx escreveu em seu poema Invocação de Alguém em Desespero:

“Assim um deus tirou mim tudo, na maldição e suplicio do destino, todos os meus mundos foram-se, sem retorno! Nada me restou a não ser a vingança!” Tanto Marx quanto Prometeu reconheceram a sua situação e o seu futuro miserável, e ainda o preferiam. Marx se identificou e solidarizou-se com Prometeu, assumindo a mesma postura diante do céu e da terra. Dessa forma vemos que a influência de Prometeu, no pensamento e no comportamento de Marx, foi mais que decisiva: profundamente mística.

A origem das ideologias atuais

O historiador Arnold Toynbee em sua famosa obra Um Estado da História, confirmou, com base arqueológica, a existência real da civilização minoana. Há 4.000 anos, viveu na região da Hélade (região do Mediterrâneo), na ilha de Creta, o rei Minos, que deu origem à civilização minoana ou helênica. A civilização helênica caracterizou-se como uma cultura de índole humanista, racionalista, horizontalista e temporal; que enaltece a ética social, razão e a estética. Por outro lado, aproximadamente no mesmo período,surgia na Ásia Ocidental a chamada civilização hebraica, com um caldeu chamado Abraão,

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originando a esfera cultural judaico-cristã, a qual enalteceu a fé, a moral e o coração.

O mito de Prometeu surgiu na Grécia Antiga. A postura humanista e

antideusista de Prometeu veio a conquistar-se, ao longo da história, em uma

forma de pensar e de viver tal, que originou a filosofia humanista materialista. Essa mesma postura foi retomada e revivida em 1513 por Maquiavel cujas ideias inspiraram o Iluminismo e Revolução Francesa. Marx, assumindo a mesma postura com a mesma base histórico- ideologica, elaborou o Marxismo, ocasionando a Revolução Comunista. Por sua vez, Abraão representa o outro lado da história do

pensamento humano. Sua postura humanista e deusista deu origem à esfera cultural judaico-cristã, determinando uma forma específica de pensar e agir pacifista e teísta.

O mundo atual acha-se dividido em dois blocos: o comunista e o

democrata. O comunista representa ao lado antideusista, nascido com Prometeu (razão pela qual Marx projetou-se tão fielmente nele). O outro bloco representa o lado deusista nascido com Abraão. Prometeu violou os princípios de Zeus e rompeu com Ele. Abraão obedeceu aos princípios de Deus e uniu-se a Ele. Prometeu e Abraão eram opostos. Identificando- se solidarizando-se com Prometeu, Marx assumiu a mesma postura, violando os princípios de Deus e rompendo com Ele. Jesus obedeceu e respeitou os princípios de Deus, unindo-se a Ele. Marx e Jesus eram também opostos. Richard Wurmbrand, no seu livro Cristão em Cadeias Comunistas (ed. Voz dos Mártires. SP, 1985, pág 171), conta que um dos professores de teologia da Universidade de Cluj (Romênia), ensina que “Deus deu três revelação na Terra. A primeira a Moises. A segunda a Jesus. E a terceira a Karl Marx.” Assim sendo, vemos que os comunistas consideram Marx como portados de uma missão messiânica; um messias ateu! Essa afirmação dá ao marxismo, assim como ao Cristianismo, um caráter de revelação.

Moses Hess

Quem foi Moses Hess? A grande maioria dos estudiosos do marxismo, provavelmente, desconhece quase que por completo a figura de Moses Hess. No entanto, Hess foi homem que desempenhou o mais importante e decisivo papel na vida de Karl Marx. Para melhor compreendermos a personalidade de Marx, precisamos compreender, principalmente, a personalidade de

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Moses Hess, tamanha a influência que esse homem exerceu sobre Marx e suas . ideias. Para termos uma ideia de antemão, Hess foi o inspirador do movimento comunista, do sionismo racista e da Teologia de Revolução (modernamente aperfeiçoada e conhecida como Teologia da Libertação).

O livro vermelho de Mao-Tsé-Tung nada mais representa que uma

ideia-cópia do Catecismo vermelho escrito por Hess que continha os

princípios do Partido Social Democrata Alemão, fundado também por

Moses Hess. Recordamos que Hess foi contemporâneo de Marx; portanto, estamos na primeira metade do século XIX.

A influência de Moses Hess sobre Marx e Engels foi de tal ordem

que, antes de conhece-lo pessoalmente, Marx havia começado a escrever um livro criticando-o, mas esse livro nunca foi terminado e desapareceu misteriosamente. Foi Hess que levou Marx e Engels (e, provavelmente, todo o grupo de amigos de Marx) a aceitar a ideia do socialismo. A revista Rheinishce Zeitung dirigida por Marx, publicou as seguintes palavras sobre o socialismo:

As tentativas feitas pelas massas para executar ideias comunistas podem ser respondidas por um canhão tão logo se tornem perigosas.”

Tais palavras escritas numa revista dirigida por Marx, revelam com clareza a sua opinião sobre o comunismo em 1842. nessa mesma época a revista Alegemeire Auburge Zeitung desafiou o conceito de Marx sobre socialismo. Marx não soube responder e escreveu:

Francamente admiti, numa controvérsia com a ‘Alegemeine Zeitung’, que os meus conhecimentos prévios de economia e política não me permitiam expressar qualquer opinião sobre as teorias francesas (uma Contribuição à Crítica da Economia Política - Karl Marx).”

Por essa mesma época, Marx escreveu sobre “o seu desgosto de fazer de ídolo uma teoria que ele detesta” (Marx Antes do Marxismo tradução de O.Mclellan, Macmillam), e chamava os proletários de “loucos.” Foi também Hess que transmitiu para Marx a ideia central das teorias marxistas a luta de classes e que estabeleceu a cor vermelha como símbolo da revolução comunista. Vejamos a seguir alguns trechos curiosos extraídos do Catecismo Vermelho, obra que contem as principais ideias de Hess extraídas da obra Catecismos Políticos, editados por K. M. Michael, Insel Publishing House, Alemanha 1966:**

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O que é negro? Negro é o clero

Esses teólogos são os piores

aristocratas

O sacerdote ensina o príncipe a oprimir o povo em nome de

Deus. Em segundo lugar, ensina o povo a permitir que seja oprimido e explorado em nome de Deus. E, principalmente, em terceiro lugar, ele proporciona a si mesmo, com a ajuda de Deus, uma vida esplêndida sobre a terra, enquanto as pessoas são aconselhadas a esperarem pelo céu ” “A bandeira vermelha simboliza a revolução permanente, até a

completa vitória das classes trabalhadoras em todos os países civilizados: a

ao

conquistarem um país, os trabalhadores devem ajudar os seus irmãos no resto do mundo.” “É inútil e ineficaz elevar as pessoas à verdadeira liberdade e fazê-

las praticar dos bens da existência sem liberta-las da escravidão espiritual,

republica vermelha

A revolução socialista

é

a

minha religião

isto é, da religião

do absolutismo dos tiranos sobre os escravos.”

Vejamos a seguir uma coletânea de trechos extraídos de diversas obras de Hess, coletadas pelo Richard Wurmbrand da obra Moses Hess, Obras Selecionadas (Berchtel Publishing House, Alemanha) :

A luta de raças é principal, e a luta de classes secundária (Moses Hess, Rosa e Jerusalém, Philosophical Library, N.Y.).

“Todo judeu tem formação de um messias em si mesmo, toda judia, a de mãe dolorosa nela mesma.” “Jesus é um judeu a quem os gentios deificaram como seu Salvador.” “O mundo cristão vê Jesus como um santo judeu que se tornou um homem pagão.” “Hoje ansiamos por uma salvação mais ampla do que aquela que o Cristianismo jamais pôde oferecer.”

Nossa religião tem como ponto de

partida o entusiasmo de uma raça que, desde o seu aparecimento no palco da história, previu os propósitos finais da raça humana, e que teve pressagio do tempo messiânico no qual o espírito da humanidade será cumprido, não apenas neste ou naquele indivíduo ou parcialmente, mas nas instituições sociais de toda a humanidade.” “A revolução socialista é a minha religião.” “Nosso Deus nada mais é do que a raça humana unida em amor.”

“A salvação vem dos judeus

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“O filho de Deus libertou os homens da sua própria escravidão. Hess o libertara também da servidão política. Sou chamado a testemunhar pela luz, como o foi João Batista.” (Diário de Moses Hess, pág 101).

A seguir, apresentaremos uma análise de alguns trechos da obra do pastor Richard Wurmbrand nas quais ele apresenta suas conclusões sobre Moses Hess, após estudar cuidadosamente e por longo tempo todas as suas obras, e expô-las na magnífica e inspirada obra, já citada. O pastor Wurmbrand apresenta uma tese fartamente apoiada em dados sobre o pensamento e o comportamento do comunismo, demonstrando que a intenção original de Marx ao elaborar o marxismo, não foi o seu amor ao homem e sua preocupação com o seu sofrimento e a sua felicidade, mas sim, motivado por estranho sentimento contra Deus e contar o homem. Vejamos as conclusões de Wurmbrand:

A

Quando editou o seu

Catecismo Vermelho, pela segunda vez, Hess em pregou uma linguagem crista para credenciar-se junto aos crentes. Agora podiam se ler, juntamente com a propagação da revolução, algumas bonitas palavras sobre o Cristianismo como religião de amor e fraternidade. Porém sua mensagem precisava ser esclarecida: o seu não deve ser sobre a Terra e nem o seu céu no além. A sociedade será a verdadeira realização do Cristianismo ”

“Hess foi homem que converteu Marx e Engels ao socialismo

revolução socialista era a religião de Hess

“Hess fundou o socialismo moderno e também um movimento totalmente diverso numa específica de sionismo. O Cristianismo está dividido. Do mesmo modo, o sionismo também acha-se dividido. Há um

sionismo socialista, um sionismo judaico, um sionismo judaico-cristão um sionismo pacifico, um sionismo agressivo e até um sionismo terrorista. Hess, foi fundador do socialismo moderno , foi o fundador de um tipo de

sionismo racista com finalidade de destruir o sionismo religioso

escreveu: ‘a luta de raça é principal, a luta de classe secundária’. Hess

acendeu o fogo da luta de classe

sionismo, um sionismo de luta de raças, um sionismo imposto pela contra os

homens que são de raça judaica

Que necessidade terão eles de Jesus? Escreveu: ‘todo judeu tem

em si a formação de um messias, toda judia, a de uma mãe dolorosa nela mesma’. Para Hess, Jesus é o judeu a quem os gentios deificaram como seu salvador. Nem ele nem os judeus parecem necessitar de Jesus par si mesmo. Hess não deseja salvação e, para ele, alguém que deseja santificação é

Hess reivindica Jerusalém para os

Em 1862

em seguida produziu um distorção do

judeus

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indo-germânico. O objeto dos judeus é o ‘‘Estado messiânico.” Para ele, fazer o mundo de acordo com o plano divino é provocar a revolução socialista, usando para este propósito as lutas raciais e de classes

“Hess ensinou a Marx um socialismo internacionalista zombou do conceito de pátria dos alemães e criticava o programa do Partido Social Democrata Alemão por seu reconhecimento irrestrito do princípio nacionalista. Mas, contrariamente a tudo isso, Hess era um ferrenho nacionalista judaico. Par ele o patriotismo judaico devia permanecer. Escreveu: ‘Quem quer que negue o nacionalismo judaico é não somente um apóstata, um renegado no sentido religioso, mas um traidor de seu povo e de sua família. Se fosse provado que a emancipação dos judeus é incompatível com o nacionalismo judaico, então o judeu ’

“O patriotismo é uma virtude, se significar o esforço

O judeu deve ser acima de tudo um

patriota judaico

para promover o bem estar econômico, político social e espiritual de todas

Entretanto, o patriotismo unilateral judaico de um ateu

revolucionário socialista, que nega o patriotismo de todas as outras nações,

é altamente sus peito. Parece-me um plano destinado a fazer todas os povos

Hess não foi apenas a fonte que originou o socialismo

e o homem que criou o sionismo antideus e antireligioso, foi também o

precursor da ‘teologia da revolução’

Hess enaltece os judeus com um

propósito consciente de provocar uma violente reação antijudaica. Ele disse que a sua religião é a revolução socialista e que os clérigos de todas as outras religiões são trapaceiros. Ele escreveu: a salvação vem dos

judeus

Nossa religião tem como ponto de partida o entusiasmo de uma

raça que, desde o seu aparecimento no palco da história, previu os propósitos finais da raça humana, e que teve o presságio do tempo do tempo messiânico no qual o espírito da humanidade será cumprido, não

apenas neste ou naquele indivíduo ou parcialmente, mas nas instituições

Essa época que Hess chama de

“messiânica” é a época da revolução mundial socialista. A ideia de que a religião judaica teve, como um ponto de partida, o conceito de uma

Hess fala

continuamente em termos religiosos, porem não crê em Deus. Escreve que ”

O

caminho para se chegar a tal união é revolução socialista na qual dezenas de milhares de pessoas de seu tão “amado gênero humano” deverão ser

O primeiro livro de Hess A Santa História da Raça Humana, foi

proclamado por ele mesmo como “uma obra do santo espírito da verdade.”

deveria sacrificar a emancipação

as nações

odiarem os judeus

sociais de toda a humanidade

revolução socialista sem Deus é uma piada ultrajante

“nosso Deus nada mais é do que a raça humana unida em amor

mortas!

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Hess escreveu em seu diário, à folha 101: “O Filho de Deus libertou os homens da sua pátria escravidão. Hess os libertará também da servidão ”

política

mortas e que Kant havia decapitado o “o velho Pai Jeová juntamente com a Sagrada Família” no entanto refere-se constantemente nos seus livros aos

nossos santos escritos, a santa linguagem de nossos pais, nosso culto, as

Hess declarou que

Como fará

Hess para suas ideias triunfem?” Usarei a espada contra todos os cidadãos que resistirem aos esforços do proletariado”, conclui Hess. Transcrevi essa síntese de trechos da obra de Wurmbrand, porque considerei- a indispensável aos propósitos desses escritos. Creio mesmo que o pastor Wurmbrand apreciaria a divulgação e comentário sobre tão importantes trechos de sua obra que sem dúvida, ele gostaria de ver semeada

e leda por todo o mundo. Eis.pois, um perfil do homem que causou a maior e mais profunda influência nos fundadores teóricos do marxismo. Moses Hess foi um homem estranhamente místico. Foi a um tempo, crente e ateu, cristão e judeu, antinacionalista e nacionalista, judeu e antijudeu, “bom” e mau, “divino” e satânico, amigo e inimigo, aliado e traidor, pacífico e guerreiro, falso e

verdadeiro, tudo e o nada

o ódio e o amor indistintamente numa atitude incrivelmente irresponsável e

traiçoeira, provocando uma confusão generalizada em tudo o que havia de puro e verdadeiro à sua volta. Suas ideias conduziram a humanidade ao desespero e um estado de loucura e sofrimento sem precedentes. Suas ideias, misteriosamente, triunfaram, e hoje, presenciamos no mundo um profundo ódio contra a raça judaica, o massacre provocado pelas ideias socialistas e comunistas numa luta mundial entre raças e classes, e assistimos, estupefatos, ao aparecimento e rápida expansão da teologia da revolução, sob o disfarce de um humanismo cínico, e baseado na violência contra o próprio homem a quem defende e diz amar acima de tudo. Moses Hess, para surpresa, é praticamente um desconhecido para os marxistas! Esse fato é extraordinariamente estranho pois ele oculta as verdadeiras origens do marxismo e envolve Karl Marx numa falsa imagem de cientista e filósofo. Ele, o leitor concluirá, foi mais um místico revolucionário que elaborou um plano para provocar uma revolução mundial, do que um filósofo bem intencionado e humanista à procura da verdade.

Enfim, um homem sem escrúpulos, que pregou

leis divinas, os caminhos da previdência, vida piedosa

Hess declarou que as religiões judaicas e cristãs estavam

“sou chamado a testemunhar pela luz, como foi João Batista”

Hegel

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É absolutamente impossível expor em poucas linhas o pensamento de

Hegel. Apresentaremos uma síntese de apenas algumas das ideias centrais de seu pensamento, para dar aos leitores uma visão panorâmica de todo o quadro de referências e fontes das ideias presentes no marxismo, e que uma grande porção de pessoas julga serem originais de Marx. Assim, apenas com a finalidade de completar o quadro de referência das influências ideológicas sofridas por Marx, transcrevemos essas poucas linhas. Numa primeira visão, gostaria de chamar a atenção do leitor para o fato de que, ao nosso ver, Marx simplesmente tomou algumas das ideias centrais do pensamento hegeliano e as inverteu. Ou seja, se a dialética hegeliana foi desenvolvida para ser aplicada ao desenvolvimento da ideia, Marx a aplicou ao desenvolvimento da matéria; se na metade e luta dos contrários exposta por Hegel, a unidade é mais importante, visão marxista,

luta é o mais importante; se a filosofia hegeliana era originalmente idealista

e teísta, Marx a converteu em materialista e ateia. Por que Marx se

preocupou tanto co pensamento de Hegel a ponto de estudá-lo cuidadosamente e escrever um livro inteiro criticando-o? Para entender isso, precisamos conhecer algumas das ideias originais de Hegel.primeiramente, Hegel afirma a existência de Deus e o considera enquanto Logos (ideias =

palavra), e explica o mundo como tendo sido formado a partir do Logos. Hegel procurou descrever como a ideia se transformou em mundo, que não

é uma coisa criada, mas coisas em desenvolvimento a partir do Logos.

Como terá ocorrido esse processo? Hegel procurou explicá-lo através de sua Dialética. O Logos é indeterminado e imensurável, mas é. Essa ser puro é na verdade nada (o nada é visto como alguma coisa indefinida, mas real). Esse Ser pode decidir (como o homem), e quando o faz, é por meio da união ou síntese do Ser e do Nada que ele mesmo é. Nesse processo, toma uma forma evoluída de Ser com conteúdo que é chamado devir. Hegel definiu esse processo como Nada-Devir-Ser ou simplesmente, tese-antítese-síntese. Esse novo ser chamado Devir não é o ser e nem o Nada, mas o ser resultante da união (afirmação) entre o Ser e o Nada, que se negaram a si mesmo (negação), e deram origem a um ser distinto deles mesmos (negação da negação). A partir daí, tem início um novo processo semelhante. O novo processo tem como ponto de partida ainda o Ser, porém na manifestação resultante da união entre o Ser e o Nada transformando em Devir. O novo processo dialético agora é o Ser-Essência-Noção em que a essência é o aspecto imutável e eterno do Ser. A Noção (ideia) é o ser concreto e auto-evolutivo resultante da síntese do Ser e da Essência. Vemos, portanto, que a dialética hegeliana era

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idealista e procurava explicar a origem do movimento e do desenvolvimento a partir do Logos (Deus, visto como ideia). Marx tomou a dialética hegeliana e engendrou uma nova interpretação distorcida, em que o processo de negação eu em Hegel era um processo suave, e não implicava na destruição de uma das partes, passou a ser visto como um conflito violento que obrigatoriamente implicava na destruição de uma das partes. Aos pares complementares sujeito-objeto em harmonia na natureza, Marx chamou-se de contrários em constante luta entre si. Afirmou que era dessa luta os contrários que se originava o movimento e o desenvolvimento da natureza da sociedade. O segundo conceito que Marx tomou da filosofia de Hegel, foi o seu conceito da história. Para Hegel, ao longo da história a humanidade caminha para a liberdade. Na sociedade primitiva, a liberdade era um privilégio exclusivo de apenas uns poucos indivíduos donos dos escravos. Na sociedade monárquica, apenas os reis podiam desfrutar da liberdade; os senhores feudais no feudalismo, e assim sucessivamente. Não obstante, a história conduz a humanidade para a liberdade e por isso, uma parcela cada vez maior da humanidade começava a experimentar a liberdade. Hegel também sustentava que tal processo é reflexo da providencia divina que, através da história, poderia utilizar o Estado como instrumento que trabalharia de modo a conduzir toda a humanidade ao gozo da liberdade. Poderíamos sintetizar a teoria da história na ideia da atualização da liberdade. Essa ideia naturalmente foi abraçada, disfarçando-se porém seu aspecto espiritualista, o qual Marx conservou intacto, assim como toda a sua teoria acha-se mesclada de um idealismo místico que utiliza o anseio emocional e intelectual do homem e promete-lhe uma sociedade utópica sobre a Terra. O terceiro tópico do pensamento hegeliano utilizado por Marx foi a ideia do estabelecimento de uma sociedade ideal na final da história. Marx também abraçou essa ideia integralmente com diferença que, em Hegel, essa sociedade seria estabelecida por Deus através do Estado monárquico, enquanto que para Marx, ela somente poderá ser estabelecida mediante a derrubada de toda ordem estabelecida através da revolução proletária violente. Creio que, do exposto, o leitor já pode perceber a importância da influência de Hegel no pensamento marxista. Hegel foi um dos maiores filósofos idealistas da história e um grande estudioso e admirador de Kant. Através da influência que sobre os círculos acadêmicos alemães, suas ideias foram utilizadas, contudo, tanto por idealistas como

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materialistas; cada um procurando ajustá-las à sua visão da natureza, da sociedade e do homem. É certo que Hegel não apresentou a verdade última.

Mas é também verdade que ele não foi um materialista ateu. Foi um filósofo autentico unicamente interessado na descoberta da verdade. A utilização de

seus

princípios após a sua morte, já não lhe diz respeito diretamente. Sua

obra

foi distorcida e utilizada de uma forma lamentável por Marx e os

marxistas. Do mesmo modo como outras o foram as obras de Santos

Dumont e Alfred Nobel e de tantos outros através da história.

Feuerbach

Como foi anteriormente citado, Marx, nasceu e cresceu em uma época de transição, de significativas mudanças políticas e econômicas. O ano de 1789 marcou a um tempo o ano da maior transformação política que derrubou o sistema monárquico A Revolução Francesa , e da maior transformação econômica que marcava o final do sistema feudal do sistema de produção A Revolução Industrial na Inglaterra. Logo, a primeira metade do século

XIX foi exatamente o período em que os reflexos dessas transformações

ecoavam por toda Europa. Em 1835, Marx entrou para universidade de Bonn e, um ano mais tarde, transferiu-se para a Universidade de Berlim. Nessa época as ideias filosóficas de Hegel dominavam os círculos intelectuais da Alemanha. A escola de pensamentos hegeliana dividiu-se em duas correntes, uma de esquerda, que tirava conclusões ateístas e revolucionarias da filosofia hegeliana, e uma corrente de direita, mais conservadora e teístas que

considerava o Estado como racional. Marx era filiado à corrente esquerdista,

e foi nesse período que conheceu o pensamento de Ludwig Feuerbach, um

discípulo de Hegel. Immanuel Kant deu origem à filosofia idealista alemã, e Hegel desenvolveu-a posteriormente. A influência de Hegel foi tal modo marcante que, mesmo após sua morte em 1813, suas ideias continuaram influenciando os pensadores alemães. Segundo Hegel, o mundo material que aparentemente existe, nada mais representa que um efeito secundário como uma sombra da substancia real que é o espírito absoluto. O desenvolvimento natural e social são o resultado do desenvolvimento do espírito; porque se desenvolve dialeticamente por auto-contradição; este desenvolvimento é refletido no mundo material e social. Para Hegel, Deus é

o espírito absoluto e a providência divina era o auto-desenvolvimento do espírito absoluto.

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Embora tivesse sido um admirador e discípulo de Hegel. Feuerbach discordou completamente do pensamento dele, tornando-se ateu e reacendendo o pensamento materialista a um nível sem precedentes. Feuerbach afirmou que o mundo material não é uma sombra do espírito, mas uma substancia objetiva que existe separada e independentemente da consciência do homem. O espírito, por sua vez, é derivado e produto do cérebro e não pode existir separado da matéria. A decomposição do corpo material, automaticamente, anula todo e qualquer vestígio de espiritualidade do homem. Não há eterna. A existência é absolutamente reconhecida apenas pelos sentidos materiais. O pensamento feuerbachiano atingiu o ateísmo. Feuerbach afirmou que a fé era uma superstição e que Deus era projeção exterior da natureza humana. Não foi Deus quem criou o homem, foi o homem que criou Deus. O homem é simplesmente um ser antropológico e biológico.

Hegel afirmava que a liberdade total do ser humano se daria mediante o trabalho de Deus utilizando o Estado com veículo. Marx era ateu e não aceitava estas ideias. Por isso, andava à procura de uma solução materialista mais convincente. Quando conheceu Feuerbach foi como se tivesse encontrado um “Salvador.” Ludwig Feuerbach (1804-1872) havia escrito duas obras: A Essência do Cristianismo (1841) e as Teses Provisionais para uma Reforma do Cristianismo (1842), nas quais se opôs radicalmente ao ponto de vista hegeliano e ao idealismo de um modo geral. Feuerbach escreveu as seguintes palavras sobre Deus:

“Deus é a natureza humana (a razão, os sentimentos, o amor e a vontade) purificada, liberada dos limites do homem individual, tornada

O ser divino nada mais é que o ser humano; a projeção da

objetiva

essência humana.” Marx que começava a formular suas teorias por essa época, vibrou com as obras de Feuerbach. Nelas, ele encontrou os fundamentos para expressar o seu ressentimento e amargura contra Deus, religião, o clero, a burguesia e o Estado. Marx sentiu-se aliviado e feliz. O seu entusiasmo pode ser conhecido pelas palavras de engels escritas nessa época:

“Alguém deve experimentar o efeito libertador desse livro para se ter uma boa ideia dele. o entusiasmo foi geral, imediatamente todos nós nos tornamos feuerbahiano.” Marx expressou suas impressões sobre Feuerbach no seu livro A Sagrada Família. Foi a a partir de seu ponto de vista feuerbachiano que Marx iniciou a elaboração de uma exaustiva crítica a Hegel. Apesar de utilizar largamente o materialismo de Feuerbach, Marx criticou-o severamente afirmando que ele era um materialista da cintura para baixo e

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um idealista da cintura para cima. Feuerbach nunca defendeu a violência. Afirmava que toda a confusão social podia ser resolvida mediante o melhoramento das relações humanas através da exaltação das virtudes do homem tais como o amor, a compaixão, a amizade e a razão. Os seres humanos são diferentes das outras porque podem intelectualmente, ter sentimentos e desejos. Dessa forma, Feuerbach via a vontade e o desejo humano como a chave para solucionar todos os problemas da sociedade humana e, também, a força motriz que impulsionava o desenvolvimento histórico. Marx não podia aceita esses pontos de vistas, pois eles estavam voltados para a harmonia social . apesar de tudo , o materialismo de Feuerbach foi adotado como uma das bases fundamentais da teoria materialista de Marx.

O Romantismo e a Escola Histórica

Em meados do século XVIII desenvolveu-se entre os intelectuais alemães um movimento voltado para o sentimentalismo humano. A partir de uma peça chamada “Sturm und Drang” (Tempestade de Ímpeto), de Friedrich M. Klinger, os filósofos pareciam estar querendo dizer: “não somos animais ou simples máquinas pensantes. Somos seres humanos sensíveis com emoções e desejos infinitos.” Na verdade, começava a se firmar uma escola de pensamento que iria influenciar decisivamente toda a geração de pensadores subseqüentes, inclusive, Marx. Os românticos proclamaram os valores do amor e da emotividade, de uma forma somente comparável aos antigos socráticos. Era como se estivessem gritando: “não queremos desprezar a voz da razão. Mas não podemos ignorar a voz do coração.” Florescendo no coração dos intelectuais da época, o Romantismo deu origem a um a linha de pensamento e estilo literário que se expandiram rapidamente causando uma marcante influência em todo o mundo. Tratava- se de uma alta valorização dos aspectos naturais e emocionais da natureza, do homem e da sociedade, que engendrou uma forte tendência conservadora. Os efeitos da onda iniciada pelo Romantismo inspiraram uma das mais belas épocas da história “la belle époque” na qual o romântico e o clássico davam um tom gracioso e colorido à vida. Marx, como todos os pensadores do século XVIII e XIX, não escapou da influência do Romantismo. Essa influência é notável nas páginas do Manifesto Comunista e de O Capital, em que os apelos emocionais são uma constante, em contradição com a seca visão materialista que pretendia expressar.

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Ao lado do Romantismo, a Escola Histórica também exerceu significativa influência nos sistemas de pensamentos posteriores. Foi o italiano Gianbattista Vico (1668-1744) quem mais se destacou na chamada filosofia da história. Vico concluiu que “a ordem das ideias e acontecimentos seguem a ordem natural das coisas.” Para ele, Deus guiava a história de acordo com suas próprias leis. A história humana caminha no sentido da democracia e do progresso científico. Chegará o momento em que como ocorre com os seres vivos a sociedade amadurece e caduca, daí resultando em fatos catastróficos que conduzem o indivíduo de volta ao estado primitivo. Em seguida, o progresso torna a manifestar-se outra vez até a maturação e nova desagregação, repetindo-se os ciclos de modo indefinido. Vê-se muito claramente o quanto essa ideia está presente na teoria marxista da história. Vico, coma sua teoria histórica das continuas ascensões, quedas e retornos, forneceu ao marxismo valiosíssimos elementos. Marx e Engels utilizaram-se fartamente das teses e críticas desenvolvidas pelo Romantismo e pela Escola Histórica. As mesmas teses que fundamentavam os sistemas filosóficos idealistas alemães . A Escola Histórica criticou o capitalismo, o individualismo e toda a ordem burguesa consagrada pelos economistas clássicos. Por sua vez, o Romantismo criticou e desprezou a ordem social inspirada pelo capitalismo, acusando-o de ser “o sistema econômico que havia convertido o mundo em um mercado dominado pelo dinheiro e transformado os seres humanos em burgueses e proletários.” Karl Kautski, no seu livro As Três Fontes do Marxismo, diz que o marxismo assimilou a experiência econômica inglesa, a experiência política francesa e a experiência filosófica alemã. Entretanto, como o Cristianismo esteve presente como pivô ou musa inspiradora dessas experiências, sua marca acha-se registrada em praticamente todas as páginas desse período. Desse modo, Marx foi um idealista da cintura para cima, uma vez que forjou o marxismo fundamentando-se, em parte, no mesmo rio de ideias e emoções dos pensadores idealistas cristãos.

O socialistas franceses

No ano de 1842, Marx mudou-se para Paris a fim de estudar as ideias do socialismo francês, as quais ele desconhecia. Nessa época, alguns pensadores estavam em grande evidência. Eram homens conscienciosos que expressavam simpatia e piedade pela situação dos trabalhadores e

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criticavam duramente a exploração e desumanidade daqueles que buscavam apenas os lucros de uma forma injusta e imoral. Muitos desses homens propunham a aplicação de processos mais humanos através da razão e da moral. Acreditavam que por meio da razão e da moral era possível mudar a mentalidade humana e, por meios pacíficos, transformar a sociedade onde reinava a desigualdade em uma sociedade de tipo socialista. Destacaram-se entre esses, Robert Owen (1771-1858), Claude-Henri de Saint-Simon (1769-1835), e Charles Fourier (1772-1837). Esses pensadores estabeleceram o centro das suas atividades em Paris e prosseguiram os seus esforços, mas todos resultaram inúteis. Marx chegou a Paris no período áureo das atividades desses pensadores. Ao estudá-los, Marx os criticou severamente chamando-os Socialistas Utópicos. Apesar das criticas, Marx aprendeu muito das suas ideias e as incorporou ao seu sistema em elaboração. No pensamento de Saint-Simon, podemos perceber as largas influências e contribuições desses pensadores ao pensamento de Marx. Saint-Simon merece destaque especial. Ele acreditava que a humanidade havia caminhado através da história por um progresso contínuo, pontuado por períodos tumultuosos de transição chamados épocas críticas. (Marx adotou essa ideia chamando-a revolução). A Revolução Francesa teria sido um desses períodos que desembocaria no socialismo, em que cada homem trabalharia e receberia de acordo com as suas capacidades e necessidades (Marx tomou essa ideia intacta). Entretanto, para que isso acontecesse, era necessária uma nova ideologia que superasse os ensinamentos cristãos escolásticos vigentes. Esse novo sistema de conhecimento deveria ser cientifico, abrangente e baseado na razão e numa objetividade máxima possível. Sobre esse alicerce dizia Simon, levantar-se-ia uma espécie de Nova Religião da Humanidade, que moldaria a mentalidade geral dos homens, adaptando-a à realização dos propósitos coletivos. Dessa forma, surgiria a Sociedade do Futuro, em que a direção da sociedade, ao invés de obedecer a interesses pessoais, de grupos, ou de autoridades tradicionais, seria entregue a homens de intelectualidade superior, que seriam os governantes. Como o leitor pôde apreciar, as ideias de Saint-Simon, em especial, foram literalmente adotadas por Marx e Engels. Para nós contudo, uma ideia em particular nos interessa e voltaremos a ela no capítulo II desse trabalho a ideia da Nova Religião da Humanidade que teria por base a razão e a objetividade máxima. Daqui extrairemos um valioso dado relativo à natureza mística do marxismo.

Os economistas ingleses

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Na segunda metade do século XVIII, começaram a florescer as ideias liberais econômicas. A nova teoria da economia, alicerçada nos postulados do Iluminismo, tinha seu apoio central na ideia de uma mecânica universal governada por leis inflexíveis. De igual modo, também a esfera econômica achava-se sob leis, do mesmo modo que a física e a astronomia. Era, portanto, um reflexo da teoria liberal da economia. O primeiro grupo de economistas liberais chamados de fisiocratas foi composto por François Quesnay (1694-1744), Marquês Mirabeau (1715-1789) e Dupont de Nemours (1739-1817), como destaques mais eminentes desta corrente de pensamento que viam a base da economia nas atividades naturais-agrícolas, pesqueiras e minerais, como mais importantes que o comércio. Eram antimercantilistas e afirmavam que “a natureza é a verdadeira produtora das riquezas.” Marx utilizaria essa ideia de que o setor de distribuição o comércio é estéril. Numa segunda fase os fisiocratas adotaram ardentemente a ideia do liberalismo econômico: “nunca se deveria fazer nada para embaraçar a ação das Elis econômicas naturais.” Esse ponto de vista foi chamado de “laissez-faire.” Os maiores expoentes desse veio de economistas ingleses, foram David Ricardo (1772-1823) e Adam Smith (1723-1790). Ricardo era um rico industrial, que elaborou a teoria de que eram os trabalhadores a fonte de todo valor. Afirmou que os operários trabalhavam algumas horas que correspondiam ao valor de sue salário e várias horas excedentes que eram apropriadas pelos empregadores, e que estas, eram a fonte última dos seus lucros. Nasciam as famosas teorias do valor-trabalho e da mais-valia, abraçadas completamente por Marx e seus seguidores. Adam Smith, por sua vez, era um prelecionador de literatura inglesa da Universidade de Edimburgo. Posteriormente assumiu a cadeira de Lógica do Glasgow College. Em 1759 escreveu o livro chamado Teoria Sentimentos Morais, que o tornou famoso. Após dois anos na França, onde conheceu as ideias fisiocratas, constatou que certas teorias fisiocratas eram semelhantes às suas. Disse que a economia de Quesnay era “com todas as suas imperfeições, a coisa mais próxima da verdade que já se publicou sobre os princípios da ciência econômica.” Em 1776 publicou a sua obra principal A Riqueza das Nações, na qual asseverou que o trabalho, mais do que a agricultura e a generosidade da natureza, é a verdadeira fonte de riqueza. Era partidário do Liberalismo Econômico, mas admitia que o governo deveria intervir para prevenir a injustiça e a opressão, fazer progredir a educação e proteger a saúde pública. Ao estudarmos as ideias de Smith, vislumbramos perfeitamente as teorias básicas que compõe a visão marxista da economia. Smith criou a teoria do valor-trabalho e David

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Ricardo, a teoria da mais-valia. Marx simplesmente as usou de acordo com seus objetivos revolucionários.

Os filósofos ingleses e franceses

O escritor e professor de história Edward MacNall Burns, da Rutgers University, na sua excelente obra História da Civilização Ocidental O Drama da Raça Humana (Vol. I), escreveu:

Todos os grandes movimentos sociais dos tempos modernos têm tido o seu fundamento de causas intelectuais. Para que um movimento possa atingir as proporções de uma revolução verdadeira é necessário que se apóie num corpo de ideias que forneçam não só um programa de ação, mas também uma visão gloriosa da nova ordem a ser por fim instaurada.”

A revolução renascentista e a revolução iluminista são exemplos

claros deste fato. As ideias do Iluminismo por sua vez, constituíram-se na

base teórica para o surgimento do marxismo, que nada mais é que uma ampliação do Iluminismo. As teorias que tiveram efeito decisivo na Revolução Francesa foram as ideias liberais do filósofo John Locke (inglês) e Voltaire (francês), e as ideias democráticas de Rousseau e Montesquieu

(franceses). Jonh Locke é considerado o pai da teoria política liberal dos séculos

XVII e XVIII. Suas ideias centrais estão num livro chamado Segundo

Tratado. Segundo Locke, originalmente, todos os homens viviam num estado natural de liberdade e igualdade plenas, e sem governo de qualquer espécie. A única lei que existia eram as leis da natureza, que cada um seguia por sua livre vontade e seu modo. Muito cedo notam que o seu modus vivendi trazia mais desvantagem que benefícios. Porque cada um queria impor sua vontade e proteger seus direitos à vida, à liberdade e à propriedade. O resultado era a confusão e a insegurança. Por isso, eles decidiram estabelecer uma sociedade civil, instalar um governo e ceder-lhe poderes para que se encarregasse de executar a lei natural, sem absolutismo. Dizia Locke :

“O Estado nada mais é que o poder dos seus membros cedidos ao governante. Todos os direitos individuais que não são expressamente cedidos ficam reservados às próprias pessoas. De tal modo, o poder do governo não pode ser maior do que o poder que aquelas pessoas possuíam no estado natural ” Locke condenou o absolutismo e afirmou que a finalidade do governo é preservar a propriedade, que compreendida a vida, a liberdade e

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os bens materiais. Negou autoridade a qualquer governante de usurpar os direitos naturais do indivíduo. Justificou a adoção de medidas de resistência por parte dos indivíduos, coso seus direitos fossem violados. Locke foi um grande defensor da liberdade individual. Suas teorias dos “direitos naturais” , do “Governo limitado” e do “direito de resistência à tirania”, foram e têm ainda sido as bases do liberalismo. Marx foi para França no ano de 1842 e lá, naturalmente, entrou em contato com todas essas obras e descobriu nelas todos os princípios de que necessitava para estruturar uma ideologia que conduzisse a humanidade à revolução violenta. O segundo importante pensador que influenciou decisivamente Marx foi Voltaire (1694-1778) o maior expoente da teoria política liberal francesa. Voltaire considerava o Cristianismo como “o pior inimigo da humanidade.” Estudou o pensamento lockeno durante um período em que esteve na Inglaterra e fora influenciado pelas ideias da Locke; especialmente pela ideias da liberdade individual. A opinião de Voltaire sobre o governo era a mesma de Locke. O poder do governo limitado; e sua finalmente, executar a lei natural e os direitos naturais. Apesar de sustentar que todos os homens eram dotados de direitos iguais, não era um democrata e apreciava a monarquia. Tinha medo das massas, e freqüentou a igreja por um período, com receio de que o seu ateísmo revoltasse os aldeões. Voltaire foi um forte critico do governo despótico e dedicou sua vida à luta pela liberdade intelectual, política e contra a religião organizada. Montesquieu (1689-1755), foi filósofo incomum entre os filósofos políticos do século XVIII. Admirava as instituições britânicas e as ideias de Locke. Seu célebre livro O Espírito das Leis, acrescentou nova luz à teoria do Estado. Estudou os sistemas políticos e discordou de Locke quanto aos direitos naturais e a origem contratual do Estado, afirmando que a lei deve ser procurada nos históricos. Negou uma forma perfeita de governo que agradasse a todos os homens. Sua mais famosa ideia é a teoria dos Três Poderes, formulada para prevenir o abuso pelo excesso de poder nas mãos de um só homem. Rosseau (1712-1778) é considerado o fundador da democracia e o pai do romantismo. Distintamente do liberalismo, que defendia os direitos individuais, a democracia defendia a instauração de um governo popular. O ideal da democracia ressurgiu inspirado nas ideias do grego Clístenes e, na idade moderna, nas ideias de poder de John Locke. O liberalismo e a democracia foram as ideias fundamentais que impulsionaram a Revolução Francesa. Por ser romântico, as ideias políticas de Rousseau possuem um forte e colorido tom sentimental. Suas obras mais célebres foram: O Contrato Social e O Discurso sobre a Origem da Desigualdade. Em ambas,

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defendeu a ideia tão em voga na sua época, de que o homem viveu originalmente no estado natural o qual, em contraste com Locke, ele considerava um verdadeiro paraíso. Dentro da visão de Rousseau, os homens viviam em paz e não era difícil manter os seus direitos e a sua segurança. Não havia conflito até que “alguns homens decidiram demarcar certas porções de terra e declararam: esta terra é minha!.” Foi assim que surgiu a desigualdade e as relações humanas se degeneraram em “impostura fraudulenta”, a “pompa insolente” e a “ambição insaciável.” Nesse ponto, o único modo de garantir a paz e os direitos foi estabelecer foi estabelecer a sociedade civil e ceder todos os direitos à comunidade. Isso foi feito através de um contrato social em que cada indivíduo concordou em se submeter à vontade da maioria. Foi assim, segundo Rosseau, que surgiu o Estado. A concepção de Rousseau de soberania diferiu da de Locke e de outros. Locke afirmou que apenas uma parcela do poder era cedida ao Estado e uma outra ficava com o povo. Rousseau sustentou que a soberania é única e indivisível. Toda a soberania passa para a comunidade dirigente quando se estabelece a sociedade civil. Ao aceitar o contrato social, os indivíduos cediam todos os seus direitos à comunidade dirigente que eles próprios escolheram como seus representantes, concordando em se submeterem à vontade de todo em detrimento de parte. Logo, a soberania do Estado é legitima porque é a expressão da vontade geral através do voto. Dessa forma, o que a maioria decide é justo no sentido político e torna-se obrigatório para cada cidadão. O Estado, portanto, significa praticamente a vontade da maioria que é o tribunal de última instância. Isto não elimina a liberdade individual, pelo contrário, a sujeição ao Estado tem por finalidade garantir e fortalecer a liberdade autentica de cada um e de todos. Ao cederem os seus direitos à comunidade dirigente, os indivíduos nada mais fazem que trocar a liberdade animal do estado da natureza, pela verdadeira liberdade de criaturas racionais dentro da obediência à lei. Rousseau referiu- se ao Estado, falava da comunidade organizada politicamente, cuja função principal era expressar a vontade geral. A autoridade do Estado deve expressar-se diretamente através de leis fundamentais promulgadas pelo próprio povo. O governo é simplesmente o agente executivo e não tem função de formular a vontade geral, mas apenas executá-la. Além disso, a comunidade pode estabelecer ou destituir o governo sempre que o desejar. As teorias políticas de Rousseau ecoaram por todo o mundo, influenciando os idealistas alemães que exaltavam o Estado. A onipotência legal do Estado e a ideia de que a verdadeira liberdade consiste na submissão à vontade geral e coletiva, sem nenhuma dúvida, tornaram o Estado em objeto de culto e relegaram o homem, na sua individualidade,

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quase à nulidade. Marx lançou mão de vários dos princípios de Rousseau na elaboração das teorias políticas, que deveriam vigorar no Estado comunista. Convém lembrar que o marxismo refutou o anarquismo (rejeição total de todas as instituições). Procurei levar a efeito essa breve exposição das ideias centrais que antecederam e foram cenário de fundo da Revolução Francesa, a qual representou os sentimentos das populações quanto à opressão absolutista e à exploração econômica. Marx respirou os ares de Paris e bebeu avidamente de todas essas ideias. Extraiu delas aquilo que lhe interessava para o seu plano de formular uma teoria para as classes trabalhadoras, e conduzi-las à liberdade e à emancipação por meio da revolução violenta. Creio que sem esse quadro ideológico aqui apresentado, não é possível compreender claramente o marxismo. Como já foi dito, Marx foi um estudioso sagaz. Ele tinha um objetivo central para os seus estudos e, dessa forma, de tudo que leu, como o leitor pôde muito bem perceber, soube extrair aqueles fundamentos que sustentariam sua cosmovisão. Mas estudou para elaborar um plano de violência e destruição voltado contra Deus e contra a humanidade. Nestes termos, poder-se-á considerar Karl Marx como um mero filósofo? Ora, um autêntico filósofo como o foram Sócrates, Kant, Hegel e tantos outros, são estudiosos que labutam à procura da verdade última sobre o ser e o existir. Schapenhauer, foi um humanista amargurado e tristonho, no entanto esse seu estado de alma não lhe fez engendrar num plano para destruição de todas as religiões, toda ética e toda a moralidade da sociedade humana * . Muito pelo contrário, ele propôs a apreciação do Belo (a beleza da arte) como uma das soluções para a amargura humana, e milhões de homens o seguiram. Marx, não; ele propôs o ódio, a violência e a morte como soluções! Podemos chamar um homem destes de filósofo humanista?

* .”

para

abolir todas as religiões e todos os costumes

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– (O manifesto Comunista, 1848)

Capítulo 5

O LADO DESCONHECIDO DA OBRA DE MARX

Em 1841, aos 25 anos, Marx conheceu Moses Hess. Nesse mesmo ano doutorou-se pela universidade de Jena. A partir desse ano um novo Marx começava a nascer. Consta que em sua juventude Marx nutria ambições artísticas na poesia, mas por sua pequena qualidade literária, conforme citação de Richard Wurmbrand, os poemas de Marx não foram reconhecidos. Nota-se que a falta de sucesso na literatura e na pintura dera origem a um Hitler; no drama, um Goebbls; na filosofia, um Rosemberg e na música, um Saliere.

O anti-Deus

Marx era rejeitado na sociedade prussiana pela sua origem judia, desprezado pela comunidade judia como um apóstata e não obtinha sucesso em seus escritos. Foi também perseguido e exilado pelo governo prussiano, o que

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frustrou o seu sonho de tornar-se professor universitário. “Nestas circunstâncias, Marx sentiu uma profunda insatisfação e total ausência de

Marx

experimentou sentimentos de solidão, alienação, inferioridade, humilhação

e derrota que o levaram à revolta e a uma atitude de repulsa e amargura contra o mundo.” Aliado a tudo isso, os erros e as hipocrisias dos cristãos e do clero contribuíram para distanciá-lo da fé. O pastor Wurmbrand cita que:

“Marx nos seus primeiros anos de juventude, tinha convicções cristãs, mas não vivia uma vida compatível com elas, o que pode ser observado, pela sua correspondência com seu pai, sobre as somas de dinheiro gastas em prazeres e sobre a oposição de seu pai a essa sua atitude.”

felicidade em sua alma e universalizou esse sentimento.” E mais

Essa fase da vida de Marx nos vem mostrar o princípio de sua degeneração ante o desespero e o conflito interior que travava quanto à sua fé, que sentia enfraquecer. Conhecer Hess, que lhe introduzir ao socialismo, e Engels que possibilitou meios materiais para a formulação de seus livros, foram os grandes acontecimentos da vida de Marx. Um amigo, chamado George Jung, diz em 1841 :

Marx seguramente afugentará a Deus de seu céu, e até mesmo o processará. Marx chama a religião cristã de uma das religiões mais imorais.”(Conversações com Marx e Engels, Insel Publishing House, Alemanha 1973) Estranhamente os comunistas soviéticos adotaram o mesmo slogan nos primeiros tempos da revolução, dizendo : “Vamos expulsar os capitalistas da Terra e Deus do Céu.” Vimos que Hess teve um importante papel na vida de Marx. Retornemos porém ,um pouco atrás, para analisar o início da revolta de Marx contra o mundo e contra Deus. No ano de 1841, Marx escreveu em sua Introdução à Tese Doutoral:

A filosofia não oculta as suas intenções, faz sua profissão de fé de Prometeu: em uma palavra, ódio a todos os deuses! “Nesta expressão, a filosofia se opõe a todos os deuses do céu e da terra que não reconhecem a consciência humana como suprema deidade. A filosofia não aceita rivais. Mas às tristes sereias que se rebolam em sua situação social, a filosofia, chegando o momento dá a mesma resposta que Prometeu deu a Hermes, o servente dos deuses: “Podes estar certo de que jamais trocarei meu destino miserável pelo teu; e dou mais importância em estar acorrentado a esta

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rocha, que a ser o fiel criado e mensageiro de Zeus, o Pai.” No calendário filosófico, prometeu ocupa o primeiro posto entre os santos e mártires.”

Mais adiante em 1842, escrevia: “a religião é o instrumento dos que estão no poder.” E em 1843: “A religião é o ópio do povo.” Essa afirmação marcou o ponto final no processo de desencanto de Marx quanto à religião e sua posição definitivamente ateia. Passaremos agora a uma apresentação e análise de alguns dos críticos escritos místicos e desconhecidos de Marx, produzidos em sua juventude e durante a fase de sua vida de conflito e transição do Cristianismo ao ateísmo.

Marx. Do Cristianismo ao Ateísmo

Marx demonstrava ser um cristão estudioso do Cristianismo e da história da igreja cristã, como o atestam as anotações feitas em seu certificado de conclusão ginasial. Após esse período, já aos 18 anos, Marx começa a revelar sua profunda amargura contra Deus e contra a religião e escreve em um poema:

“Desejo vingar-me daquele que governa lá em cima.”**

Apesar de ser antideusista, essa frase não é ateísta. Marx admite “alguém que governa lá em cima.” Ora, Marx provinha de uma família media e durante sua infância e juventude, não sofrera privações. De onde, pois, procede esse desejo de vingança expresso por ele, se nessa época não possuía motivos de vingança contra a religião? Lembra o pastor Wurmbrand, que “numa idade em que todos os jovens normais nutrem sonhos quanto a fazer o bem e à sua carreira futura, Marx escrevia linhas amargas em um poema intitulado Invocação de Alguém em Desespero”:

Assim um deus tirou de mim tudo. Na maldição e suplicio do destino Todos os meus mundos foram-se sem retorno! Nada me restou a não ser a vingança!

Meu desejo é me construir um trono. Seu topo seria frio e gigantesco Sua fortaleza seria o medo sobre-humano E a negra dor seria seu general

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Quem olhar par ele com olhar são voltará, mortalmente pálido e silencioso,Arrebentando por cega e fria morte. Possa a sua felicidade preparar-lhe o seu tumulo” Karl Marx, Obras Escolhidas, Vol.1. N.Y, Internation Publisher 1974**.

Outras duas estranhas obras esscritas por Marx nos seus tempos de juventude, intitularam-se O Violinista e Oulanem. Vejamos:

O Violinista “Os vapores infernais elevam-see encham o meu cérebro. Até que eu enlouqueça e meu coração seja totalmente mudado. Vê esta espada? O príncipe das trevas vendeu-a para mim.”

Oulanem “Pois ele marca o compasso e dá os sinais. Cada vez mais ousado Eu me entrego à dança da morte. Soando até morrer em vil rastejo. Pare! Agora o agarrei! Ergue da minha alma Tão forte como os meus próprios ossos. Contudo os meus braços são possuidores de força Para agarrar e triturar você (Humanidade?) Com a força de um furacão. Enquanto para nós ambos , o abismo se abre nas trevas. Você afundara , e eu seguirei gargalhando. Sussurrando aos seus ouvidos: “Desça, venha comigo amigo.”

Arruinado, arruinado. Meu tempo esgotou-se

O relógio parou, a casa do pigmeu desmoronou.

Breve apertarei a humanidade a meu peito,

E breve bradarei gigantescas maldiçoes

sobre a humanidade. Ah, eternidade, ela é a nossa eterna magoa, Uma indescritível e imensurável morte,vil e artificialmente concebida para nos escarnecer Nós,próprios automatizamos, cegamente mecânicos, Feitos para sermos o calendário louco do tempo e do espaço, não tendo propósitos,

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a não ser de acontecer, para ser arruinados.

Se existe algo que devora, pulo para ser engolido, Embora deixando o mundo em ruínas Este mundo que se avoluma entre mim e o abismo, Eu o reduzirei a pedaços Com as minhas continuas maldiçoes.

Lançarei meus braços ao redor de sua rude realidade. Abraçando-me, o mundo passará silenciosamente.

E então mergulhará no nada absoluto,

Morto, sem qualquer vida: isso seria realmente viver.” As citações de Oulanem e dos poemas são da obra de Robert Paine O desconhecido Karl Marx, New York University Press,1971.**

Convém recordar que Marx, na época em que escreveu esses poemas, tinha apenas 18 anos! Somente após atingir esse estágio em seu modo se pensar, ele veio a conhecer Moses Hess que apresentou o ideal socialista. Nessa época Marx era redator do jornal Rheinische zeitung que se opunha ao socialismo. Essas observações revelam um período e um lado da vida de Marx, de fato, superendente. A visão obtida a partir da análise desses seus poemas vem contradizer muito do que se escreveu sobre o marxismo, nos mais de 40.000 títulos sobre ele em todo o mundo. Vejamosa outros interessantes trechos das obras de Marx datadas desse período de sua vida:

Carta de Marx para seu pai (10 de novembro de 1837):

“Desceu uma cortina. O meu Santo dos Santos Foi feito em pedaços e novos deuses tiveram que ser instalados.”

Resposta do pai de Marx:

“Abstive-me de insistir em explicaçõessobre um assunto misterioso Embora parecesse altamente suspeito.”

Carta para Marx de seu pai (2 de março de 1837):

O seu progresso, a preciosa segurança

de ver o seu nome torna-se um dia muito famoso

e o seu bem-estar material, não são

os únicos desejos do meu coração, Estas foram ilusões que alimentei por muito tempo

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Mas passo assegurar-lhe que a sua realização não me teria tornado feliz. Somente se seu coração permanecer puro e humano, e se nenhum demônio for capaz de afastar seu coração dos melhores sentimentos, Somente então eu serei feliz.”

Sobre Hegel:

“Palavras eu ensino todas misturadas em uma confusão demoníaca. Assim, qualquer um pode pensar Exatamente o que quiser pensar.”

A Donzela Pálida:

“Eu perdi o direito ao céu,Sei disso perfeitamente. Minha alma outrora fiel a Deus,Está destinada ao inferno.”

Outro trecho de um poema de Marx, extraído da obra Marx antes do Marxismo (tradução de D. McLellan, McMillan),** diz:

“Com desdém lançarei meu desafio em na cara do mundo e verei o colapso desse gigante pigmeu cuja queda não extinguirá meu ardor.Então vagarei semelhante a um deus, Vitorioso, pelas ruínas do mundo.E, dando às minhas palavras uma força dinâmica Sentir-me-ei igual ao Criador.”

Observe a semelhança entre estas palavras de Marx e as palavras do arcanjo Lúcifer, segundo o profeta Isaías:

Então! Caístes do céu, ó Lúcifer, filho da aurora. Então, fostes abatido por terra, tu que prostravas as nações. Tu dizias: ‘Eu escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas de Deus. Assentar-me-ei no monte da assembleia, no extremo norte. Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo!” (Isaías 14.12-14)

Apresentaremos, a seguir, alguns comentários sobre os estranhos poemas de Marx produzidos em sua juventude. Levantaremos diversas questões e as enumeraremos ordenadamente, para apresentar aos leitores uma melhor perspectiva de análise e julgamento. a) O Que teria originado o desejo de vingança e o ódio de Marx contra Deus e contra a humanidade? Para dizer pouco, diremos que as

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expressões de Marx como “desejo vingar-me daquele que governa lá em cima” e “bradarei gigantescas maldiçoes sobre a humanidade”, são

absolutamente incompreensíveis para alguém que vê e lê Marx como um cientista e filósofo. Por que um jovem escreveria tais coisas? Geralmente quando os jovens conhecem suas primeiras decepções com amigos queridos

e com seus primeiros romances desfeitos, costumam desabafar suas

lágrimas e suas mágoas em diários ou em livros de poesias. Escrevem

cadernos inteiros de versos românticos sobre a pessoa amada ou sobre a sua dor, mas nunca, numa situação normal,escreveriam coisas tão terríveis contra Deus e contra a humanidade. Os versos escritos por Marx nessa fase

de sua vida, são totalmente incompatíveis com qualquer tipo de sentimento

humanista. Mais absurdo ainda se tornam esses versos, quando se dar a Marx o título de cientista. O que há nesses versos de cientifico? Essa coletânea de trechos de poemas da juventude de Marx revelam uma imagem

totalmente diversa daquela que se cultiva hoje em dia. sabemos das implicações que uma vida familiar traumática podem ter sobre a

personalidade na infância. O comportamento de Marx, enquanto estudante também reflete as conseqüências de sua formação familiar irregular. O que

se descortina a partir da análise dessas suas obras é em Marx envolvido em

mistérios e misticismo; ressentimentos e blasfêmias, somente comparáveis àquelas histórias medievais de bruxos e fogueiras. Esse mar, como bem dizem os títulos das obras que o revelam (O Desconhecimento Karl Marx e Marx antes do Marxismo, entre outros), é estranhamente desconhecido. Por que será que as biografias de Marx publicadas pelos comunista nunca

trazem essa parte de sua obra? Que o leitor interessado descubra. Creio que

esse será um trabalho por demais curioso e

b) que relação existira entre o marxismo e o satanismo? O pastor Wurmbrand vasculhou diversas edições sobre a vida de Marx, e toda a sua obra e encontrou uma série de “fatos curiosos” que, segundo Wurmbrand, são mais que suficientes para, no mínimo, demonstrar que Marx conhecia o satanismo. Vejamos alguns desses fatos. Velamos alguns desses fatos. É do conhecimento mundial a existência real do satanismo ou ocultismo. Sabe-se também que o satanismo se caracteriza por um culto às avessas do culto cristão: a chamada missa negra. Nesse culto, o horário é à meia noite, velas são postas nos castiçais de cabeça para baixo, o sacerdote veste-se pelo avesso e lê todas mensagens sagradas e nomes santos de trás para frente, um crucifixo é colocado de cabeça para baixo e um corpo nu de mulher serve como altar. Usa-se uma hóstia roubada com o nome de Satanás escrito, uma Bíblia é queimada e todos os presentes prometem cometer

místico!

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todos os pecados e jamais fazerem bem algum. Em seguida envolvem-se em orgia.

Nos ritos de iniciação ao satanismo, os iniciados compram uma espada com o seu próprio sangue, que lhes trará sucesso em tudo o que

fizeram voltado para o mal. Uma outra estranha característica do satanismo

é o que chamaríamos de princípio da inversão. Todas as coisas são

invertidas antes de serem usadas no satanismo. Agora apresentaremos aos leitores algumas estranhas curiosidades da vida de Marx e toda essa esquisita narrativa que o leitor acabou de ler. No poema O Violinista, em que Marx fala de um artista frustrado que se queixa de um deus que não conhece e nem respeita a sua arte, ao final desse poema, o menestrel puxa da espada e a enterra na alma do poeta. Nesse poema Marx diz ter comprado uma espada do Príncipe das Trevas (?). Curiosamente, Moses Hess também fala sobre usar “a sua espada” contra todos os seus opositores. O leitor não

acha que há alguma coisa muito estranha em tudo isso? Afinal por que Marx utiliza tanto o princípio da inversão? Quando escreve, por exemplo, em sua resposta à obra de Proudhon A Filosofia da Pobreza, ele elaborou A Pobreza da Filosofia. Também escreveu “temos que usar, ao invés da arma

O pastor Wurmbrand descobriu em suas

pesquisas que Marx foi de tal modo influenciado por esse princípio que “ele

os empregava em quase tudo.” O título do poema Oulanem é uma inversão

de Emanuel, nome bíblico para Jesus que significa “Deus conosco.”

Em Oulanem, Marx escreve que o seu sonho é ver humanidade entrando com ele num abismo de trevas, enquanto ele gargalha e blasfema.

Com efeito essas expressões são absolutamente anticientificas! Marx não foi

o que poderíamos chamar de um jovem normal. Suas atitudes e suas

palavras não deixam duvidas. Há muito mistério ainda por se descobrir sobre o caráter de Marx. Este livro é simplesmente uma tentativa de tomar mais publico esse lado de Marx e acender o debate. Certamente, depois da queda do comunismo, ao serem abertas as muralhas do Kremlin o que será revelado deixará o mundo estarrecido. No seu texto O 18 Brumaire, Marx expressou estranhas palavras de admiração à máxima de Mefistófeles em Fausto: “tudo o que existe é digno de ser destruído.” Stalin parece ter seguido tão fielmente esse princípio, que destruiu sua família e centenas dos seus camaradas do partido e do exército vermelho. O pai de Marx exprimiu um profundo receio de que alguma coisa muito grave estava ocorrendo ao seu filho predileto. Curiosamente, essa sua preocupação começou após ele ter recebido os estranhos poemas no seu 55º aniversário. Ele afirmou: “se nenhum demônio for capaz de afastar seu

da crítica, a crítica das armas

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As atitudes de Marx para com a

família, seus amigos e inimigos, mostram-no como um homem degenerado, injusto e irresponsável que provocou a destruição de muitos de seus parentes. Marx bebia e fumava muito às custas de Engels. As historias de terror que costumava a seus filhos também revelam-no comum irresponsável diante de sua família, com quem não se preocupava muito os cabelos e as barbas de Marx são outro traço peculiar. Por que Marx teve amigos tão vis que ultrajavam a Deus como Bakhunin, Hess e Proudhon? Naturalmente, se o leitor conhecesse pessoas que proferissem as blasfêmias que os amigos de Marx proferiam, os evitaria. Por que ele não os evitou? O que se depreende desse fato? Que Marx compartilhava de tudo o que eles eram, e concordava com o que faziam. Por que um homem, considerado cientista por ele mesmo e pelos seus seguidores, produziria uma obra tão vasta, cheia de misticismo e de conotação tão avessas à humanidade e a Deus, numa idade tão juvenil? Por que o Instituto Marx-Engels de Moscou, que recolhe, analisa e pública toda a obra de Marx, omite essa parte, quando já foram compiladas e editadas em diversas línguas? Para finalizar, gostaria de perguntar aos leitores: poderia um homem com personalidade tão estranha e desequilibrada, formada em uma época tão conturbada da história, cheio de sentimentos de amargura, ódio e desprezo por Deus e pela Humanidade, possuir clareza intelectual e motivação sentimental autentica para criar, sozinho, um sistema de pensamento como o marxismo? Poderia um psicopata criar um dos mais intrincados e complexos planos de destruição, como o leitor verá, e envolvê-lo tão perfeitamente em uma capa de esperança e felicidade geral e eterna, capaz de provocar o impacto mundial que o marxismo causou?

coração dos melhores sentimentos

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Capítulo 6

MARX COMO HOMEM E PENSADOR

Antes de qualquer outra coisa, é fundamental procuramos compreender os sentimentos que ocasionaram a formação do marxismo. Geralmente, quando nos motivamos par produzir alguma coisa, tal produto ser um reflexo da motivação que o inspirou. Se decidimos plantar um vegetal ao pe dois muros de nossa casa e escolhermos espinhos ao invés de jasmins, é obvio que a intenção era machucar alguém que se atrevesse a saltar os muros. A presença real dos espinhos é mais que suficiente para revelar nossa intenção original, ao escolhermos aquela espécie de planta.evidentemente, não foi motivada pelo amor aos meus semelhantes. Muito pelo contrário, tal atitude revela o egoísmo, a desconfiança e o pouco respeito que tenho pelo sofrimento dos outros. Não importa (estou a dizer silenciosamente neste gesto), se os outros têm corpo ou se sentem dor. O que me interessa é preservar os muros em pé! Adiantando um pouco nossa analogia, será que

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são boas as intenções e obras de alguém que enaltece e faz do ressentimento e da violência as suas motivações básicas?

Marx era um humanista?

Dizem os estudiosos que Marx era muito humanista e que vivia obcecado por uma ideia: “como aliviar o sofrimento das massas exploradas.” A disputa com o congresso do distrito de Rhein parece indicar que Marx era humanista; um homem realmente preocupado com o bem-estar do povo. Mas, após analisarmos seus poemas da juventude, será que poderemos ainda afirmar a mesma coisa? Após a breve apresentação que faremos de seu comportamento moral, suas atitudes par com parentes e pessoas que o cercavam, passaremos a duvidar mais ainda de suas boas intenções. No ano de 1844, quatro anos antes da publicação do Manifesto Comunista escrito em parceria com Engels documento que marca o nascimento do movimento comunista , Marx escreveu diversos textos que mais tarde foram compilados e publicados sob o título de Manuscritos Econômicos e Filosóficos. Nesses documentos, ele parece demonstrar uma grande preocupação com o sofrimento humano, não apenas dos trabalhadores assalariados, mas também dos donos das fabricas. Vejamos um trecho:

“A classe capitalista e a classe do proletariado apresentam o mesmo estado de auto-alienação, com a diferença que a primeira se sente livre e fortificada nessa auto-alienação, pois a percebe como poder próprio, e vê nela a aparência de um a existência humana.”(A Sagrada Família Collected Works, Vol. 4, p.36)

Neste mesmo trabalho sobre a alienação, Marx chegou a demonstrar preocupação até mesmo com a perda da natureza humana original, ou seja, com o que chamou de Essênciaespécie original. Mas, curiosamente, ao concluir seus estudos sobre o sofrimento do homem, Marx havia divergido de Feuerbach quanto à essência do ser humano e havia também alterado o seu ponto de vista quanto ao modo como libertar os homens particularmente os ricos de seu estado de alienação. Para Feuerbacha, a essência do homem era a razão, o amor e a verdade, e era possível mudar a situação humana por meios pacíficos e educativos. Par Marx a essência do homem era o trabalho, e o único modo fé libertá-lo da alienação era através da revolução violenta. Para alguém que parecia preocupado com os homens indistintamente, essa sua conclusão final parece um tanto contraditória. Marx declarou:

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“Os comunistas declaram abertamente que podem alcançar sua meta somente com a derrota pela força de todos as condições coisas existentes.” (Manuscritos Econômicos e Filosóficos Collected Works, Vol 3 p.300)

Em outro texto, Marx conclui:

“Os comunistas podem, assim , resumir sua doutrina e pensamento em uma única frase: abolição da propriedade privada.”

Ora, como é possível concretizar essa ideia? Por meio da revolução violenta. Para Marx, não havia outro modo ele ficava profundamente irritado quando alguém ousava contrariar suas opiniões. Revolução violenta é o mesmo que revolução sanguinária, que é o mesmo que pregar a morte em massa como solução para a felicidade humana! Apesar de em alguns momentos de sua vida e em alguns textos de sua obra Marx parecer preocupados com o bem-estar da humanidade, sua conclusão final, quanto ao método a ser adotado para se alcançar a felicidade, conduziu exatamente ao oposto. Os êxodos em massa dos países ocupados pelo comunismo, os massacres em massa executados pelos comunistas, e as muralhas e entraves postas por eles par impedir a fuga dos povos seus próprios países, demonstram que o comunismo foi uma fraude extraordinária cometida contra a humanidade. Veremos que as profecias de Marx, sobre o que ocorreria no mundo capitalista, estão ocorrendo exatamente no mundo comunista. Um exemplo claro desse fenômeno são as leis do movimento econômico e alienação humana. Analisemos estes pontos.

As leis do movimento econômico e a teoria da Alienação na sociedade comunista

Marx afirmou que no sistema capitalista atuam certas leis que o levará inevitavelmente à ruína. São as suas contradições internas. Tais leis seriam:

1) Lei da Queda dos Lucros; 2)Lei do Aumento da Pobreza; 3) Lei da Concentração do Capital. Em síntese, Marx conclui que o maquinário não produz lucros, mas os capitalistas, competindo entre si, desejariam baixar seus custos de produção adquirindo maquinário novo. Esta competição generalizada provocaria uma queda geral nos lucros. O maquinário novo significa altos custos que somente os grandes capitalistas poderiam adquirir. A competição levaria à falência os capitalistas menores, que passariam à condição de proletários. Por outro lado, o maquinário novo provoca a dispensa de mão-de-obra e desemprego. Assim, surge um pequeno número

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de super-capitalistas donos de toda riqueza e, no outro extremo, uma imensa massa de proletários miseráveis sem meios para comprar os bens produzidos, o que levara à recessão, à revolta e, finalmente, à revolução violenta que destruirá o capitalismo. Se observarmos detidamente, notaremos que essas profecias de Marx estão atualmente ocorrendo na União Soviética. A Nomenklatura, pequena parcela da população soviética correspondente a aproximadamente 405.000 pessoas, são os verdadeiros proprietários da União Soviética. Todo o restante da população, de quase 270 milhões de habitantes, são empregados do Estado numa situação de miséria e revolta que, conforme o dissidente soviético Mikhail Makarenko (Tribuna Universitária nº 8, pág. 10 1983): “estão revoltados e começam

a sabotar a economia desperdiçando energia e gás, trabalhando lentamente

e embriagados quase sempre.” Quanto à teoria marxista da alienação, Marx definiu em seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos, quatro tipos de alienação: 1) A alienação do produto do trabalho; 2) A alienação do trabalho em si; 3) A alienação da essência-espécie original e 4) A alienação dos semelhantes. Em síntese: no sistema capitalista o produto do trabalho é tomado pelos capitalistas, o trabalhador é obrigado a vender seu trabalho, as relações de produção destroem e pervertem a natureza humana e, finalmente, as relações de produção capitalista impossibilitam o homem de manter relações humanas dignas com os seus semelhantes e familiares. Curiosamente, mais uma vez, é na própria União Soviética que tais fenômenos ocorrem. Todo produto do trabalho pertence ao Estado que é o supremo patrão, tudo que os trabalhadores soviéticos possuem é a sua capacidade de trabalhar, e são obrigados a vende-la ao único patrão-Estado pelo preço que ele quiser pagar (de um outro modo enfrentam a penúria, ou vão para os campos de trabalhos forçados). Os comunistas reprimem a natureza mística e bondosa do ser humano, ensinando-lhe o ateísmo e o ódio contra Deus e a humanidade e, finalmente, separam filhos e pais, homens e mulheres, etc. Têm separado e dividido nações inteiras como ocorreu na Alemanha com o muro de Berlim e na Coreia com paralelo 38. Na Alemanha, onde o comunismo apossou-se de sua metade oriental, os parentes e familiares separados costumam se encontrar frequentemente nos lados opostos dos muros, e saúdam-se entre lágrimas, mostrando uns aos outros os novos membros da família recém-nascidos. Atualmente, o governo comunista da Alemanha Oriental tem vendido a liberdade de algumas pessoas ao governo da Alemanha Ocidental por altas somas em dinheiro. Naturalmente, àqueles mais interessados caberia uma análise mais profunda. Procuramos apenas ressaltar que as ideias do marxismo estão destruindo não

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apenas o mundo ocidental, mas também o mundo comunista. Parece ser uma armadilha contra a sociedade humana de um modo geral. Os comunistas estão destruindo a moralidade, a fé, e a natureza dos povos dos países ocidentais, mas também estão destruindo esses mesmos valores, dos povos sob o seu domínio. Certa vez, o filósofo e professor Paul Perry, numa

conferência especial promovida pela Associação Internacional Cultural, em Canela RS, 1982, disse:

O comunismo é uma teoria para a destruição, não para a construção.

É por isso que quando eles se unem para destruir produzem grandes estragos, mas quando se reúnem para construir, os resultados são

desastrosos. Acabam destruindo-se mutuamente, ao Ives de construírem alguma coisa boa.”

O Dr. Sang Hun Lee, comentando sobre Marx e sua obra

detalhadamente, expõe o seguinte ponto de vista no excelente trabalho Comunismo, Crítica e Contraproposta:

“Marx era um homem de temperamento inteiramente combativo. Era exclusivista por natureza e convencido do seu próprio virtuosismo. Era intolerante para os que discordavam dele e desprezava todos aqueles que duvidavam dos seus pontos de vista e que não seguiam o seu modo de pensar.” “Talvez porque possuía uma nova visão da vida, subestimava o tipo de vida, interesses e valores da burguesia. Contudo, recusou-se a aplicar princípios éticos e morais para resolver problemas e não gostava de ver meros atos de amabilidade entre as pessoas. Abria uma exceção para a família e colegas, mas em relação às outras pessoas, seu tratamento baseava-se no fato de lhe serem úteis ou não na sua luta política.” “Foi um estudioso até os últimos momentos da sua vida. Era inexorável e implacável para com seus inimigos político. Os que não concordavam com ele eram considerados traidores, criminosos morais ou idiotas políticos.”

Passaremos a apresentar algumas atitudes e acontecimentos da vida de Marx, para melhor avaliarmos suas intenções a partir de seu comportamento social e moral.

1) Marx tornou-se antirreligioso e antideus:

“A extinção da religião, como felicidade ilusória do homem é uma exigência para a sua felicidade real. O chamado para que ele abandone as ilusões a respeito da sua condição é um chamado para abandonar uma

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condição que requer ilusões. A crítica à religião é, portanto, a crítica a este vale de lágrimas do qual a religião é a aureola. (Introdução à Crítica da Filosofia da Lei, de Hegel).”

“A religião é o gemido da criatura oprimida; é o espírito de uma época sem espírito, é o ópio do povo.”(Manifesto Comunista 1848).”

“O comunismo vai libertar as consciências do espectro religioso.”

Marx chegou a blasfemar contra Deus e contra a humanidade. Mas, afinal, o que significa se opor à religião? O que é religião? Em essência, uma religião nasce de homens simples como Confúcio, Jesus, Gandhi Moisés e Buda tiveram que abraçar uma humilde e simples para que encontrassem o sentido de suas vidas. As religiões, em última análise, podem ser representadas pelo seu livro básico. Tais livros surgem sempre de uma forma incomum e espontânea. Vejamos, por exemplo, como nasceu o Budismo: Sidharta Gautama era um príncipe indiano que ao conhecer a miséria, a dor, a velhice e a morte, entrou em uma crise existencial e decidiu abandonar as riquezas de seu reino para dedicar-se à procura do verdadeiro significado da vida. Após longo cominho de ascetismo, o príncipe Gautama recebeu uma inspiração divina e apresentou à humanidade o sistema de pensamento budista. Poderíamos condensar o pensamento budista no axioma:

“Assim como abelha pousa sobre as flores para delas lhes extrair o néctar, sem danificá-las, assim seja o homem sobre a terra.”

Será que de sã consciência poderíamos dizer que tal doutrina é má? As religiões não existiriam sem os seus livros básicos. Se formos analisá-los imparcialmente, descobrimos que, em essência , elas nada mais soa que códigos de éticas e moral. Em geral, todas as religiões apresentam princípios fundamentais comuns, tais como o amor, a paz, a verdade, a bondade, a pureza, etc.Indispor-se contra a religião é, literalmente, indispor- se contra a própria sociedade humana. Por quê? Porque são os princípios morais e éticos que constituem os elos primários para a unidade entre os homens, e também o elemento de ligação fundamental para a associação e duração das relações sociais, ou seja, da própria sociedade. A indisposição do marxismo com a religião representa verdadeiramente sua indisposição com a sociedade humana. Por tal motivo, observamos anteriormente, o marxismo está causando imensa destruição no mundo livre e também no mundo comunista, revelando,-se uma doutrina forjada para o aniquilamento

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recíproco das sociedades comunistas liberais. Temos firme convicção de que tal fenômeno de aniquilação recíproca não é do conhecimento dos marxistas. Creio que, até aqui, ficou claro para o leitor que o posicionamento de Marx contra a religião não é um reflexo de seu amor pela humanidade que, à sal época, estava sendo abandonada e até explorada pela religião (não devemos nos esquecer, especificamente, a igreja católica que representava o grande poder religioso na Europa da época). Mas convém recordar que Marx e seus amigos eram antideus e anti-religiosos, e não simplesmente ateus. A finalidade de guerra de Marx contra a religião era muito mais motivada pelo seu desejo de conduzir os trabalhadores cristãos à luta revolucionaria. Era necessário fazê-lo esquecer o perdão, a fé em Deus e a esperança na vida eterna, para que se predispusessem a matar os seus semelhantes. Naturalmente, o leitor poderá acrescentar outras razões mais profunda e, quiçá, mais misteriosas que estas. Contudo, deixamos ao seu critério tais deduções.

2) Marx também se opôs à Filosofia Idealista

Para o escritor Leszec Kolakowski em obra intitulada Correntes Principais do Marxismo, Marx foi um filósofo alemão. Será que esta definição é realmente aplicável ao caso de Karl Marx? Nestes trechos, iremos analisar parcialmente essa questão e também a afirmação de que o marxismo possui caráter cientifico. Marx e Engels apresentam uma definição grosseira da filosofia afirmando-a como “instrumento da classe dominante par proteger os seus lucros e perpetuar seu domínio.” Marx cita alguns exemplos na filosofia de Tomas de Aquino que “ajudou a racionalizar o poderio papal”, etc. Como resposta a essa tosca perspectiva, gostaria de citar o ponto de vista do Dr. Sang Hun Lee, em sua obra Comunismo Crítica e Contraproposta (The Freeedom Leadership Foundation, Inc. 1973):

“Essa afirmação de Marx, não é verdadeira. Naturalmente, há casos em que a filosofia foi utilizada pela classe dominante, mas nem todas as filosofias mostraram um sectarismo. Também é falso dizer que todos os poderes revolucionários tiveram sempre uma perspectiva materialista. O Império romano, uma sociedade de orientada para a escravatura, não pela classe oprimida. A própria filosofia não é a aprendizagem do partidarismo; é uma ciência que busca a verdade. Filosofia veio a ser necessária com o fim de resolver, dentro da verdade, todos os problemas da vida humana. Mesmo que os pontos de vista dos filósofos (suas teorias) tenham sido

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diferentes, a atitude para encontrar a verdade tem sido a mesma. De igual modo o partidarismo tem de ser estudado, par se achar quanto de verdade contem. A filosofia tem sido a ciência da verdade, não a ciência do partidarismo. A princípio, todas as filosofias têm de tornar-se ciências da verdade antes de serem ciências do partidarismo. As filosofias que vem a ter significado duradouro não são as que cotem mais partidarismo, mas as que cotem mais verdade.”

A finalidade central da filosofia é a descoberta da verdade última sobre o ser e o existir. A filosofia, a nosso ver, tem sido um meio para a descoberta dos verdadeiros que poderão trazer a Deus e à humanidade a alegria, que constitui a finalidade de existência do Cosmos. No final da história, a filosofia dará o seu fruto derradeiro, a sua contribuição na estrutura de uma Ideologia Absoluta a qual, por ser totalmente verdadeira,

será aceita por todos os homens. Assim, descoberta desses princípios verdadeiros, tem sido a finalidade essencial da filosofia através da história. É um disparate a afirmação marxista de que a filosofia é um “mero instrumento de opressão.” Vejamos alguns fatos sobre o comportamento de Marx através dos quais poderemos melhor vislumbrar seu perfil moral. A filha de Marx, Eleonor Marx, escreveu um livro no qual conta que Marx costumava contar historias de terror a seus filhos, quando crianças, sobre um feiticeiro chamado Hans Rockle, que tinha feito pacto com o antideus. (O Mouro e o General, Recordações de Marx e Engels, Eleonor Marx, Dietz Publishing House , Berlim, 1964.** . Pode considera-se uma atitude dessa normal? Muito menos poderemos considerá-la cientifica.mesmo após ter se revoltado com a religião, Marx conservou uma postura mística em todas suas atitudes até o final da vida.

O escritor Arnold Kunzli, em seu livro Karl Marx Um

Psicograma (Europa Verlag. Zurich, 1966) relata que Marx era um

homem irresponsável par com sua família. Era egoísta e sempre viveu na miséria por causa de sua vida econômica desorganizada.

O seu extraordinário conhecimento de línguas poderia ter-lhes

fornecido uma boa renda paralela. Diz ainda Arnold Kunzli que a vida que Marx levava conduziu ao suicídio duas e um genro. Três de seus filhos morreram de subnutrição. Uma das filhas casadas, chamada Laura, também teve três de seus filhos mortos,. Ela mesma suicidou juntamente com o marido, o socialista Laforgue. Eleonor decidiu tomar a mesma atitude,. Ela morreu, mas o marido retrocedeu no ultimo instante.

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Um outro escritor, chamado Rolf Bauer, Descreveu a vida financeira de Marx em seu livro Genis end Reichtum. Diz-nos ele:

“Enquanto era um ‘filhinho de papai’ estudante da Universidade de Berlim, Marx recebia 700 tálers (aproximadamente 900 marcos alemães) par ‘pequenos gastos’. Era uma soma enorme porque na época. Apenas cinco por cento da população tinha uma renda superior a 300 tálers mensais. No decorrer de sua vida, Marx recebeu de Engels cerca de 6 milhões de francos franceses ao valor da época. (Números do Instituto Marx-Engels).**

Marx não possuía sentimentos de delicadeza e amabilidade para com os amigos e nem, par com os parentes. Chamava os proletários de “loucos.” Em uma carta dirigida a Sorge, datada de 19 outubro de 1877, Marx escreveu:

Os trabalhadores, por si mesmos, quando deixam o trabalho e tornam-se literatos profissionais geram sempre,“teoricamente”, o mal e estão sempre prontos a ajuntarem-se a cabeças confusas.”

Chamou Feiligranth de “o porco”; Lassalle de “negro judeu”, Liebknetcht de “um boi”; e Bakhunin de “um zero teórico.” Em sua correspondência para Engels, revela-nos os seus sentimentos para com os familiares quando escreve sobre o seu tio que agonizava: “se o cão morrer, estarei fora de complicações.” Engels lhe respondeu: “Congratulo-me pela doença do estorvador de uma herança, e espero que a catástrofe aconteça agora.” Quando finalmente o tio de Marx morreu, ele voltou a comunicar a Engels o fato em 8 de março de 1885:

“Um acontecimento muito feliz. Ontem soubemos da morte de meu tio, de 90 anos de idade. Minha esposa receberá cerca de 100 libras; até o velho não deixou parte do dinheiro à mulher que administrava sua casa.”**

Marx nutria por seus parentes mais próximos, como sua mãe, um sentimento semelhante. Em dezembro de 1863, escreveu uma carta a Engels dizendo:

“Duas horas atrás chegou um telegrama dizendo que minha mãe esta morta. O destino precisava levar um membro da família. Ela já estava com o pé no túmulo. Sou mais necessário do que a velha senhora. Tenho de ir a Trier por causa da herança.”

Note-se que ele deveria ir a Trier, não pela morte da mãe, mais tão somente por causa da herança. Também quando da morte do “velho cão”

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(seu tio) Marx falou entusiasmado sobre a herança. O pastor Wurmbrand cita em seu livro que:

“Marx era um intelectual de alto nível, bem como Engels. Entretanto sua correspondência está cheia de obscenidades incomuns a esta classe social. A linguagem suja é abundante, mas não há sequer uma carta na qual se encontre Marx falando sobre seu sonho humanitário e socialista.”**

Vejamos mais algumas frases “humanistas” de Marx:

Um amigo de Marx, chamado Weitling, disse: “a conversa usual de Marx é sobre ateísmo, guilhotina e comentários sobre Hegel de fio a pavio.” Marx morreu no dia 3 de março de 1883, aos 65 anos de idade. Antes de sua morte escreveu a Engels dizendo: “como a vida é insípida e vazia, mas como é desagradável.” Irônica conclusão para aquele que também escreveu: “A violência é a parteira que tira a nova sociedade do útero da velha sociedade.”(O Capital), e que por suas palavras, indiretamente, destruiu a vida de mais de 150milhoes de seres humanos que como ele, também tinha o mesmo amor pela vida. Outro contemporâneo de Marx, chamado Mazzine, escreveu as seguintes palavras: “Ele possui um espírito destrutivo. Seu coração está mais repleto do ódio que amor pelos homens” (todas essas citações foram extraída da obra de Fritz Raddatz Karl Marx. Hoffmann & Publishing Housem, Alemanha, 1975).**

O mito da ciência marxista

Após a apreciação de todos essas frases e atitudes estranha de Marx (para dizer o mínimo e deixar ao leitor a liberdade de satisfazer sua curiosidade por si mesmo), poder-se-á garantir-lhe o título de cientista? Pelo que se convencionou, um cientista é um estudioso e amante do conhecimento, que dedica sua vida à descoberta dos princípios da natureza visando ao bem estar geral da humanidade. Será que os sentimentos e as motivações de Marx, para formular suas teorias, estavam imbuídos desse espírito benfazejo? Serão as suas teorias verdades científicas de facto? Um homem desequilibrado emocionalmente, imbuído de sentimentos do ódio e revolta e possuidor de um caráter como o de Marx , conforme foi apresentado sem eufemismo, jamais poderia ter encontrado o meio pelo qual a humanidade encontraria a paz a felicidade eterna. Quanto à sua “obra cientifica” analisaremos simplesmente o pilar fundamental de sua teoria A Dialética e, se esta pedra fundamental do

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marxismo for um sofismo, todo o resto, naturalmente ruirá (esse de fato é o caso, como prova o Dr. Sang Hun Lee). De acordo com Marx, todos os seres são constituídos de duas partes denominadas tese e antítese, as quais estão em constante conflito entre si. É esse conflito que dá origem e possibilita a existência dos seres, produz o movimento e o desenvolvimento. É através dessa relação contraditória que brota o desenvolvimento. O exemplo clássico citado é op exemplo do ovo. Diz-me que o ovo é a tese que contem em si dois elementos em conflito que são o embrião e a casca, os quais correspondem à tese e à antítese, respectivamente. Como resultado desse conflito, nasce o pintinho que não é o ovo, nem o embrião ou a casca, mas um novo ser superior. Convém lembrar que a dialética hegeliana foi aplicada ao desenvolvimento das ideias , e nela, uma das partes contrárias não era destruída. Marx aplicou a dialética hegeliana ao desenvolvimento social e material e, na dialética marxista, uma das partes contrárias é obrigatoriamente destruída. Analisemos melhor. Serão mesmo contrários os elementos duais de que são constituídos os seres? Essa afirmação é um disparate lógico! A princípio, é indiscutível que sem a casca, o pintinho jamais poderia vir a existir. O que, de antemão, já anula a possibilidade de

serem contrários. O critério básico para se analisar a questão dos contrários

é a função dos seres. Qual a função da casca? Poderemos aplicar essa

indagação para a análise geral dessa questão. Serão contrários o próton e o elétron, o esquerdo e o direito, o baixo e o alto, a produção e a distribuição,

o homem e a mulher? O pensamento Deusista propõe que não existem tese

ou antítese, mas sim sujeito e objeto. Afirma que todos os seres são

constituídos de pares distintos e complementares, denominados sujeito- objeto, em constante movimento harmonioso; que a harmonia é a base da existência dos seres duais em todo o Cosmo (na natureza e na sociedade) e que essa dualidade é reflexo do Ser Original Deus que através dela se projetou visivelmente. Em última análise, poderíamos dizer que nem mesmo

o fogo e a água são contrários, visto que ambos são responsáveis pelo

equilíbrio térmico da Terra. A presença do fogo impede o excesso do frio, e

a presença da água impede o excesso do calor. Assim. Ambos possuem

funções complementares indispensáveis! O professor e escritor Heraldo Barbuy em seu livro Marxismo e Religião, alude à suposta “ciência marxista” nos seguintes termos:

“Se o marxismo vivesse como doutrina cientifica, como viveu, por exemplo, a teoria da geração espontânea, não poderia resistir à contestação dos fatos e das novas perspectivas da ciência atual. Mas não; ele vive como esperança e como uma fé.”

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“O marxismo tornou-se, como todas as contrafacções do Cristianismo, um credo religioso de salvação internacional. Não se trata de um sistema cientifico, mas de uma religião que quer salvar não o homem, como pessoa individual, mas como gênero abstrato ”

O ex-comunista e escritor religioso francês, Ignace Lepp, em seu livro Itinerário de Marx a Cristo * , escreveu um interessante trecho chamado “A Ciência Marxista.” Transcrevo-o aqui par a apreciação do leitor:

“Como todos os marxistas, eu confessava, naturalmente, a mais viva admiração pela Ciência. Assim, como os crentes grafam com maiúsculas a palavra “Deus”, nós usávamos necessariamente a maiúscula para a palavra “Ciência.” Ao nosso ver, só podia existir verdade cientifica e, em nossas discussões, somente os argumentos científicos tinham valor. “Não me parece contudo, que a concepção que fazíamos da Ciência fosse totalmente idêntica à dos sábios do século XX. Sem muito espírito critico, havíamos adotado, em conjunto, a ideia dominante no século XIX, a Ciência tal qual a conheceram Marx e Engels. Para eles a Ciência opunha- se às explicações teológicas e metafísicas como a verdade se opõe aos mitos e à mistificação. Os sábios de nossa época tornaram-se mais modestos. Já não esperam atingir com seus instrumentos, apesar de tudo, mais aperfeiçoados, a verdade total e definitiva. Deixam cair a maiúscula e, de preferência, falam em ciências e não em Ciência. “Professando uma concepção da Ciência pelas ciências, nos havíamos, sem o saber, retornando exatamente àquela atitude intelectual que, com a etiqueta de “metafísica”, Marx havia condenado. Proclamávamos ruidosamente que também a dialética marxista era a Ciência e que as demais ciências não poderiam ser eficientes senão em virtude de sua subordinação à dialética materialista. A dialética de Hegel não se interessava senão pelas ideias eternas. À dialética marxista, porém , atribuímos não só a virtude de proporcionar um conhecimento perfeito do mundo material real, mas também de ser o mais eficaz instrumento de sua transformação. Assim, ainda uma vez sem o sabermos, nos púnhamos de pleno acordo com os escolásticos tão insultados pela filosofia pós- cartesianal! Também par eles existia uma Ciência suprema que nada tinha em comum com as ciências experimentais: era a metafísica. A dialética para nos, exatamente como a metafísica par os escolásticos, era o critério e a garantia da verdade das demais ciências.

* Editora Agir, quarto capítulo, às páginas 115, 116 e 117.

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“A dialética materialista deveria, ao nosso ver, possibilitar atingir, no domínio do conhecimento cientifico do real, resultado pelo menos tão grandiosos como aqueles que a dialética hegeliana havia conseguido no domínio da fenomenologia do espírito. Acaso Engels não afirmado que, já em seu tempo, as mais importantes descobertas cientificas eram devidas à aplicação, muitas vezes involuntária, da dialética materialista? Assim, atribuía a esta a descoberta da célula como unidade, da conservação da energia, da evolução por Darwin etc. eu não estava, evidentemente, em condições de verificar a verdade de tais assertivas, mas como se enquadravam bem na ideia que eu fazia do marxismo! Não hesitava, portanto, e continuava a narrar esses fatos e a estender, por minha conta, essas ideias de Engels a outros domínios. “Sendo bom marxista, não podia atribuir somente ao gênero humano os progressos científicos. Como todas as coisas, também esses progressos deveriam ser determinados pelo desenvolvimento dos meios de produção. Além do mais, não foi o sábio marxista inglês J. B. S. Haldane que, em sua obra A Filosofia Marxista e as Ciências, adotou uma posição intermediaria semelhante? A astrologia teria nascido da necessidade que tinham os povos primitivos de calcular os acontecimentos importantes par obter a própria subsistência; por exemplo, a estação em que as ovelhas dão cria ou a cheia do Nilo. Depois, estabeleceu-se o calendário, que por sua vez, e em virtude de outras necessidades econômicas, teria gerado a aritmética mais complexa. A agrimensura estaria na origem da geometria ; as necessidades da artilharia teriam levado ao estudo da balística que, por sua vez, teria culminado na dinâmica de Newton. Não hesitávamos mesmo em atribuir à dialética materialista a teoria dos quanta, bem como todas a física e toda a química modernas. Acreditávamos, com efeito, descobrir, em textos obscuros de Engels, a predição não profética, mas científica de todos os progressos científicos ulteriores. “Na biologia, a doutrina darwinista da evolução das espécies se apresentava par nós como verdade primeira, que ninguém tinha o direito de por em dúvida. Recusávamos, naturalmente, toda a separação de “natureza” entre o biológico, de uma parte, e o químico e o mecânico, outra. Bérgson fora condenado pelos marxistas exatamente por ter estabelecido a irredutibilidade do vital ao mecânico. É verdade que Bérgson havia inquietado, ao mesmo tempo e por motivos opostos, também os católicos. Estes temiam que seu vitalismo fosse irreconciliável com um espiritualismo autentico. Hoje, depois que o livro Deux Sources de la Morale et de la Religion manifestou o verdadeiro espírito bergsoniano, é necessário reconhecer que, com relação ao bergsonismo, os marxistas

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foram, no começo, mais perspicazes que os cristãos. De fato, a filosofia de Bérgson aluiu os fundamentos do materialismo e não do espiritualismo. “O mais difícil foi dialetizar a psicologia. Para que o edifício marxista do saber humano permanecesse sem fissuras, começamos por rejeitar, em princípio, como anticientifico, todo e qualquer conhecimento do irracional. Este não passa, o nosso ver da sobrevivência absurda mentalidade primitiva. O homem civilizado, tal como o concebia o marxismo, não deveria agir em função exclusiva de categorias racionais. Nesta perspectiva, o psíquico não passaria de um grau mais evoluído do fisiológico. Somente aceitávamos uma psicologia redutível à filosofia e portanto, em última análise, à química e à mecânica. Embora Lênin não possuísse nenhuma competência particular no domínio da psicologia, em meus cursos e artigos sentia-me feliz em poder apoiar-me na seguinte frase escrita por ele “A eliminação do dualismo espíritocorpo por meio do materialismo consiste em professar que o espírito não tem existência independente do corpo, pois nada mais é que um fator secundário, uma função do cérebro, imagem do mundo exterior.” “Em minha obstinação de tudo explicar à luz da dialética marxista, havia sem dúvida, a necessidade de adquirir confiança em mim mesmo. Pois, como poderia eu deixar de perceber, de quando em quando, a força e a grandeza de certas filosofias que os estudos universitários me obrigavam a aprofundar?”

Para concluir, gostaria de citar um trecho da obra do Prof. Plínio Correia de Oliveira “As Cebs das quais muito se fala e pouco se conhece A TFP as descreve como são”:

Pretender que o marxismo seja uma ciência é, em rigor de lógica, um absurdo. Pois como provas cientificas das suas conclusões, ele simplesmente e apresenta suas premissas teóricas. Por outro lado, os fundamentos doutrinários do marxismo não são dedutíveis por via lógica, a partir de pressupostos bem demonstrados, mas na mera decorrência de afirmações gratuitas, tomadas como se fossem dados empíricos revelados. Como a partir do absoluto (como a dialética) tudo é possível, uma vez aceitas como validas essas afirmações, pode-se construir todo um sistema com aparência de correção lógica, no qual umas afirmações vão servindo de “prova” e de sustentação às outras. O padre Baldonero Ortoneda * ,

* Princípios Fundamentais do Marxismo-Leninismo, Pe. Baldonero Ortoneda, México – Madrid, 1974).

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jesuíta espanhol, auxiliado por uma equipe e orientado por especialistas, deu-se ao trabalho de analisar do ponto de vista da filosofia e das ciências naturais, os princípios básicos do marxismo-leninismo. Ao final de 700 páginas de comparação das afirmações (mais de 15 mil afirmações) de uma amostragem de cerca de 900 autores marxistas, com os dados reais da biologia, da química, da física, da geologia e das matemáticas, além da filosofia, constatou a existência de nada menos que 400 erros de caráter cientifico, 600 erros de raciocínio e 200 erros filosóficos! Tal fato desqualifica totalmente qualquer sistema. Por conseguinte, a “análise marxista” da realidade não é senão a adaptação da realidade aos pressupostos apriorísticos dos marxistas. Assim, a realidade não é investigada segundo a objetividade dos fatos, mas interpretada e adaptada às conclusões prévias da doutrina e de acordo com a vontade premeditada dos seus autores.”

PARTE II

A MÍSTICA DO PENSAMENTO MARXISTA

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Capítulo 7

IDEAL E IDEOLOGIA

A questão do ideal e da ideologia está diretamente relacionada com o homem. Somente o ser humano busca ideias e ideias, porque é dotado de razão e emoção como nenhum outro ser da natureza. Estudando os grandes movimentos históricos, notamos que todos eles possuem uma motivação sentimental (ideal) e uma orientação intelectual (ideologia). Constatamos que sem estas forças, as ações humanas não possuem sentido, nem direção. Conseqüentemente, nada realizam. Analisemos mais profundamente através de exemplos. No antigo Egito, na época do faraó Ramsés II (contemporâneo de Moises), a construção da cidade de Ramsés foi o ideal que movia o império Egípcio naquele período. A ideologia do império egípcio na época eram os conhecimentos científicos que os egípcios cultivavam, como um privilégio

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dos sábios e sacerdotes. Foi devido a tais conhecimentos que as pirâmides e

as esfinges tornaram-se uma realidade extraordinária que, ainda hoje,

constituem uma incógnita desafiando os conhecimentos da ciência atual. Naturalmente as pirâmides e as esfinges constituíram os ideais das dinastias anteriores. O ideal e a ideologia representam o que fazer o quê e o como fazer o como. Semelhante ao objetivo e a estratégia e aos temas e as

técnicas dos artistas. Na época de Noé, a construção da arca foi o seu ideal, a ideologia foram as suas palavras, para os povos injustos da época. Nos tempos de êxodo dos judeus no deserto, sob a liderança de Moises, o ideal foi o tabernáculo, e a ideologia, os Mandamentos. No reinado de Salomão, a construção do templo foi o ideal; as leis mosaicas e

os ensinamentos do Pentateuco, a ideologia. O rei Nabucodonosor construiu

os jardins suspensos da Babilônia como o seu grande ideal. A sua ideologia

foi representada pelos conhecimentos que ele tanto amava e pelos quais construiu a Grande Biblioteca da Babilônia. Na Grécia Antiga, o Helenismo constituiu a ideologia, enquanto a beleza espelhada na arquitetura das cidades, nas artes e os esportes foram os seus grandes ideais. Na Roma de Nero, a construção da Nova Roma (pela qual mudou incendiar a antiga) foi o seu grande ideal, enquanto constituiu a ideologia do império romano (o estoicismo foi um reflexo do Helenismo na cultura e no pensamento romano, após a Grécia ter sido conquistada pelo império romano). Jesus

trouxe para o povo judeu um novo ideal O Reino do Céu na Terra e

uma nova ideologia ― o Cristianismo ―, ainda latente nos evangelhos. Na

época do imperador Constantino, quando os cristãos sobrepujam o império

romano, sendo a religião cristã oficializada pelo imperador, havia a necessidade de uma ideologia mais clarificada para que os cristãos unissem

os povos ao redor do seu ideal, que era a construção do Reino do Céu na

Terra. Santo agostinho foi o personagem histórico a quem coube o papel de

cristalizar a ideologia cristã. Após 14 anos de estudo e trabalho, ele apresentou em 22 volumes sua obra prima A Cidades de Deus. Nela, Santo

Agostinho traçou com clareza o ideal e a ideologia cristã. Foi após essa obra que o Cristianismo iniciou sua expansão mundial. O ideal e a ideologia cristão foram as forças estimulantes da Europa até a época da Revolução Francesa. Época em que se estruturava um novo ideal e uma nova ideologia.

O novo ideal era “A Republica Democrática” e a nova ideologia, o

Iluminismo. O cristianismo, como ideologia baseada apenas na fé, estava

suplantado por uma ideologia baseada na filosofia e na ciência dos séculos

XVIII e XIX, e o ideal cristão de separar o homem do mal, purificando-o

através de uma vida santa par encaminha-lo ao céu após a morte, estava

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suplantado pelo ideal de construir uma sociedade liberal real sobre a Terra no aqui e agora; de qualquer forma e pro quaisquer meios. Inclusive a violência! O Pietismo, o Quakerismo, o Metodismo, o Puritanismo, o Mormonismo e o Espiritualismo (grande movimento cristão de pesquisas e práticas espirituais, tendo como principal expoente o visionário alemão Immanuel Swedenborg); somados todos esses movimentos surgidos nos séculos XVIII e XIX, poderemos afirmá-los como uma nova expressão mais real e concreta do ideal e da ideologia cristã.Paralelamente, uma outra ideologia e um outro ideal se estruturava com base na filosofia e na ciência dos séculos XVII e XIX; o marxismo e a sociedade comunista ateia (o socialismo cientifico). O marxismo, afirmado-se materialista e cientifico, tem confrontado e batido o cristianismo, enquanto sistema de pensamento apoiado na filosofia idealista e na teologia dogmática. Por outro lado, o ideal da “sociedade comunista ateia”, fundamentando-se na acusação contra os equívocos ideológicos cometidos pelo cristianismo na hipocrisia religiosa e na falsa moral social existente na sociedade democrática cristã (notoriamente, o egoísmo materialista), vem se sobrepondo ao ideal social cristão, a ponto de converter pacíficos religiosos ao ateísmo e a violência. Tal é a força da ideologia e do ideal. Urge, pois, que surja na terra uma nova ideologia e um novo ideal superiores à ideologia marxista e ao ideal comunista. Essa nova ideologia e esse deverão possuir uma poderosa base teológica, filosófica e científica, e ser capaz de despertar uma verdadeira revolução intelectual e moral no mundo. Afinal, o que é o ideal e a ideologia e qual a sua importância? O ideal é um dos impulsos fundamentais dos indivíduos e dos grupos. é o ideal que une o grupo para a sua realização. Mesmo uma coisa simples como arrastar uma arvore caída constitui um ideal poderoso ao redor do qual os homens se unem e, numa euforia contagiante, juntos, arrastam a árvore machucando suas mãos e cansando os seus corpos sem sequer o notarem ou se incomodarem consigo mesmo. Essa é a força extraordinária que um ideal exerce sobre um indivíduo, um grupo, uma sociedade ou uma nação. O patriotismo o amor, preservação e a prosperidade de nação é um belo exemplo de um ideal nacional. Mesmo as Guerras Mundiais são exemplos máximos da força do ideal de liberdade e capaz de liberdade e paz para o lado do mundo que se defendia. Por sua vez, ideologia possui também um imensurável valor e peso nas ações humanas. Como anteriormente citamos, a ideologia é o plano, a

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estratégia indispensável a uma correta tática; são as técnicas sem as quais seriam impossíveis as artes humanas. Agir sem uma ideologia é o mesmo que iniciar uma construção qualquer sem um projeto anterior, assim como o projeto de uma construção estabelece todos os elementos e medidas necessárias para a solidez e durabilidade da obra construída, a ideologia estabelece todos os princípios (ética, moral e leis) transmateriais para a solidez e unidade da sociedade humana. As ciências da Administração nos ensinaram que as atividades não planejadas anteriormente, tornam-se atividades improdutivas que devido a um alvoroço, agitação e cansaço, dão

a ilusão de produtividade. Na realidade, a falta de alternativas para as

imprevisibilidades corriqueiras acabam gastando todo o tempo útil e tornam todos os esforços para uma maior produtividade, inúteis. O Cristianismo é o conjunto de todas as ideias de índole teísta e pacifica que até então havia florescido na Terra. Nos evangelhos de Jesus, podemos encontrar traços do hinduísmo, budismo, confucionismo, judaísmo e traços do pensamento helênico idealista. A ideologia é o próprio sentido das ações e das reações humanas na sociedade. Para que homens se associem e cooperem entre si, é necessário um ideal comum que ofereça benefícios, e uma ideologia uma orientação ética, moral e intelectual para a realização do ideal desejado. De outra forma , união e a cooperação tornam-se impossíveis. Do indivíduo ao mundo, a existência de um ideal e de uma ideologia são as bases elementares das suas ações. O ideal é a motivação sentimental que gera esperança e estimulo de dedicação e abnegação, que dão sentido e motivação para vida. A vida humana, desprovida de um ideal, não possui sentimento. Já a ideologia é a orientação intelectual que dirige as ações humanas por caminhos precisos para a realização do ideal. A ideologia indica os caminhos para se atingir o ideal. O psicólogo e psicanalista vienense, Victor Frankl, criador da Logoterapia, afirma como postulado básico de suas teorias sobre a neurose humana. Na obra fundamental O Deus Desconhecido, que “a falta de sentido e busca por Deus, constituem a causa essencial da neurose.” Vejamos que Frankl considerado o criador da terceira escola psicanalítica vienense (o primeiro foi Freud e o segundo Adler), confirmou com fartos argumentos a importância de um ideal para a vida dos seres humanos. Daqui podemos inferir que, desiludido com seu individualismo de

ser artista-poeta, desiludido com a família e sua sociedade, e desiludido com

o ideal e ideologia cristã, Marx perdeu o sentido da sua existência e

expressou clara mente em seus poemas. Ao entrar em contato com a filosofia idealista alemã, os ideais dos economistas ingleses, e os filósofos

iluministas franceses, Marx encontrou outra vez os subsídios para adquirir

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um novo ideal e uma nova ideologia. Quando encontrou Moses Hess, definitivamente se definiu.

Capítulo 8

PROPÓSITO E