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Momentum

Um negócio que desperta apetite

* Marcos Gouvêa de Souza, diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza

Na semana passada a rede Burger King teve seu controle adquirido por um grupo de
investidores de origem brasileira, num negócio estimado em US$ 4 bilhões. Apesar dos
resultados recentes não serem exatamente eufóricos, falou mais alto a perspectiva de
expansão da rede na América Latina, especialmente no Brasil, onde a rede conta com
apenas um pouco mais do que 90 lojas, além da Ásia e também a possibilidade futura
de recuperação dos mercados norte-americano e europeu. Depois da experiência
desses investidores com Wendy’s e Carl’s, operações em que detinham alguma
participação, preferiram vender essas posições e concentrar sua atenção no Burger
King. Por terem também participação significativa no grupo cervejeiro AB InBev, a
lógica sinergia poderá resultar numa vitrine importante para negócios em todas as
frentes.
Em meados de agosto a Starbucks adquiriu o controle integral de suas operações no
Brasil, onde já detinha 49%. Trazida para o país em 2006, pelo casal Maria Luiza e
Peter Rodenbeck, a operação vinha crescendo de forma gradual, apesar de ter perdido
sua principal executiva, Maria Luiza, que faleceu em um acidente em 2007; e contava
com 23 lojas no momento. A visão da Starbucks pressupõe que o controle total e novos
investimentos deverão permitir um crescimento mais rápido.
Em abril de 2007 a Advent International comprou a operação do grupo RA, operador de
restaurantes em aeroportos e com serviços na área de catering. No mesmo ano,
adquiriu todas as operações do grupo Viena, com suas diferentes bandeiras e marcas,
com exceção da rede Ráscal. Dessa forma, o grupo deu mais um passo ao avançar na
criação de uma rede latino americana de operações de restaurantes, com diversos
formatos, conceitos e marcas, já que havia adquirido, no final de 2006, o grupo La
Mansión, líder do segmento casual dining no México.
Definitivamente, não são fatos isolados entre si. Eles sinalizam um crescente interesse
por negócios que envolvem o setor de alimentação fora do lar no Brasil, que ampliou
sua participação no conjunto dos dispêndios com alimentação de 24% em 2004 para
31,1% em 2008, segundo os dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do
IBGE. Nas grandes cidades do Sudeste, porém, alcança índices próximos a 40%. E os
números deverão continuar crescendo por conta da melhoria da renda familiar, do
aumento da massa salarial e das mudanças de hábitos, devido à alteração do
comportamento das classes sociais emergentes.
O crescimento da participação da alimentação fora do lar em todo o mundo tem
determinantes estruturais que envolvem o aumento da presença da mulher no mercado
de trabalho, o amadurecimento dos consumidores e a irreversível demanda por
conveniência, devido a um ritmo cada vez mais intenso de atividades profissionais,
educacionais e do tempo destinado a cuidar-se melhor.
Mas pode sofrer eventuais retrações em momentos de crise econômica, quando a
percepção de que a alimentação no lar é mais barata do que fora faz com que haja
uma volta ao passado, como aconteceu nos Estados Unidos, onde o índice havia
chegado a 51% e recuou para 48% com o atual quadro de retração econômica.
Mas a percepção da componente estrutural de comportamento de consumidores, que
optam pela alimentação fora do lar em níveis crescentes, precipitou uma série de
mudanças de mercado, como as que foram mencionadas no caso brasileiro, com
novos players entrando nesse jogo; aumento da participação internacional no
segmento; e os próprios supermercados, os principais abastecedores de alimentos
para consumo no lar, buscando novas opções.
No México, a rede Comerci passou a incorporar diversas operações de restaurantes
dentro de seus hipermercados, incluindo fast food, sushi bar e self service. Da mesma
forma como a Monoprix faz na França também com operações dentro de suas lojas,
incluindo sushi bar, restaurante e wine point. Idem com a Harrods na Inglaterra, com
diferentes restaurantes e operações em suas lojas. Ou, de forma até mais agressiva, a
Sainsbury, que em seus projetos mais ousados converteu praticamente toda a
operação do andar térreo em diversas áreas dedicadas para alimentos no próprio local,
também com opção de levar para casa.
Outras redes de lojas de departamentos, na busca de reinvenção do modelo, também
optaram por ampliar as áreas destinadas para consumo no local. É o caso da KaDeWe
em Berlim, que redesenhou seu formato colocando alimentos gourmet no andar térreo
e criou todo um andar destinado a alimentos para consumo local. Ou como a Galeries
Lafayette na França, que revisou seus formatos e mesclou alimentos para consumo
local, ambientando de forma diferenciada e envolvente para capturar o consumo local e
no domicílio. Da mesma forma como feito também por El Corte Inglés em algumas
operações na Espanha. Nesse caso, mais agressivamente, avançou para criar redes
de supermercados e lojas de conveniência.
Nos Estados Unidos diversas redes de supermercados, como a Whole Foods,
incorporaram em suas lojas operações de formatos diferentes de restaurantes,
buscando capturar essa mudança de comportamento. Em uma de suas lojas em
Chicago, chega a oferecer cinco diferentes alternativas de ambientes e propostas em
sua loja para consumo local de alimentos e bebidas. Na loja de Columbus Circle em
Nova York, sua área para consumo local vive cheia e é difícil conseguir lugar.
Outras redes também criaram múltiplos conceitos para atender essa demanda, criando
espaços diferenciados com diferentes ofertas de alimentos e tipos de cozinha e que
podem ser consumidos no local ou levados para consumo no domicílio.
No Brasil, ainda de forma relativamente tímida, redes de supermercados, como Pão de
Açúcar, Angeloni em Santa Catarina e Zona Sul no Rio de Janeiro, estão
desenvolvendo alguns conceitos, além de disponibilizar nas áreas complementares dos
hipermercados espaços para operações tradicionais de fast food e outros alimentos.
Talvez a mais importante diferença seja na estratégia, pois em muitas das operações
internacionais a própria rede opera conceitos para consumo local; no Brasil, com
algumas poucas exceções, essa atividade é apenas complementar.
A constatação é de que se desenha uma transformação mais abrangente de mercado,
com novos grupos consolidando operações; mais investimentos; maior diversificação
da oferta; novos serviços e mais opções para capturar e atender essa mudança do
local de compra e consumo de alimentos, gerando novos desafios para as redes de
supermercados e fornecedores tradicionais de alimentos e seus insumos.
Um movimento que não pode ser submestimado.