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Organizações Anárquicas

Programa e Objetivo da
Organização Secreta
Revolucionária
Irmandade Internacional
Mickail Bakunin

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Organizações Anárquicas

A Associação Irmandade Internacional quer a


revolução universal, social, filosófica, econômica e política
ao mesmo tempo, para que da ordem atual das coisas,
fundada sobre a propriedade, a dominação e o princípio de
autoridade quer religiosa, quer metafísica e burguesamente
doutrinária, quer até mesmo jacobinamente revolucionária,
não sobre em toda Europa num primeiro momento, e depois
no resto do mundo, pedra sobre pedra. Ao grito de paz aos
trabalhadores, liberdade a todos os oprimidos e morte aos
dominadores, exploradores e tutores de qualquer espécie,
queremos destruir todos os Estados e todas as igrejas, com
todas as suas instituições e suas leis religiosas, políticas,
jurídicas, financeira, policiais, universitárias, econômicas e
sociais para que todos estes milhões de pobres seres
humanos escravizados, atormentados, explorados, libertos
de todos os diretores e benfeitores oficiais e oficiosos,
associações e indivíduos, respirem enfim em completa
liberdade.
Convencidos de que o mal individual e social reside
muito menos nos indivíduos do que na organização das
coisas e nas posições sociais, nós seremos humanos tanto
por sentimento de justiça quanto por cálculo de utilidade, e
destruiremos sem piedade as posições e as coisas a fim de
poder, sem nenhum perigo para a revolução, poupar os
homens. Negamos o livre-arbítrio e o pretenso direito da
sociedade de punir. A própria justiça tomada no seu sentido
mais humano e mais amplo, é apenas uma idéia, por assim
dizer, negativa e de transição; ela coloca o problemas social
mas não o resolve, indicando apenas o único caminho
possível para a emancipação, isto é, de humanização da
sociedade pela liberdade na igualdade; a posição positiva só
poderá ser dada pela organização cada vez mais racional da
sociedade. Esta solução tão desejada, ideal de todos nós, é
a liberdade, a moralidade, a inteligência e o bem-estar de
cada um pela solidariedade de todos, a fraternidade
humana.
Todo o indivíduo humano é o produto involuntário de
um meio natural e social no seio do qual nasceu,
desenvolveu-se e do qual continua a sofrer influência. As
três causas de toda a imoralidade humana são: a
desigualdade tanto política quanto econômica e social; a

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ignorância que é seu resultado natural e sua conseqüência


necessária: a escravidão.
A organização da sociedade sendo sempre e em
todos os lugares a única causa dos crimes cometidos pelos
homens, há hipocrisia ou absurdo evidente da parte da
sociedade em punir os criminosos, um vez que toda a
punição supõe a culpa e os criminosos não são nunca
culpados. A teoria da culpa e da punição surge da teologia,
isto é, do casamento de absurdo com a hipocrisia religiosa.
O único objetivo que se pode reconhecer à sociedade, em
seu estado atual de transição, é o direito natural de
assassinar os criminosos produzidos por ela mesma no
interesse de sua própria defesa e não a de julgá-los e
condená-los. Este não será propriamente um direito, na
acepção estrita do termo, será antes um fato natural, aflitivo
mas inevitável, signo e produto da impotência e da
estupidez da sociedade atual: e quanto mais a sociedade
souber evitar de utilizá-lo, mais ela estará próxima de sua
real emancipação. Todos os revolucionários, os oprimidos, os
sofredores, vítimas da atual organização da sociedade e
cujos corações estão naturalmente cheios de vingança e de
ódio, devem lembrar-se de que os reis, os opressores, os
exploradores de toda espécie são tão culpados quanto os
criminosos saídos da massa popular: eles são malfeitores
mas não culpados, pois são, como os criminosos comuns,
produtos involuntários da atual organização da sociedade.
Não devemos nos espantar se no primeiro momento, o povo
rebelado mate muito. Será talvez um infelicidade inevitável,
tão fútil quanto os estragos causados por uma tempestade.
Mas este fato natural não será nem moral, nem
mesmo útil. A este respeito, a história está cheia de
ensinamentos: a terrível guilhotina de 1793 que não pode
ser acusada nem de preguiça, nem de lentidão, não chegou
a destruir a classe nobre da França. A aristocracia foi se não
completamente destruída ao menos profundamente
abalada, não pela guilhotina, mas pelo confisco e venda de
seus bens. E em geral, pode-se dizer que a carnificina
política nunca matou os partidos; mostram-se sobretudo
impotentes contra as classes privilegiadas, porque a força
reside menos nos homens da que nas posições ocupadas

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pelos homens privilegiados na organização das coisas, isto


é, a instituição do Estado e sua conseqüência assim como
sua base natural, a propriedade individual.
Para fazer um revolução radical é preciso, pois,
atacar as posições e as coisas, destruir a propriedade e o
Estado, assim não se terá a necessidade de destruir os
homens, e de condenar-se à reação infalível e inevitável que
o massacre dos homens nunca deixou e não deixará nunca
de produzir em cada sociedade.
Mas para ter o direito de ser humano para com os
homens, sem perigo para a revolução, será preciso ser
impiedoso para com as posições e as coisas: será preciso
destruir tudo e, principalmente e antes de tudo, a
propriedade e seu corolário inevitável: o Estado. Este é o
segredo da revolução.
Não é preciso espantar-se se os jacobinos e os
blanquistas que se tornaram socialistas antes por
necessidade que por convicção, e para quem o socialismo é
um meio, não o objetivo da Revolução. Pois eles querem a
ditadura, quer dizer, a centralização do Estado e que o
Estado os leve por necessidade lógica e inevitável à
reconstituição da propriedade, é natural, dizemos nós, que
não querendo fazer uma revolução radical contra as coisas,
sonhem com uma revolução sanguinária contra os homens.
Mas esta revolução sanguinária baseada na construção de
um Estado revolucionário, fortemente centralizado, teria
como resultado inevitável, como provaremos mais tarde, a
ditadura militar com um novo senhor. Logo, o triunfo dos
jacobinos e dos blanquistas seria a morte da Revolução.
Somos inimigos naturais destes revolucionários,
futuros ditadores, regulamentadores e tutores da revolução,
que, antes mesmo que os estados monárquicos,
aristocráticos e burgueses atuais sejam destruídos, sonham
com a criação de novos Estados revolucionários, tão
centralizados e mais despóticos do que os Estados que
existem hoje, que possuem uma vocação tão grande para
ordem criada por uma autoridade qualquer e um horror tão
grande pelo que lhes parece desordem e que nada mais é
do que a franca e natural expressão da vida popular, que,

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antes mesmo que uma boa e saudável desordem se produza


pela revolução, sonham já com o fim e o cerceamento pela
ação de um autoridade qualquer que só terá o nome da
revolução, mas que efetivamente nada mais será do que
uma nova reação pois será uma outra condenação das
massas populares, governadas por decretos, à obediência, à
imobilidade, à morte, isto é, à escravidão e à exploração por
uma nova aristocracia pouco revolucionária.
Compreendemos a revolução no sentido do
desencadeamento do que se chama hoje de más paixões e
da destruição do que da mesma língua se chama "ordem
pública".
Não tememos, invocamos a anarquia, convencido de
que esta anarquia, ou melhor, da manifestação completa da
vida popular desencadeada, deve sair a liberdade, a
igualdade, a justiça, a ordem nova, e a própria força da
revolução contra a reação. Esta vida nova, a revolução
popular, não tardará sem duvida a organizar-se, mas criará
sua organização revolucionária de baixo para cima e da
circunferência para o centro, conforme o princípio de
liberdade, e não de cima para baixo nem do centro para a
circunferência conforme a moda da autoridade, pois pouco
importa se esta autoridade se chama Igreja, Monarquia,
Estado Constitucional, República burguesa ou até mesmo
Ditadura revolucionária. Detestamos e rejeitamos todos da
mesma forma como fontes infalíveis de exploração e de
despotismo.
A revolução tal como a entendemos deverá, desde o
primeiro dia destruir radical e completamente o Estado. As
conseqüências naturais desta destruição serão:

• A bancarrota do Estado;
• A cessação do pagamento das dívidas privadas pela
intervenção do Estado, deixando a cada devedor o
direito de pagar as suas, se quiser;
• A cessação dos pagamentos de qualquer imposto e
do adiantamento de todas as contribuições, sejam

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diretas ou indiretas;
• A dissolução do exército, da magistratura, da
burocracia, da polícia e do clero;
• A abolição da justiça oficial, a suspensão de tudo o
que juridicamente se chamava direito, e o exercício
desses direitos;
• Por conseqüência, a abolição do auto-de-fé de todos
os títulos de propriedade, formais de herança, de
venda, de doação, de todos os processos, de toda a
papelada jurídica e civil, em uma palavra. Em todo o
lugar e em todas as coisas o fato revolucionário, em
vez do direito criado e garantido pelo Estado;
• O confisco de todos os capitais produtivos e
instrumentos de trabalho em proveito da associação
de trabalhadores que deverão produzi-los
coletivamente;
• O confisco de todas as propriedades da Igreja e do
Estado assim como dos metais preciosos dos
indivíduos em benefício da Aliança Federativa de
todas as associações operárias, Aliança que
constituirá a comuna. Em troca dos bens confiscados,
a Comuna dará o estritamente necessário à todos os
indivíduos que foram despojados, que poderão mais
tarde, com seu próprio trabalho ganhar mais se
puderem e se quiserem.

Para a organização da Comuna: a federação das


barricadas permanentes e a função de um conselho
revolucionário da Comuna pela delegação de uma ou duas
pessoas de cada barricada, uma por rua ou por bairro,
delegados investidos de mandatos imperativos, sempre
responsáveis e sempre revogáveis. O Conselho comunal
assim organizado poderá escolher, entre os seus, comitês
executivos separados por cada ramo da administração
revolucionária da Comuna.
Declaração da capital insurgida e organizada em
Comuna que, depois de ter destruído o Estado autoritário e

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tutelar, o que ela tinha o direito de fazer porque era escrava


como todas as outras localidades, renuncia a seu direito, ou
melhor, a qualquer pretensão de governar, de impor-se às
províncias.
Chamado a todas as províncias, comunas e
associações, convidando a todos a seguirem o exemplo
dado pela capital, de organizar-se primeiro
revolucionariamente e, após, delegar, em um local
convencionado de reunião, seus delegados, todos investidos
de mandatos imperativos, responsáveis e revogáveis, para
constituir a federação das associações, comunas e
províncias insurgidas em nome dos mesmos princípios, e
para organizar uma força revolucionária capaz de triunfar
sobre a reação. Envio não de comissários revolucionários
oficiais com faixas distintivas, mas de propagadores
revolucionários em todas as províncias e comunas,
sobretudo entre os camponeses que não poderão revoltar-se
nem por princípios, nem pelos decretos de uma ditadura
qualquer, mas somente pelo próprio fato revolucionário,
quer dizer, pelas conseqüências que produzirá
infalivelmente em todas as comunas a cessação completa
da vida jurídica, oficial do Estado.
Abolição do Estado nacional ainda no sentido de todo
o país estrangeiro, província, comuna, associação ou até
indivíduos isolados, que se revoltaram em nome do mesmo
princípio, sejam recebidos na federação revolucionária
independente das fronteiras atuais dos Estados, embora
pertencendo a sistemas políticos ou nacionais diferentes, e
que as próprias províncias, comunas, associações,
indivíduos que tomarem partido da reação estarão
excluídos. É, pois pelo próprio fato da eclosão e da
organização da revolução com vistas à defesa mútua dos
países insurgidos que a universalidade da revolução,
baseada na abolição das fronteiras e na ruína dos Estados,
triunfará.
Não pode haver revolução política triunfante, a
menos que a revolução política se transforme em revolução
social, que a revolução nacional precisamente por seu
caráter radicalmente socialista e destrutivo do Estado se

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transforme em revolução universal.


A revolução devendo fazer-se, em toda a parte, pelo
povo, e a suprema direção devendo estar sempre no povo
organizado em federação livre de associações agrícolas e
industriais, organizando-se de baixo para cima por meio da
delegação revolucionária abrangendo todos os países
insurrectos em nome dos mesmos princípios
independentemente das velhas fronteiras e das diferenças
de nacionalidade, terá por objetivo a administração dos
serviços públicos e não o governo dos povos. A aliança da
revolução universal contra a aliança de todas as reações
será a nova pátria.
Esta organização exclui qualquer idéia de ditadura e
de poder dirigente tutelar. Mas, para o próprio
estabelecimento desta aliança revolucionária, e para o
triunfo da revolução contra a reação, é necessário que em
meio à anarquia popular que constituirá a própria vida e
toda a energia da revolução, a unidade de pensamento e de
ação revolucionária encontre um órgão. Este órgão deve ser
a Associação Secreta e Universal Irmandade Internacional.
Esta associação parte da convicção de que as
revoluções nunca são feitas nem pelos indivíduos nem
mesmo pelas sociedades secretas. Elas se fazem por si
próprias, produzidas pela força das coisas, pelo movimento
dos acontecimentos e dos fatos. Elas se preparam durante
muito tempo na profundeza da consciência instintiva das
massas populares, depois explodem, suscitadas
aparentemente por causas fúteis. Tudo o que um sociedade
organizada pode fazer é, primeiramente, ajudar o
nascimento de uma revolução difundindo entre as massas
idéias correspondentes aos instintos das massas de
organizar, não o exército da revolução - o exército deve ser
sempre o povo - mas uma espécie estado-maior
revolucionário composto de indivíduos dedicados, enérgicos,
inteligentes e, sobretudo, amigos sinceros, e não ambiciosos
nem vaidosos, do povo, capaz de servir de intermediário
entre a idéia revolucionária e os instintos populares.
O números destes indivíduos não deve, portanto, ser
enorme. Para a organização internacional em toda a Europa,

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cem revolucionários forte e seriamente aliados, bastam.


Duas ou três centenas de revolucionários bastarão para a
organização do maior país.

Mickail Bakunin, outono de 18681

1 Programa elaborado clandestinamente por Mickail Bakunin em outono


de 1868. Tradução de Zilá Bernd.

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Plataforma
Organizacional
Nestor Makno

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Introdução
É muito significativo que, apesar da força e do
caráter indiscutivelmente positivo das idéias libertárias, da
nitidez e da integridade das posições anarquistas diante da
revolução social; enfim, do heroísmo e dos inúmeros
sacrifícios realizados pelos anarquistas na luta pelo
comunismo libertário, o movimento anarquista continua
fraco e com freqüência tem figurado, na história das luta da
classe operária, como um evento menor, um episódio, e não
como um fator importante.
Essa contradição, entre o fundamento positivo e
incontestável das idéias libertárias e o estado miserável em
que vegeta o movimento anarquista, explica-se por uma
série de causas, das quais a mais importante, a principal, é
a ausência de princípios e práticas organizacionais no
movimento anarquista.
Em todos os países, o movimento anarquista é
representado por algumas organizações locais, que
defendem teorias e práticas contraditórias. Não têm
qualquer perspectiva de futuro nem de continuidade da
ação militante, habitualmente desaparecem sem deixar o
menor traço de sua passagem.
Tal é a situação do anarquismo revolucionário que, se
a tomarmos em seu conjunto, só podemos qualificá-la como
uma "desorganização geral crônica".
Como a febre amarela, a doença da desorganização
apossou-se do organismo do movimento anarquista e o vem
minando há dezenas de anos.
Sem dúvida, essa desorganização deriva de alguns
defeitos da teoria: notadamente, numa falsa interpretação
do princípio da individualidade no anarquismo; este princípio
tem sido com muita freqüência confundido com a total
ausência de responsabilidade. Os amantes da auto-
afirmação, que visam unicamente o prazer pessoal,
agarram-se obstinadamente ao estado caótico do
movimento anarquista e se referem, para defendê-lo, aos
princípios imutáveis do anarquismo e seus mestres.

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Ora, os princípios imutáveis e os mestres


demonstram justamente o contrário.
A dispersão e o desmembramento: eis a ruína. A
união estreita é sinal de vida e de desenvolvimento. Esta lei
da luta social aplica-se tanto às classes quanto aos partidos.
O anarquismo não é uma bela utopia, tampouco uma
abstração filosófica, é um movimento social das massas
trabalhadoras. Por este motivo, deve juntar suas forças
numa organização geral continuamente ativa, como é
exigido pela realidade e a estratégia da luta de classes.
"Estamos convencidos", disse Kropotkin, "de que a
formação de uma organização anarquista na Rússia, longe
de ser prejudicial para a tarefa revolucionária, é, pelo
contrário, desejável e útil no mais alto grau." (prefácio ao
texto "A Comuna de Paris", de Bakunin, edição de 1892.)
Bakunin nunca se opôs à idéia de uma organização
anarquista geral. Pelo contrário, suas aspirações quanto à
organização, assim como sua atividade na primeira
internacional, nos dão todo o direito de vê-lo como um
partidário ativo exatamente de uma tal organização.
Em geral, a maioria dos militantes ativos do
anarquismo combateu toda ação dispersa, e sonhou com
um movimento anarquista firmemente ligado pela unidade
do objetivo e dos meios.
Durante a revolução russa de 1917, a necessidade de
uma organização geral se fez sentir ainda mais intensa e
urgentemente. No decorrer dessa revolução, o movimento
libertário manifestou o mais alto grau de desmembramento
e de confusão. A ausência de uma organização geral fez
com que muitos militantes anarquistas atuassem nas fileiras
dos bolcheviques. Essa ausência é também a causa de
muitos outros militantes, hoje em dia, manterem-se
passivos, impedindo todo uso de suas forças, cuja
importância é bastante considerável.
É vital nossa necessidade de uma organização que,
reunindo a maioria dos participantes do movimento
anarquista, estabelecerá no anarquismo uma linha geral

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tática e política que servirá como guia para todo o


movimento.
Já é tempo de o anarquismo sair do pântano da
desorganização, colocar um ponto final nas infindáveis
vacilações sobre as questões teóricas e táticas mais
importantes, de caminhar resolutamente para o objetivo
claramente identificado e realizar uma prática
coletivamente organizada.
Não basta, porém, constatar a necessidade vital
dessa organização. É necessário, também, estabelecer o
método de sua criação.
Rejeitamos, como teoricamente e praticamente
absurda, a idéia de criar uma organização conforme a
receita da "Síntese", isto é: reunindo os representantes das
diferentes tendências do anarquismo. Tal organização, tendo
incorporado elementos práticos e teóricos heterogêneos,
seria apenas um agregado mecânico de indivíduos, cada
qual tendo um conceito diferente de todas as questões do
movimento anarquista, um agregado que inevitavelmente
se desintegraria ao entrar em contato com a realidade.
O método anarco-sindicalista não resolve o problema
de organização do anarquismo, porque não dá prioridade a
esse problema, interessando-se unicamente em sua
penetração e reforço nos meios operários.
Contudo, não se pode fazer grande coisa nesses
meios, mesmo tendo alguma inserção neles, quando não
existe uma organização anarquista geral.
O único método que soluciona o problema da
organização geral, no nosso ponto de vista, é reunir
militantes ativos do anarquismo numa base de posições
precisas: teóricas, táticas e organizacionais, ou seja: uma
base mais ou menos acabada de um programa homogêneo.
A elaboração de tal programa é uma das principais
tarefas que a luta social dos últimos anos impôs aos
anarquistas. É para a realização desta tarefa que o grupo de
anarquistas russos no exílio dedica uma parte importante de
seus esforços.

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A "Plataforma Organizacional" publicada abaixo


representa, em linhas gerais, o esboço de tal programa.
Deve ser um primeiro passo na reunião das forças libertárias
numa única coletividade revolucionária ativa capaz de lutar:
a União Geral dos Anarquistas.
Não nos iludimos, há lacunas na presente Plataforma.
Sem dúvida, ela tem limitações como toda e qualquer
prática nova de alguma importância. É possível que
algumas posições essenciais tenham sido omitidas e outras
insuficientemente tratadas ou, então, muito detalhadas ou
repetidas. Tudo isso é possível, mas não é o mais
importante. O que importa é lançar os fundamentos de uma
organização geral. Este é o objetivo que alcançamos, em
certa medida, através dessa Plataforma. São tarefas da
coletividade, da União Geral dos Anarquistas: aumentá-la,
aprofundá-la e, mais tarde, fazer dela um programa
definitivo para todo o movimento anarquista.
Noutro plano, também, não nos iludimos. É previsível
que vários representantes do auto-intitulado individualismo
e do anarquismo caótico nos atacarão, espumando de ódio e
nos acusando de trair os princípios anarquistas.
Mas nós sabemos que os elementos individualistas e
caóticos misturam, aos "princípios anarquistas" e o "foda-se
tudo", a negligência e a total falta de responsabilidade que,
em nosso movimento, têm causado ferimentos quase
incuráveis. É contra isso que estamos lutando, com toda
nossa energia e paixão. Eis o motivo de ignoramos
calmamente os ataques vindos desse campo.
Baseamos nossa esperança em outros militantes:
naqueles que se mantém fiéis ao anarquismo, que tendo
vivido e sofrido a tragédia do movimento anarquista,
procuram dolorosamente uma solução.
Ademais, temos grandes esperanças na juventude
libertária que, nascida no sopro da revolução russa e
situada, desde o começo, no círculo das realidades
concretas, exigirá certamente a realização dos princípios
organizacionais e construtivos do anarquismo.
Convidamos todas as organizações anarquistas

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russas, dispersas em vários países do mundo, e também os


militantes isolados do anarquismo, a se unirem sobre a base
de uma Plataforma comum de organização.
Que esta Plataforma sirva de palavra de ordem
revolucionária e ponto de união para todos os militantes do
movimento anarquista russo! Que sirva para lançar os
fundamentos da União Geral dos Anarquistas!

Viva a Revolução Social dos


Trabalhadores do Mundo!
GRUPO DIELO TRUDA, Paris 20/06/1926.

Parte Geral

Luta de classes, seu papel e significado


Não existe humanidade unida. Existe a humanidade
dividida em classes: escravos e senhores.
Como todas as que a precederam, a sociedade
capitalista e burguesa de nossos tempos não é unida. Ela
está dividida em dois campos distintos, diferenciados
socialmente por suas respectivas situações e funções: o
proletariado (no sentido mais extenso da palavra) e a
burguesia.
O destino do proletariado é, e tem sido há séculos,
carregar o fardo do trabalho físico e penoso, cujos frutos são
colhidos por uma outra classe, que possui a propriedade, a
autoridade e os produtos da cultura (ciência, educação, arte
etc.): a burguesia. A escravização social e a exploração das
massas trabalhadoras formam a base sobre a qual a
sociedade moderna se apóia e sem a qual não poderia
existir.
Este fato gera uma luta de classes secular, que
assume um caráter aberto e violento ou uma aparência de
progresso lento e imperceptível, mas orientada sempre,

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essencialmente, para a transformação da sociedade atual


numa sociedade que satisfará as aspirações, necessidades e
ao conceito de justiça dos trabalhadores.
Toda a história da humanidade representa, no
domínio social, uma cadeia ininterrupta de lutas que as
massas trabalhadoras travam por seus direitos, sua
liberdade e por uma vida melhor. Esta luta de classes tem
sido sempre o principal fator que determina a forma e a
estrutura das sociedades.
O regime social e político de todos os países é, antes
de tudo, produto da luta de classes. A estrutura de uma
sociedade nos mostra a fase em que se encontra a luta de
classes. A mínima alteração no curso da luta de classes, na
relação de forças entre as classes em luta contínua,
engendra mudanças no tecido e na estrutura da sociedade.
Tal é a dimensão geral, universal e o sentido da luta
de classes na vida das sociedades de classe.

A necessidade de uma violenta Revolução Social


O princípio de opressão e exploração das massas
pela violência constitui a base da sociedade moderna. Todas
as manifestações de sua existência: a economia, a política,
as relações sociais... baseiam-se na violência de classe,
cujos instrumentos são: a autoridade, a polícia, o exército,
os tribunais. Tudo nesta sociedade, desde a empresa
tomada isoladamente até o conjunto dos aparatos estatais
são baluartes na defesa e manutenção do capitalismo. Além
de serem pontos de observação permanente dos
trabalhadores, servem para ter sempre ao alcance da mão
as forças destinadas a reprimir os trabalhadores que
ameaçam os fundamentos ou mesmo a tranqüilidade da
sociedade atual.
Ao mesmo tempo, o sistema capitalista mantém
deliberadamente as massas trabalhadoras num estado de
ignorância e estagnação mental, impedindo pela força a
elevação de seu nível intelectual e moral, para mais
facilmente ludibriá-las.

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O progresso da sociedade moderna, a evolução


técnica do capital e o aperfeiçoamento de seu regime
político fortalecem o poder da classe dominante e dificultam
ainda mais a luta contra ela, adiando o momento decisivo
da emancipação dos trabalhadores.
A análise da sociedade moderna nos leva à conclusão
de que a revolução social violenta é a única via para
transformar a sociedade capitalista numa sociedade de
trabalhadores livres.

O Anarquismo e o Comunismo Libetário


A luta de classes criada pela escravidão dos
trabalhadores e suas aspirações de liberdade fez nascer,
nos meio dos oprimidos, a idéia do anarquismo: a idéia da
negação do sistema social baseado nos princípios de classes
e do Estado, e sua substituição por uma sociedade livre e
sem estado, autogerida pelos trabalhadores.
Portanto, o anarquismo não deriva das reflexões
abstratas de um intelectual ou filósofo, mas da luta direta
dos trabalhadores contra o capital, das aspirações e
necessidades dos trabalhadores, de seus desejos de
liberdade e igualdade, os quais se tornam particularmente
vivos no melhor período heróico da vida e da luta das
massas trabalhadoras.
Eminentes anarquistas, Bakunin, Kropotkin e outros,
não inventaram a idéia de anarquismo, mas a descobriram
nas massas, apoiados somente na força de seus
pensamentos e conhecimentos, para especificá-la e divulgá-
la.
O anarquismo não é o resultado de obras pessoais
nem objeto de pesquisas individuais.
Similarmente, o anarquismo não é produto de
aspirações humanitárias. A humanidade "unida" não existe.
Qualquer tentativa de fazer do anarquismo um atributo da
humanidade atual, de atribuir-lhe um caráter genericamente
humanitário seria uma mentira histórica e social que
conduziria inevitavelmente à justificação da ordem atual e

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de uma nova exploração.


O anarquismo é geralmente humanitário apenas no
sentido de que os ideais das massas trabalhadoras tendem
a aperfeiçoar as vidas de todos os homens, e do fato de que
o destino da humanidade de hoje ou de amanhã é
inseparável do destino do trabalho explorado. Se as massas
trabalhadoras vencerem, toda a humanidade renascerá. Se
não, violência, exploração, escravização e opressão reinarão
como nunca antes no mundo...
O nascimento, o desenvolvimento e a realização das
idéias anarquistas tem suas origens na vida e na luta das
massas trabalhadoras, e estão inseparavelmente ligadas à
sua sorte.
O anarquismo quer transformar a sociedade
capitalista numa sociedade nova em que os trabalhadores
tenham garantido o produto de sua atividade, a liberdade, a
independência e a igualdade social e política. Esta nova
sociedade será o comunismo libertário. É no comunismo
libertário que terão plena expansão a solidariedade social e
a individualidade livre, e na qual essas duas idéias se
desenvolverão em perfeita harmonia.
O comunismo libertário avalia que o único criador do
valor social é o trabalho, físico e intelectual.
Consequentemente, só os trabalhadores têm o direito de
administrar a vida social e econômica. É por isso que ele
não justifica nem admite a existência de classes não
trabalhadoras.
Enquanto tiver que coexistir com tais classes, o
comunismo libertário não reconhecerá qualquer obrigação
em relação a elas. Isto cessará quando as classes não
trabalhadoras se decidirem a produzir e quiserem viver na
sociedade comunista, sob as mesmas condições de todos os
outros, os membros livres da sociedade, gozando dos
mesmos direitos e obrigações de todos os membros
produtivos.
O comunismo libertário quer suprimir toda
exploração e violência, seja contra o indivíduo ou as massas
trabalhadoras. Para tanto, estabelece uma base econômica

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e social que unifica, num conjunto harmonioso, toda a vida


econômica e social do país, assegurando a todo indivíduo
uma situação igual a dos outros e dando a cada um o
máximo bem-estar. Esta base é a apropriação, sob a forma
de socialização, de todos os meios e instrumentos de
produção (indústria, transporte, terra, matérias-primas etc.)
e a construção de organismos econômicos sob os princípios
de igualdade e autogestão dos trabalhadores.
Nos limites desta sociedade autogerida pelos
trabalhadores, o comunismo libertário estabelece o princípio
da igualdade de valor e dos direitos de cada indivíduo (não
a individualidade "em geral", nem a individualidade
"mística" ou o conceito de individualidade, mas o indivíduo
concreto).

A negação da democracia
Democracia é uma das formas da sociedade
capitalista.
A democracia se baseia na manutenção das duas
classes antagônicas da sociedade moderna: a do trabalho e
a do capital, e sua colaboração fundada sobre a propriedade
privada capitalista. A expressão dessa colaboração é o
parlamento e o governo nacional representativo.
Formalmente, a democracia proclama a liberdade de
opinião, de imprensa, de associação, enquanto não
ameacem os interesses da classe dominante, ou seja, a
burguesia.
A democracia mantém intacto o princípio da
propriedade privada capitalista. Portanto, dá a burguesia o
direito de controlar toda a economia do país, toda a
imprensa, educação, ciência, arte, o que de fato, torna a
burguesia dona absoluta do país. Possuindo o monopólio da
vida econômica, a burguesia pode estabelecer seu poder
ilimitado também na esfera política. Efetivamente, o
governo representativo e o parlamento nada mais são, nas
democracias, do que os órgãos executivos da burguesia.
Consequentemente, a democracia é apenas um dos

19
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aspectos da ditadura burguesa, camuflada pelas fórmulas


ilusórias das liberdades políticas e garantias democráticas
fictícias.

A negação da autoridade
Os ideólogos da burguesia definem o Estado como o
órgão que regula as complexas relações políticas e sociais
entre os homens na sociedade moderna, protegendo a lei e
a ordem. Os anarquistas estão em perfeita acordo com esta
definição, mas a completam, afirmando que as bases dessa
lei e dessa ordem é a escravidão da maioria da população
por uma minoria insignificante, e que para tal serve o
Estado.
O Estado é, simultaneamente, a violência organizada
da burguesia contra os trabalhadores e o sistema de seus
órgãos executivos.
Os socialistas de esquerda e, em particular, os
bolcheviques, também consideram a autoridade e o Estado
burguês como lacaios do capital. Mas sustentam que a
autoridade e o Estado podem se tornar, nas mãos dos
partidos socialistas, um meio poderoso na luta pela
emancipação do proletariado. Por este motivo, esses
partidos são a favor de uma autoridade socialista e um
Estado proletário. Alguns querem conquistar o poder
pacificamente, através do parlamento (os social-
democratas); outros, por meios revolucionários (os
bolcheviques, os socialistas-revolucionários de esquerda).
O anarquismo considera-os, ambos,
fundamentalmente equivocados, nocivos para a tarefa de
emancipação do trabalho.
A autoridade está sempre ligada à exploração e à
submissão das massas populares. Ela nasce da exploração
ou surge no interesse da exploração. A autoridade sem
violência e sem exploração perde toda a razão de ser.
O Estado e a autoridade retiram das massas toda
iniciativa, matam o espírito criador e a atividade livre,
cultivam a psicologia da submissão: a expectativa, a

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esperança de ascender na hierarquia social, a estúpida


confiança nos dirigentes, a ilusão de ser parte da
autoridade...
Ora, a emancipação dos trabalhadores só é possível
mediante o processo de luta revolucionária direta das
massas trabalhadoras e suas organizações de classe contra
o sistema capitalista.
A conquista do poder pelos partidos sociais-
democratas, por meios pacíficos e sob as condições da
ordem atual, não fará avançar um só passo a tarefa de
emancipação do trabalho, pelo simples motivo de que o
poder real, consequentemente a autoridade real,
permanecerá com a burguesia que controla a economia e a
política do país. O papel da autoridade socialista se reduzirá
a fazer reformas, a melhorar o regime. (Exemplos: Ramsay
MacDonald, os partidos sociais-democratas da Alemanha,
Suécia, Bélgica, que assumiram o poder na sociedade
capitalista.)
Tomar o poder mediante a violência e organizar o
autodenominado "Estado proletário" de nada adianta para
uma autêntica emancipação do trabalho. O Estado,
construído supostamente para a defesa da revolução,
termina fatalmente distorcido por suas necessidades e
características peculiares, torna-se o objetivo em si mesmo,
produz castas específicas e privilegiadas, sobre as quais se
apóia. Deste modo, submete as massas pela força e
consequentemente restabelece as bases da autoridade
capitalista e do Estado capitalista: a opressão e a e
exploração das massas pela violência. (Exemplo: "o Estado
operário e camponês" dos bolcheviques.)

O papel das massa e o dos anarquista na luta e na


Revolução Social
As principais forças da revolução social são a classe
operária urbana, as massas camponesas e um setor dos
trabalhadores intelectuais.2

2 enquanto classe explorada e oprimida, da mesma forma que os


proletários urbanos e rurais, os trabalhadores intelectuais são

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A concepção anarquista do papel das massas na


revolução social e na construção do socialismo difere, de
maneira típica, daquela dos partidos estatistas. Enquanto o
bolchevismo e as tendências que lhe são afins consideram
que as massas trabalhadoras possuem apenas instintos
revolucionários destrutivos, sendo incapazes de uma
atividade revolucionária criativa e construtiva – razão pela
qual essa atividade deve se concentrar nas mãos dos
homens que formam o governo do Estado e o Comitê
Central do partido - os anarquistas, pelo contrário, pensam
que as massas têm imensas possibilidades criativas e
construtivas, e querem a supressão dos obstáculos que
impedem a manifestação dessas possibilidades.
Os anarquistas consideram o Estado como seu
principal obstáculo, usurpando os direitos das massas e
apropriando-se de todas as funções da vida econômica e
social. O Estado deve perecer, não "um dia", na sociedade
futura, mas agora. Ele deve ser destruído no primeiro dia da
vitória dos trabalhadores, e não deve ser reconstituído de
forma alguma. Ele será substituído por um sistema
federalista de organizações de produção e consumo dos
trabalhadores federativamente unidos e auto-administrados.
Este sistema exclui tanto a organização da autoridade como
a ditadura de um partido, não importa qual seja ele.
A revolução Russa de 1917 revela precisamente essa
orientação do processo de emancipação social, na criação
de um sistema de conselhos operários e camponeses e
comitês de fábrica. Seu lamentável erro foi não ter
liquidado, no momento oportuno, a organização do poder
estatal: no começo do governo provisório, antes, e o poder
bolchevique, depois. Os bolcheviques, aproveitando-se da
confiança dos operários e camponeses, reorganizaram o
estado burguês de acordo com as circunstâncias do
momento e, em seguida, com a ajuda do estado, mataram a
atividade criativa das massas, sufocando os sovietes livres e
os comitês de fábrica, que representaram o primeiro passo

relativamente mais desunidos do que os operários e camponeses,


graças aos privilégios econômicos concedidos pela burguesia a alguns
de seus elementos. Eis por que, no começo da revolução social, apenas
a parcela mais desfavorecida dos intelectuais participou ativamente.

22
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na construção de uma sociedade não estatal, socialista.


A ação dos anarquistas pode ser dividida em dois
períodos: um antes e outro durante a revolução. Em ambos,
os anarquistas só poderão cumprir seu papel como uma
força organizada tendo uma concepção clara dos objetivos
da luta e dos meios que levam à realização desses
objetivos.
A tarefa fundamental da União Geral dos Anarquistas,
no período pré-revolucionário, deve ser a preparação dos
operários e camponeses para a revolução social.
Negando a democracia formal (burguesa), a
autoridade e o Estado, proclamando a completa
emancipação do trabalho, o anarquismo destaca ao máximo
os princípios rigorosos da luta de classes. Isto desperta e
desenvolve nas massas uma consciência de classe e a
intransigência revolucionária da classe.
É precisamente através da intransigência de classe,
do antidemocratismo, dos ideais do comunismo anarquista
que a educação libertária das massas deve ser feita. Mas a
educação somente não basta. É necessária, também, uma
certa organização anarquista das massas. Para realizar isso,
é preciso atuar em duas direções: de um lado, selecionar e
agrupar as forças revolucionárias de operários e
camponeses numa base teórica comunista libertária
(organizações específicas comunistas libertárias); do outro,
reagrupar operários e camponeses revolucionários numa
base econômica de produção e consumo (organização
produtiva dos operários e camponeses revolucionários,
cooperativas de operários e camponeses livres etc.). Os
operários e camponeses, organizados numa base de
produção e consumo, influenciados pelas posições
anarquistas revolucionárias, serão o primeiro ponto de apoio
da revolução social.
Quanto mais se tornarem conscientes e organizados
à maneira anarquista, desde já, mais os operários e
camponeses manifestarão a vontade intransigente e a
criatividade libertária no momento da revolução.
Quanto à classe operária na Rússia: é claro que oito

23
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anos de ditadura bolchevique, aprisionando as necessidades


naturais das massas e sua atividade livre, demonstram,
melhor do que qualquer coisa, a verdadeira natureza de
todo poder. Mas a classe operária russa desenvolveu
enormes possibilidades para a formação de um movimento
anarquista de massas. Os militantes anarquistas
organizados devem ir imediatamente, com todas forças de
que dispõem, ao encontro dessas necessidades e
possibilidades, para que não degenerem em reformismo
(menchevismo).
Com a mesma urgência, os anarquistas devem
aplicar todas as suas forças à organização dos camponeses
pobres, esmagados pelo poder estatal, buscando uma saída
e desenvolvendo seu imenso potencial revolucionário.
O papel dos anarquistas, no período revolucionário,
não pode se limitar à propagação de palavras de ordem e de
idéias libertárias. A vida aparece como a arena não só da
propagação desta ou daquela concepção, mas, também, no
mesmo grau, a arena da luta, da estratégia e das aspirações
dessas concepções à direção econômica e social.
Mais do que qualquer outra concepção, o anarquismo
deve se tornar a concepção dirigente da revolução social,
porque apenas com a base teórica do anarquismo a
revolução social poderá conduzir à completa emancipação
do trabalho.
A posição dirigente das idéias anarquistas na
revolução significa uma orientação anarquista dos eventos.
Contudo, não se deve confundir essa força motriz teórica
com a liderança política dos partidos estatistas que levam
finalmente ao Poder do Estado.
O anarquismo não aspira nem à conquista do poder
político, nem à ditadura. Sua principal aspiração é ajudar as
massas a trilhar a autêntica via da revolução social e da
construção socialista. Mas não basta que sigam a via da
revolução social. Também é necessário manter esta
orientação da revolução e seus objetivos: substituição da
sociedade capitalista pela dos trabalhadores livres. Como a
experiência da revolução Russa em 1917 nos mostrou, esta

24
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última tarefa está longe de ser fácil, sobretudo por causa


dos inúmeros partidos que tentam orientar o movimento
numa direção oposta à da revolução social.
Ainda que as massas se expressem profundamente
nos movimentos sociais, pelas tendências e princípios
anarquistas, essas tendências e princípios permanecem
dispersos, se não forem coordenados, e consequentemente
não conduzem à organização da potência motriz das idéias
libertárias que é necessária para manter, na revolução
social, a orientação e os objetivos anarquistas. Esta força
motriz teórica pode ser expressa apenas por um coletivo
especialmente criado pelas massas para tal fim. Os
elementos anarquistas organizados constituem exatamente
esse coletivo. Os deveres teóricos e práticos, no momento
da revolução, são consideráveis.
Ele deve tomar iniciativas e deflagrar uma
participação total em todos os domínios da revolução social:
na orientação e no caráter geral da revolução; nas tarefas
positivas da revolução na nova produção, na guerra civil e
na defesa da revolução, no consumo, na questão agrária
etc.
Sobre todas essas questões e numerosas outras, as
massas exigem dos anarquistas uma resposta clara e
precisa. E, a partir do momento em que os anarquistas
proclamam uma concepção da revolução e da estrutura da
sociedade, eles são obrigados a dar respostas claras para
todas essas questões, a ligar as respostas a uma concepção
geral do comunismo libertário e, por fim, dedicar-se
totalmente à sua efetiva realização.
Desta forma, a União Geral dos Anarquistas e o
movimento anarquista assumem completamente sua função
teórica motriz na revolução social.

O período transitório
Os partidos políticos entendem, pela expressão
"período transitório", uma fase determinada na vida de um
povo cujas características são: ruptura com a velha ordem
de coisas e instauração de um novo sistema econômico e

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social, um sistema que, contudo, ainda não representa a


completa emancipação dos trabalhadores. Neste sentido,
todos os programas mínimos dos partidos políticos
socialistas - por exemplo, o programa democrático dos
oportunistas socialistas ou o programa da "ditadura do
proletariado", dos bolcheviques - são programas do período
de transição.
O traço essencial desses programas é que todos
consideram impossível, para o momento, a completa
realização dos ideais dos trabalhadores: sua independência,
sua liberdade e igualdade, e consequentemente preservam
toda uma série de instituições do sistema capitalista: o
princípio da coerção estatista, propriedade privada dos
meios e instrumentos de produção, o trabalho assalariado e
diversos outros, de acordo com os objetivos do programa de
cada partido.
Os anarquistas sempre foram inimigos de tais
programas, considerando que a construção de sistemas
transitórios, que mantém os princípios de exploração e
coerção das massas, leva necessariamente a um novo
crescimento da escravidão.
Ao invés de estabelecer programas políticos
mínimos, os anarquistas sempre defenderam a idéia de uma
revolução social imediata, que despoja a classe capitalista
de seus privilégios econômicos e sociais, e coloca os meios
e instrumentos de produção, assim como todas as funções
da vida econômica e social, nas mãos dos trabalhadores.
Até agora, os anarquistas têm mantido esta posição.
A idéia de um período transitório, segundo a qual a
revolução social deve conduzir não a uma sociedade
comunista, mas a um sistema X, conservando elementos do
velho sistema, é anti-social em sua essência. Essa idéia
ameaça produzir o reforço e o desenvolvimento desses
elementos às suas dimensões prévias, e faz retroagir os
eventos.
Um exemplo flagrante disso é o regime de "ditadura
do proletariado", estabelecido pelos bolcheviques na Rússia.

26
Organizações Anárquicas

acordo com eles, esse regime deveria ser uma etapa


transitória para o comunismo total. Na realidade, essa etapa
produziu a restauração da sociedade de classes, onde estão,
subjugados como antes, os operários e os camponeses
pobres.
O centro da gravidade na construção de uma
sociedade comunista não consiste na possibilidade de
assegurar a cada indivíduo, desde o primeiro dia da
revolução, a liberdade ilimitada para satisfazer suas
necessidades; mas se afirma na conquista da base social
dessa sociedade comunista, estabelecendo os princípios de
relações igualitárias entre os indivíduos. Quanto à questão
da maior ou menor abundância de bens, não é formulada
em nível de princípio, mas como um problema técnico.
O princípio fundamental sobre o qual a nova
sociedade será erguida, sobre o qual permanecerá e não
deve ser limitado de forma alguma, é o da igualdade das
relações, da liberdade e independência dos trabalhadores.
Este princípio representa a exigência prioritária e
fundamental das massas, exigência pela qual se sublevam e
fazem a revolução social.
De duas, uma:
1. ) A revolução social terminará com a derrota dos
trabalhadores. Neste caso, devemos começar de
novo a preparar a luta, uma nova ofensiva contra o
sistema capitalista.
2. ) Ou, então, conduzirá à vitória dos trabalhadores.
Neste caso, os trabalhadores se apossarão dos meios
que lhes permitem sua auto-administração: a terra, a
produção e as funções sociais, e começarão a
construir uma sociedade livre.
Eis o que caracteriza o início da construção de uma
sociedade comunista, que, uma vez iniciada, seguirá então
continuamente o curso de seu desenvolvimento,
fortalecendo-se e se aperfeiçoando sem cessar.
Dessa maneira, a tomada das funções produtivas e
sociais pelos trabalhadores traçará uma linha demarcatória
entre as épocas estatal e não-estatal.

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Se quiser se tornar o porta-voz das massas em luta, a


bandeira de toda uma época de revolução social, o
anarquismo não deve assimilar, em seu programa, os
resíduos da velha ordem, as tendências oportunistas dos
sistemas e períodos de transição, nem, tampouco, ocultar
seus princípios fundamentais, mas, ao contrário,
desenvolvê-los e aplicá-los ao máximo.

Anarquismo e Sindicalismo
Consideramos artificial, privada de todo fundamento
e de todo sentido, a tendência a opor o comunismo
libertário ao sindicalismo e vice-versa.
As noções de anarquismo e sindicalismo pertencem a
dois planos diferentes. Enquanto o comunismo, isto é, a
sociedade de trabalhadores livres e iguais, é o objetivo da
luta anarquista, o sindicalismo, isto é, o movimento operário
revolucionário por profissão, é apenas uma das formas da
luta revolucionária. Unindo os operários nos locais de
produção, o sindicalismo revolucionário, como todo grupo
profissional, não possui uma teoria determinada, uma
concepção do mundo que responda a todas as complexas
questões sociais e políticas da realidade atual. Ele reflete
sempre a ideologia de diversos grupos políticos,
notadamente aqueles que militam mais intensamente nos
sindicatos.
Nossa atitude em relação ao sindicalismo deriva do
que já dissemos. Sem nos preocupar aqui em resolver com
antecedência a questão do papel dos sindicatos
revolucionários depois da revolução, ou seja, se eles serão
os organizadores de toda a nova produção ou se eles
deixarão esse papel para os conselhos de trabalhadores ou,
ainda, os comitês de fábrica, nós entendemos que os
anarquistas devem participar no sindicalismo revolucionário
como uma das formas do movimento operário
revolucionário.
Porém, a questão que se coloca hoje não é se os
anarquistas devem ou não participar no sindicalismo
revolucionário, mas sim como e com que fim devem

28
Organizações Anárquicas

participar.
Nós consideramos todo o período anterior, até o dia
de hoje, quando os anarquistas entraram no movimento
sindicalista na qualidade de militantes e propagandistas
individuais, como um período de relações artesanais com o
movimento operário profissional.
O anarco-sindicalismo, tentando forçar a introdução
das idéias libertárias na ala esquerda do sindicalismo
revolucionário, como meio cujo fim é criar sindicatos de tipo
anarquista, representa, sob este aspecto, um passo adiante.
Mas não vai além do método empírico. Porque o anarco-
sindicalismo não liga necessariamente a tarefa de
"anarquização" do movimento sindical com a tarefa de
organização das forças anarquistas fora do movimento. Ora,
é apenas mediante tal ligação que é possível "anarquizar" o
sindicalismo revolucionário e impedi-lo de descambar para o
oportunismo e o reformismo.
Considerando o sindicalismo apenas como um
movimento profissional de trabalhadores, sem uma teoria
social e política determinada, e, portanto, incapaz de
resolver por si mesmo a questão social, entendemos que a
tarefa dos anarquistas no movimento consiste em
desenvolver as idéias libertárias, orientando-o num sentido
libertário, para transformá-lo numa força ativa da revolução
social. É importante nunca esquecermos que, se o
sindicalismo não encontrar apoio na teoria anarquista, ele
se apoiará, então, concordemos ou não com isto, na
ideologia de um partido político estatista qualquer.
A título de exemplo, aliás chocante, podemos citar o
sindicalismo francês. Este, no qual brilhavam as táticas e
palavras de ordem anarquistas, logo sucumbiu à influência
dos bolcheviques, por um lado, e, sobretudo, por outro, à
influência dos socialistas oportunistas de direita.
Mas a tarefa dos anarquistas nas fileiras do
movimento operário revolucionário não poderá ser
cumprida, a não ser que seja estreitamente ligada e
conciliada com a atividade da organização anarquista fora
do sindicato. Resumindo, devemos entrar nos sindicatos

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Organizações Anárquicas

como uma força organizada, responsável pela atuação no


sindicato perante a organização geral anarquista e
orientados por ela.
Sem nos limitar à criação de sindicatos anarquistas,
devemos tentar exercer nossa influência teórica sobre o
sindicalismo revolucionário como um todo e em todas as
suas formas (a IWW, os sindicatos russos...). Só atingiremos
este objetivo, agindo como coletivo anarquista
rigorosamente organizado, jamais em pequenos grupos
empíricos, que não possuem ligação organizacional nem
convergência teórica.
Grupos anarquistas em fábricas e empresas,
preocupados em criar sindicatos anarquistas, lutando nos
sindicatos revolucionários pela preponderância das idéias
libertárias no movimento, grupos orientados em sua ação
por uma organização geral anarquista: tais são os sentidos e
as formas da atitude dos anarquistas em sua relação com o
sindicalismo.
Parte Construtiva

Problemas da Revolução Social: o dia seguinte


O objetivo fundamental dos trabalhadores em luta é
a fundação, por meio da revolução, de uma sociedade
comunista livre e igualitária, baseada no princípio: "De cada
um segundo suas possibilidades, para cada um segundo
suas necessidades."
Contudo, essa sociedade não se realizará por si
mesma, só pelo poder de uma sublevação social. Sua
realização será um processo social-revolucionário, mais ou
menos longo, conduzido num determinado caminho pelas
forças organizadas do proletariado vitorioso.
Nossa tarefa é, desde já, indicar esse caminho e
antecipar os problemas positivos e concretos que os
trabalhadores enfrentarão desde o primeiro dia da revolução
social, cuja sorte dependerá de sua justa solução.
É óbvio que a construção da nova sociedade será
possível apenas depois da vitória dos trabalhadores sobre o

30
Organizações Anárquicas

capitalismo e seus representantes. Não é possível começar


a construção de uma nova economia e de novas relações
sociais enquanto o poder do estado que defende o regime
de escravização não tiver sido esmagado, enquanto os
operários e camponeses não tiverem tomado em suas
mãos, durante a revolução, a economia industrial e agrária
do país.
Portanto, a primeira tarefa da revolução social é
destruir o estado capitalista, expropriar a burguesia e, de
modo geral, todos os elementos socialmente privilegiados,
dos meios do poder, e implantar, em toda parte, a vontade
do proletariado revoltado, expressa nos princípios
fundamentais da revolução social. Este aspecto destrutivo e
combativo da revolução nada mais fará do que desobstruir o
caminho para as tarefas positivas que constituem o sentido
e a essência da revolução social-
As tarefas são as seguintes:
1. A solução, no sentido comunista libertário, do
problema da produção industrial do país.
2. A solução similar em relação ao problema agrário.
3. A solução do problema de consumo.

Produção
Levando em conta o fato de que a indústria do país é
o resultado dos esforços de inúmeras gerações de
trabalhadores e que os diversos ramos da indústria são
estreitamente interligados, consideramos toda a função
produtiva atual como uma só oficina de produtores,
pertencendo totalmente ao conjunto dos trabalhadores, e a
ninguém em particular.
O mecanismo produtivo do país é global e pertence a
toda a classe operária. Esta tese determina o caráter e a
forma da nova produção. Ela será também global, comum,
no sentido de que os produtos pertencerão a todos. Tais
produtos, quaisquer que sejam, constituirão o fundo geral
de provisões dos trabalhadores, do qual todo participante na
nova produção receberá tudo que necessita, numa base
igual para todos.

31
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O novo sistema de produção suprimirá totalmente o


trabalho assalariado e a exploração, sob todas as suas
formas, e estabelecerá em seu lugar o princípio da
colaboração fraterna e solidária dos trabalhadores.
A classe média, que na sociedade capitalista
moderna, exerce funções intermediárias e improdutivas –
comércio e outras - assim como a burguesia, deve participar
na nova produção, nas mesmas condições de todos os
outros trabalhadores. Caso contrário, essas classes se
excluirão da sociedade trabalhadora.
Não haverá patrões, sejam empresários, proprietários
privados ou burocratas estatais (como no estado
bolchevique). As funções organizadoras passarão, na nova
produção, para os órgãos administrativos especialmente
criados pelas massas operárias: conselhos de operários,
comitês de fábrica ou gestão operária das fábricas e
empresas. Esses órgãos, interligados na comuna, no distrito
e, logo após, em todo o país, formarão as instituições das
comunas, dos distritos, em suma, as instituições gerais e
federais de gestão da produção. Designados pelas s massas
e sempre sob seu controle e influência, todos esses órgãos
serão constantemente renovados e realizarão assim a idéia
da autogestão pelas massas.
A produção unificada, cujos meios e produtos
pertencem a todos, tendo substituído o trabalho assalariado
pelo princípio da colaboração fraternal e tendo estabelecido
a igualdade de direitos para todos os produtores; a produção
dirigida pelos órgãos de gestão operária, eleitos pelas
massas; tal é o primeiro passo no caminho para a realização
do comunismo libertário.

Consumo
Esse problema surgirá na revolução sob um duplo
aspecto:
1. O princípio da busca dos bens de consumo.
2. O princípio de sua distribuição.
No que diz respeito à distribuição dos bens de

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consumo, as soluções dependerão, sobretudo, da


quantidade de produtos disponíveis e do princípio da
conformidade com o objetivo etc.
A revolução social, encarregando-se da reconstrução
de toda ordem social, assume a obrigação de satisfazer as
necessidades vitais de todas as pessoas. A única exceção é
o grupo dos não-trabalhadores - aqueles que se recusam a
tomar parte na nova produção por motivos contra-
revolucionários. Mas, em geral, excetuando estes, a
satisfação das necessidades de toda a população do
território da revolução social é assegurada pela reserva
geral de consumo. Se houver escassez, os bens serão
divididos de acordo com os princípios da maior urgência:
isto é, em primeiro lugar as crianças, os enfermos e as
famílias operárias.
Um problema muito mais difícil é o da organização do
próprio fundo de consumo.
Sem dúvida, desde o primeiro dia da revolução, as
cidades não disporão de todos os produtos necessários para
a vida da população. Ao mesmo tempo, os camponeses
terão em abundância os produtos que faltam às cidades.
Os comunistas libertários não têm qualquer dúvida
quanto ao caráter mútuo das relações entre os
trabalhadores da cidade e do campo. Entendemos que a
revolução social só pode ser realizada pelos esforços
comuns de operários e camponeses. Em conseqüência, a
solução do problema de consumo na revolução só pode ser
possível mediante a estreita colaboração revolucionária
entre essas duas categorias de trabalhadores.
Para estabelecer essa colaboração, a classe operária
urbana, tendo assumido a gestão da produção, deve
imediatamente suprir as necessidades vitais do campo e se
esforçar para fornecer os produtos do consumo diário, os
meios e instrumentos para a agricultura coletiva. As
medidas de solidariedade tomadas pelos trabalhadores, ao
atender as necessidades dos camponeses, suscitará nestes
a reciprocidade, enviando coletivamente seus produtos, em
primeiro lugar os alimentícios, para as cidades.

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Organizações Anárquicas

Cooperativas de operários e camponeses serão os


primeiros órgãos a assegurar as necessidades de
alimentação e de provisões para as cidades e os campos.
Mais tarde, responsáveis por funções mais importantes e
permanentes, notadamente de suprir o que for necessário
para manter e desenvolver a vida econômica e social dos
operários e camponeses, essas cooperativas serão
transformadas em órgãos permanentes de suprimento das
cidades e do campo.
A solução do problema de suprimento permanente
permitirá ao proletariado criar um estoque permanente, o
que produzirá um efeito favorável e decisivo no resultado de
toda a nova produção.

A Terra
Consideramos como principais forças revolucionárias
e criadoras na solução da questão agrária os camponeses
trabalhadores - aqueles que não exploram o trabalho de
outras pessoas - e o proletariado rural. Sua tarefa é fazer a
redistribuição da terra, para estabelecer o usufruto coletivo
da terra sob princípios comunistas.
Assim como a indústria, a terra, explorada e
cultivada por sucessivas gerações de trabalhadores, é o
resultado de seus esforços comuns. Ela pertence a todos os
trabalhadores e a ninguém em particular. Enquanto
propriedade comum e inalienável dos trabalhadores, a terra
não poderá ser comprada ou vendida, nem alugada;
portanto, ela não poderá servir como meio de exploração do
trabalho de outros.
A terra também é uma espécie de oficina popular e
comunitária, onde as pessoas produzem seus meios de vida.
Mas é uma espécie de oficina onde cada trabalhador
(camponês) se acostumou, graças a certas condições
históricas, a realizar o seu trabalho sozinho, independente
dos outros produtores. Se, na indústria, o método coletivo
de trabalho é essencial e o único possível, na agricultura, a
maioria dos camponeses trabalha com seus próprios meios.
Consequentemente, quando a terra e os meios de

34
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sua exploração são tomados pelos camponeses, sem


possibilidade de venda nem de aluguel, a questão das
formas de seu usufruto e dos métodos para sua exploração
(comunal ou familiar) não encontrará uma solução completa
e definitiva, como no setor industrial. No começo,
provavelmente, serão utilizados os dois métodos.
Os camponeses revolucionários estabelecerão a
forma definitiva de exploração e de usufruto da terra.
Nenhuma pressão externa é admissível nesta questão.
Entretanto, considerando que: apenas a sociedade
comunista, em cujo nome será feita a revolução social,
isenta os trabalhadores de sua condição de escravos e
explorados, dando-lhes completa liberdade e igualdade; que
os camponeses são a esmagadora maioria da população
(quase 85% na Rússia, no período em discussão) e que,
consequentemente, o regime agrário que eles
estabelecerem será um fator decisivo no destino da
revolução; que, enfim, a economia privada na agricultura,
assim como na indústria, leva ao comércio, à acumulação, à
propriedade privada e à restauração do capital - é nosso
dever, desde já, fazer tudo que for necessário para facilitar
a solução da questão agrária, num sentido coletivo.
Para tal fim, devemos nos empenhar numa intensa
propaganda, entre os camponeses, a favor da economia
agrária coletiva. A fundação de uma União Camponesa
libertária específica facilitará consideravelmente esta tarefa.
Em função disso, o progresso técnico terá enorme
importância, acelerando a evolução da agricultura e a
realização do comunismo nas cidades, sobretudo nas
indústrias. Se, em suas relações com os camponeses, os
operários agirem, não individualmente ou em grupos
separados, mas como um imenso coletivo comunista,
abrangendo todos os ramos industriais; se, além disso,
atenderem as necessidades vitais do campo e se, ao mesmo
tempo, abastecerem cada aldeia com os itens de uso diário,
ferramentas e máquinas para a exploração coletiva das
terras, certamente atrairão os camponeses para o
comunismo na agricultura.

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A Defesa da Revolução
A questão da defesa da revolução está ligada ao
problema do "primeiro dia". Basicamente, o modo mais
possante de defesa da revolução é a solução feliz para seus
problemas positivos: a produção, o consumo e a terra. Se
esses problemas forem justamente solucionados, nenhuma
força contra-revolucionária será capaz de alterar ou
desequilibrar a sociedade livre dos trabalhadores. Contudo,
os trabalhadores terão que lutar duramente contra os
inimigos da revolução, para defender e manter sua
existência concreta.
A revolução social, que ameaça os privilégios e a
existência das classes não-trabalhadoras da sociedade,
provocará inevitavelmente, da parte dessas classes, uma
resistência desesperada que tomará a forma de uma feroz
guerra civil.
Como a experiência russa mostrou, tal guerra civil
durará alguns anos.
Por mais felizes que sejam os primeiros passos dos
trabalhadores, no início da revolução, a classe dominante
será capaz de resistir por um longo tempo. Durante muitos
anos, ela desencadeará ofensivas contra a revolução,
tentará reconquistar o poder e os privilégios que lhe foram
arrebatados.
Um enorme exército, estratégia e técnicas militares,
capital - tudo será lançado contra os trabalhadores
vitoriosos.
Para preservar as conquistas da revolução, os
trabalhadores devem criar órgãos de defesa da revolução,
contrapondo-se à ofensiva da reação com uma força
combatente à altura da tarefa. Nos primeiros dias da
revolução, esta força será constituída por todos os operários
e camponeses armados. Mas essa força armada espontânea
será eficiente apenas durante os primeiros dias, quando a
guerra civil ainda não alcançou seu clímax e os dois partidos
em luta não criaram organizações militares regularmente
constituídas.

36
Organizações Anárquicas

Na revolução social, o momento mais crítico não é o


da supressão da autoridade, mas o seguinte, quando as
forças do regime derrotado lançam uma ofensiva geral
contra os trabalhadores e o importante é salvaguardar as
conquistas alcançadas. O caráter dessa ofensiva, assim
como a técnica e o desenvolvimento da guerra civil,
obrigarão os trabalhadores a criar contingentes
revolucionários militares determinados. A essência e os
princípios fundamentais dessas formações devem ser
decididos antecipadamente. Negando os métodos estatistas
e autoritários para governar as massas, também
rechaçamos o método estatista de organizar as forças
militares dos trabalhadores, ou seja, o princípio de um
exército estatista, fundado sobre o serviço militar
obrigatório. É o princípio do voluntariado, de acordo com as
posições fundamentais do comunismo libertário, que deve
ser a base das formações militares dos trabalhadores. Os
destacamentos de guerrilheiros insurgentes, operários e
camponeses, que conduziram a ação militar na revolução
russa, podem ser citados como exemplos de tais formações.
Porém, o voluntariado e a ação guerrilheira não
devem ser compreendidos estritamente, ou seja, como uma
luta de destacamentos operários e camponeses contra o
inimigo local, sem estar coordenados por um plano geral de
operação e cada um agindo por sua conta e risco. A ação e
as táticas dos guerrilheiros deverão ser orientadas, em seu
completo desenvolvimento, por uma estratégia
revolucionária comum.
Como em todas as guerras, a guerra civil não pode
ser realizada com sucesso pelos trabalhadores, a não ser
que eles apliquem os dois princípios fundamentais de toda
ação militar: unidade do plano de operações e unidade de
comando. O momento mais crítico da revolução será quando
a burguesia lançar contra a revolução suas forças
organizadas. Então, os trabalhadores serão obrigados a
adotar esses princípios de estratégia militar.
Desta maneira, tendo em vista as necessidades da
estratégia militar e a estratégia dos contra-revolucionários,
as forças armadas da revolução deverão fundir-se num

37
Organizações Anárquicas

exército revolucionário geral, tendo um comando e um


plano de operações comuns.
Os princípios abaixo formam a base desse exército:
1. caráter de classe do exército;
2. voluntariado (toda coerção será completamente
excluída da tarefa de defesa da revolução);
3. livre disciplina (autodisciplina) revolucionária: o
voluntariado e a autodisciplina revolucionária são
totalmente compatíveis, e tornarão o exército da
revolução moralmente mais forte do que qualquer
exército estatal;
4. total submissão do exército revolucionário às massas
operárias e camponesas, representadas pelas
organizações de operários e camponeses de todo o
país, situados pelas massas na direção da vida
econômica e social.
Dito de outra maneira: o órgão de defesa da
revolução encarregado de combater a contra-revolução, nas
frentes militares externas assim como na guerra civil
(conspirações burguesas, preparativos de ações contra-
revolucionárias) será totalmente controlado pelas
organizações produtivas de operários e camponeses, ás
quais se submeterá e das quais receberá a orientação
política.
Atenção: Estando tudo construído conforme princípios
comunistas libertários determinados, o exército não deve
ser considerado um elemento de princípio. Ele nada mais é
do que a aplicação da estratégia militar na revolução, uma
medida estratégica à qual os trabalhadores são forçados
pelo processo da guerra civil. Mas esta medida exige
atenção, desde já, deve ser cuidadosamente estudada para
evitar, na execução das tarefas de proteção e defesa da
revolução, toda demora irreparável, pois tais hesitações,
durante a guerra civil poderão ser desastrosos para a
revolução social.

38
Organizações Anárquicas

Parte Organizacional

Os Princípios da Organização Anarquista


As posições gerais construtivas, acima expostas,
constituem a plataforma de organização das forças
revolucionárias do anarquismo.
Esta plataforma, contendo uma orientação teórica e
tática definitiva, aparece como o mínimo necessário e
urgente para todos os militantes do movimento anarquista
organizado.
Sua tarefa é agrupar, em torno de si, todos os
elementos saudáveis do movimento anarquista numa só
organização geral, permanentemente ativa: a União Geral
dos Anarquistas. As forças de todos os militantes ativos do
anarquismo deverá ser orientada para a criação desta
organização.
Os princípios fundamentais de organização da União
Geral dos Anarquistas serão os seguintes:

Unidade Teórica
A teoria representa a força que dirige a atividade das
pessoas e das organizações por um caminho definido e para
um objetivo determinado. Naturalmente, a teoria deve ser
comum para todas as pessoas e organizações que aderirem
à União Geral. Toda atividade da União Geral Anarquista,
tanto em caráter geral como em particular, deve estar em
perfeito acordo com os princípios teóricos da União.

Unidade Tática ou Método Coletivo de Ação


Os métodos táticos empregados por membros e
grupos da União também devem ser unitários, ou seja, estar
rigorosamente de acordo entre si e com a teoria e tática
geral da União.
Uma linha tática comum no movimento tem
importância decisiva para a existência da organização e de
todo o movimento, prevenindo-o contra os efeitos nefastos

39
Organizações Anárquicas

de várias táticas que se neutralizam mutuamente, e


concentrando todas as suas forças, orienta-o numa direção
comum que conduz a um objetivo determinado.

Responsabilidade Coletiva
A prática que consiste em agir em nome da
responsabilidade pessoal deve ser condenada e rejeitada no
movimento anarquista.
Os domínios da vida revolucionária, social e política,
são antes de tudo coletivos por sua natureza. A atividade
social revolucionária não pode se basear na
responsabilidade pessoal dos militantes isolados.
O órgão executivo do movimento geral anarquista, a
União Anarquista, contrapondo-se decisivamente à tática
irresponsável do individualismo, introduz em suas fileiras o
princípio da responsabilidade coletiva: toda a União deverá
ser responsável pela atividade revolucionária e política de
cada membro; da mesma forma, cada membro será
responsável pela atividade revolucionária e política da União
como um todo.

Federalismo
O Anarquismo sempre negou a organização
centralizada, na vida social das massas quanto e em sua
ação política. O sistema de centralização atrofia o espírito
crítico, a iniciativa e a independência de cada indivíduo, e
promove a cega submissão das massas ao 'centro'. As
conseqüências, naturais e inevitáveis, desse sistema são a
escravidão e a mecanização da vida social e da vida dos
grupos.
Contra o centralismo, o anarquismo sempre
professou e defendeu o princípio do federalismo, que
harmoniza a independência e a iniciativa dos indivíduos ou
da organização com o interesse da causa comum.
Conciliando a idéia de independência e a plenitude
dos direitos de cada indivíduo com os interesses e
necessidades sociais, o federalismo incentiva toda

40
Organizações Anárquicas

manifestação saudável das faculdades de cada indivíduo.


Mas, com freqüência, o princípio federalista tem sido
deformado nas fileiras anarquistas: tem sido compreendido
como o direito, sobretudo, da manifestação do 'ego', sem a
obrigação de cumprir seus deveres na organização.
Essa interpretação falsa desorganizou nosso
movimento no passado. É tempo de acabar com isso, de
modo forte e irreversível.
Federalismo significa livre entendimento, entre
indivíduos e organizações, na ação coletiva orientada para o
objetivo comum.
Ora, tal entendimento e a união federativa baseada
nela se tornarão realidade, em vez de ficção e ilusão,
somente na indispensável condição de que todos os que
participam do entendimento e na União cumpram os
deveres assumidos, em conformidade com as decisões
tomadas em comum.
Numa construção social, por mais vasta que sejam as
bases federalistas sobre as quais se funda, não poderá
haver direitos sem obrigações, nem decisões sem a
respectiva execução. Isto é ainda menos admissível numa
organização anarquista, que assume exclusivamente
obrigações quanto aos trabalhadores e a revolução social.
Por conseguinte, o tipo federalista de organização
anarquista, reconhecendo os direitos (quais sejam:
independência, opinião livre, iniciativa e liberdade
individual) de cada membro, exige que cada membro
cumpra seus deveres organizacionais determinados, assim
como a rigorosa execução das decisões tomadas em
comum.
Unicamente sob esta condição, o princípio federalista
viverá, e a organização anarquista funcionará corretamente,
dirigindo-se para um objetivo definido.
A idéia da União Geral dos Anarquistas põe o
problema da coordenação e da aprovação das atividades de
todas as forças do movimento anarquista.

41
Organizações Anárquicas

Cada organização aderente à União representa uma


célula vital, parte de um organismo comum. Cada célula
terá seu secretariado, executando e orientando
teoricamente sua própria atividade política e técnica.
Tendo em vista a coordenação da atividade de todas
as organizações aderentes à União, um órgão especial será
criado: o Comitê Executivo da União. Este último será
responsável pelas seguintes funções: execução das decisões
tomadas pela União; orientação teórica e organizacional da
atividade das organizações isoladas, de acordo com as
opiniões teóricas e a linha tática geral da União; supervisão
do estado geral do movimento; manutenção das ligações
práticas e organizacionais entre todas as organizações na
União, e com outras organizações.
Os direitos e obrigações, as tarefas práticas do
comitê executivo são fixadas pelo Congresso da União.
A União Geral dos Anarquistas possui um objetivo
determinado e concreto. Em nome do sucesso da revolução
social, ela deve antes de tudo se apoiar sobre os elementos
mais revolucionários e radicais dentre os operários e
camponeses, assimilando-os.
Proclamando a revolução social e, além disso, sendo
uma organização antiautoritária que luta pela abolição
imediata da sociedade de classes, a União Geral dos
Anarquistas se apóia igualmente sobre duas classes
fundamentais da sociedade atual: os operários e os
camponeses. A União se empenhará de modo igual na luta
pela emancipação dessas duas classes.
Quanto aos sindicatos, às organizações operárias e
revolucionárias nas cidades, a União Geral dos Anarquistas
intensificará seus esforços para se tornar seu destacamento
de vanguarda e guia teórico.
Ela assumirá as mesmas tarefas na relação com as
massas camponesas exploradas. Como pontos de apoio,
desempenhando o papel dos sindicatos revolucionários para
os operários, a União se esforçará para criar uma rede de
organizações econômicas camponesas revolucionárias e,
além disso, um sindicato de camponeses específico,

42
Organizações Anárquicas

fundado sobre princípios antiautoritários.


Nascida do coração da massa trabalhadora, a União
Geral dos Anarquistas deve participar de todas as
manifestações de sua vida, contribuindo, por toda a parte e
sempre, com o espírito de organização, perseverança,
atividade e ofensiva.
Somente assim, ela cumprirá sua tarefa, sua missão
teórica e histórica na revolução social dos trabalhadores, e
se tornar a iniciativa organizada de seu processo
emancipador.

43
Organizações Anárquicas

Definições mínimas das


organizações
revolucionárias
Guy Debord

44
Organizações Anárquicas

Considerando que o único fim de uma organização


revolucionária é a abolição das classes existentes por meios
que não levem a uma nova divisão da sociedade,
qualificamos de revolucionária qualquer organização que
procure de maneira conseqüente a realização internacional
do poder absoluto dos conselhos de trabalhadores tal e
como tem sido esboçado pelas experiências das revoluções
proletárias deste século.
Tal organização apresenta uma crítica unitária do
mundo ou não é nada. Por crítica unitária entendemos uma
crítica dirigida globalmente contra todas as zonas
geográficas onde se instalaram diversas formas de poderes
sócio-econômicos separados, e que se pronuncia também
globalmente contra todos os aspectos da vida.
Tal organização reconhece o princípio e o fim de seu
programa na descolonização total da vida quotidiana; não
pretende a autogestão do mundo existente pelas massas,
senão sua transformação ininterrupta. Realiza a crítica
radical da economia política, a superação da mercadoria e
do salário.
Tal organização rechaça toda a reprodução em seu
interior das condições hierárquicas do mundo dominante. O
único limite de participação em sua democracia total é o
reconhecimento e a auto-apropriação por todos os seus
membros da coerência de sua crítica: essa coerência deve
estar na teoria crítica propriamente dita e na correlação
entre essa teoria e a atividade prática.
Critica radicalmente toda ideologia enquanto poder
separado das idéias e idéias do poder separado. Assim, ela é
ao mesmo tempo a negação de toda sobrevivência da
religião e do atual espetáculo social que, desde a
informação até a cultura massificada, monopoliza toda
comunicação dos homens entorno de uma recepção
unilateral das imagens de sua atividade alienada. Dissolve
toda a "ideologia revolucionária" desmascarando-a como
indicação do fracasso do projeto revolucionário, como
propriedade privada dos novos especialistas do poder, como
impostura de uma nova representação que se erige da vida
real proletarizada.

45
Organizações Anárquicas

Sendo a categoria de totalidade o juízo último da


organização revolucionária moderna, tal organização é em
última análise uma crítica da política. Deve ter como
objetivo explícito, com sua vitória, o seu próprio fim como
organização separada.

3
Guy Debord, outubro de 1955.

Preliminares sobre os
Conselhos e a
Organização Conselhista
René Riesel
3 Publicado originalmente em Internationale Situationniste nº 11, outubro
de 67. Trad. de Juan Fonseca publicada en DEBATE LIBERTARIO 2 - Serie
Acción directa - Campo Abierto Ediciones Primera edición: maio de
1977. Traduzido do espanhol pelos editores do sítio
www.geocities.com/autonomiabvr Em
http://www.geocities.com/autonomiabvr/minima.html

46
Organizações Anárquicas

"O governo operário e camponês decretou que


Kronstadt e os navios rebeldes devem submeter-
se imediatamente à autoridade da República
Soviética.
Portanto, ordeno a todos que levantaram a mão
contra a pátria socialista que deponham as
armas de imediato. Os desobedientes serão
desarmados, detidos e entregues às altas
autoridades soviéticas. Os comissários e outros
representantes do governo que se encontram
detidos, devem ser libertados já. Só quem se
render incondicionalmente poderá contar com a
misericórdia da República Soviética. Ao mesmo
tempo, ordenamos que seja preparada a
repressão e a submissão dos amotinados pelas
armas. Toda responsabilidade pelos prejuízos
que possa sofrer a população pacífica recairá
sobre os amotinados contra-revolucionários. Esta
advertência é a definitiva."
Trotski, Kamenev. "Ultimatum a Kronstadt", 5 março 1921

"A única coisa que temos a dizer é: TODO O


PODER AOS SOVIETS! Tirai vossas mãos deste
poder, vossas mãos tingidas com o sangue dos

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Organizações Anárquicas

mártires da liberdade que lutaram contra os


guardas brancos, latifundiários e a burguesia. "

lzvestia de Kronstadt nº6, 7 março 1921


Há 50 anos, os leninistas reduziram o comunismo à
eletrificação, a contra-revolução bolchevique construiu o
estado soviético sobre o cadáver do poder dos sovietes, a
palavra Soviete deixou de traduzir-se por Conselho. Nesse
período, as revoluções ocorridas sempre lançaram na cara
dos senhores do Kremlin a reivindicação de Kronstadt: "Todo
o poder aos sovietes, não aos partidos!" A tendência real do
movimento proletário para o poder dos Conselhos
Operários, no decorrer de meio século de tentativas e
fracassos sucessivos, indica para a nova corrente
revolucionária que os Conselhos são a única forma de
ditadura anti-estatal do proletariado e o único tribunal que
poderá pronunciar o juízo contra o velho mundo, ao mesmo
tempo que executará a sentença.
“Como nos é necessário precisar a noção de
Conselho, descartaremos as grosseiras falsificações
acumuladas pela social-democracia, a burocracia russa, o
titismo e inclusive o benbelismo, mas sobretudo
reconheceremos as insuficiências das breves experiências
práticas que até agora se esboçaram do poder dos
Conselhos e os erros das concepções dos revolucionários
conselhistas. (...)” Aquilo para o qual o Conselho tende a ser
em sua totalidade, aparece delineado negativamente pelos
limites e as ilusões que marcaram suas primeiras
manifestações e pela luta imediata e sem compromisso que
as classes dominantes empreenderam contra ele, ambos os
fatores causaram sua derrota. O Conselho pretende ser a
forma de unificação prática dos proletários, que se
apropriam dos meios materiais e intelectuais para
transformar as condições existentes e realizam
soberanamente sua história. O conselho pode e deve ser a
organização em ato da consciência histórica. Porém nunca
em nenhum lugar o poder dos Conselhos chegou a transpor
a separação que congenitamente comportam as
organizações políticas especializadas e as formas de falsa
consciência ideológica que estas produzem. Além do mais,

48
Organizações Anárquicas

se os Conselhos, como sujeitos principais de um momento


revolucionário, são normalmente Conselhos de Delegados
que coordenam e federam as decisões dos conselhos locais,
se pode constatar que as assembléias gerais de base quase
sempre tem sido consideradas como meras assembléias de
eleitores de maneira que o primeiro grau de "um Conselho"
se situaria mais num nível superior que nas assembléias
gerais locais de todos os proletários revolucionários, o
próprio Conselho, de onde qualquer tipo de delegação deve
obter em qualquer instante seu poder (mandato).
Deixando de lado os traços pré-conselhistas que
entusiasmaram Marx na Comuna de Paris ("a forma política
enfim descoberta sob a qual pode se realizar a libertação
econômica do trabalho") e que melhor do que na Comuna
eleita se manifesta na organização do Comitê Central da
Guarda Nacional, composto por delegados do proletariado
parisiense, o primeiro esboço de uma organização própria
do proletariado em um momento revolucionário, foi o
famoso "Conselho de Deputados Operários" de São
Petesburgo. Segundo as cifras dadas por Trotski em 1905,
uns 200.000 operários enviaram seus delegados ao Soviet
de São Petesburgo, mas sua influência se estendia muito
mais além de sua zona, pois muitos outros Conselhos da
Rússia se inspiraram em suas deliberações e decisões;
agrupava diretamente aos trabalhadores de mais de 150
empresas e além disso acolhia os representantes de 16
sindicatos que se uniram ao Conselho. Seu primeiro núcleo
se formou em 13 de outubro, mas já no dia 17 instituía por
cima dele um Comitê Executivo que, disse Trotski, "lhe
servia de ministério". Sobre um total de 562 delegados, o
Comitê Executivo formavam 31 membros dos quais 22 eram
realmente trabalhadores delegados pelo conjunto dos
trabalhadores e 9 representavam os três partidos
revolucionários (mencheviques, bolcheviques e social-
revolucionários); no entanto os "representantes dos partidos
não tinham voto nas deliberações". Podemos admitir, pois,
que as assembléias de base estavam representadas
fielmente pelos seus delegados revogáveis, mas
evidentemente eles haviam abdicado de grande parte de
seu poder e de maneira totalmente parlamentarista a favor

49
Organizações Anárquicas

de um Comitê Executivo em que os "técnicos" dos partidos


políticos tinham uma influência imensa.
Qual foi a origem deste Soviet? Parece que esta
forma de organização foi encontrada por alguns elementos
politicamente instruídos da base operária e que pertenciam
a alguma fração socialista. Parece excessiva a afirmação de
Trotski ao dizer que "uma das organizações social-
democratas de Petesburgo tomou a iniciativa da criação de
um administração autônoma revolucionária operária". (Além
do mais, destas "duas organizações", quem em seguida
reconhecem a importância desta iniciativa foram os
mencheviques). Entretanto, a greve de outubro de 1905 se
erigiu de fato em Moscou em 19 de setembro, quando os
tipógrafos da empresa Sytin se puseram em greve,
fundamentalmente porque queriam que os sinais de
pontuação estivessem entre os 1000 caracteres que
constituíam a unidade de pagamento de seu trabalho.
Cinqüenta empresas lhes seguiram e em 25 de setembro as
gráficas de Moscou constituíram um conselho. Em 3 de
outubro, "a assembléia de deputados operários das
corporações de artes gráficas, de mecânica, carpintaria, de
tabaco e outras, adotou a resolução de constituir um
conselho (Soviet) geral de Moscou" (Trotski, op. cit.). Vemos,
pois, que esta forma aparece espontaneamente no princípio
do movimento de greve. E este movimento que começou a
esfriar nos dias seguintes se vivificou de novo até alcançar a
grande crise histórica de 7 de outubro, quando os
trabalhadores ferroviários, a partir de Moscou
espontaneamente começaram a interromper o tráfego de
trens.
O movimento de conselhos de Turim, de março-abril
de 1920, foi iniciado pelos proletários da Fiat que
constituíam um núcleo muito concentrado. Entre agosto e
setembro de 1919, ocorreu a renovação dos eleitos em uma
"comissão interna" – uma espécie de comitê de empresa
colaboracionista fundado por um convênio coletivo de 1906
com o objetivo de integrar melhor os operários –, o que
ocasionou uma transformação completa do papel desses
"comissários" na situação de crise social que então assolava
a Itália. Assim, começaram a se federarem entre eles como

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Organizações Anárquicas

representantes diretos dos trabalhadores. Em outubro de


1019, trinta mil trabalhadores estavam representados em
uma assembléia de "comitês executivos dos Conselhos de
fábrica", que mais parecia uma reunião de contra-mestres
que a uma organização de conselhos dita (sobre a base de
um comissário eleito por cada oficina). Mas o exemplo foi
seguido, se estendeu e o movimento se radicalizou,
sustentado por uma fração do Partido Socialista, que era
majoritária em Turim (com Gramsci) e pelos anarquistas
piemonteses (Cf. o folheto de Pier Carlo Masini, Anarchici e
comuniste nel movimento dei Consigli a Torino). O
movimento foi combatido pela maioria do Partido Socialista
e pelos sindicatos. Em 15 de março de 1920, os Conselhos
iniciaram a greve com ocupação de fábricas e colocaram em
marcha a produção sob seu absoluto controle. Em 14 de
abril, a greve já era geral no Piemonte. Nos dias seguintes,
alcançou grande parte do norte da Itália, sobretudo entre os
ferroviários e os estivadores. O governo recorreu a navios de
guerra para desembarcar em Gênova as tropas que
marcharam sobre Turim. Se o programa dos Conselhos foi
aprovado mais tarde pela União Anarquista Italiana, reunida
em Bolonha, em 1 de julho, não ocorreu o mesmo por parte
do Partido Socialista e sindicatos, que conseguiram sabotar
a greve mantendo-a no isolamento. O diário do Partido,
Avanti, não publicou a convocatória da seção socialista de
Turim, enquanto que a cidade era tomada por 20.000
soldados e policiais (cf. P.C. Masini). A greve, que teria
possibilitado uma vitoriosa insurreição proletária em todo o
país, foi esmagada em 24 de abril. Sabemos o que ocorreu
depois.
Reconhecendo o caráter avançado dessa experiência
pouco citada (muitos esquerdistas crêem que as ocupações
de fábrica começaram na França em 1936), devemos
assinalar as ambigüidades de seus defensores e teóricos.
Por exemplo, Gramsci, no nº4 de Ordine Nuovo (2º ano),
escrevia: “Nós concebemos o Conselho de fábrica como o
princípio histórico que deve conduzir necessariamente à
fundação de um Estado Operário". Por seu lado, os
anarquistas conselhistas estimavam ainda o sindicalismo e
pretendiam que os Conselhos lhe dessem um novo impulso.

51
Organizações Anárquicas

Contudo, o manifesto lançado pelos conselhistas de


Turim, em 27 de março de 1920, "aos operários e
camponeses da Itália" por um Congresso Geral dos
Conselhos (que não aconteceu), formula alguns pontos
essenciais do programa dos Conselhos: "A luta de conquista
se faz com armas de conquista e não de defesa" (refere-se
aos sindicatos, organismos de resistência... cristalizados em
uma forma burocrática - Nota da I.S.). Devemos desenvolver
uma organização nova como antagonista direta dos órgãos
de governo dos patrões; por isso deve surgir
espontaneamente no lugar de trabalho e reunir todos os
trabalhadores porque todos, como produtores, estamos
submetidos a uma autoridade que nos é estranha e
devemos nos libertar dela (...) Eis aqui a origem da
liberdade: a origem de uma formação social que,
estendendo-se rápida e universalmente, nos porá em vias
de eliminar do terreno econômico o explorador e o
intermediário, e nos tornarmos donos de nossas máquinas,
de nosso trabalho, de nossa vida...
Os Conselhos de operários e de soldados na
Alemanha de 1918-1919, que estavam dominados pela
burocracia social-democrata e eram alvo de suas manobras,
toleravam o governo "socialista" de Ebert, que se apoiava
no estado maior do exército alemão e nos corpos francos
(militares desmobilizados). Os "7 pontos de Hamburgo"
(sobre a liquidação imediata do antigo exército),
apresentados por Dorrenbach e aprovados no Congresso dos
Conselhos de Soldados, iniciado em 16 de dezembro em
Berlim, nunca foram aplicados pelos "comissários do povo".
Os Conselhos eram um obstáculo para a revolução, assim
como as eleições legislativas marcadas para 19 de janeiro.
Finalmente, ocorreu o ataque contra os marinheiros de e o
esmagamento da insurreição espartaquista na mesma
véspera das eleições.
Em 1956, o Conselho Operário Central da Grande
Budapeste, formado em 14 de novembro, se declarava
disposto a defender o socialismo e, ao mesmo tempo que
exigia "a retirada de todos os partidos políticos das
fábricas", se pronunciava pela volta de Nagy ao poder e pela
fixação de eleições livres num prazo dado. A greve geral se

52
Organizações Anárquicas

mantinha, enquanto as tropas russas esmagavam a


resistência armada. Mas, mesmo antes da segunda
intervenção do exército russo, os Conselhos húngaros
pediam eleições parlamentares; isto é, buscavam chegar a
uma situação de duplo poder, quando eram o único poder
real na Hungria frente aos russos.
A consciência do que o poder dos Conselhos é e deve
ser nasce da prática desse poder. Mas em uma fase que
esse poder seja parcial, a consciência pode ser muito
diferente do que pensa tal ou qual trabalhador membro de
um conselho ou inclusive a totalidade de um Conselho: a
ideologia se opõe à verdade em atos que encontra seu
terreno no sistema dos Conselhos. Esta ideologia se
manifesta não somente sob forma de ideologias hostis ou
sob forma de ideologias sobre os Conselhos edificados por
forças políticas que querem submetê-los, senão também sob
a forma de uma ideologia favorável ao poder dos conselhos
que restringe e dosifica a teoria e a praxis total. Por último,
um puro conselhismo seria também por si mesmo inimigo
da realidade dos Conselhos. Tal ideologia, sob formulações
mais ou menos conseqüentes, comporta o risco de ser
veiculada por organizações revolucionárias que, em
princípio estão orientadas para o poder dos Conselhos. Este
poder, que é em si mesmo a organização da sociedade
revolucionária e cuja coerência está objetivamente definida
pelas necessidades dessa tarefa histórica tomada como
conjunto, não pode, em nenhum caso, deixar de lado o
problema prático das organizações particulares, inimigas do
Conselho ou mais ou menos veridicamente pré-conselhistas
que de todas as formas intervirão em seu funcionamento. É
necessário que as massas organizadas em Conselhos
conheçam e resolvam este problema. Aqui, a teoria
conselhista e a existência de autênticas organizações
conselhistas, adquire singular importância porque neles
aparecem já alguns elementos essenciais que estarão em
jogo nos Conselhos e em sua própria interação com os
Conselhos.
Toda a história revolucionária mostra que a aparição
de uma ideologia joga um papel não desprezível no fracasso
dos Conselhos. A facilidade com a qual a organização

53
Organizações Anárquicas

espontânea do proletariado em luta assegurou suas


primeiras vitórias freqüentemente anunciou uma segunda
fase em que a reconquista se operou desde dentro, em que
o movimento prescindiu de sua realidade pela sobra de seu
fracasso. O conselhismo é, neste sentido, a nova juventude
do novo mundo.
Social-democratas e bolcheviques têm em comum a
vontade de não querer ver nos Conselhos mais que um
organismo do Partido e do Estado. Em 1902, Kautsky,
inquieto pelo descrédito que alcançava aos sindicatos, no
ânimo dos trabalhadores, propunha que em certos ramos da
indústria, os trabalhadores elegessem "delegados que
formariam uma espécie de parlamento que tivesse como
missão regulamentar o trabalho e vigiar a administração
burocrática" (A Revolução Social). A idéia de uma
representação operária hierarquizada que culminaria em um
parlamento seria aplicada com muito mais convicção por
Ebert, Noske e Scheidemann. A maneira como esse gênero
de conselhismo trata os Conselhos foi magistralmente
demonstrada, para todos os que têm merda no lugar do
cérebro, desde 9 de novembro de 1918, quando para
combater em seu próprio terreno a organização dos
Conselhos, os social-democratas fundaram nas oficinas do
Vorwaerts um "Conselho de Operários e Soldados de Berlim"
que contava, como homens de confiança das fábricas,
funcionários e líderes social-democratas.
O conselhismo bolchevique não tinha nem a
ingenuidade de Kautsky nem o descaramento de Ebert.
Saltou da base mais radical "Todo o poder aos Soviets", para
cair de patas no outro lado de Kronstad. Em As tarefas
Imediatas do Poder dos Sovietes (abril de 1918), Lenin
adiciona enzimas ao detergente Kautsky: "Os parlamentos
burgueses, inclusive os das melhores, do ponto de vista
democrático, repúblicas capitalistas do mundo, não são
considerados pelos pobres como algo seu e para eles (...).
Precisamente, o contato dos sovietes com os trabalhadores
é que cria formas particulares de controle por baixo –
eleição de deputados, etc., – formas que devemos agora nos
empenhamos em desenvolver com zelo particular. Por isso,
os conselhos de instrução pública que são as conferências

54
Organizações Anárquicas

periódicas dos eleitores soviéticos e seus delegados,


reunidos para discutir e controlar a atividade das
autoridades soviéticas neste campo, merecem toda a nossa
simpatia e nosso apoio. Nada seria tão estúpido como
transformar os soviets em algo fixo de antemão, em um
objetivo em si. Quanto mais resolutamente nos
pronunciemos por um poder forte e implacável, pela
ditadura pessoal em tal processo de trabalho, em tal
momento do exercício de funções puramente executivas,
mais variados serão os meios de controle por baixo com o
objetivo de paralisar toda possibilidade de deformação do
poder dos Sovietes, a fim de extirpar, agora e sempre, a
embriaguês burocrática". para Lenin, pois, os Conselhos
devem atuar como grupos de pressão que corrijam a
inevitável burocracia do Estado em suas funções políticas e
econômicas, assegurados respectivamente pelo Partido e os
Sindicatos. Os Conselhos seriam, no máximo, a parte social,
que, como a alma de Descartes, é preciso que resida em
alguma parte.
Gramsci tentou melhorar Lênin com um banho de
formalidades democráticas: "Os comissários de fábricas são
os únicos e verdadeiros representantes sociais (econômicos
e políticos) da classe operária, porque são eleitos pelo
sufrágio universal de todos os trabalhadores, no próprio
lugar de trabalho. Nos diferentes graus de sua hierarquia, os
comissários representam a união de todos os trabalhadores,
tal como esta se realiza nos organismos de produção
(equipe de trabalho, departamento de fábrica, união de
fábricas de uma indústria, união de organismos da indústria
mecânica e agrícola de uma província, de uma região, de
uma nação, do mundo), sendo os Conselhos e o sistema dos
Conselhos o poder e a direção social" (artigo de Ordine
Nuovo). Se os conselhos ficam reduzidos ao estado de
fragmentos econômico-sociais que preparam uma "futura
república soviética", não cabe dúvida de que o Partido, esse
"príncipe moderno", aparece como o indispensável aparato
político, como o deus mecânico preexistente e desejoso de
assegurar sua existência futura: "O partido comunista é o
instrumento e a forma histórica de libertação graças ao qual
os operários, de executantes se transformam em dirigentes,

55
Organizações Anárquicas

de massas se transformam em chefes e guias, de braços se


transformam em cérebros e vontades" (Ordine Nuovo,
1919). O tom muda, mas a ladainha é a mesma: Conselhos,
Partido, Estado. Tratar os Conselhos de maneira
fragmentária (poder econômico, poder social, poder
político), como fazem os cretinos conselhistas do grupo
Revolution Internationale de Toulouse, é crer que se apertas
o cu, te enrabam menos.
O austro-marxismo, desde 1918, na linha de lenta
evolução que preconiza, também constrói uma ideologia
própria. Max Adler, por exemplo, em seu livro Democracia e
Conselhos Operários, vê acertadamente o Conselho como
instrumento de auto-educação dos trabalhadores, o possível
fim da separação entre executantes e dirigentes, a
constituição de um povo homogêneo que poderá realizar a
democracia socialista. Mas reconhece também que o
simples fato de que os trabalhadores detém um poder não é
suficiente para garantir-lhes um objetivo revolucionário
coerente: para isto será preciso que os trabalhadores
membros dos Conselhos queiram realizar o socialismo.
Como Adler é um teórico do duplo poder legalizado, isto é,
de um absurdo que forçosamente será incapaz de manter-se
aproximando-se gradualmente à consciência revolucionária
e preparando prudentemente um revolução para mais tarde,
se encontra privado do único elemento verdadeiramente
fundamental de auto-educação do proletariado: a própria
revolução. Para substituir o insubstituível terreno de
homogeneização proletária, a única forma de seleção
constituída pela formação dos Conselhos, das idéias e dos
modos de atividade coerente nos conselhos, não ocorre a
Adler mais que a aberração: "Para ter direito de voto na
eleição dos Conselhos operários bastará pertencer a uma
organização socialista" .
À margem da ideologia sobre os Conselhos, de social-
democratas e bolcheviques, que desde Berlim a Kronstadt
tiveram sempre um Trotski ou um Noske de plantão,
podemos afirmar que a ideologia conselhista - ou seja, a das
organizações conselhistas do passado e de algumas do
presente - sempre tem alguma assembléia e alguns
mandatos imperativos de menos. Com exceção das

56
Organizações Anárquicas

coletividades agrárias Aragão, todos os Conselhos que


existiram até hoje foram "conselhos democraticamente
eleitos" somente no mundo das idéias, ainda quando os
momentos máximos de sua prática desmentiam esta
limitação e todas as decisões eram tomadas por
Assembléias Gerais soberanas que dava, seu mandato a
delegados revogáveis.
Unicamente a prática histórica, na qual a classe
operária encontrará e realizará todas as suas possibilidades,
indicará as formas organizativas concretas do poder dos
Conselhos. No entanto, corresponde aos revolucionários a
tarefa de estabelecer os princípios fundamentais das
organizações conselhistas que nascerão em todos os países.
Formulando hipóteses e recordando as exigências
fundamentais do movimento revolucionário, este artigo que
deverá ser seguido por alguns mais, quer abrir um debate
igualitário e real. Só excluiremos aqueles que evitem esta
questão destes termos, a saber: aqueles que declaram-se
hoje inimigos de toda forma de organização em nome de um
espontaneísmo subanarquista não fazem mais que produzir
as taras e o confusionismo do antigo movimento; místicos
da não-organização, operários desanimados ao ter-se
misturado durante demasiado tempo com as seitas
trotskistas ou estudantes prisioneiros de sua pobre
condição, que são incapazes de escapar dos sistemas
organizativos bolcheviques. Os situacionistas
evidentemente são partidários da organização e a existência
da organização situacionista o atesta. Os que anunciam seu
acordo com nossas teses pondo um vago espontaneismo em
nosso fazer simplesmente não sabem ler.
Precisamente por não ser tudo e por não permitir
salvar ou ganhar tudo, a organização é indispensável. Ao
contrário do que dizia o carniceiro Noske (em Von Kiel bis
Kapp) a propósito da jornada de 6 de janeiro de 1919, as
massas não foram se apossaram de Berlim nesse dia, ao
meio-dia, não porque tiveram "bons oradores" no lugar de
"chefes decididos", mas porque a forma de organização
autônoma dos Conselhos de fábrica não alcançara um grau
suficiente de autonomia para atuar sem "chefes decididos"
e sem organização separada que assegurasse a união. O

57
Organizações Anárquicas

exemplo de Barcelona, em maio de 1937, é outra prova do


que dizemos: o fato de que as armas surgiram
imediatamente, em resposta à provocação stalinista, mas
também que a ordem de rendição lançada pelos ministros
anarquistas foi tão rapidamente obedecida, fala alto e claro,
tanto sobre as imensas capacidades de autonomia das
massas catalãs como da autonomia que ainda lhes faltava
para vencer. Amanhã mesmo, será o grau de autonomia
operária o que decidirá nossa sorte.
As organizações conselhistas que se formarem
posteriormente não deixarão de reconhecer e de retomar
como ponto de partida a Definição Mínima das Organizações
Revolucionárias, adotada pela Sétima Conferência da
Internacional Situacionista. Sendo tarefa de tais
organizações a preparação do poder dos conselhos, que é
incompatível com qualquer outra forma de poder, deverão
saber que um acordo abstrato dado a esta definição as
condena sem remédio a não ser nada. Por isso seu acordo
real se verificará praticamente nas relações não-
hierárquicas no interior dos grupos ou seções que os
constituem, nas relações entre esses grupos e nas relações
com outros grupos e organizações autônomas; tanto no
desenvolvimento da teoria revolucionária e na crítica
unitária da sociedade dominante como na crítica
permanente de sua própria prática. Recusando a velha
bifurcação do movimento operário em organizações
separadas, partidos e sindicatos, elaborarão seu programa e
prática unitárias. Todas as organizações conselhistas do
passado que jogaram um papel importante na luta de
classes consagraram a separação entre os setores político,
econômico e social. Um dos poucos partidos antigos que
merecem ser analisados é o Kommunistische Arbeiter Partei
Deutschlands (K.A.P.D. - Partido Comunista Operário
Alemão) que, ao adotar os conselhos em seu programa, só
se propunha como tarefas essenciais a propaganda e a
discussão teórica, "a educação políticas das massas",
deixando à Allgemeine Arbeiter Union Deutschlands
(A.A.U.D., União Geral de Trabalhadores da Alemanha) o
papel de federar as organizações revolucionárias das
fábricas, concepção que se distanciava pouco do

58
Organizações Anárquicas

sindicalismo tradicional. O K.A.P.D. rechaçava o


parlamentarismo e o sindicalismo do K.P.D. (Kommunistische
Partei Deutschlands - Partido Comunista Alemão), assim
como a idéia leninista do partido de massas e preferia
agrupar os trabalhadores conscientes, mas ainda estava
preso ao velho modelo hierárquico de partido de vanguarda,
ou seja, profissionais da revolução e redatores assalariados.
A recusa desse modelo, explicitada na negação de uma
organização política separada das organizações
revolucionárias de fábrica, levou em 1920 à cisão de uma
parte dos membros da A.A.U.D., que fundaram a A.A.U.D.- E
(Allgemeine Arbeiter Union Deutschlands
Einheitsorganisation, União geral dos trabalhadores da
Alemanha - Organização unificada). A nova organização
unitária assumiria, mediante o novo jogo de sua democracia
interna, a tarefa de educação até então desempenhada pelo
K.A.P.D., e se incumbiria da coordenação das lutas: as
organizações de fábricas que federava se converteriam ou
transformariam em Conselhos no momento revolucionário e
assegurariam a gestão da sociedade. Assim, a moderna
consigna do Conselho Operário estava ainda mesclada às
recordações messiânicas do antigo sindicalismo
revolucionário: as organizações de fábrica se converteriam
magicamente em Conselhos quando todos os operários
estivessem integrados nelas.
Tudo isso levou ao que tinha que levar. Depois do
esmagamento da insurreição de 1921 e da repressão do
movimento, os operários, desiludidos pelo distanciamento
do horizonte revolucionário, abandonaram em grande
número as organizações de fábrica que estavam em perigo
no momento que deixavam de ser órgãos de um luta real. A
A.A.U.D. era o mesmo que o K.A.P.D. e a A.A.U.D.-E. A
revolução se distanciava na mesma velocidade que seus
efetivos diminuíam. Já não eram mais que organizações
portadoras de uma ideologia conselhista, cada vez mais
separada da realidade.
A evolução terrorista do K.A.P.D. e o apoio exclusivo
da A.A.U.D. a reivindicações puramente "alimentícias"
produziu em 1929 a cisão entre a organização das fábricas e
seu partido. Mortas em vida, a A.A.U.D. e A.A.U.D.-E se

59
Organizações Anárquicas

fundiram grotescamente e sem preâmbulos, ante a


ascensão do nazismo em 1931. Os revolucionários das
ambas as organizações se reagruparam por sua vez para
formar a K.A.U.D. (Kommunistische Arbeiter Uiiion
Deutschlands, União de Trabalhadores Comunistas da
Alemanha), que sendo uma organização minoritária com
consciência de sê-lo, foi a única que não pretendeu assumir
a organização econômica (econômico-política no caso da
A.A.U.D.-E) futura da sociedade. A K.A.U.D. propôs aos
operários a formação de grupos autônomos, o que
asseguraria por si mesmo a união desses grupos. Mas na
Alemanha a K.A.U.D. chegava demasiado tarde. Em 1931, o
movimento revolucionário havia morrido há dez anos.
Mesmo que não seja mais que para ouvir-lhes o
relinchar, vamos lembrar aos que ainda se obstinam na
querela marxismo-anarquismo, o que a C.N.T.-F.A.I.
(deixando de lado o peso morto da ideologia anarquista,
mas com muito mais prática e imaginação libertadora) se
parecia em suas disposições organizativas ao marxista
K.A.P.D.-A.A.U.D. Da mesma maneira que o Partido
Comunista Operário Alemão, a Federação Anarquista Ibérica
quer ser a organização política dos trabalhadores espanhóis
conscientes, enquanto que a A.A.U.D. e a C.N.T. se
encarregariam da organização da sociedade futura. Os
militantes da F.A.I., elite do proletariado, difundem a idéia
anarquista entre as massas; a C.N.T. organiza praticamente
os trabalhadores em seus sindicatos. Mas entre as
organizações alemã e espanhola há duas diferenças
essenciais, uma ideológica, de onde resultará o que se podia
esperar: a F.A.I. não quer tomar o poder e se contentará com
influenciar a totalidade da conduta da C.N.T.; e a outra é
decisiva – a C.N.T. representa realmente a classe operária
espanhola. Dois meses antes da explosão revolucionária, o
congresso cenetista de Saragoça, em 1 de maio 1936,
adotou um dos mais belos programas revolucionários que
organização nenhuma do passado propôs, programa que
será parcialmente aplicado pelas massas anarco-
sindicalistas, enquanto seus chefes soçobram no
ministerialismo e na colaboração de classes. Com os
favoritos das massas, García-Oliver, Segundo Blanco, etc., e

60
Organizações Anárquicas

a subintelectual Montiseny, o movimento libertário


antiestatal, que havia sobrevivido a Kropotkin, o príncipe
anarquista, encontrava no fim a coroação histórica de seu
absolutismo ideológico: os anarquistas de governo. Na
última batalha que livrou o anarquismo viria cair sobre si
todo o molho ideológico que era seu ser: Estado, Liberdade,
Indivíduo e outras espécies maiúsculas com que se
bajulavam. Enquanto isso, os milicianos, operários e
camponeses libertários salvavam sua honra e adicionavam
a maior contribuição prática ao movimento proletário de
toda a história: queimavam igrejas, combatiam em todas as
frentes a burguesia, o fascismo e o estalinismo; começavam
a realizar a sociedade comunista.
Atualmente, existem organizações que simulam não
o ser. Este achado lhes permite evitar ocupar-se do mais
elementar esclarecimento das bases a partir das quais
podem reunir não importa quem (com a mágica etiqueta de
"trabalhador"); não prestar contas a seus semimembros da
direção informal que alguns exercem; dizer não importa o
que e, sobretudo, condenar indiscriminadamente qualquer
outra organização possível e qualquer enunciado teórico,
maldito de antemão. Assim, o grupo "Informations
Correspondance Ouvrières", escreveu (I.C.O. nº84, agosto
de 1969): "Os conselhos são a transformação dos comitês
de greve sob a influência da situação mesma e em resposta
às necessidades próprias da luta, na dialética própria da
luta. Qualquer outra tentativa para formular, num momento
dado de uma luta, a necessidade de criar conselhos
operários denota uma ideologia conselhista, tal como se
pode observar sob formas diversas em alguns sindicatos, no
P.S.U. ou nos situacionistas. O conceito mesmo de Conselho
exclui toda a ideologia". Esses indivíduos não sabem nada
do que é ideologia e a sua se distingue das outras por seu
ecletismo invertebrado. Mas têm ouvido sinos (talvez em
Marx, talvez apenas na I.S.) que falavam que a ideologia era
uma coisa ruim e entenderam que toda atividade teórica, do
qual eles fogem como da peste, é ideologia, o mesmo nos
situacionistas como no P.S.U. Mas seu valente recurso à
"dialética" e ao "conceito" , adornos de seu vocabulário, não
lhes põe a salvo de uma ideologia imbecil suficientemente

61
Organizações Anárquicas

testemunhada por esta frase. Se contamos com o "conceito"


de Conselho somente, ou o que é mais entusiástico, com a
inatividade de I.C.O. "para excluir toda a ideologia", nos
Conselhos reais podemos esperar o pior: aí está a
experiência histórica que nega todo o otimismo desse
gênero. A superação da forma primitiva dos Conselhos virá
de lutas cada vez mais conscientes e de uma maior
consciência. A imagem mecanicista da I.C.O., quando fala da
perfeita e automática resposta do comitê de greve às
"necessidades", que dá a entender que o Conselho surgirá
por conta própria e na sua hora, na condição sobretudo de
que não se fale do assunto, despreza totalmente as
experiências das revoluções de nosso século, que mostram
que "a situação por si mesma" tende mais exatamente a
fazer desaparecer os Conselhos ou sua recuperação, que a
fazê-los surgir.
Deixemos essa ideologia contemplativa, sucedâneo
degrado das ciências naturais que quer observar a aparição
de uma revolução proletária como uma erupção solar. Se
formarão organizações conselhistas e deverão ser o
contrário de um estado maior que faria os conselhos
surgirem por decreto. Apesar de que o movimento das
ocupações de maio de 68 abriu um novo período de crise
social, que se manifestou aqui e ali, desde a Itália até a
U.R.S.S., é provável que demore bastante até se
constituirem verdadeiras organizações conselhistas e se
produzam movimentos revolucionários importantes diante
dos quais essas organizações não estão em condições de
atuar num nível importante. Não se deve brincar com a
organização conselhista lançando ou sustentando paródias.
Do que não resta dúvida é que os Conselhos terão mais
oportunidades de se manter como único poder se neles se
encontram conselhistas conscientes e em posse da teoria
conselhista.
Ao contrário do conselho como permanente unidade
de base (constituindo e modificando constantemente a
partir dele os Conselhos de delegados), assembléia na qual
devem participar todos os operários de um empresa
(conselhos de oficinas, conselhos de fábricas) e todos os
habitantes de um setor urbano aderido à revolução

62
Organizações Anárquicas

(conselhos de ruas, conselhos de bairros), a organização


conselhista, para garantir sua coerência e o exercício efetivo
de sua democracia interna, deverá escolher seus membros
conforme o que aqueles querem expressamente e conforme
o que podem fazer efetivamente. A coerência dos conselhos
está garantida pelo fato de que são o poder, eliminam
qualquer outra forma de poder e decidem sobre tudo. Essa
experiência prática é o terreno em que todos os homens
adquirem a inteligência de sua própria ação, no qual
"realizam a filosofia". Existe o risco de cometer erros
passageiros e de que não se disponha do tempo e dos meios
para os retificar; mas os Conselhos terão em conta que sua
própria sorte é o produto verdadeiro de suas decisões e que
sua existência necessariamente cessará pelo contragolpe de
seus erros não dominados.
Na organização conselhista, a igualdade real de
todos na tomada de decisões e na execução destas não será
um slogan vazio, uma reivindicação abstrata. É evidente
que todos os membros de uma organização não tem o
mesmo talento, e que um operário escreverá sempre melhor
que um estudante. Mas dado que a organização possuirá
globalmente todas as capacidades necessárias,
complementariamente, nenhuma hierarquia de faculdades
individuais virá sabotar a democracia. A adesão a uma
organização conselhista e a proclamação de uma igualdade
ideal é evidente que não fará com que seus membros sejam
todos bonitos, inteligentes e que saibam viver, mas
permitirá que suas atitudes reais para serem mais bonitos,
mais inteligentes, etc., se desenvolvam no único jogo que
vale a pena: a destruição do velho mundo.
Nos movimentos sociais que se produzem, os
conselhistas não deixarão que sejam eleitos comitês de
greve. Sua tarefa, ao contrário, consistirá em atuar para que
todos os operários se organizem pela base, em assembléias
gerais que decidirão a conduta a seguir na luta. Faz falta
que se comece a compreender que a absurda reivindicação
de um "comitê central de greve", lançada por alguns
ingênuos durante o movimento das ocupações de Maio de
68, se tivesse logrado, haveria sabotado mais rapidamente
ainda o movimento para a autonomia das massas, porque

63
Organizações Anárquicas

quase todos os comitês de greve estavam controlados pelos


estalinistas.
Dado que não pretendemos forjar um plano que
valha para qualquer situação futura, e que um passo
adiante do movimento real dos Conselhos valerá mais que
um dezena de programas conselhistas, é difícil emitir
hipóteses precisas no que concerne a relação das
organizações conselhistas com os Conselhos em um
momento revolucionário. A organização conselhista – que
sabe que está separada do proletariado – deverá deixar de
existir como organização separada no instante em que
forem abolidas as separações, inclusive se a completa
liberdade de associação garantida pelo poder dos Conselhos
deixa sobreviver diversas organizações e partidos inimigos
deste poder. No entanto, é discutível que todas as
organizações conselhistas se dissolvam como queria
Pannekoek, desde o momento em que os Conselhos
apareçam. Os conselhistas falarão como tais no interior dos
conselhos e não deverão propor uma dissolução exemplar
de suas organizações para logo reunir-se ao lado e brincar
de grupos de pressão sobre a assembléia geral. Assim lhes
será mais fácil e legítimo o combate e a denúncia da
inevitável presença de burocratas, espiões e velhos fura-
greves que se infiltrarão por todas as partes. Também será
preciso lutar contra os falsos Conselhos ou os
fundamentalmente reacionários (Conselhos de policiais),
que sem dúvida aparecerão, atuando de maneira que o
poder unificado dos Conselhos não reconheça estes
organismos e nem seus delegados. Ao ser exatamente
contrário a seus fins, a infiltração em outros tipos de
organizações e por rechaçar toda a incoerência em seu seio,
as organizações conselhistas proíbem a dupla militância. Já
dissemos que todos os trabalhadores de uma fábrica, ou ao
menos os que o aceitam, devem formar parte do Conselho,
mas no caso "daqueles que tiraremos da fábrica com a
metralhadora na mão " (Barth) só poderemos achar a
solução em seu momento.
A organização conselhista só poderá se julgada, em
ultima instância, pela coerência de sua teoria e de sua ação,
na luta pela desaparição completa de todo poder exterior

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Organizações Anárquicas

aos Conselhos ou que tente constituir-se fora deles. Para


simplificar e não tomar em consideração a onda de pseudo-
organizações conselhistas que estudantes e pessoas
obcecadas pelo militantismo profissional simularão, digamos
que não será reconhecida como conselhista a organização
que não se componha pelo menos de uma terça parte de
trabalhadores. E como esta proporção pode parecer como
uma concessão, nos parece indispensável corrigi-la
mediante esta regra: se estabeleceria que em toda
delegação para conferências centrais, onde se pode tomar
decisões não previstas por mandato imperativo, os
trabalhadores seriam 3/4 do conjunto de participantes. Em
resumo, a proporção inversa à que se deu nos primeiros
congressos do "partido operário social-democrata da
Rússia".
Sabe-se que nós não temos nenhuma tendência ao
obreirismo, qualquer que seja a forma que adote. Trata-se
de que os trabalhadores "se tornem dialéticos", do mesmo
modo em que o farão, mas então em massa, com o
exercício do poder dos Conselhos, porque são, agora e
sempre, a força central capaz de deter o funcionamento
existente na sociedade e a força indispensável para
reinventar todas as suas bases. Além do mais, mesmo que a
organização conselhista não deva separar-se de outras
categorias de assalariados, sobretudo dos intelectuais, é
fundamental que esses últimos tenham limitada a
importância que podem tomar, tanto considerando todos os
aspectos de sua vida para verificar se são autenticamente
revolucionários e conselhistas, como limitado seu número
de modo que na organização sejam o mínimo possível.
A organização conselhista não aceitaria falar de igual
para igual com outras organizações se estas não são
partidárias conseqüentes da autonomia do proletariado; do
mesmo modo que os Conselhos terão que se desfazer não
só dos desejos de recuperação de partidos e sindicatos
senão de tudo aquilo que tenda a fazer-se um lugar sob o
sol e a tratar com os Conselhos de poder para poder. Os
Conselhos serão a única potência ou não serão nada. Os
meios de sua vitória já são sua vitória. Com a alavanca dos
Conselhos e o ponto de apoio de uma negação total da

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Organizações Anárquicas

sociedade espetacular-mercantil, pode-se mover a terra.

A vitória dos conselhos não se situa no fim, mas no


princípio da revolução.
René Riesel, 1969

Comunalismo e
Autonomia
Jaime Martinez Luna

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Organizações Anárquicas

Apresentação
Os trabalhos aqui apresentados são reflexões
elaboradas desde ângulos e perspectivas diferentes, que
incidem na necessidade de ordenar o conhecimento
regional. Sua importância está em poder ser utilizado como
material de consulta para o desenvolvimento de projetos
participativos voltados para o desenvolvimento e bem estar
regional.
Lidos de maneira integral, estes materiais se
apresentam como resultados de uma investigação
quotidiana, de uma atividade intelectual integralmente
comprometida com a vida comunitária.
Por estas razões apresentamos estes materiais
substanciais para a reflexão em torno da proposta dos povos
indígenas sobre autonomia e autodeterminação, mas
sobretudo para a compreensão da vida das comunidades
indígenas e seu modelo interno de organização sócio-
política, tudo isso em um momento de muita importância e
transcendência que se caracteriza pelo profundo
desconhecimento que possui a sociedade e o governo sobre
a problemática e forma da vida indígena.
Sirvam pois estes documentos para ilustrar o
processo dos povos Zapoteco, Mixe e Chinanteco em sua
luta por condições de vida mais justas, mais dignas.

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Organizações Anárquicas

O autor/compilador pode ser contatado no seguinte


endereço: Jaime Martínez Luna, Fundación comunalismo,
domicilio conhecido. Guelatao de Juárez, C.P. 68770, Oax.
México - c.e.: comunal@itonet2.itox.mx -tel: 955-360264

Declaração dos Povos Serranos Zapotecos e


Chinantecos da Sierra Norte de Oaxaca
Recebemos com profunda preocupação os fatos que
estão padecendo nossos irmãos indígenas no Estado de
Chiapas. Embora a sociedade nacional se tenha manifestado
surpreendida pela violenta presença no cenário militar e
político do Exército Zapatista de Libertação Nacional; nós
não. Temos considerado o fato como a grande possibilidade
para que nós, povos indígenas, sejamos reconhecidos em
nossas verdadeiras necessidades, para que contribuamos
com os princípios e conhecimentos que temos possibilidade
de oferecer para toda a sociedade.
É do conhecimento de todos o permanente genocídio
que se abate sobre nossos povos. Depois de quinhentos
anos, não se procura compreender os nobres ideais que nós,
povos indígenas, temos reproduzido e mantido, o profundo
respeito pela nossa mãe terra e seus herdeiros, a
permanente convicção de consensar nossa participação, e
nossa possibilidade de prosseguir dando a nosso país uma
identidade cultural digna e gratificante.
O que sucede no Estado de Chiapas, nos convida e
nos convoca a uma serena reflexão do que somos e do que
queremos ser no futuro, da impostergável organização que
devemos ter para tornar realidade os sonhos que estão
sendo enterrados por meio da violência, do engano, da
exploração e da marginalização. Tempos de decisão e de
reflexão nos esperam. Por ele emitimos a seguinte
declaração para contribuir o debate sobre nosso futuro, e o
do México.

4Em livre tradução para a língua portuguesa pelo Coletivo Periferia -


http://www.reocities.com/projetoperiferia
-periferia@mail.comperiferia@mail.com -caixa postal 52550 - CEP 08010-
710 - São Miguel Pta. -- São Paulo -- Brasil]

68
Organizações Anárquicas

Primeiro
Nosso trabalho e nossos recursos naturais tem sido
entendidos unicamente como uma mercadoria, um valor e
um suor que só serve para enriquecer economicamente a
alguns homens nunca para enobrecê-los. O resultado desta
mentalidade tem sido a aprobiosa exploração de nossos
povos e a cruel e irracional exploração de nossos recursos
naturais. Temos constatado isso na mineração, na
silvicultura, na selvagem concentração do manejo de nossos
recursos aquíferos, e inclusive na utilitária exploração de
nossos alimentos em benefício de um desenvolvimento
industrial urbano e alheio a nossas necessidades de bem
estar.
Esta situação expulsou de nossas comunidades a
milhares ou milhões de nossos irmãos em busca do pão, do
abrigo, de condições de vida que de maneira sistemática
nos foram arrebatadas. Apesar disso seguiremos resistindo,
um exemplo dessa resistência, se bem que violenta, é
manifestado na atualidade pelos nossos irmãos do EZLN.
Não podemos dizer que nos orgulhamos de seu método de
trabalho, mas compreendemos seu desespero.
Para a solução desta insustentável situação em que vivem
nossos povos, fazemos a seguinte proposta:
1.- Que seja reintegrada a terra a todas aquelas
comunidades que demonstrem pelo ouso e pelo direito, a
posse de seu território. Que seja avaliada a capitalização de
seus recursos naturais usurpados e que com seu pago, estes
recursos sejam orientados pelos povos indígenas na direção
que mais considerem conveniente.
2.- Que o futuro uso, aproveitamento ou exploração, tanto
de seu território como dos recursos que nele existem, sejam
as comunidades que decidam o que fazer com base em suas
organizações tradicionais, tenham ou não um
reconhecimento governamental. Para a definição deste
procedimento pode-se apelar fundamentalmente à decisão
de suas assembléias e de suas autoridades tradicionais.
3.- Nos casos quando estes conflitos tenham que ser
dirimidos entre as comunidades, que se nomeie um

69
Organizações Anárquicas

organismo técnico civil para sua solução, mas que em


nenhum caso participe uma autoridade governamental,
salvo como observador. O mesmo nos casos de problemas
agrários internos, estes devem ser dirimidos a partir das
próprias assembléias comunitárias. QUEREMOS
AUTODETERMINAÇÃO SOBRE NOSSO TERRITÓRIO.

Segundo
Não apenas neste período moderno trataram de nos
impor uma organização social alheia a nossa cultura, há
mais de quinhentos anos este fenômeno tem sido
observado. À luz da realidade atual, podemos afirmar que
não pode continuar essa homogeneização desta sociedade
tão diversa e plural. É tempo que se reconheça que é
precisamente nossa organização social e os princípios que
nela se reproduzem o que tem permitido nossa
sobrevivência. A eliminação de nosso território e das fontes
elementares de vida seguem e seguirão ameaçando nossa
existência. Nossa organização tem mostrado aspectos que
não apenas são úteis para nossos povos como também para
a sociedade em geral, por ela é recomendável recuperar e
dar um impulso verdadeiro em todos os âmbitos. É através
dela que temos resolvido nossas ancestrais necessidades
sem negar tampouco o útil que possa oferecer-nos as outras
sociedades contemporâneas. Quando afirmamos a riqueza
de nossa organização social estamos referindo-nos a nossa
vida assembleária, a nossos mecanismos de representação,
a nosso trabalho coletivo e comunitário, a nossos
conhecimentos, a nossas tradições e a nossas culturas
particulares.
A força e reprodução do EZLN se explica em razão
desta organização social, por isso para sua conservação e
desenvolvimento propomos o seguinte:
1.- Que a sociedade nacional aceite como legítima e legal
nossa organização social e política.
2.- Que os partidos políticos não sigam dividindo a nossas
comunidades e doutrinando-a com base em princípios
ocidentais e racionalistas que nada tem a ver com nosso

70
Organizações Anárquicas

comunalismo.
3.- Que seja esta organização que decida o futuro e as
características do desenvolvimento que desejamos para as
comunidades indígenas.
4.- Que a representação emanada desta organização seja
levada em conta no concerto político nacional. OU SEJA,
QUEREMOS AUTONOMIA POLÍTICA. Isto não que dizer que
queremos seguir a antidemocracia, pelo contrário,
consideramos que o respeito à nossa organização um
princípio fundamental para a democracia.
5.-Propomos também que as instituições
desenvolvimentistas e indigenistas desapareçam e que em
seu lugar estejam as organizações que diretamente se
relacionam com os técnicos na medida do necessário. Que
os meios de comunicação que operam em nossas regiões
passem ao poder de organismos civis que demonstrem
interesse e capacidade para sua operação.
Consideramos que em nossa região como em outras
do Estado de Oaxaca estas propostas são plausíveis e de
fácil realização. Embora também visualizemos sua
possibilidade em todas as regiões indígenas do país.

Terceiro
Desde sempre somos apelidados como índios frouxos
porque não buscamos a acumulação de capital e menos
ainda comodidades onerosas. Nos chamam de
anticapitalistas e de socialistas primitivos. Sem embargo a
realidade é distinta. Toda interpretação ocidental ou racional
de nosso comportamento, tem como essência central a
incompreensão de nossa filosofia econômica. Nossa relação
com a terra é harmônica, por isso convivemos com ela, por
isso não a utilizamos nem a exploramos. Não queremos
dizer tampouco, que a fome e nossa situação geral em
alguns casos nos tenha levado a casos extremos. A pressão
sobre nós, tem provocado que estes princípios não se
manifestem em toda sua intensidade e riqueza e que com o
passar dos dias esta se siga deteriorando em prejuízo de
nosso futuro e desenvolvimento.

71
Organizações Anárquicas

O aproveitamento de nossos recursos florestais,


minerais, aquíferos, faunísticos, assim como os ritmos e
tecnologia que temos para o uso de nossa terra, devem ser
respeitados em todas suas dimensões e categorias. Toda
inovação tecnológica deverá ser também decisão de nossas
comunidades.
A comercialização de nossos produtos assim como a
de outros produtos que possamos gerar, deverão estar sob a
responsabilidade independente dos conselhos comunitários
de abastecimento e que sejam estes os que manejem a
empresa Diconsa e seus armazéns.
Para o reforço desta filosofia econômica propomos o
seguinte:
1.- Que aquilo a ser feito em matéria de desenvolvimento,
seja decidido por nossas comunidades e organizações,
definindo o regional de acordo com seus mui particulares
interesses e necessidades.
2.- Naqueles casos onde existem programas de governo que
tenham se adaptado a nossas particularidades, estes sejam
tornados independentes, ou seja, que seja materializada a
transferência de suas funções.
3.- Que os recursos econômicos sejam entregues à sua
administração diretamente para estas unidades ou grupos
de organizações sem a presença de nenhum intermediário.
No caso mui particular de nossa região a entrega destes
recursos deve restringir-se diretamente a cada autoridade
municipal, e não apenas às cúpulas municipais.
4.- Quando as próprias autoridades municipais
considerarem benéfica a presença de uma organização
intercominitária ou grupo civil intermediário, isto deverá ser
respeitado.
5.- Que a administração e aproveitamento dos recursos
naturais renováveis e não renováveis passe para o poder
das comunidades, sem a mediação da presença de
autoridade governamental normativa, em outras palavras,
QUEREMOS CAMINHAR COM AUTO-SUFICIÊNCIA ECONÔMICA
DENTRO DE NOSSOS PRÓPRIOS PARÂMETROS.

72
Organizações Anárquicas

6.- Que tudo o que é colocado aqui seja integrado como


filosofia tanto nos programas de governo, os quais devem
desenhar-se desde nossas comunidades, assim como em
todos os preceitos constitucionais que devam intervir.

Quarto
Independentemente dos esforços que se tem feito
para que a educação leve em conta nossas particularidades
culturais. Consideramos que a educação em vez de
fortalecer-nos, tem minado ainda mais nossa organização,
nossos princípios e nossos conhecimentos. No que diz
respeito a nossos filhos obedece a alinhamentos
institucionais tanto em conteúdos como em métodos e
responsabilidades, a participação de nossas comunidades é
nula. Os impactos negativos deste sistema é visto no
desprezo que propicia ao nosso labor campesino, a
permanente contradição que existe entre o que querem
nossos professores e o que nós queremos, (se bem que haja
excessões) a pouca relevância que dá à conservação de
nossos recursos naturais, assim como a falta de respeito
que sistematicamente se tem pelas nossas tradições. Isto se
manifesta na mesma avaliação que se realiza da educação
ministrada em nossas regiões. Avaliação que sempre resulta
adversa e não leva em conta o outro lado da moeda.
Para impedir os permanentes abusos que se
expressam nesse aspecto e com a finalidade de afiançar
nosso desenvolvimento educacional e cultural que responda
a nossas verdadeiras aspirações, propomos o seguinte:
1.- A criação de conselhos educativos, comunitários,
mircroregionais e regionais, para o desenho dos conteúdos
educativos que devam ser trabalhados. Estes conselhos
educativos serão os responsáveis em verificar se a
educação está orientada para o trabalho, para o respeito de
nossos valores, para a participação em nossas tradições e
para o tratamento dos valores nacionais que também nos
sejam úteis.
2.- A nomeação de professores em cada comunidade deverá
ser responsabilidade destes conselhos, que deverão ser

73
Organizações Anárquicas

selecionados de acordo com nossas necessidades


linguísticas e organizacionais.
3.- Os recursos dirigidos à educação deverão chegar de
maneira direta e em conjunto com os recursos que sejam
utilizados em outras áreas do afazer comunitário. EM SUMA,
A EDUCAÇÃO DEVE ESTAR NAS MÃOS DE NOSSAS PRÓPRIAS
COMUNIDADES.

Quinto
É evidente o divórcio entre os preceitos
constitucionais, e nossas práticas tradicionais de justiça,
apesar do agregado ao artigo quarto constitucional. Isto é
mais dramático na aplicação das leis. O nível de corrupção
nos encarregados de ministrar a justiça do Estado é tal que
tem assustado nossas comunidades. O que sucede em
Chiapas é uma resposta extrema ao que aqui ocorre, mas
em todas as comunidades indígenas padecemos esta
mesma situação. A tortura, o encarceramento injusto assim
como a formação dos advogados nas Universidades vão
nessa direção. Os governos estatais nem sequer dão conta
da abordagem que se realizam a nível de nossas práticas
tradicionais. O centros de readaptação, está mais que
demonstrado, são centros de aniquilamento social, cultural
e econômico. Sem embargo existe cegueira e ouvidos
surdos para nossas experiências que poderia tratar estes
assuntos de melhor maneira que qualquer preceito legal.
Para a solução desta permanente violação a nossos
mais elementares direitos humanos, propomos o seguinte:
1.- Que desapareçam os centros de readaptação social e
que em seu lugar se integrem centros ou conselhos de
justiça comunitária e regional.
2.- Que nas Universidades desapareçam as escolas de
direito, ou que estas tenham uma nova especialidade como
o Direito Comunitário ou Tradicional.
3.- Que desapareçam todas as agências do ministério
público e juizados assentados nas áreas indígenas, e que
dêem lugar aos conselhos comunitários e conselhos

74
Organizações Anárquicas

regionais de justiça.
4.- Que os conselhos comunitários e regionais de justiça não
tenham nenhum intermediário ante o governador e que os
recursos econômicos destinados a esta tarefa sejam
administrados por estes conselhos. Estes determinarão se é
necessário uma equipe auxiliar ou fazer as coisas de acordo
com nossas tradições. QUEREMOS AUTONOMIA JURÍDICA
DENTRO DE UM ESTADO DE DIREITO QUE RESPEITE NOSSO
DIREITO COMUNITÁRIO.
NOSSA REGIÃO TEM SE COMPORTADO ATÉ ESTE MOMENTO
MUI CONSERVADORA COM A NAÇÃO, PORQUE TEMOS
HERDADO O ESFORÇO E A CONVICÇÃO DE BENITO JUÁREZ.
NO ENTANTO, NÃO SE DEVE ESQUECER QUE SOMOS UM
VULCÃO LATENTE QUE EM QUALQUER MOMENTO PODE
ENTRAR EM ERUPÇÃO, SE NÃO ATENDEREM AS VELHAS
REIVINDICAÇÕES DE JUSTIÇA PELA QUAL TANTOS SERRANOS
TÊM DADO SUA VIDA.
Tudo o que foi acima delineado é um primeiro rascunho
sujeito à análise dos intelectuais, técnicos, autoridades e
cidadãos em geral, em toda a região das montanhas
zapotecas e chinantecas de Oaxaca. A região agradeceria
sua opinião e suas correções.
Guelatao de Juárez. 13 de fevereiro de 1994

Descriminação e Democracia em Estado Multiétinico


O porvir, o futuro, não é do cosmos, de meu
século, de meu país. Minha existência de
nenhuma maneira será dedicada à preparação
do mundo que me sobreviverá. Pertenço
irredutivelmente à minha época.
Frantz Fanon.
Ao refletir sobre a discriminação e democracia em
um estado multiétnico, não nos referimos à realidade
individual enfrentada pela população índia do México em
1994, mas à realidade das coletividades, comunidades,
organizações, que dia a dia reformulam sua relação com um

75
Organizações Anárquicas

estado-nação que no discurso reivindica a pluralidade, mas


que na prática insiste na uniformização social e econômica.
Tampouco nos referiremos à explicação histórica
deste fenômeno, já que os povos índios atuais são o
resultado permanente das imposições culturais e
econômicas do estado moderno, portanto não são fruto de
reminiscências mas de relações sociais atuais sempre
diferentes, permanentemente sustentadas em interesses
que impedem o ou pelo menos limitam o desenvolvimento
pleno da sociedade indígena, que também tem suas
propostas de desenvolvimento, que também tem suas
propostas inovadoras de convivência social.
Nossa experiência se limita de maneira precisa a
uma região do Estado de Oaxaca, sem embargo temos
compartilhado estas reflexões com comunidades e
organizações de varias regiões do Estado, assim como com
organizações e pensadores indígenas de todas as regiões do
país, de forma que se destaco as experiências diretas de
minha região de origem estas se sustentam no que se
reflete em vários estados do país. Todo este procedimento
ou conceito de comunidade e conduta explica nosso modo
de ser indígena, um conceito que por certo temos
desenvolvido em outros trabalhos, mas que abarca a
presente reflexão.

Nosso sagrado território comunal


A reorganização do estado revolucionário, teve que
ceder de algum modo às pressões dos camponeses
encabeçados por Emiliano Zapata, o que beneficiou em
grande medida a pequena propriedade representada pelo
povo de Carranza, sem embargo, neste processo as
comunidades indígenas puderam sustentar a defesa de seus
territórios comunais. Embora seja certo que na atualidade o
território de luta Zapatista, é maioritariamente mestiço,
naqueles anos, nossos irmãos nahuas foram um grande
sustento para suas políticas. Embora os territórios comunais
fossem uma realidade de muitos anos atrás, a luta Zapatista
permitiu sua sobrevivência, tanto que na constituição foi
estipulado de maneira muito precisa os três regimes de

76
Organizações Anárquicas

propriedade: a pequena propriedade, a ejidal e a comunal.


Sempre se considerou que os territórios comunais
eram improdutivos, mas eles eram defendidos por uma
população que naqueles anos não podia ser atendida pelo
estado moderno. Talvez seja por isso que a imensa maioria
de territórios comunais se mantiveram intatos, os demais
território foram repartidos em pequenas propriedades e
outros muitos convertidos em ejidos. As propriedades
comunais estão localizadas nas áreas mais batidas, em
zonas de baixa produtividade agrícola, em regiões agrestes
e desprovidas da comunicação. Todos os territórios
susceptíveis de ser capitalizados caíram em mãos de uns
quantos, o comunal acabou conferido a uma população
plenamente discriminada do progresso geral da nação.
A discriminação do território comunal se revela na
ambiguidade manifesta da lei da reforma agrária, um
processo que desemboca nos anos noventa com as
modificações no Artigo 27, onde se assinala que os
territórios comunais indígenas serão matéria de proteção
por parte do estado, longe disso representar uma garantia o
que ocorre na realidade é o contrário, as modificações no
Artigo 27 tornaram essas terras susceptíveis de venda pois
as assembléias comunais deixam de ser a máxima
autoridade para converter-se em um simples órgão de
governo. Quer dizer, se nos anos setenta a ambiguidade
lhes garantia a sobrevivência, nos anos noventa elas são
postas à venda; e são postas à venda porque o processo
econômico nacional, marcadamente neoliberal, possibilita
que os recursos até agora não descobertos e situados em
zonas de território comunal, tornaram-se um alvo fácil
diante dos interesses do grande capital, além disso, a
extrema pobreza que padecemos, da qual mais adiante
comentaremos, aumenta as possibilidades de uma
alienação paulatina, e ou até mesmo, do extermínio das
populações que vivem nessas regiões.
Desde outra perspectiva, o território comunal tem
sido para os povos indígenas não apenas um patrimônio
para sua sobrevivência, mas a própria fonte de sua
realização quotidiana. A terra para a comunidade não

77
Organizações Anárquicas

significa uma mercadoria mas uma relação, uma expressão


profunda de sua visão do mundo. A terra não é uma coisa, é
a própria mãe da comunidade. O território é sagrado, o
espaço onde a diversidade se reproduz. Para a sociedade
mestiça, a terra é mercadoria e um elemento mais de
uniformidade, de individualidade, de seguridade econômica.
Para os povos indígenas não, a terra é de todos e para as
futuras gerações.
A discriminação com respeito ao território se
demonstra precisamente na forma como é tratado. O trato
liberal tende à homogeneização e não ao respeito à
pluralidade. O trato liberal vê o território comunal como um
obstáculo para o desenvolvimento, não como um possível
aporte de novas relações com a natureza, relações menos
individualizadas e mais respeitosas de proteção e
conservação do meio ambiente e da biodiversidade.
As possibilidades da democracia no México, encontra
de maneira concreta um paralelo no tratamento aos
territórios comunais. Um estado democrático deve estar
fundado na pluralidade, na livre expressão cultural de seus
conjuntos sociais e no profundo respeito às particularidades.
O território comunal é uma delas, por ele a democracia é e
deve ser compreendida como o respeito à livre relação dos
homens com a terra, com seu entorno. Não é de
surpreender que a luta dos Zapatistas chiapanecos em 1994
encontra na defesa de seu território uma das essenciais
motivações de sua guerra. O mesmo sentimos com o resto
dos povos indígenas. Pelo território comunal buscamos a
democracia, o respeito à pluralidade, à realidade do México
atual.

Nossa irracionalidade econômica


Ser pobre em qualquer rincão equivale a ser índio.
Tanto em cidades, como nos cinturões de miséria, como nas
cidades provincianas, como nas mais distantes áreas rurais
mestiças. Ser pobre é ser índio. Creio em verdade que
vivemos dentro de uma sociedade nacional
verdadeiramente cínica. Os fatores que tem promovido a
pobreza nas comunidades indígenas tem vindo do exterior.

78
Organizações Anárquicas

Em primeiro lugar, a usurpação de nossas melhores terras, a


exploração desmesurada de nossa mão de obra, os fatores
de comercialização que elevam os custos de nossos
produtos e elevam o consumo dos artigos de manufatura
industrial, a educação que privilegia a formação individual
frente à cooperação comunitária, os meios de comunicação
que dão ênfase no triunfo individual e discriminam o êxito
coletivo, as leis, etc. Tudo vem de fora.
Definitivamente, não temos espírito empresarial. Mas
isto não é ruim como se pretende afirmar. Vejamos por
partes esta questão:
Em primeiro lugar, nossa economia está dirigida para
dois aspectos: o autoconsumo e os fatores de acumulação
para a partilha com a comunidade. Consideremos que a
terra nos dá o que necessitamos, e se nos dá mais do que
necessitamos, a produção é partilhada principalmente nas
festas ou nas celebrações de bairro ou familiares. Assim, a
acumulação não significa capitalização; pelo contrario,
significa uma oportunidade para reunir a comunidade.
Alguém poderia dizer: Ah, que tontos! Então! Quando vão
deixar de ser pobres? Claro! É aí que está a diferença! Não
nos sentimos pobres. Na realidade fazem com que nos
sintamos pobres e nos tornam efetivamente cada vez mais
pobres.
Além disso há a imagem do desenvolvimento. O
ocidente, com toda sua heterodoxia, acha que o que
devemos ter são as comodidades de um mundo urbano, de
um mundo que privilegia as mercadorias e não a relação ou
a convivência harmônica entre os homens. A mercadoria, a
acumulação, são valores que não sentimos como
necessários. Apesar disso, sem embargo, pouco a pouco tais
coisas nos são introduzidas por todos os poros da vida
quotidiana.
A discriminação à nossa economia, é a pior
discriminação de que somos vítimas. Essa discriminação é a
culpada pela nossa extrema pobreza. Esta discriminação, e
novamente como referencia, conduziu os Zapatistas
chiapanecos a levantar-se em armas. E com razão, embora
não tenhamos todos as mesmas condições para segui-los de

79
Organizações Anárquicas

maneira imediata.
Enquanto não houver esse entendimento e enquanto
houver o envolvimento com a promoção de programas
assistenciais como Procampo e programas de solidariedade,
não vamos conseguir assumir nossa verdadeira
personalidade econômica. Sei em vez da assistência com
milho da Conasupo, elevassem nossos preços de garantia de
tal modo que o pudéssemos vender a preços respeitáveis,
ou melhor, se em vez do uso da propriedade como garantia
para pagamento de créditos nos permitissem desenhar
nossos próprios programas de produção, a coisa mudaria.
Sem embargo o modelo já está estabelecido, é mais
importante o índio como mão-de-obra barata no centro,
norte e no país vizinho, do que na comunidade. Isto não vai
resolver os problemas para alcançar a democracia, menos
ainda se as medidas econômicas implementadas
continuarem adotando critérios como rentabilidade,
produtividade, capitalização, e se nossos próprios
intelectuais "imparciais", continuarem nos qualificando de
agentes antieconômicos.
De novo surge diante de nós a contradição entre
pluralidade e uniformidade. A economia atual, representa o
intento de globalizar, de uniformizar, de alinhar, e nossos
afazeres, fortemente ligados à proteção de nossos recursos
naturais, seguem reivindicando uma relação social
harmônica, horizontal, de partilha, de convivência. Além do
mais, seguimos considerando que esta é a proposta que
nós, os povos índios, temos e devemos reivindicar, embora
para o estado seja mais fácil lançar-nos toneladas de
cimento, que só cobrem e asfixiam o solo e não resolvem os
problemas básicos.
Talvez para muitos de vocês, esta seja uma proposta
vulgar e utópica fora de tempo e sustentada em um
passado remoto. Não, não é certo. Anteriormente afirmamos
que nossos arrazoamentos obedeciam a condições deste
século e de maneira concreta as do presente ano. Se
consideram que nossa proposta comunitária se fundamenta
no ideal, na perfeição, estão equivocados. Nossas
comunidades não são puras, precisamente porque somos

80
Organizações Anárquicas

um resultado permanente de pressões externas e energias


internas que nos apresentam uma situação nova cada vez.
Em muitas de nossas comunidades a economia está
controlada por o comercio, por o poder político de elites o
grupos, por maestros que herdando os melhores vícios de
ocidente se convertem em líderes nefastos o em caciques,
em última instancia. Disputamos espaço com
narcotraficantes, e principalmente com políticos
representantes de partidos, em alguns casos até mesmo
com latifundiários, finqueiros, açambarcadores e
vendedores de terras. Cada comunidade enfrenta sua
própria realidade, mas em o general podemos afirmar que
existem padrões de comportamento, de realização que
compartimos todos. Alguns têm seus territórios comunais
garantidos, outros estão em trâmite, a outros se lhes foi
usurpado, enfim é mui variada nossa realidade social. Pese
a isso consideramos que nossa proposta é viável, se é que a
entendemos em seu justo contexto. Ponhamos alguns
exemplos:
No que toca aos bosques; em um bom número de
comunidades, temos integrado nossas empresas comunais.
Alguém diria então -- Desde quando não são empresários?
não, não se trata disso, tivemos que criar tais
empreendimentos diante da pressão dos burocratas, diante
da pressão da S.A.R.H., e dos organismos federais. É certo, a
madeira vale muito e como tal nossas empresas são
verdadeiras empresas coletivas, os lucros os dirigimos para
comprar maquinaria, caminhões de transporte, a construir
nossos edifícios institucionais, apenas em alguns casos
chegamos a repartir alguma utilidade. Tudo é dirigido para
fazer obras de beneficio social. Outra coisa é que o
problema da recessão que fez com que nosso resultado final
diminuísse consideravelmente.
No que diz respeito ao café, muitos de vocês já
conhecem a historia. Cai o preço, que é fixado fora de
nossas fronteiras, e nossa economia volta a balançar, se o
preço do café fica muito baixo apelamos para a produção de
milho para garantir alguma liquidez para a compra de
produtos que não produzimos. Nos impõem técnicas,
consumo de fertilizantes, etc. O caso é que estamos fodidos

81
Organizações Anárquicas

se esse modelo de produção e de comercialização do café a


nível internacional não mudar.
O caso das minas tende a assemelhar-se ao dos
bosques, sem embargo, poucas são as comunidades que
temos empreendido este caminho. O caso do milho já o
temos comentado o mesmo que o do feijão e o do trigo. Só
resta afirmar que com estas políticas econômicas, temos
perdido as maiores possibilidades de ser auto-suficientes.
Em resumo diríamos que a discriminação dessa
nossa racionalidade econômica não parece abrir caminho
para um desenvolvimento sadio, pelo contrario nos conduz à
globalização e mais ainda neste momento com o tratado de
livre comercio, que se apresenta ante nos como uma cova
para enterrar nossas possíveis utopias. Só sabemos que não
haverá democracia real se não houver respeito a nossos
interesses econômicos, ao nosso afã de partilha. Não haverá
democracia se não nos permitirem desenvolver nossa
própria e livre criatividade econômica.

Nossa desintegrada organização


Uma das táticas para garantir o controle político
sobre nossos povos tem sido a tática da desintegração da
organização regional, o estabelecimento de um sistema de
atomização social. No discurso, se pretende eliminar esta
desintegração e atomização, na prática as políticas em
todos os aspectos a consolidam. É por ela que encontramos
em 1944, uma população índia totalmente desarticulada,
desintegrada, desorganizada. o paternalismo oficial fez com
que nos fossem inventadas cúpulas nacionais, onde se
cooptam a alguns líderes e que se inventem outros. Esta
história tem sido praticada por muitos de nossos
companheiros, não vamos nos deter nisso.
A atomização tem significado para nós a contração
política. Temos o controle político de nossa comunidade, em
geral, mas não nos permitem exercer esse controle a nível
regional, e querer conquistá-lo fará correr muito sangue,
basta ler as notícias dos nossos jornais.
A contração tem permitido desenvolver uma

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Organizações Anárquicas

organização forte e sólida. A máxima autoridade de nossas


comunidades é a assembléia geral. Independentemente dos
costumes de cada povo indígena, a assembléia está
integrada pelos membros das famílias, pelos jovens maiores
de 18 anos, pelas viuvas. É esta assembléia que nomeia
seus órgãos de governo. A partir destes órgãos se executam
as decisões coletivas e se tenta resolver cada um dos
problemas que cada comunidade enfrenta.
O significado do poder em uma comunidade indígena
é muito diferente do significado do poder em um mundo
mestiço rural ou urbano. Em nossas comunidades o poder é
um serviço, ou seja, é a execução das decisões tomadas
pela assembléia, pela coletividade. No mundo mestiço rural
ou urbano, o poder significa o exercício das decisões da
própria autoridade que foi eleita através de mecanismos
eleitorais pouco controlados pela sociedade. O poder do
povo índio é o resultado de um desempenho cidadão,
enquanto que o poder no mundo mestiço rural ou urbano é
o resultado de uma relação de grupos que detém ou aspira
ao poder. Para ascender ao poder indígena, se tem que
demostrar trabalho, uma atitude individual frente aos
compromissos comunitários, uma atitude pessoal dentro da
família extensa, frente ao bairro, confraria, etc. Um poder
que quando se tem é unicamente para obedecer, cumprir e
trabalhar. Uma autoridade na comunidade é praticamente
um empregado a serviço de todos, um empregado ao qual
não se remunera, ao qual não se lhe permite planejar, e
quando isso ocorre, o plano pode realizar-se apenas sob
consulta. Contrariamente, o poder político das sociedades
rurais mestiças ou urbanas é a possibilidade de executar
suas próprias idéias, satisfazer seus interesses pessoais, a
consulta não existe. Se aspira a esse poder porque existe
uma remuneração ilimitada, fato que explica o crescimento
da corrupção como expressão do poder público.
Aquilo que se afirma é permitido conferir. A
comunidade expressa uma forte afeição ao consenso, à
partilha, à decisão coletiva. É vedado se prevalecer do
poder político da comunidade para satisfazer desejos de
caráter individual por mais sadios que eles possam ser.

83
Organizações Anárquicas

Alguém poderia perguntar: Qual é o mais


recomendável? O poder que vem de baixo e atende aos de
baixo, ou o poder que supostamente é eleito desde baixo,
mas que representa os de cima. Nos permitimos refletir
sobre nossa distancia da democracia como modelo global de
comportamento político e a pretendemos entender como a
fórmula que respeita a diversidade de atitudes políticas. Ou
seja, até agora a democracia tem sido o interesse em que
toda a sociedade participe das decisões nacionais mediante
mecanismos muito bem desenhados, mas pouco
respeitados pelo partido no poder. Nos sustentamos que a
democracia é o respeito à pluralidade política e como tal a
partilha da diversidade dentro do estado-nação, permitindo
o desenvolvimento de todos os modelos de convivência
política que possam existir no país. Durante todos esses
séculos de vida republicana, pouco se fez a esse respeito. O
maior avanço foi uma pequena modificação no Artigo
Quarto Constitucional, que assinala uma certa liberdade
cultural aos povos indígenas. Nenhuma garantia ou respeito
no aspecto econômico, político ou jurídico.
Frente à solidez de nossa organização comunitária,
nossa organização regional representa nosso calcanhar de
Aquiles ou nosso ponto mais débil. O estado mexicano tem
tomado todas as precauções para que não nos juntemos,
para que não tenhamos nenhuma força política. O estado
mexicano tem dedicado seus melhores esforços para
separar-nos, para nos manter desintegrados. Todos os
esforços realizados para construir nossa organização
regional durante as últimas seis décadas, foram etiquetados
como movimentos subversivos, socializantes, comunizantes,
nunca foram entendidos desde outra perspectiva. Sempre,
para o partido no poder, temos sido vítimas de partidos de
oposição, nunca temos ideias próprias, menos ainda líderes
honestos. Insistem em sinalizar que se não nos cuidarmos,
mobilizarão contra nós até mesmo forças internacionais.
Como exemplo, apontam para o que ocorreu no inicio do
levante dos companheiros em Chiapas. Se isso se afirma em
1994, imagine o que se dizia nos anos sessenta.
Pese a isso, nossos esforços por construir uma
organização regional não acabaram. Em alguns casos

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Organizações Anárquicas

nossas organizações tem ganho batalhas a curto prazo, na


maioria das vezes temos sido derrotados, poucas vezes
temos saído vitoriosos. Mas nossa guerra segue adiante. É
por isso que a autodeterminação ou a autonomia, como se
queira entender, surge diante de nossas mentes como uma
nova forma de garantir a sobrevivência e como uma
garantia para a defesa da pluralidade e da diversidade. Em
nossos esforços, nossos obstáculos imediatos são os
partidos políticos. Não estamos contra a vida republicana e
de seus mecanismos partidistas. O que exigimos é o
respeito a nossas próprias formas de eleição de
representações regionais. Dada a desintegração a que
temos estado submetidos sabemos que não é fácil
reintegrar nossas organizações regionais e muito mais difícil
a reestruturação de nossas etnias.
Devemos deixar claro que não pretendemos voltar ao
passado. Não pretendemos reconstruir as nações pre-
hispânicas. Por isso mesmo damos mais ênfase a nossas
organizações regionais que representam realidades
pluriétnicas, às quais também se incorporam mestiços e
crioulos. Tampouco planejamos a separação da nação, nem
a criação de estados dentro do estado mexicano.
A discriminação deve ser suplantada pela aceitação,
pelo reconhecimento de nossa existência política diversa. Se
a discriminação tem significado uniformização política,
poderíamos dizer, mesmo que soe paradoxal, que
desejamos discriminar a sociedade nacional para que
sejamos tratados por igual e dessa maneira se mantenham
claras as diferenças e que o apótema liberal entre vigor
nestes tempos difíceis; -- "Paz é o respeito ao direito alheio".

Educação e comunicação em aliança


A discriminação que provoca mais impacto na
coletividade e que fundida ao indivíduo revela suas mais
grotescas expressões, surge da educação e da comunicação
massiva recebida pelos povos índios.
Independentemente do que houve no passado, no
começo deste século, tivemos uma experiência educativa

85
Organizações Anárquicas

muito forte e positiva. Os professores eram escolhidos pela


comunidade, inclusive, esta lhes pagava seu salário que
saía do bolso de cada pai de família. Nesta experiência se
viu que quando o professor saia da natureza e da cultura
comunitária, este, podia ser mais útil, mais fortalecedor da
comunidade. Aquele foi um momento em que a educação
esteve sob a responsabilidade da comunidade. Mas a festa
durou pouco. O estado mexicano não poderia deixar de
implantar seu modelo de pensamento; e nos sobreveio um
novo desastre.
Os princípios de integração, de assimilação nacional
daquelas diversas sociedades e sua integração a um único
modelo econômico acelerou o processo uniformizador e nos
impôs uma dinâmica da qual ainda não pudemos nos livrar.
O conteúdo da educação lançada em nossos povos, vinha
carregada de valores nacionais, das qualidades da
conquista, das vitorias crioulas, dos acertos mestiços, mas
nunca dos aportes de nossos povos indígenas. Ainda na
atualidade, os conteúdos seguem sendo barbaramente
etnocidas, discriminantes da existência índia. Se privilegia o
valor do ocidente e seu conhecimento, se insiste no
indivíduo e se perde a comunidade. São unicamente
importantes os heróis nacionais. Os esforços dos povos são
tratados a nível de caricatura, além disso, os heróis e feitos
regionais resultam inexistentes. Se parte do princípio de que
a competência é o melhor e não a partilha comunitária.
Diante de tudo isso que resposta se pode esperar da
sociedade mestiça? As vítimas imediatas foram nossos
irmãos que, como Juarez, saíram para estudar nas cidades
próximas à cidade do México. Não é surpreendente que
antes do ano de 1968, o Instituto Politécnico Nacional tenha
sido designada como escola para os que vinham das
províncias e para os índios e a universidade para os setores
urbanos e classes medias. Quantos de nós não passou por
essas escolas para receber essas expressões de
discriminação grosseira. Naco, indito, Oaxaco, são apenas
alguns dos apelidos dados àqueles que vinham do setor
rural e indígena. Mas vamos falar da discriminação das
coletividades. Com a educação oficial, o primeiro efeito que
se observou, foi a desvalorização do trabalho camponês, as

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particularidades escolares foram abandonadas assim como


as oficinas criadas nos anos trinta. Vieram técnicas
modernas para fortalecer o conhecimento adquirido no
quadro negro, veio a proibição do uso de nossos idiomas,
veio a salarização estatal e federal do trabalho do professor.
Era o fim de tudo o que dizia respeito à comunidade. Este foi
um processo lento mas firme, paralelo ao desenvolvimento
de novas idéias de como deveria ser nosso progresso e
integração educacional e cultural na nação. Com a chegada
do rádio comercial e mais tarde da televisão tudo se
complicou ainda mais.
Na atualidade, apesar dos esforços indigenistas, e da
melhor boa fé que eles possam representar, com sua
educação bilingue e bicultural, suas rádios indigenistas, a
desintegração comunitária resultante da educação segue
sua marcha.
De nossa parte, o que temos conseguido é que
através do trabalho quotidiano e do sustento de nossas
instituições internas, a educação comunitária de algum
modo consegue se reproduzir, detendo de alguma forma os
efeitos nocivos da educação formal. Não conseguimos deter
todos esses efeitos nocivos, mas afiançamos alguns
aspectos que estamos conscientes de não perder. O
problema se agiganta na educação media e superior. Nestes
níveis, os valores individualizantes aumentam seus efeitos,
causam desalento e múltiplas expressões discriminatórias.
Para começar, as especialidades agro-pecuárias são
reproduzidas através de uma sala de aula e de um quadro
negro, mesmo tendo a natureza bem ao lado. Isso resulta
em que as especialidades técnicas não respondem às
necessidades regionais e os jovens se convertem em mão
de obra semi-preparada dirigida ao vizinho país do norte.
Obviamente, com os valores absorvidos em sala de aula, os
jovens emigrados mesmo fracassando em seus sonhos
individualistas não retornam ao seu povo em virtude da
perda de sua capacidade e energia comunitária.
No que diz respeito aos níveis tecnológicos e
universitários, a coisa se complica ainda mais. O profissional
não encontra fonte de trabalho que contrate seus serviços.

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As únicas são as instituições governamentais que o


convertem na melhor das hipóteses em uma máquina de
levar recados, e na pior em um mero burocrata. A pior coisa
acontece quando se tornam advogados, médicos, ou
arquitetos, estes definitivamente ficam nas cidades. Diante
de tudo isso, o que podemos esperar da atual educação?
Isso sem falar do magistério, que é uma história aparte.
A federalização da educação significou para nós a
descomunalização dos professores. Os privilégios laborais
no início, e a necessidade de melhores oportunidades de
trabalho na atualidade, fez com que as comunidades
perdessem seus melhores homens e mulheres. A imensa
maioria está agora radicada em volta das cidades, por isso
agora é comum ver um professor zapoteco dando aula em
uma escola chatina, etc. Quanto aos movimentos de caráter
laboral, a comunidade se ressente mas na verdade não sabe
o que fazer a respeito, não sabe se é melhor os professores
dedicar mais tempo às crianças ou deixar que elas
permaneçam absorvendo conhecimentos que em longo
prazo apenas individualizará seres comunitários, tornando-
os competidores em vez de partilhadores. De certa maneira,
podemos afirmar que o que as crianças aprendem na sala
de aula, desaprendem na rua e em casa. Isso obviamente
não ocorre nos níveis médio e superior. Esta dialética
educativa de alguma maneira permitiu o ensino da partilha,
mas, sem embargo, essa questão ficou muito complicada
com a chegada dos meios massivos de comunicação.
Os princípios e valores que nos introduzem o radio, a
televisão e os meios impressos são difíceis e quase
impossíveis de deter. Novamente a falta de respeito às
culturas regionais se convertem em uma clara expressão de
discriminação. Não podemos afirmar que o Instituto
Nacional Indigenista não tenha feito esforços neste terreno,
ao contrário, aplaudimos aquilo que ele tem feito, mas tais
feitos ainda são muito pequenos e desintegrados. A nação
decidiu vender a liberdade para transmitir sinais, isso
reafirma sua posição homogeneizadora, globalizadora e
ratifica seu pouco interesse por uma nação plural rica em
expressões culturais próprias e criadora de diversidade de
modelos de vida que garantisse um futuro mais

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compartilhado.
Na atualidade, contamos em algumas regiões com
emissoras, inclusive com centros de produção de vídeo.
Mesmo com poucos recursos, a resistência nesse campo
prossegue. Sem embargo, insistimos, não poderá haver
democracia enquanto houver o impedimento de nossas
sociedades exercitar sua própria liberdade de expressão, e
tampouco poderemos derrotar nossos eternos inimigos que
se fortalecem com o uso destes meios.
Em última instancia os meios estão aí, mais de fora
para dentro que de dentro para fora. De qualquer modo
nossa cultura não pode continuar sendo tratada como tem
sido até agora. Estamos de acordo que este país tem uma
raiz e que essa raiz somos nós. Sem embargo, pinta-la,
conta-la, dança-la, teatraliza-la, e não trata-la e enfrenta-la
faz dessa cultura uma caricatura e uma verdadeira
vergonha para quem a observa e a comenta. A melhor
forma de escrever nossa cultura não é em espanhol, nem
tampouco a maneira perfeita de escrevê-la é em zapoteco.
Nossa cultura é simplesmente nossa cultura. Não estamos
no mercado das melhores palavras, ou dos melhores
escritos. Estamos em nossa realidade e é essa que é nossa
cultura. E o que desejamos é que nossa realidade seja
contada para toda sociedade mexicana. Nossos médicos
aprendem diariamente, no dia-a-dia. Não em uma
temporada escolar, aprendem aos gritos, porque essa é a
escola que sempre tivemos, a escola das eternas
expressões. Mas o conhecimento que se obteve, como
sempre, é deixado de lado, depreciado, discriminado,
separado, o mesmo ocorre em todos os campos da
inteligência. O resultado é que "não contribuímos". Mas
continuaremos fazendo assim mesmo com nossa voz
sufocada pelo ruído dos motores, dos programas de
televisão, e das canções da moda.

Nossos direitos humanos no quinto dos infernos


A selvageria da sociedade nacional parece estar
concentrada no exercício da lei. O estado dialoga conosco
através de uma linguagem criptográfica, indecifrável e

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incompreensível. Por isso sempre saímos perdendo. Nem


mesmo nossa dignidade conseguimos salvar. Os delitos na
comunidade se resolvem praticando, comentando,
analisando. A lei nos faz ver que as coisas não se praticam,
não se executam, não se exerce, se ditam. Não importam as
razões, o que importa é o estado de direito. Ou seja, a base
de onde vem o ditame. Esta situação tem nos conduzido a
lutas intermináveis que desgraçadamente não nos leva a
nada. A não ser que entabulamos um diálogo de surdos. Não
há pior discriminação do que a exercida pelo cumprimento
de leis.
Neste campo há muito a ser dito. Para começar
devemos afirmar que temos também nossas próprias leis.
Lógicas de pensamento construídos por séculos, maneiras
de entender a vida que nos conduz a resolver um sem
número de problemas internos. Sem embargo, esse direito e
esse conhecimento é violado pela imposição de
arrazoamentos nascidos e desenvolvidos em âmbitos
distintos dos nossos, em experiências que não partem de
nossa realidade. Os centros de readaptação social não nos
servem, pelo contrario, nos afetam. Sem embargo, lá estão
os melhores exemplos do que essa sociedade desenvolveu.
Sua existência nos envergonha, porque é a própria
mutilação das nossas capacidades.
Em nossas comunidades enfrentamos um sem
número de delitos, mas mesmo assim encontramos uma
quantidade de soluções. Nossas leis são exercidas por quem
compete exerce-las, não são gente especializada, são
pessoas incumbidas de exercê-las temporariamente.
Estamos convencidos de que mandar ao cárcere o assassino
de um compadre é converter as comadres em duas viuvas,
exatamente por isso, os castigos são ditados com base em
considerações como essas, e não apenas com base em uma
lei estabelecida sem diálogo.
O enfrentamento das leis "positivas" com as nossas
não somente se dá no campo do ridículo, como ocorre
quando não temos tradutor, mas na própria base dos
princípios que se qualificam. Sempre se arrazoa em termos
do direito individual, nunca se pensa no direito comunal, ou

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seja, sempre se arrazoa em termos dos interesses de um


indivíduo e se entende que toda atitude acontece de um
interesse individual, nunca se incorpora a possibilidade de
entender que a atitude é resultado de um fato social ou
mesmo comunal, o que implica em um tratamento distinto.
É por isso que os cárceres estão repletos de irmãos
que, de lá de dentro, não conseguem compreender os
delitos como seus, nem tampouco desenvolvem uma
atitude comunal. O cárcere os individualiza e como tal os
separa mais ainda da comunidade. É isso que o cárcere faz.
Uma nova afronta à cultura dos povos indígenas.
Não queremos discutir se o cárcere funciona em uma
sociedade mestiça ou urbana. Para ser mais preciso, sem
embargo, cremos que na nossa sociedade o cárcere não
funciona, por isso afirmamos nosso direito de imaginar que
dentro desse tão propalado estado de direito, exista a
possibilidade do exercício de diversas modalidades de
justiça, e que este exercício seja realizado pelas distintas
sociedades que compõem a sociedade mexicana.
A autonomia, livre autodeterminação ou
autodeterminação, seria neste caso o marco jurídico mais
adequado para concretar este tipo de liberdade. O estado
mexicano não deve temer seus resultados, mas deve estar
bem atento a seus frutos porque pode ser um exemplo de
como conduzir uma sociedade complexa sem tanta
papelada, porque aparentemente nossa sociedade nacional
é baseada exclusivamente em cima de folhas de papel.

Nossos sonhos e a autonomia


Há pouco um intelectual perguntou se nós,
indígenas, aceitaríamos uma autonomia subsidiada, ou seja,
uma autonomia caricatural. Identificar autonomia com auto-
suficiência é uma armadilha de discurso. É o clássico limite
que um pai estabelece ao filho que quer decidir as coisas
por si só. Nós não temos pai, a pátria foi criada para nossa
desgraça. De donde saiu o recurso que formou esse
intelectual? Elementar, do sangue de muitas gerações, não
apenas de sua família. Das duas uma, ou ele não tem pai,

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ou tem uma sociedade que o sustenta, então essa


sociedade somos todos nós. Porque não se pode subsidiar
uma autonomia? Porque no final das contas todos nós
seremos subsidiados.
Falácias como estas reforçam a idéia de que a
sociedade mestiça persiste na crença de que nós, indígenas,
deveríamos desaparecer.
Padecemos de uma permanente e sistemática
discriminação. Uma discriminação defendida por notáveis
inteligências. Não nos esquecemos o prêmio nobel que esse
intelectual recebeu pela abordagem à luta de nossos irmãos
chiapanecos.
A autonomia para nós é uma possibilidade de
crescimento saudável, sim, mesmo que não acreditem
nisso, livres de intermináveis contaminações, inclusive para
que dessa maneira discriminemos à sociedade restante, não
como fazem conosco, mas em um sentido construtivo,
tratando-as como sociedades iguais, com os mesmos
direitos e as mesmas obrigações. Por que nos tratam como
crianças? Aqui não se trata de uma família, trata-se da
historia de sociedades que se relacionam, se enfrentam e
obtém como resultado um novo estado social e econômico.
Que nosso reclamo não seja compreendido como um
gemido, um choramingo, porque não somos crianças que
escrevem a um adulto para que resolvam as coisas para
nós, estamos falando de adulto para adulto para que nossas
ralações sejam mais construtivas.
Não compreender o profundo sentido de nosso
reclamo autônomo é não compreender nosso afã
democrático, é empenhar-se na necessária exterminação de
nossos povos, é crer que o futuro da humanidade é o futuro
de nossos vizinhos do norte, é crer que não temos nossa
própria origem e nação, é atirar no lixo o sangue de tantas
gerações que nos forjaram, é não semear para o futuro, um
futuro que é nosso e que querem destruir.
A discriminação começa pela incompreensão do valor
de nosso território, da invalidação de nossa racionalidade
econômica, assim como da inconformidade sobre nossa

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organização social e da falta de respeito a nosso direito de


exercer a justiça. Tudo isso é discriminação e reafirmamos
nossa convicção de que não haverá democracia se a
sociedade nacional não compreender a diferença, a
pluralidade e o direito que nós, os povos indígenas, temos
de desenhar nosso próprio futuro.
Guelatao de Juárez, Oax., em 30 de maio de 1994

Comunalismo e Autoritarismo
Desde sua origem, os povos da Mesoamérica tiveram
que enfrentar diversas formas de autoritarismo. A harmonia
ou uma democracia plena em termos exatos nunca existiu.
As comunidades indígenas, por seu pensamento e ação, são
as que mais perto chegaram de alcança-la, ou seja, foram
elas que desenvolveram espaços, relações e instancias que
puderam favorecer o exercício da harmonia e do bom
governo.5
Com a chegada do ocidente nas terras indígenas do
novo continente, os espaços para o exercício da harmonia
foram violados e em boa parte eliminados. Não obstante, a
resistência de nossos povos permitiu a conservação
clandestina destas instancias que na atualidade evidenciam
um perfil das possibilidades mais desenvolvidas para
alcançar nosso bem estar e felicidade.
Diante da conquista espanhola, nossas comunidades
desenvolveram um forte sistema de resistência-adequação
que lhes permitiu em cada década desenvolver uma nova
imagem, sempre cambiante, onde os valores positivos de
ambas as culturas forram concatenando novas realidades.
Para nossa fortuna, neste processo, os valores, princípios ou
instancias que favoreciam a possibilidade de harmonia
foram se cristalizando apesar dos interesses econômicos
imperantes na mentalidade colonizadora. A adequação

5 N.T. ou seja, autogoverno. "O significado do poder em uma comunidade


indígena é muito diferente do significado do poder em um mundo
mestiço rural ou urbano. Em nossas comunidades o poder é um serviço,
ou seja, é a execução das decisões tomadas pela assembléia, pela
coletividade", vide Parte 2.

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permanente de nossos povos, não permitiu coabitar com


formas de organização social diferentes da nossa, e como
tal participar de uma ampla sociedade plural e diversa, uma
sociedade no geral autoritária que no nosso caso resulta na
mais desfavorecida e extrema pobreza. Pelo fato de
cultivarmos as relações que nos orientam para a
democracia, seguimos reproduzindo-a e desenvolvendo-a
mais sistematicamente e com maior claridade.
O comunalismo é a ideologia que nós, povos
indígenas do sul do México, atualmente adotamos, e que
temos conseguido exportar para as grandes cidades,
através da ação que realizam nossos irmãos que tiveram a
necessidade e o interesse de emigrar. Não é estranho que
em cidades tão grandes como a cidade do México e Los
Angeles na Califórnia, nosso comunalismo se expresse em
todo seu colorido e essência, pese a adversidade que
oferecem os espaços urbanos.
O interessante de como conseguimos reproduzir uma
ideologia diante a um imperante ambiente de autoritarismo,
se explica em razão das características que tem as relações
homem-natureza assim como as características de nossa
orografia e a virtude de nossa organização social. Não é
atoa que o modelo de nossa organização comunitária esteja
sendo defendido como modelo de ação em todo país
através do Programa Nacional de Solidariedade, e tampouco
foi atoa que tem sido as comunidades indígenas as que
lograram o melhor modelo para a conservação da natureza.
Tudo isso se conseguiu sob a bandeira do comunalismo,
ideologia que na atualidade podemos oferecer como uma
forte e renovada alternativa, contra o autoritarismo e em
favor da real democracia.

A geografia
O processo de despojo que nós, comunidades
indígenas, sofremos nos empurrou para as regiões mais
agrestes e arrinconadas do território, agora nacional. Nestas
regiões, onde ninguém imaginava que alguém pudesse
sobreviver, encontramos o apoio da fraternidade da mãe
terra e de seus filhos. Nestas zonas encontramos uma

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infinidade de recursos naturais que permitiram nossa plena,


se bem que difícil, sobrevivência. Conhecemos os segredos
desta natureza, questão que agora se reflete no fato de que
são as únicas regiões melhor conservadas. Onde havia ouro,
veio o ocidente, onde havia terra para ser explorada veio o
homem branco, o mestiço mal formado, o malfeitor
querendo enriquecer da noite para o dia.
Esta geografia nos fez mais fortes e independentes,
sem embargo para muitos se converteu na tumba. Os
anciãos se empenharam a sistematizar o conhecimento
dessa natureza, descobriram e desenvolveram com ela uma
relação horizontal, uma relação harmônica de muito
respeito.
Foi desta maneira que este meio ambiente se
converteu em um elemento a mais para nossa existência.
Os Mixes nunca foram conquistados pelas armas.
Encobertos neste tipo de território, os Huicholes ainda
seguem protegidos.
Onde chegou o regime de plantação (café, tabaco,
etc.) chegou também a discórdia, a inveja, a avareza, onde
não chegou a individualidade se conservou a igualdade, o
diálogo, o coletivo.
O processo de defesa destas terras descreve-se de
maneira física como um coletivismo natural que permitiu a
defesa de amplos territórios que hoje são considerados
como reservas da biosfera, neles, todavia sobrevive a mais
ampla variedade de seres vivos, animais e plantas que
convivem com o homem em uma verdadeira unidade. Tudo
isso pode soar romântico mas basta conferir as informações
científicas dos recursos naturais que se encontram na
América Latina para verificar facilmente o que estamos
afirmando.
Mas nada foi fácil, o papel do estado nos países da
América segue sendo o mesmo desde a chegada dos
espanhóis: guardião dos interesses cupulares, protetor dos
sonhos de superioridade do homem sobre a natureza,
regulador das relações entre os débeis e os poderosos
sempre em aliança com estes últimos. Por isso cremos que

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esses estados estão cavando sua própria sepultura, com o


etnocídio estão permitindo a morte futura de seus filhos.
Com nossa morte se está acabando o pouco que ainda
permanece vivo no continente. Autoritarismo e uma
essencial falta de democracia é o que caracteriza a relação
que mantém o estado com todos os grupos étnicos, apesar
disso seguimos convencidos de ter talvez uma das únicas
alternativas possíveis para a convivência social e
fundamentalmente uma velha e harmônica relação com a
natureza.
Por tudo isso consideramos que o comunalismo, que
é nossa maneira de pensar, se origina na história do
despojo, na relação forçada que temos mantido com os
territórios que nos restaram à conquista e à exagerada
exploração da terra. Ou seja, o comunalismo é também
fruto da história colonial.
Não devemos esquecer que vastos territórios
inicialmente indígenas que foram usurpados, agora estão
convertidos em desertos. Embora todos conheçam esta
barbárie, ela segue sendo a tônica natural do
desenvolvimento econômico mundial. Os resultados da
cúpula da terra no Rio de Janeiro a ratificaram e com isso se
mostrou a lógica anti-natureza de um mundo que precisa
deter imediatamente sua louca carreira e por um momento
refletir nos efeitos de seu saber.
Não queremos mais recordar os d dramáticos
capítulos da conquista e o que segue sucedendo na
Guatemala, na Bolívia. Esta geografia do horror torna ainda
mais digna as alternativas que a sociedade indígena oferece
ao Ocidente. Uma cultura que sempre encarou com
desprezo nossa sobrevivência e nossa riqueza moral.

O território comunal
Um dos aspectos que nos deve fazer refletir para
compreender o atual pensamento dos povos originais, é o
fato de que é exatamente nestas zonas onde se tem
preservado com maior força a posse comunal da terra.
A posse comunal certamente é uma prática que os

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colonizadores perceberam em nossos povos, uma prática


que de muitas maneiras já representava uma exposição
natural do significado da terra para nossos ancestrais.
Depois da conquista esse regime de posse seguiu
recebendo muitas agressões. Próceres pátrios formados nas
escolas crioulas independentistas daqueles anos fizeram
sentir seu desacordo. Na atualidade, o estado mexicano
segue encarando a posse comunal como um obstáculo ao
desenvolvimento, uma barreira para tornar eficiente o uso
da terra, um verdadeiro escolho para o desenvolvimento
econômico que propiciará mais utilidades, gerará mais
empregos e garantirá uma maior efusão econômica em
benefício dos habitantes de cada nação. Apesar disso a
resistência de nossos povos não cede. Recentemente os
Nahuas lograram uma ampla mobilização para impedir que
suas terras fossem invadidas pelas águas de uma empresa
hidroelétrica. Os Zapotecos erradicaram o sistema de
concessões para a exploração dos bosques. Amplos
territórios mistos seguem sendo defendidos ao custo da
própria vida. A resistência prossegue entendendo que a
terra não é apenas um bem econômico, mas principalmente
uma mãe que contribui com todos nós. Uma mãe com quem
desejamos ter uma relação igualitária e de profundo
respeito.
Nestes territórios parece que o tempo não passou, se
prossegue observando as oferendas antes de iniciar o
cultivo, as festas nas colheitas, as cerimônias para garantir
a queda das chuvas. Será que seguimos sendo um povo
ignorante? Será que somos tão néscios e que não queremos
mudar? Bem pelo contrário, sempre mudamos. Mas também
sempre encontramos no respeito à terra o único princípio
que nos garante o bem estar, o princípio que sana nossos
corações e com o qual asseguramos o amanhã. Certamente
estes princípios já não se apresentam em toda sua nitidez
precisamente porque estamos mudando. Na atualidade já
exploramos os bosques como nunca havíamos pensado e
lhe extraímos riqueza que ainda não sabemos a ciência
correta do que fazer com ela. Agora reconhecemos que o
café se converteu como alguns outros cultivos em uma
corda no pescoço. Chegamos a devastar amplos territórios

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semeando milho para assegurar o alimento para nossas


famílias; devemos concordar que perdemos alguns valores
de nossa relação com a terra, mas estamos seguros de que
os resgataremos através de nossa própria organização. Um
exemplo disto é a nova mineração comunal das minas que
sempre foram aproveitadas pelos nossos usurpadores.
Tiveram que passar séculos de aprendizagem para que
agora estas minas sejam uma possibilidade de receita para
nossas famílias. O mesmo está sucedendo naqueles campos
onde não colhíamos o milho, pouco a pouco fomos
encontrando na história as tecnologias abandonadas que
agora estamos usando em nosso benefício. O comunal de
nosso território abre a possibilidade de encontrar soluções,
da busca de alternativas. Estamos seguros que este regime
de posse não veio do ocidente e não foi nunca um discurso,
é uma realidade tecida pelos séculos e pelo sacrifício de
dezenas e dezenas de gerações. O comunal é a fortaleza da
comunidade e o espaço que a recria, é o solo onde cresce
nosso futuro, é o berço de nosso pensamento natural e,
finalmente, a oportunidade para pensar um mundo futuro
diferente mas próximo de nós, mas também mais perto e
necessário para o mundo.
Cabe ressaltar que o comunal fez de nossa
organização social um tecido de uma maior possibilidade
harmônica, não isenta de contradições, não isenta de
estratificações, mas mais próxima do diálogo; mais próxima
do consenso, da reflexão coletiva e de uma tomada de
decisões horizontal. O comunal marca o ritmo da produção e
abre espaços inovadores para a educação de nossos filhos.
O comunal, por tudo o que foi dito, é para nós um elemento
fundamental para a compreensão de nossas novas
potencialidades.

Nossa vida assembleária


A grande maioria das comunidades da Mesoamérica
seguimos sendo pequenas. A pressão sobre nossa terra, o
atrativo de nossa mão de obra barata, a recente diminuição
de nossas faculdades curativas, fez com que cada uma de
nossas comunidades quando muito alcance o número de

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cinco mil habitantes. Estes espaços sociais tem permitido


que exista a possibilidade de uma vida assembleária, que a
população encontre em sua reunião a possibilidade de
crescer e reproduzir-se. A assembléia é o momento de
reunião de toda a cidadania, o lugar onde se tomam as
decisões e a oportunidade para o exercício, para uma plena,
por assim dizer, democracia. É provável que este conceito
não seja representativo do que ocorre em nossas
assembléias, mas o que é certo é que é uma instância que
se fundamenta no consenso, na diversidade e na
pluralidade. A assembléia para nós é o foro onde tanto a
capacidade individual do orador como do ouvinte se
conjugam e em cada momento se encontram em um novo
momento de coexistência. Na assembléia participam tanto
os letrados como aqueles que nunca frequentaram uma
escola. Todos temos as mesmas oportunidades sejamos
homens ou mulheres. As viuvas e as solteiras também tem
na assembléia a possibilidade de participação. Claro que as
coisas que aqui se afirma não ocorre da mesma maneira em
todas as comunidades, mas sem embargo as comunidades
autóctones em geral tem na assembléia a possibilidade de
sua realização social.
A assembléia é dirigida sempre pela autoridade
executiva que ela mesma elege, representantes temporais
que tem um, dois ou três anos para demonstrar suas
capacidades para o exercício do poder comunal. A
assembléia é não apenas uma possibilidade de participação
como também uma obrigação cidadã. Uma obrigação para o
exercício do poder social. Nada se decide fora dela salvo
aspectos mais limitados que não dizem respeito a ela. O
falar muito em uma assembléia é símbolo de prepotência
em vez de adequada capacidade para dirigir o povo porque
cada palavra que se emite deve ser ratificada com sua
prática no trabalho coletivo, quem não o faz é diminuído em
seu prestígio, é tido como um charlatão e nunca o povo porá
neles seus olhos para o exercício do poder.
A assembléia naquelas comunidades maiores e mais
urbanizadas é utilizada pelas forças políticas formais, ou
seja, os partidos políticos. É comum que nessas
comunidades se observe o surgimento de grupos quase

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sempre identificados com setores do poder econômico o


político. Para nós, em geral, participar de contendas
políticas é um sinal de envilecimento, mesmo tendo a
segurança de que apenas através delas se pode conseguir
um bem para a comunidade. A existência da assembléia
tem sido utilizada pelo estado mexicano de uma maneira
muito inteligente. O partido oficial tem encontrado nela um
excelente espaço para negociar o voto. As promessas de
obras ou de lutas sustentadas pela comunidade são
habilmente negociadas para lograr que sejam favorecidos
pelo voto. Não é raro também que de maneira consciente e
em alguns casos ingenuamente, os próprios executivos
nomeados pela assembléia se encarreguem de materializar
a fraude eleitoral. Há comunidades que se encarregam de
encher todas as urnas de votação em benefício de um só
partido. Com isso a comunidade negocia seu relativo grau
de independência e garante sua autonomia interna com a
nomeação democrática de seus representantes. Em outras
palavras, podemos afirmar que a comunidade cede o poder
político externo para garantir o interno. É preferível para nós
votar por um deputado que nem sequer conhecemos do que
votar em um partido político que se intromete na nomeação
de nossas autoridades. Tudo isso é cozinhado mediante o
registro de nossos representantes comunitários no partido
que está no poder. Em alguns casos pode suceder o
contrário, ou seja, mediante o registro em outros partidos.
Quanto isso se dá, a comunidade se vê diante de uma
imensidade de pressões, muitas das quais vocês conhecem
perfeitamente.
Por último cabe agregar que a vida assembleária
permite contar com uma arena onde as pressões
governamentais são contidas pela discussão da invalidade e
da inutilidade de suas propostas de desenvolvimento. Em
nossa assembléia comunal enfrentamos a permanente
intenção do estado por conduzir nosso desenvolvimento, por
orientar nosso caminho. A assembléia local nos propicia a
defesa de nossas idéias. Nem sempre esta defesa é
abertamente discursiva, em muitos casos esta defesa se
manifesta por um verdadeiro silêncio. Ou seja, quase
sempre as propostas do estado são respondidas com um

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Organizações Anárquicas

forte silencio que é decidido em nossos próprios idiomas


com uma coletiva e significativa entrevista, ao final se
saberá se se aceita ou não a proposta.
Os efeitos dessas relações tem desembocado em
verdadeiros juízos que terminam de maneira trágica como
também, em contraparte, em violentos assaltos da polícia
ou exército; não é exagero dizer que quando as iniciativas
em discussão definem interesses claramente identificados
que reforçam o poder da comunidade, a resposta comum do
estado é o uso da polícia e do exército, quando não a
detenção e o assassinato de nossos dirigentes.
Visto desde qualquer ângulo a existência de nossa
assembléia é o elemento que reproduz nosso
comportamento e que referenda nosso comunalismo.

A eleição de nossos representantes


Para que um cidadão ostente nossa
representatividade é necessário que desde criança tenha
mostrado um profundo respeito pela comunidade. A
formação de um ser humano inicia aos seis anos, primeiro
indo à igreja, tocando as campanhas, realizando labores
agrícolas. Esta formação vai introduzindo aos meninos e às
meninas um espírito especial. Conforme o tempo passa as
comissões que se realizam se diversificam. Obviamente
cada comunidade tem suas particularidades, sem embargo
podemos afirmar que a educação se radica no trabalho
comunitário. Educação-participação, educação-trabalho,
trabalho-representatividade vão sempre juntos. O trabalho
no campo, o trabalho na igreja, e o trabalho no exercício do
poder são alguns aspectos de uma pedagogia que sem estar
sistematizada de maneira formal recebemos de nossas
comunidades, esta também resulta uma pedagogia política.
Quando adolescentes os jovens começam a mostrar
suas particularidades, seu interesse maior pelo trabalho
físico ou sua inclinação pelo trabalho intelectual. Em ambos
os casos a capacidade no exercício político tem que ser
também plasmado no trabalho e na participação. Neste
processo se seleciona o cidadão nas linhas mencionadas

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Organizações Anárquicas

mas que requer ratificação. Aos dezesseis anos o jovem


pode ascender a postos auxiliares de agrupamento ou
mesmo à agencia municipal e como foi dito o
comportamento diante da comunidade indica suas
inclinações pessoais. Algo importante é que nenhum
cidadão busque a representatividade por si mesmo, o mais
lógico é negá-la, é dizer opor-se a obter esses cargos. O
contrário significa querer ascender ou ter apetite pelo cargo
político, uma questão perigosa nesse terreno. O político é
melhor identificado em função de sua militancia em partidos
políticos, onde ser deputado não significa precisamente ter
prestígio, mas ser um extraterrestre com muitas armas que
podem apontar contra a comunidade.
O México conta aproximadamente com dois mil
municípios e um número enorme de agencias municipais.
Não haver autoridade intermediária entre o município e o
governador do estado significa que possuir a municipalidade
é uma brilhante oportunidade de soberania política, mas
também um arriscado exercício de poder se se responde à
lógica dos partidos políticos. Em todo o país a maioria das
comunidades indígenas são agencias municipais, ou seja,
dependem de municípios maiores, sem embargo. Um dado
curioso salta à vista, enquanto estado da república: Oaxaca
contem aproximadamente 25% de todos os municípios do
país. É exatamente em Oaxaca, com seus 570 municípios,
onde as idéias aqui apresentadas florescem com mais força.
Em Oaxaca existem municípios de menos de mil
habitantes. Isto significa uma enorme possibilidade para a
reprodução do comunalismo. Neste estado uma junta é
normalmente integrada por não mais do que sete
funcionários: o prefeito que é a pessoa que detêm mais
poder, o presidente que é o executivo, o representante que
é o agente do ministério, e três regedores. São poucos os
casos comunitários onde há mais de cinco regedores, uma
equipe que é nomeada pela assembléia para exercer o
poder durante um ou três anos. Tanto o prefeito como o
representante, os principais e os auxiliares, conhecidos
como topiles, são geralmente cidadãos operativos, destros
no trabalho físico mas com efetiva participação. Os
regedores. e o presidente geralmente representam a linha

102
Organizações Anárquicas

dos intelectuais mas não estão isentos dos trabalhos rudes.


A representatividade comunitária deve ser
compreendida como o exercício da representação. Cada
integrante da junta não recebe nenhuma remuneração e de
maneira geral agem como se fossem empregados a serviço
do povo. Todos devem fazer de tudo, ou seja, participar de
todo tipo de tarefas: gestão, administração, coordenação,
execução, etc. Exigir a divisão de áreas ou de
especialidades será uma atitude mal vista, digamos
modernizadora, e contra os costumes.
O exercício do poder se veste fortemente pelo
costume, pelo modo quotidiano de tecer acordos, marcado
pela sua ritualidade ou pela realização de eventos
estabelecidos séculos atrás, onde toda população participa
de acordo com a divisão de setores sociais: camponeses,
artesãos, músicos, mestres, etc.
Aquele que não respeita a somatória de tradições e
costumes e que não participa horizontalmente na
representação não tem prestígio na comunidade. A consulta
permanente, a prática e o consenso nos demonstram a
horizontalidade na tomada de decisões, a realidade da ação
política que emana do comunalismo.
Não queremos passar a idéia de que no interior
dessa estrutura política não existam contradições,
adversidades e inclusive conflitos que a comunidade carrega
por décadas; recordo um caso que ocorreu com o povo
zapoteco Yalalag. Por problemas econômicos e políticos, o
povo se dividiu de tal forma que o conflito conduziu a
comunidade a uma rinha de mais de cinquenta anos, até
que as forças sociais foram recompostas e restabelecido o
consenso de maioria. Na atualidade esta é uma comunidade
que padece pela redução de sua população, mas está de pé
e com recentes e inovadores projetos alentados por seu
comunalismo que esteve enroscado durante muito tempo.
As divisões internas em uma comunidade indígena,
na maioria dos casos, está relacionada com a existência de
caciques, personagens aliadas a grupos de poder político
central ou estatal que pretendem, e em muitos casos

103
Organizações Anárquicas

logram usurpar a riqueza da comunidade (terra, produção,


etc.). Este fenômeno já muito analisado do âmbito rural
mexicano creio que lentamente está desaparecendo. Muitas
comunidades depois de sangrentos enfrentamentos tem
refeito seu consenso retornando aos costumes.
Acima de tudo, a representatividade é resultado de
uma assembléia. É o valor político mais importante que
desejamos herdar, enquanto comunidade autóctone, ibero-
americana e mundial.

Conselho de anciãos
A participação na estrutura política permite ao
cidadão oferecer seus atributos pessoais. Os muito
trabalhadores, os sistematizadores da história, os
conhecedores da natureza, os rezanderos, os comerciantes,
os mestres, etc. Todos e cada um aportam sua experiência e
vão sendo eleitos para desempenhar uma atividade
especial: a de conselheiro. Ser conselheiro não significa
necessariamente ser ancião, fundamentalmente o
conselheiro deve ser compreendido como um trabalhador a
serviço da comunidade sem nenhum outro interesse a não
ser seu desenvolvimento.
Os conselhos de anciãos se integram de acordo com
a decisão da maioria da população, mas de maneira
específica por decisão da junta em turno. Nesta decisão a
junta declara suas preferências por aqueles que tem de ser
de quem vai pedir o conselho necessário para a tomada de
decisões. Não são chamados para nenhuma outra coisa. São
aproveitados para decidir questões complicadas, por
exemplo, a definição dos limites com outra comunidade,
para resolver casos de assassinatos, para superar, deixar de
lado ou adotar uma tradição, para os rituais mais
significativos, enfim para aqueles assuntos nos quais a junta
sente que necessita auxílio.
Os conselhos de anciãos tem resolvido problemas
vitais não apenas em nível comunitário como também em
nível regional. Um conselheiro se supõe ser dotado de uma
visão não normal, um conhecimento não mediano, um

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Organizações Anárquicas

conselheiro é enfim, depositário do comunalismo e fiel


defensor dos princípios de convivência social e das
determinações mais importantes. Graças a ele o consenso
segue como norma, o trabalho como pedagogia, e a
ritualidade como mostra de espiritualidade.
Esta instancia, como todo processo, não é imune a
dificuldades e erros, sem embargo é a forma ancestral de
exercer o bom governo [autogoverno]. O conselho de
anciãos por si só significa uma verdadeira garantia para a
democracia comunitária. Um governador chamou esse
conselho de "senado da comunidade", consideramos que
pode haver relação com o termo, mas a experiência diz
muito sobre o que significa ser senador em uma sociedade
antidemocrática e autoritária em termos de trabalho e
comportamento quotidiano. Enfim, poderíamos dizer que
aqui a pequena escala nos apresenta a possibilidade de uma
representação social mais próxima à democracia, que
desgraçadamente não é frequente nas grandes sociedades
urbanas.

O tequio quotidiano
Todo afazer comunitário tem relação com o trabalho.
A preservação e a manutenção física é um trabalho
específico, chamado tequio.
O tequio é a tarefa que cada cidadão outorga, dependendo
das facilidades uma ou duas vezes por mês, é o trabalho
que permite a realização de obras de serviço geral: obras de
manutenção e de serviço tais como escolas, clínicas de
saúde, abastecimento de agua, etc. O tequio é programado
pela junta ou autoridade municipal sob a coordenação do
síndico municipal. Participam todos os pais de família, mães
solteiras e viúvas. Os primeiros têm o trabalho mais duro e
as mulheres são encarregadas de atividades de outra
ordem; trazer agua, comida, em muitos casos participam da
semeadura e também da colheita.
O tequio é a instituição que evidencia uma nova
forma de comportamento cidadão, aquele que não participa
tem que pagar uma multa ou fazer o serviço em outro dia.

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Em alguns casos, o indivíduo que não participa é


encarcerado. Cabe destacar que este hábito é proibido pela
constituição geral da nação mas apesar de tudo é
exercitado.
Os aspectos negativos do tequio são destacadas
principalmente por pessoas descomunalizadas que o
considera uma prática autoritária, inclusive antidemocrática.
Se sentem obrigados pelo povo a cumprir com o tequio
apesar da constituição o proibir. Sem embargo nossa
concepção é diferente.
Deve-se afirmar que a diversidade e a pluralidade
cultural dista muito de ser respeitada pelos estados
nacionais. Isso ocorre não apenas no México como também
na Guatemala, e na Bolívia os casos são extremos. Sem
embargo resulta paradoxal e de alguma maneira alentador o
fato de que no México a experiência assembleária e
representativa, aliada à prática do tequio se haja convertido
nestes últimos anos em um novo modelo de trabalho para
as regiões denominadas de extrema pobreza.
Vejamos esta questão por partes. Por um lado os
estados nacionais ibero-americanos tem como característica
a imposição de modelos de comportamento individual,
empresarial, de eficiência, e de um alto conteúdo mercantil.
Por sua parte as sociedades tradicionais reforçam seus
modelos tradicionais coletivos, o respeito à diversidade, à
terra e a um uso mais equilibrado de seu potencial, e
relegam a obtenção de benefícios econômicos e
tecnológicos ao simples e necessário. Desta perspectiva não
se pode esperar mais dos estados nacionais que impõem
decisões que violentam os princípios básicos em nossas
comunidades. Com isso se explica o porque as constituições
nem respeitam os costumes, a diversidade cultural, nem
tampouco reforçam a reprodução e os valores que vão no
sentido oposto a suas intenções ou àquilo que chamam de
suas necessidades.
Por outro lado verificamos que práticas como o
tequio, que aparece ante os olhos dos ocidentais como
como antidemocráticas, resultam ser os únicos fatores que
tem permitido às próprias sociedades, comunidades, ou aos

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índios a solução das necessidades anexas. O tequio para


estas micro sociedades representa a alternativa para o
desenvolvimento e para o bem estar. Este último
reconhecido pelo estado mexicano durante os últimos anos,
iniciando um trabalho de reconhecimento da diversidade e
da pluralidade cultural. A modificação no artigo quarto
constitucional nos lega uma primícia institucional de um
estado mais diverso talvez mais democrático ou mais
inteligente.
O estado mexicano tem ante si a meta de superar os
enormes vácuos na maioria de sua sociedade
principalmente naquelas regiões onde se manifesta com
muita evidência a extrema pobreza e encontra em nossas
micro sociedades os mecanismos próprios para um
autodesenvolvimento. É quando o tequio se transforma em
varinha mágica. Por isso, pelo tequio e por tudo o que ele
expressa, o comunalismo começa a exportar práticas
mesmo sem conhecer em profundidade maneiras próprias e
originais de desenvolvê-las.
Existem correntes do pensamento que consideram
que usar o tequio como bandeira de desenvolvimento dos
próprios povos é esterilizar sua própria efetividade e
beneficiar o estado em lugar de deter sua ação em
detrimento das comunidades indígenas. De uma coisa
estamos seguros, nossos próprios irmãos, pressionados a
emigrar levaram consigo este comunalismo e o estão
reproduzindo em núcleos urbanos de muita importância.
Não é estranho encontrar-se na cidade, à frente de
muitos comitês de solidariedade, indígenas emigrados
realizando ações mediante uma organização aprendida em
suas comunidades de origem. Tampouco não foi estranho
ver, ante o terremoto de 85, muitos indígenas e mestiços
irmanados no resgate das vítimas, mediante
comportamentos emanados deste tipo de cultura
comunitária.

A solidariedade comunitária
Durante os últimos seis anos, a palavra solidariedade
virou moda no México. Nesta ocasião tentamos deslindar o

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que significava solidariedade comunitária. e o que


significava comunalismo. No início imaginávamos a
solidariedade como um ato voluntário, contrário ao
comunalismo que é uma ideologia emanada de ações
estabelecidas em muitos casos de maneira obrigatória. Ir à
assembléia da comunidade, assumir cargos, dar seus
tequios, são pautas de obrigação cidadã que reproduzimos
com muita consciência porque nos foram injetadas como
linhas de comportamento, contrário a solidariedade que é
exercida em um âmbito livre, ou seja, é feita por iniciativa
própria por corresponder à solidariedade do outro. Em
nossas comunidades esta solidariedade é conhecida como
ajuda mútua, em zapoteco como "gozona". Em cada idioma
próprio existe a palavra que corresponde à ajuda mútua.
Entendemos solidariedade quando o vizinho lhe ajuda a
fazer sua casa, quando para a boda de um compadre se
contribui economicamente com um bem ou com trabalho.
Por solidariedade ou ajuda mútua entendemos o apoio à
família de um cidadão falecido oferecendo trabalho,
sementes ou dinheiro, o mesmo para ajudar um acidentado.
Sem embargo o comunalismo de muitas maneiras reflete
institucionalmente um certo grau de autoritarismo mas
exercido e decidido por todos. No comunalismo o indivíduo é
coletivo do principio ao fim, enquanto que o autoritarismo
em outro tipo de sociedade apenas responde a
necessidades de ordem pessoal ou grupal.
Outro aspecto solidário que encontramos dentro de
nossas comunidades é o apoio entre comunidades distintas,
isto se dá principalmente na realização de festas, ou diante
de uma tragédia pouco comum. A solidariedade ou a gozona
na festa significa ao mesmo tempo ajuda, oferta de serviços
e satisfação em oferecer estas coisas. Desta maneira se
logra que as festas transbordem de colorido e música,
transbordem de solidariedade; talvez o evento comunitário
concentre o significado de sua ação e a institucionalidade
comunitária ou o comunalismo seja a festa. Este é o
resultado do trabalho agrícola ou artesanal comercial e
produtivo de um ano. A festa e os rituais que cada um
desenvolve. Não podemos competir de maneira comercial,
nem tampouco pensar em quem manda em quem, pelo

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contrário, encontramos em todos a necessidade de


sobreviver como seres diferentes e próximos, e que de uma
forma clara a todos nos afeta o impacto do pensamento
ocidental, também nos afeta o intento globalizador dado ao
pensamento índio. Não o aceitamos. Muito menos na forma
de modelos ocidentais já tão desgastados.
Não compreendemos o comunalismo como algo
próprio deste ou do século passado, herdamos o
comunalismo antes da chegada de Cristo porque desde
tempos remotos vem preenchendo esta necessidade de
harmonia tão dramaticamente rota nas sociedades
modernas. Quais são os valores que nos unem e de que
maneira podemos colocá-los em ação respeitando o
processo histórico de cada um? É isso que nos preocupa na
atualidade em vista da sociedade original. Não pretendemos
criar modelos de pensamento que novamente sejam
impostos a outras sociedades. "Se estamos na Guatemala
não queremos entrar na guatepior".

Conclusões de um possível futuro


Antes de concluir esta breve intervenção quero
assinalar alguns dos desafios que enfrentamos neste
momento. Não cremos estar na melhor das situações para
poder ensinar, temos problemas que ainda não
conseguimos resolver, e vou falar sobre eles:
O comunalismo certamente é a ideologia que nos
tem permitido enfrentar e resolver uma infinidade de
problemas com os quais temos nos deparado na história,
sem embargo, o comunalismo também tem significado
localismo, nacionalismo em seu sentido mais microscópico.
O comunalismo nos tem levado a enfrentar possibilidades
de desenvolvimento na comunidade. Por cada povo ser
quase uma nação, estamos diante de um verdadeiro
problema no que diz respeito ao âmbito regional. Através do
comunalismo pouco a pouco vamos resolvendo os
problemas locais mas os problemas que temos que
enfrentar regionalmente estão ainda nas mãos dos que
sempre nos sujeitaram. Um exemplo disso é precisamente a
exploração dos bosques, cada comunidade tem logrado ser

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uma empresa florestal mas o problema de mercado é um


problema de todos, o problema das estradas também, etc.
Não é possível enfrentar inimigos maiores a partir da
localidade. Temos a necessidade de uma união maior e de
uma definição mais clara do futuro.
Outro problema que vem de cima e que nos atinge a
cada três ou seis anos é a representatividade política
regional, que continua sendo decidida desde fora. Aqui, o
autoritarismo governamental nos tem dividido de maneira
permanente, não temos líderes regionais porque nosso
costume o impede. Tampouco temos tido a avareza de
representar o momento culminante de um labor que implica
tudo: o trabalho familiar, o trabalho grupal, o trabalho
municipal, e sobretudo o desempenho de uma soma de
ritualidades que abrange tanto a religião cristã como a
prehispânica; festeja-se tanto os santos como o sol, a terra
ou a lua.
A festa é parte da identidade comunitária, é o reflexo
do espírito de todos. Todos trabalhamos para ela. No mesmo
espírito que coordena as atividades, o acumulado em um
ano é distribuído para o gozo de todos. Tudo aquilo que foi
organizado durante o ano se revela na festa. As habilidades
construídas por anos a fio se deleitam na festa. Diria que
nossas festas são a marca que nos identifica, elas refletem o
respeito e a solidariedade que nossa atitude semeou nas
comunidades que nos circundam.
A festa é o sentido do trabalho, para seu próprio gozo
destacamos que o trabalho é o sentido da comunidade em
todas suas dimensões, apenas na festa encontramos a
solidariedade e o comunalismo em seu ponto mais elevado.

As particularidades de nossas culturas


A antropologização da vida indígena tem sido a
culpada da extrema pulverização de nossas identidades.
Geralmente, nós, os grupos étnicos, comunidades, povos
autóctones, ou seja lá como nos chamem, compartilhamos
valores substanciais que através deste escrito temos tratado
de explicar. Os antropólogos tem a tendência de explicar a

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vida de cada povo a partir de detalhes particulares e isto


torna ainda mais complexa compreensão do que somos e do
que podemos propor ao resto do mundo.
Um exemplo simples disso é usar a diversidade de
línguas para mostrar a grande complexidade existente. Essa
corrente chegou ao ponto de considerar que apenas aquele
que fala sua própria lingua é indígena, os demais são
mestiços, um arremedo de indígena ou de autóctone. Nós
consideramos que debaixo de valores particulares como
lingua, vestimenta, música, dança, etc., há valores
subjacentes que são comuns, valores que são ordenados
pelos próprios indígenas. Nós, os Zapotecos de Oaxaca, não
estamos em nada separados dos companheiros Cree do
Canada, dos Zuni do Novo México, dos Mayas da
Guatemala, dos Mapuches do Chile, ou dos Kariña da
Venezuela. Temos idiomas diversos e práticas rituais
diferentes, como também vestimentas e festas de colorido
distinto, mas todos nós temos a mesma necessidade de
reivindicar nossa relação com a terra, de defender nossos
territórios, de enfrentar o autoritarismo de nossos
opressores, de enfrentar as imposições de uma
modernidade néscia que se nega a compreender o valor de
nossa filosofia. Somos todos unidos pelo consenso, pelo
diálogo, pelo ânimo e pela realidade da horizontalidade. O
autogoverno local é sem embargo o grande alvo para todas
nossas comunidades, os dirigentes nacionais sempre serão
caricatura, porque nosso povo ainda não definiu
devidamente como o autóctone deve fazer política.
O estado simplesmente usurpa nossa integridade
com modelos nascidos de nossa realidade mas que, no final
das contas, não nos propicia saída alguma. Este é um
impedimento para a democracia e para a superação do
autoritarismo.
Outro problema é como enfrentar a voracidade da
irracionalidade capitalista, ou seja, como proteger nossos
recursos e ao mesmo tempo manter nossa lógica diante da
natureza. Agora, quando o capital ameaça tragar-nos de
maneira brutal, quando os tratados de livre comércio
sinalizam com a possibilidade de extinguir-nos, as

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democracias têm mais símbolo econômico do que qualquer


outra coisa.
Outro dos problemas graves que não logramos
resolver é a trágica educação que nos invade através dos
meios de comunicação. Nesse campo temos feito algo e
contamos com alguns espaços e aparatos de transmissão de
rádio, mas ainda não logramos enfrentar e ganhar a
preferência de nossos próprios irmãos alienados pela rádio
comercial.
Sabemos que estamos em um tempo de reflexão, de
intercâmbio e de investigação.
Cremos estar prontos para propor soluções sempre e
quando se abrirem os poros do Ocidente e se restaurar a
necessidade da adoção de modelos que garantam nossas
possibilidades de sobrevivência. Embora precisemos
trabalhar mais na sistematização destas esperanças.
Quanto ao autoritarismo, o sentimos na pele aqui e
ali e vice versa, mas é necessário primeiro abrir as
possibilidades de intercâmbio de experiência, e se opor com
maior força os instrumentos que laceram nossa imaginação
e os princípios de nossos povos.
Caminhos são ensaiados, e creio que devemos
continuar fazendo isso, mas agora com nossas próprias
possibilidades, em direção a um mundo que um dia
pensamos superar e inclusive abandonar. Nós, indígenas,
estamos convencidos que a defesa de nossa geografia
seguirá sendo a base para o desenvolvimento de novas
ilusões, como a defesa de nosso território; a possibilidade
de existência real para nossas famílias. A vida assembleária
abre uma enorme possibilidade de consensar nossas
convicções, inclusive nossas emoções e encontrar nela
novas formas relacionadas com a democracia. Que o
respeito a nossos velhos não seja compreendido apenas
como o respeito à simples tradição mas à acumulação do
conhecimento que todos temos direito a lograr.
Consideramos que o trabalho físico ao lado do
trabalho intelectual abre novas perspectivas de imaginação
entre os seres diferentes que somos. O não satanizar nem

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Organizações Anárquicas

sobrevalorizar nossas diferenças superficiais, e a ordenação


do que somos, pode calhar de maneira mais adequada e
evitar o pântano da estigmatização, propiciando o encontro
de caminhos comuns e amplos onde se permita a
pluralidade e a democracia. Para finalizar, espero que o que
aqui foi expresso seja de utilidade para todos os leitores.
Autonomia para os Povos da Sierra Norte de Oaxaca

Exposição de motivos
PRIMEIRO.- O atual Estado mexicano, fruto da Revolução
Mexicana e fundado na Constituição de 1917, conformou a
Sierra Norte do Estado de Oaxaca, como uma região
integrada de 74 municípios e cento oitenta e seis
comunidades dependentes destes, e administrados através
de três cabeceiras de distritos e regidas territorialmente
pelo estipulado no Artigo 27 da Constituição Federal.
SEGUNDO.- Ao longo de 77 anos, a Sierra Norte, tem
mantido uma pacífica e respeitosa relação política com o
governo do estado, cumprindo com as políticas
estabelecidas e as leis que regem esta relação. Tem
cumprido também com os acordos e os esforços que os
diferentes governos tem desenhado na busca de seu
desenvolvimento e plena satisfação.
TERCEIRO.- Este período histórico, permitiu assegurar
nossos bens territoriais, consolidar nossa organização social
e política, integrar e clarificar os elementos que constituem
nossa economia, definir as linhas que reclamam nossa
educação, administrar sobre bases federais a justiça,
fomentar e desenvolver nossa cultura.
QUARTO.- A avaliação deste período histórico, nos leva à
suprema necessidade de exercitar profundas mudanças no
pacto assinado com o governo estatal e federal. O
estabelecimento de um novo regime, fundado nos aportes
obtidos no passado, que garantisse a correção dos
desacertos e o logro de um pleno desenvolvimento diante
das necessidades atuais, futuras e urgentes da sociedade
regional, que reoriente as políticas de desenvolvimento
econômico e social, que à luz de sete décadas demonstram

113
Organizações Anárquicas

sua caducidade.
QUINTO.- Que o marco jurídico mais adequado é o
estabelecimento de um REGIME AUTÔNOMO para a região
pluriétnica de Sierra Norte do Estado de Oaxaca. Um Regime
Autônomo que pactue com o estado novas e diferentes
relações, sob princípios mui precisos de autêntica e mútua
responsabilidade.
SEXTO.- O Regime Autônomo, revela a segurança e a
maioridade que alcançou a região para fazer-se responsável
por sua livre e plena determinação econômica, territorial,
jurídica, educacional, política e cultural.
SÉTIMO.- A Sierra Norte do Estado de Oaxaca, como região
pluriétnica, considera que a regulação de seu patrimônio
territorial, já é uma faculdade que pode exercer. Que tem
uma racionalidade econômica que deseja desenvolver para
evitar a emigração e a extrema pobreza. Que tem princípios
de justiça próprios para a plena satisfação das relações
jurídicas. Que tem capacidade para ditar conteúdos
educativos acordes com cultura própria e diferente das
nacionais. Que conta com uma cultura que deseja consolidar
de forma a poder desenvolvê-la livremente, que tem uma
organização política sólida que assegura a estabilidade
social e pode pactuar organicamente sua relação com o
Estado.
Com base nos motivos assinalados, se apresenta a presente
iniciativa de lei para o estabelecimento de um Regime
Autônomo da região Pluriétnica de Sierra Norte do Estado de
Oaxaca.

Disposições preliminares
Artigo 1º.- A presente lei se funda no estipulado no Artigo 4º
e, 115 em relação com o 133 da Constituição Política dos
Estados Unidos Mexicanos, 20, 92, 94, e demais relativos à
Constituição Política do Estado de Oaxaca, assim como o
que estabelece o convênio 169 da Organização
Internacional do Trabalho para os Povos Indígenas.
Artigo 2º.- O executivo será responsável pela coordenação

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Organizações Anárquicas

das ações entre instâncias que devam contribuir para a


Promulgação da presente lei.

Disposições gerais
Artigo 3º.- A presente lei se refere aos povos que habitam
em Sierra Norte do Estado de Oaxaca, atualmente integrada
em 74 municipalidades, 186 localidades entre Agencias
Municipais e Agencias de policia; em total 260 centros
populacionais, que compartilham valores Culturais,
Organizacionais e possuem bens patrimoniais que integram
a região pluriétnica, para a aprovação da presente lei.
Artigo 4º.- O executivo Estatal, os Governos Municipais e o
Conselho de representantes, serão os responsáveis por
exercer a presente lei, cuidando e fazendo respeitar o que
ela estipula, para o bem dos povos que integram a região
que daqui em diante ostentará o nome de REGIÃO
AUTÔNOMA PLURIÉTNICA DA SIERRA Norte do Estado DE
OAXACA.
Artigo 5º.- Para a atenção dos problemas de toda natureza
que se chegaram a suscitar entre os Povos e Comunidades
Indígenas de Sierra Norte do Estado de Oaxaca; se integrará
um conselho regional de representantes comunitários que
será nomeado em Assembléia Geral de Autoridades
Municipais dos três distritos e sua ubiquação será no
Município que designe a própria Assembleia.

Território
Artigo 6º.- O território autônomo de Sierra Norte do Estado
de Oaxaca, integra a soma de superfície de terras comunais
com que conta cada Povo Integrante.
Artigo 7º.- A propriedade das terras comunais dos Povos e
Comunidades integrantes da Região Autônoma de Sierra
Norte, será inalienável, imprescritível, intransigível e
inembargável. Com isso se garante o livre e pleno
desenvolvimento dos povos indígenas.
Artigo 8º.- A máxima autoridade sobre o território de cada
Povo ou comunidade Indígena será sua Assembléia Geral

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Organizações Anárquicas

Comunitária.
Artigo 9º.- O uso e a forma de aproveitamento das terras --
propriedade dos povos indígenas -- será decidido mediante
Assembléia Geral comunitária, sem que nela intervenha
nenhuma autoridade estranha à comunidade.
Artigo 10º.- Os problemas de limites de terras entre Povos e
Comunidades, serão resolvidos por um Conselho Regional
de Representantes, buscando sempre o acordo e a harmonia
entre as partes.
Artigo 11º.- Em cada comunidade haverá um corpo
consultivo consultivo que será designado mediante
Assembleia Geral Comunitária, para atender aos problemas
internos de sua população.
Artigo 12º.- Os problemas internos que não puderem ser
resolvidos pelas autoridades Municipais quando faça parte
ou tenha interesse no assunto poderão retornar ao corpo
Consultivo da Comunidade para sua atenção.
Artigo 13º.- O uso e o destino dos recursos naturais
renováveis ou não, existentes dentro do território de um
povo indígena será responsabilidade da Assembleia Geral
comunitária.
Artigo 14º.- A administração dos recursos Naturais de cada
Núcleo Populacional recairá em uma autoridade ou comissão
que previamente nomeará a Assembléia Geral Comunitária

Economia
Artigo 15º.- A economia dos povos indígenas será de livre
determinação individual, grupal ou coletiva.
Artigo 16º.- A racionalidade econômica em cada povo será
de livre determinação sempre e quando não afete a
terceiros e ponha em perigo a sobrevivência da
comunidade.
Artigo 17º.- Todo programa ou projeto econômico a realizar-
se em uma comunidade deverá surgir da Assembléia Geral
comunitária., cuidando que estes não obedeçam a
interesses pessoais.

116
Organizações Anárquicas

Artigo 18º.- Cada povo indígena, deverá ter um plano de


trabalho por triênio, o que regerá tanto a atividade interna e
considerará a correcta canalização de recursos provenientes
do exterior.
Artigo 19º.- Para seu progresso, as comunidades terão a
liberdade para usar seus recursos naturais renováveis ou
não sempre e quando por meio de uma decisão da
assembléia e que que esta considere um manejo
sustentável dos bens.
Artigo 20º.- Para seu progresso harmônico, os planos de
trabalho comunitário deverão estar integrados em um plano
de Desenvolvimento da região autônoma.
Artigo 21º.- As distintas Dependências Governamentais,
desempenharão o papel único de assessor ou consultor,
sempre e quando este serviço seja reclamado ou solicitado
pela comunidade.
Artigo 22º.- Os recursos Governamentais deverão ser
integrados em uma única administração e de maneira direta
a cada Comunidade. Esta por sua vez comprovará sua
correta administração.
Artigo 23º.- Será livre determinação dos povos ou
comunidades a decisão de unificar-se, para a realização de
atividades de caráter econômico que garanta seu
desenvolvimento.
Artigo 24º.- O papel normativo dos organismos
governamentais, será transferido às autoridades eleitas pela
Assembléia Geral de cada comunidade.

Organização social e política


Artigo 25º.- A máxima Autoridade na Região Autônoma de
Sierra Norte do Estado de Oaxaca, será a Assembléia Geral
de Autoridades legalmente constituídas em cada
comunidade.
Artigo 26º.- Para seu desempenho, a Assembléia Geral de
Autoridades da Região Autônoma, terá uma lei regulamentar
ditada e autorizada por ela mesma.

117
Organizações Anárquicas

Artigo 27º.- Como parte do pacto sócio político entre os


povos indígenas e o Estado Mexicano, os Municípios
existentes serão tidos como tais, mas o trato administrativo
tanto das Agencias Municipais como das Agencias de Polícia
e Rancherias, responderão à lei regulamentar da Região
Autônoma de Sierra Norte.
Artigo 28º.- A máxima autoridade social e política dos povos
ou comunidades indígenas será sua assembléia geral
comunitária, a qual se integra pela somatória de cidadãos
com idades entre dezoito e sessenta anos.
Artigo 29º.- Será a Assembléia Geral comunitária que
determina os órgãos de governo que considere necessários
para isso levará em conta o valor da categoria Municipal e
de essa maneira garantirá seu sano exercício social e
político.
Artigo 30º.- A autoridade executiva que designe a
Assembléia Geral Comunitária e a represente, será quem
firma o pacto com os Governos Estatal e Federal.
Artigo 31º.- O regime administrativo do órgão executivo e
dos demais que resultem necessários, será decidido pela
assembleia geral comunitária
Artigo 32º.- Para a eleição de representantes regionais
populares, a Região Autônoma se constituirá em Assembléia
Geral de Autoridades que, estarão devidamente
acreditados.
Artigo 33º.- Os representantes regionais, serão eleitos entre
os cidadãos que cumpriram fielmente suas obrigações
sociais e políticas em sua comunidade e sejam propostas
por estas diante do plenário regional.
Artigo 34º.- Os candidatos a representação regional deverão
apresentar um estrito plano de trabalho, que responda às
necessidades e planejamentos da Região Autônoma que
contenha calendarização e sistema de avaliação social.

Educação
Artigo 35º.- A Assembléia Geral de Autoridades da Região

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Organizações Anárquicas

Autônoma da Sierra Norte será a máxima autoridade que


decidirá sobre a educação que deverá ser implementada em
todo o território indígena.
Artigo 36º.- A Assembléia Geral de Autoridades, terá a
faculdade de nomear comissões específicas para o caso, e
estas quedarão definidas em suas leis regulamentares. Seu
objetivo será sempre uma maior eficiência e propriedade na
educação regional.
Artigo 37º.- A seleção do professorado será responsabilidade
das Autoridades Comunitárias, assim como a vigilância de
seu trabalho e a atenção que esta atividade requer.
Artigo 38º.- Os Governos Federal e Estadual serão os
responsáveis de aportar os recursos econômicos para a
atividade educativa. A administração dos recursos e seu
correta aplicação, será responsabilidade de cada Autoridade
Comunitária
Artigo 39º.- A avaliação e reorientação da educação a cada
triênio será responsabilidade tanto da Assembléia Geral de
Autoridades da Região autônoma como da autoridade
comunitária

Cultura, conhecimento e comunicação


Artigo 40º.- A cultura será patrimônio e exercício de cada
comunidade.
Artigo 41º.- A cultura será entendida como as faculdades de
criação, conhecimento e recreação de toda sociedade
regional.
Artigo 42º.- A cultura integrará o que neste momento a
comunidade tenha como patrimônio cultural, o
conhecimento assentado em seus habitantes, e a
informação que provenha do exterior e sirva ao progresso
da comunidade.
Artigo 43º.- Cada comunidade decidirá que valores culturais
difundir e converter em patrimônio geral.
Artigo 44º.- A Assembléia Geral de Autoridades da Região
autônoma compreenderá as necessidades culturais da

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Organizações Anárquicas

região e terá a responsabilidade de satisfazê-las,


respeitando as iniciativas de caráter comunitário nesse
aspecto.
Artigo 45º.- Toda iniciativa que involucre mais de três
comunidades, no aspecto cultural, será discutido na
Assembléia Geral de Autoridades da região autônoma.
Artigo 46º.- Os direitos autorais da criatividade cultural da
Região Autônoma, deverá ser responsabilidade das
comissões que para esse fim designe a lei regulamentar da
Assembléia Geral de Autoridades da Região Autônoma.
Artigo 47º.- Para a exposição de resultados culturais, será
responsabilidade de cada comunidade seu decisão e terá
que levar em conta as recomendações manifestadas na
Assembléia Geral Comunitária
Artigo 48º.- O conhecimento geral será tratado de tal
maneira que seja resguardado pela comissão de defesa de
direitos autorais nomeada pela Assembléia Geral de
Autoridades da Região Autônoma.
Artigo 49º.- O conhecimento regional, será entendido como
um valor e patrimônio geral, como tal resguardado por todo
tipo de autoridade existente, sem que medie autoridade
intermediária.
Artigo 50º.- Os meios de comunicação existentes e por
integrar, serão propriedade dos povos que integram a
Região Autônoma.
Artigo 51º.- A qualidade, conteúdo, e as formas de uso dos
meios de comunicação serão responsabilidade da
Assembléia Geral de Autoridades da Região autônoma.
Artigo 52º.- A Assembléia Geral de Autoridades da Região
Autônoma, será responsável pela gestão de novos meios de
comunicação e de programas de trabalho que em matéria
de comunicação resulte necessário.
Artigo 53º.- A Assembléia Geral de Autoridades da Região
Autônoma, poderá nomear comissões que lhe auxiliem
tecnicamente para essa finalidade, toda vez que seja
necessário.

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Organizações Anárquicas

Regime jurídico
Artigo 54º.- A administração da Justiça na região será
responsabilidade de seus habitantes de acordo com os usos
e costumes existentes em cada povo.
Artigo 55º.- Será a Assembléia Geral de Autoridades que
nomeará o corpo consultivo Indígena que estará presidido
por um Prefeito.
Artigo 56º.- Quem ocupa este cargo será cidadão da Região
que de preferencia haja cumprido com as obrigações que
marca seu comunidade.
Artigo 57º.- Será responsabilidade do Prefeito Regional
administrar a Justiça em todos aqueles casos que o solicitem
as Autoridades Comunitárias.
Artigo 58º.- Cada Povoado designará a um cidadão Bilingue
que será o tradutor da variante linguística de sua
comunidade, que será chamado a traduzir nos casos que se
lhe requeira.
Artigo 59º.- Na administração da Justiça, o Prefeito Regional
escutará a opinião das autoridades da comunidade donde
seja originário o infrator e juntos resolverão os conflitos que
se lhe apresentem.
Artigo 60º.- Nos casos de suma gravidade será consultado o
corpo consultivo, para encontrar a melhor solução aos
problemas individuais e comunitários.
Artigo 61º.- A tarefa imediata do Prefeito Regional, será a
avisar o Estado que guarda os expedientes de cada preso
indígena recluso nos cárceres desta região.

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Aspectos
Organizacionais
Protopia

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Não aceitamos qualquer tipo de estado e de


"iniciativa privada". Mas isso não quer dizer que não
sejamos um espaço coletivo (como o ESTADO se tornou
sinônimo no mundo de hoje) e também não quer dizer que
não exercemos atividades econômicas. Pelo contrário. Uma
Z.A. deve zelar, acima de tudo, por um jogo político limpo,
onde todos tenham voz, mas ninguém será responsável por
esse zelo, ou seja, todos são. Uma Z.A. não deve aceitar a
propriedade privada como estipulador de regras (e sequer
as regras), mas isso não quer dizer que as pessoas não
possam viver confortavelmente que não tenham privacidade
na medida em que desejarem (isso é essencial para o
grande jogo de imagens motoras contra o Sistema!). Por
mais que a casa em que viva um cidadão da Z.A. seja
coletiva, o espaço reservado a ele é pessoal, não no sentido
de ser dele, mas no sentido desta pessoa possuir uma certa
autonomia sobre espaço que ocupa. Assim, as "empresas",
embora abolidas, só se tornam comunais, onde todos tiram
proveito do labor de todos e onde não há mais "pessoas
jurídicas", mas só pessoas físicas (redundância?) utilizando o
conjunto produtivo, da forma que lhes couberem e
quererem, afim de buscar seu sustento e a riqueza material
da comunidade. O Estado, por sua vez, se pulveriza em
todos. Não existe mais a profissionalização do estado. Não
existe mais a representação alheia. Todos tem voz,
DIRETAMENTE, e todos tem o direito de negarem que o
coletivo tome decisões que lhe façam mal. A vida coletiva
adquire um novo encantamento, onde o jogo político diário,
a vida comunal e as discussões banais tomam sentido, se
tornam relevantes e demonstram propósito próprio.

Tamanho
(Variáveis de Espaço e População a serem
apresentadas, não se deve deixar de lado a
historicidade)Platão falava que a pólis perfeita, para
preservar a "democracia", deveria ter "fatorial de 7"

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Organizações Anárquicas

cidadãos, o que são, na prática, 5040 cidadãos. É claro que


o conceito de cidadão para Platão era o pai de família, dono
de terras, etc. Para nós, cidadãos são todos que possam ser
minimamente esclarecidos (o que exclui, a princípio,
somente crianças).
No entanto, pensar uma zona autônoma com 5040
habitantes é um pouco extravagante. Em outras palavras: é
gente demais. Christiania, com menos de 1000 habitantes,
já se encontra num processo de descentralização espacial
das decisões, tendo que possuir vários espaços separados,
como se fossem várias zonas autônomas numa só.
A princípio, então, devemos pensar uma zona
autônoma com possibilidades de que caibam todas pessoas
num mesmo espaço, o que significa na prática que mais de
200 habitantes tornaria inviável tal idéia. Com o tempo é
possível que pessoas que tendem a praticar agricultura irão
tomar a frente em decisões a respeito de agricultura, assim
como pessoas que praticam obras, tenderão a tomar a
frente em decisões sobre obras. Sendo assim, podemos
imaginar que a longo prazo esse número de 200 habitantes
possa aumentar consideravelmente sem prejuízos à
horizontalidade, baseando-se num respeito mútuo dos
habitantes onde cada um deixará a cargo do outro aquilo
que o outro saiba melhor fazer.
No entanto, tal respeito poderia gerar uma espécie
de tecnocracia incutida, tornando algumas decisões alheias
ao processo político da comunidade. É claro que certas
decisões como "que tipo de adubo utilizar" são muito mais
econômicas e técnicas do que políticas e muitas vezes não
precisam passar pelo crivo comunitário para se resolver,
mas o importante é que mesmo tais decisões POSSAM
passar pelo coletivo. Para tal, ferramentas virtuais são
indispensáveis. Afinal, ninguém terá coragem de colocar em
pauta numa reunião que conta com 200 pessoas e que já
dura 4 horas que tipo de adubo utilizar. Mas talvez isso seja
sim uma decisão política. Então, a saída é que pequenas
decisões possam ser discutidas, sempre abertamente, a
partir de meios virtuais (como um wiki? uma plataforma de
gerenciamento de projetos?), tornando qualquer processo

124
Organizações Anárquicas

econômico, técnico, político ou social da comunidade aberto


eternamente para contestação e criação de novos
consensos.
Assim sendo, podemos afirmar que o sonho de platão
tornaria-se plausível. As reuniões pessoais poderiam ser
temáticas, onde quem não quer saber de como se planta
algodão simplesmente não precise ir, e utilizando o suporte
virtual, onde discussões mais bem tecidas poderiam se
compor.
Assim, criando vários espaços reais para discussão e
utilizando a internet como suporte, podemos afirmar que o
limite de tamanho para uma zona autônoma é de 5040
habitantes, como Platão descreveu. Mais que isso gerará o
problema básico de as pessoas começarem a não se
conhecer e uma consequente perda de laços comunitários.
Então, podemos afirmar que uma zona autônoma MADURA e
que já está atuante há anos pode possuir até 5040
habitantes. Após isso, poderia-se admitir o crescimento
vegetativo, mas não mais a imigração para dentro dessa
Zona. Neste ponto, cria-se a necessidade de que a zona
"patrocine" outras zonas, para que as idéias continuem, mas
sem perda ao coletivo local.
Mas, para além da população, é bom analisar a
questão do tamanho de terras. Obviamente uma
propriedade com 10 hectares não pode possuir mais do que
100 habitantes, pois é certo que os habitantes quererão
alguma agricultura e certamente alguma mata preservada.
Além disso, há uma necessidade de termos terras para
questões como o destino do lixo. O problema inicia quando
pensamos na idéia de Platão: para termos 5040 habitantes,
seria necessário algo em torno de 500 hectares, caso
contrário formariamos uma cidade e não uma zona
autônoma (hey! lembre-se que devemos evitar o
isomorfismo, sob pena de acabarmos imitando a sociedade
do lado de fora no resto também).
Para que se tenha uma noção mais clara do tamanho
das terras, imagine que um hectare é do tamanho de uma
quadra padrão da maioria das cidades (100m x 100m). Você
pode argumentar que em muitas quadras das grandes

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Organizações Anárquicas

cidades vivem muito mais de 100 habitantes, e é verdade.


Para citar exemplos breves, existem quadras em Porto
Alegre onde habitam cerca de 2500 pessoas. Mas são
pombais, e você não quer formar uma nova comunidade
para viver como num bairro suburbano de Porto Alegre,
quer? Bom, então tentemos imaginar uma quadra de 100m
por 100m somente com casas. Em um terreno médio de
33x20m, podemos dizer que temos 15 casas. Pois bem, 15
casas num quarteirão (hectare) urbano são cerca de 60
pessoas vivendo. Assim, podemos dizer que num hectare
urbano vivem 60 pessoas horizontalmente.
Aumentemos o tamanho da área, pois se pensamos
numa comunidade nova, não podemos pensar nos modelos
de especulação imobiliária que demarcam esse tamanho de
terras privadas em cidades. Assim, podemos afirmar que
teríamos, no caso de uma comunidade sem matas, rios ou
plantações, cerca de 30 pessoas por hectare e
precisaríamos de 3,3 hectares para alojarmos dessa forma
100 pessoas. Bom, a partir daí podemos ter uma idéia de
quanto de terra precisamos para formar essa comunidade.
Se para cada hectare urbano queiramos 2 rurais (ou de
matas, ou para o tratamento do lixo ou para rios e lagos),
então necessitaremos de 10 hectares para essas 100
pessoas viverem bem.
Esse números obviamente não contam a agricultura
como meio básico de sobrevivência. Normalmente as
famílias sem-terra no Brasil precisam de pelo menos 15
hectares de cultivos para se sustentarem, o que supondo
que sejam 6 os componentes de uma dessas famílias, nos
faria crer que precisamos de PELO MENOS 2 hectares por
habitante se quisermos viver com uma economia a base de
agricultura. Para 100 pessoas, necessitaríamos de 250
hectares. Inviável. Então, tenha isso em mente: a
agricultura não pode ser a base econômica da zona, sob
pena de restrição de crescimento.

Crescimento versus Especulação


Uma vez operante e forte, uma comunidade
intencional terá um problema à vista: na medida em que

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Organizações Anárquicas

mais pessoas aderem à zona autônoma e que outros


nascem, é inevitável que o tamanho (em terras) tenha de
ser expandido. O problema então consiste no seguinte
aspecto: uma vez que a zona esteja operante, se tornará
certamente o pequeno mercado local e atrairá os
agricultores de regiões próximas para comercializar por ali
alguma coisa. Isso os tornará mais lucrativos e uma vez
mais lucrativos os seus interesses nas suas próprias terras
aumentarão, diminuindo a possibilidade de quererem
vendê-la. Mesmo que queiram, o preço certamente será
bem maior do que quando se iniciou a zona autônoma, as
vezes tornando o crescimento geográfico impraticável.
Assim, existem algumas possibilidades: a primeira (e
que independe da vontade dos que estão na zona a.) é que
os agricultores da região queiram integrar a comunidade.
Isso é a solução perfeita, mas pode ser pouco provável.
A segunda possibilidade é que a zona autônoma
imagine seu crescimento de forma adiantada, comprando
terras circundantes antes de necessitá-las. Mas isso requer
muitos recursos justamente no primeiro momento da
comunidade, que é o momento mais frágil.
A terceira possibilidade, que é a menos provável
certamente, é que os viventes da comunidade resolvam
ocupar terras não ocupadas adjacentes, mas isso seria uma
declaração de guerra ao estado incontornável.
A quarta possibilidade, a mais catastrófica, é que nas
adjacências comece a nascer uma pequena vila (não
autônoma) e que com o tempo esta acabe por:
a) competir com a zona autônoma pela centralização do
comercio e,
b) inflacione monstruosamente o preço das terras.
Ainda, como quinta possibilidade, é que a
comunidade simplesmente não queira crescer e, ao invés
disso, resolva investir recursos em novas zonas autônomas
em outros locais, pela ampliação da rede e não da própria
zona.
Obviamente as alternativas possíveis acima podem

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Organizações Anárquicas

ocorrer ao mesmo tempo e é claro que a decisão do que


fazer passará pelo coletivo da zona, dadas as possibilidades
e alternativas.
-- Por favor, as idéias acima são aleatórias e totalmente em
construção. Altere, destrua e contribua. --

Consenso como Meio


Nosso consenso não é exatamente uma posição
política, mas, esperamos, trará um nível comum de
entendimento e comunicação para o projeto. As pessoas
envolvidas até o momento consideram fundamentalmente
necessário a emancipação com relação a posturas
nacionalistas, racistas, sexistas (incluindo homofobia, etc...)
anti-semitas, anti-americanistas, capitalistas (significando a
exploração da força de trabalho alheia), religiosas
evangelizadoras (incluindo esoterismo). Considerados estes
pontos buscaremos resolver todos os assuntos referentes ao
espaço através do consenso, a serem discutidos na grande
roda (assembléia geral) onde o princípio do diálogo (falar e
principalmente o ouvir) será cultivado. É importante
perceber que pra que haja consenso, as pessoas precisam
desde já aprenderem a saber que seus interesses são
válidos, mas que os interesses da comunidade podem estar
acima. Na nossa sociedade atual a cultura do voto
majoritário (ditadura da maioria) foi instituida pois a a lógica
reinante é a avareza. A lógica é "agarre tudo que puder e
pegue pra si". Assim, ninguém jamais aceita que em alguns
momentos pode perder migalhas para que outros ganhem
muito. O consenso já parte do pressuposto que os
integrantes não se determinem pela lógica avarenta e que,
portanto, saibam o momento de colocar seus interesses e
necessidades no segundo plano, frente a interesses e
necessidades mais urgentes de outras pessoas.

Diga "Tchau, Pensamento Monolítico"


Não planejamos formar ou defender posições
políticas uniformes. Possuímos um certo entendimento
sobre o que um grupo político é, e porque (e como) nós não

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Organizações Anárquicas

pretendemos ser. A idéia central e que o objetivo desta


forma de organização e mutualidade deve ser o mínimo
denominador comum, mas interessa a todos (cada um a sua
maneira) que coletivamente estão dispostos a defendê-la.
Toda diversidade de pensamento é bem vinda desde que
não constitua nenhuma forma de exploração, postura de
segregação, estrutura hierárquica ou que entenda o coletivo
como um grupo de pessoas que estão prontas pra se tornar
alheias ao mundo. Tu pode defender a auto-sustentabilidade
da comunidade, ou defender que devamos ter uma "balança
comercial" adequada para que possamos comprar nossos
subsídios de fora. Tu pode querer focar a comunidade na
agricultura, ou pode tentar criar serviços, ou mesmo alguma
indústria. Tu pode defender o escambo ou o uso de moeda
social, ou ainda de moeda de um país. Tu pode defender o
uso indiscriminado de drogas ou defender uma postura de
cautela perante elas. O importante é que tu saiba que para
tua idéia ter validade ela precisa ser consensual e que por
mais esperto, inteligente ou carismático que tu seja, tu não
vai ter poder algum sobre os outros, exceto o de vencer
uma discussão.

Interesse Coletivo
O princípio é simples: se um quer bolo, e o outro
biscoitos, o objetivo é conseguir bolo E biscoitos. Isso
significa: você pode (e deve) integrar todos os seus
interesses neste projeto desde que eles não sejam
conflitantes com o que está sendo discutido nos outros
tópicos.

Comunicalidade
Comunicalidade significa para nós a busca pela
compreensão do outro e do que o outro nos traz, antes de
censurá-lo ou mesmo criticá-lo. Todas as necessidades e
todas as habilidades passam pela capacidade de poder
expressá-las e entendê-las como tal. O que é necessário
para o grupo é manter sempre vínculos de comunicação, na
resolução de desentendimentos, bem como, de
planejamento e organização com a finalidade de realizar

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Organizações Anárquicas

todos objetivos possíveis. Sinceridade é princípio básico. Se


você quer biscoitos, não tente falar mal do bolo para que as
pessoas tendam a gostar de biscoitos. Você é livre para
fazer o que quiser e a comunidade tem como princípio
defender o que tu goste. "política" aqui tem um novo
significado: o de buscar juntos solucionar problemas de
todos, sejam os que forem.

A Arte de resolver conflitos


“Se as comunidades, em vez de aspirar, como
têm feito até hoje, a ocupar vastos territórios e a
satisfazer sua vaidade com idéias de império,
contentassem-se com um distrito pequeno, com
uma cláusula de confederação em caso de
necessidade, todo indivíduo viveria sob o olhar
público; e a desaprovação de seus vizinhos, uma
espécie de coerção não derivada dos caprichos
do homem, mas do sistema do universo,
inevitavelmente o obrigaria a reformar-se ou a
emigrar”.
William Godwin

Nunca um fim em si mesmo


Para os participantes a Z.A. não é um fim em si
mesmo, mas sim um instrumento na busca de uma
transformação socio-cultural em nível local e global. O
Objetivo final não é estabelecer e manter a todo custo uma
zona autônoma alheia ao mundo, mas sim, experimentar,
viver na prática (no cotidiano), e também provar a
viabilidade dos modos de vivência libertária. Poucas coisas
podem ser mais subversivas do que servir de exemplo de
que é não só possível como também muito viável viver fora
desse sistema de exploração e dopping permanente. A
finalidade de uma Z.A. não é construir um mundo
maravilhoso a todo custo dentro dela e esquecer tudo do
lado de fora. Na verdade, pode ser mais interessante que
uma Z.A. dure somente um mês, desde que seja uma
vivência que ressoe naqueles que viveram aquilo. Não

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Organizações Anárquicas

devemos pensar em termos de "fim da história" como os


comunistas e os liberais costumam pensar, mas sim num
processo de transformação. Aquilo que hoje colocamos aqui
como a ZA que queremos pode fazer absolutamente
nenhum sentido daqui a alguns anos, pois o processo de
transformação constitui exatamente a finalidade, tanto
interna quanto externa. Se hoje acreditamos poder ter um
coletivo forte, amanhã podemos entender que o
individualismo deve ser mais presente, ou mesmo que o
ambientalismo deve ser posto acima, tanto faz. O
importante é que se entenda que o primeiro erro de
qualquer sociedade é a crença que se pode estabelecer um
status quo. Se queremos uma nova sociedade e temos em
mente utilizar a ZA como passo pra isso, devemos ter em
mente que essa nova sociedade deve se manter alheia a
mentalidades como "mas sempre foi assim".

Ambiente e Socialidade
Uma ZA deve manter um ambiente feito para
sociabilidade. Isso significa que parques e locais cobertos
públicos devem ser priorizados. Afinal, o consenso e as
discussões não nascem tão-somente de espaços ditos para
isso, mas sim do convívio diário, do respeito mútuo, da
alteridade. Tomar um chimarrão, dividir um cigarro, tomar
uma cerveja ou um vinho são essenciais para uma estrutura
coletiva. Caso contrário o raciocínio meramente funcional irá
tomar conta da comunidade e, se está se fazendo uma ZA, é
justamente para não viver sob o jugo do império da razão
funcional. Além disso, devemos primar por um meio-
ambiente em que as pessoas se sintam bem. Pouco importa
que pra isso acontecer tenhamos que restringir o número de
habitantes ou nos esforçar economicamente pra conseguir
mais terras. O importante não é que a ZA se torne uma
cidade, mas sim que se torne um ambiente em que as
pessoas se sintam suficientemente bem para querer manter
aquele local como sua morada.

Ocultismo e Visibilidade
Pensando na historicidade do projeto precisamos

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Organizações Anárquicas

solucionar o problema do tempo de transição. O Estado e


sua sociedade, aqueles que cotidianamente assinam o pacto
dominação e trabalham para sua manutenção,
provavelmente não verão com bons olhos um espaço
libertário surgindo do outro lado da cerca. Alguns diriam
"Ocultismo é a solução, não devemos deixar que saibam o
que estamos fazendo, disfarcemos a coisa toda de
acampamento de férias da Igreja IsNowBall (ou da Igreja
Livrai-vos dos Senhores), assim não chamaremos atenção".
Ok, essa pode realmente ser uma boa estratégia no
contexto de estarmos num grupo pequeno, e sem muita
infra. Mas... E no momento em que a coisa toda crescer?
Será que essa máscara duraria tempo o suficiente? E... O
que exatamente estaremos sacrificando nesse processo?
Será que conseguiríamos expandir essa idéia de
transformação social através do êxodo nessa situação de
disfarce? E as pessoas que deixaríamos de conhecer? E as
trocas que deixaríamos de fazer? E as imagens motoras que
deixaríamos de gerar no sentido de fortalecer a luta pela
libertação de outros espaços?
Por outro lado, teríamos a opção pela notoriedade:
criar algo que impressionasse, um espetáculo anti-
espetáculo, um tipo de Stonehenge, o obelisco de Hakim
Bey, a cidade libertária de vidro de Germinal de la Sierra,
um lugar que se tornasse uma referência para outros em
outros lugares, como outros lugares e experiências se
tornaram referências para nós. Certamente teríamos muito
mais solidariedade também, sem falar da circulação de
pessoas que também aumentaria. Com número grande o
suficiente de pessoas provavelmente isso não seria tão
cansativo, em um grupo pequeno, talvez fosse inviável. A
notoriedade no entanto, certamente traz seus próprios
problemas: talvez a mídia tente nos denegrir, destruir nossa
imagem, talvez a vizinhança se torne mais e mais hostil. o
estado certamente não ficará indiferente à idéia de um
"povoado" que não deseja ser governado.
Talvez as estratégias de ocultismo e notoriedade
tenham que ser pensadas conforme a ocasião, mas uma
coisa é certa: uma vez mapeado pelo poder, dificilmente
será possível dar um passo atrás. Por esse motivo a técnica

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Organizações Anárquicas

ocultista talvez seja a melhor opção para o momento inicial.


Talvez metas tenham que ser estabelecidas no trânsito
entre o ocultismo e a visibilidade, como por exemplo -
Quando formos em 200 ou 300 pessoas vivendo
confortavelmente, ou ainda quando tivermos terminado a
infra suficiente para fazer frente a possíveis ataques.
Certamente caberá à assembléia discutir e decidir o
momento certo de se fazer "aparecer" para o resto do
mundo.
É importante também que, no momento que se
apareça, o seja de uma forma forte. Pode-se criar um
factóide que, a imprensa ainda desavisada, irá publicar
achando que se trata de um assentamento de colonos ou de
algum vilarejo que seus infelizes repórteres ainda não
conheciam. Claro que tal factóide precisa ressoar bem: uma
bela estátua ou um projeto de construção de uma obra
esquecida de Niemeyer (que por motivos bizarros a
imprensa tanto admira). Talvez o boato de que a
comunidade construirá uma torre eiffel três vezes maior do
que a original chame a atenção de todo mundo e em
especial dos brasileiros, que tem como ponto de referência
todo tipo de lixo vindo da europa. Depois de criado o
factóide, se pode desmentir ele, dizendo que se trata de
alguma obra libertária (talvez estátuas lado a lado com o
rosto de todos os grande filhos da puta vivos). A partir daí, a
luta virá.

Economia solidária
Possivelmente, uma vez notório, se necessite manter
a comunidade numa espécie de legalização, ao ponto de
que não se possa utilizar argumentos na imprensa contra
nós. Por exemplo: plantar maconha poderia ser o argumento
triunfal da imprensa ou do poder pra desmantelar uma
comunidade de "traficantes".
Estamos desenvolvendo um sistema de escambo
baseado na web que poderá ser utilizado em breve de forma
a criar um meio de troca de bens e serviços na ZA sem
depender da moeda corrente "oficial". Ele está sendo
desenvolvido com tecnologia Open Source e poderá ser

133
Organizações Anárquicas

continuamente aprimorado conforme as necessidades da


coletividade.

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