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Capítulo 1:

«Pensamentos Estranhos»

Sangue... sangue a escorrer... Olhos pretos como um abismo, a emanar uma luz vermelho-escura...
Um clarão brilhante... algo a reflectir a luz desmaiada... Sangue... a pingar...

“AH!!”
Ele acordou, alarmado pelo som da sua própria voz. A sua pele estava coberta de suor. A sua mente
estava inquieta, o seu coração a bater de forma rápida e pujante, a bombear sangue com progressiva
intensidade. Mas que raio foi isto?! Era uma questão para a qual ele não teria resposta por muito tempo.
Deveria ele voltar a dormir? A manhã ainda estava distante. O novo ano escolar começava já no dia
seguinte, muito provavelmente estava só nervoso quanto a isso.
***
Ryo Lowry Anderson estava a viver com os seus pais adoptivos desde os cinco anos de idade. Não
tinha qualquer memória dos seus pais biológicos, ambos brutalmente assassinados num crime que nunca
foi resolvido.
Na verdade, ele não tinha qualquer memória daquilo que tinha sido a sua infância até à mudança
para a cidade de Lemuris. “Provavelmente devido ao choque de ter perdido os dois pais daquela forma,”
diziam os médicos. Ele não se lembrava como, contudo. Nada de nada. Para ele era como se a vida
tivesse começado naquela pequena casa na esquina da Rua J. Northman, quase há treze anos.
Ele nunca tinha perdido muito tempo a pensar no assunto, até recentemente. Nem mesmo quando os
seus pais tiveram aquela reunião familiar – a tal em que lhe explicaram que eram a sua mãe e o seu pai,
mas que nem sempre tinha sido assim – ele pareceu preocupar-se, ainda que minimamente, com isso.
Ultimamente, por alguma razão desconhecida, a mente de Ryo tinha sido ocupada por pensamentos que
ele, até então, não costumava ter. Pensamentos sobre a sua vida, sobre aquilo que era suposto ele fazer,
a razão da sua existência. Pensamentos sobre os seus pais biológicos, quem poderiam ter sido, como e
por que razão teriam morrido.
O seu psicólogo dizia-lhe que isso eram dúvidas normais, “Tu tens dezassete anos, Ryo. É uma idade
normal para começar a ter ideias mais profundas e adultas. Eventualmente vais habituar-se às mudanças
que estás a atravessar.”
Mas como raio é que ele sabe? Pensou Ryo, Diabos, ele provavelmente sabe imenso sobre os sonhos
das pessoas e os seus pensamentos, mas ele não sabe nada sobre as pessoas em si. Ele não sabe nada
sobre mim. É suposto eu saber o que é normal para mim...
As expressões faciais de Ryo mostravam-no precisamente por aquilo que ele era: um simples jovem
rapaz. Cabelo curto, liso, castanho-escuro, geralmente descuidado, revelava uma certa negligência
quanto à sua aparência, enquanto os seus olhos, doces e discretos, também eles castanho escuros,
transpareciam a sua cativante simplicidade. Traços gentis delineavam o seu rosto mesmo que na maioria
das vezes (sobretudo para todos aqueles que não o conhecessem bem) o seu ar frio e apático pudesse
passar a imagem de alguém ausente ou antipático. A sua estatura era decididamente mediana, com o
peso certo para o seu 1,80 m. Geralmente vestido com calças um tanto largas, t-shirts básicas e ténis,
Ryo habitualmente guardava para si os seus pensamentos.
Lemuris, uma cidade relativamente pequena e rústica localizada na América do Norte, havia sido a
casa do jovem desde que este se conseguia recordar. Linda Lowry Anderson e Hank Woodrow
Anderson haviam-se mudado de Manhattan apenas uns dias depois de terem adoptado Ryo e assentaram
naquela cidade, com a esperança de proporcionar ao seu filho uma vida segura e despreocupada. A
cidade fora, até ao presente dia, o mundo inteiro de Ryo, e o Sr. e a Sra. Anderson eram, para todos os
efeitos, o seu pai e a sua mãe. Não só o haviam criado e dado tudo aquilo que ele conhecia da vida,
como ele não recordava sequer qualquer outra realidade que não aquela.
Havia um equívoco comum à maioria das pessoas: “Oh, pobre criança, perdeu ambos os pais,” ou
“Deve ser tão duro,” o que quase sempre significou perto de nada para o jovem. Bem, e, na verdade,
assim continuava a ser. Não havia razão para ele ter pena de si mesmo, pelo menos não na sua mente.
O que, por outro lado, sempre se mostrou uma tarefa difícil foi criar ligações com outras pessoas,
relacionar-se com elas, sentir necessidade de socializar ou de empatizar com alguém.
O ano escolar passado havia sido difícil; Ryo sentia que a sua turma estava repleta de miúdos
estúpidos e raparigas com a cabeça vazia, não havia ninguém com quem se identificasse, ainda que
minimamente. Michael, o seu melhor e único verdadeiro amigo, havia-se mudado para a cidade vizinha
de Amberlin. Tinham sido da mesma turma desde que Ryo chegara a Lemuris. Agora, dois anos depois
da mudança, a escola, de alguma forma, conseguira tornar-se progressivamente mais aborrecida e sem
sentido com o passar de cada estação. Um novo ano estava prestes a começar e Ryo não estava de todo
entusiasmado, muito pelo contrário. Mais um ano a aguentar putos chatos e desinteressantes...
Espectacular...
***
“Oh, vá lá, meu, não pode ser assim tão mau!” Os olhos azuis-claros de Michael haviam olhado
incrédulos para a figura relaxada de Ryo, do outro lado da mesa de café. Era Junho, tinham acabado de
entrar em férias escolares, portanto podiam encontrar-se com maior frequência num dos cafés habituais.
“Estou a dizer-te, Mike, aqueles gajos são uns idiotas! Merda, este ano ainda foi pior que o ano
passado!” respondeu Ryo, com um ar meio desesperado.
“Bem, pensa assim: mais um ano e vamos para a faculdade. As coisas devem ficar bem melhores a
partir daí, né? E, além disso, no próximo ano deve haver gente nova a entrar na tua turma, pode ser que
não sejam todos uns merdas.” Havia um certo tom sarcástico nos olhos de Michael que antecedeu um
largo sorriso dirigido ao seu amigo de infância.
Duas adolescentes passaram junto da mesa de café, a cochichar e trocar risadas enquanto olhavam
para a figura musculada do Michael. O olhar deste afastou-se de Ryo para acompanhar as silhuetas
esbeltas, de mini-saia, que se dirigiam para a saída. Ouviu-se um tilintar tímido quando a porta do café
se abriu e ambas as raparigas olharam de novo para a mesa, mesmo a tempo de corarem com uma
piscadela provocante de Michael. Ryo permaneceu indiferente, a aguardar pelo retorno da atenção do
seu melhor amigo para poder recomeçar a conversa.
“Oh, não importa... Não sei, simplesmente não tenho vontade de ir à escola.”
“Ya, mas tipo, ninguém tem vontade de ir à escola, meu!” respondeu Michael, prontamente.
“Não era isso que eu queria dizer, burro.” O tom de Ryo tinha tanto de irritação como de brincadeira,
“Eu não tenho vontade de ir à escola ou de fazer seja o que for, na verdade… tenho-me sentido
estranho,” disse enquanto se enterrava na cadeira.
“Mas, afinal, o que é que se passa contigo? Tens andado estranho estas últimas vezes que te vi,”
Michael questionou com um ar curioso.
“Sei lá. A minha mãe tem-me chateado bué. Insiste que eu ando ‘muito calado’ e diz que tenho de
falar com ela. A questão é que não sei sequer o que hei-de dizer-lhe.”
“Bem, ela é a tua mãe, sabes? As mães fazem cenas dessas.”
Depois de uma curta pausa, Ryo respondeu num tom de profundo aborrecimento: “Ela também me
obrigou a ir a um psicólogo”.
“A sério? Ui... Isso vai ser divertido.” O olhar desconfortável de Michael transparecia exactamente
o quanto odiaria estar no papel do seu melhor amigo.
“Sim, super divertido. Bah!”
Michel bebeu um gole do seu copo de Coca-Cola; os cubos de gelo chocalharam entre si ao ritmo a
que agitava o copo na sua mão.
Ryo não desviou o olhar do café que segurava até levantar a cabeça para dizer: “Meu, alguma vez
deste contigo a pensar... bem, sabes... no que é suposto estarmos a fazer aqui? Sobre a vida e essas
cenas.” Perante o olhar fixo, porém, vazio, do seu amigo, Ryo sentiu a necessidade de elaborar a
questão: “Sei lá, ultimamente tenho pensado bué sobre este tipo de coisas. Não sei bem porquê, mas
pronto.”
Michael desviou a pergunta com um aceno de mão, “Oh, vá lá, relaxa, meu! Não tens nada melhor
com que gastar o tempo em vez de pensares em coisas inúteis?” Ao constatar a falta de resposta de Ryo,
insistiu, “Vive a vida, diverte-te! Não há miúdas na tua turma? Ah, espera, são todas umas idiotas, é
isso?”
Ryo soltou um riso tímido em resposta ao esgar irreflectido do seu amigo. A sua mente pareceu
escapar às inquietações e, por um momento, seguiu o caminho da despreocupação, aquele que sempre
tinha visto o seu melhor amigo escolher como rota principal, “Oh, deixa lá. Bem, o que eu sei é que
dentro de dias vou ter de passar não sei quanto tempo a olhar para a cara daquele psicólogo. Já sei que
vai ser um daqueles momentos super estranhos, mas que se vai prolongar por toda a consulta.”
“Devias contar-lhe sobre esses pensamentos depressivos que tens tido, meu, talvez ele consiga que
façam sentido.”
***
Agora, o sol da manhã já tinha nascido bem alto. Com o início de cada ano lectivo regressava a tão
odiada rotina: acordar, tomar um duche, comer o pequeno-almoço (ou não), ir para a escola. Seria
obrigado a passar mais uma vez pelas mesmas ruas, pelas mesmas casas no percurso habitual para as
aulas. Teria de ver as mesmas caras a sair das suas casas, a entrar nos mesmos seus carros de sempre.
Assim que chegou à escola, Ryo entrou na sala para a sua primeira aula, eeeeeee tudo parece
precisamente igual... Quem diria. A mesma professora, os mesmos colegas, uma ou outra cara nova.
Nada de interessante.
Os alunos ainda estavam a entrar na sala: um ou dois idiotas da equipa de futebol, duas ou três
raparigas desmioladas com eles (que, coincidentemente, pertenciam à claque de apoio) e uma figura
surpreendentemente interessante atrás deles. Esta, uma rapariga nova, prendeu a atenção de Ryo.
Observou-a entrar na sala de aula e sentar-se numa mesa vazia, onde ficou sozinha. Apesar de
qualquer coisa naquela rapariga o ter cativado, tentou, por força do hábito, afastar-se.
Meh... provavelmente outra rapariga vazia com mais nada com que ocupar a cabeça senão sapatos,
os cabelos e as unhas, e como vai fazer para organizar a festa mais espectacular e ser a rapariga mais
popular da escola... Ela vai enquadrar-se bem com o resto da turma, se esse for o caso.
O resto do dia passou: os mesmos velhos costumes, tal como no ano anterior. Tudo indicava que iria
ser mais uma temporada aborrecida.
Capítulo 2:
«Pesadelos»

Uma porta fechada... Uma sombra debaixo da porta... Movimento súbito... A voz de uma mulher...
Uma pancada surda... Sons estranhos... sons estranhos e assustadores... Silêncio... A sombra voltou...
Move-se lentamente... tão silenciosa... Um impacto brusco escancara a porta!

“MERDA!” Ryo acordou, agitado pelo barulho estrondoso no seu sonho. Olhou à sua volta. Estava
no seu quarto, aquele em que vivera os últimos doze anos: as paredes brancas e vazias, a mobília que
ele sempre conhecera, os livros empilhados no canto junto da sua secretária – tudo estava lá.
Mas que raio...
Uma semana tinha passado desde que Ryo tivera aquele estranho pesadelo. Este ultimo parecia
assustadoramente similar. O que se poderia estar a passar no seu subconsciente?
A última semana chegou e foi-se com o jovem a ter dificuldades em ocupar o seu tempo livre.
Entretinha-se com jogos de vídeo, sobretudo Role Playing Games e Beat-em-ups, livros de fantasia,
ficção científica e terror, bem como em longas sessões de séries e filmes. Porém, ultimamente, estas
actividades pareciam estranhamente desinteressantes e nem quase tão satisfatórias ou divertidas como
antes se mostravam.
Felizmente, os seus treinos de Karate haviam recomeçado umas semanas antes, e comparecera a
todos, semanalmente, sem excepção. Dentro do Dōjō – tal como sempre havia sentido desde que
começara a levar os treinos mais a sério, por volta dos catorze anos – ele conseguia focar a sua mente e
desligar-se do mundo exterior ou de qualquer preocupação que pudesse ter. Era refrescante e
revigorante. Ali, sentia-se sempre em paz.
Na escola, as aulas eram entediantes. As matérias estavam só então a começar no ponto onde
terminaram o ano anterior. A nova rapariga continuava a parecer estranhamente interessante, mas, por
alguma razão, ainda andava maioritariamente sozinha desde o primeiro dia de aulas. Ela não parecia
fazer amigos ou socializar, para além da conversa ocasional, e habitualmente só deambulava de aula
para aula. Talvez, afinal, não se enquadrasse com o resto? Talvez fosse mesmo diferente?
A mãe de Ryo insistira, mais uma vez, em perguntar o que se passava com ele. O seu pai ainda não
tinha tido oportunidade de conversar com ele – provavelmente não tinha tempo. O homem passava a
maior parte da sua vida no trabalho, só chegava a casa quando a lua já espreitava, e mesmo nos fins-de-
semana trazia trabalho para casa. Não era que a dita conversa fosse algo por que Ryo ansiasse, portanto
também não se incomodava muito. Na semana seguinte teria outra consulta com o seu terapeuta, o que
compensava (até demais) a falta de diálogo entre pai e filho. Já se havia habituado a conversar com o
velho Dr. Anders – não era tão mau como tinha imaginado.
A noite havia fugido sem que Ryo contasse com muitas horas de sono e a manhã chegara exibindo
o seu rosto irritantemente brilhante demasiado cedo para o entender do jovem. Toda a rotina matinal
fora, para uma mente semiprivada do que a descanso diz respeito, um processo árduo. Agora, já a meio
da tarde, a uma aula do fim do dia, Ryo caminhava pelos corredores da escola, com a mente
completamente vazia.
Mas que raio podem querer dizer aqueles pesadelos? Por que haveria eu de sonhar com aquela
merda de novo? Parece tudo tão real...
Uma jovem voz feminina gritou em alarme, destacando-se do ruído habitual do corredor. Vários
livros caíram estrondosamente no chão. A inesperada interrupção trouxe o devaneio de Ryo a um fim
súbito. Ao ver contra quem tinha esbarrado, o jovem foi apanhado de surpresa. Dois lindos,
profundamente cativantes olhos azuis-claros atraíram o seu olhar durante um longo, extenso momento.
Eventualmente, a sua mente e o clamor do corredor fizeram-no regressar à realidade.
“Oh! Err... Desculpa!”
“Oh, não, eu é que peço desculpa,” respondeu a rapariga com um sorriso embaraçado, antes de se
acocorar para apanhar os seus livros, “Eu não estava a ver para onde estava a ir.”
“A culpa foi minha. Eu ajudo-te.” Ryo juntou-se à rapariga no chão, recolhendo os livros e
apanhando-os tão rápido quanto possível, enquanto, discretamente, a admirava.
“Obrigada. És o Ryo, certo? Nós estamos na mesma turma.”
“Sim, estamos.” Ryo fixou a jovem à medida que ambos se levantavam, surpreso com o facto de
esta saber o seu nome, e com vergonha de admitir que sabia o dela, “E tu és a... Karin?” murmurou ele,
focado em parecer que não tinha certezas.
“Sim, sou. Prazer em conhecer-te.” Um sorriso alegre e agradável acompanhou a voz descontraída
da rapariga.
“Prazer em conhecer-te.” O rosto de Ryo viu o esboço de um sorriso nascer, sem que este tivesse
consciência disto. Uns segundos de silêncio passaram até que se apercebeu que ainda estava agarrado
aos livros dela. “Oh, aqui estão os teus livros. Desculpa ter esbarrado contra ti.”
“Não faz mal. Vemo-nos na próxima aula?”
“Sim. Vemo-nos daqui a nada, então.”
Quando a rapariga passou por ele, Ryo não conseguiu evitar segui-la com o olhar. As suas delicadas
feições, sem maquilhagem pesada ou ar artificial, desvendavam uma doçura natural e uma gentileza
que faziam sobressair os seus olhos profundos e vívidos. O suave tom avermelhado dos seus lábios
macios revelava um sorriso delicado e adorável. Cabelos lisos e longos, castanhos-claros, escorriam
graciosamente pelos seus ombros delgados, sobre uma simples blusa cinzenta, que era tão discreta como
sedutora. Ryo permaneceu hipnotizado no mesmo sítio, a olhar a rapariga afastar-se dele no corredor.
Era como se a sua mente tivesse parado de funcionar. A campainha tocou, marcando o fim do intervalo
e sacudindo Ryo do seu estado de entorpecimento.
Finalmente, o dia de aulas chegou ao fim. Ao sair da escola, Ryo vagueava por pensamentos que
parecia não conseguir evitar, relativos aos seus pesadelos e ao possível significado destes, quando ouviu
a voz de Karin a chamar por si.
“Ryo! Importas-te que eu vá a pé contigo? Acho que vamos para os mesmos lados.”
“Err, claro!” Surpreendido, e ligeiramente envergonhado com o súbito esvaziamento da sua mente,
Ryo começou a caminhar devagar, acompanhado por Karin e uma miríade de outros estudantes que
haviam terminado as suas aulas ao mesmo tempo.
O silêncio dominou por uns segundos até que Karin decidiu quebra-lo. “Então, há quanto tempo
estás nesta cidade? Nasceste cá?”
“Bem, na verdade, não, mas moro aqui desde que tenho cinco anos.” Sem vontade de deixar o
silêncio dominar de novo, o jovem devolveu a questão, “Então e tu? Acabaste de te mudar para cá?”
“Sim. Mudei-me há duas semanas. É uma chatice porque eu ainda não conheço ninguém aqui...”
deixou pairar no ar, “mas pronto, o que tem de ser, tem muita força, não é?”
Ryo encolheu os ombros. “Verdade. Por que decidiram os teus pais mudar-se para cá?”
“A minha mãe transferiu-se para Lemuris por causa do trabalho. O meu pai morreu há dois anos,
portanto... somos só nós duas, agora.”
Ao ouvir aquilo, o rapaz sentiu-se estranhamente nervoso a pensar na forma certa de responder. Não
querendo magoar os sentimentos de Karin, ou talvez preocupado com a possibilidade de ser mal
entendido, sentiu que devia pedir desculpa por ter abordado o assunto, “Oh... Desculpa...”
“Nah, não te preocupes. Já não me incomoda. A vida continua.”
“Sim, realmente continua...”
Ryo tinha o olhar fixado no chão, postura que adoptava habitualmente quando confrontado com uma
situação desconfortável. Contudo, ao aperceber-se do quão descontraída estava Karin e da leveza com
que tinha lidado com o assunto, ficou tranquilizado.
“Então, o que faz a tua mãe? O que a fez transferir-se para cá?”
“É detective. Trabalha no departamento de investigação de homicídios, na verdade.”
“A sério? E mudou-se para uma cidade pequena como Lemuris? Não vai ter muito trabalho por
aqui!” Ambos trocaram risos a pensar no assunto, tornando o ambiente ainda mais leve.
“Sim, acho que essa era precisamente a intenção dela. Ela não tem tido tempo para nada além do
trabalho. Talvez aqui as coisas sejam mais fáceis.” Karin soou melancólica, “E tu? Moras com os teus
pais?”
Devagar, a cada passo que dava ao lado da rapariga, Ryo começou a apreciar a sua presença doce e
tranquilizadora e, mesmo sem se aperceber, todo o nervosismo que inicialmente sentira tinha-se
dissipado. “Pais adoptivos. Eles adoptaram-me e, logo depois, mudaram-se para cá. Não me consigo
lembrar de nada antes disso.”
“Não te consegues lembrar de nada?” A rapariga pareceu tão surpresa quanto curiosa, “Fazes ideia
do que aconteceu aos teus pais biológicos?”
“Tanto quanto sei, ambos morreram num acidente estranhíssimo e inexplicável,” respondeu Ryo
abertamente. “Ninguém sabe realmente o que aconteceu, mas dizem-me que foi horrível. Supostamente
é essa a razão por que eu não me recordo de nada, memórias bloqueadas ou coisa do género.”
“Sim, já ouvi dizer que isso pode acontecer em casos de experiências traumáticas.” Karin ficou
pensativamente calada por uns segundos. “Caraças... Desculpa.”
A preocupação estampada no rosto da rapariga depois de se aperceber que aquele era um tópico
sensível comoveu Ryo. A gentileza do seu olhar alcançou as profundezas da mente dele, trazendo à
superfície uma vontade incontornável de destruir qualquer barreira mental que pudesse erguer-se entre
eles.
“Não, não te preocupes! Está tudo mais que ultrapassado.”
“Certo. Ainda assim, nunca quiseste saber mais?” A curiosidade de Karin era genuína, “quero dizer,
nunca dás contigo a pensar no que lhes poderá ter acontecido?”
“Bem, eu vivi aqui a minha vida toda, basicamente, e os meus pais verdadeiros são aqueles que têm
cuidado de mim desde que eu me consigo recordar,” Ryo julgou que tal deveria ser evidente, “portanto,
não, acho que nunca me preocupei muito com isso.”
Receosa de estar a intrometer-se em demasia, Karin sentiu-se insegura. “Desculpa, provavelmente
não queres sequer falar deste assunto com alguém que acabaste de conhecer.”
“Não tem problema. A sério, para mim é tranquilo falar disto,” Ryo descartou as preocupações da
rapariga. “Por falar nisso, disseste que ainda não conhecias ninguém aqui... agora já conheces.”
Karin olhou o rapaz de volta, com um sorriso absolutamente encantador impresso nos seus lábios,
“É, parece que agora conheço.”
“Eu também não me dou muito com a maioria do pessoal da escola... Talvez nos pudéssemos
encontrar um dia destes.”
“Gostava muito que isso acontecesse.”
Ao chegarem perto de uma passadeira, Ryo apercebeu-se que Karin estava a mudar de direcção,
então indicou que a sua casa era só uns quarteirões mais abaixo.
“Bem, parece que nos vemos amanhã na escola, então,” Karin sugeriu com um sorriso. “Obrigada
pela companhia, Ryo!”
“O prazer foi meu. Até amanhã.”
Naquele dia, Ryo foi para casa com uma sensação estranha. Algo que não havia sentido há muito
tempo – se é que alguma vez o sentira. Ele estava intrigado pela rapariga, atraído ela sua simplicidade
e serenidade, e maravilhado com o quão tranquilo e relaxado havia ficado pela simples companhia dela.
Ela era definitivamente diferente de todas as pessoas que ele conhecia da escola.
No dia seguinte, Karin dirigira-se a ele logo de manhã, ainda antes das aulas começarem. Com uma
simples piscadela, havia transformado aquilo que seria só mais um dia entediante no começo de
qualquer coisa especial. As aulas tornaram-se, subitamente, mais interessantes do que ler um livro de
Stephen King, mesmo que noventa por cento das matérias não tivessem passado a barreira que isolava
o cérebro de Ryo de tudo o resto – Karin estava sentada mesmo ao seu lado. Os intervalos passaram a
ser o ponto alto do seu dia, e a caminhada até casa igualava, ou até superava, em expectativa, o episódio
final de uma temporada de Guerra dos Tronos. Haviam trocado números de telefone, e Ryo caminhara
até casa já a pensar no momento certo para lhe enviar uma mensagem.
As semanas passaram, Ryo e Karin continuaram a tornar-se mais próximos com cada dia que
chegava ao fim; as conversas, durante e entre as aulas e a caminho de casa, ganharam cada vez mais
significado. Quando não estavam juntos, trocavam mensagens, durante horas a fio, por vezes. Era uma
experiência tão surreal para Ryo, sentir-se assim tão ligado a alguém, que sentira, mais que uma vez,
que poderia estar a exagerar. Porém, não mais do que cinco minutos passavam sem que Karin invadisse
a sua mente; ansiava, permanentemente, estar com ela.
Quanto melhor Ryo a conhecia, mais sentia que ela era especial. Apesar de ter passado por muita
coisa, o seu empenho em ser feliz e ultrapassar todos os percalços parecia inabalável. Ela apreciava a
vida tal e qual como ela era e por tudo o que poderia receber dela. A sua boa disposição e tenacidade
deslumbraram Ryo a tal ponto que a admiração e respeito que tinha por ela acabaram por alcançar a
intensidade da atracção que sentia.
***
Gritos e um estrondo na rua... Uma mulher a gritar qualquer coisa... Silêncio... Uma sombra
debaixo da porta fechada... A porta abre-se subitamente infundindo a escuridão daquele quarto com
luz... A sombra começa a mover-se para dentro do quarto... Sangue a pingar...

“...quatro, três, dois, um, acorda.”


Ryo abriu os olhos, tanto pela vontade de escapar o sentimento temível que acompanhava a visão
do quarto sombrio do seu pesadelo, como pelo facto de a sua mente parecer tê-lo expulso para a
realidade à ordem da voz do seu psicólogo.
“Bem-vindo de volta, Ryo. Como te sentes?”
“Não sei... estranhamente descansado?” Ryo sentou-se, viu a mobília clássica, o tapete escuro
aconchegante e as paredes castanhas adornadas com pequenas pinturas abstractas e sentiu-se relaxar.
Era como se o pequeno gabinete do Dr. Anders se tivesse tornado um abrigo de tudo o que o mundo –
e até o seu próprio subconsciente – pudesse usar contra si.
“Como correu?” perguntou Ryo.
O velhote tranquilizou-o, “Correu bem. Lembras-te do teu sonho?”
“Sim, era parte do pesadelo que tenho tido. Não faço ideia do significado daquele lugar, mas, de
alguma forma, o quarto parece-me familiar,” Ryo estava meditativo, a recriar na sua mente as imagens
que vira, “todo aquele sangue... e a sombra... que raio pode aquilo querer dizer?”
“É qualquer coisa que o teu subconsciente está a tentar dizer-te. Temos de fazer alguns progressos
para saber ao certo de que se trata, mas o meu palpite é que se trata de qualquer coisa relacionada com
as memórias que o teu cérebro bloqueou. Talvez memórias da morte dos teus pais.” Devagar e com
muita calma, o terapeuta levantou-se da sua cadeira imponente, porém com um ar extremamente
confortável, e caminhou até à sua secretária, atrás da qual se sentou.
“Mas por hoje é suficiente,” disse, com um ar satisfeito enquanto abria a sua agenda, “quando podes
vir conversar comigo de novo? Que tal daqui a uma semana, no próximo domingo?”
Ryo ergueu-se e deslocou-se até à secretária para ficar frente-a-frente ao velhote, “Isso seria... 13 de
Outubro, certo?”
Dr. Anders anuiu.
“Bem, esse é o meu aniversário. Talvez na semana a seguir a essa?” sugeriu ele. “Ou há alguma
outra hipótese durante esta semana? Tenho tarde livre nas segundas-feiras.”
O terapeuta seguiu a sua caneta, que passeava ao longo do seu plano semanal, até chegar ao dia 14
do mesmo mês, “Segunda está bem. Pode ser às três?”
Ryo achou que aquela era uma data tão boa como outra qualquer. “Claro.”
Com uma escrita forte e bem marcada, Dr. Anders anotou na sua agenda: 15h: Ryo. Lembrança de
aniversário! Olhou então para o rapaz, com um sorriso satisfeito e paternal no seu rosto.
“Bem, vemo-nos para a semana, então. Boa tarde, Dr. Anders, e muito obrigado.”
“Tem uma boa tarde, Ryo.”
Capítulo 3:
«Uma Sensação Estranha»

Tinham passado dias desde a última consulta com o Dr. Anders e Ryo não tinha tido qualquer
pesadelo desde então. Tinha, por outro lado, passado o dia de aulas inteiro com uma sensação estranha.
Uma sensação que não conseguia determinar ou entender.
Estava na aula de biologia; felizmente, mais dez minutos e a campainha tocaria para anunciar a
liberdade dos alunos. A professora, a Sra. Smith – uma senhora magra, com aspecto idoso, com um
vestido formal preto e castanho – prosseguiu como um robô, a falar na sua voz monótona e aborrecida,
porém rigorosa. Todos, excepto talvez um ou dois dos alunos, olhavam para ela com uma expressão
vazia, com a mente completamente ausente e a cabeça apoiada preguiçosamente na mão aberta, no
braço estendido pelo comprimento da mesa ou até contra a parede.
“Portanto, de acordo com a Teoria da Evolução de Darwin, o processo evolutivo ocorre muito
lentamente através de pequenas alterações que ocorrem em cada geração. Indivíduos são seleccionados
através do processo chamado Selecção Natural; aqueles que se mostrarem mais aptos revelar-se-ão mais
capazes de sobreviver e, assim, de reproduzir-se mais, deixando um maior número de descendentes para
perpetuar o seu legado de atributos. Atentem que, nesta altura, não havia quaisquer estudos no campo
da genética, portanto nunca deverão mencionar genes ou mutações quando se referem à Teoria de
Darwin. Avançando...”
***
Dez minutos (que, na verdade, pareceram mais duas horas) depois, Ryo e Karin estavam, finalmente,
a caminho de casa.
“Demorou taaaaaanto mais do que era suposto!” exclamou Karin, cansada. “Ou pelo menos pareceu
meeeesmo muito mais tempo!”
“Pareceu mesmo. Ainda bem que já acabou!” concordou Ryo, suspirando de alívio. “Karin, tenho
estado a pensar-”
“Sim? Tu fazes disso?” interrompeu-o, com um sorriso sarcástico que precedeu uma gargalhada
provocante.
“Que menina engraçada que tu és!” gracejou Ryo, acariciando o braço da rapariga.
O riso de Karin desenhou um sorriso largo no rosto do jovem mesmo antes de esta acrescentar “Estou
a brincar, estou a brincar. O que ias dizer?”
“Bem, eu ia sugerir que nós fossemos tomar café logo à noite. O que achas?”
“Eu adorava! Onde queres ir? Eu ainda não conheço nenhum café aqui...”
“Eu conheço um sítio, não é longe da tua casa e...”
Ryo continuou a caminhar e, quando ia começar a atravessar a estrada, Karin ficou para trás para
apanhar o telemóvel que acabara de deixar cair, “Ups! Au... o meu telemóvel...”
“O sítio é super porreiro! Tem música agradável e-”
“Ryo!”
Ryo voltou-se para trás num ápice assim que ouviu Karin gritar o seu nome do passeio. Ela estava
apoiada num joelho, a esbracejar.
Mas que raio é que estás a fazer aí atrás? Eram as palavras que passeavam pela mente dele quando
Karin subitamente gritou, “CUIDADO!!” Naquele instante ela olhou-o aterrorizada.
Ryo ouviu uma buzina ensurdecedora a aproximar-se à sua esquerda. Instintivamente, olhou na
direcção do som: um autocarro vinha direito a ele. Os pneus chiaram e derraparam quando o condutor
pisou o travão, com horror estampado na sua cara.
Com o veículo a aproximar-se mais e mais ao milissegundo, o cérebro de Ryo tentou reagir; sentiu
o seu ritmo cardíaco disparar, porém as suas pernas recusaram-se a mexer. Tudo aconteceu em câmara
lenta, o autocarro a derrapar vagarosamente, o esbracejar de pânico das pessoas que assistiam a tudo
nos passeios e o bater do seu coração. Ryo reparou que dois ou três insectos haviam ficado desfeitos
contra o pára-brisas e que o seu sangue verde era quase invisível a olho nu. Ele conseguia não só ver,
mas também sentir o cheiro da ferrugem da dianteira do autocarro. Por momentos, conseguiu vivenciar
o medo e pânico do condutor como se esses sentimentos fossem seus.
Não conseguiria mover-se a tempo; ia ser atropelado. Se ao menos pudesse-

Escuridão em todo o redor... Uma luz a espreitar por baixo da porta... Uma sombra a mover-se...
Com um estrondo a porta abre-se, deixando a luz intensa entrar no quarto... A sombra revela uma
figura... vagarosamente começa a aproximar-se... Um clarão... Luz a reflectir-se da extremidade de
uma longa lâmina... Sangue a pingar... A figura está agora próxima, exibindo as suas feições
demoníacas... Os seus olhos... escuridão pura no centro, um brilho vermelho cor-de-sangue à volta
deles... As presas salientes na sua boca, cobertas de sangue...

“... seleccionados através do processo chamado Selecção Natural; aqueles que se mostrarem mais aptos revelar-se-ão mais capazes de sobreviver e, assim, de
reproduzir-se mais, deixando um maior número de descendentes para perpetuar o seu legado de atributos. Atentem que-

“FODA-SE!”
A professora fixou-o, aturdida. A sua cara ficou completamente vermelha.
“Sr. Anderson! Mas o que vem a ser isto?!”
“O quê? Err...” Ryo olhou à sua volta completa e absolutamente perdido.
A sala de aula estava focada nele; um silêncio ensurdecedor dominou o ambiente criado por mais de
vinte presenças que o olhavam incrédulas. A Sra. Smith, com os seus olhos arregalados em puro choque,
permaneceu hirta enquanto aguardava furiosamente algum tipo de resposta. Karin, sentada ao lado de
Ryo, tinha perplexidade tatuada por todo o rosto. Nervosamente, alternava o seu olhar entre o rapaz e a
professora, claramente à espera de uma acção disciplinar.
“Está louco?! Não permito esse tipo de linguagem na minha sala de aula, está a perceber-me?”
clarificou a professora bruscamente.
Mas que raio?!
“Agh! Desculpe Sra. Err... Sra. Smith! Eu... peço imensa desculpa!” Ryo tentou organizar as ideias.
“Estava a dormir, Sr. Anderson?” questionou a Sra. Smith, incrédula.
Ryo estava completamente desorientado. Defendeu-se com a primeira desculpa que lhe ocorreu: “Eu
não tenho andado a dormir bem!”
Alguns segundos foram necessários para que a professora conseguisse recuperar a sua compostura,
“Bem, veja se isto não se volta a repetir, jovem,” ameaçou friamente. “Da próxima vez vai directo para
o gabinete do director.”
“Sim, Sra. Smith,” Ryo baixou a cabeça, “peço imensa desculpa por ter perturbado a sua aula”.
“Vá lavar a cara, menino Anderson, não está com bom aspecto. Regresse à aula quando conseguir
garantir que não adormece.”
“Certo, Sra. Smith.”
A professora virou-lhe as costas e caminhou em direcção ao quadro, murmurando para si o quão
desrespeitosos eram os adolescentes actualmente.
“Portanto, avançando. Tal como eu ia a dizer... Onde ia eu?” aproximou-se da sua secretária para
espreitar um caderno já velho e esfarrapado, disposto ao lado do manual do professor. “Certo. Atentem
que, naquela altura, os estudos genéticos não estavam, de forma alguma, desenvolvidos, portanto,
palavras como “gene” e “mutação” nunca deverão ser...”
Enquanto Ryo se levantava da sua cadeira, conseguia sentir o olhar fixo dos colegas a acompanhar
cada movimento seu até à porta. Dirigiu-se para a casa de banho, apenas a uns passos de distância, e,
uma vez no seu interior, abriu imediatamente a torneira para molhar a cara.
Mas que merda foi esta que acabou de acontecer?! Estou a enlouquecer? Estive a dormir este tempo
todo? Quer dizer, por amor de deus, que raio...
Ryo levou dois a três minutos a passar água fresca no seu rosto, a tentar fazer sentido do que se
estava a passar. Eventualmente, sentiu que devia regressar, temendo provocar a ira da professora se
demorasse mais do que o suposto. De volta à sala de aula, sentiu os olhos ansiosos de Karin seguirem-
no até à mesa. Não disse mais uma única palavra durante o resto da aula.
Depois de ter tocado a campainha, já fora da sala, Karin interpelou Ryo bruscamente.
“Ryo! Mas o que é que te deu?” perguntou, perplexa. “Adormeceste durante a aula? Quer dizer, eu
sei que foi mesmo aborrecida, mas podias ter arranjado problemas a sério com a Sra. Smith. Ouvi dizer
que ela é intransigente em situações destas!”
“Eu sei, eu sei...”
“Nem sequer me tinha apercebido que tinhas adormecido...” Karin tinha um ar enigmático.
“Olha, Karin, diz-me uma coisa.” Ryo tocou o braço da rapariga. “Não estás a ter uma sensação
esquisita? Assim como um Déjà vu?”
Pareceu totalmente confusa. “Um Déjà vu?!”
“Sim, como se isto já tivesse acontecido antes!”
“Mas de que raio estás tu a falar? Acabaste de gritar foda-se no meio da aula!” A sua expressão
denunciava que não fazia mesmo a menor ideia do que Ryo estava a falar. “Eu acho que me recordaria
se tu já tivesses feito alguma coisa do género!”
Ryo virou o olhar. “Eu...” Angústia e desconforto preencheram a sua mente, “Tens razão.”
“Ei, ei, tu estás pálido,” Karin aproximou-se e segurou a mão do rapaz, “estás bem?”
A cabeça de Ryo parecia que ia rebentar a qualquer momento. Não conseguia parar de pensar no
autocarro que estava prestes a atropelá-lo. Os seus olhos reganharam o foco com o som da voz de Karin,
ele sentiu que precisava de fugir, de ir para algum lugar, qualquer lugar onde pudesse pensar sobre tudo
aquilo.
“Estou bem,” disse, com um sorriso forçado, “tenho de ir, vemo-nos depois, Karin.”
“O quê? Mas onde é que vais?”
“Eu... tenho uma cena para fazer.” Já caminhava a um passo corrido quando acrescentou, “Desculpa,
vemo-nos em breve.”
Karin permaneceu plantada a observá-lo a afastar-se. “Até amanhã...”
No percurso por entre ruas e ruelas, a deambular, Ryo estava completamente aturdido com a sua
incapacidade de fazer sentido do que se estava a passar. Quanto mais pensava sobre o assunto, mais
tinha a certeza que havia estado prestes a ser atropelado por um autocarro, pouco mais de meia hora
atrás. Como pode aquilo ter sido um sonho? E como raio é que ele haveria de ter passado de sonhar
sobre o fim do dia de aulas para ser atropelado por um autocarro e depois para ter aquele mesmo
pesadelo de novo? Ele precisava de falar com alguém, alguém que ouvisse realmente o que ele tinha
para contar e que não fosse simplesmente assumir que ele estava a ensandecer. Ligou ao Mike e
convidou-o para tomar um café.
***
“Meu, a sério... Tu achas mesmo que foste atropelado por um autocarro?” Michael fixou o olhar no
seu melhor amigo, com um ar honestamente desorientado. “Tu sabes que eu estou a falar contigo agora,
não sabes? E sabes, não estás feito em bocados nem nada disso.” Estava prestes a esboçar um sorriso
gozão, mas o olhar profundamente sério de Ryo impediu-o. “Mas tu ‘tás estranho, ‘tás. Tens comido?
‘Tás pálido como um fantasma!”
“Vá lá, Mike! Eu não estou a gozar! Acho que estou a enlouquecer!” Ryo quase gritava, “Como
posso ter estado a sonhar este tempo todo?! Era tão real- Eu conseguia cheirar o maldito autocarro!”
Michael olhou em seu redor com um ar desconfortável. As poucas pessoas sentadas nas restantes
mesas olhavam-nos de soslaio ou mesmo directamente, surpreendidos pelo tom de voz alto e apressado
de Ryo.
“Repara no que estás a dizer, Ryo.” O rapaz baixou a sua voz e aproximou-se. “Tu conseguias
cheirar o autocarro? Mas que raio, meu? ‘Tás pedrado?!”
“Ei, a sério, eu não entendo mesmo o que se está a passar!” Ryo gesticulou com a mãos, algo que
raramente fazia, profundamente desorientado, “Eu tenho tido estes pesadelos esquisitos sobre um
demónio com... eu acho que é uma espada!”
Michael escutou, de olhos arregalados.
“O Dr. Anders disse-me que provavelmente tem alguma coisa a ver com as memórias reprimidas da
morte dos meus pais biológicos. Eu não consigo parar de sonhar com aquilo! Está a dar comigo em
doido! E agora isto...” Ryo levou as mãos à cabeça. “Estou a enlouquecer,” disse, quase num sussurro.
“Sabes, eu tive esse mesmo pesadelo imediatamente antes de acordar na aula. Como posso eu passar de
sonhar sobre ser atropelado por um autocarro para ter aquele pesadelo de novo, e depois acordar, tudo
numa questão de quê, minutos?”
Michael viu, em choque, a expressão de desespero e agonia do seu melhor amigo; nunca o havia
visto naquele estado. Incerto quanto ao que devia dizer, a primeira coisa que o seu instinto ditou que
devia fazer era tentar acalmar e, de alguma forma, reconfortar Ryo.
“Olha, meu, isso já me aconteceu antes. Quer dizer, não a parte do demónio e isso de ser atropelado,
mas... bem, todos já tivemos sonhos estranhos que pareceram mesmo vívidos! Muitas vezes não fazem
sentido nenhum, e nem sequer têm de fazer! Talvez sejam só sonhos estúpidos!” Tentou relaxar e
recostar-se na cadeira, consciente de que estava a fazer um péssimo trabalho a acalmar quem quer que
fosse. “A tua percepção do tempo enquanto estás a dormir é completamente diferente, sabes? E... Oh,
que raio, vá lá, meu! Tu sabes que isso é impossível, ya? O que é que pensas? Que Deus desceu à Terra
para te salvar?!” Michael riu-se desmaiadamente quando proferiu estas palavras, tentando abertamente
melhorar o humor de Ryo, sem sucesso.
“Eu sei lá o que é que penso! Eu só... Foi tão real...”
“Meu, deixa isso.” Michael quase sentiu a necessidade de implorar ao seu amigo para que este se
recompusesse. “E por favor, olha-te ao espelho. ‘Tás mesmo, mesmo pálido! É como se até o teu cabelo
‘tivesse tipo... descolorado ou assim. Mas o que é que tens andado a fazer?”
“Sim, sim, OK. Olha, eu tenho de ir, está a ficar tarde e eu não avisei a minha mãe que não chegava
a tempo de jantar”. Ryo estava já a erguer-se enquanto falava, mas parou momentaneamente, quando
se apercebeu que havia esquecido qualquer coisa, “Olha... Obrigado por vires, meu. Mesmo.”
“Agh, espera-” Michael levantou-se num ápice, mas Ryo já estava a atravessar a porta. “Ei, toma
conta de ti!” quase gritou, “E não desapareças, vai dizendo qualquer coisa de vez em quando!”
Olhando desconfortavelmente em seu redor, fitou todos os presentes com um ar de Mas o que é que
foi, nunca viste?! e sentou-se de novo na cadeira para terminar o seu café.

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